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ANÁLISE FINANCEIRA DE EMPRESAS

Parte I

Nara Rossetti
Jorge Luís Meirelles

Sorocaba - 2018
ANÁLISE FINANCEIRA DE EMPRESAS

Apresentação

Esta é a primeira disciplina do curso, Análise Financeira de Empresas, é fundamental para a


compreensão das demais disciplinas a seguir e está dividida em duas partes: Parte 1 –
Contabilidade e Relatórios Financeiros e Parte 2 – Análise das Demonstrações Financeiras.
Não é possível entender de Finanças Corporativas sem antes ter o conhecimento, mesmo que básico,
de Contabilidade.
É por meio da leitura e compreensão dos relatórios contábeis, que extraímos informações importantes
a respeito da saúde financeira, patrimonial e operacional das empresas. Portanto, o conhecimento
prévio de Contabilidade e seus relatórios torna-se fundamental para a extração de indicadores que
permitam analisar financeira e economicamente as empresas.
Esperamos que este material os auxilie na compreensão dos conceitos aqui apresentados e,
adicionalmente, consultem a bibliografia sugerida apresentada ao final do e-book.

PARTE 1 – CONTABILIDADE E RELATÓRIOS FINANCEIROS

UNIDADE 1:
ESTRUTURA CONCEITUAL DA CONTABILIDADE E BALANÇO PATRIMONIAL

A contabilidade é uma ciência social aplicada que visa estudar as transformações patrimoniais,
econômicas e financeiras de uma entidade. Sua metodologia consiste em captar, registrar, acumular,
resumir e interpretar os fenômenos que afetem essas transformações (IUDÍCIBUS, 2010).

Esta ciência nasceu da necessidade do homem em controlar seu patrimônio. O homem há dezenas de
século, quando morava em feudos e a economia da época era basicamente de subsistência, já tinha
necessidade de quantificar seus bens e controlar seu patrimônio, como por exemplo, quantas ovelhas
havia em seu rebanho, quanto gado possuía em seu pasto, o quanto sua horta produziria de acordo
com o tamanho da terra arada.
Anos mais tarde, após as grandes revoluções do século dezoito, quando o homem inicia seu conceito
de lucro, ou de acúmulo de capital, essa necessidade de controle se faz ainda mais necessária e
segundo Marion (2015b) com o passar do tempo, as formas de registro dos fatos contábeis foram
aprimoradas por meio de estudos, de forma que atendessem aos usuários das informações
contábeis.

No Brasil, a primeira lei que regulamentou e normatizou a forma de divulgação das demonstrações
contábeis foi a lei 6404/76, denominada de Lei das Sociedades por ações, modificada pela lei
11.638/07 pela lei 11.941/09. Com a criação do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e seus
pronunciamentos, as normas brasileiras de divulgação convergiram quase que totalmente às Normas
Internacionais de Contabilidade emitidas pelo International Accounting Standards Board (IASB).

Assim, esse conjunto de leis e pronunciamentos tem como objetivo, além de ajustar as normas
contábeis brasileiras às internacionais, tornar o processo de “leitura” dos relatórios contábeis mais
compreensíveis junto aos seus usuários, sendo este o principal objetivo da contabilidade, “fornecer
informações sobre a posição patrimonial e financeira, o desempenho e as mudanças na posição
financeira de uma entidade” (FIPECAFI, 2017, p. 36).

A Contabilidade deve estar ligada intimamente ao processo de tomada de decisões de uma empresa.
E para se tomar decisões é necessário que o gestor de uma empresa possua informação, para que ele
tenha informação, é necessário que existam relatórios, para que existam relatórios, deve-se existir
dados, e para que existam dados confiáveis é necessário que exista controle.

Mas para quem interessa a contabilidade de uma entidade? Quem são os usuários da informação?

Os usuários da informação contábil são todos os indivíduos interessados em conhecer a posição


patrimonial, financeira e econômica de uma entidade. Podemos citar como exemplo os bancos, que
atuam como credores junto as instituições. É estritamente necessário que esses credores conheçam a
real capacidade de uma empresa em conseguir honrar seus compromissos, bem como avaliar a
capacidade desta mesma empresa em gerar fluxos de caixa positivos no futuro.

