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O ESSENCIAL PARA OS EXAMES DE FILOSOFIA

Tema 1
Liberdade e determinismo

QUADRO ESQUEMÁTICO 1

Problema: Qual das crenças é verdadeira, o determinismo ou o livre-arbítrio?


A resposta do determinismo radical

Crença no determinismo Crença no livre-arbítrio Crença na responsabilidade


moral

Verdadeira Falsa Falsa

1. Todos os acontecimentos, sem exceção, Se todas as ações são o Se não há ações livres, não
são causalmente determinados por desfecho inevitável de podemos ser responsabilizados
acontecimentos anteriores. causas anteriores, não há pelo que fazemos.
ações livres.
2. As escolhas e ações humanas são
acontecimentos.

3. Logo, todas as escolhas e ações


humanas são causalmente determinadas
por acontecimentos anteriores.

O determinismo radical é a teoria que só reconhece como verdadeira a crença no determinismo. Todos
os acontecimentos são o resultado inevitável de causas anteriores.

QUADRO ESQUEMÁTICO 2

Problema: Qual das crenças é verdadeira, o determinismo ou o livre-arbítrio?

A resposta do libertismo
Crença no determinismo
Crença no livre-arbítrio Crença na responsabilidade moral

Falsa Verdadeira Verdadeira

1. Nem todos os acontecimentos Se nem todos os acontecimentos Se há ações livres, então podemos ser
são causalmente determinados são o desfecho inevitável de causas responsabilizados pelo que fazemos.
por acontecimentos anteriores anteriores, então há ações livres.

2. As ações humanas são


acontecimentos.

3. Logo, há ações humanas


desligadas do encadeamento
causal e que dão origem a uma
nova série de acontecimentos.

O libertismo é a teoria que só reconhece como verdadeira a crença no livre-arbítrio porque não aceita o
determinismo universal – que todo o acontecimento seja o resultado necessário e inevitável de causas
anteriores.
QUADRO ESQUEMÁTICO 3
Problema: Qual das crenças é verdadeira, o determinismo ou o livre-arbítrio?
A resposta do determinismo moderado

Crença no determinismo Crença no livre-arbítrio Crença na responsabilidade


moral

Verdadeira Verdadeira Verdadeira


1. Todos os acontecimentos, sem 1. Todas as ações são determinadas Se há ações livres, podemos
exceção, são causalmente por causas anteriores. ser responsabilizados pelo
determinados por acontecimentos 2. As ações cujas causas são forças que fazemos.
anteriores externas ao sujeito que age são
2. As escolhas e ações humanas são ações compelidas ou constrangidas.
acontecimentos. 3. Há ações cujas causas são estados
3. Logo, todas as escolhas e ações internos do sujeito (crenças e
humanas são causalmente desejos).
determinadas por acontecimentos 4. Ações que não derivam da força de
anteriores. fatores externos são ações livres.
5. Há ações unicamente causadas por
desejos, motivos, crenças ou outros
estados internos do sujeito que age.
6. Logo, há ações livres.
TEMA 2
RELATIVISMO MORAL, OBJETIVISMO MORAL E SUBJETIVISMO MORAL

SÍNTESE
QUESTÕES O relativismo cultural O objetivismo moral O subjetivismo moral

HÁ VERDADES MORAIS? Sim. Sim. Sim.

O relativismo cultural defende Há verdades morais que Mas essa verdade é


que cada cultura considera valem por si. puramente subjetiva.
verdadeiros certos juízos de Depende do modo
valor morais. Há uma como cada pessoa vê
diversidade de verdades ou sente as coisas.
morais.

HÁ VERDADES MORAIS Não. Sim. Não.


OBJETIVAS E UNIVERSAIS?
Uma proposição como «Matar Há verdades morais que No que respeita aos
é errado» é verdadeira para valem por si, são valores e práticas
certas sociedades e culturas e independentes do que morais, ninguém está
falsa para outras. Em si cada cultura pensa e do objetivamente certo
mesma, nenhuma proposição que cada indivíduo sente. ou objetivamente
moral – nenhum juízo de valor No que respeita aos errado.
moral – é falsa ou verdadeira. valores e práticas morais,
Verdadeiro ou correto é igual é errado pensar que
a aprovado ou valorizado pela ninguém está
maioria. objetivamente certo ou
objetivamente errado.
ALGUMA SOCIEDADE É Não. Não. Não.
PROPRIETÁRIA DA
Nenhuma sociedade ou Havendo verdades Cada pessoa responde
VERDADE EM ASSUNTOS
cultura tem legitimidade para objetivas, podemos às questões morais
MORAIS?
«dar lições de moral» a outra. considerar como certas ou com base no seu
Cada uma define o que é certo erradas certas práticas código moral pessoal
e não pode estar
ou errado de forma autónoma morais de certas culturas
errado se for sincero.
e soberana. ou de indivíduos. A moral
Não admite que a
é a mesma para todos e
moral seja a mesma
não depende de crenças
para todos. É
culturais ou de
moralmente incorreto
sentimentos.
que alguém – outro
indivíduo ou uma
sociedade – tente
impor as suas
conceções morais
porque ninguém
possui a verdade
absoluta sobre estes
assuntos. Não há
princípios e normas
morais, a não ser os
que cada indivíduo
escolhe para si
mesmo.

TEMA 3
AS ÉTICAS DE KANT E DE MILL
1. A TEORIA ÉTICA DE KANT

TIPOS DE AÇÕES SEGUNDO KANT

Ações contrárias ao Ações em conformidade Ações feitas por dever


dever com o dever

Ações que violam o Ações que cumprem o Ações que cumprem o dever
dever dever não porque é porque é correto fazê-lo. O
correto fazê-lo, mas cumprimento do dever é o único
Ex.: Matar, roubar, porque daí resulta um motivo em que a ação se baseia. A
mentir. benefício ou a satisfação intenção de cumprir o dever não
de um interesse. está associada a outras intenções, é
a única intenção.
Ex.: Não roubar por receio
de ser castigado. Ex.: Não roubar porque esse ato é
errado.
AS ÚNICAS AÇÕES MORALMENTE BOAS

As únicas ações moralmente boas são as ações feitas por dever. Agir por dever significa
reconhecer que há deveres absolutos como não roubar, não mentir e não matar.

AGIR POR DEVER É CUMPRIR O QUE A LEI MORAL EXIGE

Quem apresenta este princípio «Age por dever!» à minha vontade? A razão.

Que nome dá Kant ao princípio ético fundamental que exige que eu cumpra o dever
sempre por dever, sem qualquer outra intenção ou motivo? Kant dá-lhe o nome de lei
moral.

As ações feitas por dever são assim ações que cumprem o que a lei moral exige.

REPEITAR A LEI MORAL É CONSIDERAR QUE O SEU CUMPRIMENTO É UM IMPERATIVO


CATEGÓRICO.

Ouvir a voz da lei moral é ficar a saber como cumprir de forma moralmente correta o dever.
Essa lei diz-nos de forma muito geral o seguinte: «Deves em qualquer circunstância cumprir
o dever pelo dever, sem segundas intenções». O cumprimento do dever é uma ordem
incondicional, não depende de condições ou de interesses. Devemos ser honestos porque
esse é o nosso dever e não porque é do nosso interesse.
Pense em normas morais como «Não deves mentir», «Não deves matar», «Não deves
roubar». A lei moral, segundo Kant, diz-nos como cumprir esses deveres, qual a forma
correta de os cumprir. Assim sendo, é uma lei puramente racional e puramente formal. Não
é uma regra concreta como «Não matarás!», mas um princípio geral que deve ser seguido
quando cumpro essas regras concretas que proíbem o roubo, o assassinato, a mentira, etc.

O que é um imperativo categórico O que é um imperativo hipotético

Um imperativo categórico é um Um imperativo hipotético é um


princípio que: princípio que:

– Ordena que se cumpra o dever ‒ Transforma o cumprimento do dever


sempre por dever, ou seja, numa ordem condicionada pelo que
ordena que a vontade cumpra o de satisfatório ou proveitoso pode
dever exclusivamente motivada resultar do seu cumprimento.
pelo que é correto fazer.
As ações baseadas num imperativo
‒ Ordena que se aja por dever. hipotético são:

‒ Ordena que sejamos imparciais ‒ Ações conformes ao dever, feitas a


e desinteressados, agindo pensar nas consequências ou
segundo máximas que todos resultados de fazer o que é devido.
podem adotar.
‒ As ações que cumprem o dever com
‒ Ordena que respeitemos o valor base em interesses e por isso seguem
absoluto de cada ser racional máximas que não podem ser
nunca o reduzindo à condição de universalizadas.
meio que nos é útil.
‒ As ações que não respeitam
«Deves ser honesto porque esse é absolutamente o que somos enquanto
o teu dever!» seres humanos.

«Deves ser honesto se quiseres ficar


bem visto perante os vizinhos do teu
bairro.»
AS FORMULAÇÕES MAIS IMPORTANTES DO IMPERATIVO CATEGÓRICO

Fórmula da lei universal Fórmula da Humanidade


Age apenas segundo uma
Age de tal maneira que uses a
máxima tal que possas querer ao
humanidade, tanto na tua pessoa
mesmo tempo que se torne lei como na pessoa de outrem, sempre e
universal. simultaneamente como fim e nunca
apenas como meio.

Imagine que uma pessoa com Quem pede dinheiro emprestado sem
problemas financeiros decide pedir intenção de o devolver está a tratar a
dinheiro emprestado. Sabe que não pessoa que lhe empresta dinheiro como um
pode devolver o dinheiro que lhe for meio para resolver um problema e não
emprestado, mas prometê-lo – como alguém que merece respeito,
mentir – é a única forma de obter consideração. Pensa unicamente em utilizá-
aquilo de que precisa. A máxima da la para resolver uma situação financeira
ação poderia enunciar-se assim «Se grave sem ter qualquer consideração pelos
isso servir os teus interesses, não interesses próprios de quem se dispõe a
devolvas dinheiro emprestado ao ajudá-lo.
seu Sempre que fazemos da satisfação dos
dono». A referida pessoa não pode nossos interesses a finalidade única da
querer sem contradição universalizar nossa ação, não estamos a ser imparciais, e
a exceção que abriu para si própria a máxima que seguimos não pode ser
porque se tornará exceção para universalizada. Assim sendo, estamos a
todos. Se todos nós fizéssemos usar os outros apenas como meios, simples
promessas com a intenção de não as instrumentos que utilizamos para nosso
cumprir, todos desconfiaríamos proveito.
delas, e o empréstimo de dinheiro Esta fórmula não fala só de respeitar os
baseado em promessas acabaria. A outros. Diz que nenhum ser humano se
prática de fazer e de aceitar deve tratar a si mesmo apenas como um
promessas desapareceria. A máxima meio. A prostituição, o masoquismo são
referida autodestrói-se ao ser exemplos de violação desta norma, mas,
universalizada porque ninguém mesmo quando desrespeitamos
poderá agir de acordo com ela. diretamente os direitos dos outros, como
no caso da escravatura, da violação, do
roubo e da mentira, estamos também a
abdicar da nossa dignidade.
AUTONOMIA HETERONOMIA
Caraterística de uma vontade que Caraterística de uma vontade que não cumpre
cumpre o dever pelo dever. o dever pelo dever. Quando o cumprimento do
Quando o cumprimento do dever dever não é motivo suficiente para agir tendo
é motivo suficiente para agir, a de se invocar razões externas como o receio
vontade não se submete a outra das consequências, o temor a Deus, etc., a
autoridade que não a razão. vontade submete-se a autoridades que não a
razão.
Quando decido
Por isso, a sua ação é heterónoma, incapaz de
independentemente de quaisquer
respeitar incondicionalmente o dever. Todas as
interesses, isto é, quando sou éticas de tipo consequencialista são, para Kant,
imparcial e adoto uma perspetiva heterónomas, reduzem a moralidade a um
universal, obedeço a regras que conjunto de imperativos hipotéticos.
criei ao mesmo tempo para mim e
para todos os seres racionais.
Uma vontade autónoma é uma
vontade puramente racional, que
faz sua uma lei da razão, que diz a
si mesma «Eu quero o que a lei
moral exige». Ao agir por dever,
obedeço à voz da minha razão e
nada mais.

