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TESES DE ABRIL (VLADIMIR ILITCH LÊNIN)

As “Teses de Abril” foram uma série de diretivas emitidas


pelo líder bolchevique Lênin, em abril de 1917, após seu
retorno a Petrogrado (São Petersburgo), depois de seu
exílio na Suíça. As teses foram, em sua maioria,
destinadas aos seus companheiros bolcheviques. Tendo
como base os pilares “Paz, Terra e Pão”, Lênin denunciou
liberais e sociais-democratas do Governo Provisório,
conclamando a implantação de novas políticas socialistas
pelos sovietes. Esse breve texto influenciou a Revolução
de Outubro, estando identificado com o leninismo.

Referência Bibliográfica: LÊNIN, Vladimir Ilitch. “The


Tasks of the Proletariat in the Present Revolution” in
________ Lenin’s Collected Works, Vol. 24, Moscou:
Progress Publishers, 1964, p. 19-26.

Temas abordados:
 Motivos válidos para uma guerra : “O Proletariado consciente só pode dar seu
consentimento a uma guerra revolucionária, que justifique verdadeiramente o defensismo
revolucionário, sob estas condições: a) passagem do poder ao proletariado e dos setores mais
pobres do campesinato a ele aliados; b) renúncia de fato, e não só de palavra, a qualquer tipo de
anexação; c) ruptura de fato com todos os interesses do capital.” – LÊNIN, 1917, p. 21

 Não existe fim verdadeiro em guerras imperialistas burguesas: “Devido à indubitável


boa fé de grandes setores de defensistas revolucionários, que vêem a guerra apenas como uma
necessidade e não com o fim de conquistas, e por estarem sendo ludibriados pela burguesia, é
necessário explicar minuciosamente, pacientemente e perseverantemente seu erro. Explicar-lhes
a ligação indissolúvel entre o capital e a guerra imperialista e demonstrar-lhes que sem derrotar
o capital é impossível colocar fim à guerra com uma paz verdadeiramente democrática, que não
seja imposta pela violência.” – LÊNIN, 1917, p. 21-22

 Estágios da revolução na Rússia: “A particularidade do momento atual da Rússia é que o


país está passando do primeiro estágio da revolução – que deu o poder a burguesia, pelo fato do
proletariado não ter o suficiente nível de consciência e de organização – ao segundo estágio, que
deve colocar o poder nas mãos do proletariado e dos setores mais pobres do campesinato. Esta
transição é caracterizada, por um lado, pelo máximo de legalidade (a Rússia é hoje o país com
mais liberdade entre todos os países beligerantes); por outro, pela ausência de violência contra
as massas, e, por fim, pela confiança inconsciente destas no governo dos capitalistas, o pior
inimigo da paz e do socialismo.” – LÊNIN, 1917, p. 22
 Repreensão ao Governo Provisório: “Nenhum apoio ao Governo Provisório. [Precisamos]
explicar a completa falsidade de suas promessas, sobretudo sobre a da renúncia das anexações.
[Devemos] desmascarar este governo, que é um governo de capitalistas, invés de propagar a
inadmissível e ilusória ‘exigência’ de que deixe de ser imperialista” – LÊNIN, 1917, p. 22

 Revolução passa pelos trabalhadores: “Explicar às massas que os Sovietes de deputados


operários são a única forma possível de governo revolucionário e que, por isso, enquanto este
governo se submete à influência da burguesia, nossa missão só pode ser a de explicar os erros de
sua tática de uma forma paciente, sistemática, persistente e adaptada especialmente às
necessidade práticas das massas. Enquanto estivermos em minoria, desenvolveremos um
trabalho de crítica e esclarecimento dos erros, propagando ao mesmo tempo, a necessidade que
todo o poder do Estado passe aos Sovietes de deputados operários. Fazendo assim com que, a
partir de sua experiência, as massas corrijam seus erros” – LÊNIN, 1917, p. 23

 Regulamentação salarial dos funcionários públicos: “Os salários de todos os funcionários


públicos não deverá exceder o salário médio de um operário qualificado, além disso todos eles
devem ser eleitos e podem ser revogados a qualquer momento” – LÊNIN, 1917, p. 23

 Reforma agrária: “No programa agrário o centro deve ser passado ao Soviete de deputados
de trabalhadores agrícolas. [Devemos realizar o] confisco de toda a terra dos latifundiários.
[Assim como a] nacionalização de todas as terras do país, que ficarão à disposição dos Sovietes
de deputados de trabalhadores agrícolas e camponeses. [Além da] criação de Sovietes especiais
de camponeses pobres” – LÊNIN, 1917, p. 23

 Regulamentação bancária: “Fusão imediata de todos os bancos em um banco nacional


único, submetido ao controle do Soviete de deputados operários” – LÊNIN, 1917, p. 23

 Prioridades bolcheviques: “Não é tarefa imediata a implementação do Socialismo, mas


somente iniciar imediatamente o controle da produção social e da distribuição dos produtos pelo
Sovietes de deputados operários” – LÊNIN, 1917, p. 24

 Motivos leninistas para a repreensão ao Governo Provisório: “Ataquei o Governo


Provisório por não apontar um prazo, nem próximo nem remoto, para a convocação da
Assembleia Constituinte e limitar-se a simples promessas. E demonstrei que sem os Sovietes de
deputados operários e soldados não está garantida a convocação da Assembleia Constituinte,
nem é possível seu êxito.” – LÊNIN, 1917, p. 25

 Motivos leninistas para a repreensão ao Governo Provisório: E “E meTESES DE sobre


colocaram ABRIL
as (LÊNIN)
costas que sou contrário à convocação imediata da Assembleia Constituinte. Poderia qualificar
tudo isso como expressões ‘delirantes’ se dezenas de anos de luta política não tivessem me
ensinado a considerar a boa-fé dos opositores como uma rara exceção” – LÊNIN, 1917, p. 25
A IMPRENSA, A DEMOCRACIA E A CIDADANIA
(WERTHEIN) O artigo “a Imprensa, a Democracia e a Cidadania” do
sociólogo argentino Jorge Werthein foi publicado em 08 de
julho de 2004 no Observatório da Sociedade da
Informação, de responsabilidade do Setor de Comunicação
e Informação da UNESCO no Brasil. Tal trabalho sociológico
relacionou dois tópicos importantíssimos para a
reafirmação da democracia contemporânea: a imprensa
livre e a cidadania universal. Ambos precisam ser
respeitados e desempenham funções primordiais em
diversos aspectos, tais como a educação e a violência.

Referência Bibliográfica: WERTHEIN, Jorge. A Imprensa, a


Democracia e a Cidadania. UNESCO, 2004. Disponível em:
<https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000154064>A
cesso em: 02 abr. 2020.

Temas abordados:
 A imprensa livre é um pilar da democracia : “Não há como conceber democracia sem uma
imprensa livre e vigorosa. A imprensa é um dos canais por meio dos quais a sociedade civil se
manifesta, emite opiniões, troca informações, vigia, denuncia e cobra dos três poderes clássicos o
perfeito funcionamento daquilo que entendemos como democracia.” – WERTHEIN, 2004, p. 3
CAPÍTULO 1

 Objetivo verdadeiro da imprensa: “É na construção da democracia em sentido amplo, isto é,


que realmente incorpore a maioria de seus cidadãos e, sobretudo, aqueles mais necessitados, que
a imprensa pode representar um papel fundamental. Isto ocorre quando, garantida sua liberdade
de dar ressonância a várias opiniões e veicular as informações que julgue pertinentes, a imprensa
se transforme num dos mais poderosos instrumentos para que a população construa suas próprias
condições de liberdade. Afinal, participação informada constitui elemento definidor de exercício
da liberdade e este é, talvez, o mais poderoso indicador de desenvolvimento social. A imprensa
livre e pluralística tem o papel estratégico de contribuir para a constituição dos fundamentos das
sociedades democráticas sendo, ela mesma, produto e medida do nível desenvolvimento social
atingido em cada situação histórica concreta.” – WERTHEIN, 2004, p. 3

 Alfabetização atrelada à justiça social: “A prosperidade e a capacidade das sociedades de


produzirem justiça social passa pela alfabetização das populações. A capacidade de leitura acelera
a evolução organizada de um povo, permitindo a ele uma inserção ativa nas esferas produtiva e
cultural do mundo industrializado. Se compararmos as taxas de analfabetismo da população de 15
ou mais anos no Brasil com as de outros países, veremos que aí se encontra um nefasto inibidor
do desenvolvimento e, certamente, da construção da democracia.” – WERTHEIN, 2004, p. 3-4
 Importância da imprensa livre na construção popular do capital social : “Outro tema é o
papel dos meios de comunicação na construção do capital social. Oferecer informação de qualidade
é uma forma de construir esse capital, na medida em que por este caminho os meios de
comunicação estarão transformando seus leitores, telespectadores e ouvintes em cidadãos críticos,
com melhor capacidade de atuar, refletir e decidir.” – WERTHEIN, 2004, p. 4

 Relevância da imprensa livre na resolução de problemas urbanos: “Não é o caso de nos


perguntarmos de que forma os meios de comunicação poderiam se posicionar para colaborar com esta
parcela da população [no caso, os jovens que são vítimas recorrentes da violência urbana] que hoje clama
por socorro? Não é o caso de nos perguntarmos como os meios de comunicação poderiam participar desse
processo de inclusão? Arrisco-me a dizer que um caminho é dar mais espaço para que jovens falem por eles
mesmos sobre os problemas que enfrentam e também sobre as soluções que imaginam serem possíveis. Se
quisermos que os jovens de hoje se consolidem como leitores, telespectadores e ouvintes – ou seja, como
consumidores dos meios de comunicação – é preciso não apenas fornecer informações de seu interesse, mas
até criar oportunidades de aproximá-los do processo da produção do jornal, da revista, do rádio e da
televisão.” – WERTHEIN, 2004, p. 4

 Educação não é mercadoria barata: “Ainda estamos longe de ter uma educação de qualidade
para todos, apesar dos vários programas e progressos registrados nos últimos anos, tanto pelo
poder público quando pela iniciativa privada. Ainda temos um longo caminho no sentido de fazer
entender, em especial àqueles que ocupam funções públicas, que educação é investimento. E que
educação e justiça social caminham lado a lado.” – WERTHEIN, 2004, p. 4

 Importância da imprensa livre na mudança de aspectos atuais: “Ao publicar matérias sobre
experiências bem-sucedidas, sobre exemplos que possam ser seguidos no campo da educação em
diferentes partes deste enorme país, ao estimular a atuação da iniciativa privada, sozinha ou em
parceria com o Poder Público, em várias áreas do desenvolvimento humano, a mídia dará uma
contribuição inestimável ao desenvolvimento e à democracia, inclusive pelos efeitos que tais
conteúdos produzirão sobre a autoestima dos brasileiros.” – WERTHEIN, 2004, p. 5

A I A IMPRENSA,
 Relevância da imprensa livre na construção cultural: A DEMOCRACIA
“Não podemos E A os
perder de vista que
CIDADANIA (WERTHEIN)
meios de comunicação também são um elemento fundamental na oferta de entretenimento,
cultura e lazer às pessoas. Há empresas que desempenham essas funções com excelência, porém há
outros espaços que poderiam estar mais comprometidos com as demandas sociais sem prejuízo dos
interesses comerciais inerentes à boa gestão empresarial.” – WERTHEIN, 2004, p. 5

 Sem imprensa livre não há democracia: “Portanto, por terem grande presença no lazer dos
brasileiros, os meios de comunicação massivos como rádio e televisão devem se pautar pela
responsabilidade e preocupação social, zelando pela qualidade de sua programação e pela oferta de
bons programas à população. E isso é muito possível. O rádio e a televisão brasileiros, como já
vimos em muitas experiências de sucesso, podem sim ser canais de acesso ao conhecimento e à
cultura, contribuindo para um mundo mais justo e pacífico. Concluindo, sem imprensa livre não há
democracia. E sem uma imprensa responsável, engajada com o desenvolvimento social, a
democracia pode ser apenas uma palavra vazia.” – WERTHEIN, 2004, p. 5
APOLOGIA DA HISTÓRIA (MARC BLOCH)
O primeiro capítulo, intitulado “A História, os Homens e o
Tempo”, o historiador francês Marc Bloch discorre sobre a
relação que essas palavras tem, e expõe o quão antiga é,
sem deixar colocar sua concepção sobre um período em que
os sociólogos durkheimianos relegaram essa palavra. Mais
adiante o autor frisa que, embora a verdadeira necessidade
e objetivo do livro seja abordar questões metodológicas, faz-
se vital uma abordagem, mesmo que de forma breve, sobre
a origem da palavra, alguns autores, e até mesmo conceitos
presentes no decorrer da obra.

Referência Bibliográfica: BLOCH, Marc. “A História, os


Homens e o Tempo” in ________ Apologia da História ou o
ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edition,
2002, p. 51-68.

Temas abordados:
 História não é a ciência do passado : “Diz-se algumas vezes: ‘A história é a ciência do passado.’
É [no meu modo de ver] falar errado.” – BLOCH, 1949, p. 52

 A história é multidisciplinar: “É verdade, a linguagem, essencialmente tradicionalista, conserva


o nome de história para todo estudo de uma mudança na duração. O hábito não traz perigo, pois
não engana ninguém. Há, nesse sentido, uma história do sistema solar, na medida em que os astros
que o compõem nem sempre foram como os vemos. Ela é da alçada da astronomia. Há uma história
das erupções vulcânicas que é, estou convencido disso, do mais vivo interesse para a física do globo.
Ela não pertence à história dos historiadores. Ou, pelo menos, não lhe pertence na medida em que,
talvez, suas observações, por algum viés, se reuniriam às preocupações específicas da história que
nos diz respeito. Como estabelecer, portanto, na prática, a divisão das tarefas? Sem dúvida, para
apreender isso, um exemplo é melhor que muitos discursos. No século X de nossa era, um golfo
profundo, o Zwin, recortava a costa flamenga. Depois foi tomado pela areia. A que seção do
conhecimento levar o estudo desse fenômeno? De imediato, todos designarão a geologia.
Mecanismo de aluvionamento, papel das correntes marinhas, mudanças, talvez, no nível dos
oceanos: não foi ela criada e posta no mundo para tratar de tudo isso? Certamente. Olhando de
perto, porém, as coisas não são de modo algum assim tão simples. Tratar-se-ia, em primeiro lugar,
de escrutar as origens da transformação? Eis o nosso geólogo já obrigado a se colocar questões que
não são mais, estritamente, de sua alçada. Pois, sem dúvida, esse assoreamento foi, pelo menos,
favorecido por construções de diques, desvios de canais, secas: diversos atos do homem, resultado
de necessidades coletivas e que apenas uma certa estrutura social torna possíveis. Na outra ponta
da cadeia, novo problema: o das consequências. A pouca distância do fundo do golfo, uma cidade se
erguia. Era Bruges. Comunicava-se com ele por um breve trajeto fluvial. Pelas águas do Zwin, ela
recebia ou expedia a maior parte das mercadorias que faziam dela, guardadas todas as proporções,
a Londres ou a Nova York de sua época. Vieram, cada dia mais sensíveis, os avanços da
sedimentação. Bruges tentou em vão, à medida que a superfície inundada recuava, empurrar ainda
mais seus portos avançados para a foz, e seus cais pouco a pouco adormeceram. Decerto essa não
foi absolutamente, longe disso, a causa única de seu declínio. Age a física alguma vez sobre o social
sem que sua ação seja preparada, ajudada ou permitida por outros fatores que não venham do
homem? Mas, no ritmo das ondas causais, esta causa está pelo menos, não poderíamos duvidar
disso, entre as mais eficazes. Ora, a obra de uma sociedade que remodela, segundo suas
necessidades, o solo em que vive é, todos intuem isso, um fato eminentemente ‘histórico’” –
BLOCH, 1949, p. 53

 Desenvolver hábitos é importante: “O hábito não traz perigo, pois não engana ninguém.” –
BLOCH, 1949, p. 53

 História é a ciência das sociedades humanas: “Há muito tempo, com efeito, nossos grandes
precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por
natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o
plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos
grandes vestígios sensíveis da paisagem, [os artefatos ou as máquinas,] por trás dos escritos
aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as
criaram, são os homens que a história quer capturar.” – BLOCH, 1949, p. 54

 Cada ciência tem sua particularidade: “Não há menos beleza numa equação exata do que
numa frase correta. Mas cada ciência tem sua estética de linguagem, que lhe é própria.” – BLOCH,
1949, p. 54
 História é a ciência das sociedades humanas no tempo: “’Ciência dos homens’, dissemos. É
ainda vago demais. É preciso acrescentar: ‘dos homens, no tempo’. O historiador não apenas pensa
‘humano’. A atmosfera em que seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração.
Decerto, dificilmente imagina-se que uma ciência, qualquer que seja, possa abstrair do tempo.
Entretanto, para muitas dentre elas, que, por convenção, o desintegram em fragmentos
artificialmente homogêneos, ele representa apenas uma medida. Realidade concreta e viva,
submetida à irreversibilidade de seu impulso, o tempo da história, ao contrário, é o próprio plasma
em que se engastam os fenômenos e como o lugar de sua inteligibilidade. O número dos segundos,
anos ou séculos que um corpo radioativo exige para A Ise transformarDA
APOLOGIA emHISTÓRIA
outros corpos é, para
(MARC a
BLOCH)
atomística, um dado fundamental. Mas que esta ou aquela dessas metamorfoses tenha ocorrido há
mil anos, ontem ou hoje ou que deva se produzir amanhã, sem dúvida tal consideração interessaria
ao geólogo, porque a geologia é, à sua maneira, uma disciplina histórica; ela deixa o físico frio como
gelo. Nenhum historiador, em contrapartida, se contentará em constatar que César levou oito anos
para conquistar a Gália e que foram necessários quinze anos a Lutero para que, do ortodoxo noviço
de Erfurt, saísse o reformador de Wittenberg. Importa-lhe muito mais atribuir à conquista da Gália
seu exato lugar cronológico nas vicissitudes das sociedades europeias; e, sem absolutamente negar
o que uma crise espiritual como a de irmão Martinho continha de eterno, só julgará ter prestado
contas disso depois de ter fixado, com precisão, seu momento na curva dos destinos tanto do
homem que foi seu herói como da civilização que teve como atmosfera .” – BLOCH, 1949, p. 55
 “A explicação do mais próximo pelo mais distante dominou nossos estudos às vezes até à hipnose .” –
BLOCH, 1949, p. 56

 A obsessão humana pelo início de fatos justifica o sucesso das religiões mundiais, uma
vez que elas se comprometem em responder essas dúvidas: “Na história religiosa, o estudo
das origens assumiu espontaneamente um lugar preponderante, porque parecia fornecer um
critério para o próprio valor das religiões.” – BLOCH, 1949, p. 57

 Influência mundial da historicidade do cristianismo: “Pois o cristianismo [já mencionei isso,]


é, por essência, uma religião histórica: vejam bem, cujos dogmas primordiais se baseiam em
acontecimentos. Releiam seu Credo: ‘Creio em Jesus Cristo ... que foi crucificado sob Pôncio
Pilatos... e ressuscitou dentre os mortos no 3º dia.’ Também nesse caso os primórdios da fé são
seus fundamentos. Ora, por um contágio sem dúvida inevitável, essas preocupações que, em uma
certa forma de análise religiosa, podiam ter sua razão de ser, estenderam-se a outros campos de
pesquisa, onde sua legitimidade era muito mais contestável.” – BLOCH, 1949, p. 58

 Questão do julgamento pessoal na história: “Quer se trate das invasões germânicas ou da


conquista normanda [da Inglaterra], o passado só foi empregado tão ativamente para explicar o
presente no desígnio do melhor justificar ou condenar. De modo que em muitos casos o demônio
das origens foi talvez apenas um avatar desse outro satânico inimigo da verdadeira história: a mania
do julgamento.” – BLOCH, 1949, p. 58

 Aparato ideológico da religião: “Por mais intacta que suponhamos uma tradição, faltará
sempre apresentar as razões de sua manutenção. Razões humanas, é claro; a hipótese de uma ação
providencial escaparia à ciência. A questão, em suma, não é mais saber se Jesus foi crucificado,
depois ressuscitado. O que agora se trata de compreender é como é possível que tantos homens ao
nosso redor creiam na Crucificação e na Ressureição.” – BLOCH, 1949, p. 58

 Questão feudal: “O feudalismo europeu, em suas instituições características, não foi um arcaico
tecido de sobrevivências. Durante certa fase de nosso passado, ele nasceu de todo um clima social.”
– BLOCH, 1949, p. 59

 Acontecimento e personagens históricos atrelados aos seus contextos: “Em suma, nunca
se explica plenamente um fenômeno histórico fora do estudo de seu momento. Isso é verdade para
todas as etapas da evolução. Tanto daquela em que vivemos como das outras.” – BLOCH, 1949, p.
A I APOLOGIA DA HISTÓRIA (MARC BLOCH)
60 / “Lutero, Calvino, Loyola: homens de outrora, sem dúvida, homens do século XVI, os quais o
historiador, ocupado em compreender e fazer compreender, terá como primeiro dever recolocar
em seu meio, banhados pela atmosfera mental de seu tempo, face a problemas de consciência que
já não são exatamente os nossos.” – BLOCH, 1949, p. 64

 Ciclicidade histórica: “Montesquieu, em uma de suas obras de juventude, fala dessa ‘cadeia
infinita das causas que se multiplicam e combinam de século em século’ A crer em certos escritores,
a cadeia, em sua extremidade mais próxima de nós, estaria aparentemente bem tênue.” – BLOCH,
1949, p. 60
 O presente não existe: “O que é, com efeito, o presente? No infinito da duração, um ponto
minúsculo e que foge incessantemente; um instante que mal nasce morre. Mal falei, mal agi e
minhas palavras e meus atos naufragam no reino de Memória. São palavras, ao mesmo tempo
banais e profundas, do jovem Goethe: não existe presente, apenas um devir” – BLOCH, 1949, p. 60 /
“Na linguagem corrente, ‘presente’ quer dizer passado recente.” – BLOCH, 1949, p. 60

 O estudo do presente está ligado necessariamente ao passado: “E Leibniz já colocava, entre


os benefícios que esperava da história, ‘as origens das coisas presentes encontradas nas coisas
passadas’; pois, acrescentava, ‘uma realidade nunca é compreendida melhor do que por suas
causas.’” – BLOCH, 1949, p. 62 / “Ao se prolongar aqui o erro sobre a causa, como acontece quase
necessariamente na ausência de terapêutica, a ignorância do passado não se limita a prejudicar a
compreensão do presente; compromete, no presente, a própria ação.” – BLOCH, 1949, p. 63 / “A
incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado.” – BLOCH, 1949, p. 65

 O homem produz seu próprio cativeiro: “O homem passa seu tempo a montar mecanismos
dos quais permanece em seguida prisioneiro mais ou menos voluntário.’” – BLOCH, 1949, p. 63

 Mutabilidade do homem: “Decerto não estimamos mais hoje em dia que, como escrevia
Maquiavel, como pensavam Hume ou Bonald, haja no tempo ‘pelo menos algo de imutável: é o
homem’. Aprendemos que o homem também mudou muito: em seu espírito e, sem dúvida, até nos
mais delicados mecanismos de seu corpo.” – BLOCH, 1949, p. 65

 Trabalho do historiador: “Mas o erudito que não tem o gosto de olhar a seu redor nem os
homens, nem as coisas, nem os acontecimentos, [ele] merecerá talvez, como dizia Pirenne, o título
de um útil antiquário. E agirá sensatamente renunciando ao de historiador.” – BLOCH, 1949, p. 66

 Ordem é importante para evitar perder tempo: “Com efeito, seria um erro grave acreditar
que a ordem adotada pelos historiadores em suas investigações deva necessariamente modelar-se
por aquela dos acontecimentos. Livres para em seguida restituir à história seu movimento
verdadeiro, eles frequentemente têm proveito em começar por lê-las, como dizia Maitland, ‘às
avessas’.” – BLOCH, 1949, p. 66-67

 Tempo e informação nem sempre são compatíveis: “Somos incomparavelmente menos


informados sobre o século X de nossa era, por exemplo, do que sobre a época de César ou de
A I APOLOGIA
Augusto. Na maioria dos casos, os períodos mais próximos DA menos
não coincidem HISTÓRIA
nesse (MARC BLOCH)
aspecto com
as zonas de clareza relativa.” – BLOCH, 1949, p. 67

 Tempo e informação nem sempre são compatíveis: “A vida é muito breve, os conhecimentos
a adquirir muito longos para permitir, até para o mais belo gênio, uma experiência total da
humanidade. O mundo atual terá sempre seus especialistas, como a idade da pedra ou a
egiptologia. A ambos pede-se simplesmente para se lembrarem de que as investigações históricas
não sofrem de autarquia. Isolado, nenhum deles jamais compreenderá nada senão pela metade,
mesmo em seu próprio campo de estudos; e a única história verdadeira, que só pode ser feita
através de ajuda mútua, é a história universal.” – BLOCH, 1949, p. 68
SOCIOLOGIA (ANTHONY GIDDENS)
O sociólogo britânico Anthony Giddens é considerado por
muitos como o mais importante filósofo social inglês
contemporâneo. O primeiro capítulo intitulado “O que é a
sociologia?”, de sua obra “Sociologia”, busca apresentar
conceituações práticas para essa disciplina recente. Sendo
bastante influenciado pelo conceito de “imaginação
sociológica” de Mills, o autor propõe novos olhares para o
método sociológico. Dentre eles, menciona, por exemplo, a
capacidade de analisar sociologicamente rotinas familiares,
como tomar uma simples chávena de café.

Referência Bibliográfica: GIDDENS, Anthony. “O que é a


sociologia?” (trechos selecionados) in ______ Sociologia, 6ª
Edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulkenkian, 2006, p. 2-6.

Temas abordados:
 Paradoxos do mundo atual: “Vivemos hoje - no começo do século vinte e um - num mundo
intensamente inquietante e, ao mesmo tempo, repleto das maiores promessas para o futuro. É um
mundo inundado pela mudança, marcado por graves conflitos, tensões e divisões sociais, bem como
pelo assalto destrutivo ao meio ambiente natural promovido pela tecnologia moderna. Não
obstante, temos mais possibilidades de controlar melhor os nossos destinos e de dar um outro
rumo às nossas vidas do que era imaginável pelas gerações anteriores.” – GIDDENS, 2001, p. 2
 Conceituação de sociologia : “A Sociologia é o estudo da vida social humana, grupos e
sociedades. É uma tarefa fascinante e constrangedora, na medida em que o tema de estudo é o
nosso próprio comportamento enquanto seres sociais. A esfera de acção do estudo sociológico é
extremamente abrangente, podendo ir da análise de encontros casuais entre indivíduos que se
cruzam na rua até à investigação de processos sociais globais. A maior parte de nós vê o mundo em
termos das características das nossas próprias vidas, com as quais estamos familiarizados. A
Sociologia mostra que é necessário adoptar uma perspectiva mais abrangente do modo como
somos e das razões pelas quais agimos. Ensina-nos que o que consideramos natural, inevitável, bom
ou verdadeiro pode não o ser, e que o que tomamos como «dado» nas nossas vidas é forte* mente
influenciado por forças históricas e sociais. Compreender as maneiras ao mesmo tempo subtis,
complexas e profundas, pelas quais as nossas vidas individuais reflectem os contextos da nossa
experiência social é essencial à perspectiva sociológica .” – GIDDENS, 2001, p. 2

 Importância sociológica da refeição : “Em todas as sociedades, na realidade, beber e comer


proporcionam ocasiões para a interacção social e o desempenho de rituais - e tal fornece temáticas
ricas para o estudo sociológico.” – GIDDENS, 2001, p. 2
 Objetivo real da sociologia : “Estudar Sociologia não pode ser simplesmente um processo
rotineiro de acumulação de conhecimentos. Um sociólogo é alguém capaz de se libertar do quadro
das suas circunstâncias pessoais e pensar as coisas num contexto mais abrangente. O trabalho
sociológico depende do que o autor americano C. Wright Mills, numa frase famosa, denominou de
imaginação sociológica (Mills, 1970). A imaginação sociológica implica, acima de tudo abstrairmo-
nos das rotinas familiares da vida quotidiana de maneira a poder olhá-las de forma diferente .” –
GIDDENS, 2001, p. 2

 Importância do café: “Depois do petróleo, o café é a mercadoria mais valiosa do comércio


internacional, representando a principal exportação de muitos países.” – GIDDENS, 2001, p. 3

 Influência do colonialismo na difusão do café : “Embora seja uma bebida originária do Médio
Oriente, o seu consumo maciço data do período da expansão colonial ocidental, há cerca de um
século e meio atrás. Praticamente todo o café que se bebe nos países ocidentais provém de áreas
(América do Sul e África) colonizadas pelos europeus; não é, de maneira nenhuma, um elemento
«natural» da dieta ocidental. A herança colonial teve um impacto enorme sobre o desenvolvimento
do comércio mundial de café.” – GIDDENS, 2001, p. 3

 Benefícios da globalização : “Para os sociólogos, é interessante perceber de que forma a


globalização aumenta a consciência das pessoas acerca de questões que se passam em pontos
remotos do planeta, incentivando-as a actuar no dia-a-dia em função desse novo conhecimento.” –
GIDDENS, 2001, p. 4

 “A sua decisão privada reflecte a sua posição na sociedade.” – GIDDENS, 2001, p. 5

 Determinismo: “Embora todos sejamos influenciados pelo contexto social em que nos
inserimos, nenhum de nós tem o seu comportamento determinado unicamente por esses
contextos. Nós possuímos, e criamos, a nossa própria individualidade. É tarefa da Sociologia
investigar as relações entre o que a sociedade faz de nós e o que nós fazemos de nós próprios. O
que nós fazemos tanto estrutura - dá forma a - o mundo social que nos rodeia como,
simultaneamente, é estruturado por esse mesmo mundo social.” – GIDDENS, 2001, p. 5

 Política: “As medidas políticas que não se baseiam numa consciência informada dos modos de
vida das pessoas que afectam têm poucas hipóteses de sucesso.” – GIDDENS, 2001, p. 5

 Poder da sociologia: “Em terceiro lugar, e em alguns aspectos o mais importante, a Sociologia
A I auto-compreensão
pode permitir-nos uma auto-consciencializaçâo – uma SOCIOLOGIA (ANTHONY GIDDENS)
cada vez maior. Quanto
mais sabemos acerca das razões pelas quais agimos como agimos e como funciona, de uma forma
global, a nossa sociedade, tanto mais provável é que sejamos capazes de influenciar o nosso
futuro.” – GIDDENS, 2001, p. 6

 Sociologia é uma disciplina que exige uma tarefa difícil : “A Sociologia debruça-se sobre as
nossas vidas e o nosso próprio comportamento, e estudar-nos a nós próprios é a mais difícil e
complexa tarefa que podemos empreender.” – GIDDENS, 2001, p. 6
DIREITOS HUMANOS E DIPLOMACIA (LUIZ
LAMPREIA) Luiz Felipe Lampreia foi um sociólogo, embaixador,
secretário-geral e diplomata brasileiro, sendo Ministro
das Relações Exteriores no governo Fernando Henrique
Cardoso, entre 1995 e 2001. Desde os primeiros anos da
gestão Lampreia, o Brasil teve papel destacado no campo
da promoção da paz e da segurança internacionais e
regionais, bem como da democracia e dos direitos
humanos. Sendo assim, com esse breve texto, o autor
buscou relacionar tais temas com a diplomacia mundial,
no qual tinha larga experiência.

Referência Bibliográfica: LAMPREIA, L. F. “Direitos


Humanos e Diplomacia”, 1998. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/mr
e000065.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2020.

