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MaLu Santos
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DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


F883b
França, Yasmim de Menezes
O beco pra liberdade se fazer / Yasmim de Menezes França. - 1.
ed. - Rio de Janeiro : Metanoia, 2021.
176p. ; 23 cm.

Apêndice
Inclui Bibliografia
ISBN: 978-65-86137-18-7

1. Jovens e violência - Brasil. 2. Delinquentes juvenis. 3. Jovens -


Política governamental. 4. Jovens - Condições sociais. I. Título.

21-69630 CDD: 364.360981


CDU: 343.91-053.6(81)
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439

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Impresso no Brasil
Uma obra é trabalho de muita gente. Dedico à
persistência e ao amor em forma de mamãe: Leuca.
À presença de meu pai, Osvaldo. Aos dois, por
convidarem-me a perceber a dimensão espiritual da
vida consigo. Dedico à constelação de amigues e ao
meu benzinho, são meu lar onde eu esteja. Aos/às
jovens e suas famílias, trouxeram significado onde
insiste o vazio, compõem as vozes na minha cabeça
que dizem pra continuar. Aos/às trabalhadores(as)
do sistema socioeducativo: vocês não enxugam gelo,
vocês colaboram para construir novos mundos. Às
bolsas de pesquisa concedidas pela CAPES e pela
FAPERJ, à universidade pública, universal e gratuita!
]

Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou
em gritos de liberdade, mas liberdade – aposto – ainda é só alegria
dentro de um pobre caminhozinho no ferro de grandes prisões. Tem
uma verdade que carece de aprender, do encoberto, e que ninguém
não ensina: o beco para liberdade se fazer.
(Rosa, 1995, p. 123)
COMO ASSIM, PROTAGONISMO?

Quando [o adolescente] perguntou à [pesquisadora] sobre o livro,


[o adolescente] retrucou que quem podia falar deles são só eles
mesmos, se alguém tinha que escrever um livro sobre eles, eram
eles. (p. 17)

O adolescente, provavelmente sem o saber, ecoava um poema inglês


traduzido e citado por Djamila Ribeiro:

Por que eu escrevo?

Por que tenho que

Porque minha voz

em todas suas dialéticas

foi silenciada por muito tempo

Jacob Sam-La Rose, 2012, cf. Ribeiro, 2017, p. 311

Há homens e mulheres, negros sobretudo, muitos deles jovens, que


têm sua palavra cassada; se isso não significa que eles sejam condenados ao
mutismo literal, significa sim que suas palavras não ecoam, não encontram
lugar em um mundo em permanente disputa. Se essa é uma verdade
reconhecida apenas por aqueles que buscam a diferença e querem fazer
valer seu direito a existir, que dizer daqueles que – além de adolescentes
e negros – cometeram delitos e cumprem medida socioeducativa? O
cerceamento à liberdade, imposto pelos dispositivos legais, termina
comumente compreendido como o cerceamento do direito à voz, à palavra.
Paradoxalmente, o sistema socioeducativo tem buscado o protagonismo
desses mesmos adolescentes. Mas como essa pretensão pode se traduzir nas
cenas cotidianas desses adolescentes no sistema socioeducativo, na escola,
na vida? Afinal, o que é esse protagonismo que se alardeia sem revelar seus
sentidos?

1. Ribeiro, Djamila. O que é: lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.


É a essa questão que Yasmim se lançou em seu trabalho de mestrado,
agora transformado em livro. Não se trata de um percurso fácil. De um lado
porque, para compreender esse adolescente que quer “escrever seu próprio
livro”, como a epígrafe refere, não basta conversar com ele, por mais que
esse diálogo seja direto e honesto, nas melhores acepções do termo. Será
preciso percorrer os caminhos que constituíram o adolescer em nossa
sociedade, e os percursos que edificaram a noção de socioeducação, com
seu correlato espaço socioeducativo, tão pouco compreendidos. Yasmim
o faz trabalhando conceitos como democracia, representação, política,
cidadania, distribuição de renda, desemprego, crise das instituições
sociais... e o lugar de crianças e jovens nesse contexto, na América Latina
e no Brasil, sobretudo em anos recentes.
Mas há uma segunda dificuldade, provavelmente de transposição mais
difícil: a escuta, e a escrita que dela decorre. O paradoxo aqui se traduz na
dificuldade em escrever o livro pelo adolescente, e ao mesmo tempo fazê-
lo falar em cada linha, em cada parágrafo, em cada conceito emitido ou
construído. Será preciso, como quer Veena Das, reconhecer que o “tempo
não é algo meramente representado, mas um agente que ‘trabalha’ nas
relações, permitindo que sejam reinterpretadas, reescritas, modificadas, no
embate entre vários autores pela autoria das histórias nas quais coletividades
são criadas ou recriadas” (p. 37)2. Os limites acadêmicos, cobrando seus
prazos, não são bons aliados nessa empreitada. Mas Yasmim percorreu um
longo caminho junto a esses adolescentes, desde a graduação, dialogando
com crianças e adolescentes nas ruas e nas instituições de acolhimento,
socioeducativas ou não. Nesse percurso, ela ouviu seus anseios, partilhou
seus dramas, riu à larga com suas histórias divertidas, permitiu que uma
lágrima pontilhasse seu olhar quando o sofrimento excedia o possível. Pôde,
assim, decantar as falas e os atos, alcançar aquilo que só o transcurso do
tempo permite alcançar. Foi uma trajetória em que Yasmim compreendeu
que era preciso uma nova forma de escrita, a dar conta de histórias (e
modos de “protagonismo”) que não cabiam nos cânones acadêmicos mais
estritos. Para falar com Scisleski e Hüning, a epistemologia produz uma
luminosidade seletiva, que contribui para a produção de subjetividades
invisíveis. E se perguntam: “seria possível, então, pensarmos em escrever
no escuro? E mais do que isso, escrever com o escuro? Seria possível,
ainda, ver nas zonas não iluminadas? O que e quem habita esse território
das sombras?” (2016, p. 11)3

