Você está na página 1de 40

1ª Edição

FELICIDADE EM REVISTA

BUTÃO
Os aprendizados
de quem esteve lá

CONVERSA INSPIRADORA
O que a morte pode
nos ensinar sobre a vida

Onde nasce a
felicidade?
ELA ESTÁ EM UM LUGAR
MAIS ACESSÍVEL DO QUE
VOCÊ IMAGINA
6 | Pílulas de felicidade
8 | O que aprendi no Butão
12 | Onde nasce a felicidade?
22 | Sobre viver e morrer
31 | O lado bom da raiva
36 | Caminhos para lidar com as adversidades
BEM VINDO

E XPE D IE NT E

A busca pela Felicidade é característica 1ª Edição • 2018


do ser humano. Contudo, são poucos os es-
Editora
forços no Brasil para potencializá-la nas or- Ana Holanda
ganizações que, paradoxalmente, dependem
Textos
do talento e do engajamento dos colabora- Ana Holanda
dores para garantir sua sustentabilidade. Carla Furtado
Enquanto isso, a Organização das Na- Izabel Duva Rapoport
ções Unidas destaca a Felicidade como um Diretora de Arte
dos Objetivos de Desenvolvimento Susten- Vanessa Kassabian
tável, a Unesco defende o tema como cen-
Revisores
tral nos esforços educacionais e empreen- Ana Holanda
dedores começam a registrar os primeiros Carla Furtado
sucessos ao incluir o bem-estar de sua força .....
de trabalho nas estratégias de negócios. Esta é uma publicação
O Instituto Feliciência atua no floresci- do Instituto Feliciência.
Distribuição gratuita.
mento humano e organizacional através da
.....
implementação de ações e programas de Fe-
licidade alicerçados pela Psicologia Positiva Não nós responsabilizamos
pelos conceitos emitidos nos
e pela Neurociência, áreas de conhecimento artigos assinados.
científico, e pelo Sistema Felicidade Interna As pessoas que não constarem
Bruta, desenvolvido no Butão e defendido do expediente não têm
autorização para falar em
como novo paradigma de desenvolvimento nome da Revista ou para retirar
econômico. qualquer tipo de material se
não possuírem em seu poder
Nosso propósito é multiplicar no Bra-
carta em papel timbrado
sil o conhecimento que vem sendo produ- assinada por qualquer pessoa
zido em centros de excelência no mundo. que conste do expediente.
A ciência nos mostra que é tempo de .....
falar sobre Felicidade, ressignificá-la, Fale conosco
promovê-la, praticá-la, comparti- www.feliciencia.com.br

lhá-la. E esta revista é mais uma


de nossas contribuições.

Carla Furtado
Fundadora do Instituto
Feliciência
LUIZ FINOTTI

4 \\ Feliciência //
EDITORIAL

Feliz da vida

BRUNO DE SOUZA
“Você não está feliz?”. Ouvi essa pergunta de
alguém que gosto muito, durante uma conversa em
que eu falava sobre o meu cansaço. Sim, eu estava
feliz, muito. Eu estava trabalhando com algo que sou
apaixonada, a escrita, os filhos estavam bem, a vida
corria no fluxo, ora mais rápido, ora mais devagar.
Eu só não estava sorrindo. Acredito que as pessoas
fazem uma tremenda confusão com felicidade e ale-
gria, sentimento fugaz. Ao longo dessa edição, pude
entender algumas questões essenciais sobre isso.
Uma delas, é que existe felicidade até nos momentos
difíceis, dolorosos, como bem explica a médica Ana
Claudia Quintana Arantes, em uma das mais lindas
entrevistas que já fiz. Entendi também que a raiva é
um sentimento que pode servir como energia de for-
ça para seguir em frente e que felicidade no trabalho
é assunto para ser levado a sério – afinal, as horas
passadas ali fazem parte da vida não é mesmo? O
Butão é mais do que um destino de viagem, mas uma Essa é a primeira edição
experiência profunda, que muda o olhar diante do da revista do Instituto
cotidiano. Por fim, entendi que a felicidade não é um Feliciência, que tem
como objetivo
lugar de conforto, mas uma conquista diária e que se estudar a felicidade dentro
traduz na maneira como enxergamos, primeiro, para e fora das corporações,
a gente e depois para o mundo redor, com mais ge- entender como cultivá-la
apesar das dificuldades
nerosidade, compreensão e sensibilidade. Então, um
diárias, e assim
sorriso no rosto pode não ser a tradução mais fiel de dar mais sentido,
felicidade, mas uma vida cheia de sentido, de amor e direção e propósito
intensidade sim. Eu estou feliz. E você? para pessoas e empresas

Ana Holanda
Editora

\\ Feliciência // 5
PÍLULAS DE FELICIDADE

DISCUSSÃO BOA VIDA LONGA


E CHEIA DE
Fugimos de situações de atrito
como se fossem destrutivas. Mas,
SENTIDO
e se olhássemos para elas como Quem não quer
oportunidades que podem gerar encontrar uma
intimidade e autoconhecimento? razão para acordar todas
A Comunicação Não-Violenta as manhãs com disposição e alegria?
(CNV), desenvolvida há 50 anos Segundo os japoneses de Okinawa, a
pelo psicólogo norte-americano ilha com maior índice de centenários no
Marshall Rosenberg, nos convida mundo, o segredo para isso é encontrar
a entender os conflitos de outra seu ikigai, um conceito que os ajuda
maneira, explorando a colaboração a levar a vida de forma mais ativa,
e a compaixão, ao invés de nos satisfeita e repleta de sentido até o fim de
entregarmos a reações explosivas seus dias. A palavra misteriosa, traduzida
ou repressoras pelas quais estamos por um filósofo francês como “razão de
acostumados. Com base em princípios ser”, é tema do livro Ikigai – os segredos
de paz, justiça, segurança, liberdade e dos japoneses para uma vida longa e
amor, Marshall defende que é possível feliz (Intrínseca), de Héctor García e
nos relacionarmos de forma clara até Francesc Miralles, dois amigos espanhóis
mesmo em momentos desafiadores. que resolveram conhecer de perto o
Na prática, a estratégia é levar a terreno de um povoado tão longevo e
atenção para além das palavras, feliz. “Cuidar das amizades, ter uma
abrindo a mente e o coração para as alimentação leve, descansar de maneira
mensagens que existem por trás delas. adequada e praticar exercício suave
fariam parte da equação de saúde, mas
o centro dessa alegria de viver está no
ikigai pessoal de cada um”, descrevem
os autores, que nos auxiliam, ao longo da
leitura, a encontrar um sentido profundo
a cada novo dia: o nosso próprio ikigai.

