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Placemaking: conceito, aplicação e pós-intervenção

Placemaking: concept, application and post-intervention

Placemaking: concepto, aplicación y posintervención

Autores

Redson PAGNAN
Arquiteto e Urbanista, Me. em Linguística; doutorando do ​PPGAU/FAU-Mackenzie​;
redson.pagnan@gmail.com

Eliel BAIA
Arquiteto e Urbanista; mestrando do ​PPGAU/FAU-Mackenzie​;
eliellucasbaia@gmail.com

Isabelle CARVALHO
Arquiteta e Urbanista; mestranda do ​PPGAU/FAU-Mackenzie;
mendoncaisabelle@gmail.com

Resumo

No presente artigo discutir-se-á o conceito de ​placemaking como instrumento fomentador de


pertencimento nas cidades, no sentido de recuperar a ideia de lugar, estabelecendo uma
relação de identidade entre os espaços públicos e as pessoas. Cidades são locais de trocas e
encontros e o ​placemaking reintroduz a importância da escala humana nas questões urbanas,
muitas vezes negligenciada. Desse modo, discutimos o conceito de ‘’fazer o lugar” e
apresentamos uma intervenção no município de Fortaleza-CE, a Praça do Conjunto Alvorada,
seu impacto local, assim como a situação pós-intervenção. Assim, pretende-se, com esse
trabalho, contribuir com a difusão da ideia do fazer urbano coletivo em menor escala, servindo
de força motora para outras transformações urbanas e sociais.

Palavras-chave: placemaking, urbanismo tático, Fortaleza.

Abstract

This article will discuss the concept of placemaking as an instrument that fosters belonging in
cities, in order to recover the idea of place, establishing an identity relationship between public
spaces and people. Cities are places for exchanges and meetings, and placemaking
reintroduces the importance of human scale in urban issues, often neglected. In this way, we
intend to discuss the concept of placemaking, in an intervention in the city of Fortaleza-CE,
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Praça do Conjunto Alvorada, its local impact, as well as the post-intervention situation. Thus, it
is intended, with this work, to contribute to the dissemination of the idea of collective urban
action on a smaller scale, serving as a driving force for other urban and social transformations.

Keywords:​ ​ ​placemaking, tactical urbanism, Fortaleza.

Resumen

En este artículo se discutirá el concepto de placemaking como instrumento que fomenta la


pertenencia en las ciudades, con el fin de recuperar la idea de lugar, estableciendo una relación
de identidad entre los espacios públicos y las personas. Las ciudades son lugares para
intercambios y reuniones y la creación de lugares reintroduce la importancia de la escala
humana en los problemas urbanos, a menudo descuidados. De esta manera, pretendemos
discutir el concepto de Placemaking, una intervención en la ciudad de Fortaleza-CE, Praça do
Conjunto Alvorada, su impacto local, así como la situación postintervención. Así, se pretende,
con este trabajo, contribuir a la difusión de la idea de acción urbana colectiva a menor escala,
sirviendo como motor de otras transformaciones urbanas y sociales.

Palabras-clave:​ placemaking, urbanismo táctico, Fortaleza.


