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INTRODUÇÃO À

VIDA INTELECTUAL
JOÃO BATISTA LIBANIO
_ _Humanística
1. Introdução à vída intelectual, J. B. Libanio, 4ª ed.
2. A norma linguística, Marcos Bagno [org.], 2ª ed.
3. A inclusão do outro -Estudos de teoria política, Jürgen Habermas, 3ª ed.
4. Sociologia da cotnunicação, Philippe Breton, Scrge Proulx, 3ª ed.
5. Sociolinguística interacional, Branca T. Ribeiro, Pedro M. Garccz [orgs.]
6. Linguística da norma, Marcos Bagno [org.], 3ª ed.
7. Abismos e ápices, Giulia P. Di Nicola, Attilio Danese
8. Verdade e justificação -Ensaios filosóficos, Jürgen Habennas, 2ª ed.
j ,_.'

9. Jovens em tempos de pós-modernidade


- Considerações socioculturais e pastorais, J. B. Libanio
1O. Estudos em filosofia da linguagem, Guida Imaguire, Matthias Schirn
~- '
11. A dimensão espiritual - Religião, filosofia e valor humano, John Cottingham
12. Exercícios de mitologia, Philippe Borgeaud
13. Paz, justiça e tolerância no mundo contemporâneo, Luiz Paulo Rouanet
14. O ser e o espírito, Claude Bruaire
15. Scotus e a liberdade - Textos escolhidos sobre a vontade, a felicidade
e a lei natural, Cesar Ribas Cezar \
16. Escritos e conferências 1 - Em torno da psicanálise, Paul Ricoeur
17. O visível e o revelado, Jean-Luc Marion
18. Breve história dos direitos humanos, Alessandra Facchi
19. Escritos e conferências 2 - Hermenêutica, Paul Ricoeur
20. Breve história da alma, Luca Vanzago
21. Praticar a justiça - Fundamentos, orientações, questões, Alain Durand
22. A paz e a razão- Kant e as relações internacionais: direito, política, história,
Massin10 Mori

~
Edições Loyo/a
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP}
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Libanio, João Batista


Introdução à vida intelectual/ João Batista Libanio -- 4. ed. -- São
Paulo: Edições Loyola, 2012. --(Coleção humanística)
Bibliografia
ISBN 978-85-15-02329-5
1. Cultura 2. Vida cristã 3. Vida intelectual 1. Titulo li. Série.
CDD-306.42
12-09514

fndices para catâlogo sistemâtico:


1. Vida intelectual: Sociologia 306.42

'

Preparação: Maurício Balthazar leal


Capa: Manu Santos
Diagramação: So Wai Tam
Revisão: Danilo Mondoni, SJ INST• n !TO SUPEAt()R D!:
Marcos Marcionilo
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ISBN 978-85-15-02329-5
4ª edição: agosto de 2012
conforme novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa
©EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2001
Sumário

L
Introdução.......................................................................................................... 13

Parte 1
Atitudes fundamentais da vocação intelectual
1. A vocação intelectual.................................................................................. 23
Vocação é mais que profissão..................................................................... 23
Superação de um saber técnico.................................................................. 25
!. Inserção em tradição longeva .................................................................... 26

l Exigências de uma vocação intelectual......................................................


Visão cristã .................................................................................................
Conclusão ...................................................................................................
28
29
30
Bibliografia ................................................................................................. 31
Dinâmica..................................................................................................... 31

2. Aprender a pensar....................................................................................... 33
Nascimento do pensar ............................................................................... 33
Do pensar espontâneo ao pensar reflexo .................................................. 35
Provocador do processo ............................................................................ 35
Experiências na base da pergunta ............................................................. 36
Tempo e espaço para pensar: sua n1otivação ............................................ 37
A leitura dos clássicos ................................................................................ 39
Três atitudes para saber pensar ................................................................. 40
Pensar as partes no todo e o todo nas partes ............................................ 44
A cultura do estudo e da leitura ................................................................ 46
Conclusão ................................................................................................... 47
Bibliografia ................................................................................................. 48
Dinâmica..................................................................................................... 49
3. Atitude realista e criativa ........................................................................... .
51 7. Responsabilidade na vida intelectual......................................................... 103
Clareza de objetivos .................................................................................. .
52 Dupla fidelidade cm tensão na responsabilidade do intelectual ............. 103
Escolha e adequação dos meios ................................................................ .
55 Fundamento da responsabilidade ............................................................. 105
56 Novidade moderna no espaço da responsabilidade................................. 107
~:::;:;rç:i~c;·::::::::::·.:::·.:::·.:::::::::·.:·.:::::::::::::·.:::::::::·.:::·.:::::·.:::::::::::::::::::::::::: 60 63
Alcance da responsabilidade: diante de quem ..........................................
Equilíbrio entre empenho pessoal e graça de Deus .................................
108
117
Pitada de utopia e criatividade ................................................................. .
Conclusão .................................................................................................. .
64 Conclusão ................................................................................................... 119
65 Bibliografia ................................................................................................. 120
~~:~;;:::.~..::::::::·.:::·.:::::::::::::::::::::::::::::::·.:::::::::·.:::·.:::::::::::::::::::::::::::·.:::·.:::·.:: 65 Dinâ1nica ..................................................................................................... 120

67 8. Aprendizagem, assimilação e originalidade.................................................. 123


