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5º Encontro Nacional da ABRI

Painel (P68) – Guerra, Paz e Segurança na Teoria das Relações Internacionais


Local: Sala 502, Prédio 43 – 31/07/2015 / 13:30 às 15:15hrs

Área Temática: Teoria das Relações Internacionais

KANT – O IMPERATIVO DA PAZ E A RELAÇÃO ENTRE A POLÍTICA E A ÉTICA


NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

José Humberto de Brito Cruz


Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais

Belo Horizonte, julho de 2015


1

RESUMO

A atualidade do pensamento de Kant sobre as relações internacionais é


indubitável. Há uma vasta literatura construída sobre a base de hipóteses kantianas,
algumas já célebres, como a relativa à importância da forma republicana de governo
para a condução da política externa, as observações pioneiras sobre um "direito
cosmopolita", direito de intervenção, a influência do comércio no comportamento
internacional dos Estados, a "publicidade" na diplomacia, ou ainda insights em
questões específicas, como a condenação da espionagem como nociva à confiança
entre os Estados. Na perspectiva da política externa brasileira e de sua ênfase na
solução pacífica de controvérsias, assume especial importância a centralidade
concedida pelo filósofo de Königsberg ao tema da paz. A reflexão de Kant sobre o
imperativo da paz enraíza-se nas circunstâncias da agenda de política exterior de um
período convulsionado da história europeia – alterações do equilíbrio de poder
resultantes da afirmação inequívoca da Prússia como "grande potência", o abalo
sísmico da Revolução Francesa e das guerras que a ela se seguiram –, mas afigura-
se, ao mesmo tempo, elemento essencial no qual convergem as grandes linhas de
força do pensamento político de Kant sobre a dimensão internacional e mesmo sobre a
dimensão interna dos Estados. Em particular, vale a pena destrinchar as
consequências da forma especificamente kantiana de compreender o imperativo da
paz, mostrando como oferece ângulos profícuos para aprofundar o entendimento da
relação entre ética e política no plano internacional e para pensar um enfoque de
política externa que, sem abrir mão da exigência de realismo, permita incorporar ao
mesmo tempo, de forma essencial (e não acessória), a dimensão ética e uma
perspectiva de transformação de padrões tradicionais de comportamento internacional
dos Estados.

Palavras-chave: Kant. Paz. Democracia. Realismo.


1

Em seu estudo sobre o pensamento político e jurídico de Kant, Thomas Kater


identificou a "instituição da paz" como aspecto essencial e concluiu ser a paz o conceito
unificador da reflexão kantiana (KATER, 1999, p.20).
Essa centralidade do tema da paz na visão de Kant sobre a política e o direito resulta,
em primeiro lugar, da forma como ali se delineia a passagem do "estado de natureza",
entendido como estado de guerra, à sociedade organizada segundo normas e sob a
jurisdição de uma instância dotada de meios de coerção, ou seja, ao Estado de Direito.
Resulta, ademais, da discussão de Kant sobre o direito internacional, i.e. sobre como se pode
pensar o direito em uma situação na qual não se realiza plenamente a superação do estado
de natureza, já para Kant (nisso semelhante a Hobbes e Rousseau), os Estados são
soberanos e não se submetem a uma autoridade coercitiva superior a eles. Presente nessas
duas dimensões (interna e internacional), o tema da paz unifica, em Kant, a análise da
política interna e a avaliação da política internacional.
Deve-se notar, como uma advertência preliminar, que assim como em outras áreas do
pensamento de Kant, existem discrepâncias – ao menos aparentes – entre opiniões por ele
expressas sobre o tema da paz e da guerra em diferentes textos. A tal ponto que esses
textos já ensejaram interpretações diametralmente opostas sobre o pensamento kantiano
nesse tema. Assim, de um lado, Brian Orend pretendeu descobrir em Kant uma versão
contemporânea e sofisticada da tradicional "doutrina da guerra justa" (OREND, 1999). Em
outro campo, Howard Williams questionou essa pretensão e apresentou o quadro de um Kant
próximo de um pacifismo radical, fundado na ideia de uma incompatibilidade básica entre
guerra e direito (WILLIAMS, 2012).
O que tentarei fazer neste trabalho é mostrar:
a) Por que, na economia interna da argumentação kantiana, o tema da paz adquire
essa importância especial e por que se pode falar, nesse contexto, em um
"imperativo da paz";
b) Que significado isso tem para sua discussão da relação entre a política e a moral;
c) A relevância disso para o pensamento, hoje, mais de dois séculos após a morte
de Kant, sobre as relações internacionais e a política externa.
O primeiro ponto que é necessário esclarecer é a concepção kantiana da passagem
do estado de natureza ao que ele próprio denomina "estado civil" e de que maneira isso
determina de forma decisiva aspectos centrais da concepção kantiana das relações entre os
Estados e do direito internacional.
O estado de natureza é, para Kant, caracterizado como uma condição de interação
entre seres humanos na ausência de uma instância superior capaz de arbitrar os eventuais
contenciosos que se produzam no bojo dessa interação. Já com isso se percebe que o
estado de natureza não se pode confundir com um estado a-social, mas pode ser descrito
2

