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Método (auto) biográfico e a pesquisa formação

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Jeronimo Jorge Cavalcante , Edilania de Paiva Silva , Fabiana Lopes Cavalcante

Resumo. O presente artigo apresenta o método (auto) biográfico, a pesquisa formação, e analisa um
Trabalho Final de Conclusão de Curso – TFCC do Programa de Pós-Graduação em Educação e Diversidade
(PPED), da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus IV – Jacobina – BA, sobre autoria de Charles
Maycon Mota (2016), intitulado: “Conhecimento de si, práticas pedagógicas e diferenças na docência rural”.
Verificou-se que o trabalho analisado teve como base os princípios da investigação qualitativa, utilizando o
método auto (biográfico), a pesquisa-formação e os seguintes dispositivos de coleta de informações: análise
documental, entrevista narrativa, oficinas formativas e narrativas (auto) biográficas. O referido estudo
rompe com o distanciamento dos espaços e dos sujeitos que produzem os conhecimentos, verificando que
na pesquisa formação se valoriza a subjetividade e os sujeitos se compreendem como agentes de mudança
e construtores do conhecimento.
Palavras-chave: Método autobiográfico; Pesquisa; Formação.

(Self) biographical method and research training


Abstract. The present article presents the (self) biographical method, the research training and analyzes a
Final Work of Completion of Course - TFCC of the Graduate Program in Education and Diversity (PPED),
University of the State of Bahia - UNEB - Campus IV - Jacobina - BA, authored by Charles Maycon Mota
(2016), entitled: "Knowledge of self, pedagogical practices and differences in rural teaching". It was verified
that the work analyzed was based on the principles of qualitative research, using the auto (biographical)
method, research-training and the following devices of information collection: documentary analysis,
narrative interview, training workshops and narratives (self) Biographical This study breaks with the distance
between the spaces and the subjects that produce the knowledge, verifying that in research training is
valued subjectivity and the subjects are understood as agents of change and builders of knowledge.

Keywords: Self-biographical method; Research;Training.

1 Introdução

Esse artigo é fruto da interpretação de um Trabalho Final de Conclusão de Curso (TFCC):


“Conhecimentos de si, Práticas Pedagógicas e Diferenças na docência rural”, do Programa de Pós-
Graduação em Educação e diversidade (PPED), de autoria do Mestre Charles Maycon Mota (2016),
para que se tenha um aprofundamento teórico do percurso metodológico, da abordagem, do
método e dos dispositivos utilizados pelo autor na realização da sua pesquisa e da construção do seu
TFCC.

1 Pós-Doutor em Educação e Professor Permanente do Programa de Pós-graduação em Educação e Diversidade,


Departamento de Ciências Humanas, Universidade do Estado da Bahia - UNEB, Campus IV – Jacobina- Bahia,
Brasil. Email: jorgeazul53@gmail.com
2 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação e Diversidade, Departamento de Ciências Humanas, da
Universidade do Estado da Bahia - UNEB, Campus IV – Jacobina- Bahia, Brasil. E-mail: edipaivasn@hotmail.com
3 Mestranda do Programa de Pós-graduação em Educação e Diversidade, Departamento de Ciências Humanas, da
Universidade do Estado da Bahia-UNEB, Campus IV, Jacobina-Bahia, Brasil. fabianacavalcante08@hotmail.com