Honestidade intelectual ............................................................................. .
4.
Em relação ao pensamento alheio ····························································
68 Introdução.................................................................................................. 123
71 Reflexão ...................................................................................................... 124
Intenção do autor e intencionalidade do texto ······················:::::::·.:::·.:::·.:: 72 Existência de um 1narco referencial ... ................. ..... .. .. ..... ...... .................. 126
Crítica dos pressupostos ......................................................... .
73 Integração dos diversos planos e dimensões ............................................ 126
Denotar a própria conotação ................................................................... .
74 Dimensão de originalidade ....................................................................... 129
Cultivo do espírito científico ·····································································
75 Condições externas e descanso ................................................................. 130
~~~~ug::~~·:·.:::·.:::·.:::::::·.:::·.:::::::::::::::·.:::::::·.:::::::·.:::·.:::·.:·.:·.:·.:::·.:::·.:::·.::::::::::::::::: 76 Conclusão ................................................................................................... 137
Dinâmica ................................................................................ ..
................... 76 Bibliografia ................................................................................................. 137
Dinâmica ..................................................................................................... 137
79
5 Abertura ..................................................................................................... .
79
. Nível cultural ·····························································································
.................... 82
Nível afetivo ................................... ........................................ 85 Parte li
Nível teologal ········································································· ····················
.................... 86
Aspectos da vida de estudo

~:;;;~~;::~~·:::·.:::::::::::·.:::·.:::·.:::·.:::·.:::::::::::::::::::::::::::::::·.::::::::::::: ................... . 86 9. Reunião de grupo ....................................................................................... 145


..................... 86 Aspectos gerais de uma reunião ................................................................ 145
Dinâmica ............................................................................... . Fatores decisivos para conduzir uma reunião .......................................... 153
..................... 89 Conclusão ................................................................................................... 162
6. Senso crítico··········································································· ..................... 89 Bibliografia ................................................................................................. 162
~t~::~~~~:d~~~~~·~i":::·.:::·.:::::::·.:::·.:::·.:::·.:::·.:::·.::~::.·.:::::::::::::::::: ..................... 90
90
Dinâmica que envolve grupo e plenário ................................................... 163
Contexto sociocultural da gênese do senso cnt1co ................................. .
92 1 O. Processo de produção intelectual............................................................... 165
Estrutura da consciência crítica ............................................................... .
...................... 93 Introdução.................................................................................................. 165
~:~;~i;~;~.::::::·.:::::::::::::::::::::::::::::::·.:::::::::::::·.:::::::::::::::·.:::·.::: ...................... 96
97
Fatores decisivos .................... ...... .. .. .. .. .... ....... .. .. ..... ...... .. ............ .. .... ........
Escolha do assunto.....................................................................................
166
167
.......................
~~b~~;::~~·::::::::::::::::·.:::::::·.:::·.:::·.::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: ....................... 98
98
Estruturação do trabalho ..........................................................................
Uso de imagens concretas ..........................................................................
172
173
Dinâmica de análise de um texto .............................................................. .
100 Esquemas teóricos ...................................................................................... 177
Homilia do Cardeal D. Paulo Evaristo Arns ............................................. .
Método de perguntas progressivas ............................................................ 195 Bibliografia ............................... .
Conclusão ................................................................................................... 198 290
Dinân11ca .................................... ::::::··················································
Bibliografia ................................................................................................. 198
........................................................... 290
Dinâmica..................................................................................................... 198 Conclusão ...........................................................
..................................... 291
11. Estudo de um tema ou de uma tese........................................................... 201
Estudo pessoal de un1 tema ou exame de un1a tese ................................. 201 Anexos
Dinâmica de estudo de um texto .............................................................. 206
Estudo ou discussão em grupo ................................................................. 206 Anexo I: Elenco de dinâmicas de grupo ................................................... .
297
Dinâ1nica de estudo de um texto .............................................................. 210 Anexo II: Respostas de testes ................. .. ..................................................
303
Conselhos para um exame complexivo de teologia ou filosofia.............. 210
Anexo III: Avaliação do curso ...................................... ..
Conclusão .................................... .... .. .. .. .. .. .. .. .... .. .... ............. ...................... 221 .................................... 305
Bibliografia ...................................................................... ........................... 22 l
Dinâmica..................................................................................................... 221 Bibliografia ........................................................................................................ .
307

12. Confecção de uma monografia ou dissertação......................................... 223


Aspecto epistemológico ............................................................................. 223
Aspecto didático ........................................................................................ 225
Conclusão ................................................................................................... 241
Bibliografia ................................................................................................. 242
Dinâmica..................................................................................................... 242

1 3. Leitura ... .. .. .... .. .. .. .. .. .. .......... .. .......... .. ........ ..................... ............ ............... .. 243
Postura fundamental ................................................................................. 243
Intelecção da leitura................................................................................... 244
Ritmo de leitura ......................................................................................... 249
Tipos de leitura .......................................................................................... 252
Alguns princípios para a leitura ................................................................ 256
Leitura ou fala em público ........................................................................ 257
Conclusão ................................................................................................... 260
Bibliografia ................................................................................................. 260
Dinâmica de síntese ................................................................... ................ 260

14. O ensino acadêmico ................................................................................... 263


A aula magistral ......................................................................................... 264
Os seminários............................................................................................. 276
A tutoria ..................................................................................................... 280
Conclusão ................................................................................................... 289
Introdução

O coração humano planeja seu rumo,


mas o Senhor é que1n lhe firma os passos
PROVÉRBIOS 16,9

Natureza do livro

á muitos e diversos livros sobre metodologia. Ciência hoje sofisticada,


H já incorpora elementos da tecnologia informatizada. Este trabalho
trilha outro caminho. Remonta a uma tradição das Ordens jesuítica 1 e
dominicana2 de cultivar a vida intelectual como um todo. Num tempo
de muito fervor espirituat Santo Inácio pedia moderação a seus estu-
dantes tanto nas penitências como nos exercícios espirituais, para que
reservassem as energias para o estudo. Não se estuda só com a inteligência.
É todo o ser humano que se compromete com as lides intelectuais.

1. F. Charmot, A estrada real da inteligência. Estudos sobre a educação intelectual e o


valor das disciplinas funda,nentais do curso secundário, Porto Alegre, Globo, 1944; id., La
pédagogie des jésuites. Ses principes-Son actualité, Paris, Spes, 195 l; id., L'Art de se fonner
l'esprit et de réussir au baccalauréat, Paris, de Gigord, 1944.
2. A. D. Sertillanges, A vida intelectual: espírito, condições, 1nétodo, São Paulo, Saraiva,
1940.

13
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO À VIDA INTELECfOAL

Objetivos
Dedicação aos estudos com o homem todo
Os objetivos de~se texto ou curso se definem por sua natureza. Antes
«Depois da provação (isto é, do noviciado), quando se dão aos estudos,
de tudo, pretende introduzir os estudantes, de modo sistemático
deve-se por um lado ter cuidado que o ardor do estudo não venha a entibiar d d .d . l , no
~u~ o a vi a inte ectual universitária. Para isso, estuda as atitudes
o amor das virtudes sólidas e da vida religiosa; mas, por outro, as morti·
b~sicas de tal vocação. Numa primeira parte, indicam-se os hábitos e
ficações, orações e meditações prolongadas devem ter menos lugar durante
esse período. Em verdade, dar-se às ciências que se estudam com pura atitudes mentais próprios da vida intelectual e oferecem-se alguns ele-
intenção do serviço divino, e que exigem de certo modo o homem todo, mentos Simples de natureza epistemológica. Numa segunda pa t
b' t' · h r e, o
não será menos, mas antes mais agradável a Deus Nosso Senhor, durante o Je ivo e apetrec ar o estudante com elementos d'd i a'tºicos para melhorar
o tempo dos estudos:'3 seu desempenho nos estudos. Sem privilegiar a confecção de monografia,
. , sena obJe!1vo de outro tipo de curso e texto' n-ao se d eixa
que . d e apresentar
Jª ª.lguns elementos para o estudante elaborar trabalhos escolares com
Dedicar-se à vida intelectual implica uma vocação, que envolve se- maior r_igor e orde,~. Há também um objetivo prático que se concretiza
guramente talentos da ordem cognitiva, mas que exige muito mais. É por meto de exerc1c1os e dinâmicas.
uma questão de personalidade. E esta se forma por meio de atitudes, de
comportamentos, de valores básicos.
Esse texto é teórico-prático. Teórico, porque se oferecem elementos '
1 Estilo do curso
para iluminar a inteligência a respeito da complexidade de uma vida e i
de uma vocação intelectual nos dias de hoje. Prático, porque sugere Caso seja dado em forma de curso, façam-se preleções com a finali-
exercícios a serem feitos pelo leitor ou por eventuais alunos, quando 1
dade, ~e que o~ alunos reflitam sobre seus comportamentos espontâneos,
usado num curso, para que se aperfeiçoem nas atividades do espírito.
É lógico e didático. Lógico, porque pretende criar um hábito da
·I e~p1ricos. e dispersos de estudo e adquiram um método reflexo, racional
~,s~stemát1co: ~m aul~ e em particular, façam-se exercícios para os alunos
~
mente que sirva para todas as atividades relacionadas com o universo do ! Jª lfem adqumndo habitas de estudo.
!
saber. Didático, porque quer ser uma ajuda de racionalização e organi-
zação dos recursos objetivos de que as pessoas dispõem para chegar à
j , O ~proveit~ento de um curso depende da regularidade na fre-
que~c1a às exposições teóricas e da prática dos exercícios pedidos. As
maturidade intelectual. d1namicas_ e os exercícios indicados servem para o leitor ou eventual
Este texto nasceu de minha experiência de orientador de estudos e aluno avaliar-se ou ser avaliado.
de professor de introdução aos estudos filosóficos e/ou teológicos. Está ? te~to oferece explanações, dinâmicas, exercícios, bibliografias, além
pensado também como livro de texto para um curso dessa natureza. Por :: c1taçoes _d: f~nt~s ~ue elucidam o assunto. Só com empenho se con-
isso, há várias atividades propostas tipicamente ordenadas a atividades gue ~dquir1r disciplina e uma atitude intelectual séria e aprender a us
didáticas do curso. os. m etos d'd' ·
i atic~s. . se inicia
Assim . . . a criação de hábitos intelectuais de ar
1eitura, de pesquisa, de crítica. Tanto em nível de leitura como n d
curs o, f:ac1Tita uma exper1enc1a
., . intelectual frutífera criar um clima l1ºvr
o e
espont'aneo, a legre, responsável e participativo. e,
3. Constituiçàes da Con1panliia de Jesus e norn1as comple1nentares, São Paulo, Loyola,
1997, n. 340, p. 126.

15
14
INTRODUÇÃO À VIDA INTELECTUAL

Dinâmicas

Dinâmica para a apresentação dos alunos


Parte 1
1. Cada aluno escolhe um símbolo ou música ou roteiro turístico
ou parábola ou alimento que traduza a si próprio.
2. Ao ser chamado, descreva o que escolheu, de tal maneira que nele
projete dados de sua pessoa.
Atitudes fundamentais da vocação intelectual
3. Os colegas façam, eventualmente, comentários ou peçam
explicações.
4. Que haja tempo para todos se apresentarem.
5. Para que se guardem mais facilmente os nomes dos alunos, nas
aulas seguintes, dediquem-se uns cinco minutos a que cada aluno
chame um colega segundo o seguinte modo: João Henrique
chama Tiago. Então Tiago prossegue repetindo seu nome: Tiago
chama André. E assim por diante.

ou
Definição das expectativas
1. Conforme o número de alunos, todos, ou somente alguns alea-
toriamente escolhidos ou espontaneamente oferecidos, desenhem
no quadro um símbolo que traduza suas expectativas.
2. Depois todos observem tais símbolos e eventualmente façam
comentários, ou cada um comente o próprio símbolo.

Eu desejaria ... que se tomasse cuidado de


esc?lher-me um preceptor que tivesse mais a
inteligência bem feita do que muito cheia.
MüNTAIGNE

16
vocação intelectual envolve o homem todo. Pede-lhe atitudes bá-
A sicas. Muitas são comuns a toda vocação, mas adquirem uma feição
própria no mister intelectual. Cultivá-las ao longo da vida torna-se a
garantia de sua autenticidade. Preferimos trabalhar um número restrito
de atitudes, que julgamos mais importantes. Veio-nos em socorro o
provérbio latino Non multa, sed multum - não a quantidade, mas a
qualidade.
Breve consideração sobre a vocação intelectual situa-nos no coração
de nossas reflexões do primeiro capítulo. Passeamos pelo mundo da
gratuidade, da realização humana profunda. Pretendemos superar o
espaço da produtividade, da pura necessidade. Inserimo-nos na tradição
que chama de humanidades um tipo de saber, uma qualidade de pensar
que parte da experiência primigênia da admiração. Buscamos responder
ao chamado interior que habita todo ser. Chamado que se desdobra no
nível humano, ético, cristão e eclesial, conforme a postura fundamental
do sujeito peça sucessivas explicitações.
O noviciado da vocação intelectual é aprender a pensar. Tarefa pes-
soal. Cada um encontra lentamente sua trilha. Aventuramo-nos no se-
gundo capítulo a sugerir alguns roteiros teóricos e práticos para facilitar
tal viagem. Têm a simplicidade da experiência e o prazer de ver jovens
desejosos de porem-se a caminho. O nascímento do aprendizado do
pensar dá-se com o milagre do espelho. Nele bate o raio de luz e volta-
se sobre si mesmo. Ao chocar-se o pensamento contra si mesmo na es-
tranheza, provocada por um real diferente, ele se faz reflexivo. Pensa-se
realmente. Ir ao longo da vida defrontando-se com diferentes, encarnados
em obras de pensadores clássicos ou em experiências significativas,
obriga-nos a aprender a pensar. E pensa-se. Ouve-se a verdade do objeto,
diz-se a si a verdade percebida e interiorizada, comunica-se a verdade
partilhada. Processo que nos humaniza porque nos afasta da noite escura
do animal, da doença sonolenta da alienação espontaneísta e da preguiça
do ler e estudar.
O caminho prossegue no capítulo 3. Não se constroem edifícios sem
as pedras disponíveis e bem dispostas. Não basta sonhar com vocação
sublime. Real-izá-la implica conhecer o real que está aí e a partir dele ir
,i fazendo maravilhas ideal-izadas. A atitude realista respalda a viabilização
·t',\1
.1
' 19
PARTE!. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELF.<.TUAL

de uma vocação. Permite equacionar os meios disponíveis em vista de assimilativo. Naturaln1ente mais intenso no . , .
objetivos almejados. Educa a uma programação com roteiros bem defi- , s 1n1c1os, mas sempre rele-
vante ate o fim da vida intelectual. O ser humano é sempre um a d'
nidos a fim de transformar o chamado -vocação - em missão atuante. Ef d . pren 1z.
az parte a apren~1za~em apropriar-se criativamente dos conteúdos,
Todo realismo necessita ser temperado com uma pitada de esperança e
pensamentos e contr1bu1ções dos outros. Seres em sociedade p t' .
utopia. O realismo nos prende ao existente. A esperança e a utopia ar- mos da v'd 1 ' ar ic1pa-
. . ~ a pe o processo contínuo de interiorização, exteriorização e
rancam-nos para horizontes mais amplos.
obJet1vaçao. Sem a prim~ir~, a cultura se perderia como as cores num
A honestidade no campo intelectual tem suas regras próprias. No
capítulo 4 apontam-se alguns procedimentos teóricos que são exigidos
m~n.do de .c~gos. Essa assimilação não se faz de maneira mecânica, mas
cr1at1va~ o~1g1nal. Do que aprendemos voamos para outros espaços. Do
na captação, na interpretação, na citação honesta de pensamentos de
qu.e, a~s1md.a~o~, fa~e~os nova vida. Do que recebemos, construímos
outros autores e na abordagem leal dos textos. Muitas inteligências foram
ed1fic10s ongma1s e umcos. Assimilação com pitada de o . . lid d
sacrificadas por conta de manuseias desonestos de seus textos, arrancados · tº1v1'da d e.
cria rigma a ee
dos respectivos contextos, transferidos de suas culturas, e condenados
. Esta primeira parte situou-se na ordem das atitudes. Aqui estão
em nome de uma intransigência a-histórica e ageográfica. Os textos
pilares de uma vida imelectual. Avançaremos na Parte II por trilhas ma~:
impõem exigências hermenêuticas, cujo desconhecimento frauda a
concre~as, com considerações que favoreçam o percurso intelectual
verdade. produl!vo.
Muitas pessoas não alimentaram uma vocação intelectual porque se
fecharam em dogmatismos, fanatismos, fundamentalismos, ortodoxias
rígidas. Sem abertura de espírito não se caminha nessa vocação. O
capítulo 5 permite apontar níveis diferentes de abertura ou de fechamento
que decidem, respectivamente, sobre a possibilidade ou a inviabilidade
de uma trajetória intelectual verdadeira.
O senso crítico é apanágio do intelectual lúcido. Sua carência faz
que ele se perca entre a ingenuidade e a rigidez. Ambos impedem desen-
volver um itinerário intelectual correto. O capítulo 6 tenta traçar pequeno
mapa dos percalços existentes e dos exercícios necessários na tarefa crítica
que deve acompanhar-nos nas lides da inteligência.
Sem liberdade não há pensar. Sem responsabilidade a liberdade
desvirtua-se. A responsabilidade faz parte do espaço livre do intelectual.
O capítulo 7 sente a necessidade de frisar a importância tanto maior da
responsabilidade quanto mais a liberdade de pensamento e de expressão
adquire cidadania universal e irrestrita. Sem o contrapeso da responsa-
bilidade advoga-se um valor sublime - a liberdade - que termina
destruindo-se em seu cerne de humanidade.
Pretender a originalidade desde o início é esquecer que ela não nasce
do nada. O capítulo 8 debruça-se sobre a necessária fase do aprendizado

20
21
1. A vocação intelectual

No fundo das nascentes tudo se passa com lentidão


F. NIETZSCHE

Vocação é mais que profissão


,
conhecida a distinção entre profissão e vocação. Profissão denota
E preparação técnica, competência, eficiência produtiva, ganha-pão,
função social, status, reconhecimento externo. Vocação, por sua vez, fala
de decisão e realização pessoal, chamado interior, paixão, amor e gosto
pelo que se faz. Alguém escolhe ser intelectual para encontrar um lugar
na sociedade e assim manter-se a si e a outros. Ou alguém descobre que
sua missão como ser humano, eventualmente como cristão e religioso,
é dedicar-se de corpo e alma a exercer um trabalho intelectual. Em termos
pastorais, usa-se a expressão apostolado intelectual.
A vocação intelectual participa da construção do universo. O espí-
rito é o último elo de uma evolução. Ao atuar essa dimensão, o ser humano
realiza aquilo que o distingue dos outros seres. Como espírito) é único e
singular na sinfonia da criação. Ao longo da história, a verdade o tem
fascinado e o tem provocado a incessante busca. Inserir-se nessa aventura
é altamente gratificante.
A vocação alimenta-se da motivação, que é plural. Cobre enorme
arco que vai desde a autorrealização até a maneira objetiva, realista do

23
1. A VOCAÇÃO INTELECTUAL
PARTEL ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTELECrUAl.

Superação de um saber técnico


dom de si aos outros numa perspectiva social, cristã, a~ostólica. Supera
a simples funcionalidade e utilidade do uso do apren_dido. . A atividade intelectual conjuga um trabalho de autoconhecimento
Não há um corte rígido entre profissão e vocaçao. Elas podem ali- e de comunhão com a realidade.A modernidade no século XVIII assistiu
mentar-se mutuamente. A vocação pede adestramento, conhecimentos ao surgir de nova ideia de progresso, baseada na técnica, no desenvolvi-
objetivos e técnicos, eficiência e produtividade. Mas vai além com o es- tnento material, fruto do desenvolvimento das ciências. Houve urna
pírito que a informa. A profissão ganha muito quando cons~gue despertar inflexão pragmática na compreensão do trabalho intelectual. Nesse texto,
no profissional 0 sabor da vocação. E o barco a remo que iça u'.11ª. vela e recupera-se a vocação primeira do ser humano para a verdade em toda
navega açulado pelo vento. A vocação é vela insuflada e a profissao e remo a sua amplitude.
manejado. Há horas em que o vento arrefece, então o remo :em em Certa vez, um pai americano ajudava o filho num exercício de astro-
auxílio. Há outras horas em que o remo pesa, então a vela batida pelo nomia e lhe explicava o nome e as fortnas das constelações. Em vez de a
vento alivia a navegação. criança deixar-se encantar pela beleza vigorosa dos astros, como ele o
sentira em sua infância, ela lhe pergunta com toda a ingenuidade: Quais
são as estrelas (satélites artificiais) que nós americanos pusemos lá em
Teste da vocação intelectual cima?
1. Estudo de preferência por gosto e amor ou por obrigação? fi Esse mundo dominado pela técnica, pela eficiência, pelas ciências
2. o motivo mais importante para estudar é meu futuro pro is- empíricas vem produzindo um tipo de intelectual competente, eficiente,
sional ou minha realização pessoal? ligado à produção. Há, porém, uma vocação intelectual que se engasta
3. Prefiro uma boa leitura a programas de entretenimento na TV na tradição humanista que gira em torno do sentido, da gratuidade e da
ou à Internet? imponência da verdade. O desejo nasce de dentro e não de imposições
4. Quando saio de férias preocupo-me em levar algum livro in- externas.
teressante para ler? . _ Cultivar tal vocação requer compreender o estudo fora do critério
s. Estou sempre lendo algum livro além das obngaçoes único da funcionalidade, do rendimento imediato. Implica descobrir nele
escolares? uma gratuidade que permite uma abertura para horizontes sempre
6. Tenho curiosidade em informar-me sobre bons livros de meu amplos.
campo de interesse que estão sendo editados? Unem-se na vida intelectual tanto um sentido de responsabilidade
pelo dom da inteligência e das possibilidades concretas como uma per-
7 Preocupo-me em seguir alguma revista estritamente culturdal?
.
8. Preencho os tempos ociosos com leitura ou estu o cepção realizante da própria caminhada. Uma vida intelectual bem re-
complementar? grada amadurece a personalidade.
.> A psicologia tem chamado a atenção para o fato de que as novas
9. Agrada-me conversar sobre temas cu1turais.
10.Gosto de conviver com pessoas cultas? gerações vivem um dilaceramento entre uma maturidade biológica ace-
lerada em virtude da melhoria da alimentação, dos recursos médicos, da
Para saber seu grau de vocação intelectual, veja o número de sim que deu
prática de exercícios físicos e um retardar do amadurecimento psíquico.
às perguntas. Esse desequilíbrio provoca dificuldades de integração pessoal. Uma vida
intelectual disciplinada, se, de um lado, se torna bem mais difícil para

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24
1. A VOC.AÇÀO INTELECTUAL
PARTE 1. ATJTUDFS FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAL

essas gerações, contudo, quando conseguida, contribui para amadurecê- não só para as criadas trácias, mas sobretudo para a maioria, porque ele,
las, ao ir oferecendo-lhes visões mais profundas da realidade, de si, dos estranho ao mundo, cai no poço e está sujeito a muitos embaraços" 2 •
A mola da vida intelectual é a sedução da verdade, é o maravilhar-
outros, de Deus.
A vida de estudos apresenta-se como um desafio, com todos os riscos se diante do significado da realidade. "É verdade, pelos deuses, oh!
inerentes. Por um lado, permite aos jovens integrar em si experiências Sócrates meu, não cesso de admirar-1ne sobre a significação dessas coisas,
da contingência, da ameaçabilidade, da arbitrariedade humana, da in- e algumas vezes até fico tonto ao olhar para elas", exclama o jovem ma-
justiça, da insegurança, do fracasso, da frustração. Por outro, a consciência temático Teeteto, depois que o esperto, benévolo e entontecedor Sócrates
dos próprios talentos, os sucessos, as vitórias, as alegrias possibilitam-lhes o deixou zonzo de admiração e o fez confessar sua ignorância. E, no diá-
pôr-se a serviço dos mais necessitados. Enfi1n, é teste de realismo que logo Teeteto, assim continua Sócrates: "É precisamente essa atitude que
caracteriza o filósofo; este, e não outro, é o começo da filosofia)) 3 •
amadurece.
O começo da filosofia é o sentido mais profundo da vida intelectual.
É o sentido de maravilhar-se diante até mesmo de coisas corriqueiras e
descobrir nelas o incomum, não diário, o mirandum. Goethe, já velho,
Inserção em tradição longeva
dizia a Eckermann: "Eis que existo para admirar". <<o grau supremo a que
U1na vida intelectual seria pobre se se restringisse unicamente a um o homem pode chegar é a admiração." 4
saber preocupado com a utilidade imediata, com a análise dos objetos. O oposto da admiração é a rotina, a vulgarização. Os latinos conhe-
Ela pergunta pelo significado da realidade. As duas atividades que mais ciam muito bem essa dialética. Formularam máximas expressivas.
enriquecem a vida do espírito são a filosofia e a teologia, porque mani-
festam uma tendência sempre aberta ao futuro, revelam uma «estrutura
de esperança" 1 • Máximas latinas
A vocação intelectual pretende superar o mundo do dia de trabalho, Ab assuetis non fit passio - "A paixão não se dá nas coisas costumeiras".
marcado por utilidade, oportunismo, produtividade, exercício de uma Assueta vilescunt- «As coisas costumeiras tornam-se vis".
função. Este confina-se ao campo das necessidades, do produto, da fome,
do modo de saciá-la. É dominado pelo objeto: comida, vestuário, habi-
tação, estudos, trabalho; e finalmente gira em torno da atividade útil, A vida intelectual pretende debruçar-se, de diversos modos, sobre
utilidade comum. Tudo isso é parte essencial do bem comum. A atividade as perguntas fundamentais do ser humano: por que existem coisas e
intelectual, sem negar nada disso, aponta para um bem comum mais não o nada? (Leibniz, M. Heidegger) De onde viemos? Onde estamos?
amplo que a utilidade, antes ligado à inútil vida da contemplação, da arte Para onde vamos? !. Kant formulou quatro perguntas: Que posso conhe-
cer? Como devo agir? Que me é permitido esperar? Quem é o homem?
gratuita.
Uma pequena história de Platão revela a dimensão inútil do homem Ou também perguntas como: Qual é o fundamento de nossa civilização?
intelectual. Tales de Mileto, observador do céu, cai no poço. Então a criada Que vale a religião? Que é a ciência e que se pode esperar dela? Que é a
trácia ri. Símbolo da razão prática do ser humano mundano diante da
filosofia. Platão comenta: "Sempre de novo o filósofo é ocasião de riso, 2. !d., ibid., p. 12.
3. ld., ibid., pp. 34-35.
4. !d., ibid., p. 36.
1. J. Pieper, Que é filosofar? que é acadênlico?, São Paulo, Herdcr, 1968, p. 5.

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P1\RTE !. A:ITfUDES FUND:\MENTAlS DA VOCAÇÃO INTELECTUAi !. A VOCAÇÃO INTELECIUAL

felicidade? Que é a política? Que é a arte? Que é a história? Que é o amor à solidão permite que a inteligência depois se embriague no vinho
sentido? da verdade e da beleza! A cela é o lugar das intuições, das inspirações,
Em outras palavras, as experiências mais profundas de nossa vida, da criatividade.
que superam o mundo do útil, do trabalho, são as filosóficas, as do Mais urna vez, compulsemos a tradição antiga. Os estoicos viram
amor, da morte, da arte, da religião. À medida que se desenvolve uma sempre um nexo entre a felicidade e a virtude, entre a vida do espírito e
vida intelectual no sentido mais amplo do termo, aprofundam-se essas o domínio das paixões. Ora, a vida intelectual supõe um nível de equilí-
experiências fundantes da existência humana 5• brio do afeto, uma alma sadia pela virtude'. Platão lembra que pensamos
com toda a alma. Se ela está perturbada pela agitação das paixões, o
pensamento sofre detrimento. A metafísica clássica afirmava que todo
Exigências de uma vocação intelectual ser é uno, verdadeiro, bom e belo. Entre a verdade e a bondade há uma
pericorese, de modo que toda verdade está no bem, todo bem está na
Há palavras que os ouvidos da pós-modernidade detestam: austeri- verdade. O mesmo se diz do amor e da beleza. Todo amor está na verdade,
dade, renúncia, sacrifício. Pelo contrário, vive-se embalado pela palavra toda verdade está no amor. Toda beleza está na verdade, no amor, no
maior: prazer. O desafio da vida intelectual é saber mostrar que há um bem. Enfim, essa interpenetração entre esses transcendentais está a indicar
prazer que está no fim e não no início. É o prazer intelectual. Implica, uma regra áurea para quem quiser dedicar-se à vida intelectual. Amar a
porém, um caminho de disciplina, de responsabilidade, de horas e verdade e a beleza. A verdade vem ao encontro dos que a amam. E o
horas de estudo, de tenacidade, de vigílias, de trabalho, de aplicação. amor só existe onde reinam a virtude, a beleza.
Nisso parece com o mundo artístico e desportivo. Gostamos de ver e
apreciar a habilidade dos artistas e esportistas. Frequentemente esque-
cemos as infindas horas de treino, de dura labuta para chegarem ao Visão cristã
pódio.
A vida intelectual pede uma dose de solidão, que não significa nem São Paulo considera o carisma da profecia um dos mais importantes
isolamento nem alienação, mas concentração, convívio com o mistério. logo depois do dos apóstolos (!Cor 12,28). E o trabalho intelectual
A língua latina tem uma expressão muito sugestiva: Vacare solitudini, isto aproxima-se desse dom, já que prepara o pregador da Palavra de Deus.
é, gozar da solidão, fazer férias nela. A solidão é lugar de descanso, de São Jerônimo recorda que da semente amarga do estudo, feito com suor
repouso, de economia de energias, de tal modo que a atividade intelectual e trabalho, se colhem frutos doces'. Nenhum alimento é mais doce do
se torna mais operosa, intensa, profunda. Solidão casa-se com silêncio, que a ciência e a doutrina8 ; é grande e útil, se unida à caridade9 •
recolhimento. A natureza recolhe suas energias à noite para no dia se- Elaborou-se uma teologia do trabalho que permite ser muito bem
guinte despertar radiosa pela manhã. A noite é propícia à solidão. No aplicada ao trabalho intelectual. Seu valor vem de ser orientado a criar
entanto, hoje torna-se cada vez mais difícil cultivá-la, já que o barulho
do som e das imagens, das emoções e paixões, entra pelos programas e
6. Um dos best-sellers recentes é o livro de A. Comte-Sponville, Pequeno tratado das
filmes de TV, vídeo ou Internet. Os medievais tinham um provérbio grandes virtudes, São Paulo, Martins Fontes, 1995, que n1ostra duas coisas: a relevância do
muito espirituoso: Ama a cela, se quiseres ser introduzido na adega. Só o pensa1nento estoico e a da virtude, en1 plena atualidade.
7. PL 22 1079; 23 411.685.
8. Ambros., PL 14 649.
5. Id., ibid., pp. 9-10. 9. PL 17, 225.

28 29
l.A VOCAÇÃO INTELECTUAL
PARTE!. ATITUDES 1=uNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAi

a vida. E1n termos psicopedagógicos, víamos que o estudo tem uma di- Bibliografia
mensão de disciplina, de renúncia. Em termos teológicos, isto significa
BOFF, L., O destino do homem e do mundo: ensaio sobre a vocação humana, Pe-
considerá-lo na perspectiva da participação na obra redentora de Cristo,
trópolis, Vozes, 2 1973.
já que é cruz em vista da vida. LIBANIO, J. B., HENGEMOLE, E., Mística e missão do professor, Petrópolis, Vozes,
O trabalho tem duas dimensões, assim como a vida de estudo. Pelo 1997.
trabalho transformamos objetivamente a realidade, assim como pelo
estudo nos apropriamos realmente dela. Pelo trabalho o ser humano se
realiza subjetivamente, assim como pelo estudo encontra o gozo da Dinâmica
verdade.
A vida intelectual leva-nos a fazer uma experiência dos conselhos Recordação de experiências
evangélicos a seu modo. Experimentamos frequentemente nossa pobreza, 1ºmomento: Introspecção pessoal
renunciamos a devaneios da afetividade, submetemo-nos a vontades e
1. Cada um repasse a própria vida de estudos e tente recordar uma
planos alheios em vista de uma formação mais completa. Praticamos
ou mais experiências humanas realizantes nesse campo. Anote
também a fé na Verdade Primeira presente em toda migalha de verdade,
alguma palavra que as evoque.
a esperança da construção de nós e de uma sociedade fraterna e o serviço
2. Num segundo momento, releia a vida de estudo sob a perspectiva
de nossa inteligência.
dos desafios, das experiências mais duras e dos próprios limites.
O Concílio Vaticano II, na constituição Gaudium et spes, abre-nos
Anote alguma palavra que as evoque.
perspectivas maravilhosas para nossa vida intelectual, ao tratar do fo-
mento sadio do progresso cultural1°. Enfim, a dedicação à vida intelectual 2° momento: Partilha
leva-nos a realizar uma tarefa humana e cristã que merece nosso
1. Os que quiserem partilhem no grupo experiências, tanto reali-
empenho.
zantes como frustrantes.
2. Abra-se espaço para eventuais outros comentários.
Conclusão

A vocação pertence ao mundo da experiência profunda, da reali-


zação humana, da inspiração maior que bate em nosso coração. Situa-
se do lado do carisma. Uma vocação intelectual é verdadeiro carisma. E
este existe fundamentalmente para o bem da comunidade, passando pela
realização de seu portador. Na gratidão e na responsabilidade, quem sente
essa vocação - como diz o próprio termo: vocare, «chamar" - é chamado
por essa voz interior, eco da voz divina, para empenhar-se nas lides da
inteligência. O que segue são subsídios para a realização de tal vocação.

10. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudiun1 et spes, Parte II, e. 2, n. 53-62.

30 31
2. Aprender a pensar

Não há outro método de pensar


a não ser ler os pensadores
ALAIN

Nascimento do pensar

s plantas sentem. Mas como estão atadas ao solo seu sentir nos passa
A quase totalmente despercebido. Se elas pudessem demonstrar seus
sentimentos, arrancando suas raízes e saindo a dançar de alegria ou de
dor, de calor ou de frio, todos os dias estaríamos vendo maravilhoso balé
das árvores. No silêncio do inverno, elas choram de frio, soltando suas
folhas secas pelo ar. No calor do verão, explodem em verde. No cair triste
do outono, enrubescem nas folhas. No vigor da primavera, ron1pem a
austeridade seca dos galhos em brotos verdes. Em momento de festa,
vestem-se de flores. Enfim, os sentimentos são infinitos, mas calados,
pedindo olhos atentos. Porque não se agitam na dor, sofre1n muito mais
agressão dos seres humanos com suas frias e devastadoras serras
elétricas.
Os animais reagem mais fortemente. Emitem ruídos diversos. Uns
be1n próximos dos nossos, a ponto de confundir1nos sua dor com a nossa.
Agridem em momentos mais intensos. Cresce uma sensibilidade humana
diante dos sofrimentos dos aniinais. No entanto, sofren1, mas não sabem
que sofrem.
'

i
33
PARTE 1. ATlTL:DES FUNDA?\IENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAL 2. APRENDER A PENSAR

Certa vez, Teilhard de Chardin, nas estepes da Ásia, não tendo nem Do pensar espontâneo ao pensar reflexo
pão nem vinho, nem altar, elevou-se por cima dos símbolos até a pura
majestade do Real e ofereceu, como sacerdote, sobre o altar da Terra Todo ser humano pensa. Mas nem sempre o faz de maneira reflexa.
inteira, o trabalho e as dores do Mundo. Colocou sobre a patena a messe O pensar espontâneo fixa-se no objeto pensado. Termina praticamente
esperada de todo novo esforço e derramou no cálice a seiva de todos os aí seu processo de conhecimento. Aprende coisas, conhecimentos, saberes,
frutos que serão durante o dia triturados. mecanismos, comportamentos. Estamos aprendendo a cada momento.
O cálice e a patena são as profundezas de uma alma largamente aberta Invadidos por uma cultura da informação sempre mais rápida, abundante,
a todas as forças que, num instante, vão levantar-se de todos os pontos de fácil acesso, a sensação de estar aprendendo aumenta. O pensamento
do globo e convergir para o Espírito. E assim continuou ele a sua "Missa está sempre agitado, aguçado por infinitos estímulos informativos.
sobre o mundo)) 1 • Interessa-nos aqui "aprender a pensar': Isso significa passar de um
Este mesmo Teilhard, em outro momento de sublimidade científica nível espontâneo, primeiro e imediato a um nível reflexo, segundo,
e espiritual, vê brotar o espírito das trevas de bilhões de anos de evolução mediado. O termo "reflexo)), tirado da ótica, explicita bem o processo. A
da matéria até o primata. luz na sua espontaneidade vem, bate-se contra o espelho e volta sobre si
mesma. Assim o nosso pensamento. Emerge provocado pelo golpe de
outro. Não contente com esse movimento, volta-se sobre si mesmo. O
Nascimento do pensamento pensamento pensa o próprio pensamento para melhor captá-lo, para
distinguir a verdade do erro, para julgá-lo, para criticá-lo. Entramos no
('Numa região bem determinada, no centro dos mamíferos, precisamente
campo da reflexão.
onde se formam os mais poderosos cérebros jamais construídos pela na-
tureza, elas (as linhas filécticas activas) chegam ao rubro. E já se acende,
no âmago desta zona, um ponto de incandescência. Não percamos de vista
Provocador do processo
esta linha que se empurpura de aurora. Depois de ter subido, por trás do
horizonte, durante milhares de anos, vai agora romper uma chama. - Aí Corno aprender a entrar nesse processo e não permanecer unicamente
está o pensamento!" 2 no simples pensamento direto, imediato, espontâneo? O segredo está em
saber levantar perguntas, aprender a aprender. Na sua raiz estão os pro-
Surge o pensar. É uma realidade absolutamente nova em relação a blemas, as dificuldades, as suspeitas que provocam essa volta do pensa-
tudo o que existia no mundo. Nos inícios, o ser humano tinha a rudeza mento sobre ele mesmo. O segredo do pensar: alguém aprenderá a pensar
que apenas o separava do animal bruto. Trilhará uma longa caminhada. à medida que souber fazer-se perguntas sobre seu pensamento.
Hoje estamos na modernidade tardia segundo uns, avançada segundo ). L. Segundo, ao tratar do método da "libertação da teologia", cha-
outros, pós-moderna segundo outros pensadores ainda. É nela que vamos mado por ele de '(círculo hermenêutico': insiste na importância de un1a
primeira condição necessária, a saber, da pergunta. O que ele diz ali sobre
pensar o pensar.
esse método vale como condição também de saber pensar. Devemos saber
levantar perguntas ricas, gerais, básicas, novas, decisivas, suspeitosas, que
l. P. Tcilhard de Chardin, "A 111issa sobre o mundo'', in id., Hino do Universo, São nos obriguem a repensar nosso pensamento 3 •
Paulo, Paulus, 1994, p. 19.
2. Id., O fe11ôn1et10 hu111ano, Porto/São Paulo, Tavares Martins/Herder, 2 1966. 3. J. L. Segundo, Libertação da teologia, São Paulo, Loyola, 1978, p. 11.

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PARTE 1. ATITUDES FUNLli\MFNTAIS DA VOCAÇÃO JNTELECfU:\L 2. APRENDER A PENSAR

A capacidade de avançar na reflexão depende de ir se fazendo per- dentro não há novidade, não há diferente, não há alteridade. Por isso,
guntas, respondendo-as e, em seguida, levantando novas perguntas a não surgem perguntas fundamentais. Gira-se em torno da mesmidade,
estas respostas até esgotar toda a facúndia interrogativa. Quanto mais da identidade, da repetição teórica e prática. Mundo de esterilidade.
longe se consegue ir tanto mais se avança no pensamento refletido e se A dor e o sofrimento do outro, a violência que ameaça, a carência
deixam de lado as aparências, os lugares-comuns, os slogans, o óbvio\ radical, o absurdo de tantos acontecimentos, a face esfíngica da morte,
a preguiça intelectual. o para-além da vida, o mistério das origens, a grandiosidade do macro-
A interrogação parece ser no início até mesmo u1n pouco artificial, cosmo, a maravilha da pequenez milesimal do mundo quântico, o duelo
diria retórica. Mas à medida que se aprofundam e se atingem questões interior de cada um, o dilaceramento dos desejos, a sede insaciável da
básicas desenvolve-se melhor a arte de pensar. Mas será que a pergunta, felicidade, a dor devoradora da falta, a busca inconfessada de carinho e
por sua vez, não tem um princípio provocador? ternura, o encontro com outra cultura ou religião, o choque com um
universo diferente de valores, enfim, infinitas outras experiências estão
aí a bater à porta da inteligência humana. Levam-na a pensar. Os nossos
Experiências na base da pergunta hábitos, evidências, tradições, visões se veem questionados. Emergem
dúvidas, suspeitas. Benditas incertezas. Assim algumas seguranças
Há perguntas superficiais. Vêm de simples curiosidade. Não carregam afundam-se no abismo aberto pelas novas experiências.
nenhuma força existencial própria. Há perguntas retóricas. Servem para
conduzir discursos que visam mais a impressionar os ouvintes. A retórica
barroca e gongórica conheceu-as em abundância. Momentos de deleite Tempo e espaço para pensar: sua motivação