..........
Ikigai – Os segredos dos japoneses para
uma vida longa e feliz, Héctor García e
Francesc Miralles, Editora Intrínseca

6 \\ Feliciência //
DIVULGAÇÃO

O QUE LHE FEZ


BEM HOJE?
Escrever um diário
sobre os momentos
agradáveis do dia torna
mais consciente o que
há de positivo ao redor
e dentro de nós

Basta manter na cabeceira da cama


um bloco e uma caneta. Antes de PALHAÇO TERAPIA
dormir, abra e escreva três situações “O palhaço está no mundo para
daquele dia às quais agradece. mostrar que leveza, riso e prazer são
“Isso ajuda o cérebro a aprender tão partes de um ser humano quanto a
a escanear aspectos positivos da queda, o fracasso e o choro”, compara
vida que normalmente passariam o psicólogo e palhaço Rodrigo Bastos,
despercebidos”, afirma Carla Furtado, que criou o Clown Terapêutico, uma
fundadora do Instituto Feliciência. metodologia de fazer terapia com
Por ser uma atitude tão simples, jogos circenses e teatrais. Inspirado
segundo ela, há pessoas que não na abordagem do alemão Fritz Perls,
valorizam no poder que isso tem. chamada Gestalt-terapia, Bastos
“Mas talvez acreditassem em um leva palestras e oficinas Brasil afora
remédio que fizesse o mesmo efeito”, para recuperar o espírito da criança
compara. Com ou sem confiança, não que existe em cada um e reativar
importa: escrever faz bem sempre. nossa potência. “É na brincadeira,
Principalmente quando isso nos faz na valorização do amor-próprio e
perceber que somos mais felizes do da humanidade que ressurgem as
que supomos. possibilidades de mudança e de
crescimento pessoal”, acredita o
palhaço terapeuta, que faz do lúdico
uma força transformadora.
..........
A Arte de Ser Grande
www.facebook.com/facedaarte

\\ Feliciência // 7
O que aprendi
no BUTÃO
texto Carla Furtado
ROBERTA DOMINGUES

Eu estava na janela do avião que contor-


nava a cordilheira himalaia quando me apai-
xonei pelo Butão. Em poucos minutos aterris-
saria na Terra do Dragão, um reino protegido
por sua geografia e por suas decisões políticas.
Logo compreenderia: o Butão não é destino de
turistas, mas de peregrinos.
Ninguém desce de um Druk Air, a com-
panhia aérea nacional, e segue desatento para
o saguão do aeroporto. Eu e dezenas de passa-
geiros ficamos estáticos entre as únicas duas
aeronaves no pátio. Ao nosso redor, uma na-
tureza avassaladora. Eu era só reverência en-
quanto pedia permissão às montanhas para
ingressar naquela experiência. Em resposta o
Três valorosas Butão me abraçou.
lições de quem Vencido o impacto visual de um país com
foi conhecer de mais de 60% do território cobertos por flores-
tas, a paisagem dá lugar a outra beleza natural,
perto o lugar que a humana. A humildade dos butaneses engana
ganhou o título de os distraídos. Com um olhar sensível se vê o
“país da felicidade” mais elevado nível de sofisticação, aquele que

\\ Feliciência // 9
MATTHIEU RICARD
NA PRIMEIRA PESSOA

se estabelece em meio à
simplicidade. E seu povo é
culto, muito culto. Conheci
mais mestres e doutores no
Butão que no Brasil, sem
que nenhum deles jamais
precisasse apresentar suas
credenciais. Há pouco tem-
po descobri que um amigo

Dr. Karma Phuntsho


CARLA FURTADO

VALORES E VIRTUDES
Conta um dos principais intelec-
tuais do país que um de seus desafios
foi obter a carta de referência de um
de seus professores locais para ingres-
so em Oxford. O professor pediu que o
candidato escrevesse a carta e levasse
para que ele assinasse. Se valorizasse
seus atributos teria seu comportamen-
to repreendido. Se não ressaltasse suas
qualidades não conseguiria a vaga. Foi
Escola em Thimpu pelo caminho do meio que conseguiu
equacionar a questão, tornando-se o
primeiro butanês com doutorado pela
butanês, Karma Wangdi, é autor prestigiada universidade inglesa.
de um dos livros de referência O rapaz da história é o Dr. Karma
para meu trabalho, sobre Feli- Phuntsho, ex-monge, escritor e presi-
cidade Interna Bruta (FIB). Pri- dente de uma organização não gover-
meiro aprendizado: feliz aquele namental de fomento ao empreende-
que compreende a nobreza da dorismo, com sede na capital, Thimpu.
humildade. Seu propósito é conciliar o inconciliá-

10 \\ Feliciência //
vel para muitos: negócios VALORIZAR O QUE JÁ POSSUI
e espiritualidade. Para a
solução de problemas ine- O Butão é mesmo o avesso do ocidente
rentes aos jovens empre- e até mesmo de países asiáticos vencidos pela
endedores que apoia, ele colonização cultural. Basta imaginar o abis-
cita o Nobre Caminho Óc- mo que o separa do Nepal, embora Catman-
tuplo, um dos ensinamen- du e Paro estejam a menos de uma hora de
tos de Buda: “Todo desafio voo. Existe no Butão uma vontade política
se resolve com entendi- de preservação do que realmente importa na
mento correto, pensamen- vida: sustentabilidade econômica, promoção
to correto, linguagem cor- da cultura, preservação do meio ambiente e
reta, ação correta, modo boa governança. E foi com base nisso que re-
de vida correto, esforço cusaram ingressar na Organização Mundial do
correto, atenção plena cor- Comércio.
reta, concentração corre- Ao perguntar a um pequeno agricultor do
ta”. Segundo aprendizado: Vale de Haa o que é felicidade, confirmei o que
feliz aquele cujo trabalho já vinha identificando em estudos e pesquisas
é a manifestação dos seus de campo: “É viver em uma comunidade re-
valores e virtudes. siliente, onde todos se apoiam mutuamente”.
Mas, e um sonho pessoal?, provoquei. “Tenho
mais do que preciso”, respondeu com o aval
da esposa, que havia acabado de ordenhar a
única vaca do casal. À nossa volta, corria um
dos netos. Terceiro aprendizado: feliz aquele
que segue valorizando aquilo que já possui. ◗
CARLA FURTADO

Vale de Haa

\\ Feliciência // 11
RETRANCA

Onde nasce a
felicidade? texto Ana Holanda

12 \\ Feliciência //
Esse sentimento, Christopher McCandless era um jo-
vem americano, que nasceu em uma famí-
estado ou busca
lia endinheirada. Havia acabado de se for-
incessante que mar numa prestigiada universidade, mas,
norteia ações, contrariando os sonhos e os desejos dos
decisões e a vida pais, não seguiu o caminho que, em geral,
que levamos todos se espera da gente: conseguir um bom em-
prego, ganhar dinheiro, comprar uma casa
os dias pode estar
grande, um carro, ter uma família. Em vez
em um lugar mais disso, ele decidiu viajar pelos Estados Uni-
acessível do que dos. E fez isso sem um tostão, e sem pedir
imaginamos ajuda aos pais. Muito pelo contrário, ele foi
se distanciando cada vez mais de todos e
de qualquer bem material. Até que, em de-
terminado momento dessa jornada, ele de-
cidiu se embrenhar por locais desabitados,
indo em direção ao Alasca. Christopher es-
tava em busca da felicidade, sincera, genuí-
na. E acreditava que para isso ele precisava
se descolar da vida maluca e apressada que
temos nas grandes cidades.