O QUE É UMA BOA VONTADE

É uma vontade que age de forma moralmente correta.


É uma vontade que cumpre o dever respeitando absolutamente a lei moral, ou seja,
cuja única intenção é cumprir o dever.
É uma vontade que age segundo regras ou máximas que podem ser seguidas por
todos porque não violam os interesses de ninguém.

É uma vontade que respeita todo e qualquer ser humano considerando-o uma
pessoa e não uma coisa ou um meio ao serviço deste ou daquele interesse.
É uma vontade autónoma porque decide cumprir o dever por sua iniciativa e não
por receio de autoridades externas ou da opinião dos outros.

UM EXEMPLO ILUSTRATIVO DO QUE É PARA KANT AGIR CORRETAMENTE


Imagine que um grupo de terroristas se apodera de um avião em Berlim. Os seus
passageiros e tripulantes ficam reféns. Contudo, os terroristas propõem libertá-los
se um cidadão local que eles consideram envolvido em atividades antiterroristas
lhes for entregue para ser morto. Se as autoridades da cidade não colaborarem no
prazo de quatro horas, ameaçam fazer explodir o aparelho com todas as pessoas lá
dentro. As autoridades locais sabem que o cidadão em causa não cometeu o menor
crime durante a sua vida e que os terroristas estão enganados, pois não participou
na morte de membros do grupo de que agora dele se quer vingar. Não obstante,
sabem que será vã a tentativa de convencer os terroristas de que estão enganados.
Após longa deliberação, decidem entregar o referido cidadão aos terroristas que
libertam os reféns e matam quem queriam matar.

Posição de Kant

A ação é moralmente incorreta

Justificação

1. Há atos intrinsecamente errados (errados em si mesmos, apesar de poderem ter


boas consequências) que é nosso dever evitar e atos intrinsecamente corretos que
é nosso dever realizar. Certos deveres constituem uma obrigação moral, sejam
quais forem as consequências. Que deveres absolutos são esses? Eis alguns: «Não
matar», «Não roubar», «Não mentir». Por insistir em que há deveres absolutos, a
ética kantiana é considerada deontológica.

2. Viola-se o imperativo categórico de respeitar absolutamente a pessoa humana.


Transforma-se uma vida em meio para atingir um fim que é a salvação de outras
vidas humanas. É evidente que as autoridades que decidem entregar o cidadão aos
terroristas estão a tratá-la como um meio para resolver um problema e não como
alguém que merece respeito, consideração. Pensam unicamente em utilizá-lo para
resolver uma situação grave sem ter qualquer consideração pelo seu interesse
próprio. Para Kant, uma vida humana não é mais valiosa do que outra, nem várias
vidas humanas valem mais do que uma. Devido a esta ideia, a ética kantiana é
frequentemente denominada ética do respeito pelas pessoas.
2. A ÉTICA DE MILL

TEORIA ÉTICA CONSEQUENCIALISTA


As consequências de uma ação é que determinam se é moralmente correta ou
incorreta.

TEORIA ÉTICA HEDONISTA

Todas as atividades humanas têm um objetivo último, isto é, são meios para uma
finalidade que é o ponto de convergência de todas. Esse fim é a felicidade ou bem-
estar. Mais propriamente, procuramos em todas as atividades a que nos dedicamos
viver experiências aprazíveis e evitar experiências dolorosas ou desagradáveis. Esta
perspetiva que identifica a felicidade com o prazer ou o bem-estar tem o nome de
hedonismo. Mas trata-se da felicidade geral e não da individual.

O CRITÉRIO DA MORALIDADE DE UMA AÇÃO

Segundo Mill, a utilidade é o que torna uma ação moralmente valiosa. O critério da
moralidade de um ato é o princípio de utilidade. Este princípio é o teste da
moralidade das ações. Uma ação deve ser realizada se e só se dela resultar a
máxima felicidade possível para as pessoas ou as partes que por ela são afetadas. O
princípio de utilidade é por isso conhecido também como princípio da maior
felicidade. A ideia central do utilitarismo é a de que devemos agir de modo a que
da nossa ação resulte a maior felicidade ou bem-estar possível para as pessoas por
ela afetadas. Uma ação boa é a que é mais útil, ou seja, a que produz mais
felicidade global ou, dadas as circunstâncias, menos infelicidade. Quando não é
possível produzir felicidade ou prazer, devemos tentar reduzir a infelicidade.
Costuma-se resumir o princípio de utilidade mediante a fórmula «A maior
felicidade para o maior número». Esta fórmula foi cunhada por Francis Hutchinson
e não aparece tal e qual nos escritos de Mill.

MORALMENTE INCORRETO/MORALMENTE CORRETO


Ação moralmente Ação moralmente incorreta
correta
A ação que tem más consequências ou, dadas
A ação que tem boas consequências ou, as circunstâncias, piores consequências do que
dadas as circunstâncias, melhores ações alternativas
consequências do que ações alternativas.

O que é uma ação com boas consequências O que é uma ação com más consequências

‒ Ação cujos resultados contribuem para um ‒ Ação cujos resultados não contribuem para
aumento da felicidade (bem-estar) ou um aumento da felicidade (bem-estar) ou
diminuição da infelicidade do maior número diminuição da infelicidade do maior número
possível de pessoas por ela afetadas. possível de pessoas por ela afetadas.

‒ Ação subordinada ao princípio de ‒ Ação egoísta em que a felicidade do maior


utilidade. número não é tida em conta ou em que só o
meu bem-estar ou satisfação é procurado.
‒ Ação que não se subordina ao princípio de
utilidade.

NÃO HÁ DEVERES ABSOLUTOS

Para o utilitarista, as ações são moralmente corretas ou incorretas conforme as


consequências: se promovem imparcialmente o bem-estar, são boas. Isto quer dizer que não
há ações intrinsecamente boas. Só as consequências as tornam boas ou más. Assim sendo,
não há, para o utilitarista, deveres que devam ser respeitados sempre e em todas as
circunstâncias. Se, para a ética kantiana, alguns atos como matar, roubar ou mentir são
absolutamente proibidos mesmo que as consequências sejam boas, para Mill justifica-se, por
vezes, matar, deixar morrer, roubar ou mentir.
O PRINCÍPIO DE UTILIDADE E AS NORMAS MORAIS VIGENTES
As normas morais comuns estão em vigor em muitas sociedades por alguma razão.
Resistiram à prova do tempo, e em muitas situações fazemos bem em segui-las nas nossas
decisões. Contudo, não devem ser seguidas cegamente. Nas nossas decisões morais,
devemos ser guiados pelo princípio de utilidade e não pelas normas ou convenções
socialmente estabelecidas. Dizer a verdade é um ato normalmente mais útil do que
prejudicial, e por isso a norma «Não deves mentir» sobreviveu ao teste do tempo. Segui-la é
respeitar a experiência de séculos da humanidade. Mas há situações em que não respeitar
absolutamente uma determinada norma moral e seguir o princípio de utilidade terá
melhores consequências globais do que respeitá-la.
FELICIDADE GERAL E FELICIDADE INDIVIDUAL
A minha felicidade não é mais importante do que a felicidade dos outros. O utilitarismo de
Mill não defende que tenhamos de renunciar à nossa felicidade, a uma vida pessoal em
nome da felicidade do maior número. Trata-se através da educação segundo o princípio de
utilidade de abrir um espaço amplo para que a inclinação para o bem geral se sobreponha
com frequência cada vez maior ao egoísmo. O princípio da maior felicidade em Mill exige
que cada indivíduo se habitue a não separar a sua felicidade da felicidade geral sem deixar
de ter projetos, interesses e vida pessoal.
UM EXEMPLO ILUSTRATIVO DA TEORIA ÉTICA DE MILL

Imagine que um grupo de terroristas se apodera de um avião em Berlim. Os seus passageiros


e tripulantes ficam reféns. Contudo, os terroristas propõem libertá-los se um cidadão local
que eles consideram envolvido em atividades antiterroristas lhes for entregue para ser
morto. Se as autoridades da cidade não colaborarem no prazo de quatro horas, ameaçam
fazer explodir o aparelho com todas as pessoas lá dentro. As autoridades locais sabem que o
cidadão em causa não cometeu o menor crime durante a sua vida e que os terroristas estão
enganados, pois não participou na morte de membros do grupo que agora dele se quer
vingar. Não obstante, sabem que será vã a tentativa de convencer os terroristas de que
estão enganados. Após longa deliberação, decidem entregar o referido cidadão aos
terroristas, que libertam os reféns e matam quem queriam matar.

Posição de Mill
Ação moralmente correta

Justificação

Há que ter em conta a ação que produziria mais felicidade global. O que produz mais
infelicidade? Deixar morrer um inocente ou deixar eventualmente morrer dezenas de
inocentes? Quantas famílias não ficariam enlutadas caso não se cedesse às pretensões dos
terroristas? Para Mill, justifica-se, por vezes, matar, deixar morrer, roubar ou mentir. Nenhum
desses atos é intrinsecamente errado e, por isso, os deveres que proíbem a sua realização não
devem ser considerados absolutos. Deve notar-se que estamos a referir-nos a um caso
dramático em que as alternativas – permitir a morte de um ou permitir a morte de muitos –
são ambas repugnantes. Mas há que optar e, segundo Mill, seguir um princípio como
«Cumpre o dever por dever» é vago.
COMPARAÇÃO ENTRE AS ÉTICAS DE KANT E DE MILL

QUESTÕES RESPOSTA DE KANT RESPOSTA DE MILL

As consequências são o que Não. A minha ética não é Sim. A minha ética é
mais conta para decidir se uma consequencialista. consequencialista.
ação é ou não moralmente
boa?
A intenção é o critério ou fator Sim. A minha ética considera boa a Não. O fator que decide se uma
decisivo para avaliar se uma ação cuja máxima exprime a intenção ação é boa ou não é o que dela
ação é moralmente boa? de cumprir o dever pelo dever. A resulta. As consequências são o
intenção de fazer o que é devido sem critério decisivo da moralidade de
outro motivo que não o do um ato. A intenção diz respeito ao
cumprimento do dever é a única coisa caráter do agente e não à qualidade
que torna uma ação boa. A moralidade moral da ação. Se uma ação é
consiste em cumprir o dever pelo motivada pela vontade de obter o
dever. A minha ética é deontológica. melhor resultado possível mas tem
más consequências, diremos que,
apesar de o agente ser bom, a ação
não é boa.
Há ações boas em si mesmas, Sim. O valor moral de uma ação Não. Não podemos dizer que uma
isto é, que tenham um valor depende da máxima que o agente ação é boa ou má antes de
intrínseco? adota, sendo independente das olharmos para as suas
consequências, efeitos ou resultados consequências.
do que fazemos.
Há deveres absolutos? Há Sim. Mentir, roubar e matar, por Não, exceto o dever de promover a
normas morais que não exemplo, são atos sempre errados. Há felicidade geral. Há situações em
devemos nunca desrespeitar? normas morais absolutas que que não cumprir certo dever tem
proíbem o assassínio, o roubo, a como consequência um melhor
mentira e que devem ser estado de coisas. Há normas morais
incondicionalmente respeitadas em que se tem revelado úteis para
todas as circunstâncias. organizar a vida dos seres
humanos, mas devemos ter em
conta que nem sempre o seu
cumprimento produz bons
resultados.
Qual é o princípio moral O princípio moral fundamental a O princípio moral fundamental a
fundamental que temos de respeitar é o que exige que nunca respeitar é o princípio de utilidade.
respeitar para que a nossa trate os outros – nem a minha pessoa Exige que das nossas ações resulte
ação seja moralmente boa? – como meio ou instrumento útil para a maior felicidade possível para o
um certo fim. Respeitar a nossa maior número possível de pessoas.
humanidade eis o princípio É também conhecido como
incondicional. Para isso ser possível, princípio da maior felicidade
devo agir segundo máximas que possível. A minha ética é
possam ser seguidas pelos outros, isto consequencialista e utilitarista.
é, que possam ser universalizadas.
Há valores absolutos? Sim. A dignidade da pessoa humana é Sim. O único valor absoluto é a
um valor absoluto. Nenhuma ação felicidade entendida como prazer.
pode ser boa se desrespeita esse valor Todas as outras coisas só têm valor
absoluto. A boa vontade é a vontade se produzirem felicidade.
de nunca violar a dignidade absoluta e
incondicional da pessoa humana.
Maximizar o bem-estar ou a Não. Não é obrigatório e muitas vezes Sim. Se o valor moral das ações
felicidade é obrigatório? não é permissível. Porquê? Porque há depende da sua capacidade para
direitos das pessoas que são absolutos. maximizar o bem-estar dos agentes
Os deveres absolutos de que falo são afetados pelas consequências de
restrições que impõem limites à uma ação, então obter esse
instrumentalização dos indivíduos em resultado é obrigatório, mesmo que
nome do bem-estar geral. A minha por vezes isso implique a violação
ética é deontológica porque o de algum direito. A minha ética não
respeito absoluto pelos direitos da é deontológica porque não admite
pessoa humana implica que haja que haja deveres absolutos que
deveres absolutos ou coisas que é impõem restrições ao que é
absolutamente proibido fazer. possível fazer. A minha ética
centra-se no bem-estar geral que
das ações pode resultar, e
maximizar esse bem-estar é a única
obrigação moral.
O que é a felicidade? É o fim A felicidade é um bem, mas não deve A felicidade é o objetivo
ou objetivo último das ações influenciar as nossas escolhas morais. fundamental da ação moral,
humanas? O fim último da ação moral é o embora não se trate da felicidade
respeito pela pessoa humana, pelo individual nem da felicidade que se
valor absoluto que a sua traduza na redução do bem-estar
racionalidade lhe confere. da maioria das pessoas a quem a
ação diz respeito.
O que é o egoísmo? O egoísmo, impedindo ações O egoísmo é condenável porque
desinteressadas e imparciais, é o impede que se tenha em vista um
grande inimigo da moralidade. fim objetivo, que é a maior
felicidade para o maior número
possível de pessoas.
TEMA 4
O PROBLEMA DA JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO

