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RÜSEN, Jörn.

Explicação narrativa e o Revista da SBPH


problema dos construtos teóricos de narração. 093, São Paulo. 1986/87
Revista da Sociedade Brasileira de Pesquisa
Histórica, São Paulo, n. 3, p. 97-104, 1987

EXPLICAÇÃO NARRATN A E O PROBLEMA OOS CONSfRUTOS


TEÓRICOS DE NARRAÇÃO·

COIno podemos definir a forma específica de explicação teórica para a Ciên-


cia Histórica? Levando em consideração que o conhecimento histórico, diferente-
mente de outros conhecimentos, se caracteriza por sua estreita ligação com a praxis
da vida cotidiana, social e política, surge a pergunta, se não haveria exatamente na
narração histórica um potencial explicativo do qual a ciência histórica se utiliza.
Toda a nossa argumentação anterior nos conduz a esta conclusão. Mostramos até
agora que a Ciência Histórica usa explicações nornológícas 'e intencionais e tam -
bém teorias, sem considerar que um destes esquemas de explicação fosse especi-
ficamente o esquema de uma explicação histórica. Olhando mais de peno perce-
be-se que a explicação histórica Se dá na- forma de uma explicação narrativa.
O que queremos dizer com ISSO? Na Ciência Histórica, encontramos expli-
cações nomoíógicas e intencionais no contexto de histórias. As explicações fazem
parte de uma sequéncía de afirmações narrativas. São "narradas" sequências no
tempo como mudanças de situações e condições do mundo humano. Ou por ou-
tras palavras, a-firmações da Ciência Histórica se referem à seqüência temporal de
situações: dizem que num determinado momento (tI) algo era de um modo; num-
segundo momento (t2) de um outro jeito; num terceiro momento (t3) novamen-
te diferen te .
Este algo - sujeito de referência de uma história (S) pode ser um homem
(Brutus), um grupo social (o operariado), um conceito (a humanidade), um ali-
mento (o arroz), um preço (o preço do trigo), um setor da economia (o artesa-
nato), ou seja algo no horizonte de experiên-cia da vida cotidiana dos homens que
pode assumir uma importância e um significado na orientação temporal da pra -
xis da vida cotidiana. Histórias afirmam que com este algo (S) acontece algwna
coisa no decorrer do tempo: Brutus mata César para salvar a república; o opera-
riado constitui-se na Alemanha da segunda metade do século XIX numa organi-
zação poh'tíca; o conceito de humanidade desempenha na segunda metade do
século XVIII, no discurso ,do iluminismo alemão, wn papel emancípador e crí-
uco! ; o arroz fol introduzido no sul da China por volta de 2_000 ou 2.150 A.C.,

LH. E. Bodeker, "Menschheit, Humanitât, H~ (Humanidade, Hurnanísmo), In:


Gnchichliche Grundõqrifte. HistoTÚChel Le~ ZUT poIitisck - soWden SpriZdre i"
~tschland, (Conceitos fundamentais da História. Léxico histórico da linguagem polí-
tico-social na Alemanha), vol. 3, Stuttgart, 1982, p. 1063/1128.

• Rüsen, Jôrn, RelOll3trukdon der VI:1pllg~t. (Reconstrução do passado), Gõttíngen.


Vandenboek/Rugnecht. 1986, p. 37-47. Tradução de Augu&tinWemet. -
aperfeiçoa-se pelo cultivo naquela regrao para a forma atual e modifica a vida
chinesa de maneira decisivas ; na Europa Central. o preço do trigo caiu entre os anos
1817 e 1825 e em seguida subiu novamen te 3.