intelectual sem consequências vitais. Hâ, porém, perguntas fundamen-
tais. A elas nos referimos. Estão em jogo a vida, o ser, os valores trans- De nada adiantariam as experiências, as perguntas sempre a brotar,
cendentes. As respostas desgastadas dos lugares-comuns não dão conta se a pessoa não para no tempo e no espaço para pensar. A fuga mais
delas. Esfacelam-se diante da simplicidade, mas também da radicalidade frequente do acicate do pensar é o ativismo, o barulho, o "pleno em-
dessas perguntas básicas. O solo das evidências fáceis não resiste ao im- prego". Non in commotione Dominus (IRs 19,11), "O Senhor não está
pacto da gravidade, da carga de aparente absurdo, das contradições no terremoto", assim experimentou Elias. A tradição espiritual aplicou
dolorosas que elas provocam. essa passagem à vida de contemplação, de reflexão. Vale também da ex-
Trata-se da experiência do diferente, da alteridade, da ruptura da periência de pensar. No barulho, na agitação não se encontra a paz para
"mesmidade". Percebemos como é in1portante não viver totalmente perceber a presença do Senhor e, no nosso caso, para captar o emergir
envolvidos nutn círculo fechado de afins culturais, religiosos, humanos, das perguntas de dentro de experiências profundas.
que nos trancam na identidade repetitiva de nós mesmos e não permitem A evasão, a fuga, a acomodação, no fundo, comportar-se como um
que venham a emergir perguntas fundamentais. Acontece frequentemente ((animal carinhoso'', afastam-nos da experiência do pensar. É possível
con1 os grupos fechados, com as "tribos" juvenis, com os movimentos viver quase sem pensar. Ao menos, sem ter o hábito do pensamento
fanáticos, com as ideologias totalitárias, com as ortodoxias rançosas. Aí reflexivo. Habita-se a superfície da realidade, sem nunca mergulhar
mais fundo. A psicanálise dedica-se ardorosamente a investigar os refo-
lhos de nosso inconsciente para descobrir os freios interiores que nos
4. D. Ribeiro desmascara uma série de obviedades, mostrando-lhes o pressuposto
ideológico: "Sobre o óbvio", in Encontros con1 a Civilização Brasileira, n. l, 1978, pp. 9-22. impedem de trafegar pelas vias da reflexão, do pensamento. Em termos

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2. APRENDER A PENSAR
PARTE 1. ATITUDES l'UNDAMENT1\ISDA VOCAÇÃO lNTFl ECI UAL

gerais, tem-se medo de perder as seguranças. A reflexão abala as evidên- Salamanca non praestat. O que falta na natureza, nem a famosa Uni-
cias fáceis e não discutidas. versidade de Salamanca conseguiria. Falta de motivação crônica revela
É necessário tomar a decisão de querer pensar. E consequentemente já uma incapacidade real ou uma estruturação da vontade e da liberdade
de dedicar tempo ao silêncio, à tranquilidade para tal. E a decisão nasce noutra direção. Aí não há muito que fazer.
da motivação. A motivação brota da percepção do valor, da importância, A educação para o pensar é questão de dedicar tempo. Como vere-
dos benefícios de tal decisão. Nada se faz por pura espontaneidade nem mos, em outro mo1nento, o tempo se estrutura segundo prioridades
improvisadamente, seguindo repentes emocionais. A arte de pensar faz pensadas, refletidas, impostas ou sorrateiramente insinuadas. Tomá-las
parte de um conjunto de atitudes a ser pedagogicamente cultivadas. na mão e decidi-las faz parte de uma vida mais humana e consciente.
A questão da motivação merece atenção. O seu oposto é apatia,
aborrecitnento, incapacidade de concentração, falta de iniciativa própria,
adiamento indefinido do início da atividade intelectual. A motivação é A leitura dos clássicos
a alavanca que levanta o peso da inércia intelectual. Ora é provocada pela
própria pessoa: a automotivação. Ela conversa, por assim dizer, consigo A cultura considera clássicos alguns autores. A palavra clássico quer
mesma, convencendo-se da importância de encontrar tempo para pensar, dizer que esses autores merece1n ser estudados nas salas de aula. Os
ler, estudar. Ora outro a suscita. Esta é uma das funções mais importantes clássicos abordam problemas humanos em tal nível de profundidade
dos professores, educadores e mestres. Motivar os discípulos, abrir-lhes que ultrapassam o tempo e a geografia de suas obras. Alcançam-nos
a beleza dos horizontes do mundo do saber. hoje. Trazem-nos à tona questões fundamentais da vida.
A motivação alimenta-se de duas fontes: a da utilidade e a da gra- A cultura da pós-modernidade tem valorizado demasiadamente o
tuidade. Numa sociedade extremamente utilitarista, muitos educadores presente, a ponto de descuidar o encontro com os clássicos. Eles recolo-
preferem apelar para a necessidade de pensar, saber, ler a fim de ocupar cam a permanente tensão de uma cultura: a tradição e a atualidade. A
um lugar de importância na sociedade do saber. É o discurso mais comum. tentação dos pedagogos, dos estudantes e de certos intelectuais é aterem-
Hoje perdeu muito de sua convicção. Os alunos percebem que muitas se tão somente ao último grito, ao último livro vendido e comentado, às
coisas que têm de estudar são realmente inúteis no sentido pragmático chan1adas atualidades. Elas põem o presente e a novidade como critério
e duvidosas no sentido realmente formativo. do válido, da verdade. Esquecem-se as propriedades da universalidade e
A motivação mais digna é a gratuidade, o gosto, o prazer do estudo, da intemporalidade da verdade. Cultivam-se assim muito mais a emoção,
da leitura, do pensar. Atos humanos por excelência. Realizam-nos numa o sensacionalismo, a temporalidade breve do presente. As atualidades
dimensão de profundidade. É um interesse que brota do objeto mesmo descuram da lição dos clássicos. Eles nos ensinan1 a pensar pela grandio-
do pensar e não tanto da utilidade que tal trará mais tarde. A vantagem sidade dos problemas que abordam. Arrancam-nos da pura temporali-
dessa motivação é que atua no presente. A outra deixa o aluno suspenso dade e nos projetam para u1n arco mais an1plo de história.
na esperança de que sua atividade intelectual lhe será útil amanhã.
No fundo de todo trabalho de motivação está uma convicção de que
o ser humano é aberto à verdade, de que tem uma natureza capaz de Cultura clássica
morder a isca do pensar. Acontece, porém, ser esse impulso interior de «Forma-se a inteligência com os valores seguros, os autores que saíram da
tal modo sufocado ou ter-se até mesmo atrofiado, por muitas razões, que moda, da avaliação superficial. Na cultura, o espírito se apropria das obras
já apenas se consegue algo. Os latinos diziam: quod natura non dedit,

38 39
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO !NTELFCl"UAL 2. APRENDER A PFNSAR

do pensador. Ela supõe um tríplice n1ovimento a que correspondem três


que são subtraídas à moda, ao império do efêmerd. A cultura constitui
também uma atualidade, a atualidade do espírito, do espírito presente a si perguntas.
mesmo em suas obras. Isso não significa que a cultura abstraia da história.
Pelo contrário, ela remonta da temporalidade de evento, rápida e factícia, O que diz a realidade?
a uma medida fundamental do que é e do que se torna. Para pensar que Distância: momento objetivo
tudo passa, inclusive as ideias, é necessário supor que algo não passa. No
A arte de pensar começa com uma pergunta sobre a realidade. É
pensamento fazemos a experiência de que algo é intemporal. Diferente-
um momento de humildade, de escuta, de honestidade objetiva. Eviden-
mente do jornalista, o professor relaciona o indivíduo com os problemas
temente sempre está o sujeito primeiro cotn a pergunta. Mas seu interesse
e com as obras. Para julgar que algo está superado, é necessário uma me-
mória que integre a diferença dos tempos. É necessário remontar à dura- se dirige, no entanto, para captar a objetividade da realidade. Toma dis-
bilidade das obras e à verdade dos problemas, e certos problemas são tância de si para deixar a realidade falar.
eternos. Só uma sólida cultura clássica permite exercer na atualidade um Se se trata de uma leitura, a pergunta é saber o que o texto diz por si
julgamento esclarecido." 5 mesmo. Este momento objetivo é altamente educativo. Quer evitar o
espírito apressado de ir falando, sem pôr-se antes à escuta. Aprende-se
do texto, da realidade.
Não há melhor escola na arte de pensar que frequentar quem pensou A arte de pensar começa com a educação da leitura, despojando-se,
seriamente. I. Kant, em outro contexto, disse algo que vale do pensar: enquanto possível, dos preconceitos ideológicos, religiosos, dogmáticos.
"Não se aprende nenhuma filosofia( ... ) Pode-se aprender a filosofar"'. Deixam-se de lado os juízos precipitados, pré-fabricados, não testados
Diria então: não se aprendem pensamentos, mas a pensar. A frequência pela objetividade da realidade. Obstaculiza a capacidade de pensar iniciar
à escola do pensar se faz pela leitura ou por cursos'. fazendo a realidade e os textos falarem o que queremos e não o que eles
falam. Voluntarismo fácil. Moralismo tradicional. É tão comum que, às
vezes, nos surpreendemos trocando os verbos. Em vez de usar o verbo
Três atitudes para saber pensar «ser'', que é, por excelência, o respeito pela realidade em questão, escor-
regam-nos dos lábios ou da pena o verbo "dever" ou expressões como "é
As caricaturas ridicularizam. O intelectual, aquele que sabe pensar e preciso", "é necessário", "tem de", que revelam muito mais nossos desejos
desenvolve tal capacidade, é frequentemente apresentado com cara dis- que a objetividade da realidade.
traída, fora da realidade. Imerso em seus pensamentos ou de tal modo
identificado com a objetividade deles que deixa de ser ele mesmo, ou se
O que me diz a realidade?
perde em sua idiossincrasia pensante subjetivista, isolada.
Proximidade: momento subjetivo
Nada mais equivocado que identificar a arte de pensar, seja com a
pura objetividade da realidade, seja com o ensimesmamento subjetivo É o momento da abelha. Retiramos o néctar da realidade para fazer
o mel de nosso alimento. Será o saber que carregaremos conosco, que
será nosso. Quando perguntamos a nós mesmos pela realidade, pelo texto
5. J.-F. Robinet, Le ten1ps de la pensée, Paris, PUF, 1998, p. 225. lido, a resposta será o que assimilamos, aprendemos. No fundo, sabemos
6. I. Kant, Critique de la raison pure, Architectonique, Ocv. Phil., Paris, Gallimard,
La Pléiade, 1980, I, 1389, cit. por: J. -F. Robinet, Le temps ... , p. 3. o que a realidade ou o texto nos falaram. Aqui mora um pouco nossa
7. Em outros capítulos trataremos tanto da leitura como dos cursos. originalidade.

40 41
2. APRENDER A PENSAR
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL

Quanto mais pessoal for nosso modo e nossa arte de pensar, quanto Compararia a leitura em benefício próprio com o dom das línguas.
mais liberdade tivermos, depois daquele momento de escuta humilde e "Quem fala em línguas edifica a si mesmo" ( 1Cor14,4). A leitura pensada
objetiva, tanto mais construiremos nosso mundo de pensar. Agora o texto em vista do que se vai transmitir equivale ao dom da profecia. "Quem
já faz parte de nosso universo cultural. Tem a tintura de nossa inteligência, profetiza fala aos homens; ele edifica, exorta, encoraja" ... "edifica a as-
o toque de nosso pensar. sembleia" (!Cor 14,3.4): Por isso, conclui Paulo: "Desejo que todos vós
O ideal é ter tal clareza na maneira de pensar que consigamos ir faleis em línguas, mas prefiro que profetizeis" ( 1Cor 14,5).
distinguindo a trajetória do alimento pelos meandros de nosso pensar. Este é o momento da intersubjetividade. A realidade, o texto me fazem
Fechando os olhos, somos capazes de perceber o que o real disse e como falar para os outros. A arte de pensar termina num serviço qualificado
nós já nos apropriamos dele de maneira nova, original. Há uma erudição à comunidade. Teria coragem de dizer que quanto mais crescer a socie-
repetitiva que é mais vaidosa que frutífera. Consiste em ir enfileirando dade da informática, da abundância enlouquecida de informação, tanto
citações de leituras feitas num exibicionismo de enciclopedismo sem mais importante será a função de quem sabe pensar. Este traduzirá para
construir u1n pensamento pessoal e sem que a realidade se ilumine com as pessoas os verdadeiros sentidos dessa farândola absurda de dados, de
ele. notícias, de conhecimentos veiculados.
Importante não é citar os outros. As autoridades textuais não fazem É o momento pedagógico. Não se diz a mesma verdade da mesma
a realidade. Mas com elas construir pontes teóricas que nos possibilitem maneira a qualquer pessoa, a qualquer auditório, em qualquer momento.
o acesso lúcido e crítico ao real. Esse momento de proximidade entre nós Nem se diz qualquer verdade a qualquer pessoa. Este momento em que
e o real, mediatizado pelo momento do aprendizado anterior, consiste o texto me faz falar vem acompanhado do senso de responsabilidade'.
no ponto alto do pensar. Implica uma capacidade de criticidade diante do texto, de mim e de quem
me ouve. Unindo esses três referentes encontrarei a palavra exata.
O que a realidade me faz dizer?
Comunicação: momento intersubjetivo

No momento anterior, dissemos a nós mesmos a realidade, o texto. Lucidez da piedade popular: palavra certa
A linguagem tem aí a brevidade sucinta suficiente para nossa intelecção. Dá-me a palavra certa
No entanto, não aprendemos só para nós. São Paulo, ao falar dos dons Na hora certa
ou carismas, insiste em sua função social. Existem para fazer a comuni- E do jeito certo
dade crescer. E pra pessoa certa.
Dá-me a cantiga certa
Na hora certa
E do jeito certo
Carismas em vista do bem comum E pra pessoa certa
Pe. Zezinho
"Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de
ministérios, mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades, mas um
mesmo é Deus que realiza todas as coisas em todos. A cada um é dada a
manifestação do Espírito em vista do bem comum" (!Cor 12,4-7).
8. Tema que merecerá abordagem à parte e 1nais desenvolvida no capítulo 7.

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2.APRENOER A PENSAR
PARTE 1. ATITUDES FUNDAl'.lEN"IAIS DA VOCAÇÃO INTELECIUAL

Pensar as partes no todo e o todo nas partes se dependura um cabide sem antes estend~:r o varal. E cada cabide en-
contra sua posição correta porque o varal já foi antes arn1ado e porque
Aprender a pensar encontra-se hoje diante de enorme desafio: a ele se encontra numa relação de posição no conjunto dos cabides.
superespecialização, que fragmenta os conhecimentos de tal maneira Saber pensar é estender varais e neles estender os problemas individuais
que se perde a noção do conjunto. É a conhecida imagem de quem se numa ordem e numa disposição que os tornem inteligíveis em si e em suas
detém na observação de uma árvore e não vê a floresta. consequências. É buscar um saber plural, organizado, estruturado, mas
Saber pensar é precisamente situar os problemas, as realidades em sempre aberto às novidades. Capaz de refazer seu "sistema" a cada momento
seus contextos. E estes contextos, por sua vez, em contextos maiores até que novos elementos o exijam. Opõe-se à pura armazenagem de conhe-
chegar ao contexto planetário. Se não chegarmos até lá, de fato não pen- cimentos, a uma erudição hoje sem sentido, já que um clique do compu-
saremos o problema em sua verdadeira realidade. De que adianta pensar tador enche-nos a tela de informações. Mas nunca nos fará pensar.
a bomba atômica em sua estratégia de guerra se se esquece de considerá- Saber pensar é um ir e vir do todo para as partes, das partes para
la no contexto em que ela é capaz de criar um inverno nuclear e acabar 0 todo. Do todo para as partes, localizando-as, fazendo-as inteligíveis,
com toda a vida do planeta? Não foi assim que fizeram os americanos analisando-as. Das partes para o todo, integrando-as, organizando-as,
na guerra contra o Japão? E que terríveis consequências estamos até hoje sistematizando-as. Não se para em nenhum dos dois momentos. Nem
sofrendo dessa visão míope do problema atômico? Ou como acontece se privilegia nenhum deles. Nem sínteses brilhantes e superficiais.
com vários países que constroem usinas nucleares unicamente planejando Nem análises profundas e desintegradas. O pensamento se torna cada
o suprimento de energia e esquecendo os riscos que correm com esses vez mais complexo no sentido mais lídimo da etimologia. Complexo
monstros causadores de morte. opõe-se ao único, ao singular. É plural. Mas com-plexo opõe-se também
Toda unidimensionalização de um saber, de um problema provoca ao desintegrado, porque é teia, é rede, é tecido (plexo) com outras coisas
distorções perigosas. Haja vista a grave questão da engenharia genética. (com+) numa trama articulada.
Não temos ideia dos riscos e perigos pelos quais nos estamos enveredando As ciências que ensinam por excelência a pensar são a filosofia, a
precisamente porque os cientistas dessas matérias trabalham na solidão literatura, as humanidades. A filosofia ensina distinguir e unir, colocar
de sua especialização sem considerar tantos outros aspectos. A cada dia (tese), opor (antítese) e reconciliar (síntese), contextualizar, conectar,
vive-se a gravidade de tal situação. Constroem-se hidrelétricas em certas articular, globalizar, sem perder a percepção das singularidades, das
regiões do país, desconhecendo os efeitos nefastos sobre as pessoas e originalidades. O pensamento holístico, propiciado atualmente pela eco-
culturas da região, sem falar de algo mais primitivo, os efeitos ecológicos logia, pela nova cosmologia, pelas ciências da Terra, pela nova antropo-
devastadores. logia, permite superar a crescente fragmentação das ciências9 •
Um pensar multidimensional, que se opõe ao fragmentar, ao com- A filosofia educa-nos para a distinção. Os antigos diziam: in distinctione
partimentar e ao pulverizar os saberes em migalhas superanalisadas, salus, "na distinção está a solução (salvação)". Dificilmente uma afirmação
permite articulá-los e assim equacionar criticamente os problemas con- não suporta um contrário, sem contradizê-la. O exercício de contrários
temporâneos que afetam nossa cultura e nossa civilização. - verdadeiro sic et non de Abelardo - adestra a inteligência'°-
Criar tal pensar implica um duplo movimento. De um lado, abrir-se
o máximo possível à interdisciplinaridade. Mas aqui nos interessa outra 9. Ver E. Morin, A cabeça benfeita. Repensar a refonna, refonnar o pensa1nento, Rio,
Bertrand Brasil, 22000.
perspectiva. Trata-se de criar um habitus mentis de nunca abordar uma 10.Abelardo (1079-1142) escreveu a obra Sic et non para responder a um problema
questão fora do conjunto em que se situa. Numa imagem simples: nunca que já vinha, havia muitos séculos, preocupando os pensadores cristãos. Tanto na Escritura

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PARTE 1. ATITUDES 1=UNDAMENTA!S DA VOCAÇAO IN IELECTUAL
2. APRENDER A PENSAR

O Ocidente pensa frequentemente em termos de dualidade: corpo e ou estranheza de algu~ caxias exótico, mas deveria ser o normal de al-
alma, matéria e espírito, sujeito e objeto, este mundo e outro mundo, guém que vive no mundo de hoje.
anjo e demônio, santo e pecador etc. A maior parte das vezes, a verdade Nunca é demais insistir junto à nova geração na importância da
se encontra na unidade, sem reduzi-la à identidade, e na dualidade, sem leitura, do estudo para além da simples frequência às aulas e da pre-
cair no dualismo. Não há sujeito que não se refira a um objeto, mas não paração para exames. O gosto pelo estudo e pela leitura desenvolve-se
se identifica com o objeto. Por sua vez, o objeto não existe senão em nos primeiros anos de vida escolar. É triste perder o frescor da inteligência,
relação com o sujeito, sem o dualismo do objetivismo, nem a disposição física sadia, a limpidez da memória, a virgindade da inteli-
subjetivismo. gência da idade jovem com uma vida fútil, superficial, no 1náximo, fre-
À medida que nos habituarmos às distinções, mais equilibrado e quentando o mundo da TV ou da Internet.
correto será nosso hábito de pensar. Evitam-se dogmatis1nos, funda- Ler e estudar fora das horas de aula e por gosto deveria ser um
mentalismos, ortodoxias rígidas, fanatismos. Todos inimigos do pensa- hábito cultivado desde os jovens anos da vida. Fabricando fit faber, "o
mento. Eles já queimaram muitos na fogueira da intransigência. trabalhador se adestra no trabalho". O intelectual o faz lendo e estudando
durante toda a vida por hábito e por gosto. Quando se pensa no hábito
de estudar e de ler, entende-se uma qualidade, uma disposição que a
A cultura do estudo e da leitura pessoa possui e que a move ao estudo e à leitura. Essa qualidade adquire-
se por educação, por esforço, por ajuda de outras pessoas, por estímulos
Há uma diferença enorme entre quem frequenta aulas e se prepara culturais, por motivação da importância e do gosto do estudo.
para os exames, mesmo com bons resultados, e quem adquire a cultura O estudo e a leitura inserem-nos cada vez mais no mundo humano.
do estudo e da leitura. Ao dizer-se cultura do estudo, quer-se dizer hábitos Faz de nós mais que <<animaizinhos carinhosos"; às vezes, nem carinhosos,
comuns, comportamentos normais, referências consensuais de que es- mas inuito animais. Transporta-nos para horizontes novos, diferentes
tudar, ler, passar horas em casa às voltas com livros não é loucura, raridade daqueles em que nossos sentidos nos retêm.
Hábito é um relógio interior que, depois de adquirido, soa como
con10, 1nais tarde, na Patrística, existe1n afirmações que parecem contraditórias. Santo
que espontaneamente. Ao entrarmos no próprio quarto ou lugar de
Agostinho deu uma solução que marcou durante muito tempo essa problen1ática. Fez um
jogo de palavras e1n latim: os textos são diversi 11011 adversi, isto é, são diferentes 1nas não estudo, imediatamente desperta em nós o apetite de ler e estudar. Algo
opostos. Toca, en1 cada caso, 1nostrar a diferença sem ser oposição. Sic et 11011- si1n e não, tão natural e normal que o contrário nos parece estranho. Implantou-se
pró e contra - de Abelardo 1nostra sua argúcia em avançar tal nlétodo. Assim "na her-
então o hábito do estudo e da leitura. O contrário seria se cada hora de
1nenêutica como na moral, ele coloca, no prin1eiro plano, a intenção que anima o vocábulo
ou o fato. Sic et 11011 formula uma regra de interpretação que recorda a teoria do sern10: estudo ou leitura parecesse uma violência, enquanto outras atividades,
as mesmas palavras podem ser empregadas em sentidos diferentes por autores diferentes" sim, gozariam de conaturalidade.
(J. Jolivet, Dictionnaire des Philosophes, Enciclopaedia Universalis, Paris,Abin Michel, 1998,
p. 14); ver tan1bé1n J. Jolivet, Abélard ou la philosophie dans le langage, Paris/Friburgo,
CERF/Éditions Universitaires de Fribourg, 1994, pp. 82ss. Aqui aludimos a tal método em
sentido diverso, mas que tem aí uma inspiração. Trata-se de perceber a polissen1ia dos Conclusão
tennos e explicitá-la. Santo To1nás usa na Suma teológica o nlétodo de estabelecer un1a
tese e e1n seguida apor textos de autoridades que as contradizem (aparentemente) e que
O início da vida intelectual é aprender a pensar. Crescer na vida
as apoiam. Depois de expor a tese, volta a estas afirmações, dando-lhes uma interpretação
coerente com a tese desenvolvida. Este 1nétodo favorece nluito a agudeza do pensamento. intelectual é continuar aprendendo a pensar. O ocaso sábio da vida in-
É isso que julgamos i1nportante para "aprender a pensar': telectual é morrer aprendendo a pensar. Tarefa de sempre. Tem dois

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PARTE 1. ATITUDES FUNlJAMENii\IS DA VOCAÇAO INTELECTUAL 2. Al'RENIJER A PENSAR

olhares. Um se volta para os mestres do passado, os clássicos de sempre. Dinâmica


Olhar de leitura e de estudo. O outro dobra-se sobre si. Persegue até o
Exercícios de distinção
fim o trajeto do próprio pensamento, libertando-o das amarras ideoló-
gicas, fundamentalistas, dogmáticas. Aprender a pensar é pensar livre 1. O ser humano é racional e irracional. Distingo: é racional por
com o único compromisso com a verdade. Este caminho não existe feito. natureza e é irracional por comportamento.
Valem aqui os versos do poeta espanhol. 2. O ser humano é bom e é mau. Distingo: é bon1 enquanto é um
ser (criado por Deus); é mau enquanto é limitado (mal metafí-
sico), enquanto age mal (mal moral) etc.
3. Lutero diz que "somos ao mesmo tempo justos e pecadores".
Construção do caminho
Distingo: justos enquanto Deus nos atribui sua graça; pecadores
"Caminante, son tus huellas enquanto continuamos na situação fundamental de pecadores.
el camino, y nada más; 4. O Brasil é um país rico e pobre. Distingo: é rico em potenciali-
caminante, no hay camino, dades econômicas e na minoria de privilegiados e é pobre na
se hace camino al andar. exploração social de suas riquezas e em suas imensas massas.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
Assim se multiplicam ao infinito as afirmações antitéticas e se vê
se ve la senda que nunca
como as afir1nações absolutas, em geral, claudicam e que é muito mais
se ha de volver a pisar.
lógico saber distinguir aspectos afirmativos e negativos de uma mesma
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar." 11 afirmação.

Bibliografia

LI BANI O, J. B., A arte de formar-se, São Paulo, Loyola, 2001.


MORIN, E., A cabeça benfeita. Repensar a reforma, reformar o pensamento, Rio de
Janeiro, Bertrand Brasil, 22000.
____ ,Introdução ao pensamento complexo, Lisboa, Instituto Piaget, 2 1995.
ROBINET, J.-F., Le temps de la pensée, Paris, PUF, 1998, pp. 1-9.

11. Antonio Machado, Proverbias y cantares, XXIX.

48 49
3. Atitude realista e criativa

O que não está no horário não existe!


J. B. LIBANIO
Todo esforço é produtivo, quando metódico e continuado!
Disciplina é liberdade.
RENATO Russo

A utopia não consiste e1n querer mudar de inundo,


n1as em mudar o mundo.
G. VAHANIAN

Desenvolver uma atividade intelectual sobretudo no sentido de es-


tudar uma disciplina acadêmica é um empreendimento humano que
necessita de um mínimo de qualidade. A pessoa deve ser capaz de seguir
um argumento, recordar uma série de fatos e ter uma percepção mais
intuitiva do problema a ponto de criar hipóteses novas 1 •
De modo prático, a pessoa precisa saber conjugar realisticamente
objetivos e meios. Tanto mais difícil é este jogo quanto menos palpáveis
e verificáveis são as metas intelectuais. Por isso, o processo de verificação
da adequação entre fins e meios é menos evidente e imediato.
A condição da vida intelectual exige que se cultive uma atitude
fundamental de realismo. Normalmente a vida intelectual se desenvolve
no interior de instituições e cursos que dependem somente em parte da
iniciativa e do manejo do aluno. Eles têm exigências anteriores e previa-
mente estabelecidas, com as quais se confronta o estudante, encontrando
seu espaço de liberdade e criatividade.

1. A. Nichols, The s11ape of Catholic Theology, Collegeville, The Liturgical Press, 1991,
p. 14.

51
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTr\!S DA VOCAÇÃO INTELFCTUAL 3. ATITUDE RF1\USTA E CRIATIVA

Clareza de objetivos nidade, com efeitos negativos para a1nbas2 • Uma faculdade eclesiástica
quer precisamente estabelecer um diálogo frutífero, que supõe tanto a
Objetivos de uma instituição
autonomia de ambas as ciências como também uma mútua relação. Por
Antes de qualquer empreendimento intelectual numa instituição de isso, elabora uma filosofia que não se torne incompatível com a fé, antes
ensino, cabe ter diante de si bem claros os princípios fundamentais que aberta a um contínuo encontro teórico com ela. O Papa aponta filosofias
a regem. Tais princípios decorrem de sua natureza, finalidade e razão de que não deixam espaço para a fé, tais como o relativismo, o fenomenismo
ser. radical, o materialismo e o panteísmo. Além disso, mostra os riscos de
Nesse texto, vamos considerar os estudos numa faculdade de filosofia. algumas das tendências filosóficas atuais: ecletismo, historicismo, cien-
A natureza de faculdade define já certos objetivos. O aspecto acadêmico tismo, pragmatismo e niilismo 3•
e estrutural sistemático se impõe. Deixa-se reger pelos cânones da vida É sempre dentro de uma faculdade concreta que se organiza a vida
acadêmica, comumente aceita no Ocidente. A longa tradição das facul- de estudos. Conhecer o lugar de estudo é conhecer, ao mesmo tempo,
dades ou universidades, cujo berço remonta à Alta Idade Média, decide a dupla característica de um lugar de conhecimento. Ele possibilita e
sobre o tipo de estudo a ser desenvolvido. Busca-se adquirir uma quali- interdita. Assim, uma faculdade possibilita uma gama enorme de inicia-
ficação científica que seja reconhecida, quer pela sociedade global, quer, tivas, planejamentos, projetos, que cabem dentro de seu leque de abertura.
de modo especial, pelo universo acadêmico. O diploma, que se obtém Mas, ao mesmo tempo, ela interdita, impossibilita urna outra série de
depois de cumpridos todos os requisitos de cursos, exames, seminários, possibilidades que já não sintonizam com suas ondas acadêmicas.
sinaliza externamente essa qualificação.
As faculdades são de diversas naturezas. Consideramos aqui a facul- Objetivos específicos do curso ou texto de introdução à vida intelectual
dade de filosofia. A filosofia se propõe a pensar a realidade, fazendo
Esse curso ou texto de introdução visa à formação intelectual. For-
passar ao nível conceitua}, ao nível teórico, ao nível da intelecção explícita,
mação é ação de formar. Formar é marcar alguém com uma forma ou
ao nível do sentido mais profundo, a realidade humana em sua comple-
fôrma. A imagem é grotesca, dura para nossa sensibilidade moderna.
xidade. A ingenuidade, a imediatez, o óbvio dão lugar à crítica, às me-
Mas guarda um realismo insuperável. Em toda formação, introduzem-se
diações, ao reflexamente aceito e percebido. Os estudos giram em torno
na personalidade do aluno modificações segundo algum paradigma ou
dessa finalidade fundamental de ensinar os alunos a pensar, a adquirir
modelo. Os objetivos específicos referem-se ao tipo de modificações
uma postura crítica, a buscar o sentido humano e histórico do real.
desejadas. Eles são critérios para a avaliação e o juízo sobre sua
Existem faculdades de filosofia nas universidades do Estado, em
eficiência.
instituições particulares ou sob a direção estrita da Igreja - a faculdade
Antes de tudo, busca-se modificar a maneira de pensar, de expressar-
eclesiástica. A característica "eclesiástica" não define o aluno, como tal.
se do formando, ao oferecer-lhe informações, conhecimentos teóricos e
Nem também seu destino vocacional. Configura o espírito com que se
técnicas correspondentes para ajudá-lo a organizar sua vida, seus estudos,
estuda a filosofia. Dentro do quadro de Igreja, a filosofia é entendida não
sua pastoral. As informações versam sobre dados fixos e constantes, in-
mais como simples ancilla da teologia, mas como, em sua autonomia de
diferentes a qualquer sistematização, enquanto os conhecimentos teóricos
ciência, horizonte de sentido aberto ao escatológico-supracriatural da
são noções e princípios que se sistematizam dentro de uma lógica. Por
teologia para além do criatura[ histórico.
Recentemente João Paulo II tocou, em profundidade, a relação entre 2. João Paulo II, Fides et ratio, São Paulo, Edições Loyola, 7 1999, n. 45-48.
fé e razão. Descreveu o drama da separação da fé e da razão na moder- 3. Id., ibid., n. 80-91.

52 53
PARTE 1. ATJTUDE5 FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL 3. ATJTUDE ll.EALISTA E CRIAI IVA

isso, as informações estão a serviço da teoria e não de seu bloqueio por multiplicação de objetivos, cada vez mais concretos e numerosos. Pela
excesso. O curso espera tornar o aluno mais apto para enfrentar os novos lei da articulação, se busca relacionar os diferentes objetivos entre si.
problemas que surgem. Os objetivos específicos devem responder a certos qualificativos.
Tal influência intelectual se prolonga para a maneira de agir do alu- Antes de tudo, devem manter entre si coerência, lógica, articulação e
no. Para isso, organizam-se exercícios em aula e eventualmente em casa, pertinência. Precisam ser de tal modo claros, concretos, que sejam ava-
a fim de criar nele técnicas, hábitos e disciplina de estudo. Não se deve liáveis, verificáveis, constatáveis quanto à sua realização.
temer dizer que se necessita de certos automatismos, hábitos, habilidades, Devem ser determinados de antemão de maneira clara, precisa e com
destrezas no campo intelectual, tais como: tomar nota com rapidez e realismo. Que sua formulação não levante dúvidas. Só assim é possível
clareza; resumir com perfeição seja de maneira escrita seja oral; esque- depois avaliar a atividade. Os termos usados para definir os objetivos
matizar com facilidade; consultar livros e revistas; fazer sinopses; captar precisam ser de tal natureza que excluam o mais possível as alternativas
o essencial de uma frase. A diferença entre o ser racional e os instintos e delimitem o que é desejado. Alguns verbos pouco adequados para
automáticos dos animais é que os automatismos são escolhidos, plane- objetivos: conhecer, compreender, apreciar, dominar ~ eles deixam
jados, decididos e trabalhados na consciência e na liberdade. muitas dúvidas sobre o que significam concretamente. Por sua vez, verbos
Mais profundamente, se intenta influenciar na maneira de valorar tais como escrever, dizer, identificar, solucionar, construir, enumerar,
do aluno. Provocam-se situações, fazem-se exercícios, oferecen1-se ele- comparar permitem definir mais distintamente o objetivo.
mentos de reflexão que visam a criar valores, atitudes, preferências, ideais
de vida intelectual disciplinada. Está-se em pleno campo da ética. Nada
humano é aético. Escolha e adequação dos meios

Tipos e qualidades dos objetivos Uma vez determinados os objetivos, a tarefa é adequar a eles os meios
para sua obtenção. Entre objetivos e meios haja uma relação mútua. Os
Ao se formularem objetivos, importa distinguir seu nível de
objetivos determinam a escolha dos meios e a possibilidade dos meios
concretude.
disponíveis condiciona a determinação dos objetivos.
Há os objetivos comuns ou genéricos, de alcance universal ou de
Num primeiro momento, cabe fazer um levantamento dos meios
metas últimas. O grau de universalidade depende muito da instituição
disponíveis. Estes são de natureza teórica ou prática. Para os objetivos
ou do projeto em questão.
de um curso, os meios disponíveis são pedagógicos, tais como preleções,
Há os objetivos intermédios, de alcance menor ou de etapas. Eles
exercícios didáticos, dinâmicas, discussões, criação de hábitos e automa-
concretizam um pouco mais os objetivos universais.
tismos, quadros existentes de valores.
Há os objetivos específicos, de alcance bem definido e de finalidade
Num segundo momento, processam-se a crítica e a escolha dos meios.
in1ediata. Esses tornam ainda mais concretos os anteriores.
Se os meios são válidos, sejam conservados e reforçados. Se já não cum-
prem sua finalidade, mesmo que venham sendo praticados rotineira-
Leis dos objetivos
mente, sejam abolidos. Se cumprem só em parte, sejam modificados. E,
Os objetivos seguem leis. finalmente, se não estão ainda à disposição, sejam criados, inventados.
Pela lei da concretização, se passa de um objetivo genérico a objetivos
cada vez mais concretos, definidos. Pela lei da ampliação, acontece urna

54 55
3.ATJTUDE REALISTA ECR!r\TIVA
PARTE 1. ATITUDES FUNDA:O.lENTAIS DA VOCAÇAO !NTEI ECTUAL

Programação Pertence à experiência do óbvio que não se tem tempo no mundo


moderno. Há poucas expressões tão repetidas nessa cultura de tempo
O uso do tempo acelerado corno a de que não se tem tempo. Corno já citei acima, Darcy
Ribeiro, numa reflexão sobre o óbvio, afirma que ele encerra com fre-
A programação implica uma tomada de decisão diante dos meios,
quência um engano, cujo desvendamento nos conduz a outra obviedade
de sua ordenação entre si, dentro de um tempo e de um espaço definidos.
ainda mais óbvia e assim por diante. O óbvio imediato e tradicional, não
Antes de mais nada, coloca-se a questão do uso do tempo disponível.
desmascarado, necessita ser criticado para que se chegue a núcleos de
Tempo não é uma mercadoria a ser usada e jogada fora quando já
verdade cada vez mais claros 5 •
não se precisa dela. Não se economiza o tempo. Ele não se deixa guardar
A obviedade da expressão «não tenho tempo" mascara outra obvie-
em nenhum banco. Sempre flui. A primeira regra para o uso do tempo
dade, a saber, tal coisa <(não é prioritária para mim''. Princípio do tempo:
é saber tomar o tempo necessário para as ações conforme sua natureza,
a questão do tempo é uma questão de prioridade. Tem-se sempre tempo
sem sacrificá-lo em nome de uma lógica da eficácia. Não se pode ouvir
para o que é prioritário. O dia tem horas igualmente para todas as pes-
a Nona Sinfonia de Beethoven em cinco minutos. Aí está a figura do
soas.Toca-lhes dividi-lo em atividades. Para as atividades escolhidas para
jardineiro que espera as flores crescerem, o canteiro formar-se.
caber dentro das 24 horas, ter-se-á sempre tempo. Para as descartadas,
O tempo não é uma quantidade indiferenciada. Não perder tempo
não se encontra tempo. Logo, o problema não é falta de tempo, mas de
é consagrar a cada ação, a cada coisa, o tempo que lhe convém, o tem-
localização das ações no interior do quadro temporal. "Lembre-se de
po que ela reclama.
que o tempo é democrático. Ninguém tem mais ou menos tempo do
que você" (T. Hindle).

Regra de ouro do uso do tempo


"Saber esperar o ciclo das ações e das coisas e prestar atenção nelas para Histórias do Pe. Arrupe
dedicar-lhes o tempo conveniente>~ Por exemplo, um discurso longo demais Determinado jesuita ..não tinha tempo para rezar". Então perguntou-lhe
ou uma visita curta demais podem contrariar tal regra, pois não respeitam inocentemente o Pe. Arrupe:
a natureza do ato nem prestam atenção à situação concreta. ((Quando almoças?"
''Ao meio-dia': retrucou ele.
"Então", acrescentou o Pe. Arrupe, ''faze tua oração ao meio-dia e encon-
Usar o tempo é saber que o passado já não me pertence, mas que lhe trarás certamente mais tarde tempo para almoçar!"
posso dar um sentido novo. Esse é o significado do arrependimento, da
conversão. E então posso usar bem o tempo assumindo o passado com
responsabilidade, lucidez e tendo a audácia de criar o futuro. Se o passado Não há falta de tempo.
já não está sob meu domínio, o futuro, sim, me pertence. Daí o sentido Aquestão é escolher o que fazer com ele.
de sonhar, planejar, programar'. Outro exemplo, com dois alunos de filosofia. Luiz e Pedro são igual-
mente inteligentes, estudiosos, sérios em suas atividades acadêmicas. Pedro

4. F. Laupies, "L'usage du te111ps'', in J. Chanteur, J. Vernette et al, La vie intérieure. Une


nouvelle den1ande, Annales 1996-1997 A. E. S., Paris, Fayard, 1998, pp. 101-127. 5. D. Ribeiro, "Sobre o óbvio'', art. cit.

56 57
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO !NTELFCTUAL 3. ATITUDE REALISTA E CRIATIVA

não encontra tempo para leituras paralelas de revistas de cultura geral ou às principais. Para essa distinção, valen1 critérios objetivos e subjetivos.
das grandes obras de literatura. Luiz, pelo contrário, entra em contato Em geral, nas instituições acadêmicas o número de créditos assinalados
com revistas, lê obras literárias, escreve ensaios literário-filosóficos. às matérias revela sua importância segundo o juízo da instituição. O
Pergunta-se por que um encontra tempo e outro não. Descendo a aluno te1n também seus critérios de escolher as matérias principais, seja
uma análise mais detalhada da vida intelectual dos dois, encontra-se a por pensar numa futura dedicação a alguma delas, seja por interesse
razão na escolha da prioridade. Pedro prioriza o estudo-formal, a matéria pessoal, seja por perceber quais delas exigem dele mais energia.
dada pelos professores, os livros de texto, as exigências estritamente Há outros trabalhos mais simples, como leituras leves, pequenos
acadêmicas, escolares. É caxias nos estudos. Com isso seu tempo está resumos, reorganização das notas, escrever cartas, preparar exposições
todo tomado. Não tem tempo para outras atividades intelectuais. Luiz, orais simples. Tais atividades ocupem o tempo de rentabilidade média,
por sua vez, fez a opção por uma formação filosófico-humanista, em que em que nossa capacidade intelectual está menos disposta.
os elementos de cultura geral e de literatura são in1portantes. E, por isso, Enfim, há outras atividades que fazemos de natureza mais mecânica,
e1nprega menos tempo nas tarefas estritamente escolares e dispõe de em que o empenho intelectual é mínimo. Para isso existem os tempos
tempo para outras atividades intelectuais culturais. A questão não é de mortos, de menor rentabilidade, como pôr ordem no quarto, organizar
tempo, mas de prioridade. os arquivos no computador etc.
A simples organização do tempo conforme sua rentabilidade faz
Qualidade do tempo aumentar muito nossa atividade intelectual. Uma desordem nesse uso
As atividades não requerem o mesmo tipo de energia, atenção, implica desgaste de energia e desperdício de tempo.
qualidade de empenho. Uma primeira triagem deve ser feita quanto à
natureza de energia que cada atividade requer.
Os estudos teóricos e especulativos requerem muita energia e boa Desgaste inútil de energia
disposição psicossomática. Quanto mais repousada e descansada alguém
tiver a mente, de quanto mais silêncio e tranquilidade dispuser, quanto "Toda vez que observo um aluno ou estudante estudando, fico chocado
com a quantidade de tempo e energias que desperdiça por causa de um
n1ais agradável e recolhido for o a1nbiente, tanto mais valioso será esse
método ruim de trabalho e por desconhecimento das leis do espírito que
tempo para o estudo. Sua rentabilidade costuma ser maior. Portanto, a
ninguém pode contrariar impunemente."6
qualidade do tempo se mede pelas circunstâncias favoráveis ou não à
atividade intelectual. Distingamos três qualidades de tempo quanto à
rentabilidade intelectual: de ótima rentabilidade, de rentabilidade média Quando se fala do tempo sob o prisma da rentabilidade, considera-
e de pouca rentabilidade. se itnplicita1nente o espaço. Pois, se num tempo hipoteticamente de
Pertence a um mínimo de planejamento intelectual dedicar o tempo melhor rentabilidade se está dentro de um ônibus, ele já não é de alta
de rentabilidade máxima às atividades intelectuais mais importantes, rentabilidade. Essa análise não se faz de maneira abstrata, mas levando
que demandam mais energia intelectual. Em geral, são as leituras de textos em consideração a vida real e concreta do aluno com as exigências que
difíceis que requerem mais esforço de intelecção e assimilação ou os ela impõe, quer como estudante, quer como religioso ou leigo, quer
trabalhos escritos, quer na sua fase de concepção, quer na de redação.
Alé1n disso, o aluno necessita estabelecer uma hierarquia entre as 6. Payot, "Le Travail intellectuel et la Volonté': p. 70, cit. por F. Charn1ot, L'Art de se
matérias que estuda, a fim de dedicar mais tempo e melhor rentabilidade forrner l'esprit et de réussir au baccalauréat, op. cit., p. 9.

58 59
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL J. ATITUDE REALISTA E CRIATIVA

morando perto ou longe do centro de estudos. Todos esses fatores de as perguntas. Vai depender de que atividades se estão planejando. Hoje
lugar e de vida interferem na qualificação do tempo. Quando se fala de há excelentes softwares de planejamento. É só informar-se.
maior ou menor rentabilidade é pondo todos os fatores sob os olhos.
Há, porém, certo jogo a respeito dessas condições externas, geográ-
ficas ou outras. Que o aluno busque modificá-las para aumentar sua
Para realizar o planejamento
rentabilidade. Assim um lugar barulhento, que permite pouca rentabili-
dade, seja trocado por outro mais silencioso, mudando a qualidade da 1. Analisar minha realidade de estudante, identificar problemas
rentabilidade. A regra geral, que costuma vigorar em tais situações, é de e levantar sugestões: estabelecer os objetivos