COMPARAÇÃO ENTRE HOBBES E LOCKE


QUESTÕES HOBBES LOCKE
O Estado é uma instituição Não. Apesar de se poder reconhecer Não. Apesar de se poder reconhecer nos seres
natural? nos seres humanos a aptidão para humanos a aptidão para viverem em
viverem em sociedade, o Estado é uma sociedade, o Estado é uma construção
construção humana, algo que impomos humana, algo que impomos à nossa natureza.
à nossa natureza.

O que é o estado de É uma condição da vida humana É uma condição da vida humana marcada pela
natureza? marcada pela possibilidade que cada possibilidade que cada um tem de fazer justiça
um tem de fazer justiça por suas mãos. pelas suas mãos.
O estado de natureza é uma Não porque é a guerra de todos contra Não porque tende a ser a guerra de alguns
condição satisfatória? todos. É um estado calamitoso, contra alguns. No estado de natureza, não há
Porquê? anárquico, em que, ameaçada pela leis escritas ou órgãos – tribunais, forças da
possibilidade que cada um tem de fazer ordem – que controlem e resolvam os
justiça por suas mãos, a vida humana é conflitos entre os seres humanos. Há direitos
curta e incerta. O profundo egoísmo da individuais, mas cada qual interpreta-os e
natureza humana é a raiz de todos os defende-os à sua maneira. Assim, a justiça
males e tem de ser controlado. privada – cada qual fazer justiça por suas
mãos ou fazer o que bem entende – conduz à
insegurança e à injustiça.
O Estado é um bem ou um O Estado é um bem necessário porque O Estado é um bem necessário porque
mal? garante, em princípio, a segurança e garante, em princípio, a proteção da vida, da
protege a vida dos cidadãos. liberdade e da propriedade.

Como se dá a passagem do Os indivíduos transferem para o poder Os indivíduos não abdicam de nenhum dos
estado de natureza à político todos os seus direitos de forma seus direitos naturais mas transferem para o
sociedade política? ilimitada e renunciam à liberdade em Estado e seus órgãos o poder de legislar, de
nome da segurança e proteção das suas executar as leis e de julgar. Em vez de cada
vidas e dos seus bens. Isto porque indivíduo defender perante os outros os seus
nenhum mal é comparável a viver no direitos naturais, delega no Estado esse poder
estado de natureza. atribuindo-lhe a responsabilidade de os
proteger.
A autoridade do Estado tem Em princípio não. Os cidadãos Sim. O contrato social não garante ao
limites? renunciam ao seu direito a todas as governante poder absoluto para fazer o que
coisas, à sua liberdade natural, e bem entender em nome da paz e da
deixam de poder contestar as decisões segurança. Há, para Locke, valores mais
de quem governa, desde que o poder importantes do que a segurança e a ordem. O
absoluto assim criado garanta a paz e a direito à liberdade é um deles. Os cidadãos
segurança. Este é o único dever estrito não renunciam aos direitos individuais
do Estado: manter a ordem e proteger naturais como a liberdade. Só renunciam ao
as vidas que possam ser ameaçadas por direito de aplicarem por si mesmos o direito
forças internas ou externas. A natural de punirem quem desrespeita e viola
segurança e a ordem são os valores esses direitos básicos.
mais importantes.
Os titulares da soberania continuam a ser os
Como Hobbes pensa que a função do cidadãos – o povo. Este delega o exercício do
Estado se deve concentrar na defesa da poder nos governantes, mas, se estes não
nação e na segurança interna. A sua governarem bem, se não respeitarem e
conceção de Estado deixa aos cidadãos garantirem os direitos básicos dos indivíduos,
uma relativa liberdade na esfera serão depostos das suas funções.
económica, havendo assim direito à
propriedade e à iniciativa privada.

O contrato social garante ao


governante poder absoluto para fazer o
que bem entender com vista a
assegurar a paz e a ordem sociais. Só a
sua incapacidade em manter a
segurança e eliminar os conflitos
justifica que seja contestado e deposto.
TEMA 5

O PROBLEMA DA JUSTIÇA SOCIAL

1. Qual é o objetivo da teoria da justiça de Rawls?

O objetivo da teoria política de Rawls é o de conciliar, na medida do possível, igualdade


e liberdade.

Porquê ambas? Porque, se apenas houver liberdade, põe-se em causa a igualdade (uns
indivíduos possuirão sempre mais bens do que outros e os que possuem mais
possuirão sempre mais – a riqueza gera mais riqueza). Se apenas houver igualdade,
põe-se em causa a liberdade (limita-se a liberdade de os indivíduos possuírem mais
bens do que a quantidade de bens que possuem).

2. O que é uma sociedade justa?

É uma sociedade em que:

1. As pessoas são igualmente livres;


2. Não há desigualdades excessivas na distribuição de bens e de riqueza;
3. A posição que cada qual ocupa no que respeita a bens e cargos mais desejados
deriva do seu mérito e empenho, ou seja, cada um de nós é por ela
responsável.

3. A posição que uma pessoa ocupa na sociedade – se é rico, se é pobre, por exemplo
‒ deve depender das suas escolhas e do seu empenho e do seu mérito. Mas não há
obstáculos que podem impedir a realização deste ideal?

Há, sem dúvida. Quando começamos a nossa vida, nem todos estamos em iguais
condições. Uns nascem em meios socioeconómicos mais favoráveis do que outros. Isto
significa que, se a nossa vida social fosse uma corrida, uns partiriam mais à frente do
que outros. As circunstâncias sociais e económicas em que nasci e que eventualmente
me favorecem não são mérito meu. São obra do acaso. Mas prejudicam uns e
beneficiam outros.
4. O que defende Rawls para evitar que as circunstâncias sociais impeçam que o
esforço e o mérito tenham a última palavra? Como combater as desigualdades
devidas a fatores ambientais, como a posição social que detemos em virtude do
nascimento?

Defende o princípio da igualdade de oportunidades. O acesso às profissões mais


valorizadas deve estar ao alcance de todos. Não é justo que, devido a uma condição
económica desfavorável, não possa estudar e realizar o projeto de ser engenheiro,
arquiteto, médico ou outras profissões socialmente mais reconhecidas. Mediante
ajustes institucionais como bolsas de estudo, o Estado deve garantir uma relativa
igualdade na «corrida» às posições sociais mais favoráveis.
Assim, procura neutralizar fatores que impedem que só o mérito, o empenho e a
responsabilidade pessoal sejam decisivos para que alguém atinja os seus objetivos no
plano social.

5. Esclareça em que consiste o princípio da igualdade de oportunidades.

O «princípio da igualdade de oportunidades» significa que cada um deve ter as


mesmas oportunidades de acesso às várias funções e posições sociais. De que
igualdade se trata? De uma igualdade semelhante à que acontece nas corridas de
atletismo. Numa corrida de 400 metros planos, as posições de saída dos atletas são
diferentes. Esta medida tem como objetivo compensar as desigualdades geradas pela
forma da pista, tornando possível a igualdade de condições de saída. Imaginemos a
seleção para postos de trabalho numa empresa. É justo que as posições mais
vantajosas e que os restantes lugares sejam dados aos mais qualificados. Contudo, a
igualdade de oportunidades é mais do que isso. Exige que todos os concorrentes aos
lugares tenham tido a possibilidade de obter qualificação apropriada na escola ou em
qualquer outra instituição e não sejam discriminados pelas circunstâncias sociais (não
sejam prejudicados por fatores como o género, origem cultural ou étnica ou as
condições socioeconómicas).
6. Mas será que a igualdade de oportunidades é suficiente para que se construa uma
sociedade justa? Supondo que há efetiva igualdade de oportunidades, será que isso
resolve o problema da justiça social?
Rawls pensa que não. Não. Porquê? Porque só é justo o resultado que decorre das
escolhas pelas quais somos responsáveis. Se estudamos pouco ou trabalhamos com
pouco empenho, não temos legitimidade para argumentar que não é justa a posição
social em que nos encontramos, dada a igualdade de oportunidades que tivemos. Não
aproveitámos as oportunidades. Mas há outro fator que pode desequilibrar. Qual? Os
dons da natureza. O que há de insuficiente na ideia de justiça social como igualdade
de oportunidades é que se esquece que o sucesso também depende do talento
natural ou dos dons da natureza. As diferenças socioeconómicas devem derivar do
exercício da liberdade individual em condições de igualdade. Ora, o talento natural é
um dom que não decorre da liberdade de escolha. Não somos responsáveis pelos
nossos talentos naturais – grau de inteligência, aptidões musicais, físicas ‒ ou por
limitações físicas e intelectuais herdadas. Sendo assim, na corrida pelas melhores
posições sociais, o talento natural é um elemento perturbador na chegada à «meta».

7. O sucesso social de alguém favorecido pela natureza – elevado QI, força, destreza
– não é merecido, no sentido em que estes dons não são adquiridos, mas oferecidos
pela natureza. Os talentos naturais não foram escolha sua. Foram dons da natureza.
A este respeito, o insucesso dos desfavorecidos pela natureza também não é
merecido. Foi obra do acaso natural e não responsabilidade sua. O que fazer para
que este obstáculo impeça uma injusta desigualdade?

A solução de Rawls é esta: os mais favorecidos têm o direito de usufruir dos bens cuja
aquisição foi favorecida pelo talento natural, desde que compensem os menos
favorecidos por desigualdades que não têm origem no mérito, ou seja, que foram
condicionadas por fatores que não são da sua responsabilidade. Por outras palavras,
posso, em virtude de dons que ninguém me pode subtrair, ganhar mais do que os
outros, ter melhor emprego e melhor estatuto social desde que isso reverta a favor
dos mais desfavorecidos. As pessoas que, em boa parte, devido ao seu talento natural,
acederam às profissões socialmente mais valorizadas e mais bem pagas não devem ser
as únicas a beneficiar com a sua situação. Ronaldo não deve ser o único a beneficiar do
talento e da capacidade que, em grande parte, deriva de a natureza ter sido generosa
com ele. A solução é proceder à redistribuição da riqueza. Os mais favorecidos pela
natureza devem contribuir – impostos ‒ para a melhoria da situação económica dos
que a natureza não beneficiou.