\\ Feliciência // 13
DESTAQUE DA EDIÇÃO

A história de Christopher não tem nada


de ficção. É real e foi contada no belo livro
“Na Natureza Selvagem”, escrito pelo jorna-
“Prioridade
lista americano Jon Krakauer e editado no é ter uma
Brasil pela Companhia das Letras. Ganhou casa própria,
versão em filme, com mesmo título, e que é se aposentar,
tem trilha sonora e imagens de tirar o fôle-
go. Mas a questão que nos cerca é: será que é não depender
Christopher encontrou, de fato, a felicidade? de salário. Será?
Ela seria um lugar que precisamos alcançar, Você já se
longe da loucura diária, das pessoas, das coi-
sas? São essas questões que nortearam essa
perguntou se
reportagem e que tem como missão entender isso é realmente
onde a felicidade mora ou como podemos ser importante
felizes, apesar de todas as mazelas do mundo.
para você?”
Eduardo Amuri
DINHEIRO NÃO COMPRA FELICIDADE
Bom, a primeira lição é que dinheiro
parece não estar ligado diretamente a ser ou
não feliz. A primeira atitude do jovem ame-
ricano, por exemplo, foi se desfazer dos bens
herdados da família: dinheiro, cartão, carro.
Mas, ok, talvez essa seja a busca dele, tentar
viver com menos ou com quase nada, longe
de uma rotina norteada pelo consumo. O fato
é que, na prática, o dinheiro não consegue
direcionar nosso sentimento de satisfação. E
quem diz isso, veja só, não é um guru espiri-
tual, mas um consultor financeiro. Eduardo
Amuri, paulistano, ajuda pessoas e empresas
a se planejarem. Ele orienta gente endivida-
da, com pouca ou muita grana. Tanto faz. Na
verdade, seu trabalho é não só organizar as
finanças, mas também e principalmente aju-

14 \\ Feliciência //
da-las a entender o que é realmen- uma vida boa e também para ser fe-
te importante para elas. “Quando liz. Sua família não era pobre, mas
começamos a listar nossas priori- também não sobrava nada no final
dades, percebemos que não temos do mês. Na verdade, os pais sem-
muita clareza de quais são elas. E pre se preocupavam com o dinhei-
daí acabamos comprando o que é ro e isso era, constantemente, fonte
importante para a sociedade e não de atrito. Então, ele cresceu com a
necessariamente para nós. Priorida- crença de que para ter uma vida ou
de é ter uma casa própria, é se apo- um casamento tranquilo era impor-
sentar, é não depender de salário. tante ter uma boa renda. “Mas, hoje,
Será? Você já se perguntou se isso é cruzo com várias pessoas que têm
realmente importante para você?”, muito dinheiro e são infelizes. En-
pontua Amuri, autor do livro “Di- tão, talvez não seja uma questão de
nheiro sem Medo” (Benvirá). ter muito dinheiro. Isso foi um gran-
Amuri conta que, quando era de ensinamento, que me fez repen-
jovem, acreditava que ter muito sar meus próprios direcionamentos
dinheiro era fundamental para ter e perceber que dinheiro não é o

\\ Feliciência // 15
DESTAQUE DA EDIÇÃO

mais importante”, con- também sobre felicidade, apego, sobre escolhas e


ta. Segundo ele, lidar saber respeitar as escolhas do outro”, completa.
com finanças também
o ensina sobre a imper-
VIVER A PRÓPRIA VIDA
manência das coisas.
“Atuo como consultor Felicidade então não tem a ver necessaria-
há sete anos e, de vez mente com ter mais ou menos dinheiro, mas,
em quando, encontro conforme aponta Eduardo Amuri, em se ques-
com pessoas que foram tionar o que é de fato importante para você. A
meus primeiros clien- pista sobre isso aparece em uma pesquisa feita
tes. Há cinco anos, a há alguns anos por uma enfermeira australiana,
vida deles estava muito Bronnie Ware, que se especializou em cuidar de
ruim. E hoje está muito doentes terminais, aqueles que estão próximos
boa. Isso me mostra que da morte. Mais do que olhar para a dor de cada
as coisas não permane- um e ajudar a amenizá-la, Bronnie se envolvia
cem do jeito que estão com seus pacientes, se interessava por eles, con-
para sempre. Isso está versava. Foi assim que ela desenvolveu um es-
me ensinando a fincar
menos nas minhas pró-
prias verdades. Acho
que estou aprendendo

