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O olho do mal: a crença do mau-olhado no imaginário social

da cidade de Imperatriz (MA)


Francisco Chagas Vieira Lima Júnior*

Resumo: O presente artigo aborda a crença do “mau-olhado” no imaginário


social da cidade de Imperatriz-MA, buscando caracterizar esse fenômeno de
acordo com o material teórico e fontes especializadas sobre o assunto, para que
assim possamos conhecer os principais aspectos históricos e conceituais dessa
crença. Além disso, apresenta uma pesquisa de campo, realizada através
entrevista oral, obtida mediante gravação em áudio de narrativas, com o fim de
obter dados primários sobre a mística do olhar entre diversos indivíduos das
mais diversas partes da cidade de Imperatriz-MA.
Palavras-chave: Mau-olhado. Crença. Fascinação. Imaginário. Oralidade.

Abstract: The present article discusses the belief in “evil eye” in the social
imaginary of the city of Imperatriz-MA, seeking to describe this phenomenon
according to the theoretical material and specialized sources on the subject, so
that we can know the main historical and conceptual this belief. It also,
presents a field survey, conducted via oral interview, obtained by recording
audio narratives in order to obtain primary data on the mystique of the gaze
between individuals from different parts of the city of Imperatriz-MA.
Key words: Evil eye. Belief. Fascination. Imaginary. Orality.

*
FRANCISCO CHAGAS VIEIRA LIMA JÚNIOR é Pós-graduando em Metodologia do
Ensino na Educação Superior pela Faculdade Internacional de Curitiba – FACINTER.

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1. Introdução uma pesquisa bibliográfica e uma
pesquisa de campo, adotando um
O imaginário consiste no conjunto das
procedimento descritivo e qualitativo,
imagens e relações de imagens que
priorizando a obtenção e análise de
permeiam o campo das representações
material oral primário.
mentais coletivas sobre a realidade. Tais
relações de imagens projetadas sobre o Desse modo, o trabalho busca
mundo real constituem as forças identificar as ramificações e os aspectos
criadoras do elemento mítico e que caracterizam a permanência dessa
maravilhoso no seio das sociedades, crença na sociedade imperatrizense,
sendo que não ocorrem de modo conscientizando o público em geral de
meramente reprodutor, mas de uma que a crença do mau-olhado não é uma
forma criadora e poética, fomentando exclusividade de determinados extratos
assim novas relações sociais e culturais. sociais, pois também podemos
encontrá-la de forma genérica nos
Desse modo, o imaginário representado
povos mais civilizados e,
pela crença do mau-olhado sinaliza o
principalmente, nas grandes e médias
modo como os indivíduos percebem o
cidades – como é o caso de Imperatriz,
mundo sobrenatural por trás das
que constitui a segunda maior cidade do
emoções e humores das pessoas e,
Maranhão em termos de
principalmente, do fascínio e medo
desenvolvimento comercial e
exercidos pelo olhar.
populacional.
Desde os primórdios, o ser humano
2. A magia do mau-olhado: conceitos
começou a associar partes do corpo a
certos poderes sobrenaturais. Entre e definições
todas as associações possíveis, o olho é Segundo a crença popular, o mau-
um dos órgãos que mais atraiu a olhado constitui um malefício que
imaginação humana e que mais produz diversos prejuízos (males) tanto
fomentou a criação de superstições e físicos, como mentais ou mesmo
crenças populares relacionadas ao corpo materiais. Comumente, o mau-olhado é
humano. explicado basicamente através de sua
relação com o sentimento de inveja, já
Porém, na sociedade moderna, a crença
que a palavra “inveja” vem do latim in-
nos poderes do olhar é considerada uma
videre, que significa “ver mal, com
espécie de superstição fútil, própria de
maus olhos”.
lugares atrasados e de gente inculta. No
entanto, é a permanência da crença do O mau-olhado é concebido, em geral, de
mau-olhado que constitui seu aspecto forma quase idêntica a uma doença
mais primoroso e onde reside sua contagiosa, podendo ser transmitida na
principal importância, fazendo dessa relação de uma pessoa para outra, sendo
crença uma “relíquia” ou mesmo um que sua forma de contagio é simples: o
“fóssil vivo”. mero olhar de uma pessoa invejosa é
capaz de lançar nos demais as forças e
Tendo isso em vista, o presente trabalho
fluidos caracterizados como o mau-
tem como objetivo analisar a
olhado.
representação da crença do mau-olhado
no imaginário e na cultura popular da Tal crença é bastante antiga e
cidade de Imperatriz-MA, buscando disseminada, tendo sido assimilada na
identificar traços dessa crença no seio cultura ocidental por judeus, árabes e
dessa sociedade. Para isso apresenta cristãos. A mesma também pode ser