Esquematicamente podemos representar tais fenômenos comosimples sequén-


cías temporais de diferentes situações de S:

SI 82 Sn

A Ciência Histórica não apenas narra tais acontecimentos e processos como uma
sucessão de situações, mas' também pretende explícã-los. Mostra por que SI evo-
luiu para S2 e, passan40 por algumas fases intermediárias, para Sn. Dependendo da
questão "o que" deve ser explicado, usa a Ciência Histórica diversas formas de ex-
plicação e diferentes teorias. Pode proceder desta maneira sem incorrer em erros
de lógica porque explicações nomológicas e explicações intencionais não se contra-
dizem. Elas são complementares. Investigando minuciosamente os passos da argu-
mentação explícatíva de uma história, percebe-se que a explicação como SI levou
a S2 nunca está completa, nem no esquema nomológico, nem no intencional. Ela
nunca satisfaz inteiramente as exigências de uma explicação teórica (a passagem
de SI para S2 não aparece como um caso singular de uma regra geral, como apli-
cação de uma lei geral ou como execução de uma ação intencional).
No lugar disso passa-se de SI para S2 num procedimento narrativo. Durante
a narração da-se as explicações, mas não em todos os seus passos e todas as suas
fases. O que quer isso dizer? Como se dá isso? Exemplificando (por motivos de
simplificação) apenas com explicações nomológícas, podemos caracterizar estes
passos a estas fases da seguinte maneira. Explica-se apenas parcialmente o S2, por-
tanto apenas como 82', como resultante da condição antecedente (ou precedente)
S1 juntamente com leis gerais. Exemplo: uma determinada crise econômica expli-
ca-se com a condição precedente. da desvalorização da moeda e com a "lei de Gres-
ham"; neste caso não se explica a crise econômica. mas apenas a inflação que,
obviamente, é uma parte da crise econômica. mas para explicar suficientemente
que 82 seria a sequêncíà temporal necessária e suficiente de SI, fornecem-se infor-
mações adicionais (D2) que não possuem uma relação nomológica com 52. Destar-
te 52 recebe um caráter de plausibilidade através de S2' e D2. Exemplo: apresenta-
se a plausibilidade de ser a crise econômica o resultado, da inflação e de outros fa-
tores como guerras que antecederam, desemprego, etc. Um passo explicativo na
Ciência Histórica pode, portanto, ser representado da seguinte maneira:

82'
Sl S2
D2

o mesmo esquema tem também a sua validade nas explicações intencionais. A


Ciência Histórica trata de situações (S2) que, por seu maior grau.de complexidade,
não podem ser explicadas como resultado apenas de ações intencionais. Exemplo:

2. F. Braudel, Geschichie der Zivilízoüon: 15. bis 18. Iahrhundert, (História da Civilização:
século XV ao XVIII), Munique, 1971, p. 152.

3. w. Abel, Agrarkrisen und Agrarkonjunktur. Eine Geschichte der Land --14M Emiih1'U1lgfwirts-
elulil Mirteleuropos se/t dem hohen Mitrelalrer. (Crises agrárias e conjunturas agrárias.
Uma história de agricultura e economia desde os fins da Idade Média), Hamburgo, 1966,
p.210.

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uma determinada situação da república romana, que essencialmente contribuiu
para a morte de César, mas não pode ser explicada suficientemente por seu assas-
sínio por Brutus, precisa, portanto, ainda de outras explicações, como por exem-
plo, as de caráter institucional e constitucional. Intencionalmente explica-se apenas
uma ação (S2') que é um dos fatores deterrninantes da situação S2, mas não a si·
tuação S2 como tal. Além do "explauans" (motivos da ação) precisa-se de outros
fatos cxplicativos (D2) (circunstâncias da ação e seus condicionamentos que não
aparecem, ou apenas aparecem sob outras circunstâncias nas avaliações de situa-
ções que motivaram a ação).

Podemos representar esquernaticamente a corrente narrativa de afirmações


explicativas na Ciência Histórica da seguinte maneira" :
Esquema de argumentação histórica (conforme Hempel e Stegmüller)