Temas abordados:
 Adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU : “Há 50 anos, mais
precisamente em 10 de dezembro de 1948, a Assembleia-Geral das Nações Unidas, reunida em
Paris, adotava a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o primeiro documento de âmbito
internacional dedicado especificamente aos direitos humanos. A ONU começava, assim, a dar
expressão concreta a seu compromisso com a promoção e proteção daqueles direitos,
compromisso consagrado na Carta da organização e que refletiu a percepção de que os direitos
CAPÍTULO 1
humanos não mais poderiam ser considerados assunto que dissesse respeito tão somente às
jurisdições internas dos Estados.” – LAMPREIA, 1998, p. 1

 Motivo da adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização


das Nações Unidas: “A experiência das violações de direitos humanos perpetradas durante a
Segunda Guerra Mundial, com um trágico saldo de milhões de vítimas, exigia que os direitos
humanos viessem a ocupar um lugar central na nova organização internacional. Tal centralidade
se justificava tanto em atenção a imperativos éticos quanto em função de considerações
políticas, já que o respeito mais generalizado aos direitos humanos pelos Estados membros da
comunidade internacional criaria necessariamente condições mais propícias à paz e à segurança
mundiais. A ONU não poderia, pois, ignorar a problemática dos direitos humanos, como o fizera
a Sociedade das Nações, a organização que a precedera e que se revelara incapaz de evitar o
genocídio e a guerra.” – LAMPREIA, 1998, p. 1
 Consagração da Declaração Universal: “A Declaração Universal consagra direitos
fundamentais, tanto de natureza civil e política quanto de natureza econômica, social e cultural,
direitos inerentes ao ser humano, independentemente de raça, sexo ou condição jurídica.
Segundo seu preâmbulo, a Declaração foi concebida como ‘ideal comum a ser atingido por todos
os povos e todas as nações’. Juntamente com os dois Pactos internacionais (o de Direitos Civis e
Políticos e o de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais), a Declaração integra a Carta
Internacional dos Direitos Humanos, base sobre a qual se edificaria o que se convencionou
chamar de sistema internacional de promoção e proteção dos direitos humanos, constituído por
vários instrumentos jurídicos (além dos já mencionados, destacam-se as convenções sobre
racismo, mulher, tortura, criança, e inúmeras declarações) e por mecanismos destinados a zelar
por sua implementação. Esse sistema foi construído gradualmente e só começa a operar de
modo mais efetivo após o fim da Guerra Fria, quando a Conferência de Viena sobre Direitos
Humanos (1993) reafirma a universalidade dos direitos humanos e consagra a legitimidade da
preocupação internacional com aqueles direitos.” – LAMPREIA, 1998, p. 1

 Atuação do Brasil em relação aos direitos humanos: “O Brasil contribuiu muito para a
edificação do sistema internacional de promoção e proteção dos direitos humanos e continua a
contribuir para seu contínuo aprimoramento. Cabe lembrar que a Delegação brasileira participou
ativa e construtivamente dos trabalhos preparatórios da Declaração Universal de Direitos
Humanos, por ocasião da Assembleia-Geral de 1948. Naquela época, nossa Delegação, refletindo
o clima da Constituição de 1946 e representando um país que começava a reexercitar-se, com
entusiasmo, na prática democrática, sobressaiu por sua postura liberal, colocando-se entre as
que defendiam a criação de mecanismos de proteção internacional dos direitos humanos. Mais
recentemente, em 1993, coube ao Brasil ocupar a presidência do Comitê de Redação na
Conferência de Viena, função na qual nossa diplomacia foi capaz de influir de maneira decisiva
para a superação de impasses que ameaçavam o bom êxito da Conferência. A atuação
diplomática brasileira nesse campo baseia-se no reconhecimento do indivíduo como sujeito de
direito internacional público e tem-se distinguido pelo apoio aos esforços no sentido da
universalização dos direitos humanos e do aperfeiçoamento do sistema internacional para sua
promoção e proteção. Essa política, que corresponde aos anseios mais genuínos da sociedade
brasileira, recebeu novo ímpeto com o Governo Fernando Henrique Cardoso. Este, ademais de
incluir os direitos humanos entre os temas centrais de sua agenda
A I DIREITOS interna, Ecomo
HUMANOS atesta o (LUIZ
DIPLOMACIA
lançamento do Programa Nacional de Direitos Humanos LAMPREIA)
(1996), tem assumido postura mais
afirmativa no plano internacional, em fiel cumprimento do dispositivo constitucional segundo o
qual a política externa do Brasil se guiará, inter alia, pela prevalência dos direitos humanos. O
Governo brasileiro mantém com os órgãos internacionais de direitos humanos, tanto no âmbito
da ONU quanto no da OEA, política de diálogo franco e de total cooperação e transparência.
Além disso, tem desenvolvido diálogo e cooperação com vários países, como o Reino Unido, a
França, o Canadá, a Argentina e a China.” – LAMPREIA, 1998, p. 1-2
UMA CARTA À JUVENTUDE (LEON TROTSKY)
Este breve texto é uma carta datada de 1938 do
intelectual marxista soviético Leon Trotski endereçada
para a conferência da Liga da Juventude Socialista, a
organização de jovens trabalhadores do Partido Socialista
dos Estados Unidos da América. Na carta, Trotski destaca
veementemente os potenciais flamejantes da juventude
nascente e da necessidade dos partidos revolucionários a
terem, entretanto alerta também para a importância vital
da teoria para que ela se torne verdadeiramente
revolucionária.

Referência Bibliográfica: TROTSKY, Leon. “Uma Carta à


Juventude”, 1938. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ma
000083.pdf >. Acesso em: 15 abr. 2020.

Texto na íntegra:
"Um partido revolucionário deve necessariamente basear-se na juventude. Inclusive,
podemos dizer que o caráter revolucionário de um partido pode ser julgado pela sua
capacidade de atrair para suas bandeiras a juventude da classe operária.
O atributo básico da juventude socialista e tenho em mente a juventude genuína e não os
velhos de 20 anos reside na disposição de entregar-se total e completamente à causa da
socialista. Sem sacrifícios heroicos, valor, decisão a história em geral não se move para
frente. Porém o sacrifício somente não é o suficiente. É necessário ter uma clara
compreensão do curso dos acontecimentos e dos métodos apropriados para a ação. Isso
somente pode ser obtido por meio da teoria e da experiência vivida.
O mais contagiante entusiasmo rapidamente esfria-se ou evapora se não encontra uma
clara compreensão das leis do desenvolvimento histórico. Frequentemente, observamos
como os jovens entusiastas, ao dar uma cabeçada na parede convertem-se em sábios
oportunistas; como ultraesquerdistas desenganados passam em curto tempo a ser
burocratas conservadores, assim como pessoas fora da lei se corrigem e se convertem em
excelentes policiais. Adquirir conhecimento e experiencia e ao mesmo tempo não dissipar
o espirito lutador, o auto sacrifício revolucionário e a disposição de ir até o final, esta é a
tarefa da educação e da autoeducação da juventude revolucionária.”
ARTIGO DE NOAM CHOMSKY SOBRE A COVID-19
Noam Chomsky é um sociólogo e ativista político
americano, reverenciado como uma das mais renomadas
figuras no campo da filosofia analítica. Nesse artigo, o autor
explica a pandemia de 2020, bem como critica o
neoliberalismo e explana outros problemas atuais, como o
aquecimento global, o enfraquecimento da democracia e o
temor real de uma guerra nuclear. Tal excerto, publicado
pela primeira vez em inglês no site alternativo “TruthOut”,
é uma breve adaptação de seu livro “Internacionalism or
Extinction”.

Referência Bibliográfica: CHOMSKY, Noam. “Chomsky: Não


podemos deixar a Covid-19 nos levar ao autoritarismo”,
2020. Disponível em: <https://jornalggn.com.br/a-grande-
crise/chomsky-nao-podemos-deixar-a-covid-19-nos-levar-
ao-autoritarismo/ >. Acesso em: 17 abr. 2020.

Temas abordados:
 O intervencionismo é a única forma de conter o avanço do coronavírus : “A crise atual
oferece um argumento poderoso em favor da assistência universal à saúde e da reavaliação dos
problemas mais profundos de nossas sociedades.” – CHOMSKY, 2020

 Espanha na expansão do franquismo: “Na Espanha, uma cidade após a outra estava caindo
nas forças de Franco. Em fevereiro de 1939, Barcelona caiu. Esse foi o fim da República Espanhola. A
notável revolução popular, revolução anarquista, de 1936, 1937, 1938, já havia sido esmagada pela
força. Parecia que o fascismo se espalharia sem ter fim.” – CHOMSKY, 2020

 “Se pudermos emprestar a famosa frase de Mark Twain, ‘A história não se repete, mas às vezes
rima’” – CHOMSKY, 2020

 Primeiras consequências do franquismo na Espanha: “Quando Barcelona caiu, houve uma


enorme inundação de refugiados da Espanha. A maioria foi para o México, cerca de 40.000. Alguns
foram para a cidade de Nova York, estabeleceram escritórios anarquistas na Union Square, sebos na
4th Avenue.” – CHOMSKY, 2020

 O negacionismo afeta medidas eficientes contra problemas reais: “Na verdade, havia um
cônsul em Berlim, o cônsul dos EUA em Berlim, que estava enviando comentários bastante
inconsistentes sobre os nazistas, sugerindo que talvez eles não fossem tão ruins quanto todo
mundo dizia. Ele ficou lá até o dia do ataque de Pearl Harbor, quando foi exonerado – o famoso
diplomata chamado George Kennan.” – CHOMSKY, 2020
 Suposições dos Estados Unidos a partir da instauração do franquismo na Espanha:
“Acontece que, não poderia saber na época, mas logo depois disso, em 1939, o Departamento de
Estado e o Conselho de Relações Exteriores começaram a planejar o mundo pós-guerra, como seria
o mundo pós-guerra. E nos primeiros anos, exatamente naquela época, nos anos seguintes, eles
assumiram que o mundo do pós-guerra seria dividido entre um mundo controlado pelos alemães,
um mundo controlado pelos nazistas, a maior parte da Eurásia, e um mundo controlado pelos EUA,
que incluiria o Hemisfério Ocidental, o antigo Império Britânico – que os EUA assumiriam partes do
Extremo Oriente. E esse seria o formato do mundo pós-guerra. Agora, sabemos que essas opiniões
foram mantidas até que os russos mudassem a maré.” – CHOMSKY, 2020

 A expansão perigosa do ultranacionalismo atualmente: “Hoje não estamos enfrentando a


ascensão de algo como o nazismo, mas estamos enfrentando a expansão do que às vezes é
chamado de internacional reacionária ultranacionalista.” – CHOMSKY, 2020

 Exemplos palpáveis da expansão perigosa e rápida do ultranacionalismo atualmente: “A


aliança no Oriente Médio consiste dos estados reacionários extremistas da região – Arábia Saudita,
Emirados Árabes Unidos, Egito, sob a ditadura mais brutal de sua história, Israel no centro –
confrontando o Irã. Existem ameaças graves que estamos enfrentando na América Latina. A eleição
de Jair Bolsonaro no Brasil colocou no poder o ultranacionalismo de direita mais extremo, mais
ultrajante que agora assola o hemisfério. Lenín Moreno, do Equador, deu um grande passo em
direção à união da extrema-direita expulsando Julian Assange da embaixada. Ele foi rapidamente
preso pelo Reino Unido e enfrenta um futuro muito perigoso, a menos que haja um significativo
protesto popular. O México é uma das raras exceções na América Latina a esses desenvolvimentos.
Na Europa Ocidental, os partidos de direita estão crescendo, alguns deles de caráter muito
assustador.” – CHOMSKY, 2020

 “Milagres não duram para sempre.” – CHOMSKY, 2020


 “E qualquer um que acredite que mísseis antibalísticos são armas defensivas está iludido com a
natureza desses sistemas.” – CHOMSKY, 2020

 Tensões nucleares entre Estados Unidos e Rússia: “As tensões estão aumentando. Ambos os
AaARTIGO DE NOAM CHOMSKY SOBRE A
lados estão realizando ações provocativas. Em um mundo racional, o que aconteceria seriam
COVID-19
negociações entre os dois lados, com especialistas independentes para avaliar as acusações que
cada um está fazendo contra o outro, para levar a uma resolução dessas acusações, para restaurar o
tratado. Isso seria num mundo racional. Infelizmente, porém, não é o mundo em que vivemos.
Nenhum esforço foi feito nesse sentido. E não será, a menos que haja pressão significativa.” –
CHOMSKY, 2020

 Arrogância está ligada de forma intrínseca aos líderes despreparados atuais: Donald
Trump já “descreveu modestamente como o maior presidente da história.” – CHOMSKY, 2020

 Aquecimento global: “Enquanto isso, o aquecimento global prossegue em seu curso inexorável.
Durante este milênio, cada ano, com uma exceção, foi mais quente do que o anterior. Existem
trabalhos científicos recentes, de James Hansen e outros, que indicam que o ritmo do aquecimento
global, que vem aumentando desde 1980, pode estar aumentando acentuadamente e pode passar
de um crescimento linear para um crescimento exponencial, o que significa dobrar a cada duas
décadas. Já estamos nos aproximando das condições de 125.000 anos atrás, quando o nível do mar
era cerca de 10 metros mais alto do que é hoje. Com o derretimento, o derretimento rápido, dos
enormes campos de gelo da Antártica, esse ponto pode ser alcançado.” – CHOMSKY, 2020

 Poluição como problema sistêmico: “Tente colocar-se na posição de, digamos, o CEO do
JPMorgan Chase, o maior banco, que está direcionando grandes somas para investimentos em
combustíveis fósseis. Ele certamente sabe tudo o que todos sabem sobre o aquecimento global.
Não é segredo. Mas quais são suas escolhas? Basicamente, ele tem duas opções. Uma opção é fazer
exatamente o que ele está fazendo. A outra opção é renunciar e ser substituído por outra pessoa
que fará exatamente o que está fazendo. Não é um problema individual. É um problema
institucional que pode ser resolvido, mas apenas sob tremenda pressão pública.” – CHOMSKY, 2020

 Principais problemas atuais: “Enquanto isso, o Relógio do Juízo Final do Boletim de Cientistas
Atômicos, em janeiro passado, estava marcado para dois minutos para meia-noite. É o ponto mais
próximo do desastre terminal desde 1947. O anúncio desse horário – desse cenário – mencionou as
duas principais ameaças conhecidas: a ameaça da guerra nuclear, que está aumentando, e a
ameaça do aquecimento global, que está aumentando ainda mais. E acrescentou uma terceira
ameaça pela primeira vez: o enfraquecimento da democracia. Essa é a terceira ameaça, junto com o
aquecimento global e a guerra nuclear.” – CHOMSKY, 2020

 Democracia como única forma de resolver os problemas atuais: “E isso foi bastante
apropriado, porque o funcionamento da democracia oferece a única esperança de superar essas
ameaças. Eles não serão tratados pelas principais instituições, estatais ou privadas, agindo sem
pressão pública maciça, o que significa que os meios de funcionamento democrático devem ser
mantidos vivos, usados da maneira que o Movimento Sunrise fez, da maneira como a grande massa
demonstração no início dos anos 80, e da maneira como continuamos hoje.” – CHOMSKY, 2020

 Coronavírus e suas consequências: “Diante da AaARTIGO DE NOAM


imensa tragédia CHOMSKY
do Covid-19, pode SOBRE
parecer A
COVID-19
cruel colocar a calamidade em perspectiva, e também instar uma busca por suas raízes. Mas o
realismo é, no entanto, imperativo, pelo menos se esperamos evitar mais desastres. Na raiz estão
colossais falhas de mercado e malignidades mais profundas da ordem socioeconômica, elevadas da
crise ao desastre pelo capitalismo brutal da era neoliberal. Questões que valem a pena considerar,
particularmente no país mais poderoso da história mundial, que enfrenta a decisão de permitir ou
não que o aríete continue a ser brandido com força devastadora total.” – CHOMSKY, 2020

NA BATALHA CONTRA O CORONAVÍRUS, FALTAM


LÍDERES À HUMANIDADE (YUVAL NOAH HARARI)
O historiador israelense homossexual Yuval Noah Harari é
ph.D. em história pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e
professor na Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel).
Nesse breve texto, ele faz uma defesa da cooperação entre
os povos e nações no combate à atual pandemia e a outros
males. O autor aponta ainda que muitos já se precipitaram
ao culpar a globalização e o mundo conectado pela
pandemia, dizendo que agora é preciso se “desglobalizar”.
Para ele, no entanto, isso seria um erro crasso.

Referência Bibliográfica: HARARI, Yuval Noah. “Na batalha


contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade”, 2020.
Disponível em: < https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-
13/na-batalha-contra-o-coronavirus-a-humanidade-carece-
de-lideres.html >. Acesso em: 20 abr. 2020.

Temas abordados:
 A globalização não é causadora de pandemias: “As epidemias matavam milhões de
pessoas muito antes da atual era de globalização. No século XIV não havia aviões nem grandes
navios e, apesar disso, a peste negra se propagou do leste da Ásia até a Europa Ocidental em pouco
mais de uma década. Causou a morte de entre 75 e 200 milhões de pessoas, mais de um quarto da
população da Eurásia. Na Inglaterra, faleceram 4 de cada 10 pessoas. A cidade de Florença perdeu a
metade dos seus 100.000 habitantes.” – HARARI, 2020

 Efeitos da varíola na América Espanhola e no mundo em geral: “Entre os que


desembarcaram no México em março de 1520 havia um único portador da varíola, Francisco de
Eguía. Naquela época, obviamente, não existiam trens e ônibus na América, nem sequer burros.
Apesar disso, de março a dezembro a epidemia de varíola assolou toda a região e matou, segundo
algumas estimativas, um terço da sua população.” / “Em 1967 houve 15 milhões de pessoas
contagiadas por varíola, das quais dois milhões morreram” – HARARI, 2020

 Efeitos da Gripe Espanhola: “Em 1918, uma cepa especialmente virulenta da gripe conseguiu se
propagar em poucos meses até os cantos mais remotos do planeta. Infectou 500 milhões de
pessoas, mais de uma quarta parte da espécie humana. Calcula-se que a gripe tenha matado 5% da
população da Índia. Na ilha do Taiti, 14% morreram, e em Samoa foram 20%. Ao todo, aquela
pandemia causou a morte de dezenas de milhões de pessoas —talvez até 100 milhões— em menos
de um ano. Mais mortes que a Primeira Guerra Mundial em quatro anos de brutais combates.” –
HARARI, 2020

 Ciência salva vidas: “Apesar de surtos horríveis como o de AIDS e ebola, no século XXI as
epidemias matam muito menos gente que em qualquer outra etapa da história. O motivo é que
a melhor defesa dos seres humanos frente aos agentes patogênicos não é o isolamento, e sim a
informação. A humanidade está ganhando a guerra das epidemias porque, na corrida armamentista
entre os agentes patogênicos e os médicos, os primeiros só podem recorrer a mutações cegas,
enquanto os segundos contam com a análise científica da informação.” – HARARI, 2020

 Desinformação: “Quando a peste negra golpeou, no século XIV, as pessoas não tinham nem
ideia do que a causava nem como curá-la. Até a época moderna, os seres humanos estavam
acostumados a atribuir as doenças a deuses irados, a demônios perversos ou aos maus ares, e nem
suspeitavam da existência de bactérias e vírus. Os indivíduos acreditavam em anjos e fadas, mas
não eram capazes de imaginar que uma só gota de água pudesse conter toda uma frota de
predadores letais. Por isso, quando a peste negra ou a varíola apareciam, o máximo que ocorria às
autoridades era organizar rezas coletivas a diversos deuses e santos. E isso não servia de nada. Aliás,
quando as pessoas se reuniam para as rezas coletivas, a infecção costumava ser propagar.” –
HARARI, 2020

 Avanço da ciência: “Enquanto na Idade Média nunca se descobriu o que causava a peste negra,
os cientistas atuais não levaram mais de duas semanas para identificar o coronavírus, sequenciar
seu genoma e desenvolver um exame confiável para identificar pessoas infectadas.” – HARARI, 2020

 Cooperação é a única forma de contermos doenças: “a história indica que a autêntica


proteção se obtém com o intercâmbio de informações científicas confiáveis e a solidariedade
mundial. Quando um país sofre uma epidemia, deve estar disposto a compartilhar as informações
sobre o surto com sinceridade e sem medo da catástrofe econômica, enquanto que outros países
devem poder confiar nessas informações e ajudar a vítima ao invés de repudiá-la. Hoje, a China
pode oferecer muitas lições importantes sobre o coronavírus, mas isso exige muita confiança e
cooperação. Essa cooperação internacional é necessária também para que as medidas de
quarentena sejam eficazes. As quarentenas e os isolamentos são essenciais para deter as
epidemias. Mas, quando os países desconfiam uns de outros e cada um acha que está sozinho, os
Governos não se decidem a tomar medidas tão drásticas.” – HARARI, 2020

 Herança neoliberal: “Nos últimos anos, políticos irresponsáveis solaparam deliberadamente a fé


na ciência, nas autoridades públicas e na cooperação internacional. Assim agora enfrentamos esta
crise sem nenhum líder mundial capaz de inspirar, organizar e financiar uma resposta global
coordenada.” – HARARI, 2020

 Papel crucial dos Estados Unidos em relação a crises mundiais: “Durante a epidemia de
ebola de 2014, os Estados Unidos desempenharam CORONAVÍRUS
essa liderança.–Também
YUVAL oHARARI
fizeram durante a
crise financeira de 2008, e conseguiram pôr suficientes países de acordo para evitar uma crise
econômica mundial. Nos últimos anos, pelo contrário, os Estados Unidos renunciaram a esse papel.
O Governo atual reduziu as ajudas a organizações internacionais como a OMS e deixou muito claro
que os Estados Unidos não têm amigos, só interesses. Quando estourou a crise do coronavírus, os
EUA se mantiveram à margem, e até agora relutam em assumir a iniciativa. Mesmo que afinal
queira fazê-lo, a confiança no Governo norte-americano atual se erodiu a tal ponto que poucos
países estariam dispostos a se deixar guiar por ele.” – HARARI, 2020
POLÍTICA ANTICAPITALISTA EM TEMPOS DE
COVID-19 (DAVID HARVEY)
David Harvey é um teórico da Geografia britânico formado
na Universidade de Cambridge. É professor da City
University of New York e trabalha com diversas questões
ligadas à geografia urbana. Em 2007 foi classificado como o
décimo oitavo teórico vivo mais citado nas ciências
humanas. Nesse artigo, o geógrafo buscou reafirmar a
necessidade de práticas anticapitalistas em tempos
pandêmicos, bem como explicou detalhadamente as
reverberações do coronavírus e condenou veementemente
o neoliberalismo.

Referência Bibliográfica: HARVEY, David. “Política


anticapitalista em tempos de COVID-19” in DAVIS, Mike, et
al: Coronavírus e a luta de classes, Brasil: Terra sem Amos,
2020, p. 13-23.

Temas abordados:
 Começo do coronavírus na China : “Eu também estava bem ciente de que a China é a segunda
maior economia do mundo e que ela efetivamente salvou o capitalismo global em 2007-8, portanto,
qualquer impacto sobre a economia da China teria sérias consequências para uma economia global
que, de qualquer forma, já estava em péssimas condições.” – HARVEY, 2020, p. 14
 Neoliberalismo agravou a pandemia: “O modelo de acumulação de capital existente já estava,
ao que me pareceu, com muitos problemas. Movimentos de protesto estavam ocorrendo em quase
todo lugar (de Santiago a Beirute), muitos dos quais estavam focados no fato de que o modelo
econômico dominante não dava resultados positivos para grande parcela da população. Este
modelo neoliberal assenta cada vez mais no capital fictício e numa vasta expansão na oferta de
dinheiro e na criação de dívida. Já enfrenta o problema da insuficiente demanda efetiva para
realizar os valores que o capital é capaz de produzir. Como poderia o modelo econômico
dominante, com sua legitimidade reduzida e sua saúde delicada, absorver e sobreviver aos impactos
inevitáveis do que poderia se tornar uma pandemia?” – HARVEY, 2020, p. 14

 “Como Marx apontou, a desvalorização não ocorre porque as mercadorias não podem ser
vendidas, mas porque não podem ser vendidas a tempo.” – HARVEY, 2020, p 14-15

 Capitalismo parasitário: “O capital modifica as condições ambientais de sua própria


reprodução, mas o faz num contexto de consequências não intencionais (como as mudanças
climáticas) e contra as forças evolutivas autônomas e independentes que estão perpetuamente
remodelando as condições ambientais.” – HARVEY, 2020, p. 15

 Vulnerabilidade condicionada ao modelo econômico vigente: “Há muitos outros lugares


onde os riscos ambientais de mutação e difusão de vírus são elevados. A gripe espanhola de 1918
pode ter saído do Kansas e a África pode ter incubado o HIV/AIDS, certamente iniciado o Nilo
Ocidental e o Ebola, enquanto a dengue parece que floresceu na América Latina. Mas o impacto
econômico e demográfico da disseminação do vírus depende de fissuras e vulnerabilidades
preexistentes no modelo econômico hegemônico.” – HARVEY, 2020, p. 15-16

 Negacionismo: “Embora tenha havido uma desaceleração imediata nos mercados financeiros
globais assim que a notícia se espalhou, surpreendentemente, levou apenas um mês ou mais para
que estes mercados atingissem novas elevações. As notícias pareciam indicar uma normalidade nos
mercados internacionais, exceto na China. Parecia que experimentaríamos uma repetição da SARS
que provou ser relativamente fácil de conter e de baixo impacto global, apesar de ser uma doença
com elevada taxa de mortalidade e criar, a posteriori, um pânico desnecessário nos mercados
financeiros. Quando a COVID-19 apareceu, a reação dominante foi a de apresentá-la como uma
repetição da SARS, mostrando que o pânico era novamente desnecessário. O fato de a epidemia ter
eclodido na China, que rápida e impiedosamente agiu para conter seus impactos, também levou o
resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que aconteceu apenas ‘lá’ e,
portanto, fora do alcance e da mente/consciência (acompanhado de preconceitos xenófobos contra
os chineses em certas partes do mundo). O pico que o vírus colocou na história triunfante do
crescimento chinês foi recebido com alegria em certos círculos do governo Trump.” – HARVEY,
2020, p. 16

 Neoliberalismo agravou a pandemia: “Quarenta anos de neoliberalismo na América do Norte


e do Sul e na Europa tinham deixado o público totalmente exposto e mal preparado para enfrentar
uma crise de saúde pública deste tipo, apesar dos riscos anteriores da SARS e do Ebola terem
fornecido abundantes avisos, bem como lições convincentes sobre o que seria necessário fazer. Em
muitas partes do suposto mundo “civilizado”, governos locais e autoridades regionais/estatais, que
invariavelmente formam a linha de frente da defesa em emergências de saúde pública e segurança
deste tipo, tinham sido privados de financiamento graças a uma política de austeridade destinada a
financiar cortes fiscais e subsídios às corporações e aos ricos.” – HARVEY, 2020, p. 17-18

 Interesse da indústria farmacêutica em tempos de crise epidemiológica: “A indústria


farmacêutica tem pouco ou nenhum interesse na pesquisa sem fins lucrativos sobre doenças
infecciosas (como toda a classe de coronavírus conhecidos desde os anos 60). A indústria
farmacêutica raramente investe em prevenção. Tem pouco interesse em investir na preparação
para uma crise de saúde pública. Adora desenhar curas. Quanto mais doentes nós estamos, mais
CORONAVÍRUS
eles ganham. A prevenção não contribui para uma – DAVID HARVEY
valorização dos acionistas.” – HARVEY, 2020, p.
18

 “Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico sobre isso, concluiria que a COVID-19 é a
vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos grosseiros e abusivos da natureza
sob a tutela de um extrativismo neoliberal violento e desregulado.” – HARVEY, 2020, p. 18

 Sucateamento neoliberal: “Talvez seja sintomático que os países menos neoliberais, China e
Coreia do Sul, Taiwan e Singapura, tenham atravessado até agora a pandemia melhor do que a
Itália, embora o Irã se baseie neste argumento como um princípio universal.” – HARVEY, 2020, p. 18

 Realidade ante as falsas expectativas: “As rupturas que funcionam através das cadeias de
valor das corporações e em certos setores revelaram-se mais sistêmicas e substanciais do que se
pensava originalmente.” – HARVEY, 2020, p. 19

 Socialização como forma de salvar a economia pós-pandemia: “A forma espiral de


acumulação interminável de capital está implodindo, de uma parte do mundo para todas as outra s.
A única coisa que pode salvá-lo é um consumismo de massa financiado, inventado e incentivado
pelo governo, surgido do nada. Isto exigirá a socialização de toda a economia dos Estados Unidos,
por exemplo, sem chamar-lhe de socialismo.” – HARVEY, 2020, p. 20

 COVID-19 é uma pandemia de classe, de gênero e de raça: “Esta ‘nova classe trabalhadora’
está na vanguarda e suporta o peso de ser a força de trabalho que corre maior risco de contrair o
vírus através de seus empregos ou de ser demitida injustamente por causa da retração econômica
imposta pelo vírus. Há, por exemplo, a questão de quem pode e quem não pode trabalhar em casa.
Isto agrava a divisão social, assim como a questão de quem pode se isolar ou ficar em quarentena
(com ou sem remuneração) em caso de contato ou infecção.” – HARVEY, 2020, p. 21

 Perpetuação de ideais ludistas no enfrentamento de problemas sociais: “As forças de


trabalho na maioria das partes do mundo há muito que foram socializadas para se comportarem
como bons sujeitos neoliberais (o que significa culpar a si mesmos ou a Deus se algo de ruim
acontecer, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema).” – HARVEY, 2020, p.
22
 Consumismo existente em tempos de quarentena obrigatória: “As regras sugeridas de
distanciamento social podem, se a emergência continuar por tempo suficiente, levar a mudanças
culturais. A única forma de consumismo que quase certamente beneficiará é o que eu chamo de
economia ‘Netflix’, que de qualquer forma se destina aos espectadores compulsivos .” – HARVEY,
2020, p. 22-23

 Papel crucial dos Estados Unidos em relação a crises mundiais: “Se a China não pode
repetir seu papel de 2007-8, então o fardo da saída da atual crise econômica se desloca para os
Estados Unidos e aqui está a ironia final: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica
quanto politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que Bernie Sanders [político
CORONAVÍRUS – DAVID de HARVEY
estadunidense que estava na corrida democrata para as eleições presidenciais 2020, mas acabou
desistindo da campanha] possa propor e esses programas de resgate terão de ser iniciados sob a
égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara do ‘Make America Great Again’.” –
HARVEY, 2020, p. 23
UM GOLPE COMO O DE “KILL BILL” NO
CAPITALISMO (SLAVOJ ŽIŽEK)
Slavoj Žižek é um filósofo esloveno, professor do Instituto
de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana
(Eslovênia) e diretor internacional da Birkbeck,
Universidade de Londres. Nesse artigo, o conceituado autor
aborda os vírus ideológicos, a volta do animismo capitalista,
a perigosidade do neoliberalismo e os desdobramentos da
recente pandemia do coronavírus no mundo
contemporâneo. Relacionou-os sob a ótima filmográfica,
uma vez que utilizou referências da última cena do filme
“Kill Bill: Volume 2” (2004) do renomado diretor Quentin
Tarantino.

Referência Bibliográfica: ŽIŽEK, Slavoj. “Um golpe como o


de ‘Kill Bill’ no capitalismo” in DAVIS, Mike, et al:
Coronavírus e a luta de classes, Brasil: Terra sem Amos,
2020, p. 43-47.

Temas abordados:
 “A necessidade de quarentenas, que é medicamente bem fundamentada, encontrou eco na
pressão ideológica para estabelecer fronteiras definidas e para colocar em quarentena os inimigos
que representam uma ameaça à nossa identidade.” – ŽIŽEK, 2020, p. 43
 Especulações sobre o futuro: “Ouve-se hoje com frequência especular que o coronavírus pode
levar à queda do governo comunista chinês, tal como (como o próprio Gorbachev admitiu) a
catástrofe de Chernobyl foi o acontecimento que desencadeou o fim do comunismo soviético. Mas
há um paradoxo nisso, o coronavírus também nos força a reinventar o comunismo baseado na
confiança nas pessoas e na ciência.” – ŽIŽEK, 2020, p. 43

 Esgotamento do capitalismo: “A minha modesta opinião é muito mais radical. A epidemia do


coronavírus é uma espécie de ‘técnica de cinco pontos para explorar um coração’ [segundo o filme
‘Kill Bill: Volume 2’, é o golpe mais mortal de todas as artes marciais, no qual Beatrix aplica no
malvado Bill, derrotando-o] destinada ao sistema capitalista global. É um sinal de que não podemos
continuar no caminho em que temos estado até agora, de que é necessária uma mudança radical.”
– ŽIŽEK, 2020, p. 44

 A triste realidade é que precisamos de uma catástrofe: “A questão não é desfrutar


sadicamente da propagação do sofrimento enquanto ele serve a nossa causa, mas refletir sobre o
triste fato de que precisamos de uma catástrofe para podermos repensar as características básicas
da sociedade em que vivemos.” – ŽIŽEK, 2020, p. 44-45
 Os epicentros são países que renegaram e/ou renegam a perigosidade do coronavírus,
dentre eles, China, EUA, Itália, Brasil e Irã: “Um dia depois de Iraj Harirchi, vice-ministro da
saúde do Irã, dar uma coletiva de imprensa minimizando o coronavírus e assegurando que não
eram necessárias quarentenas em massa, ele fez uma breve declaração informando que ele mesmo
tinha o coronavírus e que iria ficar isolado por um tempo (ele tinha mostrado sinais de febre e
fraqueza desde sua aparição anterior na televisão). Harirchi acrescentou: “Este vírus é democrático
e não faz distinção entre ricos e pobres, entre estadistas e cidadãos comuns”. Nisto ele estava certo,
estamos todos no mesmo barco. É difícil não perceber a tremenda ironia de que o que nos
impulsiona a unir e a defender a solidariedade global se manifesta diariamente através de
imposições rígidas para evitar a proximidade e o contato ou mesmo o auto-isolamento.” – ŽIŽEK,
2020, p. 45

 Outros problemas assolam o mundo: “E não estamos apenas lidando com ameaças virais,
podemos ver no horizonte todo tipo de outras catástrofes que estão chegando, ou já estão
acontecendo diretamente: secas, ondas de calor, tempestades maciças, etc. Em todos estes casos, a
resposta adequada não é o pânico, mas sim a ação urgente de estabelecer algum tipo de
coordenação global e eficiente.” – ŽIŽEK, 2020, p. 45

 “Portanto, não só somos controlados pelo Estado ou outras instituições similares, como também
devemos aprender a controlar e disciplinar-nos a nós mesmos. Talvez só a realidade virtual seja
considerada segura, e só será permitido mover-se livremente nas ilhas pertencentes aos
bilionários.” – ŽIŽEK, 2020, p. 46

 Importância dada ao mercado em detrimento da vida dos cidadãos: “Outro fenômeno


estranho que pode ser observado nesta situação é o retorno triunfante do animismo capitalista, ou
seja, tratar fenômenos sociais, como mercados ou capital financeiro, como se fossem organismos
vivos. Se você ler a grande mídia, a impressão que você tem é que são os ‘mercados ficando
nervosos’ que deveriam nos preocupar, e não os milhares de pessoas que morreram e os milhares
que ainda não morreram. O coronavírus está perturbando cada vez mais o bom funcionamento do
mercado mundial, e diz-se que o crescimento econômico está caindo em cerca de 2 ou 3% .” – ŽIŽEK,
2020, p. 46-47

 Não existe liberdade de verdade sem igualdade entre as pessoas: “Num discurso recente, o
primeiro-ministro húngaro Viktor Orban disse: ‘Não existe tal coisa como um liberal. Um liberal é
apenas um comunista com um diploma’. E se a realidade fosse o contrário? E se chamássemos
‘liberais’ aqueles que se preocupam com as nossas liberdades, e ‘comunistas’ aqueles que sabem
que só podemos salvar essas liberdades através de mudanças radicais num capitalismo global que
se aproxima do seu próprio colapso? Então devemos dizer que aqueles que se reconhecem como
CORONAVÍRUS
comunistas são liberais com um diploma, liberais que estudaram –seriamente
SLAVOJ ŽIŽEK
porque os nossos
valores liberais estão ameaçados e que perceberam que só uma mudança radical pode nos salvar.”
– ŽIŽEK, 2020, p. 47
O CAPITALISMO TEM SEUS LIMITES (JUDITH
BUTLER) Judith Butler é uma filósofa pós-estruturalista
estadunidense, uma das principais teóricas da questão
contemporânea do feminismo, teoria queer e ética. É
professora do departamento de retórica e literatura
comparada da Universidade da Califórnia. Nesse artigo,
abrange as causas e consequências da pandemia do
coronavírus, assim como propõe mudanças radicais ao
sistema dominante. Além disso, discorre sobre os candidatos
às eleições presidenciais de 2020 nos EUA e seus impactos
no avanço do vírus, uma vez que ele vem mexendo com o
imaginário político e social.

