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Rev. Let.

, São Paulo,
2:33-48, 1980.

LINGUAGEM POÉTICA
E CRESCIMENTO URBANO-INDUSTRIAL*

Iumna Maria Simon * *

REV. LET/221

SIMON, Iumna Maria — Linguagem poética e crescimento urbano-industrial,


Rev. Let., São Paulo, 20:33-48, 1980.
RESUMO: O impacto do crescimento urbano.industrial sobre a lírica moderna
é abordado sob o ângulo das dissonâncias ocorridas entre as representações
temáticas e os procedimentos expressivos. Assim se confrontam as "respostas"
dos poetas europeus à Revolução Industrial e o surgimento das grandes cidades
com as dos modernistas brasileiros de 22 face à industrialização de São Paulo.
Nestes, ao contrário dos primeiros, os conflitos instauram-se entre a celebração
programática da vida moderna e, num primeiro momento, a impossibilidade de
adequação de suas formas de expressão ao registro dessa modernidade. Dessa
forma se explicam os desequilíbrios temático-expressivos existentes em Paulicéia
Desvairada, bem como as adequações conseguidas por obras posteriores.
UNITERMOS: Industrialização; Urbanização; Lírica Moderna; Modernismo
Brasileiro; Mário de Andrade; Paulicéia Desvairada; Prefácio Interessantíssimo;
Oswald de Andrade; Pau-Brasil.

A EXPERIÊNCIA DA Desde a emergência do capitalismo


MODERNIDADE industrial, a experiência das grandes ci-
dades tem sido um dos temas dominan-
La poésie et le progrès sont deux tes da literatura moderna. Contudo, não
ambitieux qui se haissent d'une é o simples aparecimento de um tema
haine instinticve, et, quand ils se ou a descrição de uma nova realidade
rencontrent dans le même chemin, il que transforma a criação artística de
faut que l'un des deux serve 1'autre. um determinado período. A experiência
mais profunda, aquela que decorre de
Charles Baudelaire uma mudança nos modos de percepção e

* Este texto foi primeiramente apresentado na Conferência "The Crisis of Rapid


Urban Development — Manchester & São Paulo", promovida pelo Latin American Studies
e Urban Studies Program da Universidade de Stanford (Califórnia), em abril de 1977. A
tradução que ora se publica foi acompanhada de algumas alterações que, no entanto, não
chegam a eliminar o caráter descritivo de uma exposição feita para um público estran-
geiro, composto, na sua maioria, de sociólogos, economistas, historiadores, arquitetos e pla-
nejadores.
** Professora Assistente Doutora da Disciplina de Literatura Brasileira do Depar-
tamento de Literatura do Instituto de Letras História e Psicologia — Campus de Assis,
UNESP.

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apreensão da realidade, é a que se ma- vez,é a contraparte orgânica da crise


nifesta nos próprios mecanismos de cons- mais vasta da realidade e da própria
trução do objeto artístico. percepção.
Com a industrialização e o urbanis- Por isso mesmo, as raízes da mo-
mo surge uma nova sensibilidade que dernidade vão ser encontradas nas
procura novas formas de expressão ca- obras dos românticos que primeiro se de-
pazes de recortar a substância dessa ex- frontaram com a Revolução Industrial e
periência inusitada, não dominado pelos com o surgimento dos grandes centros
modelos de percepção e registro anterio- industriais urbanos. Ao mesmo tempo
res. Assim, o impacto do crescimento ur- que visualizavam a metrópole moderna
bano-industrial sobre a criação artística como uma espécie de "crescimento can-
se faz sentir não apenas no nível das re- ceroso" que destrói ou, pelo menos, alte-
presentações temáticas, mas também — ra as relações homem/natureza, foram
e sobretudo — no nível dos meios e pro- eles que apresentaram, pela primeira vez,
cedimentos expressivos. Se as primeiras novas maneiras de ver as formas e me-
reações dos artistas às transformações canismos sociais emergentes ( *). Nesse
decorrentes desse processo foram nega- sentido, mencionem-se as experiências
tivas e até repulsivas, gradativamente, pioneiras de Willian Blake e William
contudo, eles foram incorporando à es- Wordsworth, para me restringir ao âmbi-
trutura mesma de suas obras as técnicas to da poesia inglesa.
e procedimentos desenvolvidos pela civi- As "visões" blakeanas da cidade de
lização industrial. Londres são bem conhecidas. Das pri-
No caso da poesia — objeto de meiras e chocantes impresões da cida-
meu especial interesse aqui —, o ciclo de de como "monstruous wen", barulho,
antagonismo e incorporação gradual da caos, confusão, até a percepção de uma
nova realidade torna-se bastante comple- organização nova, um sistemático estado
xo, uma vez que coincide, ou antes de- de espírito ocorre uma nova maneira de
termina o que se costuma denominar de ver a ordem social e humana como um
"crise da poesia" na civilização moderna. todo, bem distante da tradicional manei-
A própria noção de modernidade está ra de situar a inocência no campo e o ví-
relacionada com essa crise que, de sua cio na cidade. (Williams 18, p. 148) (**)

( * ) Diferentemente do que se costuma afirmar, os poetas românticos não se limi-


taram a buscar "refúgio na natureza" a fim de expressar seu repúdio aos "demônios" ou
"males" da civilização industrial. Modernos estudos de revisão do romantismo inglês têm
reposto muito dos problemas e das idéias já consagradas pela crítica tradicional nos seus
devidos lugares. Sabe-se hoje que a chamada "poesia da natureza", tão importante na época,
era antes uma "poesia anti-natureza, mesmo em Wordsworth que procurava uma recipro-
cidade ou mesmo um diálogo com a natureza, mas encontrou-o apenas em flashes". De
tal forma que o próprio conceito de natureza e a consciência poética passou a apresentar
relações nunca cogitadas antes do advento do romantismo nos fins do século XVIII.
(Bloom 7, p. 9).
(**) Também segundo Douglas Bush, Willian Blake é o pioneiro de novas maneiras
de ver a cidade: "ele mostra mais consciência profética do industrialismo do que qualquer
outro de seus contemporâneos". (Bush 10, p. 80). E o grande historiador do capitalismo
industrial E. J. Hobsbawn observa que poucos homens "viram o terremoto social causado
pela máquina e pela fábrica antes de Willian Blake em 1790, o qual tinha então muito
pouco em que se basear, a não ser algumas fábricas a vapor e fornos para fazer tijolos".
(Hobsbawn 16, p. 263).

