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Literatura FRENTE 2

MÓDULO 37 Pré-Modernismo (I): Euclides da Cunha e Lima Barreto

1. Conceito e âmbito nível do conteúdo, na problematização 2. Contexto histórico


da realidade brasileira, na crítica às As primeiras décadas do século
O Pré-Modernismo não configura instituições arcaicas, no regionalismo XX têm como marca a contradição
um estilo literário ou uma escola, crítico e vigoroso e no espírito entre a postura tradicionalista da oli-
com um programa definido, com inconformista e rebelde que, de garquia rural e a inquietação dos se-
propostas estéticas específicas. Não é diversas maneiras, pode ser rastreado tores urbanos, esta última matizada de
como o Romantismo, Realismo, Sim- em Euclides da Cunha, Lima Barreto, diversas tendências assimiladas da
bolismo etc. Trata-se de um período Monteiro Lobato e Graça Aranha. América do Norte e da Europa, pelo
cronológico marcado pelo sincretis- O período pré-modernista convi- imigrante, pela classe média, pelo
mo (= fusão, mistura) de diversas ten- veu com diversas correntes do século operariado e pelo subproletariado,
dências, identificado primeiramente novos atores que, ainda timidamente,
XIX, que já se iam esgotando quando
por Tristão de Ataíde (Alceu de Amo- se projetam na cena política.
da “explosão” modernista de 1922.
roso Lima), que cunhou a expressão Entre os fatos históricos que mar-
Daí o caráter de estagnação, de
Pré-Modernismo para designar um cam o período, destacamos: a Revolu-
imobilismo que impregnou a literatura ção de Canudos, o fenômeno do
conjunto de autores que, entre 1902 oficial das academias e salões literá- cangaço e do fanatismo religioso, no
(Os Sertões, de Euclides da Cunha, e rios, que assistiram (= ampararam) os Nordeste; a Revolta da Chibata, a
Canaã, de Graça Aranha) e 1922 últimos suspiros do Parnasianismo revolta contra a vacina obrigatória, no
(Semana de Arte Moderna), repre-
(Alberto de Oliveira, Raimundo Rio de Janeiro; a Guerra do Contes-
sentam a aliança ou transição entre tado, em Santa Catarina; as greves
Correia, Bilac, Vicente de Carvalho
as correntes do fim do século XIX e as operárias dos imigrantes do Brás e da
ainda escreviam); do Neoparnasia-
antecipações da modernidade. Mooca, em São Paulo (1917).
nismo (Amadeu Amaral e Martins
Assim, as chamadas correntes
Fontes); da prosa tradicionalista de 3. Euclides da Cunha (Cantagalo-
pré-modernistas marcam-se por uma
feitio clássico (Rui Barbosa e Joaquim RJ, 1866 – Rio de Janeiro, 1909)
antinomia: o moderno versus o an-
Nabuco); do regionalismo realista-
timoderno, a renovação versus o "Misto de celta, de tapuia e
naturalista (Simões Lopes Neto,
conservadorismo, aliando (= sin- grego", como se autodefinia, Eucli-
Valdomiro Silveira, Afonso Arinos) e des da Cunha foi militar (expulso do
cretizando) tendências diversas.
até neoclássicos e neorromânticos Exército), engenheiro, jornalista, pro-
• O aspecto conservador, an-
encontraram espaço para suas tardias fessor, acadêmico e grande escritor.
timoderno, pode ser localizado na
manifestações. Acompanhou, como correspon-
sobrevivência da mentalidade positi-
Em síntese, quanto à linguagem e dente do jornal A Província de São
vista e determinista dos realistas
ao estilo, os pré-modernistas expres- Paulo (hoje O Estado), as operações
(naturalistas) e parnasianos, e no
sam-se como realistas, naturalistas, do Exército contra os rebeldes de
estilo, no código, na linguagem, que,
impressionistas e simbolistas, Canudos, permanecendo no Sertão da
com poucas ousadias, permaneceram
assimilando em graus diferentes as Bahia de agosto a outubro de 1897.
fiéis aos modelos realistas (Machado, Em 1898 e 1901, escreveu, primei-
Aluísio, Eça, Zola, Flaubert, Balzac). características desses estilos. Quanto
ro em Descalvado, depois em São
Vale observar que o Modernismo de aos temas, ao conteúdo, é que se
José do Rio Pardo, Os Sertões, cuja
1922 representou, sobretudo, uma aproximam dos modernos, pelo publicação, em 1902, alcançou reper-
ruptura em termos de linguagem, do compromisso com a realidade cussão nacional.
código, e, nesse sentido, os pré- brasileira: o sertão da Bahia (Euclides Além de Os Sertões, deixou ou-
modernistas foram, em diferentes da Cunha); o subúrbio carioca (Lima tros livros sobre problemas brasileiros:
medidas, antimodernos. Barreto); o Vale do Paraíba paulista Contrastes e Confrontos, À Margem
• O aspecto antecipador da (Monteiro Lobato); a adaptação do da História, Peru versus Bolívia, Re-
modernidade localiza-se mais no imigrante ao trópico (Graça Aranha). latório sobre o Alto Purus.

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❑ Características grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, Viagem Maravilhosa procurou, por
• O cientista e o artista com uma simplicidade a um tempo ridícula e
um lado, oferecer uma visão total da
adorável.
Primeiro grande pensador social realidade brasileira contemporânea e,
É o homem permanentemente fatigado.
brasileiro, Euclides da Cunha harmo- por outro lado, a história de um
Reflete a preguiça invencível, a atonia9
niza o rigor científico, a erudição, a
muscular perene10, em tudo: na palavra remo- homem que se realizou pelo amor e
formação positivista e determinista, rada11, no gesto contrafeito, no andar desapru-
a exatidão do matemático e pela satisfação de seus ideais.
mado, na cadência langorosa12 das modinhas, na
engenheiro, com a paixão pela tendência constante à imobilidade e à quietude.
palavra e a potência verbal, Entretanto, toda esta aparência de can- 5. Lima Barreto
provando que a arte e a ciência não se saço ilude. (Rio de Janeiro, 1881-1922)
opõem. (Euclides da Cunha, Os Sertões)
• Crítica
Sua obra Os Sertões analisa e Vocabulário
procura compreender o fenômeno do 1 – Desempeno: elegância. 2 – Hércules: figura
fanatismo religioso no sertão, especial- mitológica, símbolo de força física. Quasímodo:
mente o caso Canudos. Apresenta o corcunda de Notre-Dame, símbolo de feiura.
3 – Fealdade: feiura. 4 – Aprumo: elegância,
visão determinista: A Terra, O Homem,
altivez. 5 – Displicência: tédio, apatia. 6 – So-
A Luta (meio, raça, momento). frear: refrear. 7 – Espenda: parte da sela sobre a
Primeira denúncia vigorosa que se qual assenta a coxa. 8 – Celeremente: rapi-
faz na cultura brasileira contra a damente. 9 – Atonia: fraqueza. 10 – Perene:
miséria e o abandono em que vive o eterno. 11 – Remorado: demorado. 12 – Lan-
sertanejo. goroso: lânguido, lento, arrastado.

4. Graça Aranha (São Luís, 1868 –


TEXTO
Rio de Janeiro, 1931)

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não


tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neuras- ❑ Obras
tênicos do litoral. Canaã (romance)
A sua aparência, entretanto, ao primeiro Malasarte (drama folclórico em
lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a
três atos)
plástica impecável, o desempeno1, a estrutura Lima Barreto.
corretíssima das organizações atléticas.
Estética da Vida (obra filosófica)
É desgracioso, desengonçado, torto. Viagem Maravilhosa (romance)
Hércules-Quasímodo2, reflete no aspecto a “Espírito Moderno” (conferência) ❑ Obras
fealdade3 típica dos fracos. O andar sem fir- “A Emoção Estética na Arte Mo- Recordações do Escrivão Isaías
meza, sem aprumo4, quase gingante e sinuoso, derna” (conferência) Caminha (romance) – 1909
aparenta a translação de membros desarticula-
Triste Fim de Policarpo Quaresma
dos. Agrava-o a postura normalmente abatida,
num manifestar de displicência5 que lhe dá um (romance) – 1911 (em folhetins) e
❑ Apreciação crítica
caráter de humildade deprimente. A pé, quando 1915 (em livro)
Canaã, romance ao qual deveu
parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro Numa e Ninfa (romance da vida
umbral ou parede que encontra; a cavalo, se
sua celebridade, é construído a partir
da observação de uma pequena contemporânea) – 1915
sofreia6 o animal para trocar duas palavras com
um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, comunidade de imigrantes alemães Vida e Morte de M. J. Gonzaga de
descansando sobre a espenda7 da sela. (Milkau e Lentz), no Espírito Santo, Sá (romance) – 1919
Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça evidenciando o contraste entre o ale- Histórias e Sonhos (contos) –
trajetória retilínea e firme. Avança celere-
mão, fruto de uma civilização europeia 1956
mente8, num bambolear característico, de que
adiantada, e o miserável homem rural Cemitério dos Vivos (incompleto)
parecem ser o traço geométrico os meandros
das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca e provinciano brasileiro. – 1956
pelo motivo mais vulgar, para enrolar um Malasarte, drama característico Clara dos Anjos (romance) – 1948
cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira simbolista, representa o conflito do
conversa com um amigo, cai logo — cai é o ❑ Apreciação crítica
indivíduo, dividido entre o desejo vio-
termo — de cócoras, atravessando largo tempo
lento dos prazeres e as forças da mo- Recordações do Escrivão Isaías
numa posição de equilíbrio instável, em que
todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos ral (Malasarte, Dionísia e Eduardo). Caminha, romance em primeira pes-

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soa, autobiográfico, retrata a vida de batráquios2 pararam; a bulha continuava. O ma-


TEXTO jor levantou-se, agarrou o castiçal e foi à depen-
um grande jornal da época. Sátira a
dência da casa donde partia o ruído, assim
figurões da imprensa e das letras. A casa estava em silêncio; do lado de fora, mesmo como estava, em camisa de dormir.
Extravasamento de suas decepções e não havia a mínima bulha1. Os sapos tinham Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos
suspendido um instante a sua orquestra cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do
revoltas. pé. Quase gritou. Abaixou a vela para ver melhor
noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que
Romance em terceira pessoa, Darwin escutava com prazer esse concerto dos e deu com uma enorme saúva agarrada com
Triste Fim de Policarpo Quaresma mos- charcos. Tudo na nossa terra é extraordinário! toda a fúria à sua pele magra. Descobriu a
pensou. Da despensa, que ficava junto a seu origem da bulha. Eram formigas que, por um
tra com clareza o ridículo e patético de buraco no assoalho, lhe tinham invadido a des-
aposento, vinha um ruído estranho. Apurou o
um nacionalismo fanatizante e ana- ouvido e prestou atenção. Os sapos recome- pensa e carregavam as suas reservas de milho
crônico. O maior sonho de Policarpo é çaram o seu hino. Havia vozes baixas, outras e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados
mais altas e estridentes; uma se seguia à outra, abertos por inadvertência3. O chão estava ne-
“o tupi como língua oficial no Brasil”. gro, e, carregadas com os grãos, elas, em pelo-
num dado instante todas se juntaram num
Clara dos Anjos, romance autobio- uníssono sustentado. Suspenderam um instan- tões cerrados, mergulhavam no solo em busca
gráfico, é a triste ruína de um homem te a música. O major apurou o ouvido; o ruído da sua cidade subterrânea.
continuava. Que era? Eram uns estalos tênues; (Lima Barreto,
que se entrega à embriaguez. Triste Fim de Policarpo Quaresma)
parecia que quebravam gravetos, que deixavam
outros cair ao chão... Os sapos recomeçaram; o
regente deu uma martelada e logo vieram os Vocabulário
baixos e os tenores. Demoraram muito; Qua- 1 – Bulha: barulho. 2 – Batráquio: sapo.
resma pôde ler umas cinco páginas. Os 3 – Inadvertência: descuido.

MÓDULO 38 Pré-Modernismo (II): Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos

1. Monteiro Lobato (Taubaté, 1882 – A Barca de Gleyre (correspondên- inteiramente o propósito de denúncia
São Paulo, 1948) cia com Godofredo Rangel) – 1944 de uma situação de indiferença,
deplorável. Por exemplo, Urupês e
❑ Vida • Literatura Infantil Cidades Mortas, os dois primeiros
Nasceu na chácara do Visconde de Reinações de Narizinho livros que deram consagração e
Tremembé, seu avô materno, hoje Viagem ao Céu popularidade ao A.”
conhecida como Chácara do Pica-Pau O Pica-Pau Amarelo (Antonio Candido e J. A. Castello,
Amarelo. Formou-se em Direito em São Emília no País da Gramática etc. Presença da Literatura Brasileira II)
Paulo, tendo participado intensamente
de atividades políticas estudantis.
Fundou a Companhia Editora Nacional; ❑ Apreciação crítica A principal faceta de sua produção
incentivou as campanhas do petróleo e “A sua obra é variada: contos, crô- literária são os contos, de cunho
do ferro, fundando, em 1931, a Cia. nicas e artigos, ensaios quase pan- regionalista, que enfocam o homem e
Petróleo do Brasil. Foi preso por fletários, e literatura infantil. a paisagem da região que se denomi-
escrever carta ao ditador Getúlio Vargas Destaca-se aqui o sentido da obra do naria “das ‘cidades mortas’”, isto é, o
sobre o problema do petróleo brasileiro. contista de feitio regionalista. Ela está decadente Vale do Paraíba. Criticou a
Mudou-se para a Argentina, regres- presa à experiência no interior, com- indolência do caboclo, “sempre de
sando no ano seguinte, 1947. preendido sobretudo nos limites da cócoras enquanto o Brasil esperava
região que se denominaria das ‘cida- por ele”, na famosa figura de Jeca
❑ Obras des mortas’, onde brilhou o fausto das Tatu; depois se desculpou, falando
Urupês (doze histórias tiradas do grandes fazendas de café do século das difíceis condições da vida do cam-
sertão paulista) – 1918 passado [XIX]. Constitui-se assim de ponês. Atacou publicamente o Mo-
Ideias de Jeca Tatu – 1918 flagrantes bem apanhados do homem dernismo, no artigo “Paranoia ou
Cidades Mortas – 1919 e da paisagem, embora tomados nos Mistificação?”, de 1917, escrito a
Negrinha (contos) – 1920 seus aspectos exteriores, para nos propósito de uma exposição de Anita
O Macaco que se Fez Homem – comunicar a sugestão de marasmo e Malfatti. A principal característica de
1923 indolência reinantes. E não disfarça sua linguagem é a oralidade.

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— Justamente por isso. Terra em que João Vem da psicogenética e alta luta
TEXTO Do feixe de moléculas nervosas,
Teodoro chega a delegado, eu não moro.
Adeus. Que, em desintegrações maravilhosas,
E sumiu. Delibera, e depois, quer e executa!
UM HOMEM DE CONSCIÊNCIA
(Monteiro Lobato, Cidades Mortas)
Vem do encéfalo1 absconso2 que a cons-
Chamava-se João Teodoro, só. O mais [tringe,
pacato e modesto dos homens. Honestíssimo, Vocabulário Chega em seguida às cordas da laringe,
com um defeito apenas: não dar o mínimo valor 1 – Deperecimento: definhamento. Tísica, tênue, mínima, raquítica...
a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de 2 – Rábula: advogado de limitada cultura.
menos importância no mundo era João Teodoro. 3 – Restolho: resto, sobra. Quebra a força centrípeta que a amarra,
Nunca fora nada na vida, nem admitia a 4 – Incubar: planejar. Mas, de repente, e quase morta, esbarra
hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito No molambo3 da língua paralítica!
(Augusto dos Anjos)
tempo não quis nem sequer o que todos ali 2. Augusto dos Anjos (Cruz do
queriam: mudar-se para terra melhor. Espírito Santo-PB, 1884 –
Mas João Teodoro acompanhava com Vocabulário
Leopoldina-MG, 1914) 1 – Encéfalo: cérebro. 2 – Absconso: recôndito,
aperto de coração o deperecimento1 visível de
oculto. 3 – Molambo: trapo.
sua Itaoca.
— Isto já foi muito melhor, dizia consigo. ❑ Vida
Já teve três médicos bem bons, agora só um e Paraibano, desde a infância enfer- ❑ “Não sou capaz de amar
bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje miço e nervoso, é, a rigor, um poeta mulher alguma!”
mal dá serviço para um rábula2 ordinário como inclassificável. Sua obra é constituída “Se algum dia o prazer vier
o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais de um único livro — Eu (1912) —, que, procurar-me, dize a este
por aqui. A gente que presta se muda. Fica o reeditado em 1919, passou a chamar- monstro que fugi de casa!”
restolho3. Decididamente, a minha Itaoca está- se Eu e Outras Poesias. O asco do prazer é expresso de
se acabando... Transformado em catecismo dos
João Teodoro entrou a incubar4 a ideia de
maneira contundente; a relação entre
pessimistas e em bíblia dos azarados os sexos é apenas “a matilha espan-
também mudar-se, mas para isso necessitava
e malditos, o livro Eu é de uma insti- tada dos instintos”, ou, “parodiando
dum fato qualquer que o convencesse de
gante popularidade, resistente a todos saraus cínicos, / bilhões de centrosso-
maneira absoluta de que Itaoca não tinha
mesmo conserto ou arranjo possível.
os modismos, impermeável às re- mas apolínicos / na câmara promíscua
— É isso, deliberou lá por dentro. Quando taliações da crítica e aos vermes do do vitellus”.
eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca tempo. Foi o poeta mais original de Reduzindo o amor humano à cega
não vale mais nada de nada, então arrumo a nossa literatura, no período que vai de e torpe luta de células, cujo fim não é
trouxa e boto-me fora daqui. Cruz e Sousa aos modernistas. senão criar um projeto de cadáver, o
Um dia aconteceu a grande novidade: a
poeta aspira, como Cruz e Sousa, à
nomeação de João Teodoro para delegado. ❑ “Eu, filho do carbono e do imortalidade gélida, mas luminosa, de
Nosso homem recebeu a notícia como se fosse
amoníaco” outros mundos onde não lateje a vida-
uma cacetada no crânio. Delegado, ele! Ele que
As leituras precoces de Darwin, instinto, a vida-carne, a vida-corrupção.
não era nada, nunca fora nada, não queria ser
Häckel, Lamarck, Schopenhauer e
nada, não se julgava capaz de nada...
Ser delegado numa cidadezinha daquelas é
outros, feitas na biblioteca de seu pai, As minhas roupas, quero até rompê-las!
coisa seriíssima. Não há cargo mais importante. É fundamentaram a postura existencial Quero, arrancado das prisões carnais,
o homem que prende os outros, que solta, que do poeta, a adesão ao Evolucionismo Viver na luz dos astros imortais,
manda dar sovas, que vai à capital falar com o de Darwin e Spencer e a angústia fun- Abraçado com todas as estrelas!
(Augusto dos Anjos,
governo. Uma coisa colossal ser delegado — e da, letal, ante a fatalidade que arrasta
“Queixas Noturnas”)
estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!... toda a carne para a decomposição.
João Teodoro caiu em meditação Fundem-se a visão cósmica e o deses-
profunda. Passou a noite em claro, pensando e pero radical, produzindo uma poesia ❑ “As palavras se desintegram
arrumando as malas. Pela madrugada botou-as violenta e nova em língua portugue- na minha boca como
num burro, montou no seu cavalinho magro e cogumelos mofados.”
sa. Combinou inovações arrojadas
partiu. (von Hofmannsthal)
com elementos provindos do Parna-
Antes de deixar a cidade foi visto por um
sianismo e do Simbolismo. Augusto dos Anjos vale-se muitas
amigo madrugador.
vezes de técnicas expressionistas na
— Que é isso, João? Para onde se atira tão
A IDEIA montagem de seus textos. O
cedo, assim de armas e bagagens?
— Vou-me embora; respondeu o retirante.
expressionismo, corrente estética
De onde ela vem?! De que matéria bruta situada nos limiares do Modernismo,
Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim. Vem essa luz que sobre as nebulosas
— Mas, como? Agora que você está representou uma reação contra o
Cai de incógnitas criptas misteriosas
delegado? Como as estalactites duma gruta?! impressionismo, contra o gosto pela
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nuance, contra o refinamento e Observe, nos versos a seguir, o BUDISMO MODERNO


sutileza na captação do momento. jogo de aliterações e efeitos sonoros:
A imagem é intencionalmente de- Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
formada e agrupada de maneira des- “Tísica, tênue, mínima, raquítica...”, Minha singularíssima pessoa.
“Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento”, Que importa a mim que a bicharia roa
concertante, por meio da
“Cinzas, caixas cranianas, cartilagens” , “De Todo o meu coração, depois da morte?!
transfiguração da realidade. Em lugar aberratórias abstrações abstrusas”, “Bruto, de
da delicadeza e da suavidade, a ima- errante rio, alto e hórrido, o urro / reboava”, “À Ah! um urubu pousou na minha sorte!
gem é deformada, por meio de um híspida aresta sáxea áspera e abrupta.” Também, das diatomáceas1 da lagoa
desenho violento, que acentua e bar- A criptógama2 cápsula se esbroa3
bariza a forma, aproximando-se, às Ao contato de bronca destra forte!
TEXTOS
vezes, do grotesco e da caricatura.
Daí o “mau gosto”, o “apoético” Dissolva-se, portanto, minha vida
que, em Augusto dos Anjos, são con- VERSOS ÍNTIMOS Igualmente a uma célula caída
vertidos em poesia. O jargão científico Na aberração de um óvulo infecundo;
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
e o termo técnico, tradicionalmente pro-
Enterro de tua última quimera.
saicos, não devem ser abstraídos de Mas o agregado abstrato das saudades
Somente a Ingratidão — esta pantera —
um contexto que os exige e os justifica. Fique batendo nas perpétuas grades
Foi tua companheira inseparável!
Do último verso que eu fizer no mundo!
Fazia-se mister uma simbiose de ter-
(Augusto dos Anjos)
mos que definissem toda a estrutura Acostuma-te à lama que te espera!
da vida (vocabulário físico, químico e O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável Vocabulário
biológico) e termos que exprimissem 1 – Diatomácea: micro-organismo que tem ca-
Necessidade de também ser fera.
o asco e o horror ante a existência. pacidade de sintetizar substâncias orgânicas
Apoiando-se na hipérbole, no pa- Toma um fósforo, acende teu cigarro! a partir de substâncias inorgânicas.
radoxo e na exploração de efeitos so- O beijo amigo é a véspera do escarro, 2 – Criptógama: espécie vegetal que não se
noros, Augusto dos Anjos funde a A mão que afaga é a mesma que apedreja. reproduz por meio de flores: as algas, os
musgos, os liquens e as samambaias.
inflexão simbolista e a retórica cientifi-
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, 3 – Esbroar: reduzir(-se) a pequenos fragmen-
cista, criando uma dicção singular, que Apedreja essa mão vil que te afaga, tos, a pó.
projeta a hipersensibilidade e a visão Escarra nessa boca que te beija!
trágica e mórbida da existência. (Augusto dos Anjos)