como não-jurídico (KANT 1797, p.242, 306). A qualidade que lhe falta não é a da
sociabilidade, mas a da dimensão de “verticalidade” que torna possível pensar a posição de
superioridade a partir da qual fala a voz que enuncia o direito, i.e. a partir da qual se
enunciam sentenças com valor jurídico1.
Isso não significa, contudo, que não se possa falar em "direitos" no plano do estado
natural. Kant dirá que o direito natural – entendido como o direito que pode existir no estado
de natureza é um direito privado, enquanto que o direito que existe no estado civil é um
direito público, assegurado através de leis públicas (KANT 1797, p.242)2.
Podemos resumir o conteúdo desse direito natural, ou direito privado, afirmando que
ele consiste essencialmente em uma norma de consistência em um contexto de pluralidade.
Na fórmula de Kant, trata-se da “soma das condições sob as quais o arbítrio de cada um
pode ser reunido ao arbítrio de outro em conformidade com uma lei universal da liberdade”
(KANT 1797, p.230). A precariedade desse "direito privado" decorre de que o exercício do
arbítrio pelos indivíduos em sua condição natural produz uma situação instável, na qual cada
um pode ver, a qualquer momento, sua liberdade infringida por ações de outros. Daí se
segue que o estado natural tende a ser, inevitavelmente, um "estado de guerra", ou seja,
uma condição na qual há uma ameaça constante de hostilidades, ainda que o
comportamento dos outros indivíduos não seja necessariamente sempre hostil. Segue-se,
ainda, que a paz não será jamais, entre homens, algo natural, uma vez que ela não se
confunde com uma mera cessação de hostilidades, mas envolve algum tipo de garantia para
os indivíduos de que eles não sofrerão ataque por parte de outros. Será, assim, a paz algo
que precisa ser "instituído", algo que resultará necessariamente da ação política do homem,
algo que exigirá trabalho (KANT 1795, p.349-350, 356).
Precisamente em razão dessa instabilidade dos direitos no âmbito natural, a análise
de Kant mostrará que a própria consideração da ideia de direito nesse plano remete-nos,
forçosamente, por seus próprios pressupostos, ao que ele denomina "direito público".
Essa é uma questão fundamental para a visão kantiana sobre o direito. Se não estiver
emoldurado por uma determinada forma de proceder (forma cuja definição é dada pelo
“direito público”), o “conteúdo” do direito (i.e. o mérito ou substância da decisão) não se
distinguirá de um mero enunciado ou juízo proferido por um particular. Assim sendo, na

1
Em outras palavras, no plano natural, o único juízo que se faz sobre as ações humanas é o próprio juízo
privado de cada indivíduo, estando ausente a idéia de uma “competência” especial para julgar, i.e. desta
dimensão que faz com que um juízo possa deixar de ser meramente um juízo privado. Ver, a esse respeito, a
Rx. 7523: “(…) o estado natural pode ser de solidão ou de sociedade, desde que as ações de todos não tenham
outro juiz competente que não o juízo privado” (KANT 1934). Na Religião dentro dos Limites da Simples Razão,
Kant afirmará que o estado de natureza, tanto do ponto de vista jurídico como no plano ético, se caracteriza
pelo fato de que nele “cada indivíduo é seu próprio juiz” (KANT 1793-2, p.95, 97).
2
Note-se que o sentido em que Kant emprega as expressões "direito privado" e "direito público" não
corresponde à acepção atual desses termos.
3

ausência daquela moldura, não teremos mais do que um conjunto de enunciados/juízos que
poderão conflitar entre si, tanto quanto podem conflitar entre si as liberdades dos agentes
que proferem tais enunciados/juízos. Estaremos aí no plano do direito privado, que não se
realiza plenamente como “direito”.
A instituição de um poder soberano não diz respeito à substância do direito privado,
mas à segunda dimensão, que lhe é igualmente essencial: a da instauração, literalmente, de
uma "jurisdição", de uma instância pública que “diz” o que é o direito3. Há uma distinção
nítida entre dois planos: um é o plano do direito em si, em seu conteúdo, cuja expressão mais
genérica, como vimos, é o princípio da coexistência universal das liberdades. O outro é o
plano do direito como algo que resulta de mecanismos ou instâncias que lhe são
imprescindíveis, ou seja, como algo que é “posto”. O primeiro existe já no plano do direito
privado, embora precariamente. O segundo é próprio da dimensão pública.
E se há precariedade no status do direito no estado natural, isso se deve ao fato de
que essas dimensões não apenas se somam para constituir o direito, mas são
interdependentes. Isso significa que querer realizar o direito em seu conteúdo implica querer
respeitá-lo em seu procedimento. Uma coisa é impossível sem a outra4.

Daí se segue, e esse é o aspecto decisivo no pensamento de Kant, que está na base
da própria noção de direito não apenas a ideia (fictícia) de uma passagem "factual" do estado
de natureza ao estado civil, mas uma obrigação de realizar essa passagem, de trabalhar por
ela. Existe, como uma obrigação inerente ao próprio direito, o imperativo de abandonar o
estado de natureza e passar a uma condição regida por mecanismos jurídicos. Por sua
especial importância, esse princípio é caracterizado por Kant como o "postulado do direito
público" (KANT 1797, p.307). Deve-se sair do estado natural, o que Kant expressa
recorrendo a uma expressão em latim: exeundum est e statu naturali.5 E não é demais
salientar que esse imperativo de saída é concebido por Kant como uma obrigação, não
meramente como uma opção inteligente para quem busca, com prudência, minorar os males
do estado de natureza.

3
“A soberania é o princípio supremo da justiça pública (…)”. (KANT 1934, Rx. 7473). Sobre o conceito kantiano
do Estado como “procedimento ordenado de afirmação do direito”, veja-se KERSTING 1984, p.217. Sobre o
conceito de direito como uma realidade afetada pela dualidade estrutural de mérito (em inglês, substance) e
procedimento (procedure), ver KORSGAARD, 1996, p.308-311.
4
Por isso, Kant afirma que, em matéria jurídica, nenhuma questão é mais importante do que a de saber se há
um tribunal que determine o que é o direito. Sem essa instância, encontramo-nos no estado de natureza.
(KANT 1797, p.306).
5
KANT 1934, Rx. 7735 e 6593.
4

A característica do exeundum e statu naturali como imperativo categórico tem,


portanto, conseqüências importantes para a discussão sobre a paz e a guerra6. O plano
internacional é, por definição, caracterizado pela ausência de uma autoridade superior que
determine a todos os Estados o que é o direito. Trata-se de algo análogo ao estado natural,
no qual, portanto, é precária e duvidosa a existência do direito e é permanente a tendência
de todos os Estados a recorrer ao uso da força como forma de garantir seus supostos
“direitos” (KANT 1795, p.355). No entanto, argumenta Kant, permanecer nessa condição é
frustrar para sempre a própria ideia de direito e resignar-se a ter como única forma de
“procurar direitos” a guerra, o que é um visível contrassenso.