S2' S3' S'n


SI S2 S3 . S n-I Sn
D2 D3 Dn

Estes passos explícativos meio esquisitos, comparando-os com os esquemas da ex-


plicação nomológica e intencional, não assentam na fraca capacidade, ou incapaci-
dade, da disciplina histórica que ainda não conseguiu descobrir leis gerais num sen-
tido restrito que permitissem uma conexão causal de SI para Sn passando por vã-
rias fases intermediárias. Não se trata, portanto, de explicações pouco consistentes,
devido à enorme complexidade do setor epistemolôgico da História, que ainda não
teriam conseguido a construção de um esquema teórico ou nomológico à altura
de outras ciências. Pelo contrário, somos de opinião que este caráter incompleto
da explicação histórica, esta falha de não conseguir passos explicativos rigorosos
na argumentação histórica, é um sinal .da .madequação para a especificidade do
pensamento histórico, para os seus interesses epistemológícos constitutivos da te-
mática da Ciência Histórica, que não se, enquadra nos esquemas das explicações
nomológicas nem nas das explicações intencionais. Estes elementos adicionais
na explicação, denominados Dl , D2. Dn, são necessários e exigidos a partir do ob-
jeto em questão. Com este procedimento o pensamento histórico leva em conside-
ração as necessidades de orientação de vida, necessidades constítutívas da própria
Ciência Histórica. Estas necessidades de orientação superam muito os esquemas
explicativos e esquemas de pensamento das explicações nomológicas e intencionais.
No pensamento histórico trata-se, em resumo, da seguinte questão".
A Ciência Histórica deve. pela lembrança, transmitir aquelas intenções da
praxis humana passada que superaram as circunstâncias e os condicionamentos
de então, juntamente com as experiências da dimensão "tempo". Tudo isso deve
ser feito de tal maneira que a praxis vital na atualidade possa ser orientada na sua
dimensão temporal, isto é, nas modificações e/ou mudanças do mundo humano
atualmente experimentadas. Aliás, o tomar presente a dimensão do tempo do passa·
do, que é tarefa da Ciência Histórica, não se consegue nem num esquema nomoló-
gico de explicação cíennfíça, nem num esquema hermenêutico, Pretendo, na se-
quéncía, fundamentar melhor esta última aflrrnacão,

4.Cf. W. Stegmliller, "Probleme und Resultare der Wissenschaftstheorie und analytischen


Phílosophie" (Problemas e resultados da teoria científica e da filosofia analítica), vol. I,
Wissenschaftliche Erk1áhmg und Begrundung' (Explicação científica e fundamentação
científica), Berlim/Heidelberg, 1969, p. 165/172.

5.ldem, vol. I, p. 4955.

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Procedendo nomologicamente, o pensamento histórico faria um corte radi-
cal entre o excesso de intenções da praxis concreta e real da atualidade e a experiên-
cia da dimensão "tempo" do passado, ligação essencial e fundamental! do pensar
histórico. Referente ao passado, o procedimento nornológíco poderia reconstítuir
explicar somente aquelas sequêncías na sucessão do tempo que se repetem, ou
seja, aquelas circunstâncias e condicionamentos do agir e sofrer atual que, até um
certo grau, são uma repetição das circunstâncias e condicionamentos do agir e
sofrer do passado humano. Por causa da sua importância em dimensão técnica e prag-
mática do- agir humano, um tal conhecimento e saber é insubstituivcl para o agir
humano na atualidade. Este saber, entretanto, é insuficiente para a orien tação di!
praxis concreta e real humana naqueles casos em que as intenções pretendem ir
além e/ou superar estas circunstâncias dadas e os condicionamentos dados. O pen-
samento histórico recorre, por causa desta sua função orientadora, a experiências
no tempo que foram deixadas de lado, sistemática e intencionalmente, no pro-
cedimento nomolôgíco. Tais experiências, por exemplo, são experiências de mu-
danças que não conesponderam a uma regularidade esperada ou a uma lógica quase
inerente ao objeto em questão. Estas experiências, comparando-as com as que po-
dem ser explicadas nomologícamente, possuem as características da "contingência".
Com as informações adicionais (D2, D3, ... Dn) explica-se, no esquema de uma
argumentação histórica, aqueles aspectos de 52, 53, ... Sn que, em comparação
com os que são acessíveis a explicações nomológicas 82', 83' ... Sn', possuem um
aspecto de "contingência".
Com razão, nas recentes dicussões sobre o status teórico da Ciência Histórica,
atribuiu-se muitas vezes à História a função cultural de explicação e domínio dos fa-
tores contingentes da História Humana, E com isso atribuiu-se Ciência Históri-
â