Referência Bibliográfica: BUTLER, Judith. “O capitalismo tem


seus limites”, 2020. Disponível em: <
https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/20/judith-butler-
sobre-o-covid-19-o-capitalismo-tem-seus-limites/>. Acesso
em: 22 abr. 2020.

Temas abordados:
 Paradoxos da pandemia do coronavírus : “Por um lado, somos solicitados a nos recolhermos
em unidades familiares, espaços compartilhados de moradia, ou domicílios individuais, privados de
contato social e relegados a esferas de relativo isolamento. Por outro lado, estamos diante de um
vírus que transpõe tranquilamente as fronteiras, completamente alheio à própria ideia de território
nacional.” – BUTLER, 2020

 O vírus é democrático: “O vírus não discrimina. Poderíamos dizer que ele nos trata com
igualdade, nos colocando igualmente diante do risco de adoecer, perder alguém próximo e de viver
em um mundo marcado por uma ameaça iminente. Por conta da forma pela qual ele se move e
ataca, o vírus demonstra que a comunidade humana é igualmente precária.” – BUTLER, 2020

 Avanço do coronavírus alimentado pela desigualdade: “Ao mesmo tempo, contudo, o


fracasso por parte de certos Estados ou regiões em se prepararem adequadamente de antemão (os
EUA talvez sejam agora o membro mais notório desse clube), o fortalecimento de políticas nacionais
e o fechamento de fronteiras (atitude muitas vezes acompanhada de xenofobia panicada), e a
chegada de empreendedores ávidos para capitalizar em cima do sofrimento global, tudo isso atesta
a velocidade com a qual a desigualdade radical – o que inclui nacionalismo, supremacia branca,
violência contra as mulheres e contra as populações queer e trans – e a exploração capitalista
encontram formas de reproduzir e fortalecer seus poderes no interior das zonas de pandemia. Isso
não deve ser surpresa nenhuma.” – BUTLER, 2020
 Questão social relacionada à vacina contra o coronavírus: “Um cenário que já podemos
imaginar é a produção e comercialização de uma vacina eficaz contra a Covid-19. Claramente ávido
para marcar pontos políticos que poderão garantir sua reeleição, Trump já tentou comprar (com
dinheiro) direitos exclusivos para os EUA a uma vacina de uma empresa alemã, a CureVac,
financiada pelo governo alemão. O Ministro Alemão de Saúde, que certamente não deve ter ficado
nada contente, confirmou à imprensa alemã que a oferta foi de fato feita. Um político alemão, Karl
Lauterbach, comentou: ‘A venda exclusiva aos EUA de uma possível vacina precisa ser evitada a
todo custo. Capitalismo tem limites.’ Suponho que ele estava questionando o ‘uso exclusivo’ e não
ficaria nem um pouco mais satisfeito com a mesma provisão caso ela se aplicasse exclusivamente
aos alemães.” – BUTLER, 2020

 Discriminação causada pelos homens: “Mesmo se tais restrições com base em cidadania
nacional não se aplicarem, nós certamente veremos os ricos e os plenamente assegurados correrem
para garantir acesso a qualquer vacina dessas quando ela se tornar disponível, mesmo que o modo
de distribuição só garanta que apenas alguns terão esse acesso e outros serão abandonados a uma
precariedade continuada e intensificada. A desigualdade social e econômica garantirá a
discriminação do vírus. O vírus por si só não discrimina, mas nós humanos certamente o fazemos,
moldados e movidos como somos pelos poderes casados do nacionalismo, do racismo, da xenofobia
e do capitalismo.” – BUTLER, 2020

 Saúde universal contrasta com os interesses de grandes empresas de saúde: “As novas
projeções que colocam Joe Biden claramente como o candidato favorito são devastadoras nestes
tempos precisamente porque tanto Sanders quanto Elizabeth Warren defendiam a pauta do
‘Medicare for All’, um programa abrangente de saúde pública que garantiria atendimento básico de
saúde para todas as pessoas no país. Tal programa acabaria com as empresas de plano de saúde
organizadas em função do mercado que regularmente abandonam pessoas doentes, exigem delas
despesas médicas adicionais literalmente impagáveis, e perpetuam uma hierarquia brutal entre as
pessoas asseguradas, as não-asseguradas e as inasseguráveis.” – BUTLER, 2020

 Saúde não é um direito, mas sim uma obrigação social: “Para mobilizar o consenso popular
em torno de uma noção dessas, tanto Sanders quanto Warren teriam que convencer o povo
americano de que queremos viver em um mundo no qual nenhum de nós recusa atendimento de
saúde a nenhum dos outros.” – BUTLER, 2020

 Diferenciação de acordo com o poder aquisitivo imposto pelo neoliberalismo: “Mesmo


que Warren não seja mais candidata, e que Sanders dificilmente recuperará seu embalo eleitoral,
devemos ainda nos perguntar, especialmente agora, por que nós como um povo ainda nos opomos
à ideia de tratar todas as vidas como se elas tivessem o mesmo valor? Por que alguns ainda se
CORONAVÍRUS – JUDITH BUTLER
entusiasmam com a ideia de que Trump buscaria garantir uma vacina que resguardaria as vidas
americanas (como ele as define) antes de todas as demais?” – BUTLER, 2020

 Socialização como forma de resolver os problemas atuais: “A proposta de uma saúde


pública e universal revigorou um imaginário socialista nos EUA – um imaginário que agora precisa
esperar para poder se realizar como uma política social e como compromisso público neste país.
Infelizmente, na era da pandemia, nenhum de nós pode esperar.” – BUTLER, 2020
A ILUSÃO DO SUFRÁGIO UNIVERSAL (MIKHAIL
BAKUNIN) Teórico político russo, Mikhail Bakunin foi um dos
principais expoentes do anarquismo no século XIX. Além
de seu legado filosófico, Bakunin tornou-se um símbolo do
antiautoritarismo no mundo das ideias. Nesse breve texto,
afirma que os homens acreditavam que o
estabelecimento do sufrágio universal garantiria a
liberdade dos povos. No entanto, a compreensão dessa
ilusão levou à queda, e à desmoralização do partido
radical. Eles acreditavam e prometeram ao povo a
liberdade através do sufrágio. Inspirados por essa crença,
eles insurgiram as massas a derrubar os governos
aristocráticos estabelecidos.

Referência Bibliográfica: BAKUNIN, Mikhail. “A ilusão do


sufrágio universal”, 1870. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv0
00067.pdf>. Acesso em: 22 abr. 2020.

Temas abordados:
 Questão do voto: “Os radicais não queriam enganar o povo, pelo menos assim asseguram as
obras liberais, mas neste caso eles próprios foram enganados. Eles estavam firmemente
convencidos quando prometeram ao povo a liberdade através do sufrágio universal. Inspirados por
essa convicção, eles puderam sublevar as massas e derrubar os governos aristocráticos
estabelecidos. Hoje depois de aprender com a experiência, e com a política do poder, os radicais
perderam a fé em si mesmos e em seus princípios derrotados e corruptos. Mas tudo parecia tão
natural e tão simples: uma vez que os poderes legislativo e executivo emanavam diretamente de
uma eleição popular, não se tornariam a pura expressão da vontade popular e não produziriam a
liberdade e o bem estar entre a população?” – BAKUNIN, 1870

 Decepção eleitoral: “Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um
governo e uma legislação surgidos de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira
vontade do povo. Instintiva e inevitavelmente, o povo espera duas coisas: a maior prosperidade
possível combinada com a maior liberdade de movimento e de ação. Isto significa a melhor
organização dos interesses econômicos populares, e a completa ausência de qualquer organização
política ou de poder, já que toda organização política se destina à negação da liberdade. Estes são
os desejos básicos do povo. Os instintos dos governantes, sejam legisladores ou executores das leis,
são diametricamente opostos por estarem numa posição excepcional.” – BAKUNIN, 1870

 Dicotomia entre governados e governantes: “Por mais democráticos que sejam seus
sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, vêem a sociedade da mesma
forma que um professor vê seus alunos, e entre o professor e os alunos não há igualdade. De um
lado, há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade
que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala
de poder político, fala de dominação. Quando existe dominação, uma grande parcela da sociedade
é dominada e os que são dominados geralmente detestam os que dominam, enquanto estes não
têm outra escolha, a não ser subjugar e oprimir aqueles que dominam. Esta é a eterna história do
saber, desde que o poder surgiu no mundo. Isto é, o que também explica como e porque os
democratas mais radicais, os rebeldes mais violentos se tornam os conservadores mais cautelosos
assim que obtêm o poder. Tais retratações são geralmente consideradas atos de traição, mas isto é
um erro. A causa principal é apenas a mudança de posição e, portanto, de perspectiva.” – BAKUNIN,
1870

 Distância entre a burguesia e o proletário: “Na Suíça, assim como em outros lugares, a classe
governante é completamente diferente e separada da massa dos governados. Aqui, apesar da
constituição política ser igualitária, é a burguesia que governa, e é o povo, operários e camponeses,
que obedecem suas leis.” – BAKUNIN, 1870

 Não existe igualdade política entre o povo e a burguesia: “O povo não tem tempo livre ou
educação necessária para se ocupar do governo. Já que a burguesia tem ambos, ela tem de ato, se
não por direito, privilégio exclusivo. Portanto, na Suíça, como em outros países a igualdade política
é apenas uma ficção pueril, uma mentira . Separada como está do povo, por circunstâncias sociais e
econômicas, como pode a burguesia expressar, nas leis e no governo, os sentimentos, as ideias, e a
vontade do povo? É possível, e a experiência diária prova isto. Na legislação e no governo, a
burguesia é dirigida principalmente por seus próprios interesses e preconceitos, sem levar em conta
os interesses do povo. É verdade que todos os nossos legisladores, assim como todos os membros
dos governos cantonais são eleitos, direta ou indiretamente, pelo povo .” – BAKUNIN, 1870

 “É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política,
deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo
volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram
e não se reconhecem mais.” – BAKUNIN, 1870
A ILUSÃO DO SUFRÁGIO UNIVERSAL – MIKHAIL
[Bakunin afirma que a burguesia BAKUNIN
se curva perante ao povo. Entretanto, isso é
uma falácia popular, uma vez que os ricos controlam a opinião pública através de
seus aparatos midiáticos. Assim, a submissão irrestrita não é burguesa, mas sim
popular. Ele completa dizendo que os dois grupos antagônicos não se encontram
mais depois das eleições. No entanto, isso também não acontece, uma vez que
após o sufrágio fictício, a burguesia volta para o escritório e o proletário retorna
para a fábrica do burguês. É na exploração que eles se encontram.]

 A corrupção governamental começa pela burguesia que oprime os eleitores e os impede


de serem educados politicamente: “Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e
ignorante da maioria dos problemas, supervisione as ações de seus representantes? Na realidade, o
controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema
representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal
liberdade não é mais do que ficção.” – BAKUNIN, 1870
A ESCRAVIDÃO NO BRASIL (MÁRCIA SANT’ANNA)
Márcia Genésia de Sant’anna possui doutorado em
Arquitetura e Urbanismo e já desempenhou papéis
fundamentas na diretoria do Departamento do Patrimônio
Imaterial do Iphan. Esse breve texto é um artigo preparado
especialmente para a Revista latina Oralidad da UNESCO,
com base em estudos realizados, entre 2001 e 2003, para a
instrução dos processos que designaram como patrimônio
cultural do Brasil os Terreiros de Candomblé do Axé Opô
Afonjá e Manso Banduquenqué, também denominado de
Terreiro do Bate Folha, ambos na Bahia.

Referência Bibliográfica: SANT’ANNA, Márcia. “A escravidão


no Brasil: os terreiros de candomblé e a resistência cultural
dos povos negros”, 2005. Disponível em:
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ip000
004.pdf >. Acesso em: 22 abr. 2020.

Temas abordados:
 Origem dos africanos escravizados trazidos para o Brasil : “O regime escravocrata, ao longo
de mais de 300 anos, trouxe para o Brasil diversos grupos étnicos, oriundos, principalmente, da
costa ocidental da África. Os primeiros escravos vieram do Senegal e de Serra Leoa - que formavam
a região então chamada da Guiné Portuguesa - diretamente para os canaviais de Pernambuco e da
Bahia. A esses negros fulas e mandingas vieram se juntar, em seguida, os negros bantos, que, no
século XVI, chegaram ao Nordeste do Brasil em levas crescentes para viabilizar a introdução e a
exploração da cana de açúcar e da criação de gado na colônia. No século XVII, Angola e Congo já
constituíam as principais regiões fornecedoras de escravos para o Brasil.” – SANT’ANNA, 2005

 Etimologia da palavra “banto” : “Segundo Pessoa de Castro, a palavra banto significa ‘os
homens’ e designa todo um grupo linguístico que ocupa vários territórios na África Central, Oriental
e Meridional, composto por várias línguas e etnias que atualmente espalham-se por países como
Angola, Namíbia, Repúblicas Popular e Democrática do Congo, Zâmbia, Uganda, Quênia,
Moçambique, África do Sul e outros.” – SANT’ANNA, 2005

 Bantos escravizados trazidos para o Brasil : “Embarcados na ilha de São Tomé, vieram para o
Brasil escravos originários das regiões de Cabinda, do antigo reino do Congo, do norte da Luanda, da
costa Sul e do interior da Angola e do atual Moçambique. Por essa razão, ficaram popularmente
conhecidos como negros congos e angolas.” – SANT’ANNA, 2005

 Influência cultural dos bantos para o Brasil : “Sua contribuição na formação da cultura e do
falar brasileiros foi, sem dúvida, capital. Trabalhando no eito, no engenho, na mina ou na cidade, os
homens e mulheres bantos foram deixando sua marca no comportamento, no fazer, no falar e no
ser brasileiro. Marca tão profunda que hoje nem se sabe da sua origem africana, pois é vista e
sentida como parte construtiva do que somos e do que é, cada vez mais, a nossa língua. Hábitos
como o ‘cafuné’, festejos que atravessam regiões, como as congadas, e palavras como cachaça,
samba e muitas outras, dão uma medida da profundidade da assimilação de elementos dessa
cultura no Brasil.” – SANT’ANNA, 2005

 Importância cultural dos terreiros de candomblé : “Atualmente, as principais fontes de


informação sobre as línguas africanas que eram correntemente faladas no Brasil até o século XIX
são os terreiros de candomblé e outras variantes dos cultos afro-brasileiros espalhadas pelo
território nacional. Nesses lugares, sob a forma de língua ritual, sobrevivem os falares que deixaram
de ser usados no cotidiano do povo negro em diáspora e foram sendo substituídos pela língua
dominante do branco. Esses falares, inclusive, passaram a constituir o principal traço distintivo das
chamadas ‘nações’ dos candomblés. Nações que transcendem etnias, mas que, pela língua e
tradições religiosas, retraçam as remotas origens dos que as construíram.” – SANT’ANNA, 2005

 Outros povos negros trazidos para o Brasil : “Os negros da chamada Costa da Mina, área que
hoje abrange Benin, Nigéria e Togo, começaram a aportar no Brasil só no final do século XVIII, para
o trabalho nas minas de ouro e diamante Eram, em sua maioria, pertencentes aos grupos nagô, jêje,
fanti, axanti e outros do litoral, e de grupos do Sudão islamizado como os hauçá ou malê, kanúri,
tapa e grunci. No Brasil, o termo ‘nagô’ designa todos os grupos vinculados à língua ioruba,
incluindo suas variantes dialetais. Englobados por esse designativo, encontram-se grupos do Sul e
do centro do Benin e do Sudoeste da Nigéria, como os keto, os egbá, os egbado, os sabé, os ijexá, os
ijebu e os oyó – nomes que correspondem às cidadee-estado africanas habitadas por esses povos. O
tráfico de escravos da Costa da Mina teve seu principal porto em Salvador, na Bahia,
desenvolvendo-se também em decorrência da utilização do escravo como moeda de troca para
aquisição do fumo produzido no Recôncavo baiano. Esse comércio prolongou-se até meados do
século XIX, e as últimas etnias que chegaram foram do grupo jejê, de língua fon, também
conhecidos como ewês, e os já mencionados nagôs. Com o declínio das lavras de mineração, a
maioria desses negros ficou na Bahia, em parte sendo vendidos também para Pernambuco e
Maranhão.” – SANT’ANNA, 2005
A ESCRAVIDÃO NO BRASIL – MÁRCIA
SANT’ANNA
 Os terreiros de candomblé brasileiros são únicos : “Não existiam, portanto, na África,
organizações semelhantes aos terreiros de candomblés brasileiros que reúnem num mesmo lugar
cultos diversos e originalmente dispersos no território africano. Essa nova configuração foi fruto da
escravidão e da reunião compulsória, numa terra estranha, de vários grupos que, em sua terra de
origem, cultuavam diferentes divindades. Na região ocupada pelos vários grupos nagô, por
exemplo, o orixá Oxossi só era cultuado na região de Ketu; Xangô na região de Oyó; Yemanjá, em
Abeocutá; Ogun em Ire, e assim por diante. O terreiro de candomblé, tal como o conhecemos, é a
criação nas condições adversas da escravidão, de uma nova instituição e de um novo modelo de
culto, adaptado às circunstâncias encontradas no Brasil.” – SANT’ANNA, 2005

 História dos terreiros de candomblé brasileiros : “As notícias mais antigas sobre associações
religiosas semelhantes aos candomblés datam das primeiras décadas do século XIX e informam que
essas organizações vinculavam-se, inicialmente, a confrarias ou a irmandades religiosas católicas. As
primeiras irmandades negras foram organizadas sob as bênçãos da Igreja, como um importante
aspecto da política colonial de controle dos escravos. No século XIX, assumiram o caráter de
associações de serviços e de assistência social, e, indiretamente, de espaço para a preservação de
costumes e tradições africanas.” – SANT’ANNA, 2005

 História dos candomblés jêje-nagôs na Bahia : “Alguns fatores favoreceram o surgimento dos
candomblés jêje-nagôs na Bahia. Em primeiro lugar, como já mencionado, a grande concentração
de negros dessas etnias em Salvador, vindos em massa num período relativamente curto. Também
chamados de ‘negros sudaneses’, eles constituíam 57% da população escrava na cidade entre 1820
e 1835. Em segundo lugar, o significativo número de africanos e crioulos libertos nesse período, em
Salvador, assim como o de escravos de ganho, que, com os primeiros, controlavam o comércio
ambulante e todo tipo de biscate. Os escravos de ganho tinham muito mais mobilidade do que os
escravos domésticos ou de aluguel, e consideravelmente mais ‘liberdade’ que os escravos do eito.
Reuniam-se em locais denominados ‘cantos’, e sua atividade favorecia a associação com outros
negros, especialmente aqueles de mesma etnia ou grupo linguístico. Os cantos, as confrarias e as
irmandades católicas foram, assim, os embriões das associações religiosas negras conhecidas como
candomblés.” – SANT’ANNA, 2005

 Etimologia da palavra “candomblé” : “O termo candomblé vem da palavra banto kandómbilé


ou kandombelé, que, segundo Pessoa de Castro, significa rezar.” – SANT’ANNA, 2005

 Intolerância religiosa enraizada : “Os terreiros de candomblé foram duramente perseguidos e


proibidos até a década de 30 do século XX. Alvo constantes investidas policiais, essas associações
sobreviveram e se consolidaram graças, em grande parte, às alianças que souberam firmar e
manter. Renato da Silveira arrola dois tipos principais de alianças, além daquela fundamental e
interétnica que possibilitou a (re)organização do culto: a aliança com os santos católicos e a aliança
com personalidades influentes da sociedade que apoiavam e protegiam os terreiros.” – SANT’ANNA,
2005

 Dados quantitativos oficiais sobre a existência terreiros de candomblé na Bahia : “Em


1937, Edison Carneiro identificou nos registros da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia a
inscrição de 67 candomblés dos quais 30 sudaneses (jêje-nagôs), 21 bantos (congo e angola), 15
ameríndios e um afro-indígena. Nos anos 80, a Federação Baiana dos Cultos Afro-Brasileiros,
A ESCRAVIDÃO NO BRASIL – MÁRCIA
registrou 1500 candomblés e o Projeto MAMNBA – Mapeamento dos Monumentos e Sítios
SANT’ANNA
Religiosos Negros da Bahia, em 1987, identificou cerca de 2000.” – SANT’ANNA, 2005

 Importância urbana dos terreiros de candomblé : “Os terreiros mais antigos de Salvador
remetem, ainda, à história da cidade. Por força da proibição do culto e das associações negras
durante longo período a se localizar em áreas periféricas, então de ocupação nula ou rarefeita. Em
função das características de suas comunidades, os terreiros foram agregando habitações de
membros ou simpatizantes, constituindo, por fim, embriões de bairros e, assim, tornando-se
também um dos fatores de urbanização. Como observou agudamente o historiador e antropólogo
Antônio Risério, os terreiros são também testemunhos materiais de que em algumas de nossas
cidades coloniais não se construiu modelos arquitetônicos e urbanísticos exclusivamente europeus.
Salvador talvez seja a que melhor demonstra isso em seus bairros populares.” – SANT’ANNA, 2005
SEJAMOS TODAS FEMINISTAS (CHIMAMANDA
ADICHIE) A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie ainda se
lembra exatamente do dia em que a chamaram de feminista
pela primeira vez. Foi durante uma discussão calorosa com
seu melhor amigo de infância Okoloma. Ela relembra: “Não
era um elogio. Percebi pelo tom de voz dele; era como se
dissesse: ‘Você apoia o terrorismo!’”. Apesar do completo
tom de desaprovação, Chimamanda Adichie abraçou
lindamente o termo. “Sejamos todos feministas” é uma fiel
adaptação do discurso feito pela autora africana no TEDx
Euston, um evento que já conta com mais de um milhão e
meio de visualizações no YouTube e já foi até musicalizado
pela cantora estadunidense Beyoncé.

Referência Bibliográfica: ADICHIE, Chimamanda Ngozi.


“Sejamos todas feministas”, 1ª Edição. São Paulo:
Companhia das Letras, 2015.

Temas abordados:
 Capacidade de naturalizar problemas : “Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna
normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal.” – ADICHIE, 2015

 Naturalização inconsciente do machismo : “Se só os meninos são escolhidos como monitores


da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que
CAPÍTULO 1
só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas
empresas, começamos a achar ‘normal’ que esses cargos de chefia só sejam ocupados por
homens.” – ADICHIE, 2015

 “Quanto mais duro um homem acha que deve ser, mais fraco será seu ego.” – ADICHIE, 2015

 “Por que o sucesso da mulher ameaça o homem?” – ADICHIE, 2015

 Ditadura do gênero : “O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser
em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem
realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas de gênero.” – ADICHIE, 2015

 Conceito de cultura: “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura.” – ADICHIE, 2015

 Conceituação de feminista: “Ao meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim,
existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar’.” – ADICHIE,
2015
O AMANHÃ NÃO ESTÁ À VENDA (AILTON
KRENAK) Ailton Alves Lacerda Krenak é um dos mais destacados
líderes ameríndios atuais. Além disso, é escritor com relativa
importância internacional, um renomado ativista do
movimento socioambiental e de defesa dos direitos
indígenas. Ficou mundialmente conhecido a partir de seu
discurso emocionante na Assembleia Constituinte, em
setembro de 1987, em que reivindicava reconhecimento
devido aos povos autóctones. Esse breve texto foi elaborado
a partir de três entrevistas concedidas pelo autor, realizadas
em abril de 2020, para três meios de comunicação
diferentes: Estado de Minas, O Globo e Expresso (Lisboa,
capital de Portugal), sobre a pandemia do coronavírus.

Referência Bibliográfica: KRENAK, Ailton. “O Amanhã Não


Está à Venda”, 1ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras,
2020.

Temas abordados:
 Degradação ambiental causada pelo homem : “Faz algum tempo que nós na aldeia Krenak já
estávamos de luto pelo nosso rio Doce. Não imaginava que o mundo nos traria esse outro luto. Está
todo mundo parado. Quando engenheiros me disseram que iriam usar a tecnologia para recuperar
o rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu respondi: ‘A minha sugestão é muito difícil de colocar
em prática. Pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a
cem quilômetros nas margens direita e esquerda, até que ele voltasse a ter vida’. Então um deles
me disse: ‘Mas isso é impossível’. O mundo não pode parar. E o mundo parou.” – KRENAK, 2020

 Desumanização institucionalizada: “Essa dor talvez ajude as pessoas a responder se somos de


fato uma humanidade. Nós nos acostumamos com essa ideia, que foi naturalizada, mas ninguém
mais presta atenção no verdadeiro sentido do que é ser humano.” – KRENAK, 2020

 Desigualdade social: “Só que viramos adultos, estamos devastando o planeta, cavando um
fosso gigantesco de desigualdades entre povos e sociedades. De modo que há uma sub humanidade
que vive numa grande miséria, sem chance de sair dela – e isso também foi naturalizado .” –
KRENAK, 2020

 Vírus como resposta ao capitalismo : “O presidente da República disse outro dia que
brasileiros mergulham no esgoto e não acontece nada. O que vemos nesse homem é o exercício da
necropolítica, uma decisão de morte. É uma mentalidade doente que está dominando o mundo. E
temos agora esse vírus, um organismo do planeta, respondendo a esse pensamento doentio dos
humanos com um ataque à forma de vida insustentável que adotamos por livre escolha, essa
fantástica liberdade que todos adoram reivindicar, mas ninguém se pergunta qual o seu preço.” –
KRENAK, 2020
 Contaminação do coronavírus: “Esse vírus está discriminando a humanidade. Basta olhar em
volta. O melão-de-são-caetano continua a crescer aqui do lado de casa. A natureza segue. O vírus
não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos
humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise.” – KRENAK,
2020

 Capitalismo pior que o coronavírus : “É terrível o que está acontecendo, mas a sociedade
precisa entender que não somos o sal da terra. Temos que abandonar o antropocentrismo; há
muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos,
aprendemos que há listas de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos
proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a Covid-19. Esse pacote chamado
de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo
numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de
existência e de hábitos.” – KRENAK, 2020

 Vida mais importante que o mercado neoliberal : “Governos burros acham que a economia
não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de
nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que
a economia é mais importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação. Coisa  de
quem acha que a vida é baseada em meritocracia e luta por poder. Não podemos pagar o preço que
estamos pagando e seguir insistindo nos erros.” – KRENAK, 2020

 Irrelevância governamental dada aos grupos de risco : “Michel Foucault tem uma obra
fantástica, Vigiar e punir, na qual afirma que essa sociedade de mercado em que vivemos só
considera o ser humano útil quando está produzindo. Com o avanço do capitalismo, foram criados
os instrumentos de deixar viver e de fazer morrer: quando o indivíduo para de produzir, passa a ser
uma despesa. Ou você produz as condições para se manter vivo ou produz as condições para
morrer. O que conhecemos como Previdência, que existe em todos os países com economia de
mercado, tem um custo. Os governos estão achando que, se morressem todas as pessoas que
representam gastos, seria ótimo. Isso significa dizer: pode deixar morrer os que integram os grupos
de risco. Não é ato falho de quem fala; a pessoa não é doida, é lúcida, sabe o que está falando. ” –
KRENAK, 2020

 “Há muito tempo não programo atividades para ‘depois’. Temos de parar de ser convencidos. Não
O AMANHÃ
sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de venderNÃO ESTÁ À
o amanhã.” VENDA 2020
– KRENAK, – AILTON
KRENAK
 “Ninguém escapa, nem aquelas pessoas saindo de carro importado para mandar seus
empregados voltarem ao trabalho, como se fossem escravos. Se o vírus pegá-los, eles podem
morrer, igual a todos nós. Com ou sem Land Rover.” – KRENAK, 2020

 A humanidade precisa mudar rapidamente : “Tomara que não voltemos à normalidade, pois,
se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro. Depois
disso tudo, as pessoas não vão querer disputar de novo o seu oxigênio com dezenas de colegas num
espaço pequeno de trabalho. As mudanças já estão em gestação. Não faz sentido que, para
trabalhar, uma mulher tenha de deixar os seus filhos com outra pessoa. Não podemos voltar àquele
ritmo, ligar todos os carros, todas as máquinas ao mesmo tempo. Seria como se converter ao
negacionismo, aceitar que a Terra é plana e que devemos seguir nos devorando. Aí, sim, teremos
provado que a humanidade é uma mentira.” – KRENAK, 2020
CARTA SOBRE A FELICIDADE (EPICURO)
Epicuro de Samos (341 a.C. - 271 a.C.) foi um filósofo grego
do período helenístico, fundador do Epicurismo, filosofia
baseada na identificação do bem soberano com a
imperturbabilidade da alma (“ataraxia”, em grego antigo) e
na teoria atomista, na qual o átomo era o elemento
formador de todas as coisas (“arcké”, em grego). Esse
opúsculo, escrito há mais de 2200 anos pelo pensador, foi
dedicado ao seu amigo próximo Meneceu. Os pontos altos
dessa carta são análises extremamente pertinentes sobre a
filosofia, a morte, o prazer, a felicidade e o desejo. É
considerada por muitos estudiosos contemporâneos como
uma das grandes obras da Antiguidade

Referência Bibliográfica: EPICURO. “Carta sobre a felicidade


(a Meneceu)”. Tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del
Carratone. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

Temas abordados:
 Não há idade para se dedicar à filosofia : “Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia
enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado
jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se
à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que
já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para
quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se
foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir.” – EPICURO

 Busca da felicidade: “é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que,
estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.” – EPICURO

 Questão de crer em deuses: “Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas
sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito
dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles
causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas
próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho
tudo que seja diferente deles.” - EPICURO

 Morte como etapa necessária: “Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto
que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações.
A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida
efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.” –
EPICURO
 Emoções vindas da morte: “É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a
chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos
perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado. Então, o mais
terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando
estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é
que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que
para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das
pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males
da vida.” – EPICURO

 Toda vida importa: “Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de
um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter
exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer.” – EPICURO

 Incertezas do futuro: “Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente
nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir
com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.” – EPICURO

 Classificação dos tipos de desejos : “Consideremos também que, dentre os desejos, há os que
são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas
naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o
bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a
direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto
que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos
afastarmos da dor e do medo.” – EPICURO

 Prazer como principal regulador da vida : “De fato, só sentimos necessidade do prazer quando
sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.
É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o
identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda
escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre
prazer e dor.” – EPICURO

 Prazer X Dor: “Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos
qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o
mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos
CARTA SOBRE
prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos A FELICIDADE
essas dores – EPICURO
por muito tempo. Portanto,
todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são
escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas.
Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios
e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal
como se fosse um bem.” – EPICURO

 “Consideramos ainda a autossuficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com
pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente
convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é
natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.” – EPICURO
 Crítica à ideia de felicidade ligada ao poder aquisitivo : “Os alimentos mais simples
proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor
provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem
deles necessita.” – EPICURO

 Extravagância é prejudicial: “Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso,


portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para
enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma
existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar
sem temor as vicissitudes da sorte.” – EPICURO

 Importância da prudência: “De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem,
razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais
virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não
existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à
felicidade, e a felicidade é inseparável delas.” - EPICURO

 Questão da sabedoria: “Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que
tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a
morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas
simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega
o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade,
ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa
vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?” – EPICURO

 Mito X Razão: “Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos
naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das
homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável. ” - EPICURO

 Questão da sorte: “Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita
(pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens
nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o
início de grandes bens e de grandes males.” - EPICURO

 Felicidade atrelada ao bem-estar social : “A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser
afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter
êxito um projeto mau.” - EPICURO CARTA SOBRE A FELICIDADE – EPICURO

 “Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais .” -
EPICURO
PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA (DJAMILA
RIBEIRO)
Djamila Tais Ribeiro dos Santos é mestre em filosofia política
pela Unifesp e colunista do jornal Folha de São Paulo, foi
secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e
Cidadania do município de São Paulo. Neste livro, trata de
temas atuais como racismo, negritude, branquitude,
violência racial, cultura, afetos e desejos. Em onze lições a
autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que
queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações e
assumir a responsabilidade pela transformação do estado
das coisas. Djamila argumenta que a prática antirracista é
urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas. E mais ainda: é
uma luta de todas e todos.