que se tem mais possibilidade de alterar as microestruturas do que as 2. Eleger prioridades
macroestruturas. Há pequenos recursos que aumentam a rentabilidade 3. Definir metas
intelectual, tais como breves interrupções, pequenas ginásticas que irri- 4. Definir ações concretas
guem e oxigenem a região cerebral, exercício de respiração abdominal, 5. Elaborar cronograma
inspiração de ar puro, observação despreocupada da natureza'. 6. Listar recursos necessários e já disponíveis
Levando em consideração, portanto, a qualidade do tempo e do es-
paço, as exigências acadêmicas e outras, as prioridades naturais e esco-
lhidas, cada aluno faça um "quadro-horário" para si e siga-o. Esteja atento Para esquematizar o planejamento
aos desvios de tal horário e para o que os motivou para ir realisticamente 1. O que quero fazer? (natureza do projeto)
adaptando-o à própria realidade e corrigindo descuidos em seu cumpri- 2. Por que quero fazer? (justificativa, motivação)
mento. Os dois extremos são perigosos: rigidez e descuido. A rigidez é 3. Para que quero fazer? (objetivos)
irrealista. A vida impõe mudanças. O descuido neutraliza o efeito benéfico 4. O que é prioritário?
do horário.
5. Onde quero fazer?
6. Quando quero fazer? (tempo e ritmo)
7. Como vou fazer? (metodologia)
Regra do horário 8. A quem se destina? (público-alvo)
Só existe o que está no horário. O horário existe para o aluno e não o aluno 9. Com quem vou fazer? (grupo de estudo)
para o horário. Mas o horário não seguido não serve para nada. 10. Com que recursos?
11. Avaliação

Roteiro prático
Ao se fazer um plano, distingam-se os prazos. Hoje, corno a vida
Para realizar concretamente um planejamento de estudos, sugere-se escolar está praticamente dividida em semestres, o aluno poderia pensar
um modelo de planilha. Evidentemente não se precisa responder a todas num plano semestral de longo prazo. Nele se insira tudo o que se pretende
fazer nesse semestre: trabalhos escritos de maior envergadura, estudo de
7. Encontram-se sugestões muito úteis em N. !rala, O controle cerebral e emocional, línguas estrangeiras, os cursos normais do semestre com suas exigências
São Paulo, Loyola, '°1998. e avaliações, outras atividades. Depois dividan1-se todas essas tarefas pelos

60 61
3. A:J ITUDE REALISTA E CRIATIVA
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTFLECíUM.

diferentes meses. Em seguida, sejam organizadas semana por semana; o Pitada de utopia e criatividade
ideal é detalhá-las a ponto de ter um programa para cada dia. Comece-se
Faz parte do realismo humano un1a pitada de utopia e criatividade.
do plano a longo prazo para terminar no de prazo curtíssimo.
Depois que pensamos os objetivos, os meios e os organizamos em
Nos inícios da vida intelectual, o ideal é fazer um planejamento
programas, tudo pareceria estar pronto. Não. É o sábado. Mas o homem
mais detalhado, com controle exato diário, semanal, mensal e semestral
é maior que o sábado, disse o Senhor. Este maior que nossos programas
dos prazos, de modo que se vai tendo consciência do realismo dos
são a esperança, a utopia, nossos sonhos, nossa capacidade criativa.
próprios projetos. Quem sempre projeta muito mais do que consegue
Eles não cabem em nenhum programa. Todo programa deve perma-
realizar necessita abaixar o facho da pretensão ou eliminar os fatores que
necer aberto a possíveis superações por essa força espiritual que habita
o impedem de cumprir o projeto. E, vice-versa, quem facilmente dá conta
em nós.
do projeto e tem ainda tempo de sobra, aumente então as próprias
Sem esse olhar maior, ficaremos escravos, pequenos, presos à camisa
exigências.
de força de nossos planos. Perdemos a asa da águia, ficando com o bico
Nada tão educativo quanto ir formando uma visão realista de si.
de galinha, virado para o solo. Esse ser inquieto que somos necessita de
Além disso, evitam-se surpresas, improvisações, angústias de não dar
projetos, programas, horários, do contrário vive na irrealidade vazia de
conta. Aprende-se também o senso da hierarquia das atividades, orde-
voos sem rumo. No entanto, não cabe na pequenez de nenhuma orga-
nando-as, julgando-as segundo seu valor.
nização que pretenda esgotar-lhe as possibilidades. Somos morada da
Transcendência.

Regra de ouro para perfeccionistas e obsessivos


Antes de entregar-se a uma tarefa, determine de antemão o tempo que lhe Morada da Transcendência
vai consagrar proporcionalmente à sua importância. E seja fiel a isso. Se
«Creio que a transcendência é, talvez, o desafio mais secreto e escondido
no final o trabalho não saiu tão bom como esperava, diga para si: «É isso
do ser humano. Porque nós, seres humanos, homens e mulheres, na verdade,
que posso realizar com tal tempo disponível!,, E volte ao normal, sem a
somos essencialmente seres de protest-ação, de ação de protesto. Protesta-
sensação de frustração.
mos continuamente. Recusamo-nos a aceitar a realidade na qual estamos
mergulhados porque somos mais, e nos sentimos maiores do que tudo o
que nos cerca. Desbordamos todos os esquemas, nada nos encaixa ... Nós,
Dessa forma, ter um programa prévio em que se determina o tempo
seres humanos, temos uma existência condenada - condenada a abrir
a ser empregado para as diversas atividades evita prolongá-las indefini-
caminhos, sempre novos e sempre surpreendentes."8
damente. E é importante aceitar os próprios limites, sabendo que nem
tudo se faz com o mesmo grau de perfeição. O tempo disponível não é
infinito! Formar-se consiste en1 conjugar, em justo e real equilíbrio, o existente
Ajuda também conferir com um acompanhante de estudos o pró- e o possível de ser desejado. A atitude realista compara-se a uma pista de
prio horário para ouvir a opinião de quem tem mais experiência de decolagem. Não se levanta voo em qualquer lugar. As pistas limitam o
vida intelectual. Entretanto, nada deve tirar a liberdade. Parafraseando
Jesus, "o planejamento é feito para o homem e não o homem para o 8. L. Boff, Te1npo de transcendência. O ser hun1a110 co1110 um projeto infi11ito, Rio de
planejamento". Janeiro, Sextante, 2000, pp. 22 s.

62 63
PARTE 1. ATlTUDFS FUNDA~IENTAIS DA VOCAÇAO INIELECTLTAI 3. ATITUDE REALISTA E CRJ,\TJVA

espaço para o avião decolar. No entanto, elas não existem para segurá-lo, Parece mais clarividente essa última tendência da pós-1nodernidade.
mas para possibilitar voos para além dela, embora a partir dela. A for- Sem perder o valor moderno da organização, sabe valorizar a "inteligência
mação se faz a partir do existir - realismo - , mas para além do que emocional", as qualidades criativas e certo jogo de improvisação em todo
existe - utopia e criatividade. Vale recordar a bela definição de utopia projeto. Vale aqui o "jeitinho" brasileiro 10 • Dificilmente será o excesso da
do sociólogo português. rigidez organizativa o perigo para o brasileiro. Somos mais dados à "teoria
do caos" que à dureza taylorista ou fordista. Por isso, cabe-nos buscar
um equilíbrio entre o realismo organizador e a tendência às jogadas ge-
Utopia niais e imprevistas do nosso Garrincha interior.
"A utopia é a exploração de novas possibilidades e vontades humanas, por
via da oposição da imaginação à necessidade do que existe, só porque existe,
em nome de algo radicalmente melhor que a humanidade tem direito de Bibliografia
desejar e por que merece a pena lutar."9
HINDLE, T. Como administrar o tempo, São Paulo, PubliFolha, 1999.
LEFEBVRE, G. Saber organizar- saber decidir. A gestão nos dias de hoje, São Paulo,
Loyola, 1982.
Conclusão
TIERNO, B. Las mejores técnicas de estudio. Saber leer, tomar apuntes y preparar
exámenes, Madrid, Temas de Hoy, 5 1995.
O ser humano vive entre limites e possibilidades. A atitude realista
consiste em perceber o que é limite e o que é possibilidade. Dentro dos li-
mites, desenvolver o máximo de possibilidades. Evitam-se o sonho do irreal
Dinâmica
e a acomodação da mediocridade. Deixa-se de lado o amargor de quem não
aceita a realidade concreta e vive nas asas da ilusão. Empenha-se na valori- Exercícios: Em grupo ou individualmente
zação dos talentos pessoais, segundo o ensinamento da parábola, e das 1. Cada aluno anote numa folha que atividades intelectuais são
chances históricas, lidas como graças exteriores que o Senhor coloca em prioritárias para si em ordem decrescente de importância. Faça
nossas vidas. É um realismo que conserva uma pitada de utopia, de espe- tal lista não a partir do desejo ou da intenção, mas da real prio-
rança, de superação de si. Porque também isso pertence ao ser humano. ridade. Esta aparece no tempo dedicado a atividades em questão.
A modernidade caracteriza-se pela eficiência organizativa e produtiva. Tudo a que se dedica tempo ((zero" tem prioridade «zero". Aquilo
Discutem-se os métodos e procedimentos. Mas não se duvida da neces- a que se dedica o máximo de tempo tem a máxima prioridade.
sidade da organização. A pós-modernidade reage de duas maneiras. Ora, Um exame um pouco detalhado da distribuição real do tempo
aborrece toda organização, num grito de "independência ou morte" oferece o quadro verdadeiro das prioridades.
contra a modernidade. Adota certa anomia. Ora, reestrutura a maneira 2. Como outro exercício, anotar numa folha qual o tempo de má-
de organizar, introduzindo nela ingredientes mais criativos, humanos, xima, o de média e o de pouca rentabilidade que se tem num dia
caris1náticos. de aula e num dia sem aula. Depois ver quais são as atividades

9. B. de Sousa Santos, Pela n1ão de Alice. O social e o político na pós-rnodernidade,


São Paulo, Cortez, 1995, p. 323. 10. B. Leers, feito brasileiro e nonna absoluta, Petrópolis, Vozes, 1982.

64 65
PARTE 1. ATITUDF~~ FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECfUAL

que normalmente se fazem nesses horários e analisá-las sob o


prisma da prioridade e da importância.
NB. Se algum aluno quiser o parecer do professor sobre seu próprio
universo de prioridades e uso do tempo, confira com ele suas 4. Honestidade intelectual
respostas.

Teste pessoa 11
Não construas un1 castelo de
Elabore o plano de sua atividade extra-acadêmica seguindo os passos suspeitas sobre uma palavra
do roteiro prático:
UMBEiffO Eco
a. Identifique claramente a natureza e o objetivo da atividade
b. Escolha a(s) prioridade(s)
c. Defina as metas
d. Defina as ações concretas e os meios adequados
e. Elabore o cronograma

Teste pessoal li
honestidade é uma qualidade da totalidade da personalidade.
Responda para você essas perguntas:
1. Qual é o objetivo principal de um curso de Introdução à vida
A Afeta, portanto, todos os rincões do ser humano. Honestidade nas
relações pessoais, honestidade no trabalho, honestidade nos negócios.
intelectual? Existe também uma honestidade na atividade intelectual. Adquire
2. Que qualidades devem ter os objetivos de um programa ou uma conotação própria. Entende-se sob o aspecto estritamente ético ou
tarefa? epistemológico. Sob o aspecto ético, a desonestidade intelectual mani-
3. Como se escolhem os meios para realizar os objetivos de u1n festa-se na apropriação indevida do produto intelectual alheio. Tal acon-
programa ou tarefa? tece, em grau escandaloso, no caso do furto de trabalhos de outren1 e
publicados no próprio nome. Há formas menores, como inserir no pró-
prio escrito resumos ou ideias tiradas de outros autores, sem citá-los. Tal
comportamento contradiz frontalmente a ética da atividade intelectual.
Não abordaremos a honestidade intelectual sob tal prisma. Dedicaremos
um capítulo à responsabilidade ética da vida intelectual.
Há também uma honestidade intelectual que diz respeito à maneira
de trabalhar o pensamento e os escritos de outra pessoa. Acontece de
alguém falhar nesse campo sem maldade pessoal, mas por descuido e
falta de orientação metodológica. É esse o aspecto que nos interessa.

66 67
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTr\lS DA VOCAÇAO INTELECfUAL 4. llONE-STIDADE INTELECJ"UAL

Em relação ao pensamento alheio Nada melhor do que levantar, primeiramente, a respeito de si mes-
mo a suspeita ideológica antes de julgar o pensamento alheio. Estamos
A honestidade em relação ao pensamento alheio manifesta-se de habituados a suspeitar da ideologia dos outros. Mas raramente o fazemos
muitas formas, assitn como sua violação. Distinguimos três níveis: o da a respeito da nossa. Esta é uma atitude primeira antes de abordar um
aproximação, o da intelecção e o da reprodução do pensamento. autor ou texto.

No nível da aproximação
A honestidade manifesta-se numa atitude de abertura diante do outro, Exercício prévio
com a disposição mais de salvar que de condenar, mais de descobrir a Antes de ler esse autor ou texto, que sentimentos tenho em relação a ele?
verdade que o erro, mais de entender que de rejeitar. Que ideias me vêm à mente ao deparar-me com o nome do autor ou com
o titulo do texto? Ponha sob suspeita, entre parênteses, esses sentimentos
e essas ideias!
Regra inaciana
"Para que tanto aquele que dá os exercícios espirituais como o exercitante No nível da penetração do pensamento alheio
mais se ajudem e aproveitem, há de se pressupor que todo bom cristão A honestidade reflete-se no esforço de captar a lógica interna do
deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo do que a condená- pensamento do outro. Para tanto importa conhecer o contexto de sua
la; e, se a entende mal, corrija-a com amor. Caso tal não bastar, recorra a gênese pessoal, cultural, sociogeográfi.ca, ideológica. É desonesto, como
todos os meios convenientes para que, bem entendida, seja salva."'
comumente se faz, criticar autores antigos a partir da consciência histórica
presente, não levando em consideração o contexto histórico, cultural,
Tanto 1nais importante é essa regra de Inácio quanto se vivia em seu religioso, ideológico em que eles viveram.
tempo num clima de suspeitas a respeito de quietismo e outros desvios Além disso, um pensamento é percebido no conjunto das ideias do
espirituais, de tal modo que se condenava facilmente, sem antes assegurar- autor. Outra desonestidade muito comum acontece no fato de isolar
se do real pensamento do outro. De tempos em tempos, ondas seme- alguma ideia do autor de seu contexto e criticá-la, condená-la. Numa
lhantes se levantam na sociedade e na Igreja. Hoje parece que há algo de palavra, o primeiro esforço honesto é tentar responder às seguintes per-
parecido'. guntas sobre um texto: que quer dizer, provar o autor? Qual é sua tese
Em termos bem simples, significa abordar um pensador sem precon- global e dentro dela como se entende determinada proposição?
ceito. Isso é tanto mais difícil quanto mais esse autor estiver no centro A consideração da consciência possível (Lukács) não é só uma regra
de debates ideológicos. No entanto, nunca formar-se uma ideia de alguém epistemológica correta, mas também uma exigência de honestidade
sem antes ter contato direto com seu pensamento, e não contentar-se científica. O horizonte da consciência possível indica o limite em que um
com fontes secundárias. pensamento se situa e para além do qual não tem condições objetivas de
avançar.

1. Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, n. 22.


2. J. B. Libanio, A volta à grande disciplina, São Paulo, Loyola, 1984.

68 69
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENT1\lS DA VOCAÇ,\O !N'J ELECl UAL 4_ HONESTIDADE INTELECfUAL

sentido diferente e divergente. Citação equivocada, não só tecnicamente,


Consciência possível mas sobretudo quanto ao conteúdo, desqualifica um trabalho intelectual.
A consciência possível, como diz a própria expressão, possibilita chegar a No início da vida intelectual, deve-se exercitar e estar muito atento
uma consciência real a respeito de uma realidade. É o fundamento dela. É à questão das citações e reproduções de pensamento alheio. O exercício
o máximo grau de adequação à realidade que uma consciência consegue de resumos, condensações, fichamentos de livros serve para adestrar o
alcançar sem por isso provocar mudança de sua natureza. A consciência aluno em tal mister. Ajuda muito que o aluno se deixe criticar por espe-
real é a adequação objetiva à realidade. A consciência possível indica a cialistas no autor, a fim de saber se reproduziu bem ou não o pensamento
forma-limite: o máximo de conhecimento ou compreensão que um indi-
dele. O grande inimigo nas interpretações e compreensões de um autor
víduo, um grupo, uma classe social ou toda uma época podem alcançar
são os chavões, os lugares-comuns, os estereótipos, os clichês vulgari-
sobre um problema, dados os condicionamentos que limitam sua visão. É
zados, as fontes de segunda e terceira mão. Nada substitui à volta ao
o horizonte de conhecimento que não se consegue ultrapassar em dado
momento cultural. texto-fonte. E daí se percorre o can1inho das interpretações e citações.

No nível da reprodução Intenção do autor e intencionalidade do texto


A honestidade manifesta-se na fiel reprodução do pensamento do
autor. Exige que se distinga com clareza e exatidão o que vem do autor e A distinção entre intenção subjetiva de um autor e intencionalidade
o que são acréscimos, considerações, observações, interpretações livres objetiva de um texto ajuda a evitar mal-entendidos. A intenção subjetiva
de quem o cita. Considera-se falta grave em metodologia a confusão entre livre de um autor pertence a seu inundo interior. Não se ten1 acesso a ela,
as afirmações de um autor citado e as reflexões pessoais de quem o cita. a não ser que o próprio autor no-la confesse. É verdade que a psicanálise
Para maior rigor, costuma-se colocar entre aspas as palavras literais intenta penetrar nas motivações, nas intenções subjetivas de um autor.
do autor citado e indicar a fonte em nota. Além disso, quando se toma Mas o nível pretendido pela psicanálise não é o da "intenção livre", mas
uma ideia de algum autor de modo não literal, deve constar na nota uma o das pulsões inconscientes. Estas não se identificam com a intenção livre,
referência a ele. a não ser quando assumidas pela pessoa. Aventurar-se a criticar as in-
Em geral, as citações literais se fazem quando tanto a ideia como a tenções subjetivas livres de um autor é outorgar-se o atributo divino
formulação são realmente bem encontradas. Não tem sentido citar lite- do juízo. O evangelho nos recomenda abster-nos de tal (Lc 6,37).
ralmente ideias já conhecidas ou forn1ulações inexpressivas. Basta uma Um texto permite uma leitura das motivações inconscientes por meio
alusão ao autor, fonte primeira de tal ideia. É importante distinguir o do instrumental psicanalítico. Isso já pertence à intencionalidade do texto e
criador de uma ideia e seu eventual vulgarizador. Nem sempre é fácil não ao mundo da intenção subjetiva livre. É uma leitura muito perigosa, mas
sabê-lo. Espera-se um cuidado em percorrer o rastro histórico de um possível. Facilmente dá azo a arbitrariedades, já que o instrumental psicana-
conceito para encontrar sua primeira fonte. lítico aceita uma margem muito grande de interpretação do psicanalista.
À medida que alguém domina um assunto e já o assimilou, afasta-se Um texto, uma vez produzido, cai sob o juízo analítico de qualquer
das citações literais e contenta-se com a menção da fonte principal de tal leitor. Descobre-se nele uma intencionalidade objetiva. É possível de-
ideia. socultar de um texto o movimento interno a que ele leva. Há poesias que
Nesse campo, o mínimo de honestidade intelectual é a citação correta têm uma dinâmica erotizante ou espiritualizante, de modo que o leitor
do pensamento alheio, sem deturpar-lhe o conteúdo, sem impingir-lhe um é conduzido por elas a viver tal ou tal experiência. Daí não se segue que

70 71
PARTE 1. ATITUDES J=UNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL 4. HONFSTIDADE INTELELlUAL

a intenção subjetiva livre do autor tenha sido produzir no leitor tal di- Denotar a própria conotação
nâmica. Pode ser que sim, pode ser que não. Só ele e Deus o sabem. Mas
o que cai sob a análise são a estrutura e o movimento do texto que con- A reflexão anterior conduz a esse ponto fundamental para a hones-
duzem o leitor a determinado objetivo, querido ou não, sabido ou não, tidade científica: denotar a conotação.
consciente ou não, por parte do autor. Denotar significa declarar, descrever, definir, explicitar, tematizar
Um texto encerra mais dinamicidade teórica que a consciência do de maneira o mais objetiva possível aquelas condíções subjetivas que
escritor consegue prever. A hermenêutica moderna trabalha muito o nos envolvem.
texto, fazendo-o falar sempre novos significados, descobrindo nele estru- Conotar significa tocar com nossa subjetividade um dado exposto
turas e movimentos. objetivamente. Em toda análise objetiva, imbricam-se elementos subje-
tivos do analista. É o aspecto de conotação.
A análise cresce em objetividade à medida que se consegue denotar,
Crítica dos pressupostos explicitar os elementos subjetivos envolvidos na análise (conotação).
Denotar a própria conotação é tomar distância o máximo possível da
Cabe no âmbito da honestidade intelectual avançar a crítica até os própria situação subjetiva, ideológica, religiosa, racial, cultural etc., e
pressupostos teóricos do texto. Nessa análise a honestidade exige, antes explicitá-la, tematizá-la, objetivá-la. Esse é o grau máximo de honestidade
de tudo, que nós mesmos explicitemos o ponto de vista a partir do qual epistemológica.
analisamos os pressupostos do autor. Em outras palavras, confrontamos A denotação refere-se sobretudo ao conjunto de regras que um usuá-
nossos pressupostos teóricos com os pressupostos do autor. É importante rio do sistema linguístico utiliza em dado momento. Denotar é conhecer
que ambos fiquem claros e não critiquemos o texto como se nos situás- as condições do uso da linguagem, a saber, como um usuário aplica em
semos num nível «acima de toda suspeita", sem pressuposto, absoluto e sua atividade científica concreta as regras sintáticas, semânticas do sistema
totalmente objetivo. de comunicação.
Isso significa que os critérios a partir dos quais se faz a crítica devem A cientificidade não se mede sem mais pela logicidade interna do
ser explicitados e expostos à crítica de ulterior crítica. Não há crítica discurso (ideologia do cientismo), mas pela declaração do lugar social
absoluta. Toda crítica se faz a partir de pontos assumidos anteriormente do usuário, seus interesses, objetivos, valores pré-optados.
que, por sua vez, podem também estar sujeitos a ulterior crítica. O ideal de objetividade e lealdade científica consiste numa lingua-
gem o mais denotativa possível. Evidentemente, é impossível uma ab-
soluta denotação objetiva de todos os fatores conotativos, subjetivos, já
O século da crítica que muitos deles nos escapam à consciência. A honestidade intelectual
"Nosso século é o século próprio da crítica, à qual tudo deve submeter-se. é uma pugna contínua, constante e ininterrupta contra as conotações
A religião, por sua santidade, e a legislação, por sua majestade, querem ocultadas, consciente ou inconscientemente. O caráter ideológico é neu-
normalmente subtrair-se dela. Mas então provocam contra elas uma justa tralizado pela explicitação do caráter ideológico das escolhas, decisões,
suspeita e não podem pretender a este respeito sincero a não ser que a razão condições do sujeito que produz o texto ou discurso.
o conceda e somente ao que pôde suportar seu exame livre e público."3 O fundamento das operações do emissor é sempre ideológico, mas o
discurso pode ser sempre menos ideológico à medida que tal fundamento
3. I. Kant, Critique de la raison pure, premiere préface, Oeuvres Philosophiques, Paris, é explicitado, as condições de produção são declaradas e o discurso não
Gallimard, La Pléiade, 1980, vol. 1, p. 727, cit. por J.-F. Robinet, Le tenips . . ., op. cit., p. 105. é apresentado nem como único possível, nem como único verdadeiro.

72 73
'
PARTE 1. ATITUDES PUNDAMENTAIS DA VOl.AÇAO lNTFLECrUAL 4. llONESTIDADE !NTELELIUAL

rnento. O espírito científico significa urna atitude de seriedade no traba-


Desideologizar o discurso lhar a própria disciplina, seguindo regras próprias.
c'A linguagem cientifica se define por uma luta constante e ininterrupta contra As ciências humanas são chamadas, também elas, a elaborar seu
a conotação. Nas ciências empíricas, esta luta se manifesta de várias ma- estatuto teórico e segui-lo. O espírito científico vai se manifestar na ma-
neiras. A mais importante é o esforço para neutralizar a conotação pela neira de tratar as fontes, de interpretar os textos em seu contexto, na
sua explicitação. O caráter científico de um processo de construção de uma correta transposição hermenêutica, no respeito aos diferentes métodos,
linguagem que descreve a realidade se expressa na introdução de elementos no rigor das citações, no manuseio exato da bibliografia. É uma forma
que denotam as próprias operações realizadas pelo emissor. Isto não anula
de exercer a honestidade intelectual.
o caráter ideológico das decisões, mas neutraliza o seu 'efeito ideol6gico'.'' 4
As investigações, em qualquer ciência que seja, devem pautar-se por
procedimentos análogos. Implicam um momento de pesquisa cuja forma
varia conforme o tipo de ciência. No fundo, está em jogo um problema
Cultivo do espírito científico
cuja solução se busca, analisando as hipóteses que surgem até que urna
Caracteriza nossos tempos o espírito científico. Moldou-se a partir se verifique plausível ou certa. O tipo de certeza não é necessariamente
da concepção moderna de ciência com Copérnico, Galileu, Newton. Passa empírico, 1nas pode ser demonstrada ou mostrada com argumentos
a ser científico somente aquilo que é verificável pela experiência, mate- próprios da natureza do saber em questão. A atitude científica é comum,
matizável e submetido a um rigoroso procedimento. Os principais evitando o amadorismo e a confusão entre opinião e asserções compro-
elementos da ciência são os conceitos, as hipóteses, as leis, as teorias, vadas. Todo esse curso de 1netodologia visa criar o espírito científico no
os modelos, as técnicas. Esse modo de pensar transformou-se no grande sentido amplo, mas não menos sério e importante, superando a ideologia
paradigma da razão ocidental. cientista e positivista.
Todas as outras ciências sofreram o impacto dessa mentalidade cien- Na linguagem do segundo Wittgenstein, situamo-nos diante de jogos
tífica, de modo que tudo o que não caísse sob o severo controle do método de linguagem diferentes com suas regras próprias que precisan1 ser se-
científico experimental era relegado ao mundo da poesia, da religião, do guidas. Entre o cientismo, proposto corno modelo único de linguage1n,
mito, das crenças. Aí não entra em questão a racionalidade científica. As e o desbordo de todo procedimento regrado, há o campo para exercitar-
ciências naturais tratam do certo e do errado, enquanto a religião do bom se o espírito científico nas diferentes linguagens e ciências. O espírito
ou do mau, do com valor ou do sem valor, comentava Heisenberg no Cír- científico caracteriza-se pelo respeito aos métodos e às regras episte-
culo da Física Atômica, em 1927. O manifesto do Círculo de Viena (1929) mológicas das diferentes ciências.
afirmava que os conteúdos e métodos das ciências da natureza são a única
ferramenta capaz de oferecer urna cosmovisão rigorosa, exata, científica
diante das imprecisões da metafísica e da religião. É real tudo e somente Conclusão
o que pode ser integrado no conjunto do edifício da experiência.
Hoje a perspectiva é bem diversa. Aprendeu-se das ciências exatas Não é importante nessa reflexão se a honestidade é uma virtude ou
um rigor metodológico que serve para todas as outras ciências, mas a seu uma condição prévia para toda virtude. Constitui-se, sim, numa atitude
modo. Não se trata de transpor literalmente o mesmo tipo de procedi- fundamental para um intelectual. Aqui a estudamos sob o aspecto do
trabalho científico. É um caso concreto que revela um comportamento
4. E. Verón, Ideologia, estrutura, co1nunicação, São Paulo, Cultrix, 1970, p. 182. mais profundo de toda a pessoa. A honestidade intelectual exige uma

74 75
PARTE 1. ATJTUDFS FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL 4. HONESTIDADE INTELECTUAi.

aproximação livre, sem preconceitos e ideologias rígidas anteriores, a é visto em sua relação consigo mesmo, com o mundo dos
todo e qualquer texto e pensamento. É só num segundo momento de homens, com o mundo das coisas e com a Transcendência.
compreensão, o mais correta possível do pensar alheio, que se institui a d. Que interesse corporativo (político, eclesiástico ou de qual-
crítica. É o oposto do dito irônico: "Não li, não gostei". A honestidade quer outro tipo de grupo) aparece no texto? Isto se descobre
com a observação de que instituição, que tipo de vida e de
intelectual leva à posição antípoda: «Li, entendi e tenho meus reparos".
valores o texto defende ou ataca. O autor revela isso por meio
Honestidade intelectual é proceder com humildade, modéstia, cautela das palavras escolhidas, do tipo de discurso, das afirmações
nas críticas. A impetuosidade, o açodamento terminam por pecar contra e omissões, dos mecanismos de seleção empregados.
a objetividade do texto. Os guardiães de ortodoxias e os censores de e. Qual é a teologia subjacente ao texto? Isso emerge a partir da
plantão costumam ser pouco honestos. Condenam antes de saber de ideia de Deus (Transcendência) e de plano de Deus presente
que se trata. Têm mais faro que inteligência, mais instinto que razão, no texto.
mais paixão que serenidade, mais zelo doentio que honestidade. f. Que visão ética o texto revela? Isso aparece com a análise do
mundo de valores defendido ou rejeitado.
g. Que compreensão de mundo, de ciência tem o texto? Isso
Bibliografia aparece na relação que o texto estabelece com as coisas, os
objetos, a natureza, a história, o mundo.
SEVERINO, A. J., Metodologia do trabalho científico. Diretrizes para o trabalho 4. Passar a análise feita ao autor do texto para que ele comprove:
didático-científico na universidade, São Paulo, Cortez/Autores associados,
- a distância entre a sua intenção subjetiva e a intencionalidade
;1980, pp. 78-81.
objetiva do texto que aparece da análise.
VERóN, E., "Ciência e ideologia: para un1a pragmática das ciências sociais'', in id.,
Ideologia, estrutura, comunicação, São Paulo, Cultrix, 1970, pp. 165-192. - o nível de honestidade intelectual do analista.
s. O aluno pode passar ao professor o exercício para eventuais
observações.
Dinâmica
Exercício de fichamento
Análise de pressupostos teóricos de um texto 1. Fichamento bibliográfico
1. Cada aluno analisará o texto de um colega, seguindo as regras da a. Indicar com clareza o autor e livro em questão.
honestidade intelectual. b. Pesquisar se alguém já fez uma resenha bibliográfica sobre tal
2. Cada um escreva um texto de dez a quinze linhas sobre: Que é a livro e indicá-la.
felicidade?
e. Elementos fundamentais de um fichamento:
3. A respeito desse texto o colega fará a seguinte análise:
- indicar o objetivo, tema central e a natureza do livro;
a. Qual o esquema, a estrutura do texto? Introdução, corpo,
- passar todos os capítulos e indicar sua ideia central.
conclusão.
b. Qual sua dinâmica, sua lógica interna, seu processo de ideias, 2. Fichamento temático de um livro
o movimento interno de seu pensamento, a natureza do
enfoque, isto é, a que o texto conduz o leitor? a. Escolhe-se o tema central do livro.
c. Que compreensão de ser humano está presente nele? Tal com- b. Dá-se rápida ideia do tema com recurso a outras fontes.
preensão se descobre com a percepção de como o ser humano c. Indica1n-se os sentidos desse tema na obra analisada.

76 77
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL

3. Fichamento de autor
a. Oferecem-se alguns dados biográficos do autor.
b. Suas principais obras.
5. Abertura
Fazer o tríplice fichamento do livro: H. Cl. Lima Vaz, Escritos de Fi-
losofia III. Filosofia e cultura, São Paulo, Loyola, 1997.
1. Fichamento da natureza do livro e de suas partes.
2. Fichamento do autor. Liberte sua natureza feita para as alturas.
3. Fichamento do conceito "cultura". Deixe nascer o sol dentro de você.
LEONARDO BüFF
Teste pessoal
1. Que significa denotar ou conotar e como você o faz?
2. Indique algumas regras para criticar um texto!
3. Que atitudes e comportamentos você assume ao trabalhar com
"espírito científico"?

vida intelectual só se desenvolverá se se mantiver uma atitude de


A abertura ao diferente, ao novo, ao questionamento. Quando al-
guém se cansa e se irrita diante das novidades, é sinal de que sua estrutura
mental se calcificou. Começa o processo inverso, de esclerose e atrofia-
mento intelectual.
Um termômetro não só de crescimento, mas de sua possibilidade é
a atitude de abertura ao que vai surgindo de novo, de inédito na história.
A abertura desenvolve-se em vários níveis. Mas, antes de tudo, manifesta-
se diante da verdade como tal, dos mestres e orientadores, dos colegas e
dos acontecimentos da vida.

Nível cultural

Toda cultura está inserida em uma tradição. Esta é uma força en-
volvente. É o húmus alimentador da cultura. Só no seio de uma tradição
a cultura é inteligível. Mas também é redoma que a protege da novidade.
Daí surge o conflito entre a tradição e as experiências novas.

78 79
PARTE 1. ATITUDES 1=UNDAMENTAIS DA VOCAÇ,\O !NTELECIU:\L
5. ABERTURA

Viver só da tradição termina num processo repetitivo. Ao se romper e do sentido que transcendam o presente. Contradiz a estrutura de sentido
com ela, perde-se a consciência de identidade. O sujeito desestrutura-se, do ser humano. Intransigente em relação a qualquer norma. Termina
esfumam-se-lhe os pontos de referência. numa posição política anárquica. E faz do anarquismo sua ortodoxia.
A atitude de abertura é a capacidade de assumir uma autocrítica C'est défendu, défendre. "É proibido proibir", como diziam os estudantes
da própria tradição de dentro dela. Implica uma compreensão dialética de Maio de 1968 em Paris. Acaba-se proibindo o proibir de modo tão
da verdade, em que esta surge sempre como nova síntese entre os ele- violento, que se vai até o confronto, à luta, à guerra.
mentos até então dados e os novos elementos que surgem. Opõe-se a A posição de abertura caminha por Cila e Caribde. Deve escapar da
uma concepção puramente ortodoxa, que trabalha com o binômio ortodoxia, sem cair no relativismo. Nem fugir de um relativismo a ponto
excludente sim e não, ou, ou. Assim, diante de uma nova experiência, ou de envolver-se no dogmatismo ortodoxo. A abertura cultural conjuga
se rejeita a tradição, atendo-se à experiência, ou se refuga a experiência, o estudo da tradição, de onde haure riqueza, com a atenção aos novos
apegando-se à tradição. Opõe-se também a uma concepção relativista, sinais do presente e ao despontar do inédito.
em que a tradição é desqualificada, com a retenção somente da verdade No momento atual, esta abertura intelectual situa-se diante da crise
do presente. de paradigmas e da emergência de um novo paradigma 1 • É tema amplo
A concepção dialética, pelo contrário, busca a síntese entre a tradição para ser abordado nesse texto mais sapiencial que científico. Em todo
e a novidade da experiência, chegando a novas formas de verdade. Retém caso, a abertura intelectual hoje implica defrontar-se co1n a crise de um
a positividade da tradição, nega-lhe a negatividade e assume do presente paradigma que encontra suas raízes cinco séculos antes de Cristo e que
sua força crítica positiva. Vão-se assim construindo novas e mais ricas presidiu a toda a cultura ocidental até os dias de hoje.
sínteses de verdades. Multiplicam-se as expressões para delinear essas gigantescas trans-
A teoria quântica permite-nos ir além da concepção dialética. Esta, formações paradigmáticas. Uns se referem a uma orientalização do
na verdade, reassume os dois elementos em questão - tradição e expe- Ocidente, à passagem de um esquema fundamental dualista para outro,
riência presente - numa unidade. A teoria quântica permite pensar uma monista, em todos os campos do saber, do existir, do agir2 • L. Boff vem
realidade que seja e não seja, ao mesmo tempo. É a clássica experiência trabalhando tal questão em seus últimos escritos. Concentra-se na mu-
de que o objeto observado é onda e corpúsculo ao mesmo tempo. É a dança de paradigma a partir da "nova imagem do mundo, que está
lógica do terceiro incluído. Lógicas multivalentes em que os elementos surgindo das ciências da terra, da cosmologia contemporânea e da evo-
aparentemente contraditórios são assumidos simultaneamente. lução ampliada"'. Os epistemólogos trabalham com a interdisciplinari-
Na idade madura, o risco maior é o da ortodoxia. Na juventude, é dade e a transdisciplinaridade em lugar de com os isolamentos e a insu-
o do relativismo. A ortodoxia no campo epistemológico enrijece o laridade de cada ciência nas regras rígidas do próprio saber4 • O diálogo
conhecimento. Veste-o com a camisa de força das estruturas já dadas e
transmitidas. Exclui qualquer corpo estranho como heterodoxo, errado, 1. M. Fabri dos Anjos, Teologia e novos paradigmas, São Paulo, SOTER/Loyola, 1996.
2. Ver o artigo estimulante de Colin Campbell, ''A orientalização do Ocidente: Reflexões
falso, herético. Dedica-se à construção de "corpos doutrinais" bem defi-
sobre uma nova teodiceia para u1n novo milênio'', Religão e Sociedade, 18/1 1997,
nidos, rígidos, que servem de critério de inclusão e exclusão. Incluindo pp. 5-29.
no círculo da verdade os que os aceitam, excluindo dele os que o 3. L. Boff, "O pobre, a nova cosmologia e a libertação. Con10 enriquecer a teologia
questionam. da libertação", in L. C. Susin, Sarça ardente. Teologia na An1érica Latina: Prospectivas, São
Paulo, SOTER/Paulinas, 2000, pp. 189-207, aqui p. 192.
O relativismo assume o brilho da abertura. Mas, no fundo, é dele-
4. Charte de la Transdisciplinarité, adoptée au Premier Congres Mondial de la
tério e intransigente. Deletério, porque destrói a possibilidade da verdade Transdisciplinarité, Convento da Arrábida, Portugal, 2-6 de novembro de 1994.

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81
PARTEJ. ,\TJTUDES fUNDAMENTAIS DA VOCAÇ,\O INTELEC.TUAL 5. AfiERTt.:RA

inter-religioso revoluciona o pensar teológico, pedindo novo paradigma realidade, substitutiva da relação autoconfiguradora com a mãe, não está
para além das posições clássicas de exclusivismo e inclusivismo 5 • de modo nenhum aberto a questioná-la. Ela é constitutiva de sua segu-
rança e qualquer questionamento a abala.
Se um elemento novo, se uma experiência, se uma realidade presente
Abertura e pluralismo cultural tocam essa realidade simbiótica, o sujeito desencadeia um processo in-
consciente de racionalização por meio do qual descobre infinitas razões
"Tanto mais importante se faz a abertura quanto mais aparece absoluta-
mente irreversível o pluralismo cultural e sua natureza irredutível. O para rejeitá-los. À primeira vista parece um processo lógico. E as razões
pluralismo antigo se fazia dentro do mesmo horiwnte fundamental comum se apresentam sob a ótica da objetividade. Mas, num segundo mon1ento
de pensamento, de sentimento e de fé. O pluralismo hoje acontece a respeito analítico, mais exatamente psicanalítico, percebe-se que se trata de un1a
de ·métodos, de filosofias, de sentimentos básicos, de ideologias, de posturas autodefesa afetiva que, por sua vez, provoca o desencadeamento do pro-
fundamentais diante da existência, de objetivos, de pontos de partida, de cesso lógico.
encaminhamentos do pensamento. É dentro dele que as partes em litígio Por isso, a solução da discussão nunca se dará no campo lógico.
cultural devem entender-se." 6 Porque a cada argumento contra a posição defendida o sujeito encontra
muitos outros para defender-se. A causa não é intelectual. É afetiva. A
solução deve ser, portanto, afetiva.
Nível afetivo A experiência ensina como em muitas discussões ideológicas os
fatores afetivos são mais relevantes que os intelectuais. E o jogo não se
A vida intelectual é de todo homem. A inteligência não caminha resolve na defesa ou refutação dos argumentos, mas na mudança da re-
como uma ideia platônica. Ela é faculdade de uma totalidade humana. lação do sujeito com a realidade em questão. Só uma outra pessoa com
E a abertura deve atingir a essa totalidade. Seu centro é a afetividade. quem ele tem empatia consegue fazê-lo perceber que rejeita tal realidade
E. Fromm, psicólogo da Escola de Frankfurt, trabalhou em nível so- por medo, por causa da ameaça que ela lhe causa. E só terá coragen1 de
cial o que é pensável também em nível individual'. A abertura afetiva enfrentá-la se realizar um duplo trabalho: diminuição da ameaça e reforço
ao novo, ao diferente, que possibilita a inteligência atender a ele, de- do ego.
pende do processo de individuação. Quando este se realiza positivamen- Interessa conhecer tais mecanismos para entender o processo de
te, no sentido de o sujeito ir desprendendo-se dos laços originários e abertura e fechamento, próprio e alheio. E assim colocar-se numa atitude
firmando-se em seu eu livre, o sujeito está aberto ao novo sem medo, de abertura e diálogo com lucidez.
sem angústias. Mas, quando o sujeito se vê simbioticamente ligado a uma A abertura para o novo só é possível na liberdade. E não há liberdade
lá onde atuam o medo e a insegurança inconscientes. O medo da liber-
5. Há tentativas da elaboração de um paradign1a pluralista diante do qual até agora dade leva o sujeito a submeter-se a uma realidade, a uma ''verdade", a tal
a teologia católica se encontra reticente. Ver para uma prin1eira informação F. Teixeira,
ponto que renuncia à liberdade e por isso já não tem condições de abrir-
Teologia das religiões, São Paulo, Paulinas, 1995. O anglicano inglês sugere um paradig1na
teológico "transconfessional" construído a partir da solidariedade dos desenraizados se a um diferente. A liberdade implica que o sujeito se coloque diante do
(solidarity of the sliaken): A. Shanks, God and Modernity. A new and better way to do theo- diferente e do novo sem medo, crítico-analiticamente, para, num segundo
logy, Londres/Nova Iorque, Routledge, 2000. momento, tomar posição diante dele.
6. K. Rahner, "Le pluralis1nc cn théologie et l'unité du crédo de l'Eglise'', Concili1un
46 (1969), pp. 93-112. Quando o sujeito está ligado íntima, profunda e simbioticamente a
7. E. Fron1m, O n1edo à liberdade, Rio de Janeiro, Zahar, 1960. uma realidade, romper com ela gera solidão e angústia tão insuportáveis

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PARTE 1. ATITUDES J'UND1\lltENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAL
r
! 5.ABERTURA

que ele se aferra aos braços dessa realidade e rejeita qualquer novidade, Nível teologal
qualquer diferente. Numa palavra, fecha-se em si mesmo, agarrando-se a
essa realidade com unhas e dentes, num duplo possível movimento anti- Na perspectiva da fé, interessam-nos também considerações de ordem
tético de sub1nissão incondicional ou de imposição autoritária intransigente. teológica. Além desse duplo nível de abertura, há no homem uma janela
O autoritarismo e a subserviência submissa são duas facetas de um para a Transcendência. Como o homem é uma unidade, esta realidade
mesmo processo de individualização mal conduzido, mal trabalhado. teológica acaba interferindo também no rendimento intelectual, na co1n-
Os intransigentes e os subservientes não estão abertos ao novo, ao di- ! preensão e percepção da verdade.
ferente de suas identificações. O novo lhes aparece corno o caos, a anomia, Há uma tríplice atitude diante do outro, do diferente, da novidade,
que devem ser rejeitados, para a pessoa superar a angústia dessa ameaça. sob o ponto de vista teologal. Numa primeira atitude, o homem fecha-
Em termos literários, J.-P. Sartre trata de tal temática na peça As se a esse diferente. Envolve-se de tal modo consigo, num egoísmo radical,
Moscas, onde os dois personagens centrais - Orestes e Electra - vivem que qualquer realidade que o questione já a priori é excluída. Atitude do
dramaticamente essa situação. Ou assumir a própria liberdade, o ato de sacerdote e do levita que passam à margem do ferido na estrada (Lc
matricídio, ou refugiar-se no mundo dos deuses, fugindo da própria li- !0,3ls). Esse fechamento diante do diferente termina por ser um fecha-