ca um status específico ao lado do das Ciências nomológícass , Mas. a nosso ver,


°
esta colocação é problemática por dois motivos. Em primeiro lugar, próprio pro-
cedimento nomol6gico é um meio, um método para superar, explicar e dominar
as situações contingentes. Esta superação e explicação/dominação se faz pela des-
coberta de regularidades, leis e conexões causais até então desconhecidas. fazendo
com que "experiências contingentes" até este momento não possuam mais, daquele
momento em diante, esta característica. Se for assim, o pensamento histórico
teria apenas uniá função de compensação. Apenas aquelas experiências no tempo
que não são explicáveis nomológicamente seriam objeto da explicação histórica.
Dependeria, portanto, das capacidades e limitações epísternológícas do procedi-
mento nomológico ou, por outras palavras, a Ciência Histórica deveria apenas
tratar de migalhas caídas 01) deixadas na mesa das Ciências Sociais que procedem
nomológicamente. Parece óbvio que estas migalhas nunca vão faltar, mas. sem dú-
vida, resta como avaliar esta superação / solução desses casos pela História, pen-
sando na contínua e parcial superação I solução pelas Ciências Sociais. Explicação
histórica é explicação de segundo grau, acreditando que uma eliminação I domina-
ção / solução das contingências, via procedimento nomo16gico, seria a melhor
solução; ou defende-se o ponto de vista de que uma explicação histórica é suficiente,
acreditando que há a necessidade de aceitar as contingências. sem a insistência
na necessidade da sua eliminação / dominação / superação I solução.
Levando em consideração o fato de que há uma base comum entre o conhe-
cimento histórico e o conhecimento nomo16gico no sentido em que ambos corres-
ponderiam a necessidades de orientação da praxís humana,' a seguinte conclusão
teria até um elevado grau de plausibilidade: o pensamento hístôríco abre a nossa

6.Cf.: H. Lübbe, Gnchichtsegrlff und Geschichr8intuesse. (Conceito de ~tória e interesse


"histórico"), Basílela, 1917. Do mesmo autor: Was Heisst: "Das kann man nur historlsch
erklaren"? (O que significa: "Isto somente pode ser explicado hUtoricamente"n:

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mente para o caráter contingente das mudanças temporais do homem e do seu mun-
do e, com isso, o pensamento histórico rompe o esquema das explicações nomoló-
gícas destas mudanças, fazendo com que se entreveja possbilídades de realização
das intenções humanas que superam as circunstâncias e os condicionamentos dados.
Podemos denominar liberdade aquele "algo" que move os homens a elevar-se
intencionalmente das circunstâncias dadas e dos seus condicionamentos, na sua
praxis vital de cada dia, e com este procedimento, engajar-se e participar ativamente
nas mudanças do seu mundo. A liberdade, entendida neste sentido, é a condição
sine qua non para a experiência da contingência. E o pensamento histórico insiste
na lembrança de situações de contingência no passado histórico da humanidade.
A contingência, portanto, é vista e interpretada como condição de liberdade. Des-
tarte , a contingência apresenta-se como a "sombra empírica" da liberdade humana.