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No caso de Wordsworth, ainda que " . . . é a multidão espiritual das


se possam encontrar em sua obra anti- palavras, os fragmentos, os inícios
gas e tradicionais perspectivas de abor- dos versos, dos quais o poeta, nas
dagem da nova experiência urbana, "Re- ruas desertas, arrebata a presa
sidence in London" (sétimo livro de poética". (Benjamin 5, p.165)
The Prelude) é, segundo Raymond
Williams, um dos mais antigos registros Esclarece-se, assim, que a "expe-
de novas maneiras de ver a cidade e riência do choque" nas grandes cidades
contém passagens que podem ser con- — experiência que se coloca no centro
sideradas como a primeira expressão do da criação de Baudelaire —, vem repre-
que veio a se tornar uma experiência sentada nos poemas seja através de uma
dominante na literatura moderna. (Wil- espécie de combate travado com as pa-
liams 18, p. 149) lavras, seja ainda, como primeiro notou
As ambivalências de Wordsworth Rivière, através de "choques subter-
aparecem tanto em suas primeiras im- râneos" que agitam o poema como que
pressões da cidade-capital (nas quais se causando o colapso das palavras.
misturam admirações e atração com es-
Na verdade, o que está em dis-
tranheza e repúdio), quanto mais ainda
cussão no ensaio de Benjamin é a pró-
nas impressões das massas urbanas, de-
pria idéia de modernidade, uma vez que
nunciadas como "forças ameaçadoras",
a experiência poética de Baudelaire
confusão, "perda de identidade", ao mes-
questiona a possibilidade mesma da exis-
mo tempo que entrevistas como novas
tência da lírica no mundo moderno. Daí
possibilidades de ordem e união, como
a indagação básica do ensaio: como po-
possíveis forças históricas de liberação.
de a lírica fundar-se numa experiência
(Williams 18, p.151) E é essa a forma
que exige um alto grau de consciência?
como, na literatura posterior, o cada
Para o poeta, a questão colocava-se nos
vez mais dominante "fato da cidade" se-
seguintes termos: como é possível a
ria paradoxal e alternativamente inter-
poesia na civilização comercializada e
pretado.
tecnológica?
Nesse sentido, a experiência poética
de Charles Baudelaire — considerado Como se vê, a noção de "moderni-
como o "poeta da modernidade" por ex- dade" é, em si mesma, muito complexa.
celência — é exemplar. Em sua impor- Ao usar a palavra pela primeira vez em
tante análise dos temas baudelaireanos, 1859, Baudelaire desculpava-se pelo
Walter Benjamin mostra que a masssa neologismo, explicando, porém, que pre-
urbana foi uma realidade tão interior ao cisava dela para expressar a especial ca-
poeta que não se pode esperar que ele a pacidade do artista ao olhar para o "de-
desvende. "Seus temas mais importan- serto de uma metrópole" e não apenas
tes", diz Benjamin, "dificilmente são en- ver o "declínio da humanidade" mas
contrados sob forma descritiva", mas também sentir uma "misteriosa beleza"
aparecem impressos na construção mes- ainda não descoberta. (Friedrich 15,
ma dos poemas — especialmente o tema cap II — Baudelaire) Tal ambivalência
da multidão — como "figuras secretas", é de fundamental importância para se
cujo possível significado é assim explica- avaliarem as respostas dos poetas mo-
do pelo crítico, ao referir-se à primeira dernos às transformações causadas pelo
estrofe do famoso poema "Le soleil": avanço do capitalismo industrial. De um

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lado, o moderno significa o mundo das representadas nas imagens da cidade, as


grandes cidades, com todas as caracterís- quais revelam um duplo impulso de re-
ticas de perda e decadência; de outro, jeição e aceitação da nova realidade; se-
instaura-se aquilo que Hugo Friedrich gundo, instauram-se dissonâncias no pró-
chama de "dissonância", porque o ne- prio processo e construção do texto, na
gativo acaba se transformando em algo medida em que os poetas vão se apro-
fascinante. priando, gradativamente, das técnicas e
recursos oferecidos por uma civilização
"A pobreza, a decadência, o mal, que os rejeita e que é rejeitada por eles.
o noturno e o artificial exercem
uma atração que deve ser percebi- Desse modo, embora freqüentada
da poeticamente. Contêm segredos pelo "sofrimento da falta de liberdade"
que levam a poesia a novos cami- e pela consciência da perda de sua fun-
nhos. Na recusa dos centros urba- ção numa era dominada pelo pragmatis-
nos, Baudelaire sente um mistério mo e pela tecnologia, a poesia moderna
acaba por alimentar-se dos "demônios"
que sua poesia desenha como um por ela mesma criticados. (*) De Bau-
brilho fosforescente. Ademais, ele delaire em diante — ou melhor, dos ro-
aprova tudo que suprime a natu- mânticos em diante —, a poesia tem-se
reza a fim de estabelecer o reino voltado cada vez mais para o civilização
absoluto do artificial. (Friedrich urbana e tecnológica (**).
15, p.25)
E aí residem as fontes de suas con-
As "respostas poéticas" ao avanço tradições, desdobramentos e evolução.
urbano-industrial envolvem, portanto, As contradições acentuam-se na medida
dois problemas que merecem ser destaca- mesma em que o criador procura ade-
dos: primeiro, as ambivalências ou dis- quar seu instrumento aos avanços da ci-
sonâncias de natureza temática aparecem vilização moderna (***).