16 \\ Feliciência //
tudo que tinha como objetivo listar seguia muito bem, obrigado. “Ape-
os principais arrependimentos de sar de ter comprado algumas coisas
quem estava tão próximo do fim da que suspostamente me fariam feliz,
vida – e quem sabe, a partir disso, voltei a ter ataques de pânico”, con-
ajudar ou inspirar outras pessoas a ta ele na obra. Fred foi, então, fazer
viverem melhor. As queixas mais co- terapia e tentar lidar com a ansieda-
muns: eu gostaria de ter trabalhado de que o assolava diariamente. “De
menos, de ter tido coragem de viver repente, surgiu a necessidade de
a vida que desejava e não a que os não deixar mais a vida caminhar no
outros esperavam que eu vivesse, de piloto automático. Sim, parece uma
ter expressado mais os sentimentos, coisa besta, mas é uma coisa besta
de ter mantido contato com os ami- fundamental: tomar decisões e se
gos, e por fim de ter sido mais feliz. responsabilizar pelas suas escolhas
Pensar e organizar as prioridades é uma das grandes provas da vida
pode então ajudar neste caminho da adulta”, pondera. “Resolvi que não
felicidade e da satisfação, desde que, ia mais adotar o lema ‘deixa a vida
claro, seu guia seja seu coração, seus me levar’, guiado por regras prontas
desejos profundos e verdadeiros. do cotidiano. Se deixamos a vida
Listar aquilo que realmente nos levar, fica muito cômodo colo-
importa, que faz sentido para si e car a culpa pela nossa infelicidade
não chegar ao fim da jornada com nos ‘outros’: o trabalho, os pais, a
tantas mágoas foi o que fez o casal cidade ou qualquer outra coisa que
Karin Hueck e Fred di Giacomo, possa interferir na nossa vida. Em
que acabam de lançar a obra “Glü- todos, exceto em nós mesmos”. Foi
ck – o que um ano sabático nos no meio dessa crise que Fred e Karin
ensinou sobre a felicidade” (Best fizeram algo extremamente simples
Seller). Ambos, jornalistas, traba- e que pode ser realizado por qual-
lhavam na maior editora da Améri- quer um de nós a qualquer momen-
ca Latina, tinham um bom salário to: listar as coisas que gostariam de
e pareciam estar com a vida ganha fazer antes de morrer. Para surpre-
– ou pelo menos bem encaminhada. sa do casal, eles não estavam indo
Fred havia comprado o contrabaixo em direção a nenhuma delas. “Foi
que tanto desejava, o casal morava assim que percebemos que nossos
em um apartamento espaçoso de sonhos não estavam alinhados com
um bairro sofisticado e a carreira o nosso dia a dia”, revela Fred.

\\ Feliciência // 17
DESTAQUE DA EDIÇÃO

O livro “Glück” fala dessa


busca pelos sonhos – e como eles
conseguiram realiza-los. E, só para
adiantar, entre as conclusões do ca-
sal está “ a felicidade é o caminho.
Ela não é algo que você alcança e
pronto. É uma busca e uma prática
“A raiz da palavra
diárias”. Por fim, eles aconselham: feliz é a mesma de
“Não aceite nunca que empurrem fértil. Aquilo que
uma fórmula de felicidade. Procu- fertiliza nos alegra.
re se compreender e compreender
o que faz você infeliz. Leia, pesqui- Mais do que aquela
se, reflita e encontre seu caminho. ideia de que é preciso
Um caminho de equilíbrio em que que algo ocorra
momentos de felicidade serão abun-
dantes, mas no qual também have-
para nos fazer feliz,
rá espaço para a dor, a angústia e a você deve perceber
tristeza”. que deve ser feliz
por si e no agora,
OLHAR PARA DENTRO sem depender de
E PARA FORA
condições externas
Monja Coen, do zen budismo e para que isso
missionária oficial da tradição Soto
Shu no Brasil, é dessas pessoas que
aconteça.”
parecem ter uma boa resposta para Monja Coen
qualquer inquietação. Quando ques-
tionada sobre o que é felicidade ela
diz com fala suave: “a raiz da pala-
vra feliz é a mesma de fértil. Aquilo
que fertiliza nos alegra. Mais do que
aquela ideia de que é preciso que
algo ocorra para nos fazer feliz, você
deve perceber que deve ser feliz por
si e no agora, sem depender de con-

18 \\ Feliciência //
\\ Feliciência // 19
DESTAQUE DA EDIÇÃO

dições externas para que isso acon- quem você é de verdade. Não é se
teça”. Como chegar nesse ponto? “A entender com valores ou concep-
meditação ajuda a atingir a profundi- ções que foram impostas pela fa-
dade da mente e você passa a ver as mília. Boa parte das nossas famílias
coisas como elas são, sem se abalar tem valores e concepções equivoca-
tanto com o que acontece fora”. dos sobre o que é o mundo, sobre
O que diz a monja é algo si- o que é a realização neste mundo.
milar ao que a empreendedora Não é sobre ter dinheiro, não é so-
Nathália Roberto compartilha no bre ter sucesso, não é sobre casar ou
curso que promove em São Paulo, sobre ter um emprego estável. Não é
Cultivando o Equilíbrio Emocional. nada disso, porque se fosse assim,
Nathália passou semanas fazendo não teria tanta gente triste ou guar-
uma formação sobre as emoções, dando sentimentos ruins com tudo
com Alan Wallace, um profundo es- isso”, diz João, um pernambucano
tudioso do budismo, que tem uma que hoje mora em Portugal. “Acho
série de livros publicados sobre o que a grande graça da vida é se ver
tema e fundador do Instituto dos com apreciação. E se ver com um
Estudos da Consciência, em Santa pouco mais de profundidade”, com-
Barbara (EUA). “A gente sofre por plementa.
estreiteza”, diz ela. “É a capacida- Para João, é preciso saber se
de de estar presente na nossa vida conectar consigo, mas também com
que nos traz a possibilidade de estar o mundo. “Quando a gente começa
presente e aberto também para o a buscar a felicidade, a gente não
outro. Para isso vamos querer prati- está mais no presente. Então, a gen-
car: cultivar estabilidade, sabedoria te não se conecta. Não consegue re-
e compaixão para poder oferecer conhecer as próprias ilusões nem as
essas qualidades aos outros. E ofe- potencialidades. Saber estar no pre-
recer é a própria felicidade”, acre- sente com certeza é um caminho
dita. Então a felicidade não é sobre direto para a felicidade”, afirma.
a gente mesmo? “Não, é sobre nós e Então, a conclusão dessa conversa
sobre os outros”, responde. com João é que esse é um senti-
Quem me explica mais sobre mento que mora no agora – nem no
isso é João Vale Neto, budista que passado, nem no futuro –, dentro da
estuda a chamada felicidade genuí- gente, mas com a capacidade de se
na. Aliás, o que é isso? “É entender espalhar.