Referência Bibliográfica: RIBEIRO, Djamila. “Pequeno


manual antirracista”, 1ª Edição. São Paulo: Companhia das
Letras, 2019.

Temas abordados:
 Teoria utópica e prática discriminatória presentes na Constituição de 1824 : “É importante
lembrar que, apesar de a Constituição do Império de 1824 determinar que a educação era um
direito de todos os cidadãos, a escola estava vetada para pessoas negras escravizadas. A cidadania
se estendia a portugueses e aos nascidos em solo brasileiro, inclusive a negros libertos. Mas esses
direitos estavam condicionados a posses e rendimentos, justamente para dificultar aos libertos o
acesso à educação.” – RIBEIRO, 2019

 Nomear é o primeiro passo para combater : “Devemos aprender com a história do feminismo
negro, que nos ensina a importância de nomear as opressões, já que não podemos combater o que
não tem nome. Dessa forma, reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo.” – RIBEIRO,
2019

 Percepção de privilégios: “Perceber é algo transformador. É o que permite situar nossos


privilégios e nossas responsabilidades diante de injustiças contra grupos sociais vulneráveis.” –
RIBEIRO, 2019

 O racismo é fruto da branquitude : “Até serem homogeneizados pelo processo colonial, os


povos negros existiam como etnias, culturas e idiomas diversos — isso até serem tratados como “o
negro”. Tal categoria foi criada em um processo de discriminação, que visava ao tratamento de
seres humanos como mercadoria. Portanto, o racismo foi inventado pela branquitude, que como
criadora deve se responsabilizar por ele. Para além de se entender como privilegiado, o branco deve
ter atitudes antirracistas.” – RIBEIRO, 2019
 “É impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e
contra o que devemos lutar sempre.” – RIBEIRO, 2019

 Esterilização forçada de mulheres negras : “As frases destacadas por Sueli Carneiro refletem a
história da população negra no Brasil, que, após séculos de escravização, viram imigrantes europeus
receberem incentivos do Estado brasileiro, inclusive com terras, enquanto a negritude formalmente
liberta pela Lei Áurea era deixada à margem. Os incentivos para imigrantes fizeram parte de uma
política oficial de branqueamento da população do país, com base na crença do racismo biológico
de que negros representariam o atraso. Essa perspectiva marcou a história brasileira, valorizando
culturas europeias em detrimento da cultura negra, segregando a população negra de diversas
formas, inclusive por leis e pela esterilização forçada de mulheres negras, prática que o Estado
brasileiro manteve até um passado recente, como comprovado pela CPI da Esterilização de 1992,
proposta pela deputada federal Benedita da Silva e resultado da pressão feita por feministas negras
nos anos 1980.” – RIBEIRO, 2019

 Encarceramento em massa como controle social : “Historicamente, o sistema penal foi


utilizado para promover um controle social, marginalizando grupos considerados “indesejados” por
quem podia definir o que é crime e quem é o criminoso.” – RIBEIRO, 2019

Conceitos abordados:

 PACTO NARCÍSICO DA BRANQUITUDE: expressão desenvolvida por Cida Bento em sua tese de
doutorado, usada para definir como pessoas brancas anuem entre si para a manutenção de
privilégios

 LUGAR DE FALA: “O conceito de lugar de fala discute justamente o locus social, isto é, de que
ponto as pessoas partem para pensar e existir no mundo, de acordo com as suas experiências em
comum. É isso que permite avaliar quanto determinado grupo — dependendo de seu lugar na
sociedade — sofre com obstáculos ou é autorizado e favorecido.” – RIBEIRO, 2019

 EPISTEMICÍDIO: “Alia-se nesse processo de banimento social a exclusão das oportunidades


educacionais, o principal ativo para a mobilidade social no país. Nessa dinâmica, o aparelho
PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA – DJAMILA
educacional tem se constituído, de forma quase absoluta,
RIBEIROpara os racialmente inferiorizados, como
fonte de múltiplos processos de aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual. É
fenômeno que ocorre pelo rebaixamento da autoestima que o racismo e a discriminação provocam
no cotidiano escolar; pela negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio
da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do continente africano e da diáspora
africana ao patrimônio cultural da humanidade; pela imposição do embranquecimento cultural e
pela produção do fracasso e evasão escolar. A esse processo denominamos epistemicídio.” –
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese de doutorado
em educação. Universidade de São Paulo, 2005.
TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA (LIMA
BARRETO)
Afonso Henrique de Lima Barreto foi um dos principais
escritores do pré-modernismo brasileiro. Além de escritor,
ele foi jornalista e suas obras estão relacionadas com
temáticas sociais e nacionalistas. Sua obra que merece
destaque é o “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que narra
a trajetória de um patriota ímpar, que causa estranheza
geral pelos seus ideais nacionalistas. Narrado em terceira
pessoa, a história se passa no final do século XIX, na cidade
do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Dividida em três
partes, ela foi publicada inicialmente em folhetins do Jornal
do Comércio do Rio de Janeiro, entre 11 de agosto de 1911 e
19 de outubro de 1911. Tempos depois saiu em volume
integral.

Referência Bibliográfica: BARRETO, Lima. “Triste fim de


Policarpo Quaresma”, 14ª Edição. São Paulo: Editora Ática,

Temas abordados:
 O popular é renegado pelas elites : “Mas não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu
logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que coisa? Um homem tão sério metido nessas
malandragens!” – BARRETO, 1911, p.20

 Patriotismo ligado às Forças Armadas: “No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de


papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava
diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da
Pátria.” – BARRETO, 1911, p.22

 Nacionalismo exagerado contém traços de xenofobia : “Defendia com azedume e paixão a


proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de
amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do ‘seu’ rio que ele mais implicava. Ai de
quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado,
quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.” – BARRETO, 1911, p.23

 Visão popular do rei Dom João VI : “Não havia ainda cem anos que as carruagens d'El-Rei Dom
João VI, pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por
ali para irem ter ao longínquo Santa Cruz. Não se pode crer que a coisa fosse lá muito imponente; a
Corte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado.” – BARRETO, 1911, p.32
 Apagamento da cultura popular: “Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos
passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções?
Era
bem um sinal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que
os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantê-
las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...” – BARRETO, 1911, p.34

 Importância da língua na emancipação : “a língua é a mais alta manifestação da inteligência de


um povo, é a sua criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer
como complemento e consequência a sua emancipação idiomática.” – BARRETO, 1911, p.53

 Desigualdade prisional : “Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu
olha para o assassino marquês que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo
na prisão, ainda o nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma
inadaptação que ferem o seu humilde colega de desgraça.” – BARRETO, 1911, p.55

 Conceito de “trabalho” é manipulado pela elite : “Não estás vendo como essa gente tem
tanta saúde por aí... Se adoecem, é porque não trabalham.” – BARRETO, 1911, p.79

 “O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo.” – BARRETO, 1911, p.82

 Corrupção ligada ao Colégio Militar : “O Lulu, o único filho do general, impava no seu uniforme
do Colégio Militar, cheio de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos
empenhos do pai.” – BARRETO, 1911, p.88

 Concentração fundiária: “E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta terra abando-
nada que se encontrava por aí? Ela vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que
esse acaparamento, esses latifúndios inúteis e improdutivos?” – BARRETO, 1911, p.104

 Importação em massa atrapalha os produtores locais : “A tal afirmação de falta de braços


pareceu-lhe uma afirmação de má-fé ou estúpida, e estúpido ou de má-fé era o Governo que os
andava importando aos milhares, sem se preocupar com os que já existiam. Era como se no campo
em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado, fossem introduzidas mais três, para
aumentar o estrume!...” – BARRETO, 1911, p.108
TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA – LIMA
 Falta de apoio do governo aos produtores : “Como BARRETOera possível fazer prosperar a agricultura,
com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio dos atravessadores do Rio se juntavam as
exações do Estado, como era possível tirar da terra a remuneração consoladora?” – BARRETO, 1911,
p.115

 Positivismo: “Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico,


limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em
nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e também ao advento
do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de
cornetins e versos detestáveis, o paraíso enfim, com inscrições em escritura fonética e eleitos
calçados com sapatos de sola de borracha!...” – BARRETO, 1911, p.121
CAPÍTULO 1
 “—Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se
governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar
os governantes?” – BARRETO, 1911, p.137
LIÇÕES SOBRE O FASCISMO (PALMIRO
TOGLIATTI)
O escritor italiano Palmiro Togliatti (1893-1964) foi um
importante político marxista e dirigente revisionista do
Partido Comunista da Itália (PCI). Nesse texto introdutório
da sua obra atemporal “Lições sobre o fascismo”, o
renomado autor explana, de forma mais conceitual, o
universo fascista e suas aplicações práticas. Dessa forma,
ele primordialmente aborda conceituações do movimento
e de sua ideologia heterogênea. Além disso, o autor ainda
suscita exemplos práticos, dentre eles ocorridos na França
e na Itália e Alemanha, sob a forma de nazifascismo.

Referência Bibliográfica: TOGLIATTI, Palmiro. “Os


caracteres fundamentais da ditadura fascista” in ________
Lições sobre o fascismo. São Paulo: Editora Livraria Ciências
Humanas, 1978, p. 1-12.

Temas abordados:
 Os verdadeiros adversários do movimento antifascista : “Nossos adversários são as
organizações fascistas, social-democratas, católicas, mas as massas que aderem a elas não são
nossos adversários, são massas de trabalhadores que devemos fazer todos os esforços para
conquistas.” – TOGLIATTI, 1935, p. 1

 Conceituação de fascismo: “A definição mais completa do fascismo foi formulada pelo XIII
Pleno da Internacional Comunista e é a seguinte: ‘O fascismo é uma ditadura terrorista aberta dos
elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro’ .” –
TOGLIATTI, 1935, p. 1

 Não há diferença prática entre a ditadura do fascismo e a democracia burguesa : “Bordiga,


ao contrário, insistia na ausência total de diferença entre a democracia burguesa e a ditadura
fascista, apresentando-a quase como a mesma coisa, afirmando que havia entre essas duas formas
de governo burguês uma espécie de rotação, de alternância.” – TOGLIATTI, 1935, p. 1-2

 Toda democracia burguesa possui moldes extremamente ditatoriais : “É claro que não se
pode contrapor a democracia burguesa à ditadura. Toda democracia é uma ditadura .” – TOGLIATTI,
1935, p. 2
CAPÍTULO 1
 Imperialismo e fascismo estão ligados : “Não se pode saber o que é o fascismo se não se
conhece o imperialismo.” – TOGLIATTI, 1935, p. 2

 Definição de imperialismo por Vladimir Lênin : “Vocês conhecem as características do


imperialismo. Vocês conhecem a definição que dele dá Lênin. O imperialismo é caracterizado por:
1º) concentração da produção e do capital, formação de monopólios com uma função decisiva na
vida econômica; 2º) fusão do capital bancário com o capital industrial e formação, à base do capital
financeiro, de uma oligarquia financeira; 3º) grande importância da exportação de capitais;i4º)
surgimento de associações monopolistas internacionais de capitalistas; e. finalmente, repartição da
Terra entre as grandes potências capitalistas, que podemos considerar concluída .” – TOGLIATTI,
1935, p. 3-4

 “Essa tendência à forma fascista de governo existe em toda parte. Mas isso não quer dizer ainda
que em toda parte se deva chegar necessariamente ao fascismo.” – TOGLIATTI, 1935, p. 4

 Fascismo como luta de classes : “E não podemos compreender o problema se não o colocarmos
assim, como uma luta de classes, como uma luta entre a burguesia e o proletariado, na qual a
aposta, para a burguesia, é a instauração de sua própria ditatura em sua forma mais aberta e, para
o proletário, a instauração de sua própria ditadura, à qual ele chega lutando pela defesa de todas as
suas liberdades democráticas.” – TOGLIATTI, 1935, p. 7-8

 Nascimento e desenvolvimento do fascismo : “O fascismo se desenvolve porque as


contradições internas chegaram a tal ponto que a burguesia é obrigada a liquidar as formas da
democracia.” – TOGLIATTI, 1935, p. 7

 “O proletariado deve lutar pela defesa de suas conquistas.” – TOGLIATTI, 1935, p. 8

 Motivo da heterogeneidade da ideologia fascista : “A ideologia fascista contém uma série de


elementos heterogêneos. Devemos ter isto presente porque esta característica nos permite
compreender para que serve essa ideologia. Ela serve para unificar diversas correntes na luta pela
ditadura sobre as massas trabalhadoras e para criar, com este fim, um amplo movimento de massas
A ideologia fascista é um instrumento criado para manter ligado esses elementos.” – TOGLIATTI,
1935, p. 9

 Adaptabilidade da ideologia fascista : “Nada se parece mais que um camaleão do que a


LIÇÕES SOBRE O FASCISMO – PALMIRO
ideologia fascista. Não pensem na ideologia fascista sem ver o objetivo que o fascismo se propunha a
TOGLIATTI
atingir num determinado momento com uma determinada ideologia.” – TOGLIATTI, 1935, p. 9

 O movimento das massas pequeno-burguesas é incentivado pela alta burguesia quando


conveniente: “Quando esse movimento na pequena burguesia se transforma num movimento
único? Não no começo, mas no final de 1920 [na Itália]. Ele se transforma quando intervêm um
elemento novo, quando as forças mais reacionárias da burguesia intervêm como elemento
organizador.” – TOGLIATTI, 1935, p. 10
CAPÍTULO 1
 Caráter unificador de Benito Mussolini : “Mussolini se esforçava por manter unidas as mais
amplas massas possíveis e é por isso que ele sempre gozou de maior aceitação.” – TOGLIATTI, 1935,
p. 12
AS ALMAS DA GENTE NEGRA (W.E.B. DU BOIS)
William Edward Burghardt Du Bois foi um sociólogo e
ativista estadunidense. O capítulo introdutório de sua obra
publicada em 1903 expõe uma visão geral da sua tese
igualitária e faz uma introdução à famosa metáfora do véu:
para ele, todos os afro-americanos possuíam um véu,
devido à sua visão do mundo e suas oportunidades de
potencial econômico, político e social que eram tão
diferentes dos brancos. O véu era uma manifestação visual
da discriminação racial, um problema que Du Bois
trabalhou a sua vida inteira para remediar.

Referência Bibliográfica: DU BOIS, W.E.B. “Sobre nossos


embates espirituais” in ________ As Almas da Gente
Negra. Tradução de Heloisa Toller Gomes. Rio de Janeiro:
Lacerda, 1999, p. 37-46.

Temas abordados:
 Exemplo de eufemização do racismo : “Então, ao invés de dizerem diretamente, Como se
sente sendo um problema? falam, Eu conheço um excelente homem de cor na minha cidade; ou, Eu
servi em Mechanicsville; ou, Essas ofensas sulistas não fazem seu sangue ferver?” – DU BOIS, 1903,
p. 37-38

 O racismo causa uma sensação inerente de estranheza: “E, mais, ser um problema é uma
estranha experiência – estranha mesmo para alguém acostumado a isto, exceto, quem sabe na
infantilidade e quando na Europa.” – DU BOIS, 1903, p. 38

 Ausência de pertencimento causada pelo racismo : “Por que Deus me fez um pária, um
estranho em minha própria casa?” – DU BOIS, 1903, p. 38

 Racismo como determinante de prisões : “As sombras do presídio envolveram-nos todos:


muralhas estreitas e resistentes para os mais claros; mas inexoravelmente estreitas, altas e
inescaláveis para os filhos da noite, que devem penar mais no escuro, resignados, ou bater
inutilmente as palmas contra a rocha, ou tranqüilos, meio-desanimados, contemplarem o cintilar do
azul acima” – DU BOIS, 1903, p. 38-39

 Conceituação do mundo americano : “Mundo americano – mundo que não lhe permite
produzir uma verdadeira autoconsciência, que apenas lhe assegura se descubra através da
revelação do outro.” – DU BOIS, 1903, p. 39
 Apagamento racista das contribuições negras : “Forças do corpo e da mente foram, no
passado, singularmente desperdiçadas, dispersadas e esquecidas. A sombra de um poderoso
passado voeja nas lendas da Etiópia Misteriosa e do Egito da Esfinge. Ao longo da história, o poder
de homens negros lampejou aqui e ali como estrelas cadentes, e morreu, às vezes, antes que o
mundo tivesse com precisão medido sua luminosidade.” – DU BOIS, 1903, p. 40

 Imposição da cultura branca aos negros : “O amor inato pela harmonia e a beleza, que forjou
nas singelas almas a ânsia de dançar e cantar, criou, no espírito do artista negro, confusão e dúvida.
A beleza que lhe foi revelada era a bela-alma de uma raça que, majoritariamente, o desprezava; e
lhe era impossível articular uma mensagem para o outro povo. Este desperdício de duplos objetivos,
a busca por satisfazer dois ideais irreconciliáveis, laborou um triste caos na coragem, fé, esperanças
e obras de dez milhões de pessoas – remeteu-as à veneração de falsos deuses e à invocação de
meios equivocados de salvação e, muitas vezes, parece que as fazia sentirem-se envergonhadas de
si mesmas. ” – DU BOIS, 1903, p. 40-41

 A liberdade não veio com a Emancipação : “Por seus pecados, a Nação ainda não encontrou a
paz; o liberto ainda não encontrou na liberdade a sua terra prometida. Seja o que tenha vindo de
bom nesses anos de mudanças, a sombra de um profundo desapontamento encobre o povo negro –
um desapontamento tanto mais amargo por que o ideal não alcançado era desmedido, salvo para a
ignorância simples de um povo humilde.” – DU BOIS, 1903, p. 41

 Pobreza inerente ao capitalismo : “Pela primeira vez ele buscou analisar a carga que carregava
em suas costas – o peso morto da degradação social parcialmente mascarada através da meia
expressão, problema negro. Ele sente sua pobreza; sem um centavo, sem um lar, sem terra,
ferramentas ou poupança, entra na competição com os vizinhos ricos, proprietários e preparados.
Ser pobre é duro, mas ser uma raça pobre na terra dos dólares é o mais profundo dos sofrimentos.”
– DU BOIS, 1903, p. 43

 O capitalismo é o principal e primordial aliado na perpetuação de práticas racistas :


“Rumores e crenças nascem de quatro ventos: Cuidado! nós estamos doentes e morrendo, clamam
as hostes negras; não sabemos escrever, votar é ato vão; para que educação se somos úteis
somente para servir e cozinhar? E a Nação ecoou e ampliou esta autocrítica, dizendo: Fiquem felizes
em serem serventes e nada mais; para que cultura superior para um meio-homem? Suprimam o
voto do negro, pela foça ou fraude, e contemplem o suicídio de uma raça!” – DU BOIS, 1903, p. 44

ALMA NEGRA – W.E.B. DU BOIS


IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO (AILTON
KRENAK) Ailton Alves Lacerda Krenak é um dos mais destacados
líderes ameríndios atuais. Além disso, é escritor com relativa
importância internacional, um renomado ativista do
movimento socioambiental e de defesa dos direitos
indígenas. Ficou mundialmente conhecido a partir de seu
discurso emocionante na Assembleia Constituinte, em
setembro de 1987, em que reivindicava reconhecimento
devido aos povos autóctones. Esse breve texto foi elaborado
a partir de algumas palestras concedidas pelo autor,
realizada em 12 de março de 2019 na Universidade de
Lisboa, em Portugal, e entrevistas para veículos de
comunicação portugueses.

Referência Bibliográfica: KRENAK, Ailton. “Ideias para adiar


o fim do mundo”, 1ª Edição. São Paulo: Companhia das
Letras, 2019.

Temas abordados:
 Embasamento da colonização: “A ideia de que os brancos europeus podiam sair colonizando o
resto do mundo estava sustentada na premissa de que havia uma humanidade esclarecida que
precisava ir ao encontro da humanidade obscurecida, trazendo-a para essa luz incrível. Esse chamado
para o seio da civilização sempre foi justificado pela noção de que existe um jeito de estar aqui na
Terra, uma certa verdade, ou uma concepção de verdade, que guiou muitas das escolhas feitas em
diferentes períodos da história.” – KRENAK, 2019

 Importância da ancestralidade: “Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua
memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste
mundo maluco que compartilhamos.” – KRENAK, 2019

 Perigosidade da abstração civilizatória : “A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra,


vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das
formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se
possível, a mesma língua para todo mundo.” – KRENAK, 2019

 Influência do consumismo no entendimento de cidadania : “Precisamos ser críticos a essa


ideia plasmada de humanidade homogênea na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar
daquilo que antes era cidadania. José Mujica disse que transformamos as pessoas em consumidores,
e não em cidadãos. E nossas crianças, desde a mais tenra idade, são ensinadas a serem clientes. Não
tem gente mais adulada do que um consumidor. São adulados até o ponto de ficarem imbecis,
babando. Então para que ser cidadão? Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de uma
maneira crítica e consciente, se você pode ser um consumidor? Essa ideia dispensa a experiência de
viver numa terra cheia de sentido, numa plataforma para diferentes cosmovisões .” – KRENAK, 2019

 Genocídio do povo Yanomami : “As pessoas podem viver com o espírito da floresta, viver com a
floresta, estar na floresta. Não estou falando do filme Avatar, mas da vida de vinte e tantas mil
pessoas — e conheço algumas delas — que habitam o território yanomami, na fronteira do Brasil
com a Venezuela. Esse território está sendo assolado pelo garimpo, ameaçado pela mineração, pelas
mesmas corporações perversas que já mencionei e que não toleram esse tipo de cosmos, o tipo de
capacidade imaginativa e de existência que um povo originário como os Yanomami é capaz de
produzir.” – KRENAK, 2019

 Criação de ausências como marca fundamental do capitalismo: “Nosso tempo é especialista


em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso
gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de
estar vivo, de dançar, de cantar.” – KRENAK, 2019

 “Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos
últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda?
Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos.” –
KRENAK, 2019

 Simbologia autóctone do rio Doce: “O rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso
avô, é uma pessoa, não um recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de que alguém possa
se apropriar; é uma parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico, onde
fomos gradualmente confinados pelo governo para podermos viver e reproduzir as nossas formas de
organização (com toda essa pressão externa).” – KRENAK, 2019

 Perigosidade da aldeia global de McLuhan: “Em diferentes lugares do mundo, nos afastamos
de uma maneira tão radical dos lugares de origem que o trânsito dos povos já nem é percebido.
Atravessamos continentes como se estivéssemosIDEIAIS
indo PARA ADIAR
ali ao lado. Se éOcerto
FIMque
DOoMUNDO – AILTON
desenvolvimento
de tecnologias eficazes nos permite viajar deKRENAK
um lugar para outro, que as comodidades tornaram fácil
a nossa movimentação pelo planeta, também é certo que essas facilidades são acompanhadas por
uma perda de sentido dos nossos deslocamentos.” – KRENAK, 2019

 Antropoceno como consequência da degradação humana: “A conclusão ou compreensão de


que estamos vivendo uma era que pode ser identificada como Antropoceno deveria soar como um
alarme nas nossas cabeças. Porque, se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que
até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos
exaurindo as fontes da vida que nos possibilitaram prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir
até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por
estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de
organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras
formas de viver.” – KRENAK, 2019
 Etimologia da palavra “krenak”: “O nome krenak é constituído por dois termos: um é a primeira
partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, significa terra. Krenak é a herança que recebemos
dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como “cabeça da
terra”, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda
comunhão com a terra.” – KRENAK, 2019

 Percepção influenciada de Gagárin: “Quem sabe se, quando o astronauta Iúri Gagárin disse ‘a
Terra é azul’, ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós
pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver .” – KRENAK, 2019

 Mãe Natureza X Homem: “Todas as histórias antigas chamam a Terra de Mãe, Pacha Mama,
Gaia. Uma deusa perfeita e infindável, fluxo de graça, beleza e fartura. Veja-se a imagem grega da
deusa da prosperidade, que tem uma cornucópia que fica o tempo todo jorrando riqueza sobre o
mundo… Noutras tradições, na China e na Índia, nas Américas, em todas as culturas mais antigas, a
referência é de uma provedora maternal. Não tem nada a ver com a imagem masculina ou do pai.
Todas as vezes que a imagem do pai rompe nessa paisagem é sempre para depredar, detonar e
dominar.” – KRENAK, 2019

 Guerra Fria: “O desconforto que a ciência moderna, as tecnologias, as movimentações que


resultaram naquilo que chamamos de “revoluções de massa”, tudo isso não ficou localizado numa
região, mas cindiu o planeta a ponto de, no século XX, termos situações como a Guerra Fria, em que
você tinha, de um lado do muro, uma parte da humanidade, e a outra, do lado de lá, na maior
tensão, pronta para puxar o gatilho para cima dos outros. Não tem fim do mundo mais iminente do
que quando você tem um mundo do lado de lá do muro e um do lado de cá, ambos tentando
adivinhar o que o outro está fazendo. Isso é um abismo, isso é uma queda .” – KRENAK, 2019

 Estratégias de laboratórios visando o lucro: “Os laboratórios planejam com antecedência a


publicação das descobertas em função dos mercados que eles próprios configuram para esses
aparatos, com o único propósito de fazer a roda continuar a girar. Não uma roda que abre outros
horizontes e acena para outros mundos no sentido prazeroso, mas para outros mundos que só
IDEIAIS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO – AILTON
reproduzem a nossa experiência de perda de liberdade, de perda daquilo a que podemos chamar
KRENAK
inocência, no sentido de ser simplesmente bom, sem nenhum objetivo .” – KRENAK, 2019

 Genocídio autóctone presente no colonialismo: “Já que se pretende olhar aqui o Antropoceno
como o evento que pôs em contato mundos capturados para esse núcleo preexistente de civilizados
— no ciclo das navegações, quando se deram as saídas daqui para a Ásia, a África e a América —, é
importante lembrar que grande parte daqueles mundos desapareceu sem que fosse pensada uma
ação de eliminar aqueles povos. O simples contágio do encontro entre humanos daqui e de lá fez
com que essa parte da população desaparecesse por um fenômeno que depois se chamou epidemia,
uma mortandade de milhares e milhares de seres. Um sujeito que saía da Europa e descia numa praia
tropical largava um rasto de morte por onde passava. O indivíduo não sabia que era uma peste
ambulante, uma guerra bacteriológica em movimento, um fim de mundo; tampouco o sabiam as
vítimas que eram contaminadas. Para os povos que receberam aquela visita e morreram, o fim do
mundo foi no século XVI.” – KRENAK, 2019
SOBRE A AUTORIDADE (FRIEDRICH ENGELS)
Friedrich Engels (1820 – 1895) foi um filósofo teórico
revolucionário prussiano, nascido na atual Alemanha, que
junto com Karl Marx fundou o chamado socialismo
científico, também conhecido por muitos como marxismo.  
Escrito entre outubro de 1872 e março de 1873, esse artigo
de Engels foi publicado inicialmente na coletânea italiana
“Almanacco Republicano per l'anno de” em dezembro de
1873. Nesse breve texto, o autor comunista aborda temas
importantes como a conceituação de autoridade, sua
relação com subordinação, processos produtivos, críticas à
anti-autoritários e ainda faz uma referência à Comuna de
Paris.

Referência Bibliográfica: ENGELS, Friedrich. “Sobre a


Autoridade”, 1873. Disponível em: <https://www.marxists.
org/portugues/marx/1873/03/autoridade-pt.htm>. Acesso
em: 04 jul. 2020.

Temas abordados:
 Conceituação de “autoridade”: “Autoridade, no sentido próprio da palavra, quer dizer:
imposição da vontade de outrem sobre a nossa; e, por outro lado, autoridade supõe subordinação.” –
ENGELS, 1873
 Mudança de solidariedade mecânica para orgânica : “Em todo o lado a ação independente dos
indivíduos é substituída pela ação combinada, a complicação dos processos interdependentes .” –
ENGELS, 1873

 Vingança eminente da natureza : “Se, pela ciência e pelo seu gênio inventivo, o homem
submeteu as forças da natureza, estas se vingam submetendo-o, já que delas se usa, a um verdadeiro
despotismo independente de qualquer organização social.” – ENGELS, 1873

 “Quando avanço tais argumentos contra os mais furiosos anti-autoritários, estes não sabem o que
responder: ‘Ah! Isso é verdade, mas o que damos aos delegados não é uma autoridade, mas sim uma
missão!’. Estes senhores julgam ter mudado as coisas quando só mudaram os nomes. Eis como estes
profundos pensadores gozam com as pessoas.” – ENGELS, 1873

 A Revolução Social é um “mal necessário” : “Uma revolução é certamente a coisa mais


autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à
outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o
partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as
suas armas inspiram aos reacionários.” – ENGELS, 1873
DESLOCAMENTOS DO CENTRO DA GRAVIDADE
MUNDIAL (KARL MARX)
Com uma tradução livre de Jason Tadeu Borba, este breve
artigo do sociólogo comunista alemão Karl Marx (1818 –
1883) faz uma análise certeira sobre a até então recente
descoberta das minas de ouro nas minas californianas, nos
Estados Unidos, na metade do século XIX. Além disso, o
autor trata ainda sobre o imperialismo selvagem que abate a
América, o comércio mundial no período e o contexto chinês
pré-Revolução. Em suas palavras finais no texto, Marx faz
uma previsão acertada sobre o processo revolucionário
socialista chinês, ocorrido mais de 70 anos após sua morte,

Referência Bibliográfica: MARX, Karl. “Deslocamentos do


Centro da Gravidade Mundial”, 1850. Disponível em: <
https://www.marxists.org/portugues/marx/1850/02/desloca
mento.htm>. Acesso em: 03 jul. 2020.

Temas abordados:
 Importância do descobrimento do ouro estadunidense : “Vamos agora ocupar-nos da
América, onde sucedeu algo mais importante do que a revolução de Fevereiro [1848]: a descoberta
das minas de ouro californianas. Dezoito meses após o acontecimento já é possível prever que terá
efeitos mais consideráveis do que a própria descoberta da América .” – MARX, 1850
 Urbanização propiciada pela descoberta do ouro : “Dezoito meses após a descoberta das
minas de ouro californianas, os yankees começaram já a construir uma estrada de ferro, uma grande
estrada e um canal no Golfo do México. E já existe uma linha regular de barcos a vapor de Nova
Iorque a Chagres, do Panamá a S. Francisco, concentrando-se no Panamá o comércio com o Pacífico e
deixando de se utilizar a rota do cabo Horn. O vasto litoral da Califórnia, com 30 graus de latitude, um
dos mais belos e mais férteis do mundo, por assim dizer desabitado, vai se transformando
rapidamente num rico país civilizado, densamente povoado por homens de todas as raças, do yankee
ao chinês, ao negro, ao índio e ao mulato, do crioulo e mestiço ao europeu .” – MARX, 1850

 Falsa ideia de civilidade proposta pelo comércio mundial : “O ouro californiano corre
abundante em direção à América e à costa asiática do Pacífico, e os povos bárbaros mais passivos são
arrastados para o comércio mundial e para a civilização .” – MARX, 1850

 Previsões marxistas sobre potências mundiais : “Uma segunda vez o comércio mundial muda
de direção. O que eram, na Antiguidade, Tir, Cartago e Alexandria, na Idade Média, Gênova e Veneza,
e, até agora, Londres e Liverpool, a saber, os empórios do comércio mundial, serão no futuro Nova
Iorque e São Francisco, São João de Nicarágua e Leão, Chagres e Panamá. O centro de gravidade do
mercado mundial era a Itália, na Idade Média, a Inglaterra na era moderna, e é hoje a parte
meridional da península norte-americana.” – MARX, 1850

 Previsões sobre indústrias na Europa : “A indústria e o comércio da velha Europa terão que
fazer esforços terríveis para não caírem na decadência, como aconteceu com a indústria e o comércio
da Itália no século XVI, isto se a Inglaterra e a França não quiserem tornar-se o que são hoje Veneza,
Gênova e a Holanda.” – MARX, 1850

 Previsões marxistas sobre transportes no mundo globalizado : “Daqui a alguns anos teremos
uma linha regular de transporte marítimo a vapor da Inglaterra a Chagres, de Chagres e São Francisco
a Sidney, Cantão e Singapura.” – MARX, 1850

 Previsões sobre o uso do Oceano Pacífico : “Graças ao ouro californiano e à energia inesgotável
dos yankees, os dois lados do Pacífico serão em breve tão povoados e tão ativos no comércio e na
indústria como o é atualmente a costa de Boston a Nova Orleans. O oceano Pacífico desempenhará
no futuro o mesmo papel que foi do Atlântico na nossa era e do Mediterrâneo na Antiguidade: o de
grande via marítima do comércio mundial, e o oceano Atlântico descerá ao nível de um mar interior,
como é hoje o caso do Mediterrâneo.” – MARX, 1850

 Revolução como saída: “A única probabilidade que têm os países civilizados da Europa de não
caírem na mesma dependência industrial, comercial e política da Itália, da Espanha e do Portugal
modernos é iniciarem uma revolução social que, enquanto ainda é tempo, adapte a economia à
distribuição segundo as exigências da produção e das capacidades produtivas modernas, e permita o
desenvolvimento de novas forças de produção que assegurem a superioridade da indústria européia,
compensando assim os inconvenientes da sua localização geográfica .” – MARX, 1850

 Pauperização chinesa causada pelo imperialismo : “Milhares de navios ingleses e americanos


singraram para a China, que, em pouco temo, foi inundada de produtos britânicos e americanos
DESLOCAMENTO DO CENTRO DA GRAVIDADE MUNDIAL –
KARL MARX

baratos. A indústria chinesa, essencialmente de manufaturas, sucumbiu à concorrência do


maquinismo. O inabalável Império sofreu uma crise social. Os impostos deixaram de entrar, o Estado
encontrou-se à beira da falência, a grande massa da população conheceu a completa pobreza, e
revoltou-se. Acabando com a veneração aos mandarins do Imperador e aos bonzos, perseguia-os e
matava-os. Hoje, o país está à beira do abismo, e talvez sob a ameaça de uma revolução violenta .” –
MARX, 1850

 Previsão marxista da Revolução Chinesa : “É muito provável que o socialismo chinês se


assemelhe ao europeu como a filosofia chinesa ao hegelianismo. Qualquer que seja a forma,
podemos alegrar-nos com o fato de que o Império mais antigo e sólido do mundo tenha sido
arrastado em oito anos, pelos fardos de algodão dos burgueses da Inglaterra, até a iminência de uma
convulsão social que, qualquer que seja o caso, deve ter consequências importantíssimas para a
civilização. E, quando os reacionários europeus, na sua já próxima fuga, chegarem enfim junto à
Muralha da China, às portas que supõem abrir-se como fortaleza da reação e do conservadorismo,
quem sabe se não lerão ali: República Chinesa, Liberdade, Igualdade e Fraternidade .” – MARX, 1850
INTRODUÇÃO

O SÉCULO SOMBRIO (FRANCISCO CARLOS


TEIXEIRA
Francisco Carlos Teixeira da Silva (1954 - ...) é professor e
SILVA) pós-doutor em História Política e Social pela USP,
Universidade Técnica e Universidade Livre, ambas em
Berlim, Alemanha. Neste livro, em que foi o principal
organizador, é abordado questões gerais sobre o século XX.
Francisco Silva introduz a obra com seu texto “O Século XX:
Entre Luzes e Sombras” e traz temas importantes como, por
exemplo, a ideia de utopia ao longo do tempo, igualdade,
liberdade, eugenia, segregação social, racialização da
sociedade, genocídios do século passado e conflitos pós-
Guerra Fria.