( * ) Hugo Friedrich explica tal processo mostrando que: " . . . essa poesia é marcada
pela era à qual ela opõe sua extrema liberdade. A frieza de seu artesanato, sua dureza
de coração, assim como outros traços, são diretamente derivados do Zeitgeist. A poesia
busca o "poema sintético" no qual as imagens primevas — estrelas, marés, ventos _ mistu-
ram-se com entidades tecnológicas e jargão científico". (Friedrich 15, p. 129).
(**) No domínio das teorias poéticas que se desenvolveram desde o Romantismo, é
importante lembrar que Edgar A. Poe — o "profeta" da poesia moderna —, pai espiritual
de Baudelaire, foi dos primeiros a descrever os poetas como "tecnólogos", a analisar cienti-
ficamente a criação poética em seu ensaio "A Filosofia da Composição" e a introduzir o
conceito de "cálculo" na poética. Poe falava da relação entre a tarefa poética e a "lógica
estrita de um problema matemático". Na pista de Poe, Baudelaire afirmava a superioridade
do "artificial" (artístico) sobre a natureza e dizia: "tudo que é bonito e nobre é um
produto da razão e do cálculo." (Friedrich 15, p. 24 e segs.).
(***) Ainda no século XIX, em 1897 Mallarmé publica seu poema constelação Un
Coup Des Dés, incorporando os recursos visuais da diagramação dos jornais na estrutura
do texto poético. Haroldo de Campos anota certeiramente que esse poema está para a
civilização industrial, como a Divina Comédia de Dante está para o mundo medieval.
(Campos 11, p. 152). E não se deve esquecer que, ao mesmo tempo que via na imprensa
o "moderno poema popular", Mallarmé desprezava os jornalistas porque eram treinados
pela massa para dar a tudo um caráter vulgar". (Friedrich 15, p. 84).

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Dito de outra forma: a poesia líri- — Mário de Andrade —


ca, que é anti-utilitária por excelência e "O domador"
que rejeita os confortos materiais e arti-
ficais da civilização industrial, inevitavel- As observações precedentes valem
mente inscreve-se nessa civilização, nu- como uma espécie de prelúdio para a
trindo-se dela. Por isso mesmo desenvol- abordagem de alguns problemas relati-
ve-se uma ambivalente relação poética vos ao primeiro registro poético moder-
de amor e ódio ao progresso, bem como nista do crescimento urbano-industrial da
estabelecem-se conexões entre os méto- cidade de São Paulo, nas primeiras dé-
dos de produção industrial e os métodos cadas deste século.
de composição poética. Economia de ex-
pressão, síntese, descontinuidade, simul- O movimento modernista brasileiro
taneidade, fragmentação, montagem, esti- emergiu num contexto artístico interna-
lo telegráfico, são alguns dos processos cional em que se enfatizavam as con-
usados e abusados pela poesia moderna. quistas da civilização industrial e tecno-
lógica, celebradas ao exagero sobretudo
Como anota com muita precisão o
pelas propostas dos futuristas italianos.
poeta e crítico Enzensberger, a poesia
É suficientemente conhecida a influência
moderna "mantém-se alerta aos métodos
que tais propostas exerceram sobre nos-
de produção dominantes, mas como
sos modernistas, no momento em que
alguém que se mantém alerta à presença
reuniam esforços no sentido de renovar
de um inimigo". (Enzensberger 14,
e atualizar a arte e cultura nacionais.
p.57) O conflito desloca-se, amplia-se,
Ou, como diz Mário da Silva Brto, no
multiplica-se e vai atingindo proporções
sentido de introduzir o Brasil nas co-
cada vez mais inusitadas: desde a prá-
ordenadas do século XX. (Brito 8, p . 2 3
tica poética até as teorias que acompa-
e segs)
nham essa prática. O século XX vai
assistir à emergência das poéticas mais
extremadas nesse sentido. Das vanguar- A essa altura — nas primeiras dé-
das européias do início do século, desta- cadas deste século —, contudo, São
que-se o papel desempenhado pelo Fu- Paulo apenas começava a enfrentar os
turismo italiano e sua celebração da vida desajustes e contradições inerentes ao
moderna da máquina, da grande cidade, processo de industrialização, os quais já
da velocidade e da guerra, para citar tinham sido experimentados, e até supe-
apenas alguns dos seus múltiplos aspec- rados, pelos países europeus. O surto
tos. industrial decorrente da Primeira Guerra
Mundial introduzia-se numa sociedade
II — A EXPERIÊNCIA MODERNIS- de estrutura agrária, controlada por uma
TA E O PROGRESSO DE oligarquia de base latifundiária. O cres-
SÃO PAULO cimento dos setores médios da popula-
ção urbana no interior de uma tradição
Alturas da Avenida. Bonde 3 agrário-colonial, fortemente vinculada
Asf altos. Vastos, altos repuxos modelo patriarcal, tem sido apontado
[da poesia como um dos principais fatores pertur-
Sob o arlequinal do céu badores do sistema vigente.
[oiro-rosa-verde. . .
As sujidades implexas do Ainda que São Paulo possa ser
[urbanismo. considerado como a mais notável exce-

