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A Torre Inclinada

e Outros Contos
Relógio D' Água Editores
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© 1944, 1941, 1940, 1939, 1936, 1935, 1934, 1930 by Katherine Anne Porter
© renewed 1972, 1969, 1968, 1967, 1965, 1964, 1963, 1962, 1958
by Katherine Anne Porter

"Virgin Violeta" © 1924 by Century Magazine


© renewed 1951 by Meredith Publishing Company

"The Martyr" © 1923 by Century Magazine


© renewed 1950 by Meredith Publishing Company

"Hacienda" © 1934 by Harrison of Paris

Publicado por acordo especial com a Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company

Título: A Torre Inclinada e Outros Contos


Título original: Flowering Judas and Other Stories (1930) e
T he Leaning Tower and Other Stories (1934)
Autora: Katherine Anne Porter
Tradução: Raquel Dutra Lopes
Revisão de texto: Anabela Prates Carvalho e Michelle Nobre Dias
Capa: Carlos César Vasconcelos (www.cvasconcelos.com)
sobre fotografia da autora

© Relógio D' Água Editores, Maio de 2014

Encomende os seus livros em:


www.relogiodagua.pt

ISBN 978-989-641-436-8

Composição e paginação: Relógio D' Água Editores


Impressão: Guide Artes Gráficas, Lda.
Depósito Legal n.º: 375981/14
Katherine Anne Porter

A Torre Inclinada
e Outros Contos

Tradução de
Raquel Dutra Lopes

Ficções
Índice

JUDAS EM FLOR E OUTRAS HISTÓRIAS


Maria Concepción 11
Virgem Violeta 30
O Mártir 41
Magia 47
Corda 50
Ele 57
Furto 67
Aquela Árvore 74
O Abandono da Avó Weatherall 88
Judas em Flor 98
O Espelho Rachado 110
Hacienda 142

A TORRE INCLINADA E ÜUTROS CONTOS


O Antigo Regime
A Fonte 179
A Jornada 183
A Testemunha 198
O Circo 200
A Última Folha 205
A Figueira 209
A Sepultura 219
O Caminho Descendente para a Sabedoria 226
Um Dia de Trabalho 244
Férias 263
A Torre Inclinada 292
Judas em Flor
e Outras Histórias
Maria Concepción

Maria Concepción avançava com cautela, mantendo-se no meio da


rua branca e empoeirada, onde os agaves espinhosos e as traiçoeiras
colunas curvadas de cactos de órgão não se tinham acumulado com
tanta profusão . Agradar-lhe-ia repousar por um momento na sombra
escura junto à berma da estrada, mas não podia perder tempo a arran­
car espinhos dos pés . Juan e o chefe estariam à espera da comida nas
valas húmidas da cidade enterrada.
Levava umas doze galinhas vivas penduradas sobre o ombro direito ,
com as patas amarradas umas às outras . Metade ia-lhe recaindo no
meio das costas ; o resto baloiçava desajeitadamente sobre o seu peito .
Agitavam as coxas entorpecidas e inchadas contra o pescoço dela, re­
viravam os olhos estupefactos e espreitavam-lhe o rosto , curiosas . Ela
não as via nem pensava nelas . Tinha o braço esquerdo cansado pelo
peso da canastra de comida e estava com fome , depois de uma longa
manhã de trabalho .
As suas costas direitas distinguiam-se bem por baixo do rebozo
limpo , de algodão azul garrido . Uma serenidade instintiva suavizava­
-lhe os amendoados olhos negro s , afastados e de cantos ligeiramente
inclinados . Caminhava com o à-vontade livre , natural e reservado da
mulher primitiva com um filho no ventre . A forma do seu corpo era
agradável , a vida crescente não se afigurava como uma distorção , mas
com as proporções certas e inevitáveis de uma mulher. Sentia-se com­
pletamente satisfeita. O marido estava a trabalhar e ela ia a caminho
do mercado para vender as suas galinhas .
A sua pequena casa ficava a meio da encosta de uma colina pouco
alta , sob uma moita de lentiscos , com uma sebe de cactos de órgão a
delimitá-la do lado mais próximo da estrada. Agora descia para o vale ,
dividido pelo regato estreito , e atravessava uma ponte de pedras soltas
12 Katherine Anne Porter

perto da cabana onde Maria Rosa, a abelheira, vivia com a velha ma­
drinha, Lupe , a mulher dos remédios . María Concepción não deposita­
va fé alguma nos ossos calcinados de coruja, no pêlo tisnado de coe­
lho , nas entranhas de gato , nas mistelas e unguentos que Lupe vendia
aos enfermos da aldeia. Era uma boa cristã , e para as dores de cabeça
e de estômago bastava-lhe beber tisanas de ervas , ou então adquiria os
seus medicamentos em frascos , com instruções impressas que não sa­
bia ler, na farmácia perto do mercado , onde ia quase todos os dias . Mas
era frequente comprar um boião de mel à jovem Maria Rosa, uma
pequena bonita e tímida , com quinze anos apenas .
María Concepción e o marido , Juan Villegas , passavam um pouco
dos dezoito . Ela gozava de uma boa reputação entre os vizinhos , que
a consideravam uma mulher enérgica e religiosa, capaz de levar um
negócio a bom porto . Era do conhecimento geral que , se quisesse com­
prar um rebozo para si ou uma camisa para Juan , levaria para o efeito
uma bolsa de moedas de prata maciça .
Cerca de um ano antes , pagara pela licença, a poderosa folha de
papel timbrado que autoriza as pessoas a casarem na igrej a . Dera di­
nheiro ao padre antes de avançar para o altar ao lado de Juan , na
segunda-feira a seguir à Semana Santa. Que aventura fora para os al­
deões , em três domingos consecutivos , irem ouvir os banhos apregoa­
dos pelo padre , anunciando que Juan de Dios Villegas e Maria Con­
cepción Manríquez pretendiam casar-se mesmo na igrej a , em vez de
nas traseiras , a prática habitual , menos dispendiosa, e tão válida como
qualquer outra cerimónia . Porém , Maria Concepción sempre fora tão
orgulhosa como se possuísse uma hacienda .
Deteve-se na ponte e chapinhou os pés na água, com os olhos a
descansarem dos raios do Sol fixando as montanhas distantes , de um
azul profundo sob a cumeeira suspensa de nuvens . Ocorreu-lhe que lhe
saberia bem um favo de mel acabado de tirar do cortiço . O aroma de­
licioso das abelhas , com o seu zumbido lento , despertara-lhe o desejo
agradável de um pouco de doçura na boca.
"Se não o comer agora, o meu bebé nascerá marcado" , pensou , en­
quanto espreitava por entre as nesgas da sebe espessa de cactos que se
erguiam, desfolhados , como lâminas expostas a protegerem a pequena
clareira. O local estava tão silencioso que ela nem sabia se Rosa e
Lupe estariam em casa.
O jacal inclinado , feito de juncos secos e barbas de milho presos a
árvores jovens cravadas na terra, coberto de folhas amarelecidas de
agave , achatadas e sobrepostas como telhas , corcovava-se , modorrento
A Torre Inclinada e Outros Contos 13

e fragrante , sobre o calor do meio-dia. A s colmeias , feitas de forma


similar, espalhavam-se pelo terreno em direcção às traseiras da clarei­
ra , como montículos de refugo vegetal limpo . Por cima de cada mon­
tículo , pairava uma nuvem dourada e poeirenta de abelhas .
Uma gargalhada alegre e gritada proveio de trás da cabana; o riso
breve de um homem acompanhou-a. "Ah, hahahaha ! " , uniam-se as vo­
zes , uma aguda e outra grave , como uma canção .
"Então Maria Rosa tem um homem ! " Maria Concepción estacou , a
sorrir, alterou um pouco a posição da carga e inclinou-se para a frente ,
protegendo os olhos para ver melhor pelas frestas da sebe .
Maria Rosa, a correr e a esquivar-se por entre as colmeias , apartou
dois pequenos arbustos de jasmim para passar, subindo os joelhos em
saltos ágeis , com o riso a vibrar de excitação enquanto olhava para
trás . Um boião pesado , que levava preso ao pulso pela pega, ia-lhe
batendo nas coxas à medida que ela fugia. Os seus dedos dos pés ati­
ravam súbitos jactos de terra para o ar e as tranças iam-se desmanchan­
do e caindo sobre os ombros em fios compridos e frisados .
Juan Villegas corria atrás dela, também a rir-se de maneira estranha,
com os dentes à mostra, tanto os de cima como os de baixo a brilharem
por entre a barba preta e macia que lhe crescia rala à volta dos lábios
e sobre o queixo , deixando-lhe as faces morenas suaves como as de
uma rapariga . Quando a apanhou , agarrou-lhe o camiseiro com tanta
força que a costura do ombro cedeu . Isso fê-la parar de rir; empurrou­
-o , calada, a tentar puxar a manga rasgada com uma mão . O queixo
pontiagudo e a boca vermelho-escura mexiam-se de forma indecisa,
como se ela tivesse vontade de voltar a rir; as suas longas pestanas
pretas estremeciam com os reflexos rápidos dos olhos encobertos .
Maria Concepción não se mexeu nem respirou durante alguns se­
gundo s . Tinha a testa fria e , no entanto, parecia que lhe despejavam
lentamente água a ferver pela coluna. Sentia uma dor inexplicável nos
joelhos , como se estivessem partidos . Receava que Juan e Maria Rosa
dessem pelos seus olhos fixos e a encontrassem ali , incapaz de se mo­
ver, a espiá-los . Mas eles não atravessaram a cerca, nem sequer lança­
ram um olhar de relance em direcção ao espaço no muro que dava
para a estrada.
Juan levantou uma das tranças lassas de María Rosa e deu-lhe com
ela no pescoço , à guisa de brincadeira. Ela esboçou um sorriso suave ,
de consentimento . Juntos , recuaram por entre os cortiços das abe­
lhas . María Rosa equilibrava o boião numa anca e , a cada passo ,
oscilava as anáguas compridas e volumosas . Juan agitava o chapéu
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largo para trás e para a frente , caminhando tão orgulhosamente como


um galo de luta .
Maria Concepción irrompeu da nuvem carregada que lhe envolvia a
cabeça e tolhia a garganta, e deu por si a seguir caminho , mantendo-se
na estrada de forma inconsciente , com passos delicados e os ouvidos a
zumbir como se todas as abelhas de Maria Rosa sç tivessem enxamea­
do neles . O aturado sentido do dever levava-a a avançar em direcção à
cidade soterrada onde o chefe de Juan , o arqueólogo norte-americano ,
fazia a sua pausa a meio do dia e esperava pela comida.
Juan e Maria Rosa ! Já toda ela ardia, como se uma camada de espi­
nhos minúsculos de figueiras-da-índia, cruéis como fibra de vidro , se
tivessem incutido sob a sua pele . A sua vontade era sentar-se tranqui­
lamente e esperar pela morte , mas não antes de ter cortado a garganta
ao seu homem e àquela rapariga, que estavam a rir e a beijar-se debai­
xo dos caules de milho . Certa vez , quando era pequena, voltara do
mercado e deparara-se com o jacal ardido , reduzido a cinzas , e as
poucas moedas de prata desaparecidas . Uma sensação negra de vazio
apoderara-se então de si; não parava de andar por ali , sem acreditar nos
próprios olhos , à espera de ver tudo aquilo a recuperar a forma à sua
frente . Mas a casa desaparecera e, embora ela tivesse a certeza de que
havia sido obra de um inimigo , não era capaz de descobrir quem o
teria feito , pelo que só lhe restava amaldiçoar e ameaçar o ar. Agora ali
estava algo pior, mas conhecia o inimigo . Maria Rosa, essa rapariga
pecaminosa, sem-vergonha ! Ouviu-se a si mesma dizer uma palavra
rude e franca acerca de Maria Rosa, proferindo-a em voz alta, como se
esperasse que alguém concordasse consigo : "Sim , é uma rameira ! Não
merece viver."
Nesse momento , a cabeça desgrenhada e grisalha de Givens surgiu
por cima dos limites da nova vala que ele tinha mandado abrir naque­
le seu campo de escavações . As fendas longas e profundas , nas quais
um homem podia estar de pé sem ser visto , ziguezagueavam como
golpes ordeiros de um escalpelo gigante . Quase todos os homens da
comunidade trabalhavam para Givens , ajudando-o a descobrir a cida­
de perdida dos antepassados . Tinham trabalho durante o ano inteiro e
prosperavam , escavando todos os dias em busca daquelas pequenas
cabeças de barro , pedaços de cerâmica e fragmentos de muros pinta­
dos para os quais não havia utilidade alguma neste mundo , tudo
partido e com uma crosta de argila . Eles mesmos eram capazes de
fazer melhores , perfeitamente sólidos e novo s , que levavam para a
vila e impingiam a estrangeiros , em troca de bom dinheiro . Mas o
A Torre Inclinada e Outros Contos 15

encanto transcendente do chefe ao encontrar aquelas coisas corroídas


era um mistério sem fim. Por vezes chegava a soltar urros de alegria ,
abanando uma panela rachada ou u m crânio humano por cima da
cabeça , a gritar ao fotógrafo que se aproximasse e tirasse uma foto­
grafia daquilo !
Emergia agora, e os olhos de jovem entusiasta davam as boas-vin­
das a María Concepción , naquele rosto de velho cheio de rugas pro­
fundas e tão tisnado que era da cor da terra vermelha. "Espero que me
tenhas trazido uma bem gorda ." Seleccionou uma galinha da braçada
que pendia mais perto de si quando María Concepción , sem dizer pa­
lavra , se debruçou sobre a vala. "Sê uma boa rapariga e arranj a-ma .
Vou assá-la."
María Concepción agarrou na galinha pela cabeça e , silenciosa e
agilmente , passou-lhe a faca pelo pescoço , torcendo-lhe a cabeça com
a firmeza simples que poderia usar para arrancar a rama de uma beter­
raba.
"Santo Deu s , mulher, tens mesmo coragem" , disse Givens , a obser­
vá-la . "Eu não sou capaz de fazer isso . Faz-me impressão ."
"A minha terra natal é Guadalaj ara" , explicou María Concepción ,
sem alarde , enquanto depenava e destripava a galinha.
Levantou-se e fitou Givens com condescendência, aquele branco
engraçado que não tinha uma mulher que cozinhasse para ele e que ,
para mais , parecia não ver qualquer perda de dignidade em preparar a
sua própria comida . Agora estava de cócoras , com os olhos semicer­
rados e o nariz franzido para evitar o fumo , atarefando-se a girar a
galinha a assar num espeto . Um homem misterioso , sem dúvida rico,
e chefe de Juan , devendo por conseguinte ser respeitado , ser compra­
zido .
"As tortillas são frescas e estão quente s , sefior" , murmurou ela com
delicadeza. "Com a sua permissão , irei agora ao mercado ."
"Sim, sim , vai andando ; traz-me outra destas amanhã." Givens vi­
rou a cabeça para tomar a olhar para ela. Por vezes , os modos grandio­
sos de María Concepción traziam-lhe à memória realeza exilada. Re­
parou na palidez que nela era invulgar. "O sol está demasiado quente ,
hã?" , perguntou-lhe .
"Sim, senhor. Desculpe , mas Juan virá para aqui em breve?"
"Já cá deveria estar. Deixa a comida dele . Os outros hão-de aprovei­
tá-la."
Ela afastou-se; o azul do seu rebozo tomou-se um ponto dançante nas
ondas de calor que se erguiam do solo cinzento-avermelhado . Givens
16 Katherine Anne Porter

gostava mais dos seus índios quando podia sentir uma indulgência pa­
ternal em relação aos modos primitivos e infantis deles . Contava histó­
rias cómicas acerca das escapadelas de Juan, da frequência com que o
tinha salvado, ao longo dos últimos cinco anos , de ir parar à cadeia, e até
de ser alvejado , pelas suas malfeitorias variadas e sempre inesperadas .
"Chego no último momento para o livrar de um apuro ou outro" ,
dizia. "Bem , é bom trabalhador e eu sei como lidar com ele ."
Depois de Juan ter casado , Givens costumava censurá-lo , com a
devida condescendência, por causa das suas muitas infidelidades con­
jugais . "Um dia ela apanha-te , e depois que Deus te ajude ! " , gostava
de dizer, e Juan ria com um prazer imenso .

Não ocorreu a Maria Concepción contar a Juan que o tinha apanhado


em falso . Com o passar do dia, a raiva que sentia contra ele esmoreceu ,
ao passo que a que sentia contra Maria Rosa cresceu . Ia dizendo a si
mesma: "Quando eu era uma catraia como Maria Rosa, se um homem
me agarrasse daquela maneira, eu partia-lhe o boião na cabeça." Esque­
cia-se por completo de que não resistira sequer tanto quanto Maria Rosa ,
n o dia em que Juan a possuíra pela primeira vez . Para mais , depois tinha
casado com ele na igreja, e isso era uma coisa muito diferente .
Em vez de voltar a casa nessa noite , Juan partiu para a guerra e
Maria Rosa acompanhou-o . Levava uma espingarda ao ombro e duas
pistolas enfiadas no cinto . Maria Rosa também usava espingarda, que
carregava às costas , com os cobertores e as panelas . Juntaram-se ao
destacamento de tropas mais próximo e María Rosa marchou com o
batalhão de guerreiras experientes , que avançavam pelas colheitas
como gafanhotos , reunindo provisões para o exército . Cozinhava com
elas e com elas comia o que sobrava depois de os homens se alimen­
tarem . A seguir às batalhas , percorria o campo com as outras para re­
cuperar roupas , munições e armas dos mortos , antes que estes come­
çassem a inchar sob o calor. Por vezes encontravam as mulheres do
outro exército , e uma segunda batalha, tão fatídica como a primeira,
tinha lugar.
Não houve escândalo por aí além na aldeia. As pessoas encolhiam
os ombros, sorriam. Era bem melhor que tivessem partido . Os vizinhos
iam dizendo que Maria Rosa estava mais segura no exército do que na
mesma aldeia que María Concepción .
Esta não chorou quando Juan a deixou; e , quando o filho nasceu e
morreu ao fim de quatro dias , ela não chorou .
A Torre Inclinada e Outros Contos 17

"É feita de pedra" , comentava a velha Lupe , que a tinha visitado e


oferecido amuletos para preservar o bebé .
"Que apodreças no inferno mais os teus amuletos" , disse Maria
Concepción .
Se não fosse à igreja com tanta regularidade , acendendo velas dian­
te dos santos , ajoelhando-se de braços abertos como uma cruz duran­
te horas a fio e recebendo a sagrada comunhão todos os meses , talvez
tivessem surgido rumores acerca de ter sido possessa, dado que o seu
rosto estava tão mudado , com um ar cego . Mas isso era impossível ,
poi s , afinal , fora casada pelo padre . Só podia, concluíam então , estar
a ser castigada pelo seu orgulho . Decidiram que seria essa a verdadei­
ra causa de tudo : era demasiado orgulhosa. Por isso , apiedavam-se
dela.
Durante o ano que Juan e Maria Rosa passaram fora, Maria Concep­
ción foi vendendo as galinhas e cuidando do jardim, e a sua bolsa de
moedas maciças cresceu . Lupe não tinha talento algum para cuidar de
abelhas e os cortiços não prosperaram. Começou a culpar Maria Rosa
por ter fugido e a elogiar Maria Concepción pelo seu comportamento .
Costumava vê-la no mercado ou na igreja e dizia sempre que , olhando
para ela agora, ninguém adivinharia que se tratava de uma mulher que
tanto sofrera.
"Rezo a Deus para que doravante tudo corra de feição a Maria Con­
cepción" , dizia, "pois já teve o seu quinhão de problemas ."
Quando alguém sem mais que fazer repetiu isso à mulher desertada,
esta foi até à casa de Lupe , manteve-se na clareira e chamou a mulher
dos remédios , que estava sentada à soleira da porta, a mexer uma mis­
tela da sua infalível cura para chagas . "Guarda as tuas preces para ti ,
Lupe , ou oferece-as por quem precise delas . Eu pedirei a Deus o que
quiser neste mundo ."
"E irás recebê-lo , achas , Maria Concepción?" , perguntou-lhe Lupe ,
com um risinho cruel enquanto cheirava a colher de pau . "Rezaste
pelo que tens agora?"
A partir de então , toda a gente reparou que Maria Concepción co­
meçou a frequentar ainda mais a igreja e a ir ainda menos vezes à al­
deia para falar com as outras mulheres que se sentavam sozinhas no
passeio , a amamentar os filhos e a comer fruta quando o dia de feira
chegava ao fim .
"Ela não devia julgar-nos suas inimigas" , dizia a velha Soledad , que
era uma pensadora e tinha um carácter conciliador. "Todas as mulheres
têm problemas destes . Pois bem , deveríamos sofrê-los juntas ."
18 Katherine Arme Porter

Mas Maria Concepción vivia s ó . Estava descarnada, como se algo a


consumisse por dentro , com os olhos afundados , e não dizia uma pa­
lavra que pudesse evitar. Trabalhava mais do que nunca e a faca de
trinchar raramente lhe saía da mão .

Juan e Maria Rosa, desencantados com a vida militar, voltaram para


casa certo dia sem pedirem permissão a quem quer que fosse . O cam­
po de guerra tinha-se espraiado , como um grande rol de vexações , com
a refrega a chegar a umas vinte milhas da aldeia de Juan . Assim, ele e
Maria Rosa, agora enxuta como um lobo , carregada com um filho que
se esperava que nascesse a qualquer dia, partiram sem se despedirem
do regimento e caminharam até casa.
Chegaram pela manhã, ao raiar do dia . Juan foi avistado por um
grupo de polícias militares no pequeno quartel nos arredores da vila, e
levado para a prisão , onde o oficial de serviço lhe disse , com uma sa­
tisfação impessoal , que seria acrescentado a uma dezena de desertores
cujo fuzilamento teria lugar na manhã seguinte .
Maria Rosa, aos gritos e caindo de rojo na estrada, foi levantada por
dois guardas que a agarraram por baixo dos braços e se apressaram a
levá-la até ao seujacal, entretanto tristemente desbaratado . Foi recebi­
da por Lupe , que , com imponência profissional , ajudou o bebé a nascer
de imediato .
A coxear por causa dos ferimentos nos pés e com uma camada de
poeira a disfarçar as belas roupas novas que obtivera misteriosamente ,
Juan apareceu diante do comandante do quartel . Este reconheceu-o
como um dos cavadores do seu bom amigo Givens , ao qual enviou
uma nota a informar: "Estou a deter a pessoa de Juan Villegas e aguar­
do as suas instruções ."
Quando Givens apareceu , Juan foi-lhe confiado , com o pedido ur­
gente de que nada fosse tornado público acerca de uma operação tão
humana e sensível por parte das autoridades militares .
Foi com um ar de fanfarrice categórica que Juan deixou a atmosfera
bastante sufocante do tribunal de guerra temporário . Levava o chapéu ,
de dimensões absurdas e bordado a linha prateada, descaído sobre uma
sobrancelha , preso atrás por um fio de prata de onde pendiam borlas
azuis brilhantes . A camisa era de xadrez verde e preto , as calças de
algodão brancas estavam seguras por um cinto de cabedal amarelo
lavrado a vermelho . Tinha os pés descalços , cheios de calos e com as
unhas num triste estado . Tirou o cigarro do canto da boca larga e de
A Torre Inclinada e Outros Contos 19

lábios carnudos. Tirou o chapéu esplêndido. O cabelo preto e empoei­


rado, colado à testa pelo suor, espetou-se subitamente numa nuvem
emaranhada no alto do cocuruto. Juan fez uma vénia ao oficial de
serviço, que parecia ter o olhar fixo no nada. Descreveu um círculo
largo com o braço, em direcção à janela da prisão, onde rostos desa­
lentados espreitavam por cima do parapeito, olhos ardentes a seguirem
o afortunado que partia. Duas ou três cabeças acenaram e meia dúzia
de mãos responderam-lhe, num esforço para imitar a atitude descon­
traída e impetuosa dele.
Juan manteve tal pantominice insuportável até terem contornado a
primeira moita de figueiras-da-índia. Então agarrou na mão de Givens
e deu largas à oratória. "Abençoado o dia em que este seu criado Juan
Villegas apareceu diante dos seus olhos. De hoje em diante a minha
vida é incondicionalmente sua, dez mil obrigados com todo o coração!"
"Por amor de Deus, deixa de te armar em tolo", respondeu Givens,
irritado. "Algum dia hei-de chegar cinco minutos atrasado."
"Ora, não é nada de mais ser alvejado, meu chefe - decerto sabe
que eu não tinha medo - , mas ser fuzilado no meio de um bando de
desertores, encostado a uma parede fria, precisamente quando regres­
sava a casa, por ordem daquele... "
Epítetos fulgurantes sucederam-se como explosões de um foguete.
Todas as analogias dos mundos animal e vegetal foram apostos, de
uma forma florida, única e pessoal, à vida, aos amores e à história fa­
miliar do polícia que acabava de o libertar. Depois de esgotar as pragas
que tinha dentro de si, com os nervos aplacados, acrescentou: "Com a
sua licença, meu chefe!"
"O que irá María Concepción dizer de tudo isto?", perguntou Gi­
vens. "És muito informal, Juan, para um homem que se casou na
igreja."
Juan tomou a pôr o chapéu.
"Oh, María Concepción! Isso não tem importância nenhuma. Ouça,
meu chefe, casar-se na igreja é um grande infortúnio para um homem.
Depois disso, deixa de ser ele mesmo. Como pode essa mulher quei­
xar-se, se eu nem nasfiestas bebo o suficiente para ficar mesmo bêba­
do? Não lhe bato; nunca, nunca. Sempre vivemos em paz. Digo-lhe,
Anda cá, ela vem logo. Digo-lhe, Vai ali, e ela vai depressa. Mas às
vezes olhava para ela e pensava: Agora estou casado com aquela mu­
lher pela igreja; e sentia um fardo dentro de mim, como se alguma
coisa me pesasse no estômago. Com María Rosa, é tudo diferente. Ela
não é calada; fala. Quando fala demasiado, dou-lhe uma chapada e
20 Katherine Anne Porter

digo-lhe, Silêncio, sua simplória!, e ela chora. É só uma pequena com


quem eu faço o que quero. Lembra-se de que ela costumava ter aquelas
abelhas pequenas e asseadas nos cortiços? Para mim, ela é como o mel
que elas faziam. Juro. Não faria mal a Maria Concepción, pois casei
com ela pela igreja; mas também, meu chefe, não hei-de deixar Maria
Rosa, pois ela agrada-me mais do que qualquer 01,1tra mulher."
"Deixa-me que te diga, Juan, as coisas não têm corrido tão bem
como julgas. Tu tem cuidado. Um dia destes, Maria Concepción vai
simplesmente cortar-te a cabeça com aquela faca de trinchar com que
anda sempre. Tem isso em conta."
A expressão de Juan era composta pela mistura certa de triunfo
masculino e melancolia sentimental. Era aprazível ver-se no papel de
herói para duas mulheres tão desejáveis. Tinha acabado de escapar à
ameaça de um fim desagradável. As suas roupas eram novas e elegan­
tes, e nada lhe tinham custado. Maria Rosa fora-as recolhendo em
vários campos depois de batalhas. Caminhava sob os primeiros raios
de sol da manhã, a cheirar os bons aromas de figos-da-índia, pêssegos
e melões a amadurecer, de bagas pungentes a oscilarem nos lentiscos
e do fumo do cigarro que levava debaixo do nariz. Ia a caminho da
vida civil com o seu chefe paciente. A sua situação era inefavelmente
perfeita e ele tragava-a por completo.
"Meu chefe", dirigiu-se a Givens com garbo, como um homem ex­
periente a falar com outro, "as mulheres são coisas boas, mas não nes­
te momento. Com a sua permissão, agora irei à aldeia comer. Meu
Deus, quanto comerei! Amanhã de manhã, bem cedo, chegarei à-cida­
de enterrada e trabalharei como sete homens. Esqueçamos Maria Con­
cepción e Maria Rosa. Cada uma no seu lugar. Lidarei com elas quan­
do for altura disso."
A notícia da aventura de Juan depressa se espalhou e este deparou­
-se com vários amigos ao longo da manhã. Elogiavam-lhe com fran­
queza a forma como deixara o exército. Era, por si só, o acto de um
herói. O novo herói comeu muito e bebeu bastante, já que a ocasião
era melhor do que um dia de festa. Era quase meio-dia quando voltou
para visitar Maria Rosa.
Encontrou-a sentada numa enxerga de palha limpa, a massajar sebo
no filho de três horas. Diante da visão ditosa, as emoções de Juan bara­
lharam-no tanto que regressou à aldeia e convidou todos os homens da
pulquería Morte e Ressurreição a beberem com ele.
Tendo assim tirado licença do equilíbrio, recomeçou a ir ao encontro
de Maria Rosa e deu por si inexplicavelmente na sua própria casa,
A Torre Inclinada e Outros Contos 21

tentando espancar Maria Concepción, como forma de se restabelecer


no legítimo lar.
Maria Concepción, a par de todos os acontecimentos desse dia infe­
liz, não estava com disposição para cedências e recusou-se a ser espan­
cada. Não gritou nem implorou; fincou o pé e resistiu; até lhe bateu.
Juan, atónito, mal sabendo o que fazia, deu um passo atrás e fitou-a
com um ar inquisitivo através de uma película que oscilava levemente
e parecia ter-se instalado atrás dos seus olhos. Decerto não tinha se­
quer pensado em tocar-lhe. Oh, muito bem, não havia problema. De­
sistiu, virou costas, de pé mas meio a dormir. Deixou-se cair amistosa­
mente num canto à sombra e começou a ressonar.
A mulher, vendo que ele estava sossegado, dedicou-se a amarrar as
patas das suas galinhas. Era dia de ir ao mercado e ela estava atrasada.
Com a pressa, enredou e emaranhou as cordas, e partiu pelos campos
arados em vez de seguir pela estrada do costume. Correu, com a mente
em pânico, as pernas aos tropeções. De vez em quando parava e olhava
em redor, tentando situar-se; depois dava mais uns quantos passos, até
que se apercebeu que não estava a dirigir-se para o mercado.
De imediato caiu em si por completo, reconheceu o que era que a
perturbava de forma tão terrível e teve a certeza do que queria. Sentou­
-se calmamente à sombra de um arbusto espinhoso e entregou-se à
mágoa que havia tanto tempo a devorava. A coisa que há tanto lhe
comprimia todo o corpo num nó apertado e dormente de sofrimento
estalou de súbito com uma violência espantosa. Maria Concepción
estremeceu com o recuo involuntário de alguém que recebe um golpe,
e o suor jorrou-lhe da pele como se as feridas de toda a vida libertas­
sem o seu icor salgado. Tapando a cabeça com o rebozo, levou a testa
aos joelhos flectidos e assim ficou, num silêncio e numa imobilidade
letais. De vez em quando levantava a cabeça, com o suor a formar-se
incessantemente e a escorrer-lhe pelo rosto, ensopando-lhe a parte da
frente do camiseiro, e a boca tinha a expressão do choro, mas não ha­
via lágrimas nem som. Todo o seu ser era uma memória obscura e
confusa de mágoa a assolá-la à noite e de raiva mortalmente perplexa
a consumi-la durante o dia, até a sua própria língua ter um sabor amar­
go e os seus pés estarem tão pesados como se estivesse atolada nas
estradas enlameadas durante a época das chuvas.
Passado muito tempo, levantou-se, afastou o rebozo da cara e reco­
meçou a andar.

*
22 Katherine Anne Porter

Juan acordou devagar, com grandes bocejos e resmungos, alterna­


dos com pequenas recaídas no sono, cheio de visões e clamores. Um
clarão de luz cor de laranja abrasou-lhe as órbitas quando tentou des­
cerrar as pálpebras. De algum sítio indefinido provinha uma voz baixa
que chorava sem lágrimas e repetia frases inconsequentes vezes sem
conta. Pôs-se à escuta. Puxou a trela do seu próprio estupor, esforçou­
-se por compreender aquelas palavras que o aterrorizavam, ainda que
não conseguisse percebê-las bem. Depois acordou com uma brusqui­
dão assustadora, sentando-se e fitando o longo raio de luz do Sol
poente, que atravessava as paredes de espigas de milho.
María Concepción estava à entrada, impondo-se alta como um co­
losso perante os seus olhos traídos. Falava rapidamente e chamava-o
pelo nome. Então Juan viu-a com nitidez.
"Pelo nome de Deus!", exclamou ele, gelado até à medula, "que
enfrento agora a minha morte!", pois a faca comprida que ela costu­
mava ter no cinto estava na sua mão. No entanto, em vez disso, ela
atirou-a para bem longe de si e deixou-se cair de joelhos, para em se­
guida rastejar na sua direcção como ele muitas vezes a vira rastejar em
direcção ao altar na Villa de Guadalupe. Assistiu à sua aproximação
com tanto horror que tinha a impressão de que os cabelos se lhe eriça­
vam. Caindo de rojo, ela aninhou-se por cima dele, com os lábios a
mexerem-se num sussurro fantasmagórico. As palavras dela tomaram­
-se claras e Juan compreendeu-as todas.
Por um segundo, não foi capaz de se mexer, nem de falar. Depois
segurou-lhe a cabeça entre as mãos e apoiou-a assim, dizendo-lhe de­
pressa, para a reconfortar ansiosamente, quase a balbuciar:
"Oh, pobre criatura! Oh, mulher louca! Oh, minha María Concep­
ción, triste! Ouve... Não tenhas medo. Ouve-me! Vou esconder-te, eu,
o teu homem, vou proteger-te! Calada! Nem um som!"
Tentando recompor-se, ele abraçou-a e praguejou entredentes du­
rante alguns instantes na penumbra crescente. María Concepción de­
bruçou-se, com a cara quase no chão, os pés dobrados debaixo do
corpo, como se pudesse esconder-se atrás dele. Pela primeira vez na
vida, Juan estava ciente do perigo. Aquilo era o perigo. María Concep­
ción seria arrastada dali entre dois gendarmes, com ele a segui-la,
impotente e desarmado, e passaria o resto dos seus dias na Prisão de
Belén, talvez. Perigo! A noite fervilhava de ameaças. Levantou-se e
obrigou-a a pôr-se de pé também. Ela estava calada e absolutamente
rígida, agarrando-se a ele com uma força sem resistência, com as mãos
retesadas nos braços dele.
A Torre Inclinada e Outros Contos 23

"Dá-me a faca", sussurrou-lhe ele. Ela obedeceu, com os pés a ar­


rastarem-se pelo solo de terra dura, os ombros direitos, os braços junto
aos flancos. Juan acendeu uma vela. Maria Concepción entregou-lhe a
faca. Sangue a secar manchava-a e escurecia-a até ao cabo.
Ele fitou-a com rispidez, reparando nas mesmas manchas no cami­
seiro e nas mãos dela.
"Despe essas roupas e lava as mãos", ordenou-lhe. Lavou a faca
com cuidado e atirou a água para longe da porta da rua. Ela viu-o e fez
o mesmo com a bacia em que se tinha lavado.
"Acende o brasero e prepara-me comida", disse-lhe ele, no mesmo
tom peremptório. Agarrou nas roupas dela e saiu. Quando voltou, ela
estava a usar um velho vestido sujo e a atear o fogo no grelhador a
carvão. Sentando-se de pernas cruzadas perto dela, observou-a como
se estivesse perante uma criatura desconhecida, que o pasmasse por
completo, para a qual não houvesse explicação possível. Ela não virou
a cabeça, mantendo-se silenciosa e parada, à excepção dos movimen­
tos das mãos fortes a atiçar as brasas, que soltavam faíscas e pequenos
jactos de fumo branco, inflamando-se e esmorecendo ao ritmo do
movimento do abano, ora iluminando, ora escurecendo o rosto dela.
A voz de Juan mal perturbou o silêncio. "Presta-me atenção e diz­
-me a verdade e, quando os gendarmes vierem buscar-nos, nada terás
a temer. Mas depois haverá algo para resolvermos entre nós."
A luz do grelhador a carvão reflectia-se nos olhos dela; uma fosfo­
rescência amarela cintilava por trás das íris escuras.
"Para mim agora está tudo resolvido", respondeu ela, num tom tão
temo, tão grave, tão carregado de sofrimento, que Juan sentiu os ór­
gãos vitais a contraírem-se. Desejou arrepender-se abertamente, não
como um homem, mas como uma criança muito pequena. Não era
capaz de a compreender, nem a si mesmo, nem aos acasos misterio­
sos da vida de súbito tão confusa, quando até então tudo parecia
alegre e simples. Também sentia que ela se tinha tomado inestimável,
uma mulher sem igual no meio de um milhão de outras mulheres, e
não seria capaz de dizer porquê. Soltou um suspiro enorme que lhe
rufou no peito.
"Sim, sim, está tudo resolvido. Eu não voltarei a ir embora. Temos
de ficar aqui juntos."
A sussurrar, Juan questionou-a e Maria Concepción respondeu em
sussurros, e ele instruiu-a vezes sem conta até ela saber a lição de cor.
A escuridão hostil da noite tombou sobre eles, insinuando-se pelo pa­
tamar estreito e invadindo-lhes os corações. Levava-lhes suspiros e
24 Katherine Anne Porter

murmúrios, o patinhar de pés dissimulados na estrada próxima, o ge­


mido pausado e agudo do vento a passar por entre as folhas dos cactos.
Todas aquelas cadências familiares e outrora amistosas se investiam
então de terrores sinistros; um pavor, disforme e incontrolável, apode­
rou-se de ambos.
"Acende outra vela", disse Juan, bem alto, num tom demasiado re­
soluto, demasiado brusco. "Vamos comer agora."
Sentaram-se voltados um para o outro e comeram do mesmo prato,
consoante o velho hábito. Nenhum sentiu o sabor do que comiam.
Com a comida a meio caminho da boca, Juan escutava. O som de vo­
zes elevava-se, espalhava-se, alargava-se pela curva da estrada ao
longo da cerca de cactos. Um feixe de luz de lanterna passou pelo
cercado, uma única voz cortou o negrume, rasgou a frágil camada de
silêncio suspensa sobre a cabana.
"Juan Villegas!"
"Passem, amigos!", travejou Juan num tom alegre.
Encontravam-se à porta, gendarmes simples e cautelosos da aldeia,
eles próprios mestiços com ligações aos índios, bem conhecidos de
toda a comunidade. Dirigiram as lanternas de forma quase apologética
à cena agradável e inocente de um homem a cear com a sua mulher.
"Perdoa, irmão", disse o líder deles. "Alguém matou a mulher Ma­
ría Rosa e temos de interrogar os vizinhos e os amigos." Fez uma
pausa e depois acrescentou, com uma tentativa de severidade: "Natu­
ralmente!"
"Naturalmente", concordou Juan. "Sabem que eu era bom amigo de
María Rosa. Isso é uma má notícia."
Todos foram embora juntos, os homens a caminharem num grupo,
María Concepción uns passos atrás, perto de Juan. Nenhum deles fa­
lava.

As duas velas acesas junto à cabeça de María Rosa tremeluziam a


custo; as sombras moviam-se e esquivavam-se nas paredes escurecidas
e manchadas. A María Concepción, na abafada divisão fechada, tudo
parecia partilhar uma inquietude maligna. Os rostos atentos dos que
tinham sido chamados como testemunhas, os rostos de antigos amigos,
tomavam-se estranhos pelo ar de especulação nos olhos. As linhas do
rebozo cor-de-rosa colocado sobre o corpo não paravam de variar,
como se o que cobrissem não estivesse em perfeito repouso. Os olhos
dela perscrutaram o corpo no caixão pintado aberto, das velas na cabe-
A Torre Inclinada e Outros Contos 25

ceira até aos pés magros, de plantas marcadas protuberantes, recém­


-lavados, cheios de feridas, picadas e cortes de pedras afiadas por ci­
catrizar. O seu olhar regressou à luz das velas, aos olhos de Juan que a
avisavam, aos gendarmes que falavam entre si. Era-lhe impossível
controlar os próprios olhos.
Com um salto que a alvoroçou, o seu olhar deteve-se sobre o rosto
de Maria Rosa. Logo o sangue voltou a correr-lhe tranquilamente pelas
veias: nada havia a recear. Nem mesmo a luz irrequieta poderia dar um
ar de vida àquele semblante fixo. Ela estava morta. Maria Concepción
sentiu os músculos a cederem suavemente; o seu coração começou a
bater de modo constante e sem esforço. Já não dedicava rancor àquela
coisa deplorável, deitada com indiferença no seu caixão azul sob o
fino rebozo de seda. A boca pendia drasticamente nas comissuras, num
esgar choroso sustido a meio. As sobrancelhas estavam revoltas; a
carne morta não conseguia livrar-se da forma do derradeiro terror.
Estava tudo acabado. María Rosa comera demasiado mel e conhecera
demasiado amor. Agora tinha de ficar no inferno, a chorar os pecados
e a morte agreste para todo o sempre.
A voz cacarejada da velha Lupe fez-se ouvir. Tinha passado a manhã
a ajudar Maria Rosa, e fora um trabalho árduo. A criança cuspira sangue
ao nascer, um mau sinal. Na altura, tinha pensado que a má sorte se
abateria sobre a casa. Bem, por volta do pôr-do-sol, ela estava no quintal
das traseiras a moer tomates e pimentos. Tinha deixado mãe e filho a
dormir. Ouviu um barulho estranho na casa, um som engasgado e um
chamamento abafado, como alguém que chorasse a dormir. Bem, tal
coisa seria natural. Mas depois seguiu-se um som leve, rápido, surdo...
"Como os golpes de um punho?", interrompeu um agente.
"Não, nada como isso."
"Como sabe?"
"Conheço bem esse som, amigos", retorquiu Lupe. "Isto foi outra
coisa."
Não sabia ao certo como descrevê-lo. Passado um momento, viera
o som de gravilha a rolar e a raspar por baixo de pés; percebeu então
que alguém tinha estado ali e ia a fugir.
"Porque esperou tanto antes de ir ver?"
"Sou velha e doem-me as articulações", disse Lupe. "Não consigo
perseguir alguém. Caminhei o mais depressa que pude até à cerca de
cactos, pois só por ali dá para entrar. Não havia ninguém na estrada,
senhor, ninguém. Três vacas, com um cão a guardá-las; nada mais.
Quando cheguei a Maria Rosa, ela estava no chão, toda enovelada, e
26 Katherine Anne Porter

do pescoço à cintura cheia de facadas. Era uma visão que comoveria


até a Santa Imagem do Senhor! Os olhos dela estavam ... "
"Esqueça lá isso. Quem a visitava com mais frequência antes de ela
se ter ido embora? Sabe quem eram os inimigos dela?"
O rosto de Lupe estagnou, fechou-se. A pele esponjosa transformou­
-se numa rede de rugas cheias de segredos. 0$ olhos guardados e
inexpressivos fitaram os gendarmes.
"Sou uma mulher idosa. Não vejo bem. Não consigo andar depres­
sa. Não conheço inimigos de Maria Rosa. Não vi ninguém a sair da
clareira."
"Não ouviu água a chapinhar no ribeiro perto da ponte?"
"Não, senhor. "
"Então porque é que os nossos cães seguem um rasto até lá e o per-
dem?"
"Só Deus sabe, meu amigo. Sou uma mulher ido. . . "
"Sim. Como lhe pareceram os passos?"
"Pareciam as passadas de um espírito malévolo!", exclamou Lupe
num tom oracular crescente que os sobressaltou. Os índios agitaram­
-se, pouco à vontade, lançaram um olhar de relance à defunta e outro
a Lupe. Quase esperavam que invocasse o espírito malévolo e que
este surgisse de imediato à frente deles.
O gendarme começava a perder a paciência.
"Não, pobre coitada; quero saber se eram pesados ou leves. Eram
passos de homem ou de mulher? A pessoa ia calçada ou descalça?
Com um olhar em volta do círculo à escuta, Lupe assegurou a aten­
ção empolgada de todos. Apreciava a importância perigosa da situação
em que se encontrava. Poderia ter arruinado aquela Maria Concepción
com uma palavra, mas era ainda melhor fazer de tolo aqueles gendar­
mes que espiavam gente honesta. Tomou a erguer a voz. O que não
tinha visto não poderia descrever, graças a Deus! Ninguém poderia
fazer-lhe mal porque os seus joelhos estavam perros e ela não conse­
guiria correr nem que fosse para apanhar um assassino. Quanto a saber
a diferença entre passos, calçados ou descalços, de homem ou de mu­
lher, ou, já agora, de demónio ou de humano, quem teria alguma vez
ouvido falar de tal loucura?
"Os meus olhos não são ouvidos, senhores ", terminou com grandi­
loquência, "mas pelo meu coração juro que aqueles passos caíam co­
mo a caminhada do espírito do mal!"
"Imbecil!", berrou o líder numa voz aguda. "Tirem-ma daqui, um de
vocês! Agora, Juan Villegas, conta-me. . . "
A Torre Inclinada e Outros Contos 27

Juan contou pacientemente a sua história, várias vezes. Tinha re­


gressado à esposa naquele dia. Ela fora ao mercado como era habitual.
Ele tinha-a ajudado a preparar as galinhas. Ela voltara a meio da tarde,
tinham conversado, ela tinha cozinhado, tinham comido, nada de es­
tranho se passara. Depois chegaram os gendarmes com a notícia acer­
ca de Maria Rosa. Isso era tudo. Sim, Maria Rosa tinha fugido com ele,
mas não havia rancor entre ele e a sua esposa por causa disso, nem
entre esta e Maria Rosa. Toda a gente sabia que a sua esposa era uma
mulher calma.
Maria Concepción ouviu a sua própria voz a responder sem vacilar.
Era verdade que começara por ficar perturbada quando o marido se
fora embora, mas depois não se tinha preocupado com ele. Assim eram
os homens, segundo julgava. Quanto a si, era uma mulher casada pela
igreja e sabia qual era o seu lugar. Bem, ele regressara por fim. Ela
tinha ido ao mercado, mas voltara cedo, pois agora tinha de cozinhar
para o seu homem. Era tudo.
Outras vozes intervieram. Um velho desdentado disse: "Ela é uma
mulher de boa reputação entre nós, e Maria Rosa não era." Uma jovem
mãe sorridente, Anita, de bebé ao peito, comentou: "Se ninguém pensa
isso, como podem acusá-la? Foi a perda do filho, não a do marido, o
que a mudou desta maneira." Outra: "Maria Rosa teve uma vida estra­
nha, longe de nós. Como podemos saber quem terá vindo de outro
lugar para lhe fazer mal?" E a velha Soledad falou com desassombro:
"Hoje, quando vi Maria Concepción no mercado, disse-lhe: 'Boa sor­
te, Maria Concepción, hoje é um dia feliz para ti!"', e fixou em María
Concepción o olhar calmo e o sorriso de uma sábia inata.
De súbito, María Concepción sentiu-se protegida, rodeada, ampa­
rada pelos amigos leais. Estavam à sua volta, a intervir em sua defe­
sa; as forças da vida dispunham-se invencivelmente ao seu lado
contra a morta derrotada. María Rosa desperdiçara a sua quota de
força com eles, jazia perdida entre eles. María Concepción ia olhando
para cada um dos rostos intensos do círculo. Os olhos deles corres­
pondiam-lhe com segurança, compreensão, uma compaixão secreta e
poderosa.
Os gendarmes não sabiam o que fazer. Também eles pressentiam
essa parede protectora e impenetrável construída à volta dela. Tinham
a certeza de que ela cometera o crime, mas não poderiam acusá-la.
Ninguém seria acusado; não havia o mais pequeno indício. Encolhe­
ram os ombros, estalaram os dedos e arrastaram os pés. Bem, nesse
caso, boa noite a todos. Mil perdões pela intrusão. Saúde!
28 Katherine Anne Porter

Um pequeno embrulho encostado à parede da cabeceira do caixão


remexeu-se como uma enguia. Um choro, um mero laivo de som, se­
guiu-se. Maria Concepción pegou no filho de Maria Rosa.
"É meu", disse com toda a clareza, "vou levá-lo comigo."
Ninguém assentiu por palavras, mas um aceno aprovador, uma ex­
piração simples de concordância absoluta, a�vessou o grupo que
abria alas para que ela passasse.

Maria Concepción, de criança ao colo, seguiu Juan para fora da


clareira. A cabana tinha ficado com as velas acesas e um grupo de
velhas que ali permaneceria toda a noite, a beber café, a fumar e a
contar histórias de fantasmas.
A exaltação de Juan tinha-se consumido. Não lhe restava nem uma
centelha de ânimo. Estava cansado. A aventura perigosa chegara ao
fim. María Rosa desaparecera, para nunca mais voltar. Os seus dias de
marchar, comer, discutir e fazer amor entre batalhas tinham chegado
ao fim. No dia seguinte, voltaria à labuta enfadonha e interminável,
teria de descer para as valas da cidade enterrada tal como Maria Rosa
teria de ir para a sepultura. Sentiu as veias encherem-se de amargura,
de negra melancolia insuportável. Oh, Jesus!, a má sorte que assola um
homem!
Bem, já não havia como escapar-lhe. Por ora, ansiava apenas por
dormir. Estava tão ensonado que mal conseguia guiar os pés. O oca­
sional toque leve da mulher no seu cotovelo era tão irreal, tão fantas­
magórico como o roçagar de uma folha no seu rosto. Não sabia porque
lutara por salvá-la e agora esquecia-a. Em si nada existia além de uma
dor vasta e cega, como uma ferida coberta.
Entrou no jacal e, sem se deter para acender uma vela, arrancou as
roupas, mesmo à entrada. Movia as mãos lentas, semiadormecidas,
para livrar o corpo dos trajes pesados. Com um grande suspiro resmun­
gado de alívio, deixou-se cair de novo no chão, adormecendo quase de
imediato, com os braços afastados e voltados para cima.
Maria Concepción, com um pequeno boião de barro na mão, apro­
ximou-se da pequena e delicada mãe cabra presa a uma árvore jovem,
que ia cedendo e curvando enquanto ela puxava a ponta da corda que
chegava às zonas mais distantes do terreno ervado. A cria, amarrada a
poucos metros, levantou-se a balir, com a penugem ligeira a estreme­
cer sob o vento fresco. Sentada nos calcanhares, segurando-lhe a cor­
da, deixou-a mamar por alguns instantes. Depois - com todos os
A Torre Inclinada e Outros Contos 29

movimentos muito deliberados e precisos - recolheu um pouco de


leite para o bebé.
Sentou-se encostada à parede da casa, junto à porta. O bebé, alimen­
tado e adormecido, estava aninhado no espaço das suas pernas cruza­
das. O silêncio preenchia o mundo, os céus fluíam constantemente até
à beira do vale, a Lua esquiva subia de viés para o abrigo das monta­
nhas. Toda ela se sentia suave e quente; sonhou que o recém-nascido
era seu e que estava a desfrutar de um repouso delicioso.
María Concepción ouvia a respiração de Juan. O som exalava cal­
mamente pela passagem baixa; a casa parecia descansar após um dia
extenuante. Também ela respirava, muito lenta e sossegadamente, com
cada inspiração a saturá-la de quietude. A respiração leve e ténue da
criança era uma mera traça obscurecida de som no ar prateado. A noi­
te, a terra debaixo de si, tudo parecia crescer e recuar em uníssono com
uma respiração ilimitada, sem pressas, benigna. Deixou as pálpebras
descair e fechou os olhos, sentindo a subida e a descida lenta no inte­
rior do seu próprio corpo. Não sabia o que era, mas descontraía-a por
completo. Mesmo ao adormecer, com a cabeça pendida sobre o bebé,
continuava ciente de uma felicidade estranha, alerta.

Nova Iorque, 1922


Virgem Violeta

Violeta, quase com quinze anos, estava sentada num pufe, a abraçar
os joelhos e a observar Carlos, seu primo, e a irmã Blanca, os quais,
instalados na mesa comprida, liam poesia em voz alta à vez.
De vez em quando, ela olhava para os seus próprios pés, cingidos
por umas sandálias castanhas de sola grossa, com os dedos ligeiramen­
te virados para dentro. A fealdade dos dedos afligia-a e ela puxava a
saia curta para os tapar até o cós se soltar da blusa larga, de flanela
azul-escura. Depois endireitava-se, com uma respiração completa e
silenciosa, tomando a destapar as sandálias. De todas as vezes, os seus
olhos moviam-se sob pálpebras acanhadas, voltados para Carlos, para
ver se ele teria reparado; nunca reparava. Desiludida, um pouco inco­
modada, Violeta sentava-se e ficava muito quieta durante algum tem­
po, a ouvir e a assistir.

"'Este tormento de amor que existe no meu coração:


Sei que o sofro, mas não sei porquê."'

A voz de Blanca era ténue, continha um sussurro. Parecia ansiosa


por manter a poesia toda para Carlos e para si mesma. O seu xaile, de
seda cinzenta bordada a amarelo, escorregava-lhe dos ombros sempre
que se inclinava para a lamparina. Carlos levantava a borla da franja
mais próxima de si entre o indicador e o polegar e, com destreza, tor­
nava a colocá-lo no lugar. O assentimento de cabeça de Blanca, o seu
sorriso eram a indiferença amistosa levada à perfeição. Mas a voz
tremia-lhe, hesitava na palavra. Tinha sempre de recomeçar o verso
que estivesse a ler.
Carlos inclinava os olhos claros na direcção de Blanca; depois reto­
mava a sua pose, de olhar fixo no pequeno quadro pendurado na pare-
A Torre Inclinada e Outros Contos 31

de branca, acima da cabeça de Violeta. "Encontro Pio entre a Mais


Sagrada Rainha Virgem do Céu e o Seu Fiel Servidor, Sto. Inácio de
Loyola", lia-se na fina placa de metal embutida na moldura lavrada e
dourada. A Virgem, com um rosto de marfim fixo num sorriso alheado
e a testa desprovida de sobrancelhas, estendia uma mão remotamente
acima da cabeça tonsurada do santo, o qual se prostrava numa posição
rígida de êxtase. Muito feia e antiquada, na opinião de Violeta, mas
uma pintura perfeitamente adequada; nada tinha que valesse a pena
fitar. Todavia, Carlos continuava a semicerrar as pálpebras na direcção
do quadro, com um ar de mistério, e nunca movia os olhos, excepto
para lançar uma mirada rápida a Bianca. As suas sobrancelhas cheias
e douradas estavam franzidas com severidade, fazendo lembrar um nó
em lã de croché. Parecia nunca estar interessado, a menos que fosse a
sua vez de ler, o que fazia numa voz arrebatadora. Violeta achava que
a boca e o queixo dele eram belíssimos. Um minúsculo foco de luz no
seu lábio inferior ligeiramente humedecido perturbava-a, e ela não
sabia porquê.
Bianca parou de ler, inclinou a cabeça e suspirou um tudo-nada,
com a boca semiaberta. Era um dos seus hábitos. Tal como o som de
vozes embalara Mamacita, que adormecera ao lado do cesto de costu­
ra, agora o silêncio despertava-a. Olhou em redor com um sorriso
vivaz no rosto inteiro, excepto nos olhos, que estavam sonolentos e
fatigados.
"Continuem a ler, meus queridos. Ouvi tudo o que disseram. Vio­
leta, não estejas inquieta, por favor, filhinha doce. Carlos, que horas
são?"
Mamacita gostava de servir de chaperon a Bianca. Violeta pergun­
tava-se porque seria que Mamacita considerava Bianca tão atraente,
mas a verdade era que considerava. Estava sempre a dizer a Papacito:
"Blanquita desabrocha como um lírio!" E Papacito respondia: "É me­
lhor que se comporte como tal!" E uma vez Mamacita dissera a Car­
los: "Apesar de seres meu sobrinho, tens de ir para casa a uma hora
decente!"
"É cedo, Doõa Paz." Nem Sto. António poderia exceder em respeito
a pose da cabeça de Carlos voltada para a tia. Esta sorriu e recaiu numa
sesta leve, como um gato que se levanta do tapete, se vira e torna a
deitar.
Violeta não se mexeu, nem respondeu a Mamacita. Tinha o silêncio
e a atenção de um animal jovem e selvagem, mas nenhuma sabedoria
inata. Pela primeira vez em quase um ano, encontrava-se em casa,
32 Katherine Anne Porter

vinda do convento de Tacubaya. Lá, tinham-lhe ensinado recato, cas­


tidade, silêncio, obediência, com um pouco de francês, música e algu­
ma aritmética. Ela fazia o que lhe mandavam, mas tudo era muito
confuso, pois não compreendia porque seriam as coisas que aconte­
ciam no exterior das pessoas tão diferentes do que sentia dentro de si.
Toda a gente se dedicava a fazer as mesmas coisas todos os dias, pre­
cisamente como se nada mais fosse acontecer, nunca; e a toda a hora
ela tinha a certeza de que algo tremendamente excitante só poderia
estar à sua espera fora do convento. A vida ia desenrolar-se como uma
passadeira comprida e alegre em que ela caminharia. Via-se a usar um
véu comprido, que se arrastaria e flutuaria sobre essa passadeira en­
quanto ela saía da igreja. Haveria seis meninas das flores e dois pajens,
tal como no casamento da prima Sancha.
É claro que ela não estava a pensar num casamento. Tolice! A prima
Sancha era bastante velha, tinha quase vinte e quatro anos, e Violeta
queria que a vida começasse de imediato - para o ano, de qualquer
maneira. Seria mais uma espécie de festival. Queria usar papoilas ver­
melhas no cabelo e dançar. A vida seria sempre muito alegre, sem
ninguém a dizer que tudo o que se dizia e fazia estava errado. Seria
livre para ler poesia, também, e histórias de amor, sem ter de as escon­
der nos cadernos de exercícios. Nem Carlos sabia que ela decorara
quase todos os poemas dele. Havia um ano que os recortava de revis­
tas, guardando-os nas páginas dos seus livros, para poder lê-los duran­
te as horas de estudo.
Vários dos mais curtos estavam dissimulados no seu missal, e a
música emocionante de palavras estranhas abafava os refrães de sinos
e coro. Havia um sobre fantasmas de freiras que regressavam à velha
praça em frente ao convento arruinado, dançando ao luar com as som­
bras de amantes que lhes tinham sido proibidos em vida, pisando vi­
dros partidos com os pés descalços em penitência pelos seus amores.
Violeta estremecia de alto a baixo quando o lia e erguia os olhos tur­
vados para as delicadas chamas das velas do altar.
Ela tinha a certeza de que um dia seria como aquelas freiras. Dan­
çaria de alegria sobre cacos de vidro. Mas por onde começar? Desde
que se lembrava que passava as tardes estivais das férias naquela divi­
são, sentada naquele preciso pufe, confortavelmente próxima de Ma­
macita. Por vezes era uma alegria ter a certeza de que nada era espera­
do de si além de seguir Mamacita e portar-se bem. Isso dava-lhe tempo
para sonhar com a vida - ou seja, com o futuro. Pois obviamente tudo
de belo e inesperado aconteceria mais tarde, quando ela fosse tão alta
A Torre Inclinada e Outros Contos 33

como Blanca e tivesse autorização para regressar do convento de uma


vez por todas. Nessa altura, seria milagrosamente formosa - Blanca
pareceria mesmo apagada a seu lado - e dançaria com jovens fasci­
nantes como os que cavalgavam por ali aos domingos de manhã, obri­
gando os cavalos a fazerem cabriolas na rua luminosa e curta a cami­
nho do paseo no Bosque de Chapultepéc. Ela apareceria na varanda
que dava para a rua, a usar um vestido azul, e toda a gente perguntaria
quem era aquela moça encantadora. E Carlos, Carlos! Ele compreen­
deria por fim que ela sempre lera e adorara os seus poemas.

"As freiras dançam com pés descalços


Sobre vidros partidos na estrada empedrada . "

Esse mais do que qualquer outro. Sentia que fora escrito só para si.
Ela até era uma das freiras, a mais nova e bem-amada, silenciosa como
um fantasma, a dançar para sempre sob o luar, ao ritmo trémulo de
velhos violinos.
Mamacita mexeu o joelho com desconforto e a cabeça de Violeta
escorregou, levando-a a quase perder o equilíbrio. Endireitou-se, toda
ela envergonhada por recear que os outros percebessem porque tinha
escondido o rosto no colo de Mamacita. Mas ninguém tinha visto.
Mamacita estava sempre a dar-lhe sermões. Nesses momentos, era
difícil acreditar que Blanca não fosse a filha preferida. "Não deves
correr assim pela casa." "Tens de pentear melhor o cabelo." "E que
história é esta de usares o pó-de-arroz da tua irmã?"
Blanca, à escuta, olharia para ela com uma expressão de calma so­
branceira e nada diria. Era mesmo muito duro, saber que Blanca era
mais bonita só porque a deixavam usar pó-de-arroz e perfume, e que
ainda se dava aqueles ares. Carlos, que costumava trazer-lhe limas
açucaradas e tiras compridas de membrillo seco dos mercados, dizen­
do que ela era a sua querida, divertida e recatada Violeta, agora sim­
plesmente nem sabia que ela estava presente. Havia alturas em que
Violeta tinha vontade de chorar com todo o furor, para que toda a
gente a ouvisse. Mas porque haveria de chorar? E como explicá-lo a
Mamacita? Esta diria: "Que motivo tens para chorar? E, para mais,
tem em consideração os sentimentos das outras pessoas desta casa e
controla o temperamento."
E Papacito diria: "Do que precisas é de uma boa renovação." Era a
palavra que ele usava para dizer tareia. Afirmava com severidade a
Mamacita: "Julgo que a natureza moral dela precisa de ser corrigida."
34 Katherine Anne Porter

Parecia que ele e Mamacita partilhavam um entendimento misterioso


acerca das coisas. Os olhos de Mamacita estavam sempre perfeitamen­
te límpidos quando olhava para Papacito e respondia: "Tens razão. Vou
tratar disso." E depois era sempre severa com Violeta. Papacito dizia
sempre às filhas: "A culpa é vossa, sem excepção, quando Mamacita
se zanga convosco. Por isso, tenham cuidado." .
Contudo, Mamacita nunca ficava zangada durante muito tempo, e
depois era maravilhoso enroscar-se junto dela, aninhar-se no seu om­
bro e cheirar-lhe o cabelo suave, frisado e perfumado na sua nuca. Mas
quando se zangava os seus olhos ganhavam uma expressão apreensiva,
como se o alvo da zanga fosse um desconhecido, e dizia: "És o maior
dos meus problemas." Violeta fora frequentemente um problema e isso
era muito humilhante.
jAy de mí! Violeta soltou um suspiro carregado e endireitou-se. Que­
ria espreguiçar os braços e bocejar, não por ter sono, mas porque era
como se algo dentro de si estivesse encerrado numa jaula demasiado
pequena e ela não conseguisse respirar. Como aqueles pobres papagaios
nos mercados, enfiados em gaiolas de vime tão minúsculas que trans­
bordavam pelos espaços entre as varetas, arquejando e ofegando, à es­
pera de alguém que os resgatasse.
A igreja era uma jaula terrível e enorme, mas parecia demasiado
pequena. "Oh, céus, eu rio-me sempre, para não chorar!" Um verso
tolo que Carlos costumava dizer. Vendo-o por entre as pestanas, o
rosto dele pareceu-lhe subitamente pálido e suave, como se ele pu­
desse ter lágrimas nas faces. Oh, Carlos! Mas era claro que ele nunca
choraria pelo que quer que fosse. Violeta tinha receio de descobrir
que os seus próprios olhos estavam carregados de lágrimas; correr­
-lhe-iam pelo rosto; não seria capaz de as parar. Inclinou a cabeça e
o seu queixo parecia curvar-se para cima. Onde estaria o seu lenço?
Um lenço enorme, limpo, de linho branco, quase como um lenço de
rapaz. Que horrível! O canto dobrado arranhou-lhe as pálpebras. Por
vezes chorava na igreja, quando a música clamava terrivelmente e as
raparigas ficavam sentadas em filas veladas, todas em silêncio excep­
to pelo correr das contas do rosário que lhes passavam pelos dedos.
Nessa altura, todas lhe eram estranhas; e se soubessem o que pensa­
va? E se ela dissesse em voz alta: "Eu amo o Carlos!" A ideia fê-la
corar intensamente, até ter a testa a transpirar e as mãos vermelhas.
Começaria a rezar num frenesim: "Oh, Maria! Oh, Maria! Rainha
Mãe da misericórdia!", enquanto por baixo das suas palavras os pen­
samentos corriam numa espécie de transe: Oh, santo Deus, é esse o
A Torre Inclinada e Outros Contos 35

meu segredo; é um segredo entre Ti e mim. Morreria se alguém sou­


besse!
Voltou de novo o olhar na direcção do par sentado à mesa comprida,
mesmo a tempo de tomar a ver o xaile a começar a escorregar, apenas
um pouco, do ombro de Bianca. Um estremecimento tenso de fios re­
tesados instalou-se na pele de Violeta e tomou-se deveras intolerável
quando Carlos esticou a mão para segurar a franja com os seus dedos
longos. O pulso dele virou-se com um gesto delicado, o xaile voltou
ao lugar, Bianca sorriu, gaguejou e mordeu o lábio.
Violeta não aguentava ver aquilo. Não, não. Queria pressionar as
mãos contra o peito com força, para abafar a dor lenta e ardente. Era
como se tivesse um pequeno jarro cheio de chamas, que não conse­
guisse extinguir. Que cruel era que Bianca e Carlos se sentassem ali,
que lessem e estivessem tão satisfeitos um com o outro sem pensarem
nela uma vez sequer! No entanto, o que poderia dizer se eles de facto
dessem pela sua presença? Nunca reparavam nela.
Bianca levantou-se.
"Estou farta da velha poesia. É tudo demasiado triste. Que outra
coisa havemos de ler?"
"Vamos ler muita poesia moderna e alegre", sugeriu Carlos, cujos
próprios versos eram considerados extremamente alegres e modernos.
Violeta ficava sempre escandalizada quando ele dizia que eram diver­
tidos. Não poderia falar a sério. Seria apenas a sua forma de fingir que
não estava triste quando os escrevera.
"Lê-me todos os teus novos outra vez." Bianca estava sempre a
elogiar Carlos. Distinguia-se na sua voz, como um pequeno fio de
açúcar. E Carlos permitia-lho. Parecia sempre tratar Bianca com uma
certa condescendência. Mas esta nunca se apercebia disso, pois na
verdade nunca pensava noutra coisa que não a forma como arranjara o
cabelo ou se as pessoas a julgavam bonita. Violeta estava cheia de
vontade de fazer uma careta à irmã, naquela sua pose ridícula, debru­
çada sobre a mesa.
Por cima do quebra-luz de seda vermelha, o seu rosto não parecia tão
emaciado como era costume. O nariz estreito e os lábios pequenos lan­
çavam sombras na sua face. Detestava ser pálida e tinha o hábito, en­
quanto lia, de descrever círculos e mais círculos com dois dedos nas
faces, primeiro uma e depois a outra, até manchas vermelho-escuras
ficarem gravadas nelas durante muito tempo. Violeta ficava com vonta­
de de gritar quando via Bianca fazer aquilo durante horas a fio. Porque
seria que Mamacita não a repreendia? Era o pior género de inquietude.
36 Katherine Anne Porter

"Não tenho os novos comigo", disse Carlos.


"Então podem ser os antigos", acedeu Blanca alegremente.
Avançou para as estantes, com Carlos a seu lado. Não encontravam
o livro dele. As mãos de ambos tocaram-se enquanto os dedos procura­
vam títulos. Algo no murmúrio íntimo das vozes deles magoava Violeta
profundamente. Partilhando algum segredo delicioso, faziam de propó­
sito para a deixar de fora. Ela falou:
"Se queres o teu livro, Carlos, eu posso encontrá-lo . " Ao ouvir a sua
própria voz, sentiu-se calma, firme, e ao nível do que quer que fosse.
Com o seu tom, tentava excluir Bianca.
Eles viraram-se e fitaram-na sem interesse.
"E onde poderá estar, criança? " A voz de Carlos tinha sempre aque­
le laivo gélido quando não estava a ler em voz alta; os seus olhos
sondavam. Com um olhar de relance, parecia ver todos os defeitos de
uma pessoa. Violeta lembrou-se dos pés e puxou as saias para baixo.
A visão dos sapatinhos estreitos de cetim cinzento de Blanca era he­
dionda.
"Sou eu que o tenho. Tenho-o já há uma semana inteira." Fitou a
ponta do nariz de Blanca, esperando que eles percebessem que queria
dizer: "Estão a ver, tenho-o estimado!"
Levantou-se, sentindo-se um pouco desajeitada, e afastou-se numa
imitação curiosa do caminhar crescido de Blanca. Isso deixou-a pavo­
rosamente ciente das pernas compridas e direitas nas meias caneladas.
"Eu ajudo-te a procurar", disse Carlos atrás dela, como se tivesse
pensado em algo interessante, e seguiu-a. Por cima do ombro dele, de
súbito tão próximo, ela viu o rosto de Blanca. Parecia muito vago e
distante, como o de uma boneca perturbada. Os olhos de Carlos eram
enormes e o seu sorriso firme. Ela tinha vontade de fugir. Ele disse
qualquer coisa em voz baixa. Ela não o percebeu de modo algum e era
impossível encontrar o fio do candeeiro naquele corredor estreito e
escuro. Estava assustada com o som suave das solas de borracha dele,
tão perto atrás de si, enquanto atravessavam sem falar a sala de jantar
gelada, cheia do odor de fruta que passa todo o dia num espaço fecha­
do. Quando chegaram ao solário pequeno e aberto, por cima da entra­
da do pátio, o luar quase parecia quente, tão radiante era depois das
sombras da casa. Violeta revirou um monte de livros sobre uma mesa
pequena, mas não os via com clareza; e a mão tremia-lhe tanto que ela
não conseguia segurar no que quer que fosse.
A mão de Carlos subiu numa curva, pousou sobre a dela e segurou­
-a com força. A face arredondada e macia e as sobrancelhas louras
A Torre Inclinada e Outros Contos 37

dele pairaram, desceram a pique. A boca dele tocou na sua e fez um


pequeno som repenicado. Ela deu por si a tentar libertar-se e virar-se
como se uma mão a empurrasse com violência. E, nesse segundo, a
mão dele cobriu-lhe a boca, suave e quente, e os olhos dele fitavam-na,
assustadoramente próximos. Violeta arregalou os olhos e mirou-o.
Esperava deparar-se com um olhar caloroso e gentil, como o toque da
palma da mão dele. Em vez disso, sentiu-se súbita e agudamente ma­
goada, como se tivesse colidido com uma cadeira num quarto às escu­
ras. Os olhos dele estavam brilhantes e superficiais, quase como os de
Pepe, a arara. As sobrancelhas pálidas e felpudas arqueavam-se; na
boca tinha um sorriso tenso. Violeta começou a sentir uma batida sur­
da na boca do estômago, como acontecia sempre que era chamada
para explicar coisas à madre superiora. Algo estava terrivelmente mal.
O coração latejava-lhe tanto que ela se sentia prestes a asfixiar. Estava
furiosa, com todas as suas forças, e virou a cabeça num repelão vio­
lento.
"Tira a mão da minha boca!"
"Então fica calada, criança tola!" As palavras eram espantosas, mas
a forma como as dizia era ainda mais espantosa, como se eles fossem
aliados nalgum segredo vergonhoso. Enregelada, ela sentiu os dentes
a entrechocar.
"Vou contar à minha mãe! Devias ter vergonha por me teres bei­
jado!"
"Não te beijei, foi só um beijinho fraternal, Violeta, tal e qual como
os que dou à Bianca. Não sejas absurda!"
"Tu não beijas a Bianca. Ouvi-a dizer à minha mãe que nunca foi
beijada por um homem!"
"Mas beijo - como um primo, nada mais. Isso não conta. Não dei­
xamos de ser parentes. O que julgavas?"
Oh, ela tinha cometido um erro tremendo. Sabia que estava a corar,
até sentia a testa a latejar. Ficara sem fôlego, mas tinha de explicar. "Eu
achava. . . que um beijo. . . queria dizer. .. queria dizer. . . " Não conse­
guia terminar.
"Ah, és tão nova, como um bezerro recém-nascido", comentou Car­
los. A voz tremia-lhe de uma maneira estranha. "Tens o cheiro de um
lindo bebé, acabado de lavar com sabonete branco! Imagina um bebé
a zangar-se por causa de um beijo que o primo lhe desse! Devias ter
vergonha, Violeta!"
Ele era repugnante. Ela via-se a si mesma diante dele, quase como
se o rosto dele fosse um espelho. A sua boca era demasiado grande; a
38 Katherine Anne Porter

sua cara era simplesmente uma lua; e o cabelo era feio, nas tranças
apertadas do convento.
"Oh, lamento tanto!", sussurrou.
"O que lamentas?" A voz dele recuperara o tom cortante. "Anda,
onde está o livro?"
"Não sei", disse ela, a esforçar-se por não chorar.
"Bom, então, vamos voltar, senão a Mamacita vai ralhar contigo."
"Oh, não, não. Não posso ir lá para dentro. A Blanca vai ver ... A Ma-
macita vai fazer perguntas. Quero ficar aqui. Quero fugir ... quero ma­
tar-me!"
"Disparate!'', exclamou Carlos. "Vem comigo já. O que esperavas
quando vieste para aqui sozinha comigo?"
Ele virou-se e começou a afastar-se. Ela tinha-se enganado, vergo­
nhosa e incrivelmente . Comportara-se como uma rapariga imodesta.
Tudo aquilo era amargamente real e inacreditável, como um pesadelo
que não terminava e do qual ninguém a chamava para que acordasse.
Seguiu-o, tentando manter a cabeça erguida.
Mamacita cabeceava; tinha o cabelo brilhante e frisado, arranjado
de forma rígida, o queixo junto ao colarinho branco. Blanca estava
sentada como uma pedra na sua cadeira funda, com um livro cinzen­
to e dourado no colo. Os seus olhos zangados lançaram um olhar que
se zurziu sobre si mesmo como uma chicotada, e as pupilas ficaram
subitamente inexpressivas e brilhantes, como as de Carlos tinham
ficado.
Violeta deixou-se abater no seu pufe e levantou os joelhos. Fitou o
tapete para ocultar os olhos avermelhados, pois aterrorizava-a perce­
ber a forma como os olhos eram capazes de revelar histórias tão cruéis
acerca das pessoas.
"Encontrei o livro aqui, no sítio dele", disse Blanca. "Agora estou
cansada. É muito tarde. Não vamos ler."
Então Violeta teve mesmo vontade de chorar. Era o golpe que falta­
va, que Blanca tivesse encontrado o livro. Um beijo não tinha qualquer
importância, e Carlos afastara-se como se já a houvesse esquecido.
Tudo isso se mesclava com os rios brancos de luar, o cheiro a fruta
morna e uma humidade fria nos seus lábios que fazia um som mínimo
e repenicado. Tremeu e inclinou-se até a testa tocar no colo de Mama­
cita. Não poderia levantar a cabeça, nunca, nunca mais.
As vozes baixas pareciam hostis; finos arames metálicos tiniam no
ar à volta deles.
"Mas não me apetece ler mais, já disse."
A Torre Inclinada e Outros Contos 39

"Muito bem, partirei de imediato. Mas sigo para Paris na quarta­


-feira, e não voltarei a ver-te até ao Outono."
"Seria típico de ti ires sem sequer passares para te despedir."
Mesmo quando estavam zangados, continuavam a falar um com o
outro como dois adultos envolvidos num segredo. O som dos tacões
suaves de borracha dele aproximou-se.
"Boa noite, minha queridíssima Doõa Paz. Tive uma noite encanta­
dora."
Os joelhos de Mamacita mexeram-se; era sua intenção levantar-se.
"O que. . . a dormir, Violeta? Bem, esperamos ter notícias tuas com
frequência, querido sobrinho. Eu e as tuas pequenas primas vamos
sentir muito a tua falta."
Mamacita estava completamente desperta e a sorrir, a segurar nas
mãos de Carlos. Beijaram-se. Carlos voltou-se para Bianca e inclinou­
-se para a beijar. Ela enredou-o nas pregas do xaile cinzento, mas virou
a face para o cumprimento dele. Violeta levantou-se, de joelhos a tre­
mer. Virou a cabeça de um lado para o outro para bloquear a visão dos
olhos de arara que se acercavam cada vez mais, a boca tensa e sorri­
dente preparada para atacar. Quando ele lhe tocou, ela vacilou por um
momento, e em seguida deslizou contra a parede. Ouviu-se a gritar
incontrolavelmente.

Mamacita estava sentada à beira da cama e tocava ao de leve na


face de Violeta. A sua mão curvada era quente e delicada, tal como o
seu olhar. Violeta engasgou-se um pouco e virou o rosto.
"Expliquei ao Papacito que discutiste com o teu primo Carlos e
foste muito mal-educada com ele. O Papacito diz que precisas de uma
boa renovação." A voz de Mamacita era suave e tranquilizante. Viole­
ta estava deitada sem almofada, com os folhos da gola da camisa de
dormir a chegarem-lhe ao queixo. Não respondeu. Até sussurrar lhe
doía.
"Vamos para o campo esta semana e tu vais passar o Verão inteiro
no jardim. Assim não estarás tão nervosa. Já és uma jovenzinha e tens
de aprender a controlar os nervos."
"Sim, Mamacita." Era muito difícil suportar a expressão de Mama­
cita. Parecia estar a fazer-lhe perguntas acerca de pensamentos muito
recônditos - aqueles pensamentos que não correspondiam minima­
mente à verdade e nunca poderiam ser partilhados com ninguém. Tudo
aquilo que era capaz de recordar da sua vida parecia ter-se misturado
40 Katherine Anne Porter

numa confusão e numa angústia que não poderiam ser explicadas, pois
tudo estava mudado e incerto.
Queria sentar-se, passar os braços à volta do pescoço de Mamacita
e dizer-lhe: "Aconteceu-me uma coisa horrenda - não sei o quê", mas
o seu coração fechava-se e doía-lhe, e ela suspirou com todo o fôlego.
Até o peito de Mamacita se tomara um lugar fri9 e estranho. O sangue
corria de um lado para o outro dentro de si, a chorar terrivelmente, mas
quando o som lhe alcançou os lábios, não passava de um pequeno
gemido, como de um cachorrinho.
"Não deves chorar mais", disse-lhe Mamacita depois de uma longa
pausa. E depois: "Boa noite, minha pobre filha. Essa impressão vai
passar." O beijo de Mamacita no seu rosto pareceu-lhe frio.
Quer a impressão passasse ou não, o assunto não tomou a ser abor­
dado. Violeta e a farm1ia passaram o Verão no campo. Ela recusava-se
a ler a poesia de Carlos, embora Mamacita a encorajasse a fazê-lo.
Nem sequer ouvia as cartas que ele enviava de Paris. Discutia numa
posição mais nivelada com a irmã Bianca, pois sentia que já não exis­
tia uma diferença de experiência tão grande que as separasse. Uma
tristeza dolorosa apoderava-se dela por vezes, pois não conseguia
acalmar as dúvidas que lhe surgiam na mente. Às vezes divertia-se a
fazer caricaturas feias de Carlos.
No início do Outono, regressou à escola, chorosa e queixando-se à
mãe de que detestava o convento. Ali não havia, declarou enquanto
via as suas caixas a serem unidas umas às outras com cordel, nada a
aprender.

1923
O Mártir

Rubén, o pintor mais ilustre do México, estava profundamente apai­


xonado pela sua modelo Isabel, a qual por sua vez se encontrava numa
relação romântica com um artista rival cujo nome não tem qualquer
relevância.
Isabel costumava chamar a Rubén o seu pequeno "Churro", que é
uma espécie de pastel doce e, além disso, entre os Mexicanos, um
nome popular para cães pequenos. Rubén achava-o por de mais encan­
tador e dizia aos visitantes do estúdio: "E agora ela chama-me 'Chur­
ro'! Ah! Ah!" Quando se ria, todo o seu colete estremecia, pois ele
estava a ficar gordo.
Então Isabel, que era alta e magra, com dedos longos e ágeis, pas­
sava as mãos por um ramo de flores que Rubén lhe tivesse levado e
espalhava as pétalas, ou exclamava: "Sim! Sim!", num tom trocista, e
salpicava-lhe a ponta do nariz com tinta. Também já fora vista a puxar­
-lhe o cabelo e as orelhas sem misericórdia.
Quando gente séria fazia peregrinações pela rua estreita e empedra­
da, evitando cuidadosamente as poças do pátio e subindo as escadas
instáveis para obter um vislumbre da grande, ainda que tão simples,
personagem, Isabel exclamava: "Lá vêm as lindas ovelhas!" Agradava­
-lhe o ar assombrado que a sua ousadia provocava.
Enfastiava-se com frequência, pois por vezes tinha de passar o dia
inteiro de pé, a entrançar e desentrançar o cabelo enquanto o pintor
fazia esboços dela, e esqueciam-se de comer até já ser tarde; mas não
havia outro sítio para onde ela pudesse ir até que o amante, o rival de
Rubén, vendesse um quadro, pois toda a gente declarava que Rubén
mataria o homem que tentasse sequer privá-lo de Isabel. Por isso, esta
ia ficando, e ele produziu dezoito desenhos diferentes dela para o seu
mural, e ocasionalmente ela cozinhava para ele, discutia com ele e
42 Katherine Anne Porter

mostrava a língua comprida e vermelha aos visitantes de quem não


gostava. Rubén adorava-a.
Estava precisamente a começar o décimo nono esboço de Isabel
quando o rival vendeu um quadro muito grande a um ricalhaço cujo
decorador lhe dissera que precisava de ter um painel verde e cor de
laranja em determinada parede da casa nova. Por um acaso afortunado,
aquele quadro era prodigiosamente verde e cor de laranja. O ricalhaço
pagou-lhe um valor imenso, mas de bom grado, segundo explicou,
pois seria seis vezes mais dispendioso cobrir o espaço com uma tape­
çaria. O rival também ficou contente, embora não se tivesse dado ao
trabalho de explicar porquê. No dia seguinte, ele e Isabel foram para a
Costa Rica e, tanto quanto nos diz respeito, aqui termina a história
deles.
Rubén leu a nota de despedida que Isabel lhe deixou:

"Meu pobre Churro ! É uma pena que a tua vida seja tão enfadonha,
e eu não posso continuar a vivê-la. Vou-me embora com alguém que
nunca permitirá que cozinhe para ele , mas que fará um mural com cin­
quenta figuras minhas , em vez de apenas vinte . Também vou ter uns
sapatinhos vermelhos e uma vida alegre , a contento do meu coração .
A tua velha amiga,
ISABEL."

Quando Rubén leu isto, sentiu-se como um homem a afogar-se. A res­


piração faltava-lhe e ele agitava muito os braços. Em seguida bebeu uma
grande garrafa de tequila, sem limão ou sal para a suavizar, e deitou-se
no chão, com a cabeça numa paleta de tinta recém-misturada, onde cho­
rou com veemência.
Depois disso, passou a ser um homem completamente mudado. Não
falava, a menos que estivesse a descrever Isabel, o seu rosto angelical,
os seus pequenos truques e jeitos engraçados. "Ela costumava deixar­
-me as canelas negras e roxas com pontapés", dizia ele, carinhosamen­
te, com lágrimas a afluírem-lhe aos olhos. Estava sempre a comer
pastéis doces e estaladiços de um pacote, junto ao seu cavalete. "Estão
a ver", dizia ele, erguendo um deles antes de lhe dar uma dentada, "ela
costumava chamar-me 'Churro', como isto!"
Todos os amigos ficaram satisfeitos com a partida de Isabel, e entre
si comentavam que ele tivera sorte por perder a megera escanzelada.
Dedicaram-se a ajudá-lo a esquecê-la. Mas Rubén não se deixava dis­
trair. "Não há outra mulher como aquela", dizia ele, abanando a cabe-
A Torre Inclinada e Outros Contos 43

ça com teimosia. "Quando ela se foi embora, levou a minha vida. Não
tenho alento sequer para a vingança." E depois acrescentava: "Digo­
-vos, a Isabel, o meu pequeno anjo, é uma assassina, pois partiu-me o
coração."
Por vezes andava ansiosamente de um lado para o outro, no estúdio,
a dar pontapés, com os seus chinelos de feltro, nos montes de desenhos
empilhados por ali, a apanharem pó, ou triturava pigmentos durante
alguns minutos, dizendo numa voz dolorida: "Houve tempos em que
ela fazia tudo isto para mim. Imaginem a bondade dela!" Mas regres­
sava sempre à janela, onde comia doces, fruta e bolos de amêndoa do
pacote. Quando os amigos o levavam a jantar fora, ele sentava-se em
silêncio e comia quantidades enormes de todo o género de comida, que
ajudava a descer com vinho doce. Depois começava a chorar e a falar
acerca de Isabel.
Os amigos concordavam que aquilo estava a tornar-se bastante es­
túpido. Isabel partira havia quase seis meses e Rubén recusava-se se­
quer a tocar na décima nona figura dela, quanto mais a começar a vi­
gésima, e o mural não avançava.
"Olha, meu querido amigo", interpelou-o Ramón, que fazia carica­
turas e rostos de raparigas bonitas para as revistas, "até eu, que não sou
um grande artista, sei que as mulheres podem dar cabo do trabalho de
um homem. Deixa-me que te diga, quando a Trinidad me deixou, eu
não consegui fazer o que quer que fosse durante uma semana. Nada
tinha o sabor adequado, eu não era capaz de distinguir uma cor de
outra, estava absolutamente duro de ouvido. Aquela infiel desenvergo­
nhada quase me arruinou. Mas tu, amigo 1 , ergue-te e acaba o teu gran­
de mural, para o mundo, para o futuro, e lembra-te de Isabel apenas
quando deres graças a Deus por ela se ter ido embora."
O pintor abanava a cabeça, mantendo-se prostrado no sofá, a comer
amêndoas açucaradas, e chorava-se:
"Tenho uma dor no coração que há-de matar-me. Não há outra mu­
lher como aquela."
De súbito, os colarinhos recusavam-se a unir-se sob o seu queixo.
Afrouxava o cinto por mais três furos e explicava: "Fico imóvel; já não
consigo mexer-me. Toda a minha energia foi para a dor." Com as ca­
madas de gordura a amontoarem-se insidiosamente, empolou a ponto
de se tornar desconhecido até de si mesmo. Ramón, ao mostrar aos
amigos a nova caricatura que fizera de Rubén, declarou: "Bem que

1 Em castelhano no original . (N. T.)


44 Katherine Anne Porter

podia tê-la desenhado com um compasso, juro. Os botões saltam-lhe


da camisa. Não é seguro, de modo nenhum."
Mas, mesmo assim, Rubén continuava a passar as noites sentado, a
comer triste e sozinho e a chorar por Isabel depois da terceira garrafa
de vinho doce.
Os amigos conferenciaram, concluíram que o . caso estava a tomar-se
desesperado; estava mais do que na altura de alguém lhe revelar a ver­
dadeira causa da sua dor. Contudo, todos desejavam que fosse outro o
escolhido para o fazer. E verificou-se que não havia ninguém no grupo,
possivelmente nem uma única pessoa em todo o México, com a indeli­
cadeza necessária para levar a cabo tal coisa. Decidiram transferir a
responsabilidade para um médico que dava aulas na universidade. Na
mente de alguém assim, combinar-se-iam um sentimento suficiente­
mente refinado com o maior grau possível de conhecimento técnico.
Era a coisa diplomática, discreta e fastidiosa a fazer. Assim foi.
O doutor encontrou Rubén sentado diante do seu cavalete, a fitar a
décima nona figura incompleta de Isabel. Estava a chorar e, entre so­
luços, comia colheradas de queijo mole de Toluca, com manga api­
mentada. Pendia em todas as direcções, sobre a sua banqueta de pintar,
como uma bola de massa. Primeiro falou ao médico acerca de Isabel.
"Asseguro-lhe com toda a veracidade, meu amigo, nem eu seria capaz
de capturar com tinta a linha de beleza que lhe ia da coxa ao peito do
pé. E, além disso, ela era um anjo de amabilidade." Depois afirmou
que a dor no seu peito haveria de o matar. O médico ficou profunda­
mente comovido. Durante um bom tempo, ali permaneceu a oferecer
consolo, sem coragem para prescrever curas materiais a um homem de
susceptibilidades tão delicadamente ajustadas.
"Só disponho de remédios grosseiros e vulgares" - com um ges­
to gracioso, parecia oferecer-lhos entre o polegar e o indicador -
"mas são tudo com que o mundo carnal poderá contribuir para o
restabelecimento de um espírito magoado." Nomeou-os, um de cada
vez. Compunham uma lista ordenada, mas não impressionante: dieta,
ar fresco, longas caminhadas, exercício vigoroso frequente, de prefe­
rência numa barra de elevações, duches gelados, abstinência quase
total de álcool.
Rubén parecia não o ouvir. O seu murmúrio contínuo e indiferente
fluía calorosamente em tomo das frases de contornos solenes do mé­
dico:
"As dores são quase insuportáveis à noite, quando me deito na mi­
nha cama solitária e fito os céus vazios pela janela estreita, e dou por
A Torre Inclinada e Outros Contos 45

mim a pensar: 'Em breve a minha sepultura será mais estreita do que
aquela janela e mais escura do que aquele firmamento'; e o meu cora­
ção cede mais um pouco. Ah, Isabelita, minha executora!"
O médico saiu respeitosamente em bicos dos pés e deixou-o ali
sentado, a comer queijo e a observar, com olhos húmidos, a décima
nona figura de Isabel.
Os amigos, fartos, iam perdendo toda a esperança e deixavam-no
cada vez mais sozinho. Durante algumas semanas, ninguém o viu, à
excepção do proprietário de um pequeno café chamado Os Macaqui­
nhos, onde costumava jantar com Isabel e que passara a frequentar
sozinho para comer.
Ali, certa noite, muito abruptamente, Rubén levou a mão ao peito
com violência, levantou-se da cadeira e virou o prato de tamales
com molho picante que havia estado a comer. O proprietário acorreu
à mesa dele. Rubén disse qualquer coisa num sussurro apressado,
descreveu com um braço um gesto bastante impressionante por cima
da cabeça e, para o dizermos com a maior delicadeza possível, mor­
reu.
No dia seguinte, os amigos apressaram-se a ir visitar o proprietário,
o qual lhes apresentou uma versão solidamente dramática do lamentá­
vel episódio. Ramón começara por essa altura a recolher material para
uma biografia íntima do pintor mais eminente do país, que seria ilus­
trada com muitos dos seus próprios retratos. A dedicatória já tinha sido
composta, ao seu "Amigo e Mestre, Inspirado e Incomparável Génio
Artístico do Continente Americano".
"Mas o que lhe disse ele", insistia Ramón, "nesse estupendo mo­
mento final? É de tremenda importância. As últimas palavras de um
grande artista devem ser muito eloquentes. Repita-as com exactidão,
meu caro companheiro! Acrescentarão esplendor à biografia, não, à
própria história da arte, se forem eloquentes."
O proprietário ia assentindo com a cabeça e fazendo o ar de um
homem que tudo compreende.
"Eu sei, eu sei. Bem, talvez não acreditem em mim quando vos disser
que as últimas palavras dele foram uma mensagem verdadeiramente
sublime que vos foi dirigida, aos bons e fiéis amigos, e ainda ao mundo.
Ele disse, cavalheiros: 'Diga-lhes que sou um mártir do amor. Faleço
por uma causa digna do sacrifício. Morro de coração partido!' E depois
disse: 'Isabelita, minha executora!' E foi tudo, cavalheiros", terminou o
proprietário, com simplicidade e reverência. Inclinou a cabeça. Todos o
fizeram.
46 Katherine Anne Porter

"Isso foi de facto magnífico", comentou Ramón, passado o interva­


lo apropriado de lamento silencioso. "Agradeço-lhe. É um epitáfio
soberbo. Fico muitíssimo grato."
"Ele também adorava os meus tamales com molho picante", acres­
ceu o proprietário num tom modesto. "Foram a sua última indulgên­
cia."
"Isso será mencionado no lugar adequado, fique descansado, meu
bom amigo", exclamou Ramón, com a voz a falhar-lhe devido à emo­
ção generosa, "com o nome do seu café, inclusivamente. Será um altar
para artistas, quando esta história for conhecida. Confie na minha ca­
pacidade de preservar fielmente para o futuro os mais ínfimos porme­
nores da vida e da personalidade deste grande génio. Todos os episó­
dios têm o seu interesse sagrado, inestimável e peculiar. Sim, sem
dúvida, mencionarei os tamales ."