o pensamento histórico supera f explica / domina as experiências de contin-


gência da atualidade, na medida em que este não as elimina por um procedimento
nornológico e generalizante, mas na medida em que o pensamento histórico as in-
terpreta como espaço e possibilidade de liberdade. O pensamento histórico realiza
isso lembrando e revívendo sequências temporais de caráter contingente, de mu-
danças históricas como história de possibilidades de liberdade, como história de
aberturas, realizações, fracassos, falhas expectativas. Resumidamente 'falando,
a Ciência Histórica lembra de todas as formas em que a liberdade humana se pode
manifestar - exprimir - demonstrar ...
Admitindo a validade das explicações intencionais, exclusivamente, as expe-
riências de praxis humana do passado conservariam os rastros da intencionalidade.
Mas, também neste caso, iam-se perder as "contingências", com cuja explicação I
superação / solução / domínio o conhecimento histórico está preocupado. A con-
tingência da execução de ações intencionais consiste no fato de que estas ações
dependem de circunstâncias e condições que, na sua totalidade e em todas as suas
dimensões, não foram devidamente calculadas pelos agentes. O pensamento histó-
rico abre-se para um certo espaço de irnponderabilidade dentro do qual se realizam
ações intencionais. Com este procedimento, o pensamento histórico insiste na exis-
tência de um "superávit" ou de uma irnprevisibilidade no quadro da praxis da
ação humana a partir da intencionalidade humana, imprevisibilidade que é parte
de real liberdade.
Também neste sentido, a questão fundamental do pensamento histórico
é a dimensão de liberdade. Mas esta liberdade estará sempre delimitada a circuns-
crita pelos fatores de condicionamentos, fatores que funcionam como elementos
de estímulo de possibilidades de realização.
Se a argumentação explicativa da Ciência Histórica, em comparação com os
esquemas nomológícos e intencionais de explicação, ficam num status de imperfei-
ção, de "falha", surge a pergunta: há a possibilidade de elaborar um esquema ex-
plicativo diferente destes dois esquemas conhecidos? Tal esquema de explicação
seria, obviamente, o esquema específico de explicação histórica, Mas qual seria
esse esquema específico de explicação histórica, tomando como ponto pacífico
a opinião de que explicações nomológicas e hermenêuticas seriam apenas modos
auxiliares de uma explicação suí generis?
Para responder esta questão, devemos deixar claro, num primeiro momento.
que "modelo de perguntas porquê" são "perguntas porquê históricas". Perguntas
deste tipo exigiriam uma resposta tipicamente histórica e uma explicação tipicamen-
te hist6rica. Um I!JCplanandum historicum .é uma mudança, no tempo, de algo.
Um exemplo, modelo deste tipo de explicação, é o fato de que o Conde de Buckín-
gham até o ano de 1623 teve o plano de casar o príncipe Charles com a íafanta

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Dona Maria, mas a partir deste mesmo ano deixou este plano de lado i> O explanans
é o fato que ele numa viagem com o herdeiro do trono, neste mesmo ano, para a
Espanha mudou a sua opinião sobre a eventual ligação das casas dinásticas da
Inglaterra e da Espanha. A conexão lógica entre o explanandum e o explanans
é a de uma história: início e fim desta história é a mudança na história a ser ex-
plícada; no meio fica o processo que explica esta mudança. O NARRAR DA ms-
TORiA E ELE MESMO UM PROCESSO DE EXPLlCARII. Explicações especifi-
camente histôricas são, portanto, explicações narrativas. Podemos explicitar e
esquematizar o esquema destas explicações narrativas da seguinte maneira.
Os exemplos com os quais a literatura específica apresenta a especificidade
e particularidade das explicações históricas como, por exemplo, a do Duque de
Buckingham, compartilham de perigos de malentendídos. Já que se trata quese que
exclusivamente de histórias de acontecimentos únicos e singulares (mudanças de
opinião de um duque, amassamento de um carro ... ), surge quase que forçosamente
a opinião' que explicações narrativas referiam-se unicamente ao nível de aconteci-
mentos, mas não a níveis que tratam de conexões estruturais de eventos e de ní-
veis, portanto, nos quais aparecem, em primeiro lugar, agentes históricos. Mas esta
opinião está errada: S pode ser um complicado sistema sócío-econômico, como por
exemplo o da Inglaterra, como também obviamente um duque, e F, H podem
ser sistemas complicados de características, como por exemplo o de uma sociedade
agrária de um determinado tipo, ou de uma sociedade industrial na sua fase pré-in-
dustrial; também os processos G, 'que acontecem paralelamente a S, podem ser di-
ferenciados, do' modo que se modifica de F para H. A história correspondente
seria a da industrialização da Inglaterra.