2. Veena Das. Fronteiras, violência e o trabalho do tempo: alguns temas wittgensteinianos.


RBCS RBCS Vol. 14 no 40 junho/99.
3. Scisleski, Andrea Cristina Coelho e Hüning, Simone Maria. Imagens do escuro:
reflexões sobre subjetividades invisíveis. Rev. Polis e Psique, 2016; 6(1): 8-27
Creio que Yasmim nos mostra que sim, é possível escrever no escuro.
Aqui, mais do que subverter a Psicologia, a autora a renova. Porque onde
a Psicologia clássica nos ensina que a adolescência está em processo,
o adolescente nos mostra que já é. Onde o cânone indaga se o jovem é
capaz da política, o adolescente encarnado mostra que vem reinventando
as estratégias de participação política. Se até muito recentemente não
atribuíamos a essas estratégias a denominação de políticas, o discurso e a
ação dos jovens mostrou o oposto. Na esteira dos movimentos estudantis,
das reivindicações ambientais e da ocupação dos espaços públicos, os
jovens reinventaram a política e reinventaram o protagonismo.
Por isso é que o termo protagonismo merece ser indagado. Aqui a
autora passa a uma crítica direta à teoria e, repetindo o argumento de
Goulart e Santos (op. cit., p. 136), propõe que é preciso pensar “lá onde os
protagonistas não têm palcos para atuar, lá onde o espetáculo espera o seu
começo – na tensão entre crise e possibilidade”.
Não se trata de tarefa fácil. A começar, porque ela não oferece enredo.
Trata-se de desbravar um território que soma a tutela dos jovens – tão
convidativa, tão confortável! – às dificuldades de um mundo que se diz
“fora da lei”, regido pelas regras restritivas da socioeducação, onde as
equipes – mesmo as mais bem-intencionadas – convivem com a falta de
recursos e de parcerias, com a burocratização do trabalho, com a falta de
diálogo interno e com os entraves à capacitação profissional, obstáculos a
superar se se quer sair da zona de conforto e superar a “herança das grades”
– tópicos deste livro e expressões tomadas de empréstimo à autora.
Para recorrer ainda uma vez a Yasmim, “não é nada fácil mesmo, não é
necessariamente belo e harmônico, é conflituoso, é barulhento”. Mas quero
lembrar, reconhecendo a dificuldade e enfatizando o método, que hoje se
reconhece, seja nas ciências humanas seja nas ciências da natureza, que o
pesquisador interfere no campo que pesquisa. Longe de ser um obstáculo,
essa interferência deve se converter em recurso do método, visto que
“o ruído do ato de conhecer” (Maraschin, 2008, p. 459)4 é revelador da
implicação do pesquisador e da pertinência e perspicácia de sua observação.
Ouvir os ruídos, provocar sua manifestação, conviver com o barulho... foi
essa a pesquisa em que Yasmim mergulhou, incendiando as cenas, abrindo
espaço aos adolescentes e a suas queixas e querelas, às suas rebeldias... e
acessando, assim, as formas de protagonismo que ficavam “no escuro”.

4. Maraschin, Cleci. Pesquisa-intervenção em debate. In: Castro e Besset, Pesquisa e


intervenção na infância e juventude. Rio de Janeiro: Nau, 2008, PP.459-464.
Depois de acompanhar a trajetória de Yasmim na graduação e no
mestrado, e assistir ao nascimento deste livro, só me resta cantar com
Vanessa da Mata:

Fique mais, que eu gostei de ter você

Não vou mais querer ninguém

Agora que sei quem me faz bem

(Não Me Deixe Só)

Hebe Signorini Gonçalves


Professora de Psicologia Social e Jurídica
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
HÁ POTÊNCIA NO MENOR