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identificada ao longo da história no  A crença no mau-olhado serve para
território que se estende da Europa até a explicar a doença, o fracasso ou a
Índia, ao longo da costa atlântica pela perda de bens preciosos (colheitas,
Irlanda, Inglaterra, Escócia, Espanha, animais, entre outros);
Portugal e França, inclusive para o norte
 A inveja é um fator que está sempre
até a Escandinávia, e pelo sul até o
presente.
norte da África. Além disso, sugere-se a
possibilidade de uma origem bem Na maior parte das vezes, considera-se
remota, já que essa crença existia no a inveja, a cobiça e a vontade de possuir
Egito antes mesmo da chegada dos as posses de terceiros, mesmo não
semitas (hicsos), bem como no podendo, como a fonte deste mal. Nesse
Paquistão antes da chegada dos povos sentido, Quinet (2002, loc. cit.) atribui
indo-europeus (WEBSTER, 2008, p. uma explicação sociocultural à crença
92). no mau-olhado, ao fazer o seguinte
comentário:
De acordo com Hand (1992, p. 170), o
núcleo desta superstição originou-se nos Sua explicação sociocultural é parte
povos situados ao longo da costa do da constatação de que a crença no
Mediterrâneo e o Egeu, na Índia, e nos mau-olhado é encontrada em
sociedades fundadas no patronato
países sul-americanos mais diretamente
personalizado, considerado como o
influenciados pela Península Ibérica. sistema baseado na proteção de um
Na atualidade, o mau-olhado é uma homem dada a outros homens de
crença bastante difundida entre os estado inferior. [...] Nessas
indígenas da América Latina e Brasil e, sociedades há, portanto, por um
além disso, alcança também a América lado, protecionismo e, por outro,
ameaça real de confisco, de
do Norte, Austrália, e Nova Zelândia.
expropriação, de exação, de
De acordo com Quinet (2002, p. 272), o confisco súbito de bens de um
mau-olhado, como manifestação individuo. Os exemplos estão nos
cultural do poder mortífero do olhar, grandes latifúndios: onde há máfia,
possui 7 (sete) traços comuns, presentes banditismo ou impostos exagerados
em diversos lugares do mundo há mais para uso da terra, lá se encontra a
crença no mau-olhado.
de 5.000 (cinco mil) anos:
Desse modo, pode-se dizer que o mau-
 O olho tem o poder de atacar um
olhado ganha terreno quando a
objeto ou uma pessoa;
sociedade produz bens dignos de serem
 O objeto atacado tem valor elevado invejados e quando esses bens se
e sua destruição, perda ou distribuem desigualmente em uma
danificação acontece repentinamente; sociedade também desigual.
 Aquele que lança um mau-olhado 3. A sintomatologia do mau-olhado
pode desconhecer o próprio poder;
Segundo a crença popular, de modo
 A vítima pode não ser capaz de geral, o mau-olhar afeta principalmente
identificar a origem do mau-olhado; os coletivos considerados como os mais
 O mau-olhado pode ser desviado ou indefesos e vulneráveis, tais como:
seus efeitos atenuados, ou evitados, lactantes, crianças pequenas, moças
por meio de amuletos, dispositivos jovens, mulheres anciãs, embora o
ou rituais mágicos; restante da população, composta por
homens e mulheres de todas as idades,