Os fornecedores de matéria prima também podem ser considerados usuários da informação contábil,
principalmente se seu cliente costuma comprar a prazo, passando de fornecedor a também credor de
determinada entidade. O governo é um dos principais usuários da informação contábil, pois é por
meio dela que que ele quantifica os impostos e contribuições a serem pagas. Os funcionários podem
ser usuários também, a fim de verificar a situação patrimonial da entidade do qual ele faz parte.
Os investidores das sociedades de capital aberto também são usuários da informação contábil. Os
relatórios e demonstrações divulgadas periodicamente permitem que os mesmos além de conhecer a
situação financeira atual da empresa, ainda façam inferências futuras por meio de uma série de
análises desses relatórios.

Ou seja, qualquer pessoa interessada na situação financeira, patrimonial e econômica de uma


entidade é um usuário da informação contábil, que extrairá informações a respeito da situação
financeira e patrimonial da entidade por meio da leitura e análise dos Relatórios
Contábeis/Financeiros, os quais expõe todos os dados coletados da contabilidade de forma ordenada
e resumida.

1.1. Características Qualitativas da Informação Contábil

De acordo com o Pronunciamento Contábil Básico – Estrutura Conceitual para Elaboração e


Apresentação das Demonstrações Contábeis do CPC, há uma premissa básica que compõe a estrutura
conceitual da contabilidade, a da Continuidade.

A premissa da Continuidade refere-se ao fato de que as demonstrações contábeis são elaboradas a


partir do principio de que as entidades irão permanecer em funcionamento no futuro, não estando em
fase de extinção do seu processo operacional, a não ser que essa intenção de finalização esteja
explicitamente publicada em seus relatórios.

Já as demais características qualitativas são, segundo o pronunciamento citado anteriormente, “os


atributos que tornam as demonstrações contábeis úteis para o usuário”. Essas características são
divididas em dois grupos: características qualitativas fundamentais e de melhoria.

As características qualitativas fundamentais são:

• Relevância/Materialidade;
• Representação Fidedigna.

E as características qualitativas que melhoram a informação contábil são:

• Verificabilidade;
• Compreensibilidade;
• Comparabilidade;
• Tempestividade.

Se as informações divulgadas atendem s necessidades do usuário, então as mesmas são relevantes


para o processo de tomada de decisão dos mesmos, e precisam necessariamente ser confiáveis e
representar fidedignamente as transações e eventos que a informação se propõe, sendo, portanto,
verificáveis para diferentes tipos de usuários.

As informações contábeis devem ser compreensíveis para quem as lê, presumindo-se que este tenha
o mínimo de conhecimento sobre o negócio da entidade em questão, e a informação será mais útil se
puder ser comparada com informação similar. Além disso, os usuários para o processo de tomada de
decisão precisam ter a informação a tempo para que esta possa influenciá-los.

Se o processo de tomada de decisão for alterado pela omissão ou distorção da informação, então esta
é material, sendo necessário que as informações sejam representadas pela sua real natureza e não
apenas para cumprimento de sua forma legal. Além disso, a informação deve ser neutra, não
induzindo o usuário em seu processo de tomada de decisão.

O Regime de Competência (antes um pressuposto da contabilidade) rege a forma de preparação das


demonstrações contábeis. Este regime versa sobre o fato gerador de entradas e saídas de recurso e
não necessariamente sobre a data efetiva das entradas e saídas de recurso. Por exemplo, uma empresa
realizou uma venda e este cliente pagará pela sua compra durante os próximos 6 meses.

Mesmo que o recurso só entre em caixa na empresa toda data “x” dos próximos seis meses, o fato
que gerou a venda ocorreu em um único mês, e é neste mês que a empresa tem que realizar a receita
por esta venda. O mesmo acontecerá com as despesas, para realização da confrontação das Receitas
com as Despesas, ou seja, a entidade só terá despesa se tiver realização de receita (as definições de
receita e despesas serão apresentadas no capítulo X).

As informações contábeis possuem dois tipos de finalidade, pode ser usada para controle (para atingir
metas e analisar a situação da empresa) e, também, como meio de planejamento para traçar
orçamentos. Os relatórios contábeis (também chamados de demonstrações financeiras ou
demonstrações contábeis) são informações resumidas sobre a situação financeira e patrimonial das
empresas.
Os Relatórios Contábeis são o documento que permitem ao usuário “ler” e analisar a situação
financeira e patrimonial de uma entidade. Os dois relatórios elaborados para realização da
contabilidade são: o Balanço Patrimonial (BP) e Demonstração do Resultado do Exercício (DRE).

As demais demonstrações decorrentes destas duas primeiras e são:

• Demonstração do Resultado Abrangente (DRA);


• Demonstrações das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL);
• Demonstração dos Lucros e Prejuízos Acumulados (DLPA);
• Demonstrações das Origens e Aplicações de Recursos (DOAR);
• Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC);
• Demonstração do Valor Adicionado (DVA).