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A abordagem utilizada por Mota (2016) foi a pesquisa-formação atrelada ao método (auto)
biográfico, por estar relacionada à ideia de aproximação entre o pesquisador e os colaboradores da
pesquisa e constitui-se como uma estratégia de autoformação quando os professores-colaboradores,
a partir de suas narrativas e as narrativas dos outros, deixam aflorar as vivências, experiências de
vida e itinerários de cada um para juntos produzirem conhecimento, caracterizando a pesquisa-
formação como um momento de interação e espaço de formação.
O método (auto) biográfico surgiu para relacionar com a proposta da pesquisa–formação, porque no
entendimento do autor o movimento das narrativas abre espaços para os docentes colaboradores de
sua pesquisa se interessarem por tecer os conhecimentos sobre si, as narrativas de vida, a fim de
possibilitar um viés diversificado para as oficinas realizadas pelo autor, caracterizando, assim, a
pesquisa-formação.
O trabalho de Mota (2016) na pesquisa-formação visa compreender como os envolvidos na pesquisa
poderiam refletir sobre sua prática a partir de suas experiências de vida, como foco epistemológico
da pesquisa qualitativa apresentando a realidade do espaço de vivências para uma interação entre os
participantes e o pesquisador. Estas características são advindas das bases filosóficas da
fenomenologia e da hermenêutica para melhor compreensão dos dados investigados.
A vertente traçada na fenomenologia e na hermenêutica foi utilizada para buscar elementos que
possibilitasse o trabalho com as subjetividades e experiências de vida dos sujeitos. Por isso, a
pesquisa, na ótica qualitativo-fenomenológico–hermenêutico, foi traçada sobre as ideias de Abreu
(2013), Fazenda (2002), Heidigger (2002), acreditando que precisamos reeducar e reorientar nosso
olhar para compreender a relação sujeito-objeto e compreender como as identidades culturais
possam ser vivenciadas no contexto escolar.
Para coleta das informações inerentes ao seu trabalho, o autor supracitado fez uso da análise
documental, das entrevistas narrativas e narrativas (auto) biográficas, bem como das oficinas
formativas construídas a partir da proposta dos ateliês biográficos. Para a realização desse trabalho,
a colaboração da Secretaria de Educação foi muito importante, pois a participação dos professores
acontecia nos dias das Atividades Complementares - ACs, os quais puderam participar ativamente
das oficinas sem comprometer as demandas exigidas pela escola. Para interpretar as oficinas, Mota
(2016) tratou-as como veredas em que foi abordado o processo metodológico apresentado,
totalizando três veredas.
Assim, esse artigo apresenta o método, a abordagem e os instrumentos que foram utilizados pelo
autor na construção de seu Trabalho Final de Conclusão de Curso - TFCC traçados por um viés (auto)
biográfico, para a construção da pesquisa-formação, tecendo o viés metodológico em uma
dissertação do Programa de Pós-Graduação em Educação e Diversidade (PPED). Diante disso, tivemos
a oportunidade de conhecer os desafios e possíveis soluções para desenvolver um trabalho nas
escolas do campo, onde o investimento para uma educação de qualidade deve partir da formação
continuada dos professores a partir das realidades vividas, para que possam construir uma proposta
de trabalho que venha garantir a aprendizagem significativa de seus alunos.

2 O método (auto) biográfico na pesquisa

A ciência moderna esteve sempre impregnada de racionalidade que apoiada em métodos e lógicas
decorrentes das ciências naturais definiu os pressupostos da objetividade, neutralidade científica,
análise de dados quantificáveis e a crença de que somente aquilo que pudesse ser comprovado
cientificamente era verdadeiro. Esta herança histórica da tradição positivista e a influência exercida
pelos métodos experimentais desenvolvidos no âmbito das ciências físicas e biológicas definiram a
história das ciências humanas, por muito tempo, marcado pelo distanciamento entre o objeto de