8. O que é o princípio da diferença?


É o princípio que responde à pergunta: «Como combater as desigualdades decorrentes
da sorte e da fortuna genética dos indivíduos?».

Os princípios da liberdade igual e da igualdade de oportunidades são insuficientes para


fundar uma sociedade justa. O princípio da diferença pretende reduzir a amplitude da
diferença de rendimentos e de bens entre indivíduos que esteja fundada na lotaria da
natureza: uns favorecidos em talentos preciosos para triunfar num mundo competitivo
e outros desfavorecidos ou pouco favorecidos nesse aspeto. O princípio da diferença
consiste em admitir na sociedade algumas desigualdades ou diferenças económicas e
sociais, desde que essas mesmas desigualdades possam também beneficiar os mais
desfavorecidos. Se a minha fortuna aumentar e os indivíduos com mais dificuldades
económicas receberem cada um em troca X euros com esta minha ação, então a ação
que possibilitou o aumento da minha fortuna será justa para Rawls. Porquê? Porque
também os mais desfavorecidos beneficiaram com esta minha ação.

9. Será que o princípio da diferença defende o igualitarismo ou a igualdade estrita?

Não. O princípio da diferença não defende o igualitarismo ou a igualdade estrita.


Estipula que os rendimentos e a riqueza devem ser igualmente distribuídos, a não ser
que a desigualdade seja vantajosa para todos os membros da sociedade. Rawls
acrescenta que deve ser vantajosa sobretudo para os menos favorecidos.
10. Vemos que, apesar de querer conciliar liberdade e igualdade, Rawls admite a
desigualdade económica. Porquê?

A desigualdade económica será vantajosa pelas seguintes razões:


1. As pessoas mais talentosas sentirão menos estímulo para trabalhar e produzir se
houver uma distribuição igualitária da riqueza.
2. Menos produção de riqueza implica menos recursos para distribuir e prestar
assistência através de taxas e impostos aos menos favorecidos.
3. As oportunidades dos que têm menos são mais amplas num sistema de distribuição
da riqueza que não é estritamente igualitário – todos a ganhar o mesmo ou
aproximadamente – porque haverá mais recursos disponíveis para que os
desfavorecidos invistam na educação e na formação profissional.

Assim, a desigualdade funciona a favor da redução das desigualdades.

11. O princípio da igual liberdade, da igualdade de oportunidades e da diferença são


os princípios que devem ser seguidos por uma sociedade que queira ser justa. Será
que este modelo de sociedade é, para Rawls, justo?

Sim, Rawls pensa que este modelo económico, social e político é condição necessária
para que se possa falar de sociedade justa ou de justiça social.

12. Como justifica ou defende Rawls a sua tese?

Rawls pensa que este seria o tipo de sociedade que escolheriam pessoas que não
soubessem, no momento de criar uma sociedade, o seguinte:

1. O que seriam (se seriam homens ou mulheres, se pertenceriam a esta ou àquela


etnia, se seriam muito ou pouco inteligentes, dotados de muita força ou fracos, com
muita destreza e habilidade física ou não).

2. Em que meio económico-social iriam nascer (se pobres ou ricos ou pertencentes à


classe média).

3. Que profissão ou estatuto social iriam ter.


Se as pessoas se encontrassem nesta posição original e cobertas por este véu de
ignorância acerca dos seus dotes naturais, da sua condição económica e social futura,
escolheriam os princípios de justiça que Rawls apresentou.

Não iriam escolher uma sociedade em que, por exemplo, um certo grupo racial, uma
certa etnia ou um dado género fossem discriminados. Porquê? Porque, não sabendo
qual vai ser a sua condição, é razoável que queiram uma sociedade em que há
liberdade igual.

Não iriam escolher uma sociedade em que não se defende a igualdade de


oportunidades porque poderiam vir a pertencer a classes desfavorecidas no acesso às
melhores profissões.

Não iriam escolher uma sociedade em que os mais desfavorecidos quer em dotes
naturais quer em meios económicos seriam a bem dizer abandonados à sua sorte ou
ficariam dependentes da compaixão ou boa vontade dos mais favorecidos.

Nesta situação, optaríamos por uma sociedade que assegurasse as liberdades básicas,
nos desse a oportunidade de melhorar a nossa condição social e que impedisse um
fosso gigantesco entre favorecidos e desfavorecidos.

13. O que a posição original?

A posição original é uma situação imaginária ou hipotética de total imparcialidade – as


pessoas pensam no que é justo e não simplesmente no que é pessoalmente vantajoso
– em que pessoas racionais, livres e iguais criam uma sociedade regida por princípios
de justiça. Para que tal imparcialidade se verifique, essas pessoas devem estar
«cobertas» por um «véu de ignorância».

14. O que é o véu de ignorância?

O «véu de ignorância» é o desconhecimento por parte de cada indivíduo da sua


condição social e económica no momento do estabelecimento do contrato social, no
momento em que dão origem a uma determinada forma de sociedade.
15. Qual é a vantagem do «véu da ignorância»?

Vai possibilitar que, devido ao desconhecimento da sua situação social e económica,


os indivíduos exijam uma organização da sociedade que seja dentro dos possíveis a
mais vantajosa e melhor para todos, não inferiorizando qualquer grupo de indivíduos.
Neste sentido, vão exigir que a sociedade promova os valores básicos que permitam a
todos ter uma vida aceitável, designadamente a mesma liberdade para todos e o
mínimo de desigualdades sociais e económicas.

16. O que entende Rawls pelo princípio maximin?

O princípio maximin é uma estratégia de decisão que pessoas razoáveis seguem, numa
situação de incerteza – o véu de ignorância. É a estratégia do menor mal. São
preferíveis princípios de justiça que estejam na base de uma sociedade em que o pior
não será muito inferior a uma sociedade em que, por exemplo, haja muita pobreza e
muita riqueza. A sociedade preferível é aquela em que a pobreza e a riqueza sejam
moderadas. Se escolher uma sociedade em que a pobreza extrema convive com a
riqueza extrema, corro o risco de fazer parte do grupo de pessoas que serão
extremamente pobres.

17. Explicite uma das principais críticas que se faz à teoria de Rawls?

Uma das principais críticas a Rawls é a difícil harmonização entre os princípios da igual
liberdade e da diferença. Em primeiro lugar, pode haver igual liberdade se não houver
igual riqueza? Quem mais bens possui não tem mais liberdade? Maior poder
económico não significa poder fazer mais coisas, sobretudo influenciar as decisões de
quem governa a seu favor? Se isto for verdade, o princípio de diferença, admitindo as
desigualdades económicas, restringe indevidamente o princípio de igual liberdade. Em
segundo lugar, se as pessoas têm igual liberdade de adquirir bens e riqueza, limitar a
quantidade de bens que uma pessoa pode adquirir ou receber restringe a liberdade de
cada indivíduo. Neste caso, uma correta aplicação do princípio da liberdade igual
negaria o princípio de diferença.
OS PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA OU DE UMA SOCIEDADE JUSTA
Princípio da igual liberdade Princípio da igualdade de oportunidades Princípio da diferença

Todos temos direito a Muitas pessoas tiveram a sorte de É injusto que muitos membros de
conduzir as nossas vidas de encontrar boas condições sociais e uma sociedade sejam impedidos,
acordo com a nossa vontade. económicas para conquistarem um lugar por fatores pelos quais não são
Mas a minha liberdade tem confortável ou de destaque na responsáveis, de alcançar os seus
de ser compatível com a dos sociedade. Outras são desfavorecidas ou objetivos.
outros. É injusto que umas pouco favorecidas por nascerem em O principal obstáculo é a
pessoas tenham mais meios sociais e económicos que desigualdade económica, ou seja,
liberdade do que outras. Por impedem o acesso a uma razoável ou condições económicas
isso, cada pessoa deve ter boa posição social. desfavoráveis.
um máximo de liberdade que O princípio da igualdade de Devemos tentar corrigir essa
seja compatível com idêntico oportunidades pretende garantir que desigualdade.
grau de liberdade de todos os apenas o mérito e o esforço pessoal, e Como? Os que tiveram sorte na
outros. não outros fatores, são decisivos para lotaria natural e social e
O princípio da igual liberdade alguém realizar as suas ambições no ascenderam a uma boa posição
para todos refere-se a plano social. No acesso às profissões social e económica devem
liberdades básicas como a mais valorizadas, todos os cidadãos contribuir para benefício dos que
liberdade de voto, de devem, à partida, estar em igualdade de não foram favorecidos. Qual o
associação, de religião, de condições. meio? Os impostos, que permitem
expressão e a direitos como o indiretamente assistir e subsidiar
direito à integridade física, à quem precisa de ajuda para tentar
propriedade e a um melhorar a sua condição social.
tratamento legal justo. Haverá sempre pessoas em melhor
O princípio da liberdade igual situação social do que outras, mas
ou do direito a iguais a todos deve ser dada a
liberdades básicas é o mais oportunidade de melhorar a sua
importante. A promoção da vida.
igualdade de oportunidades O princípio da diferença defende
e a redução da desigualdade que a distribuição da riqueza se
económica não são legítimas deve fazer de forma igualitária,
se violarem o direito à igual exceto se as desigualdades
liberdade. beneficiarem os menos favorecidos
e lhes derem a oportunidade de
melhorar a sua situação. É injusta a
sociedade em que as vantagens
dos mais favorecidos não são
benéficas para mais ninguém.

COMPARAÇÃO ENTRE RAWLS E NOZICK


Questões Rawls Nozick
É uma sociedade que não põe em É uma sociedade que respeita de forma
causa as liberdades básicas iguais absoluta os direitos individuais – direito
para todos nem a igualdade de à liberdade e à propriedade do que se
oportunidades. Para que isto seja recebe e adquire – e permite que os
O que é uma sociedade possível, a desigualdade económica bens de que sou proprietário legítimo
justa? terá de ser controlada para que permaneçam em meu poder, dispondo
possa reverter também a favor dos deles conforme entendo. Uma
mais carenciados. sociedade justa é a que não impõe
qualquer limite legal aos níveis de
desigualdade económica nela
presentes.

Sim. O Estado tem o direito e o Não. O Estado não tem o direito de


dever de tirar a uns para dar a tirar a uns para dar a outros, de forçar
Deve o Estado ter algum
outros ou, por outras palavras, de alguns a contribuírem para a melhoria
papel a desempenhar na
forçar alguns a contribuírem para a do nível de vida de outros. A
promoção e construção de
melhoria do nível de vida de outros. redistribuição da riqueza é uma
uma sociedade justa? Será
violação da liberdade individual. Não é
que é sua função legítima
correto que sejamos obrigados pelo
corrigir as desigualdades
Estado a contribuir para ajudar as
económicas através da
pessoas menos favorecidas.
redistribuição da riqueza
que a sociedade produz?
O Estado deve promover o princípio A justiça social é incompatível com a
da diferença e o princípio da redistribuição da riqueza, seja qual for
Se deve e é indispensável
igualdade de oportunidades. O o critério, por parte de Estado. Este não
que tenha esse papel, como
princípio da diferença consiste em deve interferir na vida económica. Deve
deve proceder para realizar
admitir na sociedade algumas deixar que a distribuição da riqueza se
a justiça social?
desigualdades económicas e sociais, faça de acordo com a sorte e o mérito
desde que essas mesmas individual. Cada indivíduo é titular
desigualdades beneficiar os mais absoluto do que ganha e adquire. O
desfavorecidos. O princípio da direito à propriedade é absoluto, e o
igualdade de oportunidades Estado não tem o direito de cobrar
consiste em garantir a todos os impostos para assistir os
indivíduos as mesmas oportunidades desfavorecidos. Essa cobrança é uma
de acesso aos vários lugares na violação desse direito.
sociedade, independentemente de
ser de raça branca ou negra, rico ou
pobre, homem ou mulher. Desde
que os indivíduos possuam as
mesmas capacidades e
competências, têm as mesmas
possibilidades de acesso a um
emprego. Estes dois princípios
implicam que o direito à
propriedade não é absoluto. Os mais
ricos devem contribuir para
beneficiar todos os outros,
assegurando-lhes, no grau máximo
possível, um nível de vida com um
mínimo razoável de bens básicos
(princípio maximin).
TEMA 6

LÓGICA ARISTOTÉLICA

SILOGISMO CATEGÓRICO PROPOSIÇÕES TÍPICAS DO SILOGISMO


CATEGÓRICO

PM – Todos os portugueses são


europeus.
Tipo A – Universal afirmativa.
Pm – Todos os alentejanos são
Todos os portugueses são
portugueses.
europeus.
C – Logo, todos os alentejanos são Tipo E – Universal negativa.
europeus.
Nenhum alemão é português.
Termo médio – portugueses (termo
das duas premissas). Tipo I – Particular afirmativa.