MÓDULO 39 Modernismo em Portugal e Fernando Pessoa ortônimo


1. A era da máquina No início do século XX, o mundo palavra e melhores condições de vida
vive o otimismo da Belle Époque: à humanidade.
(...) uma minoria abastada festeja, satisfei- Após a guerra, vem um período de
Eia! eia! eia! ta e deslumbrada, as descobertas e descompressão, os anos loucos, que
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria! invenções que se sucedem num ritmo atravessarão a crise de 1929, sendo
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica frenético e que tornam a vida mais violentamente interrompidos por um
[do Inconsciente! confortável. Em contrapartida, quase novo apocalipse. O genocídio, a
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! um terço da população mundial tortura, as deportações em massa da
Eia todo o passado dentro do presente! permanece subdesenvolvida, mor- Segunda Guerra Mundial manifestam,
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! rendo de peste ou de fome antes dos em plena civilização, o absurdo e o
Eia! eia! eia! trinta anos, à margem desse im- horror da barbárie.
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica pressionante progresso material, nu- É nesta atmosfera de euforia e de-
[cosmopolita! ma situação sórdida, miserável e sencanto que devemos armar o es-
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô! degradante. pírito para acompanhar a sucessão de
Nem sei que existo para dentro. Giro, Em 1914, a crise, latente desde o ismos, característica da arte do início
[rodeio, engenho-me. final do século XIX, explode selvagem do século XX.
Engatam-me em todos os comboios. e brutal. É a Primeira Guerra Mundial,
Içam-me em todos os cais. que deixará 1.400.000 vítimas. Em
Giro dentro das hélices de todos os navios. meio a esse desconcerto, ocorre a ❑ Os “ismos” europeus
Eia! eia-hô eia! Revolução Russa de 1917, que des- Expressionismo: estilo artístico
Eia! sou o calor mecânico e a eletricidade! perta esperanças em todo o mundo, e no qual a comunicação direta do
(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal” ) surge o homem novo que levaria a boa sentimento e da emoção é objetivo
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fundamental. As obras expressionis- para, em vez disso, criar seus pró-


tas, para refletir desespero, ansieda- prios objetos.
de, tormento e exaltação, distorcem A Arte Moderna assume posição
as imagens do mundo real, por meio de constante ruptura, assimilando em
de colorido subjetivo, contraste inten- seu próprio organismo a fragmentação
so, linhas fortes, alteração de formas. de uma época marcada pela des-
O expressionismo é associado à arte continuidade e pelo caos inventivo e
alemã e dos países do norte da Euro- demolidor.
pa no final do século XIX e no século Na Física, surgem as descobertas
XX: Van Gogh, Munch, Ensor, Kandins- de Max Planck (Teoria dos Quanta,
ky, na pintura; Murnau, Fritz Lang, 1900: a energia radiante tem, como a
Pabst, no cinema; Schönberg, Alban matéria, estrutura descontínua) e de
Berg, na música; Strindberg, Brecht, Instrumentos Musicais (1908), Georges Albert Einstein (Teoria da Relatividade,
na literatura. Braque (1882-1963), óleo sobre tela, cole- 1905: a duração do tempo não é a
ção particular, Paris. mesma para dois observadores que se
Futurismo: movimento artístico deslocam um em relação ao outro).
criado na Itália em 1909 pelo poeta Na Filosofia e Psiquiatria, desen-
Filippo Tommaso Marinetti. Reagindo Dadaísmo ou Dadá: movimento
antiburguês de arte e literatura que se volvem-se as pesquisas de Henri
violentamente contra a tradição, exal- Bergson e Sigmund Freud, respectiva-
tava os aspectos dinâmicos da vida espalhou pela Europa após a Primeira
Guerra. Rejeitava os valores morais e mente. Bergson, em Matéria e Me-
contemporânea: velocidade e mecani- mória (1907), afirma que a intuição é o
zação. Os poetas e pintores tentavam estéticos tradicionais, levando essa
único meio de conhecimento da
flagrar o movimento e a simulta- rejeição ao absurdo, mas abrindo
duração dos fenômenos e da vida.
neidade dos objetos: aqueles, por caminho para novos modos e meios
Freud, na Introdução à Psicanálise
meio de pontuação, sintaxe, forma e de expressão. Surgiu em Zurique, em
(1916/1917), promove a investigação
significados novos; estes, pela repe- 1916, e reuniu artistas como Tristan
psicológica no tratamento das neuro-
tição das formas, ausência de divisão Tzara, Francis Picabia, Marcel
ses, por meio da procura de tendên-
entre objetos e espaço, e ênfase em Duchamp.
cias reprimidas no inconsciente do
linhas de força. Os futuristas foram os indivíduo e do seu retorno consciente
primeiros a utilizar ruídos na música e, Surrealismo: originou-se em Pa-
pela análise.
crítica e humoristicamente, criaram ris, em 1924, sob a liderança de André
até um “teatro sintético futurista”, Breton, e teve muito em comum com
com peças cujos atos duravam menos o Dadá. Tendo apoio da Psicanálise, 2. A poesia moderna
de cinco minutos. procurava incluir na criação artística os
meios de elaboração do inconsciente, A poesia moderna rompe a sinta-
Cubismo: nome da teoria do gru- superar a realidade tal como ela é xe, o encadeamento lógico; é elíptica,
po de pintores liderados por Braque e percebida cotidianamente. Na literatu- alusiva, não tem limitações norma-
Picasso em Paris, a partir de 1906. ra, criaram o processo “da escrita tivas, e o ritmo é criado a cada mo-
Influenciados por esculturas pri- automática”, utilizando-se da livre mento, como descargas de vivências
mitivas e por Cézanne, criaram um associação de palavras. Na pintura, profundas, delírios emocionais, vio-
tipo de pintura que eliminou a pers- representavam imagens do incons- lentando nosso impulso natural de
pectiva, multiplicando os pontos de ciente e do sonho. Além de André buscar as coisas fáceis, sobretudo nos
vista num mesmo quadro. Escolhen- Breton, são surrealistas os escritores domínios da expressão através da
do objetos familiares, facilmente re- Paul Éluard, Antonin Artaud e Louis língua.
conhecíveis, os cubistas os Aragon. Salvador Dalí notabilizou-se na
pintavam, não como os viam, mas pintura e Luis Buñuel, no cinema.
como os entendiam estruturalmente: Num mundo em que os setores do ❑ A integração poética da
reorganizavam os constituintes conhecimento — ciências, artes, filo- civilização material
formais desses objetos em composi- sofia — são interdependentes, um tra- À sociedade nova, aqui e alhures,
ções geométricas, representando si- ço fundamental é comum a todas essas correspondia, necessariamente, lite-
multaneamente seus vários esferas: a instabilidade. A Arte se “des- ratura nova — eis o que não se can-
aspectos. Alguns textos de Oswald realiza”, torna-se abstrata ou não figu- saram de repetir, desde o primeiro
de Andrade foram influenciados pelo rativa, abandona a reprodução instante, todos os teóricos e artistas;
cubismo. imitativa dos seres e objetos reais, (...)

30 –
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Como é natural, estes tomaram A nova técnica aparece pela estados mentais, pela vida profunda
consciência muito mais cedo que os primeira vez, de forma ainda tímida, do “eu”, em detrimento das ações
demais do que significavam os pro- com Arthur Rimbaud, em junho de exteriores.
gressos técnicos e científicos do co- 1886, mas é com Walt Whitman que o – Por outro lado, a maneira de
meço do século [XX]; eles perceberam verso livre começa a vencer. apresentação é diferente: a análise e a
desde logo que a própria natureza e a construção dos caracteres se fazem
própria qualidade do espírito humano ❑ Outras constantes por acumulação, em rápidos instantes
iam se modificar ao impacto da da poesia moderna significativos, ou pela apresentação da
máquina; esta última não representava – A dessacralização da obra de própria consciência em operação, isto
apenas um acréscimo à vida cotidiana,
arte, com o predomínio da concepção é, do fluxo de consciência (stream of
mas um fator catalítico de alcance
lúdica sobre a concepção mágica. consciousness). O autor não faz o
imprevisível.
– A presença do humor, com o retrato da personagem: esta vive, e o
(MARTINS, Wilson. O Modernismo. poema-piada, como forma de aprofun- leitor a conhece e julga.
A Literatura Brasileira. damento da percepção do homem e – A literatura torna-se cada vez
São Paulo: Cultrix. vol. VI. p.13.)
do mundo. mais subjetiva, interiorizada e abstra-
O rápido desenvolvimento tecno- – Cosmopolitismo do processo ta, construída de experiências men-
lógico, que marca os albores do século literário, que se traduz na intercomuni- tais, da vida do espírito.
XX, traz, ao lado da modificação que cação entre os artistas. – A sugestão e a associação, a
provoca na moda, variações no gosto – Antiacademicismo, anticonven- expressão indireta, passam a ser os
estético e uma ânsia pela novidade; cionalismo, abolição da distinção entre meios de se veicular a experiência.
torna-se necessário enfatizar a crença temas “poéticos”, “antipoéticos” e
de que o novo é sempre melhor. A “apoéticos”.
técnica traz consigo o dinamismo – “Imagens crescentemente mo- 3. Modernismo em Portugal
também nas atitudes diante da vida. deladas em linguagem cotidiana.”
– Ausência de inversões, de O Modernismo português teve
❑ O verso livre apóstrofes bombásticas. início em 1915, com a publicação da
O verso livre não implica ausência – Ausência e/ou revitalização de revista Orpheu, da qual participaram
de ritmo, mas a criação do “ritmo a rimas convencionais. Fernando Pessoa, Mário de Sá-Car-
cada momento”. Sabemos que, em – Sequência de imagens basea- neiro, Santa Rita Pintor, Cortes-Rodri-
português, a técnica do verso depre- das na livre associação, abandonando- gues, Alfredo Guisado, Ronald de
ende, tradicionalmente, esquemas se a lógica de causa e efeito.
que vão de duas a doze sílabas, com Carvalho e Eduardo Guimarães. Preten-
– “Ênfase no habitual, e não no diam causar escândalo para demolir
acentos regularmente distribuídos. Já
cósmico.” heranças literárias dogmatizadas e
o que caracteriza o verso livre é,
– Interesse maior pelo incons- eram unidos pelo inconformismo e pelo
sobretudo, uma mudança de atitude:
ciente. desejo de renovar a Literatura
sua unidade de medida deixa de ser a
– Interesse pelo homem comum. Portuguesa. Causaram escândalo,
sílaba e passa a basear-se na combi-
nação das entoações e das pausas. O foram combatidos, e a revista foi logo
ritmo decorre, pois, da sucessão dos Na prosa modernista, observam-
extinta. Contudo, conseguiram levar
grupos de força valorizados pela se os seguintes traços marcantes:
para Portugal influxos da nova arte
entoação, pela maior ou menor rapidez – O autor ausenta-se da narrativa.
(futurismo, um cubismo decadentista
da enunciação. – A ação e o enredo perdem im-
etc.).
portância em favor das emoções, es-
Exemplos tados mentais e reações das
“O Sr. tem uma escavação no pulmão Em 1927, a criação de uma nova
personagens.
[esquerdo e o pulmão direito infiltrado.” revista — Presença — deu novo
– A temática passa dos assuntos
(Manuel Bandeira)
universais para os particulares, indivi- ânimo ao Modernismo português.
Preso à minha classe e a algumas roupas, duais e específicos. Seus fundadores, José Régio, Bran-
vou de branco pela rua cinzenta. – O princípio de seleção do mate- quinho da Fonseca e João Gaspar
Melancolias, mercadorias espreitam-me. rial expande-se, para incluir todos os Simões, além de valorizarem criti-
Devo seguir até o enjoo? motivos e assuntos. camente a geração de Orpheu,
Posso, sem armas, revoltar-me? – A caracterização das persona- continuavam a luta contra o acade-
(Carlos Drummond de Andrade) gens varia; aumenta o interesse pelos micismo.

– 31
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4. Fernando Pessoa ❑ Obras – Ultimatum e Páginas de Socio-


(Lisboa, 1888-1935) Mensagem (1934) é a única obra logia Política
❑ Vida em português publicada em vida. Tem – Cartas de Amor
Nasceu em Lisboa. Em 1893, linguagem extremamente elaborada, – Textos de Crítica e Intervenção
tornou-se órfão de pai. A mãe casou- num estilo semelhante, como se verá,
se novamente e a família viajou para a ao do heterônimo Ricardo Reis. ❑ Considerações
África do Sul. Fez o curso primário e Mensagem, ao contrário de Os Realiza uma poética densamente
secundário em Durban, alcançando Lusíadas, de que é releitura, celebra, experimental, que, partindo das for-
prêmio de redação em inglês. Em não grandezas, mas fantásticas irrea- mas líricas tradicionais, ultrapassa-as
1905, voltou para Lisboa. Matriculou- lidades e loucuras de heróis da lenda de forma criativa, evoluindo através de
se na faculdade de Letras e foi cor- e da história do país, como Ulisses, diversas etapas: o saudosismo
respondente comercial em línguas Viriato, D. Sebastião, Vieira etc. esotérico, o paulismo, o futurismo,
estrangeiras, função que exerceu até a Mensagem constitui-se de 44 poe- o interseccionismo e o sensacio-
morte. Em 1912, colaborou com a mas, dispostos em três partes: nismo.
Águia, como crítico. Em 1915, liderou “Brasão”, “Mar Português” e “O O poeta desdobra-se em várias
o grupo da revista Orpheu. O segundo Encoberto”. Tratam, respectivamente, “máscaras”. Uma delas, Fernando
número da revista é de 1916, e o das figuras históricas e lendárias que Pessoa, ele-mesmo, constrói a poesia
terceiro não chegou a sair, pois Mário permitiram a ascensão de Portugal, do ortonímica, assinada pelo próprio
de Sá-Carneiro, que a financiava, apogeu de Portugal com as Fernando Pessoa. As outras “más-
suicidou-se. navegações e do declínio português. caras” constituem os heterônimos
Fernando Pessoa iniciou então a pu- do poeta, dentre os quais se desta-
blicação de parte de sua obra em re- cam: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e
❑ Outras Obras
vistas: Centauro, Atena, Contemporâ- Álvaro de Campos, além de outros,
– Poemas de Alberto Caeiro
nea, Presença. Em 1934, candidatou-se menos desenvolvidos: Bernardo
– Odes de Ricardo Reis
a um prêmio de poesia com Mensa- Soares, Alexandre Search, Antônio
– Poesias de Álvaro de Campos
gem, único livro, em português, publi- Mora, G. Pacheco e Vicente Guedes.
– Poesias de Fernando Pessoa
cado em vida, alcançando o segundo Cada uma dessas “máscaras” ou
– Poemas Dramáticos – O Mari-
lugar. Com Mensagem, Fernando heterônimos constitui uma atitude,
nheiro
Pessoa fez uma épica moderna, a uma experiência assumida por Fer-
– Quadras ao Gosto Popular
partir de sugestões camonianas, mas nando Pessoa, e desemboca em um
– Poemas Ingleses – Poemas
vendo todo o século quinhentista por jogo infinito de linguagens/seres, reve-
Franceses – Poemas Traduzidos
uma perspectiva crítica. lador de uma poderosa consciência
– Poesias Inéditas
crítica do fenômeno poético e de uma
densa posição metalinguística. As
Em prosa (textos recolhidos, es- “máscaras” assumidas pelo poeta
tabelecidos e organizados por vários dialogam entre si, correspondem-se e
autores): indicam as contradições existentes
– O Livro do Desassossego, por entre elas.
Bernardo Soares Multiplicando-se em vários poetas
– Páginas Íntimas e de Auto- — Alberto Caeiro, Ricardo Reis e
Interpretação Álvaro de Campos —, seus
– Páginas de Estética e de Teo-ria heterônimos, além da poesia que
e Crítica Literária realiza sob seu próprio nome, Fer-
– Textos Filosóficos nando Pessoa propõe um jogo infinito
– Sobre Portugal – Introdução ao da linguagem, oscilando entre o sentir
Problema Nacional e o pensar, entre o ser e o não ser,
Fernando Pessoa quando jovem. – Da República entre o rosto e a máscara.