Qual é, então, a atitude possível para quem busca uma fundamentação do direito no
plano internacional? Seguramente não a que foi adotada por aqueles que Kant, com visível
desprezo, qualifica como “lamentáveis consoladores” – ninguém menos que Hugo Grotius,
Emmerich de Vattel e Samuel Pufendorf –, que julgaram que, sendo a guerra inevitável, sua
tarefa como juristas seria a de elaborar e expor um “direito à guerra”. O problema desses
autores consiste em que pretenderam consagrar a guerra como um procedimento para
assegurar direitos, ignorando, com isso, o imperativo de “sair do estado natural”. A alternativa
racional, para Kant, é a da construção de um “federalismo”, baseado em um acordo entre
Estados para criar uma “liga pacífica” – que se distingue de um mero tratado de paz, porque
enquanto este se limita a por fim a uma única guerra, a liga de nações tem por objetivo por
fim a toda guerra, de forma definitiva e ilimitada no tempo (KANT 1795, p.355-6).

O federalismo kantiano constitui, assim, um sucedâneo internacional do estado civil,


cuja vocação seria a de assegurar a liberdade de todos os Estados, mas sem sujeitá-los a
uma legislação coercitiva superior (KANT 1795, p.356). Trata-se de uma alternativa
imperfeita, como reconhece o próprio Kant, mas que se apresenta como a opção mais
racional diante da constatação de que, no âmbito internacional, é impossível (por definição)
“sair do estado natural”7.

Pode-se, então, reconstituir o argumento de Kant no 2º artigo definitivo de Para a Paz


Perpétua (KANT 1795, p.354-357), identificando-se os seguintes passos:

i. “Sair do estado natural”, embora seja uma obrigação fundamental para os indivíduos,
não é possível para os Estados em um contexto internacional.

6
A centralidade do princípio “exeundum e statu naturali” para o pensamento de Kant é apontada por vários
comentadores, em particular Wolfgang Kersting (KERSTING, 1984, p.188) e Thomas Kater (KATER, 1999, p. 71).
7
É impossível por definição, porque na medida em que se sai do estado natural e se passa ao estado civil a
condição deixa de ser internacional. Ou dito de outra forma: o contexto só é “internacional” em sentido
próprio se houver mais de um Estado e, portanto, se não houver uma autoridade superior.
5

ii. Ainda assim, salvo que nos resignemos à selvageria, é moralmente necessário ao
homem buscar o direito.
iii. A guerra, por seu caráter de ação unilateral (ou de um conjunto de ações unilaterais)
não pode em hipótese alguma ser vista como um “procedimento para assegurar
direitos”. É da essência do direito a perspectiva da universalidade, e é da essência da
guerra o choque entre as particularidades.
iv. Se a guerra fica descartada como forma de assegurar direitos, resulta obrigatória a
instituição da paz, que deve ser vista, assim, como um “dever”.
v. Ora, não podendo ser jamais um resultado “natural”, a paz implica um pacto que a
institua e garanta.
vi. Logo, é um dever trabalhar pela conclusão desse pacto capaz de favorecer, instituir e
garantir a paz.

Resulta da visão que subjaz a esse argumento uma “condenação absoluta da guerra
como procedimento para garantir direitos” e a afirmação célebre de crítica a Grotius: “o
conceito do direito das nações como sendo um direito de ir à guerra é, rigorosamente,
ininteligível” (KANT 1795, p.356). A isso corresponde a formulação usada na Doutrina do
Direito: “Moralmente, a razão prática pronuncia em nós um veto irresistível: não deve haver
guerra, nem entre você e eu no estado de natureza, nem entre nós como Estados” (KANT
1797, p. 354). Percebe-se que os que pretendem encontrar em Kant uma teoria da “guerra
justa” têm, de fato, um longo e árduo caminho a percorrer8.

Mas o que outorga especial interesse e atualidade a essa reflexão sobre a paz e a
guerra – e ajuda a entender porque o pequeno e curioso livro Para a Paz Perpétua, publicado
em 1795 (há 220 anos, portanto), continua a exercer um fascínio especial sobre os que se
interessam pela teoria das relações internacionais – é que Kant, não contente com a
afirmação dessa proibição geral da guerra e do imperativo de construção da paz, antecipou
as possíveis objeções dos “realistas” (por ele denominados “homens práticos”), analisou-as e
elaborou um sofisticado argumento para refutá-las. Esse é o tema da seção que Kant
caracterizou como um “Apêndice”, intitulado “Sobre o Desacordo entre a Moral e a Política
Com Vistas à Paz Perpétua”, texto que ecoa a discussão que o autor já havia realizado, em

8
Há diversas condenações veementes à guerra em outros textos de Kant, em particular no Conflito das
Faculdades (KANT 1798, p.86, 90n, 91 e 93). Para Kant, a guerra é a fonte dos “maiores males que oprimem os
povos civilizados”, não apenas pelas hostilidades eventuais, mas pelas constantes preparações para futuros
conflitos, que drenam os recursos do Estado, retirando-os de aplicações melhores (KANT 1786, p. 121). No
entanto, nesse mesmo texto (de caráter histórico, e não moral), a própria guerra, fonte dos piores males, é
descrita como um “meio indispensável” para o aperfeiçoamento da cultura (KANT 1786, p.121). Há observações
no mesmo sentido na Crítica do Juízo (KANT 1790, §28).
6

1793, no opúsculo intitulado Sobre o dito popular: é possível que isso seja verdade em teoria,
mas na prática não funciona (KANT 1793-1).

Nesse embate de Kant com os “realistas”, é decisiva a idéia de que a prática da


guerra, e a aceitação de um suposto direito à guerra, acarreta uma perpetuação do estado de
natureza, frustrando a ideia de progresso moral e tornando impossível o objetivo da paz
perpétua.

Em contraposição a essa moral dominada pela política, Kant formula o projeto do que
ele próprio denomina uma “política moral” (KANT 1795, p.372): um modo de ação cuja
definição se faz – e esse é o traço característico da moral kantiana – não pelo conteúdo de
sua máxima, menos ainda por seus resultados, mas tão-somente por sua forma: pela
capacidade desse modo de ação de cumprir certos requisitos formais: a possibilidade de
universalização nos termos do “imperativo categórico” e, na versão apresentada no Apêndice
à Paz Perpétua, a exigência de publicidade.