Termo maior – europeus (predicado Alguns animais são mamíferos.


da conclusão. Acompanha o termo Tipo O – Particular negativa.
médio na premissa maior, que lhe
deve o nome). Alguns animais não são mamíferos.

Termo menor – alentejanos (sujeito


da conclusão. Acompanha o termo
médio na premissa
FORMASmenor, queDOlhe
VÁLIDAS SILOGISMO CATEGÓRICO
deve o nome).
1.ª 2.ª 3.ª 4.ª
FIGURA FIGURA FIGURA FIGURA

AAA EAE AAI AAI

EAE AEE IAI AEE


Modos Válidos

AII EIO AII IAI

EIO AOO EAO EAO

EIO
Regras para avaliar a validade EIO
dos silogismos

OAO
Mod

EAO AEO AEO


os
categóricos

1. Só se admitem três termos e usados sem ambiguidades (a infração desta regra origina
a falácia dos quatro termos ou do equívoco).
2. O termo médio só deve aparecer nas premissas.
3. Os termos maior e menor não podem ter, na conclusão, maior extensão do que nas
premissas. Devem estar distribuídos nas premissas se estiverem distribuídos na
conclusão, ou seja, não podem ser universais na conclusão e particulares nas premissas
(a infração da regra origina a falácia da ilícita maior ou a falácia da ilícita menor).
4. O termo médio deve ter extensão universal – estar distribuído – pelo menos em uma
premissa (a infração da regra origina a falácia do termo médio não distribuído).
5. Premissas afirmativas pedem conclusão afirmativa. (De duas premissas afirmativas
não se pode tirar conclusão negativa.)
6. De duas premissas negativas nada se pode concluir.
7. De duas premissas particulares nada se pode concluir. (O termo médio não é universal
em nenhuma.)
8. A conclusão segue sempre a parte mais fraca: será negativa se houver uma premissa
negativa e particular se houver uma premissa particular.

DEVE DAR ESPECIAL ATENÇÃO ÀS SEGUINTES FALÁCIAS FORMAIS ASSOCIADAS AO


SILOGISMO CATEGÓRICO.

FALÁCIA DOS QUATRO FALÁCIA DA ILÍCITA FALÁCIA DA ILÍCITA FALÁCIA DO TERMO


TERMOS MAIOR MENOR MÉDIO NÃO DISTRIBUÍDO
Comete-se esta falácia Comete-se esta
falácia Comete-se esta falácia Comete-se esta falácia
quando se viola a regra 4:
quando se viola a regra 1: quando se viola parte da quando se viola parte da
O termo médio deve ter
Só pode conter três regra 3 referente ao regra 3 referente ao extensão universal pelo
termos, e cada termo termo maior: O termo termo menor: O termo menos em uma premissa
(o termo médio deve estar
deve ter o mesmo maior não deve ter maior menor não deve ter
distribuído pelo menos
significado ao longo do extensão na conclusão do maior extensão na uma vez).
argumento. que nas premissas (um conclusão do que nas Exemplo desta falácia:
Exemplo desta falácia: termo deve estar premissas. Todos os tablets são
Todos os bancos são distribuído nas premissas Exemplo desta falácia: portáteis.

instituições financeiras. se estiver distribuído – se Todos os leões são seres Todos os telemóveis são
vivos. portáteis.
Algumas peças de for universal – na
mobiliário são bancos. conclusão). Alguns mamíferos não Logo, todos os telemóveis
são leões. são tablets.
Logo, algumas peças de Exemplo desta falácia:
Logo, nenhum mamífero Explicação:
mobiliário são instituições Todos os cães são
é ser vivo.
Portáteis é predicado de
financeiras. mamíferos.
Explicação: duas premissas
Explicação: Nenhum gato é cão. afirmativas pelo que é
Na premissa, mamíferos
Banco tem dois Logo, nenhum gato é particular em ambas.
está quantificado Devia ser universal pelo
significados diferentes, mamífero.
claramente como menos numa delas.
pelo que designa dois Explicação:
particular. Alguns é um
termos diferentes. Na premissa, mamíferos é
predicado de uma quantificador particular.
afirmativa, pelo que é Na conclusão, está
particular. Na conclusão, é
predicado de uma quantificado como
negativa, pelo que é universal, Tem mais
universal. Tem assim mais
extensão na conclusão do extensão na conclusão
que na premissa. do que na premissa.

Notas importantes
1 – Dizer que um termo está distribuído é dizer que tem extensão universal.
2 – O termo médio pode ser universal nas duas premissas. O que não pode é ser particular nas
duas. Tem de ser universal – estar distribuído – pelo menos numa delas.
3 – O termo maior pode ser universal na premissa e na conclusão. Pode ser também particular
na premissa e particular na conclusão. Pode ser igualmente universal na premissa e particular
na conclusão. O que não pode é ser particular na premissa e universal na conclusão.
4 – O termo menor pode ser universal na premissa e na conclusão. Pode ser também
particular na premissa e particular na conclusão. Pode ser igualmente universal na premissa e
particular na conclusão. O que não pode é ser particular na premissa e universal na conclusão.
5 – Nas proposições do tipo E e O – universais negativas e particulares negativas –, o
predicado é sempre universal. Nas proposições do tipo A e I – universais afirmativas e
particulares afirmativas –, o predicado é sempre particular.

AS FALÁCIAS FORMAIS MAIS IMPORTANTES: AS FALÁCIAS DO TERMO MÉDIO NÃO


DISTRIBUÍDO, DA ILÍCITA MAIOR E DA ILÍCITA MENOR
TÉCNICA PARA AS DETETAR
As falácias formais – defeitos na forma do raciocínio – mais importantes na lógica dita
aristotélica são estas:

Termo médio não distribuído Ilícita Maior Ilícita menor


O termo médio não tem O termo maior tem mais O termo menor tem
extensão universal em extensão na conclusão do mais extensão na
nenhuma das premissas. que na premissa. conclusão do que na
premissa.

Considere o seguinte silogismo.

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

Perguntemos: que falácia comete este silogismo?

Comete a falácia da ilícita maior?


Identifiquemos o termo maior. O que define o termo maior é ser o predicado da
conclusão. O termo maior é filósofos.
Vejamos qual a sua extensão quer na premissa quer na conclusão. Vemos que na
primeira premissa – Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico – ele está
quantificado universalmente ou tem extensão universal. Está distribuído.

E na conclusão? Na conclusão – Logo, alguns cientistas são filósofos –, tem extensão


particular. Dizer que alguns cientistas são filósofos equivale a dizer que alguns filósofos
são cientistas. Lembre-se que predicado de proposição afirmativa é, regra geral,
particular.

Assim, o termo maior – filósofos – é universal na premissa e particular na conclusão.


Não se comete portanto a falácia da ilícita maior porque o termo maior não tem mais
extensão na conclusão do que na premissa.

Um problema está resolvido. O termo maior passou no teste. Vamos assinalar esse
facto a verde.

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

Passemos a outro problema. Comete a falácia da ilícita menor?


Identifiquemos o termo menor. O que define o termo menor é ser o sujeito da
conclusão. O termo menor é cientistas.

Vejamos qual a sua extensão quer na premissa quer na conclusão. Vemos que na
segunda premissa – Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas – ele tem
extensão particular. Dizer que algumas pessoas com espírito crítico são cientistas
equivale a dizer que alguns cientistas são pessoas com espírito crítico. Lembre-se que
predicado de proposição afirmativa é, regra geral, particular.

E na conclusão? Na conclusão – Logo, alguns cientistas são filósofos –, tem extensão


particular. O quantificador é «alguns».
Assim, o termo menor – cientistas – é particular na premissa e particular na conclusão.
Não se comete, portanto, a falácia da ilícita menor porque o termo menor não tem
mais extensão na conclusão do que na premissa.

Mais um problema está resolvido. O termo menor passou no teste. Vamos assinalar
esse facto a verde.

Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

Como se perguntou que falácia comete este silogismo, antevê-se que é a falácia do
termo médio não distribuído. É verdade, mas temos que justificar essa afirmação.

Vejamos qual a extensão do termo médio em ambas as premissas. O termo médio é


«pessoas com espírito crítico». Na premissa maior, é particular porque dizer que todos
os filósofos são pessoas com espírito crítico equivale a dizer que algumas pessoas com
espírito crítico são filósofos. Lembre-se que predicado de proposição afirmativa é,
regra geral, particular.
Na premissa menor, o quantificador alguns indica-nos que o termo médio – pessoas
com espírito crítico – está quantificado particularmente, tem extensão particular.
Assim, vemos que o termo médio é particular em ambas as premissas. Ora, devia ser
universal pelo menos em uma. Este silogismo é inválido ou falacioso. O termo médio
não está distribuído ou não tem extensão universal em nenhuma premissa.
O termo médio não passou no teste. Assinalemos esse facto a vermelho.
Todos os filósofos são pessoas com espírito crítico.

Algumas pessoas com espírito crítico são cientistas.

Logo, alguns cientistas são filósofos.

O termo médio pode ser universal nas duas premissas. O que não pode é ser particular
nas duas. Tem de ser universal – estar distribuído – pelo menos em uma delas.

TEMA 7
LÓGICA INFORMAL
1
Identifique os seguintes argumentos informais.
1. Bertrand Russell, um reputado lógico, afirmou que os costumes sociais a respeito
do sexo fora do casamento são nocivos e opressivos. Portanto, os costumes sociais a
respeito do sexo fora do casamento são nocivos e opressivos.
Identifique este tipo de argumento e explique a condição, ou condições, que tem de
respeitar para ser um bom argumento do ponto de vista informal.
Argumento de autoridade. Para que este tipo de argumentos seja bom, a autoridade
evocada tem de ser, de facto, uma autoridade e não podem existir divergências entre
os especialistas acerca da matéria.

2. «De acordo com o meu Epicuro… nada continua a existir depois da dissolução do
ser vivo, e no termo “ser vivo” ele incluía tanto o homem como o leão, o lobo, o cão,
e todas as outras coisas que respiram. Concordo com tudo isto. Eles comem, nós
comemos; eles bebem, nós bebemos; eles dormem, e o mesmo fazemos nós. Eles
geram, concebem, dão à luz, e alimentam os seus jovens da mesma forma que os
nossos. Eles têm alguma capacidade de raciocínio e de memória, alguns mais do que
outros, e nós um pouco mais que eles. Somos como eles em quase tudo; por fim, eles
morrem e nós morremos – ambos de forma definitiva.»
Lorenzo Valla, On Pleasure, Nova Iorque, Abaris Books, 1977, pp. 219-221.
Identifique e explique em que consiste o argumento que o texto exemplifica.
Argumento por analogia. Os argumentos por analogia baseiam-se em comparações.
Dadas duas entidades ou situações, A e B, com várias caraterísticas semelhantes, da
observação de que A tem uma caraterística conclui-se que o mesmo se passa com B.

3. O BCP, O BPI, o BES, a GALP e a PT estão cotados em bolsa. Portanto, todas as


grandes empresas portuguesas estão cotadas em bolsa.
Identifique este tipo de argumento e explique a condição (ou condições) que tem de
respeitar para ser um argumento bom.
Trata-se de uma generalização por indução. Para que estes argumentos sejam bons, a
amostra expressa pela premissa deve ser ampla e representativa.