32 –
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“Tudo o que em mim sente está ❑ Fernando Pessoa II

pensando”, diz de si o poeta, D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL


“ele-mesmo”
propondo uma chave para penetrar- Fernando Pessoa ortônimo (“ele- Louco, sim, louco, porque quis grandeza
mos no labirinto em que ele nos en- mesmo”) diverge muito de Caeiro e Qual a Sorte a não dá.
Reis, porque não inculca uma norma Não coube em mim minha certeza;
reda através da multiplicidade de
Por isso onde o areal está
linguagem e de cosmovisões: Caeiro de comportamento; nele há quase
Ficou meu ser que houve, não o que há.
é um mestre bucólico, Reis é um neo- apenas a expressão musical e sutil
clássico estoico, Campos é um futu- do frio, do tédio e dos anseios da Minha loucura, outros que me a tomem
rista neurótico e angustiado e alma, de estados quase inefáveis Com o que nela ia.
em que se vislumbra por instantes Sem a loucura que é o homem
Fernando Pessoa “ele-mesmo” pare-
“uma coisa linda”, nostalgia dum Mais que a besta sadia,
ce ser o heterônimo de algum outro Cadáver adiado que procria?
bem perdido que não se sabe qual
ser/poeta, instalado entre um heterô- (Fernando Pessoa ortônimo,
foi, oscilações quase imperceptíveis in Mensagem)
nimo e outro, nos intervalos, nos
duma inteligência extremamente
interstícios, simples “ficção do inter- III
sensível, e até vivências tão profun-
lúdio”.
das que não vêm “à flor das frases ULISSES
A explosão dos heterônimos aspi- e dos dias”, mas se insinuam pela
O mito é o nada que é tudo.
rava ao universal como esperança de eufonia dos versos, pelas O mesmo sol que abre os céus
unidade: reticências, numa linguagem É um mito brilhante e mudo —
finíssima. O corpo morto de Deus,
Sentir tudo de todas as maneiras, / Viver Fernando Pessoa ortônimo reto- Vivo e desnudo.

tudo de todos os lados, / Ser a mesma coisa de ma motivos e formas da lírica por-
Este, que aqui aportou,
todos os modos possíveis ao mesmo tempo, / tuguesa, desde a Idade Média. É onde
Foi por não ser existindo.
Realizar em si toda a humanidade de todos os mais se projeta o nacionalista Sem existir nos bastou.
momentos / Num só momento difuso, profuso, místico, o sebastianista racional que Por não ter vindo foi vindo
completo e longínquo.
o poeta se dizia, especialmente no E nos criou.
(Álvaro de Campos,
poema esotérico Mensagem, réplica
“Passagem das Horas”) Assim a lenda se escorre
não sistemática de Os Lusíadas.
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Mas essa esperança de unidade Em baixo, a vida, metade
desemboca no esfacelamento. A so- TEXTOS De nada, morre.
ma dos heterônimos, que tinham no- (Fernando Pessoa ortônimo,
me, biografia, profissão e traços in Mensagem)
I
característicos, deveria produzir o IV
POBRE VELHA MÚSICA!
Todo. Mas entre um sujeito e outro
AUTOPSICOGRAFIA
desponta o Outro, o Neutro, o Pobre velha música!
O poeta é um fingidor.
Fluido. É o Negativo “ele-mesmo” Não sei por que agrado
Finge tão completamente
quem triunfa, recobrindo a afirmação Enche-se de lágrimas
Que chega a fingir que é dor
e negando-a. Meu olhar parado.
A dor que deveras sente.
A modernidade de Fernando Pes-
Recordo outro ouvir-te. E os que leem o que escreve
soa principia pela negação do sen- Não sei se te ouvi Na dor lida sentem bem,
timento puro como conteúdo poético Nessa minha infância Não as duas que ele teve,
(“Tudo o que em mim sente está Que me lembra em ti. Mas só a que eles não têm.
pensando”). A essência de sua lin-
guagem nova reside na constante re- Com que ânsia tão raiva E assim nas calhas de roda
Quero aquele outrora! Gira, a entreter a razão,
versão do sentimento em pensamento,
E eu era feliz? Não sei: Esse comboio de corda
na constante alquimia do sentido em Fui-o outrora agora. Que se chama o coração.
outra coisa que o excede. (Fernando Pessoa ortônimo) (Fernando Pessoa ortônimo)

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MÓDULOS 40 e 41 Fernando Pessoa: heterônimos

❑ Alberto Caeiro Assim, nossa dificuldade em cap- O luar através dos altos ramos,
tar o mundo tal como ele é deve-se Dizem os poetas todos que ele é mais
Pessoa situou em 1889 a data do
Que o luar através dos altos ramos.
nascimento de Alberto Caeiro. Ele é, ao nosso vício de interpor o pensa-
portanto, um pouco mais novo que o mento entre nós e as coisas. Nós Mas para mim, que não sei o que penso,
próprio Pessoa, mas é o seu mestre, somos como que doentes de pensa- O que o luar através dos altos ramos
como é o mestre dos demais hete- mento. Em vez de nos relacionarmos É, além de ser
rônimos. Isso é paradoxal, porque com os objetos em sua singularidade, O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Caeiro é, dentre eles, o menos culto e que é a sua realidade, nós gene-
Que o luar através dos altos ramos.
sua poesia é a menos elaborada ralizamos, e destruímos com isso a
formalmente. Trata-se de um homem realidade das coisas. Diz Caeiro:
simples, criado no campo e nele
vivendo, alheio à alta sofisticação Compreendi que as coisas são reais e todas
[diferentes umas das outras;
cultural que marca os poetas que o
Compreendi isto com os olhos, nunca com o
tomam por mestre. E de que Caeiro é [pensamento.
mestre? Fernando Pessoa nos res- Compreender isto com o pensamento seria
ponde: é mestre de paganismo, quer [achá-las todas iguais.
dizer, de uma visão não cristã, não
judaica, não espiritualizada da vida e Já se viu em Caeiro semelhança
do mundo. Caeiro nos ensina que o com o zen-budismo, especialmente em
mundo não é um enigma, um mistério sua insistência no não pensamento
que devemos tentar desvendar, nem como condição da experiência exis-
o que vemos tem um sentido oculto tencial verdadeira. Caeiro defende um
por trás das aparências: pensamento contra o pensamento,
uma filosofia antifilosófica (“Com
O que nós vemos das coisas são as coisas
filosofia não há árvores, há ideias
Por que veríamos nós uma coisa se hou-
[vesse outra?
apenas” ) e nega qualquer forma de
Por que é que ver e ouvir seria iludir-nos espiritualismo ou de transcendência,
Se ver e ouvir são ver e ouvir? ou seja, nega a ideia de qualquer rea-
lidade além daquela que constitui
O essencial é saber ver. nossa experiência concreta e imedia-
Saber ver sem estar a pensar, ta das coisas, com as quais nosso
Saber ver quando se vê,
corpo se relaciona:
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa. Se quiserem que eu tenha um misticismo,
[está bem, tenho-o. Alberto Caeiro. Pormenor do mural de
Mas isso (tristes de nós que trazemos a Sou místico, mas só com o corpo. Almada Negreiros, na Faculdade de Letras
[alma vestida!), A minha alma é simples e não pensa. da Universidade de Lisboa (1958).
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender O meu misticismo é não querer saber. Os poemas de Caeiro, que falam
E uma sequestração na liberdade É viver e não pensar nisso.
da concretude do mundo, da realidade
[daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas Não sei o que é a Natureza: canto-a. única das sensações, são na verdade
[são as freiras eternas Vivo no cimo dum outeiro1 poemas abstratos, quase inteiramente
E as flores as penitentes convictas de um Numa casa caiada e sozinha, carentes de imagens do mundo, por-
[só dia1, E essa é a minha definição. que o que o poeta faz é defender uma
Mas onde afinal as estrelas não são senão teoria — uma curiosa teoria que con-
[estrelas Vocabulário dena todas as teorias. Seu livro cha-
Nem as flores senão flores, 1 – Outeiro: colina, morro.
ma-se O Guardador de Rebanhos,
Sendo por isso que lhes chamamos
[estrelas e flores.
mas, como ele diz, “o rebanho é os
Nota Também em relação à poesia meus pensamentos / e os meus
1 – Observar a crítica a algumas imagens con- Caeiro é polêmico, porque suas ideias pensamentos são todos sensações”.
vencionais da poesia de fundo romântico, espi- geram uma poesia “antipoética”, que Sua poesia, contudo, é mais de
ritualizada, que Caeiro rejeita. nega a transcendência: pensamentos que de sensações.
34 –
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O caráter paradoxal da teoria de Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos Mas se Deus é as árvores e as flores
Caeiro se manifesta também no plano E não pensar. É correr as cortinas E os montes e o luar e o sol,
Da minha janela (mas ela não tem cortinas). Para que lhe chamo eu Deus?
estilístico: seus poemas evitam tudo o
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e
que se costuma tomar por poesia. O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério! [luar;
Seus versos parecem prosa, pois são O único mistério é haver quem pense no mistério. Porque, se ele se fez, para eu o ver,
uma forma ritmicamente frouxa de ver- Quem está ao sol e fecha os olhos Sol e luar e flores e árvores e montes,
so livre, cujo andamento dá a impres- Começa a não saber o que é o Sol Se ele me aparece como sendo árvores e
E a pensar muitas coisas cheias de calor. [montes
são de naturalidade, de espontaneidade
Mas abre os olhos e vê o Sol E luar e sol e flores,
sem qualquer premeditação artística (o E já não pode pensar em nada, É que ele quer que eu o conheça
que é, na verdade, um efeito artístico Porque a luz do Sol vale mais que os Como árvores e montes e flores e luar e sol.
dessa poesia). Seu vocabulário é [pensamentos
restrito e as mesmas palavras e De todos os filósofos e de todos os poetas. E por isso eu obedeço-lhe,
expressões se repetem com pequeno A luz do Sol não sabe o que faz (Que mais sei eu de Deus que Deus de si
E por isso não erra e é comum e boa. [próprio?).
intervalo, sem nenhum esforço apa-
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
rente de evitar o que é tradicionalmen- Como quem abre os olhos e vê,
Metafísica? Que metafísica têm aquelas
te considerado “pobreza de estilo”. [árvores? E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e
Também do ponto de vista estritamen- A de serem verdes e copadas e de terem ramos [montes,
te linguístico e gramatical, a escrita de E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz E amo-o sem pensar nele,
[pensar, E penso-o vendo e ouvindo,
Caeiro é menos culta e menos
A nós, que não sabemos dar por elas. E ando com ele a toda a hora.
rigorosa que a de seus “discípulos”.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Com tudo isso, a pequena obra Que é a de não saber para que vivem
singular e singela de Alberto Caeiro Nem saber que o não sabem? VI
alcança, com recursos de simplicidade
extrema, momentos de verdadeira “Constituição íntima das coisas...” Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
mágica poética, nos quais a sensação “Sentido íntimo do Universo...” Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
é realmente vívida e não apenas Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. Por isso se nos não mostrou...
É incrível que se possa pensar em coisas Sejamos simples e calmos,
pretexto para a discussão de ideias. É
[dessas. Como os regatos e as árvores,
o caso do poema seguinte, que pode É como pensar em razões e fins E Deus amar-nos-á fazendo de nós
ser tomado, de fato, como a Quando o começo da manhã está raiando, e Belos como as árvores e os regatos,
expressão de um momento de [pelos lados das árvores E dar-nos-á verdor na sua primavera,
iluminação zen-budista: Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

Pensar no sentido íntimo das coisas


Leve, leve, muito leve, É acrescentado, como pensar na saúde
Um vento muito leve passa, Ou levar um copo à água das fontes. XXXVI
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
O único sentido íntimo das coisas E há poetas que são artistas
Nem procuro sabê-lo.
É elas não terem sentido íntimo nenhum. E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
TEXTOS Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Que triste não saber florir!
Sem dúvida que viria falar comigo Ter que pôr verso sobre verso, como quem
E entraria pela minha porta dentro [constrói um muro
O GUARDADOR DE REBANHOS Dizendo-me, Aqui estou! E ver se está bem, e tirar se não está!...
(1910/1911 – fragmentos) Quando a única casa artística é a Terra toda
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos Que varia e está sempre bem e é sempre a
V De quem, por não saber o que é olhar para as [mesma.
[coisas,
Há metafísica bastante em não pensar em nada. Não compreende quem fala delas Penso nisto, não como quem pensa, mas
Com o modo de falar que reparar para elas [como quem respira,
O que penso eu do Mundo? [ensina.) E olho para as flores e sorrio...
Sei lá o que penso do Mundo! Não sei se elas me compreendem
Se eu adoecesse pensaria nisso. Mas se Deus é as flores e as árvores Nem se eu as compreendo a elas,
E os montes e sol e o luar, Mas sei que a verdade está nelas e em mim
Que ideia tenho eu das coisas? Então acredito nele, E na nossa comum divindade
Que opinião tenho sobre as causas e os Então acredito nele a toda a hora, De nos deixarmos ir e viver pela Terra
[efeitos? E a minha vida é toda uma oração e uma E levar ao colo pelas Estações contentes
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma [missa, E deixar que o vento cante para adormecermos
E sobre a criação do Mundo? E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. E não termos sonhos no nosso sono.

– 35
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❑ Ricardo Reis Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero. ❑ Álvaro de Campos
Ricardo Reis é cultor dos clássicos Em ti como nos outros creio deuses mais velhos É em Álvaro de Campos, nasci-
gregos e latinos. Seu paganismo deri- Só te tenho por não mais nem menos do em 1890, que encontramos a in-
va da lição dos escritores da Antigui- Do que eles, mas mais novo apenas. quietação metafísica de Pessoa e
dade, mas revela também influência seu lado “moderno”, caracte ri za do
Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço,
de Alberto Caeiro, no amor pela vida pela vontade de conquista, pelo
Que te querem acima dos outros teus iguais
rústica e no apego à Natureza. Sua amor à civilização e ao progresso
[deuses.
poesia, porém, distancia-se muito da (e ao mesmo tempo cons ciên cia
Quero-te onde tu ‘stás, nem mais alto
de Caeiro por ser cultíssima, marcada desse mundo) e por uma linguagem
Nem mais baixo que eles, tu apenas.
por sintaxe latinizante (grandes inver- de tom irreverente. Essa “mo der -
sões, enorme liberdade na ordem das Deus triste, preciso talvez porque nenhum nidade” tem ligações claras com o
palavras, regências desusadas) e [havia cosmopolita Cesário Verde, com
vocabulário raro, por vezes também Como tu, um a mais no Panteão e no culto, Walt Whitman e com o Futurismo.
tomado ao latim. Sua poesia aborda Nada mais, nem mais alto nem mais puro Sen tindo e inte lec tualizando suas
os temas clássicos da brevidade da Porque para tudo havia deuses, menos tu. sensações (sentir e pensar), Campos
vida, da necessidade de gozar o per cebe a impos si bilidade de não
presente, que é a única realidade Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a pensar, observa criti camente o
acessível diante da fatalidade da morte [vida mundo e a si próprio, angustiando-se
que sempre nos aguarda. Esta atitude É múltipla e todos os dias são diferentes dos diante do tempo inexorável e do ab-
hedonista (voltada para o prazer), ou [outros, sur do da vida. “Poeta sensaci o -
epicurista (decorrente da filosofia de E só sendo múltiplos como eles nista e por vezes es can da lo so”
Epicuro), é associada a uma postura ‘Staremos com a verdade e sós. (qualificativos da carta de Pessoa a
estoica, que propõe a austeridade na (Ricardo Reis) A. Casais Monteiro), Campos é o pri-
fruição dos prazeres, pois seremos meiro a fazer um retrato de si e a
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. referir cir cunstâncias biográficas, o
tanto mais felizes quanto menores
Sossegadamente fitemos o seu curso e que reforça a simulação que daria ao
forem nossas necessidades. Ricardo
[aprendamos próprio Fernando Pessoa estímulos
Reis tem no poeta latino Horácio
Que a vida passa, e não estamos de mãos para se manter na pele do heterôni-
(século I a.C.) seu modelo literário, e
[enlaçadas. mo. Des creve-se de “mo nó culo e
seus poemas são odes à maneira
(Enlacemos as mãos.) ca saco exagerada mente cintado”,
antiga, com grande rigor de cons-
trução, com estrofes que alternam “franzino e civilizado”, “pobre enge-
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
versos longos e breves, de métrica nheiro preso a sucessibilíssimas vi-
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
perfeita e sem rimas. tórias”.
Vai para um mar muito longe, para ao pé do
Escreve, febril, “à dolorosa luz das
[Fado,
Mais longe que os deuses.
grandes lâmpadas elétricas da fábrica”,
ou no “cubículo”, ouvindo “o tic-tac
TEXTOS estalado das máquinas de escrever”.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a
É o outro radical, moderno, enge-
[pena cansarmo-nos,
Para ser grande, sê inteiro: nada Quer gozemos, quer não gozemos, passamos
nheiro, paradoxal, sadomasoquista,
Teu exagera ou exclui. [como o rio.
inconciliado, “neurótico”.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és Mais vale saber passar silenciosamente
Vale-se de uma prosa disposta em
No mínimo que fazes. E sem desassossegos grandes. forma poética, com versos frequente-
Assim em cada lago a Lua toda mente desencadeados e assimétricos,
Brilha, porque alta vive. Sem amores, nem ódios, nem paixões que além de caracteres tipográficos,
(Ricardo Reis) sobrecarga de sinais de pontuação e
[levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos outras “anomalias” discursivas.
[olhos, Entre seus poemas mais conhe-
Tanto quanto vivemos, vive a hora Nem cuidados, porque se os tivesse o rio cidos, citam-se: “Tabacaria”, “Lisbon
Em que vivemos, igualmente morta [sempre correria, Revisited”, “Saudação a Walt
Quando passa conosco, E sempre iria ter ao mar. Whitman”, “Opiário”, “Ode Triunfal”,
Que passamos com ela. (...) “Ode Marítima” e “Poema em Linha
(Ricardo Reis) (Ricardo Reis) Reta”.

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TABACARIA Deitei fora a máscara e dormi no vestiário


TEXTOS
Como um cão tolerado pela gerência
Não sou nada. Por ser inofensivo
LISBON REVISITED Nunca serei nada. E vou escrever esta história para provar que
(1923) Não posso querer ser nada. [sou sublime.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos
Não: não quero nada.
[do mundo. Essência musical dos meus versos inúteis,
Já disse que não quero nada.
Janelas do meu quarto, Quem me dera encontrar-te como coisa que eu
Não me venham com conclusões! [fizesse,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo
A única conclusão é morrer. E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de
[que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), [defronte,
Não me tragam estéticas!
Dais para o mistério de uma rua cruzada Calcando aos pés a consciência de estar
Não me falem em moral!
[constantemente de gente, [existindo,
Tirem-me daqui a metafísica!
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Não me apregoem sistemas completos, não
[me enfileirem conquistas Para uma rua inacessível a todos os pensa- Ou um capacho que os ciganos roubaram e
Das ciências (das ciências, Deus meu, das [mentos, [não valia nada.
[ciências!) — Real, impossivelmente real, certa, desconhe-
Das ciências, das artes, da civilização moderna! [cidamente certa, (...)
(Álvaro de Campos)
Com o mistério das coisas por baixo das
Que mal fiz eu aos deuses todos?
[pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e
Se têm a verdade, guardem-na! POEMA EM LINHA RETA
[cabelos brancos nos homens.
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro Com o Destino a conduzir a carroça de tudo
[pela estrada de nada. Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
[da técnica.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram? Estou hoje vencido, como se soubesse a [em tudo.
[verdade
Não me macem1, por amor de Deus! Estou hoje lúcido, como se estivesse para E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco,
[morrer. [tantas vezes vil,
Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável? Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Queriam-me o contrário disto, o contrário de Indesculpavelmente sujo,
Senão uma despedida, tornando-se esta casa
[qualquer coisa? Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência
[e este lado da rua
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a [para tomar banho,
[vontade. A fileira de carruagens de um comboio, e uma
[partida apitada Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Assim, como sou, tenham paciência!
De dentro da minha cabeça, Que tenho enrolado os pés publicamente nos
Vão para o diabo sem mim,
E uma sacudidela dos meus nervos e um [tapetes das etiquetas,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos? [ranger de ossos na ida. Que tenho sido grotesco, mesquinho,
[submisso e arrogante,
Não me peguem no braço! Estou hoje perplexo, como quem pensou e Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Não gosto que me peguem no braço. Quero [achou e esqueceu. Que quando não tenho calado, tenho sido
[ser sozinho. [mais ridículo ainda;
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
Já disse que sou sozinho! Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa
Ah, que maçada quererem que eu seja da Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos
[real por fora,
[companhia! [moços de fretes,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa
[real por dentro. Eu, que tenho feito vergonhas financeiras,
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
[pedido emprestado sem pagar;
Eterna verdade vazia e perfeita!
(...) Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete! [tenho agachado
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Fiz de mim o que não soube, Para fora da possibilidade do soco;
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que E o que podia fazer de mim não o fiz. Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas
[eu me sinta. O dominó que vesti era errado. [coisas ridículas,
Conheceram-me logo por quem não era e não Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca [desmenti, e perdi-me. [mundo.
[tardo...
Quando quis tirar a máscara,
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero (...)
Estava pegada à cara.
[estar sozinho!
Quando a tirei e me vi ao espelho,
(Álvaro de Campos)
Já tinha envelhecido. (Álvaro de Campos)
Vocabulário Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó
1 – Macem: do verbo maçar (chatear). [que não tinha tirado.