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Introdução

Cidades são locais de trocas e encontros que se traduzem em diferentes esferas


sociais nos modos de convivência, no trabalho ou no lazer. Isso é o que a cidade tem
de mais importante: a sua dimensão humana (LERNER, 2015). Intrinsecamente,
desde seu nascimento, a cidade vem tornando-se um cenário múltiplo catalisador de
diversas atividades e saberes que ocorrem principalmente em seu domínio público –
as ruas, parques e praças. O modo como usamos esses e todos os espaços da cidade
são ferramentas de leitura e compreensão para entender melhor seu desenho urbano
e, consequentemente, sua qualidade de vida. Isto é, as cidades podem ser lidas. As
ruas, parques e praças são como sua gramática, portanto, permitem que sejam
interpretadas (ROGERS, 2015).
Considerando que a nossa época é, acima de tudo, a época do espaço (FOUCAULT,
1967). O assunto, mantém-se como uma discussão atual, ainda necessária, que
surgiu, a partir dos anos 1930, sobre as problemáticas relações entre espaço e poder
e a sua vinculação com a vida cotidiana. Desde então, passaram a ser discutidas de
forma intensa por diferentes filósofos, sociólogos, geógrafos, teóricos culturais (e,
também, por arquitetos e urbanistas) como Henri Lefebvre, Jane Jacobs, David
Harvey, Milton Santos entre outros.
No entanto, a dimensão humana no espaço urbano tem sido um tópico reduzido,
esquecido ou negligenciado pelos planejadores (GEHL, 2015) em especial no
Modernismo, corrente urbanística que priorizou na maioria das vezes o uso do carro e
a setorização da cidade, corroborando com uma divisão espacial muitas vezes
segregadora. Progressivamente, a tradicional função da cidade e da rua como um
local de encontro foi reduzida ou ameaçada (GEHL, 2015). Assim, pensar a cidade,
compreendendo a importância e o protagonismo do projeto em sua construção é,
entender a vida pública contemporânea (VILLAC; KATO, 2019). ​E, abordar questões
contemporâneas implica em considerar central as relações humanas e os diferentes
modos de ser no mundo e de fazer o mundo. Desse modo, o ​placemaking1​ pode ser
entendido como uma ferramenta de projeto que tem por intuito fomentar o
pertencimento ao lugar em relação aos diferentes espaços onde sua metodologia é
(pode ser) aplicada. Nesse sentido, se o espaço é necessário para demarcar um lugar,
esse último por sua vez é a condição pelo qual os espaços se humanizam
(MEDEIROS, 2008). ​Isto é, o espaço urbano se humaniza, torna-se um ‘lugar’, a partir
das práticas sociais e/ou intenções nele contidas.
O ​placemaking é, então, um ​projeto de intenção de um lugar ​que se insere no
espaço público a partir de práticas sociais que o determina. Essa lógica ratifica o
pensamento de que o espaço é um produto da história, acima de tudo uma produção
social histórica. As cidades são, talvez, a maior invenção humana (GLAESER, 2012).
1
Não abordaremos neste artigo as questões de tradução do termo para língua portuguesa, não é a
intenção. Acreditamos que a presença de termos estrangeiros no português não é errado, nem um crime,
pelo contrário, ​“é sinal de vitalidade, só as línguas vivas têm sinais de enriquecimento” (NOGUEIRA,
2012, n.p). A forte presença do inglês na língua portuguesa é reflexo da globalização e do fortalecimento
tecnológico e cultural. Devemos valorizar a língua portuguesa sim, mas não fechar portas. As palavras
‘emprestadas’ estão em todas as áreas e por todas as partes, fazem parte do nosso cotidiano.
Recentemente, passamos a utilizar todos os dias em ​‘lockdown’ o ​‘zoom’ ​enquanto estamos em ​‘home
office’​.
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Portanto, esse trabalho se insere como um exercício de repensar as dimensões


humanas e o seu significado nas questões urbanas, através de aberturas teóricas e
práticas sobre a humanização dos espaços públicos. Assim, olhar para a cidade a
partir de teorias, projetos ou processos colaborativos que possuem uma ‘intenção
coletiva’ e que considerem outros atores sociais como produtores de espaços
públicos, certamente contribui para a discussão contemporânea das cidades e para o
pensamento crítico enquanto cidadãos, arquitetos e urbanistas.