4. «Podemos verificar que existe uma grande semelhança entre a Terra que
habitamos e os outros planetas, Saturno, Júpiter, Marte, Vénus e Mercúrio. Como a
Terra, todos giram em torno do Sol, embora a distâncias e períodos diferentes. Como
a Terra, recebem toda a sua luz do Sol. Como a Terra, vários rodam em torno do seu
eixo e, desse modo, têm também a sucessão dos dias e das noites. Alguns têm luas,
que servem para lhes dar luz na ausência do Sol, como a nossa Lua faz para nós.
Como a Terra, estão todos, nos seus movimentos, sujeitos à mesma lei da gravitação
universal. Com base nestas semelhanças não é irracional pensar que esses planetas,
como a nossa Terra, sejam habitados por vários tipos de criaturas vivas.»
Thomas Reid, Essays on the Intellectual Powers of Man, Cambridge, John Bartlett, 1850, p. 16.

Identifique este tipo de argumento e explique a condição (ou condições) que tem de
respeitar para ser um bom argumento do ponto de vista informal.
Este argumento é um argumento por analogia. Para que um argumento por analogia
seja bom, deve cumprir três condições: 1) a amostra deve ser suficiente (quanto maior
o número de objetos comparados maior a força do argumento); 2) o número de
semelhanças deve ser suficiente (a força da analogia cresce com o aumento do
número de semelhanças verificadas); 3) as semelhanças verificadas devem ser
relevantes.

5. No Dictionary of Philosophy, Anthony Flew define «logicismo» como o ponto de


vista segundo o qual a «matemática, e em particular a aritmética, faz parte da
lógica». Portanto, o logicismo é isso.
Identifique este tipo de argumento e explique as condições que tem de respeitar para
ser um argumento bom.
É um argumento de autoridade. Para que este tipo de argumento seja bom, deve
respeitar as seguintes condições: as fontes devem ser autoridades na matéria e não
pode haver discordância entre elas.

6. A esmagadora maioria das nozes deste saco que parti até agora estava estragada.
Portanto, a próxima noz que tirar do saco também estará estragada.
Identifique e explique em que consiste o argumento que o texto exemplifica.
Este argumento é uma previsão indutiva. A partir de uma amostra considerada
representativa, tira-se uma conclusão acerca de um acontecimento futuro.
AS PRINCIPAIS FALÁCIAS INFORMAIS

Falácia da derrapagem A conclusão resulta de um suposto e improvável encadeamento de


situações.
Ex.: Se és um apreciador de bons vinhos, então, depois de um bom
copo, beberás outro e outro e mais tarde ou mais cedo tornar-te-ás
um alcoólico.
Falácia do falso dilema Apresentam-se duas alternativas como sendo as únicas, ignorando
ou tentando fazer com que se acredite que não há mais alternativas
disponíveis.

Ex.: Ou és crente ou és ateu. Se não acreditas na existência de Deus,


só posso concluir que és ateu.

Falácia da petição de Usamos como prova, aquilo que estamos a tentar provar: supõe-se a
princípio verdade do que se quer provar, ou seja, provamos a conclusão tendo
como premissa a própria conclusão.

Ex.: Não falta ninguém, uma vez que está cá toda a gente.

Falácia do «boneco de Distorcem-se as ideias do adversário para as atacar mais facilmente.


palha» A tese do adversário é deturpada para ser atacada, mas isso significa
que se falha o alvo.

Ex.: O João diz que para se protegerem certas espécies os Jardins


Zoológicos são importantes. Então mais valia prenderem todos os
animais.

Falácia do ataque à Ataca-se indevidamente a pessoa que defende certas ideias,


pessoa (ad hominem julgando-se erradamente que isso é atacar as suas ideias.
falacioso)
Ex.: É impossível acreditar no que dizes. Como podes ter uma
opinião inteligente sobre o aborto? Não és mulher, pelo que esta é
uma decisão que nunca terás de tomar.

Falácia do apelo à Transforma-se em prova a ausência de prova. Se não provarmos a


ignorância (apelo falsidade de uma afirmação, então ela é verdadeira; se não
falacioso à ignorância) provarmos a verdade de uma afirmação então ela é falsa.
Ex.: 1. Ninguém provou que os fantasmas não existem. Logo,
existem.
2. Nunca se observaram extraterrestres. Logo, não existem.
TEMA 8
O CONHECIMENTO
1. O que é a teoria do conhecimento?
A teoria do conhecimento é a área da filosofia que investiga os problemas da essência,
origem, possibilidade e alcance do conhecimento.

2. O que é o conhecimento?
O conhecimento é uma relação entre o sujeito, quem conhece, e um objeto, aquilo que é
conhecido.

3. Que tipos de conhecimento existem? Em que consiste cada um deles?


Existem o conhecimento prático, o conhecimento por contacto e o conhecimento
proposicional. O conhecimento prático é um conhecimento de atividades ou de aptidões.
O conhecimento por contacto é a experiência direta de pessoas, lugares e coisas. O
conhecimento proposicional é o conhecimento de proposições verdadeiras.

4. Em que consiste a definição clássica de conhecimento?


Segundo a definição clássica de conhecimento, há três condições necessárias para
conhecer uma proposição: 1. A proposição deve ser verdadeira; 2. Temos de acreditar
que a proposição é verdadeira e 3. Deve haver boas razões ou evidências para acreditar
que a proposição é verdadeira. A crença por si não é conhecimento porque temos
crenças falsas e a verdade é inseparável do conhecimento. A crença verdadeira não é
conhecimento porque posso ter uma crença verdadeira por acaso ou acidentalmente.
Para haver conhecimento, não é suficiente que uma crença seja verdadeira. É também
necessária a sua justificação.

5. Esta definição é indiscutível?

Não. Os contraexemplos de Gettier mostram que podemos ter boas razões a justificar
uma crença verdadeira e, contudo, não ter conhecimento.

6. Qual é o problema fundamental do conhecimento?

O problema fundamental do conhecimento é o da fundamentação ou justificação das


nossas crenças ou opiniões.
TEMA 9
ANÁLISE COMPARATIVA DE DUAS TEORIAS EXPLICATIVAS DO CONHECIMENTO
1
O RACIONALISMO DE DESCARTES
Resumo da teoria cartesiana do conhecimento

O projeto Construir um sistema de verdades indubitáveis em que de uma


verdade que seja impossível considerar falsa possamos deduzir outras
verdades que sejam certezas absolutas.
As razões de ser do 1. O sistema dos ditos conhecimentos do seu tempo era constituído
projeto por verdades e falsidades.
2. Temos de separar o verdadeiro do falso e justificar que o que
acreditamos ser verdadeiro é absolutamente verdadeiro.
3. O sistema dos ditos conhecimentos do seu tempo não tinha bases
firmes e estava desorganizado, a tal ponto que havia falsidades na
base do sistema e verdades noutros pontos desse sistema.
4. Temos de encontrar uma verdade indubitável que sirva como base
ao sistema dos conhecimentos e permita organizá-lo firme e
seguramente.
A estratégia para Vamos submeter ao exame rigoroso da dúvida as bases em que
atingir esse objetivo assentava o sistema dos conhecimentos estabelecidos.
1. Consideraremos falso o que não for absolutamente verdadeiro ou
indubitável.
2. Consideraremos enganadora qualquer faculdade que alguma vez
nos tenha enganado ou de cujo funcionamento correto possamos por
muito pouco que seja suspeitar.
A dúvida será por isso aplicada de forma hiperbólica.
3. As bases do sistema dos ditos conhecimentos que vamos
examinar implacavelmente são:
‒ a crença de que os sentidos são fontes fiáveis de conhecimento
sobre as propriedades dos objetos físicos;
‒ a forte crença de que existem realidades físicas;
‒ a crença de que as mais fiáveis produções do nosso entendimento –
as matemáticas – são um modelo de verdade indubitável.
O que passar neste exame rigoroso será indubitavelmente
verdadeiro.
O que não passa no 1. Os sentidos não são dignos de confiança quanto às informações
exame da dúvida quer sobre as qualidades das coisas sensíveis quer sobre a
metódica/hiperbólica existência dessas mesmas coisas.
As ilusões dos sentidos e o argumento de que não temos forma de
distinguir absolutamente o sonho da realidade, o fictício do real,
levam-nos a negar o empirismo (que o conhecimento comece com a
experiência sensível) e a crença de que o mundo físico
indubitavelmente existe.

2. O correto funcionamento do nosso entendimento (razão) é


colocado sob suspeita devido ao argumento de que Deus pode tê-lo
criado destinado a confundir o falso com o verdadeiro.
Os objetos sensíveis e os objetos inteligíveis – exemplificados pela
matemática – são colocados sob suspeita, e por isso deles não pode
derivar-se conhecimento algum.

O que resiste à Resiste à dúvida a existência do sujeito que de tudo duvida. «Duvido
dúvida – penso – logo existo» é uma verdade indubitável porque a existência
de quem duvida não pode ser objeto de dúvida alguma.

Caraterísticas da 1. É primeira porque impõe-se no momento em que de tudo se


primeira verdade duvida.
2. É primeira porque não deriva de nenhuma outra (teria de haver
outra, o que não acontece).
3. É objeto de intuição existencial e não de dedução – será o ponto de
partida de todas as deduções que faremos para construir o sistema
firme dos conhecimentos.
4. É, por isso, o primeiro princípio do sistema de conhecimentos.
5. Corresponde à existência de um sujeito cuja natureza ou essência
consiste em pensar.
6. É uma ideia ou verdade inata porque se impõe como
absolutamente indubitável independentemente da experiência.
Nasce connosco e descobrimo-la como certeza sem apoio empírico.
7. É um critério ou modelo de verdade, dada a evidência, clareza e
distinção com que se impõe.
Verdades 1. A alma é distinta do corpo.
indubitáveis que
Todas as coisas sensíveis – incluindo o meu corpo – podem não
deduzimos da
passar de realidades que só existem em sonho. Mas existo, e disso
primeira verdade
não posso duvidar. Se não preciso do corpo para existir, então a alma
– o que eu sou – é distinta do corpo e mais fácil de conhecer do que
este.
2. Deus existe.
Se duvido e nada conheço a não ser que existo e sou um ser
pensante, então sou imperfeito. Mas de onde veio esta ideia?
Comparei as minhas qualidades com as que caraterizam um ser
perfeito. Logo, sem a ideia de um ser perfeito – do que é ser perfeito
–, não saberia que sou imperfeito.
Mas sou a causa desta ideia? Sou o seu autor? Não, porque ela
representa mais perfeição do que a que possuo e poderia causar.
Logo, só um ser perfeito é causa da ideia de perfeito. Quem é esse
ser? É Deus. Logo, Deus existe.

A importância da 1. Afasta-se a desconfiança no funcionamento correto do nosso


existência de Deus entendimento.
como ser perfeito
Provado que Deus não pode enganar, podemos confiar nas operações
do nosso entendimento/razão. O critério da evidência é
fundamentado de modo que aquilo que considero claro e distinto –
evidente – é claro e distinto, absolutamente indubitável.

1. Supera-se, em parte, o solipsismo.

Com efeito, Deus é um ser de cuja existência não depende do sujeito


pensante.

3. Deus é o fundamento metafísico das crenças verdadeiras.


Garante-as absolutamente porque garante que as evidências atuais
são realmente indubitáveis e também que o serão sempre. O
conhecimento torna-se assim um conjunto de verdades objetivas,
independentes do sujeito pensante.

A recuperação da Descartes apercebe-se de que há ideias das coisas que não são
crença na existência produzidas pelo sujeito pensante. Existindo, devem ter uma causa: as
do mundo físico
próprias coisas sensíveis. Esta propensão ou crença natural é legítima
e fundada, dado que Deus, a quem a devo, não me engana.