20 \\ Feliciência //
Neste ponto, é possível per- a gente esteja. Diante da dor ou do
ceber que, talvez, não exista nem amor. Ela esta ali, do nosso lado,
mesmo o antagonismo entre tris- companheira fiel que é.
teza ou felicidade, mas a maneira Essa também foi a conclusão
como cada um percebe a sua vida, de Christopher McCandless, o jo-
no momento presente. “Exatamen- vem que sai em busca da felicidade,
te”, afirma João. “O presente é citado no início dessa reportagem.
muito generoso. Basta a gente estar Em seu caminho para o Alasca,
nele. Ali está tudo o que é possível ele acaba conhecendo pessoas que
e isso é muito, muito bonito”. Então marcaram sua vida. Ele as afeta e
felicidade é... “saber oferecer e sa- é afetado. Ama e é amado. Depois
ber receber. Isso é muito simples”, de muito perseguir sua rota inicial e
finaliza João, numa simplicidade seus desejos, Chris chega ao territó-
de doer. Ou seja, o sentimento que rio gelado, a um lugar distante onde
buscamos como se fosse uma con- não havia uma única pessoa sequer.
Mas o inverno rigoroso chega tam-
bém e ele não consegue atravessar
o rio, que o separava da civilização,
“A felicidade só e voltar para casa – e o leitor sabe
disso já nas primeiras páginas do
é real quando
livro. Quando encontraram seu cor-
compartilhada.” po e refizeram seus passos até ali – o
Christopher McCandless que deu origem a obra – encontram
alguns de seus poucos pertences,
entre eles um livro com várias ano-
tações escritas a mãos e onde ele
quista, quase uma aquisição, está havia feito o seguinte registro: “A
presente o tempo todo, dentro e fora felicidade só é real quando compar-
da gente, tudo depende da maneira tilhada”. Ou como disse a querida
como percebemos, enxergamos, vi- Nathália Roberto, “A gente faz isso
venciamos cada instante. Também por nós e pelos outros”. Então, que
não é algo que conquistamos, como sejamos felizes, por nós, seguin-
quem chega num território seguro. do nossos verdadeiros desejos, e,
É, sim, uma conquista diária, que a partir daí, pelos outros e para os
permeia o cotidiano, onde quer que outros. ◗

\\ Feliciência // 21
UMA CONVERSA COM
Ana Claudia Quintana Arantes

Sobre
VIVER e morrer
Ela receita poesia como parte do tratamento
e ajuda as pessoas a olharem para a morte
como algo essencial para uma vida mais plena

texto Ana Holanda

Ana Claudia Quintana Arantes receita”, recorda-se. Entrou na Fa-


não veio de uma família de médicos, culdade de Medicina da Universida-
mas decidiu ser depois de perceber de de São Paulo aos 18. O caminho
a diferença que uma pessoa assim até se formar não foi fácil. Pensou
fazia na vida do outro. Quando era em desistir, mas seguiu em frente.
criança e morava com os pais e a Se preocupava com o sofrimento dos
avó doente, admirava Dr. Aranha. pacientes, a dor da família ao perce-
Quando ele aparecia em casa, a avó ber que a morte estava próxima. Per-
voltava a acreditar numa vida sem guntava o que fazer, como lidar com
dor – e se mantinha bem por alguns isso? Ouviu de um professor, médi-
dias. “Dr. Aranha era para mim o ser co de longa data, que ela se importa-
mais poderoso e misterioso do mun- va demais com as pessoas. Sim, isso
do. Quando ia embora, deixava um porque as pessoas a encantavam e
rastro de paz. Minha mãe voltava a decidiu fazer geriatria para aprender
sorrir, cheia de esperança na nova a lidar com o sofrimento, fazer dife-

22 \\ Feliciência //
VICTOR MORYIAMA

\\ Feliciência // 23
UMA CONVERSA COM
Ana Claudia Quintana Arantes

VICTOR MORYIAMA

rença na vida do outro e, quem sabe, lhão de visualizações; lançou livro


na morte. Foi por conta disso que foi (A morte é um dia que vale a pena
estudar cuidados paliativos, especia- viver, editora Leya/Casa da Palavra),
lidade que minimiza a dor, ampara dá cursos para profissionais de saú-
o período – semanas ou dias – que de e gente comum (Conversas sobre
antecedem a morte. E mergulhou a morte), é convidada frequente de
tão fundo nisso, que transbordou e
talk shows. Mas nada disso a enva-
se transformou em uma referência
idece. Ela segue sendo uma médica
quando o assunto é morte. Porque,
que, entre um tratamento e outro,
para ela, saber morrer é também
receita poesia, sorri com os olhos e
saber viver. Suas ideias se espalha-
ram, ela falou no TEDx (A morte é o coração. Nessa conversa, Ana fala
um dia que vale a pena viver), que sobre morrer e viver – e ser feliz no
contabiliza impressionantes 1,5 mi- meio disso tudo.

24 \\ Feliciência //
A morte não diz respeito eu falo: ‘se você precisar de mim,
apenas a finitude, mas também me liga, tá?’. Disposta é você re-
a maneira como levamos a ceber uma mensagem minha, no
vida de todo dia, certo? final do dia, dizendo: ‘está tudo
Sim! A morte é a única que bem? Você precisa de alguma
tem a capacidade de lhe explicar coisa?’. Você chama a atenção
o que de fato importa na sua vida. do outro: ‘olha, eu estou aqui’.
Se você quiser realmente saber o E assim é a sua morte. Minha
que é prioridade, tem que, hoje, morte está sempre disposta a me
sentar e conversar com a sua ouvir, orientar, acalmar, acolher.
morte, para ter mais lucidez e E você não morre sozinho, mas
noção de prioridade. Eu falo que com a sua morte. É uma com-
a morte, para mim, é minha me- panheira ao longo de toda vida.
lhor amiga, é minha querida. Ela Só que a gente não quer ouvir o
está sempre disposta a conversar que ela tem para dizer porque
comigo. Eu disse disposta e não achamos que isso significa estar
disponível. Disponível é quando pronto para morrer. Mas isso é

VICTOR MORYIAMA

\\ Feliciência // 25
UMA CONVERSA COM
Ana Claudia Quintana Arantes

DIVULGAÇÃO

uma ilusão. Falar sobre a mor-


te não faz as pessoas morre-
rem. Eu falo sobre isso há 25
anos e estou viva.

O que as pessoas próximas


da morte lhe ensinaram?
Muita coisa. Esse último
período que antecede a morte
traz um aprendizado intenso,
porque ele mostra a consci-
ência sobre a vida. Saber que
você vai morrer, lhee faz acor-
dar para a vida. É muito fre-
quente eu ouvir dos pacientes
que a melhor coisa que lhe
aconteceu foi o câncer, a doen-
ça do pai ou a doença da mãe.
Eles falam isso depois de muita
conversa, claro. Porque, num
primeiro momento, o que exis-
te é só o sofrimento. Mas de-
pois que você consegue aliviar
o sofrimento físico, retomar as
conversas sobre os medos, os
sentimentos de culpa, as má-
goas, você consegue traduzir
todo esse sentimento para al-
guma coisa com sentido, que
transforma a vida de todos os
envolvidos. Neste instante, as
pessoas olham para trás e têm
essa sensação de ‘nossa, ainda
bem que aconteceu tudo isso,