1923
Magia

E, Madame Blanchard, creia que me sinto feliz por estar aqui consi­
go e com a sua famI1ia, pois é tão sereno, tudo, e antes eu tinha traba­
lhado durante muito tempo numa casa de má fama - talvez não saiba
o que é uma casa de má fama? Naturalmente... toda a gente deve ter
ouvido, nalguma altura. Bem, Madame, eu trabalho sempre onde haja
trabalho, e assim nesse sítio trabalhava muito arduamente a toda a hora,
e vi demasiadas coisas, coisas em que não acreditaria e que não me
ocorreria contar-lhe, mas talvez a descanse enquanto lhe penteio o ca­
belo. Irá desculpar-me, mas não pude deixar de a ouvir comentar com
a lavadeira que talvez alguém lhe tivesse rogado uma praga aos lençóis,
para terem de ser lavados com tanta frequência. Bem, havia uma rapa­
riga lá nessa casa, uma pobre criatura, magra, mas apreciada por todos
os homens que lá iam, e, compreenda, ela não conseguia entender-se
com a mulher que geria a casa. Discutiam, a madame enganava-a nas
contas: sabe como é, a rapariga recebia um cheque, um valor sonoro, de
todas vezes, e no final da semana dava-os à madame, sim, era assim, e
recebia a sua percentagem, uma porção muito pequena dos seus ga­
nhos: é um negócio, está a ver, como qualquer outro - e a madame
costumava fingir que a rapariga só lhe dera uns tantos cheques, quando
na verdade lhe tinha dado muitos mais, mas, depois de lhe terem saído
das mãos, o que poderia ela fazer? Por isso, dizia: Hei-de sair deste
sítio, e praguejava e chorava. Então a madame batia-lhe na cabeça.
Estava sempre a dar com garrafas na cabeça das pessoas, era assim que
ela lutava. Deus do céu, Madame Blanchard, que confusões havia por
vezes, com uma rapariga a correr escada abaixo e a madame a puxá-la
pelos cabelos e a partir-lhe uma garrafa na testa.
Era quase sempre por causa do dinheiro, as moças também se endi­
vidavam e, se quisessem ir embora, não podiam, sem pagarem cada
48 Katherine Anne Porter

soldo marcado. A madame estava feita com a Polícia; as moças tinham


de voltar com eles ou iam presas. Bem, elas voltavam sempre com os
polícias ou com outro homem qualquer amigo da madame: ela também
conseguia pôr homens a trabalhar para si, mas pagava-lhes muito bem
por tudo, deixe que lhe diga; e assim as moças ficavam, a menos que
estivessem doentes; se assim fosse, se adoecessem demasiado, ela
voltava a mandá-las embora.
Madame Blanchard disse: "Estás a repuxar um pouco aqui", e
afrouxou um fio de cabelo; "e depois?"
Perdão - mas com esta moça, havia um verdadeiro ódio entre ela
e a madame. Ela dizia muitas vezes: Eu ganho mais dinheiro do que
qualquer pessoa nesta casa, e todas as semanas havia cenas. Por isso,
finalmente, certa manhã ela disse: Agora vou-me embora deste sítio, e
tirou quarenta dólares de baixo da almofada e exclamou: Tome lá o seu
dinheiro! A madame começou a gritar: Onde é que arranjaste isso tudo,
sua . . . ?, e acusou-a de roubar os homens que a visitavam. A rapariga
respondeu: Tire as mãos de cima de mim ou esmago-lhe a cabeça; e
então a madame agarrou-a pelos ombros e começou a levantar o joelho
e a dar-lhe pontapés terríveis no estômago e até no sítio mais secreto,
Madame Blanchard, e depois bateu-lhe na cara com uma garrafa e a
moça caiu no quarto que eu estava a limpar. Ajudei-a a ir até à cama e
ela ficou ali sentada de mãos na cabeça virada para baixo, e quando
voltou a levantar-se havia sangue por todo o lado onde ela se tinha
sentado. Então a madame entrou e gritou: Agora já podes ir embora, já
não me serves de nada; não repito tudo, compreende, é demasiado.
Mas ela apanhou todo o dinheiro que conseguiu encontrar e à porta
deu-lhe um grande empurrão nas costas com o joelho, e por isso a
moça voltou a cair na rua, e depois levantou-se e afastou-se com o
vestido quase desfeito.
Depois disso, os homens que conheciam a moça não paravam de
dizer: Onde está a Ninette? E durante os dias seguintes continuaram a
perguntar por ela, pelo que a madame não podia continuar a dizer:
Expulsei-a porque é uma ladra. Não, ela começava a ver que tinha
feito mal em mandar a tal Ninette embora, e passou a dizer: Há-de
voltar daqui a uns dias, não se preocupem.
E agora, Madame Blanchard, se quer saber, chego à parte estranha,
à coisa de que me lembrei quando disse que lhe tinham rogado uma
praga aos lençóis. É que a cozinheira daquele sítio era uma mulher de
cor como eu, como eu tinha muito sangue francês também, e como eu
sempre tinha vivido entre gente que lançava feitiços. Mas tinha um
A Torre Inclinada e Outros Contos 49

coração muito duro e ajudava a madame em tudo, gostava de ver tudo


o que se passava e denunciava as moças. A madame confiava nela
acima de tudo e perguntou-lhe: Bem, onde é que posso encontrar essa
pega?, porque ela tinha desaparecido por completo de Basin Street
antes de a madame começar a pedir à Polícia que lha levasse de volta.
Bem, disse a cozinheira, eu sei de um feitiço que funciona aqui em
Nova Orleães, as mulheres de cor usam-no para trazer os homens de
volta; ao fim de sete dias, eles regressam muito contentes por ficarem
e não são capazes de dizer porquê: até os nossos inimigos voltam a
acreditar que somos amigos deles. É um feitiço de Nova Orleães sem
tirar nem pôr, dizem que não funciona sequer do outro lado do rio ... E
depois fizeram tal e qual como a cozinheira mandou. Tiraram o bacio
da moça de baixo da cama dela e misturaram lá água, leite e todas as
relíquias dela que encontraram: o cabelo da escova, o pó-de-arroz da
borla e até pequenos pedaços de unhas que encontraram à beira do
tapete, onde ela tinha o hábito de se sentar para cortar as unhas dos pés
e das mãos; e mergulharam os lençóis com o sangue dela na água, e
durante todo esse tempo a cozinheira foi dizendo qualquer coisa sobre
aquilo em voz baixa; eu não consegui ouvir tudo, mas a última coisa
que ela disse à madame foi: Agora cuspa aí para dentro; e a madame
cuspiu e a cozinheira disse: Quando ela voltar, vai ser terra debaixo
dos seus pés.
Madame Blanchard fechou o frasco de perfume com um clique té­
nue. "Sim, e depois?"
Depois, passadas sete noites, a rapariga voltou e parecia muito doen­
te, com as mesmas roupas e tudo, mas contente por estar ali. Um dos
homens disse: Bem-vinda a casa, Ninette!, e quando ela começou a
falar com a madame, a madame disse-lhe: Cala-te, vai lá acima e veste­
-te. E então Ninette, esta moça, disse: Volto já, é só um minuto. E a
partir de então viveu lá em paz.

1924
Corda

No terceiro dia depois de se terem mudado para o campo , ele voltou


da aldeia com uma cesta de compras e uma corda com vinte e dois
metros . Ela saiu para ir ao seu encontro , a limpar as mãos ao avental
verde . Tinha o cabelo despenteado , o nariz vermelho , escaldado pelo
sol ; ele disse-lhe que ela já parecia uma inata mulher do campo . A ca­
misa de flanela cinzenta que ele vestia colava-se-lhe ao corpo e os seus
sapatos estavam empoeirados . Ela assegurou-lhe que ele parecia uma
personagem rural de uma peça de teatro .
Comprara café? Ela tinha passado o dia inteiro à espera de café .
Tinham-se esquecido ao fazerem a encomenda na loja no primeiro dia.
Céus , não , não comprara. Por Deus , agora teria de voltar. Sim ,
voltaria nem que isso o matasse . Mas julgava que tinha tudo o resto .
Ela recordou-o de que aquilo só acontecera porque ele próprio não
bebia café . Se bebesse , lembrar-se-ia num instantinho . E se ficassem
sem cigarros? Depois viu a corda . Para que era aquilo? Bem, ele
achava que podia servir para pendurar roupa ou algo assim . Natural­
mente , ela perguntou-lhe se ele achava que iam ser donos de uma
lavandaria. Já tinham um estendal de quinze metros mesmo à frente
dos olhos dele . Ora , não tinha reparado , a sério? Para ela era uma
mancha na paisagem.
Ele achava que uma corda podia ser útil para muitas coisas . Ela quis
saber para quê , por exemplo . Ele pensou durante alguns segundos, mas
nada lhe ocorreu . Podiam esperar e ver, não podiam? Faz sempre falta
todo o género de coisas estranhas numa casa no campo . Ela disse que
sim , assim era; mas parecia-lhe só que , numa altura em que todos os
centavos contavam, era estranho comprar mais corda. Fora só isso .
Não queria dizer mais nada. Só não tinha percebido , para começar,
porque ele achara necessário ter mais corda.
A Torre Inclinada e Outros Contos 51

Bem, raios , comprara-a porque quisera comprá-la e isso era tudo .


Ela considerou que isso era razão suficiente e não conseguia perceber
porque ele não dissera logo isso . Sem dúvida viriam a dar jeito , vinte
e dois metros de corda, havia centenas de coisas , não lhe ocorria ne­
nhuma no momento , mas haveria de surgir. Com certeza. Como ele
tinha dito , no campo era sempre preciso qualquer coisa.
Mas estava um pouco decepcionada por causa do café e , oh , vê só ,
vê os ovos ! Oh , céus , estão todos partidos ! O que teria ele posto por
cima? Não saberia que os ovos não podiam ser apertados? Apertados ,
quem é que o s tinha apertado , isso queria ele saber. Que tolice de se
dizer. Ele tinha-os simplesmente trazido na cesta, juntamente com as
outras coisas . Se se tinham partido , a culpa era do merceeiro . Ele devia
saber que não se punham coisas pesadas em cima de ovos.
Ela pensava que tinha sido a corda. Era a coisa mais pesada da ces­
ta , tinha-a visto logo quando ele chegara da estrada, a corda era um
grande embrulho em cima de tudo . Ele desejava que o mundo inteiro
testemunhasse que isso não era correcto . Ele transportara a corda numa
mão e a cesta na outra, e de que servia ela ter olhos se aquilo era o
melhor que faziam por si?
Bem, de qualquer maneira, uma coisa ela via bem: não haveria ovos
para o pequeno-almoço . Teriam de os comer mexidos , ao j antar. Que
pena. Ela tinha planeado fazer um bife para o jantar. Sem gelo , a carne
não ia aguentar-se . Ele quis saber porque não poderia ela acabar de
partir os ovos numa tigela e deixá-los num sítio fresco .
Um sítio fresco ! , se ele lhe encontrasse um, ela teria todo o gosto
em deixá-los lá. Bom , então , parecia-lhe que o melhor seria mesmo
cozinharem a carne ao mesmo tempo que os ovos e depois aquecer a
carne no dia seguinte . A ideia chocava-a . Carne requentada, quando
poderiam tê-la comido acabada de fazer. Emendas e arranjos e impro­
visos , até com a carne ! Ele massaj ou-lhe um pouco o ombro . Não tem
assim tanta importância, pois não , querida? Por vezes , quando estavam
divertidos , ele massajava-lhe o ombro e ela arqueava-se e ronronava.
Desta vez , silvou e quase lhe lançou as garras . Ele estava a preparar-se
para dizer que sem dúvida se desenvencilhariam de alguma maneira
quando ela se virou para ele e lhe disse que , se ele lhe dissesse que
haviam de se desenvencilhar de alguma maneira, ela de certeza lhe
daria uma bofetada.
Ele engoliu as palavras , vermelho de raiva, com o rosto a arder.
Agarrou na corda e começou a guardá-la na prateleira de cima. Ela não
a queria na prateleira de cima, os j arros e as latas iam para ali ; de ma-
52 Katherine Anne Porter

neira alguma teria a prateleira de cima atulhada com um monte de


corda . Tinha aguentado toda a balbúrdia que tinha de aguentar no apar­
tamento da cidade , ali ao menos havia espaço e ela tencionava manter
as coisas ordenadas .
Bem, nesse caso , ele queria saber o que faziam ali em cima o mar­
telo e os pregos? E porque fora que ela os pusera ali , quando sabia
perfeitamente que ele precisava daquele martelo e daqueles pregos
para arranjar os caixilhos das j anelas ? Ela só atrasava tudo e dava o
dobro do trabalho com aquele hábito louco de mudar as coisas de sítio
e as esconder.
Ela pedia muita desculpa , com certeza, e se tivesse tido alguma ra­
zão para acreditar que ele arranj aria os caixilhos naquele Verão , teria
deixado o martelo e os pregos mesmo onde ele os colocara; no meio
do chão do quarto , para que pudessem pisá-los às escuras . E agora, se
ele não arrumasse aquela confusão toda , ia atirá-los para o poço .
Oh , muito bem , muito bem - poderia ele metê-los no armário? Era
claro que não , aí estavam as vassouras , as esfregonas e as pás , e porque
não podia ele arranjar um sítio para a corda fora da cozinha dela? Teria
ele parado para pensar que havia sete malditas divisões naquela casa e
apenas uma cozinha?
Ele queria saber, e depois? E teria ela noção da figura de tola que
estava a fazer? E o que achava que ele era, um idiota de três anos?
O problema dela era que precisava de algo mais fraco para poder aren­
gar e tiranizar. Quem lhe dera que tivessem um par de filhos para ela
se vingar neles . Talvez então ele tivesse algum descanso .
Com o rosto alterado , ela lembrou-o de que ele se tinha esquecido
do café e trouxera um pedaço inútil de corda. E quando pensava em
todas as coisas de que precisavam de facto para deixar aquele sítio
minimamente habitável , bem , dava-lhe vontade de chorar, era só isso .
Parecia tão desconsolada, tão triste e desesperada que ele não conse­
guia acreditar que fosse só um pedaço de corda a provocar toda aque­
la agitação . Qual era o problema , por amor de Deus?
Oh , e se ele se calasse e fosse embora, e ficasse longe , se pudesse ,
durante cinco minutos? Com certeza, sim, era o que ele faria. Poderia
manter-se longe indefinidamente , se ela assim quisesse . Deus , sim, não
havia nada que ele quisesse mais do que sair e nunca mais voltar. Ela
não era capaz de perceber o que o impedia, nesse caso . Boa hora era. Ali
estava ela, presa, a quilómetros de um caminho-de-ferro , com uma casa
semivazia nas mãos e nem um centavo no bolso , e tudo para fazer; pa­
recia o momento ideal para que ele se pudesse a andar. Estava surpreen-
A Torre Inclinada e Outros Contos 53

<lida por ele não ter ficado na cidade até ela ter tratado de tudo , feito
todo o trabalho e resolvido as coisas . Era o seu método habitual .
Ele já achava que aquilo estava a ir longe de mais . A passar um
tudo-nada dos limites , se ela não levava a mal que ele o dissesse . Por
que raio tinha ele ficado na cidade no Verão anterior? Para fazer uma
meia dúzia de biscates e arranjar o dinheiro que lhe tinha enviado .
Nada mai s . Ela sabia perfeitamente que de outra maneira não teriam
conseguido . Na altura, ela tinha concordado com ele . E essa fora a
única altura, jurava por tudo , em que alguma vez a deixara a tratar das
coisas sozinha.
Oh , ele que fosse contar aquela à sua bisavó . Ela fazia ideia do que
o tinha mantido na cidade . Consideravelmente mais do que uma ideia,
se ele queria saber. Ai , ela ia voltar a trazer aquilo à baila, ia? Bem,
podia pensar o que bem lhe apetecesse . Ele j á estava farto de se justi­
ficar. Podia parecer estranho , mas tinha simplesmente ficado preso, e
o que poderia ele fazer? Era impossível acreditar que ela fosse levar
aquilo a sério . Sim, sim , ela sabia como eram os homens : se fossem
deixados a sós por um minuto , alguma mulher haveria de os raptar.
E naturalmente ele não poderia magoá-la rejeitando-a!
Bem, de que estava ela a queixar-se? Ter-se-ia esquecido de que lhe
dissera que aquelas duas semanas sozinha no campo tinham sido as
mais felizes que vivera em quatro anos? E há quanto tempo estavam
casados quando ela tinha dito aquilo? Pronto , cala-te ! Achava que isso
não o tinha incomodado?
Ela não queria dizer que ficara feliz por estar longe dele . Queria
dizer que ficara feliz a pôr a maldita casa bonita e pronta para o rece­
ber. Era isso que ela queria dizer, e agora veja-se só ! A ir buscar uma
coisa que ela tinha dito um ano antes só para justificar ter-se esquecido
do café dela, ter partido os ovos e comprado a porcaria de uma corda
que não podiam pagar. Ela achava mesmo que estava na altura de dei­
xar o assunto e agora só queria duas coisas no mundo . Queria que ele
tirasse aqu_e la corda do chão e que voltasse à aldeia para lhe trazer o
café e , se conseguisse lembrar-se , poderia trazer-lhe uma pega para as
sertãs e mais dois varões para as cortinas e , se houvesse luvas de bor­
racha na aldeia , que as suas mãos já estavam em carne viva, e um
frasco de leite de magnésia da farmácia.
Ele olhou para a tarde azul-escura a ondear nas colinas , limpou a
testa, suspirou pesadamente e disse , se ao menos ela esperasse um
minuto , ele ia voltar. Tinha dito isso , não tinha, no preciso momento
em que tinham dado conta de que ele se esquecera do café?
54 Katherine Anne Porter

Oh , sim , bem . . . vai lá. Ela ia lavar as j anelas . O campo era tão bo­
nito ! Ela duvidava que eles tivessem sequer um momento para o apro­
veitarem . Ele queria ir, mas não podia até ter dito que , se ela não fosse
uma melancólica tão inveterada, poderia aperceber-se de que aquilo
era só por uns dias . Não se lembrava de nada agradável dos outros
verões? Não tinham sempre acabado por se divertir? Ela não tinha
tempo para falar disso e agora poderia ele por favor não deixar a corda
ali para ela tropeçar? Ele pegou na corda, que tinha caído da mesa, e ,
levando-a debaixo do braço , saiu .
Iria naquele minuto ? Com certeza que iria. Ela achava que sim .
Por vezes , parecia-lhe que ele previa qual seria precisamente o mo­
mento perfeito para a abandonar. Ela tinha a intenção de deixar os
colchões ao sol , se os pusessem naquele instante ainda apanhariam
pelo menos três horas , ele devia tê-la ouvido a dizer nessa manhã que
queria levá-los lá para fora . Por isso , era claro que se ia embora ,
deixando-lhe a tarefa . Ela pensava que ele devia achar que o exercí­
cio lhe faria bem .
Bem , ele ia apenas buscar-lhe café . Uma caminhada de mais de seis
quilómetros por um quilo de café era ridículo , mas ele estava perfeita­
mente disposto a fazê-lo . O vício estava a dar cabo dela, mas se ela
queria dar cabo de si , não havia nada que ele pudesse fazer. Se ele
julgava que era o café que dava cabo dela, os seus parabéns: ele devia
ter uma consciência bem leve .
Com ou sem consciência, ele não percebia por que razão os col­
chões não poderiam esperar por amanhã. E, de qualquer maneira, por
amor de Deus , eles iam viver na casa, ou deixar que a casa os matas­
se? Isso fê-la empalidecer, com o rosto lívido à volta da boca , tinha
um ar bastante perigoso , e lembrou-o de que manter a casa não era
obrigação mais sua do que dele : ela também tinha outro trabalho , e
quando era que ele achava que ela arranj aria tempo para o fazer, àque­
le ritmo?
Iria ela começar com aquilo outra vez? Ela sabia tão bem quanto ele
que era o trabalho dele que lhes dava o dinheiro regular, que o dela era
apenas ocasional , que se dependessem do que ela ganhava . . . e mais
valia que ela entendesse isso de uma vez por todas !
Isso não estava de modo algum em questão . A questão era que , se
os dois passavam o seu tempo a trabalhar, tinha de haver uma divisão
do trabalho doméstico , ou não tinha? Ela só queria saber, tinha de fazer
planos . Ora, ele achava que isso estava tudo resolvido . O pressuposto
era que ele ajudaria. Não tinha ajudado sempre , no Verão?
A Torre Inclinada e Outros Contos 55

Ai tinha? Oh , então não tinha? E quando , e onde , e a fazer o quê?


Meu Deus , que piada hilariante !
Tão hilariante era a piada que o rosto dela ficou ligeiramente arro ­
xeado enquanto soltava gargalhadas barulhentas . Riu tanto que teve de
se sentar, e por fim um fio de lágrimas jorrou-lhe dos olhos e desceu
até às comissuras erguidas dos lábios . Ele correu na direcção dela, pô­
-la de pé e tentou despejar-lhe água na cabeça . A concha estava pendu­
rada por um cordel preso a um prego e ele soltou-a. Depois tentou
bombear água com uma mão enquanto ela se debatia na outra. Por is­
so , desistiu e , em vez disso , abanou-a.
Ela libertou-se com um repelão , gritando-lhe que levasse a corda e
fosse para o inferno , que ela tinha simplesmente desistido dele ; e fu­
giu . Ele ouviu os chinelos de quarto de salto alto dela a matraquearem
e a tropeçarem nos degraus .
Ele saiu , deu a volta à casa e chegou ao acesso; de repente , aperce­
beu-se de que tinha uma bolha no calcanhar e que a camisa parecia
estar a arder. As coisas aconteciam tão depressa que nem dava para se
saber onde se estava. Ela era capaz de se enfurecer por nada . Era terrí­
vel , maldita fosse: não tinha nem um pingo de razão . Era a mesma
coisa, falar com uma peneira ou com aquela mulher quando se encar­
niçava. Maldito fosse ele se passasse a vida a fazer-lhe a vontade !
Bem , o que fazer agora? Poderia levar a corda, devolvê-la e trocá-la
por outra coisa. As coisas acumulavam-se , as coisas eram montanho­
sas , não dava para as afastar, arrumar ou mandar fora . Limitavam-se a
acumular-se e a apodrecer. la devolvê-la . Raios , porque haveria de o
fazer? Ele queria a corda. Afinal , o que era aquilo? Uma corda. Imagi­
ne-se , alguém a preocupar-se mais com uma corda do que com os
sentimentos de um homem . Mas que direito tinha ela de dizer o que
quer que fosse a respeito daquilo? Lembrou-se de todas as coisas inú­
teis e insignificantes que ela tinha comprado para si mesma . Porquê? ,
porque queria, por isso ! Parou e seleccionou uma grande pedra à beira
da estrada. la deixar a corda atrás da pedra. Quando voltasse , guardá­
-la-ia na caixa de ferramentas . Já tinha ouvido o suficiente acerca da­
quilo para o resto da vida .
Quando voltou , ela estava encostada à caixa do correio , ao lado da
estrada, à espera . Era bastante tarde , o cheiro a bife grelhado flutuava
pelo ar à altura do seu nariz . O rosto dela era jovem , suave e com um
ar fresco . O cabelo preto , esquisito e indomável estava todo desgre­
nhado . Acenou-lhe ao longe e ele acelerou o passo . Ela gritou-lhe que
o j antar estava pronto e à espera , ele estava faminto?
56 Katherine Anne Porter

Podia apostar que ele estava faminto . Ali estava o café . Mostrou­
-lho . Ela olhou para a outra mão dele . O que tinha ele ali?
Bem, era outra vez a corda . Ele estacou . A sua ideia era devolvê-la,
mas tinha-se esquecido . Ela quis saber porque haveria ele de a devol­
ver, se era uma coisa que queria mesmo . O ar não estava doce agora,
e não era óptimo estar ali?
Ela caminhou a seu lado , com uma mão a segurar-lhe o cinto de
couro . Puxava-o e sacudia-o um pouco enquanto ele andava, e encos­
tou-se a ele . Ele passou o braço à volta dela e fez-lhe uma festa no
estômago . Sorriram, cansados . Café , café para os Enamorados ! Ele
sentia-se como se estivesse a levar-lhe um lindo presente .
Ele era um amor, acreditava ela com firmeza , e se tivesse bebido
café de manhã, não se teria portado de maneira tão estranha . . . Ali es­
tava um noitibó ainda a voltar, imagine-se , completamente fora de
estação , empoleirado na macieira brava, sozinho a cantar. Talvez a
companheira o tivesse deixado pendurado . Talvez tivesse . Ela gostaria
de o ouvir mais uma vez , adorava noitibós . . . Ele sabia como ela era,
não sabia?
Claro , ele sabia como ela era .
Ele

A vida era muito difícil para os Whipples . Era difícil alimentar todas
as bocas esfomeadas , era difícil manter as crianças com roupas de
flanela durante o Inverno , por curto que este fosse : "Sabe Deus o que
nos aconteceria se vivêssemos no Norte" , costumavam dizer; mantê­
-las decentemente limpas era difícil . "Parece que a nossa sorte nunca
vai melhorar" , dizia Mr. Whipple , mas Mrs . Whipple era adepta de
aceitar tudo e considerá-lo bom , pelo menos quando os vizinhos po­
diam escutar. "Que nunca uma alma nos ouça a queixarmo-nos" , cos­
tumava dizer ao marido . Não suportaria que a lamentassem. "Não ,
nem que tenhamos de viver num vagão e apanhar algodão pelo país" ,
dizia ela, "ninguém terá oportunidade de nos olhar com sobranceria."
Mrs . Whipple adorava o seu segundo filho , o simples de espírito ,
mais do que amava os outros dois juntos . Estava sempre a dizer isso e ,
quando falava com alguns dos vizinhos , ainda acrescentava o marido
e a mãe .
"Não precisas de andar por aí a dizer isso" , censurava Mr. Whipple ,
"que as pessoas vão pensar que só tu é que tens sentimentos por Ele ."
" Sendo mãe é natural" , lembrava-o Mrs . Whipple . "Tu próprio sa­
bes que é natural que uma mãe seja assim . As pessoas não esperam
tanto dos pais , sabe-se lá porquê ."
Isso não impedia que os vizinhos falassem francamente entre si .
"Misericórdia pura do Senhor, se Ele morresse" , diziam . " S ão os pe­
cados dos pais" , concordavam. "Há mau sangue e malfeitorias ali al­
gures , podem apostar." Isso era por trás das costas dos Whipples . À
frente deles , toda a gente dizia: "Ele não está assim tão mal . Ainda
há-de ficar bem . Veja-se só como cresce ! "
Mrs . Whipple detestava falar acerca disso , tentava não pensar nis­
so, mas , quando alguém ia lá a casa, o tema surgia sempre e ela tinha
58 Katherine Anne Porter

de falar acerca d ' Ele primeiro , antes de poder passar para outro as­
sunto . Parecia acalmar-lhe a mente . "Eu não quero que nada Lhe
aconteça, mas parece que não sou capaz de O manter longe de tra­
vessuras . É tão forte e activo , está sempre a meter-se em tudo ; já era
assim antes de conseguir andar. Na verdade , por vezes tem graça, a
forma como é capaz de fazer tudo ; dá vontade _de rir, vê-1 ' 0 com as
S uas artimanhas . Emly tem mais acidentes; estou sempre a pôr-lhe
ligaduras nas feridas , e Adna não consegue dar um salto sem estalar
um osso . Mas Ele é capaz de fazer tudo sem um único arranhão .
O pastor disse uma coisa tão bonita quando veio cá. Disse , e hei-de
me lembrar até ao dia em que morra: ' O s inocentes caminham com
Deus - é por isso que Ele não se magoa . "' Sempre que Mrs . Whi­
pple repetia estas palavras , sentia uma poça quente a espalhar-se no
seu peito , ficava com os olhos cheios de lágrimas e depois falava de
outra coisa.
Ele crescia , de facto , e nunca se magoava. Voou uma tábua do gali­
nheiro , que Lhe acertou na cabeça, e Ele pareceu nem dar por isso .
Tinha aprendido algumas palavras e , depois disso , esqueceu-as . Não
chorava por comida como as outras crianças , esperando até que Lha
dessem; comia acocorado a um canto , a dar estalidos e a murmurej ar.
Rolos de gordura cobriam-no como se fossem um sobretudo e Ele era
capaz de carregar o dobro da madeira e da água que Adna. Emly esta­
va quase sempre constipada - "nisso sai a mim" , dizia Mrs . Whipple
- , pelo que , quando o tempo estava mau , davam-lhe o cobertor extra
da cama d ' Ele . Ele nunca parecia importar-se com o frio .
Mesmo assim , a vida de Mrs . Whipple era um tormento , sempre
receosa de que algo Lhe acontecesse . Ele trepava aos pessegueiros
muito melhor do que Adna e saltava de ramo em ramo como um ma­
caco , mesmo como um macaco normal . "Oh, Mrs . Whipple , não devia
deixá-1 ' 0 fazer aquilo . Ainda pode perder o equilíbrio . Ele não pode
saber o que está a fazer."
Mrs . Whipple quase gritava à vizinha: "Ele sabe muito bem o que
está a fazer ! É tão capaz como qualquer outra criança ! Desce daí, tu ! "
Quando Ele finalmente chegava ao chão , ela mal conseguia impedir-se
de Lhe bater por se comportar assim à frente das pessoas , com um
sorriso estampado na cara e ela sempre preocupadíssima com Ele .
"São os vizinhos" , disse Mrs . Whipple ao marido . "Oh , como dese­
java que não se metessem na nossa vida . Não posso deixá- 1 ' 0 fazer o
que quer que seja, com medo de que eles venham meter o nariz . Olha
as abelhas , agora. O Adna não as aguenta, estão sempre a picá-lo; eu
A Torre Inclinada e Outros Contos 59

não tenho tempo para fazer tudo e agora não me atrevo a deixá-1 ' 0 .
Mas s e Ele fo r picado , não vai importar-se."
"Isso é só porque não tem juízo suficiente para ter medo de nada" ,
disse Mr. Whipple .
"Devias ter vergonha" , insurgiu-se Mrs . Whipple , "de falares assim
do teu próprio filho . Quem é que vai defendê-1 ' 0 , se nós não o fizer­
mos , gostava eu de saber? Ele vê muito do que se passa, está sempre a
ouvir coisas . E tudo o que eu Lhe digo para fazer, Ele faz . Não deixes
que ninguém te ouça a dizer essas coisas . Vão pensar que preferes os
outros filhos ."
"Bem , não prefiro e tu sabes , e de que é que serve ficares tão agita­
da por causa disso? Pensas sempre o pior de tudo . Deixa-O em paz ,
Ele há-de se desenvencilhar. Tem o que comer e o que vestir, não
tem?" De súbito , Mr. Whipple sentia-se muito cansado . "Seja como
for, agora não há nada a fazer."
Mrs . Whipple também se sentia cansada , queixou-se numa voz fa­
tigada. "O que está feito nunca pode ser desfeito , eu sei isso como
qualquer pessoa; mas Ele é meu filho e eu não quero que as pessoas
falem . Estou farta de que as pessoas passem o tempo todo a dizer
coisas ."
No início do Outono , Mrs . Whipple recebeu uma carta do irmão , a
indicar-lhe que ele , a mulher e os dois filhos iam fazer-lhes uma pe­
quena visita no domingo da semana seguinte . "Põe a panela grande no
mais pequeno" , escreveu no final . Mrs . Whipple leu aquela parte duas
vezes em voz alta, tão satisfeita ficou . O irmão tinha muito jeito para
dizer coisas engraçadas . "Vamos mostrar-lhe só que não é brincadei­
ra" , disse ela, "vamos matar um dos leitões."
"É um desperdício e eu não tolero desperdícios da maneira como as
coisas agora estão" , retorquiu Mr. Whipple . "Esse porco há-de valer
dinheiro no Natal ."
"É triste e é uma pena que não possamos ter uma refeição decente
de vez em quando , com a minha própria fann1ia a vir visitar-nos" ,
disse Mrs . Whipple . "Detestaria que a mulher dele voltasse a contar
que não havia nada que comer cá em casa. Meu Deus , é melhor do que
comprar um grande naco de carne na vila. Era aí que gastarias o di­
nheiro ! "
"Está bem , trata tu disso , então" , disse Mr. Whipple . "Por amor de
Deus , não admira que não consigamos avançar! "
A questão era como afastar o porquinho da mãe , uma grande luta­
dora , pior do que uma vaca Jersey. Adna não queria tentar: "Essa
60 Katherine Anne Porter

porca arrancava-me as entranhas e espalhava-as por toda a pocilga ."


"Muito bem , meu medricas" , disse Mrs . Whipple , "Ele não tem medo .
Vê-O a tratar disso ." E riu-se , como se tudo aquilo fosse uma boa
piada , antes de lhe dar um pequeno empurrão na direcção da pocilga .
Ele esgueirou-se , arrebatou o porquinho d a teta d a mãe e desatou a
galopar com a porca furiosa no Seu encalço . A coisa pequena, preta e
a contorcer-se guinchava como um bebé a fazer birra, com o dorso
rígido e a boca aberta até às orelhas . Mrs . Whipple agarrou no porco,
com uma expressão inflexível no rosto , e cortou-lhe a garganta com
um único golpe . Ao ver o sangue , Ele inspirou repentinamente e fu­
giu . "Mas há-de esquecer e comer muito , como sempre" , pensou Mrs .
Whipple . Sempre que pensava , os seus lábios mexiam-se e formavam
palavras . "Comeria tudo , se eu não O parasse . Comeria tudo o que é
dos outros dois , se eu O deixas se."
Aquilo fê-la sentir-se mal . Ele agora tinha dez anos e era um terço
maior do que Adna , que estava quase a fazer catorze . "É uma pena ,
uma pena" , repetia ela entredentes , "e Adna com tanta esperteza ! "
Continuou a sentir-se mal por todo o género de coisas . E m primeiro
lugar, arranjar um animal era tarefa de homem; a visão do porco rosa­
do e nu deixava-a maldisposta . Era demasiado gordo , macio e lastimá­
vel . Era simplesmente uma pena que as coisas tivessem de acontecer
assim . Quando terminou , quase desejava que o irmão ficasse em casa.
No domingo , de manhã cedo , Mrs . Whipple abandonou tudo para O
deixar completamente limpo . Uma hora depois , Ele estava outra vez
suj o , pois tinha rastejado por baixo de cercas como um gambá e anda­
do pendurado nas vigas do celeiro em busca de ovos no meio da palha.
"Meu Deu s , olha só para ti depois de todos os meus esforços ! E Adna
e Emly aqui tão sossegados . Farto-me de tentar manter-te decente .
Despe essa camisa e põe outra, as pessoas vão dizer que não te visto
como deve ser ! " E deu-lhe um grande puxão de orelhas . Ele pestane­
jou , piscou os olhos e esfregou a cabeça, e a Sua expressão magoou
Mrs . Whipple , que ficou com os joelhos a tremer e teve de se sentar
enquanto Lhe abotoava a camisa. "Já estou exausta e o dia ainda nem
começou ."
O irmão chegou , com a sua mulher roliça e sadia e dois grandes fi­
lhos cheios de fome . Tiveram um grande jantar, com o leitão assado
bem estaladiço no meio da mesa, cheio de acompanhamentos , um pês­
sego em conserva na boca e muito molho para as batatas doces .
"Isto é mesmo o retrato da prosperidade" , comentou o irmão; "vão
ter de me mandar para casa a rebolar como um barril quando acabar."
A Torre Inclinada e Outros Contos 61

Toda a gente se riu bem alto; era bom voltar a ouvi-los rir em con­
junto à volta da mesa. Mrs . Whipple sentia-se bem e reconfortada.
"Oh , temos outros seis; eu acho que é o mínimo que podemos fazer, já
que é tão raro vires visitar-nos ."
Ele não queria ir para a sala de j antar e Mrs . Whipple disfarçou
muito bem: "É mais tímido do que os meus outros dois" , disse ela .
"Vai ter de se habituar a vocês . Ele não se dá com toda a gente , sabem
como são algumas crianças , mesmo que sejam primos ." Ninguém co­
mentou algo em contrário .
"É mesmo como aqui o meu Alfy" , disse a mulher do irmão . " À s
vezes tinha de lhe bater para que ele apertasse a mão à avozinha."
E assim isso ficou resolvido e Mrs . Whipple encheu um grande
prato para Ele , servindo-O antes de toda a gente . "Eu digo sempre que
Ele não deve ser descurado , independentemente de quem tenha de fi­
car privado" , disse ela, levando-lhe o prato ela mesma.
"Ele é capaz de se elevar e chegar com o queixo à parte de cima da
porta" , disse Emly, tentando ajudar.
"Isso é bom , Ele vai muito bem" , disse o irmão .
Eles foram embora depois do jantar. Mrs . Whipple levantou a mesa,
mandou os filhos para a cama , sentou-se e desapertou os sapatos . "Es­
tás a ver?" , perguntou a Mr. Whipple . "A minha farm1ia é toda assim .
Simpática e educada em relação a tudo . Sem comentários indelicados
- eles têm sofisticação . Fico tão farta dos comentários das pessoas . O
leitão não estava bom?"
Mr. Whipple respondeu: "Sim , perdemos cento e cinquenta quilos
de porco , foi só isso . É fácil ser cortês quando se vem comer. Quem
sabe o que estiveram a pensar durante todo o tempo?"
"Pois , isso é mesmo típico de ti" , exasperou-se Mrs . Whipple . "Não
esperava outra coisa de ti . A seguir vais dizer-me que o meu próprio
irmão vai andar por aí a espalhar que O obrigámos a comer na cozinha !
Oh , meu Deus ! " Abanou a cabeça entre as mãos , com uma dor aguda
a começar mesmo no meio da testa. "Agora está tudo estragado , e ti­
nha sido tudo tão bom e agradável . Está bem , não gostas dele s , nem
nunca gostaste - está bem , eles não hão-de voltar tão cedo , não te
preocupes ! Mas não vão poder dizer que Ele não estava tão bem ves­
tido como Adna - oh , sinceramente , às vezes preferia estar morta ! "
"Quem m e dera que descontraísses" , disse Mr. Whipple . "Já é mau
que chegue assim ."

*
62 Katherine Anne Porter

Foi um Inverno penoso . Mrs . Whipple tinha a impressão de que não


conheciam outra coisa que não tempos difíceis , e agora ainda tinham de
enfrentar um Inverno daqueles . As colheitas eram cerca de metade daqui­
lo que poderiam esperar; depois de o algodão ser apanhado , não servia
para muito mais do que para pagar a conta da mercearia. Trocaram um
dos cavalos de tracção e foram enganados , pois .o novo morreu de pul­
moeira. Mrs . Whipple estava sempre a pensar que era terrível ter um
homem em quem não se podia confiar que não fosse enganado . Cortaram
em tudo , mas Mrs . Whipple dizia que havia coisas em que não se podia
cortar, e essas coisas custavam dinheiro . Eram precisas muitas roupas
quentes para Adna e Emly, que caminhavam seis quilómetros e meio até
à escola durante o trimestre . "Ele fica em frente à lareira durante muito
tempo , não precisa de tanta roupa" , disse Mr. Whipple . "É verdade" ,
concordou Mrs . Whipple , " e quando faz tarefas l á fora pode usar o teu
casaco de lona. Não consigo fazer melhor, é tudo ."
Em Fevereiro , Ele adoeceu , e ficou deitado debaixo do Seu cober­
tor, com um ar muito azulado e a parecer capaz de asfixiar. Mr. e Mrs .
Whipple fizeram tudo o que podiam por Ele ao longo de dois dias , mas
depois tiveram medo e chamaram o médico . Este disse-lhes que ti­
nham de O manter quente e de Lhe dar muito leite e ovo s . "Ele não é
tão robusto como parece , infelizmente" , disse o médico . "Têm de lhes
prestar atenção quando estão assim . Também têm de O tapar mais ."
"Acabei de levar o grande cobertor para lavar" , disse Mrs . Whipple ,
envergonhada. "Não suporto sujidade ."
"Bem, é melhor pôr-Lho em cima assim que estiver seco" , concluiu
o médico , "senão Ele vai ter uma pneumonia."
Mr. e Mrs . Whipple tiraram um cobertor da cama em que dor­
miam e puseram-Lhe a enxerga junto à lareira . "Não podem dizer
que não fizemos tudo por Ele" , disse ela, "incluindo dormir com frio
para O manter quente ."
Quando o Inverno chegou ao fim, Ele pareceu recuperar, mas cami­
nhava como se os pés Lhe doessem . Nessa estação , já conseguia tra­
balhar numa plantação de algodão .
"Combinei com Jim Ferguson para cruzar a vaca da próxima vez" ,
disse Mr. Whipple . "Eu vou pastar o boi durante o Verão e dar alguma
forragem ao Jim no Outono . É melhor do que pagar dinheiro que não
temos ."
"Espero que não tenhas dito uma coisa dessas ao Jim Ferguson" ,
disse Mrs . Whipple . "Não devias deixá-lo perceber que estamos assim
tão em baixo."
A Torre Inclinada e Outros Contos 63

"Valha-me Deu s , isso não é dizer que estamos em baixo . À s vezes


um homem tem de acautelar o futuro . Ele pode levar o boi hoj e . Pre­
ciso que o Adna fique ."
Ao início , Mrs . Whipple sentiu-se descansada quanto a que fosse
Ele a ir buscar o boi . Adna era demasiado nervoso e não se podia con­
fiar nele . Era preciso ser-se estável com os animais . Depois de Ele ter
saído , ela começou a pensar e , passado algum tempo , j á mal conseguia
aguentar. Postou-se na estrada e ficou à espera d'Ele . Era um caminho
de quase cinco quilómetros e um dia quente , mas Ele não devia demo­
rar tanto . Protegeu os olhos e fitou o espaço até ter bolhas coloridas a
pairar à frente das órbitas . Era como tudo o resto na vida, ela tinha
sempre de se preocupar e nunca conhecer um momento de paz em
relação ao que quer que fosse . Ao fim de muito tempo , viu-O a virar
para a rua lateral , a coxear. Avançava muito devagar, puxando o gran­
de corpo de um animal por uma argola no nariz , a rodopiar um peque­
no pau na mão , sem nunca olhar para trás ou para os lados , como um
sonâmbulo de olhos semifechados .
Mrs . Whipple morria de medo de bois; tinha ouvido histórias horrí­
veis acerca de como caminhavam muito tranquilamente e de repente
soltavam um berro , esgaravatavam a terra e despedaçavam um corpo .
E a qualquer segundo aquele monstro preto abater-se-ia sobre Ele , meu
Deus , Ele nunca teria sensatez suficiente para fugir.
Ela não devia fazer barulho , nem mexer-se; não devia assustar o boi .
O boi virou a cabeça de lado e corneou o ar para acertar numa mosca.
A voz dela saiu-lhe num guincho e ela gritou-Lhe que se apressasse ,
por amor de Deus . Parecia que Ele não ouvira o seu clamor, continuan­
do a rodopiar o Seu pau e a coxear, enquanto o boi avançava pesada­
mente atrás d ' Ele , manso como um bezerro . Mrs . Whipple parou de O
chamar e correu para dentro de casa, a rezar entredentes : "Meu Deus,
não deixes que nada Lhe aconteça . Meu Deu s , tu sabes que as pessoas
vão dizer que não deveríamos tê-1 ' 0 mandado . Tu sabes que vão dizer
que não cuidámos d ' Ele . Oh, faz com que chegue são e salvo a casa,
são e salvo a casa, e eu vou ter mais cuidado com Ele ! Ámen ."
Observou pela janela enquanto Ele levava o animal para o celeiro e
o amarrava. Já não valia a pena tentar acompanhá-1 ' 0 , Mrs . Whipple
não aguentava mais . Sentou-se e abanou-se para trás e para a frente , a
chorar, com o avental por cima da cabeça.
A cada ano que passava, os Whipples iam ficando mais pobres . A ca­
sa parecia arruinar-se , por mais que eles trabalhassem . "Estamos a per­
der a nossa posição" , disse Mrs . Whipple . Porque não podemos fazer
64 Katherine Anne Porter

como as outras pessoas e aproveitar as melhores oportunidades? A se­


guir vão começar a chamar-nos gente miserável ."
"Quando eu fizer dezasseis anos, vou-me embora" , disse Adna.
"Vou arranj ar emprego na mercearia Powell ' s . Isso dá dinheiro . Para
mim , chega de quinta ."
"E eu vou ser professora" , disse Emly. "Mas tenho de acabar o oi­
tavo ano , sej a como for. Depois posso viver na vila . Não vejo oportu­
nidades nenhumas aqui ."
"A Emly sai à minha frum1ia" , disse Mrs . Whipple . "Todos são am­
biciosos , e não aceitam um segundo lugar por ninguém ."
Quando chegou o Outono , Emly teve a possibilidade de servir às
mesas no restaurante ao lado da estação de caminho-de-ferro da vila
mais próxima, e parecia uma pena não a aceitar, já que o ordenado era
bom e ainda teria a sua própria comida, pelo que Mrs . Whipple decidiu
deixá-la aceitar e não se preocupar com a escola até ao ano seguinte .
"Tens muito tempo" , disse-lhe . " É s nova e esperta como um alho ."
Tendo Adna ido embora também, Mr. Whipple tentava cuidar da
quinta só com a ajuda d ' Ele . Ele parecia dar-se bem , fazendo o Seu
trabalho e a parte de Adna sem se aperceber. Tudo foi correndo relati­
vamente bem até ao Natal , quando , certa manhã, Ele escorregou no
gelo à vinda do celeiro . Em vez de se levantar, agitou-se e rebolou-se
e, quando Mr. Whipple O alcançou , estava a ter uma espécie de ataque .
Levaram-n ' O para casa e tentaram fazê-1 ' 0 sentar-se , mas Ele bal­
buciava e rebolava, pelo que O deitaram na cama e Mr. Whipple foi
até à vila, em busca do médico . Durante todo o caminho de ida e de
volta , preocupava-o de onde viria o dinheiro: parecia mesmo que tinha
todos os problemas que poderia suportar.
A partir de então , Ele ficou na cama . As Suas pernas incharam até
ao dobro do tamanho e os ataques continuaram a ocorrer. Ao fim de
quatro meses, o médico declarou: "Não vale a pena , julgo que o me­
lhor será que O levem imediatamente para o Lar do Condado para ser
tratado . Vou tratar disso . Lá receberá bons cuidados e estará fora do
vosso encargo ."
"Nós não lamentamos qualquer cuidado que Lhe demos e eu não O
quero longe da minha vista" , reclamou Mrs . Whipple . "Não quero que
se diga que mandei o meu filho doente para o meio de desconhecidos ."
"Eu percebo como se sente" , disse o médico . "Não pode dizer-me
nada acerca disso , Mrs . Whipple . Eu também tenho um rapaz . Mas é
melhor dar-me ouvido s . Não posso fazer mais nada por Ele , essa é a
verdade ."
A Torre Inclinada e Outros Contos 65

Nessa noite , depois de se deitarem, Mr. e Mrs . Whipple discutiram


o assunto durante muito tempo . "É só caridade" , disse Mrs . Whipple ,
"foi a isso que chegámos , caridade ! Certamente nunca esperei por
este dia ."
"Nós pagamos impostos que ajudam a comunidade , tal como todos
os outros" , disse Mr. Whipple , "e eu não considero que isto seja aceitar
caridade . Acho que seria bom tê-1 ' 0 onde possa receber o melhor de
tudo . . . e , além disso , já não consigo continuar a pagar estas contas do
médico ."
"Se calhar é por isso que o médico quer que O mandemos embora
- tem medo de não receber" , alvitrou Mrs . Whipple .
"Não digas isso" , respondeu Mr. Whipple , sentindo-se bastante in­
disposto , "ou não poderemos mandá-1 ' 0 ."
"Oh , mas não vamos deixá-1 ' 0 lá muito tempo" , disse Mrs . Whip­
ple . "Assim que Ele estiver melhor, volta para casa."
"O médico já te disse vezes sem conta que Ele não vai melhorar
nunca, e mais vale que pares de falar" , disse Mr. Whipple .
"Os médicos não sabem tudo" , replicou Mrs . Whipple , sentindo-se
quase feliz . "Mas , seja como for, no Verão Emly poderá vir passar
férias a casa e Adna poderá vir aos domingos : vamos trabalhar todos
juntos e voltar a pôr-nos de pé e as crianças vão sentir que têm um
sítio a que regressar."
De súbito , ela via como tudo seria no pino do Verão , com o j ardim
bem cuidado e novas persianas brancas por toda a casa, Adna e Emly
de volta , tão cheios de vida , todos eles felizes e juntos . Oh , poderia
acontecer, as coisas seriam mais fáceis .
Não falavam muito à frente d ' Ele , mas nunca sabiam quanto era que
Ele compreendia. Por fim o médico marcou a data e um vizinho que
tinha uma carriola de dois lugares ofereceu-se para os levar. O hospital
poderia ter enviado uma ambulância, mas Mrs . Whipple não suportaria
vê-1 ' 0 a ir-se embora com um ar tão doente . Envolveram-n ' O em co­
bertores e o vizinho e Mr. Whipple pousaram-n ' O nas traseiras da
carriola, ao lado de Mrs . Whipple , que tinha vestido a sua blusa preta.
Não suportaria ir a parecer que precisava de caridade .
"Vais bem assim, acho que eu fico" , disse Mr. Whipple . "Não me
parece que toda a gente deva sair daqui ao mesmo tempo ."
"Além disso , não se dá o caso de Ele ir para lá para sempre" , disse
Mrs . Whipple ao vizinho . "Isto é só por pouco tempo."
Começaram a afastar-se , Mrs . Whipple a segurar os lados dos cober­
tores para não O deixar escorregar. Ele ali ia, sempre a pestanejar.
66 Katherine Anne Porter

Soltou as mãos e começou a esfregar o nariz com os nós dos dedos e


depois com a ponta do cobertor. Mrs . Whipple não acreditava no que
via; Ele estava a limpar grandes lágrimas que Lhe caíam pelos cantos
dos olhos . Fungava e fazia barulho ao engolir. Mrs . Whipple ia dizen­
do : "Oh , querido , não te sentes assim tão mal , pois não? Não te sentes
assim tão mal , pois não?" , pois parecia que Ele a acusava de alguma
coisa. Talvez Se lembrasse daquela vez em que ela Lhe puxara as ore­
lhas , talvez tivesse tido medo naquele dia com o boi , talvez tivesse
dormido com frio e não pudesse dizer-lhe ; talvez soubesse que esta­
vam a enviá-1 ' 0 para longe de vez por serem demasiado pobres para o
manterem. Fosse o que fosse , Mrs . Whipple não aguentava pensar
nisso . Começou a chorar, assustada, passou os braços à volta do filho
e abraçou-O . Ele deixou a cabeça cair para o ombro dela: ela amara-O
tanto quanto podia, também tinha de pensar em Adna e Emly, não
havia nada que ela pudesse fazer para O compensar pela Sua vida . Oh,
que pena que Ele tivesse sequer nascido .
Aproximavam-se do hospital , com o vizinho a conduzir muito de­
pressa, sem se atrever a olhar para trás .
Furto

Ela tinha a carteira na mão ao entrar. De pé no meio da divisão , com


o roupão à sua volta e a arrastar uma toalha húmida , reviu o passado
recente e recordou tudo com nitidez . Sim, abrira a aba e espalmara-a
no banco depois de secar a carteira com o lenço .
A sua intenção era apanhar o comboio suspenso , e naturalmente me­
xera na carteira para se assegurar de que tinha o valor do bilhete , ficando
satisfeita ao encontrar quarenta cêntimos no compartimento das moedas .
Ia pagar pela sua viagem, mesmo que Camilo tivesse o hábito de a levar
à plataforma e inserir uma moeda na máquina antes de dar um pequeno
empurrão ao molinete e fazer uma vénia para que ela passasse . Através
de uma série de meios-termos, Camilo conseguira tomar efectivo um
conjunto razoavelmente completo de pequenas cortesias , ignorando as
maiores e mais complicadas . Ela tinha caminhado até à estação na sua
companhia sob uma chuva torrencial , pois sabia que ele era quase tão
pobre quanto ela, e, quando ele insistira em que apanhassem um táxi, ela
fora firme e dissera: "Sabes que não pode mesmo ser." Ele estava a usar
um chapéu novo , de um bonito tom castanho-claro, pois nunca lhe ocor­
ria comprar algo numa cor prática; era a primeira vez que o usava e a
chuva estava a estragá-lo . Ela não parava de pensar: "Mas isto é horrível ,
onde irá ele arranjar outro?" Comparava-o com os chapéus d e Eddie ,
que pareciam sempre ter precisamente sete anos e haver sido deixados
propositadamente à chuva, e que , não obstante , lhe assentavam com uma
harmonia descuidada e acidental . Mas Camilo era bem diferente; se
usasse um chapéu ratado , este limitar-se-ia a parecer ratado , e ele ficaria
desalentado por causa disso . Se ela não temesse que Camilo levasse a
mal , pois ele insistia na execução das suas pequenas cerimónias a ponto
de ficar obcecada por elas , ter-lhe-ia dito , ao saírem de casa de Thora:
"Vai para casa. Eu consigo certamente chegar à estação sozinha."
68 Katherine Anne Porter

"Está escrito que deve chover-nos em cima esta noite" , disse Cami­
lo , "por isso , que aconteça quando estamos juntos ."
Junto à escadaria da plataforma, ela vacilou ligeiramente - ambos
se tinham servido generosamente dos cocktails de Thora - e disse:
"Pelo menos , Camilo , faz-me o favor de não subires estas escadas no
estado em que te encontras , j á que logo a seguir terias de voltar a
descê-las e sem dúvida acabarias por partir o pescoço ."
Ele fez três vénias rápidas (era espanhol) e galgou pela escuridão
chuvosa afora. Ela ali ficou a observá-lo , pois Camilo era um jovem
muito gracioso , a pensar que na manhã seguinte ele lançaria um olhar
sóbrio ao chapéu estragado e aos sapatos empapados e talvez a asso­
ciasse com a sua miséria. Enquanto o via, ele parou numa esquina ao
longe , tirou o chapéu e escondeu-o dentro do sobretudo . Ela sentiu que
o tinha traído . por assistir àquilo , pois ele teria ficado humilhado se
julgasse que ela suspeitava sequer de que ele havia tentado salvar o
chapéu .
A voz de Roger fez-se ouvir por cima do seu ombro , impondo-se ao
barulho da chuva que caía sobre a escadaria coberta e desejando saber
o que fazia ela à chuva àquela hora da noite , acharia que era algum
pato? Pelo seu rosto longo e imperturbável corria água e ele tocou
numa protuberância no peito do sobretudo abotoado: "Chapéu" , disse
ele . "Anda , vamos apanhar um táxi ."
Ela recostou-se ao braço de Roger, que ele tinha passado à volta dos
seus ombros , e com o gesto trocaram um olhar carregado de associa­
ções amicais de longa data; depois ela espreitou pela janela, vendo a
chuva a mudar as formas de tudo e as cores também . O táxi ia zigue­
zagueando por entre os pilares da ferrovia suspensa, derrapando ligei­
ramente a cada curva, e ela disse: "Quanto mais o carro derrapa, mais
calma me sinto , pelo que devo estar mesmo bêbeda."
"Deves estar" , confirmou Roger. "Este tipo é um maníaco homicida
e eu próprio gostaria de tomar um cocktail agora mesmo ."
Esperaram , parados no trânsito , no cruzamento entre a Fortieth Street
e a Sixth Avenue , e três rapazes passaram diante do nariz do táxi . Sob
os globos de luz , pareciam espantalhos alegres , todos muito magros e
todos a usarem fatos que seguiam o corte da moda mas eram de péssima
qualidade , com gravatas garridas . Também não iam muito sóbrios , e
demoraram-se um pouco a oscilar à frente do carro , com uma discussão
a ter lugar entre eles . Inclinavam-se uns para os outros como se se pre­
parassem para cantar e o primeiro deles disse: "Quando eu casar, não
vai ser só para me casar, vou casar por amor, percebem?" , e o segundo
A Torre Inclinada e Outros Contos 69

replicou: "Oh , vai mas é dizer-lhe essas coisas a ela, hã?" , e o terceiro
soltou uma espécie de uivo e disse : "Caramba, este gajo? Quem é que
ele tem , raios?" , e o primeiro reclamou: "Aaah , calem-se vocês , tenho
muitas ." E depois todos guincharam e atravessaram a estrada aos trope­
ções , a baterem nas costas do primeiro e a empurrarem-no .
"Doidos" , comentou Roger, "completamente doidos ."
Duas raparigas passaram aos saltinhos , de gabardinas transparentes
e curtas , uma verde , a outra vermelha , com as cabeças encolhidas para
se protegerem da chuvada intensa. Uma delas dizia à outra: "Sim, eu
sei tudo acerca disso . Mas então e eu? Tens sempre tanta pena dele . . ." ,
e continuaram a correr, com as suas pequenas pernas de pelicano a
surgirem ora para trás ora para a frente .
De súbito o táxi recuou e voltou a avançar, e passado um pouco
Roger disse: "Hoje recebi uma carta da Stella, que vai estar em casa
no dia 26 , pelo que suponho que já se tenha decidido e que esteja tudo
resolvido ."
"Eu também recebi uma espécie de carta hoje" , disse ela, "a decidir
por mim . Acho que está na altura de que tu e a Stella façam algo defi­
nitivo ."
Quando o táxi parou na esquina da West Fifty-third Street, Roger
disse: "Tenho o suficiente se juntares dez centavos" , pelo que ela abriu
a carteira e lhe deu uma moeda, ao que ele comentou: "É linda, essa
carteira ."
"Foi uma prenda de aniversário" , disse-lhe ela, "e eu gosto dela.
Como vai a tua exposição?"
"Oh , ainda se aguenta, acho eu . Não me aproximo de lá. Ainda nada
foi vendido . A minha ideia é manter a direcção em que vou e eles ou
aceitam, ou não . Já estou farto de discutir."
"É absolutamente uma questão de resistir, não é?"
"Resistir é o mais difícil ."
"Boa noite , Roger."
"Boa noite , devias tomar uma aspirina e meter-te numa banheira
cheia de água quente , parece que estás a apanhar uma constipação ."
"É o que vou fazer."
Com a carteira debaixo do braço , subiu as escadas e, no primeiro
patamar, Bill ouviu-lhe os passos e espreitou pela porta , com o cabelo
despenteado e os olhos avermelhados , e disse-lhe: "Por amor de Deus ,
entra e toma um copo comigo . Recebi más notícias ."
"Estás perfeitamente encharcada" , comentou Bill , fitando-lhe os pés
ensopados . Tinham tomado duas bebidas , enquanto ele lhe contava que
70 Katherine Anne Porter

o encenador lhe rejeitara a peça depois de o elenco ter sido sujeito a


duas selecções e a três ensaio s . "Eu disse-lhe: ' Eu não disse que era uma
obra-prima, o que disse foi que daria um bom espectáculo . ' E ele res­
pondeu: 'É que não funciona, percebe? Precisa de um médico . ' E por
isso estou bloqueado , completamente bloqueado" , concluiu ele , à beira
do pranto outra vez . "Tenho estado a chorar" , confessou-lhe , "embebedei­
-me ." E continuou , perguntando-lhe se se dava conta de que a mulher
dele o arruinava com a sua extravagância. "Envio-lhe dez dólares todas
as semanas da minha triste vida, e não tenho mesmo de o fazer. Ela
ameaça que me manda para a cadeia se eu não lhe enviar o dinheiro ,
mas não pode . Meu Deus , ela que tente , depois da maneira como me
tratou ! Não tem direito a pensão de alimentos e está ciente disso . Está
sempre a dizer que precisa do dinheiro para o bebé e eu não deixo de
lho mandar porque não suporto ver ninguém sofrer. Por isso , vou-me
atrasando com os pagamentos do piano e do gramofone , os dois . . . "
"Bem , de qualquer maneira, este tapete é bonito" , interrompeu ela.
Bill fitou-o e assoou-se . "Comprei-o ao Ricci por noventa e cinco
dólares" , disse ele . "O Ricci disse-me que em tempos pertenceu a Ma­
rie Dressler, e custou mil e quinhentos dólares , mas tem um sítio quei­
mado , debaixo do divã. Dá para fazer melhor?"
"Não" , disse ela. Estava a pensar na sua carteira vazia, que nos três
dias seguintes não poderia esperar um cheque pela última crítica que
fizera e que o seu acordo com o restaurante da cave não duraria muito
mais se não pagasse alguma coisa da sua conta. "Não é altura para
falar disto" , começou , "mas esperava que já tivesses aqueles cinquen­
ta dólares que me prometeste pela cena que te escrevi para o terceiro
acto . Mesmo que não vá ser posta em cena . las pagar-me por esse
trabalho de qualquer maneira, com o teu adiantamento ."
"Pelas lágrimas de Jesus" , exclamou Bill , "tu também?" Fungou
bem alto , ou talvez tenha soluçado , no lenço molhado . "O teu material
não era melhor do que o meu , afinal . Pensa nisso ."
"Mas tu recebeste qualquer coisa pelo que fizeste" , disse ela. "Sete­
centos dólares ."
Bill disse: "Faz-me um favor, sim? Bebe mais um copo e esquece
isso . Não posso , sabes que não posso , se pudesse pagava-te , mas sabes
a complicação em que estou metido ."
"Deixa lá, então" , deu ela por si a dizer quase contra a sua própria
vontade . Fazia intenção de ser bastante firme quanto àquilo . Tomaram
a beber em silêncio e depois ela foi para o seu apartamento , no piso de
cima.
A Torre Inclinada e Outros Contos 71

Ali , j á se lembrava distintamente , tinha tirado a carta da carteira


an�es de a abrir para que secasse .
Sentara-se e relera a carta: mas havia frases que insistiam em ser
lidas muitas vezes , tinham vida própria, independente das outras , e
quando ela tentava ler para lá e à volta delas , acompanhavam o movi­
mento dos seus olhos e ela não conseguia escapar-lhes . . . "pensar mais
em ti do que quero . . . sim , até falo de ti . . . porque estavas tão ansiosa
por destruir . . . mesmo que pudesse ver-te agora não iria . . . não vale
toda esta abominável . . . o fim . . . "
Com cuidado , rasgou a carta em tiras finas e aproximou-lhe um fós­
foro aceso sobre a lareira a carvão .
Bem cedo , na manhã seguinte , estava na banheira quando a porteira
bateu à porta e em seguida entrou , anunciando que queria examinar os
radiadores antes de pôr a fornaça a trabalhar naquele Inverno . Depois
de andar pelo quarto durante alguns minutos , a porteira foi-se embora,
fechando a porta com grande estrondo .
Ela saiu da casa de banho para tirar um cigarro do maço que tinha
na carteira . Esta desaparecera . Ela vestiu-se , preparou café e sentou­
-se à j anela a bebê-lo . Decerto fora a porteira que levara a carteira ,
e decerto seria impossível recuperá-la sem uma grande exaltação
ridícula. Então o melhor era esquecer. Com essa decisão presente ,
em simultâneo surgiu-lhe no sangue uma sanha quase assassina .
Pousou a caneca cuidadosamente no centro da mesa e desceu as es­
cadas com passos firme s , três longos lanços , um pequeno átrio e
mais um lanço curto e íngreme até à cave , onde a porteira , com a
cara raiada de fuligem , estava a atear a fornaça. "Importa-se de me
devolver a carteira? Não tem dinheiro . Foi um presente e não quero
perdê-la."
A porteira voltou-se sem se endireitar e fitou-a com uns olhos arden­
tes , com a luz vermelha da fornaça a reflectir-se nele s . "A sua carteira?
De que está a falar?"
"Da carteira de tecido dourado que tirou do banco de madeira do
meu quarto" , disse ela. "Preciso de a recuperar."
"Juro por Deus que nunca pousei a vista em cima da sua carteira, e
essa é a verdade" , respondeu a porteira.
"Oh , muito bem então , fique com ela" , disse ela, mas numa voz
amargurada; "fique com ela, se a quer tanto ." E foi-se embora.
Lembrou-se de que nunca tinha trancado uma porta durante toda a
vida , por um princípio de rejeição qualquer que a deixava desconfor­
tável perante a posse de objectos , e de jactância paradoxal com que
72 Katherine Anne Porter

respondia aos avisos dos amigos , dizendo que nunca lhe haviam rou­
bado um tostão que fosse; e de se sentir satisfeita com a humild�de
simples daquele exemplo concreto criado para ilustrar uma certa fé
fixa e geral , sem outra base que a sustentasse , que ordenava os movi­
mentos da sua vida, sem consideração pela sua vontade .
Naquele momento , sentia-se roubada de um número enorme de coi­
sas preciosas , quer materiais , quer intangívei s : coisas perdidas ou
partidas por sua própria culpa, coisas esquecidas e deixadas em casas
de onde se mudara: livros que emprestara e que não lhe tinham devol­
vido , viagens que planeara e não tinha feito , palavras que esperara que
lhe dissessem e que não tinha ouvido , e as palavras com que tenciona­
ra responder; alternativas amargas e substitutos intoleráveis piores do
que nada, e todavia inescapáveis: o longo sofrimento paciente de ami­
zades moribundas e a inexplicável morte escura do amor - tudo o que
tivera e tudo o que lhe escapara eram perdas conjuntas e perdiam-se a
dobrar naquela avalancha de perdas recordadas .
A porteira ia a segui-la escadas acima , com a carteira na mão e o
mesmo faiscar vermelho nos olhos . Atirou-lhe a carteira quando ainda
estavam a uma meia dúzia de degraus uma da outra e disse-lhe: "Não
faça queixa de mim . Devo ter enlouquecido . À s vezes fico louca da
cabeça , juro que fico . O meu filho pode contar-lhe ."
Ao fim de um instante , ela pegou na carteira e a porteira continuou :
"Tenho uma sobrinha que vai fazer dezassete anos , e ela é boa menina
e eu estava a pensar dar-lha. Ela precisa de uma carteira bonita. Devo
ter enlouquecido ; achei que talvez não desse por nada , deixa as coisas
espalhadas e parece não reparar."
Ela disse : "Isto fazia-me falta porque foi um presente de uma pes­
soa . . . "
A porteira interrompeu-a: "Ele dava-lhe outra, se a menina perdesse
esta . A minha sobrinha é novinha e precisa de coisas bonitas , devíamos
dar oportunidade aos mais novos . Ela tem jovens atrás dela, talvez até
queiram casar com ela. Ela devia ter coisas bonitas . Precisa delas ago­
ra . A menina já é uma mulher crescida , já teve a sua oportunidade ,
devia saber como são as coisas ! "
Ela estendeu a carteira à porteira, dizendo : "Não sabe do que fala .
Tome , fique c o m ela , mudei d e ideias . J á não a quero ."
A porteira fitou-a com ódio e ripostou : "Pois eu também já não a
quero . A minha sobrinha é nova e bonita, não precisa de se arranjar
para ficar bonita , é jovem e bonita de qualquer maneira ! Acho que
você precisa mais disso do que ela ! "
A Torre Inclinada e Outros Contos 73

"Para começar, a carteira não era sua" , disse ela, virando-lhe as cos­
tas . "Não devia falar como se eu lha tivesse roubado ."
"Não é a mim , é a ela que está a roubar" , declarou a porteira , antes
de voltar para a cave .
Ela pousou a carteira na mesa e sentou-se com a caneca de café ar­
refecido , e pensou : eu tinha razão em não ter medo de ladrão algum
além de mim mesma, que acabarei por me deixar sem nada.
Aquela Árvore

Ele tinha realmente desejado ser um vagabundo alegre , deitado à


sombra de uma árvore num sítio com bom clima , a escrever poesia.
Escrevia resmas de poesia e nada daquilo prestava, e ele sabia-o , mes­
mo enquanto escrevia. Saber que a sua poesia não prestava não lhe
retirava muito do prazer que obtinha ao escrevê-la. Teria gostado mes­
mo desse estilo de vida: sem respeitabilidade , sem responsabilidade ,
sem dinheiro que se visse , de sandálias gastas e uma camisa azul favo­
recedora, ainda que provavelmente rasgada, deitado à sombra de uma
árvore a escrever poesia. Fora esse o motivo que o fizera ir para o
México . Sentira nos próprios ossos que era o país indicado para si .
Muito depois de se ter tomado um jornalista bastante importante , uma
autoridade em revoluções latino-americanas e um escritor de best­
sellers, confessava a quaisquer amigos e conhecidos que lhe dessem
ouvidos - gostava daquela confissão , dava-lhe uma oportunidade de
falar acerca daquilo que ele julgava adorar acima de tudo , a vida ocio­
sa, livre e romântica de um poeta - que o dia em que Miriam o ex­
pulsara fora o dia mais afortunado da sua vida. Ela deixara-o , na ver­
dade , fazendo as malas subitamente numa raiva fria e silenciosa,
espetando-lhe os cotovelos quando ele tentava abraçá-la, ferindo-o até
ao âmago com esporádicas frases curtas expelidas por entre dentes
cerrados ; mas ele sentia que tinha sido , como explicava sempre , expul­
so . Ela expulsara-o e isso fora bem feito .
O choque despertara-o como se tivesse sido acordado de surpresa
de um sono prolongado . Ficara quase toda a noite num estado de tor­
por no quarto vazio , entre os colchões de palha e as cadeiras índias
pintadas que Miriam detestava , no repentino silêncio frio , com a ca­
beça entre as mão s . Nem lhe tinha passado pela cabeça deitar-se . O
dia deveria estar quase a romper quando se levantou , com todas as
A Torre Inclinada e Outros Contos 75

articulações rígidas por ter passado tanto tempo sentado e imóvel , e


apesar de não ser capaz de dizer que tivesse estado a pensar, tomara
uma nova resolução . Tinha recomeçado , poder-se-ia dizer que prati­
camente nesse mesmo dia , a construir uma carreira de j ornalista . Não
conseguiria explicar porque chegara a essa ideia, excepto que a pala­
vra impressionaria a mulher, o trabalho era suficientemente intelec­
tual para lhe preservar o respeito por si mesmo , assim sendo , e até ele
considerava que se tratava de uma ocupação adequada a um homem
como aquele em que de súbito se tomara, decidido a ficar a par da
política internacional . Nada acontece de repente a quem quer que
seja, comentava, como se a noção acabasse de lhe ocorrer; provavel­
mente já estava a fermentar havia muito tempo , apanhando-o de sur­
presa quando ele não estava atento . A mulher chamara-lhe "Parasi­
ta ! " , dissera "Mandrião ! " e, enquanto ela repetia aquelas coisas pela
vez que se revelaria ser a última , ele deu-se conta de que ela as tinha
dito com frequência, sem que ele a escutasse com o ouvido da sua
mente . Traduzia aqueles epítetos relativamente inofensivos instanta­
neamente nos sinónimos adequados de Vadio ! e Vagabundo ! Miriam
era professora e , quaisquer que fossem os seus desapontamentos e
provocações , não se podia esperar que esquecesse tal disciplina. En­
trara no hábito profissional da meticulosidade ; para mai s , era uma
rapariga de boas famílias , não uma maçadora emproada, nada disso ,
mas uma - bem , lá está , uma rapariga bem-educada do Midwest, que
levava a vida a sério . E o que pode ser feito a respeito disso? Era
doce e alegre e cheia de noções loucas , mas nunca lhes cedia hones­
tamente , pelo menos nunca quando poderiam ter alguma importância.
Nunca fora capaz de ver o lado divertido de uma situação ameaçado­
ra que , encarada com solenidade , arruinaria tudo . Não , o seu sentido
de humor nunca funcionava para a salvação . Era apenas mais um
adereço naquilo que já seria um tempo bem passado .
Perguntava-se se alguém teria alguma vez pensado - oh , bem, é
claro que toda a gente o tinha pensado , ele passava a vida a fazer des­
cobertas maravilhosas que outras pessoas sempre haviam sabido -
quão impossível é explicar ou levar outros olhos a verem as qualidades
especiais da pessoa que amamos . Havia um tipo tão especial de beleza
em Miriam . Sob certas luzes e disposições , ele ficava simplesmente
com um nó na boca do estômago quando olhava para ela. Era algo que
podia acontecer a qualquer hora do dia, a meio das ocupações mais
corriqueiras . Ele achava que havia algo a dizer-se acerca de viver com
outra pessoa noite e dia durante todo o ano . Revela o pior, mas também
76 Katherine Anne Porter

o melhor, e o melhor de Miriam era mesmo espectacular. Ele não seria


capaz de o descrever. Era fácil falar dos defeitos dela. Ele lembrava-se
de todos , poderia listá-los como fileiras de números de uma imensa
dívida por pagar. Vivera quatro anos com ela e, ainda agora, por vezes
acordava de um sono profundo a suar de raiva contra si mesmo e a
perguntar-se porque tinha desperdiçado um minuto sequer com ela.
Não era linda ao seu estilo . Ele confessava ter um fraco pelo género
que nos deixa sem fôlego . A ideia que ela fazia de indumentária diurna
era um fato feito à medida, com uma blusa de gola redonda e um pe­
queno chapéu de feltro , como uma pá inclinada sobre os seus olhos .
Ao final do dia, usava um vestido de gala preto e desaparecia por
completo dentro dele . Mas arranjava bem o cabelo e tinha as camisas
de noite mais encantadoras que ele alguma vez vira . A sua mente podia
ser facilmente resumida . Não tinha o temperamento a que ele se habi­
tuara com as raparigas mexicanas . Também não aprovava que ele
usasse a palavra temperamento . Achava que isso era uma espécie de
ossos do ofício dos artistas , ou um truque que estes usavam para se
tomarem interessante s . Fosse como fosse , desconfiava de artistas e
desconfiava do temperamento . Porém , qualquer coisa havia nela. A
frio , ele era capaz de a examinar, inas ficava furioso se alguém sequer
sugerisse criticá-la. A sua segunda mulher sempre fizera questão de se
abespinhar em relação a Miriam . No final , ele quase estaria disposto a
dizer que isso levara ao seu segundo divórcio . Não aguentava ouvir
Miriam acusada de ser uma tolinha medrosa - pelo menos não por
aquela mulher . . .
Ambos se sobressaltaram , nervosos , ao ouvirem uma explosão na
rua: o escape de um automóvel .
"Outra revolução" , disse o jovem gordo e rubicundo de fato justo e
arroxeado , que se encontrava instalado na mesa ao lado . Parecia uma
salsicha estufada, prestes a rebentar da pele . Apesar de se tratar do
chiste mais velho que havia desde a Guerra da Independência do Mé­
xico , ele estava a tentar dar a entender que o tinha inventado . O jorna­
lista mirou-o por cima de um ombro descaído . "Mais um desses esper­
talhaços , correspondentes dos jornais" , comentou numa voz ríspida,
propositadamente elevada , "que passam o dia no átrio do Hotel Regis
a encher as escarradeiras ."
O espertalhaço inchou visivelmente e ficou de um tom ainda mais
encarniçado . "Mas de quem j ulga que está a falar, seu mostrengo de
olhos de banjo e sem queixo?" , perguntou-lhe explicitamente , derra­
mando o peito sobre a mesa .
A Torre Inclinada e Outros Contos 77

"De alguém bem colocado , sem dúvida" , disse o jornalista, na sua


voz natural , "alguém estimado pelo governo , até aposto ."
"Mas você quer andar à bulha?" , perguntou o correspondente , que
tentava libertar-se de entre a mesa e a cadeira, a qual estava encostada
à parede .
"Oh , não me importo" , respondeu o jornalista , " se você também
não ."
Os amigos do correspondente pousaram-lhe patas tranquilizantes por
todo o lado e detiveram-no . "Não comeces nada com esse enfezado" ,
disse-lhe um deles , cujos olhos húmidos e rosados tentavam parecer
sóbrios e responsáveis . "Por amor de Deus, Joe , não vês que tem meta­
de do teu tamanho e ainda por cima é atrasado? Não batias num atrasa­
do , pois não , Joe?"
"Eu já lhe mostro o atraso" , disse o correspondente , que se agitava
ligeiramente sob as mãos que o seguravam .
"Sefíores, sefíores " , interveio o pequeno empregado mexicano , "há
senhoras e cavalheiros respeitáveis aqui presentes . Por favor, algum
silêncio e comportamento ordeiro , por favor."
"Mas quem raio é você, afinal?" , perguntou o correspondente ao
jornalista, sob o abrigo de mãos e desviando-se da figura magra do
empregado .
"Ninguém que queiras conhecer, Joe" , disse outro dos amigos que o
seguravam . "Acalma-te , antes que estes lambe-botas lancem o alerta
geral . Já sabes que têm a tendência para disparar quando menos se
espera . Acalma-te , agora, Joe , lembra-te só do que aconteceu da última
vez , Joe . Que é que isso te importa , afinal?"
"Sefíores " , disse o pequeno empregado , com as mãos abertas , ma­
gras , da cor de mogno , ora a subir ora a descer como se fossem mario­
netas , "é necessário que isto pare ou os sefíores terão de se retirar."
Parou . Pareceu evaporar-se . Os quatro correspondentes na mesa ao
lado acalmaram-se, apinhados num círculo de cabeças juntas , murmu­
rejando para os seus copos altos . O jornalista voltou-se , pediu mais
uma rodada de bebidas e continuou a falar em voz baixa.
Ele nunca tinha gostado daquele café , nunca tivera sorte ali . Acon­
tecia sempre qualquer coisa que lhe estragava a noite . A haver uma
espécie de vagabundo que ele desprezasse , era o vagabundo dos jor­
nais . Ou , pelo menos , os analfabetos bêbados que a United Press e a
Associated Press pareciam considerar que serviam para cobrir o Méxi­
co e a América do Sul . Estavam sempre a meter-se em assuntos que
não eram da sua conta e ocupavam-se a tentar arranj ar distúrbios para
78 Katherine Anne Porter

conseguirem histórias para publicar. Passavam a vida a ter de ser ex­


pulsos pelo governo . Por acaso , ele sabia que o vagabundo da mesa ao
lado estava prestes a ser deportado . Fora bastante seguro fazer aquela
piada acerca de ele estar sem dúvida bem colocado na estima oficial
mexicana . . . Pensava que isso haveria de o recordar de alguma coisa,
pois era.
Certa noite , ele tinha ido ali j antar e dançar com Miriam e , exacta­
mente na mesa ao lado , estavam quatro generais gordos do Norte ,
com bigodes retorcidos , grandes barrigas e grandes cintos cheios de
cartuchos e pistolas . Isso acontecera nos velhos tempos , mesmo de­
pois de Obregón ter ocupado a cidade , que estava cheia de generais .
Infestavam o s banhos de vapor, onde despiam o equipamento sujo de
campanha e suavam os vapores de tequila e fornicação , e infestavam
os cafés para voltarem a embebedar-se com champanhe e receber as
pegas francesas que tinham sido importadas para as festividades da
inauguração presidencial . Aqueles quatro estavam a ter uma discus­
são à boca pequena , com os olhos mesquinhos a cravarem-se nos
rostos uns dos outros . Ele e a mulher dançavam a um braço da mesa
quando , de súbito , um dos generais se levantou , a sacar da pistola , a
qual ficou presa, e os outros saltaram e agarraram-no , tudo sem dizer
palavra; toda a gente no café o viu de imediato . Até então , nada de
invulgar. O que se passou foi que todas as raparigas mexicanas sensa­
tas se limitaram a agarrar firmemente os seus homens pela cintura ,
virando-os de costas para os generais e servindo-se deles como escu­
dos , e então todo o espaço ficara estático por um segundo , com a
música interrompida . Quanto à sua mulher, Miriam , libertara-se dele
e escondera-se debaixo de uma mesa. Ele tivera de a arrastar pelo
braço diante de toda a gente . "Vamos tomar mais um copo" , disse ele ,
e fez uma pausa, olhando em redor como se tomasse a ver o lugar tal
como era nessa noite , quase dez anos antes . Pestanejou e prosseguiu .
Tinha sido o momento mais humilhante de toda a sua maldita vida .
Julgara que não sobreviveria a recolher as coisas deles e tirá-la dali .
Todos os generais tinham voltado a sentar-se e toda a gente recome­
çara a dançar, como se nada tivesse acontecido . . . Na verdade , nada
acontecera a quem quer que fosse , excepto a ele mesmo .
Ele tentou , durante horas nessa noite e vezes sem conta durante
quase um ano , explicar-lhe como se sentia em relação àquilo . Ela não
entendia de modo nenhum. Por vezes dizia que era um perfeito dispa­
rate . Ou comentava, num tom complacente , que nunca lhe tinha ocor­
rido salvar a vida à custa dele . Que achava que esses truques estavam
A Torre Inclinada e Outros Contos 79

muito bem para as raparigas mexicanas que só tinham uma coisa na


cabeça e para quem qualquer desculpa servia para agarrarem um ho­
mem e puxá-lo para mais perto do que deviam , mas ela não era capaz ,
não era capaz de perceber porque haveria ele de esperar que ela as
imitasse . Para mai s , tinha-se sentido segura debaixo da mesa. Fora
esse o seu primeiro e único pensamento . Ele dizia-lhe que uma bala
poderia muito bem ter atravessado a madeira; uma tábua não oferecia
protecção alguma, um tronco humano era tão bom como uma almofa­
da de penas para deter uma bala. Ela continuava a dizer que simples­
mente não lhe ocorrera fazer outra coisa e que aquilo não tivera mesmo
nada que ver com ele . Nem por um momento ele conseguia fazê-la ver
o seu ponto de vista. Deveria ter tido algo que ver com ele . Todas
aquelas raparigas mexicanas tinham nascido a saber o que deviam fa­
zer e haviam-no feito de forma espontânea , e Miriam limitara-se a
provar de uma vez por todas que os seus instintos estavam desajusta­
dos . Quando ela comprimia a boca para morder o lábio e exclamar
"Instintos ! " , conseguia que parecesse a palavra mais obscena de qual­
quer língua. Era uma palavra chocante . E ela não se ficava por aí. Por
fim dizia que não possuía o menor interesse naquilo para que as rapa­
rigas mexicanas tinham nascido , mas não fazia intenção alguma de
desperdiçar a vida a lisonjear a vaidade masculina. "Porque haveria eu
de confiar em ti no que quer que seja?" , perguntava-lhe . "Que razão
me deste para que confiasse em ti?"
Ele surpreendia-se com o tanto que ela mudara desde que a tinha
conhecido em Minneapolis . Preferia acreditar que a mudança fora cau­
sada por ela dar aulas . Dizia-lhe que achava tratar-se da ocupação mais
letal que existia e que deveria ser promulgada uma lei a proibir mulhe­
res bonitas com menos de trinta e cinco anos de se dedicarem ao ensino .
Ela recordava-o de que viviam do dinheiro que ela ganhava com isso .
Tinham estado noivos durante três anos , um noivado casto e de longa
distância que ele considerava mórbido e insólito . Era claro que ele pre­
cisara de fazer algo para passar o tempo , pelo que , enquanto ela perma­
necia em Minneapolis , a poupar o seu dinheiro e a encher uma arca
enorme com o enxoval para a casa, ele vivera na Cidade do México
com urna rapariga índia que posava para um grupo de pintores que ele
conhecia. Quanto a ele , ensinava inglês numa das escolas técnicas -
que estranho , ele também fora professor, mas até àquele momento isso
não lhe tinha ocorrido - e vivera muito confortavelmente partilhando
os seus salários com a índia, pois naturalmente os pintores não lhe pa­
gavam por posar. A rapariga índia dividia alegremente o tempo entre os
80 Katherine Anne Porter

pintores , a panela e a cama dele , e conseguira ter um bebé sem inter­


romper qualquer uma destas ocupações durante mais de alguns dias .
Mais tarde seria reclamada por um dos pintores mais famosos e bem­
-sucedidos , tornando-se muito sofisticada, uma "personagem" , mas ,
nessa altura, ainda era simples e simpática. Passaria, tempos depois , a
usar jóias indígenas e a representar danças nativas vestida a rigor, e
aprenderia a pintar quase tão bem como uma criança de sete anos; "sa­
be como é" , dizia ele , "o estilo primitivo" . Bem, por essa altura, ele
tinha os seus próprios problemas . Quando chegou a altura de Miriam
deixar Minneapolis e casar com ele - todo o atraso , perceberia depois ,
fora causado pelas noções expansivas que ela tinha acerca do que deve­
ria ser um vestido de noiva - , a índia já se tinha ido embora muito
contente , demasiado contente na verdade , com outro homem. Regres­
sara três dias depois para lhe dizer que finalmente ia casar-se honesta­
mente e que achava que ele deveria dar-lhe a mobília, como dote . Ele
ajudara-a a empilhar as coisas nas costas de dois transportadores índios
e a rapariga fora embora com a cabeça do bebé a baloiçar do xaile dela.
Por um mero momento , ao ver o rosto do bebé , teve uma sensação es­
tranha. "Ê meu" , disse de si para si, acrescentando logo: "talvez ." Não
havia como saber e era certo que se parecia com qualquer outro peque­
no bebé índio de cabelo espetado . Obviamente , a rapariga nunca se
casara; isso nem lhe tinha passado pela cabeça.
Quando Miriam chegara, a casa estava quase vazia , pois ele não
fora capaz de poupar nem um peso . Tinha uma cama e um fogão , as
paredes decoradas com desenhos e pinturas dos seus amigos mexica­
nos , e uma acumulação de cabaças pintadas , madeira esculpida e lou­
ças de cerâmica em cores bonitas . Não lhe parecia assim tão mal , mas
o rosto de Miriam , ao entrar no primeiro quarto , foi , tinha de o reco­
nhecer, basicamente de crítica . Ela tinha dito muito pouco , mas come­
çara a ficar insatisfeita com várias coisas . Durante as primeiras sema­
nas , chorava intermitentemente pelos motivos mais misteriosos e
rebuscado s . Ele acordava a meio da noite e encontrava-a a chorar em
grande desespero . Quando se sentava para tomar café de manhã, en­
costava a cabeça às mãos e chorava. "Não é nada , nada de especial" ,
dizia-lhe . "Não sei qual é o problema. Só me apetece chorar." Ele
agora já sabia qual era o problema. Ela tinha feito todo aquele caminho
para se casar, ao fim de três anos de planeamento , e não se imaginava
a voltar para casa e enfrentar as consequências . Aquele estado de es­
pírito não durara, mas transformara a lua-de-mel num fracasso bastan­
te tristonho . Ela nada sabia acerca da rapariga índia e acreditava, ou
A Torre Inclinada e Outros Contos 81

professava acreditar, que ele era tão virgem quanto ela quando se ca­
saram . Dado que não era muito curiosa e tinha uma moralidade severa,
tomava-se impossível que ele lhe falasse acerca do seu passado . Ela
limitava-se a tomar por garantido , da forma mais irritante possível ,
que ele não tinha um passado que valesse a pena referir, excepto os
três anos do seu noivado e esses , como é evidente , eles já partilhavam .
Ele julgava que todas as virgens , por mais austero que fosse o seu
comportamento , palpitavam por aprender as coisas da vida, que peri­
clitavam como que seguras por uma pestana até chegarem sãs e salvas
à iniciação dentro das vantagens seguras mas libertinas do casamento .
Miriam abalava esta teoria tal como viria, a seu tempo , a abalar a
maioria das suas teorias . A sua intenção de representar o papel de um
homem experiente a educar uma noiva inocente mas interessantemen­
te ensinável foi cortada pela raiz . Ela não era ensinável de modo algum
e não se dava ao menor trabalho para se tomar interessante . Nas horas
de maior intimidade , a mente dela parecia ficar noutro sítio , ausentar­
-se para alguma escuridão só sua , como se um volume de conhecimen­
to anterior e muito mais importante lhe reclamasse a atenção . Não
seria conquistada, por motivos que só a si pertenciam e que não que­
reria ou poderia partilhar. Ele nem podia representar o papel de um
poeta. A sua poesia não lhe interessava . Ela preferia Milton e dizia­
-lho . Também lhe dizia que acreditava que o sacrifício mútuo da vir­
gindade era o acto mais importante do casamento deles e, atingido
esse ritual sagrado , tudo aquilo tinha descido para um plano bastante
baixo . Ela tinha uma expressão terrível acerca de "caminhar na linha
de giz" , que aplicava a todo o género de situações . Caminhava-se ,
como nunca antes , na linha de giz do casamento; parecia haver uma
linha de giz traçada entre eles quando se deitavam juntos . . .
A coisa que finalmente o deitou abaixo foi a inconsistência demo­
níaca de Miriam. Tinha passado três anos mortais a escrever-lhe que a
sua vida era enfadonha, horrível e corriqueira, que estava farta e can­
sada de convenções e divertimentos pequenos e mesquinho s , que toda
a gente que a rodeava era tacanha, que ansiava por viver num lindo
sítio perigoso , entre gente interessante que pintasse e escrevesse poe­
sia, e que as cartas dele chegavam ao seu pequeno mundo abafado
como uma lufada de ar da montanha, tudo isso . "Por amor de Deus" ,
disse ele ao seu convidado , "vamos tomar mais um copo ." Bem, ele
construíra uma certa ideia de ir libertar uma avezinha delicada de uma
gaiola. Livre , haveria de se empoleirar com gratidão na sua mão . Es­
creveu um poema acerca de um pássaro engaiolado libertado , dedicou-
82 Katherine Anne Porter

-lho e enviou-lhe uma cópia. Ela esqueceu-se de o mencionar na carta


que lhe enviara em seguida . Depois chegara com uma arca de noventa
quilos de roupas de cama e roupa interior de seda suficiente para durar
uma vida inteira, dava para imaginar, esperando instalar-se num apar­
tamento moderno com aquecimento de caldeira e receber jovens casais
airosos com tendências artísticas da colónia _norte-americana para
j antarem com eles às quartas-feiras . Não admirava que o seu rosto se
tivesse alterado com o primeiro vislumbre do seu novo lar. Os amigos
mexicanos dele tinham largado flores por todo o lado , amarrado ramos
de cravos às maçanetas das portas , praticamente alcatifado o chão com
rosas vermelhas , prendido amores-perfeitos em pequenos ramalhetes
nas cortinas de algodão descaídas , espalhado uma coberta de gardénias
sobre a cama irregular e desaparecido discretamente , deixando mensa­
gens alegres e tranquilizantes rabiscadas aqui e ali , até nas paredes de
gesso branco . . . Ela entrara com um vago olhar de terror, a afastar com
os pés as flores que iam murchando . Empurrou as gardénias para o
lado para se sentar à beira da cama e não dissera o que quer que fosse .
Salve , Hímen ! O que se seguiria?
Quase de imediato , ele tinha perdido o seu emprego de professor.
O ministro da Educação , que era um mecenas do superintendente da
escola, foi subitamente destituído , pelo que , como era natural , todas as
almas do seu partido , até aos zeladores da escola, foram de arrasto com
ele , e pronto . Passado algum tempo , aprende-se a aceitar coisas dessas
com calma . Espera-se que o nosso homem volte a estar na mó de cima
ou forja-se uma aliança com o novo . . . Sej a como for . . . Entretanto , a
mudança e movimento proporcionavam um espectáculo tão bom que
quase nos esquecíamos do efeito que tinham no fornecimento da nossa
comida. Mas Miriam não se interessava por política, nem pelo movi­
mento da história local . Não via o que quer que fosse , excepto que ele
tinha ficado sem emprego . Viviam das poupanças dela, complementa­
das com os cheques que o pai enviava pelos aniversários e pelo Natal ,
ameaçando constantemente ir visitá-los , apesar das cartas desespera­
das que ela enviava, avisando-o de que o país era pavoroso e de que o
clima decerto lhe daria cabo da saúde . Miriam continuava a apertar o
nariz quando ia aos mercados , a tentar preparar comidas saudáveis ,
civilizadas e norte-americanas sobre um grelhador a carvão e a lavar a
roupa no pátio , num tanque de pedra com uma torneira de água fria; e
tudo o que parecera tão agradável , natural e económico com a rapariga
índia era demasiado nocivo e custoso para Miriam . O dinheiro dela
evaporava-se e eles não obtinham nada em troca.
A Torre Inclinada e Outros Contos 83

Ela não queria uma criada índia perto de si: eram porcas e, para
mais , como poderia ela pagar-lhes? Ele não percebia porque ela des­
prezava e se ressentia tanto das tarefas domésticas , sobretudo tendo em
conta que ele se oferecia para a ajudar. Achara bastante divertido lavar
ao sol uma data de peças de cerâmica coloridas , com a buganvília a
trepar pela parede e o ailanto em flor. Miriam , não . Ela desdenhara-o
por ter achado aquilo divertido . Ele tinha-se lembrado , pela primeira
vez , da sua mãe a tratar da casa quando era pequeno . Com uma meia
dúzia de filhos de idades variadas , o trabalho dela era árduo e intermi­
nável , mas executava-o com uma certeza tranquila, um ar compenetra­
do e satisfeito , como se as suas mãos trabalhassem automaticamente
enquanto a imaginação brincava noutro sítio . "Ah , a tua mãe" , disse a
sua mulher, sem qualquer ênfase particular. Ele sentira-se terrivelmen­
te magoado , como se ela estivesse a insultar-lhe a mãe e a rogar-lhe
uma praga por ter trazido tal filho ao mundo . Não havia dúvida , Mi­
riam tinha força. Era capaz de fazer a sua personalidade , que ninguém
precisava realmente de respeitar, ser sentida de uma forma amarga e
sinistra. Tinha um passado , terra sólida debaixo dos pés , um ponto de
vista e uma coluna forte: mesmo quando dançava consigo , ele sentia­
-lhe as ancas tensas e controladas , os joelhos bloqueados , o que ofere­
cia à sua maneira de dançar uma força e uma ligeireza atraente , sem
qualquer cedência. Tinha os seus atributos , sim senhor, como um bom
cavalo , mas não chegara a ser bela. Isso não fazia parte dela. Ele co­
meçava a ranger os dentes quando ela o recordava de que , fosse ele um
inválido , ela com todo o gosto trabalharia para ele e cuidaria dele , mas
que , parecendo completamente saudável , nem sequer procurava em­
prego e continuava a escrever aquela poesia, o que era a última gota.
Chamava-lhe falhado . Chamava-lhe imprestável , volúvel , insignifi­
cante e infiel . Mostrava-lhe as mãos estragadas e perguntava-lhe o que
poderia ela esperar e dizia-lhe , vezes sem conta , que não estava habi­
tuada a privar com as pessoas selvagens , horrorosas e simplesmente
indescritíveis que passavam a vida a aparecer lá em casa. Mais , não
tinha a mínima intenção de se habituar. Ele tentava dizer-lhe que aque­
las pessoas eram os melhores pintore s , poetas e por aí fora do México ,
que ela deveria tentar dar-lhes valor; que eram os artistas de quem ele
lhe falara nas suas cartas . Ela queria saber por que razão Carlos nunca
mudava de camisa. "Eu dizia-lhe" , contou o jornalista, "que provavel­
mente era por não ter outra." E porque seria Jaime tão glutão , a
debruçar-se sobre o prato e a devorar a comida? Porque estava esfo­
meado , sem dúvida . Era precisamente isso que ela não conseguia en-
84 Katherine Anne Porter

tender. Porque não iam trabalhar e ganhar a vida? De nada servia


tentar explicar-lhe as noções franciscanas de sagrada Pobreza como
sendo a companhia natural do artista. Ela replicava: "Então tu achas
que são pobres de propósito? Só tu poderias ser tão tolo ." A sério , as
coisas que aquela rapariga dizia . E a impressão geral que ele tinha era
que ela era silenciosa como um gato . Ele tinha continuado , à sua ma­
neira irónica, a tentar fazê-la perceber a sua fé mística naqueles ho­
mens que andavam andrajosos e famintos porque tinham feito uma
escolha, de uma vez por todas , entre aquilo a que ele chamava, com
toda a seriedade , as suas almas e aquele mundo . Miriam era mais as­
tuta . Ela achava que eles estavam à espera da grande oportunidade .
"Ela estava abominável e obscenamente certa. Como detesto aquela
mulher, detesto-a como não detesto mais ninguém . Ela garantia-me
que eles não eram tão estúpidos como eu julgava; e cheguei a ver Jai­
me a amancebar-se com uma mulher mais velha e rica, Ricardo a de­
cidir tomar-se actor de filmes e Carlos a ter uma vida confortável com
um emprego governamental , a pintar frescos revolucionários por enco­
menda, e perguntava-me a mim mesmo : Porque não há-de um homem
sobreviver de qualquer maneira ao seu alcance?" Porém , havia um
sentimento fixo em si que se recusava a ser convencido , tinha um saco
cheio de noções românticas acerca de artistas e do destino destes , e
ficara sozinho com essas convicções . Miriam tirara-lhes a pinta com
um olhar de relance , e como desejava ele ter engendrado um truque
para a impressionar e deixar acabada. Mas não engendrara. À vez ,
todos eles o tinham desertado e , no final , também ele desertara. "Por
isso , está a ver, não me sinto melhor por ter feito o que acabei por fa­
zer, mas posso dizer que não sou invulgar. Isso posso dizer. O proble­
ma era que Miriam tinha razão , maldita fosse . Não sou um poeta , a
minha poesia é nojenta, e eu tinha noções acerca de artistas que só
posso ter tirado de livros . . . Sabe , uma raça distinta, homens dedicados
muito superiores às comuns necessidades e ambições humanas . . . Que­
ro dizer, eu julgava que a arte era uma religião . . . Quero dizer que ,
quando Miriam continuava a afirmar . . . "
O que ele queria dizer era que todo aquele conflito começara a
afectá-lo seriamente . Miriam tomara-se uma fúria vingativa, mas ele
não podia condená-la. Odiá-la, sim , isso era quase fácil de mais . A sua
ascendência e formação antiquadas , norte-americanas , de classe média
laboriosa, elevavam-se dentro de si e combatiam do lado de Miriam .
Ele sentia que quebrara todos os ossos do corpo para se afastar delas e
abafá-las , e ali fora conquistado por fim e espancado até uma resigna-
A Torre Inclinada e Outros Contos 85