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ção ao padrão latino-americano de cres- camadas médias e baixas da população,


cimento urbano-industrial, e ainda que o tornava-se a expressão mais viva das
Brasil se encontrasse, depois da Primeira novas forças que se inscreviam na socie-
Guerra, muito mais ligado ao ocidente dade brasileira.
europeu do que antes, seu ingresso na
era da técnica e do progresso é marcado A tomada de consciência de tais dis-
por um profundo desequilíbrio entre o crepâncias foi — como se sabe — um
novo sistema econômico e as estruturas dos fatores fundamentais que revelaram
sócio-mentais dominantes: a necessidade urgente de se elaborar um
projeto de atualização de nossas letras,
. . . o Brasil vê-se forçado a im- sobretudo naquele sentido de "retirar à
portar as técnicas que caracterizam literatura o seu caráter de classe, trans-
o capitalismo industrial (tecnologia formando-a num bem comum a todos".
mecânica, sistemas bancários e de (Cândido 13, p. 196) A incorporação
crédito, etc.. .) de sociedades que, da linguagem coloquial à expressão artís-
conjuntamente com essas técnicas, tica vem a ser, portanto, uma das gran-
desenvolveram organizações e há- des conquistas do movimento modernis-
bitos mentais. Mas atitudes e for- ta.
mas de estrutura social não podem
ser trazidas de fora e incorporadas Assim é que, situados diante de uma
como se fossem máquinas ou estra- realidade e de uma linguagem em cons-
das de ferro (Morse 17, p.295) tante transformação, informados através
de leituras ou pelo contato com as
É claro que tais desequilíbros vão tendências da vanguarda européia, os
ser atualizados pela linguagem que, não modernistas lançaram-se em seu projeto.
apenas fica sujeita aos processos da téc- Numa atitude alerta e progressista em
nica, (Campos 12, p. XIV) mas ainda relação à vida contemporânea — com-
às deformações e desvios decorrentes da promisso com a civilização tecnológica,
concentração de imigrantes europeus repúdio ao academismo conservador e
(em especial, italianos) e migrantes da ao passado esclerosado —, seu principal
zona rural na cidade. Como conseqüên- alvo, foi, num primeiro momento, "acer-
cia natural do influxo de grupos assim tar o relógio império da literatura na-
diferenciados, emerge uma nova fala cional", como anota Oswald de Andrade
urbana, também sem precedentes no em seu "Manifesto da Poesia-Pau-Brasil"
Brasil. (1924), ao definir o trabalho da assim
Se, mesmo antes dessas transforma- chamada "geração futurista" (primeira
ções, o dissídio entre a linguagem escrita etapa do movimento). (Andrade 4, p.9).
e a oral era notável, tanto mais o será
então. A mentalidade patriarcal domi- Contudo, a ruptura dos modernis-
nante vinha sendo mantida, defendida e tas com o passado trazia em si as mar-
veiculada por todos os órgãos oficiais cas dos desajustes e contradições. A
detentores do patrimônio cultural, desde necessidade de assumir o moderno e o
a imprensa até a Academia Brasileira de progressso vinha balizada por fortes vín-
Letras, reduto elitista da expressão mais culos com o passado, tanto no nível da
conservadora: purista, estética, ornamen- percepção quanto da expressão. Compa-
tal. De sua vez, a linguagem solta, deslei- rando-se as respostas dos poetas euro-
xada, dinâmica e funcional, falada pelas peus ao crescimento urbano-industrial

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com as dos nossos modernistas, é fácil mesmo, pode ser considerado como a
verificar que ocorre uma espécie de in- primeira "placa sensível" (no dizer de
versão. No caso dos poetas europeus Haroldo Campos) das referidas contra-
(nos fins do século XVIII e durante o dições.
século XIX), as dissonâncias se instau-
ravam entre a negação temática da civi- O tema da cidade é tratado sob o
lização industrial e a incorporação gra- ângulo básico da modernidade, porém
dativa dos recursos e técnicas produzi- muito mais ligado a Walt Whitman, Jules
das por ela. Para os nossos modernistas, Romains e Emile Verhaeren do que ao
ao contrário, os conflitos situavam-se futurismo de Marinetti. Aliás, esses três
entre a celebração programática da vida poetas, dentre outros, são alinhados por
moderna e, em muitos casos, a impos- Par Bergman como precursores do Futu-
sibilidade de adequação de suas formas rismo. (Bergman 6, p.208 e segs). Ou
de expressão ao registro dessa moderni- seja, o tema é tratado mais sob uma
dade. Como bem explica Haroldo de perspectiva humanística do que sob a
Campos, os "esforços de atualização da ótica de "modernolatria" de Marinetti. A
linguagem literária levados a cabo pelos cidade é humanizada e, muitas vezes,
modernistas de 22 acusam, como uma tratado como mulher:
placa sensível, o configurar-se dessas
contradições". (Campos 12, p.XIV) "Paulicea, minha noiva .. ."
"Mulher feita de asfalto e de lamas
De fato, entre o projeto e sua reali- [de várzea"
zação ocorrem dissonâncias às vezes in-
superáveis, como é o caso de muitos "Lady Macbeth feita de névoa
poetas que participaram ativamente da [fina"
movimentação modernista e da formula- "Mulher que és minha madrasta e
ção dos programas, mas não lograram [minha irmã"
atualizar em suas obras a nova estética.
Mencionem-se, por exemplo, Menotti dei Ou, então, é interiorizada a ponto
Picchia (dos mais ativos do grupo), Gui- de ocorrerem intersecções analógicas e
lherme de Almeida (um dos fundadores metafóricas entre o eu lírico (mundo
da revista KLAXON), Ribeiro Couto, subjetivo) e a cidade (mundo objetivo):
Tácito de Almeida, Plínio Salgado, entre "Minha alma corcunda como a avenida
os paulistas participantes da Semana, da São João"; "cidade arlequinal" e "meus
Arte Moderna. interiores arlequinais", para citar apenas
alguns exemplos.
É nesse quadro de conflitos e con-
tradições que aparece o primeiro registro Ademais, não são poucas as críticas
poético da cidade de São Paulo, em pro- aos "males da civilização":
cesso de industrialização. Paulicea Des-
vairada, de Mário de Andrade, escrita "Horríveis as cidades!
em fins de 1920 e publicada em 1922, Vaidades e mais vaidades . . .
(Andrade 2, p. 32-64) e não apenas a Nada de asas! Nada de poesia!
primeira expressão das novas configura- [Nada de alegria!
ções da cidade, como também o primei- Oh! os tumultuários das ausências!
ro livro de construção propriamente mo- Paulicea — a grande boca de mil
dernista publicado no Brasil. Por isso [dentes;

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e os jorros dentre a língua trissulca ção moderna que ainda não com-
de pus e de mais pus de preende bem. (p.14)
[distinção. ."
("Os Cortejos") Não sou futurista (de Marinetti).
Disse e repito-o. Tenho pontos de
"Necessidade a prisão contacto com o futurismo. Oswald
para que haja civilização?" de Andrade, chamando-me de fu-
turista, errou, (p.16)
("Paisagem nº 1")

"— Futilidade, civilização . . . " Minhas reivindicações? Liberdade.