Além dessas demonstrações obrigatórias, há as notas explicativas, que são parte integrante dos
relatórios, pois permitem esclarecer os dados expostos. Com exceção da DOAR, o qual deixou de ser
obrigatória após o advento da Lei nº 11.638/07, todas as demais demonstrações contábeis têm
obrigatoriedade de divulgação, sendo o DVA obrigatório apenas para empresas de capital aberto. No
caso do DMPL e do DLPA, a lei aceita uma ou outra, sendo a DMPL mais comum de ser divulgada
já que comtempla em suas informações a DLPA.

As empresas devem fazer as divulgações ao fim de cada período de 12 meses, denominado de


Exercício Social. O Imposto de Renda sugere o encerramento das demonstrações sempre ao fim de
cada ano, 31/12, porém há casos em que o exercício social não coincide com o ano civil (de 01/01 a
31/12), como é o caso das usinas do setor sucroalcooleiro. As usinas do Estado de São Paulo, por
exemplo, divulgam suas demonstrações com exercício social de maio de um ano a abril do outro,
para coincidir com seu período de safra.

As empresas S.A. de capital aberto costumam divulgar suas demonstrações contábeis trimestralmente
para melhor informarem seus acionistas. Nos sites destas empresas há, normalmente, um link
denominado de Investidores, onde estão alocados os relatórios financeiros. As demonstrações são
assinadas pelo parecer de empresas de auditorias independentes, o que concede maior credibilidade
aos relatórios divulgados.

Para divulgação de suas informações, as empresas devem apresentar logo acima de cada
demonstração, o nome completo da empresa, o período a que se referem, o nome do relatório
contábil e a moeda a que estão expressos os números. É muito comum que os valores nos relatórios
apareçam divididos por mil ou milhão, para facilitar a leitura dos dados, neste caso, aparece esta
informação também acima do relatório, por exemplo: em milhares de R$ ou em milhões de R$.

*Veja a videoaula sobre Estrutura Conceitual da Contabilidade, no AVA Moodle.

1.2 Balanço Patrimonial

Pode-se dizer que o BP é a mais importante demonstração financeira. Sua finalidade é apresentar a
situação financeira e patrimonial da entidade. Porém, é apresentado de forma estática, ou seja, não é
possível verificar por meio do BP todas as movimentações que estão por trás dos saldos apresentados
nas contas do BP, uma vez que ele é apresenta isso mesmo, apenas o saldo. É como se ao final de um
exercício social (doze meses) fosse tirada uma foto de todos os saldos a pagar e a receber, além de,
todos os bens de posse da entidade.

1.2.1. Bens, Direitos e Obrigações

Afinal o que são bens? Marion [2015a] define bens como “as coisas úteis capazes de satisfazer às
necessidades das pessoas e das empresas”. Por exemplo: o prédio da empresa é um bem, os veículos
que a empresa possui são bens, as máquinas, as mercadorias em estoque etc. Estes bens citados são
denominados de bens tangíveis, pois são bens corpóreos, tem materialidade.

Existem outros tipos de bens que não são corpóreos, são imateriais como é o caso da marca da
empresa. Pensem em um refrigerante de cor negra que é escrito com letras brancas em um fundo
vermelho. É claro que pensaremos na Coca-Cola®, pois é um refrigerante que possui uma marca
muito forte no mercado. A marca é algo que demora anos para ser consolidada, e sempre está
atrelada a credibilidade e qualidade do produto.

Pensem agora em uma lanchonete fast food que possui um “m” gigante em formas de arcos dourados.
Tenho certeza que todos pensaram no McDonald’s®, pelos mesmos motivos que a Coca-Cola®. Se a
marca é tão importante assim para uma empresa, então ela também pode ser considerada um bem,
porém, é um bem que não possui materialidade, não é um bem corpóreo, por isso é chamada de bem
intangível.

Outro exemplo de bem intangível são as patentes. Quando uma empresa apresenta uma nova
tecnologia, por meio de Pesquisa e Desenvolvimento, que pode mudar consideravelmente o mercado
de um produto, esta empresa registra a patente desta nova tecnologia e pelas leis de patente, ela
ganha exclusividade na exploração e produção. Isto acontece muito na indústria farmacêutica,
quando novos medicamentos são descobertos. Desta forma, patente também é um bem para a
empresa, um bem intangível.