1. A razão é a fonte ou origem do conhecimento.


O racionalismo Só as verdades descobertas pela razão e deduzidas desta têm direito
cartesiano ao título de conhecimento. O princípio do sistema dos conhecimentos
é uma verdade puramente racional. Os sentidos não merecem
confiança.
2. O ideal de conhecimento em Descartes é o de um sistema
dedutivo análogo ao modelo do raciocínio matemático que sempre
o deslumbrou.
De uma verdade indubitável – a existência do eu – deduz outras
verdades que devem apresentar a mesma clareza e distinção. A
matemática é um ideal metodológico e não a rainha das ciências,
dado que esse estatuto de ciência primeira pertence à metafísica.
3. As ideias que desempenham um papel decisivo no conhecimento
são ideias inatas.
Ideias como as de eu e de Deus formam-se no pensamento sem o
contributo da experiência. São ideias que, mediante a reflexão
puramente racional, a razão descobre em si, atualizando o que
potencialmente existe na alma desde que existimos. O inatismo é a
afirmação da autonomia da razão em relação à experiência.
4. A dúvida metódica está ligada à natureza racionalista da filosofia
de Descartes.
A vontade de duvidar parte da ideia de que a razão não pode atingir a
verdade, subordinando-se à experiência, aos sentidos. A dúvida
cumpre a função de devolver a razão à plena posse de si mesma,
torna-a autónoma, ao libertá-la da dependência em relação aos
sentidos e dos falsos pontos de partida.
2
O EMPIRISMO DE DAVID HUME
RESUMO DA TEORIA DO CONHECIMENTO DE DAVID HUME

Projeto Investigar as capacidades e os limites do entendimento humano no que


respeita ao conhecimento do mundo de modo a evitar especulações inúteis
e a determinar se e o que podemos saber.
Estratégia Estratégia
Analisar os conteúdos da mente.

Os conteúdos da mente Os conteúdos da mente são as impressões e as ideias.


Impressões e ideias são as unidades básicas do conhecimento.
Segundo o Princípio da Cópia, as ideias são cópias das impressões. As cópias
são menos intensas e vívidas do que as impressões que estão na sua origem.
As ideias são cópias de impressões e são por isso causadas por estas. Têm
uma origem empírica. As nossas ideias formam-se todas a partir da
experiência.
Se as ideias não fossem cópias das impressões, quem não possuísse a
capacidade de ter a experiência da cor formaria a ideia de cores, o que é
absurdo. Uma pessoa cega de nascença não poderá ter a ideia de branco
porque nunca terá a impressão de branco.
O Princípio da Cópia e o Do que não há impressão não há ideia. Só conhecemos aquilo de que temos
empirismo experiência. O conhecimento começa com a experiência e daquilo de que
não há experiência não há conhecimento

O problema do conhecimento A matemática e a lógica dão-nos verdades necessárias, mas não nos dão
do mundo ou conhecimento conhecimentos sobre o mundo. Por isso, o problema da possibilidade do
factual conhecimento é o de saber se podemos conhecer os factos do mundo.

Em que consiste o nosso O nosso conhecimento do mundo consiste – esquecendo as observações


conhecimento dos factos do simples como ver o Sol nascer – em explicações, generalizações e previsões.
mundo As explicações implicam o recurso à ideia de relação entre causa e efeito. As
generalizações e as previsões são formas de raciocínio indutivo. Assim, o
nosso conhecimento do mundo baseia-se essencialmente na relação causa e
efeito e em inferências indutivas. Como os argumentos dedutivos se limitam
às relações entre ideias, não servem para conhecer factos.

O pressuposto fundamental Explicamos factos, generalizamos observações particulares e efetuamos


do nosso conhecimento do previsões. O que subjaz a estas atividades é a crença de que o mundo se
mundo comporta de forma regular ou uniforme. A crença na uniformidade da
natureza é a que está na base da nossa relação de conhecimento com os
factos que constituem o mundo.

Em que consiste justificar a Consiste em tentar provar que é verdade o seguinte:


possibilidade de
1. Que a ideia de conexão necessária dos fenómenos do mundo é uma
conhecimento dos factos do
propriedade objetiva das coisas (não é uma simples ideia).
mundo
2. Que os raciocínios indutivos se exprimem, em princípio, pelo conhecimento
dos factos, que nos permitem atingir conclusões verdadeiras.

A resolução destes dois problemas depende da solução de um problema


mais fundamental: provar que é verdade que a natureza – os factos do
mundo ‒ se comporta de forma regular e uniforme.

Primeira conclusão cética: Não podemos provar que acontecimentos que supomos causalmente
Não é possível provar que a relacionados estejam conetados necessariamente. Como conhecer é
ideia de conexão necessária é explicar os factos estabelecendo uma conexão necessária entre eles, o
verdadeira. conhecimento objetivo do mundo não é possível.

Por que razão se chega a esta conclusão?

Porque, se todo o conhecimento depende da experiência, esta não nos dá


contudo qualquer prova (qualquer impressão) de uma conexão necessária
entre acontecimentos. Podemos pensar que certos acontecimentos são
causas de outros, mas tal crença não pode ser justificada pela experiência. A
experiência nada mais nos mostra do que uma conjunção constante entre
certos factos, mas nunca uma ligação necessária que faça de um a causa sem
a qual o outro não existe ou acontece.

Segunda conclusão cética: «A causa B» significa que A produz B ou que B é e será sempre seguido de
A. Até agora tem sido assim e assim continuará a ser. Esta crença exprime-
O nosso conhecimento do
se mediante um argumento indutivo, argumento que nos leva para lá da
mundo não se pode basear na
experiência ou da observação empírica.
indução.
Qualquer argumento indutivo, tal como a ideia de conexão necessária,
pressupõe a ideia de uniformidade da natureza, de que esta se comporta
sempre do mesmo modo ou de que é previsível. Mas essa ideia só poderia
ser justificada mediante o recurso a um argumento indutivo. Ora, isso é fazer
do que se pretende provar uma forma de prova, o que consiste numa petição
de princípio (não é logicamente legítimo que, mediante a indução, que
depende da ideia de uniformidade da natureza, provemos a verdade desta
ideia).

Assim, o nosso conhecimento do mundo não se pode basear nem em


argumentos dedutivos – não tratam de factos – nem em argumentos
indutivos (da ideia de uniformidade da natureza na qual os argumentos
indutivos se baseiam não podemos ter qualquer experiência).

Conclusão cética global: O O conhecimento do mundo não é possível. Formamos ideias acerca do
conhecimento objetivo não é modo como as coisas do mundo são ou funcionam, mas não podemos
possível. pretender alcançar nem verdades indiscutíveis – certezas – nem verdades
prováveis.

Em que consiste o nosso O nosso conhecimento do mundo não é constituído nem por certezas nem
conhecimento do mundo por verdades prováveis. Não possuímos crenças verdadeiras objetivamente
justificadas.

Mas possuímos crenças que, não tendo um fundamento racional ou


empírico, encontram no hábito ou costume uma forte base psicológica. As
nossas inferências indutivas e a crença na conexão necessária entre
fenómenos baseiam-se no hábito. Sem qualquer faculdade que nos permita
resolver questões de facto, não deixamos de explicar, de prever
acontecimentos e, assim, de agir no mundo. O hábito é o conhecimento
transformado em crença indispensável.

O empirismo de David Hume Podemos caraterizar o empirismo de Hume do seguinte modo:


1. Baseado na investigação das capacidades do entendimento humano,
afirma que o conhecimento começa com a experiência e não pode ir além
dela.
2. Analisando os conteúdos da mente envolvidos no ato de conhecer,
conclui que a afirmação anterior tem a ver com o facto de que não há
conhecimento de ideias a que não corresponda uma impressão sensível.
3. Se do que não há impressão não há ideia, não há ideias inatas.
4. As relações causais que estabelecemos entre os factos e as inferências
que nos levam para lá da «memória e dos sentidos», ou seja, as inferências
indutivas, não têm fundamento empírico. Para lá da «memória e dos
sentidos», não há impressão que justifique a crença de que há uma relação
de necessidade entre causa e efeito e de que o mundo continuará a ser como
até agora tem sido.
5. O nosso conhecimento do mundo não é constituído nem por verdades
indubitáveis nem por verdades prováveis. O empirismo de Hume é, de certa
forma, um ceticismo.
6. Não podemos provar que conhecemos os factos do mundo, mas não
podemos deixar de acreditar que conhecemos. O conhecimento é uma
crença em cuja verdade podemos confiar, mesmo que não a possamos
justificar. Devemos deixar-nos guiar pelo hábito.

QUADRO COMPARATIVO DAS TEORIAS DO CONHECIMENTO DE DESCARTES E DE HUME


TEMAS DESCARTES HUME
Encontrar princípios racionais Efetuar uma análise da mente que revele
indubitáveis de modo a justificar que quais as capacidades e os limites do
PROJETO o sistema do conhecimento seja entendimento humano.
constituído por verdades
absolutamente certas.
O conhecimento entendido como Todo o conhecimento começa com a
certeza absoluta não pode principiar experiência porque todas as nossas ideias
ORIGEM DO com a experiência porque os sentidos são causadas por impressões das quais são
não são fiáveis. Descartes não é cópias. Hume não é racionalista. É
CONHECIMENTO
empirista. É racionalista. empirista.

Nem todas as ideias são inatas, mas o Todas as nossas ideias têm uma origem
OS CONTEÚDOS DO conhecimento funda-se em ideias empírica, mesmo as mais complexas e
ENTENDIMENTO inatas ou puramente racionais. abstratas. São cópias de impressões
sensíveis. Por isso não há ideias inatas. O
empirismo rejeita o inatismo.

AS OPERAÇÕES DO Mediante a intuição, descobrimos o A intuição e a dedução limitam-se ao


ENTENDIMENTO princípio primeiro e indubitável do conhecimento formal das matemáticas e
sistema do saber. Por dedução, da geometria. Esses conhecimentos a
priori são indubitáveis, mas nada de
inferimos por ordem outras verdades
indubitável podemos conhecer sobre o
indubitáveis sobre a relação alma – mundo e o que ultrapassa a experiência. O
corpo, Deus e o mundo. conhecimento de factos depende de
raciocínios indutivos. As verdades sobre o
mundo, caso existam, não podem ser
estabelecidas dedutivamente.

A POSSIBILIDADE DO O conhecimento é possível, sendo um O conhecimento de factos não é possível.


CONHECIMENTO conjunto de verdades absolutamente Nem a razão nem a experiência nos dão
indubitáveis sobre a alma – o eu –, verdades objetivas sobre o mundo. Temos
Deus e o mundo. crenças, mas não conhecimentos. As
únicas verdades indubitáveis são as da
matemática e da lógica.
Podemos justificar as nossas crenças Não há justificação nem empírica nem
A JUSTIFICAÇÃO DO ou opiniões verdadeiras porque há racional para o conhecimento do mundo.
CONHECIMENTO um princípio racional indubitável do O conhecimento é um produto do hábito e
conhecimento – o Cogito – e um não da razão. É uma crença natural que só
fundamento absolutamente confiável traduz a nossa necessidade de acreditar
– Deus – que garante a verdade das que conhecemos como o mundo é e
nossas ideias claras e distintas. funciona.
OS LIMITES DO Aplicando corretamente a nossa Do que não há experiência não pode haver
CONHECIMENTO faculdade de conhecer, podemos conhecimento. Por isso não há
alcançar verdades indubitáveis sobre conhecimento de realidades metafísicas
o mundo físico e sobre realidades que (Deus e a alma). A metafísica não é uma
ultrapassam a experiência. A ciência. Nem mesmo do mundo temos
metafísica é a ciência fundamental, a conhecimentos certos e seguros.
raiz da «árvore do saber».
O nosso conhecimento da realidade é constituído por O nosso conhecimento do mundo não é constituído
verdades indubitáveis. nem por verdades indubitáveis nem por verdades
prováveis.
TEMA 10
A CIÊNCIA NA PERSPETIVA DE POPPER

SÍNTESE DAS IDEIAS DE POPPPER SOBRE O MÉTODO CIENTÍFICO E A CIÊNCIA

1. Uma teoria é científica se for testável e suscetível de falsificação empírica


mediante a observação.
TESES CENTRAIS
2. Uma teoria irrefutável não tem direito a ser considerada científica.

