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Universidade Federal do Pará

Núcleo de Altos Estudos Amazônicos


Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do
Trópico Úmido

Disciplina: Políticas Urbanas


Professores: Saint Clair Cordeiro da Trindade Junior
Aluno (a): Tatiane de Cássia Silva da Costa
Data: 18 de Agosto de 2010

SOUZA, M. L. estratégias, instrumentos, técnicas e contextos institucionais de


participação popular no planejamento e na gestão urbanos In:______. A prisão e a
ágora: reflexão em torno da democratização do planejamento e da gestão das cidades.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. p. 199-272.

Informações sobre o autor:


Professor da universidade do Rio de Janeiro, é bacharel e mestre em geografia (UFRJ) e
especialista em sociologia urbana (UERJ), fez doutorado em geografia (área
complementar: ciência política) na Alemanha (universidade de Tübingen). Entre suas
estadas como pesquisador visitante em universidades estrangeiras, constam-se uma
1999, na Inglaterra (Universidade de Londres, Royal Holloway College), com bolsa de
pós-doutorado, e em outra em 2000/2001, na Alemanha (universidade de Tübingen),
tendo, durante ambas realizado pesquisas sobre planejamento e gestão urbanos. A partir
de várias pesquisas realizadas sobre planejamento e gestão urbana publicou vários
livros, como o “ABC do desenvolvimento urbano”, “O desafio metropolitano”, “A
Prisão e a Ágora”, alem de vários artigos publicados em revistas e periódicos nacionais
e internacionais.

Idéia Central:
Analisar as técnicas, instrumentos e estratégias de participação no planejamento
e na gestão das cidades, em escalas coletivas significativas.

Objetivos:
 Identificar as limitações em termos de participação de algumas técnicas e
estratégias de planejamento e gestão de cidades desenvolvidas em outros países;
 Analisar de que maneira a participação popular se apresenta no ideário da
reforma urbana e nos orçamentos participativos.
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Síntese esquemática da obra:


1. O que a experiência internacional oferece em matéria de instrumentos e técnicas:
I. Public hearings, advisory committees, citizen forums:
i. Public hearings (audiências públicas) – limita-se a uma participação
consultiva, uma pseudoparticipação (ARNSTEIN, 1969);
ii. advisory committees – desempenham funções de aconselhamento ou de
informação no interior da própria maquina estatal;
iii. citizen forums – são de espécies de “simpósios popular” no qual
determinados assuntos podem ser discutidos pelo publico em geral e
possuem um considerável potencial político-pedagógico;
II. Células de planejamento (planungszellen) - Consta de pequenos grupos de
pessoas (escolhidas aleatoriamente) que se reúnem durante vários dias para
discutirem problemas e elaborarem e proporem soluções:
i. Foram idealizadas pelo sociólogo alemão Peter Daniel nos anos 1970;
ii. São consultivas e não deliberativas;
iii. É uma forma limitada de participação, destinada a melhor informar,
calibrar decisões tomadas de cima pra baixo, ou seja, balizar as decisões
do Estado;
III. Do padrão formal da “Beteiligung der Offentlichkeit” ao community
planning:
i. Burgerbeteiligung – é um modelo de participação garantido por lei
nacional em que requisitos mínimos (em temos de informação e
discussão) devem ser respeitados por todas as municipalidades;
a) São apenas consultivos – os cidadãos são convidados a opinar
sobre um plano elaborado previamente pelos técnicos (é uma típica
participação do tipo - government-sponsored);
ii. community planning – refere à participação de cidadãos na concepção de
projetos de escala microlocal: um bairro, sub-bairro;
a) alguns problemas enfrentados: são de cunho político-operacional (o
Estado abrir mão do processo decisório), e de cunho político-
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conceitual (como se definir comunidade e quem a constitui, este é


um conceito de fácil manipulação ideológica);
2. A experiência brasileira (1): a agenda da “reforma urbana” e suas lacunas e
fraquezas;
I. Distinção entre reforma urbana (reforma social estrutural, de caráter
redistributivista e universalista) e reforma urbanística (projeto de
remodelação do espaço que objetiva melhorar a funcionalidade das formas
espaciais embelezar a cidade, ex: Reforma Passos no Rio de Janeiro);