Os bens ainda podem ser classificados como móveis e imóveis. Bens móveis são os que podem se
locomover, e imóveis que estão em lugares fixos, não se locomovem. Por exemplo: veículos e
móveis de escritório são considerados bens móveis, prédios e edifícios, bens imóveis.

Em contabilidade, direito é tudo o que se pode RECEBER. Por exemplo, uma empresa vendeu
mercadorias a seu cliente para que ele lhe pague em 30 dias. A empresa então possui um direito: que
é receber pela mercadoria no prazo estipulado.

Para este recebimento, normalmente a empresa emite um documento denominado de duplicatas a


receber ou nota promissória. Outro exemplo de direito é o dinheiro. Se o dinheiro está no caixa da
empresa, é um bem, mas se o mesmo se encontrasse depositado no banco, é direito. Isto porque o
dinheiro está custodiado no banco, e a empresa tem direito a saque, direito a receber. As aplicações
financeiras que a empresa faz para aumentar seu capital também são exemplos de direitos.

As obrigações são as dívidas que a empresa possui com terceiros, ou seja, tudo o que a empresa tem
que pagar. Um empréstimo ou financiamento feito pela empresa, seja para obter mais dinheiro em
caixa, seja pela compra de um carro, constitui-se em uma dívida bancária, portanto é uma obrigação.
As mercadorias compradas a prazo de fornecedores terão que ser pagas em seus vencimentos, logo,
são obrigações. As obrigações possuem o nome de exigíveis, pois em algum momento (na data de
seus vencimentos) será exigido o pagamento destas.

A riqueza líquida de uma empresa está na diferença de seus bens e direitos por suas obrigações,
representada pela seguinte equação:

• Riqueza Líquida/ Patrimônio Líquido = Bens + Direitos – Obrigações

*Veja a videoaula sobre a Apresentação do Balanço Patrimonial, no AVA Moodle.


1.2.2 Estrutura do Balanço Patrimonial

Ao lado esquerdo do Balanço Patrimonial são apresentados todos os bens e direitos, que representam
os Ativos da empresa. Ao direito do BP são demonstradas todas as obrigações, que representam os
Passivos da empresa e o Patrimônio Líquido, que representa a riqueza líquida.

De acordo com a Estrutura Conceitual do CPC, item 4.8, “o benefício econômico incorporado a um
ativo é o seu potencial em contribuir direta ou indiretamente, para o fluxo de caixa ou equivalentes de
caixa de uma entidade”, ou seja, muito além da ideia simplificada de que os Ativos são o conjunto de
bens e direitos de uma entidade, os mesmos tem como natureza a geração de benefícios futuros de
caixa, seja os que serão usados na produção de bens e serviços, bem como os disponibilizados para
venda, ou para liquidação de um passivo.

A lei 6404/76, em seus artigos 178 e 182, define que os Ativos devem ser apresentados no Balanço
Patrimonial por ordem decrescente de liquidez, ou seja, apresentam-se primeiro as contas mais
rapidamente conversíveis em dinheiro para as menos conversíveis, e os Passivos devem se apresentar
em grau decrescente de exigibilidade, se apresentando antes as contas que possuem exigibilidade
anterior as outras.

Assim, a estrutura do Balanço Patrimonial deve ser apresentada da seguinte forma (figura 1):

ATIVO PAS S IVO


Circulante Circulante

Não Circulante
Não Circulante
Realizável a Longo Prazo
Investimentos PATRIMÔNIO LÍQUIDO
Imobilizado
Intangível

Figura 1: Estrutura do Balanço Patrimonial

O Ativo é formado por dois grupos de contas: Ativo Circulante e Ativo Não Circulante. Os ativos
não circulantes englobam ainda quatro subgrupos de contas: Ativo Realizável a Longo Prazo,
Investimento, Imobilizado e Intangível.
Para explicar o conceito de Circulante e Não Circulante precisamos, primeiro, entender o conceito de
Ciclo Operacional, que é o período de tempo que engloba desde o momento da compra da matéria
prima pela empresa até o momento em que a empresa recebe pela venda do produto acabado. O ciclo
operacional passa basicamente por quatro estágios: a empresa compra a matéria prima, transforma
esta matéria prima em produto acabado, vende o produto e recebe pela venda do produto.

Quando o período do ciclo operacional é de até um ano, então o ciclo operacional da empresa está
dentro do Exercício Social, portanto o conceito de curto prazo é de até um ano, e longo prazo o que
ultrapassa um ano.