Uso dela; não abuso. Sei embridá-
(verso-refrão do poema "Do- la nas minhas verdades filosóficas
mingo") e religiosas;... (p.21-22)
"Deus recortou a alma de Paulicea Assim, se sua leitura da vanguarda
num cor de cinza sem odor . . . européia é balizada por aquilo que Má-
Oh! para além vivem as primaveras rio chama de "minhas verdades filosófi-
[eternas! . , . cas e religiosas", sua leitura do progresso
Mas os homens passam de São Paulo é marcada por fortes os-
sonambulando.. . cilações entre a aceitação da civilização
E rodando num bando nefário, moderna e nostálgica negação dela.
vestidas de eletricidade e gazolina,
as doenças jocotoam em redor ..." O "papa do modernismo" conside-
("Paisagem nº 2") rava as propostas futuristas, especial-
mente a temática urbana e a celebração
A perspectiva humanista é muito da máquina, como um dos caminhos pa-
mais adequada à formação católica de ra a arte moderna, não o único, desde
Mário de Andrade do que qualquer exal- os "temas eternos" (universo, pátria,
tação futurista da máquina, da velocida- amor, etc.) são "passíveis de afeiçoar pe-
de, da violência e da guerra. O mesmo la modernidade". Daí a afirmação fun-
se pode dizer de sua posição em relação damental, referente à artificialidade dos
ao passado. No "Prefácio Interessantís- temas modernos:
simo" (Andrade 2, p. 13-32) — primei-
Escrever arte moderna não significa
ra elaboração teórica sistemática da poé-
jamais para mim representar a vida
tica modernista —, escrito após a cria-
actual no que tem de exterior; au-
ção dos poemas de Paulicea, encontram- tomóveis, cinema, asfalto. Si estas
se afirmações como estas: palavras frequeintam-me o livro
não é porque pense com elas es-
E desculpe-me por estar tão atra- crever moderno, mas porque sendo
sado dos movimentos artísticos meu livro moderno, elas têm nele
atuais. Sou passadista, confesso. sua razão de ser. ("Prefácio",
Ninguém pode se libertar duma só p.28-29)
vez das teorias-avós que bebeu; e
o autor deste livro seria hipócrita Para Mário de Andrade assumir o
si pretendesse representar orienta- moderno significava, portanto, assumir a

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expressão da modernidade e não apenas valente à simultaneidade do futurismo e


escrever sobre temas modernos (*). do cubismo. Mário de Andrade a enten-
de como um dos "recursos estéticos" da
Contudo, a leitura das idéias estéticas, poesia moderna, ao lado da substituição
contidas no "Prefácio Interessantíssimo", da ordem intelectual pela ordem sub-
e dos poemas da Paulicea Desvairada consciente, da rapidez e da síntese. Para
permite constatar que, a essa altura, o a adequada expressão desses recursos de
poeta era mais avançado em suas con- natureza estética, há os chamados "re-
cepções estéticas — ainda que marcadas cursos técnicos": verso livre, rima livre
pelo "vezo psicologizante", como apon- vitória do dicionário (equivalente às
taram alguns críticos — do que na prá- "palavras em liberdade" de Marinetti).
tica poética. O que se torna ainda mais
significativo pelo fato de as duas formas Sem entrar nos detalhes, menciono
de registro da estética modernista integra- tais aspectos da teoria poética elaborada
rem um único conjunto textual. Assim, por Mário de Andrade, a fim de obser-
contrariamente àquela afirmação, acima var como se realiza a simultaneidade —
citada, sobre a artificialidade dos temas um dos procedimentos fundamentais da
e palavras modernos, pode-se dizer que arte de vanguarda no século XX — na
Mário de Andrade conseguiu escrever so- construção mesma dos poemas. Como
bre o tema moderno da cidade grande, se explicita melhor na Escrava, a simul-
muito mais do que criar uma expressão taneidade "originar-se-ia tanto da vida
poética moderna. atual como da observação do nosso ser
interior" e as leis proclamadas pela es-
No "Prefácio" colocam-se os dois tética da nova poesia "fazem parte do
pólos básicos sobre os quais se funda- moto lírico, sempre em constante mu-
menta sua reflexão estética: o lirismo dança". (Andrade 1, p.225-265) Assim
que brota do subconsciente e a arte, tra- é que nos poemas da Paulicea, a mul-
balho consciente da depuração. Mais es- tiplicidade não se restringe aos aspectos
pecificamente, Mário refere-se à natu- do mundo exterior (a cidade de São
reza psicológica do lirismo e do conceito Paulo), mas também ao mundo interior
de poesia como arte. Aí também se en- (eu lírico). À "cidade arlequinal" cor-
contram os esboços de sua teoria sobre respondem os "interiores arlequinais",
o verso harmônico e o verso polifônico, do que resulta a variabilidade das per-
ambos meios modernos de ruptura com cepções e sensações do eu lírico que
o lógico-discursivo dominante no verso apreende as transformações múltiplas da
melódico, praticado sobretudo pelos realidade.
poetas parnasianos.
Tais processos são representados
A polijonia poética, que será me- através de recursos técnicos (verso har-
lhor desenvolvida em A Escrava que não mônico e polifônico) e também através
é Isaura (escrita em 1922, publicada em da palavra a;/eouina/-palavra-chave ou
1925), (Andrade 1, p. 195-300) é equi- clichê da obra —, sugestão plástica bus-

(*) Na conferência de 1942, "O movimento modernista", Mário declara que desde
que lera Villes Tentaculares, de Emile Verhaeren (após já conhecer alguns futuristas de
última hora), pensara em "fazer um livro de poesias 'modernas', em verso-livre" sobre
uma cidade. (Andrade 3, p. 233).