Referência Bibliográfica: SILVA, Francisco Carlos Teixeira. “O


Século XX: Entre Luzes e Sombras”. In: SILVA, Francisco
Carlos Teixeira (Org.). O Século Sombrio: uma história geral
do século XX. Rio de Janeiro: Campus, 2004, p. 1-24.

Temas abordados:
 Século XIX, como processo histórico, iniciado em 1789 e terminado em 1918 : “O século XIX,
como processo histórico iniciado com a Grande Revolução Francesa de 1789 e sob o impacto da
Revolução Americana de 1776 e de sua Constituição Federal, mostrou-se, até seu encerramento na
Primeira Guerra Mundial de 1914-1918 e com a Revolução Russa de Outubro de 1917, um tempo de
possibilidade da realização da utopia no tempo presente, da construção do reino dos homens na
terra, o tempo do assalto ao céu.” – SILVA, 2004, p. 1-2

 Marcas do século XX: “Referíamo-nos aqui, como marca do século XX, ao avanço da
materialização da vida cotidiana, à invasão das esferas do saber, da vida privada, dos
relacionamentos particulares, da religião, das normas sociais pela lógica da fábrica, pelo tempo
mecânico da produção capitalista, em especial a partir da década de 1920, primeiro nos Estados
Unidos e, depois, na Alemanha.” – SILVA, 2004, p. 3

 Passagem de taylorismo para fordismo : “Dá-se, então, a transformação do taylorismo em


fordismo – ou seja, a passagem da organização mecânico /automática da produção no interior da
fábrica para organização autonomática de toda a vida social – resultaria na assunção, pelo conjunto
da sociedade, das noções de eficiência e produtividade como parâmetros da própria condição
humana, legitimada agora, de forma enganosa, num aumento quantitativo de bens materiais
proporcionados pela ciência e pela técnica.” – SILVA, 2004, p. 3

 Medo popular da igualdade : “Contudo, surgia, simultaneamente a crença – ou talvez, o temor –


de que igualização da condição humana roubaria algo de alguém.” – SILVA, 2004, p. 4
 Eugenia no século XX : “Assim, os trabalhadores – além de tudo sujeitos a jornadas de trabalho de
15 ou 16 horas diárias – adoeciam mais do que as classes superiores da sociedade. Numa inversão
brutal do entendimento, os cientistas e políticos achavam mais fácil atribuir tais doenças a uma
constituição genética pervertida, inferior e viciada. Assim, em lugar de filantropia ou reforma social
(claro, qualquer outra possibilidade seria caso de polícia) cabia ao governo controlar a natalidade das
classes pobres – a eugenia negativa – e incentivar a natalidade das classes superiores – a eugenia
positiva.” – SILVA, 2004, p. 6

 Instituições que incentivaram a eugenia : “Grandes fortunas, como as fundações Hariman,


Rockfeller e Carnegie, ao longo de universidades, Yale, Stanford, Harvard e Johns Hopkins, apoiaram
e emprestaram seu prestígio para legitimar a nova ciência, a eugenia.” – SILVA, 2004, p. 7

 Dados da segregação racial nos EUA : “Entre 1889, quando se inicia verdadeiramente um
esforço institucional de segregação dos negros americanos, até 1918, cerca de 3224 pessoas são
linchadas nas pequenas cidades e lugarejos rurais nos Estados Unidos” – SILVA, 2004, p. 7

 Restringir o acesso ao país, ponto central do Brexit, é uma política antiga na Inglaterra :
“Com tradições de liberdades pessoais mais arraigadas, como a impossibilidade de interferir no
casamento de alguém, a Inglaterra dirigiu sua atenção para outro setor: o controle da entrada dos
indesejáveis. Pelo Aliens Act, de 1905, a Inglaterra vedava a entrada de pessoas que não tiverem
comprado uma cabina no navio de chegada, num eficaz mecanismo de seleção econômica, sob o
pressuposto de que os miseráveis seriam débeis e degenerados, ao contrários dos ricos e socialmente
bem situados.” – SILVA, 2004, p. 7-8

 Capitalismo é cúmplice no genocídio dos povos pretos : “Durante toda a sua vigência, até
1994, o regime do apertheid serviu descaradamente para a exploração da população negra na África
do Sul, privada de cidadania (e portanto de recursos sindicais, direitos cívicos e serviços básicos),
permitindo uma superacumulação para os setores de mineração e agricultura, em que o uso da mão-
de-obra negra era extensivo.” – SILVA, 2004, p. 10
O SÉCULO SOMBRIO – FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA SILVA

 Racismo diversificado nos EUA: “Nos Estados Unidos, país iniciador das práticas eugenistas
institucionais, os alvos principais eram os negros, os migrantes da Europa Oriental e do
Mediterrâneo, os índios e os brancos pobres das montanhas Apalaches” – SILVA, 2004, p. 10

 Eugenia na América Latina: “Em toda a América Latina as populações indígenas foram
consideradas nefastas ao desenvolvimento nacional, atrasadas e mentalmente inferiores. No México,
no Chile, no Brasil, no Peru – onde 300 mil mulheres índias foram esterilizadas – e na Bolívia os
massacres contra os indígenas foram frequëntes, alcançando todo o século XX.” – SILVA, 2004, p. 11

 Genocídio como ápice da brutalidade humana : “Nenhum outro fenômeno histórico merece
tão corretamente a denominação de brutalização da política como os genocídios.” – SILVA, 2004, p.
17

 Nomenclatura dos conflitos do pós-Guerra Fria : “Alguns conflitos, que não cessaram com o fim
da rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos após a Guerra Fria, passaram a ser
denominados guerras esquecidas ou guerras sem fim.” – SILVA, 2004, p. 21
DISCURSO DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ NO
NOBEL DE Discurso proclamado pelo escritor colombiano Gabriel
1982 García Márquez (1927–2014) na cerimônia de recebimento
do Prêmio Nobel de Literatura de 1982 na Academia Sueca,
em Estocolmo, na Suécia. Em meio a plateia renomado de
jornalistas, editores e escritores, falou sobre a relação
passado e atual entre os continentes americano e europeu.
Além disso, tratou sobre a visão do colonizador, dados
importantes do século passado, mitos e lendas que rondam
nosso continente.

Referência Bibliográfica: MÁRQUEZ, Gabriel García. “A


Solidão da América Latina”. Tradução: Guillermo Juan Creus.
In: RevIU – Revista do Instituto Mercosul de Estudos
Avançados – Universidade da Integração Latino-Americana.
Vol. 2. Nº 1. Foz do Iguaçu, 2014, 12-14.

Temas abordados:
 A propagação de fake news está presente na América desde a invasão espanhola:
“Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao
redor do mundo, escreveu durante sua passagem por nossa América meridional uma crônica
rigorosa, que no entanto parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto porcos com o
umbigo nas costas e pássaros sem patas cujas fêmeas chocavam nas costas do macho, e outros
como alcatrazes sem língua cujos bicos pareciam uma colher. Contou que havia visto uma espécie
CAPÍTULO 1
animal com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo e relincho de cavalo.” -
MÁRQUEZ, 1982

 Mistérios envolvendo o resgate de Atahualpa : “Um dos tantos mistérios que nunca foram
decifrados, é o das onze mil mulas carregadas com cem libras de ouro cada uma, que um dia saíram
de Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram a seu destino. Mais tarde, durante a
colônia, vendiam-se em Cartagena das Índias galinhas criadas em solos de aluvião, em cujas moelas
se encontravam pedrinhas de ouro.” - MÁRQUEZ, 1982

 Herança colonial na busca de resultados positivos imediatos : “Esse delírio áureo de nossos
fundadores nos perseguiu até há pouco tempo.” - MÁRQUEZ, 1982

 A independência da América não significou a total emancipação de líderes


inexperientes: “A independência do domínio espanhol não nos colocou a salvo da demência .” -
MÁRQUEZ, 1982

 Existência de mulheres históricas na América Latina : “América Latina, essa pátria imensa de
homens alucinados e mulheres históricas.” - MÁRQUEZ, 1982
 Instabilidade como marca da América Latina : “Houve até agora 5 guerras e 17 golpes de
estado, e surgiu um ditador luciferino que em nome de Deus leva a cabo o primeiro etnocídio de
América Latina em nosso tempo.” - MÁRQUEZ, 1982

 Dados da pobreza incentivada na América Latina da época : “Enquanto isso, 20 milhões de


crianças latino-americanas morreram antes de fazer dois anos, mais do que todas as crianças que
nasceram na Europa desde 1970. Os desaparecidos pela repressão são quase 120 mil, que é como se
hoje ninguém soubesse onde estão todos os habitantes da cidade de Upsala.” - MÁRQUEZ, 1982

 Números da repressão política e da violência na América Latina no final do século XX : “Por


não querer que as coisas seguissem assim morreram cerca de 200 mil mulheres e homens em todo o
continente, e mais de 100 mil pereceram em três pequenos e voluntariosos países da América
Central, Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se isto ocorresse nos Estados Unidos, a cifra
proporcional seria de um milhão e 600 mil mortes violentas em quatro anos.” - MÁRQUEZ, 1982

 Dados do refúgio ao final do século XX : “Do Chile, país de tradições hospitaleiras, fugiram um
milhão de pessoas: 12 por cento de sua população. O Uruguai, uma nação minúscula de dois e meio
milhões de habitantes que se considerava como o país mais civilizado do continente, perdeu no
desterro um em cada cinco cidadãos. A guerra civil em El Salvador produziu desde 1979, quase um
refugiado a cada 20 minutos. O país que poderia ser feito com todos os exilados e emigrados
forçados da América Latina, teria uma população mais numerosa que a da Noruega.” - MÁRQUEZ,
1982

 Falta de incentivo à arte na América Latina : “Poetas e mendigos, músicos e profetas,


guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito
pouco à imaginação, porque o maior desafio para nós tem sido a insuficiência dos recursos
convencionais para fazer crível nossa vida. Este é, amigos, o nó de nossa solidão.” - MÁRQUEZ, 1982

 “Os estragos da vida não são iguais para todos” - MÁRQUEZ, 1982

DISCURSO DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ NO NOBEL DE 1982


 A América Latina é original e original precisam ser seus esquemas : “A interpretação de nossa
realidade com esquemas alheios só contribui para fazer-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez
menos livres, cada vez mais solitários.” - MÁRQUEZ, 1982

 “Talvez a venerável Europa fosse mais compreensiva se tratasse de nos ver em seu próprio
passado.” - MÁRQUEZ, 1982

 Ação para mudança é o ato humano mais importante : “A solidariedade com nossos sonhos
não nos fará sentir menos solitários enquanto não se concretize com atos de apoio legítimo aos
povos que assumam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.” - MÁRQUEZ, 1982

 “Não obstante, os progressos da navegação que reduziram tantas distâncias entre nossas Américas
e a Europa, parecem haver aumentado nossa distancia cultural.” - MÁRQUEZ, 1982
 Dados da natalidade ao final do século XX : “cada ano há 74 milhões de nascimentos a mais que
mortes, uma quantidade de novos vivos suficiente para aumentar sete vezes cada ano a população
de Nova York.” - MÁRQUEZ, 1982
O PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA
(CHIMAMANDA)
O breve texto “O Perigo de Uma História Única” é uma
versão escrita da primeira fala feita pela escritora nigeriana
Chimamanda Ngozi Adiche (1977-...) no programa
canadense TED Talk, em julho de 2009. Dez anos depois, o
vídeo é um dos mais acessados da plataforma, com mais de
vinte e dois milhões de visualizações. Nesse discurso, ela
abordou temas importantes como poder e manipulação da
informação, além de relatos pessoais. Responsável por
encantar o mundo com suas narrativas ficcionais,
Chimamanda também se mostra uma excelente pensadora
do mundo contemporâneo, construindo pontes para um
entendimento mais profundo entre culturas no mundo
atual.

Referência Bibliográfica: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. “O


perigo de uma história única”, 1ª Edição, Tradução: Julia
Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Temas abordados:
 Criação de uma história: “É assim, pois, que se cria uma única história: mostre um povo como
uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão .” – ADICHIE, 2009

 Relação entre poder e a existência de uma única história : “É impossível falar sobre única
história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre
que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é nkali. É um substantivo, que
livremente se traduz: ‘ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômicos e políticos,
histórias também são definidas pelo princípio do nkali. Como são contadas, quem as conta, quando e
quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.” – ADICHIE, 2009

 Conceituação de poder: “Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são
contadas, tudo realmente depende do poder . Poder é a habilidade de não só contar a história de uma
outra pessoa, mas de fazer a história definitiva daquela pessoa .” – ADICHIE, 2009

 “A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira,
mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história .” – ADICHIE, 2009

 Caráter desumanizador da história única : “A consequência de uma única história é essa: ela
rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil.
Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes .” – ADICHIE, 2009

 Histórias precisam ser múltiplas : “Histórias têm sido usadas para expropriar e ressaltar o mal.
Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a
dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida .” – ADICHIE,
2009
QUANDO ACABA O SÉCULO XX (LILIA MORITZ
SCHWARCZ)
A escritora paulistana Lilia Katri Moritz Scwarcz é professora
titular no Departamento de Antropologia da Universidade de
São Paulo (USP) e visiting professor na Universidade
Princeton, além de ser colunista, curadora adjunta do MASP
e historiadora. Esse breve texto foi elaborado a partir de
algumas entrevistas concedidas pela autora e textos
publicados por ela, ambos concebidos entre o período de
abril e junho de 2020. Nele são abordadas questões atuais
que rondam os principais desdobramentos mundiais da
pandemia do novo coronavírus, a COVID-19. Dessa forma,
são tratados os impactos cronológicos, desigualdades sociais
e outras experiências pandêmicas, como a Gripe Espanhola.

Referência Bibliográfica: SCHWARCZ, Lilia Moritz. “Quando


acaba o século XX”, 1ª Edição. São Paulo: Companhia das
Letras, 2020.
Temas abordados:
 Luta feminista como marca dos séculos XX e XXI : “Os séculos XX e XXI são e serão da revolução
feminista, como já vai ficando claro. As mulheres não vão voltar atrás .” – SCHWARCZ, 2020

 Idealização romântica do contexto familiar criada pela burguesia : “E nem sempre ‘casa’ quer
dizer ‘lar’. Casa sempre foi um local de repouso e abrigo. Já lar é um conceito criado pela burguesia,
no século XIX, que tendeu a idealizar esse lugar, sublinhando o modelo de família estruturada e
esquecendo dos conflitos por lá inerentes.” – SCHWARCZ, 2020

 “O Brasil não é um país pobre, mas é um país de pobres.” – SCHWARCZ, 2020

 Pandemia da COVID-19 marca o fim de um tempo histórico : “Ao deixar mais evidente o
nosso lado humano e vulnerável, a pandemia da covid-19 marca o final do século XX .” – SCHWARCZ,
2020

 Visão mundial do Brasil no início do século XX : “No começo do século, em 1903, a expectativa
de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de ‘grande hospital’ e tinha todo tipo de doenças: lepra,
sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela.” – SCHWARCZ, 2020

 “Negar o passado significa também não aprender com ele – com nossos erros e acertos .” –
SCHWARCZ, 2020

 “Se a humanidade aprendesse com o passado, os historiadores seriam visionários .” – SCHWARCZ,


2020

 “A ciência, antes o grande vilão, é hoje a grande utopia.” – SCHWARCZ, 2020


A FACE NEGRA DO BRASIL MULTICULTURAL
(DULCE MARIA)
Dulce Maria Pereira é graduada em Arquitetura e Urbanismo
pela Universidade de Brasília, ex-diplomata, documentarista,
professora, ex-presidenta da Fundação Cultural Palmares,
Temas abordados:
 Dados qualitativos de negros no Brasil, ao final do século XX : “O Brasil tem a maior
população negra fora da África e a segunda maior do planeta. A Nigéria, com uma população
estimada de oitenta e cinco milhões, é o único país do mundo com uma população negra maior que a
brasileira.” – PEREIRA, 1998

 Atuação de FHC em pautas raciais: “A partir de 1995, com o engajamento pessoal do presidente
da república, Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, estudioso das relações raciais, o debate
nacional que era conduzido apenas pelo movimento social negro, por alguns intelectuais e
timidamente por poucos partidos políticos, assumiu a relevância necessária para motivar
transformações políticas e econômicas, e sobretudo culturais, que permitam valorizar a diversidade e
a riqueza do multiculturalismo no país.” – PEREIRA, 1998

 Dados estimados do tráfico negreiro: “Responsável pelo maior translado humano da história,
de várias partes de um continente para um só país - entre 5 e 3,6 milhões de africanos foram
importados para o Brasil - a escravidão gestou estruturas, relações sociais e econômicas, valores e
conceitos , visão de mundo que inclui visão de Estado, que tinha por meta sua permanência,
sobrevivência e sobrevida, e a manutenção dos privilégios, também estratificados, resultantes .” –
PEREIRA, 1998

 Herança escravocrata na brutalização de corpos negros : “A aparência física dos negros,


exceto quando se tratava de servir sexualmente os senhores, foi associada à dos animais e
esteticamente desagradável ou inferior. Seu corpo era para o trabalho e sua força utilizada como a
dos animais.” – PEREIRA, 1998
 Sistema de exclusão racial informal : “Principalmente a partir da promoção, pelo Estado, da
imigração italiana subvencionada , e da substituição da mão-de-obra negra pela imigrante, da criação
de status superior de cidadania para os imigrantes recém chegados em relação aos negros - também
excluídos do sistema de educação formal - , das promessas do Estado de embranquecer a nação, da
participação periférica dos afro-brasileiros no processo de industrialização, da fraca
representatividade política , da desqualificação de suas referências culturais, estruturou-se o que
pode ser chamado o sistema de exclusão racial informal . O desejo, a quase que necessidade
brasileira de ser uma democracia racial confundiu-se com o mito desmobilizador longamente
cultivado.” – PEREIRA, 1998

 Dados quantitativos de negros no Brasil, ao final do século XX : “Cerca de 44,2% da


população brasileira é composta por afro-brasileiros.” – PEREIRA, 1998

 Atitudes governamentais antirracistas : “Em 1995 foi criado, pelo presidente da república, o
Grupo Interministerial Para a Valorização da População Negra, sediado no Ministério da Justiça,
integrado por representantes de ministérios estratégicos e por pessoas do movimento social negro,
com a tarefa de formular políticas para a superação das desigualdades raciais. As ações de políticas
públicas e parcerias com órgãos estaduais e governamentais foram potencializadas .” – PEREIRA, 1998

 Valorização da cultura negra : “Como marco simbólico dessa nova postura histórica está sendo
construído um espaço físico de grande dimensão para a aglutinação e difusão da cultura negra, antiga
reivindicação dos movimentos negros, da população acadêmica e dos educadores. Trata-se do Centro
Nacional de Informação e Rerefência da Cultura Negra, que integra as ações da Fundação Cultural
Palmares no marco do V Centenário do Descobrimento do Brasil e inclui bancos de dados, imagem e
som para coletar e difundir dados sobre a história e cultura dos povos negros. Como parte do projeto
está sendo realizada a coleta e a recuperação de documentos históricos no Brasil e no exterior. A
partir de ações do Ministério das Relações Exteriores, vários governos têm apoiado o trabalho dos
pesquisadores brasileiros e estrangeiros envolvidos. Está sendo realizado o mapeamento, a
A FACE
sistematização e a difusão da produção NEGRA
cultural DO BRASIL
afro-brasileira .” – MULTICULTURAL
PEREIRA, 1998 – DULCE MARIA
PEREIRA
 Quilombos no período: “Pela primeira vez as comunidades remanescentes de quilombos,
descendentes de escravos que resistiram de forma coletiva à escravidão e que habitam sobretudo no
meio rural, estão sendo reconhecidas pelo Estado como territórios culturais, sendo mapeadas, tendo
suas terras demarcadas e recebendo os títulos a que têm direito. Já foram oficialmente identificadas
511 pelo governo federal, demarcadas 55 e tituladas 4 delas .” – PEREIRA, 1998

 O reerguer do Brasil passa pelos marginalizados : “se outrora havia o medo atrasado (gestado
na escravidão) de que o tratamento das desigualdades raciais poderia ser um fator de fragmentação
nacional, hoje há a compreensão de que nossa consolidação como nação emergente depende da
criação de mobilidade para os negros, segmento humano que representa uma parcela extremamente
significativa da população e que, imobilizado pelas desigualdades deixa de produzir e consumir
riqueza.” – PEREIRA, 1998

 “O lamento negro pode, na terra Brasilis, ser o canto nostálgico do longo e sofrido caminhar
histórico, introdutório do som vitorioso dos tambores que celebram o processo democrático
dinâmico, de construção digna da igualdade, sem mitos, mas a partir dos esforços solidários .” –
PEREIRA, 1998

FRIEDRICH ENGELS (VLADIMIR ILITCH LÊNIN)


Em outubro de 1895, o teórico político russo Vladimir Ilitch
Lênin escreve esse texto em homenagem póstuma aos até
Temas abordados:
 Valor de Marx e Engels : “A seguir ao seu amigo Karl Marx (que morreu em 1883), Engels foi o
mais notável sábio e mestre do proletariado contemporâneo em todo o mundo civilizado.” – LÊNIN,
1895

 A libertação só é possível com luta : “Marx e Engels foram os primeiros a demonstrar que a


classe operária e as suas reivindicações são um produto necessário do regime económico actual que,
juntamente com a burguesia, cria e organiza inevitavelmente o proletariado; demonstraram que não
são as tentativas bem intencionadas dos homens de coração generoso que libertarão a humanidade
dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado.” – LÊNIN, 1895

 Socialismo científico não é utópico : “Marx e Engels foram os primeiros a explicar, nas suas
obras científicas, que o socialismo não é uma invenção de sonhadores, mas o objectivo final e o
resultado necessário do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade actual.” – LÊNIN, 1895

 A luta de classes precisa ser libertadora e então desaparecer : “Toda a história escrita até aos
nossos dias é a história da luta de classes, a sucessão no domínio e nas vitórias de umas classes
sociais sobre outras. E este estado de coisas continuará enquanto não tiverem desaparecido as bases
da luta de classes e do domínio de classe: a propriedade privada e a produção social anárquica. Os
interesses do proletariado exigem a destruição destas bases, contra as quais deve, pois, ser orientada
a luta de classe consciente dos operários organizados.” – LÊNIN, 1895

 “E toda a luta de classe é uma luta política.” – LÊNIN, 1895

 Inovação contida nas ideias de Marx e Engels : “Todo o proletariado que luta pela sua
emancipação tornou hoje suas estas concepções de Marx e Engels; mas nos anos 40, quando os dois
amigos começaram a colaborar em publicações socialistas e a participar nos movimentos sociais da
sua época, eram inteiramente novas.” – LÊNIN, 1895

 Socialismo precede luta: “Por outro lado, um bom número de sonhadores, algumas vezes
geniais, pensavam que seria suficiente convencer os governantes e as classes dominantes da
iniquidade da ordem social existente para que se tornasse fácil fazer reinar sobre a terra a paz e a
prosperidade universais. Sonhavam com um socialismo sem luta.” – LÊNIN, 1895

 Operários são a força do socialismo : “Quanto mais proletários houvesse, e maior fosse a sua
força como classe revolucionária, mais próximo e possível estaria o socialismo .” – LÊNIN, 1895

 O socialismo científico substituiu a utopia pela ciência : “Pode exprimir-se em poucas palavras
os serviços prestados por Marx e Engels à classe operária dizendo que eles a ensinaram a conhecer-se
e a tomar consciência de si mesma, e que substituíram os sonhos pela ciência .” – LÊNIN, 1895

 O capitalismo, assim como todos os sistemas anteriores, vai acabar : “Se tudo se desenvolve,
se certas instituições são substituídas por outras, porque é que o absolutismo do rei da Prússia ou do
tsar da Rússia, o enriquecimento de uma ínfima minoria à custa da imensa maioria, o domínio da
burguesia sobre o povo, hão-de perdurar eternamente?” – LÊNIN, 1895

 O capitalismo é, por natureza, expropriador por excelência : “O desenvolvimento das forças


produtivas cria relações sociais que se baseiam na propriedade privada; mas vemos hoje esse mesmo
desenvolvimento das forças produtivas privar a maioria dos homens de toda a propriedade e
concentrar esta nas mãos de uma ínfima minoria; ele destrói a propriedade, base da ordem social
contemporânea, e tende ele próprio para o objectivo que se fixaram os socialistas.” – LÊNIN, 1895

 Consciência de classe leva ao socialismo : “O movimento político da classe operária levará,


inevitavelmente, os operários à consciência de que não há para eles outra saída senão o socialismo.
Por seu lado, o socialismo só será uma força quando se tornar o objectivo da luta política da classe
operária.” – LÊNIN, 1895

 Inspiração contida no Manifesto do Partido Comunista : “ele inspira e anima até hoje todo o
proletariado organizado e combatente do mundo civilizado.” – LÊNIN, 1895

 “A Rússia autocrática foi sempre o baluarte de toda a reacção europeia .” – LÊNIN, 1895

 Rússia como ponto de referência na luta socialista : “Só uma Rússia livre, que não tivesse
necessidade de oprimir os Polacos, os Finlandeses, os Alemães, os Arménios e outros pequenos
FRIEDRICH ENGELS (LÊNIN)
povos, nem de lançar, incessantemente, a França e a Alemanha uma contra a outra, permitiria à
Europa contemporânea respirar aliviada do peso das guerras, enfraqueceria todos os elementos
reaccionários da Europa e aumentaria as forças da classe operária europeia.” – LÊNIN, 1895

A NÃO-VIOLÊNCIA E OS MOVIMENTOS SOCIAIS NOS


EUA NOS ANOS 1960 (RODRIGO FARIAS DE SOUSA)
O artigo aborda a adoção do protesto não-violento por parte
da campanha pelos direitos civis, encabeçada por Martin
Luther King, e pelos estudantes do Student Nonviolent
Coordinating Committee (SNCC). São apresentados os
princípios da não-violência, as tensões enfrentadas por eles
quando suas reivindicações tardaram a ser implementadas,
e a sua influência sobre o movimento estudantil de
esquerda, representando pela Students for a Democratic
Society (SDS). Ainda fala sobre a eclosão de grupos
defensores da luta armada e/ou do separatismo racial, como
Malcom X.