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também possam sofrer os efeitos desse conseguiram sobreviver ao longo dos
malefício, sob a forma de enfermidade séculos, mas que em nossa civilização
física. atual possui pouco de seu significado
original.
O mau-olhado também pode afetar
animais domésticos, vegetais e inclusive Ortencio (1997, p. 214) destaca três
os negócios, cultivo, embarcações e elementos popularmente considerados
qualquer objeto inanimado. Manifesta- capazes de afugentar o mau-olhado:
se mediante enfermidades ou mortes plantas, benzeção e simpatia.
repentinas de seres vivos, ou por meio O primeiro elemento está relacionado
de más colheitas, pesca escassa,
ao aspecto de medicina popular, de
incêndios, catástrofes naturais que herança indígena, em que o pajé indica
afetam à família ou à fazenda, ou ainda determinadas plantas com poderes
mediante queda das vendas e nos mágicos para confrontar as magias
preços, entre outras adversidades
negativas. De acordo com o etnólogo
(QUINET, 2002, p. 276). Marcio de Souza Queiroz (apud
A pessoa acometida pelo mau-olhar, QUINET, 2002, p. 276), o tratamento
conforme se acredita, apresenta uma também pode ser feito com plantas
serie de sintomas que caracterizam uma cujos nomes evocam seus poderes
enfermidade. Ainda assim, a mágicos: “comigo-ninguém-pode” e
sintomatologia atribuída ao mau-olhar é “espada-de-são-jorge”.
bastante atípica. A maior parte dos O segundo elemento relaciona-se ao
sintomas se origina “sem causa aspecto religioso-cristão, sendo que o
aparente”, de forma repentina, fazendo uso constante do numero “três” revela
com que o estado geral da pessoa um tipo de associação mágica, já que no
decline, acarretando perda da vitalidade, imaginário católico popular, a repetição
falta de apetite, falta de energia, tristeza, em numero de três se encontra
cansaço, apatia, deixando de exercer extremamente vinculada à neutralização
suas atividades corriqueiras e, às vezes, de maldições, por evocar os poderes da
apresentando transtornos do sono (op. Santíssima Trindade: “se for mau-
cit.). olhado, nada melhor do que três Ave-
Excetuando os casos em que o relato de Marias, rezadas enquanto se faz três
mau-olhado consiste em um boato cruzes com raminhos verdes”
inverídico e criação fictícia deliberada, (ORTENCIO, 1997, p. 321).
existe uma tendência interpretativa O terceiro elemento está mais ligado à
constante, em que determinados fatos – magia popular propriamente dita, bem
como doenças e distúrbios comuns, como às práticas de feitiçaria – que por
apatias, problemas estomacais, ter raízes “pagãs”, se defronta
danificação de objetos, morte de constantemente com a religião cristã
animais, murchamente de plantas ou oficial, a qual, por sua vez, ora a
mesmo impotência – são interpretados confronta, ora a assimila.
como resultados do mau-olhado.
A simpatia pode ser realizada mediante
4. Procedimentos utilizados contra o determinados procedimentos mágicos,
mau-olhado na cultura popular sendo estes procedimentos um elemento
Os esforços das diferentes culturas para constante entre pessoas das mais
se libertarem do mau-olhado originaram diversas camadas sociais. O uso de
certas práticas mágicas e religiosas que amuletos e talismãs constitui um desses

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procedimentos. Muitos dos desenhos que desvie seu olhar da vítima, para que
que aparecem nesses objetos são assim o efeito seja nulo sobre a mesma.
derivados de iconografias ou símbolos Por isso, na antiguidade, muitos objetos
populares, geralmente apresentando a que possuíam formato ou desenhos
imagem de um ou vários olhos. fálicos eram usados para que influxos
maléficos fossem inutilizados na
Para neutralizar os efeitos do mau-
medida em que escandalizem o emissor
olhado, esses objetos devem possuir
(ELWORTHY, 2003, p. 153).
entornos e peculiaridades que chamem a
atenção do emissor do mau-olhado, para

Imagem fálica na cidade romana antiga de Pompéia e amuletos com a imagem de um olho: ambos utilizados contra o Mau-Olhado.
Fonte: ELWORTHY, 2003.