3. O indutivismo é uma perspetiva errada sobre o método científico.

4. As teorias e hipóteses científicas não podem ser verificadas nem confirmadas,


mas unicamente corroboradas.

5. Os cientistas exercem uma vigilância crítica permanente das hipóteses e


teorias científicas.

6. A ciência é objetiva porque os cientistas submetem as teorias ou hipóteses a


testes empíricos rigorosos.

7. A ciência procede por conjeturas (hipóteses) e refutações em direção a um


ideal de verdade que nunca atingirá, mas do qual se aproxima constantemente
mediante a eliminação de erros.

A falsificabilidade O tema da falsificabilidade permite a Popper resolver dois problemas: o da


demarcação entre ciência e não ciência e o do papel da indução na ciência.

A falsificabilidade é a caraterística de uma teoria ou hipótese que pode ser


refutada por alguma observação.

O problema da O problema da demarcação consiste em encontrar um critério que permita


demarcação separar ciência de pseudociência.

Será científica a teoria que se submete a testes destinados a falsificá-la e assim a


refutá-la. A ciência distingue-se da pseudociência porque procura falsificar e não
verificar ou confirmar as suas hipóteses.

As teorias que não são refutáveis por alguma observação possível não são
científicas. E são cientificamente tanto mais úteis quanto mais riscos correrem
nas previsões que fazem.

Contra o indutivismo e o Popper resolve o problema da indução opondo à conceção indutivista da


verificacionismo investigação científica (que procura tornar verdadeiras as teorias), a falsificação.
A indução não é o método da ciência porque:

1. Não podemos inferir as hipóteses da experiência como se houvesse


observações puras ou objetivas. Os cientistas deduzem consequências
observacionais das teorias e, submetendo essas predições ao confronto com os
factos, sujeitam as teorias a testes rigorosos. Não precisam da indução para
formar hipóteses.

2. A experimentação científica não é realizada com o objetivo de «verificar» ou


estabelecer a verdade de hipóteses ou teorias porque esse objetivo é impossível.

A indução não nos pode dar certezas acerca da verdade das nossas teorias. Por
maior que seja o número de observações a favor de uma teoria obtida por
indução, esta pode sempre vir a revelar-se falsa. Mas podemos muitas vezes ter a
certeza da sua falsidade adotando um modelo hipotético dedutivo que procura
provar a falsidade e não a verdade de uma teoria.

A corroboração Uma teoria diz-se corroborada quando resiste aos testes destinados a falsificá-la.

Para ser corroborada, uma teoria deve apresentar um bom conteúdo empírico que
restrinja aquilo segundo as suas previsões pode acontecer ‒ de modo a não ser
vaga – e deve passar em testes sérios e rigorosos. Mas ser corroborada não
significa dizer que a sua verdade foi provada nem que é provável que seja
verdadeira. Unicamente não foi refutada e podemos continuar a trabalhar com
ela, se não for posteriormente desmentida ou se não encontrarmos uma melhor.
A qualquer momento, uma teoria pode ser refutada por novos testes. O máximo
que se pode dizer de uma teoria científica é que, até a um dado momento, ela
resistiu aos testes usados para a refutar.
O progresso do A ciência progride mediante o método das conjeturas e refutações.
conhecimento científico
As conjeturas ou hipóteses – que nunca podem ser verificadas ou confirmadas –
são sujeitas a testes severos aos quais podem sobreviver ou não. As que
sobrevivem às tentativas de refutação revelam-se mais resistentes, mas nunca
verdadeiras ou provavelmente verdadeiras. Constituem, em comparação com
outras, uma melhor aproximação à verdade. O seu grau de verosimilhança é o
critério que as torna melhores do que teorias rivais. Aproxima-se mais da verdade
a conjetura que resolve melhor certos problemas do que as suas competidoras.

O progresso científico, mediante a eliminação de erros, é uma evolução em


direção a uma meta ideal inalcançável: o ideal da verdade como espelho fiel da
realidade.
TEMA 11
RESUMO DAS IDEIAS DE KUHN SOBRE A CIÊNCIA E A SUA EVOLUÇÃO

1. Não há atividade científica fora de uma comunidade de praticantes


(comunidade científica).

2. Não há comunidade científica sem a adoção consensual de um paradigma pelos


seus membros.

3. A atividade a que ao longo da história da ciência os cientistas mais


frequentemente se dedicam tem o nome de ciência normal.

4. A longos períodos de ciência normal sucedem de vez em quando episódios


revolucionários a que se dá o nome de revoluções científicas, ou seja, mudanças
de paradigma.

5. Uma revolução científica traduz-se numa forma de ver o mundo inteiramente


nova e incompatível com a forma de ver o mundo associada e determinada pelo
TESES CENTRAIS
paradigma anterior.

6. Sendo a expressão de formas incompatíveis de ver o mundo, os paradigmas são


incomensuráveis.

7. Sendo incomensuráveis, não há acima ou fora de cada paradigma um critério ou


medida comum que permita considerar que um é mais verdadeiro do que outro
ou que é um espelho mais fiel da realidade.

8. Assim sendo, não se pode falar de progresso científico se por este entendermos
um progresso contínuo e cumulativo em direção à verdade. Se pudermos falar de
progresso, este é descontínuo, feito de algumas ruturas ou descontinuidades, de
mudanças de paradigmas e não de transformação de um paradigma noutro.

9. A substituição de um paradigma por outro não obedece a critérios estritamente


objetivos e racionais.

ESQUEMA DA EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA

A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA Pré-ciência --------- Ciência normal ----------Ciência extraordinária ------------


Revolução científica --------- Novo período de ciência normal …………….

1. Pré-ciência. Período marcado pela ausência de consenso, dado não haver um


paradigma partilhado.

2. Ciência normal. Período longo em que um paradigma – o contexto intelectual e


tecnológico da prática científica – dá unidade à atividade dos praticantes de ciência.
Os cientistas aplicam o paradigma para determinar que problemas resolver e como
os resolver e também procuram ampliar o seu poder explicativo. Este período
assume por isso um caráter cumulativo resultante da invenção de instrumentos
mais potentes e eficazes, que possibilitam medições mais exatas e precisas, não
procurando o cientista a novidade nem pôr em causa o paradigma.

3. Ciência extraordinária. Período de crise do paradigma vigente, dado que as


anomalias a princípio detetadas e relativamente desvalorizadas persistem e, dada a
sua gravidade, ameaçam as bases do paradigma. Não basta a existência de
anomalias – o próprio termo é significativo – para que o paradigma vigente entre
em crise. É necessário que as anomalias abalem a confiança no paradigma e
suscitem a constituição de paradigmas alternativos. Da união em torno de um
paradigma passamos à divisão. A crise pode ser resolvida de duas maneiras: 1. Ou
se reformula e reajusta o paradigma continuando a trabalhar com ele; 2. Ou se
abandona o paradigma substituindo-o por um novo.

4. Revolução científica. Período em que se dá a mudança de paradigma e a


constituição de uma nova forma de ver o mundo incompatível ou incomensurável
com a anterior. A transição de um paradigma para outro não é pois um processo
cumulativo, mas uma rutura e uma aposta nas potencialidades do novo paradigma.
Se não conseguir explicar melhor os fenómenos que derrotavam o poder explicativo
do anterior paradigma, o novo não triunfará.

5. Novo período de ciência normal. Estabelecida uma nova forma de fazer ciência e
dotados de um novo «mapa» para explorar e investigar a natureza, os cientistas
regressam a uma atividade relativamente rotineira marcada pela preocupação em
consolidar o novo paradigma e em ampliar a sua aplicação.

A Não há um critério absoluto que permita medir ou aferir os méritos relativos de


INCOMENSURABILIDADE cada paradigma e decidir da sua maior ou menor verdade.
DOS PARADIGMAS
Enquanto nova forma de ver o mundo – nova mundivisão –, o paradigma triunfante
estabelece uma nova forma de fazer ciência, definindo um novo conjunto de
normas e de procedimentos, que questões são legítimas, como é apropriado
resolvê-las e mesmo um entendimento diferente de conceitos anteriores. Mas o
novo não triunfa sobre o velho porque é objetivamente melhor. Na verdade, os
paradigmas são incomensuráveis: diferentes maneiras de ver o mesmo mundo
instalam os cientistas em mundos diferentes. Assim, não pode haver uma forma
objetiva, um critério neutro, exterior a cada paradigma para dizer que, na passagem
de um a outro, houve um avanço em direção à verdade. A verdade é sempre
relativa a um paradigma, pelo que é impossível, dada a incomensurabilidade dos
paradigmas, determinar se um é mais verdadeiro ou melhor do que outro.
A ESCOLHA ENTRE Não há nenhum argumento a priori – nenhum critério objetivamente estabelecido
PARADIGMAS – que em certa medida obrigue um cientista a adotar um paradigma e não outro.

Apesar de Kuhn apresentar alguns critérios objetivos que podem tornar um


paradigma preferível a outro – simplicidade, fecundidade, alcance e precisão
explicativa –, a escolha entre paradigmas envolve vários fatores (psicológicos e
sociais). Assim, mesmo os critérios objetivos são objeto de apreciação e de
interpretação condicionadas por gostos, convicções religiosas, etc. No caso do
triunfo do paradigma de Copérnico, por exemplo, houve cientistas que foram
atraídos pela sua simplicidade, outros que valorizaram a sua capacidade explicativa
e outros ainda que o rejeitaram por motivos religiosos. Vários fatores – científicos e
extracientíficos (gostos, preferências religiosas, poder político e mesmo
preconceitos) ‒ influenciam a escolha do novo paradigma.

Assim, a mudança de paradigma não obedece a critérios estritamente racionais e


objetivos.

Não há aproximação à verdade na evolução da ciência porque não podemos determinar se um paradigma é
superior a outro.

A ciência evolui, mas é muito discutível dizer que essa evolução se faz de forma estritamente racional e
objetiva.
TEMA 12
Comparação entre Popper e Kuhn sobre a evolução da ciência, a sua racionalidade e objetividade

Temas Popper Kuhn

A verdade é a meta ideal da investigação A comunidade científica muda de


científica. As teorias mais verosímeis são paradigmas, mas não há forma objetiva
as que explicam melhor os factos, de provar que a mudança é um
sugerem novas experimentações e crescimento do conhecimento em
Verdade
superaram testes em que as outras direção à verdade. A verdade é relativa a
foram derrotadas. um paradigma, e por isso nenhum é
«mais verosímil» do que outro.
Há progresso em ciência porque as novas Não há progresso em ciência, exceto nos
teorias, sobrevivendo a testes rigorosos, períodos de ciência normal. Na
Progresso ou avanço eliminam os erros das anteriores e assim passagem de um paradigma a outro, não
da ciência aproximam-se mais da verdade. A há forma de dizer que o novo representa
verosimilhança é o critério do progresso. um maior avanço em direção à verdade.

O crescimento ou progresso do A mudança de paradigma não é


conhecimento é objetivo porque a nova determinada por critérios estritamente
teoria superou testes precisos e objetivos, mas por uma combinação de
rigorosos, confrontou-se com fatores extracientíficos (psicológicos e
Objetividade observações tendentes a superá-las e sociológicos) e científicos (caraterísticas
resistiu. Uma teoria está mais próxima das teorias – poder explicativo, alcance,
da verdade do que outra quando tem um
simplicidade e fecundidade).
conteúdo empírico corroborado por mais
factos e torna compreensíveis mais
fenómenos do que outra teoria.

A aproximação à verdade que carateriza A evolução da ciência não é determinada


a evolução da ciência é marcada pela por uma atitude de vigilância crítica
Racionalidade atitude racional traduzida na vigilância porque os cientistas tendem a ignorar
crítica em relação às teorias: nunca se em muitos casos as refutações de que
pode dizer que deixaram de ser um paradigma é alvo. Na passagem de
conjeturas e se tornaram verdades. um paradigma a outro, os fatores lógicos
e racionais são muitas vezes superados
por fatores subjetivos.

A ciência evolui e progride de forma A ciência evolui, mas é difícil falar de


racional e objetiva. progresso porque a sucessão de
paradigmas não acontece segundo
padrões estritamente racionais e
objetivos.