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MÓDULO 42 Semana de Arte Moderna

1. Antecedentes UVI STRELLA – Há uma Gota de Sangue em


Cada Poema, de Mário de Andrade,
Che scuitá strella, né meia strella!
Nos primeiros anos do século XX, Vucê stá maluco! e io ti diró intanto,
protesto pacifista contra a Primeira
iniciou-se em São Paulo o processo Chi pra iscuitalas moltas veiz livanto, Guerra Mundial.
de industrialização do País. Produzi- I vô dá una spiada na gianella. – Cinza das Horas, de Manuel
ram-se, além de manufaturados, con- Bandeira, “queixume de um doente de-
I passo as notte acunversáno c’oella,
tingentes de trabalhadores operários: senganado”, segundo o próprio autor.
Inguanto che as otra lá d’un canto
homens, mulheres e crianças, que, Sto mi spiano. I o sol come un briglianto
No seu livro seguinte, Carnaval (1919),
submetidos às condições mais aviltan- Nasce. Oglio p’ru çeu — Cadê strella?! apareceria o poema satírico “Os Sa-
pos”, que seria recitado na segunda
tes de trabalho, ocupavam as fileiras
Direis intó: — Ó migno inlustre amigo! noite da Semana de Arte Moderna.
das linhas de produção. Enquanto O chi é chi as strellas ti dizia
– Moisés e Juca Mulato, de
isso, a decadente elite do café, já de- Quanto illas viéro acunversá contigo?
Menotti del Picchia.
ficitária, ostentava um alto padrão de
E io ti diró: — Studi pra intendela, – Nós, de Guilherme de Almeida,
vida, sustentado pela política dos go- Pois só chi giá studô Astrolomia ainda parnasiano e decadentista.
vernadores, que, para evitar a queda É capaiz de intendê istas strella. – A Frauta de Pã, de Cassiano
do preço do produto, compravam os (Juó Bananere,
Ricardo, com sonetos parnasianos.
La Divina Increnca)
excedentes, socializando apenas os
prejuízos. A grande paralisação de
“O satírico aparece em estágios Outros eventos
operários, em 1907, a Revolta dos 18
do Forte de Copacabana, o Tenen- complexos e saturados de vida urba-
tismo, em 1922, somados aos ecos da na; momentos em que a consciência • Na música erudita, Villa-Lobos
do homem culto já se rela com as compõe o balé Amazonas, incluindo
Primeira Guerra Mundial (1914-18),
contradições entre o cotidiano real e elementos do folclore brasileiro, in-
evidenciavam o esgotamento da es-
os valores que o enleiam. E a paródia, fluenciado por Stravinsky; na música
trutura de poder no primeiro quarto do
‘canto paralelo’, só se faz possível popular, é pela primeira vez gravado
século XX no Brasil. quando uma formação literária e um em disco um samba, Pelo Telefone,
Junto com a estrutura sociopolíti- gosto, outrora sólidos, entram em de Donga.
ca, esgotara-se também a arte que ela crise, isto é, sobrevivem apesar do • Exposição de 53 quadros de
sustentava, de modo que, conco- cotidiano, sobrevivem como disfarce, Anita Malfatti (1917), que provocou a
mitantemente àqueles acontecimentos, como véu ideológico.” dura crítica “Paranoia ou Mistifica-
os próprios artistas denunciavam a crise (Alfredo Bosi) ção?”, de Monteiro Lobato, em O Es-
da cultura e da arte brasileiras e a tado de S. Paulo (20/12/1917).
necessidade de sua transformação. • 1913: Lasar Segall realiza a pri- Segue-se trecho da crítica:
Assim, antes mesmo da Semana de 22, meira exposição de pintura moderna
são notáveis os seguintes eventos: em São Paulo. Expõe quadros expres- ... Estas considerações são pro-
• 1912: Oswald de Andrade vol- sionistas e é totalmente ignorado. vocadas pela exposição da Sra. Malfatti,
ta da Europa e começa a divulgar o Fu- • 1914: Anita Malfatti faz sua pri- onde se notam acentuadíssimas
turismo, de Marinetti, e a técnica do meira exposição de pintura não aca- tendências para uma atitude estética
verso livre. Já no ano anterior fundara, dêmica. Uma série de artigos sobre o forçada no sentido das extravagâncias de
com Emílio de Meneses, o jornal Futurismo sai em O Estado de S.
Picasso e companhia. Essa artista possui
humorístico O Pirralho, em que Juó Paulo.
talento vigoroso, fora do comum. Poucas
• 1915: Fundação da revista
Bananere (Alexandre Marcondes vezes, através de uma obra torcida para
Orpheu, que introduz o Modernismo
Machado) parodiava, no português má direção, se notam tantas e tão precio-
em Portugal. Ronald de Carvalho, que
dos ítalo-paulistanos, poemas célebres sas qualidades latentes (...)
participaria da Semana, e Luís de
do Romantismo e do Parnasianismo. Montalvor organizam no Rio o primeiro
No seguinte poema, Juó Banane- número da revista. Nos anos seguintes, houve o sur-
re satiriza o famoso soneto XII de Via- • 1917: Publicação de livros de gimento de Victor Brecheret, a publica-
Láctea, de Olavo Bilac (“Ora, direis, estreia de futuros participantes da ção de Carnaval, de Manuel Bandeira, a
ouvir estrelas…”): Semana: exposição de Di Cavalcanti, a publicação
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dos artigos “Mestres do Passado”, em Queremos lua, ar, ventiladores, aeropla- primitivista, chegada ao expressionis-
que Mário de Andrade analisa e critica, nos, reivindicações obreiras, idealismos, moto- mo e à exploração do folclore bra-
duramente, a poesia parnasiana. res, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sileiro. Dividida entre a ânsia de
sonho na nossa arte. E que o rufo do automó- modernização do Brasil e a convicção
vel, nos trilhos de dois versos, espante da de que nossas raízes indígenas e ne-
poesia o último deus homérico, que ficou, gras precisavam de tratamento esté-
anacronicamente, a dormir e a sonhar, na era do tico adequado, a revista, incongruente
jazz band e do cinema, com a frauta dos na aparência, é o fundamento de obras
pastores da Arcádia e dos seios de Helena! como Macunaíma, Pau-Brasil, Cobra
Norato, Martim Cererê, Revista de
Antropofagia, Memórias Sentimenta-
Mário de Andrade, sob vaias, lê is de João Miramar etc.
poemas que constituiriam o livro A Es-
crava que não é Isaura. Renato de Al-
meida critica o Parnasianismo e
❑ A revista Estética, dirigida por
Villa-Lobos entra no palco de chinelos
Sérgio Buarque de Holanda e Pruden-
Pietá (déc. 1910), Victor Brecheret, madeira, (pois teria um calo no pé) e guarda-
te de Morais Neto, foi lançada em
40x50cm. chuva, indignando o público.
1924 e teve três números fartos de
A terceira noite tem apenas pro-
material teórico. Nessa revista, a dis-
grama musical e Villa-Lobos rege com-
2. A Semana de Arte Moderna puta era entre “arte interessada” e
posições conhecidas do reduzido
“arte autônoma”.
público, que aplaudiu, sem escân-
Patrocinada pela elite letrada dos dalos.
quatrocentões paulistanos, a Semana
“foi, ao mesmo tempo, o ponto de 3. As correntes modernistas
encontro das diversas tendências mo-
dernas que desde a Primeira Guerra se ❑ Corrente nacionalista: grupos
vinham firmando em São Paulo e no “Verde-Amarelo” (1924), “Anta” (1929)
Rio, e a plataforma que permitiu a con- e “Bandeira” (1936). Reuniram-se
solidação de grupos, a publicação de principalmente em torno de Menotti
livros, revistas e manifestos, numa del Picchia, Cassiano Ricardo e Plínio
palavra, o seu desdobrar-se em viva Salgado. Tinham visão ufanista e
realidade cultural”. (BOSI, Alfredo. propunham a exaltação da terra, do
História Concisa da Literatura Bra- homem, do folclore e dos heróis
sileira. São Paulo: Cultrix, 3. ed., 1987. nacionais. Aproximavam-se do Inte-
p. 385). Ocorreu em três noites, 13, 15 gralismo, doutrina que defendia um
e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro regime político totalitário, corpora-
Municipal de São Paulo. tivista e nacionalista. Os manifestos
Na primeira noite, Graça Aranha, dessa corrente estão em Curupira e o
que, como membro da Academia Bra- Carão, de Plínio, Menotti e Cassiano,
sileira de Letras, conferia ao even- e no Nhengaçu Verde-Amarelo. Mar-
to um ar de respeitabilidade, profere a tim Cererê, de Cassiano Ricardo, é a
conferência “A Emoção Estética da melhor realização poética dos
Arte Moderna”, ilustrada com poemas Capa do primeiro número da revista ideais dessa vertente.
declamados por Guilherme de Klaxon.
Almeida e Ronald de Carvalho, acom-
panhados por Ernâni Braga ao piano,
Nhengaçu Verde-Amarelo
executando, de Eric Satie, a paródia da ❑ A revista Klaxon, Mensário de Ar-
Marcha Fúnebre de Chopin. te Moderna, durou de maio de 1922 a (fragmentos)
Na segunda noite, há a conferên- fevereiro de 1923. Reunindo os
cia de Menotti del Picchia, ilustrada modernistas da fase heroica, não A descida dos tupis do planalto central no
com vários textos, entre os quais “Os sobreviveu à divisão entre a corrente rumo do Atlântico foi uma fatalidade histórica
Sapos”, de Manuel Bandeira, vaiados dinamista, adepta do futurismo, da pré-cabralina, que preparou o ambiente para as
todos pelo público. Segue-se um técnica, da velocidade, da experimen- entradas no sertão pelos aventureiros brancos
trecho da conferência: tação de uma linguagem nova, e a desbravadores do oceano (…)

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Os tupis desceram para serem absorvidos, Manifesto Antropófago


para se diluírem no sangue da gente nova. Para (fragmentos)
viver subjetivamente e transformar numa prodi-
giosa força a bondade brasileira e o seu grande
Só a antropofagia nos une. Social-
sentimento de humanidade.
Seu totem não é carnívoro: Anta. É este
mente. Economicamente. Filoso-
animal que abre caminhos, e aí parece estar ficamente.
indicada a predestinação da gente tupi. (…)

❑ Corrente primitivista: grupos “Pau-
Brasil” (1924) e “Antropofagia” (1928). Única lei do mundo. Expressão
Tiveram a liderança marcante de
mascarada de todos os individualis-
Oswald de Andrade e a participação
mos, de todos os coletivismos. De to-
de Tarsila do Amaral, Raul Bopp,
das as religiões. De todos os tratados
Antônio de Alcântara Machado (só na
de paz.
“Antropofagia”) e de Mário de Andra-
de, na fase de Macunaíma e Clã do

Jabuti. Os ideais da corrente foram ex-
pressos no Manifesto Antropófago,
Tupi or not tupi, that’s the question.
publicado no primeiro número da Re-
(…) Retrato de Oswald de Andrade (1923),
vista de Antropofagia, em 1928. Essa
Já tínhamos o comunismo. Já tí- Tarsila do Amaral (1886-1973), óleo sobre
revista foi publicada em duas “denti-
nhamos a língua surrealista. A idade tela, Museu de Arte Brasileira – FAAP,
ções”: de maio de 1928 a janeiro de
de ouro. (…) São Paulo.
1929, mensalmente, e de março a
agosto de 1929, semanalmente.
Pretendendo “reintegrar o homem (…) ❑ Definição e características
na livre expansão dos seus instintos vi- da linguagem modernista
tais”, essa corrente propunha, não uma Somos concretistas. As ideias to-
aceitação passiva do legado europeu à mam conta, reagem, queimam gente • Rejeição das normas e
cultura brasileira, mas a devoração crítica nas praças públicas. Suprimamos as estéticas consagradas
desse legado e sua transformação em ideias e as outras paralisias. Pelos – antiacademismo, anticonfor-
algo novo, com identidade própria e roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar mismo;
alcance universal. nos instrumentos e nas estrelas.
– perseguição incessante de três
princípios:
(…)
Contra a realidade social, vestida e 1. direito à pesquisa estética;
opressora, cadastrada por Freud — a
2. atualização da inteligência artística
realidade sem complexos, sem lou-
brasileira;
cura, sem prostituições e sem peniten-
ciárias do matriarcado de Pindorama. 3. estabilização de uma consciência
criadora nacional.
Oswald de Andrade.
• Inovações na linguagem
Em Piratininga. poética
Ano 374 da Deglutição – novos ritmos: versos livres, no-
do Bispo Sardinha. vo fraseado;
Antropofagia (1929), Tarsila do Amaral
(1886-1973), óleo sobre tela, Fundação (Revista de Antropofagia, Ano I, – aproximação entre poesia e
Nemirovsky, São Paulo. n. 1, maio de 1928) prosa;

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– nova concepção do mundo e Urra o sapo-boi: O sapo-tanoeiro (v. 9) é uma alu-


do homem (civilização moderna, o co- — “Meu pai foi rei” — “Foi!” são a Bilac (tanoeiro é o artesão que,
tidiano, o nacional, o subconsciente) — “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!” com martelo, enverga a madeira, para
— surgimento de novos temas; a construção ou barricas). O sapo-
Brada em um assomo cururu simboliza a poesia autêntica,
– irreverência, humorismo — o despida de artificialismo.
O sapo-tanoeiro:
“poema-piada”; Nos versos 23 e 24 — “Reduzi sem
— “A grande arte é como
danos / A fôrmas a forma” —, há um
Lavor de joalheiro.
– síntese, simultaneísmo, ima- trocadilho, ironizando o fato de que a
gens vívidas, fusão de elementos di- rigidez das regras parnasianas era tão
versos, expressão elíptica. Ou bem de estatuário. forte que reduzia a forma (ó) em forma
Tudo quanto é belo, (ô), ou seja, reduzia a forma da poesia a
Textos da “fase heroica” Tudo quanto é vário, um molde, modelo obrigatório.
do Modernismo Canta no martelo.”

POÉTICA
OS SAPOS Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe), Estou farto do lirismo comedido
Enfunando os papos,
Falam pelas tripas: Do lirismo bem comportado
Saem da penumbra, Do lirismo funcionário público com livro de
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabe!”
Aos pulos, os sapos. [ponto expediente protocolo e
A luz os deslumbra. [manifestações de apreço ao sr. diretor.
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
Em ronco que aterra, Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no
A noite infinita
Berra o sapo-boi: [dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Verte a sombra imensa;
— “Meu pai foi à guerra!”
Abaixo os puristas
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”
Lá, fugido ao mundo, Todas as palavras sobretudo os barbarismos
Sem glória, sem fé, [universais
O sapo-tanoeiro,
No perau profundo Todas as construções sobretudo as sintaxes de
Parnasiano aguado, [exceção
E solitário, é
Diz: — “Meu cancioneiro Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
É bem martelado.
Que soluças tu,
Estou farto do lirismo namorador
Transido de frio,
Vede como primo Político
Sapo-cururu
Em comer os hiatos! Raquítico
Da beira do rio…
Sifilítico
Que arte! E nunca rimo (Manuel Bandeira,
De todo lirismo que capitula ao que quer que
Os termos cognatos. Carnaval, 1919)
[seja fora de si mesmo.

O meu verso é bom Observações De resto não é lirismo


Frumento sem joio. “Os Sapos”, poema declamado Será contabilidade tabela de cossenos
Faço rimas com por Ronald de Carvalho na segunda [secretário do amante exemplar com
Consoantes de apoio. noite da Semana de Arte Moderna, [cem modelos de cartas e as diferentes
em 15 de fevereiro de 1922, satiriza a [maneiras de agradar às mulheres, etc.
Vai por cinquenta anos preocupação parnasiana com as rimas,
Que lhes dei a norma: com a métrica, com o vocabulário Quero antes o lirismo dos loucos
precioso. Aproxima-se, parodistica- O lirismo dos bêbados
Reduzi sem danos
mente, do poema “Profissão de Fé”, O lirismo difícil e pungente dos bêbados
A fôrmas a forma.
de Olavo Bilac: O lirismo dos clowns de Shakespeare

Clame a saparia Invejo o ourives quando escrevo — Não quero mais saber do lirismo que não é
Em críticas céticas: Imito o amor [libertação.
Não há mais poesia, Com que ele, em ouro, o alto relevo (Manuel Bandeira,
Mas há artes poéticas…” Faz de uma flor. Libertinagem, 1930)

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MÓDULO 43 Primeira Geração Modernista: Mário de Andrade (I)

1. Mário de Andrade • Conto • Correspondência


(São Paulo, 1893-1945) Primeiro Andar (1926) Há centenas de cartas escritas para
Belazarte (1934) inúmeros amigos, artistas, intelectuais
❑ Vida Contos Novos (1947) etc. Destacam-se as para Manuel
“Sou trezentos, sou trezentos-e- Bandeira, Drummond, Murilo Mendes,
cinquenta, / mas um dia afinal toparei Sérgio Milliet, Paulo Duarte.
• Romance
comigo...”
Amar, Verbo Intransitivo (1927)
Fez o curso secundário no Ginásio 2. Considerações críticas
Nossa Senhora do Carmo e diplomou-se Macunaíma (1928) – Rapsódia
no Conservatório Dramático e Musical, ❑ Poesia
onde viria a ser professor de História da • Ensaio A poesia de Mário de Andrade
Música. Tendo sido um dos responsá- A Escrava que não é Isaura (1925) segue dois caminhos, muito ligados ao
veis pela Semana de Arte Moderna, O Aleijadinho e Álvares de Azevedo tipo de assunto que abordam.
animou as principais revistas do movi- (1935) Quando fala de São Paulo, o poeta
mento na sua fase de afirmação A Música e a Canção Populares no incorpora várias técnicas da poesia
polêmica: Klaxon, Estética, Terra Roxa e Brasil (1936) futurista europeia, porque a cidade, pre-
Outras Terras. Soube conjugar uma vida O Baile das Quatro Artes (1943) cisamente a metrópole, foi o eixo
de intensa criação literária com o estudo Aspectos da Literatura Brasileira principal de toda a arte moderna. É o que
apaixonado da música, das artes (1943) Mário de Andrade realiza principalmente
plásticas e do folclore brasileiro. De 1934 O Empalhador de Passarinhos em Pauliceia Desvairada (1922).
a 1937 dirigiu o Departamento de Cul- (1944) A outra vertente é folclórica, fincada
tura da Prefeitura de São Paulo, fundou O Banquete (1978) nas lendas brasileiras, inspirada em
a Discoteca Pública, promoveu o Primei- nossa formação cultural. Essa poesia
ro Congresso de Língua Nacional Canta- aparece sobretudo em Clã do Jabuti
da e dinamizou a excelente Revista do • Crônica
(1927).
Arquivo Municipal. Os Filhos da Candinha (1943)
Mas a partir de 1930, a poesia de
De 1938 a 1940 lecionou Estética na Mário de Andrade vai mostrando evo-
Universidade do Distrito Federal. lução e maturidade. Em Remate de
• Musicologia e Folclore
Voltando a São Paulo, passou a trabalhar Males (1930), ele já abandona muitos
Ensaio sobre a Música Brasileira
no Serviço do Patrimônio Histórico. maneirismos e modismos futuristas
(1928)
Faleceu na sua cidade aos cinquenta e para criar uma poesia que consegue
Compêndio de História da Música
um anos de idade. fundir o pessoal e o coletivo.
(1929)
Modinhas e Lundus Imperiais (1930)
❑ Obras Música, Doce Música (1933) ❑ Prosa
• Poesia Namoros com a Medicina (1939) A prosa literária de Mário de An-
Há uma Gota de Sangue em Cada Música do Brasil (1941) drade apresenta também duas tendên-
Poema (1917) Danças Dramáticas do Brasil (3 cias:
Pauliceia Desvairada (1922) vols., 1959)
Losango Cáqui (1926) Música e Feitiçaria no Brasil (1963)
• A prosa mítica e folclórica de
Clã do Jabuti (1927)
Macunaíma
Remate de Males (1930)
• História da Arte Macunaíma é uma revolução na
Poesias (1941) Padre Jesuíno do Monte Carmelo linguagem da narrativa. Mário de An-
Lira Paulistana (1946) (1946) e um grande número de opús- drade une tom oral a um vocabulário re-
O Carro da Miséria (1946) culos, folhetos etc., reunidos em vo- gional inédito na prosa de ficção.
Poesias Completas (1955) lumes nas Obras Completas. Macunaíma é “o herói sem nenhum ca-