D urante aproximadamente quatro meses, semanalmente, estivemos


em uma unidade de semiliberdade do Departamento Geral de Ações
Socioeducativas, o DEGASE, no município do Rio de Janeiro, para
desenvolver a pesquisa de mestrado da Yasmim. Esta levava o nome de
“A potência do menor: micropolíticas de protagonismo juvenil no sistema
socioeducativo”, cujo objetivo era investigar o exercer da liberdade dos
adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de semiliberdade,
uma vez que o próprio prefixo “semi” traz a ideia de algo pela metade, algo
que é quase. Quase livre, ou livre pela metade.
Cheguei tímida no papel de copesquisadora, nesse lugar de estagiária,
e com toda delicadeza Yasmim foi me mostrando o campo e seu próprio
fazer. Em um primeiro momento, estudamos um pouco de teoria e
de metodologia, depois ela compartilhou comigo um pouco de suas
experiências anteriores; fomos chegando, nos apresentando, e quando
dei por mim, estava trilhando meu caminho, experimentando, sentindo,
afetando e sendo afetada. Lembro-me do assombro, das preocupações e
da ansiedade em partir da teoria para a prática, e agora me vejo revivendo
todas essas emoções ao assumir a responsabilidade de contar um pouco do
que vivemos e que virou esse texto.
Sempre aprendíamos alguma coisa nova nos nossos encontros com
os adolescentes, suas famílias e os funcionários da unidade e, de fato,
nos deparamos com a mutação dos termos originalmente propostos e
a aglutinação de várias outras noções ao inicial “protagonismo juvenil’.
A participação social, a autonomia, a democracia, o voto, a liberdade, a
potência, a resistência e a rebeldia se relacionam com essa ideia inicial,
já dando uma boa arruada no assunto. Contudo, isso ainda se mistura um
pouco mais, pois tem o território, a cor da pele, a classe social, o gênero, os
direitos, as políticas, a prisão, a submissão. No fim, fico com a sensação de
muitas linhas, e com muitas outras ainda a serem puxadas.
O que quero dizer é: esse livro fala de multiplicidade, porque múltipla
a vida é. No encontro e na coexistência desses vários atravessamentos são
produzidos os mais diversos elementos, temos as linhas mais duras, as
linhas mais maleáveis e as linhas de fuga. Essas últimas dizem respeito
ao espontâneo, aquilo que foge do previsto, pequenos caminhozinhos por
onde a liberdade pode ser exercida, ou ser inventada. Esse texto fala de
coisas pequenas, fala do que é micro... “A potência do menor”, o título da
pesquisa já apontava a pista, fazendo um trocadilho da palavra “menor”
com a visão pejorativa presente na história da infância e da adolescência
pobre e negra no Brasil. Ao associar esta palavra com “potência”, o que
se desenha é outra perspectiva sobre adolescência, a força, o vigor, a
criatividade e a efervescência.
Pesquisar no DEGASE trouxe à superfície as delícias e as dificuldades de
se caminhar na diferença, as perguntas e os estranhamentos, as discordâncias
e os acordos, a espontaneidade e as expectativas, as resenhas e os quartéis,
o micro e o macro, nós e eles. Com efeito, foi uma experimentação do “falar
com”, ou seja, efetivamente se comunicar, principalmente entendendo que
aos sujeitos em questão não é preciso dar voz, é preciso reconhecer que eles
já a possuem, é preciso ouvir.
Por fim, Yasmim costura essas e outras reflexões em um texto com
robustez teórica, e que consegue ao mesmo tempo ser desembaraçado,
criando um caminho pela teoria até a prática, com entretons tão sutis que
mal se percebem. Dito isto, espero que a experiência de leitura possa gerar
um pouco das emoções e microexplosões do encontro das diferenças em
quem lê, tal como fez comigo. Conosco, arrisco dizer. E que possamos nos
permitir explorar, e criar, os becos nos quais a liberdade possa se fazer.

Raiana Cassia Fulan Gomes


Psicóloga
SUMÁRIO
1 MISTURA SIM, MAS TEM SEU MÉTODO, 15
PALAVRAS INICIAIS, 15
MULTIGRAFIA – A ARTE DE JUNTAR ESCRITAS, 20
1 ESCREVIVER, 22
2 NO PASSINHO DO MENOR, 26
3 INSTRUMENTOS DE CONVOCAÇÃO DO COLETIVO, 31

2 PENSAR A TEORIA LÁ ONDE OS PROTAGONISTAS


NÃO TÊM PALCO PRA ATUAR, 35

O PROTAGONISMO JUVENIL NAS PESQUISAS, 36


CIDADANIA E POLÍTICAS, 38
A POLÊMICA REBELDIA, 46
MICRO-MACROPOLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL, 58
TERRITORIALIZAR, 63

3 DEMOCRACIA, POLÍTICAS PARA INFÂNCIA E SOCIOEDUCAÇÃO, 66


ESTA DEMOCRACIA É AUTORITÁRIA, ESTA LIBERDADE É OPRESSÃO, 66
OS GAROTOS “CORTADOS” DA SEMILIBERDADE, 74

4 FALA, CRIAAD PENHA, 83


AS REGRAS DA SOCIEDADE LÁ FORA, 84
A SOCIEDADE DELES É A NOSSA, 91
MUDANÇAS ACONTECEM, 98
LIBERDADE NO QUARTEL, 104
ATUAÇÃO TÉCNICA, 107
1 FALTA DE RECURSOS E PARCERIAS, 107
2 BUROCRATIZAÇÃO DO TRABALHO TÉCNICO, 110
3 FALTA DE DIÁLOGO ENTRE TÉCNICOS E AGENTES, 111
4 FALTA DE CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL, 113
5 NECESSIDADE DE SAIR DA ZONA DE CONFORTO, 114
O DISPOSITIVO MACONHA, 115
ARTE, RELIGIÃO E DESIGUALDADE RACIAL, 120
PATRICINHAS E FAVELADOS, 126
1 NOSSOS ATRITOS, 129
COLETIVIZAÇÃO, 133
1 NÃO SUBESTIMAR A AMIZADE, 141