Referência Bibliográfica: SOUSA, Rodrigo Farias. “A não-


violência e os movimentos sociais nos EUA nos anos 1960”.
Diálogos e Aproximações: Seminário de Pesquisa de Pós-
Graduação em História da UFRJ. Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ,

Temas abordados:
 Banalização do imperialismo dos Estados Unidos : O professor Rodrigo Farias banaliza e ironiza
o imperialismo dos EUA em: “a acusação de que há um imperialismo americano, muito popularizada
nos anos 1960, ainda hoje se ouve na boca de porta-vozes de movimentos sociais e políticos das mais
diversas partes do globo. Nessa visão, os EUA seriam uma espécie de grande oponente da liberdade
dos outros povos, conduzido pelos gênios do militarismo e do grande capital, dispostos a manter as
demais nações em uma condição de subserviência, com o agravante de fazê-lo usando como
pretextos valores largamente admirados como liberdade e democracia” (SOUSA, 2008, p. 1).
Diferentemente, do que foi escrito por ele, o imperialismo dos yankees é real e impacta o mundo
todo, trazendo destruição e pobreza em países estratégicos.
 Conceituação de “não-violência” : Baseado na visão de Gene Sharp, contida em “The Politics of
Nonviolent Action Part One: Power and Struggle”, o Rodrigo Farias conceitua a “não-violência” como
“o conjunto de vários métodos de protesto, não-cooperação e ação direta, freqüentemente
envolvendo alguma forma de desobediência civil, e tendo em comum a recusa por princípio ao uso
da violência física” (SOUSA, 2008, p. 1-2)
 Pacifismo nos EUA no século XVII: Nos Estados Unidos, de acordo com “o histórico elaborado
por Helen Michalowski, já no século XVII havia quem se recusasse a portar armas por questões de
princípio, bem como quem se valesse de outros componentes do que seria mais tarde chamado de
não-violência: a insistência na liberdade de consciência, a luta para encontrar uma relação correta
com a autoridade estabelecida, e a busca pelo senso de comunidade e uma ordem social justa —
sempre tendo como norte a recusa ao uso da violência física como meio legítimo de contestação”
(SOUSA, 2008, p. 2). No século XVII (1601-1700), as Treze Colônias ainda estavam sob o domínio
inglês. O seu processo de independência foi marcado por rebeldia e conflitos armados. Pensar em
pacifismo nesse contexto seria renunciar à liberdade.
 Início do pacifismo nos EUA: Rodrigo Farias afirma que, nos EUA, o início do tipo de dissidência
entendido como não violento “teve como pioneiras as chamadas peace churches (igrejas da paz) isto
é, denominações que não admitiam o uso da violência, indo daquelas que a proibiam apenas quando
praticada por seus próprios membros até as que se recusavam totalmente a admiti-la, mesmo
quando promovida pelo Estado e em caso de guerra” (SOUSA, 2008, p. 2). É incoerente igrejas que
perpetuam ideias machistas, racistas e homofóbicos exigirem paz. Elas estavam reprimindo a
resposta dos oprimidos por ela mesma.
 Primeiros expoentes do pacifismo no EUA : O autor diz que “coube a menonitas, quacres,
moravianos, nicolitas, amishes e outras denominações cristãs a função de primeiros expoentes do
pacifismo norte-americano” (SOUSA, 2008, p. 2).
 Contradição da Massachussets Peace Society: No início do século XIX, o pacifismo nos EUA se
laicizou, sendo um período de surgimento de organizações fundamentadas em princípios laicos. Uma
delas foi “a Massachusetts Peace Society, por exemplo, que chegou a ter cerca de 1000 membros em
1818, [e] tinha até oficiais militares da ativa entre seus membros” (SOUSA, 2008, p. 2). Esse fato
mostra uma forte contradição, uma vez que ser pacifista e admitir militares armados é incoerente!
 Dependência da American Peace Society: Em 1828, juntamente com outras organizações
semelhantes, a Massachusetts Peace Society passa a constituir a American Peace Society (APS), a
entidade pacifista mais importante do período, que “militava contra a política expansionista
americana e a favor do desarmamento” (SOUSA, 2008, p. 2). Para viabilizar seus ideais, a APS buscava
“o apoio de pessoas influentes para a realização de encontros, publicações, palestras e petições às
autoridades” (SOUSA, 2008, p. 2). Assim, a organização dependia da benevolência de figuras externas
relevantes, o que a tornava eminentemente fraca, já que o seu foco não é a base oprimida.
 Socialismo utópico de Burritt : Existiam organizações dissidentes da APS. Uma delas era a League
for Universal Brotherhood, fundada por Elihu Burritt. Ele “se caracterizava por ter nos trabalhadores
urbanos e rurais o seu público-alvo, na prática defendia um sistema socialista, o ‘simétrico
desenvolvimento da sociedade’” (SOUSA, 2008, p. 3). Diferentemente de outros pacifistas, Burritt via
os trabalhadores como base e fim único. Ele pode ser considerado um socialista utópico, pois
sonhava com um socialismo sem luta.
 Pacifismo na Guerra de Secessão : “Pela épocaAaARTIGO DE na
da Guerra Civil, RODRIGO
década deFARIAS
1860, asSOBRE
técnicasNÃO-
mais importantes do protesto pacífico já eram praticadas:VIOLÊNCIA
perturbações da ordem pública, recusa do
pagamento de impostos, boicotes e ações diretas como os sit-ins (ocupação de um espaço por
militantes que se sentam e se recusam a sair até serem atendidos em suas reivindicações)” (SOUSA,
2008, p. 3). É um tanto incoerente fazer guerra com paz!
 Armas e o pacifismo por estratégia : Anos após a aprovação da Lei de Escravo Fugitivo de 1850,
que repreendia veementemente a fuga de escravos sulistas para o Norte, o abolicionista John Brown
“tentou liderar um levante armado de escravos, em 1859, mesmo pacifistas radicais como Garrison o
viram com simpatia: afinal, se alguém acreditava no recurso às armas, que ao menos fosse por uma
causa nobre.” (SOUSA, 2008, p. 4). Com isso, entende-se que o pacifismo sozinho não é efetivo.
 Contexto pós-abolição no Sul: “A grande maioria dos ex-escravos nos estados sulistas ainda vivia
no campo, era pobre, destituída de instrução significativa e, como se não bastasse, era obrigada a
viver sob um regime de severa segregação racial. [...] Para eles, o fim da escravidão significou
simplesmente sua ascensão de trabalhadores forçados a cidadãos de segunda classe” (SOUSA, 2008,
p. 4).
 Criação e atuação da NAACP: Nesse contexto de racismo estrutural, o sociólogo W.E.B Du Bois
funda a organização interracial National Association for the Advancement of Colored People (NAACP),
formada por negros e brancos, que “ganharia notoriedade por campanhas educacionais e judiciais
contra os diversos aspectos da segregação. Entre seus feitos mais importantes está a histórica
decisão da Suprema Corte no caso Brown vs. Board of Education, de 1954, que tornou
inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas primárias do país” (SOUSA, 2008, p. 5).
 Surgimento da SCLC: Após o fim do boicote aos ônibus públicos de Montgomery liderado por
Martin Luther King, “os líderes do movimento de Montgomery decidiram continuar lutando por
reformas, aplicando sua experiência ao resto da região. Foi criada então a Southern Christian
Leadership Conference (SCLC), cuja primeira ação pública foi uma passeata de 25.000 pessoas em
Washington, chamada de ‘Peregrinação de Oração’. Contando com a presença de várias celebridades
negras, como Harry Belafonte e Sammy Davis Jr., essa foi uma das maiores manifestações realizadas
até então.” (SOUSA, 2008, p. 7).
 Entrada dos estudantes no movimento dos direitos civis : Nesse contexto de atuação da SCLC
e de King, quatro estudantes negros, conhecidos como os “Quatro de Greensboro”, foram a uma
lanchonete, “sentaram-se no balcão destinado aos clientes brancos e insistiram em ser servidos.
Diante da recusa dos atendentes, permaneceram sentados por duas horas, repetindo a tentativa nos
dois dias seguintes” (SOUSA, 2008, p. 8). Essa atitude causou repetições nos EUA. “No total, foram
mobilizados 70.000 estudantes em todo o país, 3.600 dos quais foram presos.” (SOUSA, 2008, p. 8)
 Origem da SNCC: “A fim de melhor aproveitar essa militância potencial — tanto de negros quanto
de brancos —, a SCLC criou uma ramificação estudantil, o Student Nonviolent Coordinating
Committee (SNCC, pronunciava-se “snick”). Inicialmente uma organização provisória, o SNCC logo
ganhou autonomia para projetos independentes. Seus ativistas recebiam uma ajuda de custo de
subsistência e muitas vezes largavam os estudos a fim de melhor se dedicarem às campanhas da
organização, algumas delas muito originais em suas táticas” (SOUSA, 2008, p. 8). Tendo a não-
violência como base filosófica, o SNCC atuou na testagem da dessegregação dos transportes
interestaduais, então aprovada pela Suprema Corte, e também no registro de eleitores negros nas
áreas rurais (SOUSA, 2008, p. 9).
 Surgimento da SDS: “Nesse começo da década, o setor progressista do movimento estudantil
americano, embora fragmentado em várias pequenas AaARTIGO DEestava
organizações, RODRIGO FARIAS
passando por umSOBRE
gradualNÃO-
VIOLÊNCIA
ressurgimento, sobretudo de natureza qualitativa — buscava-se uma alternativa à esquerda marxista
tradicional, dominada por socialistas e comunistas. Entre os grupos mais novos, destacava-se um
baseado no campus da Universidade de Michigan em Ann Arbor, a Students for a Democratic Society.
Descendente direta da primeira organização estudantil consistente na história dos EUA, a
Intercollegiate Socialist Society, fundada em 1905 pelo romancista Upton Sinclair, a SDS procurava
engajar os universitários simpáticos à idéia de reforma social com uma proposta ‘radical’ que devia
muito a ideais tradicionalmente americanos — em contraste com as diferentes versões do marxismo,
mais comuns nos círculos esquerdistas da época” (SOUSA, 2008, p. 10).
 Ideias e convicções da SDS : “Dentre as suas idéias, destacava-se a democracia participativa,
consagrada no seu manifesto de 1962, a Declaração de Port Huron12, e a convicção de que todos os
grandes problemas da sociedade americana na época — Guerra Fria, desigualdade social, racismo,
apatia política por parte sobretudo dos jovens — estavam interconectados” (SOUSA, 2008, p. 10).

 Objetivo inicial da SDS: “O objetivo inicial da SDS era, assim, ser uma organização não-sectária
(isto é, que não discriminasse nem mesmo os grandes párias políticos da época, os comunistas),
apartidária, que elaborasse análises intelectualmente sólidas da situação dos EUA e desta forma
fomentasse no público estudantil um maior interesse e participação no debate público” (SOUSA,
2008, p. 10).
 Democracia é mais do que votar ocasionalmente : “Afinal, para que a democracia americana se
realizasse plenamente, seria preciso mais do que eleições formais — era necessário que cada pessoa
informada tivesse meios para entender e se fazer ouvir na tomada das decisões que afetariam sua
vida” (SOUSA, 2008, p. 10).
 Conceituação da “Nova Esquerda Americana” : “um movimento que pretendia fugir ao que
seus membros viam como clichês da esquerda tradicional americana: o anticomunismo ardoroso,
‘histérico’, por parte da ala ‘liberal’ e dos socialistas, de um lado; e a aceitação do autoritarismo
soviético por parte dos seguidores do Partido Comunista” (SOUSA, 2008, p. 11).
 Hipocrisia do Partido Democrata : “toda a delegação do estado [do Mississippi] no Partido
Democrata, o mesmo partido do presidente Johnson e que endossara a Lei dos Direitos Civis, era
segregada, isto é, sem negro algum” (SOUSA, 2008, p. 12).

 Dados quantitativos sobre a atuação estadunidense na Guerra do Vietnã : “ao fim de 1965,
havia cerca de 184.000 soldados no Vietnã; um ano depois, eram 385.000; em 1967, chegariam a
486.000, atingindo 15.000 baixas, 60% das quais ocorridas nesse mesmo ano. Ao fim de 1967, os
Estados Unidos já haviam lançado um milhão e meio de toneladas de bombas sobre o Vietnã do
Norte e as posições inimigas no Vietnã do Sul” (SOUSA, 2008, p. 14).

 Extremização da SDS: motivados pelos discursos libertárias de Malcom X e do Partido dos


Panteras Negras, centenas de membros da Students for a Democratic Society se enveredaram para o
marxismo-leninismo. O autor demonstra isso em: “E vendo o exemplo dos revolucionários negros,
que da não-violência com base no amor haviam passado à exibição de armas nos guetos (como era o
caso dos Panteras Negras), não havia mais por que descartar a hipótese de luta armada. Não por
acaso, já em 1968, a facção dominante da SDS, agora com 100.000 membros registrados, adotava
uma linguagem marxista-leninista para defender a derrubada violenta do governo americano em
apoio aos nacionalistas negros e aos povos do Terceiro Mundo oprimidos pela influência dos EUA”
(SOUSA, 2008, p. 14).

AaARTIGO DE RODRIGO FARIAS SOBRE NÃO-


Citações: VIOLÊNCIA

 “o meio mais rápido de conseguir justiça é proporcioná-la à outra parte” – GANDHI, p. 6


↳ A justiça para os opressores, “a outra parte” segundo Gandhi, é pagar por todo o mal que
cometem aos oprimidos

 “Numa perspectiva gandhiana, “o caminho é a meta”, isto é, a legitimidade de uma causa é


indissociável dos meios utilizados na sua realização. Logo, a conquista da justiça só seria válida
através de meios justos; a obtenção da paz — no caso, entre negros e brancos — só seria legítima
através de meios pacíficos.” – SOUSA, 2008, p. 6
↳ Com isso, Gandhi refuta um dos famosos axiomas atribuídos a Nicolau Maquiavel: “os fins
justificam os meios”
APRESENTAÇÃO AO MANIFESTO COMUNISTA
Anníbal Fernandes (1934-2004) foi jornalista, advogado e
autor. Mestre e doutor pela Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo.  Além disso também foi
professor universitário e consultor de Previdência Social,
sendo considerado um dos maiores especialistas na área.
Escreveu, em julho de 1998, um breve texto introdutório
intitulado “Apresentação à Edição Brasileira” do Manifesto
do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. Nele,
o autor faz uma contextualização da obra, bem como fala de
sua estrutura e faz um apanhado crítico do capitalismo.

Referência Bibliográfica: FERNANDES, Anníbal.


“Apresentação à Edição Brasileira”. In: MARX, Karl; ENGELS,
Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução,
prefácio e notas: Edmilson Costa. 3ª Edição. São Paulo:
EDIPRO, 2015, p. 7-12.
Temas abordados:
 Importância do Manifesto Comunista: “o Manifesto é o desdobramento útil e necessário da
crítica dialética à Economia Política (teoria do valor-trabalho), à filosofia de Hegel e Feuerbach e à
doutrina dos socialista utópicos” (FERNANDES, 1998, p. 7).

 Incipiência do comunismo em 1848 : “A primeira edição do Manifesto é de 1848, há um século e


meio. Edição precária, como frágil era o movimento comunista” (FERNANDES, 1998, p. 7).

 Influência do Manifesto Comunista na Revolução Russa : “Foi artífice da Revolução de


Outubro de 1917, hoje no aguardo de novas revoluções...” (FERNANDES, 1998, p. 8).

 A queda da URSS levou a deslegitimação da esquerda e desuso de “Revolução” : “com a


estagnação da URSS, esses partidos [, os comunistas nacionais,] foram ‘desmobilizados’, em sua
maioria” (FERNANDES, 1998, p. 8).

 A Revolução precisa ser proletária ou não será nada : “A mensagem do Manifesto consiste em
arregimentar e fazer atuar a classe operária. Qual classe? A dos trabalhadores basicamente manuais”
(FERNANDES, 1998, p. 8).

 “Indagava sindicalista do interior: pode um dentista (odontólogo), amigo dos trabalhadores, filiar-
se a entidade anarcossindicalista? Resposta: mesmo bom sujeito, o dentista não é trabalhador!...”
(FERNANDES, 1998, p. 8).

 Os desempregados garantem benefícios aos burgueses : “os desempregados, os antes


denegridos lumpem, passam com razão, a agentes da história” (FERNANDES, 1998, p. 8)

 História das Internacionais dos Trabalhadores : “A I Internacional, liderada pelos anarquistas e,


depois, por Karl Marx. A II, de natureza social-democrata, primeiramente radical, subsiste até hoje
(aqui e agora...) com mel, mais açúcar, mais cassetetes. Com a Revolução de Outubro (1917), foi
criada a III Internacional, ‘extinta’ em 1943 e substituída pela Cominformm; enfim, pela ‘redação’ da
Revista Internacional dos PPCC. Com a cisão trotskista, organizou-se, nesse caráter, a IV Internacional.
Depois, a V...” (FERNANDES, 1998, p. 9-10).

 Capitalismo multifacetado: “A economia capitalista transformou-se de produtora e exportadora


de mercadorias, mais propriamente, em expedidora de papéis (ações, etc.). Disso resulta a
manutenção, precária que seja, do sistema e uma brutal instabilidade” (FERNANDES, 1998, p. 10)

 O caos gera lucros ao burguês: “A barbárie, na falta momentânea de um movimento comunista


atuante, que está sendo reconstruído, assume o comando, com o aumento da criminalidade, conflito
de raças, religião, exploração da prostituição, sobretudo infantil etc” (FERNANDES, 1998, p. 10)

 Dados da pobreza mundial ao final do século XX segundo o The New York Times: “A cada
mês 25 milhões de indivíduos ingressam no clube do horror, daqueles que não têm absolutamente
nada, nem casa e nem comida. A terra conta com 5,7 bilhões de habitantes, dos quais um bilhão não
dispõe de renda de espécie alguma. Outro bilhão consegue no máximo US$ 1,00 por dia, isto é, US$
30,00 por mês, quem sabe US$ 365,00 por ano” (FERNANDES, 1998, p. 10-11).

 Motivo dos problemas mundiais : “a verdade continuará uma só: a causa é o modelo”
(FERNANDES, 1998, p. 11).

 A queda do capitalismo é inevitável : “A continuar o processo como vai, logo prevalecerá a


natura das coisas: a maioria engolirá a minoria, por mais que esta resista à tentativa de aplicação de
execráveis fórmulas de discriminação. Chegamos à miséria absoluta, ao caos e à pré-história outra
vez” (FERNANDES, 1998, p. 11)

 “A ‘moderna’ globalização é o velho e surrado imperialismo” (FERNANDES, 1998, p. 11).

 A saída está na Revolução : “A alternativa humanista e solidária consiste em reorganizar o


movimento operário e comunista, dando realidade à Revolução proposta no Manifesto de Karl Marx
e Friedrich Engels” (FERNANDES, 1998, p. 12)

Citações:

 “Das mudanças sociais ou sai a glorificação do social, ou o cadáver das estruturas da nação.” – RUY
BARBOSA, p. 7

 “A opção é entre a revolução comunista e a barbárie.” – ROSA LUXEMBURGO, p. 10

 “A explosão da miséria vai engolir as elites.” – CARLOS CHAGAS, p. 10, dito por ele nas páginas da
Tribuna da Imprensa (edição de 22.10.1996, p.6)

FILOSOFIA DE UM PAR DE BOTAS (MACHADO DE


ASSIS)
A extensa obra de Machado de Assis constitui-se de nove
romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas
de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Ele é
considerado o introdutor da escola realista no Brasil. Esse
conto homônimo, intitulado “Filosofia de um Par de Botas”
Temas abordados:
 Violência como meio de resolver os problemas : “Digeria o estômago, enquanto o cérebro ia
remoendo, tão certo é, que tudo neste mundo se resolve na mastigação” (ASSIS, 1994).

 Nada é eterno: “Mas, bem dizem os homens: não há bem que sempre dure, nem mal que se não
acabe” (ASSIS, 1994).

 Grande número de constituições na Bolívia : “Ele [, Dr. Crispim, antigo dono do par de botas,]
gastava mais sapatos do que a Bolívia gasta constituições” (ASSIS, 1994).

 O paradoxo da aposentadoria dos menos abastados : “se na verdade é triste acabar assim tão
miseravelmente, numa praia, esburacadas e rotas, sem tacões nem ilusões, — por outro lado,
ganhamos a paz, e a experiência” (ASSIS, 1994).

 Perda da utilidade quando os trabalhadores envelhecem e deixam de ser produtivos : “Que


utilidade? que respeito? Não vês que os homens tiraram de nós o que podiam, e quando não
valíamos um caracol mandaram deitar-nos à margem? Quem é que nos há de respeitar?” (ASSIS,
1994).

 “esta é a filosofia verdadeira: — Não há bota velha que não encontre um pé cambaio” (ASSIS,
1994).
PAULO FREIRE, UM PRECURSOR (FÁTIMA
FREIRE) A professora Fátima Freire-Dowbor é uma das filhas do
renomado educador Paulo Reglus Neves Freire. Ela
acompanhou o pai no exílio de 16 anos na América Latina, e
já enveredou pelos caminhos do falecido pai, atuando como
educadora em diversos países. Hoje, vive no estado de São
Paulo, e atualmente é coordenadora pedagógica do Colégio
Oswald de Andrade. Nesse breve texto, a autora traça um
panorama bem geral sobre a origem humilde de Paulo Freire
e sua importância, bem como o surgimento de seu método e
suas principais aplicabilidades práticas. Além disso, traz o
significado de alguns importantes conceitos freireanos e
reflexões profundas sobre o ato de educar.

Referência Bibliográfica: DOWBOR, Fátima Freire. “Paulo


Freire, um precursor”. Educação para um desenvolvimento
humano e social no Brasil. Revista Textos do Brasil, 7. 2008.

Temas abordados:
 Origem de Paulo Freire: “Para podermos entender a pedagogia de Paulo Freire, antes de mais
nada é importante que localizemos a sua origem, onde e quando ela surge. Paulo é nordestino, e
desde cedo se sente compromissado com o sofrimento, a injustiça social e a miséria do seu povo”
(DOWBOR, 2008).
 Figuras nordestinas importantes : “Surgiram neste meio gigantes como Josué de Castro,
analisando o drama da Geopolítica da Fome, Celso Furtado, um dos criadores mundiais da economia
do desenvolvimento e outros nomes diretamente vinculados ao drama da pobreza e da exclusão. O
próprio Gilberto Freyre pode ter outros enfoques, mas contribuiu seguramente, com Casa Grande
Senzala, para colocar a divisão social no centro das discussões” (DOWBOR, 2008).

 Privação no acesso ao ensino como política no Nordeste : “Manter o povo privado de


educação, limitar o seu acesso à cultura formal, à leitura e à escrita, foi elevado no Nordeste ao nível
de política sistemática pelas tradicionais famílias que controlavam a política e a economia”
(DOWBOR, 2008).

 Papel dos educadores nordestinos no rompimento com a privação de direitos : “Nesse


sentido, alfabetizar as classes populares não era uma tarefa meramente técnica. Constituía, desde o
início, uma atitude humanista de solidarização, e uma atitude política de desafio .” (DOWBOR, 2008).

 Surgimento do Método Paulo Freire : “O famoso método de alfabetização que leva o nome de
Paulo Freire, surgiu no final da década de 50, vinculado às primeiras experiências dos círculos de
cultura, que eram vividos no interior do Movimento de Cultura Popular do Recife, conhecido como
MCP” (DOWBOR, 2008).
 Conceituação de “círculos de cultura” : “Os círculos de cultura eram grupos compostos por
trabalhadores populares, que se reuniam sob a coordenação de um educador, com o objetivo de
discutirem assuntos temáticos, do interesse dos próprios trabalhadores, cabendo ao educador-
coordenador tratar a temática trazida pelo grupo” (DOWBOR, 2008).

 Conceituação de “temas dobradiça” : “Já naquele então Freire descobre que é possível
acrescentar aos temas apresentados pelos grupos, outros que ele os chama de "temas de dobradiça".
Estes "temas dobradiça", na verdade, constituem a contribuição do educador-coordenador, que
introduz outros temas que podem auxiliar e enriquecer a compreensão do grupo” (DOWBOR, 2008).

 Influência dos círculos de cultura no processo de alfabetização de Paulo Freire : “O


resultado obtido com estes trabalhadores populares nos círculos de cultura foi muito bom,
conseguido-se um bom nível de compreensão, independentemente do fato deles serem
alfabetizados ou não. Isto leva Paulo a propor a mesma metodologia para o processo de alfabetização
de adultos” (DOWBOR, 2008).

 Metodologia de Paulo Freire : “Na verdade esta é uma das grandes contribuições do Paulo
Freire, sua metodologia de trabalho, que consiste em possibilitar a tomada de consciência do
educando através do diálogo, que desvela a realidade e mostra as suas interligações, culturais, sociais
e político-economicas” (DOWBOR, 2008).

 Interligação entre teoria e prática : “Não existe prática pedagógica sem uma metodologia que a
define, como também não existe uma metodologia que não traga consigo uma prática específica.
Portanto, não existe teoria sem prática e nem prática sem teoria. Ambas fazem parte de um mesmo
pensar e fazer pedagógico” (DOWBOR, 2008).

 Diálogo como forma de ensino : “Ele [Paulo Freire] costumava dizer que não era suficiente
unicamente ensinar a pensar, nós enquanto professores educadores temos também como desafio,
ensinar a pensar bem, a pensar de forma certa. A primeira condição para ensinar a pensar bem, é a
convicção de que ensinar não é transferir conhecimento, mas sim construir com o educando ou
possibilitar que ele construa com os seus iguais, mas nunca construir por ele” (DOWBOR, 2008).

 Educar é um ato político: “Na sua pedagogia da libertação e transformação, podemos constatar
muito claramente que o ato de educar é realmente um ato político, no sentido do compromisso
assumido com o outro, para que este possa ser cada vez mais sujeito da sua história e do seu
PAULO
processo de aprendizagem. Paulo tinha uma forte FREIRE,
convicção UM PRECURSOR
que ninguém (FÁTIMA
pode realmente ser, se
impede que o outro seja. Como também ninguém FREIRE)
se educa sozinho, mas sim os homens se educam
entre si” (DOWBOR, 2008).

 “toda leitura da palavra é precedida de uma certa leitura de mundo de quem lê” (DOWBOR, 2008).

 Saberes importantes: “Para Freire alguns saberes são indispensáveis na formação dos
professores, tais como o de que ensinar exige rigorosidade metódica, exige pesquisa, exige respeito
aos saberes do educando, exige criticidade, exige risco, exige reflexão crítica sobre a prática, exige
pensar certo, exige liberdade e autoridade, exige humildade e amorosidade pelo outro” (DOWBOR,
2008).

 Importância da cultura: “Na verdade acredito que o Freire foi um grande precursor no que diz
respeito a sua convicção de que é através da cultura que se pode gerar transformações no processo
social de forma geral, e não só da educação” (DOWBOR, 2008).
DISCURSO SOBRE A HISTÓRIA DA LITERATURA
DO BRASIL
Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) foi
médico, diplomata, poeta, dramaturgo e polígrafo
fluminense. Além disso, devido sua proximidade com o então
imperador Dom Pedro II, recebeu ainda o título de Visconde
do Araguaia. Publicado como ensaio, esse texto é um
manifesto do Romantismo que saiu pela primeira vez
impresso em 1836 no Niterói, Revista Brasiliense, em Paris. O
texto original se encontra no exemplar da obra Opúsculos
históricos e literários, p. 239 – 271, de Gonçalves de
Magalhães.

Referência Bibliográfica: MAGALHÃES, Domingos José


Gonçalves de. “Discurso sobre a História da Literatura no
Brasil [1836]”. Translusofonias. Revista de Estudos
Comparativistas Lusófonos da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná, Pato Branco, v. I, n. 1, p. 1-28, 2014.
Temas abordados:
 Conceituação de “literatura”: “A literatura de um povo é o desenvolvimento do que ele tem de
mais sublime nas ideias, de mais filosófico no pensamento, de mais heroico na moral, e de mais belo
na natureza; é o quadro animado de suas virtudes e de suas paixões, o despertador de sua glória, e o
reflexo progressivo de sua inteligência” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 3).

 Apagar a literatura de um povo é apagar sua existência : “quando esse povo, ou essa geração,
desaparece da superfície da terra com todas as suas instituições, crenças e costumes, escapa a
literatura aos rigores do tempo para anunciar às gerações futuras qual fora o caráter e a importância
do povo do qual é ela o único representante na posteridade” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 3).

 Influência da ocupação moura : “Para prova da terceira proposição, no caso em que as


literaturas de tal modo se mesclam, que não é possível separá-las, vemos na literatura romântica da
Espanha uma mistura de ideias cavalheirescas e arábicas, restos da antiga civilização dos árabes;
algumas vezes se ela é cristã na sua matéria, é arábica quanto à forma” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p.
4).

 Volatilidade da literatura : “a literatura é variável como são os séculos; semelhante ao


termômetro, que sobe e desce segundo o estado da atmosfera” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 4).

 Falta de documentos para consultar sobre a história da literatura no século XIX : “Aqueles
que alguns lumes de conhecimentos possuem relativos à nossa literatura, sabem que mesquinhos e
esparsos são os documentos que sobre ela se pode consultar. Nenhum nacional, que o saibamos,
ocupado se tem até hoje de tal objeto” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 5-6).

 Erros na busca de fontes históricas : Na inexistência de fontes escritas genuinamente brasileiras


sobre a nossa história literária, Gonçalves de Magalhães e os letrados foram à Europa buscar lá as
poucas informações existentes. “Investigamos todas as bibliotecas de Paris, de Roma, de Florença, de
Pádua e de outras principais cidades da Itália que visitamos; foi-nos preciso contentar-nos com o que
pudemos obter” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 7). No entanto, isso foi um erro, porque a história do
Brasil está nas vielas, nos becos e nas favelas, e não na Europa. Um exemplo disso ocorre com o
literato no livro Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto.

 Conservação do patrimônio como característica civilizatória : “mais zelosos sejamos em


pesquisar e conservar os monumentos de nossa glória para a geração futura, a fim de que não nos
exprobre o nosso desmazelo e de bárbaros nos não acuse, como com razão o poderíamos fazer em
relação aos nossos maiores” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 7).

 A história é feita por grandes personalidades : “Nós pertencemos ao futuro, como o passado
nos pertence. A glória de uma nação que existe ou que já existiu não é senão o reflexo da glória de
seus grandes homens” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 7).

 Fornecimento de oportunidades como forma de gerar grandes homens : “O aparecimento


de um grande homem é uma época para a História; e semelhante a uma jóia preciosa, que só
possuímos quando podemos possuí-la, o grande homem jamais se apresenta quando o não
merecemos” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 8). De uma forma muito simples, “empreguemos os
meios necessários, e teremos grandes homens” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 8).

 Fornecimento de oportunidades como forma de gerar grandes homens : “O aparecimento


de um grande homem é uma época para a História; e semelhante a uma jóia preciosa, que só
possuímos quando podemos possuí-la, o grande homem jamais se apresenta quando o não
merecemos” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 8). De uma forma muito simples, “empreguemos os
meios necessários, e teremos grandes homens” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 8).

 Opressão no período colonial : “O Brasil, descoberto em 1500, jazeu três séculos debaixo da
cadeira de ferro em que se recostava um governador colonial com todo o peso de sua insuficiência e
de seu orgulho. Mesquinhas intenções políticas, por não dizer outra coisa, ditavam leis absurdas e
iníquas que entorpeciam o progresso da civilização e da indústria” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 8).

 Diferença de oportunidades para colonos e portugueses : “Um ferrete ignominioso de


desaprovação, gravado na fronte dos nascidos no Brasil, indignos os tornava dos altos e civis
empregos. Para o brasileiro, no seu país, obstruídas e fechadas estavam todas as portas e estradas
que podiam conduzi-lo à ilustração. Uma só portaDISCURSO SOBRE
ante seus passos A HISTÓRIA
se abria; era a portaDA
do LITERATURA
convento,
DO BRASIL
do retiro e do esquecimento!” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 8).

 Cristianismo no colonialismo: Gonçalves de Magalhães afirma que o cristianismo não estava


presente nas atitudes dos colonizadores. Isso está presente em “as virtudes do cristianismo não se
podiam domiciliar nos corações desses homens encharcados de vícios, e tirados pela maior parte dos
cárceres de Lisboa, para vir povoar o Novo Mundo” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 9). No entanto,
isso compacta perfeitamente com o evangelho cristão, que, em suas premissas, pressupõe a
expansão da fé para toda criatura, excluindo o método, o meio e a forma para sua efetiva
concretização.

 Não reconhecimento do brasileiro como parte de um todo : O autor afirma que o brasileiro,
em tempos coloniais, “envergonhava-se de ser brasileiro, e muitas vezes com o nome de português
se acobertava para ao menos aparecer como um ente da espécie humana e poder alcançar um
emprego no seu país” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 10).

 Interesses portugueses na pauperização brasileira : “Quem não dirá que Portugal com esse
sistema opressor só curava de atenuar e enfraquecer essa imensa colônia, porque conhecia sua
própria fraqueza e ignorava seus mesmos interesses? Quem não dirá que ele temia que a mais alto
ponto o Brasil se erguesse e lhe ofuscasse a glória?” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 10).

 Conceituação de “escravidão”: Gonçalves classifica a escravidão como “tão contrária ao


desenvolvimento da indústria e das artes, e tão perniciosa à moral” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p.
10).

 Exploração e escravidão como impedimento artístico : “E poder-se-á com razão acusar o Brasil
de não ter produzido inteligências de mais subido quilate? Mas que povo escravizado pôde cantar
com harmonia, quando o retinido das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturam? Que
colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros, e curvado sobre a terra, a voz ergueu no meio do
universo, e gravou seu nome nas páginas da memória?” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 11). Após isso,
complementa dizendo que “as ciências, a poesia e as belas artes, filhas da liberdade, não são
partilhas do escravo; irmãs da glória fogem do país amaldiçoado onde a escravidão rasteja, e só com
a liberdade habitar podem” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 11).

 “o poeta brasileiro não é guiado por nenhum interesse e só o amor mesmo da poesia e da pátria o
inspira” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 12).

 Civilidade como consequência da organização popular : “Cada nação livre reconhece hoje mais
que nunca a necessidade de marchar. Marchar para uma nação é engrandecer-se moralmente, é
desenvolver todos os elementos da civilização” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 12).

 Futuro ligado ao presente : “Se o futuro só pode sair do presente, a grandeza daquele se medirá
pela deste” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 12).

 Historiador prevê o futuro : “Jamais uma nação poderá prever o seu futuro, se não conhece o
que ela é comparativamente com que ela foi. Estudar o passado é ver melhor o presente, é saber
como se deve marchar para um futuro mais brilhante” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 13).

 Influência grega na cultura brasileira : “Tão grande foi a influência que sobre o engenho
brasileiro exerceu a grega mitologia, transportada pelos poetas portugueses, que muitas vezes
poetas brasileiros se metamorfoseiam em pastores da Arcádia e vão apascentar seus rebanhos
imaginários nas margens do Tejo e cantar à sombra das faias” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 15).
DISCURSO SOBRE A HISTÓRIA DA LITERATURA
DO BRASIL
 Revolução Francesa como propagadora da liberdade : Gonçalves de Magalhães traz a França
como modelo de libertação em detrimento da opressão portuguesa, movido pelo ideal iluminista de
liberdade rumo ao progresso. Isso está exposto em “Hoje o Brasil é filho da civilização francesa e
como nação é filho dessa revolução famosa que abalou todos os tronos da Europa e repartiu com os
homens a púrpura e os cetros dos reis” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 15).

 Romantização da independência brasileira : “A independência política tornou-se necessária;


todos a desejavam, e impossível fora sufocar o grito unânime dos corações brasileiros ávidos de
liberdade e de progresso. E quem pode opor-se à marcha de um povo que conhece a sua força e
firma a sua vontade?” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 17).

 Século XIX como período de formação da identidade do Brasil : “No começo do século atual,
com as mudanças e reformas que têm experimentado o Brasil, novo aspecto apresenta a sua
literatura. Uma só ideia absorve todos os pensamentos, uma ideia até então quase desconhecida: é a
ideia da pátria, ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome” (MAGALHÃES, 2014 [1836],
p. 18).
 Importância das revoluções : “reconhecemos sua missão na história da humanidade; elas são
úteis, porque meios são indispensáveis para o progresso do gênero humano, e até mesmo para o
movimento e progresso literário” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 19).

 “poetas europeus vão beber no Oriente as suas mais belas inspirações” (MAGALHÃES, 2014 [1836],
p. 19).

 Cultura dos tamoios: “Por alguns escritos antigos sabemos que algumas tribos indígenas se
avantajavam pelo talento da música e da poesia, entre todas os Tamoios, que no Rio de Janeiro
habitavam, eram os mais talentosos” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 21).

 Importância da poesia : “É que à poesia e à música é dado o assenhorear-se da liberdade


humana, vibrar as fibras do coração, abalar e extasiar o espírito” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 21-
22).

 Resistência dos povos ameríndios : “Que precioso monumento para nós não fora desses povos
incultos, que quase têm desaparecido da superfície da terra, sendo tão amigos da liberdade que, para
evitar o cativeiro, caíam, de preferência, debaixo dos arcabuzes dos portugueses, que tentavam
submetê-los ao seu jugo tirânico! Talvez tivessem eles de influir na atual poesia brasileira,”
(MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 22).

 Importância da originalidade : “Só pode um poeta chamar-se grande se é original, se de seu


próprio gênio recebe as inspirações. O que imita alheios pensamentos, nada mais é que um tradutor
salteado, como é o tradutor um imitador seguido, e igual é o mérito de ambos; e por mais que se
esforcem, por mais que com os seus modelos emparelhem, ou mesmo que os superem, pouca glória
por isso lhes toca, tendo só afinal aumentado a daqueles” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 23).

 Conceituação de “história” segundo Gonçalves de Magalhães : “Como não estudamos a


história só com o único fito de conhecer o passado, mas sim com o fim de tirar úteis lições para o
presente; assim no estudo do que chamamos modelos não nos devemos limitar à sua reprodução
imitativa” (MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 23).