Do mesmo modo, um gesto ou uma fala situação persistir, genericamente leva-se


obscena também podem ser utilizados o doente ao santuário local
de forma defensiva contra o mau- especializado nestes problemas, para
olhado. que possa ser benzido por um benzedor,
o qual é geralmente representado por
No Brasil, usa-se um fio de linho,
um ancião, por magos ou por
geralmente de cor vermelha (muito
usada por meninos judeus) e fitinhas, curandeiros especializados. Geralmente,
também de cor vermelha, que as mães estes são do sexo feminino. Nesse
colocam nos braços de crianças e momento, é aconselhado que sejam
recém-nascidos. comprados escapulários ou imagens do
santo protetor.
Para que os amuletos contra mau-
olhado funcionem, é necessário colocá- 5. A crença no mau-olhado no
los em lugares bastante visíveis, sendo imaginário social da cidade de
que, por esse motivo, a maior parte Imperatriz (MA)
desses amuletos consiste em colares, 5.1. Aspectos da crença no mau-
cinturões, cordões, pulseiras e anéis, ou olhado na sociedade maranhense
mesmo costuras em vestidos. De acordo com alguns estudiosos, a
Em geral, se os primeiros passos crença do mau-olhado no Brasil
(amuletos, rezas, plantas, etc.) não originou-se através do colono português
funcionarem e, passados uns dias, a que, entre os séculos XVI e XIX,

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estabeleceu nessa terra sua moradia, ninguém-pode e outras). Muitas
impondo sua religiosidade e sua cultura. pessoas de terreiro cultivam ainda
No entanto, foi a religião afro-brasileira plantas que, quando “preparadas”
que deu ao mau-olhado seus contornos (regadas com água de carne etc.),
finais e os modos de cura que ainda avisam quando está se aproximando
uma pessoa perigosa, emitindo sons
podem ser observados nas práticas de
ou dando outros sinais.
benzeção nos dias de hoje (Cf.
VALENTE, 1979, p. 10). Desde cedo, diversos maranhenses –
sejam eles de qualquer religião e/ou
Gilberto Freyre (2004, p. 407) descreve etnia – vem recorrendo aos trabalhos de
a importância e influência africana para benzedeiras e de pais e mães-de-santo
a magia popular no Brasil colonial da para afastarem o mau-olhado de suas
seguinte forma: crianças. Os próprios santos da Igreja
Como em Portugal a bruxaria, a Católica, como São Jorge, Santa Luzia,
feitiçaria no Brasil, depois de etc., são utilizados, de forma sincrética,
dominada pelo negro, continuou a como agentes de proteção contra o mau-
girar em torno do motivo amoroso, olhado a pedido de pais e mães-de-
de interesse de geração e de santo.
fecundidade; a proteger a vida da
mulher grávida e da criança 5.2. Apresentação e análise da
ameaçada por tantos males – febres, pesquisa de campo
câimbra de sangue, mordedura de
cobra, espinhela caída, mau-olhado. A cidade de Imperatriz-MA é
A mulher grávida passou a ser considerada a segunda maior cidade do
profilaticamente resguardada desses Maranhão. No entanto, constitui uma
e de outros males por uma serie de cidade subdesenvolvida, de médio-porte
praticas em que as influências e bastante ligada culturalmente com
africanas misturaram-se, muitas aspectos da vida rural e religiosa, seja
vezes descaracterizados, traços de católica ou africana. Nesse sentido,
liturgia católica e sobrevivências de ainda se pode perceber em sua cultura a
rituais indígenas [...] a feitiçaria de presença constante da crença no mau-
direta origem africana aqui
olhado, seja nas narrativas populares, no
desenvolveu-se em lastro europeu.
Sobre abusões e crenças medievais.
discurso religioso católico e protestante
ou por famílias que moram nas áreas
O Maranhão, por sua vez, é um dos rurais e periféricas dos bairros ao redor
estados brasileiros que mais apresenta da rodovia BR-010.
um elevado número de descendentes de
africanos entre sua população, sendo Por isso, a cidade de Imperatriz-MA se
assim marcado pelo elemento mágico apresenta como um terreno fértil para o
em sua cultura popular. De acordo com desenvolvimento de uma pesquisa que
Ferretti (op. cit., p. 8 [online]): vise determinar seu perfil cultural,
principalmente seu rico imaginário que
Como o “mau olhado” e o ainda é ignorado ou esquecido pelos
malefício ocorrem muito pesquisadores acadêmicos da cidade.
freqüentemente, o povo do
Maranhão costuma proteger suas Com o objetivo de analisar a crença no
casas, estabelecimentos comerciais, “mau-olhado” no imaginário social da
barcos, carroças, caminhões e, cidade de Imperatriz-MA, a pesquisa de
muitas vezes, o seu próprio corpo campo foi realizada através entrevista
com banhos de ervas, figas e oral, obtida mediante gravação em
plantas (como pião roxo, comigo- áudio de falas e narrativas e de