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ráter”, é o índio nascido no Amazonas, Em Belazarte, com muita graça e As rolas da Normal
que vem para São Paulo buscar sua compadecimento cristão, Mário fala da esvoaçam entre os dedos da garoa...
(E si pusesse um verso de Crisfal
“muiraquitã” (pedrinha mágica, em gente pobre e oprimida das classes
No De Profundis?...)
forma de jacaré), roubada por um médias de São Paulo.
De repente
gigante de dupla identidade: por um lado Em Amar, Verbo Intransitivo, Mário um raio de Sol arisco
é índio antropófago (o gigante Piaimã), de Andrade dá tratamento literário a risca o chuvisco ao meio.
por outro é de origem italiana e mora processos psicanalíticos freudianos,
(Mário de Andrade,
em São Paulo (Venceslau Pietra). como fixações, recalques e sublima-
Pauliceia Desvairada)
Macunaíma consegue vencê-lo e ções. Neste romance, narra-se a história
recuperar a pedra. De volta à sua terra de uma jovem alemã, Fräulein, chamada
II
natal, não encontra mais sua tribo, que por uma família de burgueses
fora destruída. Fica sozinho na floresta, paulistanos para iniciar Carlos, filho mais
(…)
sempre triste por ter perdido a mulher velho, na vida sexual. Então Macunaíma percebeu que não era
que amava, Ci, mãe do mato, rainha das assombração nada, era mas o monstro Oibê
Icamiabas (tribo amazônica). Macunaíma minhocão temível. Criou coragem pegou no
passa o tempo contando suas histórias TEXTOS brinco da orelha esquerda que era a máquina
revólver e deu um tiro na assombração. Porém
(e mentindo muito) a um papagaio, seu
Oibê não fez caso e veio vindo. O herói tornou
único companheiro na solidão e narrador I a ter medo. Pulou na rede agarrou a gaiola e
presumível do livro. Morto pelo abraço escafedeu pela janela, jogando baratas no
destruidor de Yara (espécie de sereia Quando sinto a impulsão lírica escrevo caminho todo. Oibê correu atrás. Mas era só de
dos índios), sobe ao céu, transformado sem pensar tudo o que meu inconsciente me brincadeira que ele queria comer o herói.
grita. Penso depois: não só para corrigir, como Macunaíma desembestara agreste fora mas
numa estrela da Ursa Maior. Trata-se de
para justificar o que escrevi. Daí a razão deste isso ia que ia acochado pelo minhocão. Então
uma fábula múltipla, ou rapsódia, porque
Prefácio Interessantíssimo. botou o furabolo na goela, fez cosquinha e
reúne várias lendas brasileiras, tendo no (…) lançou a farinha engolida. A farinha virou num
centro a lenda de Macunaíma, que Mário Escrever a arte moderna não significa areão e enquanto o monstro pelejava pra atra-
de Andrade extraiu de um livro sobre os jamais para mim representar a vida atual no que vessar aquele mundo de areia escorregando,
mitos indígenas do norte do Amazonas. tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Macunaíma fugia. Tomou pela direita, desceu o
Si estas palavras frequentam-me o livro não é morro do Estrondo que soa de sete em sete
A narrativa reúne superstições, frases
porque pense com elas escrever moderno, mas anos seguiu por uns caponetes e depois de
feitas, provérbios e modismos de lin-
porque, sendo meu livro moderno, elas têm cortar um travessão encapelado fez o Sergipe
guagem, tudo sistematizado e intencio- nele razão de ser. de ponta a ponta e parou ofegante num agar-
nalmente entretecido. (…) rado muito pedregoso. Na frente havia uma lapa
grande furada por uma furna com um altarzinho
Chove? dentro. Na boca da socava um frade.
• A prosa pessoal urbana Sorri uma garoa cor de cinza, Macunaíma perguntou pro frade:
A prosa urbana de Mário de An- muito triste, como um tristemente longo... — Como se chama o nome de você?
A casa Kosmos não tem impermeáveis O frade pôs no herói uns olhos frios e
drade recolhe vários falares paulistanos
[em liquidação... secundou com pachorra:
do dia a dia, seja a fala mais polida,
Mas neste largo do Arouche — Eu sou Mendonça Mar pintor.
como aparece nos Contos Novos posso abrir o meu guarda-chuva para- Desgostoso da injustiça dos homens faz três
(1947), seja a oralidade dos bairros de [doxal, séculos que afastei-me deles metendo cara no
imigrantes italianos, como Belazarte este lírico plátano de rendas mar... sertão. Descobri esta gruta ergui com minhas
(1934). No primeiro, Mário descarrega mãos este altar do Bom Jesus da Lapa e vivo
muita dose de psicologismo, que cul- Ali em frente... — Mário, põe a máscara! aqui perdoando gente mudado em frei Fran-
— Tens razão, minha Loucura, tens razão. cisco da Soledade.
mina no célebre conto “Peru de Natal”,
O rei de Tule jogou a taça ao mar... — Está bom, Macunaíma falou. E partiu na
o mais conhecido dos contos de Mário. Os homens passam encharcados... chispada.
Apoiando-se em Freud (Totem e Tabu), Os reflexos dos vultos curtos (…)
desmistifica as relações familiares. mancham o petit-pavé... (Mário de Andrade, Macunaíma, cap. XV)

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MÓDULO 44 Mário de Andrade (II): Macunaíma e Oswald de Andrade (I)

1. Macunaíma – análise da obra forma que o “herói sem nenhum ❑ Um estilo de lenda,
caráter” pode, num mesmo capítulo, épico-lírico, solene
Em 1928, Mário de Andrade publi-
estar em São Paulo, encontrar o minho- No fundo do mato-virgem nasceu
cou sua obra-prima, a “rapsódia” Macu-
cão Oibê, assombração, e fugir dele cor- Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto
naíma. Escrita em poucos dias em retinto e filho do medo da noite. Houve um
rendo por Sergipe, Campinas, Bahia,
dezembro de 1926, a obra foi revisada momento em que o silêncio foi tão grande
deparando-se em todo esse percurso
três vezes antes de ser editada. Para escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia
com personagens reais e lendárias. tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é
escrevê-la, o autor passou vários anos
Assim, as sucessivas traquinagens que chamaram de Macunaíma.
pesquisando a mitologia indígena, o fol-
de Macunaíma são vividas num espaço (Mário de Andrade, Macunaíma, cap. I)
clore nacional, os costumes e a lin-
mágico, próprio da atmosfera fantástica
guagem dos brasileiros. Numa tentativa
e maravilhosa em que se desenvolve a ❑ Um estilo de crônica,
de mapear o Brasil, registrando sua
narrativa. cômico, despachado, solto
história, seus costumes, seus falares, os
ritmos das canções e das danças Já na meninice fez coisas de sarapantar.
De primeiro passou mais de seis anos não
populares, o livro, num clima surrealista ❑ Linguagem
falando. Si o incitavam a falar, exclamava:
e mítico, acumula um exagero de len- A linguagem também é construída
— Ai! que preguiça!...
das, superstições, frases feitas, provér- pelo processo de colagem, pela combi- e não dizia mais nada. Ficava no canto da
bios e modismos de linguagem. nação de vocábulos e torneios sintáticos maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o
Rapsódia, na antiga Grécia, identi- colhidos dos mais variados falares do trabalho dos outros e principalmente os dois
fi cava cada trecho cantado de um Brasil. Com isso, o autor criou um estilo manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê
na força de homem. O divertimento dele era
poema épico. Em música, segundo o muito pessoal e expressivo, capaz de
decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si
dicionário Aurélio, é uma “fantasia ins- transmitir lirismo, humor, deboche,
punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dan-
trumental que utiliza melodias tiradas comicidade, revelando maturidade lite- dava pra ganhar vintém. E também espertava
dos cantos tradicionais ou populares”. rária e domínio estilístico. quando a família ia tomar banho no rio, todos
São também rapsódias os ve lhos ro - juntos e nus. (...)
mances versificados e musicados, as Quando era pra dormir trepava no macuru
❑ Foco narrativo pequeninho sempre se esquecendo de mijar.
canções de gesta de Rolando, a Encan- O foco narrativo predominante é o Como a rede da mãe estava por debaixo do
tada Branca-Flor e, nos dias atuais, as de terceira pessoa, mas Mário de berço, o herói mijava quente na velha, es-
gestas dos cangaceiros, entoadas nas Andrade inova ao utilizar uma técnica pantando os mosquitos bem. Então adormecia
feiras do Nordeste pelos cantadores. cinematográfica de cortes bruscos no sonhando palavras feias, imoralidades estram-
O livro segue o mesmo processo de bólicas e dava patadas no ar.
discurso do narrador para dar lugar à fala
composição ou construção da rapsódia, (...)
das personagens. (Mário de Andrade, Macunaíma, cap. I)
justapondo vários trechos que ganham
unidade no conjunto da obra. Assim,
2. Estilos de narração ❑ Um estilo de paródia
tomando como fio condutor a persona-
gem Macunaíma, o autor faz uma Retoma, satiricamente, a linguagem
colagem de diversos fragmentos, mistu- A narrativa de Macunaíma apoia-se empolada e pedante dos parnasianos e
rando as lendas dos índios com a vida na ideia de que tudo vira tudo e na dos cultores de Rui Barbosa e Coelho
urbana das cidades do Sudeste, as capacidade de compor e recompor Neto. É o que se vê na “Carta pras
anedotas da história brasileira com os configurações a partir de conteúdos dís- Icamiabas”, que o herói escreve no
costumes do Nordeste etc. pares, esvaziados de suas primitivas capítulo IX, focalizando a duplicidade no
funções. Daí a técnica caleidoscópica, uso de nossa língua:
❑ Tempo e espaço por meio da qual as ideias e imagens se
Criando uma narrativa fantástica e projetam arbitrariamente, inclusive nos (...) Mas cair-nos-iam as faces, si ocul-
táramos no silêncio uma curiosidade original
picaresca, há subversão do tempo e do modos de contar, nos estilos narrativos.
deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de
espaço geográfico, que não obedecem Alfredo Bosi destaca três estilos de expressão intelectual é tão prodigiosa, que
às regras de verossimilhança, de tal narrar: falam numa língua e escrevem noutra. (...) Nas

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conversas, utilizam-se os paulistanos dum cundo anarquismo, fazendo de Oswald Mais tarde, já no auge do movi-
linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e uma personagem em perpétua revolta, mento modernista (1926), casa-se com
impuro na vernaculidade, mas que não deixa de Tarsila do Amaral, formando o elegan-
guiado por uma infinita curiosidade: “En-
ter o seu sabor e força nas apóstrofes, e tam- tíssimo casal Tarsiwald, fundador do
caixo tudo, somo, incorporo”.
bém nas vozes do brincar. Destas e daquelas
Das memórias da infância, uma das Movimento Antropófago. Entra em con-
nos inteiramos, solícito; e nos será grata em-
tato com alguns artistas europeus, co-
presa vô-las ensinarmos aí chegado. Mas si de mais marcantes foi a descoberta do
mo Blaise Cendrars e Leger. Neste
tal desprezível língua se utilizam na conversação circo, que plasmou a visão circense do
os naturais desta terra, logo que tomam da período promove concorridas reuniões
mundo, a carnavalização da vida, tão
pena, se despojam de tanta asperidade, e surge etílico-gastronômico-culturais. Em Paris,
marcantes na ironia, no humor e nas
o Homem Latino de Lineu, exprimindo-se numa Oswald lança seu primeiro livro de poe-
paródias de Oswald, que se dizia “um sias, Pau-Brasil, ilustrado por Tarsila.
outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no
dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com palhaço da burguesia”. Com a crise internacional em 1929,
imperecível galhardia, se intitula: língua de Aos 22 anos parte para a Europa, in- Oswald vai à falência, dependurando-se
Camões! corporando em sua bagagem, no re- nos reis da vela, apelido dos agiotas da
(Mário de Andrade, Macunaíma, cap. IX) gresso, os “ismos” da vanguarda do zona bancária do centro velho de São
velho mundo: as lembranças de Landa Paulo. Perde tudo, transforma-se num
3. Oswald de Andrade “vira-latas do Modernismo”, mas
Kosbach, dançarina, “flor de carne
(São Paulo, 1890-1954) adquire uma vigorosa experiência das
musculosa e doirada”, e Kamiá, ex-
rainha dos estudantes de Montmartre, misérias do mundo das finanças,
❑ Vida matéria-prima que vai transpor em O Rei
que lhe dá o primeiro filho, Nonê
Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, casei, da Vela.
enviuvei, casei, divorciei, viajei, casei... já disse (síntese de “nosso nenê”).
No início dos anos de 1930, passa a
que sou conjugal, gremial e ordeiro. O que não Conhece também lsadora Duncan, de
viver com Patrícia Galvão (Pagu), ativís-
me impediu de ter brigado diversas vezes à quem foi muito amigo e com quem
sima mulher que foi finalmente resga-
portuguesa e tomado parte em algumas escandalizou a sociedade da época. tada para a memória nacional por
batalhas campais. Nem ter sido preso 13 vezes.
Dessas relações, a mais intensa se- Augusto de Campos, em trabalho pu-
Tive também grandes fugas por motivos
rá com Deise, apelidada “Miss Ciclone”, blicado no ano de 1982.
políticos. Tenho três filhos e três netos e sou
casado, em últimas núpcias, com Maria Anto- moça de uma garçonnière da Rua Líbero Com Pagu, Oswald realiza uma gui-
nieta d’Alkimin. Sou livre-docente de literatura Badaró, com quem Oswald passa a viver nada ideológica para a esquerda, filian-
na Faculdade de Filosofia da Universidade de em 1917. Deise morre tragicamente de do-se ao Partido Comunista e fundando
São Paulo. um aborto malsucedido, e Oswald casa- o jornal O Homem do Povo, pasquim
(Oswald de Andrade, humorístico-panfletário, que foi empas-
se com ela in extremis, no leito do
de um artigo publicado pelo telado por estudantes da Faculdade de
hospital em que estava internada.
Diário de Notícias, em 1950.) Direito do Largo São Francisco. Serafim
As marcas dessa relação vão rea-
Ponte Grande é o romance que projeta
O mal foi ter eu medido o meu avanço parecer no primeiro romance, Os Con-
essa fase de radicalidade criativa e ideo-
sobre o cabresto metrificado e nacionalista de denados. Em seu livro de memórias,
lógica.
duas remotas alimárias — Bilac e Coelho Neto. Oswald fala dessa fase:
Fiel à sua proposta de “monogamia
O erro foi ter corrido na mesma pista inexisten-
te. (...) sucessiva”, Oswald casa-se, em 1936,
A situação “revolucionária” desta bosta “Sinto-me só, perdido numa imensa noite com a poetisa Julieta Bárbara e, em
mental sul-americana apresentava-se assim: o de orfandade. 1942, com Maria Antonieta d’Alkimin,
contrário do burguês não era o proletário — era A amada que me deu a vida partiu sem me sua relação mais estável, documentada
o boêmio! As massas, ignoradas no território e, dizer adeus. nos poemas de Cântico dos Cânticos,
como hoje, sob a completa devassidão eco- A francesa que trouxe de Paris veio buscar para Flauta e Violão e no livro de
nômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais o dinheiro para outro homem. memórias.
brincando de roda. Landa, que foi o primeiro sonho vivo que Nas décadas de 1940 e 1950,
(Oswald de Andrade, me ofuscou, tornou-se a estátua de sal da lenda Oswald dedica-se à vida acadêmica, in-
prefácio de Serafim Ponte Grande) bíblica. Olhou para o passado.
clinando-se para a problemática espiri-
lsadora Duncan estrondou como raio e
tual e para os temas essenciais da vida.
passou. A que encontrei, enfim, para ser toda
O mais radical dos modernistas de
minha, meu ciúme matou...
22 teve sua vida marcada por uma cria- Estou só e a vida vai custar a reflorir.
tiva vontade de transgredir, por um fe- Estou só.”

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MÓDULO 45 Oswald de Andrade (II)

❑ Obras ❑ Considerações gerais Alfredo Bosi identifica, na obra de


• Romance a) Oswald chega a vivenciar uma Oswald, três níveis:
Os Condenados, I – Alma; II – A Es- São Paulo ainda provinciana, despertan- I – O mais inferior: a prosa de Os
trela de Absinto; III – A Escada do para o seu processo de industria- Condenados, A Estrela de Absinto e A
Vermelha (1941; reedição, num lização. Ele está no meio de duas forças: Escada Vermelha, novelas meio munda-
único volume, de A Trilogia do Exílio nas, meio psicológicas, nas quais há
a do patriarcalismo agrário, já passada, e
ou Romances do Exílio, escritos sempre um artista atribulado pelas
a do início da tecnologia urbana.
entre 1922 e 1934) exigências de sua personalidade.
“Nossos pais vinham do patriarcado
Memórias Sentimentais de João Mi- lI – O trânsito para a experiência do
rural, nós inaugurávamos a era da
ramar (1924) romance “informal” de Memórias Sen-
indústria”, ele afirma com lucidez na
Serafim Ponte Grande (1933) timentais de João Miramar, seu ponto
mirada retrospectiva de sua vida.
Marco Zero, I – A Revolução Me- alto, e de Serafim Ponte Grande. Ambas
Assim, os meios de comunicação
lancólica (1943) as obras correm paralelamente às poé-
de massa — como o cinema, o rádio, a
Marco Zero, lI – Chão (1945) ticas do Pau-Brasil e da Antropofagia, no
linguagem da propaganda — são rapida-
sentido de satirizar o Brasil.
mente assimilados pelo poeta. “Postes
III – A “nova revolução formal”: o te-
• Poesia da Light”, em Poesia Pau-Brasil, é um
legrafismo das rupturas sintáticas, o
Pau-Brasil (1925) exemplo de poema cujo estilo vem
simultaneísmo, as ordens do subcons-
Primeiro Caderno do Aluno de Poe- contaminado pela síntese vertiginosa
causada pela nova paisagem urbana; ciente, os neologismos. A composição
sia Oswald de Andrade (1927)
suas principais personagens são a do romance é revolucionária: capítulos-
Poesias Reunidas (edição póstuma)
multidão, os novos meios de transporte, instantes; capítulos-relâmpagos; capí-

o fonógrafo, o cinema etc. Exemplo vivo tulos-sensações (capítulos-flash).


• Manifestos, Teses e Oswald, leitor dos futuristas e afe-
desta fascinação pelo moderno é o
Ensaios tado pela técnica do cinema — a co-
famoso Cadillac verde que Oswald
Manifesto da Poesia Pau-Brasil
possuía nessa época. lagem rápida de signos, os processos
(1924)
diretos “sem comparações de apoio”,
Manifesto Antropófago (1928) Segundo Antonio Candido:
“as palavras em liberdade” —, vai além
Ponta de Lança (1945) “Oswald de Andrade foi um dos
do verso livre. Desarticulação total da
A Arcádia e a Inconfidência (1945) mais vivos ensaístas e panfletários de
frase — o que produzirá também um
A Crise da Filosofia Messiânica nossa literatura, com uma rara capa-
modo novo de dispor o texto, uma nova
(1950) cidade de tornar sugestiva a ideia, pela
espacialização do material literário.
A Marcha das Utopias (póstuma, violência corrosiva das afirmações, o hu-
1966) morismo e o fulgor dos tropos. Na obra ❑ Pau-Brasil
propriamente criadora, mostrou a im- Composto em Paris, Oswald cria
portância das experiências semânticas e neste livro aquilo que ele chamaria de
• Teatro
O Homem e o Cavalo (1934) o relevo que a palavra adquire, quando poesia de exportação.

O Rei da Vela (1937) manipulada com o duplo apoio de O projeto visava a um desligamento
A Morta (1937) imagem surpreendente e da sintaxe dos modelos poéticos importados,
O Rei Floquinhos (infantil, 1953) descamada. Deste modo, quebrou as pondo fim à grandiloquência e à serie-
barreiras entre poesia e prosa, para dade. Composto de poemas-pílulas,
atingir a uma espécie de fonte comum mistura a linguagem antiga dos cronis-
• Memórias
de linguagem artística. Pode-se dizer tas e jesuítas da época do descobri-
Um Homem sem Profissão (1954)
que a sua importância histórica de reno- mento do Brasil com o falar coloquial de
vador e agitador (no mais alto sentido) seu tempo; reinventa composições
• Crônicas foi decisiva para a formação da nossa consagradas do Romantismo em paró-
Telefonemas (edição póstuma) literatura contemporânea.” dias irônicas.
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Oswald recria, poeticamente, a Car- Temos aqui dois exemplos da for-


TEXTOS
ta de Caminha a D. Manuel. Veja em “As ça expressiva que Oswald retira de sua
ESCAPULÁRIO Meninas da Gare” a justaposição do linguagem elíptica, alusiva, conden-
histórico ao moderno: as indígenas a que sada. O “Noturno” evidencia a técnica
No Pão de Açúcar Pero Vaz se refere são vistas como as cubista, prevalecendo as formas
De Cada Dia meninas da gare (gare: palavra francesa geométricas: o círculo da lua e as retas
Dai-nos Senhor
que significa “estação”). do trem e do meridiano. O título é
A Poesia
ambíguo, remetendo-nos tanto a um
De Cada Dia
VÍCIO NA FALA tipo de composição musical romântica
(Oswald de Andrade,
“Por Ocasião da Descoberta do Brasil”) Para dizerem milho dizem mio
(os noturnos de Chopin) quanto à desig-
Para melhor dizem mió nação de um trem noturno.
Note como Oswald de Andrade pa- Para pior pió
Para telha dizem teia ESCOLA BERLITES
rodia a linguagem religiosa, substituindo
Para telhado dizem teiado
o termo “pão”, do Pai-Nosso, por “Pão E vão fazendo telhados Todos os alunos têm a cara ávida
de Açúcar” e “Poesia”. Com isto, o (Oswald de Andrade,
Mas a professora sufragete
poeta subverte a ordem litúrgica para “História do Brasil”)
Maltrata as pobres datilógrafas bonitas
introduzir o elemento brasileiro e refletir
E detesta
sobre o caráter da poesia. São traços PRONOMINAIS The spring
modernos do poema o seu humor, seu Der Frühling
Dê-me um cigarro
caráter sintético, assim como a ausên- La primavera scapigliata
Diz a gramática
cia total de pontuação. Do professor e do aluno Há uma porção de livros pra ser comprados
E do mulato sabido A gente fica meio esperando

A DESCOBERTA Mas o bom negro e o bom branco As campainhas avisam


Da Nação Brasileira As portas se fecham
Seguimos nosso caminho por este mar Dizem todos os dias É formoso o pavão?
[de longo Deixa disso camarada De que cor é o Senhor Seixas?
Até a oitava da Páscoa Me dá um cigarro Senhor Lázaro traga-me tinta
Topamos aves (Oswald de Andrade, Qual é a primeira letra do alfabeto?
E houvemos vista de terra “Postes da Light”)
Ah!
(Oswald de Andrade,
(Oswald de Andrade,
“História do Brasil”) Nos dois poemas se manifesta a
“Postes da Light”)
proposta de reduzir a distância entre a
OS SELVAGENS linguagem falada e a escrita, renegando
RECLAME
o passadismo acadêmico e abolindo “as
Mostraram-lhes uma galinha alfândegas culturais”, como diria
Fala a graciosa atriz
Quase haviam medo dela Oswald.
E não queriam pôr a mão Margarida Perna Grossa
E depois a tomaram como espantados Linda cor — que admirável loção
NOTURNO
(Oswald de Andrade, Considero lindacor o complemento
“História do Brasil”) Lá fora o luar continua Da toalete feminina da mulher
E o trem divide o Brasil Pelo seu perfume agradável
Como um meridiano E como tônico do cabelo garçone
AS MENINAS DA GARE (Oswald de Andrade,
Se entendam todas com Seu Fagundes
“São Martinho”)
Eram três ou quatro moças bem moças Único depositário