O conceito de ​Placemaking​: origens e desenvolvimento

Placemaking ​é uma ideia e uma ferramenta metodológica de melhoria de diversos


espaços públicos no nível da comunidade local, dos bairros e regiões ou das cidades
em uma escala mais ampla. Em 2008, a ​Project for Public Spaces​2 c​ omeçou a
trabalhar com algumas comunidades locais e, perceberam que ninguém tinha mais
conhecimento sobre um espaço e como ele funciona do que as pessoas que o utilizam
diariamente. Desde então, decidiram realizar um passo-a-passo de projeto
colaborativo (bottom-up) para a construção ou melhoria de espaços de uso coletivo e
cunharam o termo​ ‘placemaking’ (​ em tradução livre, “fazer lugares”).
No entanto, o conceito já havia sido trabalhado por autores como Jane Jacobs desde a
década de 1960, assim como, William Whyte​3 (1970) e difundido (atualmente) com
mais abrangência por Jan Gehl (2010). Ambos autores defendem o desenvolvimento
de cidades diretamente relacionadas à escala humana. Em ​“​Morte e Vida de Grandes
Cidades” de 1961, Jacobs propõe a idéia de ​“olhos na rua”​, que consiste em dar
autonomia às pessoas em relação ao seu lugar de convívio, isto é, as pessoas são
identificadas como responsáveis naturais da rua e zeladoras da segurança dos
espaços públicos. Há mais de cinquenta anos esta obra vem nos alertando sobre
como a ideologia modernista do urbanismo que distingue os usos espaciais e celebra
edifícios e carros, colocariam em cheque a qualidade de vida nas cidades e a
diversidade no espaço urbano.
Nas décadas de pesquisa de Jan Gehl, o ​placemaking ​também encontra raízes. O
arquiteto dinamarquês formulou ​“12 critérios para criação de espaços públicos”​,
espaços para caminhar, sentar, ler, coisas para ver, qualidade estética e proteção
contra o tráfego, são alguns deles. A PPS​4 formulou “11 princípios do placemaking”5​
que constituem a metodologia de trabalho, com itens muito próximos aos elencados
por Gehl, todos ou a maioria centrados na comunidade local de onde será aplicado.
Desse modo, o processo colaborativo de ​fazer um lugar,​ surge como resposta a essa
ideologia dominante que construiu as cidades como conhecemos. E o caráter coletivo
é fundamental no seu desenvolvimento. De acordo com Heemann e Santiago (2016,
p.10) em “Guia dos Espaços Públicos”:

2
Project for Public Spaces é uma organização não-governamental com rede mundial, que se dedica a
auxiliar pessoas na criação e gestão dos espaços públicos. Foi fundada em 1975 por Fred Kent.
3
Sociólogo e Jornalista estadunidense. Foi o mentor do trabalho da ​Project for Public Spaces pelo seu
estudo do comportamento humano em ambientes urbanos, o ​Street Life Project,​ um estudo pioneiro sobre
o comportamento do pedestre e a dinâmica da cidade de Nova York.
4
Project for Public Spaces.
5
Princípios que constituem a metodologia do ​placemaking que pode ser seguida linearmente ou de
formas mais aleatórias, de acordo com cada espaço, a serem definidas pelos idealizadores.
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O Placemaking abrange o planejamento, o desenho, a gestão e a programação de espaços públicos.


Mais do que apenas criar melhores desenhos urbanos para esses espaços, Placemaking facilita a
criação de atividades e conexões (culturais, econômicas, sociais, ambientais) que definem um
espaço e dão suporte para a sua evolução.

Nesse sentido, o ​placemaking passa a ser um ‘modo de trabalho’ (colaborativo) que