Para decifrar a “discordância” entre a moral e a política (ou entre a “teoria” e a


“prática”), Kant parte da oposição entre duas formas de examinar a ação racional no Estado:

i. A primeira, a perspectiva política, inspira-se na máxima “Sejam prudentes


como serpentes”, reflete uma preocupação com a realização de certos fins,
cuja viabilidade é complexa e depende do entrecruzamento de inúmeras
séries causais, com inesgotável potencial de conflito, de modo a exigir
como virtude central – tanto para o cidadão como para o governante – a da
prudência (KANT 1795, p. 369)9.
ii. A segunda perspectiva, propriamente moral, responde: “E sejam inocentes
como as pombas”. Trata-se da preocupação com a forma da ação, sua
universalizabilidade ou, o que é o mesmo, sua adequação aos princípios
do direito. Ao contrário da prudência política, o ponto de vista moral é, na
perspectiva de Kant, “fácil”, uma vez que independe da avaliação dos
“resultados felizes ou infelizes das ações humanas em conformidade com
o mecanismo da natureza” (KANT 1795, p.370).

A visão kantiana da política consistirá, assim, em um panorama da ação humana


como o cruzamento e potencial colisão de duas ordens de imperativos: os que derivam de
um princípio material (o fim) e os que decorrem do princípio formal (imperativo categórico).
Para “tornar a filosofia prática coerente consigo mesma”, para evitar o que o cinismo “realista”

9
É preciso recordar que, para Kant, a “prudência” está associada aos imperativos hipotéticos, em particular
aqueles ligados à realização do objetivo agregado da “felicidade” (KANT 1785, p.416 e 417-8).
7

vê como uma cisão insuperável entre uma teoria baseada em princípios e uma prática
voltada para resultados, torna-se imprescindível a hierarquização dessas duas ordens (KANT
1795, p.376-7)10.

Há dois caminhos para essa hierarquização: o de uma política moral (prioridade da


moral com relação à política, do formal com relação ao material) e o de uma moral política
(prioridade da política). A resposta de Kant é inequívoca: a única forma de assegurar
coerência à reflexão sobre a prática política é a de atribuir precedência ao princípio formal.
Fazer o contrário, como pretendem os “realistas”, é “pôr o carro na frente dos bois”. O
princípio jurídico-moral tem necessidade incondicional. O político, necessidade
condicionada: sua eficácia depende de que estejam dadas as condições empíricas para um
determinado fim que a comunidade se propõe a realizar (KANT 1795, p. 376-7).

No entanto, por maior que seja a veemência com que Kant se refere, no Apêndice, à
“facilidade” do problema moral (em contraposição à dificuldade do “problema político”)(KANT
1795, p.370, 377), o fato mesmo de que ele busca relacionar a “teoria” (moral) à “prática”
(política) torna inevitável que entre em consideração a questão de se e como a aplicação do
princípio formal será capaz de produzir as consequências que a política procurava em vão
obter por meio de uma complexa intervenção no “mecanismo da natureza”. Em outras
palavras, torna-se relevante saber se a genuflexão da política diante da moral significa que
os homens devem abrir mão dos “fins” cuja complexa realização parecia exigir, na
perspectiva dos “realistas”, a prudência da serpente ou se podem esperar obtê-los como uma
espécie de efeito colateral ou subproduto da inocência da pomba.

Em particular, interessa saber se o objetivo da paz perpétua é algo a que podemos


razoavelmente aspirar ou se, como sugerem alguns supostos “realista”, não passa de uma
quimera. Em outras palavras, qual é o sentido histórico da “política moral”: a resignação ou a
esperança?

Entramos aí no domínio da filosofia da história e da reflexão sobre o problema do


progresso e as condições que o tornam possível. Assim como no opúsculo Sobre o Dito
Popular, também no Apêndice ao Para a Paz Perpétua torna-se incontornável a questão:
mesmo com tudo o que se pode dizer de mal sobre o gênero humano – e é bom lembrar que
o próprio Kant é o autor da frase célebre sobre a “madeira retorcida da humanidade” (KANT
1794-1, AA VIII, p.23) e da observação sobre a necessidade de construir estruturas políticas
que funcionem mesmo para uma “nação de demônios” (KANT 1795, AA VIII, p.366) –,

10 o
É nesse sentido que o 1 anexo de Para a Paz Perpétua pode ser lido (como o faz Georg Cavallar) como uma
refutação de Maquiavel e dos princípios de política (especialmente de política externa) de Frederico II
(CAVALLAR 1992, p. 356).
8

podemos esperar que ação do “político moral”, i.e. a ação política concebida no molde da
moral, resulte em alguns progresso, ainda que assintótico, em direção ao ideal?

Quando examina essa questão na perspectiva da instauração do objetivo da paz


perpétua, a resposta de Kant comporta dois elementos essenciais. Em primeiro lugar, um
aspecto de otimismo quanto às consequências da ação moral. Isso se refletirá nas diversas
expressões de corte “rigorista” e nitidamente anti-consequencialistas contidas no Apêndice,
em particular o preceito bíblico (Mateus, 6: 33), traduzido por Kant como: “Buscai antes o
reino da razão prática pura e sua justiça, e vosso fim (a benção da paz perpétua) virá a vós
por si mesmo”. Busquemos a justiça e os fins desejados se realizarão por si mesmos (KANT
1795, p.378). Isso é assim graças a certas peculiaridades paradoxais da ação moral tal
como entendida por Kant, cujo exame, contudo, extravasaria os limites do presente trabalho.

Interessa-nos mais de perto o segundo elemento da resposta de Kant, que é o da


reflexão sobre – para empregar os termos utilizados por Habermas em seu comentário sobre
esse ponto – o caráter “auto-implicativo” da filosofia da história (HABERMAS 1990, p.193).
Kant procura explicar que o pessimismo “realista” tem muito de uma profecia que se realiza
pelo simples fato de ser enunciada. O realismo é uma teoria perniciosa porque “produz o
próprio mal que ela prevê” (KANT 1795, p.378).