[e bem gentis Nos E. U. do Brasil


DITIRAMBO
Com cabelos mui pretos pelas espáduas (Oswald de Andrade,
E suas vergonhas tão altas e tão Meu amor me ensinou a ser simples “Postes da Light”)
[saradinhas Como um largo de igreja
Que de nós as muito bem olharmos Onde não há nem um sino Nestes dois poemas, dois aspectos
Não tínhamos nenhuma vergonha Nem um lápis “cosmopolitas” de São Paulo: a escola
(Oswald de Andrade, Nem uma sensualidade de línguas (“berlites”) e a sociedade de
“História do Brasil”) (Oswald de Andrade, “rp 1”) consumo (“reclame”).
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MÓDULO 46 Manuel Bandeira

1. Manuel Bandeira ❑ Considerações gerais TEXTOS


(Recife, 1886 – Rio de Janeiro, 1968) A poesia de Manuel Bandeira ca-
racteriza-se pela amplitude do âmbito,
❑ Vida testemunho de uma variedade criadora VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Feitos os estudos primários na cida- que vem do Parnasianismo crepuscular Vou-me embora pra Pasárgada
de natal, em 1896 muda-se com a famí- até as experiências concretistas, do Lá sou amigo do rei
lia para o Rio de Janeiro, onde se soneto às formas mais audazes de Lá tenho a mulher que eu quero
matricula no Colégio Pedro II. Termina- expressão. Doutro lado, conservou e Na cama que escolherei
do o curso secundário, vai para São Vou-me embora pra Pasárgada
adaptou ao espírito moderno os ritmos
Paulo estudar engenharia, mas adoece
e formas mais regulares, de tal maneira
gravemente e abandona o projeto de ser Vou-me embora pra Pasárgada
que nenhum outro contemporâneo Aqui eu não sou feliz
arquiteto (1904). Inicia-se, então, uma de-
revela tão acentuadamente a herança do Lá a existência é uma aventura
morada peregrinação em busca de me-
mais puro lirismo português, trans- De tal modo inconsequente
lhoras, o que finalmente o leva a Clavadel,
fundido na mais autêntica pesquisa da Que Joana a Louca de Espanha
na Suíça (1913). Com a deflagração da
nossa sensibilidade. Sob este aspecto, Rainha e falsa demente
Primeira Grande Guerra, regressa ao Vem a ser contraparente
a sua obra lembra a de Gonçalves Dias.
Brasil e, em 1917, publica seu primeiro Da nora que nunca tive
Em toda ela, com timbre inconfun-
livro: A Cinza das Horas. Integrado no
dível, corre a nota da ternura ardente da
movimento renovador de 1922, continua E como farei ginástica
a escrever e publicar poesia, enquanto paixão pela vida, que vem desde os Andarei de bicicleta
colabora com a imprensa. Em 1935, é versos da mocidade até os de hoje, Montarei em burro bravo
nomeado inspetor do ensino secundário, como força humanizadora. Graças a Subirei no pau de sebo
três anos mais tarde, professor de Lite- isso, a confidência e a notação exterior Tomarei banhos de mar
ratura no Colégio Pedro II e, em 1943, é se unem numa expressão poética ao E quando estiver cansado
mesmo tempo familiar e requintada, Deito na beira do rio
nomeado professor de Filosofia, cargo
pitoresca e essencial, unificando o que Mando chamar a mãe-d’água
em que se aposentou em 1956. Perten-
Pra me contar histórias
ceu à Academia Brasileira de Letras e há de melhor no lirismo intimista e no
Que no tempo de eu menino
faleceu no Rio de Janeiro em 13 de registro do espetáculo da vida. Daí uma
Rosa vinha me contar
outubro de 1968. simplicidade que em muitos Vou-me embora pra Pasárgada
modernistas parece afetada, mas que
❑ Obras nele é a própria marca da inspiração. (...)
• Poesia São frequentes, em sua poesia, os
A Cinza das Horas (1917) seguintes temas: a morte, a recordação E quando eu estiver mais triste
Carnaval (1919) da infância, o cotidiano simples, a Mas triste de não ter jeito
O Ritmo Dissoluto (1924) Quando de noite me der
melancolia, o erotismo. Como poeta da
Libertinagem (1930) Vontade de me matar
morte, é dos maiores de nossa língua. O
— Lá sou amigo do rei —
Estrela da Manhã (1936) mais célebre de seus poemas de Terei a mulher que eu quero
Lira dos Cinquent’Anos (1940) recordação da infância é “Evocação do Na cama que escolherei
Belo, Belo (1948) Recife”. Talvez sua mais famosa com- Vou-me embora pra Pasárgada.
Mafuá do Malungo (1948) posição seja “Vou-me embora pra (Manuel Bandeira,
Opus 10 (1952) Pasárgada”, na qual constrói uma utopia Libertinagem )
Estrela da Tarde (1958) como compensação emocional.
Estrela da Vida Inteira (1966) Sua linguagem poética caracteriza-
DESENCANTO

se pela musicalidade, que sempre se Eu faço versos como quem chora


• Prosa
De desalento... de desencanto...
Itinerário de Pasárgada (1954) conserva próxima do coloquial. É um
Fecha o meu livro, se por agora
Andorinha, Andorinha (1966) exemplar artesão da forma poética,
Não tens motivo nenhum de pranto.
(textos inéditos, selecionados por tanto das formas tradicionais da poesia,
Carlos Drummond de Andrade) quanto da forma moderna do verso livre Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
e da composição, não obediente a Tristeza esparsa... remorso vão...
Também escreveu crítica literária, padrões estabelecidos. (Antonio Dói-me nas veias. Amargo e quente,
crônicas etc. Candido) Cai, gota a gota, do coração.

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E nestes versos de angústia rouca PROFUNDAMENTE Arquiteto falhado, músico


Assim dos lábios a vida corre, Falhado (engoliu um dia
Deixando um acre sabor na boca. Quando ontem adormeci Um piano, mas o teclado
Na noite de São João Ficou de fora); sem família,
— Eu faço versos como quem morre. Havia alegria e rumor Religião ou filosofia;
(Manuel Bandeira, Estrondos de bombas luzes de Bengala Mal tendo a inquietação de espírito
A Cinza das Horas) Vozes cantigas e risos Que vem do sobrenatural,
Ao pé das fogueiras acesas. E em matéria de profissão
Um tísico1 profissional.
PNEUMOTÓRAX No meio da noite despertei (Manuel Bandeira,
Não ouvi mais vozes nem risos Outros Poemas)
Apenas balões Vocabulário
Febre, hemoptise1, dispneia2 e suores noturnos. Passavam errantes 1 – Tísico: tuberculoso.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Silenciosamente
Tosse, tosse, tosse. Apenas de vez em quando PREPARAÇÃO PARA A MORTE
O ruído de um bonde
A vida é um milagre.
Mandou chamar o médico: Cortava o silêncio
Cada flor,
— Diga trinta e três. Como um túnel.
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
— Trinta e três... trinta e três... trinta e três... Onde estavam os que há pouco
Cada flor é um milagre.
— Respire. Dançavam
Cada pássaro,
............................................................................. Cantavam
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
E riam
Cada pássaro é um milagre.
— O senhor tem uma escavação no pulmão Ao pé das fogueiras acesas?
O espaço, infinito,
[esquerdo e o pulmão
O espaço é um milagre.
[direito infiltrado. — Estavam todos dormindo
O tempo, infinito,
— Então, doutor, não é possível tentar o Estavam todos deitados
O tempo é um milagre.
[pneumotórax3? Dormindo
A memória é um milagre.
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango Profundamente
A consciência é um milagre.
[argentino.
Tudo é milagre.
(Manuel Bandeira, *
Tudo, menos a morte.
Libertinagem ) Quando eu tinha seis anos
— Bendita a morte, que é o fim de todos os
Não pude ver o fim da festa de São João
[milagres.
Porque adormeci
Vocabulário (Manuel Bandeira,
1 – Hemoptise: expectoração de sangue prove- Estrela da Tarde)
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
niente dos pulmões. Minha avó
2 – Dispneia: dificuldade de respirar. NAMORADOS
Meu avô
3 – Pneumotórax: forma de tratamento da tu- Totônio Rodrigues O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
berculose. Tomásia — Antônia, ainda não me acostumei com o seu
Rosa [corpo, com a sua cara.
Onde estão todos eles?
TERESA A moça olhou de lado e esperou.
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados — Você não sabe quando a gente é criança e
A primeira vez que vi Teresa
Dormindo [de repente vê uma lagarta listrada?
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Profundamente.
Achei também que a cara parecia uma perna
(Manuel Bandeira, A moça se lembrava:
Libertinagem) — A gente fica olhando...
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que A meninice brincou de novo nos olhos dela.
[o resto do corpo AUTORRETRATO O rapaz prosseguiu com muita doçura:
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos
[esperando que o resto do corpo nascesse) Provinciano que nunca soube — Antônia, você parece uma lagarta listrada.
Escolher bem uma gravata; A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
Da terceira vez não vi mais nada Pernambucano a quem repugna
Os céus se misturaram com a terra A faca do pernambucano; O rapaz concluiu:
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a Poeta ruim que na arte da prosa — Antônia, você é engraçada! Você parece
[face das águas. Envelheceu na infância da arte, [louca.
(Manuel Bandeira, E até mesmo escrevendo crônicas (Manuel Bandeira,
Libertinagem ) Ficou cronista de província; Libertinagem)

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Segunda Geração Modernista (Poesia):


MÓDULO 47
Carlos Drummond de Andrade (I)

1. Conceito e âmbito ❑ Plano estético e Jorge Amado), concretizando uma


No plano estético, destacam-se: literatura empenhada, participante, presa
O segundo tempo modernista mar- – o predomínio de um “projeto aos moldes do neorrealismo e do
ca, simultaneamente, a consolidação ideológico” sobre um “projeto es- neonaturalismo;
de algumas propostas da “fase heroica” tético”; • o romance intimista ou psi-
ou “de demolição” (1922-1930) e certo – a consolidação das conquistas de cológico, voltado para a crise essencial
recuo quanto às propostas mais radicais 1922, mas com o recuo quanto às da burguesia urbana e para a sondagem
da “Semana” e dos seus propostas mais radicais da “fase profunda do “eu” (Cyro dos Anjos,
desdobramentos. Propõe-se, passada a heroica”; Cornélio Pena, Érico Veríssimo — pri-
fase de ruptura, um modernismo – o cessar da oposição ao Moder- meira fase).
moderado, com o abandono, por nismo;
exemplo, do radicalismo experimen- – o desejo de denúncia da realidade 2. Carlos Drummond de Andrade
talista de Oswald e a retomada de certas social e espiritual do Brasil. (Itabira, MG, 1902 – Rio de
linhas do passado (o Simbolismo na Janeiro, 1987)
corrente espiritualista, as formas ❑ Poesia
clássicas, a tradição lírica portuguesa e Na poesia são identificáveis estas ❑ Vida
brasileira etc.). constantes: • Descendente de fazendeiros e mi-
– estabilização das conquistas no- neradores da cidade mineira de Itabira
❑ O contexto histórico vas; (jazidas de ferro).
O período de 1930-1945 foi marca- – ampliação da temática; • Expulso de um colégio de pa-
do, entre outros, pelos seguintes even- – caminho para o universal; dres; estudou Farmácia em Belo Hori-
tos: – equilíbrio no uso do material zonte.
– os efeitos da crise econômica linguístico, em termos de normas de lin- • Contato com o Modernismo
ocorrida em 1929 com o crack da Bolsa guagem. paulista; fundação de A Revista (1925),
de Nova York; Há, na poesia, três direções básicas: primeiro periódico de literatura moderna
– a radicalização política: Direita • a poesia de tensões ideológicas: em Minas.
(nazismo, fascismo, integralismo) e Carlos Drummond de Andrade; • Funcionário público no Rio de
Esquerda (comunismo); • a poesia de preocupação re- Janeiro.
– as esperanças com a Revolução ligiosa e filosófica (o grupo “Festa”, de • Autor de crônicas jornalísticas
de 1930, logo frustradas pelo Estado tendência espiritualista): Cecília bastante populares.
Novo e pela Ditadura Vargas; Meireles, Tasso da Silveira, Augusto
– o rompimento da dominação in- Frederico Schmidt, Jorge de Lima e ❑ Obras
conteste das oligarquias regionais e a Vinicius de Moraes; • Poesia
ascensão da nova burguesia industrial; • a poesia de dimensão sur- Alguma Poesia (1930)
– a aliança do tenentismo liberal e realista: Murilo Mendes. Brejo das Almas (1934)
da política getuliana com as oligarquias, Sentimento do Mundo (1940)
provocando a radicalização política dos ❑ Prosa Poesias (1942)
segmentos da inteligência nacional, Na prosa, são identificáveis duas A Rosa do Povo (1945)
marginalizados no processo; daí as direções: Poesia até Agora (1948)
aproximações de Rachel de Queirós, • o realismo regionalista, que se Claro Enigma (1951)
Jorge Amado, Graciliano Ramos e configura nos romances do ciclo Viola de Bolso (1952)
outros ao Partido Comunista, no qual nordestino, marcado pelo propósito de Fazendeiro do Ar & Poesia até
militaram; análise e denúncia dos problemas sociais Agora (1953)
– a Segunda Guerra Mundial (1939- do Nordeste (José Américo de Viola de Bolso Novamente Encordo-
1945) fecha o período, projetando no Almeida, Rachel de Queirós, ada (1955)
país a tensão externa. Graciliano Ramos, José Lins do Rego Poemas (1959)
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A Vida Passada a Limpo (1959) sente gauche (= sem jeito, inadaptado) e preensão; na luta contra o medo (“que
Lição de Coisas (1962) a ironia, sob a forma intencional de um esteriliza os abraços”) e contra a
Versiprosa (1967) antilirismo: consciência da impossibilidade da
Quando nasci, um anjo torto luta (“eu tenho apenas duas mãos / e o
Boitempo (1968) desses que vivem na sombra sentimento do mundo”).
Menino Antigo (1973) disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Em “Mãos Dadas”, o compromisso
As Impurezas do Branco (1973) com o homem, a solidariedade:
(...)
Discurso da Primavera & Algumas
Sombras (1978) Meu Deus, por que me abandonaste Não serei o poeta de um mundo caduco.
se sabias que eu não era Deus Também não cantarei o mundo futuro.
A Paixão Medida (1980)
se sabias que eu era fraco. (...)
Corpo (1984) Mundo mundo vasto mundo, (...)
Amar se Aprende Amando (1985) se eu me chamasse Raimundo O tempo é a minha matéria, o tempo
seria uma rima, não seria uma solução. [presente, os homens presentes,
Tempo Vida Poesia (1986) Mundo mundo vasto mundo, a vida presente.
Poesia Errante (1988) mais vasto é meu coração.
O Amor Natural (1992) A poesia social de Drummond faz
(...)
Farewell (1996) desabrochar o “sentimento do mun-
Na “Confidência do Itabirano”, a do”, marcado pela consciência da
• Prosa infância e a vida, modelando a proverbial solidão, da impotência do homem diante
Confissões de Minas (ensaios e “secura” do poeta, o alheamento, o de um mundo frio e mecânico que o
poeta que se sente de ferro, que se diz reduz a objeto. “Os Mortos de Sobre-
crônicas, 1944)
ilha, mas que esconde sob essa apa- casaca”, “Congresso Internacional do
Contos de Aprendiz (1951) rente indiferença uma indisfarçável Medo”, “A Noite Dissolve os Homens”,
Passeios na Ilha (ensaios e crônicas, solidariedade, um profundo senso do “Mundo Grande”, “O Lutador”, “Mão
1952) humano e do social: Suja”, “A Morte do Leiteiro”, “A Flor e
Fala, Amendoeira (1957) a Náusea” e “José” incluem-se nessa
Alguns anos vivi em Itabira.
A Bolsa e a Vida (crônicas e poe- vertente.
Principalmente nasci em Itabira.
mas, 1962) Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Em Claro Enigma (1951) passa a
Noventa por cento de ferro nas calçadas. predominar a escavação do real, me-
Cadeira de Balanço (crônicas e
Oitenta por cento de ferro nas almas. diante um processo de interrogações e
poemas, 1970) E esse alheamento do que na vida é negações que acaba revelando o vazio à
O Poder Ultrajovem e mais 79 Tex- [porosidade e comunicação.
espreita do homem. O mundo define-se
tos em Prosa e Verso (1972) como “um vácuo atormentado” (exis-
A vontade de amar, que me paralisa o
Os Dias Lindos (1977) [trabalho, tencialismo niilista). A abolição de toda
70 Historinhas (1978) vem de Itabira, de suas noites brancas, crença e o apagar-se de toda esperança
[sem mulheres e sem horizontes. trazem consigo o autofechamento do
Boca de Luar (1984) E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
espírito.
O Observador no Escritório (1985) é doce herança itabirana.
Essa negatividade, a abolição de to-
Moça Deitada na Grama (1987)
(...) da crença, o apagar-se de toda es-
O Avesso das Coisas (1987) perança traduzem-se pela expressão de
Drummond manteve estreitos laços dor, do vazio, da angústia, da consciência
❑ Apreciação de amizade com o grupo dos modernistas da queda que aprisiona todo ser vivo, daí
Nos primeiros livros são constantes de 1922 (Mário, Oswald e Bandeira). o autofechamento:
a ironia, a atitude mineiramente Sob inspiração dos ideais da Semana de
desconfiada de refletir, o pessimismo, 22, funda, em 1925, A Revista, ponta de (...)
a autonegação, as reminiscências da lança do Modernismo em Minas Gerais.
É sempre nos meus pulos o limite.
infância itabirana. Drummond parece Em 1928, publica o arquifamoso “No É sempre nos meus lábios a estampilha.
buscar a si mesmo, posicionando-se Meio do Caminho”, na Revista de Antro- É sempre no meu não aquele trauma.
como espectador de um mundo que não pofagia.
aceita e que tenta descrever e encontrar. A partir de Sentimento do Mundo Sempre no meu amor a noite rompe.
e especialmente em A Rosa do Povo, a Sempre dentro de mim meu inimigo.
No “Poema de Sete Faces”, que poesia de Drummond centra-se na E sempre no meu sempre a mesma
[ausência.
abre o primeiro livro, Alguma Poesia dimensão social, no cotidiano, na
(1930), a confissão do poeta que se denúncia da estupidez, da incom- (“O Enterrado Vivo”)

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Lição de Coisas marca a opção eco, a repetição compulsória do som- Não faças versos sobre acontecimentos
concreto-formalista do poeta. Essa poe- coisa, aproximam, contudo, Drummond (...)
Penetra surdamente no reino das
sia objetual de Drummond é uma radi- das operações técnicas das vanguardas
[palavras.
calização de processos estruturais que de 1950/60:
já estavam presentes desde Alguma ISSO É AQUILO (“Procura da Poesia”)
Poesia, na opção pelo prosaico, pelo irô-
O fácil o fóssil
nico, pelo antirretórico, pelo antilirismo
o míssil o físsil Meu verso é minha consolação.
intencional e que predispunham, pela a arte o infarte Meu verso é minha cachaça.
recusa e pela contenção, ao poema- o ocre o canopo (...)
objeto, típico da Geração de 1950. a urna o farniente
O processo básico é a linguagem a foice o fascículo Meu verso me agrada sempre...
nominal (“fazer as coisas e as palavras a lex o judex
o maiô o avô (“Explicação”)
— nomes de coisas — boiar nesse
a ave o mocotó
vácuo sem bordas a que a interrogação o só o sambaqui
reduziu os reinos do ser”), por meio da Não rimarei a palavra sono
desintegração da palavra. Drummond, (...) com a incorrespondente palavra outono.
contudo, não aderiu a nenhuma receita Rimarei com a palavra carne
poética das vanguardas do Concretismo, A procura da poesia, a poesia ou qualquer outra, que todas me convêm.
Poema-Processo, Poesia-Práxis etc. (...)
metalinguística, que se pensa e se
A ruptura com a sintaxe, a rima final interroga, a metapoesia são constantes (“Consideração do Poema”)
ou interna, a assonância, a aliteração e o no poeta:

MÓDULO 48 Carlos Drummond de Andrade (II)

1. Temática drummondiana fragmentado. O “Poema de Sete Faces”, A morte e o sentido (ou falta de
primeiro texto do primeiro livro de sentido) da existência, a consciência
Na Antologia Poética, que publicou Drummond (Alguma Poesia, 1930), é um culpada, a busca de sabedoria são
em 1962, Carlos Drummond de Andrade célebre exemplo deste tema (ver frag- outros dos temas que frequentam os
classificou tematicamente sua poesia, mentos do poema na aula anterior, no poemas do indivíduo na poesia de
distribuindo os seus poemas por nove item “Apreciação”). As inquietações do Drummond.
compartimentos, considerados “pontos indivíduo drummondiano envolvem, por
de partida ou matéria de poesia”. A seguir, exemplo, preocupação com a velhice,
❑ 2. A terra natal :
enumeramos e comentamos brevemente como em “Dentaduras Duplas”:
“uma província: esta”
esses nove núcleos temáticos da poesia
A profunda, dura, triste relação com
drummondiana, colocando ao lado de cada Dentaduras duplas!
o lugar de origem, que o indivíduo aban-
um, entre aspas, o título da seção Inda não sou bem velho
correspondente da Antologia. para merecer-vos... dona, mas que não o abandona, carac-
O próprio poeta adverte sobre a Há que contentar-me teriza o tema da “terra natal”. Um dos
existência de poemas seus que pode- com uma ponte móvel mais célebres poemas sobre o assunto
riam ser associados a mais de um dos e esparsas coroas. é “Confidência do Itabirano” (ver frag-
temas seguintes. Pode-se acrescentar (Coroas sem reino, mento do texto na aula anterior). Mas o
os reinos protéticos tema pode ser tratado também de forma
que há também entre seus poemas
de onde proviestes bem humorada e crítica, como em
alguns — bem poucos, é verdade —
quando produzirão
cuja temática não corresponde a “Cidadezinha Qualquer”:
a tripla dentadura,
nenhum de tais temas. Ainda assim, o
dentadura múltipla,
quadro discernido pelo poeta oferece Casas entre bananeiras
a serra mecânica,
uma visão abrangente das preocu- mulheres entre laranjeiras
sempre desejada,
pomar amor cantar.
pações que frequentaram a sua obra ao jamais possuída,
longo de todo o seu desenvolvimento. que acabará Um homem vai devagar.
com o tédio da boca, Um cachorro vai devagar.
❑ 1. O indivíduo: a boca que beija, Um burro vai devagar.
“um eu todo retorcido” a boca romântica?...) Devagar... as janelas olham.
O indivíduo, na poesia de
Drummond, é complicado, torturado, (...) Eta vida besta, meu Deus.