26 \\ Feliciência //
porque agora a gente tem noção da Você fala muito sobre a diferença
importância de quem amamos’. E, a entre empatia e compaixão.
partir daí, as pessoas passam a ex- Poderia explicar isso?
pressar mais o seu afeto, a dar mais
Saber essa diferença é algo
valor para o tempo. E se tornam
muito valioso para a nossa conexão
mais felizes. Porque quando você
com o outro. Na empatia, a gente
tem consciência da sua morte, não
troca de lugar e ela passa, neces-
fica aborrecido por besteira e passa
sariamente, por um espaço de so-
a ter a capacidade de olhar para as
frimento. Então eu troco de lugar
coisas com a importância que elas
no sofrimento. Quando eu imagino
realmente têm. Você redimensiona
tudo e se sente legitimamente vivo. que o outro está sofrendo, meu cé-
rebro não sabe que estou apenas
A noção de felicidade pode imaginando. Ele pensa que isso está
se modificar ao longo acontecendo comigo e desencadeia
da nossa trajetória? um processo orgânico de estresse
que nos leva para três lugares: luta,
Sem dúvida. A felicidade fica fuga ou paralização. Assim, ou você
mais acessível quando você se dá vai brigar porque não consegue lidar
um tempo para pensar sobre a mor- com aquela dor emocional e entra
te. Quando você não acha que vai na irritabilidade, ou vai se tornar
morrer, considera que a felicidade
apático, que é a paralização; ou foge.
está direcionada para as suas rea-
Na compaixão, eu reconheço que
lizações impossíveis, as posses, o
você tem força para passar pelo que
ganho, a percepção de sucesso me-
está vivendo e ofereço a minha for-
diante o que a sociedade diz. Mas
ça para lhe ajudar a passar por isso.
quando você olha para a sua morte,
Assim, não me contamino com seu
passa a perceber a felicidade de um
sofrimento. Eu posso ir até o inferno
jeito muito mais próximo. A felici-
com você. E toda vez que olhar nos
dade passa a ser você chegar cedo
meus olhos, vai enxergar a própria
em casa e abraçar seu filho, ficar
força. Além disso, como não estou
descalço no parque, poder respirar
me sentindo impotente diante do
sem precisar de um tubo de oxigê-
seu sofrimento, posso lhe oferecer
nio ao lado, estar sem dor. Ela se
torna possível e próxima. meu tempo, minha presença.

\\ Feliciência // 27
UMA CONVERSA COM
Ana Claudia Quintana Arantes

DIVULGAÇÃO
As pessoas têm medo dessa Kübler-Ross. Quando eu estava na
relação mais próxima? minha residência em geriatria, co-
Elas têm porque um encon- mecei a construir toda a minha base
tro transforma. Depois desse nosso teórica de abordagem de pacientes
encontro, por exemplo, eu posso em fim de vida a partir do livro dela
deixar de ser a Ana Claudia que “Sobre a morte e o morrer”, no qual
era antes. Então, tenho que estar ela conta a experiência com pacien-
disposta a me desapegar de ideias, tes terminais. Na época, eu pensei ‘é
preconceitos, aprendizados, conhe- isso o que quero fazer’. Daí comecei
cimentos a cada encontro. a ler tudo dela.

Isso você não aprendeu Esse seu jeito de pensar,


na faculdade... de agir, já foi criticado ou
considerado negativo?
Não, não aprendi na facul-
dade. Aprendi muito nos víde- Sem dúvida, muitas vezes. Tal-
os da psiquiatra suíça Elisabeth vez ainda seja, mas acho que agora

28 \\ Feliciência //
as pessoas ficam mais sem graça de pleta. O que lhe traz dificuldade, o
criticar. Mas para eu entrar no espa- que lhe desafia traz sofrimento. E o
ço da compaixão, eu tive que passar processo do sofrimento sem cuida-
por uma quase autodestruição. Eu do é insuportável.
entrava de tal forma no sofrimen-
to do paciente que muitas vezes eu O que é felicidade para você?
chegava a ter quase uma alucinação.
Eu começava a ter os sintomas que Felicidade é uma experiência
ele tinha, em especial os emocio- de realização. Não é um tempo,
nais. Era muito forte. Mas ao longo não é um objeto, não é algo con-
do tempo e, conforme fui lendo e creto. Você pode estar feliz por
estudando, aprendi a lidar com o so- ter terminado a faculdade, porque
frimento do outro, sem me perder. ganhou flores hoje, por qualquer
motivo. A felicidade não é inalcan-
Você tem chamado bastante çável. É uma experiência que está
atenção sobre o aumento disponível todo o tempo, mas ela
do suicídio entre estudantes precisa ser vista como disponível.
de medicina, por que? Se você não tiver olhos, ela vai pas-
Acho que isso é uma questão sar sem que você se dê conta disso.
sistêmica e não um contexto somen- A felicidade pode estar presente,
te. A manifestação da depressão e o inclusive, nos momentos difíceis,
suicídio é o ápice da expressão de de superação, de transcendência,
um sofrimento que está arraigado na de encontro de sentindo de vida,
formação do médico, que é a nega- mesma que seja no sofrimento.
ção do respeito ao sofrimento. Não Você pode estar feliz, por exemplo,
se respeita o sofrimento humano na se estiver fazendo um tratamen-
formação do médico. Você tolera o to que está dando certo, porque
sofrimento do paciente, mas não o entendeu o sentido da sua vida a
seu. Na visão da profissão isso é um partir de uma doença grave. Então
defeito, uma falha, uma fraqueza. felicidade não está relacionada só
a algo considerado positivo, mas a
E o que é sofrer? algo negativo que lhe transforma
É você experimentar o que a de tal forma que ajuda a perceber
vida lhe traz e o que não lhe com- a força que você tem. ◗

\\ Feliciência // 29
RETRANCA

30 \\ Feliciência //
O lado bom
da raiva
A mesma emoção que gera tanto conflito pode nos
ajudar a entender melhor quem somos. Mas para isso
é preciso olhar esse sentimento de frente, perceber
onde ele nasce dentro da gente e os incômodos
que deixa depois que a explosão acontece

texto Izabel Duva Rapoport

Maria Sylvia Cardoso cresceu balhado fora – e porque não acha-


para casar e ter filhos. E foi o que va que isso era um problema –, se
fez. Seguiu o roteiro que lhe dis- ferveu de raiva e se viu diante de
seram que era o certo. Teve uma três caminhos: explodir de fúria, se
prole de quatro, três meninas e ressentir e voltar à rotina ou com-
um menino. Cuidava dos afazeres preender a situação e crescer com
domésticos, zelava pela educação o aprendizado. “Fiquei furiosa com
dos pequenos. A rotina era puxa- a surpresa e com o tom indelicado,
da, mas ela não reclamava. Um dia, mas respirei fundo para entender
ouviu do marido, em um tom car- o que estava acontecendo”, conta
regado de ingratidão, que só ele e ela. Impulsionada pela raiva, a dona
mais ninguém sustentava a família. de casa conseguiu transformar seu
Desolada, porque nunca havia tra- conflito em uma ação positiva e, de