berdade e responsabilidade. mento diante de Deus, que se manifesta ao ser humano como diferente,
Ultimamente têm causado enorme êxito publicitário os estudos sobre como o outro, o totalmente outro. Em termos teológicos, tal rejeição do
a "inteligência emocional". Aquilo que era óbvio em todos os tempos outro chama-se pecado. O pecado interfere no processo da verdade, da
recebeu agora subsídios vindos das ciências, sobretudo dos estudos do atividade intelectual. Há deturpações nesse mister que remontam a essa
cérebro humano. Busca-se dar uma fundamentação científica para a causa religiosa, posto não se explicite como tal.
verdade da influência das paixões sobre a inteligência. Há outro tipo de "egoísmo'~ eticamente aceitável, comumente pra-
ticado, como fruto de experiências do cotidiano. O ser humano para ser
feliz e até mesmo para estar disposto à atividade intelectual necessita de
Mente emocional um amor a si, que o torna moderado, em paz consigo. Ele diminui os
lampejos de arroubos do desejo e do idealismo para poupar-se de sofri-
«A mente emocional é muito mais rápida que a racional, agindo irrefleti-
mentos, desilusões, fracassos. É um amor a si que vive ten1eroso de situa-
damente, sem parar para pensar ... Já que a mente racional demora mais
ções que o impactam muito. Prefere urna posição mais calada, resignada,
para registrar e reagir aos fatos do que a mente emocional, o 'primeiro
impulso: em circunstâncias emotivas, não vem da cabeça, mas do coração ... encolhida, diante dos diferentes. Supõe muitas vezes um cansaço, depois
A mente emocional possui uma lógica associativa; elementos que simbo- de ter passado por urna época de idealismos, expectativas, esperanças
lizam uma realidade ou que de alguma forma lembrem essa realidade são, maiores. Essa atitude, se não impossibilita, ao menos dificulta o avanço
para a mente emocional, a própria realidade ... A mente emocional reage no processo da verdade. Prefere manter-se com os dados já adquiridos,
ao presente como reagiu no passado ... A tarefa da mente emocional é, em com o que é mais seguro e provado pela experiência, com o que foi
grande parte, determinar um estado emocional específico, ditado por decantado pelos anos a lançar-se a novidades, a experiências inéditas.
determinadas sensações que são dominantes num dado momento:•s Há uma terceira atitude que é de disponibilidade, de radical aber-
tura, de "fé no amor'~ O amor dirige-se a todo diferente que se apresenta.
Esquece-se de si para pensar no outro. Esse outro é inspirador, questio-
8. D. Goleman, Inteligência etnocional. A teoria revolucionária que redefine o que é
ser inteligente, Rio de Janeiro, Objetiva, 32 1995, pp. 305-310. nador, mobilizador, desinstalador. Evidentemente tal atitude, cultivada

84 85
PARTE 1. ATITUDES l'UNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECIUAL

ao longo da vida, conserva a pessoa numa situação de crescimento. É


mais fácil na idade jovem. É heroica e maravilhosa na idade adulta e
r
j.

i- 2. Modo:
a. Reúne-se todo o grupo nu1n círculo. Cada un1 tenha seu
5.ABEIUL"lt.-\

avançada. São pessoas fascinantes, que rompem a monotonia da existên- caderno de apontamentos.
cia com sua grandeza espiritual. Por isso, também diante dos aconteci- b. Num pritneiro 1nomento, quem tiver algo a dizer, na hora
mentos, da história, das experiências diferentes, estão se1npre à escuta, à indicada pelo coordenador, exponha suas ideias sobre o tema
espera de algum sinal maior9 • proposto. Os outros participantes anotem no caderno as
observações que julgarem interessantes. Depois de certo
tempo, divide-se o grande grupo em dois grupos.
c. Cada subgrupo continua a discussão. Então mais pessoas tên1
Conclusão condições de participar, sugerindo ideias. Anotem-se as que
interessam. Depois de outro tempo, subdivide-se de novo o
Parece simples estar e ser aberto. Mas não. Implica uma harmonia grupo em mais dois grupos. Cada vez o grupo fica menor e
de personalidade, em que a inteligência, a afetividade e a dimensão es- possibilita maior participação de todos, maior aprofunda-
piritual da pessoa estejam sempre em atitude de escuta, de questiona- mento do tema, menor dispersão e mais detalhan1ento na
mento, de crescimento. É, sem dúvida, atitude profundamente humana, análise.
que faz da pessoa alguém capaz de ir sempre crescendo, e, por isso, irra- d. A dinâmica pode terminar com pequeno tempo para que
cada um, em particular, estruture, complete a análise a partir
diando uma força espiritual altamente fascinante.
dos apontamentos que tomou ao longo das discussões nos
grupos.
e. À medida que o grupo se subdivide os participantes devem
Bibliografia concentrar sua atenção em ir aprofundando os temas julgados
mais importantes. Trata-se de um esforço de concentrar-se e
GOLEMAN, D., Inteligência emocional. A teoria revolucionária que redefine o que não de divagar.
é ser inteligente, Rio de Janeiro, Objetiva, 32 1995. f. É importante que os participantes tenham pequenos esque-
LYONNET, S., "Libertad cristiana y ley del espírito según San Pablo", in id., San mas em suas cabeças para irem organizando os dados surgidos
Pablo: Libertad y ley nueva, Salamanca, Sígueme, 2 1967, pp. 85-126.
nas discussões.

Teste pessoal
Dinâmica
1. Quais os maiores impedimentos que você tem para manter un1a
Problemas da juventude
atitude de abertura?
Desenrolar da dinâmica 2. Recorde atitudes de abertura ou fechamento vividas por você na
1. Finalidade: vida acadêmica em relação a professores e colegas. Tente entendê-
Detalhar, com certa rapidez e com a participação de todo o grupo, las à luz do que você estudou!
deter1ninado tema. 3. Como você distingue abertura de acomodação, de falta de con-
vicção e de firmeza da própria posição?
9. O. Müller foi exemplo desse tipo de pessoa e o que transparece de seus escritos:
O. Müller, O priniado da caridade, São Leopoldo, CECREL 1984.

86 87
r
t
f
6. Senso crítico

Nur wenige kOnnen lieben und auch noch


kritisch sein; noch weniger kritisch sein
und dennoch lieben
(Só poucos são capazes de amar e de ta1nbén1
ainda ser críticos; ainda menos os capazes de
ser críticos e entretanto a1nar).
F. LENNARTZ

Introdução
princípio fundamental do cristianismo é a caridade. A caridade é
O uma realidade que deve ser vivida segundo nossa natureza hun1ana)
ainda que na força da graça divina. A graça não supre nem suprime a
natureza.
Ora, pertence à nossa natureza a dimensão de racionalidade. Por sua
vez, a racionalidade moderna se descobre crítica, isto é, capaz de voltar-
se sobre si mesma e descobrir as razões, as motivações, os pressupostos
que a movem. O espírito crítico não aceita nenhuma asserção sem inter-
rogar-se antes por seu valor, seja sob o ponto de vista de seu conteúdo
(crítica interna), seja sob o de sua origem (crítica externa) 1 •
O senso crítico coloca-se a serviço da caridade, para que essa seja
mais lúcida. Em linguagem inaciana, charitas discreta, uma caridade dis-
cernida. Embora emocionalmente surja conflito entre a criticidade e a
caridade, contudo no nível profundo de nosso ser humano deve-se encon-
trar uma harmonia. Este é o ideal do senso crítico: serviço à caridade.

1. A. Lalande, Vocabulaire technique et critique de la philosophie, Paris, PUF, 1960,


p. 197.

89
r
6. SENSO CRITICU
PARTE 1. ATl l"UDE,', FUNDA/..!ENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL

Atitude fundamental homem percebe a interioridade de sua consciência enquanto oposta à


exterioridade do mundo. Revela-se como sujeito das significações e dos
Corno atitude funda1nental. o senso crítico quer ser um esforço para
1 valores, pelos quais compreende o mundo. Vê-se sujeito livre das an1arras
superar as primeiras impressões, o óbvio, o imediato, o visivelmente do quadro antigo, estático.
aparente, indo às raízes da realidade. Permite que se conheça1n os pres- A razão grita "independência ou morte" diante dos dog1nas, das
supostos, o jogo ideológico, os interesses escondidos nas afirmações, nas 1 imposições extrínsecas, da heteronomia. Aude sapereé o grito de ousadia
atitudes e nos comportamentos dos outros. de pensar com a própria cabeça, de fazer uso do próprio entendimento
Como "espírito no mundo", "espírito na matéria': o ser humano inicia (!.Kant). A experiência torna-se critério de conhecimento, de intelecção
sempre seu conhecimento pelos sentidos. Nihil in intellectu nisi prius in da verdade e de decisão da vontade. Desenvolve-se novo senso crítico,
sensibus, nada se faz presente na inteligência se1n que antes tenha estado baseado na inteligência, na experiência, na liberdade.
nos sentidos. Essa estrutura de nosso conhecin1ento permite os engodos. Ao mesmo tempo, desmorona o quadro do mundo antigo. No centro
Os sentidos exercem forte pressão sobre a inteligência. Quando esta estava a terra e em torno dela girava o sol. O reinado da terra foi destituído
renuncia a sua qualidade própria de intus + legere, de ler dentro, termina pelo soberano sol. O heliocentrismo não significa unicamente uma
por ser envolvida pelos sentidos, pelo imediato, pelo aparente, pelo pri- mudança de lugar e função entre os astros, mas uma profunda crise no
meiro dado. A atitude fundamental do senso crítico é partir dessa cons- coração do homem, que perde a segurança de sua localização, é chamado •
'
tatação básica de nosso conhecin1ento. Só se entende realmente "lendo a desenvolver sua capacidade crítica para reencontrar-se de novo.
dentro'~ atravessando a camada dos sentidos. Além disso, o tempo e o espaço adquirem nova qualidade. Na so-
ciedade antiga vivia-se no interior de um tempo repetitivo e de um espaço
linear ou tricêntrico. Com o desenvolvitnento do mundo n1oderno, o
Contexto sociocultural da gênese do senso crítico tempo se acelera e o espaço reticula-se, tornando-se pleno. Passa-se de
um espaço a outro com a maior rapidez.
A inteligência de todos os tempos exerceu essa função, uma vez que Com a mudança da imagem ptolomaica do mundo, o ser humano
ser inteligente é "ler dentro". Mas acontece que o senso crítico adquiriu vê desmoronar a sociedade de ordens, na qual encontrava segurança e
na idade moderna uma qualidade tão nova que pode ser considerada um ponto de referência. Vivia-se no interior da ordem em que se nascia. As
atributo da modernidade. regras, que definiam as relações entre as ordens e as pessoas, eram co-
Até antes da idade moderna, a força da tradição, garantida pela auto- nhecidas e seguidas. A sociedade de ordens espelhava-se na natureza,
ridade, era tal que a inteligência se movia praticamente dentro dela. Sua construindo assim sua matriz de intelecção. As três ordens - bellatores,
criticidade via-se circunscrita ao interior da tradição en1 que vivia. Era, oratores e laboratores (os guerreiros nobres, o clero que rezava e ostra-
por conseguinte, uma criticidade dentro da tradição, cujos limites não balhadores) - eram fortemente circunscritas pelo nascimento e pelas
rompia. Percebia falhas, incoerências, articulações 1nal tecidas dentro da regras ligadas a ele. O senso crítico era difícil de exercer-se entre as ordens.
doutrina comum. Mas não a questionava na sua totalidade, nos seus Cada um era convidado, forçado mesmo, a aceitar e resignar-se co1n a
dogmas fundamentais, nas suas verdades constitutivas. orden1 em que nascera e se encontrava.
Nasce o senso crítico moderno quando fenômenos importantes Com o surgir da sociedade moderna, as ordens são substituídas
permitem à razão autonomia tal que ela pode questionar a tradição. A pelas classes sociais, que se organizam a partir de interesses. Jntroduz-
idade moderna caracteriza-se por uma descoberta da subjetividade. O se uma mobilidade e uma possibilidade crítica a respeito dos interesses

90 91
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAi
r
1
6. SENSO CR!T!CO

em questão. Em termos 1nais exatos, surge nesse momento a ideologia realidade. Quanto mais autolucidez, tanto inais ele desenvolve o senso
como um sistema de valores e interesses de determinado grupo, defen- crítico. Menos deixa-se surpreender e enganar pelos próprios a priori.
didos, porém, como universais. Os interesses das classes sofrem um Assalta o senso crítico uma série de inimigos e entravam-lhe o exercício
processo de racionalização a fim de ser mais eficientemente assumidos muitos empecilhos.
e propostos.
A possibilidade da consciência moderna dá-se quando o presente
se torna instância crítica do passado. O tempo já não se representa a Empecilhos
modo dos mitos: o eterno retorno. Torna-se objeto da razão. E isso é
possível quando o passado deixa de ser instância determinante sobre a Falta de visão política
compreensão do presente. E este se arvora em lugar crítico do passado.
A consciência e o senso crítico não se desenvolvem quando se vive
num ambiente em que falte uma visão política da realidade social. A
visão política caracteriza-se por considerar a realidade social como
Estrutura da consciência crítica uma trama de relações criadas pelos seres humanos na sua liberdade
e na sua decisão e não como um dado inexorável, imposto pelas condições
Não se trata simplesmente de aprender esquemas a priori, técnicas
da natureza. Se sou pobre, não o sou por uma simples condição da na-
de análise crítica e aplicá-los a determinadas realidades, como seria o
tureza, isto é, por ter nascido numa família pobre, mas por causa de re-
caso de aprender um esquema de análise literária e submeter depois um
lações econômicas que se estabeleceram e se mantiveram a ponto de
texto a ele.
minha família e eu ainda sermos pobres. A consciência política é requisito
O senso crítico quer ser mais. Implica um movimento dialético de
imprescindível do senso crítico. A alienação, o descaso e o desinteresse
inserção e de distância. Busca-se inserir-se numa realidade para captar-lhe
políticos, portanto, impedem-no.
os temas, os problemas. Num segundo momento, a pessoa distancia-se
dessa realidade de maneira crítica, em forma de denúncia. Para, num ter-
Voluntarismo politico
ceiro momento, voltar à realidade com nova proposta e novo anúncio.
A inteligência não tem acesso direto e imediato a um dado da rea- Outro extremo é o voluntarismo político. Vive1nos esse fenômeno
lidade. Em geral, as apreensões imaginadas e pensadas como imediatas nas eleições do ex-presidente Fernando Collor. A falta de senso crítico
são mediatizadas por elementos ideológicos, não reflexamente conscien- fez com que as pessoas atribuíssem quase exclusivamente à vontade de
tes. Só se tem acesso a um dado mediatamente, articulando-o com um indivíduos isolados a transformação da realidade, desconhecendo as leis
significado já anteriormente possuído. O senso crítico opera tal articula- e estruturas sociais. A situação social e política de um país, quer nas suas
ção de maneira reflexa, consciente, autocontrolada. Não existe uma pura misérias, quer também nas conquistas, é vista como fruto da vontade de
objetividade do dado, nem uma pura subjetividade interpretativa dele. um sujeito, no caso a do candidato a presidente. Desconhece-se o todo
Interpreta-se o dado ao ser ele captado; capta-se o dado ao ser ele social com suas regras e forças reais, mais consistentes, poderosas e antigas
interpretado. que o indivíduo. Evidentemente, seria igualmente equivocada uma com-
O senso crítico implica também que o sujeito se faça presente a si preensão determinista e cética da realidade, como se tudo fosse regido
mesmo nesse momento de crítica, desvelando para si os pressupostos, os por leis obscuras, deterministas. O senso crítico percebe exatamente o
interesses, os elementos prévios que ele já possui quando se aproxima da jogo e o equilíbrio entre as decisões das liberdades e os limites impostos

92 93
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL 6. SENSO CRITICO

pelas estruturas já existentes. O campo das decisões esbarra com as cidade. E tal comportamento é depois transferido a outros personagens
condições sociopolíticas de possibilidade, que não são rígidas, mas tam- da vida política, social, eclesiástica, de modo que se carece de qualquer
bém não deixam espaço infinito de chances. criticidade.
É voluntarismo político pensar que a realidade social é o que quere-
mos e não a trama objetiva dos jogos sociais e políticos. Confundimos o Visão religiosa tradicional
real com nossos desejos. Os ingleses tê1n uma expressão muito signifi-
Reforça ainda mais a estrutura familiar patriarcal uma visão religiosa
cativa: wishful thinking - pensar fruto do desejável e não da
mítica, que consiste em compreender a realidade humana e histórica
realidade.
como palco da atividade de forças sobrenaturais. O ser humano não
passa, neste caso, de um figurante no drama da história. Nesse sentido,
Cosmovisão fixista
não cabe nenhum senso crítico, já que o raio de sua atuação é restrito,
Ao falar da gênese histórica do senso crítico moderno, via-se que a insignificante mesmo. Apela-se à Providência divina, à ação de Deus para
dissolução da imagem antiga do mundo lhe foi uma condição. Por con- a explicação de acontecimentos humanos, históricos e não se vai à trama
seguinte, quem ainda vive no interior de uma cosmovisão fIXista e es- das vontades e liberdades humanas.
tática do mundo dificilmente chega a desenvolver o senso crítico.
Acostuma-se a ver as realidades humanas e sociais como fruto de situa- Circulo ideológico
ções inexoráveis da natureza ou, se vive num mundo religioso envolvente,
Viver preso a um círculo ideológico impede de exercer a capacidade
da vontade de Deus. Ambos os fatores são impermeáveis ao nosso senso
crítica. O círculo ideológico consiste numa relação entre nossa ação e
crítico. Diante deles, existe somente a submissão, a aceitação resignada.
a compreensão que temos dela de tal forma que a ação reforça o que
Que crítica se pode fazer a um verão forte? Que se pode fazer se é vontade
pensamos dela e o que pensamos dela reforça a ação. Fica-se então preso
de Deus que tal aconteça? Não resta nenhum espaço para o senso crítico.
a esse círculo, sem sair. Quanto mais se age, mais se pensa daquela ma-
Quem vive dentro de tal determinismo natural ou sobrenatural carece
neira. Mais se pensa daquela maneira, mais se age assim.
de senso crítico.
Os interesses reais presentes na ação se escondem, já que se situam
Pelo contrário, uma visão evolucionista, histórica e dialética do co-
num nível inconsciente. Atuam sem que se perceba e escapam de qualquer
nhecimento, da verdade, da história, permite um senso crítico. Se tal
momento analítico-crítico. Quanto mais ideologizada é uma pessoa, isto
realidade é assim, ela poderia ser diferente. E a atividade crítica orienta-
é, quanto mais os seus interesses reais estão camuflados, menos senso
se precisamente na direção de torná-la diferente e segundo outros crité-
crítico ela tem. Quanto mais ideologizada ela é, tanto menos se sabe
rios, valores e interesses, já não mais dados e decididos por outros, mas
ideologizada. Entra, pois, num círculo vicioso sem saída2 •
queridos e procurados por nós.

Resistência à mudança
Situação familiar
Há várias posturas diante da mudança. Aqueles que têm uma cons-
Outro embaraço é a situação familiar de relações predominantes
ciência ingênua, intransitiva, facilmente ficam presos ao passado e sofrem
patriarcais. Nesse caso, as pessoas são habituadas, desde pequenas e ao
longo da vida, a ver no chefe-patriarca da família a única fonte de verdade,
2. J. B. Libanio, Forn1ação da consciência crítica. 2. Subsídios socioanalíticos, Rio de
de normas, de valores, de comportamento. Diante dele, cessa toda criti- Janeiro/Petrópolis, CRB/Vozes, 4 1985, pp. 27 ss.

94 95
PARTE 1. ATITUDES FUNDA~IENTAIS DA VOCAÇÃO INTELEC.TUAl

f 6. SENSO CRITICO

as mudanças. Submetem-se a elas quando inexoráveis, mas não as acom-


11 a. Num primeiro momento, esforçar-se por escutar, entender, entrar
panham. Isso os impede de uma consciência crítica. Esta implica um no mundo do parceiro, sem nenhuma atitude crítica prévia, enquanto
passo à frente de adaptação à mudança, de aproximação da realidade e
r possível. Deixar de lado, num primeiro instante, qualquer preconceito.
articulação com ela. Percebe-se-lhe a lógica. Tem-se a capacidade de b. Somente depois de ter compreendido o significado, o alcance, o
1 contexto, os interesses, os valores da posição do parceiro é que se toma
promover a mudança, de fazer projeções de futuros desejáveis e factíveis,
de descobrir as próprias leis da mudança. distância crítica, de confronto com este universo de significado, interesse
e valor.
c. O resultado deveria ser normalmente uma situação nova, que não
Exercícios é nem igual, sem mais, à posição do parceiro, nem tampouco à própria
posição anterior.
Ninguém nasce com senso crítico. Ele se desenvolve por meio de
exercícios ao longo da vida. Seguem-se algumas pequenas práticas que Experiência do diferente
ajudam a desenvolvê-lo.
Ajuda no desenvolvimento do senso crítico fazer experiências novas
diferentes das do universo anteriormente vivido. O diferente permite
Análises da realidade
que se levante suspeita sobre a própria posição e desencadeia então
Aprende-se a analisar criticamente exercitando-se na análise crítica. um processo crítico. A experiência de algo novo e diferente é o princípio
Para isso, é útil dispor de pequenos instrumentos de análise a ser empre- da ruptura com o anteriormente aceito como inquestionável e imutável.
gados em diferentes situações'. Obriga o sujeito a uma revisão de suas posições.
Excelente exercício de seminário é elaborar juntamente com o pro-
fessor um instrumental de análise e exercitá-lo sobre realidades concretas; Exercícios didáticos
por exemplo análise de programas de TV, de discursos políticos, de pro-
Realizar pequenos exercícios didáticos de crítica literária, quer sobre
pagandas, de slogans etc. Há excelentes instrumentais já elaborados para
o conteúdo, quer sobre a forma de um texto, desenvolve também uma
desenvolver mais o senso crítico.
leitura crítica. Supera-se un1a atitude ingênua de ir acomodando-se à
última ideia que se lê. Pessoas do último livro!
Prática do diálogo
A prática do diálogo de maneira explícita, madura e reflexa desen-
volve o senso crítico. O diálogo implica algumas atitudes prévias. Conclusão

A psicanalista Fátima Fenati, em conferência sobre o adolescente,


3. Permito-me referir três pequenos livros sobre a formação da consciência crítica
apontava o sono desproporcional, fora do tempo, como expressão de
en1 que desenvolvi alguns desses instrun1entais simples, que servem para tal exercício de fuga de si mesmo, dos próprios problemas. Em vez de enfrentá-los no
consciência crítica. Fonnaçâo da Consciência Crítica: 1. Subsídios filosófico-culturais, Pe- realismo do momento vígil, ele se entrega aos braços de Morfeu. E isso
trópolis/Rio de Janeiro, Vozes/CRB, 1978; 2. Subsídios sócio-a11alíticos, Petrópolis/Rio de
Janeiro, Vozes/CRB, 1979; 3. Subsídios psicopedagógicos, Petrópolis/Rio de Janeiro, Vozes/
vale não só do adolescente. Há outros sonos. O senso crítico é um acor-
CRB, 1979. dar dos sonos da consciência ingênua, da alienação, da irresponsabi-

96 97
PARTE 1. ATITUUES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECl UAL 6. SENSO CRITICO

Jidade imatura. Não nos traz a felicidade instintiva do animal que o sono Pré-texto
proporciona. Permite-nos, sim, viver na responsabilidade e na lucidez
É a situação sociopolítica em que se está. O sentido de um texto não
tanto as horas de alegria como as de dor, os sofrimentos e os prazeres. A
emerge sem a influência desse lugar interpretativo. Analisa-se esse lugar
vida intelectual é um contínuo estado de vigilância diante da noite im-
interpretativo, inserindo-o numa visão histórica (corte diacrônico) ou
posta de uma cultura alienante, dos slogans rápidos e repetidos, dos lu-
captando-lhe a estrutura {corte sincrónico).
gares-comuns repisados.
A vocação intelectual é ser farol aceso na noite longa de uma cultura a. Corte diacrônico
da sensação, do prazer imediato, do marketing barato, das emoções vio- Tome-se consciência do lugar sociopolítico e cultural em que se lê o
lentas, do im-pensar continuado, do rodopio frenético da informação. texto. Isso significa considerar o momento em que se está agora, em um
Vocação bonita, próxima da profética. Por isso, visitada pelo cansaço da processo histórico que afeta as esferas econômica (mundo do ter, produzir,
dor e da aparente inutilidade.Assumi-la na lucidez manifesta a descoberta distribuir), política (mundo do poder, do Estado, do governo), cultural
da responsabilidade social de quem põe seus talentos a serviço da comu- (mundo do saber, valores, ideologias, crenças). Implica, portanto, enten-
nidade, da humanidade. der a hora presente num contexto histórico maior.
b. Corte sincrônico
O corte sincrônico atende a dois aspectos: as relações estruturais no
Bibliografia tríplice universo econômico, político e cultural, e como os grupos sociais
aí se situam.Analisa-se como estão as relações estáveis e permanentes no
LIBANIO, J. B., A consciência crítica do religioso, Rio de Janeiro, CRB, 1974
momento presente na tríplice esfera econômica, política e cultural, e
LIMA VAZ, H. Cl. de, "Transcendência e religião. O desafio das 1nodernidades",
como os grupos aí se situam.
in id., Escritos de filosofia. III. Filosofia e cultura, São Paulo, Loyola, 1997,
pp. 223-253.
____ , Ontologia e história, São Paulo, Edições Loyola, 2ª ed., 2001, pp. Contexto
165ss. O termo ·contexto' significaria a mesma coisa que 'pré-texto', se se
tratasse de um evento alheio à comunidade de fé. No entanto, C. Mesters
distingue a situação sociopolítica (pré-texto) da situação da comunidade
Dinâmica de análise de um texto de fé (contexto). De novo, vale o duplo corte.
O corte diacrônico pretende situar a comunidade eclesial no desen-
Este esquema de análise foi desenvolvido por C. Mesters em vista da rolar da vida eclesial. O recuo histórico será maior ou menor, conforme
leitura de textos bíblicos nas comunidades eclesiais de base. Serve, porém, se desejar. O corte sincrônico, por sua vez, analisa como estão as estruturas
para analisar outros textos, como faremos nessa dinâmica (C. Mesters, eclesiais no momento e como os grupos aí se localizam.
Flor sem defesa: uma explicação da Bíblia a partir do povo, Petrópolis,
Vozes, 1983). Texto
Escolhe-se um texto de uma página a ser lido no início da dinâmica.
Tomemos, por exemplo, a homilia de D. Paulo Evaristo Arns, então car- Os dois passos anteriores têm urna dupla função hermenêutica. Antes
deal arcebispo de São Paulo (ver texto abaixo). de tudo, tomar consciência a partir de que situação se faz a interpretação

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PARTE 1. AT!TUDF~~ FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTFLFCfUAL fi. SENSO CRITICO

do texto. E, em segundo lugar, atentar ao fato de que a situação produz Os colegas sabem fazer desabrochar a mesma vida, desenvolvendo o
o sentido, conferindo-lhe inteligibilidade e coerência. grande dom dos mais variados talentos. A vida do colega lhes é confiada
O texto, embora seja interpretado em pré-texto e em contexto dife- na hora da maior pujança.
rentes, tem, porém, uma objetividade própria, uma densidade interna E a vida desenvolve-se toda dentro da comunidade e da sociedade,
independente e normativa. Do contrário, cair-se-á no relativismo e na em favor dela.
arbitrariedade hermenêutica. Deus nos repete a pergunta, desde as primeiras até as últimas páginas
Para captar a objetividade do texto, pode-se submetê-lo a vários tipos do Livro Sagrado: "Onde está teu irmão? A voz do sangue de teu irmão
de análise textual. Trata-se, logo de início, de situá-lo no contexto sócio- dama da terra por mim" (Gn 4,9ss).
histórico em que foi produzido, fazendo com ele o que se fez com o lugar
2. Que nos diz a Fé sobre a dignidade do Homem?
interpretativo. Se a vida é dom de Deus, a dignidade é a lembrança mais visível do
O estudo do texto deve permitir conhecer: seu conteúdo, sua estrutura
mesmo Deus.
lógica, os conceitos fundamentais usados (universo de significação), as
Jesus a conservou, mesmo desfigurado.
opções presentes (interesses prévios e subjacentes), as consequências, os
Para preservar-lhe a dignidade depois de morto, os discípulos o
efeitos e repercussões na sociedade, nos diferentes grupos e classes, e na
puderam envolver em toalhas e depositá-lo num sepulcro feito por um
própria Igreja.
Amigo.
Só Deus julga, e nós homens devemos lembrar-nos de que Ele é cioso
da dignidade que imprimiu na face do Homem.
Homilia do cardeal D. Paulo Evaristo Arns
3. Que nos diz a Fé sobre a missão de nossa vida?
Celebração eucarística de 7º dia pela morte de W. Herzog
Deus a mede pela bondade que tivermos para com nossos irmãos.
30 de março de 1973
Os homens têm sede e fome de justiça, verdade e amor.
Diante da morte só sabemos falar de vida. Durante a Missa, só que- Quem fez justiça - pergunta o Juiz Supremo-, quem cuidou que
remos falar inspirados pela Fé. a verdade fosse dita e o amor tivesse vez?
!. Que nos diz a Fé sobre a vida? Só Deus é dono da vida. D'Ele a Os homens estão muitas vezes nus, mas têm dignidade! Pergunta o
origem, e só Ele pode decidir de seu fim. Juiz: Quem se encarregou de defender-lhes a dignidade?
No entanto, para suscitar a vida e desenvolvê-la, entrega Deus ares- Os homens sofrem prisões! Quem os pôde visitar e de lá os tirou?
ponsabilidade aos homens. Ó Deus, é hora de pedir perdão. É hora de acordar para a Fé. É hora
Aos Pais - O próprio Cristo quis sentir a ternura da Mãe e o calor de sermos de novo homens.
da Família ao nascer. E mesmo depois de morto o cadáver foi devolvido Continuará a oração. Também o sacrifício. O de Cristo e o nosso.
à mãe e aos amigos e familiares. Entremos em comunhão com Ele, oferecendo, recebendo e dando,
Esta justiça lhe fez o representante do Poder romano, embora total- para sermos dignos daqueles que nos precederam na Fé.
mente alheio à Sua missão de Messias.
Os irmãos- além dos pais- costumam ser chamados para proteger
e desenvolver a vida e se tornam corresponsáveis por ela até a morte e
para além da morte.

100 101
7. Responsabilidade na vida intelectual

A responsabilidade é uma função do poder e do saber


HANS JONAS

Dupla fidelidade em tensão


na responsabilidade do intelectual

Nada melhor para apontar a responsabilidade do intelectual que se


defronta com dois mundos em tensão - fidelidade à verdade científica
e fidelidade a sua consciência ética-do que citar um trecho da tragédia
Antígona, de Sófocles. Ela é a expressão do conflito de Antígona diante
da lei do Estado significada pela proibição de sepultar seu irmão em
Tebas por ordem do tio Cleonte e diante de seu dever natural religioso
de fazê-lo.
O intelectual não raras vezes se debate com aquilo que ele julga ser
a verdade de suas pesquisas, ou o consenso de seus pares, e a percepção
de que ela pode, em dado momento, ferir a verdade interna de si mesmo
ou de outras pessoas com mal imprevisível. Quantos intelectuais, para
ser considerados tais, devem rejeitar a religião de sua infância, o Deus de
sua fé, já que reina no seu mundo intelectual o agnosticismo, se não o
ateísmo! Do contrário, nen1 seriam considerados. A comunidade acadê-
mica é o Estado de Tebas! O intelectual na sua solidão crente é Antígona
e sua ir1nã Ismene. Ismene cede. Antígona prefere a morte.

103
PARTE 1. ATITUDES FUNDA~IENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECI UAL
7. RE5PONSAl:llLIDADE NA VIDA INTELECTUAL

Apesar de toda a grandeza da vida intelectual, simbolizada na tragédia


de Antígona pela força conquistadora e domadora do ser humano, este e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
pode ser mau. Está aí a chave da responsabilidade da vida intelectual'.
em vão por um socorro, embora saiba
Vejamos a força do texto de Sófocles.
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de esperar,
Maravilha do ser humano e na argúcia, que o desvia às vezes
«Há muitas maravilhas, mas nenhuma para a maldade, às vezes para o bem,
é tão maravilhosa quanto o homem. se é reverente às leis de sua terra
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho, e segue sempre os rumos da justiça
impulsionado pelo vento sul jurada pelos deuses ele eleva
tempestuoso, indiferente às vagas à máxima grandeza a sua pátria.
enormes na iminência de abismá-lo; Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
deusa suprema, abrindo-a com o arado adere temerariamente ao mal;
em sua ida e volta, ano após ano, jamais quem age assim seja acolhido
auxiliado pela espécie equina. em minha casa e pense igual a mim!" 2
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares Fundamento da responsabilidade
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e arte inesgotáveis. Responsabilidade vincula-se necessariamente a liberdade. Só se é
Com suas armadilhas ele prende responsável por aquilo a que se é obrigado a responder, de que se deve
a besta agreste nos caminhos íngremes; prestar conta. Só respondemos pelos atos que, de alguma maneira, de-
e doma o potro de abundante crina, pendem de nós, enquanto seres humanos. E o que constitui a humanidade
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo de nossos atos é a racionalidade livre.
que amansa o fero touro das montanhas. Onde regem as leis indômitas da natureza, não há liberdade, nem
Soube aprender sozinho a usar a fala
responsabilidade humana. Os animais não são responsáveis por nenhu-
e o pensamento mais veloz que o vento
ma brutalidade que fazem. Os cataclismos da natureza não são respon-
e as leis que disciplinam as cidades,
sabilizáveis. Os monstros agem sem merecer punição. A responsabilidade
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto, inicia-se com a cultura, com a cidade, com as relações para além da pura
e das adversas chuvas fustigantes; natureza, no mundo inter-humano.
ocorrem-lhe recursos para tudo A natureza do ato humano, enquanto tal, tem um fim, ora explici-
tamente estabelecido, ora escondido na trama da existência. No entanto,
1. Este belíssimo texto de Sófocles serve de frontispício da clássica obra de Hans
Jonas so~r~? P~incípio-responsabilidadc. H. Jonas, Le Principe responsabilité. Une éthique 2. Sófocles, A trilogia tebana: Édipo Rei, Édipo e1n Co/0110, Antígona, trad. M. da
pour la C1vil1sat1011 technologique, Paris, Cerf, 1993, pp. 18 s. Ga111a Kury, Rio de Janeiro, Zahar, 1990, vers. 385-427, pp. 210 s.

104 105
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAL 7. RESPONSABIUDADE NA VIDA !NTELECLLA.I

c~racte.riza-lhe o caráter humano a adscrição de um fim. Eo fim, 0 obje-


tivo, a mtenção final se movem pela posição de um valor. Quase tauto-
Responsabilidade do teólogo
logicamente, o valor é un1 fim digno de ser almejado pelo ser humano, "O teólogo, não esquecendo jamais que também ele é membro do povo
com~empenho) sem reserva e sem ulterior motivação além de si mesmo. de Deus, deve nutrir-lhe respeito, e esforçar-se por dispensar-lhe um en-
. E esta n~tureza finalística do ser humano que o faz responsável em sinamento que não venha a lesar, de modo algum, a doutrina da fé4 •
virtude da liberdade e da decisão no prosseguimento de seus objetivos.
A bondade ou perversidade desse fim qualifica a natureza boa ou má da
Somos todos habitantes do mesmo cosmos. A comunhão cósmica
ação humana e daí a qualidade de sua responsabilidade.
fundamenta novas responsabilidades. Hoje as pessoas tornam-se cada
Tanto a filosofia como a teologia debruçam-se sobre a natureza social
vez mais sensíveis a esse novo tipo de compromisso responsável, sobre-
do ser humano. A convivialidade é um transcendental, isto é, urna reali-
tudo por parte da classe pensante.
dade incutida bem fundo no nosso interior pela força criativa de Deus
Numa palavra, somos responsáveis por causa de nossa condição de
Trino, Deus-comunidade, Deus-relações. Sua realização se faz nas relações
seres humanos, livres e conscientes. Nascemos para dentro de relações
concretas, históricas com as pessoas. Saint-Exupéry disse que somos
interpessoais e societárias. Na fé, fornos chamados a participar da criação
responsáveis por aqueles que cativamos. Podemos avançar sobre sua
de Deus e ser comunidade. Enfim, vivemos numa imensa sinfonia cós-
afirmação. Somos responsáveis por todas as pessoas com que entramos
mica, da qual somos urna nota responsável. ,,
e1n contato. A nossa natureza social leva-nos a responder pela maneira ,,
O que nos abriu o espaço da responsabilidade foi a clareza da nossa
que a realizamos historicamente.
consciência, que nos separou do simples mundo da natureza, onde
Se ava~1~amos ainda mais para o estrito campo da fé, emerge maior
regem as leis deterministas. Quanto mais ampla se torna nossa cons-
responsab1hdade. O relato da criação apresentado no Livro do Gênesis e
ciência pessoal, interpessoal, societária, religiosa, crente) eclesial, cósrnica,
depois cristologicamente retomado por São Paulo na Epístola aos Romanos
tanto maior se impõe a responsabilidade.
revela-nos nossa natureza de solidariedade no pecado e na graça. Cada um :
é mediação de graça e pecado para o outro segundo as possibilidades e
concret~des _históricas de sua vida. O intelectual a viverá no seu campo.
Novidade moderna no espaço da responsabilidade
A pr1n:~1ra geração de cristãos percebeu ainda outro novo tipo de
responsab1hdade que os seguidores de Jesus assumirão. Segue-se a Jesus Nesse nível abstrato de reflexão, os campos da natureza e da história, do
numa cm_rrnnidade ~e fé. Todos se responsabilizam mutuamente para destino e da decisão, do determinismo e da liberdade pareciam claros. Tudo
prosseguir sua caminhada na história como Igreja. É a responsabilidade
o que se processava no mundo da natureza escapava da responsabilidade
eclesial do intelectual. Como o teólogo é considerado por excelência 0
humana. Tudo o que constituía a história era seu espaço de decisão.
intelectual no seio da Igreja, sua responsabilidade é maior. Mereceu re- Tal situação parecia-nos bem definida, porque desconhecíamos
centem~nte um documento, não desprovido de preocupação, por parte
muitos do que julgávamos caprichos da natureza ou, se os conhecíamos,
do Magistério ordinário da Igreja, insistindo quase unilateralmente na
não tínhamos nenhum poder de controle sobre eles. Além disso, igno-
sua relação com a doutrina objetiva da fé'.
rávamos a imbricação profunda entre nossas ações humanas, históricas

3. Congregação para a Doutrina da Pé, l11strução sobre a vocação eclesial do teólogo


São Paulo, Paulinas, 1990. ' 4. Id., ibid., n. 11.

106 107
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTl:LECIUAL 7. RESPONSABILIDADE NA VIDA INT!:.LELIUAL

e suas repercussões sobre a natureza. E esta nos revidava de maneira Responsabilidade diante de si
contundente sem que nos julgássemos responsáveis por tal. O intelectual é um sujeito no duplo sentido da palavra. Ele sustenta,
O desconhecimento das ciências, a incapacidade de controle das roduz, faz suas atividades. Mas também se submete à objetividade de
forças da natureza, uma concepção restrita da dinâmica da história im- ~uas ações. Carrega-as. É sujeito ativo e passivo. Produz e submete-se.
pediam que se percebesse o alcance de muitos atos presentes. A respon- Sob este duplo sentido, é responsável.
sabilidade se restringia ao curto espaço de tempo do presente das Enquanto sujeito ativo, o intelectual se configura, se estrutura como
pessoas. pessoa, se constrói a si mesmo por suas atividades intelectuais. Elas são
O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a percepção do di- a argamassa de seu eu histórico. Há algo tão importante quanto a cons-
namismo da história revolucionaram o mundo da responsabilidade, trução de si mesmo? Nossa responsabilidade nesse processo é enorme.
sobretudo a do intelectual. Ele já não se situa inocentemente diante de Somos aquilo que vamos fazendo de nós mesmos. E isso afetará todas
criações e aplicações científico-tecnológicas, cujos efeitos nefastos para as outras realidades com as quais nos relacionamos. Nesse sentido de
gerações futuras são previsíveis. Já não lhe é permitido permanecer in- autoconstrução por meio da atividade intelectual, somos altamente
diferente, ausente, omisso diante de fenômenos da natureza perversos responsáveis pelo que fazemos de nós mesmos. Imaginemos a terrível
para o ser humano, cujo controle já é possível. subjetividade que os arquitetos, os engenheiros, os químicos, os policiais
A responsabilidade do intelectual - no caso do exemplo citado, do foram construindo ao se empenharem na produção dos conhecimentos
cientista - ampliou-se muito na modernidade. Vale tal reflexão de co- necessários para a criação dos campos de concentração! Que personali-
nhecimentos da psicologia, da sociologia etc., que interferem para bem dade se constrói alguém cuja atividade intelectual é dedicada a gerar
ou para mal na construção do futuro. Quanto maior for nossa possibi- conhecimentos para a morte, pesquisando bombas napalm, armando
lidade de conhecimento da realidade e de controle sobre ela, tanto bombas atômicas, elaborando saberes de morte?
maior nossa responsabilidade. O sujeito é responsável ante sua consciência pelos critérios éticos
O intelectual é responsável pelo tipo de conhecimento que produz, que o regem na sua atividade intelectual. Nunca poderão, corno o nazista
que deve ter, cujos efeitos pode controlar. E não lhe é lícito entregá-los à Eichmann, delegar a outro, mesmo que seja o comandante superior, a
inércia do destino nem ao fluir imemorial da natureza5 • responsabilidade de sua atividade intelectual. Ninguém isenta o inte-
lectual da autorresponsabilidade.
Numa palavra, a atividade intelectual pode ser urna realização de
Alcance da responsabilidade: diante de quem humanidade ou de desumanidade do sujeito que a pratica. Somos o que
fazemos, criamos, produzimos. As ações hutnanas não se desvinculam
Responsabilidade é responder por alguma coisa diante de alguém, totalmente de seu ser. Não só vale o que dizia a Escolástica, agere sequitur
em relação a alguém. O intelectual responde por sua atividade intelectual. esse, "o agir segue o ser", como também esse sequitur agere, "o ser segue
Diante de quem? Em relação a quem? o agir".
Frequentemente no campo cristão a obediência ao superior serviu
de desresponsabilização da ação do sujeito. Ele procedia como se o único
responsável de seu ato fosse o superior. Algo absolutamente falso. Nin-
5. Para aprofundar o tema da responsabilidade do cientista, ver a monun1ental obra
de E. Cantore Scientific Man. The Hun1anistic Significance of Science, New York, ISH Pu-
guém desresponsabiliza outra pessoa de seu próprio ato. O último
blications, 1977. critério de moralidade, e, portanto, de responsabilidade é a própria cons-

108 109
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAL

J 7. RESPONSABILIDADE NA \'!DA INTELECfUAL

J
ciência. O superior responderá diante da sua consciência pelo ato da sua Responsabilidade em relação aos outros
ordem. O súdito pelo ato da sua obediência. O conteúdo de ambos os f Nossa atividade intelectual constrói também os outros. Conhecer
atos caem sob o juízo crítico da ética e do Evangelho. não é simplesmente receber uma informação, n1as ser transformado por
O corpo é o de que se alimenta. Somos o que lemos, somos o que
ela. Produzir e transmitir informações é formar pessoas. Pois as pessoas
escrevemos, somos o que pesquisamos, somos o que ensinamos. Nessa
são movidas em suas ações pelo que conhecem. Nihil volitum, nisi prae-
perspectiva, a responsabilidade da vida intelectual recebe nova luz e se
cognitum, ((Nada é querido se1n antes ter sido conhecido". Fornecer co-
torna mais séria e pesada de consequências.
Tanto mais grave se torna tal responsabilidade quanto mais fatores nhecimento é municiar as pessoas para a ação. É influenciar seu agir. E
extrínsecos à atividade científica a influenciam. Cada vez mais a ciência se isso vale muito mais ainda do professor. Molda a argila mole de seus
torna dependente de escolhas, de decisões a partir de valores individuais, alunos para o bem ou para o mal. Toda relação humana é pedagógica,
sociais, culturais dos países nos quais se pesquisa. E, como a atividade in- constrói algo nos outros. O problema é precisamente este "algo''. Que