O que está em jogo nessa discussão – na qual Kant prenuncia a perspectiva de


análise da corrente "construtivista" da teoria das relações internacionais – é a possibilidade
do progresso11. No plano interno, por mais que se aceite que, na ordem da gênese do Estado
(por oposição à ordem da sua fundamentação filosófica no direito natural), o poder deve
anteceder o direito – e Kant, de fato, o aceita –, isso não nos leva a concluir que há algo na
natureza humana que imponha uma perpetuação dessa inversão da boa ordem. É um erro
trazer para o presente e eternizar o que deve ser visto meramente como uma característica
circunstancial do início das sociedades humanas. O problema do “homem prático”, do
“realista” (para quem a moral é “mera teoria”), é que ele toma uma constatação verdadeira,
relativa a um acidente histórico, e a transforma em uma suposta característica humana
essencial, pretendendo assim “prever com base na natureza do homem que ele jamais

11
De certa forma, a crítica de Kant aos "realistas" é análoga à que é dirigida, por exemplo, por Alexander Wendt
aos propugnadores do realismo estrutural, ao assinalar que o padrão de comportamento de "self-help" e
"power politics" não resultam da própria estrutura de anarquia do sistema internacional (da condição de
"estado de natureza", na linguagem kantiana), mas de um processo de construção de instituições e identidades
(WENDT, 1992, p.395).
9

quererá o que se requer para levar a efeito aquele fim que conduz à paz perpétua” (KANT
1795, p.371)12.

Como assinala Volker Gerhardt, no conceito kantiano da política é central a noção de


que a ação humana em geral, e a ação política em particular, pressupõem uma “auto-
compreensão” dos atores que é decisiva para a definição do próprio significado e conteúdo
da ação (GERHARDT 1996, p.484). Em larga medida, a discussão sobre o conflito potencial
entre moral e política no Apêndice é tributária desse problema. A decisão sobre a forma
correta de hierarquizar moral e política, princípio forma e princípio material, é também uma
decisão sobre como os homens se veem a si mesmos. Daí o risco de self-fulfilling
prophecies: aquilo que afirmamos sobre o homem, na medida em que afeta a formação
daquela auto-compreensão dos atores, de certa forma prejulga o curso da história,
desencadeando a operação de uma lógica de auto-implicação.

Essa é uma questão central na reflexão kantiana sobre a história. No Conflito das
Faculdades, ao examinar – precisamente – a questão das previsões históricas, Kant apontará
que seria absurdo pensar esse problema sem tomar em conta que o homem é um ser livre.
É esta, aliás, a razão pela qual não se pode chegar a uma conclusão sobre a questão do
progresso histórico a partir da experiência, ao menos não de forma imediata. “Pois estamos
lidando com seres que agem com liberdade, para os quais é possível ditar previamente o que
devem fazer, mas para os quais não é possível prever o que farão; seres que sabem, a partir
do sentimento do mal que eles infligem a si próprios, quando as coisas se deterioram
gravemente, adotar uma motivação reforçada para fazer as coisas melhorarem com relação
ao que eram antes daquele estado” (KANT 1798, p.83).

Kant cita o exemplo dos profetas judeus do Antigo Testamento, que, segundo ele,
previram uma dissolução do Estado para a qual eles próprios contribuíram por meio de suas
profecias. De forma semelhante, "nossos políticos” projetam no futuro o que identificam nos
homens “tais como eles são”, sem cuidar que seria mais apropriado falar dos homens “tais
como eles foram feitos”, e feitos não pela natureza, mas pelas próprias ações dos
governantes que, por meio de “coerções injustas e intrigas pérfidas”, tornam o povo “teimoso
e propenso à rebelião” (KANT 1798, p.79-80).

Em suma, o pessimismo cínico é uma petição de princípio, e a Realpolitik, um círculo


vicioso. O caminho mais curto para a miséria consiste em acreditarmos que somos

12
No mesmo Apêndice, Kant observa: “(...) tanto quanto lhes é dado, os moralistas políticos, mediante tentativa
de justificar princípios políticos contrários ao direito, sob o pretexto de uma natureza humana incapaz de fazer
o bem segundo a idéia tal como ela é prescrita pela razão, tornam impossível o aprimoramento e perpetuam a
violação do direito” (KANT 1795, p.373).
10

miseráveis. O suposto “realismo”, sobretudo quando orienta as deliberações dos poderosos,


valida suas próprias premissas. Inversamente, uma filosofia da história “esclarecida” será,
ela própria, parte do processo de Aufklärung (HABERMAS 1990, p.193-4). A política que eu
faço depende do homem que eu sou. Ou mais propriamente: depende do homem que eu
acredito ser.

Vem daí uma das teses mais peculiares do pensamento kantiano sobre a postura
moral que é desejável para os que atuam na política (interna e internacional). Há em Kant
um forte substrato, por assim dizer, "realista". Ele reconhece, como o ponto de partida de
sua análise, que a relação entre os Estados é a de anarquia ("estado natural") e que há boas
razões para ceticismo quanto à natureza humana. Mais do que isso, Kant expressa a
intenção de encontrar uma forma de fundamentação da política que seja independente de
pressupostos quanto a uma hipotética bondade do ser humano (o projeto político deve ser
viável "mesmo para um povo de demônios").

No entanto, como apontamos acima, sua compreensão das circularidades e círculos


viciosos que podem afetar a ação humana leva-o a concluir que, embora um objetivo como o
da paz perpétua seja obviamente duvidoso do ponto de vista de uma análise meramente
teórica, a crença em que tal objetivo é ao menos possível torna-se uma obrigação do ponto
de vista moral. "A questão já não é a de saber se a paz perpétua é algo real ou uma ficção, e
se não nos estamos enganando em nosso juízo teórico ao presumirmos que ela é real. Em
vez disso, devemos agir como se ela fosse algo real, embora talvez não o seja" (KANT 1797,
p.354). Para Kant, as “lições da história” têm validade limitada, pois o fato de que um objetivo
não tenha sido alcançado no passado pode demonstrar que ele é difícil, mas não que ele
será, para sempre, impossível. O dever de contribuir para o progresso é um imperativo
categórico, líquido e certo, ao passo que a dúvida sobre a possibilidade do progresso, por
envolver considerações de prudência (e, portanto, imperativos hipotéticos), é ilíquida e
incerta. Não devo hesitar, portanto, em dar preferência ao dever em relação às dúvidas sobre
aspectos empíricos que podem afetar sua realização (KANT 1793, p.309-310).