ção que nada tinha que ver com a sua mente ou com o seu coração . Era
como se a sua própria corrente sanguínea o tivesse atraiçoado . A pers­
pectiva de aceitar um emprego e ser um funcionário insignificante e
decente , de calças e cotovelos puídos - pois não era capaz de imagi­
nar um emprego noutros termos - parecia-lhe uma espécie de morte
prematura que não o compensaria sequer com perda de memória. Não
decidiu o que quer que fosse quanto a isso . Foi fazendo biscates e re­
cebendo algum dinheiro , mas nunca o suficiente . Compreendia a posi­
ção dela , pelo menos esforçava-se muito por compreendê-la . Quando
chegava a hora do confronto , ele não tinha um único argumento con­
vincente a favor do seu modo de vida. Vinha a tentar viver e pensar de
uma maneira que esperava que acabasse por transformá-lo num poeta,
mas isso não dera resultado . Isso era , em traços gerais , o que importa­
va. Por isso , apenas poderia ter avançado para algum final inimagina­
velmente sórdido se Miriam , ao fim de quatro anos ; quatro anos ? , sim ,
santo Deus , quatro anos , um mês e onze dias , não tivesse escrito para
casa a pedir dinheiro , empacotado o que restava dos seus pertences ,
despedindo-se com alguns insultos , e partido . Havia tanto tempo que
ela tinha aquele ar desleixado , esquálido e selvagem que ele já nem se
lembrava de alguma vez a ter visto de outra maneira mas , de repente ,
o perfil dela junto à porta parecera-lhe irreconhecível .
Assim, Miriam partira e fizera-lhe um grande favor, sem o saber.
Ele tinha caído no hábito cobarde de pensar que o casamento deles era
permanente , por mais perverso que pudesse ser, que se amavam um ao
outro , que por isso não importava que crueldades pudessem cometer
um contra o outro , e desenvolvera uma verdadeira surdez contra as
palavras dela. Era incapaz , perto do fim, de a ver ou ouvir. Apercebera­
-se disso depois , quando frases e expressões dos seus olhos e boca, ao
serem recordadas , começaram a consumir-lhe a medula. Sentia-se
grato a ela. Se não se tivesse ido embora, ele poderia ter continuado a
mandriar, a perder o tempo tentando escrever poesia, a frequentar pe­
quenos cafés sujos e pitorescos com um novo conjunto de jovens me­
xicanos bem-falantes e carenciados , que pintariam , escreveriam ou
falariam de se prepararem para pintar ou escrever. A sua fé renovara-se
por si mesma; aqueles tipos eram artistas puros - nunca se vende­
riam . Também não eram vadios , de forma alguma . Dedicavam todo o
tempo a algo que tinha que ver com a Arte . "Arte Sagrada" , disse ele ,
"os nossos copos estão outra vez vazios ."
Mas fosse-se lá tentar dizer algo do género a Miriam . De alguma
forma, ele nunca conseguira chegar àquela árvore à sombra da qual
86 Katherine Anne Porter

tencionava deitar-se . Mesmo que o tivesse conseguido , sem dúvida


alguém teria aparecido para cobrar renda pelo espaço . Passara um bom
tempo deitado debaixo de mesas do Dinty Moore 's ou do B lack Cat ,
com u m grupo de americanos como ele , que viviam uma vida livre e
estudavam os costumes nativos . Estava a ensaiar, explicava a Miriam ,
esperando que por uma vez ela percebesse uma piada, para se deitar à
sombra de uma árvore mais tarde . Não resultou . Ela mais depressa
morreria com as botas calçadas do que sorriria em resposta àquilo .
Então . . . Ele dedicara-se a uma carreira da forma mais colossal possí­
vel . Fora fácil . Já mal conseguia dizer quais teriam sido os primeiros
passos , mas fora fácil . Não fosse por Miriam , seria um terrível fracas­
so , como aqueles vagabundos no Dinty Moore 's , todos eles ainda a
rebolar debaixo das mesas , a estudar os costumes nativos . Ele lançara­
-se a uma carreira de jornalismo e transformara-a numa coisa boa . Era
um especialista reconhecido em revoluções de vinte e tantos países
latino-americanos , e calhava que as suas tendências se adequavam
exactamente às revistas caras de pendor humanitário e liberal que o
remuneravam bem por falar ao mundo dos povos oprimidos . E era
mesmo capaz de escrever; se lhe era permitido dizê-lo acerca de si
mesmo , tinha um estilo de prosa único . Criara o género de sucesso que
se recorta de jornais e cola num álbum , que se conta e guarda no ban­
co , que se come , bebe e veste , e que se vê nos olhos das outras pessoas
em chás e jantares . Muito bem , então e agora? Com a força de tudo
isso , casara de novo . Duas veze s , na verdade , e divorciara-se outras
duas . Isso fazia trê s , não era? Já era bastante . Despendera uma boa
quantidade de tempo e de energia a fazer todo o género de coisas que
não lhe interessavam minimamente para provar à primeira mulher, que
fora uma professora de vinte e três anos em Minneapolis , no estado do
Minnesota, que não era apenas um vagabundo , que não servia apenas
para se deitar à sombra de uma árvore - se tivesse conseguido encon­
trar aquela árvore ideal que via na sua mente - a escrever poesia e a
gozar a vida.
Agora fizera-o . Alisou a carta que tinha estado a virar e a revirar e
afagou-a como se de um gato se tratasse . Disse: "Tenho estado a avan­
çar em direcção ao clímax durante todo este tempo . Sabe como é , a
velha técnica da surpresa. Agora, bom , prepare-se ."
Miriam tinha-lhe escrito , passados aqueles cinco anos , pedindo-lhe
que a aceitasse de volta . E, dava para acreditar? , ele ia ceder e fazer
precisamente isso . O pai dela morrera, ela estava terrivelmente só, ti­
vera tempo para repensar tudo , julgava-se culpada de muitas coisas ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 87

amava-o deveras e sempre o amara, na verdade; lamentava, oh , tudo ,


e esperava que não fosse demasiado tarde para voltarem a ter uma vida
feliz juntos . . . Lera tudo o que conseguira encontrar que ele tivesse
escrito e publicado , e adorava. Nessa mesma manhã , ele enviara por
telégrafo o dinheiro para a viagem dela e ia aceitá-la. Ela voltaria a
viver numa casa mexicana sem quaisquer mordomias e não teria um
apartamento moderno . Ia aceitar o que quer que ele decidisse dar-lhe ,
e gostar disso . E ele também não ia voltar a casar com ela. Ele , não . Se
ela quisesse viver com ele sob essas condições , pois muito bem . Se
não , que voltasse de novo para a sua escola de Minneapoli s . Caso fi­
casse , caminharia sobre uma linha de giz , ah poi s , uma linha que não
fora ela a traçar. Ele agarrou numa faca de queijo e gravou uma linha
longa e profunda na toalha de xadrez . Ela ia, podia acreditar, equilibrar­
-se naquilo .
Os ponteiros do relógio marcavam duas e meia. O jornalista engoliu
o que lhe restava da bebida e continuou a desenhar cruzes na toalha
com uma mão descontraída. O convidado tinha vontade de dizer: "Não
se esqueça de me convidar para o seu casamento" , mas reconsiderou .
O jornalista ergueu as pálpebras trémulas e voltou os olhos parcial­
mente focados na sombra à sua frente e disse: "Suponho que pense que
eu não sei . . . "
O convidado passou para a beira da cadeira e observou a orquestra
a terminar por aquela noite . O café estava quase vazio . O jornalista fez
uma pausa, não para obter resposta , mas para dar peso à declaração
importante que estava prestes a fazer.
"Que eu não sei o que vai acontecer, desta vez" , disse ele , "não se
engane . Desta vez , eu sei ." Parecia estar a admoestar-se diante de um
espelho .
O Abandono da Avó Weatherall

Com um gesto ágil , ela libertou o pulso dos dedos rechonchudos e


cuidadosos do Dr. Harry e puxou o lençol até ao queixo . A peste devia
usar calções pelos joelho s . A dar consultas pelo campo com óculos
empoleirados na ponta do nariz ! "Vá lá, pegue nos livros da escola e
ponha-se a andar. Eu cá não tenho nada ."
O Dr. Harry pousou-lhe uma pata morna como uma almofada na
testa , onde a veia bifurcada e verde dançava, provocando-lhe um
tremor nas pálpebras . "Bom, bom , porte-se bem e vai ficar a pé não
tarda."
"Isso não é forma de falar com uma mulher quase com oitenta anos
só porque está em baixo . Vou ensiná-lo a respeitar os mais velhos , meu
rapaz ."
"Bem, Missy, queira desculpar-me ." O Dr. Harry tocou-lhe ao de
leve na face . "Mas tenho de a avisar, não tenho? É uma maravilha, mas
tem de ter cuidado , ou vai ficar bem arrependida ."
"Não me diga o que é que eu vou ficar. Já estou levantada, em ter­
mos morais . É a Cornelia . Tive de me deitar para me livrar dela."
Ela sentia os ossos soltos e a flutuar-lhe na pele , e o Dr. Harry flu­
tuava como um balão aos pés da cama . Flutuava e puxava o colete e
abanava os óculos presos por um cordel . "Bem , deixe-se ficar onde
está, isso de certeza que não vai fazer-lhe mal ."
"Vá andando e cuide dos seus doentes" , disse a Avó Weatheral l .
"Deixe uma mulher que está bem e m paz . E u chamo-o quando quiser
que venha . . . Onde é que estava há quarenta anos quando eu me livrei
da flebite e da pneumonia dupla? Nem sequer tinha nascido . Não dei­
xe que a Cornelia a engane" , gritou , porque o Dr. Harry se preparava
para flutuar até ao tecto e sair por ali . "Eu pago as minhas próprias
contas e não desperdiço o meu dinheiro em disparates ! "
A Torre Inclinada e Outros Contos 89

Ela queria fazer um aceno de despedida, mas isso dava demasiado


trabalho . Os seus olhos fecharam-se por si mesmo s , era como uma
cortina escura corrida à volta da cama. A almofada levantou-se e flu­
tuou por baixo dela, agradável como uma cama de rede com uma brisa
ligeira . Ficou a ouvir as folhas que roçagavam do lado de fora da jane­
la. Não , alguém estava a mexer em jornais; não , Comelia e o Dr. Har­
ry estavam a cochichar. Sobressaltada, despertou por completo , pen­
sando que lhe sussurravam ao ouvido .
"Ela nunca foi assim , nunca foi assim ! " "Bem, o que podemos es­
perar?" "Sim, oitenta anos . . . "
Bem, e se os tinha? Continuava a ter ouvidos . Era mesmo típico de
Comelia pôr-se a sussurrar atrás de portas . Guardava sempre os segre­
dos de uma forma tão pública . . . Estava sempre a ser delicada e amá­
vel . Comelia era zelosa; era esse o seu problema. Zelosa e boa: "Tão
boa e zelosa" , disse a Avó , "que gostaria de lhe dar uns açoites ." Ima­
ginou-se a açoitar Comelia e a fazê-lo muito bem .
"O que disse , Mãe?"
A Avó sentiu o rosto a contrair-se numa série de nódulos duro s .
"Uma pessoa já não pode pensar, gostava d e saber?"
"Julguei que poderia querer alguma coisa."
"Quero . Quero muitas coisas . Em primeiro lugar, que te vás embora
e não bichanes ."
Deitou-se e dormitou , esperando no seu sono que os filhos se man­
tivessem longe e a deixassem descansar um pouco . Tinha sido um dia
comprido . Não que ela estivesse cansada. Era sempre agradável repou­
sar um minuto de vez em quando . Havia sempre tanto que fazer, dei­
xem-me ver: amanhã.
Amanhã estava muito longe e não havia nada por que valesse a pena
preocupar-se . De alguma maneira , as coisas ficavam terminadas quan­
do chegava a altura; graças a Deus havia sempre alguma margem para
paz ; assim uma pessoa podia espalhar o mapa da vida e prender ordei­
ramente as pontas . Era bom ter tudo limpo e guardado , com as escovas
e os frascos de tónicos direitos sobre o linho branco bordado: o dia
começava sem confusões e nas prateleiras da dispensa dispunham-se
filas de copos de vidro grosso , canecas castanhas e boiões de louça
branca com espirais azuis e palavras pintadas : café , chá, açúcar, gen­
gibre , canela , pimenta-da-jamaica: e o relógio de bronze com o leão
em cima bem limpo . O pó que aquele leão acumulava em vinte e qua­
tro horas ! A caixa no sótão com todas aquelas cartas amarradas , bem ,
teria de tratar disso amanhã . Aquelas cartas todas - cartas de George
90 Katherine Anne Porter

e cartas de John e cartas suas para eles os dois - ali deixadas para que
os filhos as encontrassem depois faziam-na sentir-se pouco à vontade .
Sim, isso seria o trabalho de amanhã. De nada serviria permitir que
soubessem como fora tola em tempos .
Nos seus devaneios , deparou-se com a morte na sua mente , que lhe
pareceu pegajosa e desconhecida . Tinha passado tanto tempo a prepa­
rar-se para a morte que não havia necessidade de tomar a tocar no as­
sunto . Isso que cuidasse de si mesmo agora. Aos sessenta anos , sentira­
-se muito velha, acabada, e andara a fazer viagens de despedida para
ver os filhos e os netos , com um segredo na mente: É a última vez que
vêem a vossa mãe , filhos ! Depois tratara do testamento e adoecera com
uma febre prolongada. Isso era apenas uma noção , como muitas outras
coisas , mas também uma sorte, pois , de uma vez por todas , superara a
ideia de morrer durante muito tempo . Agora não conseguia preocupar­
-se . Esperava ter ganhado mais juízo . O pai vivera até aos cento e dois
anos e bebera uma caneca bem cheia de um grogue quente e forte no
seu último aniversário . Tinha dito aos repórteres que era o seu hábito
diário e que a isso devia a longa vida. Causara um grande escândalo e
ficara bastante satisfeito por isso . Ela lembrou-se de atormentar Come­
lia um pouco .
"Comelia ! Comelia ! " Não ouviu passos , mas de súbito tinha uma
mão no rosto . "Benza-te Deus , onde tens estado?"
"Aqui , Mãe ."
"Bem, Comelia, quero uma caneca de grogue quente ."
"Tem frio , querida?"
"Estou gelada, Comelia . Estar deitada na cama pára a circulação . Já
te devo ter dito isso umas mil vezes ."
Bem, já ouvia Comelia a dizer ao marido que a Mãe estava a ficar
um pouco infantil e que teriam de lhe fazer a vontade . O que mais a
irritava era que Comelia achasse que ela era surda, muda e cega. Pe­
quenos olhares de relance e mínimos gestos lançados à sua volta e por
cima da sua cabeça, a dizer, "Não a contraries , deixa-a fazer as coisas
à sua maneira, tem oitenta anos" , e ela ali deitada como se vivesse
numa redoma de vidro fino . Por vezes , a Avó quase se decidia a fazer
as malas e mudar-se para a sua própria casa, onde ninguém a recorda­
ria , a toda a hora , de que ela era velha . Espera, espera só, Comelia, até
os teus próprios filhos começarem a sussurrar nas tuas costas !
No seu tempo , cuidava melhor da casa e despachava mais trabalho .
Ainda não era demasiado velha para que Lydia percorresse cento e
trinta quilómetros de carro para lhe pedir conselhos quando um dos
A Torre Inclinada e Outros Contos 91

filhos saía dos eixos , e Jimmy ainda a visitava e discutia as coisas com
ela: "Então , Mamã , tem uma boa cabeça para o negócio e eu gostava
de saber o que pensa disto? . . . " Velha. Comelia não podia mudar a
mobília de sítio sem pedir que o fizessem por si . Pequenas coisas ,
pequenas coisas ! Eram tão queridos quando eram pequenos . A Avó
desejava que os velhos tempos regressassem , com os filhos pequenos
e tudo para ser feito de novo . Fora um caminho árduo , mas não em
demasia para si . Quando pensava em toda a comida que tinha cozinha­
do , todas as roupas que tinha cortado e cosido , e em todos os j ardins
que tinha feito - bem , isso via-se nos filho s . Ali estavam eles , feitos
de s i , e não poderiam fugir disso . Por vezes queria voltar a ver John ,
apontar para eles e perguntar: Bem, não me saí assim tão mal , pois
não? Mas isso teria de esperar. Isso seria amanhã. Ela costumava pen­
sar nele como um homem , mas agora todos os filhos eram mais velhos
do que o pai e este seria uma criança a seu lado se ela o visse . Parecia
estranho e havia algo de errado nessa ideia. Ora , não era possível que
ele a reconhecesse . Certa vez ela cercara um terreno de quarenta hec­
tares , escavando ela mesma os buracos para os postes e prendendo o
arame apenas com a ajuda de um rapazinho negro . Isso mudava uma
mulher. John estaria à procura de uma jovem com a travessa espetada
no cabelo e o leque pintado na mão . Cavar buracos para postes muda­
va uma mulher. Cavalgar por estradas rurais no Inverno quando as
mulheres tinham bebés era outra coisa; passar noites com cavalos
doentes , negros doentes e crianças doentes , e praticamente sem perder
nenhum. John , praticamente nunca perdi um deles ! John perceberia
isso num instante , seria algo que ele compreenderia , ela não teria de
explicar o que quer que fosse !
Isso dava-lhe vontade de arregaçar as mangas e pôr tudo como devia
ser outra vez . Não importava que Comelia estivesse determinada a
estar em todo o lado ao mesmo tempo , havia muitas coisas por fazer
naquela casa. Começaria amanhã e iria fazê-las . Era bom termos força
suficiente para tudo , mesmo que tudo o que fizéssemos derretesse ,
mudasse e nos escorregasse das mão s , tanto que , quando chegávamos
ao fim , quase nos tínhamos esquecido do motivo por que estávamos a
trabalhar. O que tinha eu decidido fazer? , perguntava-se intensamente ,
mas não conseguia lembrar-se . Um nevoeiro erguia-se sobre o vale , ela
via-o a atravessar o riacho , a engolir as árvores e a avançar colina
acima , como um exército de fantasmas . Em breve chegaria à beira do
pomar e depois estaria na altura de ir para dentro e acender as lampa­
rinas . Venham , crianças , não fiquem aí fora com o ar da noite .
92 Katherine Anne Porter

Acender as lamparinas era belíssimo . Os filhos rodeavam-na e res­


piravam como pequenos bezerros à espera junto à cerca no crepúsculo .
Os olhos deles seguiam o fósforo , observavam a chama a erguer-se e
a estabilizar numa curva azul ; depois afastavam-se dela. A lamparina
estava acesa, já não precisavam de ter medo e de se agarrar à mãe .
Nunca, nunca, nunca mais . Meu Deus , por toda a minha vida , agrade­
ço-Te . Sem Ti , meu Deus , nunca teria conseguido . Ave , Maria, cheia
de graça.
Quero que apanhes toda a fruta este ano e garantas que nada se des­
perdiça. Há sempre alguém que pode usá-la. Não deixes que coisas
boas apodreçam por falta de uso . Desperdiçamos a vida quando des­
perdiçamos boa comida . Não deixes que as coisas se percam. É triste
perder coisas . Agora, não me deixes começar a pensar, agora que estou
cansada e vou dormir uma pequena sesta antes da ceia . . .
A almofada levantou-se por cima dos seus ombros e pressionou­
-lhe o coração , e era a memória que estava a ser-lhe espremida: oh ,
alguém que empurre a almofada; sufocá-la-ia se ela tentas se segurá­
-la. Uma brisa tão fresca a soprar e um dia tão verde , sem quaisquer
ameaças contidas . Não obstante , ele não viera . O que faz uma mulher
quando pôs o véu branco e pousou o bolo branco para um homem e
ele não aparece? Ela tentou lembrar-se . Não , juro que nunca me ma­
goou , excepto dessa vez . Nunca me magoou , excepto dessa . . . e se o
fez? Ali estava o dia , o dia, mas um turbilhão de fumo escuro erguia­
-se e cobria-o , insinuava-se e tapava o campo brilhante onde tudo
estava plantado com tanto cuidado em fiadas ordeiras . Isso era o in­
ferno , ela reconhecia o inferno quando o via. Durante sessenta anos ,
tinha rezado para não o lembrar e para não perder a alma no poço
profundo do inferno , e agora as duas coisas fundiam-se numa só e a
ideia dele era uma nuvem fumarenta do inferno que avançava e se
insinuava na sua cabeça quando ela acabara de se livrar do Dr. Harry
e estava a tentar repousar por um minuto . Vaidade magoada, Ellen ,
disse uma voz aguda no alto da sua cabeça . Não deixes que a vaida­
de magoada te leve a melhor. Muitas raparigas são abandonadas .
Foste abandonada, não foste? Então faz frente a isso . As suas pálpe­
bras estremeceram e deixaram entrar feixes de luz azul-acinzentada
como papel de seda sobre os olhos . Tinha de se levantar e baixar as
persianas ou nunca conseguiria dormir. Estava outra vez na cama e
as persianas não tinham sido corridas . Como poderia isso acontecer?
Era melhor virar-se ao contrário , esconder-se da luz , dormir contra a
luz provocava pesadelos . "Mãe , como se sente agora?" e uma humi-
A Torre Inclinada e Outros Contos 93

dade ardente na sua testa . Mas eu não gosto de lavar a cara com água
fria !
Hapsy? George? Lydia? Jimmy ? Não , Cornelia, e as suas feições
estavam inchadas e cheias de pequenas poças . "Eles vêm aí, querida ,
não vão tardar a chegar." Vai lavar a cara , filha , estás com um ar
esquisito .
Em vez de obedecer, Comelia ajoelhou-se e pousou a cabeça na
almofada. Parecia estar a falar, mas não havia som . "Bem , tens a lín­
gua presa? Quem é que faz anos? Vais dar uma festa?"
A boca de Comelia mexia-se com urgência e apresentava formas
estranhas . "Não faças isso que me incomodas , filha ."
"Oh , não , Mãe . Oh , não . . . "
Que disparate . As crianças eram estranhas . Punham em causa tudo
o que se dissesse . "Não , o quê , Comelia?"
"Está aqui o Dr. Harry."
"Não quero ver esse rapaz outra vez . Ainda há cinco minutos se foi
embora."
"Isso foi de manhã, Mãe . Agora j á é de noite . Aqui está a enfermeira."
"Sou o Dr. Harry, Mrs . Weatherall . Nunca a tinha visto com um ar
tão jovem e feliz ! "
"Ah , nunca voltarei a ser jovem - mas ficaria feliz s e me deixas­
sem aqui deitada em paz e a descansar."
Pensava que tinha falado em voz alta , mas ninguém lhe respondeu .
Um peso morno na testa, uma pulseira morna no pulso e uma brisa que
continuava a sussurrar, a tentar dizer-lhe qualquer coisa. Um roçagar
de folhas na mão eterna de Deus , Ele soprava-as e elas dançavam e
agitavam-se . "Mãe , não te inquiete s , vamos dar-te uma pequena injec­
ção hipodérmica." "Olha lá, filha, como é que vieram parar formigas
aqui à cama? Ontem vi formigas ." Também chamaste a Hapsy ?
Era Hapsy que ela realmente queria. Tinha de recuar muito , através
de um grande número de quartos , para encontrar Hapsy de pé com um
bebé nos braços . Parecia-lhe que também ela era Hapsy, e que o bebé
nos braços de Hapsy era Hapsy e era ele mesmo e também era ela,
tudo em simultâneo , e não havia surpresa alguma no encontro . Depois
Hapsy derreteu a partir de dentro e tomou-se diáfana como gaze cin­
zenta e o bebé era uma sombra de gaze , e Hapsy aproximou-se e disse :
"Julgava que nunca viria" , e mirou-a com um olhar muito perscrutador
e comentou: "Não mudou nem um pouco ! " Inclinaram-se para se bei­
jar, quando Comelia começou a sussurrar, de muito longe : "Oh , há
alguma coisa que queira dizer-me? Posso fazer alguma coisa por si?"
94 Katherine Anne Porter

Sim, ela tinha mudado de ideias ao fim de sessenta anos e gostaria


de ver George . Quero que encontres o George . Encontra-o e vê se lhe
dizes que o esqueci . Quero que ele saiba que mesmo assim tive o meu
marido e os meus filhos e a minha casa, como qualquer outra mulher.
Uma boa casa e um bom marido que eu amava e belos filhos com ele .
Melhor do que esperava, até . Diz-lhe que me foi devolvido tudo aquilo
que ele me tirou e mais ainda. Oh , não , oh, Deus , não , havia mais qual­
quer coisa além da casa e do homem e dos filhos . Oh , certamente isso
não era tudo? O que seria? Algo que não me foi devolvido . . . A sua
respiração acumulava-se sob as costelas e crescia, transformando-se
numa figura monstruosa e assustadora com arestas cortantes ; subia-lhe
para dentro da cabeça e a agonia era inacreditável . Sim, John , chama o
médico agora, chega de conversa, chegou a minha hora.
Quando aquele nascesse , seria o último . O último . Deveria ter nas­
cido primeiro , pois era o que ela verdadeiramente queria. Tudo viera
em boa altura. Nada fora esquecido , deixado de fora. Ela era forte ,
dentro de três dias estaria como nova. Melhor. Uma mulher precisava
de ter leite para que a sua saúde fosse completa .
"Mãe , ouve-me?"
"Tenho estado a dizer-te . . . "
"Mãe , o padre Connolly está aqui ."
"Ainda na semana passada comunguei . Diz-lhe que não sou assim
tão pecaminosa."
"O padre só quer falar consigo ."
Ele podia falar tanto quanto quisesse . Era mesmo dele , aparecer e
perguntar pela sua alma como se de um bebé com os dentes a nascer
se tratasse, para em seguida se deixar ficar e tomar chá, jogar às cartas
e mexericar. Tinha sempre alguma história engraçada, regra geral acer.:.
ca de um irlandês que cometia os seus pequenos erros e os confessava ,
e a questão prendia-se com alguma coisa absurda que desabafava no
confessionário e que demonstrava a sua contenda entre a piedade nata
e o pecado original . A Avó sentia-se bem quanto à sua alma. Comelia,
onde estão os teus modos? Oferece uma cadeira ao padre Connolly.
Ela tinha um entendimento secreto e confortável com alguns santos
predilectos que lhe abriam um caminho directo para Deus . Tudo tão
certo e garantido como os documentos para a nova Forty Acres . Para
sempre . . . herdeiros e mandatários para sempre . Desde o dia em que o
bolo de casamento não fora cortado , mas antes mandado fora e desper­
diçado . Toda a parte inferior do mundo tinha caído e ali ficara ela,
cega e a suar, sem coisa alguma sob os pés e com as paredes a desmo-
A Torre Inclinada e Outros Contos 95

ronarem-se . A mão dele tinha-a apanhado sob o peito , ela não caíra, ali
estava o soalho recém-polido com o tapete verde , tal como antes . Ele
praguejara como o papagaio de um marinheiro e dissera: "Vou matá-lo
por ti ." Não lhe toques nem com um dedo , peço-te , deixa algo nas
mãos de Deus . "Bom, Ellen , tens de acreditar no que te digo . . . "
Portanto não havia nada, já nada havia com que se preocupar, ex­
cepto que às vezes à noite um dos filhos gritava com pesadelos , e
ambos acorriam , a tremer e à caça de fósforos , exclamando: "Pronto ,
espera um minuto , já cá estamos ! " John , vai buscar o médico agora,
chegou a altura de a Hapsy nascer. Mas ali estava Hapsy, à beira da
cama com uma touca branca. "Cornelia , diz à Hapsy que tire a touca.
Não consigo vê-la bem ."
Os seus olhos arregalaram-se e o quarto destacou-se como um qua­
dro que ela tinha visto nalgum sítio . Cores escuras com as sombras a
erguerem-se em direcção ao tecto em ângulos longos . A cómoda preta
e alta reluzia, sem nada além do retrato de John , aumentado a partir de
um mais pequeno , com os olhos de John muito pretos , quando deve­
riam ser azui s . Nunca o viu , por isso como sabe como ele era? Mas o
homem insistia que a cópia era perfeita , era muito trabalhada e bonita .
Para um retrato , sim , está muito bem , mas esse não é o meu marido . A
mesa-de-cabeceira tinha um naperão de linho , uma vela e um crucifi­
xo . A luz era azul por causa dos quebra-luzes de seda de Cornelia . Não
dava quase luz nenhuma, era só para enfeitar. Era preciso viver qua­
renta anos com lamparinas de querosene para dar valor a electricidade
decente . Sentia-se muito forte e viu o Dr. Harry com uma auréola ro­
sada em redor.
"Parece um santo , Dr. Harry, e garanto que é o mais próximo disso
que vai chegar."
"Ela está a dizer qualquer coisa."
"Eu ouvi-te , Cornelia . Que disparate é este?"
"O padre Connolly está a dizer . . . "
A voz de Cornelia engasgou-se e vacilou como uma carroça numa
estrada em mau estado . Andava em círculos , recuava e não chegava a
lugar algum . A Avó subiu para a carroça, com muita leveza, e tentou
pegar nas rédeas , mas ia um homem sentado a seu lado e ela reco­
nheceu-o pelas mãos, a conduzir a carroça . Não lhe olhou para a cara,
pois sabia sem ver, mas em vez disso olhou para o fundo da estrada,
onde as árvores se inclinavam e faziam vénias umas às outras e um
milhar de pássaros cantava uma missa. Também tinha vontade de can­
tar, mas pousou a mão no peitilho do vestido e puxou um rosário , e o
96 Katherine Anne Porter

padre Connolly murmurava em latim numa voz muito solene e fazia­


-lhe cócegas nos pés . Meu Deus , será que pode parar com esse dispa­
rate? Sou uma mulher casada . Que importa que ele tenha fugido e me
tenha deixado a enfrentar o padre sozinha? Descobri todo outro mundo
bem melhor. Não trocaria o meu marido por ninguém que não o pró­
prio São Miguel , e pode dizer-lhe isso por mim .e ainda acrescentar um
agradecimento .
Luzes faiscaram nas suas pálpebras fechadas e um rugido profundo
abanou-a. Comelia, é uma tempestade? Estou a ouvir trovões . Vem aí
uma tormenta. Fecha as janelas todas . Chama as crianças para dentro
de casa . . . "Mãe , estamos aqui , todos." " É s tu , Hapsy?" "Oh , não , sou
a Lydia. Conduzimos o mais depressa que podíamos ." Os rostos deles
pairavam por cima de si , afastavam-se . O rosário caiu-lhe das mãos e
Lydia voltou a dar-lho . Jimmy tentou ajudar, as mãos deles atrapalha­
vam-se , e a Avó cerrou dois dedos em tomo do polegar de Jimmy. As
contas não serviam , tinha de ser algo vivo . Estava tão espantada com
as voltas e voltas que os pensamentos davam . Então , meu querido
Senhor, esta é a minha morte e eu nem sequer estava a pensar nisso .
Os meus filhos vieram ver-me morrer. Mas não posso , não está na al­
tura . Oh , sempre detestei surpresas . Queria dar a Comelia o conjunto
de ametista - Comelia, o conjunto de ametista é para ti , mas deixa a
Hapsy usá-lo quando quiser e , Dr. Harry, por favor, cale-se . Ninguém
o chamou . Oh , meu querido Senhor, espera um minuto . Queria fazer
qualquer coisa em relação à Forty Acres , o Jimmy não precisa e a Ly­
dia há-de precisar, com aquele marido imprestável que tem . Queria
acabar o pano para o altar e enviar seis garrafas de vinho à soror Bor­
gia por causa da dispepsia dela. Quero mandar seis garrafas de vinho
à soror Borgia, padre Connolly, não me deixe esquecer.
A voz de Comelia dava pequenas curvas e inclinava-se e embatia .
"Oh , Mãe , oh , Mãe , oh , Mãe . . . "
"Não vou , Comelia. Fui apanhada de surpresa. Não posso ir."
Vais voltar a ver a Hapsy. O que é que ela tem? "Pensava que não
viria." A Avó fez uma longa viagem para fora , à procura de Hapsy.
E se eu não a encontrar? O que acontece então ? O seu coração afun­
dou-se , mais e mai s , não havia fundo para a morte , ela não conse­
guia chegar ao fim. A luz azul do quebra-luz de Cornelia concentrou­
-se num ponto minúsculo no centro do seu cérebro , vacilou e piscou
como um olho , calmamente ondeou e esmoreceu . A Avó ficou enros­
cada dentro de si mesma, maravilhada e atenta , a fitar o ponto de luz
que era ela mesma; o seu corpo era agora apenas uma massa mais
A Torre Inclinada e Outros Contos 97

profunda de sombra numa escuridão interminável e esta escuridão


haveria de se enrolar à volta da luz e engoli-la . Deus , dá um sinal !
Pela segunda vez , não houve sinal algum. De novo , nenhum noivo
e um padre na casa. Ela não se lembrava de mais nenhuma mágoa, pois
aquela dor eliminava-as todas . Oh , não , não há nada mais cruel do que
isto - nunca o perdoarei . Espreguiçou-se com uma respiração profun­
da e apagou a luz .
Judas em Flor

Braggioni encolhe-se na beira de uma cadeira de espaldar direito


demasiado pequena para si e canta a Laura numa voz velosa, melancó­
lica. Laura começou a arranjar motivos para evitar a sua própria casa
até ao último momento possível , pois Braggioni passa lá quase todas
as noites . Por mais tarde que ela chegue , ele estará ali sentado com
uma expressão tristonha, de espera , a puxar a carapinha loura, a dedi­
lhar as cordas da guitarra, a rosnar uma melodia entredentes . Lupe , a
criada índia, recebe Laura à porta e diz , com um relance mínimo para
a sala do andar de cima, "Ele espera ."
Laura deseja deitar-se , está farta dos ganchos de cabelo e da sensa­
ção das mangas compridas e justas , mas pergunta-lhe : "Tem uma
música nova para mim , hoje?" Se ele disser que sim , ela pede-lhe que
a cante . Se disser que não , ela recorda-se da preferida dele e pede-lhe
que volte a cantá-la. Lupe traz a Laura uma caneca de chocolate quen­
te e um prato de arroz , que ela come à pequena mesa sob o candeeiro ,
oferecendo primeiro a Braggioni , cuja resposta é sempre a mesma: "Já
comi e, além disso , o chocolate engrossa a voz ."
Laura diz : "Cante , então" , ao que B raggioni se atira à canção . Ar­
ranha a guitarra com a familiaridade com que poderia tratar um ani­
mal de estimação , e canta apaixonada e desafinadamente , elevando as
notas agudas a um guincho prolongado e doloroso . Laura , que bate
os mercados para ouvir os cantores de baladas , e que se detém todos
os dias na Sixteenth of September Street para escutar o rapaz cego
com a sua flauta de bambu , ouve Braggioni com uma cortesia impla­
cável , pois não se atreve a sorrir perante a representação miserável .
Ninguém s e atreve a sorrir-lhe . Braggioni é cruel para toda a gente ,
com uma forma de insolência especializada , mas é tão vaidoso dos
seus talentos , e tão sensível a desconsiderações , que seriam necessá-
A Torre Inclinada e Outros Contos 99

rias uma crueldade e uma vaidade maiores do que as dele para encos­
tar um dedo à ferida vasta e incurável da sua auto-estima . Também
seria necessária coragem , já que é perigoso ofendê-lo , e ninguém tem
essa coragem .
Braggioni ama-se com tamanha ternura, amplitude e caridade eterna
que os seus seguidores - pois ele é um líder, um revolucionário des­
tro , e a sua pele foi perfurada em combates honrados - se aquecem
no brilho reflectido e dizem uns aos outros: "Ele tem uma verdadeira
nobreza, um amor pela humanidade acima de meros afectos pessoais ."
O excesso deste amor próprio extravasou , inconvenientemente para
ela, sobre Laura, a qual , juntamente com tantos outros , lhe deve a si­
tuação confortável e o salário de que desfruta. Quando ele está de
muito bom humor, diz-lhe: "Sinto-me tentado a perdoar-lhe por ser
uma gringa . Gringita!" , e Laura, a arder, imagina-se a inclinar-se de
súbito para a frente e , com uma bofetada sólida com as costas da mão ,
a apagar-lhe o sorriso seboso da cara . Se ele repara nos seus olhos em
tais ocasiões , não dá qualquer sinal .
Ela sabe o que Braggioni lhe ofereceria e tem de resistir tenazmente
sem parecer que resiste , e , se pudesse evitá-lo , nem sequer perante si
mesma admitiria a deriva lenta da intenção dele . Durante aquelas noi­
tes longas que lhe têm estragado um mês longo , ela senta-se no seu
cadeirão fundo , com um livro aberto sobre os joelhos , repousando os
olhos na rigidez consoladora da palavra impressa quando a vista e o
som de Braggioni a cantar ameaçam identificar-se com todas as afli­
ções de que se recorda e acrescentar peso às suas desconfortáveis
premonições quanto ao futuro . O volume glutão de Braggioni tornou­
-se um símbolo das suas várias desilusões , pois um revolucionário
deveria ser magro , inspirado por fé heróica, um receptáculo de virtu­
des abstractas . Isto é um disparate , ela sabe-o e sente-se envergonhada.
A revolução precisa de líderes e a liderança é uma carreira para ho­
mens enérgicos . Ela está , dizem-lhe os camaradas , cheia de engano
romântico , pois o que define como cinismo para eles é somente "um
desenvolvido sentido da realidade" . Tem quase demasiada vontade de
responder: "Estou errada , suponho que não percebo realmente os prin­
cípios " , e depois faz uma trégua secreta consigo mesma, determinada
a não render o arbítrio a uma lógica tão expedita. Porém, é incapaz de
evitar a sensação de ter . sido irreparavelmente traída pela desunião
entre a sua forma de viver e a sua ideia do que deveria ser a vida , e por
vezes quase se satisfaz no repouso desta sensação de mágoa como uma
reserva privada de consolação . De vez em quando deseja fugir, mas
1 00 Katherine Anne Porter

permanece . Agora anseia por debandar daquela sala, correr escadas


estreitas abaixo , para a rua , onde as casas se encostam umas às outras ,
como conspiradores sob uma única lâmpada fosca, e deixar Braggioni
a cantar sozinho .
Em vez disso , olha para ele , franca e claramente , como uma boa filha
que entende as regras do comportamento . Tem os joelhos juntos sob
sarja azul de boa qualidade e não é propositado que a sua gola branca
arredondada faça lembrar a de uma freira. Usa o uniforme de uma ideia
e renunciou a vaidades . Nasceu no seio da religião católica romana e ,
apesar do seu receio de ser vista por alguém que possa alardear o facto ,
de vez em quando esgueira-se para alguma pequena igreja decrépita,
ajoelha-se na pedra gélida e diz uma ave-maria no rosário de ouro que
comprou em Tehuantepéc . De nada serve e acaba por examinar o altar,
com as suas flores de lata e brocados rasgados , sentindo ternura pela
gasta figura de boneco de algum santo cujas ceroulas brancas e renda­
das pendem à volta dos joelho s , sob a dignidade hierática das vestes de
veludo . Enquadrou-se num conjunto de princípios derivados da sua
formação inicial , sem deixar detalhes de gesto ou gosto pessoal intac­
tos , e por esse motivo não usa renda feita à máquina. Trata-se de uma
heresia privada, pois no grupo especial a que pertence a máquina é sa­
grada e será a salvação dos trabalhadores . Adora renda esmerada e há
um rebordo minúsculo de teia de aranha estriada naquela gola, que é
uma de vinte precisamente idênticas , guardadas em papel de seda azul
na gaveta de cima da sua cómoda da roupa.
Braggioni fita-a quando ela olha para ele como se estivesse à espera
disso , inclina-se para a frente , equilibrando a pança entre os joelhos
afastados , e canta com uma veemência tremenda, pesando as palavras .
Não tem, narra a canção , nem pai nem mãe , nem sequer um amigo que
o console ; sozinho como uma onda no mar, vem e vai , sozinho como
uma onda . A sua boca abre-se , redonda, e infla-se de lado , com as
bochechas de balão a ficarem oleosas devido ao esforço da canção .
Transborda maravilhosamente dos trajes dispendiosos . Por cima do
colarinho lilás , esmagado por uma gravata roxa, presa por um alfinete
de diamante; por cima da cartucheira de cabedal lavrado e prata, afi­
velada cruelmente em volta da cintura arquejante ; por cima das palas
dos sapatos amarelos brilhantes , Braggioni incha com uma madureza
ominosa, a meia de seda lilácea retesada, os tornozelos presos com as
pinças robustas de couro dos seus sapatos .
Quando estica as pálpebras na direcção de Laura , ela volta a reparar
que os olhos dele são do mesmo amarelo-acastanhado dos olhos dos
A Torre Inclinada e Outros Contos 101

gatos . Ele é rico , não e m dinheiro , diz-lhe , mas em poder, e esse poder
acarreta a posse sem culpa de coisas e o direito a usufruir do seu amor
por pequenos luxos . "Tenho gosto para requintes elegantes" , disse-lhe
certa vez , ao mesmo tempo que agitava um lenço de seda amarela
diante do nariz dela. "Sente o cheiro? É Jockey Club, importado de
Nova Iorque ." Não obstante , está magoado pela vida. Irá dizê-lo agora.
"É verdade que tudo se transforma em areia na mão , em fel na língua ."
Suspira e o cinto de cabedal range como a cilha de uma sela. "Fico
desiludido com tudo à medida que surge . Tudo ." Abana a cabeça . "A
Laura, pobre criatura, também ficará desiludida. Nasceu para isso .
Nalguns aspecto s , somos mais parecidos do que se dá conta. Espere e
verá . Um dia lembrar-se-á do que lhe disse , saberá que Braggioni era
seu amigo ."
Laura sente um calafrio lento , uma sensação puramente física de
perigo , um aviso no seu sangue de que violência, mutilação , uma mor­
te chocante , tudo isso a espera com uma paciência que vai diminuindo .
Traduziu esse receio em algo simples , imediato , e por vezes hesita antes
de atravessar a rua . "O meu destino pessoal nada é , excepto enquanto
testemunho de uma atitude mental" , recorda a si mesma, citando de
algum manual de filosofia já esquecido , e tem sensatez suficiente para
acrescentar: "Seja como for, não serei morta por um automóvel se pu­
der evitá-lo ."
"Pode ser verdade que eu seja tão corrupta, de outra forma , como
Braggioni" , pensa, contra a sua própria vontade , "tão insensível , tão
incompleta" , e , se assim for, qualquer espécie de morte parece preferí­
vel . Ainda assim , ali se mantém calmamente , não foge . Para onde iria?
Sem convite , entregou-se a este lugar; já não consegue imaginar-se a
viver noutro país , e não obtém prazer algum em recordar a sua vida
antes de vir para aqui .
Qual será ao certo a natureza desta devoção , os seus verdadeiros
motivos , e quais serão as suas obrigações? Laura não sabe explicá-lo .
Passa parte dos dias em Xochimilco , perto , a ensinar crianças índias a
dizerem em inglês: "O gato está no tapete ." Quando entra na sala de
aula, elas reúnem-se à volta dela com sorrisos nos rostos sábios , ino­
centes , da cor de argila, a exclamar: "Bom dia, pufessora ! " com as
suas vozes imaculadas , e todos os dias lhe transformam a secretária
num j ardim fresco de flores .
Nos seus tempos livre s , ela frequenta reuniões do sindicato e escuta
vozes atarefadas e importantes que discutem tácticas , métodos , política
interna. Visita as celas dos prisioneiros da sua fé política, onde estes se
1 02 Katherine Anne Porter

entretêm a contar baratas , a arrepender-se das indiscrições cometidas , a


escrever memórias , a redigir manifestos e planos para os camaradas que
continuam em liberdade , de mãos nos bolsos e a cheirar ar puro . Laura
leva-lhes comida, cigarros e algum dinheiro , bem como mensagens
disfarçadas em frases equívocas dos homens no exterior que não se
atrevem a pôr o pé na prisão , com medo de desaparecerem nas celas
que permanecem vazias , à espera deles . Se os prisioneiros confundem
a noite e o dia e se queixam, "Minha querida Laura, o tempo não passa
neste buraco do inferno e eu não sei quando é altura de dormir a menos
que me lembrem" , leva-lhes os narcóticos preferidos e diz-lhes , num
tom que não os fere com piedade , "Hoje será mesmo noite para ti" e ,
ainda que o espanhol dela o s divirta, acham-na reconfortante , útil . Se
perdem a paciência e toda a fé , e se maldizem a demora dos amigos a
resgatá-los com dinheiro e influência, confiam que ela não repetirá tu­
do; e, se ela pergunta: "Onde achas que poderemos arranjar dinheiro ,
ou influência?" , eles impreterivelmente respondem: "Bem, há Braggio­
ni , porque é que ele não faz qualquer coisa?"
Ela passa clandestinamente cartas do quartel-general a homens que
se escondem de pelotões de fuzilamento em casas bafientas de ruelas
secundárias , onde se sentam em camas desfeitas e falam com amargu­
ra como se todo o México lhes mordesse os calcanhares, quando Lau­
ra tem a certeza de que poderiam aparecer no concerto que a banda dá
na Alameda no domingo de manhã e ninguém repararia neles . Mas
Braggioni diz : "Eles que suem um pouco . Da próxima vez talvez se­
j am cuidadosos . É muito repousante tê-los afastados durante algum
tempo ." Ela não receia bater em porta alguma de qualquer rua depois
da meia-noite , entrar na escuridão e dizer a um daqueles homens que
corre realmente perigo : "Vão andar à sua procura - a sério - amanhã
de manhã, depois das seis . Aqui está algum dinheiro de Vicente . Vá
para Veracruz e espere ."
Ela pede dinheiro emprestado ao agitador romeno para dar ao inimi­
go figadal deste , o agitador polaco . O favor de Braggioni é o território
que disputam e Braggioni mantém um bom equilíbrio , pois pode
servir-se de ambos . O agitador polaco adora falar com ela em mesas
de café , esperando explorar aquilo que crê ser a secreta preferência
sentimental que ela nutre por ele , e dá-lhe informações erradas que lhe
implora que repita a certas pessoas como sendo verdades solenes .
O romeno é mais hábil . É generoso com o seu dinheiro em todas as
causas boas e mente-lhe com um ar de candura ingénua, como se fos­
se seu grande amigo e confidente . Ela nunca repete o que quer que eles
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 03

digam . Braggioni nunca faz perguntas . Tem outras formas de descobrir


tudo o que deseja saber acerca dele s .
Ninguém lh e toca, mas todos elogiam os seus olhos cinzentos e o
lábio inferior arredondado , que promete alegria, mas está sempre grave ,
quase sempre firmemente fechado; e não compreendem porque está no
México . Ela anda de um lado para o outro nos seus afazeres , de sobran­
celhas intrigadas , com a sua pequena pasta de desenhos , música e do­
cumentos da escola. Não há bailarina que dance de forma mais bela do
que Laura caminha, e ela inspira uns quantos ardores divertidos e ines­
perados , que a pouco mexerico dão azo , pois nunca resultam no que
quer que seja. Um jovem capitão que tinha servido como soldado no
exército de Zapata tentou , durante uma cavalgada perto de Cuemavaca,
expressar o seu desejo por ela com a simplicidade nobre adequada a um
rude herói popular; mas delicadamente , pois ele era delicado . Foi essa
delicadeza o seu malogro , pois quando desmontou , lhe tirou o pé do
estribo e tentou fazê-la descer para os seus braços , o cavalo dela, por
norma manso, afastou-se bruscamente , recuou e desatou a fugir. O ca­
valo do jovem herói perseguiu às cegas o companheiro de estábulo e o
herói só voltou ao hotel quando já era bastante tarde . Ao pequeno­
-almoço , apresentou-se à mesa dela vestido com traje completo de
charro, com um casaco cinzento de pele de gamo e calças com fileiras
de tachas de prata ao longo da costura da perna, e estava com uma dis­
posição bem-humorada e descontraída. "Posso fazer-lhe companhia?" e
"É uma cavaleira maravilhosa. Senti-me apavorado por poder ser atira­
da para o chão e arrastada. Nunca me teria perdoado . Mas estou impres­
sionado com a forma como monta ! "
"Aprendi n o Arizona" , disse Laura.
"Se voltar a cavalgar comigo hoj e , prometo-lhe um cavalo que não
irá alvoroçar-se consigo" , sugeriu ele . Mas Laura lembrou-o de que
tinha de regressar à Cidade do México ao meio-dia.
Na manhã seguinte , os alunos fizeram uma festa e passaram o inter­
valo a escrever no quadro negro: "Adoramos a nossa pufessora" e ,
com pauzinhos d e giz colorido , desenharam grinaldas d e flores à volta
das palavras . O jovem herói escreveu-lhe uma carta. "Sou um homem
muito tolo , dissipador, impulsivo . Deveria ter-lhe dito primeiro que a
amo , e assim a Laura não teria fugido . Porém , voltará a ver-me ." Ela
pensou : "Tenho de lhe enviar uma caixa de lápis de cor" , mas estava a
tentar perdoar-se por ter esporeado o cavalo na altura errada.
Um j ovem de cabelo castanho e espetado apareceu no pátio dela e
ali ficou certa noite , a cantar como uma alma perdida durante duas
1 04 Katherine Anne Porter

horas ; contudo , a Laura não ocorria fazer o que quer que fosse a esse
respeito . O luar espraiava uma vaga de prata diáfana sobre os espaços
livres do jardim, e as sombras eram de azul-cobalto . Os botões escar­
lates da árvore-de-judas pareciam de um roxo apagado , e os nomes das
cores repetiam-se automaticamente na sua mente , enquanto ela tentava
observar não o rapaz mas a sombra deste , caída como uma peça de
roupa escura no rebordo da fonte , pendendo para a água. Lupe aproxi­
mou-se silenciosamente e sussurrou-lhe um conselho entendido ao
ouvido : "Se lhe atirar uma pequena flor, ele cantará mais uma canção
ou duas e irá embora ." Laura assim fez e ele cantou uma última can­
ção , indo embora com a flor presa na fita do chapéu . Lupe disse-lhe:
"É um dos organizadores do Sindicato dos Tipógrafos , e antes disso
vendia corridos no mercado de La Merced , e antes ainda veio de Gua­
najuato , onde eu nasci . Não confiaria em homem algum, mas confio
ainda menos nos de Guanajuato ."
Não disse a Laura que ele regressaria na noite seguinte , e na outra ,
nem que a seguiria a uma certa distância fixa pelo mercado de La
Merced, pelo Zócalo , pela Avenida Francisco 1. Madero , e também
pelo Paseo de la Reforma até ao Bosque de Chapultepéc , e pelo Cami­
nho do Filósofo , ainda com aquela flor a murchar-lhe no chapéu e uma
atenção indivisível nos olhos .
Agora Laura já está habituada a ele , apenas significa que tem deza­
nove anos e está a observar uma convenção com toda a propriedade ,
como se se baseasse numa lei da natureza , coisa que , no final , é bem
capaz de se confirmar. Começa a escrever poemas que imprime numa
prensa de madeira, e afixa-os à porta dela como panfletos . Ela sente-se
agradavelmente perturbada pela observação abstracta e desapressada
dos olhos negros dele , que a seu tempo se voltarão facilmente para
outro objecto . Diz a si mesma que atirar a flor foi um erro , pois tem
vinte e dois anos e sabe que não deveria tê-lo feito ; mas recusa-se a
lamentá-lo e convence-se de que a sua negação de todos os aconteci­
mentos externos à medida que ocorrem é um sinal de que está gradual­
mente a aperfeiçoar-se no estoicismo que tenta cultivar para se prote­
ger do desastre que teme , ainda que não seja capaz de o nomear.
Não se sente à vontade no mundo . Todos os dias ensina crianças que
continuam a ser desconhecidas para si , embora adore as suas mãos re­
dondas e ternas e a sua encantadora selvajaria oportunista. B ate a portas
estranhas sem saber se será um amigo ou um desconhecido a abri-las ,
e mesmo quando um rosto familiar emerge da penumbra amarga desse
interior desconhecido , não deixa de ser o rosto de um estranho . Iode-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 05

pendentemente do que esse estranho lhe diga, ou da mensagem que ela


lhe leve , as próprias células da sua carne rejeitam conhecimento e afi­
nidade com uma palavra monótona . Não . Não . Não . Extrai a sua força
desta única palavra sagrada e talismânica, que não lhe permite que seja
levada para o mal . Negando tudo , ela poderá caminhar para todo o lado
em segurança , fitar tudo sem maravilhamento .
Não , repete aquela voz firme e imutável do seu sangue; e ela olha
para Braggioni sem maravilhamento . É um grande homem, quer im­
pressionar esta rapariga simples que tapa os grandes seios redondos
com tecido espesso e escuro , e que esconde pernas compridas , de uma
beleza inestimável , sob uma saia pesada . É quase magra, excepção
feita ao incompreensível volume dos seios , como os de uma mãe a
amamentar, e Braggioni , que se considera um juiz de mulhere s , volta
a intrigar-se com o enigma da sua famosa virgindade , e toma a liber­
dade de discurso que ela permite sem sinal de pudor, sem qualquer
espécie de sinal , na verdade , o que é desconcertante .
"Acha que é tão fria, gringita! Espere , que vai ver. Um dia há-de
surpreender-se ! Que eu possa estar presente para a aconselhar ! " Esten­
de as pálpebras na direcção dela e os seus olhos de gato mal-humorado
vacilam num relance distinto para os dois pontos de luz que marcam
os contornos opostos de um caminho suavemente traçado entre a curva
saliente dos seios dela . Não o repele aquela sarja azul , nem o olhar
resolutamente fixo dela. Há todo o tempo do mundo . As bochechas
dele inflam com o vento de uma canção . "Oh , rapariga dos olhos es­
curos" , canta ele , e reconsidera. "Mas os seus não são escuros . Posso
mudar tudo isso . Oh , rapariga dos olhos verdes , roubaste-me o cora­
ção ! " , e depois a sua mente divaga para a canção e Laura sente o peso
da atenção dele a passar para outro lugar. A cantar assim , parece ino­
fensivo , é bastante inofensivo , nada há a fazer para além de esperar
pacientemente e dizer "Não" quando chegar a altura. Ela inspira pro­
fundamente e a sua mente também vagueia , mas não vai longe . Ela não
ousa deixá-la vaguear para demasiado longe .
Não foi em vão que Braggioni se esforçou por ser um bom revolu­
cionário e um amante profissional da humanidade . Nunca morrerá
disso . Tem a malícia, a esperteza, a malvadez , o engenho aguçado , o
coração empedernido , necessários para amar o mundo de forma pro­
fícua . Nunca morrerá disso . Viverá o dia em que outros famintos
salvadores do mundo o expulsarão da gamela. Tradicionalmente , tem
de cantar, apesar da vida que o conduz à carnificina, diz a Laura, pois
o pai era um camponês da Toscana que andejou até ao Iucatão e casou
106 Katherine Anne Porter

com uma maia: uma mulher de raça, uma aristocrata. Deram-lhe o


amor e o conhecimento da música, assim; e sob o dedilhar da unha do
seu polegar, as cordas do instrumento queixam-se como nervos ex­
posto s .
E m tempos chamavam-lhe Delgadito , todas a s raparigas e mulheres
casadas que corriam atrás dele; era tão esquelético que se lhe viam os
ossos todos sob a roupa de algodão fino , e conseguia apertar o seu vazio
até à própria coluna com as duas mão s . Era um poeta e nessa altura a
revolução era apenas um sonho; tinham sido demasiadas mulheres a
amá-lo e a sugar-lhe a juventude , e ele nunca encontrava suficiente que
comer em parte alguma, em parte alguma! Agora é um líder de homens ,
de homens habilidosos que lhe sussurram ao ouvido , de homens esfo­
meados que passam horas do lado de fora do seu gabinete para trocarem
umas palavras com ele , de homens emaciados com rostos tresloucados
que o apanham na rua com um tímido "Camarada, deixe-me contar­
-lhe . . . " e depois lhe sopram na cara o hálito fétido dos estômagos vazios .
Ele compadece-se sempre . Dá-lhes mãos-cheias de pequenas moe­
das do seu próprio bolso , promete-lhes trabalho , haverá manifestações ,
devem juntar-se aos sindicatos e participar nas reuniões , sobretudo
devem estar alerta, atentos a espiões . S ão mais próximos dele do que
os seus próprios irmãos , sem eles não poderá fazer o que quer que
seja - até amanhã, camarada !
Até amanhã. "São estúpidos , são preguiçosos , são traiçoeiros , cor­
tar-me-iam a garganta por nada" , diz a Laura. Ele tem boa comida e
bebida em abundância, aluga um automóvel e conduz no Paseo aos
domingos de manhã, e desfruta de bastante sono numa cama suave ao
lado de uma esposa que não se atreve a incomodá-lo ; e acalenta os
ossos em macias ondas de gordura, cantando a Laura, que sabe e pen­
sa estas coisas acerca dele . Quando tinha quinze anos , ele tentou
afogar-se por amar uma rapariga, o seu primeiro amor, que se rira dele .
"Mil mulheres pagaram por isso" , e as comissuras da sua pequena
boca tensa voltam-se para baixo . Agora perfuma o cabelo com Jockey
Club e confidencia a Laura: "Na verdade é-me igual , uma mulher ou
outra, às escuras . Prefiro-as todas ."
A sua esposa organiza sindicatos entre as raparigas nas fábricas de
cigarros e anda pelos piquetes de greve , e até fala em reuniões ao final
do dia. Mas é impossível fazê-la entender os benefícios da verdadeira
liberdade . "Eu digo-lhe que preciso de ser livre , ponto . Ela não com­
preende o meu ponto de vista ." Laura já ouviu isto muitas vezes . Brag­
gioni arranha a guitarra e medita . "É uma mulher instintivamente vir-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 07

tuosa, ouro puro , disso não há dúvida. Se não o fosse , eu prendia-a, e


ela sabe-o."
A esposa, que tanto se esforça pelo bem das raparigas fabri s , empre­
ga parte do tempo livre a esfregar o chão porque há muitas mulheres
no mundo e só um marido para ela, e ela nunca sabe onde ou quando
pode encontrá-lo . Ele disse-lhe: "A menos que sejas capaz de aprender
a chorar quando eu não estou , terei de me ir embora de vez ." Nesse
dia, ele saiu de casa e instalou-se num quarto do Hotel Madrid .
É este mês de separação , em nome de princípios mais altos , que tem
sido estragado não apenas para Mrs . Braggioni , cujo sentido de reali­
dade está acima de quaisquer críticas , mas também para Laura, que se
sente atolada num pesadelo . Nesta noite , Laura inveja Mrs . Braggioni ,
que está só e pode chorar tanto quanto lhe apeteça devido a um mal
concreto . Laura acaba de chegar a casa, vinda de uma visita à prisão ,
e espera por amanhã com uma ansiedade amarga, como se amanhã
pudesse não chegar, com o tempo inamovivelmente travado naquela
hora, ficando ela paralisada , Braggioni a cantar para sempre , e o corpo
de Eugenio ainda sem ter sido descoberto pelo carcereiro .
Braggioni pergunta: "Vai dormir?" Praticamente sem lhe dar tempo
para abanar a cabeça, começa a falar-lhe das perturbações que terão
lugar no Dia do Trabalhador em Morelia , pois os católicos organizam
um festival em honra da Abençoada Virgem e os socialistas celebram
os seus mártires nesse dia . "Haverá duas procissões independentes ,
cada uma a começar de uma ponta da cidade , e marcharão até se en­
contrarem, e o resto depende . . . " Pede-lhe que lhe oleie e carregue as
pistolas . Levantando-se , desafivela a cartucheira e pousa-a sobre os
joelhos dela. Laura vai passando os cartuchos pelo pano mergulhado
em óleo e ele toma a dizer que não consegue perceber porque trabalha
ela tanto pela ideia da revolução , a menos que ame algum homem que
faça parte do movimento . "Não está apaixonada por alguém?" "Não" ,
diz Laura. "E nenhum homem está apaixonado por si?" "Não ." "Então
a culpa é sua. Nenhuma mulher precisa de suplicar. Porquê , qual é o
seu problema? A pedinte sem pernas da Alameda tem um amante ab­
solutamente fiel . Sabia?"
Laura espreita pelo cano da pistola e nada diz , mas uma fraqueza
longa e lenta ergue-se e esmorece dentro de si; Braggioni curva os
dedos inchados em redor do pescoço da guitarra e abafa suavemente a
música e , quando ela toma a ouvi-lo , parece que ele se esqueceu de si
e fala com a voz hipnótica que usa quando discursa em pequenas salas
para grupos atentos e compactos . Algum dia este mundo , agora apa-
108 Katherine Anne Porter

rentemente tão ordenado e eterno , será até aos confins de cada mar
apenas um emaranhado de valas abertas , de muros derrubados e de
corpos quebrados . Tudo terá de ser arrancado do lugar onde tem apo­
drecido ao longo de séculos , atirado para o céu e distribuído , caindo de
novo , limpo como chuva, sem uma identidade distinta . Nada sobrevi­
verá do que as mãos emperradas da pobreza criaram para os ricos e
ninguém permanecerá vivo , excepto os espíritos eleitos destinados a
procriar um novo mundo purificado da crueldade e da injustiça, gover­
nados por anarquia benevolente : "As pistolas são boas , adoro-as , os
canhões são ainda melhores , mas no final coloco a minha fé na boa
dinamite" , conclui ele , e afaga a pistola nas mãos dela. "Uma vez so­
nhei que destruía esta cidade , no caso de oferecer resistência ao Gene­
ral Ortiz , mas caiu-lhe nas mãos como uma pêra bem madura ."
As suas próprias palavras inquietam-no , fazem-no levantar-se e es­
perar de pé . Laura devolve-lhe a cartucheira: "Ponha isso e vá matar
alguém em Morelia, vai ficar mais feliz" , diz-lhe em voz baixa. A pre­
sença da morte na sala dá-lhe coragem . "Hoje encontrei o Eugenio a
cair num estupor. Recusou deixar-me chamar o médico da prisão. Tinha
tomado os comprimidos todos que lhe levei ontem . Disse que os tomou
por estar entediado ."
" É um tolo e a morte dele só a ele diz respeito" , responde Braggio­
ni , ao mesmo tempo que afivela a cartucheira com cuidado .
"Eu disse-lhe que , se ele tivesse esperado apenas mais um pouco , o
senhor tê-lo-ia libertado" , diz Laura. "Ele disse que não queria esperar."
" É um tolo e ainda bem que nos livrámos dele" , conclui Braggioni ,
levando a mão ao chapéu .
Ele vai embora. Laura sabe que a disposição dele mudou , que não
voltará a vê-lo durante algum tempo . Mandará quem a informe quando
precisar que ela faça serviços em ruas desconhecidas , que fale com as
caras estranhas que aparecerão , como máscaras de argila com o poder
do discurso humano , para balbuciarem agradecimentos a Braggioni
pelo auxílio . Agora está livre e pensa: tenho de fugir enquanto há tem­
po . Mas não parte .
Braggioni entra na sua própria casa onde , desde há um mês , a espo­
sa todas as noites tem passado muitas horas a chorar e a emaranhar o
cabelo sobre a almofada. Está a chorar agora e chora ainda mais ao
vê-lo , a causa de todas as suas mágoas . Ele lança um olhar pelo quarto .
Nada mudou , os cheiros são bons e familiares , conhece bem a mulher
que se aproxima dele sem qualquer reprovação , apenas desgosto na
face . Diz-lhe com ternura: " É s tão boa , por favor não chores mai s ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 09

minha querida e boa criatura ." Ela pergunta: "Estás cansado , meu an­
jo? Senta-te aqui que vou lavar-te os pés ." Ela traz uma bacia com
água e , ajoelhando-se , desaperta-lhe os atacadores; e quando , de joe­
lhos , ergue o olhar triste sob as pálpebras enegrecidas , ele lamenta
tudo , e desfaz-se em lágrimas . "Ah , sim, tenho fome , estou cansado ,
vamos comer qualquer coisa juntos" , diz ele , entre soluços . A esposa
encosta a cabeça ao seu braço e pede : "Perdoa-me ! " , e desta vez ele é
refrescado pela chuva solene e interminável das lágrimas dela.
Laura despe o vestido de sarja, veste uma camisa de dormir de linho
branco e vai para a cama. Vira a cabeça um pouco de lado e, imóvel ,
recorda a si mesma que está na hora de dormir. Há números a ti­
quetaquearem-lhe no cérebro , como pequenos relógios , portas sem
som a fecharem-se à sua volta. Se dormires , não podes lembrar-te de
nada, dirão as crianças amanhã, bom dia , minha pufessora, os pobres
prisioneiros que vêm todos os dias com flores para o carcereiro .
1 -2-3 -4-5 - é monstruoso confundir o amor com a revolução , a noite
com o dia, a vida com a morte - ah , Eugenio !
O repicar do sino da meia-noite é um sinal , mas o que significa?
Levanta-te , Laura, e segue-me : desperta do teu sono , sai da tua cama ,
desta casa estranha. O que estás a fazer nesta casa? Sem dizer palavra,
sem medo ela levantou-se e tentou agarrar a mão de Eugenio , mas
este fugiu-lhe com um sorriso incisivo , matreiro , e desvaneceu-se . Isto
não é tudo , verás - Assassina, disse ele , segue-me , vou mostrar-te um
novo país , mas fica longe e temos de nos apressar. Não , disse Laura,
não a menos que me dês a mão , não ; e agarrou-se primeiro ao corrimão
e depois · ao ramo mais alto da árvore-de-judas que se curvou lentamen­
te e a pousou na terra, e depois à saliência rochosa de um desfiladeiro
e depois à onda irregular de um mar que não era água mas antes um
deserto de pedra a desfazer-se . Aonde me levas , perguntou , maravilha­
da mas sem medo . À morte , respondeu ele , e fica muito longe , e temos
de nos apressar, disse Eugenio . Não , disse Laura, não a menos que me
dês a mão . Então come estas flore s , pobre prisioneira, disse Eugenio
numa voz apiedada, toma e come : e da árvore-de-judas arrancou as
flores quentes que sangravam e encostou-lhas aos lábios . Ela viu que
a mão dele estava descarnada, era um conjunto de pequenos ramos
petrificados e brancos , e que as suas órbitas estavam desprovidas de
luz , mas comeu as flores com avidez pois satisfaziam tanto a fome
como a sede . Assassina ! , disse Eugenio , e Canibal ! Este é o corpo e o
meu s angue . Laura gritou Não ! , e com o som da sua própria voz acor­
dou a tremer e teve medo de voltar a adormecer.
O Espelho Rachado

Dennis ouviu Rosaleen a falar na cozinha e uma voz de homem a


responder. Estava sentado com as mãos pendentes sobre os joelhos e
pensou , pela centésima vez , que havia alturas em que a voz de Rosa­
leen lhe fazia companhia, enquanto noutros dias passava o dia a dese­
j ar que não tivesse tanto que dizer acerca de tudo . Cada vez mais , o
tempo silenciava um homem; não fazia sentido algum repetir as mes­
mas coisas sem cessar. Até pensar os mesmos pensamentos acabava
por se tomar cansativo . Mas Rosaleen continuava tão cheia de conver­
sa como sempre . Se não com ele , com qualquer transeunte que se de­
tivesse por um minuto , e, se ninguém parasse , ela falava com os gatos
e consigo mesma . Se Dennis se aproximasse, ela limitava-se a erguer
a voz e a dar seguimento ao que quer que estivesse a dizer, pelo que
não era raro que gritasse subitamente: "Deixem-se disso , vá - quantas
vezes já vos disse para saírem da mesa?" , ao que os gatos se dispersa­
vam em todas as direcções com expressões culpadas . "Isso dá para um
homem ter um ataque" , queixava-se Dennis . "Não é contigo , querido" ,
respondia Rosaleen , como se isso curasse tudo , e , se ele não se fosse
embora de imediato , ela começava a contar alguma história. Mas na­
quele dia ela não parava de o enxotar e não lhe dirigira uma palavra
amável , e Dennis , exilado , sentia que tudo e todos eram bem-vindos
naquela casa, excepto ele . Pela vigésima vez , aproximou-se nas pontas
dos pés e pôs-se à escuta pela fechadura da sala de estar.
Rosaleen estava a dizer: "Se calhar as pernas dianteiras dele pare­
cem um bocado inchadas para um gato vivo , mas no retrato isso não
tem muita importância. Eu disse ao Kevin: ' Nunca hás-de conseguir
pintar esse gato em vida' , mas o Kevin conseguiu , com tinta para pa­
redes misturada num pires e um pincel pequeno para poder fazer todas
as linhas finas . As pernas ficaram assim porque eu queria-o represen-
A Torre Inclinada e Outros Contos 111

tado na mesa, mas ele não estava assim, passou o tempo todo no meu
colo . Era uma maravilha a perseguir ratos , um caçador nato , a trazia-os
de manhã à noite . . . "
Dennis sentou-se no sofá da sala e pensou : "Lá está . Lá vai ela con­
tar a história outra vez ." Perguntou-se quem seria o homem , uma voz
estranha, mas um palrador barulhento e despachado , como se estivesse
a tentar vender alguma coisa. "É um belo quadro , Miz O ' Toole" , co­
mentava ele , "e quem disse que era o artista?"
"Um moço chamado Kevin, era como se fosse meu próprio irmão ,
que se foi embora para fazer fortuna" , respondeu Rosaleen . "Pintor de
casas de profissão ."
"Um gato chapado ! " , ribombou a voz .
"É verdade . O gato-Billy trazido à vida. A gata-Nelly aqui é irmã
dele e o gato-Jimmy e a gata-Annie e o gato-Mickey é sobrinhos e so­
brinhas , e há um grande ar de farrn1ia entre eles todo s . Aconteceu a
coisa mais estranha ao gato-Billy, Mr. Pendleton . Ele às vezes só vinha
jantar depois de escurecer, tão embrenhado na caça ficava, e depois uma
noite nem sequer veio , e no dia seguinte também não , nem no seguinte ,
e eu sempre a pensar nele , por isso não preguei olho . Depois , à meia­
-noite da terceira noite , lá fui dormir, e o gato-Billy entrou no meu
quarto , saltou-me para a almofada e disse: ' Para lá do campo norte há
um ácer com uma grande marca onde o ramo foi arrancado pela tempes­
tade , e perto está uma pedra chata, e aí vais encontrar-me . Fiquei preso
numa armadilha' , diz ele; ' não foi feita para mim' , diz-me , ' mas mesmo
assim apanhou-me . E agora sossega a mente , não te preocupes mais
comigo ' , diz ele , ' porque já está tudo acabado . ' E depois foi-se embora,
olhando para mim por cima do ombro como uma criatura humana, e eu
acordei o Dennis e contei-lhe . Certo como estarmos os dois vivos , Mr.
Pendleton , tudo isto foi verdade . Por isso o Dennis foi atrás do campo
norte e trouxe-o para casa e enterrámo-lo no jardim e chorámos por ele ."
A voz falhou-lhe e esmoreceu e Dennis estremeceu , receoso de que ela
fosse derramar lágrimas diante daquele desconhecido .
" Valha-nos Deus , Miz O ' Toole" , disse o homem da voz alta, "não
dá para ignorar isso , pois não? Ora, é a coisa mais incrível que alguma
vez ouvi ! "
Dennis levantou-se , a ranger u m pouco , e coxeou até ao lado este da
casa, a tempo de ver um homem redondo com uma cara flácida e ver­
melha a entrar num carro velho e enferruj ado com um sinal pintado na
porta . "Agora há sempre qualquer coisa" , comentou , espreitando pela
porta da cozinha. "Tens sempre uma historieta para contar ! "
112 Katherine Anne Porter

"Bem" , respondeu Rosaleen , sem a mínima vergonha, "ele queria


uma história, por isso eu dei-lhe uma boa. É o meu sangue irlandês ."
"Estás sempre a transformar as coisas em mais do que são" , disse
Denni s . "É isso que se passa."
Rosaleen ficou um pouco enervada. "Põe-t ' a andar ! " , gritou ela,
sem que os gatos mexessem um bigode . "A cozinha não é lugar pra um
homem ! Quantas vezes tenho de te dizer?"
"Bem, dá-me o meu chapéu , dás?" , pediu Dennis, pois o seu chapéu
estava pendurado num prego por cima do calendário , onde era pendura­
do , à mão de semear, desde que viviam na quinta. Uns minutos depois ,
quis o seu cachimbo , pousado na prateleira da lamparina, onde ele o
guardava sempre . Em seguida precisava de ter as suas botas do celeiro
de imediato , embora não as visse havia um mês . Por fim ocorreu-lhe
algo que dizer e entreabriu a porta uns quantos centímetros .
"Onde é que já se viu eu estar sentado sossegado nos últimos dez
anos?" , perguntou ele , a olhar para o seu cadeirão com a almofada aca­
bada de afofar, ao lado da grande mesa. "E hoje não há lugar para mim?"
"Se resmungas vais arrepender-te" , ameaçou Rosaleen num tom
alegre , "e agora desaparece antes que te atire com qualquer coisa ! "
Dennis pousou o chapéu n a mesa d a sala de estar e as botas debai­
xo do sofá, sentou-se nos degraus da frente e acendeu o cachimbo . O
tempo frio não tardaria a chegar e desejou ter tirado o seu velho casa­
co de cabedal do gancho da porta da cozinha. Mas o que andaria
Rosaleen a tramar? Concluiu que ela passava a vida a fazer um gran­
de mal aos Irlandeses culpando-os pelos seus próprios defeito s . S er
irlandês , achava ele , era ser como ele , um homem sóbrio , prático ,
pensante , um amante da verdade . Rosaleen não o percebia de todo . "É
mesmo como se a tua cabeça fosse feita de pedra ! " , tinha-lhe dito ela
uma vez , fingindo estar a brincar, mas com intenção . Ela nunca lhe
dera valor, era isso . E a sua primeira mulher também não . Indepen­
dentemente do que ele lhes desse , elas queriam sempre mais alguma
coisa. Quando ele era jovem e pobre , a sua primeira mulher queria
dinheiro . E quando era um homem estável com dinheiro no banco , a
segunda mulher queria um jovem cheio de vida . "Nascem todas umas
ingratas , de uma maneira ou de outra" , concluiu , sentindo-se melhor
de imediato , como se por fim tivesse algo sólido em que se suster. Em
Setembro , um homem podia ir ao encontro da morte assim sentado
nos degrau s , e que lhe importava a ela? ! Com os dentes a matraquear,
sentiu que já não batiam certo , e que os pés e as mãos pareciam estar
atados ao seu corpo por cordéis .
A Torre Inclinada e Outros Contos 113

Entretanto , Rosaleen não aparentava ter envelhecido um ano que


fosse . Até poderia estar a fazê-lo para o irritar, mas ela não era ranco­
rosa. Ele tinha de reconhecer isso nela. Mas não esquecia que a sua
juventude fora um grande triunfo na Irlanda, e estava sempre a contar­
-lhe histórias acerca disso e a repetir-lhas . Aquela juventude dela era
mais nítida na mente dele do que a sua. Ele não era capaz de recordar
todas as coisas que lhe tinham acontecido . O seu passado jazia como
um grande monte dentro de si; ali estava, ele reconhecia-o de imediato ,
quando pensava nele , como uma arca que um homem tivesse guarda­
do , sabendo tudo o que está lá dentro sem se dar ao trabalho de nomear
ou contar os objectos . Tudo amontoado , não tinha sido uma vida fácil ,
chamar-se Dennis O ' Toole em B ristol , Inglaterra, onde tinha crescido
e trabalhado mais cedo do que podia nos primeiros empregos que con­
seguira arranj ar. E a sua mulher inglesa nunca lhe perdoara por a ter
desenraizado e levado para Nova Iorque , onde estavam os seus irmãos
e irmãs , bem como um emprego melhor. Todos os longos anos em que
trabalhara primeiro como empregado de mesa e depois como chefe de
mesa num hotel nova-iorquino se tinham, de alguma maneira, compac­
tado na sua mente . Não era o melhor dos hotéis , decerto , mas ainda
assim ele era chefe de mesa e ganhava bom dinheiro , o suficiente para
comprar aquela casa no Connecticut e ter algum dinheiro certo a en­
trar, e que mais poderia Rosaleen querer?
Não lamentava a morte da sua primeira mulher, uns anos depois de
terem deixado Inglaterra , pois nunca tinham realmente gostado um do
outro , e parecia-lhe agora que , mesmo antes de ela ter morrido , deci­
dira que , se ela morresse , nunca mais voltaria a casar. Mantivera a
decisão quase até aos cinquenta ano s , altura em que conhecera Rosa­
leen num baile no salão de County Sligo , bem longe , na East 86th
Street. Ela era uma bela moça alta e rosada, uma grande dançarina, e
os rapazes guerreavam por ela. Então ela foi-se esquivando durante
dois anos até o aceitar. Dizia que ele nada tinha de mal , excepto o
facto de provir de Bristol , e os estrangeiros irlandeses tinham a repu­
tação de ser gente em quem não se podia confiar. Não dizia porquê
- era só a reputação que tinham, pior do que a dos que vinham de
Dublin . Nenhuma rapariga decente de Sligo casaria com um homem
de Dublin nem que ele fosse o último à face da Terra . Dennis não
acreditava nisso , nunca tinha ouvido tal coisa contra os dublinenses ;
julgava que uma moça d o campo s e atiraria à oportunidade d e casar
com um citadino , fosse ele de onde fosse . Rosaleen retorquiu , "Tal­
vez" , mas ele veria se ela se atiraria para casar com um irlandês de
1 14 Katherine Anne Porter

Bristol . Servia como criada de quarto na casa de uma mulher rica, um


monstro das trevas como poucos havia, dizia Rosaleen , e ao início
Dennis sentira-se pouco à vontade em relação a tudo aquilo , receando
que uma jovem que tivesse de trabalhar tão arduamente pudesse ir
casar com um homem mais velho por causa do dinheiro , mas antes de
os dois anos terem passado ele já tinha ultrapass.ado essa ideia.
Não muito depois de se terem casado , Dennis começou quase a
desejar ter deixado que um daqueles rapazes de braços fortes ficasse
com ela, mas entretanto afeiçoara-se-lhe , ela era boa moça e ele sabia
que , quando tivesse abrandado um pouco , não poderia arranjar melhor.
Acontecia apenas que desejava que tivesse sido Rosaleen a primeira
com quem casara pela primeira vez em Bristol , para que agora estives­
sem acomodados um ao outro , com uma idade mais próxima. Trinta
anos era uma diferença demasiado grande . Mas nunca dizia tal coisa a
Rosaleen . Um homem deve algo a si mesmo . B ateu com o cachimbo
no capacho e sentiu uma verdadeira necessidade de ir à cozinha e pro­
curar um limpa-cachimbos .
Rosaleen exclamou: "Entra, sê bem-vindo ! " Ele ficou a olhar em
volta, perguntando-se o que teria ela estado a fazer. Ela avisou-o: "Vou
buscar leite agora, e vê lá se manténs os olhos no bolso . A vaca agora
- a criatura ! Não tarda salta os muros de pedra atrás das maçãs e
desata a correr pelos campos , e é tudo por causa de um bezerro s ó ,
pobre coisa enganada ! " Dennis comentou: "Não vejo onde é que está
o engano nisso ." "Oh , ai não vês?" , replicou Rosaleen , a pegar nos
baldes do leite .
A cozinha estava quente e Dennis voltou a sentir-se em casa. A cha­
leira estava a ferver para o chá , os gatos estavam enrolados ou estica­
dos conforme preferiam e Dennis sentou-se com um sorriso afundado
dentro de si , a limpar o cachimbo . No celeiro , Rosaleen arregaçou as
saias roxas de algodão e sentou-se com a testa encostada ao flanco
quente e calmo da vaca, extraindo dois j actos espessos de leite para o
balde . Disse à vaca: "Isto não é vida, não é vida nenhuma. Um homem
com a idade dele não conforta uma mulher" , e continuou com um
murmúrio lento que não era queixoso a falar das coisas da sua vida .
Por vezes desejava que nunca tivessem ido para o Connecticut, onde
não havia com quem falar, excepto russos , polacos e italianos , que não
eram melhores do que os protestantes negros , quando se pensava bem
no assunto . E os nativos ainda eram piores . Ocorreu-lhe uma imagem
dos seus vizinhos: uma mulher de ar esfomeado com um vestido cin­
zento quase preto , um homem amarelado com olhos raiados de sangue ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 115

e o filho imbecil . Aos domingos , cambaleavam pela estrada nos seus


tristes e velhos sapatos , a caminho da igrej a , mas essa era toda a reli­
gião que tinham , pensou Rosaleen com desdém . Durante a semana
espancavam o pobre rapaz e os animais e estavam sempre a discutir.
Nunca celebravam um dia festivo , nem um toque de cor garrida nas
roupas , nem um olhar cristão nos seus olhos por uma alma viva. "É só
viver em pecado mortal , de um dia para o outro" , disse Rosaleen . Mas
era Dennis a envelhecer o que a deixava desalentada. E ele que tinha o
cabelo mais farto que ela alguma vez vira num homem . Um belo ho­
mem , oh , que belo homem era Dennis naqueles tempos ! Dennis surgiu
diante dos seus olhos , no seu fato preto e luvas brancas , um homem
conhecedor, capaz de dizer às pessoas mais ricas o que deveriam pedir
para terem um bom j antar, que cavalheiro , com a sua camisa branca
engomada, gerindo os empregados por um lado e os clientes por outro ,
e conseguindo bom dinheiro por isso . E agora. Não , ela não conseguia
acreditar que aquele continuasse a ser Dennis . Onde estava Dennis
agora? , e onde estava Kevin? Lamentava ter ofendido Kevin por causa
da moça dele . Fora tudo por diversão , na verdade , não tinha maldade .
Era estranho não poder dizer o que se pensava a um bom amigo . Kevin
mostrara-lhe um retrato da sua miúda, tinha sido como um trovão re­
pentino , quando Rosaleen nem sabia que ele tinha namorada. Era em­
pregada de mesa em Nova Iorque e , se Rosaleen alguma vez vira uma
miúda atrevida, com cara de arroj o , do género que leva os rapazes a
contarem piadas em casa, era aquela. "Nunca vais assentar com ela,
pois não?" , exclamara Rosaleen , com os olhos a encherem-se de lágri­
mas . "E porque não?" , perguntou Kevin , com o queixo quadrado como
uma caixa. "Estamos muito bem juntos vai para três anos . Quem fala
mal dela fala mal de mim ." E lá estavam eles , não propriamente a dis­
cutir, mas também não muito amigos naquele momento , decerto , com
Kevin a voltar a guardar o retrato no bolso e a dizer: "Não se fala mais
disto entre nós . Fiz muito mal em contar-te ! "
Nessa noite , ele tinha arrumado a s roupas antes de s e ir deitar, mas
desceu e sentou-se nos degraus com eles durante algum tempo , e de­
pois fizeram as pazes sem dizer nada, como se nada tivesse aconteci­
do . "Um homem tem de fazer qualquer coisa com a vida" , explicou
Kevin . "Há sempre um sítio a ser feito no mundo e eu vou para Nova
Iorque , ou para Boston , talvez ." Rosaleen disse: "Escreve-me uma
carta, não te esqueças , vou estar à espera." "No próprio dia em que
saiba onde vou ficar" , prometeu ele . Tinham-se despedido com falsos
sorrisos rasgados nos rostos , de braços à volta um do outro mesmo até
116 Katherine Anne Porter

ao portão . Tinha chegado um postal de Nova Iorque , do edifício Wool­


worth , com uma frase: "Este é o meu hotel . Kevin ." E nem mais uma
palavra durante aqueles cinco anos . O patife , o cepo ! Depois de ele ter
desaparecido estrada fora com a mala presa aos ombros , Rosaleen
voltara para dentro de casa e vira-se ao espelho quadrado ao lado da
j anela da cozinha. Havia uma saliência no espelho e uma racha no
meio , e era como ver o rosto reflectido em água. "Juro por Deus que
não tenho aquele aspecto" , disse ela, voltando a pendurá-lo no prego .
"Se tenho , não admira que ele se vá embora. Mas não tenho ." Sabia no
seu íntimo que nenhum bem viria de ele correr assim atrás daquela
rapariga de ar vulgar; mas era provável que ele a descobrisse em breve
e que voltasse , pois a Kevin ninguém fazia de tolo . Aguardou e ficou
atenta, à espera de que Kevin regressasse e confessasse que ela tinha
razão , e ele diria: "Lamento ter-te magoado por causa de alguém que
não merecia sequer olhar para ti ! " Mas agora tinham-se passado cinco
anos . Ela pendurara um folho de renda de croché por cima da moldura
do retrato do gato-Billy e pousara-a na pequena mesa da cozinha, e
isso por vezes dava-lhe uma desculpa para tomar a mencionar o nome
de Kevin , ainda que o som disso fosse um estridor nos tímpanos de
Dennis . "Não fales dele" , disse Dennis , mais do que uma vez . "Era
obrigação dele para connosco enviar-nos notícias . É uma ingratidão
que eu não suporto ." O que iria ela fazer com Dennis agora, perguntou­
-se , e suspirou profundamente contra o flanco da vaca. De maneira
nenhuma ser esposa era envolver um homem em flanelas como um
bebé e aquecer-lhe botijas de água quente . Levantou-se , a suspirar, e
deu um pontapé ao banco . "Pronto , já está" , disse à vaca .
Não conseguia deixar de se sentir contente de repente ao ver a lam­
parina e a lareira a darem um ar acolhedor a tudo , e o cheiro a baunilha
lembrava-lhe perfume . Pôs a mesa com uma toalha de franja branca
enquanto Dennis coava o leite .
"Bom, Dennis , hoje é um dia importante e vamos ter um banquete
para o celebrar."
"É Dia de Todos os S antos ?" , perguntou Dennis , que já não olhava
para o calendário . O que era um dia, mais ou menos?
"Não" , respondeu Rosaleen; "puxa a tua cadeira ."
Dennis deu mais um palpite , dizendo que era Natal , e Rosaleen res­
pondeu que era um dia ainda melhor do que o de Natal .
"Não me ocorre que dia possa ser" , disse Denni s , a olhar para o
ganso assado brilhante . "Não é o aniversário de ninguém, que eu
saiba."
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 17

Rosaleen ergueu o bolo , como um monte de neve acabada de cair,


cheio de velas . "Conta-as e vê lá que dia é, sim?" , instou-o ela .
Dennis contou-as com um indicador trémulo . "Pois é , Rosaleen ,
pois é ."
Começaram a discutir. Ele tinha-se esquecido por completo . Rosa­
leen queria saber quando era que ele não se tinha esquecido . Pelo que
ele pensava nisso , até podiam não ter tido um dia de casamento . "Isso
não é verdade" , disse Denni s . "Tenho bem presente que casei contigo .
É da data que me esqueço ."
"Bem podias ser inglês" , reclamou Rosaleen, "bem podias ."
Olhou de relance para o relógio e recordou-o de que tinha sido vin­
te e cinco anos antes , às dez da manhã, e de que precisamente àquela
hora se tinham sentado para o primeiro jantar de casados . Dennis
achava que talvez tivesse sido o facto de passar todos aqueles anos a
dizer às pessoas o que comer e depois vê-las a comê-lo o que lhe ex­
tinguira o desejo pela comida. " S abes que não posso comer bolo" ,
disse-lhe . "Irrita-me o estômago ; ''
Rosaleen tinha a certeza de que o seu bolo não irritaria o estômago
de uma criança de mama. Dennis era de outra opinião : qualquer tipo
de bolo lhe caía como uma pedra. Enquanto a discussão prosseguia,
comeram quase todo o ganso, que se derretia bem na língua , e termi­
naram com fatias de bolo e rios de chá, e Dennis teve de reconhecer
que havia anos que não se sentia tão bem . Olhou para ela, sentada à
sua frente do outro lado da mesa, e pensou que era uma mulher muito
bela, voltou a reparar no cabelo ruivo dela , nas pestanas louras , nos
braços compridos e nos dentes grandes e fortes , e perguntou-se o que
ela pensaria dele , agora que ele não lhe servia de nada . Ali estava ele ,
todo dissipado , e assim estava havia anos , e por vezes sentia culpa
diante de Rosaleen , que nem sempre compreendia como é que a dada
altura um homem fica acabado e nada mais há a fazer quanto a isso .
Rosaleen serviu dois pequenos copos de brandy de cereja caseiro .
"Era capaz de ir dançar esta noite , Dennis" , disse-lhe ela. "Lembras­
-te de quando nos conhecemos em Sligo Hall , com a banda a tocar?"
Ela deu-lhe outro copo de brandy, tomou um também e debruçou-se ,
com os olhos a brilhar como se lhe contasse algo que ele nunca antes
tivesse ouvido .
"Lembro-me de um rapaz na Irlanda que era um grande dançarino
de sapateado , o melhor, e ele era louco por mim e eu era um demónio
para ele . Ora , o que faz uma rapariga ser assim , Dennis? E ele era um
belo partido , todas as moças ficariam satisfeitas se tivessem uma opor-
118 Katherine Anne Porter

tunidade com ele , mas eu não . Ele disse-me mil vezes: ' Rosaleen ,
porque não danças comigo , só uma vez?' E eu dizia: ' Tens muitas com
quem dançar sem que eu desperdice o meu tempo . ' E assim passou o
Verão inteiro , sem que ele dançasse e com toda a gente a atenazar-lhe
a vida, até que por fim eu dancei com ele . Depois ele acompanhou-me
a casa, com uma data de gente , e havia um céu cheio de estrelas e os
cães a ladrar ao longe . Então eu prometi que seria sua namorada, e ar­
rependi-me no instante em que o prometi . Eu era assim . Costumáva­
mos passar o dia inteiro a preparar-nos para os bailes , a lavar o cabelo
e a enrolá-lo , a experimentar os nossos vestidos e a fazer-lhes bainhas ,
com ataques de riso por causa dos rapazes e a inventar coisas para lhes
dizermos . Quando a minha irmã Honora se casou , julgaram que era eu
a noiva, com o meu vestido branco com folhos até aos calcanhares e o
cabelo numa coroa de flores . Toda a gente bebeu à minha saúde , consi­
derando-me a mais bela do baile , e eu disse que certamente seria a
noiva seguinte . A Honora disse-me para deixar de corar ou já não
conseguiria fazê-lo no meu próprio casamento . Ela sempre foi invejo­
sa, Dennis , ainda hoje tem inveja de mim , tu sabes ."
"Talvez" , disse Denni s .
"Não é talvez , é d e certeza" , replicou Rosaleen . "Mas passámos
belos tempos juntas quando éramos pequenas . Lembro-me de quando
o meu bisavô tinha noventa anos e estava a morrer. Velámos por turnos
à noite . . . "
"E ele demorou um tempo valente" , disse Dennis , para demonstrar
interesse . Estava tão sonolento que mal conseguia manter a cabeça
erguida.
"Pois demorou" , confirmou Rosaleen , "e então uma noite estava eu
e a Honora a velar, e não parávamos de bocejar, porque tinha havido
um grande baile na noite anterior. A nossa mãe disse-nos: ' Toquem-lhe
nos pés de vez em quando e, quando sentirem. que está a arrefecer, vão
saber que está perto do fim . Não há-de sobreviver à noite ' , disse ela,
' mas fiquem ao lado dele . ' Por isso ali estávamo s , a beber chá e a rir
baixinho para nos mantermos acordadas , e o velho ali deitado com o
queixo por cima da manta. 'Espera um minuto ' , diz a Honora, e tocou­
-lhe nos pés . ' Estão a arrefecer ' , diz ela, e continuou a contar-me o que
tinha dito ao Shane no baile , que ele tinha ciúmes do Terence e que
quer saber se pode confiar nela quando não está a vê-la. E a Honora
diz ao Shane : ' Não , não podes ' , e oh , se ele ficou varado de raiva !
Depois a Honora enfia o punho na boca para conter as gargalhadas .
Toquei nos pés e nas pernas do bisavô e pareciam barro até ao joelho s ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 119

e digo: ' Se calhar era melhor chamarmos alguém" ; mas a Honora diz:
' Oh , ainda tem muita energia que arrefecer ! ' Por isso , servimos o nos­
so chá e começámos a pentear e a entrançar o cabelo uma da outra, e
fomos sussurrando os nossos segredos e rindo mai s . Depois a Honora
pôs a mão debaixo da manta e disse : 'Rosaleen , ele tem o estômago
frio , já deve ter ido , agora só pode . ' Então o bisavô abriu um olho cheio
de fúria e diz: ' Não é nada disso , e para o diabo que vos carregue ! '
Soltámos um grande grito e os outros acorreram ao quarto e a Honora
exclamou : ' Oh , está morto e acabado de certeza, que Deus o acompa­
nhe ! ' E dá para acreditar, estava mesmo . Tinha morrido . E enquanto as
mulheres mais velhas o lavavam , eu e a Honora sentámo-nos a rir e a
chorar ao mesmo tempo . . . e foi exactamente seis meses mais tarde que
o bisavô me visitou no sonho que te contei , e ainda estava ressentido
comigo e com a Honora por nos rirmos durante a vigília: 'A minha
intenção era dar-vos o sermão da vossa vida' , disse-me , ' só que estou
a carpir no Purgatório neste instante por causa daquelas últimas pala­
vras que vos disse . Vão e celebrem mais uma missa pelo descanso da
minha alma, já que é só por causa do vosso mau comportamento que
aqui estou ' , diz-me ele . ' Põe-te a andar ' , disse-me . 'E malditas sejam
vocês ! '
"E acordaste toda suada" , disse Dennis , "e foste para a missa antes
do raiar do dia."
Rosaleen abanou a cabeça . "Ah , Dennis , se tivesse entregado o co­
ração àquele rapaz , nunca teria precisado de deixar a Irlanda. E só de
pensar no que lhe aconteceu . . . Comigo tão longe , bateu com a cabeça
e ficou morto numa vala ."
"Sqnhaste com isso" , disse Dennis .
"Pois é verdade que sonhei , e assim foi . Quando chorava e chorava
por ele . . . " - Rosaleen orgulhava-se do seu choro - "não sabia a boa
sorte que encontraria aqui ."
Dennis não conseguia perceber a que boa sorte estaria ela a refe­
rir-se .
"Deixa estar, então" , disse Rosaleen . Voltou às prateleiras do canto .
"O homem hoje estava a vender cachimbos " , disse ela, "e eu comprei
o melhor que ele tinha." Era um cachimbo com boquilha de imitação
de sepiolita, com um escudo gravado com um leão no meio de uma
selva, e era tão grande como o punho de um homem .
Dennis comentou: "Deves ter dado bom dinheiro por isso ."
"Isso não é da tua conta" , disse Rosaleen , "queria dar-te um ca­
chimbo ."
1 20 Katherine Anne Porter

Dennis disse: "Está muito esculpido , gostava de saber se dará se­


quer para puxar." Encheu-o , acendeu-o e disse que os cachimbos no­
vos não tinham muito sabor, pois estava cansado de o segurar.
"O meu pai tinha um cachimbo como esse" , disse Rosaleen para o
encorajar. "E num instante ficou de se lhe tirar o chapéu , dizia ele . Por
isso , um dia há-de ser um belo cachimbo ."
"E um dia eu estarei no meu túmulo" , pensou Dennis com amargu­
ra, "e ela há-de arranj ar um homem capaz de a manter calada ."
Já na cama, Rosaleen encostou a cabeça dele ao seu ombro . "Den­
nis , era capaz de chorar num abrir e fechar de olhos . Só de pensar
como estávamos felizes naquele dia do nosso casamento ."
"Pela maneira como te comportaste" , disse Dennis , sentindo-se
muito matreiro , de repente , por causa do brandy, "pensava que não ."
"Dorme" , disse Rosaleen , com pudor. "Isso não é forma de falar."
A cabeça de Dennis caiu na almofada como uma saca de areia . Ro­
saleen não conseguia dormir e ficou a pensar no casamento: não no
seu , pois uma vez dada a nossa palavra não havia nada em que pensar
a esse respeito , mas em todos os outros tipos de casamentos , infelizes :
aqueles e m que o marido bebe , o u não trabalha, o u maltrata a mulher
e os filhos . Em que a mulher foge de casa, ou estraga os filhos com
mimos ou os negligencia, ou se toma uma perfeita galdéria e seduz
outros homens; em que uma mulher casa com um homem demasiado
novo para si e ele se sente enganado e vai atrás de outras mulheres até
ser simplesmente uma desgraça; ou uma jovem que case com um ve­
lho , mesmo que ele tenha dinheiro , ela há-de ficar decepcionada de
alguma maneira . Se Dennis não fosse tão bom homem , sabe Deus o
que poderia ter acontecido . Ela tinha sorte . Podia-se ficar com o cora­
ção despedaçado só de pensar nisso . O seu humor sombrio abateu-se
sobre ela e deu-lhe vontade de andar pelo piso com a cabeça entre as
mãos e a recordar todas as coisas tristes do mundo . Não conhecera
outra coisa que não desastres , um depois do outro , e não conseguia
superá-los , independentemente de há quanto tempo tivessem aconteci­
do . Uma vez tinha deixado um homem completamente errado beijá-la,
quase se metera em apuros graves com ele , e mesmo agora sentia o
coração a parar ao pensar quão perto estivera de se tomar uma rapari­
ga sem carácter. Havia o gato-Billy e o seu bom coração e a sua triste
morte , e isso misturava-se com a vez em que o seu pai fora atirado ao
chão por um cavalo em fuga, quando a bebida o controlava, e a vez em
que ela tivera de usar meias remendadas num grande baile porque a
dissimulada Honora lhe roubara o único par bom que tinha .
A Torre Inclinada e Outros Contos 121

Agora desejava ter tido uma dúzia de filhos , e m vez daquele que
morrera ao fim de dois dias . Com aquele filho semiesquecido a reviver
subitamente em si , começou a chorá-lo com toda a frescura da sua
primeira agonia; seria agora um homem crescido , o amor mais querido
do seu coração . A imagem dele flutuou diante dos seus olho s , clara
como o dia, e tornou-se Kevin , a pintar o celeiro e a pocilga de todas
as cores do arco-íris , com a brox,a a oscilar-lhe na mão como um sino .
Ele era capaz de passar dias a trabalhar como um louco e depois deitar­
-se durante dias à sombra das árvores , ocioso como um vagabundo .
O querido , o querido rapaz como o seu próprio filho . Ser pintor de
profissão era uma forma de ganhar a vida , mas ela não suportava a
ideia de que ele andasse pelo país com os ateus dos russos , dos polacos
e dos italianos , com as suas destilarias de álcool e calão estrangeiro .
Disse-o a Kevin .
"Isso não é uma forma cristã de viver, e tu és um bom rapaz de
County Sligo ."
Então Kevin tinha começado a troçar dela, como qualquer outro
rapaz de Sligo . "Disse eu aos meus botões , aí está uma mulher de
County Mayo , sem tirar nem pôr."
"Tento na língua" , avisou Rosaleen , suave como uma pomba. "Estás
a falar com uma mulher de Sligo , como se não soubesses ! "
"Ai , sim?" , exclamou Kevin, muito espantado . "Então , ainda bem
que me engano . As pessoas de Mayo são demasiado orgulhosas para
mim ."
"Para mim também" , disse Rosaleen . "Ninguém lhes ganha a empi­
nar o nariz por nada."
"Lá isso é verdade" , disse Kevin , "mas a gente de Sligo tem direito
a ser orgulhosa."
"E tu tens direito a viver numa boa casa irlandesa" , disse Rosaleen ,
"por isso o melhor é vires connosco ."
"Eu teria orgulho disso como se viesse de Mayo" , disse Kevin , e
foi pespegar tinta no portão da frente de Rosaleen . Assim ficaram , a
sorrir um ao outro , sentindo que j á tinham concordado que chegasse ,
que estava na altura de pensar como haveriam de se vencer um ao
outro na conversa dali em diante . Durante mais de um ano , tinham
tentado vencer-se mutuamente na conversa , e por vezes era um , por
vezes outro , mas o tempo passava contente e calmo , numa bolha de
alegria, como uma chaleira a cantar. "Tu tens sido uma irmã para
mim , Rosaleen , não te esquecerei enquanto tiver fôlego" , dissera ele
na última noite .
1 22 Katherine Anne Porter

Dennis resmungou e ressonou um pouco . Rosaleen queria lamentar


tudo a plenos pulmões , mas não podia acordar Dennis . Ele estava a
dormir como um morto , depois de tanto ganso .