reescreve a importância das pessoas, da dimensão humana no espaço público,
possibilitando que os moradores locais transformem os espaços em lugares, atribuindo
identidade, pertencimento e qualidade de vida aos espaços antes “esquecidos”.
A ideia de qualificar um espaço público, um bairro ou um pequeno local não deveria
acarretar preocupações. No entanto, o ​placemaking e a ​gentrificação têm sido
assuntos em paralelo, afinal, quando os locais tornam-se melhores é comum a sua
valorização, mas essa não é uma relação de causa e efeito. O ​placemaking é um
processo criado, guiado e realizado pela comunidade local​6 em busca de uma
melhoria e não uma valorização especulativa com objetivos econômicos (TANSCHEIT,
2019), muitas vezes geridos por governos e grandes empresas. O que diferencia
então, é o processo e a maneira como são executados (TANSCHEIT, 2019).
O ​placemaking é um movimento em expansão com ideias surgindo pelo mundo e com
inúmeros agentes espalhando as boas práticas de construção do lugar. A PPS atua,
desde os anos 1975, nos Estados Unidos e na Europa identificando projetos, lugares
em potencial e líderes comunitários em busca da melhoria dos lugares. Atualmente a
organização tem se expandido para outros lugares, como a América Latina.
Em 2014 ocorreu em Buenos Aires, o evento ​“Future of Places” realizado pelo
Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos com apoio da
fundação ​Johnson Foundation e da ​Project for Public Spaces​, onde foram introduzidas
discussões sobre ​placemaking​, partindo daí a ideia de criar no Brasil o Conselho
Brasileiro de lideranças em ​Placemaking , uma iniciativa dos participantes brasileiros
do evento, onde buscam traçar estratégias para o desenvolvimento e divulgação da
ideia de construir os espaços urbanos de forma participativa com a comunidade,
principalmente atuando em locais negligenciados pela esfera pública concentrada no
poder municipal.
Em 2015, se iniciou o processo de levantamento das intervenções no formato de
placemaking que acontecem espalhadas por todo o território nacional, com ajuda do
coletivo TransLAB.URB​7 foram sistematizados e concentrados dados de geo
mapeamento das intervenções conhecidas e disponibilizados questionários para as
comunidades e entidades que executam as intervenções e caracterizam os espaços a
fim de organizar e entender os processos ocorridos em cada local. Já no primeiro
levantamento de dados, se localizou 147 moradores espalhados em 19 estados,
distribuídos em 42 cidades da federação.
Em 2018, o questionário foi reformulado buscando adequar a metodologia de análise
dos dados. No mesmo ano foi apresentado dados que mostram a possibilidade de
redes com muito potencial em todo o país. Os últimos dados mostram que 289
membros da sociedade civil, se envolveram com as atividades, com uma notória

6
​“Comunidade local”, no sentido de pessoas que utilizam e compartilham o mesmo espaço. Não
necessariamente, uma comunidade estabelecida em um território.
7
Coletivo de Inovação Social Urbana de Porto Alegre, RS.
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participação feminina, foram 187. Ainda em 2018, as atividades e intervenções


baseadas na ideia de ​placemaking​ foram identificadas em 90 cidades Brasileiras​8​.
Dessa forma, podemos dizer que o ​placemaking é um processo colaborativo em
expansão, inclusive no Brasil, importante para discutirmos o futuro das cidades e a
necessidade do fazer coletivo. Não é a valorização monetária de um espaço público,
mas a união de uma comunidade que se preocupa com o bem-estar para todos, como
veremos na sequência.

Intervenção na Praça da Alvorada (Fortaleza-CE): Placemaking como


agente transformador de um bairro

O local de intervenção que serviu como aplicação do ​Placemaking está localizado na


cidade de Fortaleza, Ceará. A Praça da Alvorada, no bairro Sapiranga, à época da
intervenção – ano de 2016, era um espaço com histórico de conflitos entre gangues e
registros de mortes. O bairro possui um baixo índice de desenvolvimento humano
(IDH) de 0.34 (ANUÁRIO DO CEARÁ, 2020) (figura 01). Este fato se reflete também
no mapa da criminalidade e da violência em Fortaleza (2011), o qual ilustra, de
maneira anual, a crescente violência na região, tanto nas relações conflituosas quanto
em mortes violentas. Ademais, não há dados públicos que ilustram a situação atual,
todavia, a região mantém o histórico violento até os dias atuais.

Figura 01: Mapa de Fortaleza / Índice de desenvolvimento urbano por bairro.


Fonte: Adaptado de anuário do ceará (2010).

De acordo com o Coletivo A-braço, idealizador da proposta, o espaço foi escolhido,


além da proximidade à Universidade de Fortaleza, a partir de alguns aspectos
observados nas visitas ao bairro, onde identificou-se a praça, que, apesar de curtas