Isto é válido para a grande maioria das empresas, pois possuem ciclos operacionais inferiores ou
iguais ao exercício social. Mas há o caso de empresas que possuem o ciclo operacional muito longo,
superior a um ano, como é o caso da indústria naval. Para construir um navio e vendê-lo leva-se
muito mais tempo que um ano, neste caso, o ciclo operacional é maior que o exercício social e o
curto prazo passa a ter o mesmo período que o ciclo operacional, e longo prazo, o período que
ultrapasse o ciclo operacional.

Os ativos e passivos circulantes correspondem aos de curto prazo, enquanto que os ativos e passivos
não circulantes correspondem aos de longo prazo, dados os conceitos de curto e longo prazo
apresentados.

Quando a empresa encerra seu exercício social, geralmente em 31 de dezembro de determinado ano,
tudo o que ela tem em saldo do que foi recebido, as vendas que ela realizou, mas que serão recebidas
no prazo de até um ano (geralmente) e o que ela possui de mercadorias para vender compõe o grupo
de contas do Ativo Circulante.

Por serem ativos de curto prazo, as contas que representam o Ativo Circulante são as atividades do
ciclo operacional da empresa, por exemplo, o dinheiro recebido pelas vendas
(DISPONIBILIDADES), as vendas já efetuadas e ainda não recebidas (DUPLICATAS A
RECEBER), os produtos em estoque que ainda não foram vendidos (ESTOQUES) e demais contas
que se transformarão em dinheiro em um prazo inferior a um exercício social, na maioria dos casos.
O ativo circulante é também conhecido como o Capital de Giro da empresa.

Os Ativos Não Circulantes englobam ainda quatro subgrupos de contas: Ativo Realizável a Longo
Prazo, Investimento, Imobilizado e Intangível.
No subgrupo Ativo Realizável a Longo Prazo serão alocadas as contas do ativo que possuem
vencimentos a receber após um exercício social, podendo ser resultados de vendas, adiantamentos ou
empréstimos a coligadas e controladas (lembrando sempre os conceitos de curto e longo prazo dado o
ciclo operacional da empresa).

Já no subgrupo Investimento figuram aqueles ativos como participação permanente da empresa em


outras sociedades, ou ativos incorporados a essa que não se destinem a manutenção da atividade da
empresa, mas que podem ter sido adquiridos com a intenção de valoração, como por exemplo, obras
de arte ou terrenos para valorização.

Os ativos Imobilizados correspondem ao subgrupo de ativos corpóreos, ou seja, materiais, que


tenham por finalidade manter as atividades operacionais da atividade em funcionamento,
participando ou não do processo produtivo da mesma, como por exemplo, máquinas, veículos,
prédios, móveis, computadores, etc. Os ativos imobilizados devem ser registrados pelo seu custo de
aquisição, e sobre os mesmos será deduzido os correspondentes valores de depreciação,
amortização ou exaustão.

A depreciação dos bens imobilizados refere-se ao período de vida útil econômica dos bens. De
acordo com o artigo 183 da Lei 6404/76, a depreciação refere-se ao desgaste dos bens físicos, seja
por sua utilidade ou obsolescência. A amortização corresponde “a perda do valor do capital aplicado
na aquisição de direitos de propriedade industrial ou comercial e quaisquer outros com existência ou
exercício de duração limitada”. A exaustão refere-se a perda de valor decorrente da exploração seja
de um recurso mineral ou florestal.

E no subgrupo dos ativos Intangíveis figuram os ativos que não possuem materialidade, são
incorpóreos como marcas e patentes, pesquisa e desenvolvimento e goodwill (o qual será detalhado
melhor em outras disciplinas do curso).

Com relação ao grupo dos Passivos, que representam as obrigações exigíveis de uma entidade, há
dois subgrupos: o Circulante e o Não Circulante. No subgrupo dos Passivos Circulantes serão
alocadas as obrigações vencíveis em até um exercício social como fornecedores, empréstimos e
financiamentos, impostos, salários e demais obrigações e no grupo do Não Circulante as obrigações
que ultrapassam um exercício social (para empresas com ciclo operacional inferior a doze meses). Os
passivos também são denominados de Capital de Terceiros, por serem justamente exigidos por
terceiros credores à companhia.
O Patrimônio Líquido representa a riqueza líquida da empresa, sendo resultado da subtração de todos
os ativos por todos os passivos. É no Patrimônio Líquido que se configura o investimento inicial feito
na empresa, ou seja, o Capital Social, assim como o resultado desse investimento que correspondem
as reservas de lucros, ou prejuízos acumulados. Se acordo com a lei 6404/76 modificada pela lei
11.941/09, o Patrimônio Líquido deve ser dividido em (FIPECAFI, 2017):

• Capital Social: valores recebidos dos sócios e aqueles que por meio jurídico foram
incorporados ao Capital;
• Ajustes de Avaliação Patrimonial: contrapartidas de aumentos ou diminuições de ativos ou
passivos, em decorrência de sua avaliação a valor justo;
• Reservas de Lucros: lucros obtidos pela empresa ao final de seus exercícios social;
• Ações em Tesouraria: ações da companhia que são adquiridas pela própria sociedade;
• Prejuízos Acumulados: prejuízos obtidos pela empresa ao final de seus exercícios social.