Rosaleen disse : "Denni s , esta noite sonhei com o Kevin . Havia uma
sepultura, era velha mas tinha flores frescas e um nome na lápide gra­
vado com muita nitidez mas como se fosse noutra língua e eu não
conseguisse percebê-lo . Tu chegaste então e eu perguntei: ' Dennis , de
quem é esta sepultura? ' , e tu respondeste , 'É a do Kevin , não te lem­
bras? E foste tu quem pôs essas flores aí. ' Depois eu disse: ' Bem, então
é uma sepultura e não vamos pensar mais nisso . ' Ora, não é estranho
pensar que o Kevin tenha estado morto durante todo este tempo sem
eu saber?"
Dennis disse : "Ele não é digno de ser referido , tendo ido embora
daquela maneira depois de toda a bondade com que o tratámos , e nem
uma palavra dele ."
"Foi porque já não tinha forças" , disse Rosaleen . "E não deves
guardar-lhe rancor. Foi errado da minha parte julgá-lo daquela manei­
ra . Ah , mas pensa só ! O Kevin morto e desaparecido , e todos aqueles
nativos e estrangeiros que continuam vivo s , com a tinta ainda nos ce­
leiros e nas casas onde o Kevin a pôs ! É muito triste ."
A sofrer por Kevin , começou a pensar nos nativos e nos estrangeiros
que possuíam quintas por todo o lado à sua volta . Receava pela vida
por causa deles , disse , por causa da forma como olhavam a partir da­
queles rostos hereges , os estrangeiros descarados , os nativos traiçoei­
ros e mesquinhos . "A forma como vendem a bebida a todos e se quei­
mam uns aos outros nas camas e abrem as cabeças uns aos outros com
machados" , queixou-se . "As pessoas decentes já não estão a salvo em
casa ."
No dia anterior, tinha visto aquele nativo , Guy Richards , a andar
perdido de bêbado , preparado para cometer qualquer crime . Ele inco­
modava-a muito , com os seus bigodes descuidados e a camisa em
farrapos até se ver a pele musculosa; uma vergonha para o mundo , a
fitar com aqueles seus olhos raivosos; a viver sozinho num barracão e
a receber os seus comparsas , com quem bebia até se ouvirem os gritos
deles a altas horas da noite e a vaguearem pela estrada campestre como
diabos saídos do inferno . Ele passava pela casa a picar o seu cavalo
cinzento e escanzelado a alta velocidade , de pé na carripana decrépita,
a cantar numa voz que parecia um monte de ferro-velho a cair, bêbado
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 23

como um cacho antes do pequeno-almoço . Uma. vez , estava Rosaleen


diante da sua porta, com um vestido de xadrez verde , ele gritou-lhe:
"Ei , Rosie , queres ir dar uma volta?"
"O cepo atrevido ! " , queixou-se Rosaleen a Dennis . "Se alguma vez
me encostar um dedo , dou-lhe um tiro e mato-o ! "
" S e t e meteres n a tua vida durante o dia" , disse Dennis numa voz
encolhida, "e trancares bem as portas à noite , não haverá motivo para
matar quem quer que seja."
"Que sabes tu ! " , exclamou Rosaleen . Tinha uma série de visões em
que Richards lhe encostava um dedo e ela o matava com um disparo .
"O que faria eu sem ti , Dennis?" , perguntou-lhe nessa noite , estavam
eles sentados nas escadas , numa penumbra suave cheia de pirilampos
e do som de grilos . "Quando penso em todos os tipos de homens que
há no mundo . Aquele Richards ! "
"Quando u m homem é jovem , gosta de s e divertir" , disse Denni s ,
amigavelmente , começando a bocejar.
"Jovem , ai é?" , ripostou Rosaleen, quente de raiva. "O velho corvo !
Já podia ter filhos adultos , tal como eu , e eu sou uma mulher casada
sem idade para disparates ! "
Dennis quase respondeu: "Nunca direi que é s velha" , mas de súbito
também se irritou . "Podes parar com a bisbilhotice?" , perguntou-lhe ,
num tom de censura.
Rosaleen calou-se , sem rancor, mas não havia como negar que o
velhote estava a ficar velho , velho . Levantou-se , como se pegasse nos
próprios ossos e se levasse ao colo para a casa. Algures ali dentro dele
deveria estar Dennis , mas onde? "O mundo é uma selvajaria'' , infor­
mou os grilos , os sapos e os pirilampos .
Richards nunca se tinha oferecido para encostar u m dedo a Rosaleen ,
mas de vez em quando aparecia junto ao portão , quando não estava
completamente bêbado , e passava as tardes sentado com eles à porta de
casa, e havia sinais de ser um homem bem-comportado antes de a be­
bida o apanhar. Contava-lhes histórias da sua vida e de como tinha sido ,
regra geral , um tipo desgraçado . Não quando era pequeno , no entanto .
Enquanto a mãe fora viva, ele nunca fizera coisa alguma que a magoas­
se . Ela não era o que se consideraria uma mulher robusta, a mais peque­
na coisa deixava-a doente , e era tão religiosa que passava o dia inteiro
a rezar entredentes durante o trabalho e mesmo às refeições . Ele tinha
pertencido a uma sociedade chamada The Sons of Temperance , com
todos os rapazes do campo agrupados sob o voto de nunca tocarem
numa bebida forte , de maneira nenhuma: "Nem sequer para propósitos
1 24 Katherine Anne Porter

medicinais" , citava ele , erguendo o braço direito e fitando o espaço à


sua frente com uma expressão solene . Era frequente desatar a cantar
uma marcha de que se lembrava das cantorias semanais do grupo:
"Com as bandeiras da temperança a agitarem-se , Com estandartes bran­
cos como a neve" , e ainda conseguia repetir quase textualmente o poe­
ma que era chamado a recitar em todas as reuniões : "À meia-noite , na
sua tenda guardada, O Turco sonhava com a hora . . . "
Por vezes Rosaleen queria interrompê-lo e dizer-lhe que aquilo não
era vida , que ele deveria ter sido jovem na Irlanda. Mas não o dizia .
Sentava-se numa posição rígida ao lado d e Dennis e olhava severa­
mente para Richards pelo canto do olho , perguntando-se se ele se
lembraria da vez que lhe gritara: "Ei , Rosie ! " Era quanto bastasse para
uma mulher dar em doida , não conseguir encontrar uma palavra na
boca para responder a tal ousadia. A lata dele , fingir que nada tinha
acontecido . Certo dia , ela estava a dar voltas à cabeça em busca de
algo para dizer que o pusesse no lugar, enquanto ele ia falando das
festas que o seu grupo passava a vida a organizar à beira do riacho ,
atrás do monte de rochas , com um barril de cervej a caseira; e dos bai­
les que a banda de Railroad Street dava todos os domingos à noite em
Winston . "Estávamos sempre prontos para alguma patifaria" , disse ele ,
de olhar fixo em Rosaleen , e , antes que ela pudesse dizer o que quer
que fosse , o diabrete tinha-lhe piscado o olho mais próximo dela. Ro­
saleen virou a cara, com a boca curvada para baixo ; ao fim de um
minuto demorado , disse: "Tenha um bom dia, Mr. Richards" , num tom
mesmo gelado , e foi para dentro de casa. Pegou no espelho para ver o
ar com que estava, mas a superfície ondulada afastava-lhe os olhos e
deixava-os tão indeterminados como a palma das suas mãos , e ela não
distinguia o nariz da boca na racha estalada . . .

O vendedor de cachimbos voltou no mês seguinte e levou uma pa­


nela patenteada que cozinhava legumes perfeitamente sem qualquer
água. "É uma maneira muito mais saudável de cozinhar, Miz O ' Toole" ,
ouviu Dennis a voz palradora a exagerar. "Digo-lhe isto como amigo ,
já que é uma freguesa tão boa."
"Ai , é?" , pensou Dennis , e a bílis revolveu-se dentro de si .
"Vai ver que será uma bênção para a saúde do seu esposo . As pes­
soas de mais idade precisam de ter muito cuidado com o que comem ,
e a senhora sabe melhor do que eu , Miz O ' Toole , que a saúde começa
e acaba mesmo na cozinha. Ora , o seu esposo não parece tão robusto
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 25

como poderia estar. Isso é porque , por mais saborosos que sejam os
seus cozinhados , tem andado a despejar todas as vitaminas boas , os
elementos iluminados pelo sol , os que nos dão vida , mesmo pelo cano
abaixo . . . O cano do lava-loiça, Miz O ' Toole , é onde despeja a saúde
do seu esposo , e a sua. E eu digo-lhe que é uma pena , uma mulher
bonita como a senhora a desperdiçar o tempo e as forças à frente de
um fogão , quando tudo o que terá de fazer doravante é encher este
pequeno aparelho científico com o que quer que tenha planeado para
o jantar, e depois afastar-se e ler um bom livro - ou encaracolar o
cabelo ."
"O meu cabelo é naturalmente encaracolado" , disse Rosaleen . Den­
nis quase resmungou em voz alta no seu esconderij o .
"Por amor d e . . . ora, Miz O ' Toole , não pode estar a falar a sério ! Da
primeira vez que vi esse cabelo , disse cá para comigo , ora , é tão per­
feito que parece artificial ! Estava mesmo a preparar-me para lhe per­
guntar como o fazia , para poder contar à minha mulher. Bem , se os
seus cabelos encaracolam naturalmente assim , sem quaisquer vitami­
nas , quero voltar e vê-los outra vez depois de ter passado duas semanas
a cozinhar com esta panelinha ."
Rosaleen contrapôs : "Bem , não é na minha aparência que estou a
pensar. Mas o meu marido não é o que era , e essa é a verdade , Mr.
Pendleton . Ah , ter-lhe-ia feito bem ao coração ver aquele homem nos
seus tempos mais jovens ! Era forte como um touro , de maneira que
nenhum homem se atrevia a provocar-lhe a sanha. Vi o meu marido ,
vezes sem conto , atirar-se com o punho a um homem e deixá-lo espa­
lhado ao comprido a uns seis metros de distância, e isso pela coisa
mais pequena, atenção ! Mas o Dennis nunca foi de guardar rancor
durante muito tempo e no instante seguinte já o víamos a ajudar o
homem a levantar-se , a sacudir-lhe a poeira como se fosse seu irmão e
a dizer: ' Agora não penses mais nisso . ' Sempre foi demasiado rápido
a perdoar. Esse era o seu grande defeito ."
"E vej a-se só como está agora" , comentou Mr. Pendleton , com tris­
teza.
Dennis sentia as orelhas a arder. Estava de pé , virado para a esquina
da casa, à escuta. Nunca tinha pesado mais do que sessenta quilos , no
máximo , sempre fora um homem alto e magro , algo orgulhoso da sua
figura elegante , e desde que deixara a escola em Bristol que a fúria não
o fazia levantar a mão contra criatura alguma, fosse animal ou humana.
"Era um belo homem com quem uma mulher podia contar, Mr. Pendle­
ton" , disse Rosaleen , "e com os punhos era rápido como um tigre ."
1 26 Katherine Anne Porter

"Da maneira como ela fala , eu bem podia estar morto e a transfor­
mar-me em pó" , pensou Dennis , "e lá está ela a mandar dinheiro fora
como se já fosse uma viúva alegre ." Com passos inseguros , saiu da
sala, decidido a dizer o que pensava e a pôr fim a tanto disparate .
O vendedor voltou o sorriso flácido e os pequenos olhos astutos para
ele . "Olá, Mr. O ' Toole" , disse ele , com a cordialidade masculina que
usava com os maridos . "Estava só a deixar-lhe um pequeno presente
de aniversário aqui com a sua senhora ."
"Hoje não é o meu aniversário" , replicou Dennis , amargo como um
limão .
"É só uma maneira de falar ! " , interrompeu Rosaleen , num tom ale­
gre . "E muito lhe agradecemos , Mr. Pendleton ."
"Eu é que lhe agradeço , Miz O ' Toole" , respondeu o vendedor, a
guardar nove dólares de bom dinheiro verde . Nada mais foi dito , além
de bom dia , e Rosaleen ficou a escudar os olhos para ver o Ford a
seguir desajeitadamente pela estrada com pequenas elevações . "Ali vai
um homem de família, simpático e decente" , disse a Dennis , como que
para lhe refutar os maus pensamentos . "Viaja desde Nova Iorque e tem
sempre as coisas mais recentes e as melhores . E também te admira
muito , Dennis . Disse que não consegue lembrar-se de outro homem da
tua idade tão saudável como tu ."
"Eu ouvi-o" , disse Dennis . "Eu sei o que ele disse ."
"Bom, então" , disse Rosaleen , serenamente , "não vale a pena estar
a repeti-lo ." Apressou-se a ir lavar batatas para cozinhar na panela que
fazia o cabelo encaracolar.

O Inverno alcançou-os , e a neve chegava, trazida por tempestades .


Dennis não aguentava um pouco de frio que fosse , s ó faltava sentar-se
no forno , raquítico e rezingão , com o abafador. Rosaleen começava a
sentir que não suportava as roupas vestidas na cozinha quente e, quan­
do fazia o trabalho no celeiro , tinha um arrepio a seguir ao outro .
Queixava-se de que tinha as mãos roídas até ao osso pelo frio . Seria
que Dennis se dava conta disso , ou iria passar o Inverno inteiro senta­
do como um toro , e onde estava o moço que ele lhe prometera para a
ajudar com o trabalho no exterior?
Dennis sofria calado o desatino , pensando que ela tinha muito pou­
co trabalho para uma mulher possante , e que a verdade era que o cul­
pava por algo que ele não podia evitar. Ainda assim , ela nada dizia que
ele fosse capaz de reter, limitando-se a levantar a cabeça de supetão
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 27

quando a chaleira secava ou o lume começava a afrouxar. Chegaria o


dia em que ela diria sem rodeios : "Isto aqui não é vida, não vou ficar
mais tempo aqui" , e haveria de o arrastar para um apartamento em
Nova Iorque , ou talvez até o deixasse . Seria? Seria ela capaz de fazer
tal coisa? Uma ideia dessas nunca lhe tinha ocorrido . Observou-a co­
mo se a espreitasse pelo buraco de uma fechadura. Tentou pensar em
algo que lhe aplacasse a mente , mas não havia plano que lhe surgisse .
Ela olharia para qualquer coisa inócua da casa - por exemplo , o ca­
lendário - e de repente arrancá-lo-ia da parede , atirando-o para a la­
reira. "Detesto-o , só de o ver" , explicaria, e estava sempre a detestar
ver uma coisa ou outra, até a vaca; até quase , mas só quase , os gatos .
Certa manhã, sentou-se , muito cansada e entristecida , e praticamen­
te antes de Dennis ter conseguido abrir um olho começou : "Esta noite
sonhei que a minha irmã Honora estava doente , deitada na cama a
morrer, e que chamava por mim ." Deixou a cabeça cair entre as mãos
e respirou estremecendo até aos dedos dos pés , antes de dizer: "É na­
tural que eu vá a Boston descobrir por mim mesma como estão as
coisas , não é?"
Dennis , puxando o protector de peito que ela lhe tinha tricotado e
oferecido no Natal , respondeu: "Acho que sim . Assim parece ."
Enquanto preparava a cafeteira, começou a fazer planos . "Só podia
ir se tivesse um casaco . Devia ser de peles , para enfrentar este tempo .
Um casaco é aquilo de que tenho precisado ao longo destes anos todos .
Se tivesse um casaco , iria hoje mesmo ."
"Tens um sobretudo com pêlo" , disse Dennis .
"Um casaco que é um trapo ! " , exclamou Rosaleen . "E não vou dei­
xar a Honora ver-me com isso vestido . Ela sempre foi invejosa, Den­
nis , haveria de ficar contente se me visse sem casaco ."
"Se está a doente e a morrer, talvez não repare" , sugeriu Denni s .
Rosaleen concordou . "E talvez seja melhor comprar u m l á , o u em
Nova Iorque - talvez um da nova moda ."
"Fica muito fora de mão , ires por Nova Iorque" , disse Nova Iorque .
"Há caminhos mais curtos para B oston ."
"É por Nova Iorque que vou , porque os comboios são melhores" ,
disse Rosaleen , "e eu quero ir por aí." Tinha uma expressão no rosto
que indicava que podia ser torturada e não cederia . Dennis manteve­
-se calado .
Quando o carteiro passou , ela pediu-lhe que passasse a mensagem à
farm1ia nativa do cimo da colina para que mandassem o rapaz por uns
dias para os ajudar com as tarefas da quinta , a troco do mesmo paga-
1 28 Katherine Anne Porter

mento de vezes anteriores . E, na manhã seguinte , se ele não se impor­


tasse , iria com ele até ao comboio . Durante o dia inteiro , com o cabelo
em papelotes , ocupou-se a juntar as coisas na sua velha mala de lona .
Pôs rolo de carne a assar e preparou pão e encheu o armário ao lado da
cozinha com toros para a lareira. "Talvez chegue uma mensagem a
dizer que a Honora está melhor e eu já não tenha de ir" , disse várias
vezes , mas tinha os olhos entusiasmados e andava tão depressa que o
chão abanava.
Ao final da tarde , Guy Richards bateu à porta e pavoneou-se pela
casa adentro , batendo com as grandes botas no chão . Estava quase
sóbrio , mas não continuaria assim durante muito tempo . Rosaleen dis­
se: "Recebi notícias tristes acerca da minha irmã, é capaz de estar às
portas da morte e vou para Boston ."
"Espero que não seja nada de grave , Missis O'Toole" , disse Richards .
"Bebamos disto à sua saúde" , ao que sacou de uma garrafa semicheia de
uma bebida de terrível aspecto . Dennis disse que não se importaria. Ri­
chards perguntou: "E a senhora vai fazer-nos companhia?" , com o diabo
no olhar, Rosaleen era capaz de jurar.
"Não , não vou" , disse ela . "Tenho algo melhor que fazer."
Enquanto eles bebiam , ela ficou a emendar a bainha do seu vestido
e começou a falar-lhes de novo das inúmeras pessoas que conhecera
que tinham voltado do mundo dos mortos para darem notícias acerca
de si mesmas , e que o próprio Dennis era sua testemunha. Contou
outra vez a história do gato-Billy, com a voz acalorada e tremida pela
ameaça de lágrimas .
Dennis tragou a sua bebida, debruçou-se e começou a remexer no
atacador, com o rosto abatido numa mão-cheia de rugas , e pensou sem
rodeios para consigo mesmo: "Não há nem uma palavra verdadeira
nisto , nem uma. E ela vai continuar a contá-lo até ao fim do mundo
como se fosse a verdade de Deus ." Sentia-se impotente , como se esti­
vesse envolvido nalguma fraude vergonhosa. Queria intervir de uma
vez por todas e dizer: "É mentira, Rosaleen , foi uma coisa que inven­
taste e agora não vamos ouvir falar mais disso." Mas Richards , ali
sentado com as orelhas alongadas , impedia que as palavras lhe saíssem
da boca. O momento passou . Rosaleen disse num tom solene: "Os
meus sonhos nunca me renegam , Mr. Richards . S ão tudo o que tenho
para me orientar." "Isso nunca aconteceu" , disse Dennis no seu íntimo ,
teimosamente . "Simplesmente o gato-Billy foi apanhado numa arma­
dilha e eu enterrei-o ." Poderia aquilo ter sido realmente tudo? Ele tinha
uma sensação de pesadelo de que algures , mesmo fora do seu alcance ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 29

estava a verdade acerca daquilo , não poderia jurar com certeza, mas
estava quase disposto a jurar que isso fora tudo . Richards levantou-se ,
dizendo que tinha de ir andando para uma festarola em Winston .
"Amanhã levo-a até ao comboio , Missus O ' Toole" , disse ele . "Adoro
fazer um favor às senhoras ."
Num tom muito rígido , Rosaleen respondeu: "Vou com o carteiro ,
mas muito obrigada."
Ajustou as cobertas de Dennis na cama com grande ternura e sen­
tou-se a seu lado durante alguns minutos , enquanto punha creme frio
no rosto . "Não vai ser durante muito tempo" , disse-lhe , "e vão tratar
bem de ti durante todo o tempo . Talvez , com a graça de Deu s , eu a
encontre recuperada."
"Talvez ela nem sequer esteja doente" , era o que Dennis tinha von­
tade de dizer, mas em vez disso respondeu: "Espero que sim ." Não lhe
fazia qualquer diferença. Pondo tudo o resto de parte , parecia-lhe um
grande aparato a ser feito por causa de Honora, que bem que podia
morrer sem que ele se importasse .
Até ao último instante , teve esperança de que Rosaleen ganhasse
juízo e desistisse da viagem , mas no último instante lá estava ela, de
chapéu e casaco esfarrapado , com um traço de pó rosado no queixo , a
calçar as luvas castanhas que cheiravam a naftalina , a agitar um lenço
que cheirava a Azurea e a acorrer à j anela a cada minuto que passava,
tentando ver o carteiro . "Com esta neve , talvez ele se atrase" , disse ela
numa voz trémula. "E se nem viesse?" Deitou um último olhar de re­
lance ao espelho . "De uma coisa tenho de me lembrar, Dennis " , disse
ela num tom diferente . "E é de trazer um espelho que não me faça a
cara parecer a de um monstro ."
"É um espelho suficientemente bom" , disse Dennis , "não há neces­
sidade de desperdiçar dinheiro ."
O carteiro chegou apenas uns minutos atrasado . Dennis despediu-se
de Rosaleen com um beijo e fechou a porta da cozinha para não a ver
entrar no carro , mas ouviu-a a rir.
"É uma mentirosa nata, é o que ela é" , disse Dennis para consigo , e
sentiu de imediato que se tinha atirado de cabeça para um poço muito
escuro . A sua parte melhor tentava fazê-lo sair de lá. "Não tens vergo­
nha" , perguntou a melhor parte de Dennis , "de pensar coisas dessas
acerca da tua própria mulher?" A parte mais medíocre de Dennis persis­
tia. "Não é nem metade do que ela merece" , respondeu com severidade ,
"por me ter deixado aqui por minha própria conta, e porquê?" Essa era
a grande pergunta. Decerto não fora para ir atrás de Honora, estivesse
1 30 Katherine Anne Porter

viva, moribunda ou já morta. Para onde , então? Por quê , neste mundo?
Então deixou de pensar por completo . Não havia nem uma centelha na
sua mente . Tinha um alto no peito que decerto seria pneumonia, se esti­
vesse constipado , coisa que não estava, nem por isso . Doíam-lhe os pés
a ponto de ser capaz de jurar que era reumatismo , só que nunca sofrera
disso . Ainda assim, não estava a pensar. Perma1_1eceu neste estado du­
rante dois dias , e o moço atrasado da quinta dos nativos lá em cima fez
o trabalho todo , incluindo lavar a loiça. Dennis comia bastante bem,
tendo em conta o sofrimento a que estava sujeito .

Rosaleen recostou-se no assento acolchoado e pensou que sempre


tinha sido uma grande viaj ante . Para si , um comboio era como um lar,
com todas as outras pessoas sentadas por perto , e o cheiro dos jornais ,
de algum verniz de móveis bem-cheiroso e o perfume das golas de
peles , e a poeira do comboio e algo a cobri-la e mais qualquer coisa
por cima que ela não conseguia definir, mas que era o cheiro a viagem:
fruta, talvez , ou seria maquinaria? Comprou chocolates , apesar de não
ter fome , e uma revista de histórias românticas , embora nunca tivesse
tido propensão para a leitura. Só desejava provar a si mesma que , mais
uma vez , se encontrava num comboio , a caminho de algum lugar.
Observou as pessoas que entravam ou se apeavam nas estações , que
se cumprimentavam ou despediam , e parecia-lhe muito bom sinal que
não visse um rosto triste em parte alguma. Havia um sol frio e doce a
iluminar a neve , e as pessoas da cidade não pareciam todas geladas e
embrulhadas . Os seus rostos pareciam suaves, por comparação com as
caras consumidas pelo gelo , cheias de frieiras . A estação Grand Cen­
tral não tinha mudado nada, com as multidões que rodopiavam em
todas as direcções , e um barulho que quase continha uma melodia, tão
constante era. Agarrou-se à mala que os homens de cor tentavam tirar­
-lhe , e manteve-se no passeio , tentando lembrar-se para que lado era a
Broadway, onde ficavam os cinemas . Havia cinco anos que não via um
filme , estava bem na altura ! Quem lhe dera ter uma hora para visitar o
seu velho apartamento , na 1 64th Street - bastaria dar uma volta ao
quarteirão , mas não havia tempo . Um velho ressentimento contra Ho­
nora renovou-se , pois era uma desmancha-prazeres nata e estragar-lhe­
-ia aquela viagem se pudesse . Continuou a andar, pedindo indicações ,
amuando um pouco por em tempos ter sido uma moça tão citadina, que
só pensava em vestidos e em diversão , quando agora mal sabia distin­
guir uma rua de outra. Entrou no primeiro cinema que viu , pois o nome
A Torre Inclinada e Outros Contos 131

do filme agradou-lhe : O Príncipe do Amor, disse a si mesma. Era sobre


duas criaturas jovens e lindas , um rapaz de cabelo preto ondulado e
uma rapariga de caracóis dourados , que se amavam e se metiam em
grandes apuros , mas no final tudo acabava bem, e a toda a hora só
surgiam belos salões ou j ardins , uns atrás dos outros , e roupas tão lin­
das ! Fungou um pouco no lenço que cheirava a Azurea, comeu os seus
chocolates , recordou a si mesma que aqueles dois estavam realmente
vivos e eram mesmo assim , mas custava-lhe acreditar que seres vivos
pudessem ser tão belos .
Depois das luzes quentes e dançantes do ecrã, a rua parecia-lhe fria,
escura e feia, com a neve enlameada, a barulheira e milhões de pes­
soas , todas a irem a algum lugar com grande pressa, mas nem um
rosto que ela conhecesse . Decidiu ir para Boston de barco , como fazia
antigamente quando ia visitar Honora . Foi vendo as montras , pensando
em como tinha mudado a moda da roupa interior, chegando ao ponto
de mal acreditar nos seus próprios olhos , perguntando-se o que diria
Dennis se ela comprasse o babydoll de cetim verde , com a renda cor
de chá . Ah , estaria ele a comer a carne assada como ela lhe dissera, e
teria o moço ido ajudar conforme prometera?
Comeu gelado com compota de morango , comprou uma borla de
pó-de-arroz e decidiu que ainda havia tempo para assistir a outro filme .
Chamava-se O Rei Amante, e era acerca de um rei disfarçado , um jo­
vem encantador com cabelo preto e ondulado e uns olhos que pare­
ciam derreter-se , que se casava com uma pobre rapariga do campo que
era mais linda do que todas as princesas e damas da terra. Saía música
do ecrã , e vozes a falar, e Rosaleen chorou , pois as músicas românticas
atingiam-lhe o coração como uma adaga.
Depois só havia tempo para ir de táxi até à Christopher Street e
apanhar o barco . Sentiu-se mais feliz assim que entrou a bordo , sem­
pre adorara navios ! Jantou a pensar: "Aquele moço não tinha muito
estilo a servir. O Dennis nunca o teria mantido no hotel" ; e depois
sentou-se no salão e ouviu rádio até quase adormecer ali antes de toda
a gente . Deitou-se no seu beliche estreito e sentiu o motor a trabalhar
debaixo de si , e a grandiosa batida constante abanava-a até à própria
medula. A buzina de nevoeiro uivou e chorou atravessando a escuri­
dão sobre a corrente de água, e Rosaleen virou-se de lado . "Uiva por
mim , era assim que eu chorava à noite naquele lugar perdido e here­
ge" , pois por aquela altura o Connecticut parecia-lhe ficar a mil qui­
lómetros e a uma centena de anos de distância. Adormeceu e não teve
sonho algum.
1 32 Katherine Anne Porter

De manhã, considerou que isso era bom sinal . Em Providence ,


voltou a apanhar um comboio e , à medida que o reencontro com
Honora se aproximava, foi ficando abatida e cansada. "A Honora
está sempre a arranj ar problemas" , pensou ela, diante da estação a
segurar a mala e a achar estranho não se ter lembrado de que Boston
era um sítio feio e desolado ; não se lembrava c_le alguma vez ter pas­
sado bons momentos ali . Os taxistas gritavam-lhe . Talvez fosse boa
ideia ir a uma igrej a e acender uma vela por Honora . O táxi acelerou
por ruas serpenteantes até à igreja mais próxima , com Rosaleen a
pensar: o que não daria para poder andar de carro todo o dia e nunca
ter de caminhar !
Ajoelhou-se perto do altar elevado , e algo lhe cresceu no coração
e forçou lágrimas a saírem-lhe pelos olhos . Preces começaram a
atropelar-se umas às outras nos seus lábios . Quanto tempo pass ara
desde que vira a igrej a como devia ser, ornamentada para uma cele­
bração , com velas e flores , a cheirar a incenso e a cera . A pequena e
triste igrej a de Winston , ora , quem conseguiria realmente rezar ali?
"Tende piedade de nós" , disse Rosaleen , invocando cinquenta santos
ao mesmo tempo ; "Confesso . . . " , bateu no peito três vezes e depois
ergueu-se de súbito , levando a mala, e espreitou para os confessioná­
rio s , esperando encontrar um padre dentro de um deles . "É demasia­
do cedo , ou não é o dia certo , mas hei-de voltar" , prometeu a si
mesma com ternura . Acendeu uma vela por Honora e foi-se embora ,
sentindo-se quente e tranquila. Também estava cega e confusa e não
conseguia decidir-se quanto ao que fazer em seguida . Para onde de­
veria virar? Era um pecado ardente gastar dinheiro em táxis quando
havia sempre pobres com fome no mundo , mas não obstante chamou
um e indicou-lhe o número da casa de Honora . Sim, ali estava, tal e
qual como nos velhos tempos .
Leu os nomes nos dísticos por cima das campainhas , todos os anda­
res , frente e traseiras , mas o nome de Honora não se contava entre eles .
O porteiro nunca tinha ouvido falar de Mrs . Terence Gogarty, nem de
Mrs . Honora Gogarty. Talvez estivesse na lista telefónica. Havia vários
Gogarty, mas nenhum era Terence ou Honora. Rosaleen conteve o
impulso de contar ao porteiro , um bom irlandês , que o sonho lhe pre­
gara uma partida. "Muito obrigada, não tem importância" , disse ela, e
voltou para a rua. O vento zurzia-lhe os ombros através do casaco es­
farrapado , e a mala era demasiado pesada . Ora, em que género de es­
tado mental se encontraria Honora para não escrever a indicar que se
tinha mudado?
Caminhando com a cabeça em alvoroço , chegou a uma pequena
praça suja, com bancos de ferro e umas quantas árvores nuas . Sentando­
-se, recomeçou a chorar. Quando um lenço ficou molhado , agarrou
noutro , e o perfume fresco deu-lhe novo ânimo . Olhou em volta quando
uma sombra surgiu na periferia da sua visão , e viu , curvado na outra
ponta do banco , um pobre moço sardento , com o colarinho do casaco
virado até às orelhas e o cabelo ruivo abatido na testa, sob o gorro vo­
lumoso . Ele inclinou os olhos de groselha para ela e comentou: "Todos
temos algo por que chorar neste mundo , não é verdade?"
Rosaleen disse : "Estou a chorar porque vim de muito longe para
nada."
O rapaz afirmou: "Percebi que era uma mulher de County Sligo
assim que lhe pus a vista em cima ."
"Que Deus o abençoe por isso" , disse Rosaleen , "pois sou mesmo ."
"Eu também vim de County Sligo , há muito tempo , e amaldiçoo o
dia em que sequer pensei deixá-lo" , disse o rapaz , com tamanha raiva
que Rosaleen secou os olhos de uma vez por todas e se virou para o
ver bem .
"Mas o que o faz dizer isso?" , perguntou-lhe . "É um bom país , este .
Há oportunidades para toda a gente ."
"Foi o que ouvi dizer, vezes sem conto" , ripostou o rapaz . "Há toda
a oportunidade do mundo inteiro para mirrarmos de fome e gastarmos
a sola das botas à caça de trabalho , e há uma grande probabilidade de
acabarmos por morrer na sarjeta . Que Deus me perdoe o primeiro
pensamento que tive acerca de vir para cá."
"Não chegou há muito?" , perguntou-lhe Rosaleen .
"Faz hoje onze meses e cinco dias " , respondeu o rapaz . Enfiou as
mãos nos bolsos e fitou a lama enregelada que se amontoava à volta
dos seus desafortunados sapatos .
"E o que poderia fazer para ganhar a vida?"
"Sou moço de estrebaria" , disse ele . "Costumava trabalhar nas pis­
tas de corridas de Dublin , até . Nenhum homem pode ensinar-me coisas
acerca de cavalos" , acrescentou orgulhosamente . "E é bom trabalho ,
quando se arranja."
Rosaleen fitou-lhe atentamente o nariz aguçado e vermelho , gelado
que estava, o ar magoado que lhe rodeava os olhos , os ossos afilados
que se lhe espetavam dos pulsos , e ficou surpreendida consigo mesma
por ter pensado , à primeira vista, que ele tinha o aspecto de Kevin .
Agora percebia que não , mas imagine-se que era Kevin ! Melhor seria
estar morto e desaparecido . "Estou a desfalecer de fome e frio" , disse-
1 34 Katherine Anne Porter

-lhe , "e se soubesse onde há um sítio para se comer, podíamos almo­


çar, pois já é tarde ."
Os olhos dele pareciam os de um náufrago . "Podíamos? Eu conheço
um sítio ! " , e levantou-se de um pulo , como se fizesse tenções de cor­
rer. De facto quase correram até ao fundo da praça, para a esquina mais
afastada. Era um Coffee Pot , que cheirava a �olos quentes . "Vamos
ficar saciados aqui" , comentou Rosaleen enquanto descalçava as lu­
vas , "ainda que nunca dissesse que se trata de um lugar grandioso."
O rapaz foi comendo uma coisa atrás da outra como se nunca fosse
parar: rosbife e batatas e esparguete e tarte de natas e café , e Rosaleen
pediu um maço de cigarros . Ela era assim , afeiçoara-se ao cheiro do
tabaco , o seu marido era um fumador conhecido , nunca andava sem o
seu cachimbo . "Não vale a pena escondê-lo" , disse o rapaz . "Não te­
nho um centavo , ontem e hoje até agora não tinha comido , e tenho tido
vontade de me enforcar, ou de ir para a cadeia , para ter um sítio onde
pousar a cabeça."
Rosaleen disse : "Eu sou uma mulher que não tem de pensar em di­
nheiro , tenho tudo o que o meu coração possa desejar e um moço como
você tem o direito de não dar importância a um pequeno empréstimo
do qual nunca se dará falta ." Remexeu na mala e tirou de lá uma nota
de dez dólares , amarrotou-a e empurrou-a até ao rebordo do pires dele ,
para que o homem atrás do balcão não reparasse . "Isso é para lhe dar
sorte no novo mundo" , disse ela, a sorrir-lhe . "Podia ser o Kevin , ou o
meu próprio irmão , ou o meu próprio rapazinho sozinho no mundo , e
o dinheiro certamente voltará se eu alguma vez precisar."
O rapaz disse : "Nunca pensei que fosse ver este dia" , e guardou-o
no bolso .
Rosaleen exclamou : "Nem sequer sei o seu nome , imagine-se ! "
"Sou um pobre diabo que se chama Sullivan" , disse ele . "É Hugh
- Hugh Sullivan ."
"É um nome bastante bom" , comentou Rosaleen . "Tenho . primos
chamados Sullivan em Dublin , mas nunca vi nenhum deles . Havia um
homem chamado Sullivan casado com a irmã da minha mãe , era a
minha tia Brigid , que foi viver para Dublin . Não é da farm1ia dos Sulli­
vans de Dublin , pois não?"
"Nunca ouvi falar, mas se calhar sou ."
"A mim parece-me que tem ar de Sullivan" , disse Rosaleen , "e eles
são meus primos , alguns deles ." Pediu mais café , ele acendeu outro
cigarro e ela contou-lhe que tinha chegado mais de vinte e cinco anos
antes , tão verde quanto ele , e que tudo se resolvera bem , para si e para
A Torre Inclinada e Outros Contos 135 .

toda a farm1ia que para ali fora . Depois falou-lhe do marido , que tinha
sido chefe de mesa e endinheirado , mas que estava velho ; falou-lhe da
quinta, disse-lhe que , com alguém para a ajudar, poderiam transformá­
-la em algo bom; e falou-lhe de Kevin , da forma como ele se tinha ido
embora e morrido e enviado notícias num sonho ; e isso levou-a ao
sonho acerca de Honora, e ali estava ela, a primeira vez que um sonho
a tinha enganado . Continuou , dizendo que havia sempre espaço para
um moço determinado no campo , se sabia de cavalos , e que era uma
pena que ele andasse a vagabundear pelas ruas de estômago vazio ,
quando havia tudo o que era preciso , bastava saber-se onde procurar.
Debruçou-se sobre a mesa e agarrou-lhe o braço com grande urgência.
"Tem direito a viver numa boa casa irlandesa" , disse-lhe . "Porque
não vem para casa comigo e vive lá como membro da farm1ia, em paz
e conforto?"
Hugh Sullivan fitou-a pelos seus olhos foscos e verdes , do alto do
nariz afilado , e um ar matreiro ocupou-lhe o rosto . "Havia de ser peri­
goso" , disse ele . "Detestaria tentar isso."
"Perigoso , ai sim?" , perguntou Rosaleen . "Mas que perigo há no
campo pacífico?"
"Não é seguro de todo" , disse Hugh . "Uma vez fui apanhado nisso
em Dublin , e foi uma barafunda ! Toda elegante como a senhora , ela, e
o marido a espreitar por uma nesga na porta durante o tempo todo .
Bem, isso é que foi uma vergonha ! "
O s ossos de Rosaleen entenderam antes de a sua mente compreen­
der o conceito . "O que . . . " , começou ela, e depois o sangue ferveu-lhe
no rosto até este parecer estar por trás de um véu vermelho . "Seu pir­
ralho" , disse ela, tentando recuperar o fôlego , "é desse género que é ,
sim? Vê-se logo que é de Dublin ! Nunca, e m toda a minha vida . . . " A
fúria crescia como uma fogueira dentro de si e ela deteve-se . "Se eu
andasse à procura de um homem" , disse ela, "escolheria um homem,
não um catraio meio . . . " Inspirou profundamente e recomeçou: "Que
atrevimento" , insurgiu-se , "insultar uma mulher que poderia ser sua
mãe . Deus me livre ! É óbvio que não passa de um garoto inexperiente ,
que não conhece os modos das pessoas decentes , e agora ponha-se a
andar . . . " Levantou-se e fez sinal ao homem ao balcão . "Saia já por
aquela porta . . . "
Ele também se levantou , olhando em redor com um ar receoso nos
olhos estreitos e verdes , e ergueu uma mão como se fosse tentar fazer
as pazes com ela. "Não se exalte tanto , mulher, qualquer homem pen­
saria isso , da forma como estava . . . "
1 36 Katherine Anne Porter

Rosaleen interrompeu-o: "Tento na língua ou arranco-lha da cabe­


ça ! " , e o seu braço voltou a colocar-se numa posição séria.
Ele desviou-se e passou por ela a correr, depois recompôs-se e parou
fora do alcance dela . "Adeus , mulher de County S ligo" , disse num tom
provocador. "Eu cá sou de County Cork ! " , e dardejou porta fora.
Rosaleen tremia tanto que mal conseguia encontrar o dinheiro para
pagar a conta , e não via o caminho à frente , inas quando o ar frio a
atingiu , espaireceu e quase rogou uma praga a Honora por lhe causar
todos aqueles problemas . . .
Apanhou o comboio mais rápido para casa, pois para si o sabor da
viagem azedara por completo . Queria estar em casa e em nenhum ou­
tro lugar. Aquele rapaz desavergonhado , o que lhe passaria pela cabe­
ça? "Os moços são mesmo conhecidos por terem mentes cruéis" , disse
a si mesma, com o sangue a encapelar-se-lhe nas veias . Mas ele tinha
dito : "Toda elegante como a senhora" , e talvez tivesse conhecido de­
masiadas mulheres ousadas e achasse que eram todas idênticas ; talvez
ela tivesse sido demasiado descontraída nos seus modos por ele ser
irlandês e parecer tão triste e pobre . Mas lá estava, era um tipo mise­
rável , e teria feito amor com ela se ela não o tivesse impedido , talvez .
A imagem ocorreu-lhe e ela viu-a, clara como água - Kevin tinha-a
amado durante todo o tempo e ela mandara-o embora para aquela mo­
ça vulgar que não era suficientemente boa para ele ! E Kevin, um rapaz
doce e decente que preferiria cortar a mão direita a dirigir-lhe uma
palavra imprópria . Kevin amara-a e ela amara Kevin e, oh , não o sou­
bera a tempo ! Encolheu-se contra o canto , com o cotovelo no caixilho ,
o velho colarinho de pêlo puxado para cima à volta do rosto , e chorou
longa e amargamente por Kevin , que teria ficado se ela lho tivesse
pedido - e agora estava desaparecido , perdido e morto . Ela ia escon­
der-se do mundo e nunca mai S falar com ninguém .

"Está sã e salva, Dennis" , disse-lhe Rosaleen . "Esteve em perigo ,


mas isso já passou . Deixei-a de boa saúde ."
"Isso é bom" , respondeu Denni s , sem entusiasmo . Tirou o chapéu
com abas para as orelhas e passou os dedos pelo cabelo macio e bran­
co , voltou a pô-lo e ficou à espera de ouvir as maravilhas da viagem;
porém, Rosaleen não tinha histórias para contar e estava muito compe­
netrada no regresso a casa.
"Esta cozinha está uma desgraça" , disse ela, pondo as coisas nos
sítios certos . "Mas por nada deste mundo eu iria viver para a cidade ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 37

Dennis . É um sítio selvagem e desapiedado , cheio de criminosos por


todos os lado s , até onde o olhar alcança. Passei o tempo todo a temer
pela vida. Acende a lamparina, acendes?"
O rapaz índio estava sentado a aquecer os grandes pés em frente ao
forno e os seus dentes matraqueavam com algo mais do que frio . Ex­
clamou: "Eu vi uma coisa chegar pela estrada há tempos . Primeiro ia
de gatas como um cão e depois levantou-se e andou ao meu lado nas
patas traseiras . Tive medo , pois tive . Disse-lhe Xô ! , e ele apagou-se ,
como uma luz ."
"Se calhar era um cão" , disse Dennis .
"Não era cão nenhum" , insistiu o rapaz .
"Talvez fosse um gato a levantar-se para trepar uma cerca" , sugeriu
Rosaleen .
"Também não era gato nenhum" , disse o rapaz . "Não era nada que
eu alguma vez tivesse visto , nem vocês . "
"Não te preocupes com isso" , disse-lhe Rosaleen . "Já o vi , muitas
vezes , quando era pequena na Irlanda. Lá é famoso , chega num monte
preto e rola pelo caminho à nossa frente , mas se chamarmos o Santo
Nome e fizermos o sinal da Cruz , foge . Agora come o j antar e passa cá
esta noite ; não podes ir sozinho com o Mal à tua espera ."
Deitou-o no quarto de Kevin e manteve Dennis acordado até altas
horas , a falar-lhe dos fantasmas que vira em Sligo . A viagem a Boston
parecia ter-se-lhe apagado por completo da memória .
D e manhã, o cão preto e esfomeado d o rapaz pôs-se d e p é diante da
porta aberta da cozinha e fitou o dono com um ar triste . Os gatos
passaram em grupo e, silenciosa e intencionalmente , perseguiram-no
até bem longe na estrada . O rapaz estacou junto ao patamar e recome­
çou a tremer. "A velha disse-me que voltasse a tempo de j antar" ,
disse num tom inexpressivo . "Como é que agora vou voltar a tempo
de j antar? O velho vai esfolar-me vivo ."
Rosaleen passou o xaile de lã verde à volta da cabeça e dos ombros .
"Eu vou contigo e conto-lhes o que aconteceu" , disse ela. "Ele não vão
fazer-te mal se souberem a verdade ." Ele tremia de susto , tanto que os
joelhos lhe falharam. "Ele está perdido na sua mente" , pensou ela, com
pena . "Porque não poderão eles perceber isso e deixá-lo em paz?"
A inclinação constante da via prolongava-se por quase dois quilóme­
tro s , transformando-se então num caminho irregular que levava a uma
casa abandonada com degraus partidos e um monte de lixo à volta.
O rapaz ia-se deixando ficar cada vez mais para trás e estacou quando
a mulher descomposta e de dentes compridos , a usar um vestido cinzen-
138 Katherine Anne Porter

to , saiu com um pau de atiçar o lume . A mulher também estacou ao


reconhecer Rosaleen , e um ar sabido e frio ocupou-lhe o rosto .
"Bom dia" , disse Rosaleen . "Ontem à noite o seu rapaz viu um fan­
tasma e eu não fui capaz de o mandar embora às escuras . Dormiu em
segurança na minha casa."
A mulher emitiu um latido seco , agudo , como o de uma raposa.
"Fantasmas ! " , exclamou ela. "Pelo que me consta , há mais do que
fantasmas à volta da sua casa à noite , Missis O ' Toole ." Abanou a ca­
beça e as madeixas desgrenhadas do seu cabelo castanho e baço agita­
ram-se . "É uma autêntica personagem, Missis O ' Toole , com o seu
marido velho e os jovens na sua casa e os vendedores ambulantes e os
bêbados que estão a toda a hora à sua porta . . . "
"Tento na língua à frente do seu rapaz" , disse Rosaleen , com a nuca
a começar a arrepiar-se . Estava tão surpreendida que não conseguia
encontrar uma resposta pronta, ficando estacada a ouvir.
"É uma bela visão , Missis O ' Toole" , disse a mulher, erguendo um
pouco a voz aguda, mas falando com uma lentidão fria e letal . "Com
as viagens sem o seu marido e os seus vestidos de cores berrantes e o
seu cabelo pintado . . . "
"Que Deus lhe faça cair um raio em cima" , interrompeu Rosaleen ,
de súbito a erguer a voz , "se diz isso acerca do meu cabelo ! E que
pelo resto lhe apodreça a língua malévola na cabeça, mais os dentes !
Não vou desperdiçar palavreado consigo ! Aqui está o seu pobre rapaz
e que Deus se apiede dele na sua casa, desgraçado ! E se a minha casa
arder por cima da minha cabeça , eu vou saber quem o fez ! " Afastou-se
e virou-se de supetão para gritar: "Que passe dez anos a morrer ! "
"Pode praguejar e rogar pragas à vontade , Missis O ' Toole , mas todo
o campo sabe de si ! " , exclamou a outra, a brandir o pau como se fosse
uma lança.
"Muito bem isso lhes há-de fazer ! " , berrou Rosaleen , afastando-se
numa fúria tremenda . "Pintado , ai é?" Ergueu o punho cerrado e agi­
tou-o ao mundo . "Oh , que mentirosa ! " , e a raiva era como um tambor
que marcava o tempo da marcha das suas pernas . O que estaria a acon­
tecer naqueles dias , em que toda a gente que encontrava tinha pensa­
mentos porcos e línguas suj as nas cabeças? Oh , porque não era sufi­
cientemente forte para os estrangular a todos de uma vez? Ardiam-lhe
tanto os olhos que nem conseguia fechar as pálpebras sobre eles .
Continuou de olhar fixo , a caminhar, até dar por si diante da sua pró­
pria casa, instalada como uma galinha sossegada num ninho de neve .
Abrandou , o coração acelerado acalmou um pouco e ela sentou-se
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 39

numa pedra junto à estrada para recuperar o fôlego e recompor as


ideias antes de ver Dennis . Ali sentada, ocorreu-lhe que o Mal que
percorria aquelas estradas à noite eram as mentiras amargas que as
pessoas vinham a contar a seu respeito , logo ela que sempre fora uma
boa mulher, quando qualquer outra se teria desviado do caminho certo .
Não lhe oferecia conforto algum agora recordar todas as vezes em que
poderia ter agido mal e não o fizera. De que servia isso , se mesmo
assim a vilipendiavam? Aquele moço de Boston - o pirralho . Cuspiu
no chão gelado e limpou a boca. Depois pousou os cotovelos nos joe­
lhos e a cabeça nas mãos , e pensou : "Então é assim que as coisas são
aqui , é? Foi a isto que a minha vida chegou , sou uma mulher mal­
-afamada entre os vizinhos ."
Demorando-se naquele estranho pensamento , a pouco e pouco co­
meçou a sentir-se melhor. Inveja, era claro , era isso . "Ah , o que não
daria aquela pobre criatura para ter o meu cabelo?" e tocou-lhe com
ternura. Desde o início que assim era , as mulheres tinham invej a , por­
que os homens andavam todos atrás de si, como se ela tivesse culpa
disso ! Bem, pois que falassem. Que falassem . Ela sabia no seu íntimo
o que era, e Dennis sabia, e isso bastava.
"A vida é um sonho" , disse em voz alta, numa melancolia suave e
delicada. "Não passa de um mero sonho ." A ideia e as palavras agra­
davam-lhe , e ela fitou com prazer as pedras soltas do muro do outro
lado da estrada, castanho-escuras , com a ligeira camada brilhante de
gelo , num torpor confortável , até que começou a sentir os pés gelados .
"Não posso deixar-me ficar aqui e receber a morte tão cedo na mi­
nha vida" , admoestou-se , levantando-se e envolvendo cuidadosamente
o xaile à sua volta . Estava a pensar que aquela triste paisagem campes­
tre precisava de alguns corações jovens , e quem lhe dera que Kevin
regressasse para se rir consigo daquela mulher no alto da colina; com
ele , poderia simplesmente rir-se na cara deles ! Agora, aquele sonho
com Honora, isso não se revelara minimamente verdadeiro . Talvez o
sonho com Kevin também não o fosse . Depois de um sonho nos enga­
nar, seria tolo pensar que outro não poderia enganar-nos também; não
seria, não seria? Sorriu a Dennis , sentado diante do fogão .
"O que tinham os índios a dizer hoje de manhã?" , perguntou-lhe ele ,
tentando fingir que não lhe importava muito o que diziam .
"Oh , trocámos os cumprimentos da época" , disse Rosaleen . "Não
havia necessidade de mais conversa." Começou a cantar; sentia o co­
ração leve como uma folha e não seria capaz de explicar porquê , nem
que isso a matasse . Mas era uma boa mulher e mostrar-lhes-ia que ia
1 40 Katherine Anne Porter

sê-lo até ao fim dos seus dias . Ah , havia de lhes mostrar, criaturas de
pensamentos vis .
Ao final da tarde , instalaram-se junto ao fogão , Dennis a limpar e a
engraxar as botas , Rosaleen com a toalha comprida em que trabalhava
havia quinze anos . Dennis continuava a intrigar-se quanto ao que acon­
tecera em Boston , ou onde quer que fosse que ela tinha estado . Sabia que
nunca ouviria a verdade completa, mas queria a versão de Rosaleen . E
ali ficava ela, calada, a fazer uma data de pontos inúteis em algo que
nunca usaria, mesmo que viesse a acabá-lo , coisa que não aconteceria.
"Dennis" , disse-lhe ao fim de algum tempo , "já não encaro os so­
nhos com o mesmo respeito ."
"Isso talvez sej a uma coisa boa" , respondeu Dennis , com cautela.
"E porque não?"
"Tenho passado o dia inteiro a pensar que o Kevin não está nada
morto e que não tarda o veremos nesta mesma casa."
Dennis soltou um pequeno resmungo gutural . "Isso não é sinal ne­
nhum" , disse ele . E , para demonstrar que estava ressentido com ela,
pousou o cachimbo de sepiolita, encheu o velho de roseira brava e
acendeu-o . Rosaleen não reparou . O bordado tinha-lhe caído nos joe­
lhos e ela estava a ouvir o matraquear de uma carriola que descia a
estrada, com a voz de Richards a vociferar uma canção : "Tenho estado
a trabalhar nos caminhos-de-ferro, TODO o santo dia ! " Ela levantou­
-se , tirando ganchos do cabelo e voltando a pô-los , com as mãos a
tremer. Depois correu até ao espelho e viu ali o seu rosto , que se trans­
formava em formas capazes de assustar uma pessoa. "Oh , Dennis" ,
exclamou ela, como se tivesse sido aquele pensamento o que a levara
a sair da cadeira. "Esqueci-me de comprar um espelho , esqueci-me por
completo ! "
"É u m espelho suficientemente bom" , repetiu Dennis.
A carriola matraqueou junto ao portão , a canção parou . Ah , ele ia
entrar, certamente ! Passou-lhe pela cabeça que uma mulher poderia ter
uma vida arruinada com um homem daqueles , era cortejar a morte e o
perigo deixá-lo atravessar a soleira.
Impediu-se de correr até à porta, com a mão na maçaneta ainda
antes de ele bater. Depois as rodas voltaram a chiar e a dar em terra, a
canção recomeçou; se ele tinha pensado visitá-los , mudara de ideias e
seguira viagem, a caminho do baile de sábado à noite em Winston ,
com os seus comparsas patifes .
Rosaleen não sabia o que esperar, primeiro , e depois : decerto ele não
iria parar? Ah , decerto ele não iria seguir caminho? Voltou a sentar-se ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 141

com o coração perdido , e voltou a pegar n a toalha, mas durante muito


tempo não conseguiu ver os pontos . Estava a pensar no que acontecera
à sua vida; julgara todos os dias que algo maravilhoso ia acontecer, mas
tudo se resumia a passar de uma terrível desilusão para a seguinte . Ali ,
à luz da lamparina, estavam Dennis e os gatos , lá ao longe , na escuridão
e na neve , estavam Winston , Nova Iorque e Boston , e mais longe ainda
ficavam sítios cheios de vida e alegria que ela nunca vira, de que nem
sequer ouvira falar, e para além de tudo , como um campo verdejante
com o sol da manhã a iluminá-lo , ficava a juventude e a Irlanda como
se fossem algo com que ela sonhara ou uma história que tivesse inven­
tado . Ah, o que havia agora para recordar, ou para esperar? Sem pensar
em nada, debruçou-se e encostou a cabeça ao joelho de Dennis . "Mas
porque foi" , perguntou-lhe , numa voz normal , "que casaste com uma
mulher como eu?"
"Vê lá não tombes dessa cadeira agora" , disse Denni s . "Eu sabia
bem que nunca arranjaria melhor." O peito dele começou a desconge­
lar e a fervilhar. Tudo ia ficar bem , ele sabia.
Ela sentou-se e tocou-lhe nas mangas com cuidado . "Quero que te
agasalhes bem neste tempo terrível , Dennis " , disse-lhe . "Com dois
pares de meias e o protector do peito , pois se alguma coisa te aconte­
cesse , o que seria de mim neste mundo?"
"Não pensemos nisso" , disse Dennis , a arrastar os pés .
"Não pensemo s , então" , disse Rosaleen . "Pois eu choraria se tu me
apontasses um dedo ."

Cidade do México - Berlim, 1931


Hacienda

Valia o preço de um bilhete ver Kennedy apoderar-se do comboio


entre um povo escuro e inferior. Eu e Andreyev avançávamos sem
planos, atrás do seu progresso gigantesco (ele era um homem de altura
meramente normal , fisicamente mais alto por uma cabeça, talvez , do
que o índio mais próximo; contudo , a sua estatura moral naquele mo­
mento era incalculável) , pela carruagem de segunda classe em que tí­
nhamos entrado por engano , devido à pressa . . . Agora que a verdadei­
ra revolução de abençoada memória surgiu e passou no México , os
nomes de muitas coisas mudaram , quase sempre com o objectivo de
aparentar um bem-estar elevado para todas as criaturas . Assim, é im­
possível viaj ar em terceira classe , por mais pobre , humilde ou mísero
que se seja. Pode-se ir em segunda classe , em alegre desordem e so­
ciabilidade , ou em primeira, com um à-vontade sóbrio; ou , preferindo ,
é possível instalarmo-nos na sumptuosidade confortável dos vagões­
-cama Pullman, isolados e invejados como qualquer general bem-su­
cedido do Norte . "Ah , é tão belo como um pulman!" , exclama o me­
xicano de classe média quando deseja elogiar verdadeiramente alguma
coisa. . . Não havia nenhum Pullman neste comboio , caso contrário
encontrar-nos-íamos inevitavelmente nele . Kennedy viaj ava assim .
Abria caminho poderosamente , abanando o braço livre , carregando o
portefólio e a mala de cabedal , retesando as narinas de forma tão cons­
pícua como era capaz para se defender do cheiro que "emanava" , dizia
ele , "simplesmente emanava como sopa de ervilhas bolorenta ! " do
enxame de crianças molhadas , perus amarrados , bácoros indignados ,
cabazes de comida , molhos de vegetais e fardos , canastas de produtos
domésticos , era uma pequena montanha de confusão mas formava
uma unidade , do meio da qual os proprietários olhavam descontraida­
mente dos seus rostos escuros e satisfeitos para os transeuntes desco-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 43

nhecidos . O agrado deles nada tinha que ver connosco . Estavam satis­
feitos porque , sentados e sem se mexer, sem sequer o esforço de picar
um burro , iam a ser transportados para onde desejavam ir, conseguindo
numa hora o que de outra forma seria uma jornada árdua, com todo o
lar às costas . . . Quase nada pode perturbar-lhes o êxtase tranquilo
quando finalmente se instalam entre os seus produtos , e o motor, mis­
teriosa e poderosamente animado , os transporta levemente pelos qui­
lómetros que tantas vezes contaram , passo por passo . E não se inco­
modam com o homem branco barulhento porque , por esta altura, já se
habituaram a ele . Para os índios , todos os brancos são parecidos , e eles
já viram muitas vezes este tipo enlouquecido de olhos claros e cabelo
cor de cabedal a batalhar assim com este desespero pela carruagem
deles . Há sempre um deles em cada comboio . Assistem ao acto dele
com toda a atenção que podem dispensar dos seus assuntos sempre
interessantes; faz parte da paisagem .
Ele abriu a porta e fez-nos gestos selvagens quando lhe demos mos­
tras de irmos parar onde estávamos . "Não , não ! " , urrou . "NÃO ! Aqui
não . Isto nunca servirá para si" , disse ele , fitando-me com um olhar
muito sério , a proteger-me , a uma dama. Segui-o , tentando tranquilizá­
-lo através de acenos de cabeça e de mão . Andreyev vinha a seguir, a
passar delicadamente por cima de objectos pesados e de seres peque­
nos , trocando olhares rápidos com muitos pares de olhos escuros cal­
mos e animados .
A carruagem da primeira classe tinha sido agradavelmente varrida,
não continha índios que se vissem e levava a maior parte das j anelas
abertas . Kennedy lançou malas para as prateleiras , puxou assentos
com brusquidão e espalhou casacos e lenços até , com grande clamor,
nos ter construído um ninho no qual poderíamos enroscar-nos uns de
frente para os outros , temporariamente a salvo da situação apavorante
de sermos três indivíduos deveras superiores da casta intelectual da
raça dominante em geral e praticamente indefesos num país assim !
Kennedy quase se engasgava ao tentar falar daquilo . Fora para si mes­
mo que construíra o ninho , na verdade: ele tinha a certeza do que era.
Quanto a mim e a Andreyev, éramos incluídos por cortesia: Andreyev
era um comunista, e eu uma escritora, ou pelo menos era o que tinham
dito a Kennedy. Até uma semana antes , ele nunca ouvira falar de mim,
nunca conhecera alguém que tivesse ouvido , e de facto cabia a An­
dreyev, que me convidara a participar nesta viagem , cuidar de mim .
Contudo , Andreyev levava tudo com calma , não era desconfiado , nun­
ca fazia perguntas e não tinha qualquer sentido de responsabilidade
1 44 Katherine Anne Porter

social - pelo menos não daquilo a que Kennedy daria tal nome; por
isso , era inútil esperar o que quer que fosse dele .
Eu já tinha provado que me faltava qualquer coisa, ao chegar em
primeiro lugar à estação e comprar o meu próprio bilhete , quando Ken­
nedy me avisara que me encontrasse com eles junto à janela da primei­
ra classe , pois eles chegariam directamente de outra cidade . Ao desco­
brir isto , ele conseguira encher-me de vergonha e confusão . "Devia ser
nossa convidada" , censurou-me amargamente , agarrando no meu bilhe­
te e entregando-o ao maquinista como se eu me tivesse apossado dele
para meu próprio uso , tirando-lho do bolso , o que me privava publica­
mente da condição de convidada de uma vez por todas , ao que parecia.
Andreyev também me criticou: "Nenhum de nós deveria desperdiçar
dinheiro , sendo Kennedy tão rico e caridoso." Kennedy, que estava a
guardar a sua carteira de pele , interrompeu-se , lançou um olhar cego a
Andreyev, saltou como se acabasse de descobrir que fora apunhalado
de um lado ao outro , insurgiu-se: "Rico? Eu , rico? O que quer dizer
com isso , rico?" , e fumegou por um momento , à espera de que , de al­
guma maneira, a réplica adequada emergisse; mas isso não aconteceu .
Por isso , amuou durante algum tempo , levantou-se e mudou as malas
de sítio , sentou-se , apalpou todos os bolsos para se assegurar de qual­
quer coisa, recostou-se e quis saber se eu tinha reparado que ele carre ­
gava as suas próprias malas . Era porque estava farto de ser intrujado
por aquela gente . Sempre que deixava que um tipo lhe levasse as malas ,
tinha de lutar até à morte em simples autodefesa. Literalmente , em toda
a sua vida nunca se deparara com corja de bandidos semelhante à da­
queles carregadores dos comboios . Para mais , só de pensar no risco de
infecção daquelas patas nojentas nas pegas das nossas malas . . . era um
perigo maldito , se queríamos saber a sua opinião .
Eu estava a pensar que os estrangeiros em viagem se agrupavam em
três ou quatro géneros de gravações fonográficas e que , de todos esse s ,
aquele de que e u menos gostava era d o de Kennedy. Andreyev rara­
mente lhe dirigia os olhos límpidos , directos e cinzentos , nos quais se
mesclavam tantos tipos diferentes de sentimentos contra Kennedy que
a expressão total se tomara uma espécie de paciência exasperada.
Recostando-se , tirou uma pasta de fotografias , cenas do filme que ti­
nham estado a realizar por todo o país , equilibrou-as nos joelhos e
começou no ponto em que se tinha interrompido a respeito da Rús­
sia . . . Kennedy passou para o seu canto , longe de nós , e virou-se para
a j anela, como se desejasse evitar ouvir uma conversa privada. O Sol
brilhava quando saímos da Cidade do México mas , quilómetro a qui-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 45

lómetro , pelo solene vale das pirâmides , subíamos através dos campos
de agaves em direcção à trovejante nuvem azul solidamente instalada
a leste , até esta se dissolver e nos receber de forma delicada com uma
chuva pálida e silenciosa. Púnhamos a cabeça de fora da janela de
cada vez que o comboio parava, suscitando esperanças falsas nos co­
rações das índias que corriam ao nosso lado , de rostos atirados para
trás e braços esticados para cima mesmo depois de o comboio começar
a afastar-se .
"Pulque fresco ! " , instavam com vozes lamentosas , erguendo os
j arros de argila cheios de uma bebida espessa, branco-acinzentada.
"Gusanos frescos de agave ! " , gritavam , desesperadas , sobre o fragor
das rodas em movimento , agitando as trouxas de folhas como ramos
de flores , viscosas e pesadas com as minhocas que tinham apanhado ,
uma de cada vez , do cacto cujo coração sangra a água melosa com a
qual se prepara o pulque . Acompanhavam-nos a correr, ainda com
esperança , com os seus dedos castanhos a segurarem as trouxas ao
de leve , apenas pelas pontas , preparadas para as atirarem se os via­
j antes mudassem de ideias e as comprassem , mesmo então , até o
motor as superar, ao que as suas vozes flutuavam na distância e elas
ficavam amalgamadas , um pequeno amontoado de saias e xailes de
um azul desbotado , sob a chuva indiferente .
Kennerly abriu três garrafas de cerveja amarga e morna. "A água é
nojenta ! " , disse com grande veemência , antes de tomar um portentoso
e gorgolejante trago da sua garrafa . "Não é horrível , as coisas que eles
comem e bebem?" , perguntou , como se , independentemente do que
pudéssemos dizer na nossa loucura (pois ele não confiava em qual­
quer um de nós) , já conhecesse a única resposta possível . Estremeceu
e, por um momento , não conseguiu engolir o seu pedaço de doce
chocolate norte-americano : "Acabo de regressar" , disse-me , tentando
justificar a sua sensibilidade extrema naquelas questões , "da terra de
Deus" , referindo-se à Califórnia . Descascou uma laranj a marcada
com tinta roxa . "Vou simplesmente ter de voltar a habituar-me a tudo
isto . Que alívio comer fruta que não esteja cheia de germes . Trouxe-as
de casa." (Não me custava imaginá-lo a atravessar o deserto de Sono­
ra com um saco de lona cheio de laranjas .) "Tome uma . Sej a como
for, está limpa."
Kennerly também era muito limpo , uma crítica andante ao desma­
zelo: lavado , barbeado , aparado , engomado , polido , a cheirar a sabo­
nete , activo e com um ar firme nos seus tecidos de tweed cor de palha.
Nesse capítulo , uma bela figura masculina, com a frugalidade adequa-
1 46 Katherine Anne Porter

da a um animal saudável . Quanto a isso , não havia defeito que eu


pudesse encontrar-lhe . Algum dia hei-de escrever um poema dedicado
a gatinhos que se lavam de manhã; a índios que esfregam as roupas
até as esgaçarem e os corpos até que fiquem lustrosos , com grandes
placas de sabão de cheiro doce e forte e fiapos de fibra de sisai , à
sombra de árvores , nas margens de rios ao meio-:-dia; a cavalos que se
rebolam , espraiam , resfolegam e esfregam na erva para purificarem as
peles saudáveis ; a crianças nuas a gritarem em piscinas ; a galinhas
que cantam nos seus banhos de pó; a sóbrios pais de fann1ia que se
distraem a cantar sob o fluxo discreto da água da torneira; a pássaros
nos ramos a eriçarem e olearem as penas , encantados ; a raparigas e
rapazes a adornarem-se como cestas de fruta uns para os outros: a
todas as criaturas florescentes que se apresentam asseadas e arranja­
das para a maior glória da vida . Mas Kennerly perdera-se nalgum
ponto: exagerara; tinha o ar atormentado de um homem à beira da
bancarrota, que mantém um estabelecimento dispendioso por não se
atrever a recuar. Os seus nervos eram nódulos de galhos secos , arpoa­
vam-lhe as entranhas de cada vez que um pensamento se lhe agitava
na cabeça , mantinham-lhe os olhos azuis inexpressivos fixos numa
mirada branca . Os músculos dos maxilares remexiam-se numa raiva
contínua e impotente . Oito meses passados no México, na qualidade
de gestor comercial de três cineastas russos , quase tinham acabado
com ele , contou-me , como se Andreyev, um dos três , não estivesse
presente .
"Ah , ele devia era ter sido nosso gestor comercial pela China e pela
Mongólia" , disse-me Andreyev, como se falasse de um Kennerly au­
sente . "Depois disso , o México nunca poderia incomodá-lo ."
"A altitude ! " , exclamou Kennerly. "O meu coração até pára. Não
consigo pregar olho ! "
"Não havia altitude alguma e m Tehuantepéc" , disse Andreyev, com
uma ligeireza obstinada, "e havia de o ter visto lá."
Kennerly desembuchava as suas maleitas como uma criança doente .
"São estes mexicanos" , disse , como se fosse um ultraje encontrá-los
no México . "Dão com um homem em doido num abrir e fechar de
olhos . Em Tehuantepéc foi assustador." Demoraria uma semana para
contar a história toda; e , para mai s , estava a tomar notas e ia escrever
um livro acerca diss o , um dia; mas , "Só para dar um exemplo , não
sabem o que é o tempo e não dão o mais pequeno valor à sua palavra ."
Tinham de os subornar a cada etapa do percurso . Luvas , subornos ,
luvas , subornos , era assim de manhã à noite , de tudo , desde cinquenta
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 47

pesos para os Espertalhões nos conselhos municipais a um saco de


doces para um presidente de câmara da província, antes de terem se­
quer autorização para montarem as câmaras . Os mosquitos comiam-no
vivo . E com os insectos e as baratas e a comida e o calor e a água,
toda a gente ficou doente: Stepanov, o operador de câmara, ficou doen­
te ; Andreyev ficou doente . . .
"Não foi grave" , disse Andreyev.
Até o imortal Uspensky tinha ficado doente; e, quanto a ele , Ken­
nedy, mais do que uma vez julgara que não poderia sobreviver. Disen­
teria amebiana . Não se lhe podia contar. Ora, era um milagre que não
tivessem morrido todos ou que não lhes tivessem cortado o pescoço .
Ora , era pior do que África . . .
"Também esteve em África?" , perguntou-lhe Andreyev. "Porque es­
colhe sempre estes países inconvenientes?"
Bem, não , não estivera lá, mas tinha amigos que tinham feito um
filme entre os pigmeus e não dava para acreditar naquilo por que ha­
viam passado . Quanto a ele , Kennedy, que viessem os pigmeus , os
caçadores de cabeças ou até mesmo canibais . Ao menos com esses
sabia-se em que ponto se estava. Agora , por exemplo: eles tinham
perdido dez mil dólares limpos por obedecerem às leis do país - algo
que mais ninguém faz ! - passando o filme sobre o terramoto de Oa­
xaca pelo comité de censura da Cidade do México . Entretanto , alguns
patifes nativos que sabiam como eram as coisas tinham-lhes levado a
melhor e enviado uma bobina completa para Nova Iorque . Ter cons­
ciência não dá lucro , mas quando se tem , o que se há-de fazer? Des­
perdiçar o tempo e o dinheiro , nada mais . Ele escrevera e protestara
junto dos censores , denunciando que deixavam a companhia cinema­
tográfica mexicana sair impune até de homicídio , acusando-os de fa­
voritismo e malícia deliberada ao deterem o filme russo - tudo , nu­
ma carta dactilografada de cinco páginas . Eles nem sequer tinham
respondido . Agora o que fazer com gente assim? Luvas , subornos ,
subornos , luvas , era assim que era . Bem , ele também tinha vindo a
aprender. "O que quer que peçam , eu dou-lhes metade dessa quantia,
e isso aplica-se a todos" , explicou . "Digo-lhes: ' Ouçam bem , vou dar­
-vos metade desse valor e qualquer coisa mais do que isso é peita e
corrupção , compreendem? ' E eles aceitam? Em menos de nada. Ah ! "
A sua voz portentosa e monocórdica raiava o agonizante , enquanto
os olhos fixos acusavam tudo em que se concentravam . Raspavam,
crepitavam , os galhos secos das suas terminações nervosas à menor
agitação de memória, a cada toque presente , a cada voo frio do futuro .
1 48 Katherine Anne Porter

Ele continuava . . . Temia o cunhado , um proibicionista violento que


ficaria furioso se alguma vez ouvisse dizer que Kennedy tinha voltado
a beber cervej a em público assim que saíra da Califórnia. De certa
forma , o seu emprego estava em risco , pois fora o cunhado que anga­
riara a maior parte do dinheiro entre os seus amigos para financiar
aquela expedição e era bem capaz de o despedir, embora Kennedy não
conseguisse imaginar como esperava prosseguir sem si. Para mais , os
amigos depressa começariam , isso se ainda não tivessem começado , a
clamar por reaver algum do dinheiro investido . Para além de si mes­
mo , ninguém se preocupava com esse lado do negócio . . . Nesse mo­
mento , lançou um olhar directo a Andreyev.
Este ripostou: "Eu não lhes pedi que investissem ! "
A cerveja era a única coisa em que Kennedy podia confiar - era
comida e remédio e matava a sede , tudo em um, e o resto que o rodea­
va, fruta, carne , ar, água, pão , tudo estava envenenado . . . O filme deve­
ria ter ficado pronto em três meses e agora já se tinham passado oito e
sabia Deus durante quanto mais tempo teriam de continuar. Receava
que o filme fosse um fiasco , e agora não ficara terminado a tempo .
"Que tempo?" , perguntou Andreyev, como se já tivesse feito esta
pergunta muitas vezes . "Quando estiver acabado , estará acabado ."
"Pois , mas não basta acabar um trabalho quando nos apetece . O pú­
blico tem de estar preparado no ponto ." E prosseguiu , explicando que
um bom filme implica todo o género de calendários misteriosos e inter­
ligados: deve ficar feito em determinada data, deve ser arte , é claro ,
isso é dado por garantido , e tem de ser um sucesso . Metade da possibi­
lidade de criar um sucesso depende de se ter as coisas prontas para se­
rem enviadas no momento psicológico . Há milhares de coisas em que
é preciso pensar e, se falharem num pormenor, vai tudo pelos ares ,
bum ! . . . Suspirou ao lado de uma espingarda imaginária, puxou o gati­
lho e deixou-se cair de costas , exausto . Como um filme , toda a sua vida
de esforço e desespero percorria-lhe o rosto relaxado , uma vida de
conseguir as coisas apesar do inferno , de manter uma boa fachada, de
passar noites a fumegar com esquemas e a espumar com cerveja, levan­
tando-se de manhã de rosto acinzentado , embrutecido , empurrando-se
para baixo de duches frios e enchendo-se de café quente e metendo-se
numa luta em que não há regras , não há árbitro e o antagonista está por
todo o lado . "Deus" , disse-me ele , "você não sabe . Mas eu vou escrever
um livro acerca disto . . . "
Ali sentado , a falar do seu livro , a comer chocolates norte-ameri­
canos e a beber a sua terceira garrafa de cerveja, o sono apoderou-se
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 49

dele de repente , independentemente de estar muito direito e a meio de


uma frase . A assertividade falhou-lhe , o sono apanhou-o misericordio­
samente pelo cachaço e abateu-o . O seu corpo aninhou-se no tweed, o
colarinho subiu-lhe acima do pescoço , os seus olhos fechados e a boca
flácida pareciam prontos a chorar.

Andreyev continuou a mostrar-me imagens daquela parte do filme


que estavam a gravar na hacienda de pulque . . . Tinham-na escolhido a
dedo , dizia; na verdade , tratava-se de uma antiquada propriedade feu­
dal com o tipo certo de arquitectura, sem melhoramentos modernos de
maior, e com o tipo mais puro de peões . Naturalmente , uma hacienda
de pulque deveria ser um sítio mesmo assim. A produção de pulque
não mudara desde o início , desde a altura em que o primeiro índio ti­
nha preparado uma doma de couro cru para fermentar a bebida e per­
furara e esvaziara a primeira cabaça para sugar com a boca o suco do
agave . Nada acontecera desde então , nada poderia acontecer. Ao que
parecia, não havia forma melhor de fazer pulque . Tudo aquilo , dizia
ele , era quase demasiado bom para ser verdade . Um velho cavalheiro
espanhol tinha revisitado a hacienda ao fim de uma ausência de cin­
quenta anos , e andara a observar tudo com encanto . "Nada mudou" ,
disse ele , "nada de nada ! "
A câmara tinha visto aquele mundo inalterado como uma paisagem
com figuras , mas figuras sob um destino imposto pela paisagem. Os
rostos escuros e fechados estavam cheios de sofrimento instintivo ,
sem memória individual , ou apenas com o género de memória que
talvez os animais tenham , os quais quando sentem o chicote sabem
que sofrem mas não porquê , nem conseguem imaginar uma solução . . .
A morte naquelas imagens era uma procissão de velas acesas , o amor
uma questão de vaga gravidade , de mãos unidas , e duas figuras escul­
pidas inclinadas uma para a outra. Até a figura do índio nas suas rou­
pas esfarrapadas , largas e brancas , gastas e moldadas ao seu corpo de
ancas planas e cintura estreita , debruçando-se entre as folhas do agave ,
com a boca na cabaça, o burro com os cascos de ambos os lado s , à
espera da carga com a cabeça pendente , tinha esta tragédia formal e
tradicional , bela e oca. Havia fileiras de raparigas , como estátuas es­
curas a caminhar, com os mantos a fluírem-lhes das frontes suaves ,
vasilhas de água aos ombros ; mulheres ajoelhadas nas rochas a lavar
roupa , com as blusas a escorregarem-lhes pelos ombros - "tão pito­
resco , tudo isto" , dizia Andreyev, "ainda nos acusam de as embelezar-
1 50 Katherine Anne Porter

mos" . A câmara tinha capturado e fixado momentos de violência e de


excitação desmesurada, de vida cruel e de morte torturada , a esperança
de morte quase extasiante que existe no ar do México . O mexicano
poderá discernir quando o perigo é real , ou talvez não se importe que
a emoção seja falsa ou verdadeira, mas os estrangeiros sentem a acidez
da morte nos ossos , haj a ou não algum perigo concreto perto deles . Era
este terror que Kennerly tinha traduzido em medo da comida , da água
e do ar que o rodeava. No índio , o amor à morte tomara-se um hábito
do espírito . Tinha amaciado e polido as faces num repouso tão absolu­
to que parecia estudado , ainda que estudado durante tanto tempo que
era agora exibido sem qualquer esforço; e em todos eles existia uma
memória comum de derrota. O orgulho da postura corporal que apre­
sentavam era a mera sombra exterior de uma resistência passiva e
profunda; as feições altivas e arrogantes eram uma zombaria dos ser­
viçais que abrigavam .
Observámos várias cenas da vida da casa senhorial , com as perso­
nagens vestidas à moda de 1 898 . Eram bastante perfeitas . Uma rapari­
ga parecia especialmente astuta . Era a típica beldade mestiça mexica­
na, com o rosto semelhante a uma máscara aclarada com pó-de-arroz,
com uma boca redonda, dura e cheia , e uns olhos escuros , severos e
amendoados . O seu cabelo preto ondulado estava penteado para trás , a
partir de uma testa baixa, e ela usava as mangas de balão e o pequeno
chapéu de marinheiro com uma elegância maravilhosa.
"Mas esta deve ser actriz" , comentei .
"Oh , sim" , confirmou Andreyev, "a única. Para esse papel , precisá­
vamos de uma actriz . É a Lolita . Encontrámo-la no Teatro Jewel ."
A história de Lolita e dofía Julia era muito engraçada. Tinha come­
çado por ser uma história muito corriqueira acerca de Lolita e don
Genaro , o proprietário da hacienda de pulque . Dofía Julia , a esposa
deste , ficou furiosa por ele levar uma mulher elegante para a casa. Ela
mesma era moderna, dizia, muito moderna, não tinha quaisquer ideias
antiquadas , mas , não obstante , considerava que estava a ser insultada .
Pelo contrário , don Genaro era muito antiquado no seu gosto por da­
mas do teatro . Ele julgara estar a ser discreto , para mai s , e mostrou-se
verdadeiramente arrependido ao ser descoberto . Porém, a pequena
dofía Julia era temivelmente ciumenta . Ao início , gritava, chorava e
armava escândalos à noite . Depois começou a provocar ciúmes a don
Genaro com outros homens . Tanto que os homens ganharam bom re­
ceio a dofía Julia e quase fugiam quando a viam . Imaginem-se todas
as coisas que poderiam acontecer ! Havia que pensar no filme , afinal . . .
A Torre Inclinada e Outros Contos 151

E depois dofia Julia ameaçou matar Lolita - cortar-lhe o pescoço ,


esfaqueá-la, envenená-la . . . Don Genaro limitou-se a fugir perante tal
situação e deixou tudo pendente . Foi para a capital , onde permaneceu
durante dois dias .
Quando regressou , a primeira visão com que os seus olhos se depara­
ram foi a da esposa a passear com a amante , de braços à volta da cintu­
ra uma da outra, no terraço superior, enquanto uma cena inteira se ia
atrasando , já que Lolita não deixava dofia Julia para voltar ao trabalho .
Don Genaro , que tinha brio da sua presteza, ficou transtornado pela
subitaneidade daquela mudança. Tinha suportado os escândalos da espo­
sa por de facto lhe respeitar os direitos e privilégios conjugais . O primei­
ro direito de uma esposa é sentir ciúmes e ameaçar de morte a amante do
esposo . Lolita também detinha as suas prerrogativas definidas . Tudo , até
ele haver partido , correra com uma precisão automática, tal como deve­
ria. Agora aquilo era absolutamente estapafúrdio . Ele também não con­
seguiu separá-las . Continu aram a passear e a conversar no terraço , à
sombra das árvores , durante toda a manhã, afectuosamente entrelaçadas ,
com as cabeças encostadas , uma chinesa cinematográfica - dofia Julia
adorava roupa chinesa feita à maneira de Hollywood - , a outra na ele­
gância severa de 1 898 . Mantiveram-se indiferentes aos apelos dos ma­
chos artilhados: Uspensky que ordenava a Lolita que se pusesse de ime­
diato em cena, don Genaro que enviava mensagens através de um moço
mdio , dizendo que o amo chegara e desejava falar com dofia Julia acerca
de um assunto da maior importância . . .
As mulheres iam passeando , ou sentavam-se à beira da fonte , a sus­
surrarem entre si , com os braços passados com à-vontade em redor da
cintura uma da outra, à vista de toda a gente . Quando Lolita finalmen­
te desceu os degraus e ocupou o seu lugar na cena, dofia Julia sentou­
-se por perto , retocando o rosto com o auxílio do seu espelho redondo
contra a luz ofuscante do Sol , estorvando e sorrindo a Lolita sempre
que os seus olhares se encontravam . Quando lhe pediram que se sen­
tasse noutro sítio , um pouco afastada do alcance da câmara, ela fez
beicinho , afastou-se menos de um metro e declarou: "Eu também que­
ro fazer parte desta cena , com a Lolita."
A voz grave e gutural de Lolita arrulhou a dofia Julia. Esta atirava­
-lhe olhares estranhos sob as pálpebras carregadas e, quando montou
o cavalo , esqueceu-se do papel e lançou a perna por cima da sela num
gesto desconhecido a senhoras de 1 898 . . . Dofia Julia cumprimentou o
marido com afecto delicado e don Genaro , que não tinha precedente
algum para a conduta de um esposo em tal situação , armou um escân-
1 52 Katherine Anne Porter

dalo terrível e fingiu estar com ciúmes de Betancourt, um dos conse­


lheiros mexicanos de U spensky.