telectual tem seu custo econômico, ela se torna muito dependente dos construímos nos outros com nossa atividade intelectual? Responder a
financiamentos. Estes, não raramente, condicionam ou direcionam as esta pergunta é assumir a responsabilidade de intelectual.
pesquisas por uma trilha irresponsável. O intelectual se torna responsável A relação com o outro se processa no nível interpessoal e societário.
diante da própria consciência pelos perversos efeitos previsíveis de O alcance interpessoal acontece no referente aos indivíduos com os quais
projetos encomendados por instituições financeiras que lhe pagam a o intelectual estabelece contato, seja1n alunos, sejan1 outros no correr de
pesquisa6 • O conflito ético nesse campo assume extrema gravidade. E exige,
sua atividade intelectual. Muitas pessoas são atingidas em sua singulari-
em certos momentos, muito heroísmo por parte do intelectual que se nega
dade por aulas, leituras, palestras, aconselhamentos desenvolvidos pelo
a pesquisar e a colaborar em programas científicos cujos efeitos percebe
serem eticamente inaceitáveis. O campo da genética é hoje um dos mais intelectual. Às vezes, recebe-se algum retorno desse tipo de presença. Mas
graves, sem falar das pesquisas na área do armamento mortífero. ela vai muito alétn do que se pode imaginar. De novo, para o bem ou
Há um paradoxo no ser humano de querer saber tudo e não lhe ser para o mal.
permitido sabê-lo, nem dever procurar sabê-lo. Isso parece contradizer É conhecida a crise pela qual passam muitos estudantes ao defrontar-
profundamente a racionalidade moderna. Vejamos um exemplo. Tem-se se com professores que lhes destroem as seguranças religiosas, éticas e/
curiosidade de conhecer certas reações do corpo ou da psique humana ou psicológicas. Nem sempre o intelectual se coloca seriamente a questão
diante de determinadas medicinas ou situações psíquicas. Não é lícito da responsabilidade do que escreve, leciona, fala, inisturando hipóteses
eticamente responder a essas perguntas violando a dignidade da pessoa com certezas, opiniões pessoais frágeis com tradições de maior peso. Não
humana. Os nazistas avançaram muito na medicina à custa de experi- é raro ouvir quem com uma meia frase sepulta um gênio, como Santo
mentos feitos com judeus. Eles tinham o direito de ter as perguntas que
Tomás, sob a campa de «superado".
quisessem. O ser humano é um ser curioso. Mas não tinha1n o direito de
Além do círculo menor das relações, muitos intelectuais atingem
respondê-las, pelo menos enquanto as suas respostas implicassem violação
dos direitos humanos. E há perguntas que nunca poderão ser respondidas horizontes mais vastos. Sua repercussão é histórica, social. O espaço de
porque para tal se teria de usar procedimentos eticamente condenáveis. sua influência dilata-se. Quanto mais genial é um intelectual, tanto
Numa palavra, nem tudo o que perguntamos podemos responder. maior peso de responsabilidade carrega.
Hoje esta responsabilidade se vê acrescida por causa das maiores
possibilidades de influência dos ensinamentos. A globalização cultural,
6. D. Lambert, Sciences et thélogie. Les figures d'un dialogue, Bruxelas/Namur, Lessius/
Presses Universitaires, 1999, pp. 103-106; pp. 120-125 [trad. br.: Ciências e teologia. Figuras
alimentada pela tecnologia da comunicação, faz circular por todo o
de um diálogo, São Paulo, Loyola, 2001 ]. mundo aquilo que um cientista faz ou diz no seu cubículo. Não se pode

110 111
PARTE!. ATITUDES FUNllt\MENT1\IS DA VOCAÇÃO INTEI ECfUAL 7. RE51'0NSABIL1DADE NA VIDA INTFJ_H:TUAl

ser mais ingênuo e desconhecer o alcance global, mundial de ações, es-


cada enunciado e que ensaia traduzir a verdade da subjetividade ... A cada
pecialmente de pessoas reno1nadas, cuja audiência está garantida.
uma delas correspondem dois estados. O primeiro, também chamado de
prosaico, no qual nos esforçamos por perceber, raciocinar, e que é o estado
Responsabilidade em relação ao cosmo que cobre uma grande parte de nossa vida cotidiana. O segundo estado,
Ao aludir à nova consciência cósmica, apontáva1nos esse novo ca1npo que se pode justamente chamar de 'estado segundo', é o estado poético."7
de responsabilidade, de modo especial para o intelectual. Num universo
cultural em que cada vez mais o objeto desaloja as coisas para a insigni- A responsabilidade cósmica tem se ampliado muito devido à nova
ficância, torna-se auspiciosa a reversão desse processo. O sentido das consciência do alcance de nossas incisões sobre o ambiente. Antes as
coisas emerge, apontando para o mistério que as envolve. Os objetos
percepções não ultrapassavam nem o tempo nem o lugar dos agentes.
respondem a interesses utilitários. São do mundo da técnica. As coisas
Hoje sabemos que nossas atividades destruidoras da natureza repercutirão
estão aí na sua mudez criada. Participam do mistério. Os objetos dificil- em gerações futuras e em espaços longínquos. A vulnerabilidade da na-
mente conseguem tornar-se símbolos. Antes são signos unissignificativos
tureza pela intervenção técnica do homem afeta o destino da humanidade
da finalidade do produtor. As coisas banham-se na polissemia de suas e o equilíbrio de todo o sistema ecológico. Hoje se constatam efeitos ir-
possíveis relações com os humanos.
reversíveis e efeitos cumulativos, de modo que as nossas intervenções na
Na relação com o cosmo, o intelectual desenvolve seu sentido sim- natureza não se tornam atos isolados de indivíduos, mas uma cadeia cuja
bólico, constrói a linguagem poética, ultrapassando nma racionalidade repercussão ultrapassa cada ato. E os efeitos podem assumir consequências
puramente descritiva e analítica. Nunca se tornou tão necessário o
ou absolutamente irreversíveis, ou de difícil retorno e compensação.
cultivo do simbolismo numa civilização que o tem degradado cada vez A novidade dos avanços de nossos conhecimentos serviu para
mais. Tem-no feito objeto de provocação comercial em vez de inspiração aumentar a responsabilidade de todos, especialmente das pessoas mais
poética. Há muito marketing e pouca poesia, há muita propaganda e lúcidas e conscientes, como deve ser o intelectual. Ele tem a condição
pouca estética gratuita. Estamos diante de uma responsabilidade cultural de ver mais longe. E, por isso, faz-se responsável por tal percepção.
de preservar o universo simbólico. Cabe ao intelectual consciente dessa Um exemplo dessa nova consciência espelha-se na Carta da Terra.
vocação assumi-la e não se deixar fascinar pela tecnociência. Os grandes Busca-se superar uma mera consciência ecológica centrada no ser hu-
cientistas souberam apreciar a beleza das suas pesquisas e não se permi- mano. A conservação do planeta Terra já não se pensa unicamente en1
tiram prender-se a aspectos puramente funcionais e de finalidades ime- benefício do ser humano, mas em vista de uma harmonia maior de todo
diatistas tecnológicas.
o sistema ecológico.

A dupla linguagem
"O ser humano produz duas linguagens a partir de sua língua: uma, racio-
nal, empírica, prática, técnica; outra, simbólica, mítica, mágica. A primeira
tende a precisar, denotar, definir, apoia-se sobre a lógica e ensaia objetivar
o que ela mesma expressa. A segunda utiliza mais a conotação, a analogia,
a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, 7. E. Morin, A1nor, poesia, sabedoria, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1998,
pp. 35 s.

112 113
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO l~TELECTUAL 7. RESPONSABILIDADE NA vrnA INTELECfUAL

jetivo. Ela tem seus critérios de verificação que, uma vez conhecidos,
Carta da Terra devem ser aplicados.
Preâmbulo Há todo um esforço teórico para mostrar que a prática científica, a
partir de sua própria estrutura interna, implica valor, ética. Portanto, res-
"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época
em que a humanidade deve escolher seu futuro. À medida que o mundo ponsabilidade. A dimensão de valor é intrínseca à práxis científica tanto
se torna cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo porque tem a ver com o saber e o conhecimento verdadeiro como porque
tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, temos é um ato do cientista. Ela é uma práxis humana e como tal visa à huma-
de reconhecer que no meio da uma magnífica diversidade de culturas e nização. Pertence à tradição socrática «a consciência de que a exigência
formas de vida somos uma família humana e uma comunidade terrestre ética está intrinsecamente presente no projeto da razão científica e que a
com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade neutralidade ética da ciência sofre de uma insuperável contradição" 8 •
sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos Tanto é mais importante a responsabilidade da atividade intelectual
universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este quanto mais se muda a concepção de ciência, de natureza, de verdade.
propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa Em vez do "logos contemplativo da ciência antiga", daquela sua atitude
responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da gratuita, entra o« logos construtivo da ciência moderna" e "a techne como
vida, e com as futuras gerações''. dimensão estrutural do logos da ciência"'.

Responsabilidade diante da verdade


O saber moderno
Aqui vale o dito de Aristóteles: Amicus Plato, sed magis amica veritas, "Não é mais o mundo das essências inteligíveis em si, a cuja ordem universal
"Platão é amigo, mas mais amiga ainda é a verdade)). Estão em jogo a e eterna o homem deve submeter-se, que se propõe à contemplação do
verdade e não outros interesses menores. O intelectual é, antes de tudo, Sábio. O inteligível passa a ser construído, de alguma sorte, pela própria
responsável pela verdade objetiva que pesquisa, que estuda, que ela- ciência e a sua verdade é uma verdade verificável segundo os procedimentos
bora, dentro dos limites de sua consciência possível. Há uma necessária experimentais e hipotético-dedutivos que constituem a estrutura empírico-
subjetividade em toda verdade humana, fruto da interpretação situada formal da ciência:' 10
de quem a formula. Diferente é a submissão do processo cognitivo a
interesses alheios, ideológicos, econômicos, políticos e até mesmo
Segue-se daí uma autonomia da ciência diante de instâncias éticas.
religiosos.
A maneira veraz, honesta de situar-se diante da objetividade da ver- Esse advogar uma neutralidade da ciência, com a consequente des-
dade é declarar, denotar todos os elementos subjetivos que o cientista responsabilização do cientista pelos efeitos de seu conteúdo, remonta a
percebe em si e que podem limitar e condicionar a objetividade da verdade. Hume e a pensadores modernos. Os efeitos terríveis desse corte entre
Tratamos longamente deste tema ao falar da honestidade intelectual. o ser da ciência e o dever-ser de quem a pratica se fazem sentir nos
Nenhuma instância externa à verdade justifica agir contra a obje-
tividade do processo de sua elaboração dentro das regras do respectivo _ 8. Ver o capítulo V: "Ética e ciência'~ in H. C. de Lima Vaz, Escritos de Filosofia, II.
Etica e Cultura, São Paulo, Loyola, 1988, pp. 181-224, aqui p. 187.
saber. A verdade não se conhece de maneira aventureira ou arbitrária, 9. Id., ibid., p. 196.
mas segue os cânones do procedimento do conhecimento humano ob- 10. Id., ibid.

114 115
PARIE [. ATIJ'UDES FUNDA~\ENTAIS DA VOCAÇ,\O INTELECTUAL 7. RESPONSAIJIL!DADE NA V[!)A !NTELECJ'UAL

monstros que a ciência e a tecnologia modernas criaram a ponto de lidade diante de Deus com as outras relações. Numa correta compreensão
ameaçar a sobrevivência de toda a humanidade. Se a ciência na tradição teológica, a relação com Deus não é un1a a mais e separada das outras
clássica socrática era considerada fonte de verdade, era-o também de relações - consigo, com os outros, com a verdade, com o cosmo. Ela
bem, de virtude. Verum et bonum convertuntur, ((o verdadeiro e o bom se informa todas essas relações, dando-lhes um caráter próprio. Distingue-
converte1n mutuamente'', segundo o axioma escolástico. se das outras relações, mas não existe à parte.
O compromisso com a verdade e com o bem, e, portanto, com a Ao assumir a responsabilidade da vocação intelectual diante de
virtude, pertence à própria estrutura da prática científica. Vale natu- Deus, a pessoa dá um sentido diferente e novo a seu trabalho. Nessa
ralmente de toda prática intelectual. A vocação intelectual é profunda- vocação se realiza seu caminho de salvação como dom de si. A visão de
mente ética em vista e em busca da verdade e do bem numa liberdade fé fortalece-lhe a motivação. Abre-lhe um horizonte mais amplo, inse-
diante de instâncias que procuram tirar proveito dos conhecimentos rindo-o no projeto salvífico de Deus. A pessoa reconhece no seu próprio
científicos independentemente de qualquer ética e valor. Por conseguinte, agir a presença atuante de Deus. Surge então uma pergunta: até onde
de modo irresponsável. devo empenhar-me na atividade intelectual, se, em última análise, a força
Há casos dramáticos de cientistas, filósofos ou teólogos que pagaram de todo bem vem de Deus? Onde minha responsabilidade e a de Deus?
com sua vida a responsabilidade diante da verdade, não cedendo à pressão
violenta das instâncias de controle. Alguns se tornaram célebres, como
Giordano Bruno (1548-1600), que terminou queimado numa fogueira. Equilíbrio entre empenho pessoal e graça de Deus
Recentemente o escritor indiano-britânico S. Rushdie foi condenado à
A teologia defrontou-se permanentemente com esse problema da
morte em 1989 pelo aiatolá Khomeini por ter escrito Versos satânicos, e
graça de Deus e da liberdade humana, da ação de Deus e do empenho
por isso vive desde então na clandestinidade.
humano. Tensão que atravessa toda a história do cristianismo nas suas
mais diversas figuras. A teologia da libertação a viveu de maneira dra-
Responsabilidade diante da fé mática no jogo da libertação política, da militância e da experiência
No momento em que o intelectual reconhece ter sua vocação, em mística, da gratuidade.
última instância, uma origem em Deus e a assume como missão, interfere Falsos são os dois extremos, que foram condenados como heresia.
mais uma realidade diante da qual deve responder. É o último e mais Atribuir somente à ação humana o seu atuar, reduzindo a intervenção
profundo nível de responsabilidade. Se todas as instâncias humanas de Deus a simples maneira religiosa de projetar a própria realidade. Aqui
caducarem ou falharem na sua cobrança e exigência de responsabilidade) temos Pelágio, L. Feuerbach. K. Marx, F. Nietzsche, S. Freud etc. O ateís-
permanece sempre Deus como pedra inabalável, rochedo firme. mo situa-se precisamente nesse polo. A ação de Deus é ilusão. Tudo vem
A respeito da vocação intelectual vale a parábola dos talentos, de jesus. do ser humano.
Não se trata de tomá-la ao pé da letra no sentido quantitativo, como se O outro lado insiste de tal modo na ação de Deus que destrói ou
a vocação intelectual fosse um talento maior ou menor que outros. É reduz demasiadamente a liberdade humana. Desaparece a responsabili-
questão de responsabilidade diante de Deus pelo tipo de talento que se dade do ser humano. Sem liberdade, não há humanidade. É o determi-
recebeu. Seja o talento que for, não pode ser enterrado (Mt 25,14-30). nismo da graça.
A vocação intelectual é um talento importante, que presta serviço Atribui-se a Santo Inácio de Loyola um adágio que busca na prática
aos outros. A perspectiva cristã relaciona necessariamente a responsabi- um equilíbrio entre esses dois polos. Explicando-o talvez tenhamos um

116 117
7. RESPONSAillL!DADE NA VIDA INTEI ECrlJAL
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO !NTELECTUAL

bom caminho para manter a responsabilidade do intelectual, sem des- É a partir dela que se farão aqui os comentários. Antes de tudo, esse
conhecer a ação de Deus em nossas vidas. axioma reflete a prática político-espiritual de Santo Inácio, segundo
Há uma discussão sobre a melhor versão da frase, que, embora não testemunhas confidenciais, como Ribadaneira e Borja. Ele empregava
se encontre literalmente em nenhum texto inaciano, reflete, no entanto, todos os meios humanos honestos, atendendo com todo cuidado e efi-
seu espírito. Não se entrará nessa questão, que não tem maior importância cácia possíveis, con10 se o êxito dependesse deles; da mesma maneira,
para esse texto. Todas elas conservam o sentido primigênio, embora de confiava em Deus e abandonava-se à sua divina Providência, como se
formas diferentes. todos os meios humanos, de que se servia, fossem de nenhum efeito.
Sigo aqui a versão transmitida por Hevenesi, no livro Scintillae Igna- A intuição fundamental consiste em que o esforço humano, sua
tianae (Viena, 1705) e reproduzida em Thesaurus spiritualis Societatis engenhosidade, sua sagacidade, sua eficácia não devem arrefecer, como
Jesu (Roma, Poliglota do Vaticano, 1948). se Deus os pudesse suprir. Aí está o auge da responsabilidade. Não é
u1na responsabilidade prometeica, baseada no sucesso causado pelo ser
humano. Quando se está no auge do esforço humano, vira-se o prato
Regra inaciana primeva da balança: a pessoa abandona-se, então, a Deus como se tudo aquilo
Haec prima sit agendorum regula: sic Deo fide, quasi rerum sucessus omnis que ela fez fosse nada. Tudo depende dele. Mas é um tudo que só é con-
a te, nihil a Deo penderet; ita tamen iis operam omnem admove, quasi tu fiança e não tentar a Deus, depois de que todo o empenho humano foi
nihil, Deus omnia solus sitfacturus, «Eis a primeira regra para agir: deposita feito. Aí está a experiência espiritual, mística. Venha o que vier depois
toda tua confiança em Deus, como se todo o êxito dependesse de ti e não que fizermos tudo de nossa parte. Essa experiência da confiança em Deus
de Deus; e põe tudo em prática como se Deus tudo fizesse, e tu nada". deve permanecer todo o tempo da ação humana.
O impulso inicial e final é sempre a confiança em Deus. No meio, está
nosso empenho, o mais ativo, claro, clarividente, esforçado. Porque con-
Esta fórmula parece, à primeira vista, contraditória. Por isso, foi cor-
fiamos em Deus, en1penhamo-nos. E no empenho mantemos a confiança
rigida em edições seguintes num sentido mais imediato, direto, claro.
em Deus. Antes da ação, na ação e depois da ação, a confiança em Deus.
Nunca sem a ação. E esta usa toda a racionalidade possível. Aí está o segredo
Regra inaciana corrigida místico inaciano 12 • Este axioma reforça a experiência mística da ação, sem
tirar-lhe todo o trabalho humano do conhecimento, da estratégia.
«Eis a primeira regra para agir: deposita tua confiança em Deus, como se
todo o êxito do trabalho não dependesse de ti, mas apenas de Deus; aplica-
te todo inteiro à tua obra, como se Deus não devesse fazer coisa alguma,
Conclusão
mas tu devesses tudo fazer sozinho" (J. de Lapparent).
Aceitar e assumir a vocação intelectual significa empenhar-se res-
Apesar de a segunda versão parecer mais lógica, estudo profundo de ponsavelmente na construção de si, dos irmãos, da sociedade, de um
G. Fessard moveu os intérpretes a manterem a versão primeira, em que relacionamento novo e diferente com o cosmo e sobretudo realizar a
aparece talvez melhor o paradoxo do pensamento inaciano 11 •
12. Para ulteriores reflexões: J. Stierli, Buscar a Deus etn todas as coisas. Vida no convívio
11. G. Fessard, La Dialectique des Exercices Spirituels de Saint lgnnce de Loyoln, 1. Ten1ps, do inundo e oraçao inaciana, São Paulo, 1990, pp. 152-155; L. Beinaert, Aux frontii!res de
l'acte analytique. Ln Bible, saint lgnace, Freud et Lacan, Paris, Seuil, 1987, pp. 219-227.
liberté, grâce, Paris, Aubier, 1956, pp. 305-363.

119
118
7. RFSPONSAB!UDADE NA VIDA INTELECTUAL
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO !NTELECfUAL

3. Depois cada um vai, na sua vez, pegando uma das fichas, lendo-a
vocação de fé. De todos esses lados, impõe-se uma atividade responsável.
e comentando-a. Repita-se tal gesto até terminar o tempo previsto
E tanto maior quanto mais clarividência se tem. E buscar tal clareza de
para a dinâmica.
mente é próprio do intelectual, chamado, pois, a conjugar, não sem so-
4. O professor, atento, intervirá quando lhe parecer necessário.
frimento, uma percepção mais ampla da realidade, das ações humanas e
uma responsabilidade em assumir as que conduzem a um fim digno da
sua vocação humana. E, se alguém é uma pessoa de fé, é dentro dela que
realiza sua missão de intelectual.

Bibliografia

CANTORE, E., Scientific Man. The Humanistic Significance of Scíence, New York,
lSH Publications, l 977.
JONAS, H., Le Principe responsabilité. Une éthique pour la civilisation technologique,
Paris, Cerf, l 993
LIMA VAZ, H. C. de, "Ética e ciência'', in id., Escritos de Filosofia, II. Ética e Cultura,
São Paulo, Loyola, 1988, pp. 181-224.

Dinâmica
Responsabilidade
!. Cada aluno tome uma ficha. Nela responda brevemente as se-
guintes perguntas:
a. Que interesses ideológicos, religiosos e nacionalistas podem
ameaçar a responsabilidade do pensador? Indique um de cada
tipo.
b. Que fatores na atualidade tornam mais séria a responsabili-
dade do pensador? Indique três.
c. Que efeitos negativos a irresponsabilidade do pensador pode
causar: para si, para outros, para o cosmo, para a fé? Escolha
dois desses campos e responda.
2. Num segundo momento, todos os alunos reunidos em círculo
joguem sua ficha no chão.

121
120
8. Aprendizagem, assimilação e originalidade

Tem 1naior cuidado em aprender do que en1 ensinar.


Aprende longamente, ensina tardia1nente,
e somente o que te parecer seguro.
Quanto a escrever, não sejas den1asiado apressado!
PEDRO ABELARDO

Introdução

vida intelectual participa da tensão inerente à vida humana. Vi-


A vemos sempre entre dois polos, em busca do ponto terceiro de
equilíbrio. Essa é a aventura humana. Entre céu e inferno, somos na terra
purgatório. Entre justo e pecador, somos, como diz Lutero, simul justus
et peccator, "ao mesmo tempo justo e pecador''. Entre espírito e matéria,
somos espírito em matéria. Enfim, multiplicam-se ao infinito os polos.
A vida intelectual constrói-se sobre o polo da consciência crítica,
da liberdade, da autonomia, da própria maneira de pensar e da assi-
milação, da aprendizagem do ensinado, da docilidade ao mestre. Se nos
fixarmos num dos polos, nunca seremos intelectuais.
A atitude crítica parece antitética, oposta à da assimilação. À pri1neira
vista, assimilar parece nutrir-se com o alimento que vem de fora e permitir
que ele se insira no organismo e torne-se sua carne. O outro se faz vida
no corpo e o corpo se faz também o outro. Os dois perdem a identidade
anterior para atingir uma nova identidade, diferente, que não existia no
alimento, nem no alimentado.

123
PARTE L ATITUDl',S l'UNDAMENTAIS DA \'OCAÇÀO INTELECfUAL 8. APREND!ZAGEM, ASSlM!LAÇÃO E ORIGINALIDADE

Entretanto, a assimilação é a outra face necessária do senso crítico. cipais do texto. Não se deve prosseguir a leitura sem conhecer o signi-
A atitude crítica é a predisposição sadia para a assimilação. Criticar não ficado das palavras-chave.
é rejeitar. É escolher o melhor, o mais condizente. É abrir o apetite para
uma assimilação saudável de conhecimentos, verdades, valores, que se Estruturação da questão e sua lógica
aceitam, que se desejam, que são percebidos como plenificantes da pes-
Num terceiro passo, a reflexão pede que se estruture a questão em
soa. Para essa assimilação enriquecedora, faz-se mister que se crien1
condições favoráveis. partes e se perceba a relação teórica entre elas. Isso se consegue fazendo
um esquema claro, didático, lógico do tema, no qual as partes estejam
bem articuladas entre si. Tal implica também a captação da dinâmica
interna da reflexão: aonde tal lógica e estrutura conduzem? Quais as
Reflexão
consequências teóricas e práticas de tal esquema? Numa palavra, pensar
tal lógica tão longe quanto possível.
O primeiro passo para uma assimilação consciente e discernida é
Nesse momento deve-se atender de modo especial à força probativa
a reflexão. Trata-se de um esforço de penetração de um conteúdo graças
dos argumentos, que, por sua vez, têm sua própria lógica. Além disso, os
a urna série de operações da mente.
vários argumentos têm uma ordem de valor e de inteligência.
Status quaestionis: pergunta central
Pressupostos e contexto
Num primeiro momento, intenta-se captar o sentido do problema,
a estrutura teórica da questão. Para isso, ajuda muito formular para si, Avançando-se para um quarto tempo, pretende-se perceber os
em forma interrogativa, a mesma questão em outras palavras. Revela pressupostos teóricos implicados. Por detrás de tal questão, que outros
certa dificuldade de penetração e intelecção quem tem dificuldade de problemas se escondem? Ao admitir-se tal esquema, que outros elementos
encontrar palavras diferentes para exprimir uma questão. Há profunda estão incluídos em tal posição?
relação entre reflexão e questão. É bom teste de intelecção reformular Todo esse trabalho de reflexão de natureza antes estrutural pode
de diversas maneiras a mesma questão. ser ampliado ou mesmo antecedido por meio de uma colocação em
Esta formulação será tanto mais fácil quanto melhor se conseguir que se localize clara1nente o problema e1n seu contexto sociocultural
delimitar a questão em relação a outras próximas a ela. Isso se faz também histórico.
de uma maneira negativa, dizendo de que não se vai tratar.
Objeções
Significado dos termos principais
Quando entendemos bem um texto, somos capazes de levantar-lhe
Num segundo momento, a atenção se concentra no significado das objeções e questionamentos. Podemos prolongar as ideias do texto e
palavras-chave, dos conceitos principais que estão em jogo. Saber e dar- perceber as dificuldades que delas surgem e quem sabe até mesmo en-
se conta teórica deles. Isso significa que se consiga em poucas palavras contrar respostas para elas na linha do autor.
defini-los, descrevê-los, exprimi-los em frases com sujeito e predicado
completos. Para tal, recorra-se a um dicionário comum ou especializado
no qual se encontre, de maneira sucinta, a explicação dos termos prin-

124 125
8. APRENDIZAGEM, ASSIMILAÇÃO E OR!GINALILlADF
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECrUAL

Existência de um marco referencial quer positivamente. Negativamente, como vimos, com suas patologias.
Mas, por sua vez, a estima, o entusiasmo, a paixão, o amor pela vida in-
Todos têm um horizonte, quadro ou marco geral de referência, es- telectual funcionam como motores importantes no seu progresso.
pécie de varal teórico, que se vai construindo ao longo dos estudos e da Um dos trabalhos iniciais na vida intelectual consiste precisamen-
formação. O marco referencial é o resultado da organização das expe- te em provocar o gosto por ela. À medida que um estudante vai cres-
riências, teorias, reflexões, ideias, dos pontos de vista, práticas, valores cendo no prazer e no sabor pela atividade do espírito, a rentabilidade e
que alguém vai acumulando durante sua história humana. 0 empenho aumentam. E o gosto é despertado pela via da persuasão e
O marco referencial se constitui de experiências, vivências, que cada por pequenas experiências positivas. Cabe ao mestre incentivar seus
vez mais se tornam critério de intelecção e decisão. É muito mais que o discípulos, tornar atraente para eles a vida intelectual, seja por seu
aspecto simplesmente teórico e cognitivo. Qualquer novo conteúdo, ou exemplo pessoal de humanidade, seja pela demonstração da beleza
experiência, é referido a ele, para ser entendido, integrado, sistematizado. interna dessa vida.
A verdadeira assimilação consiste na integração do novo elemento a Para estudantes que vivem no universo da fé, no interior da Igreja e
esse marco referencial global da pessoa. Se ela não o faz, o dado perma- de uma congregação religiosa, a motivação para os estudos encontra
nece como peça solta, memorizada, desestruturada, inassimilável. novos impulsos. Ela potencializa a capacidade de aprendizagem. Há uma
Os novos conteúdos produzem duplo efeito: ou ampliar, enriquecer dimensão espiritual da vida intelectual, vista tanto nela mesma como
o marco referencial até então dado ou reestruturar, refundir o marco na sua finalidade apostólica. Nela mesma, enquanto a vida intelectual
referencial para que ele se compatibilize com eles. participa da própria beleza de Deus, Espírito inteligente. Em vista da
No primeiro caso, trata-se de elementos homogêneos ao quadro e missão, enquanto ela apetrecha o estudante para um trabalho mais sério,
por isso simplesmente enriquecem-no, ampliam-no. No segundo caso, consistente, profissional e competente na missão apostólica da Igreja e
os novos elementos trazem real novidade, que questiona o quadro então de sua congregação.
dado. Acontece então sua refundição. A assimilação ganha em facilidade e intensidade quando se percebe
mais claramente seu alcance apostólico. Há certamente un1 nível de fé,
de acreditar nas experiências dos "maiores'', de que a vida intelectual é
Integração dos diversos planos e dimensões relevante para a pastoral. Mas há também já uma percepção por meio
das próprias atividades pastorais que os estudantes fazem de que os
A assimilação cresce à medida que sabemos articular as dimensões conhecimentos, os hábitos intelectuais, os valores, a forma mentis, adqui-
fundamentais da vida. Não se aprende só com a inteligência. Toda a ridos na vida intelectual desempenham papel positivo e manifestam sua
personalidade interfere. À medida que a personalidade é integrada, maior eficiência.
é a capacidade de assimilação. Distúrbios emocionais como insegurança, A vida intelectual tem uma dimensão de silêncio, de separação. Há
indefinição de personalidade, carência afetiva, fixações, depressões fre- momentos de estudo pessoal insubstituível na tarefa assimilativa. Como
quentes, bloqueios afetivos, etc. afetam profundamente o processo de os atletas, o estudante tem seu "lugar de concentração" para os treinos
aprendizagem intelectuais. Na separação, busca-se a quietação, a quietude, a tranquili-
A vida intelectual empenha a totalidade da pessoa, e quando há dade para ruminar temas e questões mais difíceis. Pessoas pouco afeitas
disfunções em algum de seus setores, terminam elas por repercutir no à solidão têm imensa dificuldade para a vida intelectual. E a solidão pode
universo da atividade intelectual. A afetividade interfere quer negativa, ser cultivada como valor positivo. Solidão não é isolamento, nem timidez,

126 127
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇAO INTELECTUAi R. APRENDIZAGEM, ASSIMILAÇÃO E ORIGINALIDADE

nem misogenismo ou agorafobia. Também não se trata de narcisismo Frequentemente os alunos mostram-se inseguros a respeito de sua
nem de uma forma sofisticada de egoísmo. É a curtição tranquila de si real capacidade de assimilação. Há graus diferentes de assimilação. O
diante do mistério radical. grau ínfimo é a mera memorização dos conteúdos. Não tem muito valor.
Às vezes, é por pouco tempo. Mera erudição que hoje pode ser facilmente
suprida pelos meios modernos de informação. Com o acesso aos ((pro-
A solidão gramas de busca" da Internet, a mera informação é quase dispensável.
Oh sola beatituda, oh beata solitudo!, "ó felicidade solitária, ó feliz
No entanto, ainda se explora n1uito esse tipo de conhecimento nos con-
solidão!" cursos de rádio e TV. Tal tipo de "saber inútil)) é uma caricatura da cultura,
rebaixada à propensão humana de competir, de medir-se em todas as
coisas. Conta-se de Einstein que, ao ser perguntado por um jornalista
Por outro lado, a cada dia se descobre o valor do estudo em grupo. sobre a velocidade exata da luz, que tem papel importante em sua teoria,
A maioria dos alunos vive em comunidade. A vida em comunidade, responde: "Por que você quer que eu abarrote meu espírito com esses
pequena ou grande, só se torna possível, humana, realizadora, se seus números que se podem encontrar em qualquer enciclopédia?)) 1•
membros conseguem um equilíbrio em suas relações. A experiência Um grau médio consiste numa memorização com compreensão e
tem ensinado que dois extremos parecem nocivos nesse tipo de vida: o vice-versa. O aprendido é entendido, mas fica ainda preso à forma verbal
comunitarismo anônimo e a intensidade comunitária. No primeiro ex- recebida. A pessoa move-se pouco no espaço cultural. A longo prazo é
tremo, a pessoa esconde-se em seu isolamento atrás de uma grande co- culturalmente improdutivo. Vê-se isso em professores ou alunos insegu-
munidade. Esta escuda-lhe um individualismo perigoso. No outro ex- ros que só são capazes de expor suas ideias lendo o que escreveram.
tremo está uma intensidade comunitária que lhe exige tal nível de O grau maior de assimilação é a compreensão autônoma. Para além
participação em todas as esferas que se torna esgotante e não sobram do que foi realmente aprendido, a pessoa é capaz de discorrer, criar, am-
energias e tempo para o estudo. pliar, explicitar. Para verificar de maneira concreta tais níveis, basta reparar
Vê-se uma solução na criação de círculos diversos de relação e de se a pessoa é capaz de ultrapassar as expressões técnicas e memorizadas,
comunidade. Há um círculo mais superficial que abrange a todos. É a usando, por exemplo, outras imagens e comparações, mostrando as con-
convivência humana cortês de acolhida simples, de contato imediato e sequências possíveis, os pressupostos em jogo, as ilações e relações novas.
sem ligações mais profundas. Há os círculos mais estreitos e menores que
se multiplicam conforme diferentes interesses. Assim se formam comu-
nidades menores de vida, nas quais a problemática existencial e espiritual Dimensão de originalidade
é tratada. Outros grupos são de lazer, esporte. Outros de atividade pas-
toral. Outros, enfim, de estudo. Os grupos não necessitam ser, e, às vezes, A aprendizagem associada à assimilação induz facilmente ao erro,
é melhor que não sejam, vasos co1nunicantes. muito comum na vida intelectual, da passividade diante do pensamento
Impõe-se a importância da criação de grupos de estudo. Existem alheio. Julga-se alguém culto e inteligente quando é capaz de citar muitos
de vários tipos. Uns permanentes, em que sempre os mesmos estudam autores. No final de um rosário de citações e de um rastro de erudição,
juntos; outros para determinado estudo ou trabalho; outros para deter- não se sabe o que ele mesmo pensa. Se é que tem pensamento próprio.
minado tempo. Enfim, o importante é aproveitar da riqueza do convívio
humano também no campo do estudo. l. Ph. Van den Bosch, A filosofia e a felicidade, São Paulo, Martins Fontes, 1998, p. 236.

128 129
8. APRENDIZAGEM, ASSIMILAÇÃO E ORIGINALl!lAllL
p1\RTE !. ATITUDES FlJNDAMENTA!S llA VOCAÇAO INTELECTUAL

Assimilar implica, como a metáfora da alimentação sugere, inserir Descanso


na própria substância nutrimentos externos. Esconde, porém, o outro O descanso merece grande cuidado. Regra geral do descanso: "O
aspecto da comparação. Cada organismo assimila a seu modo. Há uma descanso se faz pelo oposto''. Cansaço físico pede repouso. Cansaço
dose de originalidade, de criatividade no ato de aprender. Diante do psíquico pede exercício físico.
pensamento alheio, cabe tanto uma liberdade em discernir e reter o que As pessoas cuja atividade principal é física descansam vendo TV,
se quer como o prosseguimento criativo do processo de aprendizagem. filmes, lendo coisas leves, que distraiam. Quem, por outro lado, empenha
Inteligências criativas avançam para além do que leem, em direções suas energias fundamentalmente nas atividades intelectuais, desopila
diferentes, pelas vias da associação, da inventividade, da imaginação por meio do esporte, da ginástica, do contato com a natureza, de passeios
criadora. Essa atitude deve ser igualmente cultivada ao lado da assimi- e não ficando horas diante da TV, da Internet, fechando-se em salas de
lação. Processo puramente passivo não forma. A iniciativa, a audácia cinema ou mesmo dedicando-se a leituras de distração, ainda que tais
inventiva, o poder criativo, o toque de originalidade são parte necessária atividades sejam mais leves do que o estudo empenhativo. Evitar, por
desse processo. conseguinte, tais atividades. À noite, cultivar atitudes tranquilas e re-
A pergunta que norteia um pensador não é responder ao que os pousantes, como leituras de espiritualidade, dos místicos, de poetas, ou
outros disseram ou dizem, mas ao que ele próprio pensa, ao que leu e ouvir música, dar passeios gratificantes, curtir conversas agradáveis.
lhe serve para iluminar o problema, com a liberdade de quem cria e Música barulhenta, filmes violentos e emocionais, leitura de textos
avança. O pensamento alheio é propulsor do próprio pensar. É plataforma difíceis, redação de trabalhos exigentes, estudo pesado são desacon-
de lançamento para que o foguete do pensar decole e não pista de corrida selhados, em geral, na parte da noite, pois afetam negativamente o
da qual o carro não se desprende. descanso do sono.
Quando o regime de sono não corresponde às reais necessidades da
pessoa ou é irregular, verificam-se sinais externos como olheiras, dese-
Condições externas e descanso quilíbrios nervosos, costas encurvadas, caminhar negligente, falta de
entusiasmo, ar emburrado, dissipação, dispersão, tagarelice, tendência
O ser humano, sendo espírito em corpo, só consegue exercer suas ao isolamento, inquietação etc.
funções espirituais quando o corpo colabora. O corpo, por sua vez, tem Deve-se aprender desde cedo a distinguir dois tipos de fadiga que
exigências incontornáveis, sem a satisfação das quais bloqueia o trabalho afetam as células do cérebro. Uma sadia, que pede o sono reconciliador.
do espírito. Pertence à vida intelectual conhecê-las e satisfazê-las. Outra estressante, que mantém a pessoa acordada e ativa. Por isso,
quando um estudante sente dificuldade de dormir e está muito "aceso"
Saúde física e psiquica à noite, desconfie que algo não está funcionando. E, quanto mais exigir
de si em vigílias de estudo, tanto mais arruinará seu sistema nervoso e
É fundamental manter a saúde física e psíquica, não só evitando
comprometerá seu rendimento escolar.
esgotamentos como também cuidando de manter o organismo e o
Sono repousante: os orientais, que são mestres no domínio do corpo,
psiquismo sadios. Merece atenção especial a vista. Nunca forçá-la, lendo
insistem que as horas de sono antes da meia-noite são duplamente mais
sem luz suficiente ou letras pequenas demais. Promover momentos de
benéficas que as posteriores a esse horário.
descanso da vista, seja fechando os olhos, seja contemplando cenas lon-
gínquas ou observando detalhes das folhas das árvores.

131
130
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO IN'JELECTUAL 8. APRENDIZAGEM, ASSIMILAÇÃO E ORJGlNALllJADE

Atitudes psicológicas
- depois que realizar a atividade, qualquer que tenha sido o re-
Para manter o estado psíquico em bom tônus, ajudam três atitudes sultado, diga para si mesmo: foi isto que consegui fazer com o
psicológicas práticas. tempo de que dispunha. Se tivesse tido mais tempo, teria feito
melhor!
Evitar o excesso de expectativa sobre as próprias atividades E fique em paz!
Em outras palavras, evitar o perfeccionismo, no sentido de que tudo
o que se faça deva render o máximo, ser o mais perfeito. Qualquer dimi- Evitar a falta de motivação
nuição ou falha no rendimento gera insatisfação, aborrecimento e até mesmo
É desgastante e frustrante agir com falta de motivação, viver em
depressão. A pessoa vive em permanente tensão, como um elástico esticado.
permanente atitude "céptica'~ sem entusiasmo, sem nenhum idealismo,
Uma dose de realismo traz o equilíbrio. Planejar as atividades dentro de
sem nenhuma expectativa. Em castelhano se diz: sin ilusión. Vivemos
um quadro de prioridades, consciente de que para cada atividade há um
de sonhos, utopias, desejos, aspirações. E agir sem esse motor é obrigar-
espaço limitado de tempo e de energias. E contentar-se com o que se pode
se continuamente a empurrar o carro. Algo esgotante. Ou a andar com
fazer dentro desses limites, sabendo que se poderia fazer melhor, se outras
o freio puxado.
fossem as circunstâncias. A aceitação realista dessas condições facilita não
Quando a vida obriga alguém a realizar ações desmotivadamente,
colocar demasiada expectativa sobre os resultados, evitando a frustração.
deve-se esforçar-se por encontrar motivações, quer no nível de uma
Imaginem que dois estudantes tirem 9 num exame. Nota aliás muito
atitude humanista, quer no de uma espiritual. Quantas dessas atividades,
boa. Aquele cuja expectativa era 10 termina frustrado e com desgaste psí-
aparentemente desmotivadas, põem as pessoas dentro da realidade hu-
quico. Aquele cuja expectativa era 8 ou 9 fica feliz e contente, sem desgaste
mana do comum dos mortais. Essa comunhão com a humanidade deve
psíquico. Ambos situam-se diante do mesmo resultado. A existência ou
ser motivo suficiente para assumir com alegria e coragem empreendi-
não de desgaste psíquico dependeu do nível de exigência a respeito do
mentos desagradáveis à sensibilidade.
resultado. A experiência aconselha que as pessoas se mantenham em nível
A ação sobre a "sensibilidade irritada" em face de atividades desagra-
realista e razoável de expectativa, evitando desgastes energéticos inúteis.
dáveis, sem motivação, se faz indiretamente. Não depende de nenhum
comando voluntarista, mas de um diálogo persuasivo do "ego" com o
Exercício prático inconsciente, buscando motivos para aliviar a irritação e mesmo provocar
novos sentimentos agradáveis diante da situação. Para quem a fé é uma
Antes da atividade a ser exercida - palestra, artigo, exame etc. - reflita
dimensão importante, ela facilita muito esse trabalho, com a busca nas
sobre os seguintes pontos:
opções profundas do cristianismo, na práxis de Jesus, na obediência e na
- qual é o grau de importância que ela tem no quadro das pró-
missão apostólica de energias suficientes e motivação bastante para agir.
prias prioridades?
Há sempre uma possível motivação humanista, no sentido de que pelos
- atribua segundo tal juízo um determinado tempo para sua
estudos a pessoa se humaniza a si mesma e prepara-se para a tarefa de
preparação - volto a insistir, antes de começar a preparação;
humanizar o mundo.
- não se deixe envolver pelo entusiasmo da preparação ou por
A condição básica, portanto, de menor desgaste de energia e de
instintos obsessivos e perfeccionistas; seja fiel a este tempo
êxito em qualquer atividade, especialmente do estudo, é uma motivação
anteriormente atribuído;
forte, entusiasmante. Ela polariza as energias, facilita altamente enxergar

132 133
PARTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAi S. APRENDIZAGE:-.t, ASSIMILAÇÃO E ORIGINALIDADF

melhor o sentido e o objetivo dos estudos, leva o estudante a empenhar- Bom relacionamento humano
se neles, evitando apatia, aborrecimento, incapacidade de concentração,
Vive-se em tônus sadio se se mantêm boas relações com as pessoas
falta de elã e entusiasmo.
com quem se convive, evitando criar atritos, relacionamentos perma-
Há fatores que ajudam a despertar a motivação: a presença de alguém
nentes pesados, incompatibilidades. Quanto melhores forem as relações
significativo (mestre, guru, amigo, pai) que consiga polarizar o estudante
pessoais, mais se consegue viver num estado anímico alegre, leve, feliz.
en1 torno da importância do estudo ou de uma matéria, a própria ima-
As relações mal levadas são altamente desgastantes. E sobretudo quando
ginação do estudante, que lhe cria cenários futuros recompensadores
se trata de relações constantes e inevitáveis: fan1ília, trabalho, escola,
(materiais, espirituais, missionários) do esforço presente, o idealisn10
comunidade religiosa etc.
por causas que merecem tal esforço de estudo.
Conta-se que o ex-ministro da Saúde e renomado médico Dr. Jatene,
uma vez interrogado por um jornalista se não andava estressado com
tanto trabalho, respondeu lapidarmente: "Trabalho não cansa. O que
Exemplo de Inácio
cansa é inveja e raiva".
Inácio de Loyola, recém-convertido de poucas letras, percebe que sem O coração nos estudos: "Estuda-se com o coração das amizades!