8
Os dados e o mapeamento interativo podem ser conferidos no ​“Mapeamento Placemaking”​, na página
do Placemaking Brasil. Disponível em: http://www.placemaking.org.br/home/mapeamento-placemakers/
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dimensões, produzia um intenso fluxo de pessoas no período diurno, com a utilização


da quadra, assim como no período noturno. No processo de ​“conhecimento do
território”,​ algumas entrevistas foram feitas e notou-se um senso de pertencimento da
comunidade com a praça, onde já foram realizadas (pela comunidade) outras
intervenções para o melhoramento do espaço público coletivo, como por exemplo na
construção de latas de lixo recicladas a partir de garrafões d’água (​VASCONCELOS ​et
al.,​ 2016).
A praça, contudo, apresentava carências: o pequeno parque estava em desuso em
função da falta de manutenção, os locais de permanência não possuíam qualquer tipo
de abrigo ou proteção solar, justificando seu uso reduzido ou inexistente durante o dia
e intensificado no período da noite. Desta forma, com o local de intervenção
identificado e reconhecido, o grupo adotou um nome para referenciar as atividades
que ali seriam realizadas: ​“C​ oletivo A-Braço​”,​ indicando ao afeto e a integração que se
intencionava do projeto com a comunidade e a academia (um grupo de alunos do
curso de arquitetura e urbanismo da Universidade de Fortaleza).

Figura 02:Localização da Praça Alvorada.


Fonte: Adaptado de ​Google Earth ​(2003).

Antes do início das atividades a serem desempenhadas no local, houve um


pronunciamento, através de rápida explanação, acerca das atividades e objetivos a
serem alcançados pelo Coletivo, bem como a chamada pública da comunidade para
participação. Assim, no dia 03 de março de 2016, aconteceu o dia de atividades no
campus da Universidade de Fortaleza, onde foram apresentados debates sobre temas
como direito à cidade, urbanismo tático e ​placemaking,​ além de apresentação sobre
espaços em situação e intervenção semelhantes. Para além disso, houve a integração
da ação com o III seminário de Graduação, Pesquisa e Pós-graduação da
Universidade de Fortaleza (09 e 12 de março de 2016), onde a ideia era agregar
escolas de nível fundamental e médio da região para a participação no processo.
Durante o seminário, houve momentos de realização de diagnóstico da praça em
conjunto a comunidade com o propósito do desenvolvimento de propostas a curto
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prazo e a baixo custo que suprisse a expectativa dos usuários do espaço. A dinâmica
foi produzida através de uma visita a campo com estudantes de arquitetura separados
em grupos, os quais realizaram diálogos com os transeuntes e, posteriormente, foram
apresentados desenhos e propostas a curto e longo prazo em pranchas para a
comunidade (figura 03) (​VASCONCELOS ​et al.​, 2016)​.

Figura 03: Cartazes das Oficinas realizadas.


Fonte: ​VASCONCELOS ​et al.​ (2016).

Uma vez com as propostas debatidas e elencadas a partir de prioridades apontadas


pela comunidade, as equipes de estudantes e voluntários se juntaram para a produção
da intervenção, onde foram realizadas as seguintes atividades: limpeza, pintura,
manutenção do parque infantil e a poda das copas arbóreas (figura 04). Como
beneficiamento, plantou-se mudas de árvores para a mitigação da incidência solar a
longo prazo, em áreas de permanência.

Figura 04: manutenção da praça, realizada pelos próprios moradores e estudantes.


Fonte: Luciana Otoch e Ares Soares ​(2016).

Por fim, o coletivo entendeu que a produção realizada entre comunidade e academia
foi fortuita, superando as expectativas postas inicialmente em pouco tempo, mostrando
que de maneira coletiva foi possível planejar e executar pequenas intervenções a
baixo custo com a ajuda de voluntários. Contatou-se que em função do grande fluxo
dos usuários no local, bem como a visibilidade produzida chamou atenção do poder
público, uma vez que essa praça se torna beneficiada com o programa “areninhas” da
gestão de Roberto Cláudio (PDT), que visa potencializar o uso de equipamentos
públicos para a juventude.
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Figura 05: Imagens pós-intervenção.


Fonte: Ares Soares e VASCONCELOS​ et al.​ (2016).