A mesma obrigatoriedade que reveste o imperativo de “sair” do estado natural


manifesta-se, assim, no plano internacional, em um dever de contribuir para o progresso ou,
pelo menos, de não contribuir para torna-lo impossível. Existe, nessa perspectiva, um dever
de "trabalhar incessantemente" para o objetivo da paz perpétua, o que exige acreditar que
esse objetivo, embora duvidoso, seja ao menos algo que pode ser pensado, i.e. algo que não
é absurdo (KANT 1797, p.355).

É no campo desse "trabalho incessante" pela paz, que é uma obrigação para homens
de Estado e para cidadãos, que se abre o espaço conceitual para toda uma agenda de temas
11

relevantes para a construção da paz. Para além da recomendação fundamental, já


mencionada acima, de criação de uma "liga ou federação de paz", essa "agenda para a paz"
kantiana, que constitui talvez o aspecto mais conhecido do pensamento de Kant sobre as
relações internacionais, inclui ideias como as seguintes:

i. A valorização da forma republicana de governo como elemento que favorece a


paz, uma vez que a participação dos cidadãos nas deliberações reduz o
ímpeto de envolver-se em conflitos militares. Essa tese de Kant, exposta
sobretudo no 1º Artigo Definitivo de Para a Paz Perpétua, é o ponto de partida
do que hoje se conhece como a teoria da "paz democrática" (KANT 1795,
p.349; KANT 1793-1, p. 311; DOYLE 1997, p.286).

ii. A relevância da interação entre os Estados, e entre indivíduos dos diferentes


Estados, como fator que pode afetar o padrão de comportamento dos Estados,
criando condições que reduzem a probabilidade de guerra e favorecem a
construção dos alicerces da paz. Daí se segue que o conteúdo do que Kant,
pioneiramente, denomina "direito cosmopolita” resuma-se à noção de uma
"hospitalidade universal", uma vez que a hospitalidade é a condição básica
para que os indivíduos interajam entre si no plano internacional (KANT 1795,
p.357)13. Situa-se nesse contexto a tese kantiana segundo a qual os interesses
comerciais, ao serem incompatíveis com a guerra, favoreceriam a criação,
entre os indivíduos de diferentes países, de um padrão de interação distinto da
mera desconfiança e hostilidade latente que caracterizam o estado natural – e
o interessante dessa tese é que postula a possibilidade de que o espírito
comercial opere como um “mecanismo da natureza”, ou seja, como um fator
independente da vontade dos homens e, portanto, independente de sua
qualidade moral (embora, ao favorecer a construção da paz, contribua para o
desabrochar da disposição moral dos homens) (KANT 1795, p.364 e 366-368).

iii. A importância da tendência já identificada por Kant em seu tempo, e que


desde então não fez senão acentuar-se, de formação de uma “esfera de
opinião pública global”, em razão da qual, nos termos da formulação célebre
de Para a Paz Perpétua, “uma violação de direito em uma parte do mundo é
sentida em toda parte”, o que faz com que a ideia de um “direito cosmopolita”
deixe de ser uma ideia “fantástica ou exagerada” (KANT 1795, p.360). Embora

13
É o que dá sentido ao comentário de Hedley Bull: "The Kantian or universalist tradition (...) takes the essential
nature of international politics to lie not in conflict among states, as on the Hobbesian view, but in the trans-
national social bonds that link the individual human beings, who are the subjects or citizens of states" (BULL,
1995, p.24).
12

tenha sido talvez excessivamente otimista a expectativa de Kant quanto ao


desenvolvimento progressivo dessa “esfera pública” como fator de avanço do
“iluminismo”, não parece haver dúvida de que ele detectou uma tendência
decisiva e antecipou com clareza os possíveis efeitos dessa tendência para o
padrão de interação entre os Estados. Não é por outra razão que as breves,
mas importantíssimas, observações sobre o tema continuam a ser, ainda hoje,
referência obrigatória na discussão sobre os temas da globalização da
informação e do cosmopolitismo (HABERMAS 1990, p.189; HABERMAS 1995,
p.124).

iv. Ademais dessas noções inovadoras sobre processos que podem contribuir
para a construção da paz em uma liga federativa de Estados republicanos
unidos pela perspectiva cosmopolita de uma esfera pública global, Kant
deixou-nos ainda um ângulo de análise de grande interesse sobre ações ou
atitudes que deve ser evitadas para que não se torne mais difícil ou impossível
o esforço de saída do estado de natureza, i.e. de construção da paz. Assim, o
exame que faz Kant dos preceitos do ius in bello tomam em conta a
preocupação de evitar práticas que tornariam mais difícil, em um hipotético
após guerra, a restauração da confiança entre as partes e a aproximação
necessária para a pacificação. Deriva daí uma forte condenação de práticas
tradicionais como a espionagem, o uso de assassinatos seletivos (inclusive
por envenenamento), a mentira, as reservas mentais na conclusão de tratados
e a intervenção em assuntos internos de outros Estados (exceção feita para
casos de guerra civil). Assim como é um dever sair do estado de natureza,
torna-se um imperativo moral preservar a possibilidade de superação do
estado de natureza e, portanto, evitar padrões de comportamento que a
inviabilizem (KANT 1795, p.344, 347, 349; KANT 1797, p.347).

v. Por fim, a “agenda para a paz” kantiana inclui recomendações de caráter


provisório (e sujeitas a adiamento em razão de circunstâncias adversas)
ligadas à necessidade de reduzir a probabilidade de guerra. Destacam-se os
preceitos incluídos nos “artigos provisórios” de Para a Paz Perpétua, como o
da eliminação de exércitos permanentes ou a da proibição de dívidas públicas
dos Estados (baseada na avaliação de que esse endividamento era essencial
para cobrir os custos de atividades militares) (KANT 1795, p.345).
13

A partir do já exposto, podem-se acrescentar duas observações finais para assinalar a


relevância do pensamento de Kant para debates atuais. Dados os limites deste texto, essas
observações são apresentadas de forma muito breve, com vistas a apresentar elementos
para a continuação da reflexão sobre o tema.