estudos não poderia "ajudar as almas,,. E ei-lo sentado no banco da escola Divaga-se no meio dos conflitos afetivos,,.
no meio de crianças para estudar, chegando a terminar seus estudos na
Universidade de Paris, o grande centro intelectual da época. Caminhada Ambiente geral
só possível sustentada por forte motivação espiritual.
Favorece a aprendizagem uma atmosfera que anime o estudante a
ser ativo, que respeite sua característica pessoal, que lhe permita ser di-
Ampliar a gama de satisfações ferente, que lhe reconheça o direito a equivocar-se, que lhe tolere imper-
O ser humano deseja e busca a felicidade. Esta está em estrita relação feição, que o anime a uma abertura de espírito e à confiança em si mesn10,
com a satisfação de necessidades, aspirações e desejos humanos. Quando que lhe dê a percepção de ser acolhido e respeitado, que lhe facilite as
a gama de satisfações é muito restrita e encurtada, a pessoa desfruta descobertas pessoais, que lhe propicie o confronto das ideias.
menos espaço de felicidade e n1ais facilmente se torna irritável, cansada, Mel e vinagre: pais e mestres extremamente rígidos e exigentes, ao
esgotada. Sendo, porém, ampliada, a pessoa tem mais espaço para sua criarem ambiente de terror, dificulta1n o surgimento e o crescimento de
autorrealização e por isso vive mais feliz, tranquila, descansada. vocações intelectuais. «Uma gota de mel pega mais moscas que um barril
Alargam-se os espaços de prazer e gozo com a procura de uma varie- de vinagre" (São Francisco de Sales).
dade maior de campos onde se sentir feliz. Um intelectual que sente prazer São importantes as condições externas: ambiente de silêncio, um
no ra1no de sua especialidade e fica restrito somente a ele termina por mínimo de comodidade. Evitam-se distrações inúteis com o empenho
estreitar seu horizonte de satisfação. Ele se realiza n1ais se se expande para num duplo trabalho. Em primeiro lugar, faça-se um esforço interior de
outros campos hun1anos: esporte, arte, amizade, literatura, cuidado de controlar e canalizar os desejos, planos, aspirações. Para isso é útil ter un1
uma horta, trabalho manual, música, reuniões com grupos afins, atividade caderno à mão onde se anotem esses desejos, projetos e pequenas obri-
pastoral, militância política, momentos de oração e contemplação etc. gações, quando surgem como distrações durante o estudo, aliviando
Quanto maior é a gama de satisfação, mais a pessoa se realiza, rea- assim a tensão provocada por eles. Em segundo lugar, estude-se sempre
bastece suas energias psíquicas e vive mais descansada. no mesmo lugar a fim de facilitar a concentração. Logo no início, sacien1-

134 135
PARTE 1. ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTUAL 8. APRENDIZAGEM, ASSIMILAÇÃO E OR!GlNAUDAllF

se todas as curiosidades sobre o ambiente para depois dar-se ao estudo fazer. "Nada te perturbe!" Sufficit diei rnalitia sua, "A cada dia basta a sua
tranquilamente. pena" (Mt 6,34).
A experiência tem mostrado que a capacidade de atenção e assimilação
não suporta longos períodos, baixando seu rendimento depois de um
tempo. Por isso, no máximo depois de duas horas, deve-se fazer pequena Conclusão
pausa, em que se desligue totalmente da atividade intelectual, exercitando
então os sentidos externos, tal como olhar tranquilamente para árvores, O processo educativo é eminentemente ativo. No entanto, existe u1n
plantas, rosas etc. ou ouvir sons próximos e distantes, ou sentir os per- momento importante de aprendizado, de assimilação de conteúdos e
fumes da natureza, ou perceber sensitivamente os objetos que tocam, métodos. Alguém tem de ensinar-nos. A capacidade crítica não exclui
ainda que de leve, o próprio corpo, ou degustar algum sabor'. uma fase de acolhida, de recepção. A criticidade acontece no seu interior.
Pequenos descansos: "Descansamos os músculos repousando. Os sen- Cabe desenvolver, portanto, atitudes básicas que nos possibilitem apren-
tidos descansam sendo exercitados de maneira consciente e tranquila". der de maneira pessoal, integrando no próprio universo cultural os
elementos novos.
Estruturas de apoio É um processo interno, mas favorecido por condições externas. A
vida intelectual exige que se cuide de ambos. Assim, uma motivação
O estudante deve, a partir de sua experiência, ir descobrindo e
consistente e o cuidado com as disposições físicas e psicológicas permitem
criando pequenas estruturas externas de apoio que lhe aumentem o
caminhar tranquilamente pelas vias da inteligência. E ao acrescentar un1
rendimento do estudo. Estas estruturas são as mais diversas, tais como
colorido de criatividade e originalidade ao processo de assimilação evita-
pequenas interrupções, exercícios físicos, ainda que sejam mínimos, que
se qualquer risco de ele tornar-se puramente passivo e mecânico.
aumentem a circulação sanguínea no cérebro, disposição da luz, posição
do corpo, tipo de mesa, lugar mais apropriado, ventilação mais abundante
etc. Em geral, quanto mais organizada, planejada previamente for a ati- Bibliografia
vidade intelectual, mais se garantirá o aproveitamento.
Referi-me já aos hábitos. Criar hábitos sadios de estudo aumenta a !RALA,N., Eficiência sem fadiga, São Paulo, Loyola, 1969.
performance. Percebe-se cada vez mais que a perda de hábitos ou sua _ _ _ ,A reeducação do controle cerebral na vida psíquica, s/c, 1944.
não criação tem sido responsável pela queda da produtividade intelectual _ _ _ , Controle cerebral e emocional, São Paulo, Edições Loyola, 20ª ed., 1997.
dos alunos. O hábito é o motor que acelera o veículo na estrada dos es- TIERNO, B., Las mejores técnicas de estudio. Saber leer, tomar apuntes y preparar

tudos. Hábito só se cria pela repetição - quanto mais consciente e livre exámenes, Madri, Temas de Hoy, 5 1995.
melhor - de atos.
Os antigos ensinam: age quod agis. Faze o que fazes. Entrega-te à
atividade intelectual do momento, desligando-te de todas as outras obri- Dinâmica
gações. E se te ocorrer alguma coisa imprescindível anota-a num papel, Resposta a perguntas
e prossegue o estudo. Não te deixes perturbar por aquilo que ainda deves
Responda às seguintes perguntas
2. Cf. A. de Mello, Sadhana: 11111 caniinho para Deus, São Paulo, Paulinas, 1980; id., 1. Você é capaz de colocar numa frase interrogativa o problema central
43 Maneiras de orar, São Paulo, Loyola, 7ª ed., 2000. de um texto longo ou curto? Demonstre-o com um exemplo.

136 137
8. APREND!ZAGE:-0\, ASSll.l!LAÇAO E OR\GlN1\lJDADE
P1\RTE L ATITUDES FUNDAMENTAIS DA VOCAÇÃO INTELECTU1\L

2. Você é capaz de definir com suas palavras os conceitos funda- 1 J7. Você seria capaz de quantificar seu rendimento intelectual? Coin-
nlentais dos ten1as que lê? Faça um exercício explícito! 1 cide com o juízo dos professores?
3. Você costuma elaborar um esquema durante a leitura de um texto ~ 18. Qual é a sua posição física de estudar: sentado à mesa, numa
importante? poltrona, deitado, andando? já verificou se ela permite melhor
4. Interessa-se por conhecer os pressupostos dos textos que lê? As- rendimento?
sinale um exemplo. 19. Qual é o seu lugar para estudar: variando cada dia? Sempre o
5. Já fez alguma vez o exercício explícito de confrontar novos con- mesmo? Já verificou se ele permite um melhor rendimento?
ceitos com o quadro de referência possuído anteriormente? In- 20. Quando é que você começa a estudar: quando chega a vontade?
dique algum exemplo. Quando se faz urgente? Por decisão, seguindo um horário
6. Já conseguiu perceber as influências positivas e negativas da preestabelecido?
afetividade e das emoções sobre a vida intelectual? Anote para si
alguns casos.
7. Você tem trabalhado conscientemente a motivação para a vida
intelectual em geral e para determinados estudos em particular?
Como tem procedido diante da obrigação de ações motivadas?
8. Como você tem vivido o silêncio e o recolhitnento na vida .,
,,1

intelectual?
9. Como interfere a vida comunitária ou familiar em suas relações
pessoais na vida de estudos? Positivamente? Como? Negativa-
n1ente? Como?
1O. Que cuidados tem tido com a saúde física e psíquica) com o tempo,
a variedade e a qualidade do descanso?
11. Como você se comporta diante das expectativas do resultado de
suas atividades intelectuais e outras?
12. Que pequenas ajudas externas tem procurado para aumentar o
rendimento de seus estudos? Enumere algumas.
13. Você tem se aproveitado das orientações dos professores e do
acompanhante de estudos? Que proveito tem tirado das aulas?
Cite alguns exemplos.
14. Nos trabalhos de grupo, tem participado criativamente, com
preparação prévia responsável?
15. Que outras atividades intelectuais tem desenvolvido além das
curriculares?
16. Você tem progredido na metodologia de estudos ao longo do
semestre?

138 139
1
1

Parte li

Aspectos da vida de estudo

Sem futuro, o presente não serve para


nada, é como se não existisse.
). SARAMAGO
s atitudes fundamentais na vocação intelectuais são pedras miliárias
A que marcam a estrada a ser seguran1ente percorrida. Farol que
ilumina longe. A vida, porém, acontece no miúdo. Esta segunda parte se
interessa pelo cotidiano do trabalho intelectual. Sem ser estritamente um
texto de metodologia científica, oferece sugestões práticas para as dife-
rentes atividades intelectuais.
A importância do trabalho em grupo tem crescido em todos os se-
tores: acadêmicos, empresariais, pastorais etc. Apresentam-se no capítulo
9 elementos para orientar as reuniões de grupos, a fim de que sejan1
proveitosas e objetivas. Alude-se aos vários tipos de reunião e oferece1n-
se sugestões práticas para a condução de uma reunião.
A produção intelectual tem uma dimensão de criatividade, de origi-
nalidade, de genialidade. Realidades intransmissíveis. Mas, segundo o
dito inglês, necessita-se mais de transpiration- suor-que de inspiration
- inventividade. Já que a inspiração escapa de uma metodologia, esta
se concentra no "suor" do trabalho intelectual. O capítulo 10 traça um
itinerário que pode ser percorrido quando da confecção de um texto.
Além de elementos mais ou menos convencionais, oferecem-se alguns
esquemas pré-lógicos (imagens concretas) e teóricos que provocam a
mente a um processo criativo Para a confecção de dissertação ou tese de
doutorado, sugere-se o método das perguntas, experimentado com êxito
com alguns alunos.
Embora tenha alguma semelhança com o processo de produção in-
telectual, trata-se no capítulo 11 de um percurso teórico que facilite o
estudo de um tema. Em seguida, há sugestões de estudo em grupo. E
seguem-se conselhos para a preparação de exame temático ou de tese,
como ainda se pratica em muitas faculdades eclesiásticas do mundo.
Detalhamos um itinerário que foi muito usado no método da neoesco-
lástica. Embora lá se tivesse enrijecido num formalismo exagerado,
conserva, no entanto, certo valor formativo que merece ser recuperado.
No capítulo 12, trata-se da confecção de uma monografia, não tanto
em seus aspectos técnicos, mas antes nos generativas. Para cada etapa do
processo de sua redação, oferecem-se sugestões concretas e práticas.
Em momento anterior, insistiu-se na criação da cultura do estudo e
da leitura. O capitulo 13 detém-se na prática da leitura com considerações

143
PARTE li. ASPl:CfOS DA VIDA OE ESTUDO

gerais e também concretas, a fim de desenvolvê-la mais agilmente. É u1n


exercício fundamental da vida intelectual. Merece atenção especial.
O capítulo 14 aborda alguns aspectos do ensino acadêmico com
9. Reunião de grupo
sugestões para professores e alunos. Focalizam-se especialmente a aula
magistral, os seminários e a tutoria na forma sobretudo de orientação
de estudos. E finalmente apontam-se algumas dificuldades recorrentes
no campo do estudo com observações práticas para superá-las ou mini-
Porque onde dois ou três estiverem reunidos
mizá-las. em meu nome, eu estarei ali no meio deles.
Esta parte encerra, portanto, elementos de natureza prática. Ela nasceu
da experiência da longa docência e orientação de estudos do autor. Tem, MATEUS l 8,20

portanto, um caráter experimental que cada um poderá conferir com


sua própria vida e dele tirar as melhores conclusões.

a vida acadêmica e em atividades sociais e pastorais, frequentemente


N nos defrontamos com reuniões de grupo. Perde-se muito tempo por
falta de objetividade nelas, quer por desconhecer algumas regras mínimas
da dinâmica de um grupo, quer por descuidar de sua preparação. Cresce
a consciência da ímportância de trabalhos em grupo. Já há empresas
que colocam entre os principais critérios de seleção a capacidade de
trabalhar em grupo, participar de uma reunião, saber dirigi-la.

Aspectos gerais de uma reunião

Dinâmicas de apresentação
Numa reunião, quando as pessoas já se conhecem, inicie-se com
pequeno aquecimento por meio de uma palavra de acolhida, de modo
que todos se sintam bem.
Caso as pessoas não se conheçam, a maneira da apresentação depen-
derá naturalmente do número de participantes. Quanto maior for, mais
sumária ela tem de ser. Se se trata de um grupo menor, cada participante
disponha de tempo maior para falar algo de si. Certas dinâmicas dão um

144 145
PARTE li. ASPECíOS DA VIDA DE ESTUDO
tr
'1
'1
9. REUNIAO DE GRUPO

caráter mais original à apresentação. Em grupos mais jovens, elas têm


1

maior aceitação. Escolhe-se aquela que melhor responda ao número dos Dinâmicas de distensão
participantes, ao tempo disponível e ao tipo de grupo.
1. Fazer a todos uma pergunta provocante e imprevista: Qual a
diferença entre você e um chimpanzé? Se você fosse uma praça,
uma estrada, uma ponte, como seria esse objeto?
Dinâmicas de apresentação
2. Dar um giz aos participantes e pedir que façam no quadro um
1. Fazem-se dois círculos concêntricos, de modo que cada parti- desenho ou um símbolo ou escrevam uma palavra que sintetize
cipante fique em frente a outro. Durante uns dois a três minutos a expect~tiva que trouxeram para a reunião. Pedir que algumas
apresentem-se um ao outro. A cada sinal do coordenador, um pessoas mterpretem os desenhos ou símbolos dos outros, even-
dos círculos se move enquanto o outro fica estável, de maneira tualmente o próprio.
que cada vez uma pessoa fala com outra diferente. No final, 3. Pedir que todos fiquem em absoluto silêncio, atentos aos
uma metade terá conhecido a outra metade. Serve para desinibir son~ que conseguem ouvir, e depois pedir que digam 0 que
os mais tímidos. ouviram.
2. O coordenador do encontro sugere que cada um apresente a si 4. P~dir que as pessoas observem a sala de reunião e depois ma-
mesmo não do modo convencional, mas escolhendo um roteiro mfestem seus sentimentos e impressões sobre ela. Esse mo-
turístico, uma comida, uma obra de arte, uma música, uma mento de observação pode ser do próprio lugar ou circulando
estação do ano, uma hora do dia, um personagem bíblico ou pela sala, dependendo de seu tamanho. Podem também pro-
da história cóm que se identifica de certa maneira, e de tal curar um lugar onde se sintam melhor. Depois partilhem tal
maneira que projete no elemento escolhido dados de sua pró- sentimento.
pria vida. Uma pessoa tímida poderia começar assim: sou um 5. Em encontros de jovens, pode-se deixar um momento de de-
rio pequeno, escondido, que só é percebido pelo caminhante. sinibição verbal: todos podem falar em voz alta, espontânea e
Ele nasce perto de uma cidade do interior e corre em direção à sim_ultaneame~te o que lhes vem à mente e fazer os gestos que
cidade grande etc. os hberem mais. A algazarra provocada com o vozerio de todos
3. Dê-se um momento para que se entrevistem, dois a dois. Depois ajuda a quebrar o gelo.
o entrevistador apresentará seu entrevistado.

_l.Jma vez c~iado esse clima de descontração, torna-se mais fácil pro-
Clima da reunião
duzir um relacionamento simples entre as pessoas, abolindo as formali-
Um clima de descontração na reunião rompe com formalidades e dades e distâncias. Os coordenadores manifestem, além disso, um am-
artificialismos. Quanto maior for a expectativa de uma reunião tensa, biente de acolhida e simpatia. Para isso, dirijam-se a cada pessoa pelo
tanto mais o coordenador deve pensar em criar, logo de início, um am- seu nome, usando de recursos que visibilizem o nome das pessoas.
biente distendido. Para isso, pode-se lançar mão de dinâmicas que deixem Deixar, desde o início, bem claro que a reunião é um espaço de li-
as pessoas mais a vontade. b~r~a~e de expr~ss~o~de respeito a qualquer intervenção segundo certa
disc1p~a e de discnçao, de modo que não se comentem fora os aspectos
pessoais e confidenciais ali manifestados. A confiança mútua é 0 segredo

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PARrE \!. ASPECfOS DA VIDA DE ESTUDO

de uma reunião descontraída, sincera, livre. Isso permitirá que as pessoas


r desenvolvimento afetivo 1• O trabalho em grupo transforma-se em va-
liosa forma didática de aprendizado e de decisão. Mesmo que ele pareça
9. RF.UNIAO DE GRUPO

não tenham 1nedo de ser elas mesmas e superem imagens artificiais de 1


si, aprendam a ter autocrítica a respeito dos próprios comportamentos à primeira vista menos eficiente e um processo mais lento do que os
e acolham as diferenças sem reservas. Espera-se, enfim, dos coordena- estudos e decisões solitários, termina por enriquecer mais, tanto no nível
da personalidade como no da percepção mais ampla do problema. Serve
dores competência na condução da reunião.
também de estímulo para inteligências menos inquietas.

Natureza da reunião
Estrutura
As pessoas podem reunir-se com as mais diferentes finalidades. Há
elementos, porém, que auxiliam na condução de uma reunião qualquer Há dois tipos de reunião de grupo, que refletem a natureza e a cons-
ciência da sociedade, da cultura ou da instituição em que se faz a
que seja sua natureza. São considerações mais genéricas.
As pessoas em reunião reagem diferentemente de quando estão em reunião.
outras situações. Conforme sua natureza, produz-se facilmente uma
Estrutura vertical
"infantilização'', de maneira que alguém é capaz de ações que em outra
ocasião nunca faria. Existem nas reuniões, com frequência, os "engraça- Um primeiro tipo acontece numa instituição fortemente hierar-
dinhos", que podem provocar um clima alegre e leve, mas também su- quizada, sem consciência democrática. Aí predominam relações desi-
perficial e infantil. Esse fenômeno deve ser levado em conta pelos coor- guais, dissimétricas. Há as autoridades, que conduzem a reunião e são a
denadores para que se evitem surpresas. última instância decisória, e os outros membros. A relação é de subor-
Na reunião se cria uma espécie de "afetividade grupal,, que torna o dinação, em que vigora o binômio autoridade/obediência. Sua estrutura
grupo mais sensível às críticas do que o indivíduo. O grupo resiste menos é vertical.
às dificuldades, cansa-se mais depressa. Por isso, é importante evitar
Estrutura horizontal
reuniões longas e pesadas.
Um segundo tipo caracteriza-se pelas relações de igualdade, cama-
Importância radagem, solidariedade. Os participantes da reunião, como um todo,
são a fonte de conhecimento e de decisão. Os eventuais coordenadores
Nas reuniões acumulam-se e socializam-se experiências, conheci-
cumprem a função de facilitadores e não de última instância de poder.
mentos, informações diferentes, com grande proveito para todos.
Sua estrutura é horizontal.
Nelas, os participantes espelham-se no confronto com os outros, mo-
dificando sua própria imagem. Elas ajudam o próprio conhecimento e
Características
o dos outros. Exigem das pessoas uma adaptação a essa nova situação.
Trazem-lhes conhecimento e enriquecimento. Favorecem-lhes a evolução A condução de uma reunião depende das características do grupo.
em diálogo com as ideias alheias. Despertam-lhes tensões que necessitam Antes de tudo, do tipo de pessoa que se reúne. As reuniões assumem as
ser resolvidas.
Os jovens encontram nas reuniões excelente exercício de autono- 1. Gérard Lütte, Liberar la adofescencia. La psicologia de los jóvenes de hoy, Barcelona,
mia, superando situações de dependência. Nelas têm ocasião de exprimir Herder, 1991, p. 231-244; esse autor trata muito bem da importância para os adolescentes da
mais facilmente o que pensam. É espaço de liberdade, criatividade, experiência, não tanto de reunião, mas principalmente de vida em grupo.

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PARJ'E li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO
9. REL"NIAO DE l~RL"l'U

formas mais diversas conforme os seus membros. Atenda-se à singulari- não cumpre nenhum papel for1nativo. É só materialmente uma reunião
dade de cada pessoa, de modo que todos se sintam conhecidos e reco- já que os membros não participam. Esta pode antes ser fonte de revolt~
nhecidos, superando o frio anonimato. A aceitação das pessoas é funda- ou insatisfação, dependendo da natureza da informação ou da ordem.
mental para o bom andamento de qualquer reunião. A rejeição, posto No caso da transmissão de ordem, a situação torna-se ainda nlais
implícita ou até mesmo inconsciente, é fonte de tensões e tnal-estar. grave quando a ordetn deveria ter sido discutida antes e não 0 foi. A
Uma reunião bem conduzida gera uma consciência grupal com simples transmissão é percebida pela sensibilidade democrática atual
dinâmica própria. Em todo grupo e reunião se processa, nem sempre de como desrespeito à pessoa humana. Tem-se evitado que as ordens nas
maneira explícita e consciente, um determinado movimento interno. empresas, nas instituições educativas venham de ci'ma auto r1·t ar1an1ente.
·
Um bom coordenador deve ser capaz de captar tal dinamismo e orientá- Busca-se o consenso, e as reuniões se orientam para chegar a ele. Quando
lo em vista do bom resultado da reunião. isso não acontece, há frustrações, insatisfações e rejeições.

Riscos inerentes às atuações nas reuniões Reunião de sondagem

Toda reunião é uma ação grupal. Esta, como tal, implica certos riscos. . Reunião que não visa a nenhuma decisão, mas somente à fase, an-
Numa reunião encontram-se pessoas de caracteres e personalidades dife- terior, de sondagem. Ainda não se está na fase decisória. É hora de saber
rentes. Umas mais fortes, outras mais delicadas e tímidas. Há, por isso, um o que as pessoas pensam, para depois se encaminhar o processo decisório
perigo da despersonalização e do conformismo daqueles que se sentem Este poderá ser retomado, em outro momento, pelo mesmo grupo 0 ~
menos seguros de si e pouco convictos das ideias. Em contrapartida, os mais acontecer em outro nível, conforme a natureza da instituição e 0 n1odo
voluntariosos, sagazes e autoritários facilmente são tentados a instrumen- de proceder das autoridades competentes. A reunião não decide. A con-
talizar os outros, a negar-lhes a originalidade e a contribuição pessoal. fiança entre as pessoas é condição fundamental para seu bom funciona-
E1n toda reunião se reproduz, se não há uma tomada de consciência men_to. S~m ela, é melhor nem convocá-la. Se alguém teme retaliação por
explícita, o jogo tão humano de imposição e subordinação, do senhor e ter si.do sincero ao expor o que pensa, não 0 fará e a consulta aparecerá
do servo, do dono e do súdito. Tanto mais forte é essa tentação quanto desvirtuada. Supõe-se também das pessoas um nível de maturidade
mais tal estrutura se ancora num traço da cultura brasileira. Como obser- afetiva para, que não haja melindres diante de posições divergentes, de
va o antropológo Roberto da Matta, o povo brasileiro introjetou profun- respostas cr1t1cas e até mesmo contundentes.
damente a relação dual de superior e inferior, de modo que a projeta nos
Reunião/discussão centrada no grupo
seus mais diversos comportainentos, ora assumindo a posição de superior,
ora a de inferior, e dificilmente a de igual. A condição de igualdade é ·~A re~nião se constrói no grupo. Alguém dá o toque inicial e a reu-
básica para o desenvolvimento de uma reunião. mao deode o objetivo, o programa, escolhe o animador e outras funções,
:endo ~1~erdad: de introduzir mudanças quando quiser. O grupo toma
Tipos de reunião de grupo s d~c1soes. Ha sempre o risco de perder-se o controle das tensões, em
detr~mento dos membros mais frágeis.
Reunião de informação e/ou de transmissão de ordem
E a mais democrática e formativa, embora o processo seja difícil e
Tipo de reunião que visa unicamente comunicar, transmitir. Qual- !~loroso. As pessoas se sentem entregues a si mesmas, à sua liberdade.
quer outra intervenção se orienta simplesmente ao entendin1ento da i os temperamentos aflorarão com maior clareza. O trabalho de costurar
informação ou da ordem. Esta não está em questão. Nesse caso, a reunião uma relação sadia é lento, não sem atritos.

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9. REUNIÃO DE GRUPO
PARTE li. ASPECTOS D,\ V!DA DE ESTUDO

preparado com reuniões prévias para afinar seus interesses quer quanto a
É importante que pessoas mais sagazes e intuitivas ajudem o grupo a
sua substância quer quanto à política ou estratégia de reivindicá-los. E na
tomar consciência do seu próprio processo. As tensões fazem sofrer tanto
reunião busca-se o consenso, o equilíbrio entre interesses conflitantes.
mais quanto mais estão veladas. Nada melhor para a sanidade de uma
reunião do que aclarar, explicitar, verbalizar as tensões presentes.

Reunião/discussão centrada sobre o assunto Fatores decisivos para conduzir uma reunião
Supõem-se determinados fatores. Antes de tudo, haja um animador
Por mais simples que seja uma reunião, ela põe em movimento uma
ou coordenador. Ele cuidará de que se discuta o assunto e de que se evitem
série de fatores que merecem ser estudados um a um 2 •
digressões - papel importante na condução da discussão. O resultado
da reunião dependerá fundamentalmente da participação de todos nas
Objetivo
análises e sínteses do assunto, e nas decisões. Implica que se venha
preparado para a reunião. Daí que os objetivos devem ser propostos Logo de início, defina-se a natureza da reunião. Como vimos acima,
quando da convocação, deixando sempre abertura para modificações ela serve para transmitir informação ou ordem, para sondar as pessoas
propostas pelos membros no momento da reunião. em vista de uma decisão ulterior, para criar uma dinâmica de grupo, para
No ato da reunião, compete ao coordenador recordar os objetivos discutir um assunto de modo disciplinado ou de modo mais solto, para
anteriormente propostos, ouvir críticas e observações sobre eles. Por fim, buscar consenso entre interesses conflitantes.
sintetize-se, em clara verbalização, o resultado desse primeiro momento Necessita ter uma pauta de pontos.A programação é feita de antemão
para que todos saibam e entendam bem os objetivos perseguidos. ou elaborada na hora. Assinale-se, de modo claro, uma finalidade fun-
Em vista dos objetivos, organizem-se o programa, a divisão do tempo, cional a cumprir. Sempre deve estar presente, além desse objetivo prático,
a pauta dos assuntos. a finalidade de promover a personalização das pessoas. Isso se realiza
pelo intercâmbio de ideias e experiências, desde que se progrida de simples
Reunião centrada no grupo em torno de uma questão discussão a diálogo profundo entre os participantes a respeito de valores
Este tipo de reunião sintetiza os dois modelos anteriores. O animador e verdades.
é um participante igual aos outros. Simplesmente propõe o plano, mas o Uma reunião ganha maior profundidade se se consegue perceber
grupo decide. Intervém como os outros sem impor suas ideias. Os parti- que ela faz parte de um todo maior, a saber, da vida da organização ou
cipantes devem contar com o próprio trabalho, com a própria reflexão. instituição. As pessoas colaboram para seu melhor funcionamento por
Esse modelo tem as vantagens dos dois anteriores. É mais livre, solto, meio de informação, reflexão, decisão e ação. Elas se compromete1n assim
democrático. Por sua vez, a reunião se faz em torno de uma questão já com a instituição em palavras e ações, ao participar das decisões tomadas
anteriormente decidida. É a única coisa prévia à decisão do grupo. Tudo colegiadamente.
o mais se faz por consenso entre os participantes da reunião. A nova engenharia do trabalho tem modificado o modelo do em-
pregado, e um dos pontos fundamentais diz respeito à sua presença
Reunião com grupos heterogêneos
Há instituições hierarquizadas. Autoridades e subalternos, diretores e 2. Essas indicações metodológicas são devedoras grandemente a Ch. Maccio, Ani-
funcionários, professores e alunos etc. Promove-se a reunião para que os J. Eivers
n1atio11 de groupes, Lyon, Chronique Social de France, 3 1969; além disso, ver M.
- A. Perry Vi tale, Líderes leigos. Manual de treinamento, São Paulo, Loyola, 1993.
interesses dos grupos se confrontem. Cada grupo, portanto, deverá ir

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PARTE 11. ASPECros j),\ VIDA DE E~TUDO 9. REUNJ,\O Dl: GRl'PO

participativa no todo da empresa, especialmente por meio de reuniões tem a ensinar e nada a aprender. Todos os participantes conscientizen1-se
de informação e decisão. A seleção dos funcionários está levando em de que têm algo próprio e único co1n que contribuir e algo a receber.
consideração, além das habilidades e conhecimentos técnico-profissio- As reuniões podem ser prejudicadas por vários fatores: bloqueio,
nais, a capacidade de participar ativa1nente com sugestões e ideias criativas competição, busca de status, desordem no falar, falta de preparação, ti-
nas reuniões. midez, distração, brincadeiras fora de hora, participação inadequada,
Objetivo e duração: não haja reunião sem objetivo anteriormente tensões entre as pessoas, fechamento em si, incapacidade de mudança,
determinado de maneira clara e se1n tempo determinado para início e falta de disponibilidade para com os outros, falta de sincronização do
fin1! Diminuem-se as ansiedades e os apressamentos indevidos. próprio ritmo com o dos outros, linguagem inapta, projeção nos outros
das próprias percepções negativas.
Programa Não se monopolize nem se aproprie da discussão, mesmo no assunto
em que se é especialista. Evite-se distrair os outros membros, contradizer
Ele varia conforme o objetivo, a natureza da reunião, o nível de
sempre, agredir, abster-se da discussão, ficar vexado quando contradito,
consciência dos participantes, o papel do animador e os métodos usa-
usar máscaras, embarcar na imagem que se espera ou que se impôs a si)
dos. Seja claro, preciso, enviado de antemão com data, hora, lugar, du-
atuar simplesmente para agradar os outros, buscando aprovação ou
ração. O ideal é ter um cronogra1na de reuniões: mensal, se1nestral, anual.
compaixão. Assumam-se, pelo contrário, atitudes positivas, como as de
O programa deve ser conhecido e aceito por todos.
ser autônomo, de aceitar que se está em processo, em crescimento e
Normalmente haja para a reunião uma pauta na qual se indiquem
mudança, de constatar que seus sentimentos são complexos, mutáveis,
os assuntos e pontos a ser tratados. Aponta-se o objetivo a ser alcançado.
contraditórios, de estar aberto a novas experiências, de acolher o outro
Avança-se, se possível, a maneira como se pensa abordar os temas. E o
não fazendo juízo negativo de valor sobre ele, de ter confiança em si.
animador apresente, no início, a perspectiva desejada no encaminha-
Os participantes busquem criar unidade e consciência coletiva para
mento dos assuntos.
além da soma dos indivíduos por meio de relações fraternas, pelo respeito
à diferença de personalidades, pelo correto enfrentamento das tensões,
Os participantes
por atitudes de transparência, clareza, pertinência, coerência e objetivi-
Sua atitude fundamental é participar, entrar nas regras do jogo da dade na comunicação. Esta leve em consideração os três elementos:
reunião, conhecendo-lhe bem os objetivos, contribuindo com o que tem emissor, 1nensagem e receptor. O clima seja de empatia, de tal modo que
de melhor, para que se crie uma responsabilidade de todos pelo resultado todos se sintam à vontade para exprimir-se livremente e se perceban1
da reunião. tratados de modo pessoal.
A participação supõe saber escutar, reagir às intervenções e tomar Resumindo: o decálogo do participante'.
posição ativa desde a preparação até a últiina decisão e avaliação. 1. Fale francamente: vença a timidez. Diga o que pensa. Sua ideia é
Evitem-se digressões nas intervenções. Sejam pessoais, breves, claras, tão importante quanto as dos demais. Uma opinião absurda hoje poderá
preparadas de antemão, a propósito do assunto. representar uma solução amanhã. Procure chegar a utna conclusão. Dis-
Há duas atitudes extremas por parte dos participantes que empo- cussões sem conclusão são estéreis e frustrantes.
brecem ou in1pedem u1n botn andamento da reunião. Uma seria a de
não acreditar em si, por modéstia exagerada, pensando que em nada 3. Baseado em textos de Silvino Fritzcn, Exercícios práticos de dinâmica de grupo, vai.
pode contribuir. Outra a da arrogância e da autossuficiência de que1n só 2, Treinan1ento de líderes voluntários, Petrópolis, Vozes, 1982.

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9. REUNIÃO DE GRUPO
PARTE li. ASPECIUS DA VIDA DE ESTUDO

2. Ouça com cuidado o que os outros dizem. Compreenda-os, inesmo Função


que discorde. Escute com atenção, sem falsear o sentido das palavras A função do coordenador é fazer todos participarem da reunião;
alheias. retomar o assunto quando alguém digressiona; manter o clima afetivo
3. Fique sentado: não imponha sua ideia por meio de uma atitude de confiança, de intercâmbio, de relações humanas; saber bem claro qual/
física, ficando em pé. A violência é a máscara da incompetência. A vee- quais o(s) objetivo(s) da reunião; fazer elaborar o programa; seguir o
mência não faz um argumento forte. plano diferentemente conforme os programas e grupos; adaptar o pro-
4. Evite interromper quem estiver falando: anote sua observação. grama conforme os desejos dos participantes; ajudá-los a perceber a
Aguarde sua vez de usar a palavra. Se todos falarem ao mesmo tempo, hierarquia de valores dos pontos da pauta; facilitar a tomada de decisão;
ninguém entenderá ninguém. ajudar a que cada um assuma sua responsabilidade na reunião; recordar,
5. Evite monopolizar o debate: reunião é diálogo e não monólogo. no início da reunião, os objetivos e o programa anteriormente decididos;
Faça observações que tenham importância efetiva, como fatos e exemplos. evitar a dispersão dos esforços e das intervenções; fazer de tempo a tempo
Evite digressões. Não se mostre obstinado na sua opinião. Permita que um balanço do andamento da reunião, das etapas já percorridas e a
outros também participem. Incentive o tímido e o constrangido: podem percorrer; favorecer o intercâmbio dos participantes.
ter ideias valiosas. O coordenador precisa saber organizar, refletir (pensar), propor meios
6. Não fuja da reunião: não fique calado, indiferente ao que se passa. e métodos, prever avaliações coletivas, ser inovador quanto aos métodos,
Se não entender, pergunte. Mostre-se interessado. Seja autêntico. favorecer certa autonomia interior e exterior.
7. Se discordar de alguma coisa, manifeste-o logo com naturalidade Que confira, ordenadamente, a palavra aos membros do grupo à
e bom humor. Apresente primeiro a opinião da qual discorda e, em se- medida que a solicitem e vele para que cada u1n espere sua vez; evite
guida, exponha a própria. interromper alguém que esteja falando, sendo breve e sucinto e1n suas
8. Não deixe de fazer uma observação no momento oportuno: colete intervenções. O grupo poderá estipular) de antemão, um tempo-limite
material (artigos, livros etc.). Prepare-se para a reunião, lendo previa- para as intervenções. O coordenador zelará para que seja observado.
mente o temário e consultando possíveis fontes de referência. O uso da palavra será franqueado à medida que solicitado, seguindo a lista
9. Não leve as preocupações para casa, mas somente as questões para de inscrição, salvo caso em que a intervenção se dirija diretan1ente ao que se
refletir. Reflita e estude-as. Encare o seu trabalho como algo integrado à acaba de dizer. Que então se seja breve, para não lesar o direito dos inscritos.
vida e não só como meio de sobrevivência. Espera-se do coordenador coerência entre o que diz e o que faz)
1O. Não comente fora, com estranhos, o vivido em nível confidencial isenção na relação com as pessoas, incentivo à harmonia na reunião,
no grupo: guarde a discrição, o direito do outro à boa fama e a ética estímulo aos talentos dos participantes, distribuindo responsabilidades
profissional. de modo que cada um saiba o que deve fazer. Que se evitem os discursos
moralistas, os conselhos: vocês devem, vocês não podem etc.
Coordenador Na relação com as pessoas, tenha compreensão, seja apoio, evite
Cada grupo deve ter um coordenador. Podem-se acrescentar, para dependência, diga o que se espera delas, leve-as a observar elas mesmas
ajudá-lo na tarefa, um relator e um cronometrista. Para ganhar tempo, o desenrolar da reunião, seja disponível diante delas e dos acontecimentos,
ou o coordenador geral (professor) sugira algumas pessoas previamente distendido, sincero, leal em relação ao outro, lúcido; tenha confiança em
sondadas para essas três funções, ou alguém se prontifique imediatamente si e nos outros, possua formação e competência na função de coordena-
para tal. dor, respeite o outro.

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO
• 9. REUNIAO DE GRUPO

Tipos e defeitos do coordenador abertas, não diretivas e provocadoras de respostas pessoais, não muito
Há dois tipos bem diferentes de coordenador. O coordenador dire- abundantes, variadas quanto ao tipo.
tivo, que conduz a reunião na forma e no conteúdo, e o coordenador
não diretivo, que se recusa a dar orientação. Outros elementos
Os defeitos do coordenador são: referir tudo a si, prever tudo e não Conforme a natureza da reunião, ela pode exigir que se faça uma ata.
ter jogo de cintura, ter ideias demais, agregar algo a cada intervenção de Esta tem maior formalidade. Existem modelos de ata. Ela serve de me-
alguém, interrogar sempre os mesmos, valorizar alguns participantes e mória do grupo, de fonte de avaliação e de matéria para seguir a evolução
desinteressar-se de outros, não comunicar a experiência e a consciência do grupo. Versa sobre o assunto discutido, sobre as ideias principais e
da situação. secundárias, sobre a posição das pessoas e sobre as conclusões e decisões
tomadas. Para isto, anotem-se a pauta, a sequência da discussão, as sínteses
Funções auxiliares parciais e final, as decisões: objetivos, prioridade, responsabilidades/ta-
Para ajudar o coordenador, o cronometrista controla o tempo do refas, prazo, meios, gastos previstos, controle.
desenrolar da reunião para que todas as tarefas sejam cumpridas em Outras reuniões visam produzir um relatório a ser comunicado no
tempo hábil. Controla também a duração da intervenção dos membros plenário. A função do relator é prepará-lo e apresentá-lo quando solicitado
conforme o tempo estipulado para tal segundo prévio acordo do e da maneira prevista, seja por leitura, seja por cartazes ou outra forma.
grupo. É bom que uma reunião termine com breve avaliação, de inaneira
Durante a reunião, o relator anotará oportunamente as ideias mais oral, escrita ou ambas. Percorram-se os diversos fatores e elen1entos
importantes, as sugestões e as conclusões do grupo. Nos últimos dez a envolvidos na reunião. Para tal, elabore-se um roteiro ou deixe-se à es-
quinze minutos, submeterá o que escreveu ao juízo e à aprovação de todo pontaneidade do momento.
o grupo.
Distribuição de tarefas numa reunião
Técnicas Uma reunião tem um mínimo de tarefas a ser distribuídas. Em geral,
Os métodos devem ser adaptados aos objetivos, ao programa, ao são as do coordenador, do relator e eventualmente de um cronometrista.
grupo e ao coordenador com meios que facilitem a compreensão e o No entanto, conforme a natureza da reunião, ou do grupo, faz-se neces-
intercâmbio: mesas, cadeiras, audiovisuais etc. sário aumentar essas tarefas a fim de que se tenham reuniões mais vivas.
A pergunta cumpre função muito importante: no início para saber Sugerem-se aqui algumas atribuições 1 :
até onde os participantes estão informados do assunto, depois para pro- - Animador ou coordenador do encontro
vocar o estudo do assunto, esclarecer afirmações, fazer avançar a reflexão, - Iniciador para cada atividade: anuncia, controla o desenrolar das
reorientar o rumo da discussão quando se desviou, precisar as ações, diversas atividades
evitando que se tomem decisões apressadas. - Planejador: planeja cada atividade, recebe as sugestões de
Há vários tipos de perguntas: fechadas ou orientadas, abertas, de mudança
múltipla escolha, diretamente a alguém, feita ao grupo em geral etc.
As perguntas devem deixar claras as intenções de quem pergunta, ser 4. Estas sugestões são tiradas de Waldemar de Grcgori, Cibernática social, n1in1eo.,
breves, claras, fáceis, precisas, sem ambiguidade, sem atitude de defesa, Florianópolis, CNBB Regional Sul IV, 6ª ed., s/d.

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PARTE li. ASPECIUS DA VIDA DE ESTUDO 9. REUNIÃO DE GRUPO

- Secretário: prepara as atas ou relatórios - Muralista: encarregado de preparar o mural


- Recepcionista: acolhe as pessoas - Dicionarista: fornece bibliografia, explica termos difíceis, enri-
- Explicitador: encarregado de explicar o assunto a pedido do quece o vocabulário do grupo
animador - Avaliador. pensa na avaliação diária, de certas atividades, do curso
- Avaliador de lideranças: ao final se pronuncia sobre o desempe- todo
nho das lideranças - Técnico de serviços gerais: cuida das coisas materiais do curso
- Superego do grupo: avalia o grupo e comunica isso a ele - Estatístico: desenvolve os gráficos estatísticos que interessem ao
- Condecorador. observa os participantes e reconhece algum mé- grupo
rito; incentiva o lado positivo das pessoas - Psicólogo: traça o perfil psicológico dos membros; denuncia os
- Curinga: observa o funcionamento dos grupos para sugerir bloqueios individuais e grupais; observa as mudanças das
mudanças pessoas
- Estilista: observa cada um na sua comunicação verbal e não verbal - Mediador. harmoniza, reconcilia os conflitos do grupo, entre
e destaca algo a ser comentado determinadas pessoas
- Memória do grupo: repete para o grupo o desenrolar do dia/ - Aconselhador. aconselha os membros que se omitem, fogen1,
assunto escapam, se eximem da vida do grupo
- Biógrafo: vai comunicando ao grupo pormenores da vida dos - Sintetizador: sintetiza as atividades, o trabalho do dia, as dis-
membros depois de pesquisá-los cussões em poucas palavras ou imagens
- Analista de resistência: observa dificuldades, atitudes implícitas - Poeta: faz versos sobre a turma
e explícitas de resistência dos indivíduos e do grupo - Revisor de técnicas: ocupa-se das dinâmicas: explica-as, modifica-
- Esteta e sensibilizador. chama a atenção do grupo para coisas as, motiva-as; sugere novas
bonitas - Ecônomo: encarregado das compras
- Repórter: comunica as últimas novidades de dentro e de fora;
elabora crônicas de situações divertidas, reais ou imaginárias
Plenário
- Fotógrafo: faz reportagem fotográfica do grupo
- Recreador. promove momentos de distensão Frequentemente a uma reunião de grupo segue-se o plenário, quando
- Carismático: aponta metas ideais para os indivíduos e o grupo os grupos apresentam o resultado de sua discussão. A organização de
- Pragmático: aponta tarefas concretas para o grupo um plenário tem sua arte e sua técnica. Evidentemente depende muito
- Espiritualizador: preocupado com a dimensão espiritual do do tamanho. É difícil oferecer orientações que sirvam para qualquer tipo
grupo e dos indivíduos, faz sugestões nesse sentido e incentiva de plenário.
pequenos momentos espiritualizantes A forn1a tradicional é a exposição sucessiva dos grupos. Muitas vezes
- Monitor: coordena subgrupos isso torna o plenário monótono, se não se consegue alguma criatividade.
- Rastreador de comunicação: atenta ao que se passa no grupo no Outra forma, mais viva, é apresentar em cartazes as linhas mestras
campo da comunicação das discussões em grupo. Expô-los e deixar que as pessoas os leiam pes-