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pesquisa e o pesquisador, bem como pelo teste e verificação de hipóteses, entre outras
características.
Pelo fato dos pressupostos positivistas serem inadequados para o estudo dos fenômenos sociais e
para os modos novos de conceber a própria ciência, gerou um movimento de rupturas e mudanças
paradigmáticas no campo das ciências sociais no decorrer do século XX, pondo em questão os
princípios da ciência clássica. As investigações científicas no campo das ciências humanas consideram
a ciência como prática social que ocorre em condições históricas marcadas por teorias e métodos
que dependem das escolhas teóricas e metodológicas do pesquisador. Para Ghedin & Franco (2011,
p.53), “a ciência, como fenômeno social e político, carrega as marcas de um tempo histórico e
incorpora em seu fazer as representações e valores do momento”.
Nesta perspectiva, autores como Chizzotti (2006), Ghedin & Franco (2011), Fazenda (2002) e André
(1983) sinalizam que, diante da complexidade do estudo dos fenômenos educativos, novas formas de
pesquisa e atitudes metodológicas vão sendo exigidas e incorporadas ao fazer científico, tanto na
concepção epistemológica como no método utilizado. Dentro dessa proposta, a abordagem (auto)
biográfica como método/técnica de pesquisa surge na Alemanha no final do século XIX.
De acordo com Bueno (2002), essa perspectiva metodológica foi aplicada nos anos 1920 e 1930,
pelos sociólogos americanos da Escola de Chicago, dentro da pesquisa qualitativa, com a busca de
alternativas à sociologia positivista, desencadeando importantes embates teóricos no decurso de sua
evolução para o reconhecimento de seu estatuto científico.
Na década de 80, com a emergência de estudos sobre a formação docente que colocam o professor
no centro dos debates educativos e das problemáticas de investigação, veio favorecer o
aparecimento de um grande número de obras e estudos sobre a vida e formação dos professores, a
exemplo da publicação do livro “O método (auto) biográfico e a formação” por A. Nóvoa & M. Finger,
no contexto europeu.
Para Freitas & Ghedin (2015), “método (auto) biográfico” ou “histórias de vida” são considerados
como sinônimos, pois compartilham os mesmos princípios. Já Dominice & Josso (2014) consideram
“Biografias educativas” como uma narrativa centrada na formação e nas aprendizagens do seu autor,
que não é classificada de “auto” na medida em que o iniciador da narrativa é o investigador, dentre
outras denominações utilizadas.
Na intenção de mostrar a especificidade do método biográfico, Ferrarotti apud Bueno (2002, p.43)
apresenta os dois tipos de materiais que podem ser utilizados:
Os materiais biográficos primários, isto é, as narrativas ou relatos autobiográficos recolhidos
por um pesquisador, em geral através de entrevistas realizadas em situação face a face; e os
materiais biográficos secundários, isto é, os materiais biográficos de toda espécie, tais como:
correspondências, diários, narrativas diversas, documentos oficiais, fotografias, etc.
Dessa forma, as narrativas (auto) biográficas se constituem importantes instrumentos de
investigação sobre a formação de professores, pois evidenciam a questão da subjetividade do
sujeito, sua trajetória de formação e experiências de vida, fatores que têm desencadeado, cada vez
mais, a busca e a adesão de pesquisadores a estes métodos, especialmente no âmbito das ciências
sociais. Para Santos & Garms (2014), a utilização desse método visa não apenas colaborar com a
ciência da educação trazendo novas dimensões e conhecimentos, como também colocar o sujeito na
posição de protagonista de sua formação e do processo de investigação.
Santos & Garms (2014) apresentam algumas possibilidades que as pesquisas (auto) biográficas
permitem realizar. Em situações de formação de professores, podemos destacar variados tipos de
narrativas, tais como: a) Narrativas de crítica social: visam, a partir da experiência profissional,
discutir e compreender o papel histórico da escola e de seus profissionais diante das injustiças
sociais. b) Narrativas de aprendizagem: possibilitam aos professores iniciantes tomar conhecimento
a respeito da profissão que ingressa. c) Narrativas de práticas reflexivas: que se baseia na capacidade
dos professores de refletir, questionar e transformar sua prática diária. d) Narrativas sobre

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trajetórias: esse tipo incorpora todos os outros tipos de narrativas, uma vez que estimula o professor
a refletir sobre seu passado e projetar-se no futuro. e) Narrativas de esperança: lembram aos
professores o significado e o propósito da educação que é mudar a vida de outras pessoas. f)
Narrativas de liberdade: lidam com a capacidade de promover mudanças nas práticas convencionais
de ensino para alcançar objetivos que antes pareciam inalcançáveis.
Mota (2016) aborda em seu trabalho que as narrativas (auto) biográficas se tornam a condição da
reflexividade formativa, desencadeando um processo de formação, autoformação e ecoformação, e
parafraseia Pineau apud Bragança (2011) sobre:
A teoria tripolar da formação humana que envolve: auto, hetero e ecoformação. A
autoformação é a dimensão pessoal de reencontro reflexivo em que as questões do
presente levam-nos a problematizar o passado e a construir projeto sobre o futuro; a
heteroformação aponta para a significativa presença de muitos outros que atravessam nossa
história de vida, pessoas com quem aprendemos e ensinamos; a ecoformação aborda nossa
relação com o mundo, o trabalho e a cultura (Bragança, 2011, p. 159).
Nesta perspectiva, Mota (2016) desenvolve o trabalho de pesquisa-formação buscando os
fundamentos nas concepções que destacam as narrativas (auto) biográficas como uma proposta de
formação que considere o sujeito, sua subjetividade e considerando que a abordagem (auto)
biográfica pode possibilitar ao sujeito a tomada de consciência de si e de suas aprendizagens a partir
das experiências de vida e reflexão sobre suas práticas na busca da ressignificação das trajetórias de
formação.