\\ Feliciência // 31
LADO B

aluna de pintura em porcelana, passou a


ser professora. Aos 45 anos, Maria Sylvia
percebeu que era mais forte do que pen-
sava. E seu marido e seus filhos também.
Quem nunca se sentiu mais auto-
confiante e feliz ao resolver um problema “Meu avô
que, antes, o aborrecia? Esse tipo de ati-
me ensinou
tude e de conquista traz conforto à alma
e mostra que as amarguras que temos que não
de enfrentar ao longo da vida (e que pa- precisamos ter
recem impedir a felicidade) não são em vergonha da raiva.
vão. Vale lembrar o princípio da realida-
de postulado pelo psicanalista Sigmund
Ela é algo muito
Freud, que diz que a vida de verdade nem bonito e poderoso
sempre gratifica porque exige que nos que nos leva a
adaptemos às dificuldades. Brigar com
o marido ou com o vizinho, às vezes, é
agir. Temos que
inevitável, mas, se mantivermos o cora- nos envergonhar
ção leve e lembrarmos de que nem tudo é é de exagerarmos
uma questão pessoal, logo a agitação rai- a dose.”
vosa passa e dá lugar à calmaria - tanto
para quem sente, quanto para quem está Arun Gandhi
ao redor. Ou seja, para todos nós.

LÁ EM CASA
Não à toa, entre os preceitos mais
defendidos por Mahatma Gandhi, um dos
grandes líderes pacifistas da história, é de
sermos a mudança que queremos ver no
mundo. “Ela começa em nós, em casa, no
tipo de base que damos aos filhos”, refor-
ça o quinto neto do mestre, Arun Gandhi,
que há 70 anos era um menino durão,
cheio de ego e furioso com as tensões ra-

32 \\ Feliciência //
ciais do apartheid da África do Sul, trar raiva em suas palavras ou em
onde nasceu. Aos 12, ele foi envia- seu comportamento e tentar ser
do pelos pais para a Índia para viver muito dominante, ficará mais difícil
com seu avô, com quem passou os lidar com as emoções sem provo-
dois anos seguintes viajando. Nesse car o outro. É preciso ter paciência,
período, ao herdar seus ensinamen- escutar os pontos de vista de quem
tos, Arun deu início a um caminho pensa diferente e, então, explicar
de transição emocional, partindo da calmamente a sua opinião”, afir-
raiva para a não-violência, e deixou ma. É claro que nem sempre é fácil
de ser a criança ingênua que era, manter a calma diante da raiva, mas
tornando-se um rapaz mais sensato quando experimentamos esta estra-
de 14 anos. “Meu avô me ensinou tégia, passamos a ver os resultados.
que não precisamos ter vergonha “À medida que aumentamos a nos-
da raiva. Ela é algo muito bonito e sa habilidade de canalizar a raiva,
poderoso que nos leva a agir. Temos vamos vendo a mudança dentro de
que nos envergonhar é de exagerar- nós e também nas pessoas ao redor.
mos a dose”, diz ele, que acaba de Ninguém quer ser maltratado. Todo
lançar o livro A Virtude da Raiva – mundo prefere ser compreendido e
E outras lições espirituais do meu valorizado”, fala o autor, que hoje,
avô Mahatma Gandhi (Sextante). aos 84 anos, viaja pelo mundo para
Mas como encontrar o equilí- mostrar que todos os nossos pro-
brio da ira sem revidar um insulto, blemas podem ser resolvidos com a
partir para a vingança ou perder a ajuda da compreensão, do amor, da
cabeça com um ataque de fúria? verdade e da compaixão.
“Os principais avanços acontecem
quando abrimos mão da descon-
OLHAR PARA O OUTRO
fiança e buscamos força na positivi-
dade e na coragem. Olho por olho, Existe dentro de nós uma
e o mundo ficará cego. Então, em energia naturalmente irada, instin-
vez de responder ao ódio com mais tiva, que devemos controlar para
ódio, é melhor responder ao ódio não nos tornar intolerantes, domi-
com amor, porque é assim que con- nados pela emoção, e entrarmos
seguimos alcança-lo”, explica Arun. em conflito com qualquer pessoa
E tudo depende da maneira como que aparece pela frente, inclusi-
nos expressamos. “Se você demons- ve as mais queridas. “Todo senti-

\\ Feliciência // 33
LADO B

mento pode ou não se traduzir em -estar, sente-se ferido do ponto de


ação impulsiva, descarregando um vista da autoestima ao receber um
mal-estar em si e no outro. Vai de- não. A negativa, para ele, é sinal de
pender da competência emocional desamor”, fala Célia, já ampliando o
de cada um em refletir sobre suas nosso olhar: “Ao entendermos o ou-
próprias insatisfações, frustrações tro como parte de uma comunidade
e feridas narcísicas, antes de tomar da qual também fazemos parte, de
atitudes impulsivas no dia a dia”, um universo que compartilhamos,
explica a psicóloga Celia Brandão. saímos da posição narcísica e pas-
Isso porque quando essa força pri- samos a outro nível de consciência
mitiva domina, a tendência é nos que se preocupa com a alteridade.
desgastarmos lutando contra tudo e Entendemos que o bem-estar do ou-
contra todos, como se algo sempre tro pode contribuir também com o
estivesse ameaçando nosso territó- nosso bem-estar e vice-versa”.
rio, nossa sobrevivência. “A agres- Instala-se, então, a compaixão,
sividade é um efeito arquetípico de a generosidade e a capacidade de fil-
autodefesa presente em todos nós. trar todo sentimento de insatisfação
Quando nos sentimos frustrados em antes de termos um ataque de fúria
relação a um desejo, temos, desde descontrolado ou, ainda, de varrer-
o nascimento, a raiva como uma mos as emoções que não nos agra-
forma de expressar a insatisfação. dam para debaixo do tapete. Ignorar
Aprender a lidar com este senti- a raiva, aliás, não é uma opção. Pri-
mento envolve aprender a trabalhar meiro porque não resolvemos o pro-
as frustrações desde a infância”, blema e, segundo, porque a mante-
diz. Neste sentido, segundo a psicó- mos acumulada dentro de nós. Um
loga, os pais não deveriam ter tanto dia, ela explode. E pode vir à tona
medo de frustrar seus filhos, achan- em forma de violência verbal ou físi-
do que vão compensar ausências ca, gastrite, hipertensão, pessimis-
com mimos constantes. “Se a crian- mo, entre outros problemas. Para
ça realiza todas as suas vontades e a medicina tradicional chinesa, as
ganha tudo o que quer, não aprende emoções contidas ou expressas em
a lidar com seus desejos e nem a demasia têm impacto direto no fí-
adiar sua satisfação”. E nos adultos gado. Isso explica porque cuidar do
não é diferente. “Quando alguém se órgão nos deixa mais tranquilos. E o
preocupa apenas com o seu bem- contrário também.