Como o Patrimônio Líquido representa o capital dos sócios, é também denominado de Capital
Próprio.

Assim, a Figura 2 apresenta um exemplo simplificado de um Balanço Patrimonial:

ATIVO PASSIVO
Circulante Circulante
Disponibilidades Fornecedores
Contas a Receber Impostos a pagar
Estoques Empréstimos e Financiamentos
Outras contas a pagar
Não Circulante
Não Circulante Empréstimos e Financiamentos
Realizável a Longo Prazo Obrigações Fiscais
Empréstimos a Coligadas
Investimentos PATRIMÔNIO LÍQUIDO
Obras de Arte Capital Social
Ações de Outra Cia Reservas de Capital
Imobilizado Ajustes de Avaliação Patrimonial
Terrenos Reservas de Lucros
Prédios Ações em Tesouraria
Máquinas e Equipamentos Prejuízos Acumulados
Véiculos
Intangível
Marcas

Figura 2: Balanço Patrimonial

*Veja a videoaula sobre a Estrutura do Balanço Patrimonial, no AVA Moodle.


1.2.2.1. Origens e Aplicações

Uma das frases mais comuns em contabilidade é “para cada origem há uma ou mais aplicações”. Esta
frase refere-se à origem e a aplicação do recurso, ou seja, da forma como o recurso “entra” na
empresa e “o que é feito dele”.

Neste sentido, os Passivos e Patrimônio Líquido representam as Origens enquanto que os Ativos
representam as Obrigações. Por meio da técnica de construção de balanços sucessivos, é mais fácil
visualizar estes conceitos.

Por exemplo, supomos que está sendo aberta uma nova empresa e que os sócios integralizaram o
capital social, em dinheiro (R$ 100.000), exposto na figura 3:

ATIVO PASSIVO e PATR. LÍQ.

Caixa 100.000

Aplicação
Capital Social 100.000

Total do Ativo 100.000 Total do Pass + PL100.000 Origem


Figura 3: Integralização do capital social

De acordo com a figura 3, a Origem do recurso foi a integralização do capital social em R$


100.000,00 e este recurso teve uma Aplicação no ativo como caixa, já que era dinheiro.

Em um segundo momento esta mesma empresa resolve comprar equipamentos para o processo
produtivo no valor de R$ 40.000,00, sendo que pagarão R$ 10.000,00 à vista e o restante em 6 vezes
iguais. A contabilização ficaria da seguinte forma:
ATIVO PASSIVO e PATR. LÍQ.

Caixa 90.000
Financiamento 30.000

Saiu
10.000 do Origem
caixa
Equipamentos 40.000 Capital Social 100.000

Total do Ativo 130.000 Total do Pass + PL130.000


Aplicação
Figura 4: Compra de Equipamentos

A figura 4 demonstra uma reaplicação de um recurso originado anteriormente (os R$10.000,00


usados de entrada), e uma nova origem que foi o financiamento dos equipamentos que proporcionou
a compra total dos equipamentos, gerando, portanto, uma nova aplicação.

Para ver a continuação dos balanços sucessivos deste exemplo, assista a videoaula sobre Balanços
Sucessivos 1, no AVA Moodle.

UNIDADE 2:
DEMAIS RELATÓRIOS CONTÁBEIS

2.1. Demonstração do Resultado do Exercício

A Demonstração do Resultado do Exercício, DRE, é a demonstração contábil que informa o


resultado de determinado exercício social, se positivo Lucro, se negativo Prejuízo. A DRE é uma
demonstração dedutiva, em que de todos os ganhos obtidos com as vendas serão deduzidos todos os
custos e despesas necessárias para gerar tal venda (Receita). Se a DRE é do 1° trimestre, nela serão
contabilizadas todas as receitas e despesas cujo fato gerador ocorreu no 1° trimestre, mesmo que o
efetivo pagamento (saída do caixa) ocorra em abril, de acordo com o já citado Regime de
Competência.
Uma forma mais resumida de DRE é apresentada na figura 5.

DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DO EXERCÍCIO

RECEITAS

- DESPESAS

=RESULTADO

Figura 5: DRE resumida, I.R. (Imposto de Renda)

De acordo o pronunciamento do CPC, extraído de FIPECAFI (2017, pag. 49) a definição de


Receita “abrange tanto receitas propriamente ditas quanto ganhos (...) surge no caso das atividades
usuais da entidade e é designada por uma variedade de nomes, tais como vendas, honorários, juros,
dividendos, royalties, aluguéis.” E ainda segundo o pronunciamento do CPC, extraído também de
FIPECAFI (2017, pag. 50) “a definição de despesas abrange tanto as perdas quanto as despesas
propriamente ditas que surgem no curso das atividades usuais da entidade (...) incluem, por exemplo,
o custo das vendas, salários e depreciação (...) tomam a forma de desembolso e redução de ativos.”

O resultado auferido em determinado exercício é constantemente usado como medida de


desempenho da empresa, por meio de indicadores os quais serão melhor discutidos posteriormente,
mas dado que o lucro representa o principal fator de continuidade de uma entidade, a acurácia na
construção da DRE é de suma importância para os gestores e sócios. É sobre o Lucro que incide
também a Contribuição Social e o Imposto de Renda a ser pago em determinado exercício. Além
disso, é por meio do lucro apurado na DRE que incidirão os dividendos a pagar aos sócios no
próximo exercício.

É muito importante diferenciar o conceito de despesas do conceito de custos. Os custos são os gastos
que a empresa gerou e estão diretamente ligados ao processo produtivo, e as despesas são os gastos
gerados, mas que não estão ligados diretamente ao processo produtivo. Por exemplo, em uma
indústria, todo o salário do pessoal que trabalha na produção é custo, mas o salário dos funcionários
da parte administrativa é considerado uma despesa.

A primeira conta que aparece na DRE é a conta Receita Operacional Bruta. Esta conta demonstra
todo o montante de receita operacional gerado pela empresa durante um exercício social, ou seja,
todas as vendas de produtos ou serviços prestados pela empresa.
Da Receita Operacional Bruta, devem-se deduzir todos os descontos concedidos nas vendas e todas
as devoluções de produtos, além disso, também se devem deduzir todos os impostos gerados nas
vendas das mercadorias ou dos serviços prestados. Os impostos que incidem sobre as vendas de
mercadorias são IPI (Imposto sobre Produto Industrializado), ICMS (Imposto sobre Circulação de
Mercadorias e Serviços), ISS (Imposto sobre Serviços de qualquer natureza), PIS (Programa de
Interação Social) e COFINS (Contribuição para Seguridade Social). A receita operacional bruta
menos as deduções da receita geram a Receita Operacional Líquida, conforme figura 6.

Receita Bruta de Vendas


(-) Tributos sobre as vendas, devoluções e abatimentos
Receita Líquida de Vendas

Da receita operacional líquida são deduzidos todos os custos gerados no processo produtivo, ou no
serviço prestado de uma empresa. O resultado da subtração da receita operacional líquida com os
custos do produto vendido dá origem ao primeiro lucro demonstrado na DRE, o qual é o Lucro
Bruto.

Receita Bruta de Vendas


(-) Tributos sobre as vendas, devoluções e abatimentos
Receita Líquida de Vendas
(-) Custo dos Produtos Vendidos
= Lucro Bruto

Do Lucro Bruto serão deduzidas todas as despesas operacionais, como Despesas com Vendas e
Despesas Administrativas, e pode haver o acréscimo de Resultado de Equivalência Patrimonial (que
é a receita adquirida por meio da atualização do valor contábil do investimento feito pela sociedade
investidora no patrimônio líquido da sociedade investida) e ainda outras receitas e/ou despesas
operacionais oriundas de vendas de ativos imobilizados da companhia, para então ser gerado o Lucro
Antes das Despesas e Receitas Financeiras.
Receita Bruta de Vendas
(-) Tributos sobre as vendas, devoluções e abatimentos
Receita Líquida de Vendas
(-) Custo dos Produtos Vendidos
= Lucro Bruto
(-) Despesas com Vendas
(-) Despesas Administrativas
(+/-) Outras Receitas/Despesas Operacionais
(+) Resultado de Equivalência Patrimonial
= Lucro Antes das Receitas e Despesas Financeiras

Deste Lucro serão subtraídas as Despesas Financeiras (que são os juros pagos por movimentações
creditícias, descontos concedidos a cliente por antecipação de pagamento, tarifas bancárias e correção
monetária de aplicações) e somadas as Receitas Financeiras (resultado de juros ganhos pela empresa
em aplicações financeiras).

