Você está na página 1de 1

ZÉ GALO

O plantel já foi bem maior, mas foram morrendo e chegamos a quatro galinhas, uma das quais
inventou de ser choca perene e não há dia ou noite que a convença da inutilidade. Busquei
reposição e fiquei sabendo que o fornecedor, em tempo de pandemia, desistiu do negócio de
criar e vender pintos. Mas até isto? Até onde vai esta encrenca?

Num belo dia encontrei a solução autônoma: comprar um galo e multiplicar o plantel. Por que
não pensara nisto há mais tempo? São tantas as preocupações nossas de cada dia que certas
obviedades precisam de tempo para cristalizarem. Mas quem diz que é fácil comprar um galo
pela redondeza? As pessoas desistiram de criações deste tipo. No passado era fácil fazer um
escambo com algum vizinho para quebrar a monotonia genética. Um galo por outro e pronto:
tudo seguia seu rumo. Onde encontrar um galo?

Estava em São Lourenço, na lida de cortar uma grama avolumada por sol e chuva num verão
quente e úmido, com os olhos na Laguna e o pensamento no porto, onde embarcações
pequenas chegavam abarrotadas de camarão, numa safra como há muito não se via. Eis que
lembro de uma agropecuária, onde trabalha um conhecido. Minha esposa diz que tenho alguns
amiguinhos na cidade. Não se engana. De fato tenho algumas referências, que me são muito
úteis quando preciso de algo fora do trivial. Mais uma vez isto aconteceria.

Vou lhe indicar um tio, funcionário público aposentado, cuja diversão é criar um pouco de tudo.
Escutei a promessa animado. Enfim conseguirei o galo! O rapaz vai além: liga para o tio e diz
que chegará em minutos um interessado em um galo especial. Tomei o “ especial” na conta de
chiste e me fui, não sem antes agradecer pela indicação.

Me atende um bonachão, de fala mansa, daqueles que observam o visitante por alguns minutos
para entender com quem estão a despender palavras. Segue à minha frente e vai desfiando as
raças. Aqui um galo Plymouth Rock, lá um Hampshire, acolá um faisão, à direita um galo
polonês, com sua crista bizarra, à frente um galo Brahma, mais um faisão, um Ko Shamo,
dezenas de galinhas pequeninas, um pavão e segue o baile. Sinto que entrei numa loja de
cristais para comprar um destes copos de geleia. Sucedem-se nichos e mais nichos com aves e
começo a recear que perderemos tempo.

Nada tenho contra aves selecionadas, mas não estou disposto a gastar mais do que cinquenta
pratas na empreitada. Fico a imaginar quanto tempo decorrerá até que falemos de preço ... Lá
pelas tantas ele me diz que parou de criar certas aves porque o pessoal só queria pagar
cinquenta pratas ... Estamos longe do portão de entrada e chegamos num quintal onde uma ave
australiana me olha de alto a baixo. Chega com seu pescoço azulado a poucos centímetros de
meu rosto. Pergunto se devo temer e fico sabendo que emus são apenas curiosos.

Entramos na área de orquídeas e escuto notas muito interessantes a respeito. Pergunto se de


fato algumas orquídeas exalam um cheiro fétido e fico sabendo que cada planta libera seu odor
para seduzir determinados insetos para polinização. Vivendo e aprendendo. As aves ficaram pra
trás e já começo a me consolar quando o criador mostra um galo muito robusto num relvado. É
gordo e alto, mas não me importo com tais atributos. Tomara que dê certo, mas não arrisco um
preço. Quatrocentas pratas, escutei. Quase respondi que não queria oito galos, apenas um ...

Como leu meu espanto, depois de breve hesitação voltamos ao primeiro corredor. Informei que
tínhamos interesse em galinhas poedeiras, não em galinhas de corte. Resoluto, me disse então
que entendera o que procurava e garantiu que atenderia minha necessidade. Um galo novo, da
raça Campine. Nunca ouvira falar, mas, segundo ele, ótima na produção de ovos. Quanto? Lá
vem bomba ... Cinquenta pratas! Foi como se houvesse caminhado pela rua Avanhandava, em
São Paulo, sentindo os aromas mais refinados da gastronomia e, enxotado pelos cardápios,
houvesse por fim tomado assento numa lanchonete, dezenas de metros à frente, para encontrar
um bom sanduíche. Foi uma aula inaugural sobre galos e galinhas e sua divina diversidade. Já
se passaram três dias desde a inserção do Seu Campine no galinheiro. Até agora nosso herói
recém chegado, com apenas seis meses de vida, tem sido maltratado pelas novas colegas. Só
toma corridão. É a natureza e só nos resta aguardar.

Você também pode gostar