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❑ 3. A família: onde o diabo joga dama com o destino, (...)


estás sempre aí, bruxo alusivo e
“a família que me dei”
[zombeteiro,
Sem qualquer sentimentalismo — Este o nosso destino: amor sem conta,
que resolves em mim tantos enigmas.
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
bem ao contrário — o indivíduo inter-
doação ilimitada a uma completa
roga, sem alegria, a misteriosa realidade (...)
[ingratidão,
da família, que existe nele, em seu e na concha vazia do amor a procura
corpo, é parte de suas emoções e de ❑ 5. O choque social: [medrosa,
seu imaginário. Os antepassados e a paciente, de mais e mais amor.
“na praça de convites”
relação com eles constituem um proble- Aqui os poemas se voltam para o Amar a nossa falta mesma de amor, e na
ma inquietante, que põe em questão os espaço social, onde o indivíduo se expõe [secura nossa
fundamentos de nossa existência, como ao apelo dos outros e vive os dramas amar a água implícita, e o beijo tácito, e a
se constata no poema “Convívio”: coletivos. Os grandes poemas de temá- [sede infinita.
tica político-social de Drummond abor- (“Amar”)
Cada dia que passa incorporo mais esta dam os horrores da guerra, da opressão,
[verdade, de que eles não
[vivem senão em nós
da injustiça, da violência. Durante os ❑ 7. A própria poesia:
e por isso vivem tão pouco; tão anos marcados pela Segunda Guerra “poesia contemplada”
[intervalado; tão débil. Mundial e, no Brasil, pela ditadura de Trata-se das “artes poéticas” de
(...) Getúlio Vargas (época em que Drummond: poemas sobre o quê e o
Drummond aderiu, brevemente, ao como da poesia. Podem ser poemas de
(...) credo socialista), o poeta produziu circunstância, singelos como “Poesia”:
alguns de seus mais inflamados poemas
Ou talvez existamos somente neles, que
“participantes”, como “Elegia 1938” Gastei uma hora pensando um verso
[são omissos, e nossa existência,
(também referente ao tema do indi- que a pena não quer escrever.
apenas uma forma impura de silêncio,
No entanto ele está cá dentro
[que preferiram. víduo), que termina assim:
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
❑ 4. Amigos: Coração orgulhoso, tens pressa de
e não quer sair.
[confessar tua derrota
“cantar de amigos” (...)
e adiar para outro século a felicidade
O título atribuído pelo poeta à seção
[coletiva.
de sua Antologia Poética dedicada aos Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego Esse poema trata da incapacidade
amigos joga com os “cantares” ou [e a injusta distribuição
de expressão (a poesia intuída que não
“cantigas de amigo” medievais. São porque não podes, sozinho, dinamitar a
[ilha de Manhattan. chega às palavras), que revela uma ideia
homenagens a figuras admiradas,
“romântica” de poesia (como algo que
próximas ou distantes, como Machado
existe na alma do poeta, para a qual ele
de Assis, Charles Chaplin, Mário de ❑ 6. O conhecimento
pode “não encontrar palavras”).
Andrade ou Manuel Bandeira, em poe- amoroso: “amar-amaro” Diferentes são as grandes “artes poé-
mas às vezes de grande penetração Amaro é “amargo”. A paronomásia ticas” de Drummond, como “Procura da
crítica. O poema dedicado a Machado de (trocadilho) que descreve este tema Poesia”:
Assis, “A um Bruxo, com Amor”, con- exprime um elemento básico da concep-
tém as seguintes iluminações: ção drummondiana do amor. Numa
Não faças versos sobre acontecimentos.
visão nada romântica ou sentimental, o
(...) Não há criação nem morte perante a poesia.
amor é entendido como uma forma pri- Diante dela, a vida é um sol estático,
vilegiada e incontornável de exploração não aquece nem ilumina.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da da existência e, portanto, de conhe- As afinidades, os aniversários, os
[monotonia universal cimento — conhecimento de si e do [incidentes pessoais não contam.
e tens no rosto antigo outro. Mas se trata de algo “amargo” Não faças poesia com o corpo,
uma expressão a que não acho nome certo esse excelente, completo e confortável
porque impõe sofrimento, sendo uma
(das sensações do mundo a mais sutil): [corpo, tão infenso à efusão lírica.
sede insaciável, um desejo impossível Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de
volúpia do aborrecimento?
de satisfazer, uma necessidade que não [dor no escuro
ou, grande lascivo, do nada?
encontra correspondência: são indiferentes.
(...) Nem me reveles teus sentimentos,
Que pode uma criatura senão, que se prevalecem do equívoco e tentam
Todos os cemitérios se parecem, entre criaturas, amar? [a longa viagem.
e não pousas em nenhum deles, mas amar e esquecer, O que pensas e sentes, isso ainda não é
[onde a dúvida amar e malamar, [poesia.
apalpa o mármore da verdade, a descobrir amar, desamar, amar?
a fenda necessária; sempre, e até de olhos vidrados, amar? (...)

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Penetra surdamente no reino das palavras. portanto, que a poesia se faz com camabel camabel o vale ecoa
Lá estão os poemas que esperam ser palavras, não sendo algo que possa sobre o vazio de ondalit
[escritos. a noite asfáltica
existir “dentro” do poeta, independen-
Estão paralisados, mas não há desespero, plkx
temente das palavras.
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de ❑ 9. Uma visão, ou tentativa de, da
[dicionário. ❑ 8. Exercícios lúdicos: existência: “tentativa de explo-
(...) “uma, duas argolinhas” ração e de interpretação do estar-
Aqui temos os jogos com as pala- no-mundo”
Chega mais perto e contempla as palavras. vras — atividade aparentemente infantil,
Cada uma Trata-se de poemas em torno de
mas poética em sua essência, e respon- questões e conjecturas sobre a exis-
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta, sável por alguns dos mais espantosos e tência, o “estar-aqui”, sobre o que há
pobre ou terrível, que lhe deres: complexos poemas de Drummond, “no meio do caminho”:
Trouxeste a chave? como “Áporo” ou “Isso é Aquilo”. As
“brincadeiras” podem ter, por exemplo, No meio do caminho tinha uma pedra
(...) sentido crítico, de criticism of life, como tinha uma pedra no meio do caminho
no divertido e malicioso quadro da artifi- tinha uma pedra
Trata-se de uma “arte poética” por- no meio do caminho tinha uma pedra.
cialidade da vida moderna, em “Os
que é um poema que contém uma con- Nunca me esquecerei desse
Materiais da Vida”: [acontecimento
cepção do que seja a poesia e de como
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
ela deva ser feita. A concepção
Drls? Faço meu amor em vidrotil Nunca me esquecerei que no meio do
expressa neste texto é bastante dife- [caminho
nossos coitos são de modernfold
rente da que antes apareceu no poema até que a lança de interflex tinha uma pedra
“Poesia”, pois aqui a ideia é de que o vipax nos separe tinha uma pedra no meio do caminho
poema é um objeto de palavras e, em clavilux no meio do caminho tinha uma pedra.

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Morfologia e Redação FRENTE 4

MÓDULOS 20 e 21 Pontuação

A vírgula é usada para indicar a separação entre termos independentes entre si, quer no período, quer na oração. Por
indicar o que já está separado, a vírgula não pode ser empregada entre os termos que mantêm entre si uma estreita
ligação. Seria erro grave, portanto, colocá-la entre

• o sujeito e o verbo:

Cada instante da vida é um passo rumo à morte. (Corneille)

sujeito verbo

• o verbo e seu complemento:

A prosperidade faz poucos amigos. (Vauvenargues)

verbo complemento
verbal

• o nome e seu adjunto adnominal ou complemento nominal:

A mais nobre missão do ser humano é prestar sua ajuda ao semelhante... (Sófocles)

adjunto nome adjunto nome complemento


adnominal adnominal nominal

• a oração subordinada substantiva e a oração principal:

O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever. (Almirante Barroso)

oração principal oração subordinada substantiva

Quem não gosta do Brasil não me interessa. (Gilberto Amado)

oração subordinada oração principal


substantiva

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1. USA-SE VÍRGULA PARA j) nas datas, o nome do lugar: 4. PONTO FINAL


SEPARAR: “São Paulo, 11 de dezembro de
1977.”; Usa-se para:
a) termos que exercem a — denotar maior pausa,
mesma função sintática: “Ela tem l) partículas e expressões de encerramento, períodos que
sua claricidade, seus caminhos, suas explicação, correção, continuação, terminem por oração que não seja
escadas, seus andaimes.” (Cecília conclusão, concessão: “Sairá interrogativa direta ou exclamativa:
Meireles); amanhã, aliás, depois de amanhã.”;
“O retrato mostra uns olhos re-
b) orações coordenadas as- m) para indicar, às vezes, a dondos, que me acompanham para
sindéticas: “Examinou o polvarinho e elipse do verbo: “Em frente, um todos os lados, efeito de uma pintura
o chumbeiro, pensou na viagem, gramal vastíssimo.” (Raul Pompeia). que me assombrava em pequeno.”
estremeceu.” (Graciliano Ramos); (Machado de Assis, Dom Casmurro).
2. DOIS-PONTOS
c) orações coordenadas sindé- 5. PONTO DE INTERROGAÇÃO
ticas, salvo as introduzidas pela Usam-se:
conjunção e: “Cessaram as buzinas, a) em enumerações expli- Usa-se:
mas prosseguia o alarido nas ruas.” cativas: “De vez em quando o olhar a) nas orações interrogativas
“O último (amor) é que é o verdadeiro, distraído esbarra numa novidade: ban- diretas: “Quem sou? Para onde vou?
porque é o único que não muda.” galô em construção, obras na calçada, Qual minha origem?” (Augusto dos
(Manuel Antônio de Almeida); ou apenas um papel na vidraça...” Anjos);
(Augusto Meyer);
d) aposto explicativo: “Conhe- b) no diálogo, sozinho ou
cia também o marido, seu Ramalho, b) para anunciar citações: acompanhado de exclamação para
sujeito calado, sério, asmático, “Murmura a relva: ‘que suave raio!;’ / expressar dúvida:
eletricista da Nordeste.” (Graciliano Responde o ramo: ‘como a luz é “– Conheceu, gente, o que é
Ramos); meiga!’” (Castro Alves); sangue de Peixoto?!” (Guimarães
Rosa).
e) pleonasmo, polissíndeto e c) para indicar esclarecimento,
repetições: “Tornou a andar, a andar, síntese, consequência do que foi 6. RETICÊNCIAS
a andar.” (Machado de Assis); dito: “Não és bom, nem és mau: és
triste e humano...” (Olavo Bilac). Usam-se para denotar hesitação,
f) Vocativo: “Dom Casmurro, interrupção do pensamento:
domingo vou jantar com você.” (Ma- 3. PONTO-E-VÍRGULA
“Sei que você fez promessa...
chado de Assis); mas uma promessa assim... não sei...
Usa-se:
Creio que, bem pensado... Você acha
g) orações subordinadas ad- a) para anunciar pausas mais
que, prima Justina?” (Machado de
jetivas explicativas: “Calçava fortes: “Os dois primeiros alvitres
Assis).
sapatos de duraque, rasos e velhos, a foram desprezados por impraticáveis;
que ela mesma dera alguns pontos.” Ernesto não tinha dinheiro nem
7. ASPAS
(Machado de Assis); crédito tão alto.” (Machado de Assis);
Usam-se para ressaltar expres-
h) orações intercaladas: “A b) para separar as adversativas,
sões ou apontar vocábulo com estran-
rosa, disse o Gênio, é a tua infância.” enfatizando o contraste: “Não se
geirismo ou gíria e nas citações:
(Augusto Meyer); disse mais nada; mas de noite Lobo
Neves insistiu no projeto.” (Machado – “Me passe” os cobres... é a
i) orações subordinadas ad- de Assis); fórmula de uma cobrança amigável.
verbiais deslocadas: “Assim como a (Júlio Ribeiro).
abelha fabrica mel no coração negro c) para separar os diversos
do jacarandá, a doçura está no peito itens de enunciados enumerativos
do mais valente guerreiro.” (José de (em leis, decretos, portarias, regula-
Alencar); mentos etc.).

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MÓDULO 22 Processo Descritivo

1. DESCRIÇÃO ❑ Descrição estática


e dinâmica
A descrição é um tipo de texto, ou A captação de uma realidade es-
Viam-se homens de corpo nu,
modalidade textual, em que predo- pacial pode ocorrer de duas maneiras:
minam verbos de estado e adjetivos jogando a placa, com grande alga-
estática, como uma fotografia, ou
que caracterizam pessoas, ambientes zarra. Um grupo de italianos, as- dinâmica, como um filme.
e objetos. É raro encontrarmos um sentado debaixo de uma árvore, Lendo ou elaborando um texto
texto exclusivamente descritivo. Qua- conversava ruidosamente, fu- descritivo, precisamos formar ou dar
se sempre a descrição vem mesclada a conhecer uma dessas duas realida-
a outras modalidades, caracterizando
mando cachimbo. Mulheres en-
des. Imaginemos um pôr-do-sol cap-
uma personagem, detalhando um saboavam os filhos pequenos tado por uma máquina fotográfica e
cenário, um ambiente ou paisagem. debaixo da bica, muito zangadas esse mesmo estímulo registrado por
a darem-lhes murros, a praguejar, uma filmadora. A concepção fixa da
De acordo com os objetivos de realidade seria dada pela fotografia; já
e as crianças berravam de olhos
quem escreve, a descrição pode pri- o movimento do sol, só o filme
vilegiar diferentes aspectos: fechados, esperneando.
poderia mostrar.
(Aluísio Azevedo)
• pormenorização – corresponpon-
Observe, no texto abaixo, o dina-
de a uma persistência na carac-
mismo captado pelo observador.
terização de detalhes;

• dinamização – é a captação dos Na subjetiva, apreendem-se as


Os homens olhavam-se atôni-
movimentos de objetos e seres; sensações que o objeto evoca; é o
tos, diante do clamor geral das ví-
modo particular e pessoal de sentir e
• impressão – são os filtros da timas. Línguas de fogo viperinas
interpretar o que se descreve. Não
subjetividade, da atividade psicológica, procuravam atingi-los. Pelos ci-
interpretando os elementos observa- há preocupação com a exatidão da
mos da mata se escapavam aves
dos. imagem; o que importa é transmitir a
espantadas, remontando às altu-
impressão causada pelo objeto. Pre-
Apreendemos o mundo utilizando
ras num voo desesperado, pairan-
domina a linguagem conotativa.
nossos sentidos (visão, audição, do sobre o fumo.
gustação, olfato e tato) e transforma- Uma araponga feria o ar com
mos nossa percepção em palavras. um grito metálico e cruciante.
Aquele que descreve compõe uma (Graça Aranha)
imagem verbal; o receptor recria essa
Há um pinheiro estático e ex-
imagem mentalmente através dos
elementos e sensações descritas. tático, há grandes salso-chorões
derramados para o chão, e a gra- ❑ Descrição de pessoa
❑ Descrição objetiva Ao descrever uma pessoa ou uma
ça menina de uma cerejeira cor de
e subjetiva paisagem, podemos reproduzir os
vinho, que o sol oblíquo acende e pormenores físicos e/ou psicológicos.
A captação de uma imagem pode
ser objetiva ou subjetiva. Assim, faz fulgurar; mas o álamo junto do Os pormenores psicológicos retratam
temos a descrição objetiva e a portão tem um vigor e uma os aspectos emocionais ou mentais:
descrição subjetiva. Na objetiva, há a pureza que me fazem bem pela caráter, comportamento, tempera-
reprodução de uma percepção comum mento, defeitos, virtudes, preferên-
manhã, como se toda manhã, ao
a todos (tamanho, cor, forma, cias, inclinações e personalidade.
espessura, consistência, volume, di- abrir a janela, eu visse uma jovem, A dosagem equilibrada dos as-
mensões etc.); o observador descreve de pé, sorrindo para mim. pectos físicos e psicológicos garante
o objeto tal qual ele se apre- senta na (Rubem Braga) um texto descritivo em que a subje-
realidade. Predomina a linguagem tividade se projeta sobre a objetividade
denotativa (o significado real das dos traços físicos: olhar viperino,
palavras). sorriso doce, passo tímido, gestos

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nervosos, boca desdenhosa, nariz ❑ Elementos predominantes n a • Adjetivação


altivo, cabelos selvagens, dentes feli- descrição Caracterizadores qualificando
nos, corpo sensual, andar provocante, nomes.
• Frases nominais
voz envolvente.
São frases sem verbo ou orações
Observe como na descrição
abaixo predominam os aspectos em que predominam verbos de esta-
A pele da cabocla era desse
psicológicos. do ou condição.
moreno enxuto e parelho das
chinesas. Tinha uns olhos graú-
dos, lustrosos e negros como os
Sol já meio de esguelha, sol cabelos lisos, e um sorriso suave
Meu pai era um sonhador, mi-
das três horas. A areia, um bor- e limpo a animar-lhe o rosto oval
nha mãe uma realista.
ralho de quente. A caatinga, um de feições delicadas.
Enquanto ela mantinha os pés (Érico Veríssimo)
mundo perdido. Tudo, tudo para-
firmemente plantados na terra, ele
do: parado e morto.
se deixava erguer no balão irides-
cente de sua fantasia, recusando (Mário Palmério) • Figuras de linguagem
ver a realidade, oferecendo a Lua a Recursos expressivos, geralmente
si mesmo e aos outros, desejando em linguagem conotativa. As mais usa-
das na descrição são a metáfora, a
sempre o impossível... comparação, a prosopopeia, a
(Érico Veríssimo) onomatopeia e a sinestesia.

Efetivamente a rua era aquela;


e o velho palácio estava na minha
O rio era aquele cantador de
frente. Era um palácio de trezentos
viola, em cuja alma se refletia o
AUTORRETRATO anos, cor de barro, que me parecia
batuque das estrelas nuas, perdi-
muito familiar quanto ao desenho das no vácuo milenarmente frio do
de sua alta porta, aos ornatos das espaço... Depois ele ia cantando
Provinciano que nunca soube
colunas e ao lançamento da escada isso de perau em perau, de
Escolher bem uma gravata;
do vestíbulo. cachoeira em cachoeira...
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano; (Cecília Meireles) (Bernardo Élis)
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas • Sensações
• Frases enumerativas Um dos cinco sentidos, ou seja,
Ficou cronista de província; as percepções visuais, auditivas, gus-
Sequência de nomes, geralmente
Arquiteto falhado, músico tativas, olfativas e táteis.
sem verbo.
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Os sons se sacodem, ber-
Ficou de fora); sem família, A cama de ferro; a colcha bran- ram... Dentro dos sons movem-se
Religião ou filosofia; ca, o travesseiro com fronha de cores vivas, ardentes... Dentro dos
Mal tendo a inquietação morim. O lavatório esmaltado, a sons e das cores, movem-se
[de espírito bacia e o jarro. Uma mesa de pau, cheiros, cheiro de negro... Dentro
Que vem do sobrenatural, uma cadeira de pau, o tinteiro, dos cheiros, os movimentos dos
tatos violentos, brutais... Tatos,
E em matéria de profissão papéis, uma caneta. Quadros na
sons, cores, cheiros se fundem
Um tísico profissional. parede.
em gosto de gengibre...