 “A estrada aberta pelos nossos ilustres maiores, que podemos considerar em caracol em uma
montanha, ainda não tocou a seu cume; se aspiramos chegar a ele, o mais seguro caminho é trilhá-la,
DISCURSO SOBRE A HISTÓRIA DA LITERATURA
mas com cuidado que nos não deixemos encantar pela harmonia das vozes dos cisnes que a ladeiam”
DO BRASIL
(MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 23-24).

 “mais vale um voo arrojado deste, que a marcha refletida e regular da servil imitação”
(MAGALHÃES, 2014 [1836], p. 24).

Citações:

 “A glória dos grandes homens é o patrimônio de um país livre; depois que eles morrem todos
participam dela” – MADAME DE STAËL, p. 7-8

 “O gênio no meio da sociedade é uma dor, uma febre interior que se deve tratar como verdadeira
moléstia, se a recompensa da glória lhe não adoça as penas” – MADAME DE STAËL, p. 8
UM DEVOTO DO BRASIL (MARIA EUNICE
MOREIRA) Maria Eunice Moreira é professora titular da Escola de
Humanidades - Letras da PUC-RS, sendo doutora em
Linguística e Letras pela mesma instituição. Nesse texto
dedicado a Gonçalves de Magalhães, a professora embasa
seus pontos de vista a partir de “Três devotos, uma fé,
nenhum milagre” de Maria Orlanda Pinassi. Com isso, a
autora escreve sobre a bibliografia de Gonçalves de
Magalhães, bem como também de suas principais produções
literárias e de suas ideias que modificaram o Brasil no século
XIX.

Referência Bibliográfica: MOREIRA, Maria Eunice. “Um


Devoto do Brasil: Gonçalves de Magalhães e a História da
Literatura Brasileira”, 2001. Disponível em: <http://www.
repositorio.lusitanistasail.org/moreira01.htm>. Acesso em:
11 set. 2020.

Temas abordados:
 Biografia diplomática de Gonçalves de Magalhães : “Em 1841, acompanhou o Duque de Caxias
em viagem ao extremo Sul do Brasil, sendo eleito, mais tarde, Deputado Geral pela Província do Rio
Grande do Sul. Em 1847, iniciou sua carreira diplomática, que o levou a cargos na Itália, Rússia,
Áustria, Estados Unidos, Argentina e na Santa Sé. Por essas atividades, foi agraciado com o título de
Visconde de Araguaia, concedido pelo Império brasileiro, em 1859” (MOREIRA, 2001).

 Veneração à França e recusa de Portugal, segundo ele : “a proposta de Magalhães faz sentido
no contexto político da fase pós-independência: olhando para a França, não havia perigo de
retroceder na história - o que se daria se o país utilizasse Portugal como parâmetro - e também
estava assegurada a caminhada da nação rumo ao progresso. Adotando essa linha, Gonçalves de
Magalhães abandonava a ligação com a velha metrópole portuguesa, colocando-se ao lado daqueles
nacionalistas que desejavam cortar amarras com Portugal, como forma de reforçar a independência”
(MOREIRA, 2001).

 Lições tiradas do “Discurso sobre a História da Literatura do Brasil” : “É nessa medida que o
"Ensaio sobre a história da literatura do Brasil" adquire uma nova dimensão, que transcende ao
exclusivamente literário para apontar caminhos para sociedade do futuro no Brasil do século
passado. A primeira lição que os brasileiros poderiam retirar do texto encontra-se na possibilidade de
tomar como modelo não mais a velha metrópole portuguesa, mas uma nação também emergente - a
França. A segunda lição indica que a tarefa de construção da nação brasileira é prospectiva: o Brasil é
uma construção para o futuro. Finalmente, uma terceira lição ensina que o Brasil acaba de ser
inscrito no conjunto das nações mais desenvolvidas e busca seu lugar nesse concerto .” (MOREIRA,
2001).

 Importância histórica de Gonçalves de Magalhães : A professora Maria Eunice Moreira afirma


que “propostas literárias de Gonçalves de Magalhães podem ser entendidas, na verdade, como a
história da luta de um devoto no sentido de declarar a historicidade de seu país” (MOREIRA, 2001).
DISCURSO NO ATO DE ESTATUIR-SE O IHGB
(JANUÁRIO
CUNHA) Januário da Cunha Barbosa (1780-1846) foi cônego, político,
escritor, primeiro secretário perpétuo do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, membro do conselho da Sociedade
Auxiliadora da Indústria Nacional e sócio do Instituto
Histórico de Paris. Esse discurso foi proferido em 25 de
novembro de 1838 e publicado na primeira edição da revista
do IHGB em 1839. Nele, é abordado temas como as
dificuldades do historiador no século XIX, a escrita de História
nesses períodos, a importância de um Instituto, entre outros.

Referência Bibliográfica: BARBOSA, Januário da Cunha.


“Discurso no ato de estatuir-se o Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro”. In: GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado
(ORG). Livro de Fontes da historiografia brasileira. Rio de
Janeiro: Ed. UERJ, 2010, p. 19-42
Temas abordados:
 Objetivo da fundação do IHGB : Fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro com
intuito de que se “curasse de reunir e organisar os elementos para a historia e geographia do Brasil,
espalhados por suas provinciais, e por isso mesmo difficeis de se colher por qualquer patriota que
tentasse exactamente tão desejada historia” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 21). Tudo isso para evitar
“deixar por mais tempo em esquecimento os factos notaveis da sua historia, acontecidos em diversos
pontos do imperio, sem duvida ainda não bem designados” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 21)

 Instinto colonial presente nos fundadores do IHGB : Criação do Instituto com intuito de
“mostrarmos ás nações cultas que também presamos a gloria da patria” (BARBOSA, 2010 [1839], p.
21-22). Ou seja, a intenção era reafirmar a independência do Brasil para as potências culturais da
época e mostrar a civilidade do povo brasileiro para a Europa.

 O conceito de “história dos vencedores” guiava os sócios do IHGB : Fundação do IHGB com
intuito “de eternisar pela historia os factos memoraveis da patria” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 22).

 Trabalho do historiador como ato patriótico : “O coração do verdadeiro patriota Brasileiro


aperta-se dentro no peito quando vê relatados desfiguradamente até mesmo os modernos factos da
nossa gloriosa independencia” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 22).

 Independência do Brasil : “época memoravel da nossa moderna historia, que acrescentou no


novo mundo hum esperançoso imperio ao catalogo das nações constituidas” (BARBOSA, 2010 [1839],
p. 22).

 História como ato nacionalista : Fazendo referência a fala de Alexandre de Gusmão à Academia
Real da História Portuguesa, o cônego Januário afirma, que com o IHGB, “nós vamos salvar da indigna
obscuridade, em que jazião até hoje, muitas memorias da patria, e os nomes de seus melhores filhos;
nós vamos assignalar, com a possível exactidão, o assento de suas cidades e villas mais notaveis, a
corrente de seus caudalosos rios, a área de seus campos, a direcção de suas terras, e a capacidade de
seus innumeraveis portos” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 23). Assim, ao falar de partes dispersas e
desconhecidas para os moradores dos centros econômicos do Brasil, espera-se gerar um sentimento
de familiarização e uma noção incipiente de nacionalismo.

 “As forças reunidas dão resultados prodigiosos” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 23).

 Importância do método em história : “A nossa historia, dividindo-se em antiga e moderna, deve


ser ainda subdividida em varios ramos e épocas, cujo conhecimento se torne de maior interesse aos
sabios investigadores da marcha da nossa civilisação” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 23) – esse marco,
que, segundo ele, dividiu nossa história em antiga e moderna, foi a independência.

 Proibição da tipografia no Brasil Colônia : “Nem pouco influio, para esta lamentavel falta de
publicação das cousas da patria o triste fado que sobre nós pesára por mais de 300 annos, sendo
obrigados a mendigar o favor dos typos da metropole, não se nos consentindo assentar huma
imprensa nesta então colonia” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 24-25).

 Escritos brasileiros no Brasil Colônia : “Nos tempos da passada monarchia os esciptos


brasileiros, que assim então se publicavão, punhão a gloria de seus autores em communhão com a
dos Portuguezes; e como, por tantas difficuldades erão em muito menor numero, ficavão absorvidos
pelo credito litterario da metropole, que bem pouco reflectia sobre o Brasil” (BARBOSA, 2010 [1839],
p. 25).

 História como guia para o futuro : “A razão do homem, sempre vagarosa em sua marcha,
necessita de hum guia esclarecido e seguro, que acelere os seus passos. O talento dos historiadores e
dos geographos he só quem póde oferecer-nos essa galeria de factos, que, sendo bem ordenados por
suas relações de tempo e de logar, levão-nos a conhecer na antiguidade a fonte de grandes
acontecimentos, que muitas vezes se desenvolveráõ em remoto futuro” (BARBOSA, 2010 [1839], p.
26).

 A história precisa ser fiel aos fatos : A história “não deve representar os homens como
instrumentos cegos do destino, empregados como peças de hum machinismo, que concorrem ao
desempenho dos fins do seu inventor. A historia os deve pintar taes quaes forão na sua vida, obrando
em liberdade, e fazendo-se responsáveis por suas acções” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 26).
DISCURSO NO ATO DE ESTATUIR-SE O IHGB
 Elitismo como marca da consolidação da história
(JANUÁRIO como disciplina: A história “elles [os
CUNHA)
patrícios brasileiros], de certo, faráõ o melhor uso dos seus estudos sobre a historia da patria”
(BARBOSA, 2010 [1839], p. 27). A história precisa ser popular e não ser dedicada às elites.

 Herança do conceito de “magistra vitae” de Cícero na História Brasileira: “as melhores


lições que os homens podem receber, lhes são dadas pela historia” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 27).

 Tribunal da História: “Os crimes [...] não deixão de ser detestáveis no tribunal da história, se a
imparcial penna de sabios os descreve em sua verdadeira luz” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 28).

 “E deixaremos sempre ao genio especulador dos estrangeiros o escrever a nossa historia, sem
aquelle acerto que melhor póde conseguir hum escriptor nacional?” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 29).

 Interesse em abrir um curso de história no Brasil: “os socios deste Instituto [...] pretendem
abrir um curso de historia e geographia do Brasil [...] para que o conhecimento das cousas da pátria
mais facilmente chegue á intelligencia de todos os Brasileiros” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 30).
 “A geographia he a luz da historia, e a historia, tirando da obscuridade as memorias da patria,
honra por isso mesmo aos que lhe consagrão desvellos” (BARBOSA, 2010 [1839], p. 32)
APRESENTAÇÃO DE “PODER, LUTA E DEFESA”
(EVARISTO ARNS)
Dom Frei Paulo Evaristo Arns (1921-2016) foi um frade
franciscano, cardeal e escritor brasileiro. É considerado, por
muitos, o maior líder da Igreja Católica brasileira. Foi um dos
principais nomes na luta contra a ditadura militar e a favor
das Diretas Já. Escrito em 02 de fevereiro de 1983, esse breve
texto de apresentação ao livro “Poder, Luta e Defesa” de
Gene Sharp, Arns trata sobre as crises do próprio período
ditatorial; o debate sobre a não violência; a urgência do
combate a toda forma de violência, trazendo também a sua
conceituação prática e alguns modos de sua manifestação; e,
por fim, traz um apanhado geral sobre a obra que está
apresentando.

Referência Bibliográfica: ARNS, Paulo Evaristo.


“Apresentação”. In: SHARP, Gene. Poder, Luta e Defesa.
Tradução de Getúlio Bertelli. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 5-6

Temas abordados:
 Conceituação de violência: “a violência é uma força que fere a vida e destrói a liberdade e a
dignidade humanas. Ela é força capaz de restringir, de controlar e de determinar o comportamento
das pessoas, dos grupos sociais e das instituições políticas e culturais” (ARNS, 1983, p. 5).
 Modos e tipos de violência : “A violência é econômica, política e ideológica. [...] Existe a violência
noticiada. Mas existe também a violência camuflada e consentida. Ela penetra sorrateiramente nas
relações cotidianas e impregna todo o tecido das relações sociais” (ARNS, 1983, p. 5).

 Múltiplas crises ao final da ditatura militar brasileira : “Vivemos um momento de crise


econômica, de hesitação e de busca de uma política democrática, capaz de refazer a integração do
povo e da nação” (ARNS, 1983, p. 6).

 Planejamento contra a violência : “a luta contra a violência depende da força que colocamos no
lugar certo e no tempo oportuno de nossa decisão e de nossa nação” (ARNS, 1983, p. 6).

 Luta contra violência e seu caráter transformador : “A procura de alternativas de ação contra
um poder violento, contra condições de trabalho e de vida que destroem tem por incentivo refazer o
próprio tecido das relações sociais” (ARNS, 1983, p. 6).

 Urgência da instauração de um governo popular : “Neste momento de crise econômica e de


hesitação política, faz-se necessário encontrar alternativas para que as classes populares tenham
capacidade de dividir e de controlar o poder” (ARNS, 1983, p. 6).

 Levante da verdade em meio aos momentos de obscuridade : “De fato, a situação de


violência e o momento de crise podem se apresentar como um momento oportuno para o nosso
testemunho de verdade, de justiça e de fraternidade” (ARNS, 1983, p. 6).
PREFÁCIO DE “PODER, LUTA E DEFESA” (GENE
SHARP)
Gene Sharp foi um professor emérito de Ciências Políticas da
Universidade de Massachusetts. É conhecido por seu extenso
trabalho sobre não violenta, que tem influenciado várias
resistências antigovernamentais. Escrito em 06 de janeiro de
1983, esse breve texto, que funciona como o prefácio de sua
obra “Poder, Luta e Defesa”, trata de temas como a
importância da adoção da não violência no Brasil Ditatorial;
motivos de estudar essa filosofia; a sua efetividade; e, por
fim, tratou de seu outro livro “The Politics of Nonviolent
Action”, em que se baseia esse texto – que, segundo ele, não
devem ser vistas como afirmações definitivas.

Referência Bibliográfica: SHARP, Gene. “Prefácio à edição


brasileira”. In: ________. Poder, Luta e Defesa. Tradução de
Getúlio Bertelli. São Paulo: Paulinas, 1983, p. 7-9
Temas abordados:
 Expectativa da adoção da não violência no Brasil : “É possível que o povo do Brasil venha a
desempenhar papel importante na história do futuro desenvolvimento da técnica não-violenta como
substituto da violência para se conseguir mudança social e se precaver dos governos ditatoriais”
(SHARP, 1983, p. 7).

 Motivos de estudar a não violência nesta era nuclear : “Estudar a natureza e o potencial da
luta não-violenta é importante por várias razões. Primeiro, para os cientistas sociais e para o público
em geral que desejam conhecer mais sobre sociedade e política. Segundo, é importante paras as
pessoas que estão interessadas em como lutar efetivamente pela liberdade e justiça social. Além
disso, é importante a todos os que querem viver a paz e abolir a guerra, a fim de que nem povo nem
governo se entreguem à violência por não terem alternativa na luta contra a opressão e contra a
agressão internacional” (SHARP, 1983, p. 7).

 A prática e a luta levam a mudanças : “Ao mesmo tempo, pareceu-me evidente que tanto
injunções morais contra violência, como exortações a favor do amor e da não-violência pouco ou
nada contribuíram para acabar com a guerra e com outras violências políticas significativas. Pareceu-
me que somente a adoção de um tipo substituto de sanção e de luta, como uma alternativa funcional
à violência nos casos de conflitos agudos – onde importantes questões estão em jogo, ou se supões
que estejam – teria probabilidade de levar a significativa redução da violência política de maneira
compatível com a liberdade, com a justiça e com a dignidade humana” (SHARP, 1983, p. 7-8).

 Mobilização como fator de mudança : “O simples fato de ser favor de alternativas não-violentas
não produzirá necessariamente mudanças, a não ser que elas sejam percebidas claramente como
eficientes em comparação com alternativas violentas. Também pouco adiantam sermões ou
declarações” (SHARP, 1983, p. 8).
INTRODUÇÃO DE “PODER, LUTA E DEFESA” (GENE
SHARP)
Gene Sharp foi um professor emérito de Ciências Políticas da
Universidade de Massachusetts. É conhecido por seu extenso
trabalho sobre não violenta, que tem influenciado várias
resistências antigovernamentais. Esse breve texto, que
Temas abordados:
 Luta como única via de libertação : “Alguns conflitos não permitem transigência e só podem ser
resolvidos mediante a luta” (SHARP, 1983, p. 11).

 Direitos sociais: Sharp define independência, autorrespeito e capacidade das pessoas de


determinar seu próprio futuro (SHARP, 1983, p. 11) como princípios fundamentais de uma sociedade.

 Não violência como outra via para solucionar problemas : Sharp critica a falsa dicotomia
“entre uma abominável rendição passiva e a violência” (SHARP, 1983, p. 11) como meios de cessar
conflitos. E, também, reivindica o fato de que “vitória exige violência” (SHARP, 1983, p. 11). Para ele,
“não é verdade ser a violência o único meio eficiente em situações conflitivas cruciais” (SHARP, 1983,
p. 12).

 Conceituação de não violência : O autor entende, primordialmente, a não violência como a


técnica “que não mata nem destrói” (SHARP, 1983, p. 12). Além disso, vê sua base formada pela
“crença de que o exercício do poder depende do consentimento do governado que, ao retirar seu
consentimento, pode controlar e até mesmo destruir o poder de seu adversário. Em outras palavras,
a ação não-violenta é uma técnica usada para controlar, combater e destruir o poder do adversário
mediante meios não-violentos de exercer poder” (SHARP, 1983, p. 12).

 Sharp culpa os historiadores pelo desconhecimento popular da não violência : “E mesmo


assim a ação não-violenta já teve uma longa história, que permaneceu em grande parte
desconhecida porque os historiadores estiveram totalmente ocupados em outros assuntos” (SHARP,
1983, p. 12).

 Alguns exemplos recentes de não violência : “Mesmo no atual estágio rudimentar de


investigação, aquele que busca pode encontrar números exemplos, num período que abrange desde
a antiga Roma até à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e à resistência dos tcheco-eslovacos à
invasão russa de 1968” (SHARP, 1983, p. 12).
 Alguns exemplos históricos de não violência : “Procurando diligentemente através de fontes
esparsas, pode-se encontrar o registro dos protestos plebeus contra Roma nada menos do que já no
século V a.C.; pode-se traçar a resistência dos Países Baixos contra o domínio espanhol na Europa da
metade do século XVI” (SHARP, 1983, p. 12-13).

 Não violência presente na independência das Treze Colônias : “numa medida desconhecida
em seu todo, os colonos americanos usaram resistência não-violenta em sua luta contra a Inglaterra,
recusando-se a pagar taxas e dívidas, recusando-se a importar, recusando-se a obedecer a leis que
eles consideravam injustas, usando instituições políticas independentes e rompendo contanto social
e econômico com os ingleses, bem como com os pró-ingleses” (SHARP, 1983, p. 13).

 Não violência presente na Revolução Russa de 1905 : “A Revolução Russa de 1905 está cheia
de reações não-violentas aos eventos do ‘Domingo Sangrento’: paralisação através de greves, recusa
de obediência aos regulamentos da censura, estabelecimento de órgãos de governos ‘paralelos’ –
essas foram apenas algumas das pressões que levaram o governo do Czar a prometer um sistema de
governo mais liberal” (SHARP, 1983, p. 13).

 Gandhi e a Marcha do Sal : “Gandhi, que foi o mais destacado estrategista da ação-não-violenta,
considerava a luta não-violenta como um meio de contrabalançar forças, meio este que tinha a maior
possibilidade de instaurar a liberdade e justiça verdadeiras. A clássica luta nacional gandhiana foi a
campanha de 1930-1931, que começou com a famosas Marcha do Sal, como prelúdio da
desobediência civil contra o monopólio britânico. Seguiu-se uma campanha não-violenta que durou
um ano. Ela abalou o poder britânico na Índia e terminou em negociações entre iguais” (SHARP,
1983, p. 13-14).

 Não violência na Noruega: “como na Noruega, onde a tentativa de Quisling para forma um
Estado Corporativo foi frustrada pela resistência não-violenta” (SHARP, 1983, p. 14).

 Não violência na Europa: “Os sistemas comunistas também sentiram o poder da ação não-
violenta no levante da Alemanha Oriental em 1953, nas greves em campos de prisioneiros soviéticos
e na fase não-violenta da Revolução Húngara de 1956” (SHARP, 1983, p. 14).

 Não violência na Tchecoslováquia contra INTRODUÇÃO DE :“PODER,


a invasão russa LUTA
“E em 1968, uma E DEFESA”
das (GENE
mais notáveis
SHARP)
demonstrações de resistência não-violenta improvisada com a finalidade de defesa nacional ocorreu
na Tcheco-eslováquia após a invasão russa. A luta não teve êxito, mas os tcheco-eslovacos puderam
resistir por muito mais tempo – desde agosto até abril do ano seguinte – do que se tivessem usado
resistência militar” (SHARP, 1983, p. 14).

 Principais erros de lutas não violentas : “As conquistas e vitórias das lutas não-violentas do
passado, embora freqüentemente inadequadas, foram contudo, muitas vezes notáveis,
especialmente quando consideramos o número geralmente reduzido de participantes ativos e o
caráter geralmente improvisado e sem planejamento da resistência” (SHARP, 1983, p. 14).

 “Contudo, implícita ou explicitamente, toda luta não-violenta tem como ponto de partida comum
sua visão da natureza do poder e do seu exercício” (SHARP, 1983, p. 15).
MEMÓRIA SOBRE O MELHOR PLANO DE SE
ESCREVER A HISTÓRIA ANTIGA E MODERNA DO
BRASIL (WALLENSTEIN)
Henrique Julio de Wallenstein (1790-1843) foi um diplomata
e conselheiro nascido na Prússia, mas que viveu no Brasil.
Esse presente texto é consequência de um concurso dirigido
pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro entre 1840 e
1842 que tinha como intuito reunir o mais acertado plano de
se escrever a história antiga e moderna do Brasil. Em um
total de duas dissertações enviadas, esse texto ficou em
segundo lugar. Ele trata sobre a metodologia de pesquisa de
história na época e traz alguns apontamentos importantes.

Referência Bibliográfica: WALLENSTEIN, Henrique Julio de.


Memória sobre o melhor plano de se escrever a história
antiga e moderna do Brasil. IN: GUIMARÃES, Manoel Luiz
Salgado (ORG). Livro de Fontes da historiografia brasileira.
Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2010, pp. 95-102

Temas abordados:
 Melhor metodologia para estudar a História do Brasil : “O plano, que parece mais acertado, de
se escrever a historia do Brazil é seguramente o mesmo, que seguiu Tito Livio, João de Barros e Diogo
do Couto, isto é, pelo sistema das décadas, narrando-se os factos acontecidos dentro de periodos
certos” (WALLENSTEIN, 2010 [1843], p. 97).

 Importância real dos povos indígenas na História do Brasil : “N’este sentido, antes que se
principiem a narrar os factos historicos, deve preceder uma introdução descriptiva das nações
indigenas, que habitavão as costas do Brazil na ocazião do descobrimento” (WALLENSTEIN, 2010
[1843], p. 97).

 Ausência de reconhecimento do autor à história contemporânea : O autor faz um apanhado


detalhado de alguns fatos históricos brasileiros indo desde o descobrimento em 1500 por Pedro
Alvares Cabral até a independência e a coroação de Dom Pedro I. Após isso, Julio de Wallenstein
propõe que, à época, a escrita da história do Brasil precisava terminar no primeiro governo imperial,
pois, para ele, “a historia contemporanea nenhum historiador nacional o deve fazer para se não
expôr a juizos temerarios, e as outras inconvenientes, que trazem comsigo os respeitos humanos”
(WALLENSTEIN, 2010 [1843], p. 98).

 Importância dada à questão política na história : “O texto d’esta historia projetada [nome dado
por ele à história contemporânea] deverá conter a parte politica, que é a principal” (WALLENSTEIN,
2010 [1843], p. 98).

COMO SE DEVE ESCREVER A HISTÓRIA DO BRASIL


(VON MARTIUS)
Karl Friederich Phillipe von Martius foi um botânico, escritor
bávaro e membro da Academia de Ciência da Baviera, tendo
vindo ao Brasil para fazer estudos. Esse texto é consequência
de um concurso dirigido pelo IHGB entre 1840 e 1842 que
tinha como intuito reunir o mais acertado plano de se
escrever a história antiga e moderna do Brasil. Em um total
de duas dissertações enviadas, esse texto foi o vencedor. Ele
trata sobre as três etnias que formaram o Brasil, mecanismos
de pesquisa e escrita da história nacional, tendo o objetivo de
criar uma identidade simbólica.

Referência Bibliográfica: MARTIUS, Karl Friedrich von. Como


se deve escrever a história do Brasil. IN: GUIMARÃES, Manoel
Luiz Salgado (ORG). Livro de Fontes da historiografia
brasileira. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2010. pp. 61-94.
Temas abordados:
 Expectativa de um Brasil do futuro: von Martius inicia sua dissertação apresentando ideias
gerais sobre a História do Brasil. Nelas, o autor chama o Brasil, recém independente, de “paiz que
tanto promete” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 63), o que reforçava a expectativa mundial em nossa
pátria.

 História do Brasil intrínseca à miscigenação : “São porém estes elementos de natureza muito
diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo particular tres raças, a saber: a
de côr de cobre ou americana, a branca ou caucasiana, e enfim a preta ou ethiopica. Do encontro, da
mescla, das relações mutuas e mudanças d’essas tres raças, formou-se a actual população, cuja
historia por isso mesmo tem um cunho muito particular” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 64).

 Importância do estudo da miscigenação e das três raças : “Portanto, vendo nós um povo novo
nascer e de desenvolver-se da reunião e contacto de tão differentes raças humanas, podemos
avanças que a sua historia se deverá desenvolver segundo uma lei particular das forças diagonaes”
(MARTIUS, 2010 [1843], p. 64). Essa ilustração remete a imagem de um vetor que tem uma direção,
no qual o historiador precisa mostrar esse caminho para a sociedade. Assim, entende-se que é
preciso entender as interações entre as raças e o papel de cada uma na formação da brasilidade.

 Romantização da invasão portuguesa : “D’isso necessariamente se segue o portuguez, que,


como descobridor, conquistador e senhor, poderosamente influiu n’aquelle desenvolvimento; o
portuguez, que deu as condições e garantias moraes e physicas para um reino independente; que o
portuguez se apresenta como o mais poderoso e essencial motor” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 64).

 Carácter humano na valorização das culturas negra e indígena : “Os espíritos mais
esclarecidos e mais profundos, pelo contrario, acharão na investigação da parte que tiveram, e ainda
tem as raças India e Ethiopica no desenvolvimento historico do povo brasileiro, um novo estimulo
para o historiador humano e profundo” (MARTIUS, 2010 [1843], pp. 64-65).
 Miscigenação como destino divino da humanidade : “Tanto a historia dos povos quanto a dos
indivíduos nos mostram que o genio da historia (do mundo), que conduz o genero humano por
caminhos, cuja sabedoria sempre devemos reconhecer, não poucas vezes lança mão de crusar para
alcançar os mais sublimes fins na ordem do mundo” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 65). Essa mesma ideia
é reforçada posteriormente quando o autor afirma que “jamais nos será permittido duvidar que a
vontade da providencia predestinou ao Brasil esta mescla” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 65).

 Ideia de embranquecimento e diluição de raças : “O sangue portuguez, em um poderoso rio


deverá absorver os pequenos confluentes das raças India e Ethiopica” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 65).

 Interpretação errônea de miscigenação pacífica : “Portanto devia ser um ponto capital para o
historiador reflexivo mostrar como no desenvolvimento sucessivo do Brasil se acham estabelecidas as
condições para o aperfeiçoamento de tres raças humanas, que n’esse paiz são colocadas uma ao lado
da outra, de uma maneira desconhecida na historia antiga, e que devem servir-se mutuamente de
meio e de fim” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 66).

 Estudo da cultura ameríndia como parte intrínseca ao trabalho do historiador : “Se os


pontos de vistas geraes indicados merecem a approvação do historiador brasileiro, elle igualmente
deverá encarregar-se da tarefa de investigar minuciosamente a vida e a historia do desenvolvimento
dos aborigenes americanos; e extendendo as suas investigações além do tempo da conquista,
perscrutinará a historia dos habitantes primitivos do Brasil, histórica que por ora não dividida em
épocas distinctas, nem offerecendo monumentos visíveis ainda está envolta em obscuridade, mas
que por esta mesma razão excita summamente a nossa curiosidade” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 67).
 Visão martiusiana da origem dos indígenas brasileiras : “Quaes as causas que os reduziram a
esta dissolução moral e civil, que n’elles não reconhecemos senão ruinas de povos?” (MARTIUS, 2010
[1843], p. 67). Com essa pergunta síntese, o autor demonstra que vê os índios como remanescentes
de uma grande civilização da América Espanhola, enxergando-os como decadentes, mas não
atrasados. Esse pensamento não possuía base científica e foi possibilitado através de dedução e
inferência.
 Desmistificação da ideia de ver os indígenas como primitivos : “Investigações mais
COMO SE DEVE ESCREVER A HISTÓRIA DO BRASIL
aprofundadas, porém provaram ao homem desprevenido
(VON MARTIUS)que aqui [no estudo dos indígenas] não se
trata do estado primitivo do homem” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 68).
 Importância das línguas indígenas e do trabalho de campo : von Martius aconselha “que o
Instituto Historico e Geographico Brasileiro designasse alguns linguistas para a redacção de
diccionarios e observações grammaticaes sobre estas línguas [indígenas], determinando que estes
Srs. fossem têr com os mesmos indios” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 68).
 Visão de von Martius sobre canibalismo e sacrifícios dos índios : “conclue por noções
anteriores mais puras, e por fórmas de um culto antigo, do qual os sacrificios humanos dos
prisioneiros, o canibalismo, e numeroso costumes e usos domésticos devem ser considerados com a
mais bruta degeneração, e que somente d’este modo tornam-se explicaveis” (MARTIUS, 2010 [1843],
p. 70).
 Povos americanos: “Não poderá o historiador brasileiros deixar de perscrustinar igualmente as
ruinas de Paupatla, Mexico, Uxmal, Copán, Quito Tiaguanaro, &c., se quizer formar um juizo geral
sobre o passado dos povos americanos” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 71).
 Mudança de patamar na chegada de portugueses ao Brasil : “O portuguez, estabelecendo-se
no Brasil, abandonou de certo modo os direitos que em Portugal possuía para com o monarcha, por
quanto, em lugar de rei, recebia um senhor (Dominus Brasiliae)” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 72).
 Romantização da invasão portuguesa : “vemos que a posição guerreira, em que se colocou o
colono portuguez para com o índio, contribuiu muito a rápida descoberta do interior do paiz, como
igualmente para a extensão do dominio portuguez” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 73).

 Primeiras viagens dos portugueses ao Brasil : “as primeiras viagens de descoberta eram antes
incursões de rapinas contra os indigenas, a quem escravisaram, ou só tinha por feito a descoberta de
riqueza mineraes” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 73).

 “O portuguez, que no principio do seculo XVI emigrava para o Brasil, levava comsigo aquella
direcção de espirito e coração, que tanto caracterisa aquelles tempos” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 75).

 Importância de estudar a história de Portugal : “o historiador deverá passar para a historia de


Legislação e do estado social da nação portuguesa, para poder mostrar como n’ella se desenvolveram
pouco a pouco tão liberaes instituições municipaes, como foram transplantadas para o Brasil, e quaes
as causas que concorreram para o seu aperfeiçoamento n’esse paiz” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 75).

 Importância dos jesuítas: “Das ordens religiosas todas, a dos jesuitas representou o mais notavel
papel, e suas construcções são os unicos monumentos grandiosos, ainda existentes d’aquelles
remotos tempos; como tambem instituições suas ha que até o presente não desappareceram
inteiramente, nem perderam certa influencia” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 76). Posteriormente, o
autor afirma que “nós vemos muitas vezes que ellas [as ordens jesuíticas] eram os unicos motores de
civilisação e instrucção para um povo inquieto e turbulento” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 77).

 Valorização europeia dos materiais feitos pelos jesuítas : “A Allemanha e Italia são os paizes
que mais aproveitaram d’esses materiaes colhidos pelos jesuitas” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 76).

 Resgate dos materiais jesuítas: “Sem duvida alguma não estão ainda sufficientemente
exploradas taes fontes jesuiticas, e deve ser muito facil ao historiador do Brasil obter, por
intervenção diplomatica dos archivos de Roma, Munich, Vienna, e da Belgica, os respectivos
extractos das comunicações d’estes religiosos” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 76).

 Trabalho do historiador: “O historiadorCOMOdeve SE DEVE ESCREVER


transportar-nos A HISTÓRIA
á casa do colonoDOe BRASIL
cidadão
brasileiro; elle deve mostrar-nos como (VON
viviamMARTIUS)
nos diversos seculos, tanto nas cidades como nos
estabelecimentos ruraes, como se formavam as relações do cidadão para com seus visinhos, seu
creados e escravos; e finalmente com os freguezes nas transacçãoes commerciaes. Elle deve juntar-
nos o estado da igreja, e escola, levar-nos para o campo, ás fazendas, roças, plantações e engenhos.
Aqui deve apresentar quaes os meios, segundo que systema, com que conhecimentos manejavam a
economia rustica, lavoura e commercio colonial” (MARTIUS, 2010 [1843], pp. 77-78).