Demos a volta às fotografias , vimos algumas duas vezes . Nos cam­


pos , entre os agaves , o índio nos seus andrajos desgraçados ; na casa da
hacienda, pessoas teatralmente luxuosas , regra geral a posarem com
uma grande gravura a cores de Porfirio Díaz que se impunha numa
moldura garrida nas paredes . "Isto é para mostrar" , disse Andreyev,
"que tudo isto aconteceu mesmo no tempo de Díaz , e que tudo isto"
- tocou com a ponta do dedo nas fotografias dos índios - "foi leva­
do pela revolução . Era o primeiro requisito do nosso acordo aqui."
Isto sem esboçar um sorriso ou corresponder ao meu olhar. "Consegui­
mos , apesar de tudo , chegar à terceira parte do filme ."
Eu gostava de saber como o tinham feito . Haviam chegado da Cali­
fórnia sob suspeita, como personagens politicamente subversivas . Ru­
mores loucos precediam-nos. Dizia-se que tinham sido convidados pelo
governo para fazer um filme . Dizia-se que não tinham sido convidados ,
mas que estavam a ser patrocinados por comunistas e várias outras or­
ganizações duvidosas . O governo mexicano pagava-lhes bom dinheiro;
Moscovo pagava ao México pelo privilégio de rodar o filme: Uspensky
era o agente mais perigoso que Moscovo alguma vez enviara numa mis­
são; Moscovo estava prestes a repudiá-lo por completo , duvidava-se que
alguma vez lhe fosse permitido regressar à Rússia. Na verdade , não era
comunista de modo nenhum, mas sim um espião alemão . Eram os co­
munistas americanos que custeavam o filme; o partido mexicano da
oposição no fundo estava de acordo com a Rússia e pagara secretamen­
te uma quantia enorme aos russos por um filme que fizesse o regime
actual cair em desgraça. Os próprios representantes governamentais
pareciam não saber o que se passava. Atacaram por todos os lados em
simultâneo . Uma delegação de representantes foi ao encontro dos russos
no barco e escoltou-os à cadeia. A cadeia era quente e desconfortável .
Uspensky, Andreyev e Stepanov preocupavam-se com o equipamento ,
que estava a ser revirado com grande minúcia na alfândega; e Kennedy
preocupava-se com a sua reputação . Habituado como estava aos méto­
dos de negócio limpos e directos da divina Hollywood, tremia só de
pensar naquilo em que poderia estar a meter-se. Tinha, tanto quanto lhe
era dado ver, ajudado a fazer todos os preparativos antes de terem dei­
xado a Califórnia. Mas já não tinha certezas do que quer que fosse . Fora
ele quem fomentara o rumor de que Uspensky não era um membro do
A Torre Inclinada e Outros Contos 153

Partido , e de que um dos três nem sequer era russo . Esperava que isso
desse um ar mais respeitável a toda aquela coisa. Depois de uma noite
de confusão , outro grupo de representantes , mais importante do que o
primeiro , chegou , todo sorrisos , justificações e pedidos de desculpas , e
libertou-os . Alguém deu então início ao rumor de que todo o episódio
fora inventado para obter publicidade .
Ainda assim os representantes governamentais não corriam riscos .
Queriam melhorar aquela oportunidade de filmar uma gloriosa história
do México , com os seus males e sofrimentos e o derradeiro triunfo
através da última revolução; e os russos viram-se rodeados e isolados
do seu material por toda a equipa de propagandistas profissionais , que
tinha sido posta à sua disposição enquanto durasse a visita . Dúzias de
prestáveis observadores, especialistas em arte , fotógrafos , talentos lite­
rários e guias de viagem pululavam à volta deles para os encaminharem
e para lhes mostrarem as coisas mais belas , significativas e caracterís­
ticas da vida e da alma nacionais; se , por acaso , algo que não fosse
belo se insinuasse em frente da câmara, havia um comité de censores
muito instruído e de olho vivo cujo dever era garantir que o escândalo
não passava da sala de montagem.
"Tem sido impressionante" , disse Andreyev, "ver como todos são
devotados à arte ."
Kennedy agitou-se e balbuciou ; abriu os olhos, fechou-os de novo .
A sua cabeça rolou numa posição desconfortável .
"Espere . Ele vai acordar" , sussurrei .
Ficámos quietos , a observá-lo .
"Talvez ainda não" , disse Andreyev. "Está tudo" , acrescentou ,
"muito confuso , e ainda vai ficar pior."
Mantivemo-nos durante mais uns momentos em silêncio , com An­
dreyev ainda a observar Kennedy com um ar impessoal .
"Seria uma coisa agradável num jardim zoológico" , comentou , sem
especial malícia, "mas é terrível andar com ele assim, a toda a hora, sem
uma j aula." Depois de fazer uma pausa, começou a falar da Rússia .
Na última estação antes de chegarmos à hacienda, o moço índio que
representava o papel principal no filme foi à nossa procura. Entrou na
carruagem como se esta fosse um palco , seguido por vários dos que o
veneravam como a um herói , jovens subnutridos e frágeis , que viviam
alegremente na glória reflectida. Ser actor de cinema era quanto basta­
va para que ele os conquistasse por completo ; mas já era famoso na
sua aldeia , dado que era pugilista , e dos bons . A tauromaquia está um
pouco fora de moda; o pugilismo é a coisa mais nova e interessante , e
1 54 Katherine Anne Porter

um jovem realmente ambicioso com queda para o desporto poderá, se


Deus lhe der a força, dedicar-se ao boxe em vez de aos touro s . A fama
acrescentada à fama tinha proporcionado àquele rapaz um ar reluzente
de autoconfiança, e ele aproximou-se de nós , de sobrancelhas franzi­
das , com o autodomínio de um homem vivido , habituado a embarcar
em comboios e a encontrar amigos . .
Contudo , a pose não duraria. O seu rosto , dos malares altos ao quei­
xo quadrado , da boca de lábios cheios à testa baixa, que por norma
tinha a expressão de ferocidade histriónica de um pugilista profissio­
nal , rasgou-se então num ar encantador e franco de entusiasmo simples
e sorridente . Estava contente por voltar a ver Andreyev, mas havia algo
mais: tinha novidades dignas de serem ouvidas , e seria o primeiro a
contar-nos .
Que algazarra houvera n a hacienda naquela manhã! . . . Mesmo en­
quanto íamos dando apertos de mão , ele desembuchou : "O Justino -
lembram-se do Justino? - matou a irmã. Deu-lhe um tiro e fugiu para
as montanhas . O Vicente - sabem qual é o Vicente? - perseguiu-o a
cavalo e trouxe-o de volta ." E agora tinham Justino preso ali na aldeia
que acabávamos de deixar.
Todos ficámos estupefactos e cheios de curiosidade , como ele espe­
rava que ficássemos . Sim, tinha sido naquela mesma manhã, por volta
das dez . . . Não , nada se tinha passado antes, tanto quanto se sabia .
Não , Justino não tinha discutido com ninguém . Ninguém o vira . Pas­
sara toda a manhã bem-disposto , a trabalhar, a participar numa cena
das filmagens .
Nem Andreyev nem Kennedy falavam espanhol . As palavras do
rapaz eram numa gíria que me era difícil entender, mas ia apanhando
palavras-chave e traduzindo tão depressa quanto conseguia . Kennedy
levantou-se de um pulo , com os olhos brancos . . .
"Nas filmagens? Meu Deus ! Estamos perdidos ! "
"Mas perdidos porquê? Porquê?"
"A farru1ia dela há-de instaurar um processo contra nós ! "
O rapaz queria saber o que significava aquilo .
"A lei ! a lei ! " , gemia Kennedy. "Podem receber dinheiro nosso pela
perda da filha. Podemos ser considerados culpados por isso ."
O rapaz estava bastante espantado .
"Ele diz que não compreende" , indiquei a Kennedy. "Diz que nin­
guém alguma vez sequer . ouviu falar de uma coisa dessas . Diz que o
Justino estava na sua própria casa quando isto aconteceu e que nin­
guém, nem sequer o Justino , teve culpa ."
A Torre Inclinada e Outros Contos 155

"Oh" , exclamou Kennedy. "Oh , estou a ver. Bem , vamos lá ouvir o


resto . Se não foi nas filmagens , não importa ."
Recompôs-se de imediato e sentou-se .
" S i m , sente-se" , disse Andreyev e m voz baixa, dirigindo-lhe um
olhar venenoso . O rapaz índio apercebeu-se do olhar, ponderou-o visi­
velmente e desconfiou obviamente que se referia a si , pelo que ficou a
olhar ora para um , ora para o outro , com os olhos profundos e semi­
cerrados logo em alerta .
"Sente-se" , repetiu Andreyev, "e não lhes dê ideias estranhas que
não fazem falta à paz de espírito de ninguém ."
Estendeu uma mão e puxou o rapaz para que se sentasse no braço
do assento . Os outros garotos tinham-se agrupado junto da porta .
"Conta-nos o resto" , pediu Andreyev.
Depois de uma pequena pausa, o rapaz derreteu-se e falou . Justino
tinha ido para a sua cabana para tomar a refeição do meio-dia. A irmã
estava a moer milho para as tortillas e ele ficou à espera , a atirar a
pistola ao ar e a apanhá-la. A pistola disparou; atravessou-a por aqui . . .
Ele tocou nas costelas , pela altura do coração . . . Ela caiu de frente , por
cima do almofariz , morta. Em menos de nada, uma grande multidão
tinha aparecido , a correr de todos os lados . Ao ver o que fizera , Justino
fugiu , correndo como um louco , atirando a pistola enquanto se afasta­
va, e lançou-se pelos campos de agaves em direcção às montanhas . O
amigo Vicente foi a cavalo atrás dele , a sacudir uma arma e a gritar:
"Pára ou disparo ! " , e Justino respondeu também a gritar: "Dispara !
Não me importa ! . . . " Mas é claro que Vicente não disparou : limitou-se
a continuar a galopar e bater na cabeça de Justino com a coronha da
arma, a deitá-lo de atravessado na sela e a trazê-lo de volta . Agora ele
estava na cadeia, mas don Genaro já tinha chegado à aldeia para o li­
bertar. Justino não fizera de propósito .
"Isto vai atrasar tudo" , queixou-se Kennedy. "Tudo ! Só implica
mais tempo desperdiçado ."
"E ainda há mais" , disse o rapaz . Fez um sorriso ambíguo , baixou
um pouco a voz , pôs um ar de conspiração e discrição e anunciou: "A
actriz também desapareceu . Voltou para a capital . Há três dias ."
"Uma discussão com doiía Julia?" , perguntou Andreyev.
"Não" , respondeu o rapaz , "foi com don Genaro que discutiu , de­
pois de tudo ."
Os qês riram a bom rir juntos e Andreyev disse-me :
"Sabe quem é , a rapariga tresloucada do Teatro Jewel ."
156 Katherine Anne Porter

O rapaz contou : "Foi porque don Genaro se ausentou por outro mo­
tivo num mau momento ." Estava a ser mais discreto do que nunca .
Kennerly estava sentado , com o queixo severamente encolhido ,
quase a fazer caretas a Andreyev e ao rapaz , nos seus esforços para
os calar. Andreyev devolveu-lhe o olhar com uma inocência férrea .
O rapaz viu o olhar, voltou a recair num silêncio_ perfeito , e manteve­
-se sentado com uma expressão muito altiva no braço do assento , de
punho cerrado sobre a coxa e rosto parcialmente desviado . Quando o
comboio começou a abrandar, ele levantou-se de supetão e foi-se
embora à nossa frente .
Quando descemos pelos degraus altos e estreitos , ele já estava ao
lado da carroça puxada por uma mula, a cumprimentar dois índios que
tinham vindo receber-nos . Os seus jovens admiradores , a abanarem os
chapéus na nossa direcção , começaram a avançar por um atalho pelos
campos de agaves .
Kennerly ia a fanfarronar, entregando malas aos índios para que
estes as guardassem na pequena carroça decrépita, organizando o gru­
po , deixando tudo em ordem , eu entre ele e Andreyev, ajustando a saia
à volta dos joelhos com mãos solícitas , para impedir que uma linha da
minha roupa tocasse as coisas estrangeiras e certamente contagiosas
que nos esperavam .
A pequena mula cravou os cascos pontiagudos nas pedras e na erva
do caminho , conseguiu por fim um impulso tolerável num carril e
começou a avançar num trote constante e tremido , com os sinos que
levava na coleira a tilintarem como uma pandeireta .
S acolejávamos , apinhados uns contra os outros numa fila, com ma­
las debaixo dos assentos e a palha a cair das almofadas . O condutor,
que se voltava para a mula de quando em vez e lhe estalava as rédeas
no lombo , acrescentava os seus comentários: Uma família sem sorte .
Era a segunda criança a ser morta por um irmão . A mãe estava quase
morta de desgosto e Justino , um bom rapaz , fora parar à cadeia.
O homem grande sentado ao lado dele , com umas calças de montar
às riscas , o chapéu preso debaixo do queixo por um cordel com borlas
vermelhas , acrescentou que por ora Justino estava preso, que Deus o
ajudasse . Mas onde teria arranjado a pistola? Levara-a das armas que
estavam a ser usadas no filme . Era verdade que não devia tocar nas pis­
tolas , e aí estava o seu primeiro erro . A intenção era devolvê-la logo a
seguir, mas já se sabe que os rapazes de dezasseis anos adoram brincar
com pistolas . Ninguém o culparia . . . A rapariga tinha dezanove anos .
O corpo já fora enviado para a aldeia para ser enterrado . Havia demasia-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 57

da exaltação à volta dela; nada seria feito enquanto ela continuasse ali .
Don Genaro tinha ido , de acordo com a tradição, para lhe cruzar as
mãos , fechar os olhos e acender uma vela ao lado dela. Tudo seria bem
feito , diziam piamente , de olhos a bailar com sentimentos profundos e
agradáveis. É sempre lamentável e excitante quando alguém que conhe­
cemos se mete em sarilhos tão dramáticos. Ah, nós estávamos vivos sob
o céu cada vez mais profundo , a tilintar por entre os campos amarelos
de mostarda em flor, com o padrão de agaves pontiagudos a transformar­
-se à medida que passávamos, de linhas direitas em ângulos , em losan­
gos e de novo em linhas , quilómetros e quilómetros daquilo, espraiando­
-se até às montanhas imponentes.
"Mas certamente não teriam pistolas carregadas entre as que esta­
vam a ser usadas no filme?" , perguntei , num repente , ao homem gran­
de com o cordel de bodas vermelhas no chapéu .
Ele abriu a boca para dizer qualquer coisa e tomou a fechá-la. Se­
guiu-se uma pausa . Ninguém falou . Foi a minha vez de ficar descon­
fortável com a rápida troca de olhares entre os outros .
Surgiu de novo a expressão reservada e atenta nos rostos índios . Um
silêncio terrível instalou-se entre nós .
Andreyev, que andava a experimentar ousadamente o seu espanhol ,
disse: "Se não posso falar, posso cantar" , e começou , na sua voz russa,
portentosa e alegre: "Ay, Sandunga, Sandunga, Mamá, por Dios! "
Todos os índios gritaram de alegria e contentamento com a coisa nova
que a sua língua estranha fazia das palavras . Andreyev também se riu .
Aquele riso era um convite à confiança deles . Com um arremedo de
canção em russo , o jovem pugilista lançou-se por sua vez ao riso de
Andreyev. Então, toda a gente aproveitou a oportunidade de rir perdi­
damente em camaradagem , até Kennedy. Olhos deparavam-se com
outros olhos através da protecção de pálpebras enrugadas , e a pequena
mula prosseguiu , sem ser instigada, num galope de pernas rígidas .
Um grande coelho saltou pelo caminho , perseguido por cães magros
e famintos . Estava a esforçar as fibras do coração em fuga; os olhos
saltavam-lhe da cabeça como bolhas de cristal . "Corre , coelho , cor­
re ! " , gritei eu . "Corram , cães ! " , gritou o grande índio com os cordéis
vermelhos no chapéu , com o gosto pela competição imediatamente
despertado . Virou-se para mim com os olhos a arder: "O que vai apos­
tar, sefiorita?"
A hacienda estava à nossa frente , um mosteiro , uma fortaleza mura­
da, impondo-se em terracota e coral , abrigada pelas montanhas . Uma
velha de xaile abriu os portões duplos e pesados e nós entrámos no
1 58 Katherine Anne Porter

cercado principal . As j anelas de cima da fachada mais próxima esta­


vam todas iluminadas . Numa varanda, encontrava-se Stepanov; Betan­
court estava na seguinte ; e por um instante o famoso Uspensky surgiu ,
a agitar os braços , numa terceira. Recebiam-nos , mesmo antes de nos
reconhecerem, contentes por verem qualquer um do grupo a regressar
da vila para lhes aliviar a longa monotonia do dia , que fora estilhaçada
pelo acidente e não poderia voltar a ser reposta. Cavalos ossudos de
garupas redondas e estreitas e de crinas e caudas compridas e ondula­
das estavam selados no pátio . Grandes cães simpáticos de raças dis­
pendiosas saíram para nos receber e subiram ao nosso lado os degraus
largos e pouco altos .
A sala estava fria. O candeeiro de quebra-luz redondo mal perturba­
va as sombras . As entradas , do estilo chamado gótico porfiriano , em
homenagem ao período de arquitectura doméstica de Díaz , erguiam-se
em direcção ao tecto , numa nuvem de papel de parede estampado a
dourado , a partir de uma vegetação rasteira de cadeirões de veludo
roxo s , vermelhos e cor de laranj a , com franjas e borlas , em bases com
molas . Lugares assim , equipados para visitas informais , interrompiam
a penumbra enregelada das divisões agrupadas às dezenas em redor
dos claustros , de quando em vez lançando-se à volta de pátios , jardins ,
redis para animais . U m piano mecânico destapado em madeira clara
ocupava um canto . Ali reunido s , tomámos a falar da morte da rapariga,
e dos problemas de Justino , e todas as nossas vozes eram vagas , com
o enfado vasto e incurável que perdurava no ar daquele sítio e se ins­
talava à volta das nossas cabeças aglomeradas .
Kennerly preocupava-se com o possível processo .
"Eles nada sabem dessas coisas" , assegurou-lhe Betancourt . "Além
disso , a culpa não é nossa."
Os russos estavam a pensar no dia seguinte . Não só era uma grande
pena o que acontecera à pobre moça, como ainda era verdade que tan­
to ela como o irmão trabalhavam no filme ; o papel do rapaz era impor­
tante e tudo teria de ficar suspenso até ele poder voltar ou , caso nunca
voltasse , tudo teria de ser refeito .
Betancourt, mexicano de nascimento , de ascendência franco-espa­
nhola e francês por educação , estava por completo à mercê de um ideal
de elegância e alheamento perpetuamente em guerra com uma espécie
de nacionalismo mexicano que o afligia como uma fraqueza hereditá­
ria do sistema nervoso . Sendo de confiança e de gosto culto , era seu
dever oficial assegurar-se de que nada prejudicial à dignidade nacional
tolhia as câmaras estrangeiras . A sua situação ambígua parecia não o
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 59

perturbar minimamente . Estava apenas feliz e realizado , pela primeira


vez em anos . Pedintes , pobres, deformados , velhos e feios: podia-se
contar com Betancourt para os enxotar. "Peço desculpa por tudo" ,
disse ele , erguendo uma mão estreita, pontifical , repelindo a vulgar
piedade humana que estava sempre a ameaçar, a zumbir-lhe como uma
mosca nas raias da mente . "Mas tendo em conta" - fez uma inclina­
ção quase imperceptível de toda a sua pessoa na direcção geral do
ponto de vista que os russos deveriam representar - "o que terá sido
a vida dela neste lugar, é muito melhor que esteja morta . . . "
Tinha um olhar ardente de fanático e uma pequena boca trémula. Os
seus ossos eram como juncos .
"É uma tragédia, mas acontece com demasiada frequência" , declarou .
Com as suas palavras , a jovem ficava morta de facto , anonimamen­
te sepultada . . .
Dofia Julia entrou em silêncio , caminhando suavemente com os seus
pés minúsculos em sapatos bordados , como os de uma chinesa. Teria
uns vinte anos . O seu cabelo preto estava repuxado junto ao crânio
redondo e os olhos pareciam pintados nas feições de cera do seu rosto .
"Nunca vivemos aqui , na verdade" , disse ela, numa voz delicada e
dócil , observando vagamente o estranho ambiente em que se encontra­
va, no qual parecia ser uma exótica boneca falante . "É muito feio , mas
não devem importar-se com isso . É inútil tentar manter o sítio arranj a­
do . Os índios destroem tudo com negligência. Ficamos aqui agora por
causa da excitação do filme . É emocionante ." Depois acrescentou: "É
triste , a pobre rapariga. Causa toda a espécie de problemas . É triste , o
pobre irmão . . . " À medida que avançámos para a sala de jantar, ela ia
murmurando a meu lado: "É triste . . . muito triste . . . triste . . . "
O avô de don Genaro , que me tinha sido descrito como um cavalhei­
ro da mais velha guarda, ausentara-se , numa visita prolongada. De
forma alguma aprovava a esposa do neto , que se arranj ava segundo
uma moda desconhecida das senhoras do seu tempo , uma moda muito
perturbadora para um homem experiente que sempre soubera como
julgar, avaliar e separar as mulheres em categorias próprias com um
simples olhar. Ele considerava que uma associação temporária com
uma jovem como aquela fazia parte da educação de qualquer cavalhei­
ro . Já um casamento era uma questão completamente distinta . No seu
tempo , na melhor das hipóteses ela teria tido uma carreira no teatro .
Fora silenciado mas de modo algum alterara a sua convicção com o
casamento súbito e inacreditável do neto , o único e inevitável herdeiro ,
que já agia como chefe de fann1ia, sem prestar contas a quem quer que
1 60 Katherine Anne Porter

fosse . Não compreendia o rapaz e não desperdiçava tempo a tentar


compreendê-lo . Levara a sua mobília , os seus pertences e a sua pessoa
para longe , para o pátio mais afastado do velho j ardim , por cima dos
terraços a sul , onde vivia em dignidade e solidão sombrias , sem espe­
rança e sem filosofia, quiçá desprezando ambas , juntando-se à fann1ia
apenas à hora das refeições . O seu lugar ao fundo da mesa estava vago ,
as multidões de mirones de fim-de-semana tinham-se dispersado e o
nosso grupo mal ocupava a parte junto à cabeceira da mesa.
Uspensky sentou-se , no seu fato-macaco às riscas , com o rosto de
barba simiesca a assemelhar-se ao de um macaco iluminado de forma
sobre-humana.
Tinha uma atitude de macaco em relação à vida, a qual quase corres­
pondia a uma filosofia pessoal . Poupava explicações e despistava o tipo
de maçadores com os quais ele menos podia. Divertia-se nos teatros de
má índole da capital , elogiando os Mexicanos ao declarar que eram
realmente os mais obscenos que encontrara no mundo inteiro . À tarde ,
nas estradas abertas , gostava de encenar velhas comédias rurais russas ,
com todos os actores vestidos à mexicana. Então gritava as suas deixas ,
descontraído e no seu melhor humor, espicaçando a traseira de um bur­
ro paciente , habituado a sofrimento e indignidade , com uma cabaça de
formato fálico . "Ah , sim , lembro-me" , dizia com galanteio , ao conhecer
algumas mulheres do Sul , "são as senhoras que passam a vida a ser
violadas por aqueles temíveis pretos ! " Mas agora estava febril , inquie­
to , completamente silencioso , e a disposição indecente , que servia de
máscara e disfarce para todas as outras , tinha desaparecido .
Stepanov, campeão de ténis e pólo , usava umas calças de flanela
de jogar ténis e um pólo . Betancourt vestia umas calças de montar de
bom corte e grevas , não que alguma vez tivesse montado um cavalo
a não ser por obrigação , mas aprendera na Califórnia, em 1 92 1 , que
era aquele o traje correcto para um realizador de filmes; era verdade
que ele ainda não era realizador, mas dava bastante assistência na
feitura de um filme e , quando estava em acção , acrescentava sempre
um capacete de cortiç á debruado a verde , o que completava uma es­
pécie de ilusão preciosa que ele prezava em relação a si mesmo . A
camisa de lã sem cor de Andreyev combinava na perfeição com os
tweeds ousados de Kennedy. Quanto a mim , usava uma peça tricota­
da do género que parece sempre adequada a qualquer outra ocasião ,
excepto aquela em que esteja a ser usada. Junto s , proporcionávamos
um contraste impressionante com dofia Julia, sentada à cabeceira da
mesa, uma figura saída de uma comédia de Hollywood , num pijama
A Torre Inclinada e Outros Contos 161

de cetim preto adornado com fitas d e seda de todas a s cores d o arco­


-íri s , mangas largas a caírem-lhe sobre as mãos de bebé que termina­
vam em unhas escarlates e pontiagudas .
"Não devemos esperar pelo meu marido" , disse ela; "anda sempre
muito ocupado e chega sempre atrasado ."
"Sempre em alta velocidade" , comentou Betancourt, num tom afá­
vel , "70 quilómetros por hora, pelo meno s , e nunca chega a horas
aonde quer que seja." Ele orgulhava-se da sua pontualidade e tinha
teorias acerca da velocidade , do uso e abuso desta . Adorava explicar
que o homem , caso se tivesse concentrado no desenvolvimento espiri­
tual , como deveria, nunca teria precisado de depender de auxílios
mecânicos para conquistar o tempo e o espaço . Entretanto , admitia que
ele próprio , que era capaz de comunicar telepaticamente com quem
quer que escolhesse , e que certa vez levitara a noventa centímetros do
solo por um simples acto de vontade , encontrava grande estímulo pra­
zeroso no controlo da maquinaria. Eu sabia algo a respeito do seu
prazer de conduzir um automóvel . Para começar, tinha o hábito de
calcar o acelerador e atravessar caminhos-de-ferro perante a aproxima­
ção de comboios . A velocidade , dizia ele , era "moderna" , e era dever
de cada um ser tão moderno quanto os meios ao seu dispor lho permi­
tissem . Depreendia-se do seu discurso que a fortuna de don Genaro lhe
permitia ser pelo menos duplamente mais moderno do que Betancourt.
Ele podia adquirir automóveis de alta potência que simplesmente afu­
gentavam os outros condutores que estivessem à sua frente na estrada;
estava a pensar comprar um avião para encurtar a distância entre a
hacienda e a capital ; a velocidade e a leveza , à custa de gastos avulta­
dos , eram o seu ideal . Nada poderia mover-se demasiado depressa
para don Genaro , dizia Betancourt, fosse um cavalo , um cão , uma
mulher ou algo com maquinaria de metal . Dona Julia ia sorrindo com
uma expressão aprovadora perante o que considerava ser um elogio ao
seu marido e, por agradável inferência, a si mesma .
Houve então uma violenta agitação no corredor, junto à porta, na
sala. Os criados separaram-se , afastaram-se , precipitaram-se para a
frente , apressaram-se a puxar uma cadeira, e don Genaro entrou , en­
vergando roupa mexicana de montar, um casaco cinzento de pele de
gamo e umas calças justas da mesma cor, presas com uma tira debaixo
da bota . Era um jovem espanhol alto e elegante , de ar implacável e
olhos azuis , músculos fibrosos , lábios finos - e estava furioso . Era
uma fúria que esperava que todos compreendêssemo s ; suspendeu-a
durante o tempo suficiente para cumprimentar toda a gente , após o que
1 62 Katherine Anne Porter

se deixou cair na cadeira ao lado da esposa e lhe deu vazão , batendo


com o punho na mesa.
Parecia que o imbecil do juiz da aldeia se recusava a deixá-lo libertar
Justino . Parecia que havia uma lei absurda qualquer acerca de negligên­
cia criminal . A lei , dizia o juiz , não reconhece acidentes no sentido
comum . Tem sempre de haver uma investigação minuciosa, baseada na
suspeita de má-fé daqueles que eram mais próximos da vítima. Don
Genaro imitou o juiz imbecil a exibir os seus conhecimentos legai s .
Cheias , erupções vulcânicas , revoluções , cavalos fugidos , sarampo ,
descarrilamentos de comboios , confrontos na via pública, todas essas
coisas , tinha dito o juiz , eram casos fortuitos . Alvejamentos pessoais ,
não . Um alvejamento pessoal tinha sempre de ser investigado com ri­
gor. "Tudo isso não tem nada que ver com este caso , disse-lhe eu" ,
contou don Genaro . "Eu disse-lhe , o Justino é meu peão , a fanu1ia dele
vive há trezentos anos na minha hacienda, este é um assunto MEU . Eu
sei o que aconteceu , estou a par de tudo , e você não sabe nada e tudo o
que tem de fazer é deixar-me levar o Justino já. E quero dizer hoj e ,
amanhã não serve , disse-lhe eu ." E m vão . O juiz queria dois mil pesos
para libertar Justino . "Dois mil pesos ! " , gritou don Genaro , a bater de
novo com o punho na mesa; "imagine-se só ! "
"Que ridículo ! " , exclamou a sua esposa com uma compreensão de
camarada e um sorriso brilhante . Ele fitou-a por um segundo , como se
não a reconhecesse . Ela observou-o também, com os olhos a piscar,
um pequeno sorriso inseguro nas comissuras da boca, onde o rouge
começava a dissipar-se . Furiosamente , ele ignorou-a, encolheu os om­
bros para se livrar da pausa e apressou-se , virando-se enquanto falava,
acalorado e cego e estupefacto , ora para um membro da audiência ora
para outro . Não eram os dois mil pesos , era que estava farto de pagar
aqui , pagar ali , pelas coisas mais absurdas ; sempre que se virava, lá
tinha ao cotovelo um político larápio a estender a pata. "Bom, há uma
coisa a fazer. Se eu pagar a este juiz , isto não terá fim. Ele vai começar
a prender-me os peões de cada vez que um deles mostrar a cara na
aldeia. Vou à Cidade do México encontrar-me com o Velarde . . . "

Toda a gente concordou que Velarde era o homem a ver. Tratava-se


do revolucionário mais poderoso e bem-sucedido do México . Era pro­
prietário de duas haciendas de pulque que tinham caído na sua quota
aquando da grande repartição de terras . Também era o maior produtor
de lacticínios do país , fornecendo leite , manteiga e queijo a todas as
instituições de caridade , orfanatos , hospícios , reformatórios e casas de
trabalho da nação , obtendo o dobro do preço que qualquer outro pro-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 63

dutor teria pedido . Também tinha uma grande hacienda de aguacate;


controlava o exército; controlava um banco poderoso; o Presidente da
República não fazia quaisquer nomeações para qualquer gabinete sem
o seu conselho . Combatia a contra-revolução e a corrupção política,
aparecendo diariamente nas primeiras páginas de vinte jornais que
comprara para esse preciso efeito . Empregava milhares de peões . Co­
mo empregador, compreenderia aquilo com que don Genaro se deba­
tia. Como revolucionário honesto , sabia como lidar com aquele peque­
no juiz sujo que aceitava luvas . "Vou encontrar-me com o Velarde" ,
repetiu don Genaro , numa voz subitamente seca, como s e tivesse per­
dido a esperança ou estivesse demasiado enfadado com o tema para
manter o entusiasmo durante mais tempo . Recostou-se e lançou um
olhar tristonho aos convidados . Toda a gente disse qualquer coisa, não
importava o quê . O episódio da manhã já parecia muito longínquo ,
sem que valesse a pena pensar nele .
Uspensky espirrou , com as mãos a cobrirem-lhe o rosto . Tinha pas­
sado duas horas matutinas com água fria até à cintura na fonte dos
cavalos , com Stepanov e a câmara equilibrados no pequeno rebordo de
pedra, a filmar uma cena que estava convencido de não poder ser feita
a partir de outro ângulo . Tinha apanhado frio ; engoliu então os feijões
fritos que tinha metido na boca, bebeu meio copo de cerveja de um
trago e deslizou do banco corrido . O seu fato-macaco às riscas , dema­
siado grande para si , desapareceu em duas passadas em direcção à
porta mais próxima . Ia como se procurasse outro clima .
"Tem febre" , disse Andreyev. "Se não se sentir melhor logo à noite ,
temos de chamar o Dr. Volk."
Uma pessoa grande e pesada, de j ardineiras azuis desbotadas e ca­
misa de flanela, inseriu-se num espaço perto do fundo da mesa. Assen­
tiu com a cabeça, sem se dirigir a quem quer que fosse em particular,
e Betancourt fez questão de constatar o cumprimento .
"Nem sequer o reconhece?" , perguntou-me em voz baixa. "É Carlos
Montafia. Acha-o diferente?"
Parecia ansioso por eu poder considerar que Carlos estava muito
mudado . Disse-lhe que supunha que todos tínhamos mudado um pou­
co ao longo de dez anos . Para mai s , Carlos tinha deixado crescer uns
belos bigodes . O olhar franco de Betancourt admitia que eu , tal como
Carlos , tinha mudado e para pior, mas resistia à noção de mudança em
si mesmo . "Talvez" , aquiesceu , contra vontade , "mas a maioria de nós ,
julgo , para melhor. É o pobre Carlos . Não são só os bigodes e a gor­
dura. Transformou-se , sabe , num fracasso."
1 64 Katherine Anne Porter

"Um Puss Moth" , dizia don Genaro a Stepanov. "Voei nele durante
meia hora ontem; tremendamente chie . Sou capaz de o comprar. Pre­
ciso de algo realmente veloz . Algo leve , também , mas tem de ser ve­
loz . Tem de ser uma coisa na qual eu possa confiar em qualquer altura.
Stepanov era um piloto experiente . Distinguia-se em qualquer activi­
dade que don Genaro respeitasse . Don Genaro ouviu atentamente en­
quanto Stepanov lhe dava alguns conselhos simples e sensatos acerca
de aviões: que género comprar, como mantê-los em ordem e o que se
poderia esperar de um avião , em termos gerais .
"Aviões ! " , exclamou Kennedy, que estava à escuta . "Eu não voaria
com um piloto mexicano nem por todo o dinheiro do . . . "
"Um avião ! Finalmente ! " , gritou dofía Julia, como uma criança de­
licadamente entusiasmada. Debruçou-se sobre a mesa e chamou em
espanhol , como se acordasse alguém: "Carlos ! Está a ouvir? O Gena­
rito sempre vai comprar-me um avião ! "
Don Genaro continuava a falar com Stepanov como s e não tivesse
ouvido .
"E o que fará com ele?" , perguntou Carlos , com os olhos redondos
e amistosos sob as sobrancelhas farfalhudas . Sem levantar a cabeça da
mão , continuou a comer os seus feijões fritos com molho de chile ver­
de com uma colher, à boa maneira rural mexicana, e a apreciá-los .
"Hei-de dar piruetas com ele" , disse dofía Julia.
"Um Fracasso" , prosseguiu Betancourt, em inglês , que Carlos não
entendia, "ainda que tenha de dizer que ele está com pior aspecto do
que é habitual . Hoje de manhã escorregou e magoou-se na banheira ."
Era como se aquele acidente fosse mais um ponto a desfavor de Car­
los , prova simbólica da fatal tendência decrescente do seu carácter.
"Ouvi dizer que ele tinha composto metade das canções populares
do México" , disse eu . "Não ouvi outra coisa que não fossem canções
dele , há dez anos . O que aconteceu?"
"Ah , isso era há dez anos , não se esqueça . Já não faz quase nada.
Não é director do Jewel há, oh , séculos ! "
Observei o Fracasso . Parecia razoavelmente animado . Estava a mar­
car o ritmo com o cabo da colher e a trautear uma melodia a Andreyev,
que o escutava, inclinando a cabeça. "Assim , durante dois compas­
sos " , dizia Carlos , em francês , "e depois assim" , e ia marcando o
tempo e trauteando . "Depoi s , para o bailado . . . " Andreyev trauteou a
música e bateu na mesa com o indicador esquerdo , enquanto a mão
direita acenava ligeiramente . Betancourt observou-os durante algum
tempo . "Já se sente melhor agora, pobre coitado" , disse ele , "agora que
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 65

lhe arranjei este trabalho . Pode ser um recomeço para ele . Mas às ve­
zes fica cansado , bebe demasiado , nem sempre consegue dar o seu
melhor."
Carlos tinha-se recostado de novo na cadeira, com os ombros redon­
dos descaídos , as pestanas inchadas a taparem-lhe os olhos , a picar
com irritação o prato de enchi/adas com natas azedas . "Vai ver" , disse
a Andreyev em francês , "que o Betancourt também não vai gostar
desta ideia. Há-de ter algum problema . . . " Não o dizia com ira, nem
timidez , apenas com uma certeza infeliz . "Ou não será moderno que
chegue , ou não terá o suficiente do estilo antigo , ou então não será
suficientemente mexicano . . . Vai ver."
Betancourt tinha passado a juventude a decifrar os segredos teimo­
sos da Harmonia Universal por via da numerologia, da astronomia e
da astrologia, de uma fórmula de transferência de pensamentos e de
respiração profunda, da prática da vontade-em-poder combinada com
as teorias norte-americanas mais recentes do desenvolvimento de per­
sonalidade; de certas cerimónias complicadas e mágicas ; e de uma
selecção cuidadosa de doutrinas das várias escolas de filosofias orien­
tais que são , de tempos a tempos , introduzidas na Califórnia com tanto
sucesso . A partir deste material , ele tinha construído uma Forma de
Vida que podia ser ensinada a qualquer pessoa e que , uma vez apren­
dida, encaminhava o neófito , calma e seguramente , para o Sucesso:
sucesso sem dor, quase sem esforço , excepto do género prazeroso ,
sucesso acompanhado por beleza moral e estética, bem como a recom­
pensa material mais desej ável . A riqueza, naturalmente , não poderia
ser um fim em si; isolada, não era Sucesso . Mas era uma companheira
discreta de todo o verdadeiro Sucesso . . . A partir deste ponto de vista,
ele era alegremente explícito em relação a Carlos . Carlos sempre des­
prezara as Leis Eternas . Sempre escrevera simplesmente as suas melo­
dias , sem perder tempo a pensar nas inferências mais profundas da
música, que se baseia no sistema harmónico das esferas . . . Ele , Betan­
court, muitas vezes o avisara . De nada servira. Carlos continuara a
convidar a sua própria desgraça.
"Eu também a avisei" , disse-me , com bondade . "Muitas vezes me
perguntei porque não quererá ou conseguirá aceitar os Mistérios que
lhe abririam uma casa cheia de tesouros . . . Tudo" , disse ele , "é possí­
vel através da intuição científica. Se depender do mero intelecto , terá
de fracassar."
"Terá de fracassar" , passara ele todo aquele tempo a dizer ao pobre
e simples Carlos . "Ele fracassou" , dizia acerca dele a outros . Olhava
1 66 Katherine Anne Porter

agora quase com ternura para a sua obra, que ali estava, algo suja e
tristonha, um homem que levara a cabo bom trabalho no seu tempo e
que ainda não estava completamente acabado . A figura aprumada e li­
geira a meu lado posava graciosamente na sua coluna esguia, com as
mãos demasiado belas a oscilar ritmicamente em pulsos insubstanciais .
Lembrei-me de tudo o que Carlos fizera por Betancourt noutros tem­
pos ; tinha, à sua maneira impensada e desesperadamente humana, car­
regado naqueles ombros esguios um fardo maior do que estes poderiam
suportar. Betancourt pusera em acção toda a maquinaria das leis de
Harmonia Universal que era capaz de invocar para o ajudar a vingar-se
de Carlos . Era um trabalho moroso, mas ele nunca se cansava.
"É claro que eu não compreendo a que se refere ao certo quando
fala de fracasso , ou de sucesso" , acabei por lhe dizer. "Sabe , nunca fui
capaz de entender."
"É verdade , não foi" , disse ele , "esse era o grande problema."
"Quanto ao Carlos" , sugeri , "deveria perdoá-lo . . . "
Com perfeita sinceridade , Betancourt replicou : "Sabe que eu nunca
culpo ninguém pelo que quer que seja."
Carlos aproximou-se e deu-me um aperto de mão enquanto toda a
gente ia puxando as cadeiras para trás e começava a esquivar-se por
várias portas . Ele mostrava-se cheio de humanidade e bom humor em
relação a Justino e aos problemas deste . "Estes casos amorosos fami­
liares" , disse ele , "o que se há-de esperar?"
"Oh , agora não" , disse Betancourt, pouco à vontade . Soltou o seu
risinho trémulo e vibrado .
"Oh , agora, sim" , insistiu Carlos , caminhando a meu lado . "Vou
compor um corrido acerca do Justino e da sua irmã." Começou a can­
tar, quase num sussurro , imitando a voz e os gestos de um cantor a
deambular de lado pelo mercado . . .

Ah, pobre e pequena Rosalita


Que arranjou um novo amado,
E assim traiu o coração profundo
Do seu irmão apaixonado . . .

Agora está morta, pobre Rosalita,


Com duas balas no coração . . .
Fiquem avisadas, minhas irmãzinhas,
Que pensem afastar-se do vosso irmão .
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 67

"Uma bala" , respingou Betancourt, a abanar um dedo comprido a


Carlos . "Uma bala ! "
Carlos riu-se . "Muito bem , uma bala ! Que purista ! Boa noite" , des­
pediu-se .
Kennedy e Carlos desapareceram cedo . Don Genaro passou a noite
a jogar bilhar com Stepanov, que ganhou sempre . Don Genaro jogava
muito bem , mas Stepanov era um campeão , com todo o género de
troféus a demonstrá-lo , pelo que não era humilhação alguma ser ven­
cido por ele .
Na divisão do piso superior, cheia de correntes de ar e equipada
como uma sala de estar, Andreyev desligou o acessório mecânico do
piano e cantou canções russas , passando as mãos pelas teclas enquan­
to esperava que outras músicas lhe surgissem na memória. Eu e dofia
Julia ficámos a ouvir. Ele ia cantando para nós , mas sobretudo para si
mesmo , com a mesma espécie de esquecimento voluntário do ambien­
te que o rodeava, com a mesma ausência de espírito auto-induzida que
o mantivera a falar da Rússia durante a tarde .
Ficámos até altas horas . Dofia Julia sorria constantemente cada vez
que o seu olhar se deparava com o de Andreyev ou o meu , bocejando
de vez em quando , com o pequinês deitado a ressonar no seu colo .
"Não está cansada?" , perguntei-lhe . "Não nos deixaria ficar a pé até
demasiado tarde?"
"Oh , não , vamos continuar com a música. Adoro passar a noite acor­
dada. Nunca vou para a cama, se puder continuar sentada. Não vão já."
À uma e meia, Uspensky chamou Andreyev, Stepanov. Estava in­
quieto , com febre , queria falar. Andreyev disse: "Já mandei chamar o
Dr. Volk . É melhor que não se demore ."
Eu e dofia Julia espreitámos para a sala de bilhar no piso térreo ,
onde Stepanov e don Genaro estavam a definir o resultado final . Vá­
rios índios inclinavam-se nas janelas , com os seus amplos chapéus de
palha voltados para a frente , a observarem em silêncio . Dofia Julia
perguntou ao marido: "Então não vais hoje à Cidade do México?"
"Porque haveria de ir?" , perguntou ele num repente , sem olhar
para ela.
"Pensei que talvez fosses" , disse dofia Julia. "Boa noite , Stepanov" ,
despediu-se ela, com os olhos negros a brilhar sob as pestanas longas ,
pintadas de azul-prateado .
"Boa noite , Julia' ' , respondeu Stepanov, cujo franco sorriso norte­
nho podia significar qualquer coisa, ou coisa nenhuma. Quando não
sorria , tinha um rosto severo , expressivo e intensamente vivo . O seu
1 68 Katherine Anne Porter

sorriso era enganadoramente simples , como o de um rapazinho muito


jovem . Já ele era tudo menos simples ; sorria agora como um alegre
livro aberto à pequena figura absurda saída de um teatro de marione­
tas . Virando-se, doõa Julia lançou-lhe de esguelha o olhar refulgente
de uma femme fatale de qualquer filme de Hollywood . Ele examinava
a ponta do seu taco como se espreitasse por µm microscópio . Don
Genaro declarou com violência: "Boa noite ! " , e com violência desapa­
receu pela porta que dava para o cercado .
Eu e doõa Julia passámos pelos aposentos dela, um extenso quarto
banal entre a sala de bilhar e a adega. Estava cheio de seda, madeira
nova, lustrosa, brilhante e muito polida, e espelhos largos , atulhado de
pequenos ornamentos , caixas de doces , bonecas francesas de saias tu­
fadas e perucas brancas . O ar estava carregado de perfume , que se
debatia com outro cheiro mais forte. Da adega provinham contínuos
gritos abafados , o rebuliço de barris a rolarem pelos suportes até ao
vagão puxado por uma mula que se encontrava parada diante da entra­
da larga. O cheiro não me saía das n�nas desde que ali chegara, mas
naquele espaço erguia-se num vap dr espesso por entre o zumbido
carregado de moscas , azedo , bafiento , como leite e sangue a apodrece­
rem; aquele som e aquele cheiro entrelaçavam-se e ambos se entrela­
çavam com o rumor intermitente de barris e o longo choro entoado dos
índios . Nas escadas estreitas , olhei para trás , para doõa Julia. Estava a
olhar para cima, com o pequeno nariz franzido , e tinha o pequinês com
o focinho franzido em perpétuo desagrado junto ao rosto . "Pulque!" ,
exclamou ela . "Não é horrível? Mas espero que o barulho não a impe­
ça de dormir."
Na minha varanda, já não havia perfume que fizesse frente ao agra­
dável vento forte das montanhas , nem ao cheiro da adega. "Vinte e
um ! " , cantavam os índios num coro longo e melódico de cansaço e
excitação , e o vigésimo primeiro barril de pulque fresco rolou pela
rampa, foi apanhado por dois homens e carregado para o vagão debai­
xo da minha j anela.
Da janela ao lado da minha, as três vozes russas iam murmurando
tranquilamente . Havia porcos a grunhir e a escavar no espojadouro mo­
le perto da fonte, onde ainda havia mulheres ajoelhadas às escuras , a
esfregar roupas molhadas nas pedras , a tagarelar, a rir. Todas as mulhe­
res pareciam rir naquela noite: bem depois da meia-noite, o som agudo
e brilhante voltava a refulgir, vindo da longa fileira de aposentos dos
peões ao longo do cercado . Burros soluçavam e zurravam uns com os
outros , havia por todo o lado a vigília sonolenta de criaturas , cascos a
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 69

raspar na terra, respirações e resfolegares . Lá em baixo , na adega, uma


única voz cantou de repente uma dúzia de notas de uma canção brejeira
qualquer; e as mulheres a lavar a roupa calaram-se por um instante ,
antes de começarem a rir-se baixinho . Ocorreu então um pequeno rebu­
liço indistinto junto ao arco do portão que dava para o pátio interior: um
dos cães educados e dispendiosos tinha perdido a dignidade e estava a
perseguir, com rosnadelas de verdadeira irritação , um soldado baixinho
e de rabo gordo de volta ao lugar que lhe era devido , o quartel junto ao
muro , do outro lado das cabanas índias . O soldado cambaleou e trope­
çou em silêncio , afastando-se sem apresentar resistência, com a lanterna
fosca a agitar-se violentamente . A dada altura, como se ali estivesse a
invisível linha fronteiriça, o cão parou , ficou a observar o soldado a
fugir e regressou ao seu posto , debaixo das arcadas . Os soldados , envia­
dos pelo governo como guarda contra os Agrários , preguiçavam e co­
miam feijão à custa de don Genaro . Ele tolerava a presença deles com
rancor, e o mesmo acontecia com os cães .

Adormeci ao som do cântico demorado dos índios , que contavam os


barris na adega, e voltei a acordar com a aurora, aurora de Verão , es­
cutando a triste canção matutina deles , o matraquear de metal e couro
duro e os cascos das mulas enquanto estavam a ser arreadas . . . Os
condutores agitavam os chicotes e gritavam , os vagões carregados
rangiam e iam-se afastando numa procissão , a caminho do comboio de
pulque para a Cidade do México . Os trabalhadores do campo estavam
a partir para os campos de agave , levando os seus burros . Também
gritavam e acicatavam os burros com paus , mas ninguém estava real­
mente com pressa, nem realmente entusiasmado . Era só mais um dia
de trabalho , mais um dia de cansaço. Um homenzinho de três anos
corria ao lado do pai; este levava um burro desmamado com duas bar­
ricas em miniatura no lombo peludo . As duas pequenas criaturas imi­
tavam na perfeição , cada uma à sua maneira, os gestos dos mais ve­
lhos . O bebé brandia um pau e gritava, o burro avançava e mexia as
orelhas a cada golpe .
"Meu Deus ! " , exclamou Kennedy enquanto tomávamos café , uma
hora mais tarde . " Lembra-se . . . " - enxotou uma nuvem de moscas e
encheu a caneca com uma mão trémula - "passei a noite toda a pensar
nisso e não consegui dormir . . . não se lembra" , implorou a Stepanov,
que tapou a sua caneca de café enquanto acabava um cigarro , "daquelas
cenas que filmámos só há duas semanas , quando o Justino representou
1 70 Katherine Anne Porter

o papel de um rapaz que matou uma rapariga por acidente , tentou fugir
e o Vicente foi um dos homens que o perseguiu a cavalo? Bem, acon­
teceu a mesma coisa às mesmas pessoas a sério! E . . . " - virou-se
para mim - "o mais estranho é que vamos ter de rodar essa cena outra
vez , não resultou muito bem e , vejam só, meu Deus , já aconteceu a
sério , e ninguém pensou nisso na altura ! Na altura é que era. Podíamos
ter filmado um grande plano da rapariga, mesmo morta, e sangue ver­
dadeiro a escorrer pela cara do Justino onde o Vicente lhe acertou e ,
meu Deus ! , nem sequer pensámos nisso . Este género de coisa" , dis se
ele , amargamente , "tem estado a acontecer desde que chegámos aqui .
Limita-se a acontecer, vezes sem fim . . . B om, qual seria o problema,
gostava eu de saber?"
Fitou Stepanov, cheio de acusações . Stepanov levantou a palma da
caneca e, enxotando moscas , bebeu . "A luz não prestava, provavel­
mente" , disse ele . Os seus olhos pestanejaram e fecharam-se voltados
para Kennerly, como se tivesse tirado um instantâneo de alguma coisa
e o episódio ficasse concluído .
"Se quer ver a coisa dessa maneira" , disse Kennerly, ressentido , "mas
afinal , ali estava, tinha acontecido , a culpa não era nossa, e bem podía­
mos já ter a cena."
"Podemos sempre repeti-la" , disse Stepanov. "Quando o Justino vol­
tar e a luz for melhor. A luz" , disse-me , "é sempre o nosso inimigo . Aqui
temos um dia bom em cinco , ou menos ."
"Imaginem" , dizia Kennerly, aos salto s , "tentem só imaginar que . . .
quando aquele pobre rapaz voltar, vai ter de passar pela mesma cena
que já viveu duas vezes , uma a fingir e outra a sério . A sério!" Lambeu
os beiços . "Pensem só em como há-de sentir-se . Ora, isso seria sufi­
ciente para o enlouquecer."
"Se voltar" , disse Stepanov, "temos de pensar nisso ."
No pátio , meia dúzia de rapazes índios , com as roupas brancas es­
farrapadas a exporem-lhes a pele suave e morena , estavam a atirar
para cima dos cavalos esguios grandes selas de pele de gamo embuti­
das com bordados a prata e madrepérola. As lavadeiras voltavam da
fonte . Os porcos estavam a rebolar-se nos espojadouros de que mais
gostavam e, na adega, os trabalhadores diurnos já enchiam as vasilhas
de couro com pulque acabado de extrair. Carlos Montaiía também
saíra cedo , aproveitando o ar fresco da manhã, a ver três cães persegui­
rem um porco pernalta do espoj adouro até ao celeiro . O porco , sem
parar de chiar, galopava como um cavalo de pau em direcção à segu­
rança conhecida do seu curral , com os cães quase a morderem-lhe os
A Torre Inclinada e Outros Contos 171

calcanhares , o suficiente para o forçarem a manter a melhor velocida­


de . Carlos soltava gargalhadas felizes , agarrado às costelas , e os rapa­
zes índios riram-se com ele .
O capataz espanhol , que fora seleccionado para o papel de vilão -
um deles - do filme , saiu a envergar um par novo de calças justas de
montar, feitas de pele de veado e bordadas a prata, como as selas , e
sentou-se com descontracção no banco corrido perto do arco , de frente
para o grande cercado onde estavam os índios e os soldados . Passou aí
praticamente o dia inteiro , como fazia havia anos e poderia fazer duran­
te vários mais . O seu rosto longo e seco do Norte de Espanha estava
morto de tédio . Recostou-se , com a boina puxada para a frente para lhe
tapar os olhos muito próximos , e nem sequer olhou de relance para ver
de que se ria Carlos . Eu e Andreyev acenámos a Carlos, que se aproxi­
mou de imediato . Ainda estava a rir. Parecia ter-se esquecido do porco
e estar a rir-se do capataz , que já tinha quarenta pares de calças sofisti­
cadas de charro, mas achara que nenhum era suficientemente bom para
o filme , pelo que mandara fazer, por um custo avultado , o par que esta­
va a usar agora e que lhe ficava demasiado justo . Usando-o todos os
dias , esperava conseguir alargá-lo . Sentia-se completamente miserável ,
pois as calças eram tudo o que tinha por que viver, de qualquer manei­
ra. "Tudo o que pode fazer da vida" , disse Andreyev, "é vestir um par
de calças sofisticadas todos os dias e sentar-se naquele banco à espera
de que alguma coisa, qualquer coisa, aconteça."
Eu disse que julgava que tinham acontecido bastantes coisas nas
últimas semanas . . . ou , pelo menos , nos últimos dias .
"Oh , não" , respondeu Carlos, "nada que dure o suficiente . Refiro-me
a excitação a sério, como com o último raide dos Agrários . . . Havia
metralhadoras nas torres e todos os homens da propriedade tinham uma
espingarda e uma pistola. Foi a melhor altura das vidas deles . Expulsa­
ram os intrusos e depois dispararam o resto das munições para o ar, à
laia de celebração; e no dia seguinte estavam entediados . Queriam re­
petir o espectáculo todo de novo . Foi muito difícil explicar-lhes que a
jiesta tinha acabado ."
"Então detestam mesmo os Agrários?" , perguntei .
"Não , adoram excitação" , disse Carlos .
Passámos pela adega, evitando poças de seiva que se entranhavam
no solo lamacento , parando ociosamente para observar, sem fazer co­
mentários , as moscas que se afogavam na bebida malcheirosa, a qual
transbordava dos couros peludos pendentes entre as armações de ma­
deira. María Santísima encontrava-se primorosamente instalada no seu
1 72 Katherine Anne Porter

nicho pintado de azul , numa moldura de flores de papel sujas , com


uma luz perpétua a seus pés . As paredes estavam cobertas por um
fresco desbotado que narrava a lenda do pulque; que uma jovem índia
tinha descoberto a bebida divina e a levara ao imperador, o qual a re­
compensara generosamente; e que , depois de morrer, ela ascendera ao
estatuto de semideusa. Um mito antigo; talvez o mais antigo: tinha
algo que ver com a veneração confusa e o terror que o homem sentia
pela fertilidade das mulheres e da vegetação . . .
Betancourt ficou à porta, a farejar o ar com coragem. Olhou para as
paredes em volta com um ar de entendido . "Isto é um exemplo muito
bom" , disse ele , a sorrir para o fresco , "o exemplo perfeito , na realida­
de . . . Os mais antigos são sempre os melhores , como é óbvio . É um
facto" , disse, "que os espanhóis encontraram murais das pulquerías da
pré-Conquista . . . sempre a contarem esta lenda . E assim prossegue .
Nada acaba" , e acenou com a bela mão comprida, "continua a ser e
vai-se transformando , a pouco e pouco , noutra coisa."
"Eu diria que isso é um fim, de certa maneira" , contrapôs Carlos .
"Oh , bem , você " , disse Betancourt, sorrindo com imensa indulgên­
cia ao velho amigo , que gradualmente se transformava noutra coisa.
À s dez horas , don Genaro surgiu , a caminho de mais uma visita ao
juiz da aldeia. Dofia Julia, Andreyev, Stepanov, Carlos e eu estávamos a
caminhar nos terraços sob a luz intermitente do Sol que se ia esconden­
do atrás das nuvens , a olhar pela paisagem imensa do padrão de campo
e montanha. Stepanov tinha a sua pequena câmara e ia-nos tirando foto­
grafias , com os cães . Já tínhamos sido fotografados nos degraus com
uma cria de burro , com bebés índios ; na fonte no terraço superior, a sul ,
onde vivia o avô; diante da porta fechada da capela (com Carlos a fazer
de padre gordo e pio) ; no pátio ainda mais lá para trás , junto às ruínas
dos velhos banhos de pedra do mosteiro; e na pulquería.
Por isso , estávamos fartos d e retratos , e debruçámo-nos e m fila so­
bre a amurada para ver don Genaro ir-se embora . . . saltou pelos de­
graus pouco altos , com meia dúzia de moços índios a afastarem-se
para que ele passasse , içou-se para a sela da sua égua árabe , o seu
criado largou o freio de imediato e saltou para o seu cavalo , ao que don
Genaro galopou a toda a brida para fora do cercado , com o criado
montado a segui-lo a uns seis metros de distância. Cães , porcos , bur­
ros , mulheres , bebés , menino s , galinhas , tudo dispersou e fugiu dele ,
pequenos soldados puxaram os grandes portões externos à sua aproxi­
mação e os dois passaram velozes como tudo , desaparecendo no vazio
da estrada . . .
A Torre Inclinada e Outros Contos 173

"Aquele juiz nunca há-de libertar o Justino sem receber o dinheiro ,


eu sei , toda a gente o sabe . O Genaro sabe . Mesmo assim, continua a
ir e a dar luta, dar luta" , disse dona Julia na sua voz suave e monocór­
dica, sem censura.
"Oh , ainda é possível que o faça" , disse Carlos . "Se o Velarde inter­
vier, vai ver - o Justino salta cá para fora ! assim ! " E fez saltar uma
ervilha imaginária entre o indicador e o polegar.
"Sim , mas pense no que o Genaro terá de pagar ao Velarde ! " , excla­
mou dofia Julia. "É demasiado cansativo , logo agora que o filme esta­
va a correr tão bem ." Olhou para Stepanov.
Este disse-lhe: "Fique assim durante mais um segundo" , ergueu a
câmara e carregou no botão ; depois virou-se e espreitou através da
lente uma figura no pátio inferior. B aixo , de um cinzento-esbranquiçado
sujo contra o cinzento-amarelado sujo do muro , com o chapéu a tapar­
-lhe os olhos e os braços cruzados , Vicente não se mexia . Já estava ali
parado havia algum tempo , de olhar fixo . Por fim, moveu-se ; afastou­
-se subitamente com alguma resolução , quase chegou ao portão ; de­
pois continuou de olhar fixo , enquadrado no arco da passagem . Stepa­
nov tirou-lhe outra fotografia.
Eu disse a Andreyev, com quem caminhava um pouco afastada: "Gos­
tava de saber porque não deixou que o amigo Justino fugisse , podia
pelo menos ter-lhe dado uma oportunidade de tentar . . . Porque terá ido
atrás dele?, pergunto-me ."
"Vingança" , disse Andreyev. "Imagine um amigo de um homem a
traí-lo daquela maneira, e com uma mulher, e logo a irmã ! Ficou furio­
so . Se calhar não sabia o que estava a fazer . . . Imagino que agora se
arrependa."
Ao fim de duas horas , don Genaro e o criado estavam de volta; apro­
ximavam-se da hacienda a um ritmo razoável mas , ao ficarem a uma
distância bastante visível , chicotearam os cavalos e entraram no cerca­
do da mesma maneira que tinham saído . Os criados , subitamente des­
pertos , corriam de um lado para o outro , subiam e desciam escadas ,
davam voltas e mais voltas ; como antes , os animais procuravam refú­
gio . Três rapazinhos índios acorreram às rédeas da égua, mas Vicente
chegou primeiro . Saltou e dançou enquanto a égua baixava a cabeça,
tentando libertá-la, ele com os olhos fixos em don Genaro , o qual pu­
lou para o chão , aterrou com a ligeireza de um acrobata e se afastou ,
com um rosto perfeitamente inexpressivo .
Nada acontecera. O juiz continuava a querer dois mil pesos para li­
bertar Justino . Poderia ser aquela a resposta que Vicente esperava. Pas-
1 74 Katherine Arme Porter

sou a tarde inteira sentado , encostado ao muro , com os joelhos junto ao


queixo , o chapéu sobre os olhos , os pés nas sandálias gastas e lassas de
lado . Em meia hora, as más notícias já eram conhecidas até pelo ho­
mem mais distante nos campos de agave . À mesa, don Genaro comeu
e bebeu numa pressa silenciosa, como um homem que tem de apanhar
o último comboio para uma viagem da qual depende a sua vida. "Não ,
isto não fica assim" , disparou , batendo com o punho na mesa ao lado
do prato . "Sabem o que me disse o imbecil do juiz? Perguntou-me por­
que me preocupava tanto com um peão . Eu disse-lhe que só eu é que
decido com que é que me preocupo . Ele disse que tinha ouvido dizer
que estávamos a rodar aqui um filme com homens que se alvejavam
uns aos outros . Disse que tinha a cadeia cheia de homens à espera de
serem alvejados e que teria todo o gosto em mandá-los para que os al­
vejássemos no filme . Disse que não percebia porque fingíamos matar
gente quando podíamos ter todos os que precisássemos de matar a sé­
rio . Ele acha que o Justino também devia ser morto . Ele que tente ! Mas
nunca neste mundo lhe darei dois mil pesos ! "
A o pôr-do-sol , o s homens que conduziam o s burros chegaram dos
campos de agave . Os trabalhadores da adega começaram a esvaziar o
pulque fermentado para barris e a despejar a água fresca de agave nas
vasilhas de couro fedorentas . Os cânticos , as contagens e o rolar dos
barris pela rampa recomeçaram de novo nessa noite . A cheia branca de
pulque fluía sem cessar; por todo o México , os índios beberiam o licor
branco como um cadáver, engoliriam rios de esquecimento e descon­
tracção , e o dinheiro fluiria, branco como prata, para os cofres do go­
verno ; don Genaro e os outros hacendados bradariam e praguejariam ,
o s Agrários fariam incursões e políticos ambiciosos na capital rouba­
riam o suficiente à esquerda e à direita para comprarem haciendas
para si mesmos . Estava tudo em ordem.
Passámos a noite na sala de bilhar. O Dr. Volk tinha chegado e aten­
dido U spensky durante uma hora; este tinha apenas a garganta irritada
e uma ameaça de amigdalite . O Dr. Volk podia curá-lo . Entretanto ,
jogou uma rodada de bilhar com Stepanov e don Genaro . Era um mé­
dico esplêndido , consciencioso e. trabalhador, um russo, e não era ca­
paz de ocultar o seu encanto por estar de novo entre russo s , a passar
umas pequenas férias com um paciente que não estava muito doente ,
afinal , e com uma oportunidade de jogar bilhar, que ele adorava . Quan­
do chegou a sua vez , trepou , a sorrir, para o rebordo da mesa, debru­
çou-se até metade da baeta verde , fechou um olho , equilibrou o taco,
fez pontaria e tornou a equilibrá-lo . Sem dar tacada alguma , rebolou
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 75

para fora da mesa, sempre a sorrir, colocou-se noutro ângulo , voltou a


medir a distância , debruçou-se até ficar quase colado à mesa, mediu a
distância, deu a tacada e falhou , a sorrir. Depois foi a vez de Stepanov.
"Simplesmente não entendo" , disse o Dr. Volk, a abanar a cabeça, ob­
servando Stepanov com tanta intensidade que ficou com os olhos hu­
medecidos .
Andreyev estava sentado num banco baixo a tocar guitarra e a can­
tar canções russas num murmúrio contínuo . Doõa Julia enroscou-se no
divã perto dele , trajada com o seu pijama preto e com o pequinês ao
pescoço como se fosse um lenço . O animal fungava e rosnava e revi­
rava os olhos numa síncope de agrado flácido . Os cães grandes fareja­
vam à volta dele com testas num emaranhado sofrido . Ele latia-lhes ,
ameaçava-os e choramingava. "Não acreditam que é realmente um
cão" , comentou doõa Julia, maravilhada. Carlos e Betancourt estavam
sentados a uma pequena mesa, com pautas de música e modelos de
figurinos diante deles. Conversavam como se revissem um tema que
os preocupasse a ambos . . .
Eu estava a aprender um novo jogo de cartas com um jovem moreno
e magro que era uma espécie de assistente de Betancourt. Era muito
cortês , de cintura estreita e devotado , dizia, à pintura de frescos , "só
dos modernos" , contou-me , "como os de Rivera, o método , mas não o
estilo antiquado dele . Estou a decorar uma casa em Cuemavaca, venha
vê-la. Vai perceber o que estou a dizer. Não devia ter jogado a adaga" ,
acrescentou ; "agora eu uso a coroa e pronto , foi derrotada." Reuniu as
cartas e baralhou-as . "Quando o Justino estava cá" , disse ele , "o reali­
zador estava sempre a ter problemas com ele nas cenas sérias , porque
o Justino achava que tudo era uma brincadeira. Nas cenas de morte ,
passava o tempo de sorriso pespegado na cara e estragou uma boa
quantidade de filme . Agora dizem que , quando ele voltar, ninguém vai
ter de lhe dizer: ' Não te rias , Justino , isto é a morte , não é engraçado . " '
Doõa Julia virou o pequinês d e barriga para cima e fê-lo rolar para
trás e para a frente no colo . "Ele vai esquecer tudo assim que estiver
acabado . . . a irmã, tudo" , disse ela, com delicadeza, a fitar-me com uns
olhos suaves e vazios . "São animais . Para eles nada tem importância.
E" , acrescentou , "é bem possível que ele não volte ."
Um silêncio semelhante a um transe ligeiro recaiu sobre a sala intei­
ra, na qual todas aquelas pessoas unidas pelo acaso e que nada tinham
a dizer umas às outras estavam , por ora , aprisionadas . A acção era a
defesa que tinham contra a situação em que se encontravam , todas
juntas e , por ora , nada estava a acontecer. O suspense no ar parecia
1 76 Katherine Anne Porter

prestes a explodir quando Kennedy chegou em bicos dos pés , como


um homem a entrar na igreja. Toda a gente se voltou para ele , como se
ele fosse , por si só , toda uma equipa de resgate . Anunciou a sua má­
-nova em voz bem sonora: "Tenho de voltar ainda esta noite à Cidade
do México . Há uma data de problemas lá. Por causa do filme . É me­
lhor voltar e resolver a coisa com os censores . Acabei de falar ao tele­
fone e dizem-me que estão a falar de cortar uma bobina inteira . . . sa­
bem , a cena com os pedintes na fiesta ."
Don Genaro pousou o tâco . "Eu vou voltar hoje" , disse ele; "pode ir
comigo ."
"Hoje?" Doíia Julia voltou o rosto para ele , com os olhos cabisbai­
xos . "Porquê?"
"Lolita" , disse ele , concisa e iradamente . "Ela tem de voltar. Preci­
sam de repetir três ou quatro cenas ."
"Ah , isso é encantador ! " , exclamou doíia Julia. Enterrou a cara no
pêlo do seu cãozinho . "Ah , encantador ! A Lolita de volta ! Vai , vai
buscá-la - mal posso esperar ! "
Stepanov falou para trás d o ombro com Kennedy, sem tentar sequer
disfarçar a impaciência - "Eu não me preocuparia com os censores
- eles que façam o que quiserem."
O maxilar de Kennedy agitou-se e a voz treme�-lhe : "Meu Deus !
Eu tenho de me preocupar e alguém daqui tem de pensar no futuro ! "
Dez minutos mais tarde , o potente carro de don Genaro rugia a pas­
sar pela sala de bilhar e a descer pela estrada escura e selvagem em
direcção à capital .

De manhã, começou um regresso gradual à cidade , de comboio , de


automóvel . "Fique aqui" , disse-me cada um deles à vez , "voltamos
amanhã, o Uspensky vai sentir-se melhor e o trabalho vai recomeçar."
Doíia Julia estava de cama. Despedi-me dela à tarde . Ela estava sono­
lenta e suave , enroscada com o pequinês no ombro . "Amanhã" , disse
ela , "a Lolita estará aqui e haverá uma grande agitação . Vão refazer
algumas das melhores cenas ." Eu não podia esperar pelo dia seguinte
naquele ambiente malsão . "Se voltar daqui a dez dias" , disse-me o
condutor índio , "há-de ver um sítio diferente . Agora está tudo muito
triste aqui . Mas o milho verde estará pronto e, ah , haverá suficiente
para comer de novo ! "
A Torre Inclinada
e Outros Contos
O Antigo Regime

A Fonte

Uma vez por ano , no início do Verão , depois de a escola fechar e as


crianças serem enviadas para a quinta, a Avó começava a suspirar pelo
campo . Com um ar temo , como se inquirisse por um neto predilecto ,
fazia perguntas acerca das colheitas , queria saber que tipo de j ardins
os negros estavam a fazer, como iam os animais . De vez em quando ,
comentava: "Também começo a sentir a necessidade de alguma mu­
dança e descontracção" , num tom de vaga garantia, como se dizê-lo
não significasse , nem por um instante , que tencionasse descontrair a
rédea firme com que geria os negócios da farm1ia. A sua teoria favori­
ta consistia em que mudar de ocupação era uma forma - provavel­
mente a melhor - de descansar. Os três netos começariam a sentir na
casa as vibrações ténues mas certas de partida; o filho dela, pai deles ,
adoptaria o ar de paciência cuidadosa que mascarava imperfeitamente
a sua irritação devido aos problemas e inconveniências vindouros que
teriam de ser enfrentados na quinta. "Então , Harry, então , Harry ! " ,
admoestava-o a mãe , pois nunca s e deixava enganar pelos seus modos ;
na verdade , ele nunca pretendia enganá-la; e ela começaria a tentar
aplacá-lo , perguntando-se falsamente se poderia afastar-se , afinal , ha­
vendo ainda tanto que fazer onde estava. Anelava por uma lufada de ar
do campo . Imaginava-se sempre a passear ociosamente à sombra dos
pomares , a ver os pêssegos amadurecer; falava com nostalgia de podar
as roseiras ou de entrançar a treliça de madressilva com as suas pró­
prias mãos . Emalava as suas saias pretas de Verão , os seus finos cor­
petes brancos e pretos , e tirava do armário um chapéu de palha de aba
1 80 Katherine Anne Porter

larga, bastante gasto , que ela mesma tecera para si logo a seguir à
guerra. Ao experimentá-lo , virando a cabeça com um ar crítico para
um lado e para o outro em frente ao espelho , decidia que era capaz de
servir bem para a proteger do sol e acabava sempre por levá-lo , embo­
ra nunca o usasse . Em vez disso , usava uma touca de cambraia branca
retesada de goma , com a parte de cima arredondada e abotoada numa
faixa estreita; assentava-lhe com impertinência no alto da cabeça , a
parecer capaz de voar a qualquer momento , com as fitas compridas e
hirtas a penderem. Sob o toucado , o seu rosto pálido , contraído e mui­
to velho fitava tudo com uma calma majestosa.
No início da Primavera, quando o pessegueiro junto à parede da
casa começava a florir, ela dizia: "Plantei cinco pomares em três esta­
dos e agora só vejo uma árvore em flor." Uma melancolia suave e
agradável invadia-a; ela ficava bastante imóvel durante algum tempo ,
a fitar aquela única árvore que representava todas as suas árvores ado­
radas ainda a florirem, a florescerem e a prepararem-se para dar frutos
nos vários sítios onde se encontravam.
Deixando a Tia Nannie , que servira de ama aos seus filhos , a tomar
conta da moradia, partiu na sua viagem.

Se a partida era uma aventura encantadora para as crianças , chegar


à quinta era todo um acontecimento para a Avó . Hinry corria para lhe
abrir o portão , com o seu rosto negro como carvão a rasgar-se num
sorriso e a voz a flutuar à sua frente , exclamava: "Como está, Miss
Sophia Jane ! " , sem se dar conta de que a carri ola abarrotava com
membros da farru1ia . Os cavalos entravam a trote , com os ventres a
abanar e a fazer barulho , e a Avó , distribuindo saudações na sua voz
de dia de festa, aligeirava-se , rodeada pelos seus , com o mesmo alvo­
roço que marcava as suas viagens de comboio; mas desta feita com a
sensação indefinível de chegar a casa, não à casa em si mas à terra
negra, rica e suave , e aos seres humanos que nela vivem . Sem tirar a
touca com o longo véu de viúva, caminhava logo pela casa, observan­
do imediatamente que tudo estava em desordem; saía para os quintais
e os jardins , lançando olhares silenciosos e fazendo planos imediatos
de alterações; continuava pelo caminho estreito , transpunha os celei­
ros , com um olhar atento para dentro e em redor de tudo por que ia
passando ; e continuava, com o canavial à esquerda, os prados à direita,
até chegar aos casebres dos negros , que se perfilavam ao longo da
sebe de pau-d ' arco .
A Torre Inclinada e Outros Contos 181

Aproximando-se com uma saudação agradável para todos , que de


forma alguma prometia isenção da ira vindoura, entrava nas cozinhas
deles , espreitava-lhes os barris de comida, os fomos , as prateleiras dos
armários , todos os cantos e nesgas , por menores que fossem , com Lit­
tie , Dicey, Hinry, Bumper e Keg a seguirem-na , a tentarem explicar
que as coisas estavam apenas um pouco descuidadas por causa do
excesso de trabalho no exterior, que não lhes permitira arranjar tudo
como queriam; mas que iam tratar disso de imediato .
E iam mesmo , a Avó bem sabia. Ao fim de uma hora, alguém já tinha
partido na carro ça com uma encomenda de tanta cal para pintar, tantos
litros de querosene e tanto de fenol e de insecticida. Sabão caseiro apa­
recia, vindo da lavandaria, e o frenesim começava. Cada capa de col­
chão era esvaziada das espigas de milho e fervida, enquanto até o negro
mais pequeno do sítio deitava mãos à obra, colhendo uma nova leva de
espigas , cada casebre era caiado com uma camada espessa, caixotes e
armários eram esfregados , todas as cadeiras e estruturas de cama eram
envernizadas , todas as mantas imundas eram trazidas à luz , fervidas
numa grande panela de ferro e estendidas ao sol; e o alvoroço tinha todo
o carácter especial de uma ocasião anual . As negras eram incumbidas de
fazer um conjunto novo de camisas para os homens e as crianças , de
vestidos e aventais de algodão para si mesmas . Quem quer que desejas­
se queixar-se aproveitava então a oportunidade . Mister Harry tinha-se
esquecido por completo de comprar sapatos a Hinry, olhe só: Hinry ti­
nha passado o Inverno inteiro assim , descalço . Mister Miller (um ho­
mem de bigodes ruivos que ocupava uma posição dúbia entre capataz ,
quando Mister Harry se ausentava, e simples contratado , quando este se
encontrava presente) tinha-lhes cortado a ração de tudo o que se pudesse
imaginar durante o Inverno passado - não lhes dera suficiente farinha
de milho , nem metade do bacon de que precisavam, a lenha não chega­
ra, nada chegara. Littie precisara de um pouco de açúcar para o cáfê e
acha que Mister Miller lho dava? Não . Mister Miller tinha dito que
ninguém precisava de açúcar no cáfê. Hinry dizia que Mister Miller nem
sequer punha açúcar no cáfê porque era demasiado forreta. Boosker, a
bebé de três anos , tinha tido dores nos ouvidos em Janeiro e Miz Carle­
ton tinha ido lá e tinha-lhe posto lódano e Boosker parecia surda desde
então . O cavalo preto que Mister Harry comprara no Outono passado
tinha ficado mesmo louco e saltara uma vedação de arame farpado , qua­
se rasgara o peito todo e desde então que não servia para nada.
Todos estes transtornos e dúzias do mesmo género tinham de ser
apaziguados de imediato; depois a atenção da Avó voltava-se para a
1 82 Katherine Anne Porter

casa principal , que precisava de ser completamente reformada. As gran­


des escrivaninhas eram abertas e velhos tomos decrépitos de Dickens ,
Scott , Thackeray, o dicionário do Dr. Johnson , os volumes de Pope ,
Milton, Dante e Shakespeare desempoeirados antes de tornarem a ser
fechados com cuidado . Cortinas desceram em montes sebentos e volta­
ram a subir, retesadas e bem-cheirosas ; tapetes eram arrastados numa
confusão empoeirada e regressavam lisos e de novo alegres com flores;
a cozinha deixava de estar imunda e desolada, tomando-se um lugar de
ordem celestial onde era tentador permanecer.
Em seguida, os celeiros , os fumeiros e a cave das batatas , os jardins
e todas as árvores, heras ou arbustos precisavam daquele toque restau­
rador. Durante duas semanas aquilo continuaria, com a Avó no papel
de capataz de escravos , incansável , justa e eficiente , a orientar todas as
criaturas do lugar. As crianças corriam à vontade lá fora, mas não co­
mo quando ela não estava . Chegava uma certa hora, todos os dias , em
que eram reunidas , capturadas , lavadas , vestidas de forma adequada,
obrigadas a comer o que lhes era colocado no prato sem apresentarem
resistência, postas na cama na altura indicada e nada de disparates . . .
Adoravam a Avó; era a única realidade que tinham num mundo que ,
fora isso , parecia desprovido de autoridade ou refúgio fixo , dado que
a mãe morrera tão cedo que só a rapariga mais velha se lembrava va­
gamente dela; não obstante , achavam que a Avó era tirana e desejavam
libertar-se dela; por isso ficavam sempre satisfeitas quando , em deter­
minado dia , como sinal de que a visita se aproximava do fim, ela ia até
ao prado e chamava o velho cavalo de montar, Fiddler.
Este fora em tempos um belo cavalo adestrado , mas era agora um
velho , cansado e desalentado herói , com pêlos grisalhos no maxilar e
no queixo , que passava a vida a encostar o focinho de lábios pendentes
ao chão , em busca de pedaços tenros de erva, ou a aceitar cautelosa­
mente torrões de açúcar entre os dentes trémulos . Não prestava aten­
ção a quem quer que fosse , excepto à Avó . Todos os Verões , quando
ela ia ao campo dele e o chamava, lá cambaleava ele , quase com um
brilho nos olhos enevoados . As duas velhas criaturas cumprimentavam­
-se com ternura. A Avó sempre tratara os amigos animais como se
fossem seres humanos temporariamente metamorfoseado s , mas nem
esse acidente os dispensava dos deveres adequados à sua condição . Ela
dava ordens para que Fiddler lhe fosse levado aprestado com a sua
velha sela lateral - as suas pequenas netas montavam com uma perna
para cada lado e ela não via mal algum nisso , para elas - e montava
com o pé na mão curvada do Tio Jimbilly. Fiddler lembrava-se da ju-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 83

ventude e desatava num galope de pernas perras , e lá ia ela com as suas


ligaduras de crepe e a antiquada saia de montar a voar. Regressavam
sempre a passo , a Avó direita como uma flecha , a sorrir, triunfante .
Apeando-se por si só no degrau de apoio , afagava o pescoço de Fid­
dler antes de o devolver ao Tio Jimbilly e de se afastar com a cauda da
saia majestosamente sobre um braço .
O galope daquele ano com Fiddler era importante para ela; provava
a sua força, a sua energia duradoura. A qualquer momento , Fiddler
poderia ir-se abaixo , mas ela não . Ela diria: "Está a ficar com os joe­
lhos perros" , ou "Este ano está com pouco fôlego" , mas ela própria
caminharia ligeiramente e respiraria com a facilidade de sempre , ou ,
pelo menos , era. nisso que preferia acreditar.
Naquela mesma tarde , ou talvez no dia seguinte , daria o seu há mui­
to prometido passeio ocioso pelos pomare s , sem nada que fazer, com
os netos a correrem à sua frente e a voltarem para o seu lado: sem
nada de nada que fazer, as mãos juntas , as saias a arrastarem pelo chão
e a apanharem galhos , revirarem pequenas pedras , varrendo um cami­
nho ténue atrás dela, com a touca branca inclinada sobre um olho , um
sorriso compenetrado e fixo nos lábios , os olhos a não deixarem esca­
par coisa alguma. Regra geral , o passeio terminava com Hinry ou
Jimbilly a serem despachados para os pomares de imediato para trata­
rem de alguma melhoria insignificante mas indispensável .
A Avó seria então assoberbada pela noção de estar a preguiçar quan­
do havia tanto que fazer em casa . . . Daria uma última vista de olhos a
tudo , instruções , conselhos , despedidas , bênçãos . Seguiria caminho
com aquele olhar estranho de deixar tudo para sempre , e chegaria à
vila com o mesmo ar de regresso a casa que tinha ao chegar ao campo ,
num corrupio delicado de saudações e felicitações , como se tivesse
passado meio ano fora . E dedicar-se-ia de imediato a restaurar a ordem
do lugar, que sem dúvida se extraviara bastante durante a sua ausência.

A Jornada

Nos seus últimos anos , a Avó e a velha Nannie costumavam passar


algumas horas juntas todos os dias , sentadas a costurar. Partilhavam
uma paixão por recortar restos do enxoval da farm1ia, acumulado ao
longo de cinquenta anos , em tiras e triângulos , e a uni-los de novo em
1 84 Katherine Anne Porter

remendos cuidadosamente desordenados , contornando cada pedaço de


veludo , de cetim ou de tafetá com um ponto de pena corrido em fio de
seda claro , cor de limão . Tinham concebido cobertas de cama e de
poltronas , bem como toalhas e passadeiras de mesa, suficientes para
abastecer várias casas . De cada vez que uma peça ficava concluída, era
envolvida em seda amarela, dobrada e guardada· numa arca, para nun­
ca mais ver a luz do dia . A Avó era a tetraneta do mais famoso pionei­
ro do Kentucky ; enquanto explorava o Kentucky, talhara com bastante
competência um rolo da massa para a esposa. Esse rolo da massa era
o tesouro insubstituível da Avó . Protegeu-o com uma extraordinária
capa de retalhos , acrescentou-lhe borlas douradas nas pegas e pendu­
rou-o num sítio conspícuo no seu quarto . Era filha de �m capitão cujos
feitos heróicos durante a Guerra de 1812 haviam sido notáveis . Guar­
dava as lâminas dele num estojo de chagrém e um daguerreótipo com
um ar particularmente severo que o representava em idade avançada,
com o queixo em riste e a casaca de cetim preto alisada sobre o peito
militar ainda elegante . Por isso , fez uma capa de remendos à medida
do estojo e uma espécie de envelope de veludo e cetim violeta, unidos
por ponto de pena , para conter o retrato . Quanto ao resto do seu traba­
lho manual , guardou-o, para alívio dos netos , que tinham chegado à
idade difícil em que os modos antiquados e pitorescos da Avó lhes
causavam um desconforto agudo .
No Verão , as mulheres sentavam-se à sombra das árvores mescladas
do j ardim lateral , o qual proporcionava uma vista da ala ocidental , dos
alpendres da frente e das traseiras , de uma boa parte do jardim da fren­
te e de um canto da pequena plantação de figueiras . Tinham escolhido
o local como parte da sua estratégia doméstica. Muito pouco lhes es­
capava: um olhar de relance de quando em vez bastaria para as manter
razoavelmente bem informadas em relação ao que se passava em toda
a casa. É verdade que não tinham visto Miranda no dia em que ela
arrancara todo o canteiro de hortelã para oferecer a uma jovem simpá­
tica e desconhecida que passara e lhe pedira um pezinho de hortelã
fresca. Nunca tinham descoberto quem roubava as romãs gigantes que
cresciam demasiado perto da cerca; não haviam chegado a tempo de
impedir Paul de se incendiar enquanto fazia experiências com um ma­
çarico em miniatura, mas tinham estado presentes para extinguirem o
fogo com cobertores , para lhe despejarem óleo na pele e para lhe da­
rem um sermão . Nunca viram Maria subir às árvores (uma mania a que
tinha de ceder, sob pena de ser consumida por ela) , pois escolhia as
altas , do outro lado da casa . Todavia, tais casualidades compunham
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 85

uma parte tão mínima da perpétua ronda de acontecimentos que elas


não se sentiam derrotadas , nem consideravam que a estratégia fosse
um fracasso . O Verão , em tantos sentidos uma estação tão desejável ,
tinha os seus inconvenientes . As crianças estavam em todo o lado ao
mesmo tempo e os negros adoravam deitar-se à sombra dos lódãos
atrás dos celeiros , entretidos com jogos e a comer melancia. A casa de
veraneio ficava numa pequena vila , a poucos quilómetros da quinta,
um meio-termo entre a casa rigorosamente ordenada na cidade e a
enorme casa de campo que a Avó construíra, com tanto orgulho e so­
frimento . Faltavam-lhe , dizia com frequência, todas as vantagens quer
do campo , quer da cidade , e tinha , isso sim , todos os desconfortos de
ambos . Mas as crianças adoravam.
Durante os Invernos na cidade , sentavam-se no quarto da Avó , uma
grande divisão mais ou menos quadrada com uma pequena salaman­
dra. Todos os sons da vida da casa pareciam convergir ali , ecoar,
retirar-se e regressar. A Avó e a Tia Nannie conheciam todo o compli­
cado código de sons , eram capazes de os interpretar e comentar através
de uma troca de olhares , uma sobrancelha arqueada ou uma pausa
mínima na conversa.
Falavam acerca do passado , na verdade - sempre acerca do passa­
do . Com elas , até o futuro parecia algo ido e feito quando o discutiam .
Não uma extensão do passado delas , mas uma repetição . Concorda­
vam que nada restava da vida como a haviam conhecido , que o mundo
mudava rapidamente mas , pela misteriosa lógica da esperança , teima­
vam que cada mudança seria provavelmente a última; ou , se não fosse,
que uma série de mudanças poderia levá-las , abençoadamente , a com­
pletarem todo o círculo de volta aos modos antigos que conheciam.
Quem sabe porque adoravam o passado? Fora árduo para ambas , elas
tinham questionado o jugo pesado sob o qual viviam todos os dias das
suas vidas , mas sem se rebelarem e sem esperarem resposta. Aquele
fio intacto de questionamento nas suas mentes não continha dúvida
alguma quanto à absoluta rectidão e justiça das leis básicas da existên­
cia humana, já que estas se baseavam no plano de Deus; mas pergun­
tavam-se perpetuamente , apenas indicando de vez em quando uma à
outra o desconforto que lhes ia no coração , como tanto sofrimento e
confusão pode ter-se construído e mantido sobre tais alicerces . O papel
da Avó era o da autoridade , ela sabia-o; competia-lhe racionar activi­
dades , instar ou restringir consoante a necessidade , ensinar moral ,
modos e religião , punir e recompensar a sua própria farm1ia de acordo
com um código fixo . Ocultava as dúvidas e hesitações que tivesse ,
1 86 Katherine Ann e Porter

também, recordava-se , como um dever. Quanto à velha Nannie , não


tinha quaisquer ideias quanto ao lugar que ocupava no mundo . Este
fora-lhe atribuído antes de haver nascido e, como regra diária durante
toda a vida, obedecera à autoridade mais próxima de si .
Destarte , falavam acerca de Deus , acerca do Céu , acerca de planta­
rem uma nova sebe de roseiras , acerca das novas formas de preservar
fruta e vegetais , acerca da eternidade e da esperança mútua que nu­
triam de poderem passá-la alegremente juntas , e não raro um resto de
seda nas suas mãos desencadeava-lhes longos trajectos por reminis­
cências familiares . Achavam sempre engraçado reparar na forma como
o funcionamento das suas memórias diferia em questões tão importan­
tes . Nannie lembrava-se perfeitamente de nomes; era sempre capaz de
dizer como estava o tempo em todas as ocasiões importantes , o que
certas senhoras tinham vestido , quão elegantes haviam sido certos
cavalheiros , que comida e bebida fora servida . A Avó tinha amontoa­
dos de datas na mente , sem memórias agregadas : as suas recordações
de eventos pareciam soltas e a flutuar para lá do tempo . Por exemplo ,
26 de Agosto de 1 87 1 fora algum dia memorável para si . Tinha dito a
si mesma que nunca haveria de esquecer aquela data; e , de facto ,
lembrava-se bem do dia, mas já não fazia a menor noção do que teria
acontecido para lho gravar na memória. Nannie não a ajudava de todo
neste aspecto ; as datas nada lhe diziam . Não sabia em que ano nascera
e nunca teria tido um dia de aniversário para celebrar caso a Avó não
tivesse , quando ainda era Miss Sophia Jane e tinha dez anos , aberto um
calendário ao acaso , fechado os olhos e marcado com uma caneta uma
data às cegas . Assim , desde então , o aniversário de Nannie passaria a
calhar a 11 de Junho , e o ano de nascimento , decidiu Miss Sophia Jane ,
deveria ser o de 1 827 , que era também o seu , tomando Nannie apenas
três meses mais nova do que a patroa. Sophia Jane criou então uma
entrada com a data de aniversário de Nannie na B íblia da fallll1ia, inse­
rindo-o imediatamente a seguir ao seu . "Nannie Gay", escreveu , com
uma caligrafia cuidadosa e rígida , "(negra)" , e, apesar de ter havido
algum alvoroço quando isso foi descoberto , a tinta já se incutira bem
fundo no papel e, para mais , ninguém ficou suficientemente zangado
para que fosse riscado . Ali permaneceu , sendo um dos pontos de refe­
rência mais agradáveis de que dispunham .
Conversavam acerca de religião e do caminho descuidado que o
mundo estava a tomar ultimamente , da degeneração do comportamento
e das crianças mais pequenas , que estes tópicos lhes traziam sempre à
memória. Sobre estes assuntos , eram firmes , críticas e resolutas . Tinham
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 87

recebido educações que lhes proporcionavam um hábito mental enrai­


zado acerca de todas as aparências importantes da vida, e sobretudo
acerca da criação dos jovens . Confiavam, com perfeita aquiescência, no
dogma de que os filhos eram concebidos em pecado e criados em ini­
quidade . A infância era um prolongado estado de instrução e de provas
de preparação para a vida adulta, a qual por sua vez era uma longa, ri­
gorosa e inflexível devoção ao dever, sendo que a maior parte deste
consistia em educar filhos . Os jovens eram difíceis , desobedientes e
incansáveis nas suas malfeitorias , aptos a tomarem-se desagradáveis e
incumpridores quando crescessem, independentemente de tudo o que se
tivesse feito ou tentado fazer por eles , pois pequenas dúvidas dolorosas
insinuavam-se nelas de quando em vez ao olharem para as suas obras
completas . Nannie não suportava os seus netos ultramodemos . "Uma
cambada de inúteis , instáveis , simples escumalha, Miss Sophia Jane; é
que não percebo , depois de toda a educação que tiveram ."
A Avó defendia-os e desconsiderava a segunda geração da sua própria
linhagem - e com ânimo , pois sinceramente encontrava-lhes defeitos
graves - , que Nannie , por seu turno , defendia. "Quando são pequenos ,
pisam-nos os pés , e quando crescem pisam-nos o coração ." Isso era
praticamente tudo o que havia a dizer acerca de filhos de qualquer gera­
ção , mas o fascínio pelo tema era infindável . Repetiam-no vezes sem
fim, com milhares de pequenas variações , sempre com um exemplo
entre os seus amigos ou ligações familiares para o provarem . Dispu­
nham de reportório próprio que bastasse . A Avó tinha gerado onze filhos ,
Nannie treze . Vangloriavam-se disso . A Avó dizia: "Sou mãe de onze" ,
num tom ligeiramente espantado , como se dificilmente esperasse que
alguém acreditasse , ou como se nem ela mesma acreditasse bem nisso .
Contudo , ainda podia apontar para nove deles . Nannie perdera dez dos
seus . Todos estavam enterrados no Kentucky. Nannie nunca se espanta­
va nem esperava que alguém duvidasse que ela tivera filhos . A sua
vanglória era de outra natureza. "Treze deles" , dizia, numa voz apavora­
da, "sim, meu Senhor e meu Redentor, treze ! "
A amizade entre a s duas velhotas começara e m tenra infância e
baseava-se em acontecimentos que até a elas pareciam míticos . Miss
Sophia Jane , uma primorosa e mimada menina de cinco anos , de canu­
dos pretos que eram enrolados todos os dias num pau , com as panta­
lettes com pregas bem engomadas e corpete justo , correra a receber o
pai que regressava, depois de ter ido comprar cavalos e pretos . Sentada
ao colo do pai , com as mãos à volta do pescoço dele , tinha observado
as carroças que passavam a caminho dos celeiros e das instalações . No
1 88 Katherine Ann e Porter

piso da primeira carroça iam dois negros , um homem e uma mulher,


que seguravam entre si uma criança escanzelada e semidespida, com
uma cabeça redonda e crespa e uns olhos fixos e brilhantes de macaco .
A negrinha bebé tinha a barriga inchada e os seus braços pareciam
palitos do pulso ao ombro . Com dedos estreitos , enfezados e pretos ,
agarrava-se aos pais , uma mão em cada.
"Eu quero a macaquinha" , disse Sophia Jane ao pai , acariciando-lhe
o rosto com o nariz e a apontar. "Quero aquela para brincar."
Atrás de cada carroça iam dois cavalos emparelhados , mas na se­
gunda carroça havia um pequeno pónei escanzelado com uma mecha
da crina a tapar-lhe os olhos , uma cauda comprida como um pincel e
um corpo redondo e robusto de barril . Estava com palha até aos joe­
lhos , bem seguro num cubículo acolchoado com um preto a segurar­
-lhe o freio . "Estás a ver?", perguntou-lhe o pai . "É para ti . Já está na
altura de aprenderes a montar."
Sophia Jane quase lhe saltou dos braços , tal a sua alegria. Mal reco­
nheceu o seu pónei ou a sua macaca no dia seguinte , o primeiro apara­
do e lustroso , a segunda limpa e num novo vestido de algodão azul .
Durante algum tempo , não foi capaz de decidir de qual gostava mais ,
se de Nannie , se de Fiddler. Porém, Fiddler não durou . Ela ficou de­
masiado crescida para ele ao fim de um ano e, sem ressentimento ,
viu-o passar para um irmão mais pequeno , embora se tivesse recusado
a deixá-lo continuar a chamar-lhe Fiddler. Reservaria esse nome para
uma longa série de cavalos de passeio . Tinha baptizado o primeiro em
honra de Fiddler Gay, um velho negro que fazia a música para os bai­
les e as festas . Só havia uma Nannie , e essa durou mais do que Sophia
Jane . Durante toda a vida que partilharam , em causa não estava tanto
o afecto mútuo mas antes a simples questão de não conseguirem ima­
ginar existir uma sem a outra.
Nannie lembrava-se bem de estar numa plataforma pouco profunda
em frente a um grande edifício de um sítio muito azafamado , a maior
cidade que alguma vez vira. O pai e a mãe encontravam-se consigo e
havia uma multidão cerrada à volta deles . Havia vários outros pequenos
grupos de negros reunidos , com homens brancos a passarem pelo meio
deles de vez em quando . Ela nunca tinha visto qualquer um daqueles
rostos e só voltaria a ver um deles . Lembrava-se de que deveria ser
Verão , pois não estava a tremer de frio com o seu camiseiro de algodão .
Para mais , ainda lhe ardia o traseiro de uns bons açoites que alguém
(era possível que tivesse sido a mãe) lhe dera mesmo antes de subirem
para a plataforma, para a recordar de que devia estar quieta. A mãe e o
A Torre Inclinada e Outros Confos 1 89

pai eram trabalhadores do campo e nunca tinham vivido em casa de


gente branca. Um cavalheiro alto de rosto longo e estreito e nariz mui­
to curvado , a usar um casaco azul com uma grande gola e umas calças
imensamente compridas , de uma cor clara (Nannie podia fechar os
olhos e voltar a ver, nitidamente , como ele estava nesse dia) , surgiu
perto deles de repente , provocando um grande rebuliço . O homem de
cara avermelhada que estava de pé em cima de um cepo ao lado deles
gritou e apregoou , acenando com os braços e apontando para a mãe e
para o pai de Nannie . De vez em quando , o cavalheiro alto levantava
um dedo , sem olhar para as pessoas negras na plataforma. De súbito , a
gritaria parou , o cavalheiro alto aproximou-se e disse aos pais de
Nannie : "Bem , Eph ! Bem, Steeny ! Mister Jimmerson j á vem buscar­
-vos ." Espetou um dedo indicador, dentro de uma luva grossa, no estô­
mago de Nannie . "Isco para corvos , nada mais" , disse ao almoedeiro .
"Devia ter vindo de borla."
"Agora é um artigo bastante inútil , senhor, concordo consigo" , disse
o almoedeiro , "mas há-de crescer. Quanto à parelha, não vai encontrar
melhor, juro ."
"Já andava de olho neles há anos" , disse o cavalheiro alto , e afastou­
-se , fazendo sinal a um gordo sentado na aba traseira de uma carroça,
a cuspir carradas de suco de tabaco . O gordo levantou-se e acercou-se
de Nannie e dos pais desta.
Nannie tinha sido vendida por vinte dólares : um brinde , poder-se-ia
dizer, praticamente não se consideraria uma venda. Ficou a saber que
um escravo de categoria por vezes custava mais de mil dólares . Viria
a ouvir escravos a gabarem-se de quanto tinham custado . Só soubera
por quão pouco fora arrebatada quando a sua própria mãe lho atirara à
cara . Isso tinha sido depois de Nannie passar a viver de vez na casa
grande , enquanto o � pais continuavam nos campos . Viveram, trabalha­
ram e morreram lá. Um bom remédio para as lombrigas tinha curado
a barriga inchada de Nannie , que medrara com comida abundante e
uma espécie de amabilidade que talvez não fosse tão indulgente como
a que era dada aos cachorros ; mas continuava a ser mais do que preen­
cheria as suas noções de boa sorte .