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cada no cubismo, especialmente nos cidade de São Paulo quano as respostas


"Clowns" de Robert Dellaunay. A ver- múltiplas e contraditórias do poeta.
satilidade conotativa do signo "arle-
quim" já se apresenta no primeiro poe- Um dos exemplos temáticos mais
ma do livro — "Inspiração" —, onde notáveis nesse sentido é o que se refere
se referem aos múltiplos aspectos do ao conflito entre o velho e o novo no
mundo objetivo e subjetivo: processo de transformação da realidade.
Tal conflito encerra os binômios pas-
São Paulo! comoção de minha sado/presente, primitivo/civilizado, que
[vida.. . coexistem tanto no mundo objetivo ("es-
Os meus amores são flores feitas tátuas de bronze nu correndo eternamen-
[ de original. . . te, / num parado desdém pelas veloci-
Arlequinal.. . Traje de dades . . ."), quanto no mundo subjetivo
[losangos .. . Cinza e ouro . . . ("Sou um tupi tangendo um alaúde").
Luz e bruma. . . Forno e inverso
[morno. .. No poema "O domador", por exem-
plo, um dos mais bem sucedidos no li-
vro, atualizam-se alguns dos procedi-
Mas a idéia de multiplicidade, mentos definidores da poética modernis-
fragmentação e simultaneidade contida ta: a simultaneidade ou polifonia, admi-
na palavra não basta, por si só, para o ravelmente realizada sobretudo nos três
realização de procedimentos modernos primeiros versos; a incorporação de uma
no processo de construção do texto. Da popular paródia do Hino Nacional à es-
mesma forma que a exploração do ver- trutura do texto erudito (nos dois pri-
so harmônico e polifônico limita-se a meiros versos da última estrofe transcrita
rupturas muito tênues com o lógico-dis- abaixo); a exploração de imagens vi-
cursivo, não chegando, portanto, a con- suais; para citar apenas alguns. Leiam-se
ferir ao discurso a modernidade e equilí- os três versos iniciais do poema:
brio desejados. O uso excessivo das re-
ticências (para suspender as idéias con- Alturas da Avenida. Bonde 3
tidas nas frases nominais) e dos pontos Asf altos. Vastos, altos repuxos de
de exclamação são índices claros da im- [poeira
possibilidade de sustentar a simultanei- sob o arlequinal do céu
dade do nível da linguagem. Funcionam [oiro-rosa-verde. ..
como verdadeiras muletas para indica-
ção de quebras na linearidade do discur- A partir da segunda estrofe, o
so, como se pode verificar nos versos de poeta se introduz como personagem na
"Inspiração" transcritos acima. cena urbana do progresso, da técnica e
das transações bancárias, ao mesmo
A defasagem entre a proposta ou tempo que explica sua dualidade básica
a intenção e o fazer poético ilumina algu- (entre o presente e o passado, o primiti-
mas das dissonâncias atrás comentadas, vo e o civilizado, a tradição e a moder-
dissonâncias essas que se transferem da nidade), justamente para afirmar a ne-
realidade contraditória e da percepções cessidade de se assumir o presente, re-
do poeta para a "placa sensível" da obra presentado pela imagem final do "filho
de arte. Por isso, a leitura dos poemas de imigrante/, loiramente domando um
revela tanto os aspectos contrastantes da automóvel".

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Mário, paga os duzentos réis. "Meu pai foi rei!


São cinco no banco: um branco, — Foi. — Não foi. — Foi.
uma noite, um oiro [Não foi".
um cinzento de tísica e Mário . . . Onde as tuas bandeiras?
Solicitudes! Solicitudes! Onde o teu rio frio encanecido
[pelos nevoeiros,
Mas. . . olhai, oh meus olhos
contando histórias aos sacis? .. .
[saudosos dos ontens
esse espetáculo encantado da Meu querido palimpsesto sem
[Avenida! [valor!
Revivei, oh gaúchos paulistas Crônica em mau latim
[ ancestremente! cobrindo uma écloga que não seja
e oh! cavalos de cólera sangüínea! [de Virgílio! .. .
Laranja da China, laranja
E o poema "Paisagem nº 4, que
[da China, laranja da China! procede a uma crítica violenta aos as-
pectos econômicos e políticos da crise
Abacate, cambucá e tangerina! do café, situados no confronto entre a
Guardate! Aos aplausos do indústria e a agricultura ("Na confluên-
esfusiante clown, cia o grito inglês da São Paulo Rail-
heróico sucessor da raça heril dos way. . . Mas as ventaneiras da desilu-
[bandeirantes, são! a baixa do c a f é ! . . . ) , termina esta
passa galhardo um filho de blague:
[imigrante,
loiramente domando um Oh!, este orgulho máximo de ser
[automóvel! paulistamenteü!
Ainda que esteja me limitando a
Aceitar o imigrante, seja como al- apenas alguns dos aspectos de Paulicea,
guém que já alcançou status, como no as dissonâncias levantadas até aqui ser-
poema "O domador", seja como alguém vem, pelo menos, para localizar a prá-
que ainda está lutando como a "Costu- tica poética do primeiro livro modernis-
reirinha de São Paulo",/ítalo-franco-lu- ta no contexto geral dos problemas en-
so-brasílico-saxônica", do poema "Tu", frentados pelos "rapazes de São Paulo"
é aceitar e assumir a sociedade industrial em seu projeto de renovação e atualiza-
e o progresso de São Paulo. Contudo, ção da literatura brasileira. Apesar de
no poema que se segue imediatamente a todas as suas limitações — deve-se res-
esse — "Anhangabaú" — emerge a crí- saltar —, Mário de Andrade logrou
tica, emocional e nostálgica, à destruição apresentar uma nova e instigante leitura
do natural e do primitivo pelo progres- da cidade de São Paulo, bem como con-
so cosmopolita. seguiu romper, ainda que de forma he-
sitante, com a tradição acadêmica e con-
servadora da prática poética então do-
Estes meus parques do minante. Como diz Mário da Silva Brito,
a respeito da Paulicea Desvairada;
[Anhangabaú ou de Paris,
onde as tuas águas, onde as mágoas O livro canta São Paulo, com seu
[dos teus sapos? pitoresco, seus vícios, vaidades e