3 Pesquisa-formação atrelada ao método (auto) biográfico

A partir do século XX muitos pesquisadores despertaram o interesse de conciliar pesquisa e formação


de professores estabelecendo os pontos de encontro e os entrecruzamentos existentes entre essas.
A pesquisa-formação ressurge, a partir do movimento biográfico, com base nas discussões de Pineau
apud Mota (2016) entre os anos de 1983 a 1985, como uma proposta metodológica que enfatiza o
compromisso do pesquisador com sua prática, focalizando uma mudança individual e coletiva, em
que há uma corresponsabilidade entre o pesquisador e os colaboradores da pesquisa, no
desenvolvimento da investigação, de maneira colaborativa.
A pesquisa-formação está atrelada à ideia de aproximação entre o pesquisador e os colaboradores
da pesquisa e constitui-se como uma estratégia de auto formação quando os professores-
colaboradores, a partir de suas narrativas e as narrativas dos outros, deixam aflorar as vivências,
experiências de vida e itinerários de cada um para juntos produzirem conhecimento, caracterizando
a pesquisa-formação como um momento de interação e espaço de formação.
Com base nisso, a pesquisa-formação é articulada ao método (auto) biográfico sendo definida como
uma metodologia que rompe com o distanciamento de espaços e de quem produz os
conhecimentos, pois todos são sujeitos em formação, tanto os investigadores como os demais
colaboradores que nela se envolvem com o propósito de formação. É através desse movimento, que
valoriza a subjetividade, que acontece a possibilidade de mudança das práticas, compreendendo-se
como sujeitos de mudança que intervêm nas realidades vividas e como construtores do
conhecimento.
Segundo Mota (2016), o método (auto) biográfico potencializa o processo de autoformação, por
possibilitar que os sujeitos se coloquem como protagonistas desse processo formativo, com vistas a
um pensar sobre sua própria prática. Considerando tais aspectos, Josso (2014, p.78-79) menciona
que essa compreensão de formação do sujeito nos faz desembocar na perspectiva de recolocar o
sujeito no lugar de destaque que lhe pertence, para tornar-se um ator que se autonomiza, tornando,
assim, um sujeito mais consciente no momento em que é capaz de intervir no seu processo de
aprendizagem e de formação para favorecê-lo e para reorientá-lo.

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Para Souza:
Através da abordagem biográfica o sujeito produz um conhecimento sobre si, sobre os
outros e o cotidiano, revelando-se através da subjetividade, da singularidade, das
experiências e dos saberes. A centralidade do sujeito no processo de pesquisa e formação
sublinha a importância da abordagem compreensiva e das apropriações da experiência
vivida, das relações entre subjetividade e narrativa como princípios, que concede ao sujeito
o papel de ator e autor de sua própria história (Souza, 2008, p. 45).

Pineau (2006) e Bueno (2002) afirmam que a abordagem (auto) biográfica prioriza o papel do sujeito
na sua formação e prioriza a autonomia docente a partir do conhecimento de si e de reflexões e
compreensões feitas das trajetórias de formação, o que quer dizer que a própria pessoa se forma
mediante a apropriação de seu percurso de vida, ou do percurso de sua vida escolar.

4 Metodologia utilizada em uma pesquisa sobre práticas pedagógicas e diferenças na


docência rural

Traçar o caminho metodológico para um projeto de pesquisa é a angústia de todos os pesquisadores


iniciantes, Ghedin e Franco (2011) falam que esse desconforto é referente aos conceitos construídos
a respeito do que seja a metodologia, pois há pesquisadores que inferem a metodologia apenas
como os instrumentos para coletar os dados da pesquisa, não adentram no sentido epistemológico
da palavra. Assim, o método torna-se um acessório à pesquisa e deixa de ser seu elemento fundador
e organizador das reflexões construtoras do conhecimento pretendido. Diante da importância da
metodologia para o projeto de pesquisa, traçaremos um viés para compreensão do Trabalho Final de
Conclusão de Curso - TFCC, apresentado ao Programa de Pós Graduação em Educação e Diversidade
(PPED) sobre autoria de Charles Maycon Mota (2016).