 Bandeiras e entradas: “Essas entradas foram pela maior parte executadas espontaneamente por
pessoas, as quaes animadas por um certo espirito romanesco e aventureiro, n’ellas desenvolveram
toda a energia, talento inventivo, perseverança e coragem de um Cortez, Balboa ou Pizarro, e
executaram façanhas dignas de admiração da posteridade” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 79).

 Contribuição negra para a população brasileira : “Não ha duvida que o Brazil teria sido um
desenvolvimento muito differente sem a introdução dos escravos negros. Se para o melhor ou para o
peior, este problema se resolverá para o historiador, depois de ter tido occasião de ponderar todas as
influencias, que tiveram os escravos africanos no desenvolvimento civil, moral e politico da presente
população” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 80).
 Importância do trabalho do historiador brasileiro : “Nunca por tanto o historiador da Terra de
Santa Cruz ha de perder de vista que a sua tarefa abrange os mais grandiosos elementos; que não lhe
compete tão sómente descrever o desenvolvimento de um só povo, circumscripto em estreitos
limites, mas sim de uma nação cuja crise e mescla actuaes pertencem á historia universal, que ainda
se acha no meio de seu desenvolvimento superior” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 82).

 “Nos pontos principaes a historia do Brazil será sempre a historia de um ramo de portuguezes; mas
se ella aspirar a ser completa e merecer o nome de uma historia pragmatica, jámais poderão ser
excluidas as suas relações para com as raças Ethiopica e India” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 82).

 Conceituação de crônica na época, segundo von Martius : “Um grande numero de factos e
circumstancias insignificantes, que com a monotonia se repetem” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 82).

 “Esta diversidade não é sufficientemente reconhecida no Brazil, porque há pouco brasileiros que
tenham visitado todo o paiz; por isso formam idéas muito erroneas sobre circumstancias locaes, facto
este que sem duvida alguma muito concorre para que as perturbações politicas em algumas
provinciais só se podiam apagar depois de longo tempo” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 84).

 Trabalho do historiador intrínseco ao reconhecimento das diversidades : “Se o historiador se


familiarizar bem com essas particularidades, e exactamente as apresentar, não poucas occasiões
achará para dar uteis conselhos á administração” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 84). Nesse caso, von
Martiu trata “diversidade” e “particularidades” como diferenças do solo, do clima e da natureza que
caracterizam cada região do Brasil.

 História como a mestra dos tempos : “A história é uma mestra, não sómente do futuro, como
tambem do presente” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 85).

 Trabalho histórico como ato patriótico : “Ella [a história] pode difundir entre os
contemporaneos sentimentos e pensamentos do mais nobre patriotismo. Uma obra historica sobre o
Brazil deve, segundo a minha opinião, ter igualmente a tendencia de despertar e reanimar em seus
leitores brasileiros amor da patria, coragem constancia, industria, fidelidade, prudência, em uma
palavra, todas as virtudes civicas” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 85).
COMO SE DEVE ESCREVER A HISTÓRIA DO BRASIL
 “O Brazil está affecto em muitos membros de sua população de idéas politicas immaturas”
(VON MARTIUS)
(MARTIUS, 2010 [1843], p. 85).

 União do Brasil: “deve o historiador patriotico aproveitar toda e qualquer occasião afim de
mostrar que todas as províncias do Imperio por lei organica se pertencem mutuamente, que seu
propicio adiantamento só póde ser garantido pela mais intima união entre ellas” (MARTIUS, 2010
[1843], p. 86).

 Monarquia Constitucional como o melhor governo: “Nunca esqueça, pois, o historiador do


Brazil, que para prestar um verdadeiro serviço á sua patria deverá escrever como autor Monarchico-
Constitucional, como unitario no mais puro sentido da palavra” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 86).
 História Popular: “[A história] deverá ser escripta em um estylo popular, posto que nobre. Deverá
satisfazer não menos ao coração do que á intelligencia; por isso, não devia ser escripta em uma
linguagem do [...] e empolada, nem sobrecarregada de erudicção ou de uma multidão de citações
estereis” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 86). Nesse caso e na época, o “popular” remete a quem sabe ler.
 Urgência da História Popular no Brasil: “não podemos duvidar que actualmente o Brazil é um
objeto digno de uma historia verdadeiramente popular” (MARTIUS, 2010 [1843], p. 86).
CAPÍTULOS 1 E 2 DE “MESTRES DA VERDADE NA
GRÉCIA ARCAICA"
Marcel Detienne (1935-2019) foi um historiador belga e
especialista no estudo da Grécia Antiga. Nos primeiros dois
capítulos de sua obra “Os Mestres da Verdade na Grécia
Arcaica”, o escritor busca realizar um estudo dos poetas
arcaicos, em contraponto com os historiadores e filósofos
clássicos. O autor, por meio de poesias da Antiguidade,
realiza suas reflexões e análises da época, relacionando-os ao
conceito de Verdade (Alétheia) e as intenções sociais dessas
produções na Grécia, dando exemplos tanto em Atenas
quanto em Esparta.

Referência Bibliográfica: DETIENNE, Marcel. “Verdade e


Sociedade”; “A memória do Poeta” In: __________. Os
Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Tradução de Andréa
Daher. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. caps. 1 e 2, p. 13-23.

Temas abordados:
 Definição de “Verdade”: Mesmo sendo vista equivocadamente pelo senso comum a partir de
uma noção simplista e imutável, a “verdade” apresenta uma profundidade em sua definição
científica. Segundo Marcel Detienne, “em uma civilização científica, a ideia de Verdade introduz
imediatamente as de objetividade, comunicabilidade e unidade” (1988, p. 13). Ou seja, o conceito
científico de verdade está permeado, respectivamente, pela concretude, pela capacidade de expor
opiniões para influenciar e pelo consenso decorrente dessa comunicação. Para isso, pelo fato de
haver uma correlação entre o lógico e o real, a essência da verdade não pode ser desvinculada da sua
constante demonstração, verificação e experimentação (DETIENNE, 1988, p. 13), ou seja, é
inseparável do método científico. Em grego, significa Alétheia, que é o oposto de esquecimento e não
de inverdade. “Nesse nível de pensamento, se o poeta está verdadeiramente inspirado, se seu verbo
se funda sobre um dom de vidência, sua palavra tende a se identificar com a ‘Verdade’” (DETIENNE,
1988, p. 23).

 Verdade para os indo-iranianos : “Os indo-iranianos possuem uma palavra que é traduzida
corretamente por Verdade: Rta. Mas Rta é também oração litúrgica, a potência que assegura o
retorno das auroras, a ordem estabelecida pelo culto dos deuses, o direito, em suma, um conjunto de
valores que quebram nossa imagem de verdade. O simples dá lugar ao complexo, e a um complexo
diversamente organizado” (DETIENNE, 1988, p. 13).

 Oralidade na Grécia Antiga : O autor destaca que “do século XII ao século IX, a civilização grega
fundava-se não sobre a escrita, mas sobre as tradições orais” (DETIENNE, 1988, p. 16). Para tal, isso
exigia o desenvolvimento da memória popular, por meio da poesia oral dos rapsodos, por exemplo,
sendo imprescindível a aplicação de técnicas precisas (DETIENNE, 1988, p. 16). Os grandes exemplos
de poesias orais gregas são a Ilíada e a Odisseia.

 Memória para os poetas gregos arcaicos : A chamada memória divinizada dos gregos “não visa,
em absoluto, reconstruir o passado segundo uma perspectiva temporal” (DETIENNE, 1988, p. 17),
sendo ela um privilégio desfrutado por alguns grupos de homens organizados em confrarias
(DETIENNE, 1988, p. 17). Por meio da memória, o poeta inspirado “tem acesso direto, mediante uma
visão pessoal, aos acontecimentos que evoca” (DETIENNE, 1988, p. 17), havendo uma confluência
entre memória e verdade, posto pelo fato de que “ninguém a contesta, ninguém a contradiz”
(DETIENNE, 1988, p. 23).

 Função dupla do poeta: Resgatando a visão de Teócrito, a função do poeta está atrelada à
celebração dos Imortais, bem como a valorização dos grandes feitos dos homens corajosos
(DETIENNE, 1988, p. 17). Ou seja, tradicionalmente, o fazer poético está ligado a fatos políticos
humanos. Entretanto, concomitantemente a isso, a mesma palavra que celebra o feito espetacular de
homens mortais também conta a história dos deuses, havendo uma dualidade da poesia (DETIENNE,
1988, p. 17).

 Importância da poesia oral em Esparta : Na antiga sociedade agonística de Esparta, duas


potências temíveis faziam a lei do povo, sendo elas o Louvor e a Censura. “Esta sociedade que
introduziu o princípio de igualdade entre todos os cidadãos não conhece outra diferença a não ser
aquela que advém do elogio e da crítica” (DETIENNE, 1988, p. 19). Todos os níveis do corpo social
estavam sujeitos a julgar e serem julgados. Nessa dualidade entre o louvor e a crítica, os atos de
bravura se sobressaiam, sendo, nessa situação, o poeta visto como um “árbitro supremo”, estando a
serviço da comunidade e dos guerreiros (DETIENNE, 1988, p. 19). Além disso, vale destacar a
importância que a música tinha na educação espartana e nas marchas militares.

 Importância social dos poetas em Esparta : Na sociedade espartana, o guerreiro aristocrático


parecia obcecado por dois valores: a glória divina (Kudos), concedida pelos deuses, e a glória dos
homens (Kléos), transmitida oralmente. Pelo fato de haver um consentimento de que a vitória em
batalhas é meramente resultado da vontade dos deuses, a glorificação da façanha dos homens - a
CAPÍTULOS 1 E 2 DE “OS MESTRE DA VERDADE NA GRÉCIA ARCAICA”
(DETIENNE)
busca pelo Kléos - está ligada às palavras obrigatórias de elogio, voltadas a exaltação da força, riqueza
e coragem da nobreza. Por conta dessa ávida necessidade de reconhecimento, “são os mestres do
Louvor, os serventes das Musas, que decidem sobre o valor de um guerreiro: são eles que concedem
ou negam a ‘Memória’” (DETIENNE, 1988, p. 19). Ou seja, “pela potência de sua palavra, o poeta faz
de um simples mortal ‘o igual de um Rei’” (DETIENNE, 1988, p. 20).

 Perigosidade do esquecimento e papel do poeta : Antítese de Louvor, o Esquecimento “é a


potência da morte” (DETIENNE, 1988, p. 20), ou seja, as grandes façanhas dos Homens que são
silenciadas consequentemente morrem. Contornando tal problema e partindo da tese de que, na
época, a poesia é a potência da vida, “somente a Palavra de um cantor permite escapar do Silêncio e
da Morte” (DETIENNE, 1988, p. 20), posto que, por meio de seu Louvor, concede o privilégio da
memória - naturalmente privada - aos feitos grandiosos.

 Poeta e a democracia ateniense : Da época micênica até o fim da arcaica, a passagem política do
sistema aristocrático para a democracia clássica modificou algumas estruturas atenienses. Uma delas
foi a própria atuação dos poetas orais, posto que os valores nobres exaltados por eles passam a ser
condenados por esse novo sistema, uma vez que há o desaparecimento da função social de
soberania. Entretanto, mesmo assim a função poética ainda goza de um forte apelo das classes
dominantes, visto que seu poder de conceder ou negar a memória interessa a nobreza guerreira e
aristocrática (DETIENNE, 1988, p. 23).

 Crítica à subserviência do poeta às elites : “No máximo, o poeta não é mais do que um parasita,
encarregado de devolver a elite que o sustenta uma imagem embelecida de seu passado” (p. 23).

IDEIA DE UMA HISTÓRIA UNIVERSAL DE UM PONTO


DE VISTA COSMOPOLITA (KANT)
Sendo fundamental no campo epistemológico e ligado ao
iluminismo, idealismo e humanismo, nesse texto, o filósofo
Kant produz uma filosofia da história que enfatiza o papel da
natureza, enquanto Providência Divina. A partir de nove
proposições, procura encontrar e analisar a possibilidade de
um fio condutor natural que seria responsável pelo
concebimento da história humana. Publicado pela primeira
vez na Berlinische Monatsschrift de novembro de 1784, o
texto, que é um documento de época, é uma das primeiras
filosofias da história produzidas no século XVIII.

Referência Bibliográfica: KANT, Immanuel. Ideia de uma


história universal de um ponto de vista cosmopolita.
Tradução de Rodrigo Naves e Ricardo R. Terra. São Paulo:
Brasiliense, 1986, pp. 1-22.

Temas abordados:
 Objeto da História: A história se ocupa da narrativa das manifestações - as ações humanas -, que,
por sua vez, possuem liberdade de vontade (KANT, 1986, p. 9).

 Existência de um fio condutor na história : Mesmo que as causas das manifestações dos
indivíduos sejam ocultas e confusas, Kant (1986) afirma que, com a observação das linhas gerais, é
possível descobrir o curso regular de “um desenvolvimento continuamente progressivo, embora
lento, das suas disposições originais” (p. 9). Assim, segundo o autor, os homens, enquanto seres
individuais que perseguem seus propósitos particulares, seguem a um propósito da natureza, que
lhes não é propriamente conhecido (1986, p. 10).
 Inexistência de programações e predeterminações na história : “Como em geral os homens
em seus esforços não procedem apenas instintivamente, como os animais, nem tampouco como
razoáveis cidadãos do mundo, segundo um plano preestabelecido, uma história planificada (como é,
de alguma forma, a das abelhas e dos castores) parece ser impossível” (p. 10)

 Existência de um propósito na humanidade : Na primeira proposição, Kant afirma que é fato


que todas as disposições naturais de uma criatura se desenvolvem conforme um fim, tendo como
norte observações internas e externas de todos os animais. Segundo o autor, “se prescindirmos desse
princípio, não teremos uma natureza regulada por leis, e sim um jogo sem finalidade da natureza e
uma indeterminação desconsoladora toma o lugar do fio condutor da razão” (p. 11).

 Importância da transmissão da razão : Na segunda proposição, Kant diz que “as disposições
naturais que estão voltadas para o uso de sua razão devem desenvolver-se completamente apenas
na espécie e não no indivíduo”. A razão, responsável por ampliar regras e propósitos, segundo o
autor, não atua apenas de maneira instintiva, uma vez que necessita de intervenções humanas para
progredir. Assim, a transmissão de “luzes” para cada geração torna-se fundamental, para que as
disposições naturais sejam vistas pela sociedade como úteis e com utilidade (p. 11).

 A razão deve ser o guia da sociedade : Na terceira proposição, Immanuel Kant afirma que é
desejo da natureza que a felicidade humana ou perfeição estivesse atrelada à razão e ao
desvinculamento dos instintos e dos conhecimentos inatos. Isso se justifica pelo fato de que, segundo
o autor, se a natureza deu ao homem a razão e a liberdade da vontade foi porque o seu propósito
está imbricado nessas qualidades e na busca pela satisfação de seus prazeres pelas suas próprias
obras (pp. 12-13).

 Atuação antagônica da natureza na formação da sociedade : Na quarta proposição, Kant diz


que “o meio de que a natureza se serve para realizar o desenvolvimento de todas as suas disposições
é o antagonismo das mesmas na sociedade, na medida em que ele se torna ao fim a causa de uma
ordem regulada por leis desta sociedade”. Nesse sentido, o “antagonismo” remeteria ao motor da
"insociável sociabilidade”, ou seja, a capacidade humana ambivalente de ao mesmo tempo ter
inclinações de individuar e pertencer. Segundo o autor, o que levaria o homem a superar sua
preguiça e buscar projeção, logo estimular seu pleno progresso moral, seria a sua oposição aos
outros, movido pela inclinação animal egoísta; inveja competitiva; ânsia de dominação; e cobiça.
Dessa forma, a natureza estimularia a discórdia entre os homens para desenvolver as suas forças
ocultas, o que também poderia gerar conflitos e guerras. Logo esse antagonismo também precisaria
ser controlado por leis criadas pelo Estado, produto da natural caminhada do homem em sociedade
(pp. 13-15).

 Liberdade e justiça como objetivos sociais : Na quinta ideia, Kant aponta que o maior problema
IDEIA DE UMA HISTÓRIA UNIVERSAL DE UM PONTO DE VISTA
da espécie humana, cuja a natureza a obriga por uma solução, “é alcançar uma sociedade civil que
COSMOPOLITA (KANT)
administre universalmente o direito”. Assim, a mais elevada tarefa da natureza para a espécie
humana é ligar a liberdade “no mais alto grau a um poder irresistível, ou seja, uma constituição civil
perfeitamente justa”, tornando a disciplina uma característica intrinsecamente coercitiva, logo
racional e humana (pp. 14-15).

 Aspectos éticos necessários ao líder : Na sexta proposição, o autor destrincha ainda mais sobre
a quinta proposição e sobre liderança, expondo dificuldade de verdadeiramente encontrá-la.
Segundo Kant, “o homem é um animal que, quando vive entre outros de sua espécie, tem
necessidade de um senhor [...] que quebre sua vontade particular e o obrigue a obedecer à vontade
universalmente válida”. Dessa forma, o supremo chefe, que necessariamente vem da espécie
humana e também tem necessidade de um senhor, precisa ser justo por si mesmo; ter grande
experiência adquirida; respeitar a constituição; e ter boa vontade de aceitá-la (pp. 15-16).

 Necessidade de um fim fraterno na história da humanidade : Na sétima proposição, Kant


afirma que o “estabelecimento de uma constituição civil perfeita depende do problema da relação
externa legal entre Estados”. Para que o gênero humano permaneça é necessário sair do estado
caótico em que se encontram as relações entre os Estados (pp. 16-19).

 Visão naturalista do Estado, que precisaria ser cosmopolita : Na oitava proposição, o autor
apresenta a essência de sua filosofia histórica e, em consequência da anterior, diz que “pode-se
considerar a história da espécie humana, em seu conjunto, como a realização de um plano oculto da
natureza para estabelecer uma constituição política”. Segundo Kant, o propósito supremo da
natureza é a consolidação de um estado cosmopolita universal, em que poderão se desenvolver
todas as disposições humanas e que garanta as liberdades de cada um (pp. 20-22).
CAPÍTULO “GUERRA FRIA” DA ERA DOS EXTREMOS

Karl Friederich Phillipe von Martius foi um botânico, escritor


bávaro e membro da Academia de Ciência da Baviera, tendo
vindo ao Brasil para fazer estudos. Esse texto é consequência
de um concurso dirigido pelo IHGB entre 1840 e 1842 que
tinha como intuito reunir o mais acertado plano de se
escrever a história antiga e moderna do Brasil. Em um total
de duas dissertações enviadas, esse texto foi o vencedor. Ele
trata sobre as três etnias que formaram o Brasil, mecanismos
de pesquisa e escrita da história nacional, tendo o objetivo de
criar uma identidade simbólica.

Referência Bibliográfica: HOBSBAWM, Eric. “Guerra Fria”. In:


_______. Era dos Extremos: O breve século XX, 1914-1991.
São Paulo: Companhia das Letras, 1995. cap. 8, p. 223-252.
Temas abordados:
 Heterogeneidade como marca das sociedades no tempo : O autor afirmou que “os 45 anos
que vão do lançamento das bombas atômicas até o fim da União Soviética não formam um período
homogêneo único na história do mundo” (HOBSBAWN, 1995, p. 223). Entretanto, esperar certa
homogeneidade da história mundial é um pouco utópico e inviável. Mesmo que ela se repita
ciclicamente, isso ocorre em sociedades e tempos diferentes, o que ocasiona um inevitável grau de
diferenciação. Somos heterogêneos e diferentes por excelência!

 Divisão da Guerra Fria: Eric Hobsbawn dividiu a Guerra Fria em duas metades - metades nesse
caso fala de opostos, como o reflexo de um espelho -, tendo como divisor de épocas o início da
década de 1970 (HOBSBAWN, 1995, p. 223). O autor escolheu essa década como divisor de períodos
porque foi quando ocorreu a crise mundial do Petróleo, o que gerou uma perda dos lucros nas elites
e burguesias, e o consequente fim do Estado de Bem Estar Social, com a reorientação neoliberal do
capital.

 Definição de Guerra Fria: O autor define a Guerra Fria como “o constante confronto das duas
superpotências que emergiram da Segunda Guerra Mundial”, sendo a desintegração da URSS a
representação de seu fim (HOBSBAWN, 1995, p. 223).

 Simbolismo do medo na Guerra Fria, ante a realidade : Segundo Hobsbawm, o período que
sucede o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 pode ser interpretado, “razoavelmente, como
uma Terceira Guerra Mundial, embora uma guerra muito peculiar” (1995, p. 224). Tal afirmação se
apoia na observação hobbesiana de que um conflito envolve tanto a batalha em si quanto a vontade
de se entrar em conflito (apud HOBSBAWN, 1995, p. 223). No entanto, mais a frente, Hobsbawn
afirma que a “peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo
iminente de guerra mundial” (1995, p. 224).

 Pânico geral decorrente da narrativa apocalíptica da Guerra Fria : Adiante, o historiador


afirma que o medo e a suposição de batalhas nucleares globais moldaram a personalidade
problemática das pessoas no século XX (HOBSBAWN, 1995, p. 224).
 Derrota nazista imposta pelos comunistas : “só o Exército Vermelho podia derrotar a Alemanha
[Nazista]” (HOBSBAWN, 1995, p. 224).

 Questão de Berlim: “A URSS aceitou com relutância Berlim Ocidental como um enclave dentro de
seu território alemão, mas não estava preparada para lutar pela questão” (HOBSBAWN, 1995, p.
224).

 Conflitos na Ásia durante a Guerra Fria : Hobsbawn afirma que a recente herança imperialista
na Ásia foi o principal motivo dos únicos conflitos direto-indiretos entre URSS e EUA na Guerra Fria
ocorrerem nesse continete, uma vez que a “futura orientação dos novos Estados pós-coloniais não
estava nada clara” (HOBSBAWN, 1995, p. 225), sendo, portanto, uma área em que houve uma
migração do confronto entre as duas superpotências em busca de apoio, hegemonia e influência.

 Mito da eficácia não violenta na Índia : “o fim dos velhos impérios coloniais era previsível e, na
verdade, em 1945, considerado iminente na Ásia” (HOBSBAWN, 1995, p. 225). Tal afirmação pode ser
levada para o contexto de independência da Índia, em que a atuação não violenta de Gandhi só teve
sucesso pelo momentâneo enfraquecimento do opressor inglês, que, assim como os outros países
beligerantes - fora os EUA - “haviam se tornado um campo de ruínas habitado pelo que pareciam aos
americanos povos famintos, desesperados” (HOBSBAWN, 1995, p. 228).

 Questão entre a União Soviética e a tomada comunista na China : “a URSS não queria muito a
tomada do poder pelos comunistas na China” (HOBSBAWN, 1995, p. 225). Diferente do maoismo e
do modelo da URSS, Stalin preconizava que movimentos comunistas adotassem “economias mistas
sob democracias parlamentares multipartidárias, distintas da ‘ditadura do proletariado’ e, ‘mais
ainda’, de partido único” (HOBSBAWN, 1995, p. 229).

 Mito da neutralidade terceiro-mundista : Com a possibilidade de se autointitular “Terceiro


Mundo”, alguns países passaram a ter ideia de serem neutros frente a Guerra Fria. No entanto, esse
discurso de neutralidade não era posto em prática, uma vez que “ficou claro que a maioria dos novos
Estados pós-coloniais, por menos que gostassem dos EUA e seu campo, não era comunista; com
efeito: a maioria era anticomunista em sua política interna e ‘não alinhada’ (ou seja, fora do campo
soviético) nos assuntos internacionais” (HOBSBAWN, 1995, p. 225). Sendo assim, apenas analisando
esse contexto e citando uma frase atribuída a Max Weber “neutro é quem já se decidiu pelo mais
forte [e conveniente]” é claramente visível que a neutralidade não existe e pode ser considerada uma
utopia.

 Mudanças no conflito após a década de 1970 : Durante o período do fim da Segunda Guerra
Mundial e a década de 1970, a situação mundial estava razoavelmente estável, uma vez que EUA e
URSS acreditavam na “suposição de que a coexistência pacífica entre eles seria possível a longo
prazo” (HOBSBAWN, 1995, p. 225). Entretanto, com o começo de uma nova década problemas novos
começaram a afligir os países. O período da década de 1970 ficou marcado pela extensa crise política
e econômica, consequência direta da guerra de Yom Kippur e sua ramificação na crise do petróleo
mundial. Inevitavelmente, a estabilidade da Guerra Fria também sofreria impactos irreversíveis
representando mais um claro episódio da mudança de perspectiva a partir da perda de lucros da
burguesia, se enveredando para o neoliberalismo. Afinal de contas só há confusão quando os mais
ricos perdem seus lucros de forma imprevisível.
 Paz Fria (1945-1970) como primeiro momento da divisão da Guerra Fria : Como dito,
Hobsbawn divide a Guerra Fria em duas partes: a “Paz Fria”, que durou de 1945 até 1970, e a
“Segunda Guerra Fria” que se perdurou de 1970 até a desintegração na URSS. O primeiro momento
desse período histórico ficou marcado pela evitação de conflitos e confiança na moderação, o que fez
com que os dois lados aceitassem até alguns excessos. Tal período assim foi percebido pela URSS “já
em 1953, quando não houve reação aos tanques soviéticos que restabeleceram o controle diante de
uma séria revolta operária na Alemanha Oriental, que os apelos americanos para ‘fazer retroceder’ o
comunismo não passava de histrionismo radiofônico. Daí em diante, como confirmou a revolução
húngara de 1956, o Ocidente se manteria fora da região de domínio soviético” (HOBSBAWN, 1995, p.
226). De acordo com o autor, o período mais explosivo da chamada “Paz Fria” foi o espaço de tempo
que durou do anúncio da Doutrina Truman, em março de 1947, até a demissão do general Douglas
MacArthur, em abril de 1951. Nota-se que tal período ocorreu no governo do presidente
estadunidense Harry Truman.

 Serviços secretos como um dos criadores da tônica apocalíptica : O caráter apocalíptico da


Guerra Fria foi consequência direta da “nebulosa disputa entre seus vários serviços secretos
reconhecido e não reconhecidos, que no Ocidente produziu esse tão característicos subproduto da
tensão internacional, a ficção de espionagem e assassinato clandestino” (HOBSBAWN, 1995, p. 226).
Além disso, o mercado cinematográfico contribuiu em peso para tal maximização do caos.

 Serviços secretos como um dos criadores da tônica apocalíptica : O caráter apocalíptico da


Guerra Fria foi consequência direta da “nebulosa disputa entre seus vários serviços secretos
reconhecido e não reconhecidos, que no Ocidente produziu esse tão característicos subproduto da
tensão internacional, a ficção de espionagem e assassinato clandestino” (HOBSBAWN, 1995, p. 226).
Além disso, o mercado cinematográfico contribuiu em peso para tal maximização do caos.

 Mudança da geopolítica quando a URSS adquire armas nucleares : Em 1953, a URSS adquire
armas nucleares. Tal fato muda a geopolítica mundial, uma vez que, entre si, “as duas superpotências
claramente abandonaram a guerra como instrumento de política, pois isso equivalia a um pacto
suicida” (HOBSBAWN, 1995, p. 227). Entretanto, para com terceiros, os dois países protobeligerantes
usaram a prerrogativa nuclear com intuitos negociatórios, mesmo que não tivessem a intenção de
cumpri-la.

 Crise dos mísseis cubanos e a intenção de se evitar o conflito : O autor denomina a crise dos
mísseis cubanos de 1962 como “um exercício de força [...] inteiramente supérfluo” (HOBSBAWN,
1995, p. 227). Para contrabalancear a instalação de mísseis estadunidenses na Turquia, Kruschev
instala mísseis de origem soviética em Cuba. Entretanto, mesmo os EUA utilizando da prerrogativa de
guerra, os esforços dos dois lados eram para evitar o conflito aberto.

 Temor de uma nova “Crise de 29” : Hobsbawn afirma que “os planos do governo americano para
o pós-guerra se preocupavam muito mais em impedir uma nova Grande Depressão do que em evitar
outra guerra” (HOBSBAWN, 1995, p. 228), que poderia ser resultado da péssima safra e Do terrível
inverno de 1946. “O sistema internacional pré-guerra desmoronara, deixando os EUA diante de uma
URSS enormemente fortalecida em amplos trechos da Europa e em outros espaços ainda maiores do
mundo não europeu, cujo futuro político parecia bastante incerto - a não ser pelo fato de que
qualquer coisa que acontecesse nesse mundo explosivo e instável tinha maior probabilidade de
enfraquecer o capitalismo e os EUA, e de fortalecer o poder que passará a existir pela e para a
revolução” (HOBSBAWN, 1995, p. 228). Sendo assim, o começo da Guerra Fria está intrinsecamente
ligado ao medo burguês estadunidense de perder seus lucros, representada pelo inevitável
rompimento da aliança beligerante entre os principais países capitalistas e o poder socialista em
ascensão.

 Mídia na Guerra Fria: Na Guerra Fria, a grande mídia burguesa desempenhou o seu único papel
na luta de classes: manipular as massas alienadas e desmoralizar o lado revolucionário. Fato disso
foram as constantes manchetes noticiando uma falsa “conspiração comunista mundial ateia
moscovita sempre disposta a derrubar os reinos da liberdade” (HOBSBAWN, 1995, p. 229).

 Mito do expansionismo soviético: “Hoje é evidente que, e era razoavelmente provável mesmo
em 1945-7, que a URSS não era expansionista - e menos ainda agressiva - nem contava com qualquer
extensão maior do avanço comunista além do que se supõe houvesse sido combinado nas
conferências de cúpula de 1943-5” (HOBSBAWN, 1995, p. 229). A postura básica soviética após a
guerra não era agressiva, mas defensiva.

 Utilidade governamental do anticomunismo nos EUA : A histérica pública, propiciada pelo


potencial político da denúncia em massa do inimigo externo e mais tarde interno (macartismo),
“tornava mais fácil para os presidentes obterem de cidadãos famosos, por sua ojeriza a pagar
impostos, as imensas somas necessárias para a política americana” (HOBSBAWN, 1995, p. 232). Isso é
comprovado pelo fato de que “entre as nações democráticas, só nos EUA, os presidentes eram
eleitos (como John F. Kennedy em 1960) para combater o comunismo, que, em termos de política
interna era tão insignificante naquele país quanto o budismo na Irlanda” (HOBSBAWN, 1995, p. 234).

 Política externa de Stalin em 1945 : No pós-Segunda Guerra Mundial, Stalin, que sabia como
“era fraca a sua mão de jogo” (p. 231), precisava de toda a ajuda que conseguisse obter e, portanto,
não tinha interesse imediato em antagonizar a única potência que podia dá-la, os EUA” (p. 230).

 Desproporcionalidade entre os poderios militares dos EUA e da URSS : Desvinculando-se da


histeria da Guerra Fria e partindo de um pensamento realista, o poderio estadunidense, bem como
sua tecnologia, continuava superior ao do soviético. “Enquanto os EUA se preocupavam com o perigo
de uma possível supremacia mundial soviética num dado momento futuro, Moscou se preocupava
com a hegemonia de fato dos EUA, então exercida sobre todas as partes do mundo não ocupadas
pelo Exército Vermelho” (HOBSBAWN, 1995, p. 231).

 Sistema político dos EUA: “Ao contrário da URSS, os EUA eram uma democracia. É triste, mas
deve-se dizer que estes eram provavelmente mais perigosos” (HOBSBAWM, 1995, p. 232). Por conta
disso, Moscou não precisava inflamar a opinião pública por meio da propaganda histérica da Guerra
Fria.

 Países com bombas atômicas no século XX : “Os britânicos conseguiram bombas próprias em
1952, por ironia com o objetivo de afrouxar sua dependência dos EUA; os franceses (cujo arsenal
nuclear era na verdade independente dos EUA) e os chineses na década de 1960. Enquanto durou a
Guerra Fria, nada disso contou. Nas décadas de 1970 e 1980, outros países conseguiram a capacidade
de fazer armas nucleares, notadamente Israel, África do Sul e provavelmente a Índia, mas essa
proliferação nuclear só se tornou um problema internacional sério após o fim da ordem bipolar de
superpotências em 1989” (HOBSBAWN, 1995, p. 233).

 Manipulação midiática dos EUA em relação a URSS e a Guerra Fria : Hobsbawn afirma que o
tom apocalíptico da Guerra Fria se originou nos Estados Unidos, uma vez que, para manter a sua
supremacia mundial, Washington se utilizava de uma retórica anticomunista e antimoscovita
(HOBSBAWN, 1995, p. 234), o que contribuiu para uma sistêmica marginalização de comunistas no
Ocidente e uma forte antipatia soviética nos países europeus alinhados ao EUA (HOBSBAWN, 1995, p.
235-236). Aqui cabe destacar que o ódio ao estrangeiro une tanto quanto o amor à Pátria.

 Geopolítica da Guerra Fria: “Abalados pela vitória comunista na China, os EUA e seus aliados
(disfarçados como Nações Unidas) intervieram na Coréia em 1950 para impedir que o regime
comunista do Norte daquele país se estendesse ao Sul. O resultado foi um empate. Fizeram o
mesmo, com o mesmo objetivo, no Vietnã, e perderam. A URSS retirou-se do Afeganistão em 1988,
após oito anos nos quais forneceu ajuda militar ao governo para combater guerrilhas apoiadas pelos
americanos e abastecidas pelo Paquistão” (HOBSBAWM, 1995, p. 234).