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fotografias digitalizadas, realizada no Como indício não somente da
período que se estende entre os meses existência, mas também da
de julho e novembro de 2009 com predominância dessa crença na cidade, a
diversos indivíduos das mais variadas pesquisa realizada no Bazar São
partes, classes sociais e idades da cidade Cipriano revelou que a procura de
de Imperatriz-MA. produtos relacionados ao mau-olhado
A pesquisa foi enriquecida mediante no comércio de Imperatriz é grande. De
acordo com a entrevista concedida por
imagens de produtos relacionados ao
“Fernando”, um dos proprietários do
mau-olhado comercializados no “Bazar
São Cipriano”, uma loja de produtos Bazar São Cipriano, “mais ou menos
70% [dos produtos] do que o ‘pessoal’
relacionados à religiosidade africana e
compra aqui é pra ‘olho-grande’,
popular, localizada entre as ruas Ceará e
‘quebra-inveja’, pra tirar ‘mau-
Benedito Leite, no centro da cidade.
olhado’”.

Produtos relacionados ao Mau-Olhado comercializados no Bazar São Cipriano em Imperatriz.


Fonte: Pesquisa de campo

Fernando também comenta que todos os vendidos... é muito grande a


produtos da prateleira relacionados ao procura por [produtos relacionados
mau-olhado são vendidos em apenas ao] mau-olhado... a gente tem
uma semana: muito no estoque, porque vende
muito... O lucro mensal... é
“Produto pra mau-olhado vende excelente!”.
muito... temos em media 6 produtos
diferentes pra mau-olhado... Os compradores de produtos
geralmente, uns 120 [unidades] na relacionados ao mau-olhado pertencem
prateleira... toda semana os 120 são a toda classe social e religião: “Toda