4.1 – Método (auto) biográfico

O método autobiográfico no campo da pesquisa educacional traz como marco dessa corrente a
história de vida, biografias educativas, narrativas de formação, vistas por Nóvoa (2010) como
sinônimos. Em seu TFCC, Mota (2016) destaca que o método (auto)biográfico surgiu para relacionar
com a proposta da pesquisa–formação, pois no entendimento do autor, o movimento das narrativas
abre espaços para os docentes colaboradores de sua pesquisa se interessarem por tecer os
conhecimentos sobre si, as narrativas de vida, como propostas integrantes do método
(auto)biográfico, a fim de possibilitar um viés diversificado para as oficinas realizadas pelo autor, que
aborda como características da pesquisa-formação, a interação entre os participantes e a construção
dos conhecimentos como fruto das experiências dos próprios sujeitos.
Para Mota (2016), as narrativas (auto)biográficas implicam no processo de (re)construção de
sentidos e significados do fazer docente, pois estas auxiliam a formação de professores em qualquer
espaço educativo, sendo que no presente trabalho visou a prática pedagógica no espaço rural, vista
pelo autor como a colaboração para o rompimento da mera reprodução dos conteúdos, auxiliando-o
no rompimento das diferenças existentes tanto nas escolas como no contexto cultural, por isso a
necessidade de uma abordagem que considere os sujeitos a partir de suas subjetividades.
O método (auto) biográfico contribui para o que Souza (2006, p. 95) considera como parte das
“experiências formadoras, as quais são perspectivas a partir daquilo que cada um viveu e vive, das
simbolizações e subjetivações construídas ao longo da vida”. Mota (2016) fala que as experiências
dos outros retoma o lugar da escuta sensível e da valorização da história de vida dos envolvidos no
referido trabalho, a escola no espaço rural, e a autobiografia é fundamental para o processo

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formativo da docência, pois os sujeitos terão a oportunidade de narrar sobre si e para si, criando
maneiras de coexistências entre os outros membros da localidade.
A (auto) biografia, pautada na relação de vida de professores, produz uma nova formação continuada
dos professores em exercício. É considerada hoje como uma formação que promove momento de
troca de experiências, incluindo história dos mais experientes, marcada pelo conhecimento adquirido
ao longo do percurso profissional. Nóvoa (2000) fala que as histórias de vida têm dado origens às
práticas e reflexões fertilizadas pelo cruzamento de várias disciplinas e pelo enquadramento
metodológico.
Para que o método (auto) biográfico seja eficaz para a compreensão e interpretação da realidade e
experiências do sujeito pelo pesquisador, a partir das histórias e narrativas de vida e formação, a
seguir teceremos sobre a abordagem que fundamentou o TFCC em estudo: abordagem da pesquisa-
formação, caminhando por uma vertente fenomenológica e hermenêutica com os princípios da
pesquisa qualitativa.

4.2 – A pesquisa-formação

O trabalho de Mota (2016) concentrou na pesquisa-formação por compreender que os envolvidos na


pesquisa pudessem refletir sobre sua prática a partir de suas experiências de vida. Esse trabalho
parte de um projeto de pesquisa com foco epistemológico na pesquisa qualitativa que enfatiza mais
o processo do que o produto e apresenta a realidade do espaço de vivências para uma interação
entre os participantes e o pesquisador. Estas características são advindas das bases filosóficas da
fenomenologia e da hermenêutica para melhor compreensão dos dados investigados.
Na perspectiva fenomenológica e na hermenêutica considera-se necessário buscar elementos que
apropriem o trabalho com as subjetividades e experiências de vida dos sujeitos. Por isso, a pesquisa
na ótica qualitativo-fenomenológico–hermenêutico traz que o conhecimento é um fenômeno e o ser
humano assume-se como centro das discussões sobre o conhecimento. É através da fenomenologia
que as experiências vividas no cotidiano precisam ser analisadas cuidadosamente pelo pesquisador,
que segundo Abreu (2013), este deve buscar ser neutro para que a pesquisa contemple a análise do
fenômeno investigado.
A fenomenologia para Fazenda (2002) caracteriza-se pela ênfase ao mundo da vida cotidiana pelo
retorno daquilo que ficou esquecido, encoberto pela familiaridade, pelos usos, hábitos, linguagens
do senso comum. Por isso, essa vertente trará ao contexto escolar as identidades culturais/pessoais
que compõem a identidade do campo e aproximará ao máximo a prática pedagógica ao cotidiano
dos alunos.
No campo empírico, a fenomenologia é o caminho que leva nosso existir simplesmente como ele se
mostra. Heidigger (2002) acredita que precisamos reeducar nossos olhos e reorientar nosso olhar
para compreender a relação sujeito-objeto e também compreender como as identidades culturais
possam ser vivenciadas no contexto escolar.
De acordo com as visões dos autores citados, a pesquisa-formação acontece mediante
interpretações das informações coletadas a partir das narrativas autobiográficas e das histórias de
vida dos colaboradores da pesquisa. Mota (2016, p. 28) traz um quadro com o perfil biográfico
elaborado a partir das informações coletadas através das narrativas, para poder constituir as oficinas
formativas.
Contudo, para efetivação de um projeto de pesquisa eficaz, não podemos esquecer a contribuição
dos instrumentos utilizados para adquirir as informações básicas para construção do trabalho final.
Assim, discorreremos sobre os dispositivos para coleta de dados, visando um viés pertinente de
informações. No TFCC em análise, trata-se de quatro instrumentos, tais como: análise documental,
entrevista narrativa, oficinas formativas e narrativas autobiográficas.