II. O ideário da reforma urbana:


i. Surge ainda na década de 1960 polarizado pelo tema da habitação;
ii. Durante a repressão do regime militar a luta pela reforma urbana entrou
numa espécie de hibernação;
iii. Na década de 1980 com o fim da ditadura se abre a oportunidade para
que a sociedade civil apresentasse propostas de artigos para a nova
constituição (emendas populares) que substituiria a de 1967, desde que
satisfeitos certos requisitos;
iv. Em 1987 foi fundado o Fórum Nacional pela Reforma Urbana, e no
mesmo ano se apresenta a Assembléia nacional Constituinte a Emenda
Popular da Reforma Urbana;
a) Após ser entregue ao congresso a emenda foi descaracterizada e na
constituição de 1988 restaram apenas dois artigos o 182 e 183;
b) No que se refere a participação popular no planejamento e na
gestão urbana a constituição de apresenta omissa, com a única
exceção do artigo 1° parágrafo único, que diz: “Todo poder emana
do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou
diretamente, nos termos desta Constituição”;
III. Estatuto da cidade:
i. Regulamenta o capitulo sobre a política urbana da Constituição;
ii. Dispõe sobre a obrigatoriedade e as condições da participação popular
direta no planejamento e na gestão de cidades;
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iii. Esta lei contém sete artigos diferentes que mencionam insistentemente o
principio da participação popular direta (Art 2°, 33, 40, 43, 44, 45, 52);
iv. Representa um avanço jurídico-formal para o Brasil e um trunfo para os
ativistas sociais, no entanto deve-se reconhecer que a participação
aparece de forma vaga e indefinida, que remete quase sempre a um
processo deliberativo ou meramente consultivo;
IV. Ao longo da década de 1990 verifica-se uma cisão do movimento, em duas
vertentes:
i. De um lado os técnicos de prefeituras ou de ONGs;
a) Estes embarcaram em uma busca excessivamente centrada na
conversão de leis e planos em “instrumentos de reforma urbana”;
ii. De outro os ativismos microlocais (favelas e bairros formais) e suas
federações;
a) Enfraqueceram-se ainda no final da década de 1980,
principalmente pelo clientelismo;
b) Atualmente raramente se inserem em debates sobre a reforma
urbana;
c) Têm pouca visibilidade pública e capacidade de mobilização;
d) Têm sua dinâmica pautada por mecanismos de co-gestão
Estado/sociedade civil;
V. Tecnocratismos de esquerda:
i. Superestimação de marcos legais e instrumentos e documentos técnicos
(destaque para os planos diretores);
ii. Fortaleceu-se em um momento de crise e enfraquecimento dos
movimentos sociais urbanos;
iii. É resultado da negligencia com a análise da dinâmica social mais ampla,
do descaso com rotinas e estratégias de democratização do planejamento;
VI. Alguns planos diretores:
i. São Paulo – gestão de Luiza Erundina;
a) Referencia política na luta pela conversão dos planos diretores em
algo progressista;
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b) Não concede qual quer espaço a discussão e á operacionalização da


participação popular;
ii. Rio de Janeiro (1992)
a) Revela varias fraqueza de ordem técnica;
b) A participação popular é tratada de forma evasiva e superficial
iii. São Paulo, novamente – Marta Suplicy;
a) É uma mescla de “plano estratégico” – “desenvolvimento urbano
sustentável” – e um verniz de ideário da reforma urbana;
b) Preconiza-se uma composição que reduz o peso dos setores
populares e confere um grande relevo aos setores empresariais,
entidades associativas profissionais e ao próprio aparelho estado;
iv. Porto Alegre;
a) Caráter consultivo e composição no tipo “cadeiras cativas”;
b) No que se refere a participação assemelha-se à do plano de São
Paulo, no entanto é mais detalhado;
3. A experiência brasileira (2): potencialidades e limitações dos orçamentos
participativos
I. O caso de Porto Alegre foi um modelo reproduzido pelas outras cidades
brasileiras;
II. “Utilidades”
i. Função redistributiva: configura-se como uma significativa redistribuição
indireta de renda, mediante redirecionamento e a “inversão de
prioridades”;
ii. Redução do clientelismo;
iii. Aumento da auto-estima coletiva da população e do sentimento de
cidadania;
iv. Função político-pedagógica – escola de cidadania;
III. Algumas ressalvas;
i. Dependência aos técnicos da prefeitura para esclarecimento;
ii. Deficiência de qualificação dos delegados e conselheiros;
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iii. A combinação de dois vetores de dinâmica participativa: referenciado


espacialmente (planarias regionais) e de referenciado setorialmente
(plenárias temáticas);
iv. A falta de articulação entre planejamento urbano e gestão orçamentárias;
4. A “pedagogia urbana”:
I. Planejamento e gestão urbana é algo eminentemente político;
II. Por mais sofisticado que sejam os conhecimentos e técnicas que são
elaborados pra dar orientação e respaldo, planejar e gerir envolve
diretamente a vida de uma coletividade;
III. O planejamento e a gestão deve ser popularizado e desmitificado;
IV. Pedagogia urbana:
i. O planejador como educador libertário, que não se limita a “adestrar” o
educando nem a impor-lhes conteúdos sem discussões – pedagogia do
oprimido;
ii. O objetivo central é ajudar a organizar e preparar a sociedade para uma
participação lúcida e consciente, informando e colaborando para ampliar
a consciência de direitos;
a) Socialização de informação e boa comunicação;
a. As políticas públicas e os documentos legais sejam
“traduzidos” para uma linguagem acessível;
b) Investimento na formação de “planejadores e gestores
urbanos populares”;
c) Implementação de forças-tarefas microlocalmente
enraizadas;
d) Estabelecer parcerias com educadores.

Conclusões e/ou proposições do autor:


 Diante de tantas fragilidade dos instrumentos e técnicas de planejamento e
gestão urbana, no que tange a participação popular a “pedagogia urbana”,
por seu comprometimento em ampliar a consciência de direitos por parte
da sociedade, o que revela a sua dimensão político-pedagógica, se
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apresenta como uma importante alternativa embutida de um esquema


participativo mais consistente;