Muitas veze s , as velhotas falavam das voltas estranhas que a vida


dava. O primeiro proprietário de Nannie e dos pais dela, segundo dizia
o pai de Sophia Jane , tinha ido num entusiasmo desenfreado para o
Texas . Era uma nova Terra de Promessas , em 1 832. Vendera a quinta e
1 90 Katherine Anne Porter

quatro escravos no Kentucky para adquirir uma grande propriedade de


trinta quilómetros de largo no Sudoeste do Texas . Levara a mulher e
dois filhos pequenos e partira, e não houvera mais notícias dele durante
muitos anos . Quando a Avó chegara ao Texas , quarenta anos depois ,
encontrara-o como um rancheiro próspero , além de juiz de comarca.
Muito mais tarde , o filho mais novo dela conhecçra a neta dele , apaixo­
nara-se e casara com ela - tudo numa questão de três meses .
O juiz , nessa altura com oitenta e cinco anos , estava radiante e fes­
tivo no casamento . Tresandava a whisky de milho , invocava o nome
de Deus a cada duas inspirações e estava cheio de vontade de falar dos
bons velhos tempos no Kentucky. A Avó mostrou-lhe Nannie . "Seria
capaz de a reconhecer?" "Valha-me Deus Todo-Poderoso ! " , bramiu o
juiz , "não me digas que é o pedacito de isco para corvos que vendi ao
teu pai por vinte dólares? Vinte dólares pareciam-me uma fortuna,
nesses tempos ! "
Enquanto seguiam aos solavancos pela estrada íngreme e rochosa na
longa viagem de San Marcos até Austin, Nannie deu finalmente vazão ao
seu descontentamento: "Seria de esperar que um juiz tivesse mais educa­
ção" , disse ela, tristonha, "parecia que não se importava com quanto
magoa uma pessoa."
A Avó , recostada no assento traseiro , ao canto da velha carriola, com
a sua peliça de pele de foca gasta , já da cor de café nas pontas , de olhos
fechados e com as mãos entrelaçadas , tinha estado mais uma vez ocu­
pada a reconciliar-se com o facto de perder um filho e, como sempre ,
para uma rapariga e uma fann1ia que não poderia aprovar por comple­
to . Não era que houvesse algo seriamente inconveniente a dizer-se a
respeito de qualquer um deles; só - bem , ela questionava os gostos
dos filhos . O que teria cada um deles encontrado na mulher que esco­
lhera? A Avó sempre tivera presente o tipo de mulher de que cada um
dos filhos precisava; tentara proporcionar-lhes casamentos melhores
do que os que eles haviam escolhido por si sós . Eles tinham simples­
mente ficado ressentidos com a sua interferência naquilo que conside­
ravam serem assuntos privados . Ela não se dera conta de que estragara
o filho mais novo com mimos até este ter ficado muito provavelmente
incapaz de ser um marido , quanto mais um marido bom . E havia algo
quanto à sua nova nora , uma jovem alta , elegante , de aspecto firme ,
com uma forma directa de falar, caminhar, conversar, que parecia pro­
meter que os dias mimados do Bebé tinham acabado . A Avó estava
profundamente incomodada por ver quão confiante a noiva se mostra­
ra, como determinara os preparativos do casamento até ao mais ínfimo
A Torre Inclinada e Outros Contàs 191

pormenor, como de quando em vez olhava de relance para o novo


marido com uns olhos calmos , divertidos , serenos , como se já o tives­
se decifrado . Até sugerira no copo-d ' água que a sua ideia de lua-de­
-mel seria levar a carro ça da comida e ajudar o pai a marcar o gado lá
no rancho . É claro que poderia estar a brincar. Mas era demasiado
ocidental , demasiado moderna, demasiado como a "nova" mulher que
começava a andar por aí à solta, a pedir para votar, a abandonar o lar
e a sair para o mundo para ganhar o seu próprio sustento . . .
O corpo estreito da Avó estremecia até à medula só de pensar na
forma como as mulheres desvirtuavam o seu género; irrompeu do de­
vaneio sombrio de pensamentos agoirentos com um sobressalto e um
sabor desagradável na garganta . "Esquece isso , Nannie . O juiz não
estava a pensar. Gosta muito de se divertir."
Nannie tinha dormido numa cama e fora companheira de brinca­
deiras e de trabalho da patroa; tinham vivido em condições de quase
igualdade , com Sophia Jane a defendê-la ferreamente de qualquer
disciplina que não fosse ministrada por si . Quando ambas tinham
dezassete anos , Miss Sophia Jane casou numa boda muito alegre .
A casa ficou apinhada até ao telhado e toda a gente presente tinha,
pelo menos, um parentesco de primo em quarto grau com todos os
outros . Durante dois dias , houve quarenta carruagens e mais de duzen­
tos cavalos de que cuidar. Quando o último veículo desapareceu pelo
caminho (alguns dos convidados deixaram-se ficar por duas semanas) ,
as despensas e os contentores estavam semivazios e a casa parecia ter
sido ocupada por uma tropa de cavalaria. Uns dias depois , Nannie
casou com um moço que conhecia desde que tinha ido para a farm1ia,
e ambos foram oferecidos , como presente de casamento , a Miss So­
phia Jane .
Miss Sophia Jane e Nannie tinham então dado início à sua triste e
terrível corrida de procriação , com um filho a cada dezasseis meses ,
mais coisa menos coisa, com Nannie a amamentar os das duas e So­
phia Jane , num desconforto atroz , a suprimir o leite com compressas
e aguardente . Quando ambas deram à luz o quarto filho , Nannie quase
morreu de febre puerperal . Sophia Jane cuidou dos dois . Chamou
Charlie ao bebé negro e Stephen ao seu , e amamentou-os com equida­
de , sem favorecer o branco , como Nannie se sentia obrigada a fazer.
O marido ficou chocado , tentou proibi-la; a mãe foi visitá-la e discutiu
com ela. Consideraram-na muito difícil e bastante teimosa. Já tinha
começado a desenvolver a sua personalidade implícita, que era com­
pletamente justa, compassiva , orgulhosa e simples . Tinha muitas vai-
1 92 Katherine Anne Porter

dades e fraquezas à superfície : um amor pelo luxo e uma tendência


para se ressentir de críticas . Esta tendência baseava-se na sua sensação
de ser provida de juízo e sensibilidade superiores aos de quase toda a
gente que a rodeava. Isso fazia com que fosse muito complicado lidar
com ela. Tinha uma forma serena de fincar o pé que convencia o an­
tagonista de que seria realmente capaz de morrer, e não só ameaçá-lo ,
para não ceder. Já aprendera que fora terrivelmente roubada ao deixar
que os filhos fossem alimentados por outra mulher; resolveu nunca
mais ser roubada dessa maneira. Sentava-se a dar de mamar ao filho e
ao filho adoptivo , com um prazer quente e sensual com que nunca
sonhara , traduzindo o seu alívio físico natural em algo sagrado , aben­
çoado , uma compensação pelo que sofrera no leito da infância. Sim, e
outrossim pelo que lhe faltava no leito conjugal , pois também aí algo
falhara. Com bastante calma, disse a Nannie: "Doravante , tu amamen­
tas os teus filhos e eu os meus" , e assim foi . Charlie seria sempre o seu
favorito especial entre as crianças negras . "Agora percebo" , disse a
Keziah , sua irmã mais velha, "porque é que as mamãs negras amam
os seus filhos de leite . Eu amo o meu ." Assim , Charlie foi criado na
casa como companheiro do seu filho Stephen e dispensado de trabalho
pesado durante toda a vida .
Sophia Jane tinha sido cortejada de longe por um jovem misteriosa­
mente atraente de quem se lembrava bem como sendo um rapazinho de
nariz empinado e caracóis iguais aos seus, mas mais curtos , uma blusa
branca com folhos e kilts com o xadrez do clã Macdonald . Era seu pri­
mo em segundo grau e parecia-se tanto consigo que os tomavam por
irmãos . Os avós deles eram primos direitos e por vezes Sophia Jane via
nele , anos depois de se terem casado , todos os defeitos que mais detes­
tava no irmão mais velho: falta de objectivos , incapacidade de agir em
crises , um alheamento filosófico de questões práticas , uma tendência
para começar projectos e os abandonar ou os deixar a outra pessoa que
os terminasse; e uma profunda convicção de que todos à sua volta de­
veriam contentar-se - servindo-o a toda a hora. Ela tinha combatido estas
tendências fatais no irmão , respeitando os limites da prudência conjugal
combateu-as no marido , e viria a combatê-las de novo em dois dos fi­
lhos e em vários dos netos. Não obteve vitória alguma em qualquer dos
casos: as criaturas egoístas , desinteressadas e ingratas tinham vivido e
acabado idênticas a como haviam começado . Contudo , a Avó desenvol­
veu uma personalidade verdadeiramente portentosa sob a disciplina de
tentar mudar os caracteres dos outros . Tal como ela, o marido também
possuía a acutilante capacidade de observação típica da fanu1ia. Temia
A Torre Inclinada e Outros Contó s 1 93

e reprovava a determinação letal da mulher, a sua certeza de que os seus


modos não estavam apenas certos mas acima de qualquer crítica, que os
seus sentimentos eram importantes , mesmo nos assuntos mais insigni­
ficantes , e não deveriam ser ignorados ou desprezados . Ele tinha desa­
parecido no momento crucial do crescimento de ambos , fora para a
universidade e depois viajara; ela esquecera-o durante muito tempo e ,
quando tomou a vê-lo , esqueceu como ele tinha sido d e uma vez por
todas . Ela era alegre , doce e decorosa, cheia de vaidade e de devaneios
incrivelmente exaltados que de vez em quando ameaçavam lançá-la
para algum frenesim misterioso e proibido . Tinha sonhos recorrentes
acerca de ter perdido a virgindade (a virtude , como lhe chamava) , a
única coisa que lhe garantia estima, consideração, a própria existência,
e depois de um assustador sofrimento moral que mascarava por com­
pleto a experiência física, acordava com suores frios , confusa e aterro­
rizada. Ouvira dizer que o primo Stephen era um pouco "louco" , mas
isso era de esperar. Ele levava, sem dúvida, uma vida extravagante
cheia de indulgências másculas , a vida doce e sombria do conhecimen­
to do mal que fazia o cabelo de Sophia Jane arrepanhar-se-lhe no escal­
pe quando pensava nisso . Ah, a vida dos homens , deliciosa, livre ,
magnífica, misteriosa e terrível ! Dedicava-lhe uma boa quantidade dos
seus pensamentos . "Pequena sonhadora" , diziam-lhe o pai ou a mãe ,
surpreendendo-a em grande concentração , de olhos húmidos e com um
sorriso vago nos lábios , sem ver o bordado ou o livro que tivesse , ou
com as mãos caídas no colo e o rosto voltado para uma parede vazia.
Memorizava e guardava para momentos desses excertos de poesia eru­
dita, que citava de imediato quando lhe perguntavam em que estava a
pensar; ou começava a cantar alguma cançoneta melancólica que sou­
besse ser do agrado deles . Corria para o piano e tilintava a melodia com
uma mão , dizendo: "Esta é a parte de que mais gosto" , deixando-os sem
qualquer dúvida acerca do que tinha estado a ocupar-lhe a mente . Assim
passara toda a juventude , sem vez alguma se ter denunciado ; só já na
meia-idade , com o marido falecido , a propriedade dispersa, deparando­
-se com uma casa cheia de filhos que criavam uma nova vida para si
mesmos noutro lugar, com todas as responsabilidade de um homem
mas sem nenhum dos privilégios , é que emergiu finalmente para algo
semelhante a uma vida honesta; e , todavia, era arrebatadamente hones­
ta. Nunca havida sido outra coisa.
Sentada à sombra das árvores com Nannie , ambas envelhecidas e
com a longa batalha da vida quase terminada, disse , tocando com um
dedo numa tira de cetim: "Não foi justo que a minha irmã Keziah tenha
1 94 Katherine Anne Porter

tido este brocado cor de marfim para o seu vestido de noiva, e eu só


tivesse direito a volante pontilhado . . . "
"Os tempos eram mais difíceis quando se casou , Missy" , disse
Nannie . "Foi nesse ano que todas as colheitas se perderam ."
"E nunca mais voltaram a perder-se , segundo me parece" , comentou
a Avó .
"A mim parece-me" , disse Nannie , "que o volante pontilhado era o
último grito da moda quando se casou ."
"Eu nunca gostei" , disse a Avó .

A Nannie , nascida escrava, agradava a ideia de não ir morrer nessa


condição . O que a magoava não era tanto o estado como a palavra que
o descrevia. Emancipação era uma palavra que lhe era cara. Não mu­
dara a sua forma de viver em aspecto algum , mas sentia orgulho por
ter podido dizer à patroa: "Tenciono ficar consigo enquanto me qui­
ser." Ainda assim , a Emancipação parecia ter corrigido um mal que se
lhe cravava no coração como um espinho . Não compreendia porque
Deus , a Quem ela amava, considerara adequado ser tão severo com
uma raça inteira só por ter um determinado tipo de pele . Falava sobre
isso com Miss Sophia Jane . Muitas vezes . Miss Sophia Jane era sem­
pre despachada e resoluta em relação ao assunto: "Disparate ! Já te
disse , Deus não sabe se uma pele é preta ou branca . Só vê almas . Não
te ponhas com ideias tolas , Nannie - é claro que vais para o Céu ."
Nannie demonstrava os rudimentos da lógica numa mente comple­
tamente desprovida de instrução . Perguntava-se , com simplicidade e
sem ressentimento , se Deus , Que fora tão cruel para os negros na Ter­
ra , não poderia dar continuidade à Sua severidade no mundo seguinte .
Miss Sophia Jane gostava de a tranquilizar; era como se , tendo sido
responsável pelo corpo e pela alma de Nannie naquela vida , pudesse
também avalizá-la diante do juízo divino .
Miss Sophia Jane havia assumido todas as responsabilidades do seu
mundo emaranhado , metade branco , metade negro , misturando-se a
um ritmo constante e com a confusão a aprofundar-se cada vez mai s .
Havia tantos rapazes por ali , sempre , genros mais novos , primos direi­
tos , em segundo grau , sobrinhos . Iam de visita e ficavam , e não havia
como saber deles ou controlar-lhes os hábitos obstinados . Cedo apren­
dera a manter-se calada e a não dar sinal algum de desconforto , mas
sempre que nascia uma criança nos alojamentos dos negros , cor-de­
-rosa, a parecer uma minhoca, ela continha a respiração durante três
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 95

dias , viria a contar à neta mais velha anos depois , para ver se o recém­
-nascido ficaria negro passado o tempo adequado . . . Era um esforço
que a marcava e que acabaria por lhe dar um profundo desdém pelos
homens . Não conseguia evitá-lo , desprezava os homens . Desprezava­
-os e era governada por eles . O marido desbaratou-lhe o dote e a terra
em investimentos loucos em territórios estranhos : Luisiana, Texas ; e ,
sem protestar, ela via-o perder o seu sustento como u m jogador. Acha­
va que poderia ter gerido os seus negócios de forma lucrativa. Mas as
actividades que lhe eram naturais j aziam noutro lugar, cabia ao ho­
mem tomar todas as decisões e dispor de todas as questões financeiras .
Mesmo quando ficou com as rédeas nas mão s , os filhos conseguiam
persuadi-la a fazer este ou aquele empreendimento ou investimento;
contra a sua vontade e opinião , aceitava o conselho deles e, entre si,
acabaram por devastar mais uma vez o forte que ela construíra para o
futuro da família . Tendo recebido dela o seu próprio começo na vida,
regressavam para obter mais ajuda quando precisavam, e viviam divi­
didos , uns contra os outros . Ela considerava que era seu dever natural
prover sustento ao lar, depois de o marido ter combatido teimosamen­
te durante a Guerra, do lado de todos os outros homens em idade de
se alistar; de ter sido ferido , perdurando incapacitado , e morrido do
ferimento muito depois de o grande fervor e entusiasmo haver dado
lugar a uma derrota inevitável , quando ser um homem ferido e arrui­
nado na Guerra era meramente ter provado ser-se, talvez , mais heróico
do que sensato . Assim abandonada, reuniu a farm1ia e partiu para o
Luisiana, onde o marido , com o dinheiro dela, tinha comprado uma
refinaria de açúcar. Havia uma fortuna a ganhar com o açúcar, dizia
ele; não em colher a matéria-prima, mas na manufactura. Tinha esque­
mas mentais para gerir descaroçadores de algodão , fábricas de farinha,
refinarias . Se tivesse sobrevivido . . . mas não sobrevivera e Sophia
Jane ainda mal tinha reparado a casa que comprara e plantado o pomar
quando se apercebera de que , nas suas mãos , a refinaria de açúcar
seria um fracasso .
Vendeu-a com prejuízo e foi para o Texas , onde o marido tinha com­
prado por pouco dinheiro , uns anos antes, uma grande extensão de terra
fértil e negra numa parte do país que estava praticamente por povoar.
Tinha consigo os seus nove filhos , o mais novo com uns dois anos, o
mais velho com dezassete; Nannie e os três filhos , o Tio Jimbilly e dois
outros negros , todos de boa saúde , cheios de esperança e de uma imensa
vontade de viver. O fantasma do marido atormentava-a, ela sentia-se
amargamente ultrajada pela morte dele , quase como se ele a tivesse de-
1 96 Katherine Anne Porter

sertado por decisão propna. Primeiro lamentou-o com olhos seco s ,


zangada. Vinte anos mais tarde , ao ver depois d e uma longa ausência o
filho mais velho da sua filha preferida, que morrera jovem, reconheceu
as precisas feições e o ar do marido da sua juventude , e chorou .
Durante o terrível segundo ano no Texas , dois dos seus filhos mais
novos , Harry e Robert, fugiram de repente . Escolheram uma boa altu­
ra para o fazer, em meados de Maio , e estavam quase a onze quilóme­
tros de casa quando um agricultor vizinho os viu , se intrigou e lhes fez
perguntas , acabando por persuadi-los a subirem para o cabriolé e
conseguindo assim levá-los de volta .
Miss Sophia Jane deitou mãos ao pavoroso ritual disciplinador que
lhe parecia adequado à ocasião . Chicoteou-os com a sua chibata de
montar. Depois obrigou-os a ajoelharem-se consigo enquanto rezava
por eles , pedindo a Deus que os ajudasse a corrigirem o comportamen­
to e a não desrespeitarem a mãe ; tendo cumprido o dever, foi-se abaixo
e chorou com os braços à volta deles . Os filhos tinham suportado es­
toicamente o castigo , pois teria sido vergonhoso chorarem quando uma
mulher lhes batia e, para mai s , ela não lhes dera com muita força;
tinham-se ajoelhado com ela numa tristeza abisonhada, pois a sensa­
ção religiosa era um mistério feminino que os embaraçava; porém, ao
verem as lágrimas da mãe , desataram a bramir de arrependimento . Só
tinham nove e onze anos. Numa voz de pesar, tão aflitiva que os assus­
tou , ela perguntou: "Porque fugiram de mim? Porque acham que vos
trouxe para aqui?" , como se eles fossem adultos capazes de entende­
rem quão terrível era a situação . A única resposta que conseguiram
oferecer-lhe , enquanto também choravam , foi que tinham querido vol­
tar para o Luisiana e comer cana-de-açúcar. Tinham passado o Inverno
inteiro a pensar nas canas-de-açúcar . . . A mãe ficou estupefacta. Cons­
truíra uma casa suficientemente espaçosa para os abrigar a todos , de
madeira serrada à mão e transportada de carroça ao longo de sessenta
quilómetros , cercara os campos e plantara o que colher, estava convic­
ta de que alimentara e vestira os filhos; e agora apercebia-se de que
eles tinham fome . Aqueles dois tinham trabalhado como homens ; ela
sentia-lhes os ossos a crescer sob a pele fina, e lembrou-se de quão
desumanamente os incitara, tal como a si mesma, tal como aos negros
e aos cavalos , pois não havia alternativa . Tinham de labutar para lá das
suas forças , caso contrário pereceriam . Ali sentada, com os braços à
volta deles , sentiu o coração a partir-se-lhe no peito . Até então , julgava
tratar-se de uma frase tonta. Aconteceu-lhe . Não que tivesse passado a
ser incapaz de sentir doravante , pois de certa forma tomara-se mais
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 97

emocional , mais perspicaz , mas as mágoas nunca voltaram a durar


tanto como antes . Aquele dia marcou o início de mimar os filhos e ter
medo deles . Ao fim de um longo silêncio atónito , quando eles come­
çavam a ficar inquietos sob os seus braços , ela disse-lhes: "Vamos
plantar belas canas-doces aqui . O solo é perfeito para isso . Teremos
todo o açúcar que quisermos . Mas é preciso sermos pacientes ."

Quando os seus filhos começaram a casar, ela tinha a possibilidade


de dar a cada um deles um bom terreno e algum dinheiro , podia ajudá­
-los a comprar mais terra em sítios que eles preferissem, vendendo a
sua própria propriedade , uma porção de cada vez , e assim garantiu que
todos começavam bem a vida , embora nem todos a acabassem dessa
forma. Lá partiram, dedicando-se aos seus próprios negócios , espraian­
do e parecendo perder toda a noção de unidade familiar que tão cara
era à Avó . Suportavam as suas visitas espaçadas , os seus conselhos e a
sua tremenda rectidão , e mostravam-se impacientes com a sua ternura.
Quando a mulher de Harry morreu - ela nunca aprovara a mulher de
Harry, que era delicada e desesperadamente inadequada para tomar
conta de uma casa, e que nem sequer conseguia ser uma boa parideira,
já que morrera aquando do nascimento do terceiro filho - , a Avó le­
vou as crianças e recomeçou a vida, quase com o mesmo entusiasmo ,
e com mais indulgência. Tinha-os educado até ao ponto em que sentia
que podia começar a eliminar-lhes os defeitos - defeitos herdados ,
reconhecia com justiça, de ambos os lados da farm1 ia - quando mor­
reu . Aconteceu muito repentinamente , certa tarde no início de Outubro ,
depois de um dia passado a ajudar o j ardineiro mexicano da sua tercei­
ra nora a pôr o jardim como devia ser. Encontrava-se numa visita à
parte mais ocidental do Texas e estava a gostar. A nora exasperava mas
era aparentemente tão dócil que a Avó , que a via como uma filha, nem
reparava nos seus pequenos amuos . Havia muito que o filho aprendera
a não se opor à mãe . Ela vencia-o com argumentos pacientes , justos e
razoáveis . Tinha o cuidado de nunca se aventurar a ordenar-lhe o que
quer que fosse . Ele consolava a mulher dizendo que tudo o que a mãe
estava a fazer poderia ser reposto assim que ela se fosse embora. Dado
que as alterações incluíam mover um muro de adobe de quinze metros
de comprimento , a mulher não se sentia lá muito consolada. A Avó
entrou em casa bastante afogueada e animada, dizendo que se sentia
muito bem com o ar fortificante das montanhas - e caiu morta na
soleira da porta.
1 98 Katherine Anne Porter

A Testemunha

O Tio Jimbilly era tão velho e tinha passado tantos anos curvado
sobre coisas , unindo-as e separando-as , reparando-as e fazendo com
que trabalhassem, que estava quase dobrado sobre si mesmo . As suas
mãos estavam fechadas e perras de segurarem objectos com força en­
quanto os trabalhava e não conseguiam abrir-se por completo , nem
mesmo se uma criança lhe pegasse nos dedos negros e grossos e ten­
tasse puxá-los para trás . Vacilava sobre uma bengala; o seu crânio ar­
roxeado entrevia-se nas falhas da sua lã, que ganhara um tom cinzento­
-esverdeado e parecia ter sido atacada por traças .
Remendava arreios e punha meias-solas nos sapatos dos outros ne­
gros , construía vedações e galinheiros e portas de celeiros; fazia puxa­
das e instalava vidraças , arranj ava dobradiças descaídas e consertava
telhados ; reparava tej adilhos de carruagens e charruas empenadas .
Também tinha um dom para cinzelar lápides em miniatura a partir de
blocos de madeira; praticamente de qualquer pedaço de madeira que
lhe dessem , era capaz de criar uma lápide , com o formato das verda­
deiras , entalhada e com um nome e uma data, se fosse preciso . Eram
necessárias com frequência, já que havia sempre um animal pequeno
ou um pássaro a morrer e a ter de ser enterrado com as cerimónias
adequadas : o carrinho de mão coberto como um carro fúnebre , um
esquife de caixa de sapatos com um pano mortuário por cima, um ar­
ranjo floral profuso e , claro está , uma lápide . Enquanto ia trabalhando ,
virando destramente a lâmina comprida da sua faca de mato em círcu­
los para entalhar uma flor, adelgaçando e alisando a parte de trás e os
lado s , parando de vez em quando para a segurar com o braço estendi­
do e a examinar com um olho fechado , o Tio Jimbilly ia falando num
murmúrio baixo , entrecortado e abstraído , como se conversasse consi­
go mesmo ; mas na verdade estava a dizer algo que queria que uma
pessoa ouvisse . À s vezes era uma história incompreensível de fantas­
mas ; por mais atentamente que fosse escutada, no final era impossível
concluir se o próprio Tio Jimbilly tinha visto o fantasma, se fora real­
mente um fantasma ou apenas outro homem mascarado; e ele alon­
gava-se muito sobre os horrores dos tempos da escravatura.
"Costumavam levá-los e pendurá-los de cabeça para baixo e chico­
teá-los" , resmoneava, "com grandes tiras de couro grossas e do tama­
nho de um braço , com furos para que de cada vez que lhes batiam no
traseiro a carne lhes saísse dos ossos em bocadinhos redondos . E de-
A Torre Inclinada e Outros Contos 1 99

pois de os chicotearem com a tira até os deixarem com as costas em


carne viva e a sangrar, espalhavam-lhes folhas de milho nas costas e
pegavam-lhes fogo e queimavam-nos e depois despej avam-lhes vina­
gre por cima . . . Sim, senhor. E depois , logo no dia a seguir, tinham de
voltar para os campos , ou eles faziam-lhes a mesma coisa outra vez .
Sim, senhor. Era assim . Se não voltassem ao trabalho , recebiam o
mesmo tratamento outra vez ."
As crianças - três : a mais velha, uma rapariga séria e muito com­
posta, com dez ano s , um rapazinho de ar pensativo e triste , com oito , e
uma menina arredia e rápida, com seis - sentavam-se à volta do Tio
Jimbilly e ouviam-no , com vagos formigueiros de embaraço . S abiam,
claro , que em tempos os negros tinham sido escravos ; mas todos ti­
nham sido libertados havia muito e agora eram apenas criados . Era
difícil conceber que o Tio Jimbilly tivesse nascido escravo , como os
negros estavam sempre a dizer. As crianças achavam que o Tio Jimbilly
tinha superado muito bem a escravatura. Desde que o conheciam que
nunca o tinham visto a fazer uma única coisa que alguém o mandasse
fazer. Fazia o seu trabalho tal como lhe apetecia e quando lhe apetecia.
Quem quisesse uma lápide tinha de ter muito cuidado com a forma
como lha pedia. Nada poderia ser mais impessoal e distante do que o
tom e a atitude com que falava da escravatura, mas eles retorciam-se
um pouco e sentiam-se culpados . Paul teria mudado de assunto , mas
Miranda , a pequena e veloz , queria saber o pior. "Eles faziam-lhe isso ,
Tio Jimbilly?" , perguntou .
"Não , minha senhora " , respondeu o Tio Jimbilly. "Agora , que nome
é que querem nesta? Nunca fizeram . Faziam isso dessa maneira nos
pântanos dos arrozais . Eu sempre trabalhei aqui mesmo , perto da casa,
ou na cidade , com Miss Sophia . Lá nos pântanos . . . "
"Eles nunca morriam , Tio Jimbilly ?" , perguntou Paul .
"É claro que morriam" , disse o Tio Jimbilly, "é claro que morriam
- morriam" , continuou , contraindo a boca numa expressão sombria,
"aos milhares e às dezenas de milhares ."
"Pode gravar ' Em paz no Céu ' nessa, Tio Jimbilly?" , pediu Maria
na sua voz agradável e delicada .
"Para pôr por cima de uma lebre mansa, Missy?" , indignou-se ele .
Era muito religioso . "Uma herege dessas? Não , minha senhora . Nos
pântanos costumavam persegui-los noite e dia e todo o dia e toda a
noite e todo o dia ficavam com as mãos e os pés atados para não po­
derem coçar-se e deixavam os mosquitos comê-los vivo s . Os mosqui­
tos mordiam-nos até eles ficarem inchados como um balão e dava
200 Katherine Anne Porter

para os ouvir a gritar e a rezar por todo o pântano . Sim, senhora. Era
assim . E nem uma gota de água nem um naco de pão . . . Sim, senhora,
era assim � Senhor, eles faziam isso . Hosana ! Agora tomem lá a lápide
e não me aborreçam mais . . . senão eu . . . ! "
O Tio Jimbilly era propenso a zangar-se de repente , sem que nunca
se percebesse porquê . Ficava facilmente irritado . por certas coisas , mas
as suas ameaças eram sempre tão exorbitantes que nem a criança mais
crédula poderia sentir-se aterrorizada. la sempre fazer algo bastante
horrível a alguém e depois livrar-se-ia dos restos mortais de alguma
maneira repugnante . la esfolar alguém vivo e pregar a pele na porta do
celeiro , ou estava simplesmente a preparar-se para cortar as orelhas a
alguém com um machado e espetá-las em Bongo, o cão malhado de
orelhas cortadas . Era costume estar determinado a arrancar os dentes a
alguém e a fazer uma dentadura postiça para o Velho Ronk . . . o Velho
Ronk era um vagabundo que vivera o Verão inteiro na pequena cabana
nas traseiras do fumeiro . Recebia as suas rações juntamente com os
negros e passava o dia a balbuciar com as gengivas desdentadas . Tinha
uns bigodes pretos finos que pareciam encerados e umas pálpebras de
um vermelho inflamado . Tomava morfina, segundo se dizia; mas que
morfina seria, ou como a tomava, ou porquê , isso ninguém parecia sa­
ber . . . Nada poderia ser mais desagradável do que a noção de os dentes
de alguém serem dados ao Velho Ronk.
A razão pela qual o Tio Jimbilly nunca fazia qualquer uma das
coisas que ameaçava fazer, dizia ele , era que nunca arranjava tempo .
Tinha sempre tanto trabalho em mãos que lhe dava a impressão de
que não conseguia dar-lhe vazão . Mas um dia alguém teria uma sur­
presa bem grande e , entretanto , o melhor era que toda a gente se pu­
sesse a pau .

O Circo

As tábuas compridas dispostas em cavaletes erguiam-se umas por


cima das outras a uma altura monstruosa e estendiam-se de forma es­
tonteante num anel largo e oval . Estavam apinhadas de gente - "co­
mo pulgas na orelha de um cão" , disse Dicey, que segurava com fir­
meza a mão de Miranda e lançava um olhar reprovador em volta. As
curvas brancas da lona imensa abatiam-se lá em cima, sustidas por três
A Torre Inclinada e Outros Contos 20 1

estacas equidistantes do centro . A fanu1ia, quando sentada, ocupava


uma secção quase inteira de um dos níveis .
De um lado , numa longa fileira, estavam o pai , a irmã Maria, o irmão
Paul , a Avó; a tia-avó Keziah , a prima Keziah e a prima em segundo grau
Keziah , que acabava de chegar do Kentucky para os visitar; o tio Charles
Breaux , o primo Charles Breaux e a tia Marie-Anne Breaux . Do outro
lado , encontravam-se a pequena prima Lucie Breaux , o primo grande
Paul Gay, a tia-avó Sally Gay (que cheirava rapé e que era por isso uma
desgraça para a fanu1ia) ; dois jovens estranhos e extremamente elegantes
que talvez fossem primos mas que decerto estavam apaixonados pela
prima Miranda Gay ; e a própria prima Miranda Gay, uma jovem impres­
sionante com impecáveis saias de seda, meia dúzia de uma só vez , um
perfume encantador e um cabelo maravilhoso, preto e encaracolado por
cima de uns enormes olhos cinzentos e selvagens , "como os de um po­
tro" , dizia o pai . Miranda esperava ser exactamente assim quando cres­
cesse . Pendurada no braço de Dicey, esticou-se a acenou à prima Miran­
da, que lhe correspondeu a sorrir, e os jovens estranhos também lhe
acenaram. Miranda sentia-se terrivelmente entusiasmada. Era o primeiro
circo a que ia; talvez fosse também o último , pois a fanu1ia em peso
unira-se para persuadir a Avó a permitir-lhes que a levassem com eles .
"Muito bem, desta vez" , disse a Avó , "já que é uma reunião de fanu1ia."
Desta vez ! Desta vez ! Ela não conseguia fitar tudo com a intensida­
de necessária. Até tinha espreitado pelas fendas largas dos assentos
corridos e empilhados , onde ficara estupefacta por encontrar rapazi­
nhos mal vestidos de aspecto esquisito a espreitar do chão poeirento lá
em baixo . Estavam acocorados em pequenos montes , calados , de olhar
fixo voltado para cima. Ela fitou directamente os olhos de um deles,
que lhe correspondeu com um olhar tão peculiar que ela ficou perdida
a observá-lo , tentando compreendê-lo . Era um olhar ousado e sorri­
dente , sem qualquer espécie de amistosidade . O rapazinho era magro ,
suj o , com uma boina velha e mole de xadrez , por cima de umas orelhas
amachucadas e vermelhas e de cabelo cor de poeira . Enquanto ela o
observava, ele deu uma cotovelada ao rapaz a seu lado , sussurrou , e o
segundo rapaz fitou-a. Aquilo já era demasiado . Miranda puxou a
manga de Dicey. "Dicey, o que é que aqueles meninos estão a fazer ali
em baixo?" "Ali em baixo onde?" , perguntou Dicey, mas parecia já
saber, pois debruçou-se. e espreitou pela nesga, juntou os joelhos e as
saias à volta das pernas e comentou num tom severo : "Meta-se só na
sua vida e deixe de abanar as pernas assim . Não lhes dê atenção . Há
muito macaco aqui no espectáculo sem ter de estudar essa espécie ."
202 Katherine Anne Porter

Uma enorme fanfarra pareceu explodir mesmo junto à orelha de


Miranda. Ela saltou , estremeceu , emocionou-se cegamente e quase se
esqueceu de respirar enquanto som, cor e cheiro se uniam e jorravam
pela sua pele e cabelo e lhe palpitavam na cabeça , nas mão s , nos pés e
na boca do estômago . "Oh" , gritou ela em pânico , fechando os olhos e
segurando com firmeza a mão de Dicey. As luzes ofuscantes queima­
vam-lhe as pálpebras , gargalhadas fortes como rugidos enfurecidos
abafaram o barulho constante dos tambores e das cometas . Ela abriu
os olhos . . . Uma criatura num fato-macaco largo como uma blusa e
com folhos no pescoço e nos tornozelos , com um crânio branco como
osso e uma cara branca como cal , de sobrancelhas tufadas e muito
afastadas a meio da testa, as pálpebras num ângulo preto e acentuado ,
uma boca comprida e escarlate a esticar-se até umas faces chupadas ,
virada para cima nas comissuras num esgar perpétuo e amargo de dor,
espanto , não um sorriso , equilibrava-se numa corda esticada no centro
da arena, com uma vara longa e fina com pequenas rodas em cada
ponta. Primeiro Miranda julgou que ele estava a andar no ar, ou a voar,
e isso não a surpreendeu; mas quando viu a corda, sentiu-se apavorada .
Bem acima deles , a figura inumana empinava-se , girando as rodinhas .
Parou , escorregou , a perna branca em agitação oscilou no espaço ; ele
tropeçou , cambaleou , escorregou de lado , mergulhou e apanhou a cor­
da com um joelho frenético , ficando ali pendurado de cabeça para
baixo , com a outra perna a abanar como uma antena acima da sua ca­
beça; escorregou de novo , preso por um calcanhar desvairado , e baloi­
çou para trás e para a frente como um lenço . . . A multidão urrava de
maravilhamento selvagem , com guinchos de riso terrível a fazer lem­
brar demónios num tormento delicioso . . . Miranda também guinchava ,
d e verdadeira dor, agarrada a o estômago e com os joelhos puxados
para cima . . . O homem na corda bamba, preso pelo pé, virou a cabeça
como uma foca de um lado para o outro e mandou beijos trocistas
daquela boca cruel . Depois Miranda fechou os olhos e gritou , enquan­
to as lágrimas lhe cobriam as faces e o queixo .
"Leva-a para casa" , disse o pai dela, "tira-a já daqui" , mas o riso não
se lhe apagara do rosto . Limitou-se a lançar-lhe um olhar de relance e
a virar-se de novo para a arena. "Leva-a , Dicey" , ordenou a Avó , por
baixo do véu de crepe que lhe ocultava metade do rosto . Dicey, com
rebeldia, muito lentamente , sem desviar o olhar da figura branca a
oscilar na corda, pegou na trouxa mole em sofrimento e avançou pesa­
damente por cima de joelhos e pés por entre a multidão , pelos níveis
dos andaimes , por um espaço de arenosa casca de carvalho , até sair por
A Torre Inclinada e Outros Conto s 203

uma aba da tenda . Miranda chorava continuamente , com soluços oca­


sionais . Estava um anão à entrada, a usar uma pequena barba de lã, um
gorro pontiagudo , bragas vermelhas e justas , sapatos compridos com
pontas reviradas . Tinha uma varinha branca e fina. Miranda quase lhe
tocou antes de o ver, com o rosto distorcido de boca aberta e lágrimas
brilhantes quase à altura do dele . Ele inclinou-se para a frente e obser­
vou-a com uns olhos amáveis , dourados , não humanos , como um cão
míope; depois fez-lhe uma careta terrível , a imitar a própria cara dela.
Miranda bateu-lhe , de puro mau génio , a gritar. Dicey afastou-a de­
pressa, mas não antes de Miranda lhe ter visto no rosto , subitamente ,
um ar de desagrado altivo e distante , um olhar verdadeiramente adulto .
Conhecia-o bem . Isso enregelou-a, imbuindo-a de um novo género de
medo: ela não tinha acreditado que ele fosse de facto humano.
"Bilhete de regresso , recolha o seu bilhete de regresso ! " , disse um
fulano de aspecto muito desagradável quando elas passaram por ele .
Dicey virou-se para ele , também quase em lágrimas . "Senhor, não vê
que não vou poder voltar? Tenho que cuidar da pequena . . . De que é que
me vai servir esse papel?" Fez todo o caminho de volta a casa zangada
e resmungar entredentes: mas que miúda. . . assustadiça. . . mas que
grande bebé . . . nunca se vai a lado nenhum . . . nunca se vê nada . . . ve-
nha lá, despache-se - sempre a estragar tudo para os outros . . . não
deixa ninguém descansar por um instante , não deixa ninguém divertir­
-se . . . vamos lá agora, queria ir para casa e está a ir . . . e ia puxando
Miranda, com maldade mas cautela, tendo o cuidado de não ultrapassar
o limite a partir do qual Miranda pudesse dizer de caras : "A Dicey fez­
-me ou disse-me isto . . . " Dicey gozava de uma certa liberdade , até de­
terminado ponto .
A família voltou a casa pouco antes de escurecer e espraiou-se por
todo o lado . De todas as divisões provinha o som de conversas e risos .
As outras crianças contaram a Miranda o que ela tinha perdido: peque­
nos póneis maravilhosos , com plumas e sinos nos freios , montados por
macaquinhos encantadores em jaquetas de veludo e chapéus pontiagu­
dos . . . cabras brancas adestradas que dançavam . . . um elefante bebé
que cruzava as patas da frente , se inclinava contra a jaula e abria a
boca para lhe darem de comer, que bebé ! . . . mais palhaços , ainda mais
divertidos do que o primeiro . . . senhoras lindas , de cabelo brilhante e
louro , a usarem meias de seda branca com cintos de cetim vermelho ,
tinham-se exibido em trapézios brancos ; também se tinham pendurado
pelos pés , mas com tanta graciosidade , pareciam pássaros voadores !
Enormes cavalos brancos tinham dado voltas e mais voltas à arena
204 Katherine Anne Porter

com homens e mulheres a dançarem-lhes nos lombos ! Um homem ti­


nha ficado pendurado do alto da tenda pelos pés e outro tinha metido
a cabeça na boca de um leão . Ah , o que ela não perdera ! Toda a gente
se tinha divertido enquanto ela perdia o seu grande primeiro circo e
estragava o dia a Dicey. Pobre Dicey. Pobre querida Dicey. As outras
crianças , que até então não tinham pensado em . Dicey, lamentaram-na
com bocas entristecidas , enquanto os seus olhos maliciosos observa­
vam Miranda a retorcer-se . Dicey passara meses à espera daquele dia !
E depois Miranda devia ter-se assustado - "Consegues imaginar, ter
medo daquele palhaço velho e engraçado?" , perguntavam uns aos ou­
tros , e depois sorriam a Miranda, com ar de pena . . .
Para além disso , também fora uma ocasião muito importante noutro
sentido: pela primeira vez , a Avó deixou-se persuadir a ir ao circo . Não
dava para perceber, a partir das opiniões bastante generalizadas que
proferia, se não havia circos quando era jovem ou se havia e não era de
bom-tom vê-los . Fosse como fosse , pelos seus habituais motivos de
peso , a Avó nunca aprovara circos e, ainda que não negasse que se tinha
divertido um pouco , ainda assim houvera visões e sons naquele que ela
argumentava que não eram, no mínimo , especialmente edificantes para
os jovens . O filho Harry, que entrara enquanto as crianças jantavam
cedo , olhou para os rostos iluminados de todos os irmãos, irmãs e pri­
mos de visita, e declarou: "Este ramalhete de jovens não parece estar
muito afectado ." Ao que a sua mãe replicou: "Os frutos do presente
deles encontram-se num futuro tão distante que é possível que nenhum
de nós esteja vivo para ver que mal foi ou não feito . É esse o problema" ,
e continuou a servir leite quente para ser despejado sobre as torradas
com manteiga. Miranda mantinha-se em silêncio , com o lábio inferior
descaído . O pai sorriu-lhe . "Tu perdeste o espectáculo , Bebé" , disse-lhe
num tom suave , "e que bem te fez isso?"
Miranda desatou novamente a chorar; por fim tiveram de a levar e de
lhe servir o jantar no quarto . Dicey estava exasperada e calada. Miran­
da não conseguia comer. Tentou , como se de facto estivesse a lembrar­
-se delas , pensar nas belas criaturas selvagens em cetim branco e lante­
joulas e faixas vermelhas , que dançavam e saltaricavam nos trapézios;
nos queridos póneis farfalhudos e nos encantadores macaquinhos com
as suas roupas cómicas . Adormeceu , e as memórias inventadas cederam
perante o avanço das verdadeiras , o rosto amargurado e aterrado do
homem de folhos brancos a cair ao encontro da morte - ah, a piada
cruel ! - e o terrível esgar do anão que não sorria. Gritou ainda a dor­
mir e sentou-se a gemer por alívio dos seus tormentos .
A Torre Inclinada e Outros Contos 205

Dicey chegou , com os olhos ensonados e zangados semifechados , a


grande boca escura contraída, a bater com os pés descalços e calejados
no chão . "Juro " , disse-lhe num sussurro rouco e violento . "Mas o que
se passa consigo? Está a precisar de uns bons açoites , juro ! A acordar
toda a gente assim . . . "
Miranda estava completamente subjugada pelos seus medos. Tinha a
mania de responder a Dicey. Dizia-lhe: "Oh , cala-te , Dicey." Ou então:
"Não preciso de me preocupar contigo . Não tenho de me preocupar
com ninguém excepto com a minha avó" , o que constituía uma verdade
provocadora. E dizia: "Não sabes do que estás a falar." O dia acabado
de passar mudara isso . Miranda sinceramente não queria que quem quer
que fosse , nem sequer Dicey, se zangasse consigo . Por norma, não se
importava se deixava muito zangados os adultos atormentados que a
rodeavam . Agora se Dicey tinha de se zangar, ela mesmo assim não se
incomodava muito , desde que não apagasse as luzes e a deixasse sozi­
nha com os terrores insondáveis da escuridão , onde o sono poderia
apoderar-se novamente de si . Agarrou-se a Dicey com os dois braços , a
chorar: "Não , não me deixes . Não estejas tão zangada ! Eu n-n-não ag­
-aguento ! "
Dicey deitou-se ao lado dela com u m grande suspiro gemido , que
significava que estava a arranjar paciência e a decidir-se a ter presente
que era cristã e tinha de suportar a sua cruz . "Agora vá dormir" , disse ,
na sua voz habitual de bem-estar caloroso . "Agora feche os olhos e
durma. Não vou deixá-la. A Dicey não está zangada com ninguém . . .
ninguém, no mundo inteirinho . . . "

A Última Folha

A velha Nannie estava sentada, curvada sobre si mesma, à espera da


morte a qualquer momento . A Avó tinha-lhe dito ao partir, com a pro­
fecia fácil dos envelhecidos , que aquela poderia ser a última vez que
se despediam neste mundo; abraçaram-se e beijaram o rosto uma da
outra, e tornaram a prometer reencontrar-se no Céu . Nannie estava
preparada para começar a sua viagem de imediato . As crianças reu­
niam-se à sua volta: "Tia Nannie , não te preocupes ! Nós adoramos­
-te ! " Ela não prestava qualquer atenção ; não lhe importava que a
adorassem ou não . Anos depois , Maria, a mais velha, viria a pensar,
206 Katherine Anne Porter

com um aperto no peito , que não tinham sido lá muito atenciosos com
a tia Nannie . Tinham continuado a contar com ela como sempre , dei­
xando-a assumir mais e mais fardos , permitindo que trabalhasse mais
do que deveria. A idosa foi ficando silenciosa, cada vez mais curvada
- era magra e também alta , com um rosto negro nobremente esculpi­
do , gasto até aos ossos e de um belo tom de fuligem espessa, não havia
sangue misturado em Nannie - , e a sua coluna parecia ter cedido de
repente . Ouviam-na a gemer à noite , ajoelhada ao lado da cama, pedin­
do a Deus que a deixasse repousar.
Quando uma farm1ia negra vagou uma pequena cabana do outro lado
do riacho estreito , a primeira cabana vazia em vários anos , Nannie foi
até lá para a ver. Voltou e perguntou a Mister Harry : "O que pensa fazer
com aquela cabana?" E Mister Harry respondeu: "Nada" , achava ele; e
Nannie pediu para ficar com ela . Queria uma casa sua, disse ; durante
toda a vida, nunca tivera um sítio que fosse só seu . Mister Harry disse
que era claro que ela podia ficar com a cabana. Mas toda a farm1ia se
sentiu surpreendida, um pouco magoada. "Deixem-me ir para lá e pas­
sar os meus últimos dias em paz , filhos" , disse ela. Lavaram e caiaram
a casa, puseram prateleiras e limparam a chaminé , arranjaram uma boa
cama e um tapete bastante razoável a Nannie e deixaram-na levar da
casa todo o género de quinquilharias . Era impressionante descobrir que
Nannie sempre gostara e desejara ter certas coisas , quando parecia tão
satisfeita e sem quereres . Ela mudou-se e, conforme diriam os filhos
uns aos outros , quase tinha sido divertido e decerto fora muito temu­
rento vê-la a tentar não se mostrar demasiado contente no dia em que
foi embora, mas , não obstante , todos se sentiram bastante sobrecarre­
gados .
Doravante , ela ficava sentada na ociosidade serena de fazer mantas
de retalhos e franj as para tapetes de lã. Os netos e a farm1ia branca
visitavam-na, e todo o género de pessoas brancas que nunca tinham
tido sequer uma alma aparentada com Nannie iam vê-la, comprar-lhe
os tapetes que ela fazia ou deixar-lhe pequenos presentes .
Ela sempre tinha usado vestidos pretos de lã, ou de calicó preto-e­
-branco com aventais brancos bem engomados e uma coifa branca com
folhas , ou uma touca de tafetá preto aos domingos . Sempre fora de uma
precisão e cuidado irrepreensíveis , e continuava a ser. Mas já não era a
velha e fiel criada Nannie, uma escrava libertada; era uma velha mulher
banta, independente , sentada nos degraus , a respirar ar livre . Começou
a usar um lenço azul à volta da cabeça e, aos oitenta e cinco anos , habi­
tuou-se a fumar por um cachimbo de maçaroca de milho . A íris preta
A Torre Inclinada e Outros Confos 207

dos velhos olhos profundos e reservados ganhava um tom castanho­


-achocolatado e parecia ocupar toda a superfície da órbita. À medida
que a visão lhe falhava, as pálpebras foram-se enrugando e encolhendo ,
pelo que o seu rosto parecia uma máscara sem olhos .
As crianças , educadas segundo uma forma de pensar antiquada e
sentimental , sempre tinham acreditado complacentemente que Nannie
era um verdadeiro membro da fann1ia , perfeitamente feliz com elas ,
e esta rejeição , administrada com tanta quietude e firmeza, castigou­
-as um pouco . A lição foi sendo absorvida com o passar dos anos e
com Nannie a continuar a sentar-se no patamar da sua cabana. Elas
cresciam , os tempos mudavam, o velho mundo escorregava-lhes sob
os pés , ainda não tinham tomado posse do novo . Sentiam a falta de
Nannie todos os dias . Com as fortunas a diminuírem e com cada vez
menos criados , precisavam desesperadamente dela. Apercebiam-se de
quanto a velhota fizera por eles , bastando para isso verem como , pra­
ticamente assim que ela se fora embora, tudo abrandara, perdera o
brilho , descarrilara. O trabalho já não se realizava sozinho como an­
tes . Eles não tinham aprendido a trabalhar por si mesmos , todos eram
preguiçosos e incapazes de esforço ou planeamento contínuo . Não
haviam sido ensinados e ainda não se tinham educado a si mesmos .
De vez em quando , Nannie subia a colina e visitava-os . Então traba­
lhava quase tanto como antes , com uma espécie de satisfação por
provar-lhes que fora quase indispensável . Sentir-lhe-iam ainda mais a
falta quando tomasse a partir. Para lhe demonstrarem gratidão , e a
esperança de que ela regressasse , cobriam-na de cestos e fardos das
bugigangas preciosas de que ela tanto gostava, e um dos tetranetos ,
Skid o u Hasty, levava-lhos num carrinho de mão , caminhando a seu
lado . Por um instante , ela voltava a ser a velha criada cordial , depen­
dente , como-se-fosse-da-fann1ia: "Eu sei que os meus meninos não
me deixam ir embora de mãos a abanar."

O Tio Jimbilly ainda andava por ali , a remendar arreios , a escovar


cavalos , a consertar vedações e de quando em vez a cultivar algumas
plantas ou a soltar a terra à volta de arbustos na Primavera. Estava
perpetuamente a resmungar consigo mesmo , com a boca azul sempre
a mexer-se num comentário interminável e desconexo das coisas pas­
sadas e presentes , e até das vindouras , sem dúvida, embora nada hou­
vesse nele que sugerisse qualquer ligação ao futuro , sequer ao mais
próximo . . . Maria só depois da morte da avó se apercebera de que o
208 Katherine Anne Porter

Tio Jimbilly e a Tia Nannie eram marido e mulher . . . Esse casamento


de conveniência, no qual tinham sido emparelhados com uma verda­
deira política real , tendo em vista a estabilidade da linhagem e da fa­
rm1ia, dissolvera-se entre eles quando as razões para que existisse se
haviam dissolvido igualmente . . . Não reparavam de forma alguma na
existência um do outro , pareciam esquecer que tinham tido filhos em
conjunto (cada um falava dos "meus filhos") , não haviam acumulado
quaisquer memórias comuns que qualquer um deles desej asse manter.
A Tia Nannie mudou-se para a sua própria casa sem sequer um olhar
ou um pensamento dedicado ao Tio Jimbilly, e tudo indicava que este
não dera pela sua ausência . . . Ele dormia num pequeno sótão por cima
do fumeiro e comia na cozinha a horas desusadas , fazia o que lhe ape­
tecia, solitário e quase tão invisível como um espírito errante . . . Um
dia, contudo , passou pela pequena casa e viu a Tia Nannie sentada nos
degraus com o seu cachimbo . Sentou-se durante algum tempo , gemen­
do um pouco ao dobrar-se em ângulos difíceis , e ficou ao sol como um
cão velho e cansado . Ter-se-ia instalado ali a partir daquele momento ,
mas Nannie não o queria. "O que é que fazes com esta casa grande
toda para ti?" , quis ele saber. "Não é mais do que suficiente só para
mim" , replicou ela com concisão ; "Não faço tenções de passar os meus
últimos dias a servir homem nenhum" , acrescentou . "Já cumpri o meu
dever, fiz o que tinha de fazer, e é tudo ." Por isso , o Tio Jimbilly voltou
a subir a colina e regressou ao sótão do fumeiro , e nunca mais se apro­
ximou dela . . .

Nas noites de Verão , ela ficava sentada sozinha bem depois de escu­
recer, a fumar para afastar os mosquitos , até estar pronta para dormir.
Dizia que não tinha medo de nada: nunca tinha tido , nunca esperava
ter. Havia muito que pensava que a noite era uma bênção , que trazia o
tempo em que não tinha de trabalhar mais até ao dia seguinte . Mesmo
depois de deixar de trabalhar de uma vez por todas , continuava a espe­
rar a noite com anseio , como se todas as fadigas acumuladas da sua
vida, já arreigadas nos ossos , continuassem a suplicar por alívio . Po­
rém, quando a noite chegava, ela lembrava-se de que não teria de se
levantar de manhã até estar preparada para o fazer. Por isso , gozava do
luxo de ter à sua disposição todo o bom tempo que Deus dera a este
mundo .

*
A Torre Inclinada e Outros Contos 209

Nos velhos tempos , quando Mister Harry lhe fazia frente nalguma
disputa insignificante , ela conseguia sempre levar-lhe a melhor baten­
do no colo velho e ossudo com a palma da mão comprida e exclaman­
do: "Ora, Mister Harry, não tem vergonha de falar assim comigo?
Amamentei-o neste mesmo peito ! "
Harry estava ciente de que aquilo não era literalmente verdade . Ela
amamentara três dos seus irmãos mais velhos; mas dizia sempre de
imediato: "Está bem , Mãezinha, está bem , por amor de Deus ! " - tal
e qual como respondia à sua própria mãe , explodindo na sua irascibi­
lidade natural como se esperasse espairecer um pouco o ar da tirania
matriarca! sufocante a que fora sujeitado pela morte do pai . Não obs­
tante , submetia-se , pois pertencia àquela última geração de filhos que
reconheciam, por maior que fosse a relutância ou a amargura com que
o faziam, a dívida mística e nunca perdoável ao útero que os carregara
e ao peito que os aleitara.

A Figueira

A velha Tia Nannie tinha o hábito de apertar os joelhos para segurar


Miranda enquanto lhe escovava o cabelo ou abotoava a parte de trás
do vestido . Quando Miranda se contorcia, a Tia Nannie apertava-a
ainda mais, ao que Miranda se contorcia mais também , mas nunca o
suficiente para escapar. A Tia Nannie agarrava o cabelo de Miranda
com firmeza, passava-lhe um elástico à volta, enfiava-lhe uma touca
de cambraia branca acabada de engomar por cima das orelhas e da
testa, prendia-lha ao cabelo com um grande alfinete-de-ama e dizia:
"Tenho de a manter quieta de alguma maneira. Agora vá, não tire isto
da cabeça até o Sol se pôr."
"Eu não queria uma touca, está demasiado calor, queria um cha­
péu" , queixava-se Miranda .
"Não vai ter u m chapéu , vai ter aquilo mesmo que tem" , replicava
a Tia Nannie na voz autoritária que usava quando era hora do banho e
de vestir, "e um dia destes ainda lhe coso a touca ao totó . O seu paizi­
nho diz que , se a menina ficar com sardas , me vai culpar a mim . Ago­
ra já está pronta para sair."
"Onde vamos , Tia?" Miranda nunca conseguia ficar a saber o que
quer que fosse até à última da hora. Estava sempre a ser surpreendida.
210 Katherine Anne Porter

Uma vez deitou-se na cama com o gatinho aninhado na almofada a


ronronar, e acordou numa enxerga estreita e sufocante num comboio ,
agarrada a uma botij a de água quente; e l á estava a Avó estendida a seu
lado com o seu robe de padrão de xadrez do clã dos McLeod , de olhos
bem abertos . Miranda julgou que algo maravilhoso tinha acontecido .
"Céus , Avó , onde vamos?" E iam só em mais uma viagem a El Paso
para visitarem o Tio Bill .
Agora Tom e Dick estavam encostados à carrio la parada do lado de
fora do portão , com caixas e cestos presos a todo o lado . A Avó andava
sozinha pela casa, muito devagar, dando uma última vista de olhos a
tudo . De vez em quando , guardava mais alguma coisa na grande bolsa
de cabedal que tinha debaixo do braço, até a deixar bastante volumosa.
No outro braço levava uma saia comprida , de mohair preto , a que cos­
tumava vestir por cima da outra saia quando montava a cavalo . O filho
Harry, pai de Miranda , seguia-a a dizer: "Não vejo o sentido de irmos
a toda a pressa para Halifax em cinco minutos ."
E a Avó replicou , continuando a andar: "São cinco horas , exacta­
mente ." Halifax não era de maneira nenhuma o nome da quinta da
Avó , era Cedar Grove , mas o pai sempre lhe chamara Halifax . "Quen­
te como Halifax" , dizia quando queria descrever algo muito quente .
Cedar Grove era muito quente , mas iam para lá todos os Verões , pois
a Avó adorava. "Eu fui para Cedar Grove durante cinquenta anos antes
de tu teres nascido" , dizia ela a Miranda, que se lembrava muito bem
do Verão anterior e um pouco do Verão antes desse . Miranda gostava
de ir por causa das melancias e dos gafanhotos e das longas fileiras de
amargoseiras em flor, à sombra das quais os cães se estendiam e dor­
miam . Gemiam e estremeciam as pálpebras , davam às patas e solta­
vam latidos ténues a dormir, e o Tio Jimbilly dizia que era porque os
cães sonhavam sempre que estavam a perseguir qualquer coisa. A meio
do dia, quando Miranda olhava para os campos densos e verdes que
iam até à fonte , era capaz de ver simplesmente o calor: tudo azul e
sonolento , com as rolas-carpideiras a arrulhar.
"Vamos a Halifax , Tia?"
"Ora , pergunte ao seu paizinho , se quer tanto saber."
"Vamos a Halifax , paizinho?"
O pai endireitou-lhe a touca e puxou-lhe o cabelo para a frente para
que se visse . "Não deves bronzear-te . Não , não mexas . Mostra esses
caracóis bonitos . Hás-de chapinhar em Whirlypool antes do j antar logo
à noite ."
A Avó corrigiu-a:
A Torre Inclinada e Outros Contos 21 1

"Não digas Halifax , filha, diz Cedar Grove . Chama as coisas pelos
nomes ."
"Sim, senhora" , respondeu Miranda. A Avó tomou a falar, desta
feita com o filho: "São cinco horas , exactarnente , e a tua Tia Eliza teve
tempo de sobra para guardar o telescópio e levar o meu cavalo de
montar. Já lá está há umas três horas . Imagino que j á tenha montado o
telescópio no telhado do galinheiro . Só espero que nada aconteça."
"Preocupa-se demasiado , mãezinha" , disse o filho , a tentar disfarçar
a impaciência.
"Não estou a preocupar-me" , replicou a Avó , passando a saia de
montar para o braço onde levava a bolsa. "De pouco vai servir levar
isto" , disse ; "na verdade , até podia mandá-la fora este Verão ."
"Não se exalte , mãezinha, vamos mandar vir o Pompey da Black
Farm, é um cavalo manso e bom ."
"Monta-o tu" , ripostou a Avó . "Eu nunca montarei o Pompey en­
quanto o Fiddler for vivo . O Fiddler é o meu cavalo e detesto que uma
cavaleira descuidada lhe estrague a boca. A Eliza nunca soube montar,
nem nunca há-de saber. . . "

Miranda deu uma pequena corrida e escapuliu-se . Então iam a Ce­


dar Grove . Miranda nunca deixava de se surpreender com a forma
como os adultos pareciam simplesmente incapazes de dar uma respos­
ta directa a quem quer que fosse , independentemente da pergunta, a
menos que a resposta fosse "Não" . Nesse caso , saía-lhes da boca sem
dificuldade alguma. A uma pequena distância, ouviu a avó perguntar:
"Harry , nos últimos tempos viste a minha chibata de montar?" e o pai
a responder, ou pelo menos talvez achasse que aquilo era uma respos­
ta: "Então , mãezinha, por amor de Deus , vamos lá despachar isto ." Foi
assim , exactamente .
Outra forma estranha que o pai tinha de falar era chamar "Mãezinha"
à Avó . A Tia Jane era a mãezinha . Por vezes ele chamava "Mamã" à
Avó , mas ela também não era "Mamã" , era mesmo Avó . A Mamã esta­
va morta. Morta queria dizer desaparecida para sempre . Morrer era uma
coisa que estava sempre a acontecer, às pessoas e a todas as outras
coisas . Quando alguém morria, havia uma longa correnteza de carrua­
gens a avançar muito devagar até à beira rochosa da colina em direcção
ao rio enquanto o sino picava e repicava, e essa pessoa nunca mais era
vista por ninguém. Os gatinhos e as galinhas e sobretudo os perus pe­
quenos morriam com muito mais frequência , e às vezes os bezerros ,
212 Katherine Anne Porter

mas quase nunca as vacas ou os cavalos . Os lagartos em rochas


transformavam-se em conchas , sem nenhum lagarto lá dentro . Se as
lagartas todas enroladas e peludas não se mexessem quando lhes espe­
távamos um pau , isso queria dizer que estavam mortas - era um sinal
inequívoco .
Sempre que Miranda encontrava alguma criatura que não se mexes­
se ou fizesse barulho , ou que parecesse de alguma maneira diferente
das vivas , enterrava-a numa pequena campa com flores por cima e
uma pedra lisa à cabeceira. Até gafanhoto s . Tudo o que estava morto
tinha de ser tratado desta maneira. "Desta maneira e de nenhuma ou­
tra ! " , exclamava sempre a Avó quando estava a decretar a lei acerca de
todo o género de coisas . "Tem de ser feito desta maneira, e de nenhu­
ma outra ! "
Miranda desceu pelo caminho de lajes rachadas a saltar aos zigue­
zagues por entre os tufos de erva. Primeiro havia romãzeiras e arbustos
de gardénias misturados ; depois ficava muito escuro e cheio de sombra
e ali estava a mata de figueiras . Ela aproximou-se da sua figueira pre­
ferida, cujos ramos profundos se curvavam até à altura do seu queixo ,
pelo que ela podia apanhar figos sem ter de a trepar e esfolar os joe­
lho s . A Avó não se tinha lembrado de levar figos para o campo da úl­
tima vez , dissera que havia muitos em Cedar Grove . Mas os de Cedar
Grove eram grandes , moles e branco-esverdeados , enquanto os dali de
casa eram pretos e açucarados . Que estranho que a Avó parecesse não
dar pela diferença. O ar entre as figueiras era doce e as galinhas pas­
savam a vida a fugir do cercado e a correr para ali para comerem os
figos caídos no chão . Uma galinha mãe estava a àpressar-se por ali , a
arranhar o solo e a cacarej ar. Arranhava à volta de um figo caído , bem
à vista, e cacarejava para chamar os filho s , como se fosse uma minho­
ca que ela tivesse desenterrado para lhes dar.
"Espertalhona" , disse Miranda, "estás só a fingir."
Quando todos os franguinhos acorreram para junto da mãe debaixo
dos ramos da figueira de Miranda, um deles não se mexeu . Estava
deitado de lado , com os olhos fechados e a boca aberta. Tinha a penu­
gem amarela com manchas e alguns sítios com penas , e o resto estava
nu e queimado pelo Sol . "Preguiçoso" , disse Miranda, empurrando-o
com o pé . Então percebeu que estava morto .
Oh , e dali a nada iriam partir para Halifax . A Avó nunca se limitava
a ir embora, partia sempre para algum sítio . Ela teria de se apressar
muito para o enterrar como devia ser. Voltou a casa em bicos de pés ,
esperando não ser vista , pois a Avó perguntava sempre: "Onde vais ,
A Torre Inclinada e Outros Con'tos 213

filha? O que estás a fazer? O que levas aí? Onde fo i que o arranj aste?
Quem te deu permissão?" e, depois de Miranda ter explicado tudo isso ,
mesmo que se revelasse não haver mal algum , já nada parecia tão bom .
Para mais , demorava séculos a desenvencilhar-se .
Miranda abriu a gaveta da cómoda, a terceira a contar de baixo , do
lado esquerdo , onde ainda tinha os sapatos novos embrulhados em
papel de seda, numa bela caixa branca do tamanho certo para um fran­
go a quem nasciam as primeiras penas . Afastou as coisas brancas ,
dobradas e roçagantes e os saquinhos de alfazema e tremeu um pouco .
Lá em baixo , em frente à casa, as rodas da carriola guinchavam e es­
magavam a gravilha, com o Velho Tio Jimbilly a gritar como uma si­
rene de nevoeiro , "Ih-ih , pronto , para trás , cavalos ! Recuem aí, vocês ! "
e , claro está, isso queria dizer que estava a virar Tom e Dick para que
se voltassem para Halifax . Haveriam de ir à procura dela, de a chamar
e apressar, e ela não teria tempo para nada e eles não prestariam aten­
ção a nem uma palavra.

Não custava muito cavar um buraco no solo seco e pouco compacto


com a sua pequena pá. Miranda envolveu o frango débil em papel de
seda, tentando dar-lhe um ar bonito , pousou-o cuidadosamente na cai­
xa e cobriu-a com um monte de terra agradável , tal como se fazia com
as pessoas . Ainda mal lhe tinha dado uma forma de sepultura, ajoe­
lhando-se e debruçando-se para a alisar, quando um som estranho co­
meçou a fazer-se ouvir, um pequeno lamento muito triste . Disse Ih , ih ,
ih , três vezes assim , muito devagar, e parecia provir do monte de terra.
"Céus" , perguntou Miranda a si mesma em voz alta , "o que é isto?"
Afastou a touca das orelhas e esforçou-se por ouvir. "lh , ih" , dizia a
pequena voz triste . E gente começou a chamá-la e a apressá-la, com as
vozes a aproximarem-se . Ela também começou a gritar.
"Sim, tia; espere um minuto , tia ! "
"Tem de vir j á , vamos embora ! "
"Têm de esperar, tia ! "
O pai estava a surgir por entre a s figueiras . "Despacha-te , Bebé ,
olha que te deixamos cá ! "
Miranda sentiu que não suportaria ser deixada. Toda a tremer de
susto , desatou a correr. O pai fitou-a com o ar irritado que fazia sempre
quando dizia algo para a incomodar e depois via que ela estava inco­
modada. As suas palavras foram amáveis , mas a voz ralhava: "Não
fiques tão aflita, B ebé , sabes que não te deixaríamos por nada." Miran-
214 Katherine Anne Porter

da queria ripostar: "Então porque disseste isso?" , mas ainda estava à


escuta daquele som mínimo: "Ih , ih ." Fincou o pé e puxou para trás ,
olhando por cima do ombro , mas o pai apressava-a a ir para a carriola.
No entanto , as coisas não faziam barulho se estivessem mortas . Não
podiam . Esse era um dos sinais . Oh , mas ela tinha ouvido .
O pai sentou-se à frente e guiou , e o Tio Jimbilly não fez nada para
além de se baixar e abrir portões . A Avó e a Tia N annie iam no assen­
to de trás , com Miranda entre as duas . Ela adorava partir para algum
lugar, com toda a gente a sorrir e a instalar-se e a ver que tempo faria ,
com os cavalos a trotarem e a puxarem a s rédeas , a s molas a saltarem
e a oscilarem com um som rangente que dava a certeza de se estar a
viajar. Naquela tarde ainda iria chapinhar na água com Maria, Paul e o
Tio Jimbilly, e nessa mesma noite haveria de se deitar na relva, de
camisa de dormir, para arrefecer, e todos beberiam limonada antes de
irem para a cama . A irmã Maria e o irmão Paul já estariam torrados
como muffins porque eram mandados para lá assim que as aulas aca­
bavam . A irmã Maria estaria cheia de sardas e o pai ficaria furioso .
"Não tires a touca" , diria ele a Miranda, num tom severo . "Agora não
te esqueças . Não quero essa cara estragada também ." Mas , oh , o que
teria feito aquele som esquisito? Os ouvidos de Miranda zumbiam e
ela tinha uma dor seca e romba mesmo por baixo das costelas da fren­
te . Tinha de voltar e de o soltar. Nunca conseguiria sair por si só , todo
emaranhado em papel de seda e dentro daquela caixa de sapatos . Nun­
ca conseguiria sair sem ela .
"Avó , tenho de voltar. Oh , tenho de voltar ! "
A Avó virou a cara de Miranda pelo queixo e fitou-a atentamente ,
como os adultos costumavam fazer. Os olhos da Avó estavam sempre
iguais . Nunca pareciam bondosos ou tristes ou zangados ou cansados
ou o que quer que fosse . Limitavam-se a olhar, azuis e imóveis . "O que
se passa contigo , Miranda, o que aconteceu?"
"Oh , tenho de voltar - esque-esqueci-me de uma coisa importante ."
"Pára com essa choradeira tola e diz-me o que queres ."
Miranda não conseguia parar. O pai dela parecia muito ansioso .
"Mãezinha, se calhar a Bebé está doente ." Estendeu o lenço na di-
recção da cara da filha . "O que se passa com o meu docinho? Comes­
te alguma coisa?"
Miranda teve de se levantar para chorar com toda a vontade que
tinha. As rodas continuavam a esmagar a terra da estrada, a carriola
oscilava tanto que a Avó teve de a segurar por um braço e o pai pelo
outro . Fitaram-se um ao outro por cima da cabeça de Miranda, com
A Torre Inclinada e Outros Contos 215

u m olhar estático que Miranda vira muitas vezes , e o s seus olhos pa­
reciam exactamente idênticos . Miranda observou-os , a pestanejar, à
espera de ver quem ganharia. Depois a mão da Avó afastou-se e Mi­
randa foi passada ao pai . Este deu as rédeas ao Tio Jimbilly e
levantou-a por cima do acento . Ela esparramou-se contra o peito e os
joelhos do pai como se este fosse um cadeirão e parou logo de chorar.
"Não podemos voltar só por um capricho" , disse-lhe ele no tom ra­
zoável que adoptava sempre que a Avó ralhava, e estendeu-lhe o
lenço espesso . "Vá, assoa-te . O que esqueceste , querida? Arranjamos­
-te outra. Foi a boneca?"
Miranda detestava bonecas . Arrancava-lhes sempre as perucas e
punha-as nos gatos , como se fossem chapéus . Os gatos tiravam-nas de
imediato . Era divertido . Vestia os gatinhos com as roupas das bonecas
e qualquer um deles demorava meio minuto a tirar tudo de novo . Os
gatinhos tinham juízo . Miranda bradou de repente: "Oh , quero a minha
boneca" , e recomeçou a chorar, tentando abafar o estranho som dimi­
nuto: "Ih, ih" . . .
"Bom, então, se é só isso" , disse-lhe o pai , à vontade, "há uma série
de bonecas em Cedar Grove , e uns quarenta gatinhos novos . Que achas?"
"Quarenta?" , perguntou Miranda.
"Mais ou menos" , confirmou o pai .
A Velha Tia Nannie inclinou-se e estendeu-lhe a mão . "Veja, queri­
da, trouxe-lhes uns quantos figos pretos , dos bons ."
O rosto dela era enrugado e preto e parecia um figo virado ao con­
trário com uma touca com folhos . Miranda cerrou os olhos com força
e abanou a cabeça.
"Isso será uma maneira bonita de te comportares quando a Tia
Nannie te oferece uma coisa boa?" , perguntou-lhe a Avó , no seu tom
suave de admoestação .
"Não , minha senhora" , respondeu Miranda numa voz mansa. "Obri­
gada, Tia Nannie." Mas não aceitou os figos .

A Tia-Avó Eliza, a meio de um escadote encostado ao galinheiro de


telhado plano, estava a dizer a Hinry como havia de lhe instalar o te­
lescópio . "Para alguém que nunca viu nem ouviu falar de um telescó­
pio" , comentou com a Avó , que na verdade era a sua irmã Sophia Jane ,
"não se sai assim tão mal , desde que eu lhe diga o que fazer."
"Quem me dera que deixasses de te empoleirar em escadotes , Eli­
za" , disse a Avó , "com a idade que já tens ."
216 Katherine Anne Porter

"Não passas de uma criatura nervosa, Sophia, eu bem digo . Quando


é que me viste a magoar-me?"
"Mesmo assim" , replicou a Avó com azedume , "há uma coisa cha­
mada comportamento adequado consoante a idade que . . . "
Com uma mão , a Tia-Avó Eliza apanhou uma dobra da saia pesada,
pregueada e castanha, enquanto com a outra se agarrava a um degrau
acima do escadote para subir mais um pouco . "Bom, Hinry" , chamou­
-o , "basta virá-lo para oeste e deixá-lo direito . Eu arranjo-o como o
quero quando estiver preparada. Já podes descer." Também ela desceu
e disse à irmã: "Enquanto tu puderes ir abanar-te em cima daquele teu
cavalo, Sophia Jane, acho que posso subir escadotes . Sou três anos
mais nova do que tu e, com a idade que tens, isso faz toda a diferença! "
A Avó ficou rosada como o interior de uma concha, aquela que tinha
em cima da mesa de costura e na qual se ouvia o mar; Miranda sabia que
ela sempre fora a mais bonita, e ainda era bonita, mas a Tia-Avó Eliza
não era bonita agora, nem nunca tinha sido . Miranda, a observar e a
escutar - pois tudo no mundo era estranho para si e constituía algo que
tinha de ficar a saber - , via duas mulheres idosas , orgulhosas de serem
avós, que falavam com as crianças como se soubessem tudo e as crian­
ças nada soubessem, e passavam o dia inteiro a dizer às crianças que
fossem ali, para acolá, que fizessem isto, não fizessem aquilo, e que
estavam sempre certas enquanto as crianças nunca estavam e quando
faziam alguma coisa eram mandadas embora sem mais palavra. E ali
estavam elas , a espicaçar-se como meninas de escola, ou mesmo como
Miranda e a irmã Maria se pegavam e irritavam e provocavam uma à
outra, dizendo coisas de propósito só para se magoarem. Miranda sentiu­
-se triste, esquisita e um pouco assustada. Começou a afastar-se.
"Onde é que vais , Miranda?" , perguntou-lhe a Avó no seu tom de
todos os dias .
"Só para casa" , respondeu Miranda, com o coração pesado .
"Espera e vem connosco" , disse a Avó . Era muito magra e pálida,
com cabelo branco . A seu lado , a Tia-Avó Eliza impunha-se como uma
montanha, de cabelo frisado e da cor do ferro , como uma peruca enca­
racolada, os seus óculos de armação de metal por cima dos olhos cor
de rapé, as suas saias de lã da cor de rapé a tufar-se à sua volta e o seu
cheiro a rapé . Ao passar pela porta, enchia praticamente a entrada.
Quando se sentava, a cadeira desaparecia debaixo de si e ela parecia
estar solidamente sentada em si mesma, da cintura ao chão .
Agora, com a Avó sentada do outro lado da sala, à procura de qualquer
coisa na sua cesta de bordados e a fingir não dar por nada, a Tia-Avó
A Torre Inclinada e Outros Contos 217

Eliza tirou um pequeno frasco castanho do bolso, abriu-o, levou uma pi­
tada de rapé a cada narina, espirrou com estardalhaço, limpou o nariz a
um grande lenço branco de aspecto engomado, empurrou os óculos na
direcção da testa, pegou num raminho mascado numa ponta como um
pincel, mergulhou-o e girou-o no pequeno frasco e colocou-o firmemente
entre os dentes . Miranda tinha ouvido falar daquele hábito vergonhoso
entre mulheres das classes mais baixas, mas não sabia de uma senhora
que "mascasse rapé", e decerto não na família. Todavia, ali estava a Tia­
-Avó Eliza, uma senhora, ainda que não muito bonita, a mascar rapé.
Miranda conhecia a opinião da Avó; fascinada, observava a Tia-Avó Eliza
até ficar com lágrimas nos olhos . A Tia-Avó Eliza devolveu-lhe o olhar.
"Ouve lá, pequena, achas que se te desse um rebuçado tu te punhas
a andar?"
Levou a mão a outro bolso e tirou de lá um rebuçado arredondado ,
cor-de-rosa, parecendo bastante esmagado , com a cobertura de açúcar
muito estalada. "Agora leva isto e não me deixes voltar a pôr-te a vis­
ta em cima hoje ."

Miranda afastou-se depressa, a apertar o rebuçado na palma da mão .


Quando chegou à cozinha, derretia-se-lhe por entre os dedos . Foi até à
torneira e pôs a mão debaixo de água, tentando livrar-se do cheiro a
rapé . Depois daquele crime , tão cedo não se atreveria mesmo a apro­
ximar-se da Tia-Avó Eliza. "O que fizeste para despachar o rebuçado
tão depressa, filha?" , quase a ouvia perguntar.
No entanto, Miranda quase esqueceu os interesses habituais, tais como
gatinhos e outros pequenos animais daquele sítio, porcos , galinhas , coe­
lhos , qualquer coisa desde que fosse um bebé e a deixasse dar-lhe mimos
e alimentá-la, já que os modos e os hábitos da Tia-Avó Eliza a levavam
a segui-la, observá-la ou sentar-se à frente dela à mesa de jantar, sem
desviar o olhar; pois , quando não estava no telhado diante do telescópio,
sempre imediatamente antes da aurora ou logo depois de escurecer, an­
dava com um microscópio e uma lupa, a espreitar atentamente qualquer
coisa que tivesse visto no tronco de uma árvore, algo que encontrasse na
relva; de vez em quando, recolhia fragmentos que pareciam folhas secas
ou pedaços de casca de árvore, levava-os para casa, espalhava-os num
papel branco e ali ficava, a observá-los , imóvel como se estivesse a rezar.
À mesa, dissecava uma casca de batata ou qualquer coisa que pudesse
estar a comer, e ali ficava, debruçada e a dizer: "Hum" , de vez em quan­
do . A Avó, que não permitia que as crianças levassem brinquedos para a
218 Katherine Anne Porter

mesa e que as proibia de fazerem o que quer que fosse à excepção de


comer enquanto ali estivessem, ignorava os modos da irmã durante o
máximo de tempo que era capaz, até que um dia, estava a Tia-Avó Eliza
a zumbir como uma abelha por causa do que o seu microscópio desco­
brira numa passa: "Eliza, se é interessante , guarda-o para que eu o veja
depois do jantar. Ou diz-me o que é."
"Não perceberias , se eu te dissesse" , respondeu a Tia-Avó Eliza num
tom frio, ao mesmo tempo que punha o microscópio de parte e acabava
o pudim.
Quando, por fim, mesmo antes de voltarem todos para a cidade, a
Tia-Avó Eliza convidou as crianças a subirem o escadote consigo e
verem as estrelas através do seu telescópio, elas ficaram tão espantadas
que se entreolharam como desconhecidos e não trocaram nem uma
palavra. Miranda só viu um grande disco bojudo a emitir uma luz fria
e pálida, mas percebeu que era a Lua e exclamou , com um arrebatamen­
to puro: "Oh, é como outro mundo ! "
"Ora, é claro , filha" , disse a Tia-Avó Eliza, n a sua voz rosnada, mas
com delicadeza, "outros mundos , um milhão de outros mundos."
"Como este?" , perguntou Miranda, timidamente .
"Ninguém sabe , filha . . . "
"Ninguém sabe , ninguém sabe" , trauteou Miranda ao ritmo de uma
melodia na sua cabeça e , quando os outros foram andando , ela ficou
tão estonteada de alegria que se deixou ficar para trás , caminhando a
pouca distância da lanterna oscilante e das saias largas e oscilantes da
Tia-Avó Eliza. Seguiram pelo caminho húmido por entre as figueiras ,
muito semelhante ao da casa da cidade , com o orvalho matutino a re­
velar o cheiro doce das folhas leitosas . Passaram por uma figueira de
ramos baixos e Miranda estendeu a mão por hábito e tocou-lhe com os
dedos, para lhe dar sorte . Da terra por baixo dos seus pés sobreveio um
som terrível, débil e atormentado . "Ih, ih, ih, ih . . . ", murmurava a vo­
zinha chorosa debaixo do solo asfixiante , da sepultura.
Miranda saltou como um pónei sobressaltado contra a parte de trás
dos joelhos da Tia-Avó Eliza, a exclamar: "Oh, oh , oh , espere . . . "
"Mas que se passa, filha?"
Miranda agarrou a mão quente e anafada que lhe era oferecida e
segurou-a com força. "Oh, há qualquer coisa na terra a dizer ' ih , ih' ! "
A Tia-Avó Eliza baixou-se, passou um braço à volta de Miranda e
pôs-se à escuta, com muita atenção . "Estás a ouvi-las?" , perguntou .
"Não estão na terra de todo. São as primeiras rãs das árvores , quer dizer
que vai chover" , explicou-lhe , '"ih , ih'
- estás a ouvir?"
A Torre Inclinada e Outros Contos 219

Miranda inspirou profunda e tremulamente e ouviu-as . Estavam nas


árvores . Voltaram a andar, Miranda a segurar a mão da Tia-Avó Eliza.
"Pensa só" , disse-lhe esta, na sua voz mais científica, "quando as rãs
das árvores largam a pele, podem pô-las por cima da cabeça, como se
fossem camisas , e comem-nas . Imaginas? Têm os formatos mais pe­
quenos e engraçados que alguma vez viste - um dia destes mostro-te
uma ao microscópio ."
"Obrigada, minha senhora" , lembrou-se Miranda finalmente de dizer,
no seu devaneio feliz por ouvir as rãs das árvores a cantar: "Ih, ih . . .
"

A Sepultura

O avô , falecido havia mais de trinta anos , tinha por duas vezes sido
perturbado no seu longo repouso pela constância e possessividade da
viúva. Esta transladara-lhe os ossos primeiro para o Luisiana e depois
para o Texas , como se estivesse determinada a encontrar o seu próprio
sepulcro , sabendo bem que nunca voltaria aos lugares que deixara. No
Texas , criou um pequeno cemitério a um canto da primeira quinta e, à
medida que as ligações familiares foram crescendo , e que resultados
de relações chegavam do Kentucky para se instalarem, passou a conter
pelo menos vinte sepulturas . Depois da morte da avó, parte da sua
terra deveria ser vendida para benefício de alguns dos filhos , e aconte­
cia que o cemitério se encontrava na parte reservada para venda. Era
necessário exumar os corpos e enterrá-los de novo no jazigo da fann1ia
no grande e novo cemitério público onde a avó fora sepultada. Por fim,
o marido repousaria a seu lado para toda a eternidade, conforme ela
tinha planeado .
O cemitério familiar fora um pequeno jardim prazenteiro e negli­
genciado , com roseiras emaranhadas e cedros e ciprestes desfolhados ,
com as lajes simples a surgirem entre erva por aparar, de cheiro doce .
As sepulturas estavam abertas e vazias certo dia escaldante em que
Miranda e o irmão Paul , que frequentemente iam juntos caçar coelhos
e pombas , encostaram cuidadosamente as espingardas Winchester de
calibre 22 à vedação, a treparam e começaram a explorar as jazidas .
Ela tinha nove anos , ele doze .
Espreitaram as covas , todas com o mesmo formato , com uma preci­
são propositada, e , entreolhando-se com um ar satisfeito e aventureiro ,
220 Katherine Anne Porter

exclamaram em tons solenes: "Eram sepulturas ! " , tentando, através


das palavras , formar uma emoção especial e adequada nas suas men­
tes ; porém, nada sentiam, à excepção de uma agradável excitação de
maravilhamento: estavam a ver uma coisa nova, a fazer algo que nun­
ca haviam feito . Em ambos havia também um pequeno desapontamen­
to perante o absoluto lugar-comum do espectáculo propriamente dito .
Mesmo que em tempos tivesse contido um caixão durante anos segui­
dos , desaparecido o caixão , uma sepultura não passava de um buraco
no chão . Miranda saltou para a cova que acolhera os ossos do avô .
Raspando em redor, sem objectivo e com o prazer de qualquer animal
jovem, apanhou um montículo de terra e sopesou-o na palma da mão .
Tinha um cheiro agradavelmente doce , impuro , misturado com agu­
lhas de cedro e pequenas folhas e , à medida que as migalhas se desfa­
ziam, ela viu uma pomba prateada, que não era maior do que uma
avelã, com as asas abertas e uma cauda perfeita em forma de leque . O
peito tinha um furo redondo e profundo . Ao virá-la contra a luz poten­
te do Sol , viu que o interior do buraco tinha pequenas gravuras . Ras­
tejou para fora da cova, passando por cima da pilha de terra solta que
tinha caído para uma das pontas da sepultura, e avisou Paul que encon­
trara uma coisa, ele tinha de adivinhar o que era . . . A cabeça sorriden­
te dele apareceu sobre o rebordo de outra sepultura. Acenou-lhe com
uma mão fechada. "Também tenho uma coisa!" Correram a comparar
tesouros , transformando aquilo num jogo , tantos palpites a cada um,
todos errados , e por fim uma exibição de palmas abertas . Paul tinha
encontrado um anel de ouro , grande e fino, gravado com flores e fo­
lhas intrincadas . Miranda ficou emocionada ao ver o anel e desejou
tê-lo . Paul parecia mais impressionado com a pomba. Fizeram uma
troca, com algum regateio . Depois de ter a pomba na mão , Paul disse:
"Não sabes o que isto é? É uma cabeça de parafuso para um caixão! . . .