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4.3 - Dispositivos de coleta

No exercício de buscar informações para a construção de um trabalho ou projeto é preciso pensar


em mecanismos que forneçam dados para descrição teórica que não se dirija a um único público
leitor, e que forneça a este várias possibilidades de leituras e interpretações. Para isso, os
instrumentos para adquirir as informações precisam trazer um contexto sucinto para que o
pesquisador possa concentrar nas potencialidades e perspectivas criativas de construção que tragam
ao leitor uma compreensão transparente dos significados culturais. O viés desse trabalho consiste
em compreender a importância da análise documental, das entrevistas e das oficinas para projetos
de pesquisa, e apresentar como o autor do trabalho em análise utilizou desses instrumentos para
obter as informações necessárias para fundamentação de suas categorias teóricas.

4.3.1 - Análise documental

A análise dos documentos tem valorização de objetividade, indelével para os pesquisadores, no que
tange as manifestações artístico-culturais, pois incluem processo histórico. Ludke & André (1986)
salientam que os documentos na pesquisa qualitativa são fundamentais como aporte para a pesquisa
de campo, que se torna indispensável devido a maior parte das fontes escritas serem quase sempre a
base do trabalho de investigação.
Mota (2016) usou a análise documental para visualizar, a partir das fichas dos alunos, os
encaminhamentos feitos ao Centro de Referência e apoio Pedagógico, onde ele pode perceber que a
maioria dos alunos atendidos nesse Centro eram alunos da roça. Foi a parte da pesquisa que,
segundo o autor, trouxe relevância pois, a partir da análise dos documentos, foi possível selecionar
os colaboradores da pesquisa.
Contudo, ao utilizarmos os documentos na definição por um instrumento de investigação, os
escolhemos por estarem diretamente relacionados à natureza e aos objetivos da pesquisa, assim
como também às condições estruturais que nos auxiliarão a responder às questões de investigação e
apreender o objeto de estudo. Devemos buscar fazer uma tessitura coerente em todo o
delineamento do planejamento e execução de estudo.

4.3.2 - Entrevista narrativa e narrativas autobiográficas

No sentido real, a entrevista narrativa caracteriza-se pelo método de analisar algum conceito, serve
de suporte para análise de dados que desejamos obter durante todo o processo da entrevista. Para
Almeida (2001, p. 147), “nada melhor do que ouvir as pessoas, escutar suas lembranças, comparar
suas falas, percebendo diferenças e semelhanças entre elas”.
A entrevista narrativa desenvolvida por Mota (2016) foi realizada após a pesquisa-formação, foi a
forma que o autor encontrou para buscar complementar as narrativas apresentadas nas memórias
de formação. Foi o caminho encontrado para preencher as lacunas a respeito das concepções dos
professores da roça.
Diante a aproximação de professores e pesquisador no momento das entrevistas e da reflexão sobre
a prática vivenciada em sala de aula, Mota fala que as narrativas (auto) biográficas oferecem para
formação docente, no que se refere à sala de aula, a capacidade transformadora ao mobilizar
experimentos do ser e do fazer. É por esse caminho que se faz acontecer a humanização, o
entrecruzamento das culturas presentes no meio escolar.
As narrativas (auto) biográficas apresentadas por Mota (2016) foram a possibilidade encontrada para
que ele pudesse perceber qual o caminho formativo seria significativo para as ações dos docentes na
escola rural ou da roça como ele trata no seu trabalho. Bertaux (2010) fala que:

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A utilização das narrativas se mostra particularmente eficaz, pois essa forma de coleta de
dados empíricos se ajusta à formação das trajetórias; ela permite identificar por meio de que
mecanismos e processos os sujeitos chegam a uma dada situação, como se esforçam para
administrar essa situação e até mesmo para superá-la. (Bertaux, 2010, p.27).