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população de sangue misturado. Crescem-lhe os cornos, descem-


Satiriza a burguesia e os políticos, [lhe as barbinhas...
assinala a presença do povo nas
E vi que os chapéus altos do meu
fábricas e anota em versos que fe-
[Estado amado,
rem a aristocracia e o tradiciona-
lismo: ( . . . ) (Brito 9, p. 21). com os triângulos de madeira no
[pescoço,
A sátira da burguesia e dos polí- nos verdes esperanças, sob as fran-
ticos é evidente nos poemas "Ode ao [jas de oiro da tarde,
burguês" (que provocou vaias e revol- se punham a pastar
ta quando foi lido durante a "Semana rente ao palácio do senhor presi-
de Arte Moderna") e "O Rebanho", [ dente. ..
onde se critica o Congresso e, através Oh! minhas alucinações!
de um processo de deformação grada- ("O Rebanho")
tiva, os deputados são transformados em
cabras: Em suma, Paulicea Desvairada po-
de ser considerada como uma resposta
Eu insulto o burguês! O burgues- tanto crítica quanto emocional à mul-
ia níquel! tiplicidade e às ambigüidades de uma
o burguês-burguês! sociedade em processo de transforma-
A digestão bem feita de São Paulo! ção. O próprio título sugere o modo de
O homem-curva! o homem-náde- relacionamento do poeta com a expe-
[gas! riência: o adjetivo "Desvairada" refe-
O homem que sendo francês, re-se ao tumulto da cidade, bem como à
[brasileiro, italiano, perplexidade, senão espanto, do poeta
é sempre um cauteloso pouco-a- diante da nova configuração da Pauli-
[pouco! cea ainda, na verdade, não tão desvai-
("Ode ao Burguês") rada assim! Apesar do adjetivo funcio-
nar como modificador do substantivo
Oh! minhas alucinações! "Paulicéia" no sintagma-título, evoca
Mas os deputados, chapéus altos, mais diretamente a alucinação do pró-
mudavam-se pouco a pouco em prio poeta, (*) representada freqüente-
[cabras! mente nos poemas através de expres-

(*) Na conferência "O Movimento Modernista", Mário de Andrade explica a reação


de sua "parentada" quando mostrou a "Cabeça de Cristo" que comprara de Brecheret por
seiscentos mil réis: "Berravam, berravam. Aquilo era até pecado mortal! Estrilava a senhora
minha tia velha, matriarca da família. Onde se viu Cristo de trancinha! era feio! medo-
nho! Maria Luisa, vosso filho é um 'perdido' mesmo!" Nesse mesmo dia escreve o título do
livro de poemas sobre São Paulo. A descrição de como isso ocorreu vem esclarecer o
que estou sugerindo sobre o significado do adjetivo "desvairada": "Fiquei alucinado, palavra
de honra. Minha vontade era bater. Jantei por dentro, num estado inimaginável de estraça-
lho. Depois subi para» o meu quarto, era noitinha, no intenção de me arranjar, slair, espai-
recer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo. Me lembro que cheguei à
sacada, olhando sem ver o meu largo. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos cofêres
de aluguel. Eu estava aparentemente calmo, como que indestinado. Não sei o que me
deu. Fui até a escrivaninha abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara,
''Paulicéia Desvairada". O estouro chegara afinal, depois de quase ano de angustia inter-
rogativas. Entre desgostos trabalhos urgentes, dívidas, brigas, em pouco mais de uma
semana estava jogado no papel um canto bárbaro, duas vezes maior talvez do que isso
que o trabalho de arte deu num livro. (Andrade 3, p. 234).

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soes como: "Oh! minhas alucinações!" O passo seguinte do movimento


(repetida quatro vezes no poema "O Re- modernista foi a fase das tendências
banho"), ou "minha loucura" (nos poe- nacionalistas, inauguradas com a publi-
mas "Rua de São Bento" e "Religião"). cação do "Manifesto da Poesia Pau-
No oratório profano "As enfibraturas do Brasil" de Oswald de Andrade, em
Ipiranga", último poema do livro, o so- 1924.
lo-balada que rompe as vozes coletivas É claro que algumas das experiên-
é designado como "Minha loucura" e cias de Mário de Andrade em Paulicea
funciona como uma espécie de núcleo Desvairada já se configuram como ele-
coordenador do poema. mentos de abertura para o nacionalis-
mo: a crítica aos aspectos políticos e
Muitos outros aspectos poderiam sociais da cidade e do País; as intromis-
ter sido escolhidos para explicar as re- sões estruturais de criações populares no
lações entre o poeta e a cidade no con- discurso erudito; o uso de diálogos ur-
texto das contradições modernas. Mas banos, sob a forma de auto-depoimento
creio que posso terminar estas anota- da cidade; pregões populares; elementos
ções dizendo que aquilo que Mário de folclóricos; etc.. . . (Sem mencionar
Andrade apreendeu do processo de suas pesquisas sistemáticas no campo do
crescimento de São Paulo, nas primeiras folclore e da cultura popular em geral).
décadas do século XX, viria a ser um Mas foi somente em 1924, com a origi-
dos problemas centrais a ser enfrentado nal soldagem entre primitivismo e indus-
pela produção literária nacional. trialização, proposta e realizada por Os-
wald de Andrade, que o caminho do na-
A realidade brasileira, contraditória, cionalismo crítico foi lançado em ter-
composta de áreas subdesenvolvidas e mos polêmicos e programáticos (*).
centros industriais em acelerado ritmo
de progresso, permanece ainda como o Se, como observei anteriormente,
principal desafio a ser enfrentado por os estímulos que agiam sobre o futuris-
aqueles que procuram novos meios de mo para a celebração da vida moderna
expressão e representação artística. repercutiram entre os nossos modernis-
tas sob a forma de entraves devidos às
contradições de um processo industrial
III — ALGUMAS PROJEÇÕES incipiente instalado numa sociedade de
estrutura rural e patriarcal, por outro
"Há uma história da literatura que lado, os estímulos que levaram as van-
se projeta na cidade de São Paulo; guardas européias, em especial o cubis-
e há uma história da cidade de mo, à exploração da arte e cultura pri-
São Paulo que se projeta na litera- mitivas encontravam aqui condições as
tura." mais favoráveis, ou melhor, encontra-
vam-se na própria realidade brasileira.
— Antônio Cândido — Como observa Antônio Cândido:

(*) É preciso salientar o grande interesse de Oswald de Andrade pelo problema do


nacionalismo. Já em 1915 escrevera um artigo chamado "Em prol de uma pintura na-
cional", onde enfatiza a importância das "raíze nacionais" no processo de renovação e
atualização da nossa arte e cultura. Esse artigo f oi publicado em "O Piralho", n.° 168, ano
IV, jan., 1915 (Apud Brito 8, p. 23).

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SIMON, Iumna Maria — Linguagem poética e crescimento urbano-industrial, Rev. Let.,
São Paulo, 20:33-48, 1980.

. . . no Brasil as culturas primiti- uma — "Postes da Light" — das nove


vas se misturam à vida quotidiana partes em que não são estruturados os
ou são reminicências ainda vivas poemas), mas na "redescoberta do Bra-
de um passado recente. As terrí- sil" em seus múltiplos aspectos (históri-
veis ousadias de um PICASSO, cos (geográficos, sociais), serem os mais
um BRANCUSI, um MAX JA- radicais em termos de linguagem e de
COB, um TRISTAN TZARA, construção, bem como em termos de uma
eram, no fundo, mais coerentes visão revolucionária da história e cultura
com a nossa herança cultural que nacionais. Uma poesia de tipo industrial,
com a deles (Cândido 13, p. 145). assim explicada por Haroldo de Campos:

No já citado "Manifesto da Poesia Oswald recorreu a uma sensibili-


Pau-Brasil", lê-se: dade primitiva ( . . . ) e a uma
poética de concretude ( . . . ) para
Temos a base dupla e presente comensurar a literatura brasileira
— a floresta e a escola. A raça às novas necessidades de comuni-
crédula e dualista e a geometria, cação engendradas pela civilização
a álgebra e a química logo depois técnica. (Campos 12, p. LII).
da mamadeira e do chá de erva-
doce. Um misto de "dorme nenê Ou, como explica o próprio Os-
que o bicho vem pega" e de equa- wald em seu manifesto de 1924:
ções. O trabalho contra o detalhe natu-
ralista — pela síntese; contra a
morbidez romântica — pelo equi-
líbrio geômetra e pelo acabamen-
Obuses de elevadores, cubos de to técnico; contra a cópia, pela
arranha-céus e a sábia preguiça invenção e pela surpresa. (An-
solar. A reza. O carnaval. A ener- drade 4, p. 8).
gia íntima. O sabiá. A hospitalida-
de um pouco sensual, amorosa. A No âmbito das projeções que estou
saudade dos pagés e os campos procurando sumariar aqui, resta mencio-
de aviação militar. Pau-Brasil. nar ainda a retomada das propostas e
(Andrade 4, p. 9). realizações oswaldianas pelos criadores
da Poesia Concreta. Dessa poesia que se
E não deixa de ser significativo o lançou em São Paulo, nos meados da
fato de a tendência primitivista ter sido década de 50, como um dos mais im-
proposta e desenvolvida em São Paulo, portantes projetos de "radicalização es-
seja por Oswald de Andrade, com seus tético-industrial" de que se tem notícia
manifestos e sua prática, seja por Mário nos últimos 25 anos. Em seu trabalho
de Andrade com sua pesquisas e sua prá- de "criação", os precursores dessa no-
tica, seja ainda pelas correntes do nacio- va linguagem, os poetas concretos, ele-
nalismo ufanista e laudatório ("Verdea- geram Oswald de Andrade como o
marelismo" e "Anta"). Como não deixa mais importante "inventor" no quadro
de ser significativo, o fato de os poemas do movimento modernista brasileiro.
Pau-Brasil (1925) de Oswald de Andra-
de, não inspirados na temática urbana Talvez tivesse sido melhor começar
ou da técnica (a que é dedicada apenas minhas observações neste ponto e tra-

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SIMON, lumna Maria — Linguagem poética e crescimento urbano-industrial, Rev. Let.,
São Paulo, 20:33-48, 1980.

çar o percurso de uma linha de expe- a cidade de São Paulo — da Poesia


rimentação inscrita na civilização indus- Concreta ao movimento modernista.
trial e tecnológica e tendo como palco

REV- LET./221

SIMON, l u m n a Maria — Poetical language and urban-industrial growth. Rev. Let.,


São Paulo, 20:33-48, 1980.
SUMMARY: The impact of urban-industrial growth on modern lyrics is
approached from the angle of the dissonances which occurred between the the.
matic representations and the expressive procedures. Thus, the European poets'
responses to the Industrial Revolution and the emergence of the large cities
are confronted with those of the 1922 Brazilian modernists in relation to the
industrialization of São Paulo. In the latter, contrary to what happened with ther
former ones, the conflicts take place between the programatic celebration of mo-
dern life and, at first, the impossibility of adequating their form of expressions
to the record of said modernity. Thus the thematic-expressive desiquilibrium in
Paulicéia Desvairada, as well as the adequations obtained in later works are
explained.
UNITERMS: Industrialization; Urbanization; Modern lyrics; Brazilian Mo-
dernism; Mário de Andrade; Paulicéia Desvairada; Prefácio Interessantíssimo;
Oswald de Andrade; Pau-Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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