Aposto que mais ninguém no mundo tem uma destas ! "


Miranda observou-a sem cobiça. Tinha o anel d e ouro n o polegar;
servia-lhe na perfeição . "Se calhar agora é melhor irmos embora" ,
disse ela, "não vá um dos negros ver-nos e contar a alguém." Sabiam
que a terra tinha sido vendida, que o cemitério já não era deles , e sen­
tiam-se intrusos . Voltaram a trepar a vedação , puseram descontraida­
mente as espingardas debaixo do braço - disparavam contra alvos
com vários tipos de armas de fogo desde os sete anos - e partiram em
busca de coelhos , pombas , ou qualquer presa pequena com que se
deparassem. Naquelas expedições , Miranda seguia sempre atrás de
Paul pelo caminho , obedecendo a instruções acerca de como manusear
A Torre Inclinada e Outros Contos 22 1

a arma ao passar por sebes; aprendendo a apoiá-la devidamente para


que não escorregasse e disparasse inesperadamente; a esperar o tempo
adequado para atirar, em vez de se limitar a descarregar para o ar sem
ver, a estragar tiros a Paul , que realmente era capaz de acertar em coi­
sas , se lhe dessem uma oportunidade . De vez em quando , excitada por
ver pássaros a levantarem voo de repente mesmo à sua frente , ou um
coelho a saltar diante dos seus pés , ela perdia a cabeça e, quase sem
fazer pontaria, erguia a espingarda e carregava no gatilho . Raramente
acertava em algum alvo . Não tinha qualquer noção do que era a caça.
O irmão ficava completamente agastado com ela. "Não te importas se
acertas no pássaro ou não" , dizia-lhe . "Isso não é maneira de caçar."
Miranda não compreendia a indignação dele . Já o vira a esmagar o
chapéu e a gritar de fúria por falhar o alvo . "Aquilo de que eu gosto
quando disparo" , dizia Miranda, com uma inconsequência exasperan­
te , "é de carregar no gatilho e ouvir o barulho ."
"Então , caramba" , dizia Paul , "porque não voltas para o campo de
tiro e disparas contra os alvos?"
"Até preferia" , respondia Miranda, "só que assim andamos mais ."
"Bem, limita-te a ficar atrás de mim e deixa de me estragar os dis­
paros" , dizia Paul que , quando atirava a matar, queria ter a certeza de
que era ele quem o fazia. Miranda, que sozinha abatia um pássaro a
cada vinte disparos , reclamava sempre como sua qualquer presa abati­
da quando disparavam ao mesmo tempo . Era cansativo e injusto , e o
irmão estava farto .
"Bom, a primeira pomba que virmos , ou o primeiro coelho , é para
mim" , disse-lhe ele . "E o seguinte é para ti . Lembra-te disso e não te
armes em espertinha."
"E cobras?" , perguntou Miranda num tom curioso . "Posso ficar com
a primeira cobra?"
A abanar o polegar ao de leve e a ver o anel de ouro a cintilar, Mi­
randa perdeu o interesse na caça. Estava a usar a sua roupa de campo
de Verão: umas jardineiras azul-escuras , uma camisa azul-clara, um
chapéu de palha de contratado e umas sandálias castanhas bem gros­
sas . O irmão usava uma roupa idêntica, só que a sua era de uma cor
sóbria de nogueira. Por norma, Miranda preferia as jardineiras a qual­
quer outra roupa, embora isso causasse bastante escândalo no campo ,
pois corria o ano de 1 903 e no interior retrógrado a lei do decoro femi­
nino arreigava-se com unhas e dentes . O pai fora criticado por deixar
que as filhas se vestissem como rapazes e montassem cavalos , sem
sela e com uma perna para cada lado . A irmã mais velha, Maria, que
222 Katherine Anne Porter

era de facto a independente e destemida, apesar dos seus modos bas­


tante afectados , montava a toda a brida apenas com uma corda à volta
do focinho do cavalo . Dizia-se que a farm1ia sem mãe estava a
arruinar-se , agora sem a Avó para a manter unida. Sabia-se que tinha
prejudicado o filho Harry no testamento , e que ele passava dificulda­
des financeiras . Alguns dos seus antigos vizinhos comentavam, com
uma satisfação cruel , que agora ele provavelmente não seria tão arro ­
gante, nem teria mais cavalos tão pernaltas . Miranda sabia isto, embo­
ra não fosse capaz de dizer como . Encontrara pelo caminho mulheres
velhas do género que fumava de cachimbos de maçaroca de milho e
que tratava a sua avó com o respeito mais sincero . Todas inclinavam
os olhos ramelosos e velhos de esguelha para a neta e perguntavam:
"Não tem vergonha, Missy? É contra as Escrituras vestir-se assim. O
que diz o seu paizinho?" Miranda, com o seu potente sentido social ,
que era como um belo conjunto de antenas a irradiar-lhe de cada poro
da pele , sentia-se envergonhada, pois sabia bem que era rude e de mau
tom chocar quem quer que fosse , incluindo velhas rezingonas , ainda
que confiasse no juízo do pai e se sentisse perfeitamente confortável
nas suas roupas . "É mesmo disso que precisas e assim poupas os ves­
tidos para a escola . . . " Isso parecia-lhe bastante simples e natural . Ti­
nha sido educada seguindo uma parcimónia rigorosa. O desperdício
era ordinário . Também era um pecado . Essas eram verdades; ouvira-as
muitas vezes repetidas e nem uma vez postas em causa.
Agora o anel , a brilhar com a pureza serena de ouro fino no seu po­
legar bastante imundo, fazia-a mudar de ideias em relação às jardineiras
e aos pés sem meias , com os dedos a verem-se por entre as tiras grossas
de cabedal castanho . Ela queria regressar à casa, tomar um bom banho
frio, cobrir-se com bastante do pó de talco de violeta de Maria - desde
que Maria não estivesse presente para se opor, é claro - , pôr o vestido
mais fino e bonito que tinha, com uma grande faixa, e sentar-se numa
cadeira de vime à sombra das árvores . . . Estas coisas não eram tudo o
que queria, claro está; tinha vagas palpitações de desejo por luxo e por
um grandioso modo de viver que não conseguiam ganhar uma forma
precisa na sua imaginação mas se baseavam em mitos familiares de
abundância e ócio passados . Estes confortos instantâneos eram os que
podia ter, e queria-os de imediato. Deixou-se atrasar, ficando bem atrás
de Paul , e ocorreu-lhe virar-se simplesmente sem dizer o que quer que
fosse e ir para casa. Impediu-se, pensando que Paul nunca lhe faria isso,
pelo que teria de o avisar. Quando um coelho saltou , não o disputou
com o irmão . Este matou-o com um único disparo.
A Torre Inclinada e Outros Contos 223

Quando ela o alcançou , ele já estava ajoelhado , a examinar a ferida,


com o coelho pendurado nas mãos . "Atravessou-lhe mesmo a cabeça" ,
comentou num tom complacente , como se tivesse feito pontaria para
isso . Sacou da faca de mato aguçada e competente e começou a pelar
o corpo . Fê-lo de forma muito limpa e rápida. O Tio Jimbilly sabia
preparar as peles para que Miranda tivesse sempre casacos de peles
para as bonecas , pois embora ela nunca tivesse ligado muito às bone­
cas , gostava de as ver em casacos de peles . Os irmãos ficaram ajoelha­
dos de frente um para o outro , debruçados sobre o animal morto . Mi­
randa observava o irmão com um ar de admiração enquanto este se
livrava da pele como se estivesse a tirar uma luva. A carne esfolada
emergia, de um escarlate-escuro , lustroso , firme; entre o polegar e o
indicador, Miranda sentiu os longos músculos finos com as tiras lisas
e prateadas que os uniam às articulações . O irmão ergueu a barriga
estranhamente inchada. "Olha" , disse-lhe , numa voz baixa e maravi­
lhada. "Ia ter bebés ."
Com muito cuidado , ele rasgou a pele fina das costelas centrais até
aos flancos , ao que um saco escarlate apareceu . Voltou a rasgar e abriu
o saco , e aí estava uma ninhada de coelhos minúsculos , cada um en­
volvido num fino véu escarlate . O irmão afastou os véus e ali estavam,
cinzento-escuros , com a penugem lustrosa disposta em ondulações
mínimas e regulares , como a cabeça de um bebé acabada de lavar, com
as orelhas inacreditavelmente pequenas e delicadas unidas à cabeça, os
pequenos focinhos cegos quase sem feições .
Miranda disse: "Oh , eu quero ver" , num sussurro . Olhava e olhava
- empolgada mas não assustada, pois estava habituada a ver animais
mortos em caçadas - , cheia de pena, fascínio e de uma espécie de
encantamento chocado perante as criaturas maravilhosas e pequenas
por si sós , que eram tão bonitas . Tocou numa delas com o maior dos
cuidados : "Ah , há sangue a correr por cima deles" , disse , e começou a
tremer, sem saber porquê . Contudo , queria mais do que qualquer outra
coisa ver e compreender. Tendo visto , sentiu de imediato que era como
se sempre tivesse compreendido . A própria memória da sua ignorância
anterior desapareceu , ela sempre compreendera aquilo mesmo . Nin­
guém alguma vez lhe explicara o que quer que fosse de maneira direc­
ta, ela tinha sido pouquíssimo observadora da vida animal à sua volta
por estar tão habituada a animais . Pareciam-lhe tão-só desordenada e
injustificadamente rudes nos seus hábitos , mas completamente natu­
rais e não muito interessantes . O irmão tinha falado como se sempre
tivesse estado a par de tudo . Talvez tivesse visto tudo aquilo antes . Ele
224 Katherine Anne Porter

nunca lhe dissera uma palavra sobre o assunto , mas agora ela sabia
pelo menos uma parte do que ele sabia. Compreendia um pouco do
segredo , intuições desprovidas de forma na sua mente e no seu corpo ,
que se vinham a esclarecer, a ganhar forma, tão gradual e constante­
mente que ela não se tinha apercebido de que estava a aprender o que
precisava de saber. Com cautela, como se falasse de algo proibido ,
Paul disse: "Estavam mesmo a preparar-se para nascer." A voz dele
esmoreceu na última palavra. "Eu sei" , disse Miranda, "como gati­
nhos . Eu sei , como bebés ." Ela estava silenciosa e terrivelmente agita­
da, novamente de pé com a espingarda debaixo do braço , a fitar o
monte ensanguentado . "Não quero a pele" , disse ela, "não vou ficar
com ela." Paul enterrou de novo os láparos no corpo da mãe , envolveu
a pele à volta da coelha, levou-a para um monte de salvas e escondeu­
-a. Regressou de imediato e disse à irmã, com uma amistosidade ávida,
um tom confidencial que nele era bastante inusitado , como se a envol­
vesse num segredo importante , em condição de igualdade: "Agora
ouve . Presta-me atenção , e nunca te esqueças . Nunca contes a vivalma
que viste isto . Não contes a ninguém. Não contes ao pai , porque vou
ficar em apuros. Ele vai dizer que estou a levar-te a fazer coisas que
não devias fazer. Ele está sempre a dizer isso . Por isso agora não te
ponhas a falar disso como passas a vida a fazer . . . Bom, é segredo . Não
o reveles."
Miranda nunca o revelou , nem alguma vez teve vontade de contar a
quem quer que fosse . Pensou em toda a questão preocupante com uma
infelicidade confusa durante alguns dias . Depois o episódio foi-se
afundando na sua mente, coberto por milhares de impressões acumu­
ladas ao longo de quase vinte anos . Certo dia, ela estava a avançar com
cuidado para não pisar poças e resíduos esmagados na rua de um mer­
cado numa cidade desconhecida de um país desconhecido quando ,
sem aviso , nítido e claro com todas as cores , como se visse através de
uma moldura uma cena em que não tivesse mexido nem feito altera­
ções desde o momento em que acontecera, o episódio desse dia longín­
quo saltou de onde fora sepultado para se colocar em lugar de destaque
na sua mente . Ela ficou tão irracionalmente horrorizada que estacou de
súbito , de olhar fixo , com a cena diante dos seus olhos a ser suprimida
pela visão de outrora. Um vendedor índio tinha erguido à sua frente
uma bandeja de doces açucarados tingidos , em formas de inúmeras
criaturas pequenas: passarinhos , pintainhos , láparos , cordeiros , bacori­
nhos . Eram de cores alegres e cheiravam a baunilha, talvez . . . Era um
dia muito quente e o cheiro do mercado , com os seus montes de carne
A Torre Inclinada e Outros Contos 225

crua e flores a murchar, assemelhava-se à doçura e impureza mescla­


das que ela cheirara naquele outro dia, no cemitério vazio da casa: o
dia que até então recordara sempre vagamente como a altura em que
ela e o irmão haviam encontrado tesouros nas sepulturas abertas . De
imediato, perante esta ideia, a visão pavorosa recuou e ela viu clara­
mente o irmão, cujo rosto de infância havia esquecido , de novo sob o
sol abrasador, de novo com doze anos , um sorriso sóbrio e satisfeito
nos olhos , a girar vezes sem conta a pomba prateada nas mãos .
O Caminho Descendente
para a Sabedoria

No quarto quadrado com a janela grande , a Mamã e o Papá estavam


recostados nas suas almofadas , passando um ao outro coisas do tabu­
leiro preto e largo pousado na mesa pequena de pernas cruzadas . Esta­
vam a sorrir e sorriram ainda mais quando o rapazinho , ainda com ar
de sono na pele e no cabelo , entrou e caminhou até à cama. Encostando­
-se, com os dedos dos pés descalços a contorcerem-se no tapete de
pêlo branco , continuou a comer amendoins , que ia tirando do bolso do
pijama. Tinha quatro anos .
"Cá está o meu bebé" , disse a Mamã. "Pega-lhe , sim?"
Ele fez-se lasso como um trapo para que o Papá o segurasse por
baixo dos braços e o baloiçasse por cima de um peito largo e rijo.
Afundou-se entre os pais como uma cria de urso numa ninhada quente ,
e ali ficou confortavelmente . Pôs outro amendoim entre os dentes , ra­
chou a casca, tirou o fruto inteiro e comeu-o .
"Outra vez a correr sem as pantufas" , disse a Mamã. "Tem os pés
gelados ."
"Parece um cavalo a mastigar" , disse o Papá. "Comer amendoins
antes do pequeno-almoço vai dar-lhe cabo do estômago . Onde é que
os arranjou?"
"Tu compraste-lhos ontem" , respondeu a Mamã, com uma memória
exacta, "num horrível saquinho de celofane . Já te pedi dezenas de ve­
zes que não lhe tragas coisas para comer. Tira-o daqui , sim? Está a
deixar cair as cascas todas em cima de mim."
Quase de imediato, o rapazinho deu por si de novo no chão. Passou
para o lado que a Mamã ocupava na cama, inclinou-se para ela como
quem se prepara para fazer uma confidência e começou outro amendoim .
Enquanto mastigava, fitava-lhe o s olhos com uma expressão solene.
A Torre Inclinada e Outros Contos 227

"É um sujeito de ar esperto , não é?" , perguntou o Papá, esticando as


pernas compridas e agarrando no roupão . "Calculo que vás dizer que
é por minha culpa que seja estúpido como um boi ."
"É o meu bebezinho , o meu único bebé" , disse a Mamã com ternura,
abraçando-o , "e é um cameirinho querido ." O pescoço e os ombros
dele pareciam praticamente sem ossos no abraço firme dela. Ele parou
de mastigar durante o tempo suficiente para receber um beijo no quei­
xo cheio de migalhas . "É doce como um trevo" , disse a Mamã. O bebé
continuou a mastigar.
"Vê só esse olhar fixo, parece uma coruja" , disse o Papá.
A Mamã afirmou: "É um anjo e eu nunca me hei-de habituar a tê-lo."
"Estaríamos melhor se nunca o tivéssemos tido" , replicou o Papá.
Estava a andar pelo quarto e tinha as costas voltadas quando o disse.
Fez-se silêncio por um momento . O rapazinho parou de comer e fitou
profundamente a sua Mamã. Esta estava a olhar para a nuca do Papá e
tinha os olhos quase pretos . "Vais acabar por dizer isso mais vezes do
que devias" , avisou-o ela em voz baixa. "Detesto ouvir-te a dizer isso."
O Papá ripostou: "Estraga-lo com mimos. Nunca o repreendes por
nada. E não tomas conta dele . Deixa-lo correr pela casa a comer amen­
doins antes do pequeno-almoço ."
"Foste tu que lhe deste os amendoins , não te esqueças" , disse a Ma­
mã. Sentou-se e tomou a abraçar o seu único bebé . Este encostou o
nariz ao de leve na curva do braço dela. "Vai andando" , disse ela, com
os braços a afastarem-se dele . "Vai tomar o pequeno-almoço."
O rapazinho teve de passar pelo pai a caminho da porta. Encolheu­
-se ao ver a grande mão erguida acima de si . "Sim, sai e fica lá fora" ,
disse o Papá, dando-lhe um pequeno empurrão na direcção da porta.
Não foi um empurrão forte , mas magoou o rapazinho , que se esgueirou
e trotou pelo corredor, tentando não olhar para trás . Receava que algo
o perseguisse , embora não conseguisse imaginar o quê . Doía-lhe o
corpo todo , embora não soubesse porquê .
Não queria tomar o pequeno-almoço; não ia tomá-lo . Sentou-se e
mexeu-o na tigela amarela, deixando-o escorrer da colher e pingar
para a mesa, à sua frente , na cadeira. Gostava de o ver a espalhar-se .
Era uma coisa odiosa, mas parecia engraçada, a correr em carreirinhos
brancos pelo seu pijama.
"Vê só o que estás a fazer, menino sujo" , disse Marjory. "Um meni­
no tão crescido todo sujo ."
O rapazinho abriu a boca para falar pela primeira vez . "Tu também
és suja" , disse ele .
228 Katherine Anne Porter

"É isso mesmo" , disse Marjory, debruçando-se sobre ele e falando


baixo para que a sua voz não se ouvisse . "É isso mesmo , tal como o
teu papá. Mau" , sussurrou, "mau ."
Com as duas mãos , o rapazinho pegou na tigela amarela cheia de
natas e aveia e açúcar e fê-la bater com estrondo na mesa. Partiu-se e
enquanto parte ficou em bocados na mesa, outra parte escorreu e
espalhou-se por cima de tudo . Ele sentiu-se melhor.
"Estás a ver?" , disse M!)fjory, a puxá-lo da cadeira e a esfregá-lo com
um guardanapo. Esfregou-o com a brutidão de que era capaz até que ele
gritou . "Era mesmo disto que eu estava a falar. Era mesmo disto." Por
entre as lágrimas , ele viu o rosto dela terrivelmente perto, vermelho e
contraído debaixo de uma fita branca rígida, parecendo o rosto de al­
guém que surgia à noite, se impunha por cima dele e lhe ralhava quando
ele não conseguia mexer-se ou fugir. "Tal como o teu papá, mau . "
O rapazinho saiu para o jardim e sentou-se num banco verde , a aba­
nar as pernas . Estava limpo . Tinha o cabelo molhado e o pulôver de lã
azul fazia-lhe comichão no nariz. Sentia a cara retesada por causa do
sabonete . Viu Marjory a passar por uma janela com um tabuleiro preto .
As cortinas ainda estavam fechadas na janela que ele sabia que dava
para o quarto da Mamã. O quarto do Papá. Quartodamamãedopapá, a
palavra era agradável , fazia um som murmurado e estalava entre os
seus lábios; correu-lhe pela mente enquanto os seus olhos procuravam
algo que fazer, algo com que brincar.
As vozes damamãedopapá continuavam a chamar-lhe a atenção . A
Mamã estava outra vez a zangar-se com o Papá. Ele percebia pelo som.
Era isso que Marjory dizia sempre quando as vozes deles se elevavam,
apagavam e disparavam até determinada altura, para em seguida caí­
rem e rebolarem como dois cães vadios a lutar à noite . O Papá também
estava zangado, muito mais do que a Mamã, desta vez. Sentiu-se frio
e perturbado e ficou muito quieto, com vontade de ir à casa de banho,
mas como esta ficava mesmo ao lado do quartodamamãedopapá, não
se atrevia sequer a pensar nisso . À medida que as vozes aumentavam,
ele já praticamente não as ouvia, de tanto que queria ir à casa de banho.
Subitamente , a porta da cozinha abriu-se e Marjory correu para o j ar­
dim, fazendo o sinal com a mão que indicava que ele deveria ir ter com
ela. Ele não se mexeu . Ela aproximou-se dele , ainda com o rosto ver­
melho e contraído , mas não estava zangada; estava só assustada, como
ele . "Anda, querido, temos de ir para casa da tua avó outra vez." Ela
deu-lhe a mão e puxou-o . "Anda, depressa, a tua avó está à tua espera."
Ele deslizou do banco . A voz da mãe ergueu-se num grito terrível ,
A Torre Inclinada e Outros Contos 229

gritando algo que ele não compreendia, mas estava furiosa; ele tinha-a
visto cerrar os punhos e bater com o pé no cão , a gritar de olhos fecha­
dos; sabia o aspecto que ela tinha. Ela estava a gritar num ataque de
fúria, tal como ele se lembrava de ter ouvido . Estacou , dobrou-se sobre
si mesmo e todo o seu corpo pareceu dissolver-se , doentiamente , a
partir da boca do estômago .
"Oh, meu Deus" , exclamou Marjory. "Oh, meu Deus . Olha só para
ti . Oh, meu Deus . Não posso perder tempo a lavar-te ."
Ele não sabia como tinha chegado a casa da avó , mas por fim lá
estava, molhado e sujo, a ser tratado com repugnância na grande ba­
nheira. A avó estava ali , nas suas saias pretas e compridas , a dizer:
"Talvez ele esteja doente; talvez seja melhor chamarmos o médico ."
"Não me parece , minha senhora" , disse Marjory. "Ele não comeu
nada; está só assustado ."
O rapazinho não conseguia levantar os olhos , tanto peso tinha a sua
vergonha. "Leve este recado à mãe dele" , disse a Avó .
Ela sentou-se num cadeirão largo e passou as mãos pela cabeça
dele , penteando-lhe o cabelo com os dedos; ergueu-lhe o queixo e
beijou-o . "Pobre criança" , disse ela. "Não te preocupes . Passas sempre
um bom bocado em casa da avó , não passas? Vai ser uma visita bem
agradável , tal como da última vez ."
O rapazinho encostou-se às roupas rígidas , de cheiro seco, e sentiu­
-se horrivelmente triste por causa de qualquer coisa. Começou a cho­
ramingar e disse: "Tenho fome . Quero comer qualquer coisa." Isso
fê-lo lembrar-se . Começou a gritar em plenos pulmões; atirou-se para
o tapete e esfregou o nariz num bouquet de rosas de lã empoeirada.
"Quero os meus amendoins" , bradou . "Alguém me tirou os amen­
doins ."
A avó ajoelhou-se ao lado dele e apertou-o com tanta força que ele
mal conseguia mexer-se . Numa voz calma, sobrepondo-se aos gritos
do neto, disse à Velha Janet pela porta: "Traz-me pão com manteiga e
compota de morango ."
"Eu quero amendoins ! " , berrou o rapazinho, desesperado .
"Não, não queres , querido" , disse-lhe a avó . "Não queres uns amen­
doins horríveis que vão fazer-te mal à barriga. Vais comer um pouco
do pão da avó, acabado de fazer, com morangos dos bons . É isso que
vais comer." Depois disso , ele sentou-se muito serenamente e comeu
e comeu . A avó ficou sentada ao pé dele e a Velha Janet manteve-se
por perto , junto a um tabuleiro com um pão e uma taça de vidro com
compota, pousado na mesa à janela. Lá fora havia uma treliça com
230 Katherine Anne Porter

flores vermelhas em forma de tubo que a cobriam por completo , e


abelhas castanhas a zumbir.
"Nem sei o que fazer" , disse a Avó , "é muito . . . "
"Sim, senhora" , disse a Velha Janet, "com certeza que é . . . "
A Avó disse: "Não vejo como isto possa acabar. É um terrível . . . "
"Não há dúvida de que é mau" , disse a Velha Janet, "toda esta zara-
gata a toda a hora e ele tão bebé ."
As vozes delas iam fluindo , tranquilizadoras . O rapazinho comeu
e esqueceu-se de ouvir. Não conhecia as mulheres , excepto de nome .
Não compreendia de que falavam; as mãos , as roupas e as vozes
delas eram secas e longínquas ; examinavam-no com olhos franzidos
e sem qualquer expressão que ele conseguisse detectar. Ficou ali
sentado , à espera do que quer que ·elas fossem fazer consigo em se­
guida. Esperava que o deixassem sair e brincar no quintal . A divisão
estava cheia de flores , cortinas vermelho-escuras e grandes cadeirões
suaves , e as janelas estavam abertas , mas continuava a estar escuro
naquele lugar; era escuro e era um sítio que ele não conhecia, e em
que não confiava.
"Agora bebe o leite" , disse a Velha Janet, a estender-lhe uma caneca
prateada.
"Eu não quero leite" , disse ele , virando a cabeça.
"Muito bem, Janet, ele não tem de o beber" , apressou-se a Avó a
dizer. "Vai lá brincar para o jardim, querido . Janet, traz-lhe o arco ."
Havia um homem grande e estranho que chegava a casa ao final do
dia e tratava o rapazinho de forma muito confusa. "Diz 'por favor ' e
' obrigado ' , jovem" , rugia ele, assustadoramente, quando dava o mais
pequeno objecto ao rapazinho . "Bom, amigo, estás pronto para lutar?" ,
perguntava, de novo , cerrando os punhos enormes e peludos para lhe
dar uns toques . "Anda lá, tens de aprender a praticar boxe ." Ao fim das
primeiras vezes , aquilo tomara-se divertido .
"Não o ensines a ser bruto" , dizia a Avó . "Haverá tempo de sobra
para isso tudo ."
"Então , mãe, não queremos que ele seja um medricas" , dizia o ho­
mem grande . "Tem de enrijecer cedo . Anda lá, amigo , levanta as lu­
vas ." O rapazinho gostava daquela nova palavra para mãos . Aprendeu
a atirar-se ao homem grande e estranho , cujo nome era Tio David, a
bater-lhe no peito com toda a força que tinha; o homem grande ria-se
e devolvia-lhe os golpes com os seus punhos enormes e frouxos . À s
vezes, embora não fosse frequente, o Tio David chegava a casa a meio
do dia. O rapazinho sentia-lhe a falta nos outros dias e ficava junto ao
A Torre Inclinada e Outros Contos 23 1

portão a mirar a rua, tentando vê-lo . Certa noite , ele trouxe um grande
embrulho quadrado debaixo do braço .
"Anda cá, amigo, vem ver o que tenho aqui" , disse-lhe, arrancando
grandes pedaços de papel verde e de cordel da caixa que estava cheia de
cores lisas e dobradas. Pôs qualquer coisa na mão do rapazinho . Era
mole e sedosa e de um verde luzidio, com um tubo na ponta. "Obriga­
do" , disse o rapazinho com educação, mas sem saber o que fazer aquilo.
"Balões" , exclamou o Tio David, num tom de triunfo . "Agora põe
aqui a boca e sopra com força." O rapazinho soprou com força e a
coisa verde começou a crescer, a ficar redonda e fina e prateada.
"Faz-te bem ao peito" , disse o Tio David . "Sopra mais ." O rapazi­
nho continuou a soprar e o balão foi enchendo gradualmente .
"Pára", disse o Tio David, "já chega." Torceu o tubo para conter o
ar. "É assim" , disse-lhe . "Agora eu encho um , tu enches outro , e vamos
ver quem consegue encher um balão grande mais depressa."
Sopraram e sopraram, sobretudo o Tio David, que bafejava e ofega­
va e soprava com todas as forças , mas o rapazinho ganhou . O seu balão
ficou perfeitamente redondo antes que o Tio David pudesse sequer
começar. O rapazinho sentiu-se tão orgulhoso que desatou a dançar e
a gritar: "Eu ganho , eu ganho" , e tomou a soprar no balão . Este reben­
tou-lhe na cara e assustou-o tanto que até o deixou maldisposto . "Ah ,
ah , oh, oh , oh" , riu o Tio David . "Mas que rapaz . Aposto que não
consigo fazer isso . Vamos lá a ver." Soprou até a bolha linda crescer,
estremecer e rebentar, ficando apenas com um trapo pequeno e colori­
do na mão . Era um belo jogo . Continuaram até a Avó ter entrado e
dito: "Agora está na hora do jantar. Não , não podem encher balões à
mesa. Talvez amanhã." E assim acabara a brincadeira.

No dia seguinte , em vez de lhe darem balões, tiraram-no da cama


cedo , deram-lhe banho com água morna cheia de sabão e um grande
pequeno-almoço de ovos escalfados com torradas e compota e leite . A
avó foi dar-lhe um beijo para que tivesse uma boa manhã. "E espero
que sejas um menino bem-comportado e obedeças à professora" ,
disse-lhe .
"O que é professora?" , perguntou o rapazinho .
"A professora está na escola" , respondeu a Avó . "Vai contar-te mui­
tas coisas e tu tens de fazer o que ela disser."
A Mamã e o Papá tinham falado muito · acerca da Escola, e de terem
de o mandar para lá. Tinham-lhe dito que era um belo lugar, cheio de
232 Katherine Anne Porter

brinquedos e de outras crianças com quem brincar. Ele achava que


sabia o que era a Escola. "Não sabia que estava na altura, Avó" , disse
ele . "É hoje?"
"É já agora" , respondeu a Avó . "Disse-te há uma semana."
A Velha Janet apareceu , com a touca na cabeça. Era um monho de
ar espinhoso preso com um elástico preto por baixo do seu cabelo
preto . "Anda" , disse ela. "Hoje tenho muito que fazer." Ela usava um
gato morto à volta do pescoço, com as orelhas pontiagudas dobradas
debaixo do seu queixo flácido.
O rapazinho estava excitado e queria ir à frente a correr. "Dá-me a
mão conforme eu te disse" , lembrou-o a Velha Janet. "Não fujas assim
que ainda te matas ."
"Ainda me mato , ainda me mato" , cantarolou o rapazinho, criando
uma música só sua.
"Não digas isso que me faz impressão" , ralhou a Velha Janet. "Dá
cá a mão agora." Debruçou-se e olhou para ele , não para a cara mas
para qualquer coisa nas roupas dele . Os olhos dele seguiram os dela.
"Palavra de honra" , disse a Velha Janet, "esqueci-me mesmo . Ia
coser isso . Já devia saber. Eu disse à tua avó que a partir de agora ia
ser assim ."
"O que foi?" , perguntou o rapazinho .
"Olha só para ti" , replicou a Velha Janet, num tom zangado. Ele olhou
para si mesmo . Havia uma pontinha de si a espreitar pela fenda das suas
calças curtas de flanela azul. As calças chegavam-lhe a meio das pernas ,
por cima dos joelhos , e as meias chegavam-lhe a meio das pernas , por
baixo dos joelhos , e durante todo o Inverno ele tinha os joelhos frios.
Lembrou-se então de como ficavam frios os seus joelhos no tempo frio.
E de que às vezes tinha de meter para dentro aquela parte de si que saía
pela fenda, porque também tinha frio ali . Viu logo o que se passava, e
tentou compor-se, mas as luvas interpunham-se. "Pára com isso, menino
mau" , disse Janet, que , com um polegar firme, resolveu a situação, ao
mesmo tempo que passava a mão por baixo do cinto dele para lhe puxar
e dobrar a camisola interior a tapar-lhe a frente.
"Já está" , disse ela, "tenta não te desgraçar hoje." Ele sentiu-se culpa­
do e todo corado, porque tinha uma coisa que se via quando estava
vestido e que não deveria aparecer nessa altura. As várias mulheres que
lhe davam banho envolviam-no sempre muito depressa em toalhas e
apressavam-se a vesti-lo, pois viam qualquer coisa em si que ele não era
capaz de ver por si mesmo . Apressavam-no para que ele nunca tivesse a
oportunidade de ver o que quer que fosse que elas viam e, apesar de ele
A Torre Inclinada e Outros Contos 233

olhar para si mesmo quando não tinha roupas , nunca descobria qual era
o problema que tinha. Por fora, vestido, sabia que era igual a toda a
gente, mas dentro das suas roupas havia alguma coisa má, o problema
que ele tinha. Isso preocupava-o, confundia-o, e ele ficava a pensar nis­
so. As únicas pessoas que pareciam nunca dar contar de que havia algo
de errado nele era a Mamãeopapá. Nunca lhe chamavam menino mau e,
durante todo o Verão, tinham-lhe despido as roupas todas e deixado que
corresse na areia ao lado de um grande oceano .
"Olha só para ele , não é adorável" , comentava a Mamã e o Papá
olhava e dizia: "Tem costas de pugilista." O Tio David era um pugilis­
ta quando dobrava as luvas e dizia: "Anda lá, amigo ."
A Velha Janet segurou-o com firmeza e deu passos largos sob as
suas grandes saias que se arrastavam pelo chão . Ele não gostava do
cheiro da Velha Janet. Provocava-lhe um pequeno tremor no estôma­
go; era igualzinho ao de penas de galinha molhadas .
A escola era fácil . A professora era uma mulher de corpo quadrado,
com cabelo curto e quadrado e saia curta. Às vezes punha-se no cami­
nho , mas não muitas . As pessoas à sua volta eram do seu tamanho; não
tinha de estar sempre a esticar o pescoço para ver rostos debruçados por
cima de si , e podia sentar-se nas cadeiras sem ter de as trepar. Todas as
crianças tinham nomes , como Frances e Evelyn e Agatha e Edward e
Martin, e o seu nome era Stephen. Não era o "Bebé" da Mamã, nem o
"Homenzinho" do Papá; não era o "Amigo" do Tio David, o "Querido"
da Avó , nem sequer o "Menino Mau" da Velha Janet. Era o Stephen . Ia
aprender a ler e a cantar uma música com umas letras ou sinalefas es­
tranhas escritas a giz num quadro preto . Falava-se com um tipo de letra
e cantava-se com outra. Todas as crianças falavam e cantavam à vez, e
depois todas juntas . Stephen achava que era um belo jogo . Sentia-se
desperto e feliz. Tinham plasticina e papel , arames e quadrados de cores
em caixas de lata com que brincar, blocos coloridos para construir ca­
sas . Depois disso todos dançavam numa grande arena, e em seguida
dançavam aos pares , meninos com meninas . Stephen dançou com Fran­
ces , que lhe ia dizendo: "Agora, basta seguires-me." Ela era um boca­
dinho mais alta do que ele, e tinha o cabelo espetado em caracóis pe­
quenos e brilhantes , da cor de um cinzeiro na secretária do Papá. Ela
dizia: "Não sabes dançar." "Sei , sim" , dizia Stephen, aos saltos e a
dar-lhe as mãos . "Eu também sei dançar." Ele tinha a certeza. "Tu é que
não sabes dançar" , replicou, "não sabes mesmo."
Depois tiveram de mudar de par e, quando voltaram a juntar-se , Fran­
ces disse: "Eu não gosto da maneira como tu danças ." Isso era diferente.
234 Katherine Anne Porter

Ele sentiu-se desconfortável . Já não saltou tão alto quando a gravação do


fonógrafo recomeçou a fazer dumdiddy dumdiddy. "Continua, Stephen,
estás a ir muito bem" , disse a Professora, a agitar as mãos muito depres­
sa. A dança acabou e todos brincaram a "descontrair" durante cinco mi­
nutos . Descontraíam abanando os braços para trás e para a frente e depois
girando a cabeça. Quando a Velha Janet foi buscá-lo, ele não queria ir
para casa. Ao almoço, a avó disse-lhe duas vezes que tirasse a cabeça do
prato. "É isso que te ensinam na escola?" , perguntou-lhe. O Tio David
estava em casa. "Toma lá, amigo" , disse-lhe, e deu-lhe dois balões .
"Obrigado" , agradeceu Stephen. Guardou os balões no bolso e esqueceu­
-se deles . "Eu disse-lhe que o rapaz era capaz de aprender alguma coisa",
disse o Tio David à Avó . "Ouviu-o a dizer 'obrigado' ?"
À tarde, na escola, a Professora deu-lhes grande montes de plasticina
e disse-lhes que fizessem qualquer coisa. O que quisessem. Stephen de­
cidiu fazer um gato, como a Meeow da Mamã lá em casa. Ele não gosta­
va da Meeow, mas julgava que seria fácil fazer um gato . No entanto, não
conseguia que a plasticina funcionasse de modo nenhum. Estava sempre
a transformar-se num monte sem forma. Por isso, parou, limpou as mãos
ao pulôver, lembrou-se dos balões e começou a encher um deles .
"Vejam só o cavalo do Stephen" , disse Frances . "Vejam ! "
"Não é um cavalo , é um gato" , disse Stephen . A s outras crianças
juntaram-se à volta deles . "Parece-se com um cavalo , um bocadinho" ,
afirmou Martin .
"É um gato" , insistiu Stephen , a bater com o pé e a sentir a cara a
aquecer. Todos os outros se riram e exclamaram que o gato de Stephen
parecia um cavalo . A Professora aproximou-se deles . Regra geral , fi­
cava sentada ao fundo da sala, diante de uma grande secretária cheia
de papéis e coisas para brincar. Pegou no monte de plasticina de Ste­
phen , virou-o e examinou-o com os seus olhos delicados . "Bom, me­
ninos" , disse ela, "toda a gente tem o direito de fazer o que quer con­
forme lhe agrada. Se o Stephen diz que isto é um gato, é um gato . Se
calhar estavas a pensar num cavalo , Stephen?"
"É um gato" , teimou Stephen. Tudo lhe doía. Percebeu então que
deveria ter começado por dizer: "Sim, é um cavalo ." Assim eles tê-lo­
-iam deixado em paz . Nunca teriam ficado a saber que ele estava a
tentar fazer um gato . "É a Meeow" , disse numa voz tremida, "mas
esqueci-me de como ela é ."
O seu balão estava absolutamente vazio . Ele recomeçou a soprar
para o encher, esforçando-se por não chorar. Depois chegou a hora de
ir para casa e a Velha Janet apareceu à sua procura. Enquanto a Profes-
A Torre Inclinada e Outros Contos 235

sora estava a falar com outros crescidos que tinham ido buscar outras
crianças , Frances disse: "Dá-me o teu balão; eu não tenho um balão ."
Stephen deu-lho . Era de bom grado que lho dava. Levou a mão ao
bolso e tirou de lá o outro . Contente , deu-lhe esse também. Frances
aceitou-o e depois devolveu-lho . "Agora tu enches um e eu encho o
outro , vamos fazer uma corrida" , disse ela. Quando os balões iam ape­
nas a meio , a Velha Janet agarrou em Stephen por um braço e disse­
-lhe: "Anda lá, que hoje tenho muito que fazer."
Frances correu atrás deles , a reclamar: "Stephen, devolve-me o meu
balão" , e arrancou-lho . Stephen não sabia se estava surpreendido por
dar por si a ir-se embora com o balão de Frances , ou se o que o sur­
preendia era que ela lho tirasse como se realmente lhe pertencesse .
Havia uma grande confusão na sua cabeça e a Velha Janet não parava
de o puxar. Uma coisa ele sabia: gostava de Frances , ia vê-la de novo
no dia seguinte , e ia levar-lhe mais balões .
À tardinha, Stephen praticou um pouco de boxe com o Tio David e
este deu-lhe uma bela laranja. "Come isso" , disse-lhe, "faz-te bem à
saúde."
"Tio David , posso ter mais alguns balões?" , perguntou Stephen .
"Bem , o que é que se diz primeiro?" , perguntou o Tio David, a levar
a mão à caixa na prateleira de cima.
"Por favor" , disse Stephen .
"É isso mesmo" , confirmou o Tio David. Tirou dois balões , um
vermelho e um amarelo . Pela primeira vez, Stephen reparou que ti­
nham letras , letras muito pequenas que iam ficando mais compridas e
mais largas à medida que o balão crescia. "Agora não há mais , amigo" ,
disse o Tio David . "Não peças mais, porque não há." Voltou a guardar
a caixa na prateleira, mas não sem que Stephen tivesse visto que esta­
va quase cheia de balões . Não disse nada, mas continuou a encher o
balão, e o Tio David fez o mesmo . Stephen achava que aquele era o
melhor jogo que alguma vez lhe tinham ensinado .
Só lhe restava um, no dia seguinte, mas levou-o para a escola e
ofereceu-o a Frances . "Há montes" , disse ele , sentindo-se muito orgu­
lhoso e quente; "vou trazer-te uma data deles."
Frances soprou até ter uma bolha linda e disse: "Olha, quero mos­
trar-te uma coisa." Pegou num pau afiado que usavam para trabalhar a
plasticina; espetou-o no balão , que explodiu . "Vê só" , disse ela.
"Isso não é nada" , disse Stephen, "vou trazer-te mais alguns ."
Depois da escola, antes de o Tio David chegar a casa, enquanto a
Avó estava a descansar e quando a Velha Janet lhe dera uma caneca de
236 Katherine Anne Porter

leite e lhe dissera que saísse dali e não a incomodasse , Stephen arras­
tou uma cadeira até à estante, pôs-se em cima dela e chegou à caixa.
Não tirou três ou quatro , como julgava ser a sua intenção; depois de
ter as mãos nos balões , arrepanhou todos os que conseguiu e saltou da
cadeira, encostando-os ao peito . Enfiou-os no bolso do casacão , onde
se dobraram e mal faziam volume .
Deu-os todos a Frances . Eram tantos que Frances deu a maioria aos
outros meninos . Stephen, extasiado com a sua nova alegria, o prazer
generoso de dar presentes , encontrou quase de imediato outra felicida­
de ainda. De súbito , era popular entre as crianças; faziam-lhe convites
especiais para que se juntasse a quaisquer brincadeiras a que fossem
dedicar-se; aceitavam de imediato as suas próprias ideias para brincar
e perguntavam-lhe o que queria fazer a seguir. Tiveram festivais de
encher os lindos globos , cada vez maiores e mais redondos e mais fi­
nos , mudando de uma cor forte para tons mais claros e pálidos , finos
como vidro , finos como bolhas , e por fim a rebentarem com U:m es­
trondo emocionante que fazia lembrar uma pistola de brincar.
Pela primeira vez na vida, Stephen teve quase demasiado de algo
que queria e isso deu-lhe de tal maneira a volta à cabeça que se esque­
ceu de como tinha alcançado essa satisfação e deixou de pensar nisso
como sendo segredo . O dia seguinte foi sábado e Frances visitou-o
com a ama. A ama e a Velha Janet sentaram-se no quarto da Velha
Janet a beber café e a trocar mexericos , e as crianças sentaram-se no
alpendre lateral , a encher balões . Stephen escolheu um cor de maçã,
Frances um verde-claro . No meio deles , por cima do banco , estava um
monte de deleites ainda por concretizar.
"Uma vez tive um balão prateado" , contou-lhe Frances , "um balão
prateado liiiindo, não era redondo como estes; era comprido . Mas estes
ainda são melhores , eu acho" , apressou-se a acrescentar, pois queria
ser educada.
"Quando acabares esse" , disse Stephen , a observá-la com a felicida­
de pura da dádiva somada ao amor, "podes encher um azul e depois
um cor-de-rosa e um amarelo e um roxo ." Empurrou o monte de ob­
jectos moles na direcção dela. Os olhos claros dela, com pequenas
riscas castanhas como os raios de uma roda, estavam carregados de
aprovação por Stephen . "Mas eu não ia querer ser gananciosa e
rebentar-te os balões todos ."
"Ainda há muitos mais" , disse Stephen, e o coração subiu-lhe por
baixo das costelas finas . Sentiu as costelas com os dedos e descobriu ,
com uma certa surpresa, que paravam algures à frente , enquanto Fran-
A Torre Inclinada e Outros Contos 237

ces ia enchendo balões já sem grande ânimo . A verdade era que estava
farta de balões . Depois de se encher seis ou sete , fica-se com o peito
vazio e os lábios parecem ressequidos . Ela já estava a encher balões a
bom ritmo havia três dias . Tinha começado a desejar que estivessem a
acabar. "Há caixas e mais caixas de balões , Frances", disse Stephen,
muito contente . "Milhões . Acho que durariam para sempre , se não
rebentássemos demasiados todos os dias ."
Com alguma timidez, Frances disse: "Sabes que mais? Vamos descan­
sar um bocadinho e arranjar uma água de alcaçuz. Gostas de alcaçuz?"
"Gosto , sim" , respondeu Stephen , "mas não tenho ."
"E não podíamos comprar?" , perguntou Frances . "O chupa-chupa
só custa um cêntimo, daqueles bons que parecem de borracha, todos
torcidos . Podemos pô-lo numa garrafa com água, e abaná-la e abaná­
-la, e faz espuma em cima como se fosse um refrigerante e podemos
beber. Tenho um bocado de sede" , disse ela, numa voz aguda e fraca.
"Passar o tempo todo a encher balões faz sede , acho eu ."
Stephen , em silêncio , apercebeu-se de uma verdade pavorosa, ao
que uma sensação de entorpecimento se apoderou de si . Não tinha um
cêntimo para comprar alcaçuz a Frances e ela estava farta dos seus
balões . Era o primeiro verdadeiro abalo de toda a sua vida, que o fez
envelhecer pelo menos um ano no minuto seguinte , encolhido , com os
olhos profundos e sérios voltados para baixo e concentrados numa
intensa especulação . O que poderia ele fazer para agradar a Frances
que não custasse dinheiro? Ainda no dia anterior o Tio David lhe dera
uma moeda de cinco cêntimos e ele desperdiçara-a em rebuçados .
Lamentou tão amargamente o destino daquela moeda que ficou com o
pescoço e a testa húmidos . Também tinha sede .
"Ouve só" , disse ele , animando-se com uma ideia esplêndida, mas
hesitando ao pensar melhor, "já sei uma coisa que podemos fazer, eu
vou . . . eu . . . "
"Eu tenho sede" , disse Frances , com uma persistência delicada.
"Acho que tenho tanta sede que talvez tenha de ir para casa." Contudo ,
não deixou o banco, continuando sentada, com a sua boca sofrida vol­
tada para Stephen .
Este estremeceu com os terrores da aventura que se perfilava diante
de si , mas afirmou corajosamente: "Vou fazer limonada. Vou arranjar
açúcar e limão e algum gelo e vamos beber limonada."
"Oh, eu adoro limonada" , exclamou Frances . "Preferia beber limo­
nada em vez de água de alcaçuz."
"Não te mexas" , disse Stephen , "que eu vou tratar de tudo ."
238 Katherine Anne Porter

Correu à volta da casa e , por baixo da janela da Velha Janet, ouviu


as vozes secas das duas velhotas a tagarelar, que ele teria de enganar.
Esgueirou-se em bicos de pés até à despensa, agarrou num limão que
ali estava sozinho , numa mão-cheia de açúcar branco e num bule de
porcelana, suave , redondo , com flores e folhas em toda a superfície.
Deixou tudo isso na mesa da cozinha, enquanto. quebrava um pedaço
de gelo com um picador afiado de metal em que tinha sido proibido de
tocar. Pôs o gelo no bule , cortou o limão e espremeu-o o mais que
pôde - um limão era uma coisa mais dura e mais escorregadia do que
ele julgava - e misturou açúcar e água. Concluiu que não tinha açúcar
suficiente, pelo que voltou e tirou mais uma mão-cheia. Voltou ao al­
pendre num intervalo de tempo espantosamente curto , com o rosto
contraído , os joelhos a tremer, levando nas mãos devotas limonada
gelada à sequiosa Frances .
A escassa distância dela, estacou, literalmente trespassado por um
pensamento . Ali estava ele , em plena luz do dia, a levar um bule de chá
com limonada, quando a qualquer momento a sua avó ou a Velha Janet
poderiam passar pela porta.
"Anda, Frances" , sussurrou bem alto . "Vamos dar a volta até às
traseiras , atrás das roseiras , onde há sombra." Frances levantou-se de
um pulo e correu como um veado a seu lado , com o rosto carregado de
sabedoria, ciente do motivo por que corriam; Stephen corria rigida­
mente , cuidando do bule entre as mãos cerradas .
Havia sombra atrás das roseiras , e era muito mais seguro . Sentaram­
-se lado a lado no chão algo húmido , com as pernas dobradas sob si
mesmos, a beber à vez do bico do bule . Stephen tomava a parte que lhe
cabia em golos grandes , frescos , deliciosos. Quando Frances bebia,
encostava a boca cor-de-rosa e redonda elegantemente à volta do bico
e a sua garganta palpitava regularmente como um coração . Stephen
estava a pensar que tinha feito algo realmente bom por Frances . Não
sabia onde se encontrava a sua própria felicidade; misturava-se com o
sabor agridoce da sua boca e uma sensação de frescura no peito , por
Frances estar ali a beber a limonada que ele lhe conseguira com tanto
perigo .
Frances comentou: "Bem, que grandes goladas dás" , quando chegou
a vez seguinte dele .
"Não são maiores do que as tuas" , respondeu ele de imediato. "Tu
dás goladas mesmo enormes ."
"Bem" , replicou Frances , transformando a crítica num argumento
para a sua rigidez acerca das coisas , "seja como for, é assim que se
A Torre Inclinada e Outros Contos 239

deve beber limonada." Espreitou para o bule . Havia bastante limonada


e ela começava a sentir que já tinha bebido o suficiente . "Vamos fazer
um jogo e ver quem consegue dar os golos maiores."
Era uma ideia tão maravilhosa que ficaram descuidados , virando o
bico por cima da cabeça de boca aberta, até a limonada lhes escorrer
pelo queixo em carreiros pela parte da frente da roupa. Quando se
cansaram, ainda havia limonada no bule . Primeiro brincaram, dando
um pouco de beber à roseira, acabando por baptizá-la: "Nome pai filho
tiro-te o santo" , gritou Stephen , despejando o líquido . O som fez apa­
recer o rosto da Velha Janet por cima da sebe baixa, com o rosto mo­
reno e desagradado da ama de Frances por cima do ombro dela.
"Ora, era mesmo o que eu pensava" , disse a Velha Janet. "Tal como
esperava." O papo que tinha debaixo do queixo abanava.
"Tínhamos sede" , disse ele; "estávamos mesmo cheios de sede ."
Frances nada dizia, limitando-se a fitar continuamente as pontas dos
sapatos .
"Dá-me cá esse bule" , disse a Velha Janet, recuperando-o com um
puxão indelicado . "Lá porque tinham sede, isso não é razão'' , ralhou
ela. "Podem pedir as coisas . Não têm de roubar."
"Não roubámos" , gritou Frances de repente. "Não roubámos . Não
roubámos ! "
"Já chega, minha menina" , disse-lhe a ama. "Sai já daí. Não tens
nada que ver com isto ."
"Oh, eu cá não sei" , disse a Velha Janet, com um olhar duro voltado
para a ama de Frances. "Ele nunca tinha feito uma coisa destas , sozinho ."
"Vamos" , disse a ama a Frances , "isto não é sítio para ti ." Agarrou­
-a pelo pulso e começou a afastar-se tão depressa que Frances tinha de
correr para a acompanhar. "Ninguém pode chamar-nos ladras e ficar a
rir-se ."
"Não tens de roubar, mesmo que outros o façam" , disse a Velha
Janet a Stephen, numa voz aguda e bem audível . "Basta apanhares um
limão na casa de outra pessoa para seres um ladrãozinho ." Baixou a
voz então e disse-lhe: "Agora vou contar à tua avó e já vais ver o que
te acontece."
"Ele foi à caixa de gelo e deixou-a aberta" , disse Janet à Avó , "e
mexeu no açúcar branco e espalhou-o pelo chão . Há torrões por todo
o lado . Despejou água pelo chão da cozinha, que estava limpo , e bap­
tizou a roseira, a blasfemar. E levou o seu bule de loiça Spode ."
"Não levei nada" , disse Stephen bem alto , a tentar libertar a mão do
punho grande e forte da Velha Janet.
240 Katherine Anne Porter

"Não digas mentiras" , disse-lhe esta; "essa é a última gota."


"Oh , céus" , disse a Avó . "Já não é um bebé." Fechou o livro que
estava a ler e puxou-lhe a parte da frente do pulôver, que estava mo­
lhada. "O que é esta coisa peganhenta que ele tem?" , perguntou , a
endireitar os óculos .
"Limonada" , disse a Velha Janet. "Levou o úl�imo limão ."
Estavam na sala grande e escura com as cortinas vermelhas . O Tio
David entrou, vindo da sala que tinha as estantes , com uma caixa na
mão levantada. "Olha lá" , disse ele a Stephen, "o que é feito dos meus
balões?"
Stephen sabia bem que , na verdade, o Tio David não estava a fazer
uma pergunta.
Sentando num banco junto ao joelho da Avó , sentiu-se ensonado .
Inclinou-se pesadamente e desejou poder encostar a cabeça ao colo
dela, mas era capaz de adormecer, e seria mau adormecer enquanto o
Tio David continuava a falar. Este andava pela sala de mãos nos bol­
sos , a falar com a Avó . De vez em quando , aproximava-se de um can­
deeiro e, debruçando-se , espreitava por cima do quebra-luz, a pestane­
jar, como se esperasse encontrar alguma coisa ali .
"Está-lhe simplesmente no sangue , eu disse-lhe" , afirmou o Tio
David . "Eu disse-lhe que ela tinha simplesmente de vir buscá-lo e ficar
com ele . Ela perguntou-me se eu estava a dizer que ele era um ladrão
e eu disse-lhes que se conseguisse lembrar-se de uma palavra mais
exacta, eu teria todo o gosto em ouvi-la."
"Não devias ter dito isso" , comentou a Avó num tom calmo .
"Porque não? Mais vale que ela conheça os factos . . . Suponho que
ele não possa evitá-lo" , disse o Tio David , parando agora diante de
Stephen e deixando o queixo cair até ao colarinho , "não devia esperar
muito dele , mas nunca é demasiado cedo para se começar . . . "
"O problema" , interrompeu a Avó, e enquanto falava agarrava Ste­
phen pelo queixo e segurava-o para que ele tivesse de lhe corresponder
ao olhar; falava constantemente num tom triste , mas Stephen não com­
preendia. Concluiu: "Isto não é só por causa dos balões , é claro ."
"É por causa dos balões" , disse o Tio David, muito zangado , "por­
que balões agora implicam outra coisa pior mais tarde. Mas o que se
há-de esperar? O pai dele - bem, está-lhe no sangue. Ele . . . "
"É do marido da tua irmã que estás a falar" , disse a Avó , "e de nada
serve piorar as coisas . Para mais, não sabes mesmo ."
"Sei, sim" , replicou o Tio David. E recomeçou a falar muito depres­
sa, andando de um lado para o outro . Stephen ia tentando compreen-
A Torre Inclinada e Outros Contos 24 1

der, mas os sons eram estranhos e flutuavam por cima da sua cabeça.
Estavam a falar do pai dele , de quem não gostavam. O Tio David
aproximou-se e colocou-se diante de Stephen e da Avó . Curvou-se
sobre eles com uma expressão franzida, fazendo uma sombra compri­
da e torta estender-se dali até à parede. A Stephen , parecia o pai , pelo
que se encoll�eu contra as saias da Avó.
"A questão que se põe agora é: o que fazemos com ele?", perguntou o
Tio David. "Se o mantivermos aqui , ele vai ser só um . . . eu não vou que­
rer saber dele. Porque é que não tomam conta do próprio filho? Aquela
casa é de loucos. Isto já foi longe de mais . Sem educação. Sem exemplo."
"Tens razão , têm de o levar e ficar com ele" , disse a Avó . Passou as
mãos pela cabeça de Stephen; com ternura, beliscou-lhe a nuca entre
o polegar e o indicador. " É s o querido da tua Avó", disse-lhe, "e
fizeste-nos uma boa visita bem comprida, e agora vais p�a casa. Da­
qui a uns minutos, a Mamã vem buscar-te . Não vai ser bom?"
"Eu quero a minha Mamã" , disse Stephen , a choramingar, pois o
rosto da Avó assustava-o . Havia qualquer estranha no sorriso dela.
O Tio David sentou-se . "Anda cá, amigo" , disse ele , chamando-o
com um indicador. Stephen avançou lentamente , e o Tio David puxou­
-o para o meio dos seus joelhos grandes naquelas roupas largas e áspe­
ras . "Devias ter vergonha" , disse-lhe , "roubar os balões do Tio David,
que já te tinha dado tantos ."
"Não foi isso" , apressou-se a avó a dizer. "Não digas isso . Vai deixar
uma memória . . . "
"Espero que deixe" , replicou o Tio David numa voz mais alta; "es­
pero que ele se lembre durante toda a vida. Se fosse meu , dava-lhe uma
boa tareia."
Stephen sentiu a boca, o queixo, todo o rosto a agitar-se. Abriu a
boca para tomar ar, ao que lágrimas e barulho irromperam de si. "Pára
com isso , amigo, pára" , pediu o Tio David , a abaná-lo delicadamente
pelos ombros , mas Stephen não conseguia parar. Voltou a inspirar e o
ar saiu-lhe como um uivo . A Velha Janet apareceu à porta.
"Traz-me água fria" , ordenou a Avó . Houve um alvoroço , uma agi­
tação , uma brisa de ar fresco a provir do corredor, a porta bateu e
Stephen ouviu a voz da mãe . O seu uivo extinguiu-se, a sua respiração
soluçava e estremecia, ele virou os olhos toldados e viu-a ali . Com o
coração a girar dentro do peito , bramiu como um cordeiro: "Maaaa­
mã" , e correu ao seu encontro . O Tio David afastou-se enquanto a
Mamã se lançava e caía de joelhos ao lado de Stephen . Puxou-o para
si e levantou-se com o filho nos braços .
242 Katherine Anne Porter

"O que estão a fazer ao meu bebé?" , perguntou ao Tio David numa
voz embargada. "Nunca deveria tê-lo deixado vir para aqui . Já devia
saber . . . "
"Tu devias sempre saber" , interrompeu o Tio David, "e nunca sabes.
E nunca hás-de saber. Falta-te isto" , disse ele, a tocar com um dedo na
testa.
"David" , insurgiu-se a Avó , "é a tua . . . "
"Sim, eu sei , é a minha irmã" , completou o Tio David. "Eu sei . Mas
se tem de fugir e casar com um . . . "
"Cala-te" , avisou a Mamã.
"E de trazer mais como ele para este mundo , pois que os mantenha
em casa. Eu digo que os mantenha . . . "
A Mamã pousou Stephen no chão e , segurando-lhe a mão , disse à
Avó, cheia de pressa, como se estivesse a ler qualquer coisa: "Adeus ,
Mãe . Esta é a última vez, é mesmo a última. Já não aguento mais.
Despeça-se do Stephen; não voltará a vê-lo . Permitiu que isto aconte­
cesse . A culpa é sua. Sabe que o David sempre foi um cobarde , um
rufia e um pequeno monstro moralista, e nunca o contrariou no que
quer que fosse . Deixou-o maltratar-me durante toda a vida, aviltar o
meu marido e chamar ladrão ao meu bebé , e agora isto acaba aqui . . .
Chama ladrão ao meu bebé por causa de uns quantos balõezinhos hor­
ríveis só porque não gosta do meu marido . . . "
Ela estava a ofegar e a olhar ora para um ora para outro . Estavam
todos de pé . Então a Avó disse: "Vai para casa, filha. Vai-te embora,
David. Estou farta das vossas discussões . Nunca tive um dia de paz ou
de conforto com qualquer um de vocês . Estou farta dos dois . Agora
deixem-me sozinha e parem com este barulho . Vão-se embora" , disse
a Avó , numa voz trémula. Pegou no seu lenço e limpou primeiro um
olho , depois o outro , para em seguida dizer: "Todo este ódio , ódio -
para que serve? . . . Então é este o resultado . Bem, deixem-me em paz ."
"Tu e os teus balõezinhos publicitários" , disse a Mamã ao Tio Da­
vid . "O grande empresário honesto faz publicidade com balões e se
perder um ficará arruinado . E as tuas noções monstruosas de morali­
dade . . . "
A Avó foi ter com a Velha Janet à porta e esta deu-lhe um copo com
água. A Avó bebeu-o todo , ali de pé .
"O teu marido vem buscar-vos , ou vais sozinha?" , perguntou à Mamã.
"Vou eu a guiar" , disse a Mamã numa voz distante , como se a sua
mente tivesse divagado . "Já sabe que ele não poria um pé nesta casa."
"Acho bem que não" , comentou o Tio David .
A Torre Inclinada e Outros Contos 243

"Anda, Stephen querido" , disse a Mamã. "Já passa bastante da hora


de deitar" , disse ela, sem se dirigir a ninguém em particular. "Imagine­
-se só , obrigar um bebé a ficar acordado para o torturar por causa de
uns pedacitos miseráveis de borracha colorida." Sorriu ao Tio David
com as duas fileiras de dentes ao passar por ele a caminho da porta,
mantendo-se entre ele e Stephen . "Ah, onde estaríamos sem altos pa­
drões morais" , comentou , e depois , para a Avó, "Boa noite , Mãe" ,
praticamente na sua voz normal . "Vemo-nos daqui a um dia ou dois ."
"Sim, é certo" , respondeu a Avó num tom alegre, saindo para o cor­
redor com Stephen e a Mamã. "Dá-me notícias . Telefona-me amanhã.
Espero que te sintas melhor."
"Sinto-me muito bem agora" , respondeu a Mamã animadamente , a
rir. Baixou-se e deu um beijo a Stephen . "Tens sono , querido? O Papá
está à tua espera. Não adormeças sem dares um beijo de boas-noites
ao Papá."
Stephen despertou com um estremeção súbito. Levantou a cabeça e
espetou um pouco o queixo . "Não quero ir para casa" , disse; "quero ir
para a escola. Não quero ver o Papá, não gosto dele ."
A Mamã tapou-lhe a boca com a palma da mão , num gesto suave .
"Querido , não digas isso ."
O Tio David espreitou com uma espécie de ronco . "Pronto" , comen­
tou . "Já tens uma declaração do quartel-general ."
A Mamã abriu a porta e correu , quase a levar Stephen ao colo . Atra­
vessou o passeio a correr, abriu a porta do carro de supetão e arrastou
Stephen para que entrasse . Deu a volta ao carro e lançou-se para a
frente tão depressa que Stephen quase saltou do assento . Agarrou-se
com todas as forças , cravando as mãos nas almofadas . O carro acele­
rava e as árvores e casas passavam num borrão , completamente lisas .
De repente , Stephen começou a cantar para si mesmo , uma música
serena e interior que a Mamã não poderia ouvir. Cantou o seu novo
segredo; era uma canção confortável e sonolenta: "Detesto o Papá,
detesto a Mamã, detesto a Avó, detesto o Tio David , detesto a Velha
Janet, detesto a Marjory, detesto o Papá, detesto a Mamã . . . "
A sua cabeça ia baloiçando , descaiu , descansou no joelho da Mamã,
de olhos fechados. A Mamã puxou-o para si e abrandou , a conduzir
com uma mão.
Um Dia de Trabalho

O barulho surdo, como se houvesse um rato gigante na parede, sig­


nificava que o pequeno ascensor estava a subir, com a porteira lá em
baixo a içar o cabo . Mrs . Halloran fez uma pausa, bateu com o ferro na
tábua e disse: "Cá está. Atrasado. Podias ter calçado os sapatos, ido até
à esquina e trazido as coisas há uma hora. Eu não posso fazer tudo ."
Mr. Halloran levantou-se do cadeirão , apoiando-se nos braços e
pondo-se de pé lentamente , a olhar em volta como se esperasse encon­
trar muletas por perto . "Para além de que gastas as meias"; acrescentou
Mrs . Halloran . "Devias andar mesmo descalço ou usar os sapatos por
cima das meias , como Deus manda" , disse ela. "Pés com meias . De
que é que isso serve , gostava eu de saber ! Isso não é carne nem peixe ."
Desenrolou uma camisa de dormir de chiffon cor de salmão com
renda bege e grandes laços , sacudiu-a ao de leve no ar e espalhou-a na
tábua. "Valha-me Deus , veja-se só que coisa mais indecente" , excla­
mou . Bateu de novo com o ferro e fê-lo avançar e recuar sobre o teci­
do enrugado . "Podias simplesmente arrumar as coisas no armário" ,
disse ela, "e não as deixar espalhadas pelo chão . É que podias ."
Mr. Halloran tirou uma saca de batatas do ascensor e começou a
dirigir-se ao armário , ao lado da caixa de gelo . "Bem podias fazer um
monte" , disse Mrs . Halloran . "Não há necessidade de perder tempo
com meia dúzia de viagens para trás e para a frente . Acho que até o
homem mais fraco seria capaz de levar mais do que dois quilos de
batatas de uma vez . Mas se calhar não ."
A voz da esposa martelava-lhe nos ouvidos como madeira a embater
em madeira. "Mete-te na tua vida, sim?" , pediu ele , sem falar directa­
mente com ela. Continuou a discussão consigo mesmo . "Oh, não po­
deria fazer isso , Senhor Querido" , respondeu num falsete seco . "Nun­
ca me peças sequer tal coisa. Não estaria certo" , imitou , parado com
A Torre Inclinada e Outros Contos 245

os joelhos dobrados , a fitar amargamente por cima da saca de batatas


a mulher escanzelada de quem nunca gostara, aquela que estava a en­
gomar roupas com uma expressão rancorosa no rosto , como uma san­
ta sofredora. "Posso já não ser capaz de muito" , disse-lhe com a sua
voz normal , "mas ainda tenho juízo suficiente para tirar compras de
um ascensor de carga, desculpa lá."
"Que milagre" , replicou Mrs . Halloran . "Fico muito agradecida por
isso."
"Olha o telefone" , disse Mr. Halloran, sentando-se de novo no ca­
deirão e tirando o cachimbo do bolso da camisa.
"Eu também ouvi" , disse Mrs . Halloran , deslizando o ferro de engo­
mar para trás e para a frente , por cima do chiffon salmão .
"É para ti , eu já não tenho assuntos de que tratar neste mundo" ,
afirmou Mr. Halloran. Os seus pequenos olhos esverdeados brilhavam;
expôs os dois caninos afilados num sorriso .
"Podias atender. É capaz de ser engano outra vez ou para alguém lá
em baixo" , disse Mrs . Halloran , com a voz monocórdica a ficar ainda
mais monocórdica.
"Então que desliguem" , decidiu Mr. Halloran , "a mim, pelo menos ,
tanto faz ." Acendeu um fósforo no braço do cadeirão , deu lume ao
cachimbo e puxou o primeiro bafo enquanto o telefone continuava a
incomodar.
"É capaz de ser a Maggie outra vez" , disse Mrs . Halloran .
"Pois que toque , então" , respondeu Mr. Halloran , recostando-se e
cruzando as pernas .
"Que Deus ajude um homem que não atende o telefone quando a
própria filha liga para conversar" , comentou Mrs . Halloran , de rosto
voltado para o tecto. "E se ela está em apuros, também, com o marido
a tratá-la abaixo de cão por causa do dinheiro e a passar as noites em
bares com aquela gente da Little Tammany Association . Agora anda a
meter-se na política, com o bando dos McCorkery. Não há-de vir coisa
boa daí, e eu já lhe disse isso."
"Ela não está em apuros nenhuns , que o homem dela é um tipo es­
perto que há-de avançar se ela o deixar em paz" , retorquiu Mr. Hallo­
ran . "Não tem nada de que se queixar, eu podia dizer-lhe . Mas o que
vale um pai?" Inclinou a cabeça na direcção da janela que dava para o
pátio com chão de tijoleira e cantou como um galo: "O que vale um
pai nos tempos que correm e quem seguiria o seu conselho?"
"Não precisas de contar aos vizinhos, já há desgraça que chegue" ,
disse Mrs . Halloran . Pousou o ferro no bico de gás e saiu para atender
246 Katherine Anne Porter

o telefone, no primeiro patamar das escadas . Mr. Halloran chegou-se à


frente , com as mãos finas com pêlos ruivos descaídas entre os joelhos
e o cachimbo quente a enviar aquele cheiro bom e decente mesmo
para o seu nariz . A mulher detestava o cachimbo e o cheiro; era uma
mulher nascida para tomar qualquer homem miserável . Antes da De­
pressão, quando ele ainda tinha um bom emprego· e perspectivas de um
aumento, antes de ter sido dispensado , antes de ela ter começado acei­
tar roupa fina para lavar e engomar, nos Bons Tempos do Antigamente,
valha-nos Deus , não se mantinha propriamente calada, não havia uma
palavra conhecida do homem para a qual ela não fosse capaz de arran­
jar resposta, mas sabia quem lhe punha o pão na mesa e aguentava.
Agora ela estava, por assim dizer, a pôr o seu próprio pão na mesa, e
nem por um minuto se esquecia disso . E é culpa dela que não andemos
por aí de limusina com cinzeiros e um tubo acústico e uma jarra de
vidro gravado para pôr flores . É o que um homem recebe por se casar
com uma daquelas mulheres santas . Gerald McCorkery tinha-lho dito ,
logo no início .
"Essa é uma moça que vai passar o tempo todo a refrear-te" , dissera­
-lhe Gerald. "Estás a pôr a cabeça num nó que vai estrangular-te a vi­
da. Segue o conselho de alguém que te quer bem" , disse Gerald Mc­
Corkery. Isso tinha sido depois de ele mal ter fixado a vista em Lacey
Mahaffy, certa manhã de domingo , em Coney Island. Era típico de
McCorkery ver isso num instante, pois era um juiz nato da natureza
humana. Era capaz de olhar para um homem, tirar-lhe as medidas , e já
estava. E se o homem não passasse na inspecção , McCorkery era ca­
paz de o mandar embora de uma maneira tal que ele nunca viria a saber
o que tinha acontecido . Era esse o segredo do sucesso de McCorkery.
"Esta é a Rosie , em carne e osso" , disse Get:ald nesse domingo em
Coney Island. "Apresento-vos a futura Mrs . Gerald J. McCorkery." O
rosto estreito de Lacey Mahaffy tinha ficado pior do que estragado sob
o grande chapéu de palha. Mal acenou com a cabeça a Rosie, a qual
lançou um olhar a Mr. Halloran que praticamente o despia ali mesmo.
Mr. Halloran também tinha pensado que McCorkery estava a escolher
uma moça estranha; não havia dúvida de que era bem-apessoada, mas
cheirava àquelas vigaristas da Fourteenth Street, se era que ele sabia
alguma coisa acerca de mulheres . "Vamos'' , disse McCorkery, com o
braço à volta da cintura de Rosie, "vamos todos andar na montanha­
-russa." Mas Lacey não queria ir. Respondeu: "Não, obrigada. Não
planeámos ficar e agora temos de ir embora." A caminho de casa, Mr.
Halloran disse: "Lacey, julgas as pessoas com demasiada severidade .
A Torre Inclinada e Outros Contos 247

Talvez a moça tenha um bom coração; só não terá tido as mesmas opor­
tunidades que tu ." Lacey virara-se para ele, com uma cara feia como a
de um gato zangado, e ripostara: "É uma mulher devassa e vulgar, e foi
um insulto ser-me apresentada." Passou-se um bom bocado até que o
rosto jovem e bonito por que Mr. Halloran se apaixonara voltasse.
No dia seguinte , no Billy 's Place, depois de cada um ter tomado três
bebidas , McCorkery disse: "Tem cuidado , Halloran; pensa no teu fu­
turo . Não duvido que ela seja uma boa moça, mas não é sociável . Um
homem que entra para a política precisa de uma esposa que possa co­
nhecer todo o género de gente . Um homem precisa de uma mulher que
saiba afrouxar o espartilho e sentar-se à vontade ."
A voz de Mrs . Halloran ouvia-se pelo corredor, um matraquear
constante e seco como o de jornais velhos a serem soprados pelo ven­
to no banco de um parque . "Já te disse que não serve de nada vires-me
falar dos teus problemas agora. Eu avisei-te a tempo , mas tu não que­
rias ouvir. . . Eu disse-te como ia ser ao certo , esforcei-me ao máxi-
mo . . . Não, tu não podias ouvir, sempre soubeste mais do que a tua
mãe . . . Por isso agora tudo o que tens a fazer é honrar os votos de ca-
samento e aproveitar a situação o melhor que possas . . . Ouve-me bem,
se queres que ele aja bem, tens de agir bem primeiro . A mulher tem de
agir bem primeiro e depois , se o homem não reagir bem, a culpa não é
dela. Tu ages bem quer ele aja mal ou bem, porque o que ele fizer de
mal não é desculpa para ti ."
"Ah, estão a ouvir?" , perguntou Mr. Halloran ao pátio numa voz
assombrada. "Ali está uma santa aterrorizadora, para que vejam."
" . . . a mulher tem de agir bem primeiro , estou a dizer-te" , continua­
va Mrs . Halloran ao telefone , "e depois se ele for o demónio apesar
disso , ora, ela tem de agir bem sem qualquer ajuda dele ." A voz dela
erguia-se para que os vizinhos pudessem ouvir bem, caso quisessem.
"Já te conheço há muito , és igualzinha ao teu pai . Deves estar a fazer
alguma coisa mal , ou então não estarias nesta situação . Estás a agir
mal neste preciso momento , a falar ao telefone quando deverias estar
a despachar o teu trabalho . Tenho um ferro quente , estou a tratar das
camisas de dormir sujas de um género de mulher com quem não cons­
purcaria sequer os pés se tivesse tido um homem que cuidasse de mim.
Por isso agora trata do trabalho da tua casa, veste-te e vai apanhar ar
fresco . . . "
"Um pouco de ar fresco nunca fez mal a ninguém" , comentou Mr.
Halloran , bem alto pela janela aberta. "É a gasolina que dá cabo de um
homem."
248 Katherine Anne Porter

"Agora presta atenção, Maggie, isso não é maneira de falar pelas li­
nhas públicas . Pára de chorar e vai fazer os teus deveres e não me apo­
quentes mais . E pára de dizer que vais deixar o teu marido, porque para
onde irias , para começar? Queres andar pelas ruas ou montar uma lavan­
daria na cozinha? Não podes voltar para aqui , vais ficar com o teu ma­
rido que é onde deves ficar. Não sejas tola, Maggie. Tens o teu sustento,
e isso é mais do que muitas mulheres melhores do que tu têm. Sim, o teu
pai está bem. Não, está só para aqui sentado , na mesma. Sabe Deus o
que irá acontecer-nos . Mas tu sabes como ele é, quer lá saber . . . Agora
lembra-te, Maggie, se alguma coisa correr mal na tua vida de casada a
culpa é só tua e não precisas de vir para aqui à procura de compaixão . . .
não posso desperdiçar mais tempo com isto. Adeus ."
Mr. Halloran, de orelhas em riste com medo de perder uma palavra,
pensou na forma como Gerald J. McCorkery tinha subido na vida com
Rosie; e em como a cada degrau subido pelos McCorkerys , ele , Mi­
chael Halloran, tinha descido outro com Lacey Mahaffy. Tinham co­
meçado como imigrantes recém-chegados , com as mesmas oportuni­
dades , ao mesmo tempo e com os mesmos amigos, mas McCorkery
tinha aproveitado todas as abertas que iam aparecendo , insinuando-se
entre os Manda-Chuvas da política, com uma coisa boa a levar a outra.
Rosie soubera apoiá-lo e incitá-lo a progredir. Durante anos, os Mc­
Corkerys tinham-no Gonvidado e a Lacey para que fossem lá a casa e
convivessem com a malta, mas Lacey recusava-se .
"Não podes andar com essa gente , beber e passar noitadas e manter
o emprego" , dizia Lacey, "e já devias saber que não podes pedir à tua
mulher que se dê com essa sujeita." Mr. Halloran tinha-se habituado a
aparecer sozinho , de vez em quando , pois McCorkery continuava a
' gostar de si , continuava disposto a ajudá-lo a entrar nos sítios certos ,
ainda lhe pedia favores na altura das eleições . Havia sempre um grupo
bem animado em casa dos McCorkerys , onde quer que estivessem;
pois mudavam-se com frequência para sítios melhores , com mais mó­
veis. Rosie ajudava a servir as bebidas e também tomava algumas ,
com palavras simpáticas para toda a gente . A pianola ou a grafonola
tocavam no máximo, com toda a gente a dançar, parecendo ter dinhei­
ro vivo e um futuro brilhante . Ele voltava tarde para casa nessas noites ,
ao mesmo apartamento sem água corrente ou elevador, porque Lacey
não gastava nem um dólar que se visse . Tudo tinha de ser poupado
para acautelar a velhice , dizia ela. Ele chegava, cheio de boa comida e
bebida, e deparava-se com Lacey, de bata, a requentar mais uma vez
as batatas fritas , zangada e amargamente silenciosa, de cabeça descaí-
A Torre Inclinada e Outros Contos 249

da e sobrolho franzido ao cheirar o álcool no hálito dele . "Podias ao


menos comer as batatas , já que as fritei e estive este tempo todo à es­
pera" , dizia ela. "Ah, come-as tu , isso não é meu" , rosnava ele , desilu­
dido com ela e com a vida para que ela o encaminhava.
Ao longo de anos, acreditara piamente que um dia seria gerente de
uma das lojas da cadeia G . and 1 . na qual trabalhava e , quando essa
esperança se extinguiu, ainda contava com a pensão que receberia
quando se reformasse . No entanto , dois anos antes de ser altura disso ,
despediram-no , por causa da Depressão, segundo disseram. Do dia
para a noite , estava na rua, sem sítio para onde levar aquela notícia,
excepto a sua casa. "Jesus" , exclamou Mr. Halloran , que ainda lembra­
va aquele dia, ao fim de quase sete anos de inactividade .
A Depressão não afectara McCorkery. Este continuara sempre a subir
na vida, sendo anfitrião de churrascos e de jantares oferecidos aos em­
pregados e de festas da cerveja para os rapazes no Billy's Place, manten­
do-se junto dos homens certos e sem nunca perder um negócio. Por fim,
o Gerald J. McCorkery Club alugou um barco inteiro para uma grande
excursão rio acima. Foi um grande dia, em que Lacey ficou em casa,
amuada. Depois das eleições, a fotografia de Rosie aparecera nos jor­
nais , a sorrir a McCorkery; não estava propriamente gorda, apenas uma
bela figura de uma mulher com flores pregadas no casaco de peles às
manchas , os dentes tão bons como sempre. Oh, Deus, havia uma rapari­
ga para o dinheiro de qualquer homem. Pelo canto do olho, Mr. Halloran
viu as costas magras e curvadas de Lacey Maha:ffy , que se sustinha num
pé para descansar o outro como um cavalo velho e cansado, apoiando-se
nas mãos enquanto esperava que o ferro aquecesse.
"Era a Maggie , com as suas mágoas" , disse ela.
"Espero que lhe tenhas dado alguns bons conselhos" , disse Mr.
Halloran . "Espero que lhe tenhas dito que agarre no chapéu e o deixe ."
Mrs . Halloran suspendeu o ferro de engomar por cima de umas
cuecas de cetim cor-de-rosa. "Eu disse-lhe que agisse bem e deixasse
as patifarias para os homens" , ripostou, na sua voz que parecia a gra­
vação gasta de um fonógrafo . "Disse-lhe que suportasse os problemas
que Deus lhe envia, tal como a mãe já fazia antes dela."
Mr. Halloran soltou um resmungo sonoro e atirou ao chão o cachim­
bo , que estava no braço do cadeirão . "Arruinavas o mundo , mulher, se
pudesses , com essa tua alma malvada, a tratar uma moça recém-casada
como se não tivesse uma casa e pais a quem recorrer. Mas não há-de
ser minha filha se fica lá a descascar batatas , deixando que um homem
a pise . Não há-de ser minha filha e vou dizer-lho se ela . . . "
250 Katherine Anne Porter

"Sabes bem que é tua filha, por isso tento na língua'', atalhou Mrs .
Halloran, "e se te desse ouvidos andaria a bater ruas neste momento .
Criei-a como uma moça honesta e há-de ser uma mulher honesta, caso
contrário deito-a por cima do joelho e dou-lhe uns açoites como quan­
do era pequena. Portanto , é assim, Halloran."
Mr. Halloran recostou-se muito no cadeirão e - tacteou a prateleira
por cima da cabeça até os seus dedos encontrarem o meio dólar em que
tinha reparado antes . Cerrando a mão, levantou-se de imediato e olhou
em volta, à procura do chapéu .
"Fica com a tua filha, Lacey Mahaffy " , disse ele , "não tem nada de
meu , é fruto do teu pecado de há muito com o Espírito Santo . E agora
vou dar uma volta e beber umas cervejas para impedir que a ·minha
cabeça se dissolva por completo ."
"Não podes levar esse dólar que acabaste de surripiar da prateleira" ,
disse Mrs . Halloran . "Então achas que além de tudo ainda sou cega?
Põe-no lá onde o encontraste . É para o pão do dia."
"Estou farto de pão todos os dias" , disse Mr. Halloran . "Preciso de
cerveja. Não era um dólar, era meio dólar, como tu bem sabes ."
"Fosse o que fosse" , replicou Mrs . Halloran , "é o que tenho a fazer
as vezes de um dólar. Por isso , deixa-o."
"Tens as batatas de amanhã cosidas ao bolso e sabe Deus quanto na­
quela caixa preta, onde quer que a escondas , além do pé-de-meia" , disse
Mr. Halloran . "Ganhei este meio dólar com a minha pensão e vai ser
gasto de forma adequada. E não volto para jantar, pelo que também
poupas aí. Até logo, Lacey Mahaffy, vou-me embora."
"Se nunca voltares , é-me igual ao litro" , comentou Mrs . Halloran ,
sem levantar a cabeça.
"Se voltasse com um bolso cheio de dinheiro , já ficavas contente
por me ver" , disse Mr. Halloran.
"Teria de ser uma grande maquia" , ripostou Mrs . Halloran .
Mr. Halloran saiu e fechou a porta com um belo estrondo .
Caminhou para o límpido tempo outonal , com o sol de fim de tarde
a aquecer-lhe o pescoço e a alourar as velhas e altas casas de tijolo de
Perry Street. Ao fim de todos aqueles anos, iria ao Billy's Place , en­
contraria alguma sorte lá. Mas foi com calma, cumprimentando os
vizinhos enquanto avançava. "Boa tarde , Mr. Halloran." "Boa tarde
para si também , Missis Cafery." . . . "Está um belo tempo para esta al­
tura do ano, Mr. Gogarty." "É bem verdade , Mr. Halloran ." Mr. Hallo­
ran adorava estas cordialidades , adorava fazer floreados com o chapéu
e desejar um bom dia caloroso como um homem sem quaisquer preo-
A Torre Inclinada e Outros Contos 25 1

cupações a pesarem-lhe na mente . Ah, lá estava o jovem da loja G . and


1 . da esquina. Ele sabia o emprego que Mr. Halloran tivera em tempos .
"Bom dia, Mr. Halloran ." "Um bom dia para si , Mr. Mcinerny, como
vai o negócio?" "Bem, para os tempos que correm, é o melhor que
posso dizer." "As coisas não estão a melhorar, Mr. Mclnerny." "É ver­
dade que estamos todos na corda bamba, Mr. Halloran."
Tranquilizado por este reconhecimento do infortúnio comum dos
homens , Mr. Halloran cumprimentou o jovem polícia que estava na
esquina. O agente , com a sua visão exímia, estava a ler o jornal no
quiosque do outro lado do passeio . "Como está, Jovem O' Fallon?" ,
perguntou-lhe Mr. Halloran , "a actividade vai animada nos tempos que
correm?"
"Tudo calmo como um túmulo neste quarteirão" , respondeu o Jo­
vem O 'Fallon . "Mas aquilo do Connolly é que é uma tristeza." Os seus
olhos voltaram-se para o jornal .
"Morreu?" , perguntou Mr. Halloran; "Ainda não tinha saído , não vi
os jornais ."
"Ah , ainda não" , disse o Jovem O'Fallon, "mas com o FBI atrás
dele , parece que desta vez o apanham de certeza."
"O Connolly está a braços com o FBI? Valha-me nosso Senhor" ,
benzeu-se Mr. Halloran, "de quem irão atrás a seguir? Os metediços ."
"É por causa daquela lotaria" , disse o polícia. "Que mal tem, gosta­
va eu de saber? Um homem tem de ganhar algum quando está metido
na política. Deviam dar-lhe uma oportunidade ."
"O Connolly é um tipo à maneira, que Deus o abençoe , espero que
lhes fuja" , disse Mr. Halloran. "Espero que lhes escorregue mesmo por
entre os dedos como um leitão untado ."
"Ele é esperto" , comentou o polícia. "Aquele Connolly é fino . Há­
-de se livrar desta."
Ah, mas será que se livra? , perguntava Mr. Halloran aos seus botões .
Quem estará a salvo, se o Connolly bater com os costados na cadeia?
Esperem só que eu conte a novidade acerca do Connolly à Lacey Maha­
ffy, pela primeira vez em vinte anos vai dar-me gosto ver-lhe a cara.
Lacey estava sempre a dizer: "Um homem é um tolo chapado se acha
que tem de ser patife para enriquecer. Muita gente boa enriquece e não
prejudica ninguém por isso . Vê só como estão agora os Connollys , bons
católicos praticantes , com nove filhos e mais terão se Deus quiser, e vão
à missa todos os dias e rebolam em mais riqueza do que os teus Mc­
Corkerys com toda a sua libertinagem." Portanto , toma, Lacey Mahaf­
fy, voltaste a enganar-te, e benditos sejam os teus pios Connollys . Aio-
252 Katherine Anne Porter

da assim, sempre fora Connolly quem ajudara Gerald McCorkery a


lançar-se no mundo; McCorkery tinha sido relações públicas e depois
gestor de campanha de Connolly, quando este tinha Tammany na palma
da mão e o céu era o limite. E McCorkery tinha começado mesmo do
início, sabe Deus . Primeiro tinha aquela cave pequena, uma ninharia de
renda, onde os rapazes do Connolly Club e da Little Tammany Associa­
tion , o grupo mais radical da zona, por assim dizer, podiam ir passar
umas noites tranquilas a jogar, a beber e a conversar. Nada vulgar, nada
para além do que era habitual , com a casa a ficar com parte dos ganhos
e um belo lucro na bebida, unindo a malta. Muitos tinham sido os gran­
des planos ali germinados que tinham dado bom resultado para toda a
gente . Para toda a gente , excepto para mim, e porque foi isso? E quan­
do o McCorkery me diz: "Agora podes ficar à frente disto e gerir o
espaço para o McCorkery Club" , ah, aí estava a minha oportunidade e
Lacey Mahaffy não queria nem ouvir falar disso, e com a Maggie a
caminho nessa altura não podia estar a exaltá-la.
Mr. Halloran prosseguiu, atrás dos pés que conheciam o caminho
até ao Billy 's Place , cabisbaixo , já sem falar com quem se cruzava,
mas de novo a discutir consigo mesmo . Que percurso a rever, vendo
claramente as encruzilhadas onde poderia ter tomado uma direcção
diferente que teria alterado toda a sua fortuna; mas não , seguira pelo
lado oposto e agora era tarde de mais . Ela não diria o que quer que
fosse além de: "Isso não está certo e tu sabes , Halloran" , por isso , o
que podia um homem fazer? Ah , poderias ter ido em frente com os teus
negócios como qualquer outro homem, Halloran , não cabe a uma mu­
lher decidir tais coisas; ela haveria de ceder quando visse o dinheiro,
ou uma boa palmada nas nádegas bastaria para a pôr no lugar. Nunca
uma mulher mortal precisara mais de uns bons açoites do que Lacey
Mahaffy, mas ele nunca arranjara forças para lhos dar, ainda que fos­
sem para bem dela. Isso foi só mais um dos teus muitos erros, Hallo­
ran. Mas havia sempre o trabalho de toda a vida na G. and 1. e paz na
casa, mais ou menos . Não eram poucos os homens que me invejavam
nesses tempos , lembro-me , e eu vivia descansado com as poupanças
que tinha, e sabendo que com isso e a pensão que ia receber poderia
terminar os meus dias com um pequeno negócio só meu. "O que foi
feito disso?" , perguntou Mr. Halloran em voz baixa, olhando em redor.
Ninguém respondeu . Sabes bem o que foi feito disso, Halloran . Foste
despedido como um moço de entregas , dois anos antes de cumprires o
tempo necessário para a reforma. Porque ficaste quieto a ver o truque
a ser aplicado noutros antes de ti , sabendo perfeitamente que poderia
A Torre Inclinada e Outros Contos 253

acontecer-te o mesmo e sem nunca acreditares no que vias com os teus


próprios olhos? A G. and 1 . ajudou-me a começar, tinha eu acabado de
chegar a este país , e eram dos meus , ou eu assim pensava. Bem, isso
agora já está feito . Sim, está feito , mas houve aqueles anos todos em
que poderias ter aproveitado o dinheiro da lotaria com os melhores ,
ajudando a recolher o dinheiro da protecção e ficando com a tua parte .
Poderias ter uma fortuna por esta altura no nome da Lacey, a salvo no
banco . Era um bom lucro discreto e ninguém ficava a saber. Mas eles
agora sabem mais , Halloran , não te esqueças ; mesmo assim, continua
a ser um nó de tristeza e desilusão que custa a engolir. O jogo foi ao ar
para o Connolly, talvez; a Lacey Mahaffy tinha dito: "A lotaria é só
mais uma forma de roubar aos pobres , e tu não nasceste para ser la­
drão , como esse McCorkery." Ah, meu Deus, não , Halloran, nasceste
para apodrecer na reforma e talvez isso fosse suficientemente honesto
para ela. Aquela Lacey . . . Uma fortuna em nome dela não me teria
servido de nada. É ela que tem as poupanças todas escondidas , por
mais que haja, há-de cortar e passar fome , antes lavar roupas sujas do
que abrir mão de um cêntimo para viver. Tem-se metido no meu cami­
nho , McCorkery, como um esqueleto a matraquear os ossos , e tinhas
razão acerca dela, tem sido a minha ruína. "Ah , ainda não é demasiado
tarde , Halloran" , disse McCorkery, aparecendo claro como água den­
tro da cabeça de Mr. Halloran , com as mesmas cara e atitude de anti­
gamente . "Nunca digas nunca, Halloran . As eleições estão aí outra vez
à porta, há trabalho a fazer e tu és precisamente o homem de quem eu
ando à procura. Porque não vieste ter comigo antes , sabes que nunca
esqueço um velho amigo . Não mereces a tua triste sorte , Halloran" ,
disse-lhe McCorkery; "já o disse a outros e agora digo-to frente a fren­
te , nunca houve um homem que merecesse mais do mundo do que tu,
Halloran , mas a verdade é que nem sempre há sorte suficiente para
chegar a todos; mas agora é a tua vez e eu tenho um trabalho para ti ,
finalmente à altura das tuas capacidades . Para um homem como tu,
isto não custa nada, podias fazê-lo com uma mão atrás das costas ,
Halloran , e há bom dinheiro nisto . Trabalho de organização , só entre
os teus vizinhos , onde és conhecido e respeitado como um homem de
palavra e um velho amigo de Gerald McCorkery. Agora ouve , Hallo­
ran" , disse Gerald McCorkery, com uma piscadela de olho , "preciso de
dizer mais? O que queremos é eleitores em grande número , Halloran ,
e a ti cabe-te trazê-los , vivos ou mortos . Mantém-te atento à situação
a toda a hora e entra em contacto comigo quando for necessário . E diz
quanto queres em termos de dinheiro . E vê se apareces lá por casa de
254 Katherine Anne Porter

vez em quando , Halloran , porque não apareces? A Rosie já me pergun­


tou um cento de vezes , "Mas o que se passou com o Halloran , que era
a alma da festa?" É essa a conta em que a Rosie te tem, Halloran .
Agora vivemos num dúplex com cortinas de veludo verde e tapetes em
que dá para enterrar os sapatos até às palas , e não há motivo algum
para que tu não tenhas um sítio idêntico , se o quiseres. Com os teus
talentos , nunca estiveste destinado a ser pobre ."
Ah , mas Lacey Mahaffy não o aceitaria, provavelmente . "Então
arranja outro género de mulher, Halloran, ainda és um homem bom,
arranja uma mulher como a Rosie para te aninhares à noite ." Sim, mas ,
McCorkery, esqueces-te de que a Lacey Mahaffy tinha pernas e cabelo
e olhos e pele de uma menina de coro . Mas faria ela alguma vez o que
quer que fosse com isso? Nunca. Dava para acreditar que houvesse
uma mulher que não tirasse as roupas todas de uma vez nem sequer
para se lavar? Que coisa odiosa era ela, com a sua mente maldosa, a
pensar que tudo era pecado , sem nunca dar a um homem oportunidade
de demonstrar que era homem de alguma maneira. Mas agora já mur­
chou , a alma mesquinha está bem à vista, agora é feia como o próprio
pecado , McCorkery. "Foi o que eu te disse que ia acontecer" , disse
McCorkery, "mas agora com o trabalho e o dinheiro podes ir para um
lado e deixar que a Lacey Mahaffy vá para outro ." Vou fazer isso ,
McCorkery. "E esquece o Connolly. Lembra-te sempre de que sou o
meu próprio patrão e sempre fui . O Connolly está acabado , mas eu
não . Mais forte do que nunca, Halloran , com o Connolly fora do cami­
nho . Previ isto há muito , Halloran , e afastei-me . Não apanham o Mc­
Corkery com as calças nas mãos , Halloran . E quase me esquecia . . .
Toma lá qualquer coisa para as despesas , só para começar. Encara-o
como um presente , e haverá mais . . . "
Mr. Halloran estacou , com um cheiro familiar a flutuar-lhe sob o
nariz: o cheiro caloroso a cerveja e bife que vinha do Billy 's Place ,
com serradura e cebolas , igual a qualquer outro bar, talvez, mas com
algo mais que era só daquele . A conversa dentro de si também se in­
terrompeu, como se uma mão tivesse sido pousada na sua mente . Tirou
o punho do bolso , quase à espera de encontrar dinheiro verde . Tinha o
meio dólar na palma da mão . "Vou ficar enquanto isto durar e esperar
que o McCorkery apareça."
No momento em que entrou, o seu olhar incidiu em McCorkery, de
pé no bar a servir o seu próprio copo de uma garrafa que estava à sua
frente . Billy ia passando calmamente uma esfregona pelo chão do bar,
e um dos seus olhos , a nadar na direcção de Halloran , parecia uma
A Torre Inclinada e Outros Contos 255

ostra no seu próprio sumo . McCorkery também o viu . "Bem, macacos


me mordam" , disse ele, numa voz que quase perdera a velha cadência
de County Mayo , "se não é o meu velho companheiro da G . and 1 .
Anda c á , Halloran" , disse ele, com a expressão indecifrável de sempre ,
pois nunca Gerald McCorkery fora visto surpreendido com o que quer
que fosse . "Anda cá e pede o que quiseres ."
De repente, Mr. Halloran animou-se com o calor que lhe envolvia o
coração sempre que via McCorkery, não conseguia dar um nome à
coisa, mas o homem tinha algo . Ah , era Gerald, sim senhor, sem tirar
nem pôr, que nunca se esquecia de um amigo e parecia nunca se im­
portar se um homem era rico ou pobre , com o seu rosto de granito e os
olhos de ágata azul na cabeça, um homem que era um rochedo, sem
dúvida. Ali estava ele , a dizer "Anda cá" , como se ainda ontem se ti­
vessem despedido; robusto e sólido nas suas roupas de aspecto dispen­
dioso , como sempre; com o chapéu num cinzento mais escuro do que
o do fato , com um revirar descuidado na aba, mas nada ordinário ,
atenção . Tudo de primeira categoria, bem feito , e a coisa certa para ele ,
que bom proveito lhe fizesse . Mr. Halloran disse: "Ah , McCorkery, és
o único homem em toda a Terra redonda que eu queria encontrar hoje,
mas vinha a dizer para com os meus botões , se calhar já não vem tan­
to ao Billy 's Place ."
"E porque não haveria de vir?'', perguntou McCorkery, "venho ao
Billy 's Place já vai para vinte e cinco anos , continua a ser o quartel-ge­
neral da velha guarda do McCorkery Club , Halloran ." Observou Mr.
Halloran de cima a baixo com um olhar de relance e voltou-se de novo
para a garrafa.
"Eu ia beber uma cerveja" , disse Mr. Halloran, "mas o cheiro desse
whisky fez-me mudar de ideias ." McCorkery serviu um segundo copo ,
e os dois homens ergueram as bebidas com uma flexão idêntica do
cotovelo e um toque do pulso enquanto se entreolhavam .
"Ao crime" , disse McCorkery, e "À tua" , disse Mr. Halloran , muito
contente . Ah , que se danasse o resto , estava de novo onde pertencia,
em boa companhia. Apoiou o pé na calha e mandou abaixo o whisky,
e, mal pousou o copo no bar, McCorkery já estava de novo a enchê-lo .
"Temos mesmo tempo para uns copos rápidos" , disse ele , "antes que
os rapazes cheguem." Mr. Halloran emborcou aquele também, só re­
parando depois que McCorkery não tinha enchido o seu próprio. copo .
"Eu já vou com avanço" , explicou-se este . "Vou saltar esta rodada."
Seguiu-se uma pausa curta, um silêncio que se insinuou à volta de­
les , parecendo verter como nevoeiro provindo de algum sítio profundo
256 Katherine Anne Porter

dentro de McCorkery: subitamente, era como se ele nunca tivesse es­


tado ali, ou não houvesse proferido palavra alguma. Depois disse com
franqueza: "Bem, Halloran, vamos lá. O que tens em mente?" E serviu
mais dois copos . Aquilo era mesmo típico de McCorkery, capaz de nos
adivinhar os pensamentos e de ir directo ao assunto .
Mr. Halloran fechou a mão em tomo do copo e espreitou a pequena
lagoa de whisky. "Talvez pudéssemos sentar-nos?" , sugeriu, de súbito
a sentir que os joelhos lhe falhavam. McCorkery agarrou na garrafa e
avançou para a mesa mais próxima. Sentou-se voltado para a porta,
com o olhar a desviar-se de vez em quando , mas tinha um rosto deter­
minado, atento, como se estivesse preparado para ouvir qualquer coisa.
"Sabes o que tenho tido em casa durante todos estes anos" , começou
Mr. Halloran , solenemente , e interrompeu-se .
"Oh, Deus , sim" , exclamou McCorkery, com simples companheiris­
mo . "Como anda ela ultimamente?"
"Pior do que nunca" , respondeu Mr. Halloran , "mas não é isso ."
"O que é, então , Halloran?" , perguntou McCorkery, a servir os dois
copos . "Sabes bem que podes falar abertamente comigo . É um emprés­
timo?"
"Não" , disse Mr. Halloran . "É um trabalho ."
"Isso já é diferente" , comentou McCorkery. "Que tipo de trabalho?"
Mr. Halloran , de cabeça caída entre os ombros , viu McCorkery a
acenar uma mão e a assentir com a cabeça a uma meia dúzia de ho­
mens que iam entrando e ocupando lugares junto ao bar. "Alguns dos
rapazes" , explicou McCorkery. "Continua." Tinha o rosto mais duro, e
mais tranquilo, como se a bebida lhe proporcionasse um firme auto­
controlo. Mr. Halloran disse aquilo que tinha planeado dizer, já o dis­
sera a caminho dali , e ainda lhe parecia razoável e certo . McCorkery
esperou que ele terminasse e depois levantou-se , pousando uma mão
no ombro de Mr. Halloran . "Deixa-te ficar aí, e serve-te à vontade" ,
disse-lhe , empurrando um pouco a garrafa, "e qualquer coisa que quei­
ras , Halloran , diz que ponham na minha conta. Volto daqui a uns mi­
nutos e sabes que vou ajudar-te se puder."
Halloran entendeu tudo mas através de uma névoa quente e suave, e
mal reparou quando McCorkery tomou a passar por si com os homens,
todos naquela forma discreta e sinistra, como passos numa rua escura.
Foram para a sala das traseiras , a porta abriu-se revelando uma luz bri­
lhante e tomou a fechar-se , e Mr. Halloran levou a mão à garrafa para ir
esperando até que McCorkery saísse de novo com boas-novas . Sentia-se
confortável e cómodo, como se não tivesse um osso ou um músculo no
A Torre Inclinada e Outros Contos 257

corpo, mas o cotovelo escorregou-lhe por uma vez ou duas da mesa e


fê-lo entornar a bebida na manga. Ah, McCorkery, é a farm1ia toda que
estás a levar com os trabalhos? Porque o marido da minha Maggie ago­
ra está com a Little Tarnmany Association. "Aí está um moço que há-de
ir longe, estou de olho nele, Halloran" , disse a voz amistosa de Mc­
Corkery na sua mente, e o rosto moreno, mais suave do que ele se lem­
brava, surgiu claramente por trás dos seus olhos fechados .
"Ah, bem, é como se eu próprio recomeçasse do início nele" , disse
Mr. Halloran, bem alto , "para além do meu próprio trabalho que eu
poderia ter tido durante todo este tempo , se ao menos tivesse vindo
ver-te mais cedo ."
"É verdade" , respondeu McCorkery numa voz contente e carregada
de sotaque de County Mayo, dentro da cabeça de Mr. Halloran, "e
agora brindemos ao futuro alegre pelos bons velhos tempos e que se
dane a Lacey Mahaffy." Mr. Halloran levou a mão à garrafa, mas esta
resvalou de lado , fugiu-lhe do alcance a rebolar como uma criatura e
explodiu-lhe aos pés . Quando ele se levantou , a cadeira caiu para trás .
Apoiou-se na mesa, que se dobrou sob as suas mãos como se fosse
feita de cartão .
"Espera lá, tem calma" , disse McCorkery, e ali estava ele , bem real ,
a segurar Mr. Halloran por um lado e a fazer sinal com a mão aos ra­
pazes na sala das traseiras , que saíram serenamente e o agarraram, al­
guns , pelo outro lado . Todos os rostos eram irlandeses , mas não havia
um irlandês que Mr. Halloran conhecesse naquele grupo e nenhuma
das caras que via lhe agradava. "Deixem-me estar" , disse num tom
digno , "vim aqui para ver Gerald J . McCorkery, um bom amigo meu
dos velhos tempos , não para que um rufia como vocês me pusesse as
mãos em cima."
"Vamos lá, Chefe" , disse um dos mais novos , numa voz que fazia
lembrar uma lima a raspar, "vamos , está na hora de ir."
"Escolheste andar com um belo grupo de escumalha, McCorkery" ,
disse Mr. Halloran , fincando o s calcanhares para resistir à força lenta
com que o empurravam na direcção da porta. "Não confiaria num de­
les nem que pudesse pegar-lhe pela cauda e atirá-lo para longe ."
"Pronto, pronto , Halloran" , disse McCorkery. "Anda comigo . Lar­
ga-o , Finnegan ." Estava a inclinar-se por cima de Mr. Halloran e a
pôr-lhe qualquer coisa na mão direita. Era dinheiro , um rolo pequeno
e compacto , bom dinheiro suave e espesso, não havia sensação que se
lhe comparasse , era impossível confundi-la. Ah, teria um argumento
para mostrar a Lacey Mahaffy, ela até ia saltar. Dinheiro honesto com
258 Katherine Anne Porter

um trabalho a justificá-lo . "Vais ser fiel à tua palavra, McCorkery,


como sempre?" , perguntou , a espreitar o rosto cor de pedra por cima
de si , enquanto os pés teciam uma dança lá debaixo do seu corpo e o
coração ficava à beira de se partir de gratidão .
"Ah, claro, claro" , respondeu McCorkery numa voz forte e calorosa,
que continha uma espécie de praga. "Caramba, tirem-no daqui , vá."
Mr. Halloran deu por si a ser metido num táxi junto ao passeio , com
McCorkery a falar com o motorista e a dar-lhe dinheiro . "Até logo ,
Chefe" , disse um dos rostos dos rufias , e a porta do táxi fechou-se . Mr.
Halloran foi a oscilar durante algum tempo no assento traseiro, tentan­
do pensar. Inclinou-se para a frente e falou com o taxista. "Leve-me à
casa do meu amigo Gerald J . McCorkery" , disse-lhe , "tenho um assun­
to importante a tratar com ele . Não ligue ao que ele disse . Leve-me à
casa dele ."
"Sim?" , respondeu o taxista, sem virar a cabeça. "Bem, é aqui que
fica, está a ver? Aqui mesmo ." Esticou a mão e abriu-lhe a porta. E, sem
dúvida, Mr. Halloran encontrava-se no passeio diante do apartamento de
Perry Street, sozinho à excepção das fileiras de caixotes de lixo, com o
taxista a buzinar enquanto contornava a esquina e um polícia a aproxi­
mar-se de si , que estava bem visível sob o candeeiro da rua.
"Devia votar no McCorkery, o amigo dos pobres" , disse Mr. Hallo­
ran ao polícia. "O McCorkery é quem vai tirar-nos a todos deste aper­
to . Defende os velhos amigos como um louco . Tem uma mulher cha­
mada Rosie . Vote pelo McCorkery" , disse Mr. Halloran , a esforçar-se
para cumprir o seu dever, "e será Chefe da Polícia quando o Halloran
falar por si."
"O diabo que carregue o McCorkery, esse patife" , disse o polícia,
com a boca rígida e azeda por causa das coisas que dizia e das coisas
que via e fazia todas as noites naquela ronda. "Lá estás tu bêbado outra
vez , Halloran, que vergonha, com a Lacey Mahaffy a matar-se a traba­
lhar naquele tanque para te pagar a cerveja."
"Não foi cerveja e não foi ela que a pagou , atenção" , corrigiu Mr.
Halloran , "e o que é que sabe da Lacey Mahaffy?"
"Conheci-a há muitos anos , quando fazia recados para a St. Veroni­
ca's Altar Society" , explicou o polícia, "e ela era impecável , mesmo
então . Nada era bom que chegasse ."
"Hoje em dia é o mesmo" , disse Mr. Halloran, quase sóbrio por um
instante .
"Bem, entra agora e fica lá até estares em condições de seres visto" ,
disse o polícia, num tom de censura.
A Torre Inclinada e Outros Contos 259