5 FECHAMENTO, 146

REFERÊNCIAS, 150

APÊNDICES, 162

ANEXOS, 173

PALAVRAS DA REVISORA, 175


1 MISTURA SIM, MAS TEM SEU MÉTODO

PALAVRAS INICIAIS

No nosso grupo Sandro dizia que não conseguia fazer uma cena
sem opressão: “Como eu vou fazer uma cena de algo que eu nunca
vivi?” Eu pedia pra ele imaginar... E o mesmo repetia que não
conseguia imaginar. Sandro então lembrou de uma cena vivida em
sua própria casa. Contou quando a polícia estava invadindo várias
casas na favela e ficou surpreso quando, em sua casa, o policial
entrou com educação. Eles disseram que o BOPE sempre entra
sem perguntar. Estava ele, seu irmão e sua mãe quando o policial
bateu na porta. Sua mãe abriu. O policial viu a moto no quintal e
perguntou sobre a mesma. A mãe explicou que era de seu filho,
que a moto havia sido roubada e recuperada depois . . . O policial
se compadeceu da situação dizendo “Poxa, esse mundo não
está fácil, não é? Roubam as coisas que com tanto custo a gente
conquistou”. Entrou, pediu com educação os documentos, que
foram exibidos pelo irmão, e se despediu da mãe dos meninos: “A
senhora fique com Deus”. Eu era a mãe, Sandro o policial (sugeri
que ele trocasse de posição dessa vez) e Lucas o irmão. Na cena
ainda há a manutenção da separação em dois lados opostos, de
um lado o trabalhador e do outro o bandido que rouba motos, e o
policial se compadeceu dos moradores da casa pois estes no caso
eram vítimas. No entanto, o policial entrou perguntando, pediu
para ver documentos, fez todo o processo com educação, e isto
foi o mais próximo que Sandro chegou, segundo suas lembranças
naquele momento, de uma realidade livre de opressão. (Diário de
campo da Yasmim, 2018).

E por falar de pequenas alegrias nos becos da vida, voltei ao momento


em que fizemos exercícios de Teatro do Oprimido, um aperitivo para
começar a pescar memórias, caminhozinhos de liberdade feitos à mão,
tijolo a tijolo. Mas a história deste livro começa antes...
2016 - ano de irrupção das ocupações estudantis no Rio de Janeiro contra
o sucateamento da educação pública. Aquelas vozes e imagens ressoavam
fortemente em mim, iam ao encontro do que eu intuía: a necessidade de
maior participação de jovens nas decisões que impactam os rumos de suas
vidas. Eu trabalhava como Psicóloga junto às Promotorias de Justiça da
Infância e da Juventude do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro,
realizava visitas técnicas a unidades de acolhimento institucional1 e do
Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE)2, e o demasiado
silêncio nestas instituições sobre o assunto me fazia questionar: como estas
crianças e adolescentes participam das escolhas que lhes dizem respeito?
Uma das cenas disparadoras para a escolha do tema inicial
“protagonismo juvenil” para uma possível pesquisa de mestrado se deu em
11 de julho de 2016. No evento “O ECA que temos, o país que queremos”,
coordenado pela professora Hebe Signorini Gonçalves do Instituto de
Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IP/UFRJ), o ponto
alto foi o debate propiciado por estudantes dos movimentos de ocupação
de escolas em greve. Um dos secundaristas afirmou que seu pretenso
protagonismo foi na verdade ilusório quando, a convite de representantes
de organizações governamentais, concedeu palestras em eventos públicos,
pois o lugar e direcionamento do seu discurso já estavam pré-definidos por
outros que não ele mesmo. Apesar do microfone na mão, o protagonismo
não foi (com)sentido. Complementado por outra estudante, esta afirmou
que o protagonismo de fato se deu na ocupação de sua escola, em situações
menores, como no modo de se sentar e se portar frente aos demais, esses
sim escolhidos e vividos de forma autônoma. É sobre este menor que
pretendi tratar e experimentar.
A macropolítica internacional e nacional, expressa por meio de
legislações, resoluções e planos, tem destacado a noção de que as crianças
e os(as) adolescentes são sujeitos de direitos, e devem receber estímulo à
formação da autonomia, à participação cidadã e ao protagonismo juvenil.
Após muitas leituras e discussões a respeito, no entanto, entendi que apesar

1. Os serviços de acolhimento atendem crianças e adolescentes que se encontram sob


medida protetiva na modalidade de abrigo segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente
e integram a Proteção Social Especial de Alta Complexidade do Sistema Único de
Assistência Social (SUAS).
2. O DEGASE é um órgão criado pelo Decreto 18.493 de 26/01/93 e está ligado à
Secretaria de Estado de Educação no Rio de Janeiro. É responsável por executar as medidas
socioeducativas de internação e semiliberdade conforme preconizado pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente, aplicadas pelo Poder Judiciário aos adolescentes que infringem
a lei.