Considerando a situação da Praça da Alvorada no pós-intervenção, faz-se importante


questionar: o que faz a ocupação destes espaços públicos e as intervenções serem
bem-sucedidas​9​?
Importante dizer que as interações sociais das comunidades oscilam dentro do
espectro de suas convivências e é interessante analisar a arte como aglutinador e
catalisador dos movimentos que procuram organizar a sociedade local.
Na intervenção observada em Fortaleza, é possível discutir o que a cientista política
pós-marxista, Chantal Mouffe viria a chamar de arte crítica: “arte crítica é a arte que
fomenta dissensos, que torna visível o que o consenso dominante tenta obscurecer e
esquecer”. Esta é constituída por uma série de práticas artísticas que buscam dar voz
àqueles que foram silenciados pela estrutura social dominante" (MOUFFE, 2007).
Analisando a ideia de como a arte crítica permeia na ideia central do ​placemaking​,
onde ocorreram movimentações organizadas pela comunidade, muita das vezes
mobilizados por coletivos e grupos de ativismo urbano, no caso de Fortaleza,
aconteceu por movimentação dos alunos de Arquitetura da UNIFOR, que organizados
junto aos moradores, exultam a cultura local na sua arte e intervenções. Um ponto a
ser tratado é a “não função da arte”. Em Fortaleza, foram utilizados pneus, distante da
sua função original-objetiva, foram pintados e dispostos, novamente, sem função
objetiva, que não fosse simplesmente lúdica ou como barreira física, porém ao se
observar a forma que foram implementados no local, é possível lembrar da célebre
frase de Adorno “a função da arte é não ter função” (figura 05), a liberdade existente
na arte em se propor a ter função que não seja a estética ou da experiência do
estética, o que se percebe no lúdico proposto para a intervenção da Praça da
Alvorada.
As intervenções de ​placemaking podem ser vistas como intervenções anti-sistêmicas,
como Mouffe (2007) descreve: “micro resistências urbanas”, onde o que ocorre é uma
ocupação de determinado local para que seja requalificado pela comunidade com a
finalidade de servir a sua função primordial e para o qual fora inicialmente pensando,
servir a própria comunidade local na busca por um bem-estar social e da percepção
qualificadora do espaço público e da região como aglutinadora de manifestações
culturais e até mesmo sanitárias. Logo, pensando nas atividades que possam ocorrer

9
Considerando a palavra ​“bem-sucedidas” no sentido de se tornarem processos de troca atrativos para a comunidade
e com algum resultado, mesmo que este resultado não seja permanente, eterno, visto que o próprio espaço público
jamais será um ato acabado, pelo contrário, é sempre inacabado e em construção.
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no espaço, de nada serviria a comunidade uma praça obscurecida pelo tempo e pela
negligência da falta de manutenção.
Outra característica que se nota nas execuções de intervenções de ​placemaking é a
busca sistematizada pela qualificação que torna o espaço ativo no seu uso pela
comunidade, fugindo a passividade do seu uso, ou não uso anterior. O que dá espaço
para percepções fenomenológicas das intervenções, considerando principalmente a
experiência corporal dos moradores. Guy Debord manifesta em ​“Sociedade do
Espetáculo” essa percepção, e no artigo ​“Corpografias Urbanas” (2008, p. 04) de
Paola Berenstein Jacques aponta essa mesma interpretação:

A redução da ação urbana, ou seja, o empobrecimento da experiência urbana pelo espetáculo leva a
uma perda da corporeidade, os espaços urbanos se tornam simples cenários, sem corpo, espaços
desencarnados. Os novos espaços públicos contemporâneos, cada vez mais privatizados ou não
apropriados, nos levam a repensar as relações entre urbanismo e corpo, entre o corpo urbano e o
corpo do cidadão. A cidade não só deixa de ser cenário mas, mais do que isso, ela ganha corpo a
partir do momento em que ela é praticada, se torna “outro” corpo. Dessa relação entre o corpo do
cidadão e esse “outro corpo urbano” pode surgir uma outra forma de apreensão urbana e,
consequentemente, de reflexão e de intervenção na cidade contemporânea.