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classe vem comprar, classe alta, classe pimenta no pé-de-pimenta que a
média, cristã, sem ser cristã... católico... gente tinha, pra ela fazer o
evangélico já veio... entre católicos almoço... mas aí eu ouvi minha mãe
evangélicos a quantidade varia... os dizendo: ‘Deixa, que eu mesma
evangélicos compram produto pra pego’. Mas a dona ‘França’ já tinha
pegado... no outro dia, as pimentas
chamar freguês, pra olho-grande
secaram todinhas... não ficou uma
também...”. sequer!.
A crença do mal-olhado geralmente traz A crença do mal-olhado não se
consigo a estigmatização de relaciona apenas a plantas e objetos
determinado indivíduo dentro de uma inanimados, mas principalmente a
sociedade local. Em entrevista crianças pequenas, as quais, conforme
concedida a presente pesquisa, dona se acredita, são vítimas da inveja de
Raimunda, vendedora, de 44 anos de diversas pessoas. Assim, para
idade, com nível de Ensino Médio, neutralizar essas forças, usam-se
apresenta um relato de seu próprio materiais tais como fitas vermelhas,
contexto cotidiano, em que narra um sendo que a presença desses objetos são
fato ocorrido sobre uma mulher bastante comuns entre a população da cidade.
temida por ser conhecida como uma Nesse sentido, Fernando, filho do dono
emissora de mau-olhado: “a nora da do Bazar São Cipriano, comenta que
Dona Sinharinha... chegou numa casa, fitinhas colocadas no braço da criança
pediu as pimentas, foi tirar as pimentas, podem afastar o mau-olhado:
a mulher [dona das pimentas] deixou ela
tirar as pimentas, e quando ela foi O ‘pessoal’ são encabulado demais
embora os pés da pimenta murchou... o com o “olho-grande”. Geralmente,
olho-grande só é pra recém-
pé de pimenta murchou e morreu
nascido, pra criança... muitas vezes
tudinho”. Deve-se notar que, nesse caso, quando a pessoa bota olho-grande
não somente o olhar, mas o toque foi o na criança ela pega “quebrante”... e
elemento que ocasionou o processo de por isso as pessoas usam aquela fita
secagem da pimenta. vermelhazinha, que é pra tirar
Dona Raimunda também comenta que: “mau-olhado” também das
pessoas... [...] os pais hoje em dia
“e também os bebês... quando nasce
botam a fitazinha pra proteger os
uma criança, e ela quer ver, ninguém próprios filhos de olho-grande do
deixa... quando ela olha as crianças pessoal... [...] O filho do meu irmão
adoecem... ela tem ‘olho-ruim’, ‘mau- [por exemplo]... o pessoal colocava
olhado’”. Esse relato deixa evidente o quebrante nele e ele só vivia
grau de difusão da crença na cidade de adoecendo, depois que colocou a
que os bebês podem ser as maiores fita nele, não adoeceu mais.
vítimas do mau-olhado. Existem casos também em que o mau-
Já Cledson, universitário, 26 anos e olhado exerce influência mortal, e que a
residente do centro da cidade, relata um única forma de deter essa influência é
caso de mau-olhado relacionado a um através de práticas e objetos capazes de
emissor (uma pessoa também conhecida neutralizar seus efeitos.
pelo próprio pesquisador), caso este em Sobre esse tópico, Janilde, 26 anos,
que foi testemunha ocular: escolaridade nível Ensino Médio, e que
A dona ‘França’ tem mau-olhado... mora e trabalha numa loja de
ela um dia chegou lá em casa confecções no centro da cidade, relata
dizendo que queria apanhar uma um caso familiar em que, por causa da

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ausência de uma pulseira contra mau- 6. Conclusão
olhado, o quebranto ocasionou a morte
Não obstante as diversas limitações
da criança:
existentes na presente pesquisa, as
Porque minha vó só teve um entrevistas apresentadas
minino, né? e esse minino era muito proporcionaram alguns apontamentos
bonito, muito muito mesmo, ai todo de suma importância. Pôde-se constatar
mundo ficava admirado com ele, que a crença do mau-olhado existe,
né? a beleza dele... aí foi um tempo,
persiste e que é amplamente
eu não sei se ele tinha mão (?), aí o
bichinho adoeceu, né? [...] ninguém
disseminada no âmbito do imaginário
sabia o que ele tinha, aí o bichinho social da cidade de Imperatriz-MA, uma
foi e morreu, aí antes dele morrer cidade em desenvolvimento, mas que
ele tinha uma pulseirinha na mão. apresenta uma rica mistura de
Todo mundo procurou essa elementos de diversas culturas e
pulseirinha e nunca achava né? essa religiões.
pulseirinha... só foi achada atrás da
porta depois que ele tinha
Além disso, todas as narrativas
morrido.... [...] tipo assim, por ele analisadas proporcionam para essa
ser bonitinho, mas as pessoas crença um modelo explicativo bem
ficavam admirando ele, entendeu? definido, bem como certo grau de
Muitas pessoas admiravam ele... complexidade. Deve-se observar que,
mas tinha uma mulher também lá apesar da falta de relação existente entre
que ficava só, ah, admirada com a os entrevistados, o núcleo dessa crença,
beleza dele... bem como suas principais
Nesse caso, a intensa admiração características, não varia de forma
coletiva resultou em morte, deixando considerável.
evidente que o mal-olhar pode ser Do mesmo modo, deve-se enfatizar que
ocasionado pela admiração, tal como uma das características mais marcantes
acontece com o “quebranto” (daí a acerca de tais narrativas é a
associação entre mau-olhado e proximidade das experiências
quebranto). vinculadas a essa crença no cotidiano e
A narrativa exposta também deixa na vida familiar do narrador, fazendo do
subentendido que a pulseira, por sua mau-olhado uma crença bastante
vez, poderia ter salvado a criança, mas presente na vida dos entrevistados.
que não o fez porque havia sido retirada Além do fato das narrativas sobre o
(por quem? ou por que? deliberada ou mau-olhado apresentarem com
casualmente?). regularidade os mesmos temas, pode-se
Deve-se ressaltar também que, na maior perceber a enorme influência que a
parte dos casos, o narrador parece crença na existência de indivíduos
conhecer, ainda que de forma distante, a capazes de causar o mal apenas com o
pessoa que emite o mau-olhado, e que a olhar exerce sobre a vida de cada
antipatia pode ser uma das causas da indivíduo ou família na realidade social
atribuição do mau-olhado a essas das pessoas entrevistadas.
pessoas em especial. Igualmente, pôde-se constatar mediante
a pesquisa que essa crença também
constitui uma força cultural bastante
ativa e viva, exercendo importantes
funções dentro da sociedade, seja no