16 | O BECO PRA LIBERDADE SE FAZER


de diversos usos possíveis em torno da ideia de protagonismo, esta foi
elaborada afirmando justo aquilo que colocamos em análise. É necessário
desconfiar. Escrever a expressão “protagonismo juvenil” foi ficando
mais dolorido conforme os meses se passavam e a imersão no assunto se
complexificava. O “protagonismo” foi meu ponto de partida, mas quem
sabe onde iria chegar?
Neste “livre” (brincadeira com a palavra “livro”, sem a binaridade
de gênero) você segue, a partir daí, caminhos e desvios que deram forma
à pesquisa de mestrado, vivida entre 2017 e 2019 no Programa de Pós-
Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob
a orientação da Hebe Gonçalves - referência na Psicologia Jurídica no
país e aquela me deu as mãos durante tantos anos de estudo. O texto está
generosamente salpicado de trechos de diários de campo, dando ainda mais
vida às palavras e trazendo você também para se enroscar nas experiências.
Em outubro de 2017, por exemplo, participei do VII Simpósio
Internacional sobre a Juventude Brasileira (JUBRA) na cidade de Fortaleza,
no Ceará, e percebi uma quantidade expressiva de trabalhos apresentados
por pessoas de todo o Brasil na temática do “protagonismo juvenil”
associada ao campo da educação, das drogas, de grupos específicos como
negros(as), indígenas e mulheres, etc.
Nem sempre com a expressão “protagonismo”, no entanto,
estavam as propostas, pois apareceram palavras como
“mobilização”, “potência”, “participação”, “resistência”, entre
outros. Exatamente com a expressão “protagonismo” havia ao
todo 16 trabalhos, um número que por si só já demonstra o quanto
o assunto está sendo pensado entre os pesquisadores. (...) No
contexto do sistema socioeducativo havia apenas 2 trabalhos: o
nosso e o de Marília Rovaron, na Fundação CASA, em São Paulo.
(Diário de campo, 2017).

Duas discussões neste evento me chamaram a atenção diante das


visões distintas a respeito da participação de jovens na Rede Cuca.
A Rede Cuca é uma rede de proteção social e oportunidades
formada por três Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e
Esporte (Cucas), mantidos pela Prefeitura de Fortaleza, por meio
da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude.
(...) fortalecem o protagonismo juvenil [grifo nosso] e realizam a
promoção e garantia de direitos humanos.3

3. https://juventude.fortaleza.ce.gov.br/rede-cuca, recuperado em 17 de fevereiro de 2019.

YASMIM DE MENEZES FRANÇA | 17


De um lado um participante do nosso Grupo de Trabalho criticou o
Conselho da Juventude de tal rede que estaria esvaziado, afirmando “em
off” que um dos responsáveis por este mecanismo não queria a participação
de jovens pois fariam politicagem, falando possivelmente de uma suposta
aparelhagem por movimentos e partidos de esquerda tal qual o discurso
vigente de nossa atual direita conservadora. Por outro lado, em outra mesa
de debates, a pesquisadora Celecina Sales nos ofertava diferente perspectiva
sobre a participação de jovens dentro da mesma política pública naquela
cidade.
E aí foi genial ver a possibilidade de participação distante do que
anteriormente havia sido levantado em outra mesa, o tal Conselho
da Juventude. A autora contou que os Cucas fecham suas atividades
às 22h e que, depois deste horário, estavam havendo invasões do
equipamento por jovens (em conflito com a lei) que, no horário
normal, não aproveitavam as atividades. Os jovens não invadiam
para furtar bens ou vandalizar os materiais, no entanto, faziam isto
para usar o serviço, entrar na piscina, se divertir. Foi através do
diálogo que um componente da Rede, mais versado na linguagem
juvenil, conseguiu mediar a situação. O mesmo descobriu que os
jovens invadiam o local depois do expediente pois não queriam
preencher as fichas obrigatórias para participação nas atividades,
o que implicaria revelar que estão em conflito com a lei e sofrer
estigmatização. Estas fichas e esta recepção deveriam ser
repensadas, portanto. Ou seja, através de uma metodologia de
trabalho que passe pelo diálogo permanente com os jovens, no
dia-a-dia, atento a este modo de conversar juvenil, seria possível
construir uma política pública que contemplasse diferentes grupos
juvenis. (Diário de campo, 2017).

Outra cena de impacto se deu na abertura do evento.


Tudo começou com a Mesa inicial, onde foram apresentados os
representantes institucionais que faziam aquele evento acontecer:
adultos acadêmicos, governamentais, etc. As falas eram elogiosas
ao evento e às instituições que faziam parte dele. Bonito,
emocionante, gritos de Fora Temer. Até que, após a Mesa, uma
mulher trans se levantou e fez uma intervenção. Falou que em
sua universidade os professores não respeitam o nome social.
Depois vários jovens foram se levantando da plateia em uma
constelação imprevista de relatos de incongruências presentes
nas mesmas universidades que dizem proteger a juventude. Um
acontecimento. Mais emocionados ficamos. (Diário de campo,
2017).