34 \\ Feliciência //
ASSIM NA VIDA, COMO NA WEB
Se já é difícil controlar a intensi-
dade das emoções no mundo real, perto ATITUDES PARA CULTIVAR
das pessoas, imagine nas redes sociais,
que se tornaram um fórum para o ódio
e o preconceito. Nelas, ninguém olha »» Aumente o diálogo na família
de fato para os olhos de alguém e isso e nas relações
diminui naturalmente o filtro na hora
»» Faça atividades que ajudem
de expressar qualquer sentimento.
na consciência corporal,
Além disso, de acordo com a psicóloga
como ioga, meditação e artes
Célia Brandão, entramos na web com
marciais ou esportes que
a expectativa de realizar virtualmen-
gastem o excesso de energia
te o que não alcançamos na realidade
e ensinem regras e ética
presencial. “As redes sociais tornaram
público e extenso o que já ocorria no »» Busque práticas que lhe façam
âmbito privado, mas com um agravan- refletir sobre seus sentimentos,
te: somos convidados a valorizar mais sensações e desejos, como
a imagem social do que a verdadeira a psicoterapia individual, de
identidade. Postamos e esperamos ser família ou de casal
aplaudidos. Quando não somos atendi- »» Dance ou escute músicas
dos, nos sentimos traídos e raivosos”, alegres e que lhe agradam
sintetiza a psicóloga. Para ela, seja qual
for o ambiente, o problema é que segui- »» Reserve um tempo todo dia
mos esperando que a satisfação venha para descansar
de fora e não do próprio esforço de au- »» Cultive uma atitude de
toconhecimento. Ou seja, o caminho é contemplação e olhe mais
mesmo mergulhar dentro de nós, olhar para o céu e paisagens ao redor
não apenas para a nossa raiva, mas para
»» Encontre um sentido maior
tantos outros sentimentos que nos ha-
para a sua vida, que vá além
bitam. É desse jeito que atingimos o
dos bens materiais
nosso equilíbrio e conseguimos viver
com mais plenitude e amorosidade. E »» Aceite os limites que a vida
talvez, no próximo ataque de raiva, ela impõe e agradeça o que nos
seja mais branda, bem mais branda. ◗ faz bem

\\ Feliciência // 35
NO TRABALHO

para lidar
o s versida
nh
i s ad des
a
co m
Ca
m

36 \\ Feliciência //
Os problemas A Psicologia Positiva nos convida a
profissionais, escanear a realidade de maneira a enxer-
gar oportunidades – inclusive em meio às
muitas vezes, situações desfavoráveis. Isso muda o jogo,
podem ser especialmente para aqueles que se veem
resolvidos com imobilizados diante de adversidades no
conversa e ambiente de trabalho. Antes de reclamar,
ponderação. justificar-se ou omitir-se confira saídas
Sugerimos, aqui, para algumas das situações mais usuais
no escritório.
algumas maneiras
de solucionar
as dificuldades NÃO VAI DAR TEMPO
mais comuns Quando você percebeu isso: na hora
que recebeu o desafio ou depois? A hora
texto Carla Furtado certa de negociar prazo é antes de iniciar
o trabalho. Contudo, se no decorrer da
execução você se vê em risco, não há nada
errado em comunicar ao seu gestor e pe-
dir orientação – quanto mais cedo melhor.
O que fica muito difícil é avisar no dia da
entrega que o trabalho não ficou pronto.

MINHA EQUIPE É INSUFICIENTE


Esse está se tornando um mantra em
tempos de empresas enxutas e em con-
tínuo processo de redução de custos. A
pergunta aqui é: a equipe não é suficiente
ou não está pronta para os desafios? Se
não é possível ampliar o quadro, é possí-
vel capacitar as pessoas para que possam
produzir mais e melhor. Vale rever os pro-
cessos, ouvir sugestões da equipe e, até
mesmo, do cliente.

\\ Feliciência // 37
NO TRABALHO

O CLIENTE É IRREDUTÍVEL SOBRA COMPETIÇÃO E


FALTA DE COLABORAÇÃO
Se o cliente é irredutível, atenda-o
da melhor e mais rápida forma. É muito Esse é um dos piores am-
útil, também, designar a pessoa da equi- bientes para se trabalhar. Onde
pe com maior habilidade para conduzir a competência perde para compe-
comunicação. O conflito será o caminho tição, o melhor é não se demo-
em que todos sairão perdendo. E mais: rar. Mantenha-se fora da arena e
considere o perfil desse cliente antes de busque, assim que possível, uma
estabelecer novos contratos com ele. nova oportunidade de trabalho.

FALTA ESTRUTURA PARA MEU CHEFE AGE SEM


TRABALHAR TRANSPARÊNCIA
Aqui a gente realmente tem um pro- Muita gente passa a vida
blema que afeta diretamente o engajamen- procurando o chefe perfeito e
to do profissional no trabalho. O melhor atribuindo aos chefes imperfei-
caminho é elencar as necessidades bási- tos seu insucesso profissional.
cas e iniciar uma negociação com a em- O ideal seria conciliar chefe e
presa. A negociação será lenta, mas com mentor em uma mesma pes-
argumentos que envolvem o aumento do soa, mas isso nem sempre é
resultado, a organização acabará cedendo possível. Gestor é aquele que
em algum ponto. Lembre-se: muitas vezes já está lá quando a gente che-
a empresa não tem recursos naquele mo- ga e, por determinação da em-
mento para adequar a estrutura, então use presa, lidera o trabalho. Já o
bons argumentos para que você seja o pri- mentor é uma escolha pessoal
meiro atendido quando possível. e deve ser selecionado a partir
de uma história de sucesso, que
reúna conhecimento sólido e
SOU COBRADO POR METAS DOS
experiência. Eleja um mentor
OUTROS
disposto a inspirá-lo, orientá-lo
Neste caso vale uma conversa com e a facilitar sua trajetória pro-
seu gestor, em particular. Adote uma ati- fissional. Ele ajudará a encurtar
tude ponderada ao tratar do assunto, peça caminhos e a evoluir em meio à
a ele para avaliar a sua performance. adversidade. ◗

38 \\ Feliciência //

Você também pode gostar