I. Em primeiro lugar, é particularmente interessante a forma pela qual Kant aceita um


quadro de pensamento sobre as relações internacionais que contém elementos importantes
daquilo que hoje conhecemos como o do “neorrealismo estrutural” – notadamente no tocante
à constatação da situação de “anarquia” (estado de natureza, no jargão kantiano) nas
relações entre os Estados e às consequências tendenciais disso para fomentar um
comportamento do tipo de self-help –, mas recusa a ideia de que desse quadro decorra
necessariamente uma postura de Realpolitik no comportamento dos Estados. Para Kant, o
realismo na análise das estruturas de interação entre os Estados não implica o suposto
“realismo” das recomendações de ação diplomática14.

Essa postura kantiana está baseada em dois pilares. Primeiramente, a defesa de


uma “política moral”, i.e. de uma recusa a aceitar que a ação diplomática possa ser
inteiramente privada de considerações de valor. Daí a importância, nos textos que Kant
dedica a esse tema, da questão da relação entre “teoria” e “prática”. Trata-se, para o filósofo,
de desmascarar a operação ideológica dos advogados da “razão de Estado”: a aceitação de
certos pressupostos sobre a natureza humana e, a partir daí, a pretensão de descartar toda
preocupação de moralidade como mera “fantasia” sem correspondência na realidade, mero
“sonho” que se desfaria com a simples consideração da natureza humana.

O segundo pilar consiste, precisamente, na denúncia de que o recurso a uma suposta


perversão da “natureza humana” cumpre a função ideológica de ocultar a possibilidade do
progresso, ocultamento que caminha de mãos dadas com a perda da dimensão moral da
ação. Por isso é de primeira importância, no pensamento de Kant, demonstrar que ademais
das possíveis “constantes” presentes na história humana, há algumas variáveis sobre as
quais é possível atuar para produzir transformações no comportamento dos Estados, com
efeitos favoráveis à paz: a forma republicana de governo, o comércio, a interação entre os
indivíduos através das fronteiras, a boa fé na conclusão de tratados, a federação de Estados
pacíficos, e assim por diante.

O “realismo” de Kant, se assim podemos denominá-lo, é portanto um realismo que


está atento às estruturas e a fatores sistêmicos que definem uma moldura relevante para a

14
Por isso é importante assinalar, como o faz Richard Tuck, que a crítica de Kant a Hobbes se refere à visão
kantiana da relação entre a política e a moral, e não exclui a aceitação por Kant da descrição hobbesiana do
estado de natureza. Daí que se possa falar, a esse respeito, de um "hobbesianismo" de Kant, inclusive na seção
intitulada "Contra Hobbes" do opúsculo Sobre o Dito Popular (TUCK 1999, p.211).
14

interação dos Estados, mas que insiste em não perder a visão da dimensão de
transformação e da capacidade da ação humana de contribuir para tal transformação. Em
função disso, o pensamento de Kant foi não raro qualificado como “idealista”, em
contraposição ao que seria o “realismo” inequívoco de Rousseau. Mas é importante entender
que o interesse maior do esforço de reflexão de Kant reside precisamente na construção de
um marco teórico no qual os determinantes sistêmicos convivem com diversas variáveis que
afetam e igualmente determinam o padrão de comportamento dos Estados, permitindo com
isso uma compreensão mais sofisticada da dinâmica internacional15.

II. Em segundo lugar, é especialmente interessante notar a ressonância das


considerações kantianas sobre o imperativo da paz em posições tradicionais da política
externa brasileira em defesa do não uso da força, da valorização da diplomacia e da solução
pacífica de controvérsias.

Pode-se ver claramente essa ressonância em uma das mais importantes iniciativas
recentes da diplomacia brasileira: a proposta de que a aplicação do conceito da
"responsabilidade de proteger" fosse complementada pela adoção simultânea da noção de
uma "responsabilidade ao proteger"16. Sem entrar em uma análise mais abrangente dessa
iniciativa, o que pode ser destacado, à luz do pensamento kantiano, é a preocupação
explicitada pela diplomacia brasileira de que o recurso a medidas coercitivas e, em particular,
o uso da força militar, devam ser opções de "última instância", somente justificáveis se todas
as demais alternativas estiverem esgotadas ou se revelarem impossíveis. Junta-se a essa
preocupação a advertência, incluída na proposta brasileira, de que qualquer decisão sobre o
uso da força para a proteção de populações civis deve toma em conta a possibilidade de que
tal intervenção possa resultar em dano ainda maior do que aquele que se quer evitar.

Está subjacente à discussão sobre a "R2P" e a "RwP", como ambas tornaram-se


conhecidas no jargão onusiano, a diferença entre os países quanto à atitude de cada um em
relação ao uso da força militar. De fato, difundiu-se entre países desenvolvidos, ditos
"ocidentais", uma postura de certa confiança em que o recurso à intervenção militar se possa
15
Michael Williams aponta como sendo quase um “evangelho” a ideia de oposição entre Rousseau (realista) e
Kant (idealista), mas sugere que essa oposição é enganosa, na medida em que desconsidera a influência de
Rousseau sobre Kant e a similitude entre ambos na consideração dos temas internacionais (Williams 2005, p.52-
81). Ewan Harrison compara o tipo de análise de Kant ao de Kenneth Waltz e assinala a semelhança entre
ambos, no que se refere à importância acordada aos fatores sistêmicos, mas salienta igualmente que a principal
diferença consiste em que Kant acrescenta à análise da estrutura internacional um “modelo transformacional”,
o que abre possibilidades interessantes para transpor o abismo entre a visão neorrealista e uma visão mais
crítica das relações internacionais, que incorpore a perspectiva de transformação (Harrison 2002, p.149).
16
A proposta brasileira foi exposta em artigo do Chanceler Antonio Patriota em 1/9/11 na Folha de São Paulo e
no discurso da Presidenta da República na abertura da 66ª Sessão da Assembleia Geral da ONU.
Posteriormente, a proposta foi formalizada em carta dirigida ao Secretariado das Nações Unidas em
11/11/2011, e foi circulada publicamente como o documento A/66/551 da Assembleia Geral daquela
organização (FONSECA JR. e BELLI, 2013; PAES LEME 2015).
15