"Tu és o Johnny Maginnis" , espantou-se Mr. Halloran, "conheço-te


bem."
"Por esta altura, já devias conhecer" , disse o polícia.
Mr. Halloran subiu as escadas parcialmente de gatas , mas diante da
porta endireitou-se, deu um grande murro no painel , girou a maçaneta
e entrou como uma onda atrás da porta que se abria, erguendo o di­
nheiro na direcção de Mrs . Halloran , que tinha acabado de engomar e
estava a remendar roupa.
Ela levantou-se muito devagar, com a mão ossuda a tapar-lhe a bo­
ca, os olhos a arregalarem-se perante o que via. "Ah, roubaste isso?" ,
perguntou . "Mataste alguém por causa disso?" , com as palavras a ras­
parem-lhe a garganta num sussurro sombrio . Mr. Halloran fitou-a, re­
ceoso.
"Pelas chagas dos Santos, Lacey Mahaffy" , gritou para que toda a
casa o ouvisse , "será que não tens juízo, não consegues ver que a sor­
te do teu marido mudou e que ele tem um emprego e as coisas a partir
de agora vão ser diferentes? Roubar, ai é? Isso é para os teus grandes
amigos , os Connollys , mais a religião deles . O Connolly rouba, mas o
Halloran é um homem honesto com um emprego no McCorkery Club ,
e dinheiro no bolso ."
"McCorkery, ai é?" , ripostou Mrs . Halloran, também a gritar. "Ah,
então já está lá a família toda, jovens e velhos , perversos e inocentes ,
a receberem o pão do McCorkery, por fim. Bem, esse pão não é para
mim . Eu vou ganhar o meu como tenho feito , podes guardar o teu di­
nheiro sujo só para ti , Halloran, e olha que falo a sério ."
"Santo Deus , mulher" , gemeu Mr. Halloran , e cambaleou da porta
até à mesa, até à tábua de engomar, e ali ficou, prestes a chorar de
raiva, "não tens alma sequer para acompanhares o teu marido quando
ele vai montado no próprio Tigre a caminho das riquezas e da glória,
com tudo a ser-lhe oferecido sem que lhe façam perguntas?"
"Sim, tenho alma" , gritou Mrs . Halloran , a cerrar os punhos , com o
cabelo desgrenhado. "Com certeza tenho uma alma e vou salvá-la,
apesar de ti . . . "
Ela estava diante dele numa espécie de sudário de algodão grosso e
puído, com as mãos mortas voltadas para cima, os olhos mortos mas
fixos nele , a voz a sair da cova no fundo do túmulo , a garganta embar­
gada com a humidade da sepultura. O fantasma de Lacey Mahaffy
ameaçava-o, aproximava-se mais , crescia enquanto avançava, com o
rosto a transformar-se no de um demónio com um sorriso vidrado e
fixo . "É essa bebida toda num estômago vazio" , disse o fantasma, num
260 Katherine Anne Porter

rugido rouco . Mr. Halloran soltou um berro de horror que lhe parecia
sair das próprias botas e tirou o ferro de engomar da tábua. "Ah, mal­
dita sejas , Lacey Mahaffy, seu demónio , afasta-te , afasta-te" , bradou ,
mas ela avançava pelo ar, com aquele esgar e a rosnar. Ele levantou o
ferro e atirou-o sem fazer pontaria e o espectro , quem quer que fosse ,
o que quer que fosse , afundou-se e desapareceu , Ele não olhou, mas
desatou a fugir da sala e deu por si no passeio antes de ter noção de
que se encaminhava para ali . Maginnis apareceu de imediato. "Pára aí,
Halloran" , disse ele , "agora estou a falar a sério . Ou voltas lá para cima
ou levo-te preso . Anda lá, vou ajudar-te desta vez , e acabou-se . De­
sempregado como estás e a beber até perderes a cabeça."
De repente , Mr. Halloran sentiu-se calmo , tranquilo; levaria Magin­
nis até lá acima e mostrar-lhe-ia o que tinha acabado de acontecer. "Já
não estou desempregado e, se queres arranjar problemas , visita o meu
amigo McCorkery. Ele diz-te quem eu sou ."
"O McCorkery não pode contar-me nada acerca de ti que eu não
saiba já" , disse Maginnis . "Mantém-te de pé ." Pois Halloran queria
voltar a subir de gatas .
"Deixa-me em paz" , reclamou Mr. Halloran, tentando sentar-se nos
pés do polícia. "Finalmente matei a Lacey Mahaffy, hás-de ficar satis­
feito por saber" , disse ele , a levantar a cabeça para olhar para a cara do
polícia. "Já estava bem na altura. Mas não roubei o dinheiro ."
"Bem, ora que pena" , comentou o polícia, erguendo-o por baixo dos
braços . "Jesus , porque não fizeste as coisas bem quando tiveste oportu­
nidade? Vá, levanta-te . Ah, que se lixe, levanta-te ou dou-te um tiro."
Mr. Halloran disse: "Bem, não acreditas , por isso espera que vais
ver."
Nesse momento ambos olharam para cima e viram Mrs . Halloran a
descer as escadas . Estava agarrada ao corrimão e , mesmo com a luz
ténue do corredor, viam um grande alto de pele ferida na testa, de todas
as cores . Ela estacou e não parecia minimamente surpreendida.
"Aí está, agente Maginnis", disse ela. "Traga-o para cima."
"Desta vez tem um grande vergão no sobrolho , Mrs . Halloran" ,
comentou o agente Maginnis , educadamente .
"Caí e bati com a cabeça na tábua de engomar" , disse Mrs . Halloran .
"É o que dá ter demasiado trabalho e preocupações , dia e noite . Um
desmaio , agente Maginnis . Cuidado com as patas , seu grandessíssimo
tonto" , acrescentou, falando com o marido . "Ele agora arranjou em­
prego , talvez não acredite , agente Maginnis , mas é verdade . Traga-o cá
para cima, obrigada."
A Torre Inclinada e Outros Contos 26 1

Ela seguiu à frente deles , abriu a porta e mostrou o caminho para o


quarto, passando pela cozinha, afastou as cobertas e o agente Maginnis
largou Mr. Halloran entre as mantas e as almofadas . Este rolou para o
lado com um grande ronco e fechou os olhos .
"Muito obrigada, agente Maginnis", agradeceu Mrs . Halloran .
"Não tem de quê , Mrs . Halloran" , respondeu o polícia.
Depois de a porta estar fechada e trancada, Mrs . Halloran foi molhar
uma grande toalha na torneira da cozinha. Torceu-a e deu-lhe vários
nós numa porta antes de experimentar bater com vigor na borda da
mesa. Avançou e colocou-se sobre a cama, ao que deixou cair a toalha
enrodilhada na cara de Mr. Halloran com toda a força. Este remexeu-se
e resmungou , desconcertado . "Esta foi pelo ferro de engomar, Hallo­
ran" , disse-lhe ela, numa voz cautelosa, como se falasse consigo mes­
ma, e baque , a toalha acertou-lhe de novo . "Esta foi pelo meio dólar" ,
disse, e baque , "esta é por estares bêbado . . . " O braço dela ia girando
regularmente, terminando a volta com um estrondo pesado na cara que
começava a contorcer-se , a arquejar, a levantar-se da almofada e a
voltar a cair, numa espécie de tormento intrigado . "Pelos pés com
meias" , disse-lhe Mrs . Halloran, baque , "e a tua preguiça, e esta é por
não ires à missa, e" - desta feita atingiu-o uma meia dúzia de vezes
- "esta é pela tua filha e pelo teu papel na . . . "
Recuou , sem fôlego , com o alto da testa a arder nas suas cores fu­
riosas . Quando Mr. Halloran tentou levantar-se , protegendo a cabeça
com os braços , ela deu-lhe um empurrão e ele voltou a deitar-se . "Fica
aí e não me digas nem uma palavra" , disse Mrs . Halloran . Ele puxou
a almofada para tapar a cara e voltou a acalmar, desta feita de vez .
Mrs . Halloran mexeu-se de forma muito deliberada. Amarrou a toalha
molhada à volta da cabeça, com a ponta que tinha nós a pender-lhe sobre
o ombro. Levou a mão ao bolso do avental e tirou-a com o dinheiro. Era
uma nota de cinco dólares com três notas de um dólar enroladas , e o
meio dólar que ela julgara já ter sido gastado . "É um pobre começo , mas
já é qualquer coisa", comentou , e abriu a porta do armário com uma
chave comprida. Esticando o braço, puxou uma tábua solta da parede e
tirou de lá uma caixa metálica pintada de preto . Destrancou-a, tirou cin­
co cêntimos de um monte de notas e moedas . Guardou o dinheiro novo
na caixa, fechou-a à chave, guardou-a, voltou a pôr a tábua no sítio, fe­
chou a porta do armário e trancou-a. Foi até ao telefone, enfiou a moeda
na ranhura, pediu ligação para um número e esperou .
" É s tu , Maggie? Bem, as coisas por aí vão melhor? Ainda bem, fico
contente . É tarde para estar a telefonar, mas tenho uma notícia acerca
262 Katherine Anne Porter

do teu pai . Não , não , nada disso , arranjou um emprego . Foi o que eu
disse, um emprego . Sim, finalmente , depois de eu tanto o espicaçar . . .
Já o pus na cama para ver se dorme e amanhã está em condições de
trabalhar . . . Sim, é trabalho político, agora para as eleições , com o
Gerald McCorkery. Mas não tem mal, é para angariar votos e isso , vai
estar ao ar livre e não implica ter de se associar com gente reles , agora
ou nunca. É um trabalho bastante honesto , e bem pago; ainda que não
seja aquilo por que eu rezava, continua a ser melhor do que nada,
Maggie . Depois de tanto que tentei . . . parece um milagre . Já vês o que
se pode fazer co� paciência e cumprindo o nosso dever, Maggie . Ago­
ra vê se também fazes o que deves com o teu marido ."
Férias

Na altura eu era demasiado jovem para alguns dos problemas que


estava a ter, e ainda não aprendera o que fazer com eles . Já não pode ter
importância de que género eram esses problemas , nem o que por fim
lhes aconteceu. Parecia-me que nada havia a fazer excepto fugir-lhes,
ainda que toda a minha tradição, todo o meu passado e toda a minha
educação me tivessem ensinado sem margem para réplicas que só os
cobardes fugiam do que quer que fosse . Que disparate ! Deveriam ter-me
ensinado a diferença entre coragem e imprudência, em vez de me obri­
garem a descobrir por mim mesma. Por fim aprendi que, se ainda tinha
alguma da sensatez com que nascera, saltaria como uma corça ao pri­
meiro sinal de certos perigos . Porém, a história que me preparo para vos
contar aconteceu antes de esta grande verdade se ter gravado em mim
- que não devemos fugir dos problemas e dos perigos que são verda­
deiramente nossos, que é melhor aprender quais são esses o mais cedo
possível, e que, se não fugirmos dos outros, somos loucos .
Contei à minha amiga Louise , uma antiga colega de escola que tinha
mais ou menos a mesma idade que eu , não todos os meus problemas ,
mas o pequeno problema com que me debatia: queria ir para algum
lugar passar umas férias de Primavera, sozinha, no campo , e deveria
ser algo muito simples e, evidentemente , não dispendioso , e ela não
deveria contar a quem quer que fosse para onde eu tinha ido; mas , se
ela quisesse , eu poderia enviar-lhe notícias de vez em quando , caso
algo interessante acontecesse . Ela disse que adorava receber cartas ,
mas detestava responder-lhes; que conhecia o sítio ideal para mim e
que não contaria o que quer que fosse a vivalma. Nessa altura - e
ainda agora - Louise tinha um talento quase genial para fazer com
que pessoas , locais e situações improváveis parecessem atractivas .
Contava histórias divertidas que só se revelavam grotescas mais tarde ,
264 Katherine Anne Porter

quando por acaso as víamos e ouvíamos por nós mesmos . Foi o que
aconteceu com esta história. Tudo era tal como Louise tinha descrito ,
por assim dizer, e tudo era, ao mesmo tempo , bastante diferente .
"Eu conheço o sítio perfeito" , disse Louise , "uma farm1ia de campo­
neses alemães mesmo antiquados , nas profundezas do interior rural do
Texas , uma casa ao verdadeiro estilo patriarcal ..,.--- o género de coisa
com que detestarias viver mas que é muito agradável para uma visita.
O Velho pai , Deus Todo-Poderoso em pessoa, com bigodes e tudo; a
Velha mãe , matriarca com sapatos de homem; filhas e filhos e genros
e bebés gordos sem fim por todo o lado; e cães gordos - o meu pre­
ferido era uma coisinha preta e querida chamada Kuno - vacas , be­
zerros e carneiros e cabras e perus e pintadas a andarem pelas colinas
baixas e verdes , patos e gansos nos lagos . Eu estive lá no Verão , quan­
do os pêssegos e as melancias estavam . . . "
"Isto seria agora no final de Março" , intervim, duvidosa.
"A Primavera lá começa cedo" , disse Louise . "Vou escrever aos
Müllers e falar-lhes de ti , prepara-te só para ires ."
"Mas onde fica esse paraíso?"
"Não muito longe da fronteira do Luisiana" , disse Louise . "Vou pedir­
-lhes que te deixem ficar no meu sótão - oh, era um sítio tão agradável !
É um quarto grande, com o tecto a inclinar-se até ao chão dos dois lados ,
e o telhado deixa entrar alguma água quando chove, por isso as telhas
estão todas manchadas com riscas lindas , todas pretas e cinzentas e com
um verde-musgoso , e a um canto costumava haver uma pilha de roman­
ces baratos , da Duquesa, de Ouida, de Mrs . E. D . E . N. Southworth,
poemas de Ella Wheeler Wilcox - houve um Verão em que receberam
uma senhora que era uma grande leitora e , quando se foi embora, deixou
a biblioteca. Adorei ! E toda a gente era tão saudável e bem-intencionada,
e o tempo estava perfeito . . . Quanto tempo queres ficar?"
Eu não tinha pensado nisso , pelo que respondi ao acaso: "Cerca de
um mês ."
Uns dias mais tarde , dei por mim atirada como uma encomenda
expedida de um pequeno comboio sujo e cheio para a plataforma en­
charcada de uma estação rural , onde o chefe de estação surgiu e tran­
cou a sala de espera antes de o comboio ter chegado à curva. Ao
aproximar-se de mim com passos pesados , passou a bola de tabaco
para a outra bochecha e perguntou: "Para onde vai?"
"Para a quinta dos Müllers" , respondi , de pé junto à pequena arca e
à mala de viagem que levara, com o vento agreste a atravessar-me o
casaco fino .
A Torre Inclinada e Outros Contos 265

"Alguém vem recebê-la?" , perguntou , sem parar.


"Disseram que vinham."
"Está bem" , respondeu , para em seguida se meter na sua carroça de
madeira carcomida puxada por um cavalo de costas côncavas e ir em­
bora.
Virei a minha arca de lado e sentei-me nela, de frente para o vento
e a paisagem desolada, indistinta e cor de lama, e comecei a alinhavar
a minha primeira carta para Louise . Em primeiro lugar, ia dizer-lhe
que, a menos que ela planeasse ser escritora, não havia desculpa para
ter tanta imaginação . No dia-a-dia, ia eu dizer-lhe , também havia coi­
sas úteis como os factos puros a que deveríamos ater-nos , por piores
que fossem. Qualquer outra atitude conduzia a confusões como aquela.
Eu estava a começar a gostar da minha carta para Louise quando um
rapaz robusto , que teria uns doze anos , atravessou a plataforma. Ao
aproximar-se de mim, tirou a boina áspera e amarfanhou-a na mão
grossa, suja de terra nos nós dos dedos . As faces redondas , o nariz
redondo , o queixo redondo: tudo era de um vermelho fresco e sadio .
No globo que era a sua cara, tão circular como se tivesse sido desenha­
da com lápis garridos , aqueles olhos estreitos , compridos , de cantos
rasgados e límpidos como água azul-pálida, pareciam deslocados , co­
mo se duas linhagens incompatíveis tivessem chocado ao produzi-lo .
Eram uns olhos lindos , enquanto o resto da cara não merecia ser leva­
do a sério . Uma camisa de lã azul abotoada até ao queixo terminava
abruptamente na sua cintura, como se fosse deixar de lhe servir dentro
de meia hora, e as bragas azuis chegavam-lhe aos tornozelos , onde
adejavam. As velhas botifarras eram vários números acima do seu . Em
suma, era óbvio que não fora o primeiro a usar aquelas roupas . Era
uma aparição alegre, distante e controlada que contrastava com a terra
revolvida e castanha e o céu nublado e escuro , e eu sorri-lhe o melhor
que podia com um rosto que me parecia feito de argila molhada.
Ele também sorriu ligeiramente , sem me fitar os olhos , fazendo-me
sinal para que levantasse a mala. Pôs a minha arca à cabeça e camba­
leou pela plataforma irregular, descendo os degraus enlameados e es­
corregadios , onde receei vê-lo ficar esmagado pelo fardo como uma
formiga debaixo de uma pedra. Atirou a arca para as traseiras da car­
roça com um belo estrondo , agarrou na minha mala e lançou-a em
seguida, ao que trepou por uma das rodas da frente enquanto eu me
esforçava por fazer o mesmo do outro lado .
O pónei, desgrenhado como um urso em hibernação, deu início a um
trote reticente , enquanto o rapaz, inclinado e com a boina a tapar-lhe as
266 Katherine Anne Porter

orelhas e as sobrancelhas , mantinha as rédeas lassas e se embrenhava


nos seus pensamentos . Quanto a mim, observei os arreios , um verda­
deiro mistério . Uniam-se e juntavam-se nos sítios mais inesperados;
separava-se no que tudo indicaria serem pontos de junção .estratégicos .
Estavam remendados com pouca habilidade em sítios arriscados com
pedaços de corda a desfazerem-se . Outras partes aparentemente insig­
nificantes tinham sido unidas de forma irrevogável com arame. O freio
era demasiado comprido para a cabeça atarracada do pónei , pelo que
dava a impressão de que este sacudira a cabeça para tirar esse pedaço
da boca logo ao início, a fim de avançar ao seu próprio ritmo.
O nosso veículo era um espécimen exausto de uma coisa chamada
carroça de molas , sabe-se lá porquê . Não tinha molas algumas e a pla­
taforma fechada e pouco profunda na parte de trás , apropriada para
transportar carga variada, estava erodida a ponto de mal chegar a meio
das rodas traseiras , com um dos lados a raspar constantemente no aro
de ferro . As próprias rodas não giravam num círculo perfeito como as
rodas normais costumam fazer, descrevendo antes uma elipse , pois
estavam lassas nos eixos , pelo que avançávamos com um baloiçar
inebriado , alegre, semelhante ao movimento agitado de um pequeno
barco num mar revolto .
Os campos castanhos e ensopados alongavam-se para ambos os la­
dos do caminho , todos irregulares com restolho do Inverno pronto
para se afundar e voltar a ser terra. As escassas matas sem folhas deli­
mitavam um dos lados do campo ali perto . Na mata, nada havia de
belo naquele momento, excepção feita à promessa da Primavera, pois
eu detestava a desolação , mas dava-me algum prazer pensar que , mais
além, poderia haver algo belo por si só, um rio formado e contido pelas
margens , ou um campo reduzido ao seu verdadeiro propósito , arado e
pronto para o cultivo . A estrada tinha uma curva abrupta e ficou prati­
camente escondida durante algum tempo , quando passámos por entre
a mata. Ver de perto os ramos encurvados assegurou-me que a Prima­
vera estava a começar, ainda que a custo , com relutância: as folhas
formavam-se em cones ínfimos de verde-aguado a salpicar todos os
novos rebentos ; uma chuva modorrenta e fina recomeçou a cair, não
tão opaca como nevoeiro , mas antes uma neblina que apenas se apro­
fundava acima de nós e ia descendo, até as nuvens se transformarem
em chuva envolvente , de um cinzento suave .
Ao emergirmos da mata, o rapaz despertou e apontou para a frente ,
em silêncio . Estávamos a aproximar-nos da quinta pelos limites de um
belo pomar de pessegueiros, então ligeiramente colorido com botões
A Torre Inclinada e Outros Contos 267

frescos , mas nada havia que disfarçasse a fealdade esquálida e doloro­


sa da própria quinta. Naquele vale texano , tão delicadamente modula­
do com pequenos montes e baixios , um "campo ondulado" como di­
zem os agricultores , a casa fora instalada no pico da mais pequena
elevação de terreno, como se o ponto mais infértil tivesse sido astuta­
mente escolhido para a construção de um abrigo . Ali estava, de frente
para nós e despida, um intruso estranho , estranho até ao lado dos ce­
leiros generosamente espalhados ao longo das traseiras , de telhados
baixos e gastos até ficarem da cor da pedra.
As janelas estreitas e o telhado muito íngreme oprimiam-me; só que­
ria dar meia-volta e regressar. Fora um longo caminho para me desilu­
dir, pensei , e no entanto era forçoso avançar, pois nada poderia haver
ali que fosse mais doloroso do que o que eu tinha deixado. Contudo, à
medida que nos íamos aproximando da casa, já quase invisível à excep­
ção do lampião nas traseiras , talvez na esquina, as minhas emoções
voltaram a pender para o calor e a ternura, ou talvez apenas para uma
percepção de que , porventura, seria possível tomar a sentir isso.
A carroça parou diante do alpendre e eu comecei a apear-me . Assim
que o meu pé tocou no chão , um enorme cão preto da detestável raça
de pastores-alemães saltou silenciosamente para mim, ao que eu , tam­
bém em silêncio , protegi a cara com os braços e saltei para trás . "Kuno,
para baixo ! " , gritou o rapaz , atirando-se ao cão . A porta da casa abriu­
-se e uma menina de cabelo louro desceu os degraus a correr e agarrou
no animal hediondo pelo cachaço . "Ele não faz por mal" , disse num
tom sério, em inglês . "É só um cão ."
Era só o querido cachorrinho de Louise, Kuno, cerca de um ano
mais velho. Kuno latiu e pediu desculpa baixando-se e raspando uma
pata dianteira no chão; a menina que o segurava pelo cachaço disse ,
tão tímida quanto orgulhosamente: "Eu ensino-lhe isto . Ele tem sem­
pre maus modos , mas eu ensino-o ! "
Eu tinha chegado, segundo parecia, no momento em que as tarefas do
final do dia estavam prestes a começar. Toda a farm1ia Müller saiu pela
porta, cada homem e mulher a dirigir-se ao seu dever da altura. A menina
acompanhou-me até ao alpendre e disse: "Este é o meu irmão Hans", e
um jovem parou para me dar um aperto de mão antes de seguir caminho.
"Este é o meu irmão Fritz" , apresentou ela, ao que Fritz me segurou a
mão, largando-a para ir embora. "A minha irmã Annetje" , disse a meni­
na, e uma jovem calada com um bebé ao ombro como se fosse um lenço
sorriu e estendeu-me a mão. Mãos e mais mãos foram passando, com as
palmas ora mais novas ora mais velhas , largas ou pequenas, masculinas
268 Katherine Anne Porter

ou femininas , mas todas mãos calejadas, de camponeses decentes e tra­


balhadores , quentes e fortes . E em cada rosto eu voltava a ver os olhos
pálidos, inclinados , em cada cabeça aquele cabelo cor de colmo, como
se todos pudessem ser irmãos e irmãs, embora o marido de Annetje e o
marido de outra filha me tivessem cumprimentado de passagem. No átrio
largo, com uma porta à frente e outra nas traseiras, cheio de uma luz
enevoada e do cheiro a sabão, a velha mãe, também de saída, parou para
me oferecer a mão. Era uma mulher alta de aspecto forte, a usar um xai­
le triangular de lã preta na cabeça, com as saias tufadas à volta de um
saiote de flanela castanha. Não fora dela que os mais novos tinham her­
dado aqueles olhos claros como água. Os seus eram pretos e astutos e
inquisitivos , uma faixa de cabelo à mostra revelava preto raiado de gri­
salho, tinha o rosto seco e enrugado castanho como casca de árvore en­
velhecida e caminhava com passadas de homem nas suas botas de bor­
racha. Apertou-me a mão por um instante e, num inglês germânico, a
sorrir e a mostrar os dentes enegrecidos, disse-me que eu era bem-vinda.
"Esta é a minha filha Hatsy" , disse-me , "e ela vai mostrar-te o teu
quarto ." Hatsy deu-me a mão como se eu fosse uma criança a precisar
de guia. Fui atrás dela por uma escadaria íngreme como um escadote ,
e ali estávamos , no quarto do sótão que Louise ocupara, com o tecto
inclinado . Sim, as telhas estavam manchadas de todas as cores que ela
tinha referido . Ali estavam os romances baratos amontados a um can­
to . Por uma vez , Louise fora precisa na sua descrição , e o espaço era
acolhedor e familiar, como se eu já o tivesse visto . "A minha mãe diz
que podíamos dar-te um lugar melhor lá em baixo" , comentou Hatsy,
no seu inglês um pouco confuso , "mas ela dizia na carta que ias gostar
assim." Respondi-lhe que de facto aquilo me agradava. Então ela des­
ceu as escadas íngremes e o irmão subiu como se trepasse a uma árvo­
re , com a arca na cabeça e a mala na mão direita, e eu não percebia o
que impedia a arca de se estatelar ao fundo das escadas , já que ele se
servia da mão esquerda para trepar. Queria oferecer-me para o ajudar,
mas receava ofendê-lo , pois reparara bem no tremendo à-vontade e
estilo com que ele lançara a bagagem antes , como um homem forte a
exibir-se diante de uma audiência frágil . Pousou a carga e endireitou­
-se , remexendo os ombros e ofegando apenas ligeiramente. Eu
agradeci-lhe e ele empurrou a boina para trás e voltou a puxá-la para a
frente , o que eu interpretei como sendo uma espécie de resposta edu­
cada, e , com passos enormes , foi-se embora. A espreitar pela minha
janela ao fim de alguns minutos , vi-o a atravessar os campos com uma
lanterna acesa e uma grande armadilha de aço .
A Torre Inclinada e Outros Conto s 269

Comecei a alterar a primeira carta que enviaria a Louise . "Vou gos­


tar deste sítio . Não sei bem porquê , mas vai correr tudo bem. Talvez
possa contar-te depois . . . "
O som do discurso alemão na casa lá em baixo contribuía para a
sensação agradável , pois não estavam a falar comigo , nem esperavam
que eu respondesse . Todo o alemão que eu entendia nessa altura estava
contido em cinco pequenas canções mortalmente sentimentais de Rei­
ne , que sabia de cor; e aquela era uma língua muito diferente , baixo­
-alemão corrompido por três gerações num país estrangeiro . A vinte
quilómetros , onde o Texas e o Luisiana se fundiam num pântano pútri­
do cujas correntes lodacentas alimentavam as raízes de pinheiros e
cedros , uma colónia de emigrantes franceses tinha suportado duzentos
anos de exílio, e, não sendo completamente incorruptíveis, eram mís­
ticamente fiéis até à medula, insistindo em falar no velho francês que
por aquela altura já era tão estranho para os franceses como para os
ingleses . Eu conhecera muitas dessas fanu1ias durante um certo Verão
longo que me deixara recordações felizes , e de novo ali , a ouvir outra
língua que ninguém compreenderia à excepção daqueles que faziam
parte da pequena comunidade rural , soube que me encontrava mais
uma vez numa casa de desterro perpétuo . Eram camponeses alemães
sólidos, práticos , calejados , afeitos à terra, que cravavam os seus al­
viões no solo profundo e se arreigavam onde quer que estivessem, pois
para eles vida e terra eram uma única coisa indivisível; mas nunca, de
forma alguma, confundiam nacionalidade e habitação .
Agradava-me o som das vozes densas e quentes e era bom não ter
de compreender o que diziam. Adorava aquele silêncio que significa
liberdade da pressão constante de outras mentes, de outras opiniões e
de outros sentimentos , essa liberdade para me enrolar em quietude e
regressar ao meu próprio centro, para discernir de novo, pois é sempre
uma redescoberta, qual o género de criatura que me rege, toma todas
as decisões independentemente de quem pense que as toma, incluindo
eu; que , a pouco e pouco, leva tudo , excepto a única coisa sem a qual
não posso viver, e que um dia dirá: "Agora sou tudo o que te resta -
aceita-me ." Ali permaneci durante um bom tempo , a escutar aquela
linguagem abafada e desconhecida que era silêncio com música; podia
tocar-me e comover-me, mas não perturbar-me, como o coaxar de rãs
ou o vento a soprar entre as árvores .
Reparei que a catalpa diante da minha janela iria, quando se enches­
se de folhas , tapar-me a vista dos celeiros e dos campos lá atrás . Em
flor, os ramos quase atravessariam a janela. Mas naquele momento
270 Katherine Anne Porter

eram um véu fino através do qual os bezerros , manchados de vermelho


e branco , se mexiam de forma engraçada contrastando com a escuridão
dos barracões . Os campos castanhos em breve voltariam a ser verdes ;
as ovelhas seriam lavadas pelas chuvas e ganhariam um tom cinzento
e limpo . Toda a beleza da paisagem estava então na harmonia do vale
que fluía delicadamente até ao fundo da mata. Era uma terra do inte­
rior, com o ar abandonado de todas as coisas que não são amadas; o
Inverno , naquela parte do Sul , é um coma moribundo , não o sono de
morte nortenho com a promessa firme de ressurreição . No entanto, no
meu Sul , na minha terra adorada e nunca esquecida, depois da sua
doença prolongada, com uma mera agitação , um abrir de olhos entre
uma respiração e outra, da noite para o dia, a terra renasce e explode
na abundância da Primavera, em que se juntam frutos e flores , Prima­
vera e Verão de uma só vez , sob o radioso e quente céu azul .
O vento refrescante prometia mais um aguaceiro modorrento para o
final do dia. As vozes no andar de baixo dispersaram-se, tomaram a
elevar-se , chamando em separado a partir dos quintais e dos celeiros .
A mulher mais velha avançava pelo caminho em direcção aos estábu­
los , com Hatsy a correr atrás . A mulher tinha o jugo de madeira, com
os baldes da ordenha tapados e fechados com ferrolhos de ferro , apoia­
do sem esforço sobre os ombros , mas a filha levava dois baldes de
lata ao braço . Quando empurraram o portão de madeira de cedro que
dava para os campos , as vacas aproximaram-se, a mugir e a juntar-se ,
e os bezerros espalharam-se , cada um para a sua mãe , esticando as
bocas abertas . Seguiu-se então a batalha de afastar as crias esfomeadas
das mães depois de terem obtido uma ração escassa. A mulher mais
velha batia-lhes com a mão aberta nas garupas pequenas , Hatsy ar­
rastava-as pelos cabrestos , com os pés a escorregarem um para cada
lado na lama, as vacas bramiam e brandiam os cornos , os bezerros
berravam como bebés rebeldes . As tranças louras e compridas de Hat­
sy abanavam à volta dos seus ombros , o seu riso era um laivo agudo
de alegria que se impunha às vozes zangadas das vacas e aos gritos
roufenhos da velha mulher.
Do alpendre da cozinha, lá em baixo , provinha o som de água a
chapinhar, o chiar da manivela da bomba e os passos pesados das botas
dos homens . Sentei-me à janela, a observar a escuridão a aproximar-se
lentamente , enquanto todas as lanternas iam sendo acendidas . O meu
pequeno lampião tinha uma asa na taça do óleo , como uma caneca.
Também havia uma lanterna com uma chaminé vidrada pendurada por
um prego na parede . Uma voz chamou-me ao fundo das escadas e ao
A Torre Inclinada e Outros Contos 27 1

olhar lá para baixo deparei-me com o rosto de uma jovem de pele mo­
rena e cabelo cor de linho , numa gravidez avançada e com um rapazi­
nho possante de um ano à anca, segurando-o com um braço enquanto
o outro se erguia acima da sua cabeça de forma que a lanterna os ilu­
minava de cima. "O jantar está agora pronto" , disse ela, e esperou que
eu descesse antes de se virar.
Na grande sala quadrada, toda a farm1ia se reunia a uma mesa com­
prida coberta por uma toalha de algodão de xadrez vermelho , com
travessas apinhadas de comida fumegante nas duas pontas . Uma criada
atrofiada e muito deformada estava a pousar jarros de leite . Tinha o
rosto tão voltado para baixo que estava quase escondido, e todo o seu
corpo era desfigurado de alguma forma dolorosa e misteriosa, prova­
velmente congénita, calculei , ainda que parecesse rija e forte . Abanava
as mãos nodosas sem parar, e a cabeça oscilante correspondia ao ritmo
dos seus cotovelos imparáveis . Corria instavelmente à volta da mesa,
espalhando pratos , esquivando-se a quem quer que se intrometesse no
seu caminho; ninguém se afastava para a deixar passar, falava com ela
ou sequer lhe lançava um olhar de relance enquanto desaparecia para
a cozinha.
Então os homens avançaram para os seus lugares . O Pai Müller
ocupou a cadeira de patriarca à cabeceira da mesa, com a Mãe Müller
atrás dele como um rochedo escuro. Os homens mais jovens foram-se
dispondo de um lado da mesa, os casados com as mulheres atrás das
suas cadeiras para os servirem, pois três gerações neste país não lhes
tinham inibido ou alterado os costumes antigos . Os dois genros e três
filhos desenrolaram as mangas das camisas antes de começarem a
comer. Tinham os rostos luzidios por terem sido lavados havia pouco
e os seus colarinhos abertos estavam húmidos.
A Mãe Müller apontou para mim e depois foi apontado para os vá­
rios membros da casa, declamando os nomes rapidamente . Eu era uma
desconhecida e uma convidada, pelo que fiquei sentada do lado dos
homens , enquanto Hatsy (cujo verdadeiro nome afinal era Huldah) , a
filha ainda solteira, se sentou do lado das crianças , tomando conta
delas e garantindo que se portavam bem. Aquelas crianças tinham
entre dois e dez anos , e eram cinco - sem contar com o menino que
ainda estava à anca da mãe , por trás da cadeira do pai - e pertenciam
às duas filhas casadas . Devoravam e abocanhavam e levavam as mãos
ao açucareiro para verterem açúcar em tudo o que comiam, solene­
mente maravilhadas com a comida e sem prestarem atenção a Hatsy,
que se debatia com elas apenas com um pouco menos de energia do
272 Katherine Anne Porter

que despendera com os bezerros , e quase nada comia. Com uns dezas­
sete anos, tinha lábios pálidos e era demasiado magra; e o seu cabelo
liso e fino , amarelo como manteiga e raiado de madeixas mais claras
e mais escuras , verdadeiro cabelo de camponesa alemã, dava-lhe um
ar frágil . Contudo , partilhava a estrutura óssea forte e a enorme energia
e força animal que era praticamente por si mesma uma presença cor­
pórea na sala; e, ao ver os olhos coléricos e profundos , de um cinzento­
-pálido , e, os malares altos do Pai Müller, era fácil detectar a fonte da
semelhança familiar àquela mesa: era óbvio que a pobre Mãe Müller
nunca tivera um filho seu - de olhos e cabelos negros , como as gentes
do Sul da Alemanha. Era verdade que os dera à luz , mas isso era tudo;
pertenciam ao pai . Até a morena Gretchen , novamente de esperanças ,
obviamente a preferida da farm1ia, com os modos sorridentes e matrei­
ros de uma criança mimada, que tinha o ar satisfeito de um animal
jovem, ocioso e saudável , parecendo sempre prestes a bocejar, tinha o
cabelo da cor de caramelo e aqueles olhos claros e rasgados. Ali estava
agora a apoiar o peso do seu rapazinho no espaldar da cadeira do ma­
rido , e de vez em quando passava o braço esquerdo por cima do ombro
dele para voltar a encher-lhe o prato .
Annetje , a filha mais velha, tinha o seu recém-nascido ao ombro ,
onde ele se ia babando confortavelmente pelas costas das mãe , que
entretanto servia conchas de travessas e tigelas ao marido . Quando se
entreolhavam, sorriam com uma ternura delicada e reservada no olhar,
o sorriso de uma amizade longa e segura.
O Pai Müller não era de forma alguma defensor de que os filhos
devessem casar e deixar o lar. Que se casassem, pois, com certeza; mas
teria isso de o privar de um filho ou de uma filha? Podia sempre pro­
porcionar trabalho e lugar na casa para os maridos das filhas e a seu
tempo faria o mesmo para as mulheres dos filhos. Um novo quarto
tinha sido acrescentado recentemente , na parte da casa voltada para
nordeste , explicou-me Annetje, debruçando-se por cima da cabeça do
marido e falando sobre a mesa, para que Hatsy pudesse viver lá com o
, marido quando se casasse . Hatsy ganhou um lindíssimo tom rosado e
quase enfiou a cabeça no prato; depois levantou-a com um olhar ousa­
do e exclamou: "Jah, jah, eu ir casar em breve !" Toda a gente se riu ,
excepto a Mãe Müller, que disse em alemão que as raparigas em casa
nunca davam valor ao que tinham - não , tinham de ir buscar maridos .
O comentário não pareceu ofender quem quer que fosse e Gretchen
comentou que era agradável que eu fosse estar ali aquando do casa­
mento . Isso fez com que Annetje se lembrasse de qualquer coisa e fa-
A Torre Inclinada e Outros Contos 273

lasse em inglês para a mesa em geral , dizendo que o pastor luterano a


aconselhara a frequentar a igreja com maior assiduidade e a levar os
meninos à catequese, para que Deus a abençoasse com um quinto fi­
lho . Eu voltei a contar e , realmente , contando com o filho por nascer
de Gretchen, havia oito crianças àquela mesa com menos de dez anos;
alguém iria precisar de uma bênção no meio de um grupo tão grande,
sem dúvida. O Pai Müller replicou à filha com um pequeno discurso
em alemão e depois virou-se para mim e disse: "O que digo é, ser
muito louco ir igreja e pagar um pregador boa dinheiro para dizer dis­
parates . Ele que me pagar a mim para me ouvir, então vou ! " Os seus
olhos brilhavam com uma ferocidade repentina por cima da barba
quadrada grisalha e loura que começava logo nos malares altos . "Ele
pensar, então, que minha tempo não custar? Esse é boa! Ele que me
pagar a mim ! "
A Mãe Müller resfolegou e arrastou o s pés . "Ach, tu falar, tu falar.
Agora vais deixar pastor bem zangado se te ouvir. Que vais fazer, se
ele não baptizar bebés?"
"Tu dar-lhe boa dinheiro , ele baptizar" , gritou o Pai Müller. "Espera
que vais ver ! "
"Ah, claro , isso ser verdade" , concordou ela. "Mas ele que não ouvir
isso ! "
Seguiu-se u m turbilhão de conversa entusiasmada e m alemão , com
muitas batidas dos cabos das facas na mesa. Eu desisti de tentar perce­
ber, concentrando-me só nos seus rostos . Parecia uma batalha encarni­
çada, mas estavam a pôr-se de acordo em relação a alguma coisa.
Uniam-se nos seus cepticismos tribais e, como em tudo o resto , fiquei
com uma forte impressão de que todos eram, incluindo os genros, um
único ser humano dividido em várias aparências separadas . A criada
atrofiada levou mais comida para a mesa e recolheu as travessas vazias
e, ao vê-la afastar-se na sua corrida manca, pareceu-me ser a única
criatura individual na casa. Até eu me sentia dividida em muitos frag­
mentos , tendo perdido parte de mim em todos os sítios para onde havia
viajado , em todas as vidas em que a minha tinha tocado e, sobretudo ,
em todas as mortes de pessoas próximas que tinham levado para o
túmulo parte das minhas células vivas . Todavia, a criada, essa, estava
inteira e não pertencia a lugar algum.

Instalei-me facilmente na vida marginal dos modos e hábitos da


casa. O dia começava cedo , com os Müllers , e tomávamos o pequeno-
274 Katherine Anne Porter

-almoço à luz amarela de um lampião , com os ventos cinzentos e hú­


midos a soprarem com uma suavidade primaveril pelas j anelas abertas .
Os homens engoliam os últimos tragos de café fumegante já de pé ,
com os chapéus postos , e iam aparelhar os cavalos aos arados enquan­
to o Sol nascia. Annetj e , com o seu bebé gordo ao ombro , era capaz de
varrer uma divisão ou fazer uma cama com uma s.ó mão , terminando
tudo antes de o dia ter raiado por completo; e passava o resto do dia lá
fora, a cuidar das galinhas e dos porcos . De vez em quando entrava em
casa com uma caixa pouco funda com pintainhos acabados de nascer,
pedaços abjectos de penugem molhada, e pousava-os numa mesa no
seu quarto , onde podia tratar deles com todo o cuidado naquele primei­
ro dia de vida . A Mãe Müller andava pela casa com grandes passadas ,
dando ordens à esquerda e à direita, enquanto o Pai Müller, cofiando
os bigodes e acendendo o cachimbo , se afastava na carroça em direc­
ção à vila, com a mulher a gritar-lhe umas últimas indicações e instru­
ções acerca de coisas que eram necessárias para a casa. Ele nunca lhe
dirigia a palavra e parecia não estar a prestar atenção , mas voltava
sempre ao fim de umas quantas horas com todas as encomendas e re­
cados completados com exactidão . Depois de tratar da minha própria
cama e de arrumar o sótão , não havia coisa alguma para eu fazer, pelo
que saía daquele bulício entusiasta para a vereda, sentindo-me extra­
mente inútil . Contudo , o repouso , a inércia quase mística das mentes
deles no meio daquela vida muscular, isso ia-se insinuando gradual­
mente em mim e eu absorvia-o com gratidão , em silêncio , enquanto
sentia que todos os lugares esconsos e dolorosamente emaranhados da
minha própria mente começavam a desenredar-se . Era mais fácil res­
pirar e eu até podia chorar, se me apetecesse . Ao fim de pouquíssimos
dias , já não tinha vontade de chorar.
Certa manhã, vi Hatsy a cavar na horta da cozinha e a minha oferta
de ajuda - para espalhar as sementes e cobri-las - foi aceite . Traba­
lhávamos nisso durante várias horas todas as manhãs , até o calor do
Sol e a posição inclinada me induzirem uma vertigem confortável .
Esqueci-me de contar os dias , eram idênticos entre si , à excepção das
cores do ar que iam mudando , aprofundando-se e aquecendo ao ritmo
do avanço da estação , e da terra que se tomava mais firme sob os nos­
sos pés , com o emaranhado crescente das raízes amontoadas .
As crianças , tão esfomeadas e barulhentas à mesa, eram gente peque­
na e serena que se embrenhava em jogos silenciosos no quintal da
frente . Estavam sempre a amassar lama para fazerem pães e tartes e a
ocupar os bonecos e animais de trapos com as operações da vida do-
A Torre Inclinada e Outros Contos 275

méstica . Alimentavam-nos , punham-nos na cama; acordavam-nos e


voltavam a dar-lhes de comer, obrigavam-nos a trabalhar a lama para
fazerem mais pães; ou aparelhavam-se a si mesmos às carroças e galo­
pavam até à sombra de um grande castanheiro em frente à casa. Ali a
árvore transformava-se no Turnverein, e os pequenos tomavam-se no­
vamente seres humano s , cambaleando solenemente numa dança e fa­
zendo os gestos de quem bebe cervej a . Milagrosamente transformados
de novo em cavalos, voltavam a arrear-se e galopavam para casa. Res­
pondiam ao chamamento para serem alimentados e mandados para a
cama com a docilidade dos seus próprios brinquedos ou animais com­
panheiros de brincadeira. As mães lidavam com eles com uma brandu­
ra instintiva e constante; nunca pareciam perturbadas pelos filhos . Eram
tão devotadas. e atenciosas como uma gata com os seus gatinhos .
D e quando e m vez , e u levava a penúltima filha d e Annetj e , uma
bebé de dois ano s , no seu pequeno carrinho , descíamos pelo pomar,
onde dos ramos começavam a brotar cones de verde-aguado , e seguía­
mos um pouco pela vereda. Eu virava então para um caminho mais
pequeno e mais suave por ser menos frequentado , e íamos lentamente
pelo corredor entre as amoreiras que começavam a dar frutos , que
pendiam e se encaracolavam como minhocas peludas . A bebé sentava­
-se num monte compacto de flanela e calicó , com os olhos azul-pálidos
rasgados a brilhar sob a touca, os dois dentes de baixo à vista, num
sorriso arrebatado . Por veze s , várias das outras crianças vinham sosse­
gadamente atrás de nós . Quando eu me virava, todas se voltavam
também sem qualquer objecção , ao que regressávamos a casa, tão se­
renamente como tínhamos partido .
A vereda estreita, segundo descobri , ia dar ao rio , o que se tomou o
meu passeio preferido . Quase todos os dias , eu seguia pela beira da
mata desfolhada, ocupando-me fervorosamente com a procura de si­
nais da Primavera. As mudanças eram tão subtis e graduais que um dia
descobri que os ramos , tanto dos salgueiros como das amoreiras , esta­
vam cobertos com pontos mínimos de verde ; a cor mudara da noite
para o dia , ou assim me parecia , e eu sabia que no dia seguinte todo o
vale , toda a mata e toda a orla do rio estariam viçosos e cheios de fo­
lhas de um verde-dourado a agitar-se com a brisa.
E assim foi . Nesse dia, só saí da beira-rio já depois de escurecer e
voltei pelo meio dos pântanos com as coruj as e os noitibós a piarem
por cima de mim , num coro estranho e entrecortado de chamamentos
pela mata, até o pio mais distante de resposta ser um eco fantasmagó­
rico . Quando passei pelo pomar, as árvores estavam todas iluminadas
276 Katherine Anne Porter

por pirilampos . Parei e observei-o durante muito tempo , e depois ca­


minhei lentamente , maravilhada, pois nunca vira algo que me pareces­
se mais belo . As árvores tinham acabado de florir, com botões pálidos ,
os ramos estavam imóveis naquela escuridão diáfana , mas os conjun­
tos de flores estremeciam numa dança silenciosa de luz delicadamente
tecida, rodopiando tão levemente como folhas levadas pela brisa, tão
ritmicamente como água numa fonte . Todas as árvores estavam em
flor com aquele fogo vivo e pulsante , frágil e fresco como bolhas .
Quando abri o portão , a luz refulgiu nas minhas mãos como um fogo­
-fátuo . E quando olhei para trás o esplendor da luz dourada ainda ali
estava, não fora sonho algum .
Hatsy estava de joelhos na sala de j antar, a esfregar o chão com
trapos pesados e escuro s . Fazia sempre essa tarefa à noite , para que os
homens , com as suas botifarras , não repisassem as tábuas e de manhã
estas estivessem imaculadas . Virou para mim o rosto jovem , num es­
tupor de cansaço . "Ottilie ! Ottilie ! " , chamou , bem alto , e, antes que eu
pudesse dizer o que quer que fosse , afirmou : "A Ottilie vai dar-te jan­
tar. Está à espera , todo pronto ." Eu tentei dizer-lhe que não tinha fome ,
mas ela queria tranquilizar-me . "Olha, todos temos de comer. Agora ou
depois , não faz mal ." Voltou a sentar-se nos calcanhares e, levantando
a cabeça, espreitou por cima do parapeito da janela que dava para o
pomar. Sorriu , parou por um instante e comentou , num tom alegre:
"Agora chegou a Primavera. Todas Primaveras , temos aquilo ." E tor­
nou a dobrar-se sobre o grande balde de água, com os seus trapos .
A criada atrofiada entrou , a resvalar periclitantemente no chão escor­
regadio , e pousou um prato à minha frente , de lentilhas com salsicha e
couve-roxa cortada. Estava quente e saboroso e eu senti-me verdadei­
ramente agradecida, pois descobri que , afinal , sempre tinha fome . Olhei
para ela - então chamava-se Ottilie? - e disse-lhe : "Obrigada." "Ela
não fala" , indicou Hatsy, limitando-se a apresentar um facto que não
precisava de ser enfatizado . O rosto indistinto e escuro não era jovem
nem velho , mas estava engelhado por rugas que se cruzavam , sem re­
velarem idade ou sofrimento; eram simples rugas , vincos enegrecidos e
sem padrão , como se a pele perecível tivesse sido torcida por um punho
duro e cruel . Contudo , naquele rosto mutilado eu vi uns malares altos ,
uns olhos rasgados azuis como água, de pupilas muito dilatadas e em
esforço , com a ansiedade de alguém que espreitasse para uma escuridão
repleta de perigo . Chocou fortemente contra a mesa ao virar-se , a cabe­
ça curvada tremia em sintonia com o movimento perpétuo dos braços
debilitados , e fugiu , num afã sem propósito .
A Torre Inclinada e Outros Contos 277

Hatsy voltou a sentar-se nos calcanhares por um instante , atirou as


tranças para trás de um ombro e explicou : "Aquela é a Ottilie . Não
está doente agora. É só assim porque esteve doente quando era bebé .
Mas é capaz de trabalhar tão bem como eu . Cozinha. Mas não fala
para que possas perceber." Voltou a apoiar-se nos joelhos , debruçou-se
e recomeçou a esfregar, com uma energia renovada. Ela era mesmo
uma rede de ligamentos finos e retesados e de músculos longos e elás­
ticos como cabos de aço . Haveria sempre de trabalhar demasiado , de
passar toda a vida cansada, sem nunca vir a saber que aquilo não era
perfeitamente natural ; toda a gente estava sempre a trabalhar, pois
havia sempre mais trabalho à espera quando acabavam o que estavam
a fazer a dada altura. Jantei , levei o prato para a cozinha e pousei-o na
mesa. Ottilie estava sentada numa cadeira da cozinha, com os pés no
forno aberto , os braços cruzados e a cabecear um pouco . Não me viu ,
nem me ouviu .

Em casa, Hatsy usava um velho vestido de bombazina castanha e


galochas sem meias . A saia era suficientemente curta para revelar as
pernas magras , ligeiramente tortas abaixo dos joelhos , como se tivesse
começado a caminhar demasiado cedo . "A Hatsy, ela é uma rapariga
boa e vivaz" , dizia a Mãe Müller, para quem não era fácil elogiar al­
guém ou alguma coisa. Aos sábados , Hatsy tomava um banho demo­
rado numa grande tina da despensa nas traseiras da cozinha, onde
também se guardavam os bacios , os baldes de despejos e as j arras de
água que não estavam a uso . Então desentrançava o cabelo louro e
prendia as madeixas onduladas com uma grinalda de botões de rosa de
algodão cor-de-rosa, usava o seu vestido de seda chinesa azul-clara e
ia até ao Turnverein para dançar e beber uma Seidel de cervej a casta­
nho-escura com o seu pretendente , o qual era tão parecido com os ir­
mãos de Hatsy que também passaria por seu irmão , embora eu julgue
que para além de mim ninguém reparou nisso , e eu não o referi , pois
teria sido o comentário de uma forasteira totalmente ignota . Aos do­
mingos , toda a farm1ia ia até ao Turnverein depois de banhos copiosos ,
com vestidos e camisas engomadas e com as cestas de comida guarda­
das nas carro ças . A criada, Ottilie , acorria à rua para os ver partir, fi­
cando com os dois braços trementes dobrados por cima da testa , para
escudar os olhos perturbados e os ver desaparecerem na curva da ve­
reda. A sua mudez parecia praticamente absoluta; não dispunha de
qualquer linguagem de gestos . Não obstante , três vezes por dia cobria
278 Katherine Anne Porter

aquela imensa mesa com comida sólida , pão acabado de sair do forno ,
enormes travessas de vegetais , quantidades imoderadas de carne assa­
da, tortas , Strudels e tartes extravagantes - o suficiente para alimentar
vinte pessoas . Se vizinhos os visitassem à tarde nalgum dia especial ,
Ottilie cambaleava até à grande divisão no lado norte da casa, a sala de
estar, com o seu harmónio de carvalho dourado , uma tapeçaria de Bru­
xelas de um verde garrido e cortinas de renda de Nottingham, cobertas
de croché nos espaldares das cadeiras , para lhes servir café com natas
e açúcar e fatias grossas de bolo de ovos .
Só raramente a Mãe Müller se sentava na sua sala de estar, e sempre
com um ar de desconforto formal , com os dedos grandes e nodosos
emaranhados uns nos outros . Mas o Pai Müller instalava-se lá com
frequência, ao final do dia, sem que ninguém ousasse segui-lo a menos
que convocado; por vezes jogava xadrez com o genro mais velho , que
aprendera havia muito que o Pai Müller era um bom jogador que abo­
minava vitórias fáceis , pelo que não se atrevia a fazer menos do que dar
tanta luta quanto era capaz mas , mesmo assim , se o Pai Müller sentisse
que estava a ganhar demasiadas vezes , rugia: "Não , não estás a tentar !
Não estás a dar o teu melhor. Agora paramos com este disparate ! " , ao
que o genro se via dispensado e temporariamente caído em desgraça.
Na maior parte das noites , porém, o Pai Müller sentava-se sozinho e
lia Das Kapital. Afundava-se no cadeirão de baloiço , forrado a veludo
vermelho , e abria o volume numa mesa baixa à sua frente . Tratava-se de
uma das primeiras edições , numa impressão alemã preta e esborratada;
o livro estava manchado e tinha a capa de couro rasgada, as páginas a
desprenderem-se: era uma verdadeira bíblia. Ele sabia capítulos inteiros
quase de cor e nada acrescentava nem nada tirava ao texto canónico uma
vez dado . Não posso dizer que naquela altura da minha vida nunca tives­
se ouvido falar de Das Kapital, mas decerto nunca conhecera alguém
que o houvesse lido , ainda que , a ser mencionado , fosse com profunda
reprovação . Não era um livro que carecesse de leitura para ser rejeitado .
E ali estava aquele velho agricultor respeitável , que aceitava o seu dog­
ma como uma religião - quero dizer, os preceitos inaplicáveis e lendá­
rios eram justos , correctos , adequados , havia que acreditar nele s , claro
está, mas a vida, o dia-a-dia, isso era outra coisa, completamente autó­
noma. O Pai Müller era o homem mais rico da sua comunidade; quase
todos os agricultores das vizinhanças arrendavam terras suas e alguns
até as partilhavam. Explicou-me isto certa noite , depois de ter desistido
de tentar ensinar-me a jogar xadrez . Não ficou surpreendido por eu não
ser capaz de aprender, pelo menos numa única lição , e também não se
A Torre Inclinada e Outros Contos 279

surpreendeu por eu nada saber acerca de Das Kapital. Explicou-me os


seus próprios negócios da seguinte forma: "Estes homens , eles não po­
dem comprar terras . A terra tem de ser comprada, pois é detida pelo
Kapital, e o Kapital não dá ao trabalhador a terra que é dele . Bom, de
alguma maneira, eu consigo sempre comprar terra. Porquê? Não sei . Só
sei que com a minha primeira terra aqui fiz boas colheitas para comprar
mais terra, e por isso arrendo-a por pouco , mais barato do qualquer outra
pessoa, empresto dinheiro para os meus vizinhos não caírem nas mãos
do banco , e por isso eu não sou o Kapital. Um dia estes trabalhadores
vão poder comprar-me terra, por menos do que poderiam comprar nou­
tro sítio qualquer. Bom, isso é o que eu posso fazer, é tudo ." Virou uma
página e os seus olhos zangados e cinzentos fitaram-me por baixo das
sobrancelhas farfalhudas . "Eu compro a minha terra com o meu trabalho
árduo , toda a vida, e arrendo-a barata aos meus vizinhos , e depois eles
dizem que não vão eleger o meu genro, o marido da minha Annetje,
para ser xerife , porque eu sou ateu . E eu digo , está bem , mas no próximo
ano pagam mais pela terra ou mais porções das vossas colheitas . Se sou
ateu , vou agir em conformidade . Então , o marido da minha Annetje é o
xerife , e isso é tudo ."
Tinha pousado um dedo atarracado numa linha para marcar onde ia
e, quando tomou a mergulhar na leitura, eu saí silenciosamente sem
me despedir.

O Turnverein era um pavilhão octogonal instalado numa clareira no


meio da mata que pertencia ao Pai Müller. A colónia alemã ia para ali
para se sentar à sombra fresca, enquanto uma pequena banda de metais
tocava músicas country cheias de ritmo . As raparigas dançavam com
energia e sentido , os seus saiotes engomados roçagavam como folhas
secas . Os rapazes eram mais desajeitados , mas tinham vontade ; agar­
ravam as cinturas das parceiras e deixavam manchas amarrotadas e
suadas onde tinham agarrado . Ali , a Mãe Müller descansava no final
de uma semana árdua. Os seus membros magros relaxavam, os joelhos
afastavam-se formando um quadrado e ela trocava mexericos com as
mulheres da sua geração enquanto bebia uma cervej a . De vez em
quando , iam lançando um olhar de relance às crianças que brincavam
ali perto , dando às jovens mães liberdade para dançarem ou descansa­
rem à vontade , sentadas com as suas amigas .
Do outro lado do pavilhão , o Pai Müller sentava-se com os avôs
circunspectos , cujos longos cachimbos curvados lhes pendiam diante
280 Katherine Anne Porter

do peito enquanto discutiam política local com uma seriedade profun­


da, sendo o duro fatalismo de camponeses temperado apenas um pou­
co por uma aturada desconfiança experiente de todos os titulares de
cargos políticos que não conhecessem pessoalmente , de todos os pla­
nos políticos que não lhes dissessem imediatamente respeito . Quando
o Pai Müller falava, eles ouviam-no respeitosamente , considerando-o
um homem forte , chefe de farru1ia e da comunidade . Assentiam lenta­
mente com a cabeça sempre que ele tirava o cachimbo da boca e ges­
ticulava, segurando-o pelo fomilho , como se fosse uma pedra que se
preparasse para atirar. Quando regressávamos do Turnverein certo fi­
nal de tarde , a Mãe Müller disse-me : "Bom, agora, pela graça de Gott,
tudo está resolvido entre a Hatsy e o seu homem . É no domingo , por
esta hora , que vão estar casados ."
Toda a gente que costumava ir ao Turnverein aos domingos foi em
vez disso à casa dos Müllers para o casamento . Levaram presentes
úteis , sobretudo roupa de cama, fronhas , uma colcha branca, com al­
guns ornamentos , para o quarto dos noivos - um tapete redondo tran­
çado de várias cores, um lampião com base de bronze e chaminé redon­
da e cor-de-rosa, decorada com rosas vermelhas , uma bacia e um jarro
de porcelana, também com rosas vermelhas ; e o presente do noivo para
a noiva foi um colar, um fio duplo de raminhos de coral vermelho .
Mesmo antes de a breve cerimónia ter início , ele passou-lhe o colar por
cima da cabeça com mãos trémulas . Ela sorriu-lhe , nervosa, e ajudou-o
a soltar o véu curto que se enredara no coral; depois deram as mãos e
voltaram-se para o pastor, sem as soltarem até ser altura de trocarem
alianças - os anéis de ouro mais largos , grossos e vermelhos que po­
deriam ser encontrados , sem dúvida - e , nesse momento , ambos dei­
xaram de sorrir e empalideceram um pouco . O noivo recuperou primei­
ro e baixou-se - era consideravelmente mais alto do que ela - para
lhe dar um beijo na testa. Os olhos dele eram de um azul profundo e o
cabelo não tinha na verdade a cor de linho do dos Müllers , sendo antes
de um castanho-claro; era um rapaz bem-apessoado , de temperamento
gentil , concluí, e olhava para Hatsy como se gostasse do que via. Ajoe­
lharam-se e voltaram a unir as mãos para a prece final; depois levanta­
ram-se e deram o beijo nupcial , muito casto e reservado, e ainda sem
ser nos lábios . Depois toda a gente foi cumprimentá-los e todos os ho­
mens beijaram a noiva, enquanto todas as mulheres beijavam o noivo .
Algumas das mulheres sussurravam ao ouvido de Hatsy e todas reben­
tavam a rir, excepto ela, que corava da testa à garganta. Por sua vez ,
sussurrou ao marido , o qual assentiu , concordando . Então ela tentou
A Torre Inclinada e Outros Contos 28 1

esgueirar-se discretamente , mas as jovens atentas seguiram-na e pouco


depois vimo-la a correr pelo pomar em flor, erguendo as saias brancas
tufadas , com todas as raparigas a persegui-la, guinchando e gritando
como caçadoras excitadas , pois a primeira a alcançá-la e tocar-lhe seria
a noiva seguinte . Voltaram, sem fôlego , a arrastar a afortunada, e segu­
raram-na enquanto ela apresentava uma resistência extasiada e todos os
rapazes solteiros a beijavam .
Os convidados ficaram para um j antar imenso e Ottilie apareceu , a
usar um avental novo e azul , com gotas de suor acumulado nas rugas
da testa e à volta da boca disforme , e serviu a comida pela mesa. Os
homens comeram primeiro e em seguida Hatsy entrou com as mulhe­
res pela primeira vez , ainda a usar o seu pequeno véu de rede de algo­
dão branco preso ao cabelo com flores de pêssego , em desalinho de­
pois da corrida da noiva . Depois do jantar, uma das raparigas tocou
valsas e polcas no harmónio e toda a gente dançou . O noivo bebeu li­
tros de cerveja de um barril instalado no átrio e à meia-noite todos
foram embora, num ambiente calorosamente emocional e feliz . Eu
desci até à cozinha para encher um j arro de água quente . A criada ain­
da estava a arru m ar as coisas , coxeando entre a mesa e o armário . O
seu rosto era uma mancha castanha de ansiedade , tinha os olhos muito
abertos e vidrados . As suas mãos inseguras remexiam as panelas , mas
nada era capaz de a fazer parecer real , ou de alguma maneira ligada à
vida à sua volta. No entanto , quando pousei o jarro no fogão , ela er­
gueu a chaleira pesada e despejou a água a escaldar sem entornar uma
gota sequer.

O verde claro e meloso do céu matutino era um espelho da terra lu­


minosa. À beira da mata tinha surgido um vicejar reticente de pequenas
flores brancas e de cores claras . Cada um dos pessegueiros era agora
um ramalhete individual de coral e branco . Saí de casa, com a intenção
de seguir pela pequena vereda até ao caminho das amoreiras . As mu­
lheres estavam nas profundezas da casa, os homens haviam ido para os
campo s , os animais tinham sido levados para os pastos , e só Ottilie
estava à vista, sentada nos degraus do alpendre das traseiras , a descas­
car batatas . Lançou um olhar na minha direcção , sem que a sua visão
chegasse a alcançar-me , parecendo focar-se num ponto algures entre
nós , e não deu sinal . Depois largou a faca e levantou-se , abriu e fechou
a boca várias vezes , esforçou-se por avançar ao meu encontro , enquan­
to me chamava com a mão direita. Aproximei-me dela, as suas mãos
282 Katherine Anne Potter

subiram e agarraram-me a manga e , por um instante , receei ir ouvir a


sua voz . Nenhum som proveio dela, mas puxou-me para que a seguisse ,
imbuída de um propósito misterioso só seu . Abriu a porta de um quarto
sombrio com um cheiro acre , sem j anelas , que dava para a cozinha, ao
lado da despensa onde Hatsy tomava os seus banhos . Uma enxerga ir­
regular e estreita e uma cómoda com um espelho rachado quase preen­
chiam todo o espaço . Os lábios de Ottilie mexiam-se, num esforço por
falar, enquanto ela remexia numa pilha de quinquilharias na gaveta de
cima . Tirou de lá uma fotografia, que me colocou nas mãos . Era à mo­
da antiga, estava desbotada, num tom sujo de amarelo , e emoldurada
com cartão elaboradamente cortado e dourado nos rebordos .
Vi uma menina com uns cinco anos , uma bebé alemã bonita e sorri­
dente , que parecia curiosamente ser uma irmã ligeiramente mais velha
da filha de dois anos de Annetje, a usar um vestido de folhos e um
prodigioso rolo de cabelo louro , chamado riço , no cocuruto . As pernas
fortes , redondas como salsichas , estavam envolvidas em meias altas ,
brancas e caneladas , e nos pés firmes e quadrados estavam uma botas
pretas antiquadas de sola mole . Ottilie espreitou o retrato , virou o pes­
coço e olhou para o meu rosto . Eu tomei a ver aqueles olhos rasgados ,
azuis como água, os malares altos dos Müllers , mutilados , quase des­
truídos , mas inconfundíveis . Aquela criança era o que ela tinha sido e
não havia dúvida de que era a irmã mais velha de Annetje, Gretchen e
Hatsy; numa pantomima urgente , ela insistia que assim era - bateu no
retrato e na sua própria cara e fez um esforço imenso por falar. Apontou
para o nome cuidadosamente escrito na parte de trás , Ottilie , e tocou na
boca com os nós dos dedos retorcidos . A cabeça oscilava-lhe no seu
acenar perpétuo ; a mão trémula parecia abanar-me a fotografia num
humor velhaco . O pedaço de cartão ligou-a imediatamente , sem que eu
soubesse como , ao mundo de seres humanos que eu conhecia; por um
instante , um filamento mais leve do que um fio de teia de aranha teceu­
-se a partir daquele centro vivo nela e em mim, um filamento de algum
centro que nos unia a todos à nossa fonte comum e inescapável , de
forma que a sua vida e a minha se tomaram unas , até parte uma da
outra, e a sua dor e estranheza desapareceram . Ela sabia bem que fora
Ottilie , com aquelas pernas firmes e olhos atentos , e ainda era Ottilie ,
dentro de si . Por um momento , estando viva, sabia que sofria, pois ali
estava e tremia com um choro silencioso , limpando as lágrimas com a
palma da mão aberta . Ainda com as faces molhadas , o seu rosto alterou­
-se . Os seus olhos clarearam e fixaram-se naquele ponto no espaço que
parecia conter para ela os seus inenarráveis e terríveis problemas . Virou
A Torre Inclinada e Outros Contos 283

a cabeça como se tivesse ouvido uma voz e desapareceu , com a sua


instável maneira de correr, para a cozinha, deixando a gaveta aberta e a
fotografia voltada para baixo no tampo da cómoda.
À refeição do meio-dia, apareceu apressada e a entornar café no
chão branco, restabelecida na sua própria existência secreta de espanto
perpétuo , e eu tinha voltado a ser uma desconhecida para ela, como
todos os outros , mas Ottilie já não era desconhecida para mim , nem
poderia voltar a sê-lo .
O irmão mais novo surgiu , com um gambá que tinha apanhado com
a sua armadilha. Abanava o corpo peludo de um lado para o outro , com
os olhos bem estreitados de orgulho enquanto nos mostrava a criatura
estropiada. "Não , é cruel , até para os animais selvagens" , disse-me a
delicada Annetj e , "mas os rapazes adoram matar, adoram magoar coi­
sas . Tenho sempre medo de que apanhe o pobre Kuno ." Eu pensei
privadamente que Kuno, um monstro possante que fazia lembrar um
lobo, talvez pudesse mostrar-se à altura de qualquer armadilha. Annet­
je caracterizava-se por desvelos silenciosos e temos . Os gatinhos , os
cachorros , os pintainhos , os cordeiros e os bezerros eram a sua espe­
cial preocupação . Era a única das mulheres que acariciava os bezerros
a serem desmamados quando lhes punha as vasilhas de leite à frente .
O seu filho parecia fazer tanto parte de si como se ainda não tivesse
nascido . No entanto , dava a impressão de se ter esquecido de que Ot­
tilie era sua irmã. Os outros também . Recordei que Hatsy dissera o
nome dela sem referir que ela era sua irmã . Tal omissão era, dei-me
conta, exactamente isso - simples esquecimento . Ela movia-se entre
eles tão invisível na imaginação deles como se fosse um fantasma .
Ottilie , a irmã, era algo doloroso que acontecera havia muito e que
agora fazia parte do passado enterrado ; não podiam viver com essa
memória ou com o seu lembrete visível - esqueciam-na num acto de
pura autodefesa. Contudo , eu não conseguia esquecê-la. Ela insinuara­
-se na minha mente como um pedaço de erva levado numa corrente e
preso ali , a flutuar mas fixo , recusando-se a seguir viagem . Tentei ra­
cionalizar a questão . Os Müllers , que outra coisa poderiam ter feito
com Ottilie? Devido a um acidente físico na sua infância, ela fora
privada de tudo , excepto da mera existência. Não se tratava de uma
sociedade ou de uma classe que mimasse os inválidos e os inadapta­
dos . Enquanto vivesse , uma pessoa tinha de fazer a sua parte . Aquele
era o lugar dela , nascera naquela farm1ia e ali morreria; se sofria?
Ninguém perguntava, ninguém tentava saber. O sofrimento acompa­
nhava a vida, o sofrimento e a labuta. Enquanto se vivia, trabalhava-se ,
284 Katherine Anne Porter

isso era tudo , e sem queixas , pois ninguém dispunha de tempo para
ouvir e toda a gente tinha os seus problemas . Então , que mais pode­
riam ter feito com Ottilie? Quanto a mim , eu nada podia fazer excepto
prometer-me que também a esqueceria; e recordá-la para o resto da
vida .
Sentada à mesa comprida, observava Ottilie a coxear na sua pressa
atormentada, trazendo a comida interminável que representava todas
as agruras da sua vida . A minha mente seguia-a para a cozinha, onde a
via a espreitar as grandes chaleiras ferventes , o forno atulhado , en­
quanto todo o seu corpo era uma mera máquina de tortura. Directo à
superfície da minha mente assomava o pensamento urgente , claro ,
como se impulsionasse o tempo para o acontecimento desej ado: Que
seja agora, que seja agora . Nem sequer amanhã, não , hoj e . Que ela se
sente serenamente na sua velha cadeira junto ao fogão e dobre aqueles
braços , e que possamos encontrá-la assim , de cabeça caída para a fren­
te sobre os joelhos . Então descansará . Esperava, desejando que ela não
voltasse a passar, nunca mai s , por aquela porta que eu fitava com os
olhos franzidos , como se pudesse ver algo insuportável a surgir por ali .
Então ela aparecia, e era apenas Ottilie , afinal , no seio da sua farm1ia,
e um dos membros mais úteis e competentes desta; e os outro s , com
um instinto profundo e certo , haviam aprendido a viver com o desastre
dela segundo as condições ditadas por este , e por ela; haviam aceitado
e encontrado proveito naquilo que para eles era apenas mais um episó­
dio doloroso num mundo cheio de problemas , vários deles piores do
que aquele . Assim, um passo de cada vez , segui os Müllers tão de
perto quanto consegui na forma como aceitavam Ottilie e no uso que
faziam da sua vida , pois , por algum motivo que nem a mim eu conse­
guia explicar bem , via grande virtude e coragem na constância deles e
no modo como se recusavam a sentir pena de alguém, muito menos de
si mesmos .

Gretchen deu à luz , um rapaz , convenientemente entre as horas do


jantar e de ir para a cama, numa certa noite de chuva amistosa, boa de
se ouvir dentro de casa . O dia seguinte trouxe vizinhas de quilómetros
em redor e o bebé foi passado de umas para outras como se fosse uma
nova espécie de bola medicinal . Decorosas e tímidas em bailes , senti­
mentais em casamentos , eram licenciosas e jocosas aquando de nasci­
mentos . A beber café e cerveja, a conversa ia ganhando atrevimento ,
os sons guturais eram engolidos pelas gargalhadas fortes; aquelas es-
A Torre Inclinada e Outros Contos 285

posas e mães honestas e trabalhadoras viam a vida durante algumas


horas como uma vigorosa piada brejeira, e isso fazia-lhes bem . O bebé
bramia e mamava como um pequeno bezerro e os homens da fanu1ia
iam dar uma vista de olhos e acrescentavam as suas obscenidades ale­
gres .
O tempo nublado levou-as a irem para casa mais cedo do que tinham
planeado . Todo o céu estava carregado de vapor preto e cinzento como
fumo , que pendia em fios esfarrapados como fuligem numa chaminé .
As margens da mata ficaram roxas e sem brilho à medida que o hori­
zonte se avermelhava lentamente e depois escurecia, e o céu era atra­
vessado por um rumor profundo e vibrante de trovoada. Todos os
Müllers se apressaram a calçar botas de borracha e macacões de oleado ,
gritando uns aos outros, delineando o plano de acção . O rapaz mais
novo subiu ao alto da colina com Kuno a ajudá-lo a reunir o rebanho no
redil . Kuno ladrava, as ovelhas baliam e berravam , os cavalos , libertos
dos arados , estavam excitados ; relinchavam e trotavam percorrendo o
comprimento dos cabresto s , com as orelhas voltadas para trás . As vacas
estavam a berrar, enervadas , e os bezerros respondiam-lhes com gritos .
Todos os homens saíram para juntos dos animais, a fim de os reunirem,
aquietarem e guardarem em segurança . No momento em que a Mãe
Müller, com a sua meia dúzia de saiotes arregaçados à volta das coxas
e enfiados nas botas que lhe chegavam às ancas , se pôs a caminho para
ir ter com eles aos celeiros , as nuvens foram rasgadas de uma ponta à
outra por um relâmpago avassalador e uma carga de água abateu-se
sobre a casa com o impacto de uma onda contra um navio . O vento
estilhaçou as vidraças e os lençóis de água entraram . As vigas do telha­
do ficaram em esforço e as paredes abaularam para dentro , mas a casa
aguentou-se nos alicerces . As crianças foram agrupadas no quarto inte­
rior com Gretchen . "Venham sentar-se aqui comigo na cama" , disse­
-lhes elas calmamente , "e fiquem sossegadas ." Endireitou-se , com um
xaile à sua volta, a dar de mamar ao bebé . Annetje apareceu então e
deixou também o seu bebé com Gretchen; e , colocando-se nos degraus
do alpendre com um braço agarrado à amurada , baixou-se até às águas
furiosas que se erguiam até ao próprio patamar da casa e arrastou um
cordeiro quase afogado . Eu segui-a . Não conseguíamos ouvir-nos com
o ribombar dos trovões , mas juntas levámos a criatura para o átrio de­
baixo das escadas , onde lhe secámos a penugem ensopada com trapos ,
pressionámos o estômago para o libertar d a água e por fi m consegui­
mos sentá-lo com as patas por baixo do corpo . Annetje estava feliz e
triunfante e não parava de dizer, encantada: "Vivo , vivo ! , olha ! "
286 Katherine Anne Porter

Deixámo-lo ali quando ouvimos os homens a gritar e socar a porta


da cozinha e corremos para a abrir. Eles entraram, com a Mãe Müller
entre si , a acartar o seu jugo com os baldes da ordenha . Ali ficou , com
água a escorrer-lhe das saias , o oleado preto e triangular que tinha na
cabeça a pingar, as botas de borracha encarquilhadas sob o peso dos
saiotes enfiados nelas . Ela e o Pai Müller mantinham-se próximos um
do outro , parecendo duas árvores velhas e descarnadas atingidas por um
relâmpago , a barba e os oleados dele a escorrerem, ambos com os ros­
tos subitamente escuro s , velhos e cansados, cansados de uma vez por
todas ; nunca mais voltariam a descansar. De repente , ele rugiu-lhe: "Vai
vestir roupas secas . Queres ver se ficas doente?"
"Ho" , respondeu ela , livrando-se do jugo da ordenha e pousando os
baldes no chão . "Muda tu de roupa. Vou buscar-te meias secas ." Um
dos rapazes contou-me que ela tinha carregado às costas um bezerro
com um dia de vida, subido por uma escada encostada à parede interna
do celeiro para o deixar em segurança no palheiro atrás de uma barri­
cada de fardos . Depois tinha alinhado as vacas no estábulo e , sentando­
-se no seu banco de ordenha enquanto as águas subiam , mungira-as a
todas . E parecia achar que não fora nada de mais .
"Hatsy ! " , chamou , "anda cá ajudar com este leite ! " A pequena e pá­
lida Hatsy apareceu logo , descalça , pois tinha sido chamada enquanto
estava a tirar os sapatos molhados , com as tranças espessas de cabelo
louro a baterem-lhe nos ombros ao correr. O marido seguiu-a, bastante
receoso da sogra .
"Eu faço isso" , disse ele , desejando defender a sua querida noiva
daquele trabalho tão pesado , e começou a pegar nos grandes baldes .
"Não ! " , bradou a Mãe Müller, de tal forma que o pobre jovem quase
teve um ataque , "tu não . O leite não é trabalho para um homem ." Ele
recuou e ali ficou , com remoinhos escuros de lama a escoarem-se-lhe
das botas , a ver Hatsy a verter o leite em vasilhas . A Mãe Müller co­
meçou a seguir o marido para lhe dar assistência , mas junto à porta,
voltando-se para trás , perguntou: "Onde está a Ottilie?", e ninguém
sabia, ninguém a tinha visto . "Encontrem-na" , ordenou ela, já de saída.
"Digam-lhe que queremos j antar agora."
Hatsy fez sinal ao marido e, juntos , foram em bicos de pés até à
porta do quarto de Ottilie , que abriram em silêncio . A luz da cozinha
revelou-lhes Ottilie , sentada sozinha, dobrada sobre si mesma à beira
da cama . Hatsy escancarou a porta para que mais luz entrasse e cha­
mou numa voz aguda e penetrante , como se falasse com alguém surdo
ou que estivesse muito longe : "Ottilie ! Está na hora do jantar. Temos
A Torre Inclinada e Outros Contos 287

fome ! " , e o jovem par saiu da cozinha para ir espreitar o vão das esca­
das e ver como ia o cordeiro de Annetje. Então Annetj e , Hatsy e eu
pegámos em vassouras e começámos a varrer a água suj a e os vidros
partidos do chão da entrada e da sala de estar.
A tempestade foi amainando gradualmente , mas a chuva torrencial
continuava. Ao jantar, a conversa foi sobre animais perdidos e a sua
substituição . Todas as colheitas tinham de voltar a ser plantadas , o
trabalho daquela estação fora em vão . Todos estavam cansados e mo­
lhados , mas comeram com vontade e calma, para ganharem forças
para todo o esforço de reparar e restaurar, que teria de começar logo
na manhã seguinte , bem cedo .
De manhã, o tamborilar da água no telhado quase tinha cessado ;
pela minha janela, vi uma planície de água cor de sépia a avançar len­
tamente para o vale . Os telhados dos celeiros abaulavam-se como as
estacas de uma tenda e havia vários animais afogados a flutuar ou
presos nas vedações . Ao pequeno-almoço , a Mãe Müller sentou-se a
gemer com a sua caneca de café . "Ach" , dizia ela, "mas que dor na
cabeça. E aqui também" , batia no peito . "Por todo o lado . Ach, Gott,
estou doente ." Levantou-se , com um suspiro rouco e as faces coradas ,
a chamar Hatsy e Annetje para que a ajudassem no celeiro .
Regressaram todas muito depressa, com as saias arregaçadas até aos
joelhos , e as duas irmãs apoiavam a mãe , que não falava e mal conse­
guia ter-se de pé . Levaram-na para a cama, onde ela ficou sem se mexer,
com o rosto escarlate . Toda a gente estava confusa, ninguém sabia o que
fazer. Punham-lhe mantas em cima e ela atirava-as ao chão . Ofereciam­
-lhe café , água fresca, cervej a , mas ela virava a cabeça para o outro lado .
Os filhos chegaram e juntaram-se ao lamento: "Mutterchen, Mutti, Mu­
tti, o que podemos fazer? Diz-nos , de que precisas?" Mas ela não con­
seguia dizer-lhes . Era impossível percorrer os vinte quilómetros até à
vila para arranjar um médico; vedações e pontes tinham sido abatidas ,
as estradas estavam inundadas . A farm1ia apinhava-se no quarto , num
nervosismo pânico , perdida a menos que a mulher doente recuperasse a
consciência e lhes dissesse o que fazer por si . O Pai Müller chegou e ,
ajoelhando-se ao lado dela, segurou-lhe a s mãos e falou-lhe com a
maior das ternuras ; e, quando ela não lhe respondeu , desatou a chorar
abertamente numa voz bem alta, com grandes lágrimas a correrem-lhe
pelo rosto: "Ach, Gott, Gott. Cem mil dólares no Bank" - olhou em
redor para cada membro da farm1ia e falou-lhes num inglês macarróni­
co , como se fosse um estranho para si mesmo e tivesse esquecido a
própria língua - "e digam-me , digam-me , de que servir isso?"
288 Katherine Anne Porter

Isso assustou-os e , todos de uma vez , em uníssono , gritaram e bra­


daram e imploraram num tumulto completamente descontrolado . O
barulho da mágoa e do terror da farm1ia impregnou todo o lugar. En­
tretanto , a Mãe Müller morreu .

A meio da tarde , a chuva parou e o Sol era um disco de bronze num


céu cruelmente luminoso . As águas fluíam espessamente até ao rio ,
deixando a colina nua e castanha, com as cercas caídas num emaranha­
do plano , os jovens pessegueiros desprovidos de flores e dependurados
das raízes . Na mata, ocorrera uma erupção violenta de folhagem ma­
dura numa densidade de selva, brilhante e ardente , uma amálgama de
verde-pavão bem forte com sombras de cobalto .
A casa estava em tamanho silêncio que eu tinha de escutar com
grande atenção para saber que estava habitada . Toda a gente , in­
cluindo as crianças mais pequenas , caminhava em bicos dos pés e
falava em sussurros . Durante toda a tarde , o baque de martelos e o
gemido de uma serra pros seguiram monotonamente no palheiro . À
noite , os homens levaram para casa um caixão brilhante de madeira
jovem de pinho amarelo com pegas de corda e pousaram-no na en­
trada. Ali ficou durante cerca de uma hora, e quem quer que entrasse
tinha de lhe passar por cima . Depois Annetje e Hatsy, que tinham
estado a lavar e a vestir o corpo , apareceram e fizeram sinal : "Já
podem trazê-lo ."
A Mãe Müller ficou exposta na sala de estar durante a noite , com o
seu vestido de seda preta que tinha um apontamento de renda branca
na gola e uma pequena touca de renda no cabelo . O marido sentou-se
no cadeirão de tecido perto dela, a fitar-lhe o rosto , que estava muito
contemplativo , sereno e distante . De vez em quando chorava , em si­
lêncio , limpando o rosto e a cabeça com um grande lenço . As filhas
iam-lhe levando café . Ali adormeceu quase de manhã.
A luz ardeu na cozinha também durante quase toda a. noite , e o som
das botas pesadas de Ottilie a pisar irregularmente o chão era acompa­
nhado pelo burburinho de gafanhoto do moinho de café e pelo cheiro
de pão no forno . Hatsy foi ao meu quarto . "Há café e bolo" , disse ela,
"é melhor servires-te" , e virou-se a chorar, com a sua fatia a desfazer­
-se na mão . Ficámos por ali e comemos em silêncio . Ottilie trouxe um
bule com café acabado de fazer; tinha os olhos desfocados e fixos , o
andar tão perdido e apressado como sempre e , quando entornou um
pouco sobre a mão , pareceu nem o sentir.
A Torre Inclinada e Outros Contos 289

Esperaram mais um dia; depois o rapaz mais novo foi chamar o


pastor luterano e alguns vizinhos voltaram com eles . Ao meio-dia já
tinham chegado mais , salpicados de lama, com os cavalos a arfar e a
suar. A cada novo cumprimento , a farm1ia cedia e voltava a chorar, tão
natural e abertamente como crianças . Tinham os rostos ensopados e
amaciados pelas lágrimas ; havia um ar de conforto e descontracção
nos músculos das suas caras . Era bom deixarem-se levar, terem algo
por que chorar sem que ninguém precisasse de desculpas ou explica­
ções . As suas lágrimas eram , em simultâneo , um luxo e uma cura de
almas . Chorando , livravam-se do núcleo duro de dilema secreto que
existe no coração de cada homem individual , seguros numa mágoa
comunal ; partilhando-o , consolavam-se uns aos outros . Durante algum
tempo , visitariam a sepultura e recordariam; e depois a vida haveria de
tomar a dispor-se noutra ordem , continuando porém a ser a mesma . Os
pensamentos dos vivos já se voltavam para o amanhã , quando deve­
riam trabalhar na reconstrução , na replantação e nas reparações - até
agora, hoj e , apressar-se-iam a voltar do enterro para ordenhar as vacas
e alimentar as galinhas , e poderiam chorar uma e outra vez ao longo
de vários dias , até que as lágrimas os curassem por fim.
Nesse dia apercebi-me , pela primeira vez , não da morte , mas do terror
de morrer. Quando levaram o caixão para o pequeno féretro rural e eu vi
que a procissão estava prestes a formar-se , fui para o meu quarto e
deitei-me . A fitar o tecto , ouvi e senti a ordem e o propósito agoirentos
dos movimentos e dos sons lá em baixo - os arreios a chiarem , os cas­
cos a calcarem o chão , as rodas a girarem, as vozes abafadas e graves
- e foi como se o meu sangue desfalecesse e recuasse de susto , enquan­
to a minha mente permanecia desperta para receber a terrível impressão .
N o entanto , quando percebi que estavam a sair d o quintal , o terror co­
meçou a abandonar-me . À medida que os sons se afastavam, fiquei ali ,
não a pensar, não a sentir, num mero torpor de alívio e cansaço .
A dormitar, ouvi o uivo de um cão . Parecia ser um sonho , e custou­
-me acordar. Sonhei que Kuno tinha sido apanhado na armadilha; de­
pois pensei que tinha sido mesmo apanhado , que não era sonho algum
e eu tinha de acordar, pois não havia outra pessoa ali que pudesse
libertá-lo . Despertei por completo , com o lamento a aturdir-me como
um vento , e não era o uivo de um cão . Corri para o piso de baixo e
espreitei o quarto de Gretchen. Esta estava aninhada à volta do bebé e
ambos dormiam . Corri para a cozinha.
Ottilie estava sentada na sua cadeira partida , com os pés no rebordo
do forno aberto , onde o calor já se tinha extinguido . Tinha as mãos
290 Katherine Anne Porter

caídas de ambos os lados do corpo , os dedos encarquilhados nas pal­


mas ; de cabeça atirada para trás sobre os ombros , uivava com uma
grande contorção do corpo , esticando o pescoço para cima, sem lágri­
mas . Ao ver-me , levantou-se , aproximou-se de mim e encostou a cabe­
ça ao meu peito , com as mãos a abanarem para diante por um momen­
to . A estremecer, balbuciava, uivava e agitava as mãos freneticamente ,
apontando pela janela aberta para além dos ramos nus do pomar na
direcção da vereda onde a procissão se alinhara numa ordem formal .
Segurei-lhe os braços onde os músculos estranhamente fibrosos se con­
traíam e retesavam sob as mangas ásperas ; levei-a para os degraus e
deixei-a ali sentada, com a cabeça a oscilar.
Na eira restava apenas a carroça de molas decrépita e o pónei des­
grenhado em que me tinham levado para a quinta. Os arreios continua­
vam a ser um mistério , mas lá consegui juntar pónei , arreios e carroça
de forma não demasiado periclitante , ou pelo menos era essa a minha
esperança; e empurrei e icei e puxei Ottilie e levantei-a até a ter no
assento e eu ficar com as rédeas na mão . Precipitámo-nos estrada abai­
xo ao ritmo do trote renitente do pónei que se sacudia como uma ba­
tedeira, as rodas a girarem elipticamente num balanço verdadeiramen­
te cómico. Eu observava com atenção , torcendo pelo melhor, as voltas
joviais dàquelas rodas . Deslizámos por poças redondas de lodo verde ,
lançámo-nos perigosamente por bueiros onde houvera pequenas pon­
tes . Por uma vez , no que restava da estrada principal , levantei-me para
ver se poderia alcançar a caravana fúnebre; sim, ali ia, a subir vagaro­
samente pela estrada da pequena colina , uma caravana bamboleante de
escaravelhos pretos a rastejar desordenadamente sobre torrões de terra .
Ottilie , agora calada, estava dobrada sobre si mesma, resvalando
livremente do assento . Agarrei-a pelo cinto duro com a mão livre , e os
meus dedos deslizaram e tocaram-lhe entre as roupas e a pele , que
senti marcada pelas costelas , escanzelada e seca contra os nós dos
dedos . A sensação da sua realidade , da sua humanidade , de que aquele
ser estilhaçado era uma mulher, chocou-me de tal maneira que um
uivo tão canino e desesperado como o dela cresceu dentro de mim e ,
sem ser proferido , tomou a morrer, transformando-se num fantasma
perpétuo . Ottilie inclinou os olhos e espreitou-me , e eu cor