18 | O BECO PRA LIBERDADE SE FAZER


Neste momento a minha emoção não dizia respeito à concordância
ou não com o conteúdo de todas as falas, mas se referia à exposição nua e
crua das contradições institucionais. Ainda é difícil encontrar espaços de
participação em que as discussões e decisões se façam com os jovens. Em
2020, quando reviso todo esse material, digo que agora está ainda mais
difícil. Segundo Nogueira (2014), o país vive a Era dos Planos desde a
última década do século passado com o processo de democratização
brasileira, havendo clara intensificação na produção de normas e planos de
ação. A autora (idem, p. 64) nos convida a estar atentos, no entanto, visto
que apesar da Era ser de Planos “a agenda política delineada desde o final da
década de 1980 ainda é um projeto a ser incrementado”, acrescentando que
“o protagonismo deve alastrar, desse modo, todo o processo de efetivação
da política de atendimento, sob o risco de não cooperar, de forma concreta,
para a superação do modelo centralizador, hierárquico e autoritário que se
deseja ultrapassar” (idem, p. 67). Muitos destes planos, contudo, estão em
crise com o retorno à galope de modos centralizadores, diante da ascensão
de líderes que dão inúmeras provas do desprezo às diversas formas de vida.
A criança e o adolescente pobres, alijados de seus direitos, foram
tomados ao longo da história como meros depositários dos serviços públicos
e foram institucionalizados (Rizzini & Rizzini, 2004) através de métodos
de sujeição e docilização dos corpos (Foucault, 1996). Adolescentes
que cometeram atos infracionais são atravessados, ainda, pelo vetor da
criminalização e correm o iminente risco da sujeição criminal (Misse, 2007).
“O efeito deste fenômeno é que os sujeitos, ao incorporarem o rótulo de
perigosos, aderem ao que é esperado deles e se apegam à carreira criminal
através da qual passam a se significar enquanto sujeitos” (Gonçalves &
França, 2013, p. 56). Assim, pensar a potência de criação de si em meio
aos enquadramentos de identidades fixas, como quando alguém pensa em
si como “bandido” e nada mais, é um desafio.
A Psicologia ligada à Justiça, quando investiu no corpo, muitas vezes
o fez utilizando-o como suporte de investigações sobre periculosidade.
O seguinte trecho exemplifica o modo como o corpo compareceu nos
discursos psicológicos relacionados ao crime: “É elle portador de estygmas
phisicos de degeneração bem pronunciados (. . .) Nem mesmo lhe faltam
as tatuagens, estygma physico adquirido que, com frequência aparecem
nos degenerados e delinquentes” (Nogueira, 2002 como citado em Arantes,
2014, p. 37). A retomada do corpo estigmatizado para que seja afirmado a
partir de sua potência, de sua capacidade de afetação, vem surgindo apenas
mais recentemente na Psicologia Social e Jurídica. O estudo da política

YASMIM DE MENEZES FRANÇA | 19


pública de socioeducação que venho propor visa pesquisar por meio de
uma cartografia, um mapeamento dos afetos, das conversas e do desejo,
conforme apontam as considerações de Deleuze e Guattari (2012) a partir
da análise institucional esquizoanalítica.
Nesta pesquisa, portanto, optei por acompanhar modos de participação
de adolescentes4 do gênero masculino5 em uma unidade de semiliberdade
do DEGASE, a partir da escuta de diversos atuantes: os adolescentes,
suas famílias e os funcionários. A semiliberdade6 (restrição de liberdade),
segunda medida judicial mais gravosa depois da internação (privação
de liberdade), em tese deve propiciar o progressivo desenvolvimento da
autonomia e o fortalecimento de suas relações familiares e comunitárias.
Para o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), da
Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) e do Conselho Nacional
dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) (2006, p. 44):
“A ênfase do programa de semiliberdade é a participação do adolescente
em atividades externas à Unidade (família e comunidade).” Esta medida
exige do Departamento maior articulação com o território de origem dos
adolescentes, havendo maior concentração de esforços para o contato
com a vida extra-muros e com a efetivação do princípio da incompletude
institucional – “caracterizada pela utilização do máximo possível de
serviços na comunidade” (idem, p. 29).

MULTIGRAFIA – A ARTE DE JUNTAR ESCRITAS

Em algum momento [o adolescente] grita: “A senhora escreveu


um livro sobre os menor?” [A pesquisadora], surpresa, assim como
eu também fiquei, demorou a responder, porque ficou olhando-o
arregalada, mas disse que sim. (. . .) Quando [o adolescente]
perguntou à [pesquisadora] sobre o livro, [o adolescente] retrucou

4. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, adolescentes são aqueles compreendidos


entre 12 e 18 anos incompletos. Segundo o Estatuto da Juventude, jovens são aqueles
compreendidos entre 15 e 29 anos de idade. O DEGASE recebe adolescentes desde os
12 anos podendo mantê-los até os 21 anos incompletos. Sem excessivo rigor, no texto
utilizaremos as palavras adolescentes e jovens para nos referirmos ao mesmo público.
5.Para discussão da temática de gênero e sexualidade no sistema socioeducativo,
recomendo busca pela autora e amiga Aline Monteiro Garcia.
6. Na semiliberdade o adolescente deve permanecer internado de segunda-feira a sexta-
feira e somente aos sábados e domingos, via de regra, pode ir para casa e circular pela
cidade sem o controle direto do sistema socioeducativo. Durante a semana, no entanto, são
também possíveis saídas da unidade para ida à escola, a cursos, trabalho, passeios.

20 | O BECO PRA LIBERDADE SE FAZER


que quem podia falar deles são só eles mesmos, se alguém tinha que
escrever um livro sobre eles, eram eles. [O adolescente] disse que
não dava pra entender toda a mente, e eu concordei, dizendo que
a gente tenta entender o que consegue, mas ela é muito complexa.
(. . .) [O adolescente] então, brilhantemente, disse que seria legal
juntar o que eu via, com o que os outros estagiários viam, porque aí
dava pra entender mais coisa. (Diário de campo, 2010).

De 2009 a 2013, ao longo da graduação, participei do Projeto de


pesquisa e intervenção “Parcerias - adolescentes em conflito com a lei”,
coordenado pela Hebe, e que foi fruto da cooperação entre o IP/UFRJ e o
DEGASE. O dispositivo de registro do trabalho eram os diários de campo
e foi desta experiência que extraí o trecho que inicia esta seção.
A rigor, este não se pretende um texto sobre os adolescentes, mas
um texto possível sobre diferentes visões a partir de um mesmo território
de produção de subjetividade7 em torno do campo problemático do
protagonismo juvenil. O trecho de diário de campo citado tornou-se um
ótimo dispositivo de reflexão sobre meu8 método de pesquisa. A opção por
“falar com”, ao invés de “falar por”, se dá pelo entendimento de que a
variabilidade de pontos de vista é que produz a ciência que nos interessa.
Eu falo e Natan fala e Mara fala e... “Juntar escritas” é um modo de fazer
pesquisa a partir dos intercessores, onde o diálogo é constante.