ESQUEMA DE UMA EXPLICAÇÃO NARRATlVA(conforrne DANTO)

(I)SéFemtl
(2) G acontece com S t2
(3) S é H em t3

Explanandum; (J) e (3)


Explanans: (2)

S= Sujeito de uma história


F = Estado ou fase inicial
H= Estado ou fase final
G:: Devír - Acontecer

O esquema de uma explicação narrativa, portanto, atinge o pensamento


histórico na sua totalidade. B tão típico para o modo de explicação da Ciência
Histórica como o narrar histórico é constitutivo para o conhecer histórico. Per-
cebe-se com isso, claramente, que previsões, no pensamento histórico, não têm pa-
pel algum, sem que, com isso, se pretenda cortar a dimensão do futuro. Explica-
ções históricas, portanto, têm fundamentalmente o caráter de reconstrução e, por
isso, basicamente, não se referem a uma transposição temporal do explanandum
parl\ o futuro com uma' previsão. E assim porque o explanandum já contém a
7.CL F. C. Dablmann, Geschichte der englischen Revolution. (História da Revolução Inglesa),
Leipzig, 1844, p. 15955.

8.CL A. C. Danto, Analydsche Phllosophie der Geschichte. Frankfurt, 1974. {Filosofia


Analítica da História).

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diferença de tempo o qual faz parte de previsao. A diferença de tempo entre t l
e t2 não está localizada, como no caso de uma explicação nomológica, entre o
explanans e o explanandum, mas no próprio explanandum (na explicação nomo-
lógica o coeficiente de tempo atribui-se aos dados antecedentes e ao explanandum].
Obviamente é possível imaginar que o t3 localiza-se no futuro. Mas neste cá-
so ainda não há uma previsão, apenas um decorrer histórico fictício: procura-se
mostrar o que deve acontecer com S, que possui as características de G (agora
ainda) para que não seja mais G mas H. Esta imaginação de um futuro histórico
fictício aconteêê muitas vezes. Até tiro certo grau faz parte de toda e qualquer
consciência histórica na forma de perspectivas e expectativas referentes ao futuro
que se baseiam ou fundamentam em lembranç~ do passado e ao mesmo tempo
são condicionados por intenções normatívas. A simetria entre explicação e pro-
gnose I previsão no esquema nomológico, corresponde, no esquema narrativo de pen-
sar, a simetria entre lembrança e expectativa, no segundo, a idéia da existência de
uma abrangente continuidade. Mas expectativa não significa prognose como previ-
são exata. Trata-se, neste caso, mais .de uma esperança fundada.
Com o esquema da explicação narrativa podemos mostrar melhor aquilo
que se trata nas discussões sobre teorias históricas. Num primeiro momento temos
que lembrar que teorias (como por exemplo leis no esquema nomológíco) não sur-
gem como elementos constituitívos de explicações históricas conforme o esquema
narrativo. Fica, neste contexto, a pergunta se a Ciência Histórica precisa ou não
de teorias". O aqui idealizado esquema de explicações narrativas elementariza
o explicar histórico de maneira que não se entrevê ou percebe mais a sua realiza-
ção especificamente científica. Como aliás também no esquema de explicação
herrnenêutica não há teorias científicas sobre a intencionalidade e também no es-
quema de explicação nomológica a forma das leis não é detalhada de maneira es-
pecífica para as teorias nomológicas. Sentenças simples do tipo "se ... então"
ainda não são leis ou teorias. Mas isto não significa que algo como "teorias hístó-
ricas", enquanto elementos adicionais do esquema de explicação narrativa com as
suas características constitutivas e essenciais, sejam introduzidas artificialmente em
nome da ciência ou da cíentificídade. Pelo contrário: a existência, particularidade e
função das teorias históricas .deviam ter a sua origem nos elementos constitutivos
da explicação histórica como tal, isto é, deveriam ganhar plausibilidade no esquema
da explicação histórica.
Uma olhada nos outros esquemas de explicação poderia deixar mais claro o
que está em questão com a discussão ao redor de "teorias". No esquema nornoló-
gico trata-se da formulação generalizante da conexões entre dados do tipo de condi-
ções iniciais e o explanamdum. Esta formulação cobre e protege com o seu grau
de generalidade a conexão particular dada entre as condições iniciais e Q respecti-
vo explanandum (covering law). Esta mesma função de cobrir e proteger em grau
de generalidade encontramos também nas explicações herrnenêuticas que formu-
lam e explícítam, pela explicação intencional, conexões entre os motivos (a moti-
vação) e as ações; reduzindo ou explicando determinadas ações a ou com determina-
dos motivos. Um tal conhecimento de caráter genérico (elevado grau de generali-
dade) usa-se também na explicação histórica. Cada historiador que explica as mu-
danças havidas num grupo ou formação social pela narração do processo de sua
transformação do estado inicial para o posterior, usa ou trabalha com um conheci-
mento que se assemelha a um conhecimento teórico sobre a dinâmica da mudança
de grupos ou formações sociais. Burckhardt diria "potencial" de mudanças. Neste