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âmbito mágico-religioso, baseado no Referências
envolvimento com o sobrenatural, com ARAÚJO, Janilde Morais de. Depoimento oral.
o maravilhoso e ao mesmo tempo com o Imperatriz-MA: 03 de julho de 2009. Entrevista
demoníaco e destruidor; seja no âmbito concedida a F. C. Vieira Lima Júnior.
moral-ideológico, unindo famílias para CLEDSON. Depoimento oral. Imperatriz-MA:
a proteção da mesma – principalmente 24 de setembro de 2009. Entrevista concedida a
os mais indefesos e vulneráveis – de F. C. Vieira Lima Júnior.
‘maus’ indivíduos que trazem o “mau” ELWORTHY, Frederick Thomas. Evil Eye: the
consigo; seja no âmbito social, classic account of an ancient superstition. New
contribuindo para fomentar a identidade York: Dover Publications, 2004.
e os costumes de uma sociedade FERNANDO. Depoimento oral. Imperatriz-
heterogênea e em crescente processo de MA: 15 de agosto de 2009. Entrevista
concedida a F. C. Vieira Lima Júnior.
desenvolvimento social, econômico e
cultural. FERRETTI, Mundicarmo. Mau Olhado e
Malefício no Tambor de Mina. Comissão
Por isso, é imprescindível ressaltar que Maranhense de Folclore. Boletim On-Line nº.
a crença no mau-olhado se destaca 16, ago, 2000. Disponível em: <
diante de outras formas de manifestação http://www.cmfolclore.ufma.br/x/boletim16.pdf
> Acesso em 14 mai 2009.
mágica, pois além de caracterizar um
fenômeno bastante difundido, também FREYRE, Gilberto. Casa-Grande e Senzala: a
se apresenta com muita freqüência em formação da família brasileira sob o regime da
economia patriarcal. 49.ed. São Paulo: Global,
toda a vida cotidiana, mantendo assim 2004.
uma capacidade rara de permanecer
atualizada e com vigor mesmo diante HAND, Wayland D. The Evil Eye in Its Folk
Medical Aspects: A Survey of North America.
dos avançados sistemas sócio-culturais In: DUNDES, Alan. (org.) The Evil Eye: A
dos dias de hoje. casebook. Madison: University of Wisconsin
Press, 1992.
Enfim, esperamos com esse trabalho
contribuir para uma maior compreensão ORTENCIO, Bariani. Medicina popular do
acerca do imaginário coletivo existente Centro-Oeste. 2.ed. Brasília: Thesaurus, 1997,
p. 214.
entre os habitantes da cidade, bem como
para um maior entendimento sobre as QUINET, Antônio. Um olhar a mais: ver e ser
visto na Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar,
ramificações dessa crença no interior do 2002.
Estado do Maranhão.
SILVA, Raimunda Ramos da. Depoimento
oral. Imperatriz-MA: 29 de novembro de 2009.
Entrevista concedida a F. C. Vieira Lima Júnior.
VALENTE, Waldemar. Folclore brasileiro:
Pernambuco. Rio de Janeiro: MEC/FUNARTE,
1979.
WEBSTER, Richard. The encyclopedia of
superstitions. St Paul, MN: Llewellyn
Publications, 2008.

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