(Manuel Bandeira) (Érico Veríssimo)


(Graça Aranha)

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MÓDULO 23 Elementos da Narrativa

1. DEFINIÇÃO 2. ESTRUTURA cativante ao leitor. A linguagem é


fundamental para definir o estilo,
Narrar é contar uma história (real conferindo um toque de originalidade
Convencionalmente, o enredo da
ao texto.
ou fictícia). O fato narrado apresenta narração pode ser assim estruturado:
uma sequência de ações envolvendo exposição (apresentação das perso-
personagens num determinado tempo nagens e/ou do cenário e/ou da épo-
3. O QUE SE PEDE NA
e espaço. São exemplos de narrativas: ca), complicação (início do conflito),
NARRAÇÃO
clímax (ponto de maior tensão) e
novela, romance, conto, crônica e,
desfecho (solução dos conflitos).
também, notícia de jornal, piada, A narrativa deve tentar responder
Entretanto, há diferentes possibili-
poema, letra de música ou história em dades de se compor uma trama, seja às seguintes perguntas essenciais:
quadrinhos, desde que apresentem iniciá-la pelo desfecho, construí-la
uma sucessão de acontecimentos, de apenas através de diálogos, ou mes- QUEM? – a personagem, ou persona-
fatos. mo fugir ao nexo lógico de episódios. gens;
Situações narrativas podem apa- As narrativas mais longas (roman-
O QUÊ? – o enredo, ou seja, o aconte-
ce, novela, conto) podem explorar
recer até mesmo numa única frase. cimento em si;
mais detalhadamente as noções de
tempo — cronológico (marcado pelas COMO? – o modo como se tecem os
Exemplos: fatos;
horas, por datas) e psicológico
O menino caiu. (marcado pelo fluxo inconsciente) — e ONDE? – o lugar, ou os lugares, da
“Minha sogra ficou avó.” de espaço (cenário, paisagem, ocorrência;
(Oswald de Andrade) ambiente). Visando, porém, à narração QUANDO? – o momento, ou
para vestibular, são elementos impres-
momentos, em que se passam os
Repare que a última frase resume cindíveis: personagens e ação. Além
ações relativas a casamento, mater- desses elementos, em seu texto não fatos;
nidade e a transformação da sogra em devem faltar emoção, suspense, POR QUÊ? – a causa do aconteci-
avó. surpresa e criatividade para torná-lo mento.

Observe o exemplo abaixo.

Quando o visitante do Hospício de Alienados atravessava uma sala viu um louquinho de ouvido
personagem espaço ação espaço ação personagem

colado à parede, muito atento. Uma hora depois, passando na mesma sala, lá estava o homem na mesma posição.
tempo cronológico ação espaço personagem

Acercou-se dele e perguntou:


ação

“Que é que você está ouvindo?” O louquinho virou-se e disse: “Encoste a cabeça e escute”. O outro colou
discurso direto personagem ação discurso direto ação

ouvido à parede, não ouvia nada: “Não estou ouvindo nada”. Então o louquinho explicou intrigado: “Está
discurso direto personagem discurso

assim há cinco horas”.


direto tempo
(Manuel Bandeira, Andorinha, Andorinha)

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4. PONTO DE VISTA OU • Narrador observador tentador: não dê, elas são suas.
FOCO NARRATIVO O narrador observador relata os Laura espantou-se um pouco: por que
fatos, registrando as ações e as falas as coisas nunca eram dela?
Fato e narração são realidades das personagens; ele conta, como
diferentes. Um único fato pode ser tra- mero espectador, uma história vivida (Clarice Lispector,
duzido de maneiras distintas. Contar por terceiros. É a narrativa elaborada Imitação da Rosa)
(ato de narrar) ou como contar (a em terceira pessoa (ele, ela, eles,
interpretação do fato) implica uma cer- elas). ❑ Tipos de discurso
ta posição do narrador com relação ao Os tipos de discurso de que pode
acontecimento. Assim sendo, o nar- utilizar-se o narrador são:
Exemplo
rador pode assumir dois pontos de
O Campos, segundo o costume,
vista na narrativa ou focos nar- • Direto – o narrador transcreve
acabava de descer do almoço e, a
rativos. Se o narrador está dentro da fielmente a fala da personagem.
pena atrás da orelha, o lenço por
história, o foco narrativo é de primeira 1) – Estou cansada demais para
dentro do colarinho, dispunha-se a
pessoa (eu); se, ao contrário, está fora conversar, disse Luci, olhando ao
da história, o foco é de terceira
prosseguir o trabalho interrompido
redor.
pessoa. pouco antes. Entrou no escritório e
2) – Olhando ao redor, Luci disse:
foi sentar-se à secretária.
“Estou cansada demais para
❑ Tipos de narrador conversar”.
(Aluísio Azevedo, Casa de Pensão)
• Narrador-personagem ou 3) – Olhando ao redor, Luci disse:
narrador participante – Estou cansada demais para
O narrador é uma das persona- • Narrador onisciente ou conversar.
gens, principal ou secundária, da his- onipresente
tória. Ele está “dentro” da história e O narrador é uma espécie de • Indireto – o narrador transcreve
“vê” os acontecimentos de dentro pa- testemunha invisível de tudo quanto a fala da personagem, adaptando o
ra fora. Nesse caso, a narrativa é ela- ocorre, em todos os lugares e em tempo verbal.
borada em primeira pessoa (eu – nós). todos os momentos; ele não só se Olhando ao redor, Luci disse
preocupa em dizer o que as perso- que estava cansada demais para
Exemplo nagens fazem ou falam, mas também conversar.
Coloquei-me acima de minha traduz o que pensam e sentem. Por-
classe, creio que me elevei bastante. tanto, ele tenta passar para o leitor as • Indireto livre – é a fusão da fala
Como lhes disse, fui guia de cego, emoções, os pensamentos e os sen- do narrador com a da personagem,
vendedor de doces e trabalhador de timentos das personagens. sem qualquer indicação gráfica
aluguel. Estou convencido de que (travessão, dois-pontos ou verbos co-
nenhum desses ofícios me daria os Exemplo mo “disse”, “falou” e outros).
recursos intelectuais necessários para Um segundo depois, muito sua-
engendrar esta narrativa.
ve ainda o pensamento ficou le- Luci olhou ao redor. Estou cansada
(Graciliano Ramos, São Bernardo) vemente mais intenso, quase demais para conversar.

ESTRUTURA NARRATIVA

Personagem(ns)
[ – definem-se pelas caracte-
rísticas e pelas ações
Espaço [ – lugar (definido pela descrição ou apenas
citado)
Enredo [ – ação, organização de fatos

[
– direto (fala da personagem)
Discurso – indireto (o narrador traduz a fala da personagem)
Tempo [– cronológico (tempo real)
– psicológico (tempo mental)
– indireto livre (fusão da fala do narrador e da
personagem)

{
– narrador onisciente (tudo sabe, conhece a
de terceira pessoa

[
interioridade das personagens)
(de fora da história) – narrador observador (tudo vê)
Foco Narrativo
de primeira pessoa
(de dentro da história) { – narrador-personagem (conta o que vê como
personagem)

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MÓDULO 24 Tipos de Discurso Narrativo


1. INTRODUÇÃO sonagem e, ao mesmo tempo, ofere- com travessão. Alguns romancistas
Na composição de um texto cem elementos para sua caracteri- modernos aboliram esses recursos
narrativo, o narrador pode reproduzir a zação psicológica. gráficos e inovaram a introdução do
fala da personagem empregando as Segundo Celso Cunha e Lindley diálogo, como é o caso de José
seguintes possibilidades: discurso Cintra (Nova gramática do português Saramago, em Memorial do Conven-
direto, discurso indireto, discurso contemporâneo), “no plano expres- to, que apenas usa a maiúscula no
indireto livre. sivo, a força da narração em meio do discurso do narrador para
discurso direto provém essen- introduzir o discurso direto.
2. DISCURSO DIRETO cialmente de sua capacidade de E, pegando numa ideia, depois
No discurso direto indica-se o atualizar o episódio, fazendo emergir noutra, por alguma razão desconhe-
interlocutor e caracteriza-se-lhe a fala da situação a personagem, tornando-a cida as ligando, perguntou ao soldado,
por meio de verbos dicendi ou de viva para o ouvinte, à maneira de uma E vossemecê, que idade tem, e
elocução: que indicam quem está cena teatral, em que o narrador Baltazar respondeu, Vinte e seis anos.
emitindo a mensagem. desempenha a mera função de
indicador das falas. Estas, na repro- (José Saramago,
dução direta, ganham naturalidade e Memorial do Convento)
acrescentar interrogar vivacidade, enriquecidas por
afirmar interromper elementos linguísticos tais como ex-
concordar intervir 3. DISCURSO INDIRETO
consentir mandar
clamações, interrogações, interjeições,
contestar ordenar vocativos e imperativos, que costu-
continuar pedir mam impregnar de emotividade a ex- No discurso indireto, o narrador
declarar perguntar pressão oral”. exprime indiretamente a fala da
determinar prosseguir Observe o efeito dos diálogos na personagem. O narrador funciona co-
dizer protestar pequena narração a seguir. mo testemunha auditiva e passa para
esclarecer reclamar
exclamar repetir
o leitor o que ouviu da personagem.
explicar replicar NAMORADOS Nessa transcrição, o verbo aparece
gritar responder na terceira pessoa, sendo
indagar retrucar
O rapaz chegou-se para junto da
moça e disse: imprescindível a presença de verbos
insistir solicitar
— Antônia, ainda não me acos- dicendi (dizer, responder, retrucar,
tumei com o seu corpo, com a sua replicar, perguntar, pedir, exclamar,
Nem sempre o autor indica de contestar, concordar, ordenar, gritar,
quem são as falas, já que elas se cara.
A moça olhou de lado e esperou. indagar, declarar, afirmar, mandar
esclarecem dentro do contexto. O
— Você não sabe quando a gente etc.) seguidos dos conectivos que
exemplo abaixo ilustra essa possibi-
lidade: é criança e de repente vê uma lagarta (dicendi afirmativo) ou se (dicendi
— Bonito papel! quase três da listada? interrogativo) para introduzirem a fala
madrugada e os senhores completa- A moça se lembrava: da personagem na voz do narrador.
mente bêbados, não é? — A gente fica olhando ... Observe, nos exemplos abaixo, os
Foi aí que um dos bêbados pediu: A meninice brincou de novo nos discursos indiretos destacados.
— Sem bronca, minha senhora. olhos dela. “Ele começou, então, a contar
Veja logo qual de nós quatro é o seu O rapaz prosseguiu com muita que tivera um sonho estranho.”
marido que os outros querem ir para doçura: “Todos se calaram para ouvi-lo e
casa. — Antônia, você parece uma la-
ele, muito sério, perguntou qual era o
(Stanislaw Ponte Preta) garta listada.
assunto. Informado, prosseguiu
A moça arregalou os olhos, fez
O diálogo acelera a narrativa, le- exclamações. dizendo que estava profundamente
vando o leitor a entrar em contato dire- O rapaz concluiu: interessado em colaborar.”
to com as personagens. O narrador — Antônia, você é engraçada! “João perguntou se ele estava
apenas dá indicações sobre quem fala. Você parece louca. interessado nas aulas.”
Além de imprimir mais dinamismo e Na narração, para reconstituir a
(Manuel Bandeira)
realismo à narração, o diálogo pre- fala da personagem, utiliza-se a
sentifica a história. Os traços lin- O discurso direto apresenta pon- estrutura de um discurso direto ou de
guísticos do discurso direto revelam a tuação específica, podendo aparecer um discurso indireto. O domínio
identidade cultural e social da per- depois de dois-pontos, entre aspas ou dessas estruturas é importante tanto

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para empregar corretamente os tipos aparece na terceira pessoa, sendo do narrador. Observe, no exem plo
de discurso na redação escolar, como imprescindível a presença de verbos abaixo, o discurso indireto des -
para exercitar a transformação introdutórios dicendi ou declarativos tacado:
desses discursos exigida em alguns (dizer, responder, retrucar, replicar,
exames vestibulares. perguntar , pedir , exclamar , (...) e moleque Prudêncio me
No discurso indireto, o narrador contestar , concordar , ordenar , disse que uma pessoa do meu
exprime indiretamente a fala da gritar , indagar , declarar , afirmar , conhecimento se mudara na véspera
personagem. O narrador funciona mandar etc.) seguidos dos conec - para uma casa roxa, situada a
como testemunha auditiva e passa tivos que (dicendi afirmativo) ou se duzentos passos da nossa.
para o leitor o que ouviu da perso - ( dicendi interrogativo) para intro - (Machado de Assis)
nagem. Nessa transcrição, o verbo duzirem a fala da personagem na voz

Na passagem do discurso direto para o indireto, cabem as seguintes observações quanto à construção da frase:

DISCURSO DIRETO DISCURSO INDIRETO

• Presente ——————––––––––––––––––––––——> Pretérito imperfeito


O eletricista, irritado, comentou: O eletricista, irritado, comentou que naquele momento
— Agora é o interruptor que não funciona! (ou instante) era o interruptor que não funcionava.

• Pretérito perfeito —––––––––––––––––––————> Pretérito mais-que-perfeito


— Já esperei demais, retrucou com indignação. Retrucou com indignação que já esperara (ou tinha
esperado) demais.

• Futuro do presente ———–––––––––––––———-> Futuro do pretérito


Pedrinho gritou: Pedrinho gritou que só sairia do seu quarto (ou do quarto
— Só sairei do meu quarto amanhã. dele) no dia seguinte.

• Imperativo ——–––––––––––––––––——————-> Pretérito imperfeito do subjuntivo


— Olhou-a e disse secamente: Olhou-a e disse secamente que ela o deixasse em paz.
— Deixe-me em paz.

• Primeira ou segunda pessoa –––––––––––———-> Terceira pessoa


Maria disse: Maria disse que não queria sair com Roberto naquele
— Não quero sair com Roberto hoje. dia.

• Demonstrativo este ou esse ——–––––––––——-> Demonstrativo aquele


Retirou o livro da estante e acrescentou: Retirou o livro da estante e acrescentou que aquele era o
— Este é o melhor. melhor.

• Vocativo ———––––––––––––––––––––––————> Objeto indireto na oração principal


— Você quer café, João? perguntou a prima. A prima perguntou a João se ele queria café.

• Forma interrogativa ou imperativa —–––––––——> Forma declarativa


Abriu o estojo, contou os lápis e depois perguntou ansiosa: Abriu o estojo, contou os lápis e depois perguntou
— E o amarelo? ansiosa pelo amarelo.

• Advérbios de lugar e de tempo


aqui ——————–––––––––––––––––––––––––———> lá
daqui ——————–––––––––––––––––––––––––———> dali, de lá
agora ——————–––––––––––––––––––––––––———> naquele momento, naquela ocasião, então
hoje ——————–––––––––––––––––––––––––———> naquele dia
ontem ——————–––––––––––––––––––––––––———> no dia anterior, na véspera
amanhã ——————–––––––––––––––––––––––––———> no dia seguinte

• Pronomes demonstrativos e possessivos


essa(s), esta(s) ——————–––––––––––––––––––———> aquela(s)
esse(s), este(s) ——————–––––––––––––––––––———> aquele(s)
isso, isto ——————–––––––––––––––––––———> aquilo
meu, minha ——————–––––––––––––––––––———> seu, sua (dele, dela)
teu, tua ——————–––––––––––––––––––———> seu, sua (dele, dela)
nosso, nossa ——————–––––––––––––––––––———> seu, sua (deles, delas)

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4. DISCURSO INDIRETO LIVRE 5. DISCURSO DO NARRADOR tringente na garganta. Mas não me


incomodei. Andei cortando rosas. Fui
Resultante da mistura dos Há, também, o discurso em que o ver o poço debaixo das laranjeiras.
discursos direto e indireto, existe uma narrador registra a ação das perso- Não senti nada. Passei mesmo um dia
terceira modalidade de técnica nagens, além de comentar, analisar, delicioso. Como é possível que aquilo
inferir, interpretar e relacionar fatos da fosse arsênico? Como é possível
narrativa, o chamado discurso indireto
história. É o discurso do narrador. imaginar que se deixe um pacote de
livre, processo de grande efeito
arsênico na mesa da cozinha? Nem
estilístico. É uma espécie de monó- De repente, Honório olhou para o me ocorreu que existisse no mundo
logo interior das personagens, mas chão e viu uma carteira. Abaixar-se, arsênico em tanta quantidade. E que
expresso pelo narrador que deverá, apanhá-la e guardá-la foi obra de população de ratos há na granja para
obrigatoriamente, ser de terceira alguns instantes. Ninguém o viu, salvo se ter de usar veneno aos quilos?
pessoa e onisciente. Este interrompe um homem que estava à porta de (Cecília Meireles)
a narrativa para registrar e inserir refle- uma loja...
xões ou pensamentos das perso- (Machado de Assis) Resumindo
nagens, com as quais passa a ser
confundido. 6. MONÓLOGO INTERIOR Foco narrativo ou ponto de vista do
As orações do discurso indireto
livre são, em regra, independentes, narrador:
Forma dramática ou literária do
sem verbos dicendi, sem pontuação discurso da personagem consigo • Narrador-personagem ou partici-
que marque a passagem da fala do mesma. No monólogo interior, o pante: foco narrativo em pri-
narrador para a fala da personagem, narrador (em primeira ou terceira
meira pessoa.
mas com transposições do tempo do pessoa) registra as emoções da per-
sonagem, suas divagações íntimas, • Narrador observador: foco nar-
verbo (pretérito imperfeito) e dos
pronomes (terceira pessoa). Esse seus desabafos. Dessa forma, a rativo em terceira pessoa.
personagem parece esquecer-se do
discurso é muito empregado na • Narrador onisciente: foco narrati-
leitor ou do ouvinte, escrevendo ou
narrativa moderna, pela fluência e vo em terceira pessoa.
falando, de maneira desconexa, tudo
ritmo que confere ao texto. Exemplo: que lhe vem à mente, sem obedecer,
Deu um passo para a catingueira. necessariamente, à concatenação
Se ele gritasse “Desafasta”, que faria lógica dos períodos e aos aspectos Tipos de discurso:
a polícia? Não se afastaria, ficaria sintáticos tradicionais. Essa associa-
• direto (diálogo): o narrador repro-
colado ao pé de pau. Uma lazeira, a ção livre de ideias traduz o “fluxo de
gente podia xingar a mãe dele. Mas consciência” da personagem, que o duz textualmente a fala da
então... Fabiano estirava o beiço e narrador transcreve utilizando, de personagem.
rosnava. Aquela coisa arriada e preferência, o discurso direto ou o
• indireto: o narrador conta o que
achacada metia as pessoas na cadeia, indireto livre.
Observação a personagem fala.
dava-lhes surra. Não entendia. Se
Para a maioria dos autores, • indireto livre: a fala da persona-
fosse uma criatura de saúde e
monólogo e solilóquio represen-
muque, estava certo. Enfim, apanhar tavam a mesma forma de discurso da gem funde-se com a fala do nar-
do governo não é desfeita, e Fabiano personagem consigo mesma. rador.
até sentia orgulho ao recordar-se da
• do narrador: o narrador conta a
aventura. Mas aquilo... Soltou uns MONÓLOGO
grunhidos. Por que motivo o história e tece comentários so-
governo aproveitava gente assim? Quem é capaz de imaginar que o bre personagens e aconteci-
Só se ele tinha receio de empregar pó branco de um saco de papel, em mentos.
tipos direitos. Aquela cambada só cima da mesa da cozinha, não seja
• Monólogo: em primeira ou ter-
servia para morder as pessoas açúcar ou sal? Naturalmente, provei.
inofensivas. Ele, Fabiano, seria tão Tinha um sabor acre e pegajoso. ceira pessoa, registro do pensa-
ruim se andasse fardado? Iria pisar os Pensei: deve ser algum desses adu- mento da personagem,
pés dos trabalhadores e dar bos químicos que o Antônio traz para
as beterrabas. Não consigo lembrar se linguagem às vezes desconexa,
pancadas neles? Não iria.
cuspi ou engoli. Devo ter engolido. “fluxo de consciência”.
(Graciliano Ramos) Fiquei com uma sensação ads-

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