9. H. Liibbe, "Wieso es keine Theoríe der Gescníchte Gíbr", tn: KockatNípperdey (org.),
Theorie und Eriiihlung in der geschichte. p. 6S{84 (Porque não há uma teoria na História,
In: Teoria e RamJção da Htuôna}.

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procedimento leva-se em conta, de maneira específica, a dimensão temporal destas
formações/grupos. Teorias históricas, portanto, cobrem e protegem, de certa manei-
ra, o espaço ou diferença temporal entre TI e 12, e nele nela deixam visíveis ou
manifestas as situações que devem ser conhecidas, se queremos saber como se deu
a passagem de F para H. Com a ajuda do conhecimento destas situações podemos,
em seguida, especificar e concretizar o dcvir temporal ou a passagem no tempo
S(F) tI __ S (G) t2..,.. ~(H) t3. Destarte , por exemplo, a teoria do imperialismo
cobre o espaço temporal do fim do século XIX e início do XX e o caracteriza
com os fatores predominantes na política externa em dependência de determinados
desenvolvimentos internos.
Deveríamos ainda explicitar e discutir detalhadamente a estrutura e a função
de tais teorias e dos seus elementos constitutivos, os conceitos históricos, mas aqui
nos interessa apenas a sua caracterização esquemática, o seu status e a sua função
na explicação histórica. Fica a pergunta: é possível, ou não, descrever de maneira
simples e elementar a forma específica da "teoria" do conhecirnen to hístóríco
de acordo com o esquema narrativo? O esquema de uma explicação narrativa é
ao mesmo tempo o esquema elementar de uma história (inicio, meio e fim de uma
conexão temporal, de uma mudança de algo ou de um acontecer). A "forma de
teoria" de urna história, subjacente a tal esquema elementar, seria Sua trama: ela
indica o início e o fim e diz o que é importante nos passos ou nas fases que levam
pela narração e argumentação do início ao fim 1o. Esta trama cobre e protege
a história assim como a lei estabelece li conexão entre os dados iniciais e o expla-
nandum e assim como, na hermenêutica, se estabelece a conexão entre os motivos
e as ações. Ela indica, de certa maneira, o fluxo do discurso do mesmo modo que
o conhecimento teórico (nomológíco ou hermenêutico) indica 'ou determina a que
dados iniciais e circunstâncias antecedentes o explanandum deve se referir. f ób-
"10 que nestes procedimentos se precisa muitas vezes de argumentações teóricas
complexas, sobretudo em casos nos quais estas conexões não são tão triviais como
no caso do Duque de Buckingham com os seus planos de casamento. Esta comple-
xidade certamente estará presente, se o historiador pretender explicar historica-
mente o crescimento populacíonal ou a industrialização da Europa.
Analogamente à trama, termo emprestado da literatura, pretendemos de-
finir a específicidade e a função de teorias históricas só provisoriamente. Elas são
"construtos de histórias", andaimes de narração, planos de construção (metafo-
ricamente falando). Elas servem para dar às explicações históricas uma certa trans-
parência também naqueles casos em que se Usa não somente conhecimento nomo-
lógico e herrnenêuticc, de maneira subsidiária, com os seus elementos teóricos,
mas também a própria apresentação narrativa de um dever temporal possui função
explicativa.

lü.Referente à trama veja-se: P. Ricoeur, "Warrative Time", In: Critical Inquiry, 1"981, p.
169-190.

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