7. Guattari e Rolnik (2013) nos dizem que o sujeito foi considerado ao longo de toda uma
tradição filosófica e científica através de sua suposta condição natural de humano, porém
afirmam a concepção considerada oposta, ou seja, que a subjetividade humana é fabricada
e consumida conforme maquinarias étnicas, profissionais, industriais, capitalísticas. Em
cada sociedade é preciso mapear os territórios: não temos, no Brasil, por exemplo,
o sistema de castas que existe na Índia, mas aqui encontramos linhas instituídas bem
delimitadas etárias, étnico/raciais, de classe, de gênero, tecnológicas, etc.
8. Desde a construção de minha multigrafia de conclusão de curso (França, 2013), optei pela
escrita em primeira pessoa que busca movimentos de incorporação das ideias lidas, escritas,
vividas. Novamente conforme Guattari e Rolnik (2013), ao invés de sujeitos individuais,
prefiro compreender a pessoa como um “agenciamento coletivo de enunciação”, um corpo
por onde passam agentes grupais, máquinas desejantes, econômicas, sociais, acadêmicas...
Portanto, ao se dizer “eu” compreende-se que não se está assumindo postura individualista,
mas afirmando um coletivo de enunciados que constituem este corpo vivo. Ao dizer que
algo é “meu”, não quero, com isso, clamar por posse ou originalidade, apenas informar
que utilizo, que incorporo, que adapto os conceitos às forças que estão me conformando.
O “meu método”, portanto, é aquele que eu aplico afetada, que me encanta e me espanta,
por meio do qual sou capaz de sentir as palavras que digito, de perceber variações na
temperatura da minha pele enquanto o vivo, é aquele que está entrelaçado a “mim”. Para
não ser mais eu, nem você, mas outro.

YASMIM DE MENEZES FRANÇA | 21


Desde o início deste percurso, antes mesmo de passar no processo
seletivo do mestrado, havia o investimento em conversas sobre o tema da
pesquisa, o convite para que amigas e amigos lessem o anteprojeto. Depois
da entrada no mestrado as interferências cresceram ainda mais, desde as
reuniões de pesquisa, as discussões durante as aulas, a participação em
eventos, até a importante vivência de coletivização na construção do “5º
Encontro de Estudantes do PPGP”, que possibilitou novos laços, incluindo
a produção de um Curso de Extensão. Os(as) autores(as) utilizados nas
citações são apenas uma parte deste múltiplo que compõe o método, pois
a pesquisa extrapola os livros, e escrever é buscar as margens, de modo a
poder tocar e ser transformado/transformar a partir do que passa.

1 Escreviver

Faço uso de uma das definições do conceito de “restituição”


desenvolvido por Lourau (1993): trazer à tona para a pesquisa o que
comumente fica marginal aos textos oficiais científicos, violar a neutralidade
acadêmica para deixar aparecer as forças que constituem o texto, permitindo
assim a análise das implicações. Considero importante restituir, por
exemplo, que neste ponto da pesquisa em que escrevia sobre o método eu
estava começando a entrar em campo bem devagar. Com os(as) atuantes9
do campo, neste período, eu estabelecera, no máximo, algumas trocas de
e-mail, telefonemas, uma visita para entregar a proposta de pesquisa, e no
geral estava aguardando a aprovação institucional. Confesso que demorei
alguns meses até iniciar todo este processo, algum medo me tomava diante
da aparente frieza dos muros (físicos ou não), das autoridades. Parece
sempre contrastar (assustadoramente para mim) o meu calor e minha
espontaneidade diante de ambientes excessivamente formais. Se eu me
assusto repetidamente, mesmo após quase uma década conhecendo estes
espaços, que dirá um(a) adolescente que chega ali em sua primeira vez?
Pesquisa cartográfica também trabalha a implicação do pesquisador,
jogando luz às contradições inerentes à ação humana. Aqui vai uma
contradição: enquanto pesquiso sobre a promoção de autonomia
entre os jovens, estremeço ao pensar no processo autônomo que
culminou na minha ida sozinha ao DEGASE. Durante os anos de

9. Embora os textos de referência usem comumente a expressão “ator”, em conversa com


minha amiga e revisora Kátia Bispo, optamos por “atuante”, tanto para não confundir o
significado com aquele atribuído ao “ator” de encenações artísticas, mas principalmente
para fazer linha de fuga à binaridade de gênero.

22 | O BECO PRA LIBERDADE SE FAZER


estágio estava sempre acompanhada da orientadora e de outros
estagiários. Posteriormente, enquanto Psicóloga do Ministério
Público, acompanhada por outros técnicos e Promotores de Justiça.
Pensando no terreno minado em que pisava, visto que a instituição
está sempre permeada de conflitos iminentes, caminhei temerosa.
Caminhar pela Estrada das Canárias traz inúmeras recordações
acompanhadas do desejo de realizar a pesquisa, e é de braços dados
com estes que chego à Escola de Gestão Socioeducativa (ESGSE)
Paulo Freire. (Diário de campo, 2017).