fazer sem maior dano às populações civis e sem maiores consequências sistêmicas. Em
contraste com isso, entre os países menos dotados de meios militares, a atitude tende com
mais frequência à preocupação de que os propósitos humanitários sejam utilizados para
justificar uma banalização do uso da força (FONSECA JR. e BELLI, 2013, p.20).

É um debate que não se concluirá tão cedo, mas no qual resulta evidente a
contribuição que pode fazer o pensamento kantiano, ao lembrar-nos de que a exigência de
que a ação externa dos Estados incorpore uma dimensão ética (ou "moral", nos termos de
Kant) ficaria incompleta se não fizesse parte dessa dimensão o imperativo de construção da
paz, não como um dever entre outros, mas como uma obrigação cuja observância é
essencial para a própria ideia de progresso.

Em nossos dias, quando a atitude de negociação e diálogo que é própria da


diplomacia – e que, em sentido kantiano, é essencial para a construção da paz – é tantas
vezes descartada sob o estigma do "appeasement", quando a defesa da paz é tantas vezes
confundida com uma insensibilidade a valores humanitários (como os direitos humanos e a
justiça), será relevante para os que acompanham a política externa brasileira refletir sobre a
sofisticada fundamentação kantiana do imperativo da paz, sobre sua defesa de uma "política
moral", sobre sua refutação dos supostos "realistas" que pretendem conhecer os caminhos
do mundo. Será útil refletir sobre o quanto de tudo isso está impregnado na tradição
diplomática desenvolvida pelo Brasil, que permitiu ao País, já desde o final do século XIX e
início do século XX, evitar a reprodução, na América do Sul, do padrão de "política de poder"
que, na Europa, era vista como normal e inevitável (RICUPERO 2012). Provavelmente sem
o saber, Rio Branco inscrevia-se em uma linhagem kantiana ao transmitir aos chilenos, em
1911, seu famoso conselho de moderação: "É mais prudente transigir do que ir à guerra. O
recurso à guerra é sempre desgraçado".

Bibliografia

As referências aos textos de Kant são feitas pela numeração dos volumes (algarismos romanos) e páginas
(algarismos arábicos) da chamada Akademieausgabe (AA), cujo título completo é o seguinte: Kant’s Gesammelte
Schriften, editado pela Academia Prussiana de Ciências (até o volume XXII), pela Academia Alemã de Ciências
(volume XXIII) e pela Academia de Ciências de Göttingen (a partir do volume XXIV), e publicado por Walter de
Gruyter & Co. As datas indicadas para cada obra são as de sua primeira publicação.

KANT 1785 Grundlegung zur Metaphysik der Sitten (AA IV)


KANT 1786 Mutmaβlicher Anfang der Menschengeschichte (AA VIII)
16

KANT 1790 Kritik der Urteilskraft (AA V)


KANT 1793 (1) Über den Gemeinspruch: Das mag in der Theorie richtig sein, taugt aber nicht für die Praxis (AA VIII)
KANT 1793 (2) Die Religion innerhalb der Grenzen der bloβen Vernunft (AA VI)
KANT 1795 Zum ewigen Frieden. Ein philosophischer Entwurf (AA VIII)
KANT 1797 Metaphysische Anfangsgründe der Rechtslehre (AA VI)
KANT 1798 Der Streit der Fakultäten (AA VII)
KANT 1934 Handschriftlicher Nachlaβ - Moralphilosophie, Rechtsphilosophie und Religionsphilosophie (AA XIX)

Obras de outros autores


BULL, Hedley The Anarchical Society – A Study of Order in World Politics, Nova York: Columbia University
Press, 1977.

DOYLE, Michael Ways of War and Peace – Realism, Liberalism and Socialism, Nova Yok: Norton, 1997.

CAVALLAR, Georg Pax Kantiana – Systematisch-historische Untersuchung des Entwurfs ‘Zum ewigen Frieden’
(1795) von Immanuel Kant, Viena: Böhlau, 1992.

GERHARDT, Volker Ausübende Rechtslehre – Kants Begriff der Politik. In SCHÖNRICH, G. e KATO, Y. (eds.) Kant in
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FONSECA JR., Gelson e BELLI, Desafios da Responsabilidade de Proteger. Política Externa, Vol. 21, No. 4, 2013.
Benoni

HABERMAS, Jürgen Strukturwandel der Öffentlichkeit – Untersuchung zu einer Kategorie der bürgerlichen
Gesellschaft, Frankfurt sobre o Meno: Suhrkamp, 1990.

HABERMAS, Jürgen Kant’s Idea of Perpetual Peace, with the Benefit of Two Hundred Years’ Hindsight. In BOHMAN,
James e LUTZ-BACHMANN, Matthias (eds.), Perpetual Peace – Essays on Kant's Cosmopolitan
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KATER, Thomas Politik, Recht, Geschichte – Zur Einheit der politischen Philosophie Immanuel Kants, Würzburg:
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KERSTING, Wolfgang Wohlgeordnete Freiheit – Immanuel Kants Rechts- und Staatsphilosophie, Berlim: Walter de
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OREND, Brian Kant’s Just War Theory. Journal of the History of Philosophy, Vol. 37, No. 2, 1999.

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TUCK, Richard The Rights of War and Peace – Political Thought and the International Order from Grotius to
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WENDT, Alexander Anarchy is What States Make of It. International Organization, Vol. 46, No. 2, 1992.

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