O resultado será o Lucro Antes do Imposto de Renda, o qual haverá a incidência do Imposto de
Renda e Contribuição Social já calculados no Livro de Apuração do Luro Real, para, por fim se
apurar o lucro ou prejuízo do exercício.

Receita Bruta de Vendas


(-) Tributos sobre as vendas, devoluções e abatimentos
Receita Líquida de Vendas
(-) Custo dos Produtos Vendidos
= Lucro Bruto
(-) Despesas com Vendas
(-) Despesas Administrativas
(+/-) Outras Receitas/Despesas Operacionais
(+) Resultado de Equivalência Patrimonial
= Lucro Antes das Receitas e Despesas Financeiras
(+) Receitas Financeiras
(-) Despesas Financeiras
= Lucro Antes dos Tributos sobre o Lucro
(-) Tributos sobre o Lucro
= Lucro Líquido do Período

*Veja a videoaula sobre a Demonstração de Resultado de Exercício e o Exemplo 2 de Balanços


Sucessivos, no AVA Moodle.

Veja também a videoaula sobre Contas Redutoras do Balanço Patrimonial.


2.2 Demais relatórios financeiros

As demonstrações construídas por meio dos dados gerados na contabilidade são o Balanço
Patrimonial e a Demonstração de Resultado do Exercício. Todas as demais demonstrações/relatórios
contábeis/financeiros são oriundas do BP e da DRE.

2.2.1. Demonstração do Resultado Abrangente

De acordo com FIPEAFI (2017, pag. 4), o resultado abrangente “é a mutação que ocorre no
patrimônio líquido durante um período que resulta de transações e outros eventos que não derivados
de transações com os sócios na sua qualidade de proprietário” sendo desta forma, as mutações que
ocorrem no lucro ou prejuízo da companhia que eram reconhecidos, temporariamente, na
Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido.

2.2.2 Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) ou dos Lucros e Prejuízos
Acumulados (DLPA)

A Lei das Sociedades por ações aceita a publicação de uma ou outra, mas a DMPL é mais
abrangente que a DLPA, como já citado anteriormente. A DMPL demonstra todas as mudanças
ocorridas nas diversas contas do Patrimônio Líquido, complementando assim as informações já
fornecidas pelo BP e pela DRE.

2.2.3. Demonstração das Origens e Aplicações de Recursos (DOAR)

A DOAR não é mais uma demonstração obrigatória, mas muitas empresas a divulgam a título
e transparência, evidenciando as mudanças ocorridas no Capital Circulante Líquido da empresa,
sendo este os ativos de curto prazo subtraídos dos passivos de curto prazo, demonstrando desta
forma, se há ou não folga financeira nos recursos de curto prazo.

2.2.4 Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC)

A DFC evidencia as movimentações das disponibilidades de uma entidade durante certo


período de tempo. Esta demonstração também é obrigatória e está divida em três grandes grupos de
saídas e entradas de caixa: as derivadas das atividades operacionais, das atividades de investimento e
das atividades de financiamento.
2.2.5 Demonstração do Valor Adicionado (DVA)

Esta demonstração é obrigatória apenas para empresa de capital aberto. A DVA expressa a
riqueza obtida pela empresa e sua forma de distribuição. Essa riqueza, no entanto, não significa o
Lucro da entidade, o qual já é evidenciado na DRE, mas sim a riqueza econômica geradas pelas
diversas atividades da empresa e sua distribuição aos itens que contribuíram para sua formação.

De acordo com o CPC – 09, “demonstra a riqueza criada pela empresa, medida pela diferença
entre o valor das vendas e os insumos adquiridos de terceiros. Inclui também o valor adicionado
recebido em transferência, ou seja, produzidos por terceiros e transferido pela entidade.”

*Veja a videoaula sobre a Demonstração do Fluxo de Caixa, no AVA Moodle.

Assista também a videoaula sobre as Demonstrações Financeiras da Natura S.A, em que serão
apresentadas as demais demonstrações financeiras citadas neste material.

Referências Bibliográficas

MARION, J. C. Contabilidade Básica. 11ª Edição. São Paulo: Atlas, 2015a.

MARION, J. C. Contabilidade Empresarial. 17ª Edição. São Paulo: Atlas, 2015b.

FIPECAFI. Manual de Contabilidade Societária. 2ª Edição. São Paulo: Atlas, 2017.