Os conhecimentos da teoria referentes às narrativas por meio das entrevistas e das narrativas (auto)
biográficas possibilitaram ao pesquisador perceber as vivências formativas dos colaboradores de sua
pesquisa, e contribuiu para construção da etapa seguinte que foi as oficinas formativas construídas a
partir dos ateliês biográficos.

Considerações finais

As oficinas formativas possibilitaram a Mota (2016) produzir a proposta de formação para os


docentes das escolas rurais em colaboração com a secretaria Municipal de Educação. As formações
por ele realizadas aconteceram nos espaços destinados às atividades complementares - ACs, sem
comprometer as reuniões já estabelecidas pelos participantes da pesquisa.
Em seu trabalho, Mota (2016, p. 29) traça como aconteceram as oficinas formativas, pois a
“perspectiva de formação que quer enfatizar nesse contexto emerge das relações de
intersubjetividade que acontecem a partir dos sentidos e significados que se dão nas inter-relações
dos sujeitos”. Ele faz uma comparação das oficinas com um “bordado onde se laça para um tecer que
exige nós”, é sem dúvida um processo formativo que precisa ser bem alinhavado e amarrado, para
que se construa uma prática pedagógica reflexiva e duradoura, que tenha significados para os
docentes e que favoreça a aprendizagem crítica e reflexiva dos alunos.
Na trama do tecer as oficinas, Mota (2016) enumera as etapas das formações como Veredas. Foram
vinte e sete horas de formação divididas em três veredas que constituíram o “Plano de formação
docente: uma construção coletiva”.
Na primeira vereda o pesquisador apresentou a proposta da oficina formativa, explicando passo a
passo como seria a dinâmica do trabalho. Ele usou o método autobiográfico para fundamentar o
processo de formação das histórias de vida, como referência teórica usou Deliry-Mamberger (2006,
p. 32), que contribuiu ao falar que “o objetivo do ateliê é precisamente dar corpo a essa dinâmica
intencional, reconstruindo uma história projetiva do sujeito e extraindo a partir dela projetos
submetidos aos critérios de exequibilidade”. Caminhando nessa vereda para encontrar a prévia do
trabalho, tecendo questionamentos sobre a formação continuada, as dificuldades de trabalhar com a
diversidade em sala de aula.
A segunda vereda foi a socialização das narrativas (auto) biográficas, em que os próprios
participantes eram eleitos escribas para anotar as narrativas e as intervenções feitas pelos mesmos.
Foram discutidas nesse momento as questões referentes à identidade e diferença, em que as
concepções de Tomás Tadeu da Silva (2011) foram significativas. Os participantes foram instigados a
ler o texto de Candau (2011) “Diferenças Culturais, cotidiano escolar e práticas pedagógicas” para
socialização e encerramento da vereda.
Para a terceira e última vereda o pesquisador Mota (2016) dividiu em momentos para socialização
das impressões dos professores colaboradores a partir da realização do painel: intersecção das
diferenças com os alunos, em que os professores colaboradores enfatizaram a importância da
atividade, assim puderam conhecer melhor seus alunos. A partir dessas reflexões foi construído de
forma colaborativa o “Mosaico Cultural: sujeitos de se/fazer/viver”, para compreensão da
importância cultural, sendo uma atividade a ser trabalhada em sala de aula, que no encontro
seguinte os professores socializaram com o pesquisador a importância da atividade. E aproveitando o
ensejo, apresentaram o panorama que as oficinas trouxeram para a prática pedagógica no espaço

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rural, fazendo um apanhado dos pontos que teceram o bordado, dando os nós corretos em cada
laçada para que a trama ficasse firme e tivesse prosseguimento, pois no bordado da educação não há
ponto final.
Diante da análise realizada no TFCC podemos constatar a importância das oficinas formativas e das
narrativas (auto) biográficas para a pesquisa-formação, usadas como um caminho para compreender
o processo de educação e formação dos professores das escolas da roça, no seu duplo desafio de
ensinar em turmas multisseriadas, e conhecer a importância da valorização da identidade cultural
que forma a identidade do aluno.

Referências

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Cardoso Cavalcante, Denise Maria Gurgel Lavallée; revisão científica Maria da Conceição
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