Outro ponto que Berenstein Jacques traz em ​“Notas sobre espaço público e imagens
da cidade”​ (2009, n.p.) é que:

Se de fato, como diz Marilena Chauí: "A democracia não é o regime do consenso, mas do trabalho
dos e sobre os conflitos". Podemos ir além e pensar que os conflitos urbanos não só precisam ser
considerados como legítimos e necessários, mas que é exatamente da permanência da tensão entre
eles que depende a construção de uma cidade mais democrática, que mistura permanentemente,
embaralha e tensiona as fronteiras entre espaços opacos e luminosos (lisos e estriados, nômades e
sedentários) mantendo viva a tensão entre eles no que podemos chamar de "zonas de tensão", ou
seja, precisamos urgentemente aprender a trabalhar com os conflitos e a manter essas tensões no
espaço público, aprender a melhor agenciar, atualizar e incorporar estes conflitos e tensões nas
teorias e práticas urbanas, e a arte crítica - a experiência sensível enquanto micro-resistências sobre
ou no espaço público - pode vir a ser, efetivamente, uma grande aliada. Talvez os artistas, que já
trabalham com essas "zonas de tensão", possam efetivamente nos ajudar a inventar - recuperando
as nossas três questões-pontos de partida - um urbanismo mais dissensual, incorporado e vivaz.

Portanto, é possível perceber a importância dos processos de participação da


sociedade nas intervenções urbanas, não sendo somente o próprio exercício básico
de cidadania dentro da experimentação democrática, mas que também é possível
buscar o equilíbrio, e se deve buscar por ele, na ideia da intervenção ​placemaking​, o
conflito urbano existente acontece na intenção do plano urbano existente na esfera
pública e no ideário da comunidade para o espaço em que vive.
A busca por uma cidade mais democrática, inclusiva e participativa se faz necessária
para que o processo de manutenção dos próprios espaços públicos aconteça, e há de
se perceber que a manutenção de um espaço público foge da objetividade prática de
manter o que já existe, o processo de manutenção ocorre na requalificação do que se
torna obscuro para a comunidade, espaços públicos devem passar por processos de
requalificação, que sejam por meios de intervenções artísticas, como por intervenções
placemaking.​ A luta urbana diária e a luta pelo espaço urbano, não é somente
centrada em tornar um espaço público funcional, mas em um espaço vivo e
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participativo onde a comunidade viva e experimente as mais diversas interações


humanas.

Algumas considerações…

Após a discussão, podemos dizer que o ​placemaking​, além de ser uma ferramenta de
transformação do espaços públicos, é uma ferramenta do exercício da cidadania, visto
que promove a inclusão social por meio das pessoas, manifestando suas respectivas
vontades (discutidas e definidas de forma coletiva) em busca da qualificação do
espaço público. A tentativa de qualificar esses espaços sistematicamente
“esquecidos”, já ratifica a importância do ​placemaking como instrumento promotor de
melhorias dos espaços e, consequentemente, do convívio coletivo.
No entanto, é importante destacar outras instâncias, como por exemplo, é inegável
que a difusão do conceito ajuda a propagar novas filosofias, práticas e possibilidades
de convívio em comunidade e de construir uma nova consciência social, ambiental,
cultural e até mesmo política em relação ao uso dos espaços públicos e do ​direito à
cidade​, resgatando as antigas relações de troca, intrínseca a vida na cidade, como já
citamos. Outro ponto importante, é a valorização do ​placemaking ​como um “projeto do
fazer urbano coletivo” e não somente como uma ferramenta de ajuda, de colaboração
para maiores intervenções realizadas pelos órgãos institucionais. E, pensando a partir
da ideia de projeto colaborativo, a inclusão da “comunidade local”, dos outros atores
sociais, não somente como “público-alvo”, mas como “público-participativo” é
fundamental para os resultados alcançados. É a ideia do fazer conjunto que corrobora
o pertencimento ao lugar.
Por último, não menos importante, a instância econômica.
O ​placemaking possibilita intervenções em menores escalas e, consequentemente,
mais econômicas. A ​“intenção” com o ​placemaking não é a valorização monetária,
apesar de sabermos que as melhorias valorizam o local (daí a constante relação com
a gentrificação) e sim a valorização dos processos do fazer em grupo, do local em si e,
por isso, o conceito carrega uma forte questão política e de pertencimento. Citando
Aristóteles, “o objetivo principal da política é criar a amizade entre membros da
cidade”. P ​ ortanto, as cidades devem ser lugares onde as pessoas sintam-se
confortáveis em ser, habitar, caminhar, compartilhar e que possam abrigar a sua
diversidade.

Referências

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