Sendo assim, o primeiro ano de Mestrado foi marcado por leituras,


conversas com meus pares, preparação de documentos para a Plataforma
Brasil (base nacional de registros de pesquisas envolvendo seres humanos)
e para o DEGASE, participação em eventos na área, e a longa espera para
que a entrada em campo pudesse acontecer. Até ali havia sido capaz de ouvir
diferentes vozes e refletir sobre meus questionamentos com grande parte
dessas interferências se movendo por dentro ainda da linha universitária.
Àquela altura, embora eu pensasse que ainda não havia entrado em campo
tanto assim, no entanto eu já o fazia intensamente, pois o meu corpo já se
sentia em articulação, seja pelo receio, seja pela espera.
Ganhei de presente a possibilidade de diálogo direto com uma estudante
da graduação em Psicologia (hoje psicóloga), Raiana Cassia Fulan Gomes,
que esteve junto comigo neste percurso em campo. Fizemos ambas um
trabalho tão visceral, encarnado e cheio de companheirismo, que a convidei
para escrever o Prefácio. Ela esteve comigo em cada momento de incerteza
e alegria, e continua presente dando brilho e inspiração à minha caminhada
profissional.
Esta escrita vai misturando diferentes modos de falar ao longo das
páginas, trazendo anotações que tradicionalmente são deixadas de fora dos
textos oficiais, tal como proposto por Lourau, de modo a dar visibilidade
aos paradoxos.
Além disso, sou afim da multirreferencialidade, conceito utilizado
por Lourau (1993) para falar de um modo de produção de ideias
que não se quer original, mas sofredor de múltiplas influências,
bebedor de diferentes autores, para que se vislumbre um novo
campo de coerência, ou, como escreve Foucault, para que se
articule uma nova instauração de discursividade. (1969/2009).
(França, 2013, p. 8).

Esta multirreferencialidade em nosso caso acolhe personagens de


diferentes latitudes e sotaques, trata-se de alianças que constituem linhas

YASMIM DE MENEZES FRANÇA | 23


de frente ativas, conforme aponta Lapoujade (2015), que defendem uma
perspectiva e combatem determinados perigos. No nosso caso há uma
batalha comum que perpassa estas produções e se arma contra as histórias
únicas e as verdades hegemônicas que silenciam grupos minoritários e
devires que provocariam rachaduras nas convenções sociais. O grande
perigo para o qual pretendo, com isto, ter atenção é quanto ao silenciamento
das singularidades e a grande vitória a ser obtida: as oportunidades de
criação de caminhos coletivos de participação.
“Um texto múltiplo, dessa maneira, é um rizoma, plano de consistência
em que todas as suas dimensões são ocupadas por linhas variadas, influências
diversas, e que cresce de dimensão quanto maior for o aumento de conexões
estabelecidas.” (França, 2013, p. 25/26) A multiplicidade, no entanto, pode
ser falsa, “porque sua apresentação ou seu enunciado de aparência não
hierárquica não admitem de fato senão uma solução totalmente hierárquica”
(Deleuze & Guattari, 1995, p. 27). A tarefa não é simplesmente aumentar o
número de fontes, mas aumentar, com elas, o potencial de desterritorialização,
dar continuidade ao movimento, caminhar com fluidez atenta às conexões,
para que se desenvolva “uma nova disponibilidade, uma nova sensibilidade a
alianças, a conjunções imprevisíveis, inimagináveis” (Guattari, 1985, p.73).
A arte de aumentar o som das estridências.

A arte da desinvenção
a arte da desinvenção
não tem compasso
remédio
nem medida

é a arte de tornar-se
vivo pelo espanto
via do equívoco
que faz do acaso
um avesso

24 | O BECO PRA LIBERDADE SE FAZER


fragmenta texturas
formatadas e indiferentes
do cotidiano

é a arte de escutar
as dissonâncias
de aumentar o som
das estridências
que arranham
as grades das partituras (Ferreira, 2017, p. 35).
A cartografia trata de escolhas políticas de quais linhas se deseja seguir,
quais se deseja criar, e com quais objetivos. Conforme Marcia Moraes
(2010), a ação se dá no sentido de acompanhar os problemas que agitam as
linhas. Nesta análise a proposta de Moraes é PesquisarCOM, acompanhar
acompanhada, ou seja, aberta para a instabilidade que se dá no encontro
com o outro.
Um adolescente havia dito que achava que o que eu faria com o
texto final seria apenas empilhar os papéis ou tacar fogo. Outros o
criticaram pelo comentário. Respondi que era bom que ele tivesse
dito, que ao menos ele falou o que pensava. Outro então respondeu
que pensava o mesmo. Para quê serviria tudo aquilo? Falei do
meu interesse. Falei que eu gostaria que outras pessoas lessem,
que eu queria mudar as coisas. Que eu queria que as pessoas se
ouvissem mais, que participassem mais, que o DEGASE fizesse
um trabalho pros jovens a partir do que os jovens dizem e precisam.
Na medida em que eu ia falando ia também me emocionando.
Não tive medo de me emocionar, deixei que acontecesse, falei
sobre isso. Um adolescente (ainda não consigo decorar os nomes)
respondeu que viu a mudança na minha voz. Eles se calaram e me
ouviram, afetou-os de alguma forma. E olha que foi difícil vê-los
todos calados. Acredito que a atenção deles era maior tanto era
maior a emoção com que falávamos. MOÇÃO, MOVER. Fala
com emoção move. (Diário de campo da Yasmim, 2018).

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