- Futurólogo: atenta para as tendências de evolução do grupo soalmente e eventualmente comentem com quem estiver ao lado. Depois
- Conscientizador social: ajuda o grupo a perceber a dimensão social de um tempo, organize-se a discussão.

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9. llEUN!Ãü DE GRCPO
PARTE!!. ASPECJ'OS DA \'IDA DE ESl UDO

O coordenador do plenário precisa ser alguém de mente clara, capaz Dinâmica que envolve grupo e plenário
de formular as propostas de maneira sucinta e inteligível, evitando 1. Facilita uma discussão em grupo, em vista de um plenário
perda de tempo. Nunca se faz uma pergunta aberta a um auditório. integrador, que se formule a questão de forma condicional e
Sempre alternativas a serem escolhidas. É importante controlar o tempo parcial, de modo que somente o conjunto das proposições cubra
das intervenções, evitando longos discursos dos participantes. Um bom o assunto todo. Exemplo: "O aluno na sala de aula".
limite máximo é de três minutos para cada intervenção. a. Se o aluno é o agente mais importante na aprendizagen1,
Defina-se claramente o objetivo do plenário: simples socialização então explicitar conforme sua experiência a função do
dos resultados dos grupos, avanço na discussão temática, busca de ele- professor;
mentos comuns em vista de uma síntese etc. Conforme a finalidade, b. Se o aluno necessita adquirir conhecimentos, então discutir
oriente-se o procedimento de modos diferentes. a função da matéria de ensino na sua formação;
c. Se a aprendizagem hoje deve ser ativa e participada, então
discutir sobre o sistema escolar que você experimentou até
Conclusão hoje;
d. Se se valoriza muito hoje a interação nos grupos, analisar
A vida acadêmica, tanto de professores como de alunos, está per1neada na sua experiência escolar como ela se realizou entre colegas
de reuniões. Por falta de sua organização e de sua condução adequada, e com o professor.
perde-se muito em tempo e eficiência. Aqui se recolheram e sistemati- 2. Cada grupo caracterize o problema:
zaram elementos que servissem para agilizar as reuniões. - análise conceituai
A tendência da pós-modernidade é valorizar cada vez mais o trabalho - exemplificação concreta
em grupo no nível de produção e de socialização de conhecimentos. Em - sentido fundamental do problema.
pesquisas de alto valor, o trabalho em grupo tem-se tornado imprescin- 3. Cada grupo desenvolva o tema, ampliando-o ou encontrando
dível. Desenvolver tais qualidades já na formação facilita um futuro alternativas.
entrosamento melhor no trabalho de pesquisa. 4. Cada grupo sistematize o tema, selecionando e organizando as
contribuições por ele julgadas válidas.
5. Avaliação: o grupo avalie a própria tarefa nos seus pontos po-
Bibliografia sitivos e negativos em vista de melhorar eventuais futuras
discussões.
BEAL, G., BOHLEN, J., RAUDABAUGH, J., Liderança e dinâmica de grupo, R.io de 6. Comunicação em plenário de modo integrador: cada grupo
Janeiro, Zahar, 1970. comunica sua visão parcial do problema de modo que no final
EIVERS, M. J., VITALE, A. P., Líderes leigos. Manual de treinamento, São Paulo,
se terá um quadro completo, se a formulação das questões foi
Loyola, 1993. realmente integradora.
3
MACCIO, Ch., Anilnation de groupes, Lyon, Chronique Social de France, 1969.
OLIVEIRA LIMA, L. de, Treinan1ento em dinâmica de grupo: no lar, na empresa, na
escola, Petrópolis, Vozes, 2 1970.

163
162
PARTE IL ASPECIOS l>A \'IDA DE ESTUDO

t
l
Dinâmica alternativa
Celebração do 1º de maio

1. Formular o problema de forma condicional e de tal modo que 1O. Processo de produção intelectual
para cada grupo toque um aspecto e o complexo do problema
seja abordado pelo conjunto dos grupos:
a. Se a festa de 1° de maio teve origem numa vitória operária,
então explicar por que ela se tornou uma festa de um sistema Vivendo, se aprende; mas o que se aprende,
capitalista antioperário (causa histórica); mais, é só a fazer outras maiores perguntas.
b. Se a festa de 1° de maio traduz aspirações das classes popu- GUIMARAES ROSA
lares, explicar então por que perdeu seu sentido conscienti-
zador (causa estrutural);
c. Se a festa de 1° de maio é dos trabalhadores, então explicar
por que a juventude a curte com músicas de cunho americano,
alheias ao mundo operário (causa conjuntural).
2. Cada grupo caracterize o problema:
- análise conceitua! Introdução
- exemplificação concreta
- sentido fundamental do problema. Há certo mito a respeito da tarefa de escrever, sobretudo quando
3. Cada grupo desenvolva o tema, ampliando ou encontrando-lhe a obra se destina a publicação. Muitos temem ver seus escritos lançados
alternativas fora de seu pequeno mundo. No entanto, há também uma literatura
4. Sistematizar: cada grupo selecione e organize as contribuições barata que cresce. Pessoas capazes de captar alguma carência ou desejo
julgadas válidas pelo próprio grupo. recalcado produzem textos orientados para o mercado. Não entra em
5. Avaliação: o grupo avalie a própria tarefa: aspectos positivos, questão para elas os valores ético, literário ou de conteúdo, mas simples-
negativos e prospectivos. mente atender à demanda do consumo.
6. Comunicação integradora em plenário: cada grupo comunique Cabe, portanto, ressuscitar a seriedade da arte de escrever, sua
sua visão parcial do problema a fim de formar-se um quadro responsabilidade, sua gravidade. Mas também desmitificá-la, fazendo-a
completo ao terminar a leitura de todos os relatórios. mais acessível às pessoas, desde que se eduquem. A cultura icónica, a
linguagem dos correios eletrônicos e das conversas via Internet terminam
por destruir a estrutura da linguagem. Escreve-se em urna mistura de
português e inglês de computador.
Aqui se oferecem alguns subsídios para as pessoas porem em funcio-
namento sua inteligência na produção de um texto. Acentua-se especial-
mente a necessidade de estruturar as ideias antes de dar-se à tarefa da
escrita. As sugestões vão principalmente nesse sentido.

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PARTE ll. ASPEC"TOS DA VIDA DE ESTUDO lll. PROCESSO llF. PRODUÇÃO INTELECTUAL

Fatores decisivos Decisão de escrever para publicar


Pressuposta essa base mínin1a de personalidade, podemos lançar mão
Na vida intelectual, a produção depende de vários fatores. Evidente-
de ajudas para a produção intelectual. Antes de tudo, há algo absoluta-
mente, supõe uma base de inteligência e de cultura. A inteligência é
mente primário. Precisa-se de tempo para escrever em vista de uma
dom que se recebe gratuitamente. A cultura adquire-se ao longo da vida
publicação, já que a forma deve ser mais acurada. Como vimos não existe,
com esforço e método. em última análise, falta de tempo. A questão é de prioridade. Escrever
deve tornar-se prioridade na vida de alguém que quer tornar-se escritor.
Exercício de aprendizagem É o óbvio. Isso implica qne outras atividades deverão ser reduzidas ou
A maior ou menor facilidade de escrever depende, num primeiro mo- mesmo deixadas de lado. Com a prioridade para a escrita, outras ativi-
mento, do exercício de aprendizagem vivido na família e praticado nos dades gratificantes devem ser sacrificadas.
anos escolares. Alguén1 que desde criança vive num ambiente fa1niliar mais
culto assimila melhor as estruturas linguísticas que lhe facilitarão mais tarde Forçar as portas
a arte de escrever. Além disso, o exercício de fazer composições na escola Toda obra literária é uma pequena aventura, com seus riscos de su-
vai forn1ando uma inteligência apta a expressar-se mais facilmente. cesso ou fracasso. Entrar no clube dos escritores é difícil, já que as portas
Aos professores cabe ensinar a estrutura simples de toda composi- não estão abertas. É preciso forçá-las. Isso vale até mesmo para trabalhos
ção: introdução, corpo estruturado em partes e conclusão. E também
escolares, etn que o aluno se intimida diante do professor ou de alguma
velar para que o aluno saiba organizar suas ideias de 1naneira lógica,
chacota de colegas.
progressiva e estruturada, além de proceder às correções necessárias a
respeito da linguagem. Há manuais que orientam os alunos a fazer re-
Liberdade interior e liberdade exterior
dações de diversos gêneros.
Uma terceira atitude básica é a da liberdade, a interior e a exterior. A
liberdade interior é um trabalho formativo de autocontrole. Tanta coisa nos
Fator de personalidade
amarra por dentro e nos impede de ter o ânimo livre para os estudos e de
Há um fator fundamental de personalidade que favorece ou inibe exprimir o que pensamos. Só um cultivo dessa liberdade do coração cria
a produção literária. Escrever para publicar implica uma estrutura psí- uma atmosfera propícia ao estudo A liberdade exterior é dada pela instituição
quica que tenha um grau de segurança tal que suporte expor-se às críticas em que a pessoa vive ou trabalha, pelo ambiente cultural geral, pelas situa-
sem se quebrar. Uma vez que alguém se aventura no mundo das publi- ções familiares ou outras. O mundo moderno tende a dificultá-la. É preciso
cações, cai imediatamente sob possíveis críticas, quer quanto a suas ideias, muito mais disciplina e busca consciente e decidida para consegui-la.
quer quanto a sua maneira de escrever. Pessoas inseguras, perfeccionis-
tas, obsessivas, rigoristas têm enorme dificuldade de escrever e publicar
seus escritos. Nunca os julgam suficientemente bons para tal. Temem o Escolha do assunto
mínimo sinal de rejeição, que pode ser sentido na crítica. Psicanalistas
alertam-nos para o enorme temor que o ser humano tem de ser rejeitado. Motivação e interesse
Prefere então nunca escrever nem publicar nada, com medo de ser criti- A produção intelectual é açulada, no seu nível mais profundo, pelo
cado. Escrever é, portanto, antes de tudo um fator de personalidade. desejo e pela busca da verdade. Prigogine reconhece que a visão positi-

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PAll.JE li. ASPECTOS DA VIDA DE FSTUDO 10. PROCESSO DE PRODUÇÃO INTEl.ECTlJA!

vista da realidade anula grande parte do atrativo da ciência. Este vem temente enorme variedade de exigências, conforme o nível do trabalho
antes pela sedução dos mistérios do universo. Toda produção intelectual acadêmico - do pequeno exercício de aula até uma tese de doutorado.
tem na base, pelo menos, um mínimo de encantamento, de gratuidade, No entanto, algumas observações poderão ser válidas para todos.
de "exposição" ao real como dado, como dom. Na época de estudante, trata-se fundamentalmente de adquirir uma
Em termos mais pequeninos, as pessoas se movem por interesses, mentalidade científica e uma metodologia correta de trabalho seguindo
curiosidades, pequenas buscas. Um primeiro passo para o bom sucesso um conjunto de normas e princípios epistemológicos, lógicos e até técni-
num trabalho é sondar seu mundo de desejos e encontrar nele o tema. cos convencionalmente aceitos como pré-requisitos de um trabalho
Se, por acaso, o tema nos é imposto ou solicitado externamente, científico.
cabe-nos transformá-lo numa tarefa pessoal e interessada. Do contrário,
carregamos fardo pesado e a produção nasce dolorosamente, a fórceps. Critérios de escolha

Natureza do trabalho O assunto não deve ser nem tão amplo que não se consiga abarcá-
lo com pertinência, nem tão restrito que não tenha substância, arris-
A escolha do tema depende fundamentalmente da natureza do cando-se a uma prolixidade vazia. Evidentemente, quanto mais exigente
trabalho. Antes de tudo, cabe distinguir um trabalho acadêmico de um for o grau acadêmico ambicionado - exercício escolar, monografia
ensaio. Os ensaios são todos os escritos que não se submetem às regras de bacharelado, de mestrado, de doutorado - , tanto mais exaustivo
tanto epistemológicas como metodológicas do mundo científico, acadê- deve ser o trabalho. Ora, para esgotar um tema é necessário circuns-
mico. Refletem mais a posição livre, criativa do autor, que pode estar crevê-lo, do contrário ou não se tern1ina nunca, ou se acaba perdido
aventando novas proposições, teorias, perspectivas. Ele não se preocupa em vaguidades.
en1 fundamentá-las em textos, fontes, aparato científico, mas baseia-se É muito comum os alunos escolherem temas sedutores, mas vastos
de preferência em suas intuições, experiências, percepções pessoais. demais. Fica, então, difícil fazer um trabalho rigoroso e cumprir as exi-
Deixando de lado tal tipo de obras, concentramo-nos naquelas de natu- gências acadê1nicas referentes à sua natureza. Os temas que pedem antes
reza acadêmica. síntese que análise atraem mais, mas são os menos aconselhados para
exercícios acadêmicos. Assim, por exemplo, fazer um trabalho conclusivo
Trabalhos acadêmicos de curso, ou de mestrado, ou de doutorado, sobre ((as dimensões da crise
Há trabalhos acadêmicos de vários tipos. Uns são pesquisas e inves- atual" ou "a emergência de um novo paradigma" etc. é enveredar por
tigações científicas que enfrentam determinado problema em busca de uma trilha sem fim.
uma solução, desde o nível experimental até as mais teóricas. Existem O mais aconselhável para um trabalho acadêmico é fazer uma dupla
em todo mundo institutos de pesquisa em diferentes níveis, hoje alta- escolha: um tema num autor.
mente financiados em vista, em geral, de avanços tecnológicos e 1nerca- Dessa maneira, circunscreve-se mais a questão. E, se o autor é muito
dológicos. Muitas dessas descobertas, inovações tecnológicas e invenções estudado ou de obra muito ampla, o tema tem de ser mais restrito, limi-
são co1nunicadas nos congressos mundiais do ramo. tando-se a determinadas obras. Para autores clássicos como Platão,
Aqui nos ocupamos de algo mais modesto. Trata-se de qualquer tra- Aristóteles, Santo Tomás, Hegel, Kant, Marx etc., cuja obra por eles e
balho que queira seguir um mínimo de regras convencionalmente aceitas sobre eles é assombrosa, o tema precisa ser muito bem delimitado para
no mundo acadêmico como maneira científica de proceder. Há eviden- se chegar ao término do trabalho.

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE E'.'.>TUDO !O. PROCESSO DE PRODUÇÃO INTELECTL'AL

Delimitar o tema
quântica, da cosmologia moderna?" Nesse caso, sabe-se o que é paradigma
Delin1ita-se o tema definindo negativamente de que não se vai tratar, ocidental, mas não se sabe ainda se ele dá ou não conta dos novos fenô-
mas que pareceria ser assunto do trabalho. Depois, formula-se positiva- menos científicos. Tal confronto é o objeto do estudo.
mente o tema na forma de uma pergunta.

A delimitação pode ser material e formal. Material, definindo bem


Exemplo de delimitação de conceito o objeto sobre o qual se vai tratar. Formal, indicando o ângulo, a dimen-
são, o aspecto a ser enfocado.
Ao trabalhar a mudança de paradigma em L. Boff, começa-se dizendo que
não se trata de discutir a categoria "paradigma", nem assumi-la no sentido
estritamente científico, nem entrar na complicada questão dos possíveis
Objeto material e formal
usos do conceito para além das ciências empíricas. Continuando com o
mesmo exemplo, diz-se então de modo positivo de que se trata. No caso, Toma-se, por exemplo, como objeto material de uma reflexão a cidade. Este
se assume o termo como H. Küng elaborou para o uso teológico. Então a mesmo objeto material pode ser estudado sob diferentes perspectivas:
pergunta básica seria: tomando o sentido de paradigma na explicação sociológica, urbanística, teológica etc. Assim temos uma sociologia da
teológica de H. Küng, pode-se dizer que L. Boff, com suas últimas obras cidade, uma arquitetura da cidade, uma teologia da cidade etc. Estas pers-
de corte antropocósmico, mudou de paradigma em relação à sua fase pectivas permitem estudar um mesmo objeto material sob ângulos dife-
antropo-histórica? 1 rentes, isto é, sob objetos formais.

Quanto melhor se determinar o tema, quanto mais clara for a per- Exemplos de temas de trabalho
gunta ou mais definida a afirmação central, tanto mais fácil será elaborar
Escolhe-se um fato, um tema, um conceito e busca-se sua intelecção.
o trabalho. Se o sujeito da pergunta formulada só é inteligível com a
Nesse caso, precisa-se ter bem claro que tipo de intelecção se procura.
suposição de, pelo menos, parte da resposta, a pergunta está mal feita,
Ela pode ser de natureza positiva, isto é, como tal tema foi entendido nas
viciada. Porque não se sabe o que se está perguntando. O sujeito da per-
fontes. Ou de caráter especulativo - como, com o auxílio de elementos
gunta precisa ser claro, embora não se saiba a resposta. Mas, se não se
filosóficos ou outros afins, esse tema se torna mais claro. Esse segundo
sabe qual é o sujeito, não se pode trabalhar.
caminho é muito perigoso para dissertações, embora sirva para obras
mais maduras. Y. Congar escolheu o tema da Tradição (Y. Congar, La
Tradition et les traditions, Paris, 1960) e R. Latourelle estudou o fato da
Exemplos equivocado e correto de pergunta
Revelação (R. Latourelle, Teologia da Revelação, São Paulo, Pauli nas, 1972 ):
"Em que consiste o novo paradigma?" Esta pergunta está mal feita. Pois só ambos são exemplos clássicos de trabalhos com duas partes: uma positiva
se saberá que coisa seja novo paradigma depois de responder a ela. A per- e outra especulativa. Aí se percebe o duplo método positivo e especula-
gunta correta: "O paradigma ocidental newtoniano dá conta da física tivo. Folheando, pois, a obra de R. Latourelle, vetnos que nas prin1eiras
partes do livro ele faz um estudo positivo do conceito de Revelação na
1. Ver P. A. Nogueira Baptista, Diálogo e ecologia. A teologia teoantropocósnúca de Escritura, nos Santos Padres, na Tradição teológica, no Magistério da
Leonardo Boff, dissertação de mestrado, ICHL, UFJF, Juiz de Fora, 2001. Igreja, para num segundo momento desenvolver uma reflexão especula-

170 171
PAll.TF li. ASPECTOS DA VIDA DE ESfUDO

tiva sobre a Revelação corno palavra, testemunho e encontro, na sua


relação com a criação, com a história, com a Encarnação, com a luz da
í lO. PROCESSO DE PRODUÇÃO IN IELFCTUAL

A questão agora é a seguinte: como a nossa inteligência é educada


a estruturar as ideias? Por que umas pessoas têm tanta facilidade em
fé, com o milagre, com a Igreja, com a visão beatífica, na sua finalidade, organizar e apresentar claramente seus pensamentos e outras se emara-
na sua unidade e na sua complexidade. nham neles? Sem entrar em nenhuma disquisição psicológica, apresen-
O caminho mais seguro e fácil é escolher um tema num deter- taremos três subsídios concretos para pensar ordenadamente.
minado autor, como os abordados por M. Clara L. Bingemer (Em Trata-se de recursos que provocam a inteligência a proceder ordena-
tudo amar e servir. Mística trinitária e práxis cristã em Santo Inácio de damente, já que se apoiam em estruturas anteriores, sejam dadas pela
Loyola, São Paulo, Loyola, 1990), e L. C. Lavall (O mistério Santo: "Deus natureza, sejam construídas pela nossa inteligência. Como todo meio,
Pai" na teologia de K. Rahner, São Paulo, Loyola, 1987), e tantos outros deve ser usado na medida em que sirva. Aqui vale o dito evangélico: não
semelhantes. é o homem feito para o sábado, mas o sábado para o homem (cf. Me
Outro tipo de trabalho é o estudo de um documento. Isso implica 2,27). Ou como dizia ironicamente C. Mesters: "Para se ver melhor, não
uma pesquisa analítica sociocultural e literal. Um excelente exemplo é o se pinga o colírio na realidade, mas nos olhos''.
estudo da fórmula de Calcedónia de A. Grillmeier ( Gesu il Cristo nella
fede della Chiesa. Dali' età apostolica al Concilio di Calcedonia, Brescia,
Paideia, 1982: II: 955-968. Outro, a análise feita por 1. Ortiz de Urbina
Uso de imagens concretas
do Símbolo de Niceia: o texto, a origem, a estrutura, a exegese e o valor
dogmático (El símbolo niceno, Madri, Aldecoa, 1947). Descrição do método
Esses estudos são inodelos para eventuais trabalhos dessa natureza.
Indicam um método que vai desde a constituição do texto até seu signi- Para responder a essa dupla dificuldade, seja de desenvolver um tema,
ficado, seu alcance teórico, passando pelas análises textual, estrutural e seja de organizar um acervo de ideias, sugerimos recorrer a esquemas
outras. pré-lógicos. São pequenas estruturas ou relações permanentes que, em
geral, adquirimos a partir de nossa experiência e nossa observação,
que servem para organizar nossas ideias e criar esquemas de redação
Estruturação do trabalho ou elocução (esquemas de discurso).
Num primeiro momento, a partir do simples nível de observação,
A deficiência de exercícios de composição - introdução, corpo es- selecionamos algumas realidades que permitem elaborar un1 esquema
truturado e conclusão-, de um lado, e o predomínio de um conheci- pré-lógico. Em seguida, detalhamos tal esquema. Em momento ulterior,
mento icónico - aprendizado do uso dos programas de computador-, comparamos o ten1a teórico a ser desenvolvido com esse esquema pré-
de outro, têm criado uma geração pouco habituada a um pensamento lógico detalhado, de maneira que seus elementos provoque criativamente
estruturado. Daí a imensa dificuldade em escrever um trabalho orgânico, nossa inteligência.
progressivo, em que haja começo, meio e fim e em que as partes se suce- À guisa de exemplo, vamos trabalhar um esquema pré-lógico em
dam segundo um mínimo de lógica. articulação com um tema seguindo três passos:
Todo trabalho acadêmico obedece a regras estruturais. Ele precisa 1. escolha do esquema pré-logico;
ter urna lógica interna que se manifesta num todo dividido em partes 2. seu detalha1nento em elementos;
entre si logicamente articuladas. Mais adiante trataremos desse assunto. 3. desenvolvimento do tema teórico segundo tal esquema.

172 173
p,\RTE l!. ASPECfOS DA VlllA DE ESTUDO
1 10. PROCESSO DE PRODUÇÃO IN Il:LECrUAL

Antes, porém, uma pequena observação prática. Os esquemas pré- A secura do dia a dia ameaça a robustez de uma amizade já plantada.
lógicos são imagens que retratam uma realidade viva, em movimento, Importa regá-la com a memória dos momentos felizes vividos juntos.
ou uma realidade morta, fixa. Assim, se pretendemos dar a nossa elabo- Mas nada é tão importante para que ela permaneça sempre verde quanto
ração teórica uma perspectiva mais estrutural, devemos escolher uma a seiva do afeto. Somos pessoas humanas frágeis. Vivemos momentos de
realidade morta, fixa. Se pretendemos dar-lhe uma visão histórica, de contradição e falha. Surgem as crises, as dificuldades. Muitas vezes são
sucessão, calha melhor uma figura viva. machadadas fatais. Outras vezes convertem-se em podas, de modo que a
amizade brota ainda mais vigorosa.
A a1nizade tem história. Suas estações são diferentes. Começam como
Exemplificação do método
a primavera florida. Não faltam invernos que ora antecedem ora sucedem
Escolha do esquema e do tema aos momentos primaveris. Nalguns momentos, vivemos o calor do verão
Tomemos o exemplo da árvore. É algo vivo. Portanto favorece um forte. Para enfim, em tempos bonançosos, sobretudo quando a maturi-
relacionamento com um tema vivo. Escolhamos a amizade. dade afetiva já alcançou etapa mais alta, vivermos o outono dos frutos.
Enfim, a amizade é uma realidade para as quatro estações.
Detalhamento do esquema
Com um esforço de observação e fantasia, detalhemos a realidade da Outros esquemas pré-lógicos
árvore. Encontramos nela e relacionada a ela uma série de elementos: O exemplo acima desenvolvido permite entender como trabalhar
raiz, tronco, galhos/ramos, folhas, flores, frutos, seiva, colheita, adubação, outros semelhantes. E o próprio exemplo prolongar-se-ia muito mais
irrigação, poda, estações do ano, cultivador etc. desde que se encontrassem mais elementos relacionados com a árvore.
É um método que permite grande elasticidade ou também apresentações
Desenvolvimento do tema da amizade sintéticas, conforme se enucleie mais ou menos a imagem.
a partir de tal esquema pré-lógico da árvore Oferecemos aqui um conjunto de imagens já detalhadas. Cada leitor
Com essa imagem assim detalhada, cotnecemos a falar da amizade com seu senso de observação e sua in1aginação co1npletará e ampliará
comparando-a com cada elemento, não necessariamente de modo ex- os ele1nentos a seu gosto. O importante é captar a intuição fundamental,
plícito - poderia parecer artificial ou tornar o texto pesado - , mas, a saber, a lógica da natureza ajuda a lógica da inteligência. Há um iso-
pelo menos, mentalmente: morfismo radical entre o ser humano e o mundo que o cerca, de tal
A amizade lança sua última raiz numa primeira intuição afetiva maneira que seu pensan1ento se organiza nesse mundo e serve-se de sua
percebida no encontro acolhedor. Robustece-se à medida que a estima orde1n natural ou construída. Aliás, no Evangelho, Jesus usou esse método
entre as pessoas cresce e se solidifica (tronco). Tal movimento de estima ao contar a parábola do semeador. A semente é a palavra de Deus, os
ramifica-se nos tantos gestos de pensar e falar bem do amigo, de alegrar- diversos terrenos são as disposições das pessoas diante da palavra. Em
se com o bem que outros dizem dele. De fato, entre os frutos mais sabo- outro lugar, diz que a colheita é o juízo final etc. (cf. Lc 8,5-15).
rosos da amizade estão a alegria, a satisfação afetiva, o desejo de estar São Paulo tem também um excelente exemplo. Compara a fé a um
junto. Mas dificilmente a planta da amizade resiste ao tempo sem ser combate, ao usar os elementos nele envolvidos: armadura, couraça, es-
adubada pelas visitas, pelos encontros, pelos telefonemas, pelas cartas e cudo, dardos, capacete, espada.
tantos outros meios que pern1item aos amigos fazer-se presentes um ao
outro.

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174
!O. PROCESSO DE PRODL:ÇAO lNTF.l.F.CTUAL
PARTE li. ASPECTOS LM \'[J)A DE ES'J UDO

- Medicina: sintomas: sinais, proble1nas em diferentes níveis,


A fé como combate diagnóstico - levantamento das causas-, terapia - aplicação
"No mais, confortai-vos no Senhor e na força de seu poder. Revesti-vos da do re1nédio a curto, médio e longo prazo-, efeitos terapêuticos
armadura de Deus para poderdes resistir às insídias do diabo. A nossa luta e efeitos colaterais, agentes - médico, enfermeiro, farmacêuti-
não é contra forças humanas mas contra os principados, contra as potes- co-, paciente, doenças - diversas formas e natureza-, local
tades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos de internamento - hospital (suas diversas seções), UTI - ,
maus dos ares. Tomai, pois, a armadura de Deus, para que possais resistir transporte do enfermo - ambulância-, aparelhagem do hos-
no dia mau e, vitoriosos em tudo, vos mantenhais inabaláveis. Ficai alerta, pital, tratamento - dose, supervisão dos efeitos, eventual corre-
cingidos com a verdade, o corpo revestido com a couraça da justiça e os ção da dose etc.
pés calçados, prontos para anunciar o Evangelho da paz. Empunhai a todo
- Ferrovia: locomotiva, maquinista, apito, trilho, dormente, vagões
momento o escudo da fé, com o que podereis inutilizar os dardos infla-
- leito, restaurante, comum, cabine - , a viagem - partida,
mados do maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do
espírito, que é a palavra de Deus. Vivei em oração e em súplicas. Rezai em
trajeto, chegada, fiscal, bilhete-, matula - bagagem, carrega-
todo tempo no Espírito. Guardai uma vigilância contínua na oração e dor - , eletricidade, estação - local, o chefe, os passageiros, as
intercedei por todos os santos" (Ef 6,10-18). despedidas etc.
- Teatro: peça, enredo, atos, atores, figurantes, proscênio, ribalta,
bastidores, camarins, cenários, máscara, coro etc.
Segue-se, à guisa de exemplos, uma série de "esquemas pré-lógicos" - Música: partitura, cantores, instrumentistas, instrumentos, peça
que poderão ser usados para elaborar temas teóricos. musical, pauta, plateia, ensaios, execução festiva, maestro etc.
- Rio: nascente, braços, correnteza, afluentes, foz, barcos, margens, - Escola: professor, direção, alunos, funcionários, lição, aulas, exa-
água limpa ou poluída, vazante, peixes, enchente, ilhas, perigos, me, material escolar, quadro, giz, aprovação ou reprovação,
tempestade, calmaria, assorean1ento, naufrágio, afogamento, premiação etc.
Estes exemplos podem ser ampliados conforme se queira. Além disso,
natação etc.
- Edifício: planta, fundamento, estrutura, divisão interna, fachada, há inúmeras outras imagens que servem à mesma finalidade. Outros
acabamento, material de construção - areia, cimento e tijolo-, exemplos sem detalhamento: obra de arte, escavação geológica, jogo,
arquiteto, engenheiro, operários, local, trabalho, destinatário, plantação, guerra, exército, floresta, cidade, tráfego, igreja, governo, país,
empresa construtora, tipo etc. computação, rádio, TV, programa de auditório etc.
- Desenvolvimento humano: concepção, gestação, parto, amamen-
tação, primeiros passos, vida escolar e suas etapas, infância,
adolescência, juventude, crises de crescimento e existenciais, Esquemas teóricos
maturidade, velhice, vida matrimonial ou consagrada, entrada
Há outro tipo de esquemas, já de natureza teórica e mais elaborada
que oferece1n também pequenas estruturas lógicas facilitadoras. Eles su~
na vida profissional, morte etc.
- Construção de uma máquina: projeto, materiais, supervisão,
põem certa familiaridade com o campo de saber do qual são tomados.
fluxo de suprimentos, ato da construção, preparação das peças,
Facilitam conhecer a realidade, organizar as ideias, preparar exposi-
fabricação, pré-montagem, montagem, acabamento, controle de
ções claras e estruturadas. Indicar-se-ão alguns e a maneira de usá-los.
produção, teste de operação etc.

177
176
10. PROCESSO DE J'RODUÇAO INTE!.ECI UAI.
PARTE li. ASPECTOS llA VIDA DE ESTUDO

a um patamar superior e transformen1 o negativo em positivo (síntese).


Hexâmetro latino
Sendo, porém, uma síntese humana, nela - apesar de teoricamente só
Um dos esquen1 as mais simples para desenvolver um tema ~oi .fo:-
existir positividade - afirmou-se o positivo e negou-se o negativo
mulado por Cícero quando, ao referir-se à narração de um fato, n~s1~t1u
(- x - = + ); surgem necessariamente novas negatividades. Por isso, o
na determinação das circunstâncias. Para descrevê-las, sigam~~~ os top1cos
processo nunca está fechado.
expressos no hexâmetro latino: Quis, quid, ubi, quibus auxtlus, cur, quo-
. 'p Esse esquema serve, por exemplo, para analisar a vida de uma pequena
modo, quando. Quem age? Que faz? Onde o faz? Com que mems. or
comunidade. Debruce-se, num primeiro momento, sobre os elementos
quê? Como? Quando? . contrários ou mesmo contraditórios aí existentes. De um lado, acolhida,
Cada palavra se torna un1 a pergunta que, ao ser respondida, nos
participação, iniciativa, responsabilidade etc., e, de outro, autoritarismos,
obriga a explicitar o fato ou também o assunto teórico.
rejeições, manipulação das pessoas, jogos afetivos confusos etc. Num segundo
momento, trabalhe-se como continuar afirmando a positividade e negando
Categorias centrais: tempo e espaço as negatividades em busca de um modelo melhor de vida comunitária.
Ao abordar uma categoria, uma ideia ou algo semelhante, começamos O que interessa aqui é perceber a capacidade heurística do esquema
estudando como ela foi entendida no passado. Depois, como é c~m­ e saber usá-lo para outras realidades, e não fazer uma análise da pequena
preendida no presente e que perspectivas tem de futuro. Em segUid~, comunidade. Ela serviu unicamente de exemplo.
perguntamos pelos seus elementos permanentes, pelos aspec~os t~rans1-
tórios e superados e pelo processo que levou a essa superaçao. E o es- Amor
quema de tempo. A ele, pode-se conjugar o esquema de espaço. Que É um esquema que permite perceber níveis diferentes de uma reali-
elementos se escondem por trás desse conceito? Que pontos aparecen1 dade. Assim, a ideia de amor é analisada em quatro níveis. O an1or tem
inais claramente aí presentes? Que perspectivas se veem à frente, aos uma base material, biológica. É a nossa condição sexuada. Sem tal con-
lados, embaixo ou em cima? dição, não seria atnor humano. O amor revela também uma dimensão
de falta (eros) em busca de complementação. Reflete a dimensão de
Dialético carência de toda realidade humana. O amor atinge um grau maior no
Mesmo sem assumir necessaria 1nente a estrutura dialética da história, nível da amizade, que exprime a alegria, a complacência, a gratuidade
enl algumas pequenas análises o esquema dialético permite dese~vol~er diante da presença do outro. É uma dimensão também profundamente
pensamento. Parte-se de uma afirmação (tese). Nessa afirmaçao, dis- humana em tudo o que fazemos. É o lado não comercial, não utilitário
0
tinguem-se os valores positivos, o seu real alcance, e os elementos neg~­ de tudo o que existe. É a realidade enquanto dom. E finalmente o amor
t" os os seus limites. Quanto melhor se fizer tal distinção, tanto mais tem uma dimensão que só nos foi manifestada pela revelação cristã. O
f~:il~ente se avançará. Vale sobre esse ponto um conselho didático. Evitar amor é a retirada silenciosa e alegre para que o outro cresça (agape,
quanto possível as afirmações rotundas, sim ou não, segundo o esquema sobrenatural). É a dimensão mais elevada do existir humano, que coloca
do computador, mas antes perceber que em toda reaHdade está presente o outro à frente. Supera-se o amar os outros como a si mesmo. A1nar os
um sim e um não. A ambiguidade é própna da realidade, sobretudo da outros neles mesmos, independentemente de si mesmo.
histórica, da política, da social. Num segundo momento, diante dos Essa estrutura permite discorrer sobre outras realidades humanas,
elementos positivos e negativos, 1nantêm-se os positivos, negam-s_e. os percorrendo, portanto, as quatro dimensões: material, de falta, de com-
negativos (antítese), em busca de novas estruturas que elevem o pos1t1vo placência e de retirada em vista do outro, sobrenatural.

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10. PROCESSO DE PRODUÇAO lNTELl:CTUAI.
PARTE ll. ASPECTOS DA VIDA DE F5TUDO

O ser humano é ação, práxis, com diferentes conotações. Práxis


Antropológico reacionária, ao rejeitar o presente, voltando-se para o passado, defen-
Em geral dendo um antigo sistema, simplificando os problemas, reagindo diante
Um esquema muito simples, que serve para desenvolver um te1na da ameaça, com uma consciência pseudocrítica. Práxis conservadora,
relacionado con1 0 ser humano, é estudá-lo sob o aspecto,da~ suas quatr~ ao aceitar fatalmente o presente, mantendo o sistema, valorizando a
relações fundamentais. Em cada relação, percebem-se n1ve1s estruturais experiência, reagindo contra as ameaças com uma consciência ingênua
e momentos históricos diferentes: .~ . ou cínica e não raramente assumindo forma ora tradicional, ora popu-
a. A relação consigo mesmo implica o nível da autoc~n.sc1enc1a, da lista. Práxis reformista, ao trabalhar para o futuro provável com me-
liberdade e também dos mecanismos inconscientes e cond1c1onamentos lhorias a curto prazo, aceitando mudanças no sistema, valorizando a
tecnologia, a novidade do ter, aproveitando oportunidades, tendo uma
assimilados.
b. A relação com os outros abarca os âmbitos interpessoal (eu e tu), consciência lógica, assumindo forma modernizante, assistencialista e,
comunitário (eu e nós) e societário (classes). no máximo, social-democrata. Práxis crítico-radical, ao construir o
c. A relação com 0 mundo, com a natureza situa-se_n~m plano de futuro desejável com mudanças a longo prazo e do sistema, adotando
submissão, de transformação predatória, de transformaçao integrada, de uma ação conjunta, criando a oportunidade e tendo consciência ética e
consciência ecológica. . científica, valorizando as ciências e o saber popular ao lado da eficácia,
d. A relação com a transcendência conheceu u~ momento de ac~1- da produção, da atividade.
tação tradicional, de decisão ass~mida, de c~m~r~m1sso no campo social, O ser humano é espírito na sua dimensão transcendente, religiosa,
de rejeição ateia, de desconhecimento agnost1co . , . divina. Vive-a de maneira ascética, iluminativa, mística3 •
Tais relações possibilitam analisar o ser humano na sua prop~1a
constituição. As diferentes antropologias são também esquemas heuns- De corte semita'
ticos. A título de exemplo, vão duas antropologias bem dessemelhantes. O ser humano se entende em diferentes situações. Ele é carne (sarx)
na situação da existência terrestre, biológica, de fragilidade, morte, pe-
De corte ocidental cado, carência. É vida (psyché) enquanto ser vivente; é corpo (soma) ao
O ser humano é inteligência na sua faculdade de refletir, de conhecer, ser e estar-em-comunhão-com os outros; é espírito (pneuma) quando
de maneira intuitiva, compreensiva, inclusiva, e é.raz~o na:~ª facul~~de sua existência se abre para Deus, envolvida pelo mundo divino.
do raciocínio discursivo de maneira analítica, exphcat1va, teor1ca e pratica,
abstrata científica, técnica, formal. Possui também o senso co~um e Realidade
espontâ~eo, ao lado da sabedoria em busca do sentido último e unificador Método da Ação Católica
da vida humana e de toda realidade. . . Há vários esquemas para facilitar uma análise da realidade. O mais
o ser humano é vida com a dimensão de experiência, vivência, c~r- conhecido e praticado na América Latina é o da tradição da Ação Católica,
tição. Possui subjetividade, afetividade, com a dupla dimensão masculina que foi ampliado: Ver, julgar, agir, avaliar, celebrar. É usado tanto num
e feminina.
3. H. C. L. Vaz, Antropologia filosófica 1, op. cit.
4. L. Boff, Ressurreiçiío de Cristo: a nossa ressurreiçiío na nwrte, Petrópolis, Vozes,
. Usei este esquema no livro Forn 1açiío da consciência crítica: subsídios filosófico-
2 l 972, pp. 86-89.
culturais, op. cit.

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PARTE li. ASP!:CTOS DA VIDA DE ESTUDO
"'f" 10. PROCESSO DE PRODUÇÃO IN1ELECfl;AL

1
nível acadêmico de estudo da realidade como no pastoral em vista da Análise de conjuntura"
ação da Igreja. 1 Um primeiro passo é distinguir estrutura de conjuntura.
No ver, faz-se o levantamento dos sintomas, sinais de vida e morte A estrutura se constitui pelas relações permanentes da sociedade nos
da realidade. Escolhem-se os critérios, a perspectiva valorativa dos sin- seus diversos níveis: socioeconômico, sociopolítico, sociocultural, socior-
tomas.Selecionam-se e sistematizam-se os sintomas segundo os critérios religioso. Os níveis, e1n português, definem-se por verbos. O nível eco-
assumidos. nômico por ter, o político por poder, o cultural por saber; 0 social por
Com o julgar, processa-se a passagem do descritivo para o analítico. estar; o religioso por cultuar.
Diagnosticam-se os sintomas, buscam-se-lhes as causas históricas, estru- A conjuntura é o movimento da estrutura, a sua posição em dado
turais de diferentes naturezas psicológicas, econômicas, políticas, sociais, momento. Descreve-se pelos fatos, eventos, tendo coino pano de fundo
culturais, teológicas e conjunturais. Analisam-se as consequências de tal a estrutura. Configura-se pelo jogo do conjunto de forças e problemas
situação. Delineiam-se as conexões, as ligações dos problemas, das polí- que estão implicados nos fatos, nos acontecimentos.
ticas, das estruturas. A conjuntura pode ser analisada a partir do poder e1n exercício ou a
Pelo agir, planeja-se nos níveis do projeto, das políticas, das estratégias partir das forças e dos movimentos subalternos. Na sua análise, levam-se
e das táticas. As táticas são ora defensivas, quando nos protegemos contra em consideração tanto os atores, aqueles que estão atuando diretamente
as investidas do adversário, ora reativas, quando atuamos positivamente sobre a realidade, como os figurantes, aqueles que coadjuvam os atores.
diante das investidas do adversário, ora alternativas, quando nos anteci- No sistema econômico, importa analisar quer a sua forma transna-
pamos ao adversário, obrigando-o a estratégias reativas e defensivas. cional, nos_ seus centros de poder e no processo de globalização, quer a
Com o avaliar, volta-se sobre todo o processo de análise, juízo e ação forma nacional, com seus centros de poder e sua relativa autonomia
a fim de captar-lhe as valências positivas, negativas e possíveis. quer, enfim, a mútua relação dessas expressões do poder econômico na~
Celebra-se, ao viver toda essa realidade no nível da gratuidade por suas alianças e nos seus conflitos.
meio de festejos populares, liturgias religiosas ou ambos. No sistema sociopolítico, aparecem, de novo, as formas de expressão
transnacional e nacional. O modo de controle político pode ser feito pela
Paradigma pedagógico inaciano coerção econômica, por mecanismos de controle sobre a organização social,
Elaborado também em cinco pontos. Contexto da realidade: colo- por pressões ideológicas de resignação e medo, por estratégias etn jogo.
cam-se 0 tema, o fato e seus protagonistas em sua realidade e em suas O sistema sociocultural tem a ver com o controle de informação,
circunstâncias. Experimentar: "sentir internamente" o que se vê, se olhai com a censura das ideias ideológicas adversas, com a propaganda da
se contempla. Abertura do sujeito a toda a realidade. É toda forma de própria ideologia, com a globalização cultural, com as resistências locais
percepção, tanto interna como externa. Refletir: lugar em que se dá a sob a forma de nacionalismos, regionalismos, cultura popular.
apropriação da experiência de maneira intelectiva e judicativa. Ação:
diante do que se refletiu e se julgou, segue-se uma ação coerente com Análise de níveis de conhecimento da realidade
isto. Avaliação: fazem-se uma revisão do processo e uma ponderação dos Aproxin1a-se de uma realidade fazendo-se um percurso de níveis de
resultados e de sua pertinência". conhecimento, desde a realidade bruta até uma sofisticada apreensão dela.

s. Pedagogia Inaciana: u1na proposta prática, São Paulo, Loyola, ·11996; Subsídios para 6. H. J. de Souza, Corno se faz análise de conjuntura, Petrópolis/Rio de Janeiro Vozes/
Ibasc, 1984. ' '
a pedagogia inaciana, São Paulo, Loyola, 1997.

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO
10. PROCESSO DE PRODUÇÃO INTELECl"UAL

Assim, o nível zero de conhecimento corresponde ao dado bruto, científico. Este quer descrever o mais claramente possível a rea-
não entendido, nem compreendido, nem interpretado. Portanto, inexis- lidade na sua objetividade.
tente para o ser humano. - Discurso ético, moralista: refere-se a um código de valor e se
Pelo primeiro nível empírico, conhece-se o dado objetivo, verificável regula por ele. Usa predominantemente o verbo ((dever" e se refere
da realidade. Ele suporta duas aproximações. Uma pelo sentido comum ao que é bom ou mau. Não diz o que é a realidade, mas como ela
que se cria no mundo cultural em que se vive com a fusão de dados da deve ou deveria ser.
própria existência e dados recebidos da tradição, onde predominam os - Discurso utópico: trabalha desejos, projetos, realidades ideais não
interesses das classes dominantes. Outra pela abordagem científica, ao existentes com a dupla finalidade de criticar o presente e animar
recorrer a um instrumental teórico elaborado de diversas naturezas. Entre as pessoas para uma ação transformadora da realidade em vista
ambas as leituras da realidade, acontece um corte epistemológico, já que de futuro melhor. Não joga com o binômio certo e errado, mas
pelo instrumental científico se conhecem mecanismos da realidade ina- com o de real existente e real possível. Por exemplo, um discurso
!.
cessíveis ao sentido comum. de igualdade na sociedade capitalista. !;.-J_,,, ~ .
Pelo nível filosófico atingem-se o sentido e o valor da realidade no - Discurso religioso: tem corno referência principal o sagrado, o -i.:·.~
horizonte humano pela via da sabedoria de vida, que permite referi-la a um mistério, uma revelação, uma tradição religiosa. Distingue-se do ·.'.:-.)
:-,,.
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sentido último e ordenador. De maneira mais rigorosa, recorre-se a diversos discurso teológico por não seguir as regras rigorosas que pautam ·.:-\:t
enfoques racionais, respondendo à pergunta pelo ser (ontologia), pelo ho- ?:::'J
o discurso teológico, embora o objeto seja o mesmo. ,...,,
'-"
mem (antropologia), pelo valor (ética), pela transcendência (teodiceia). - Discurso autoritativo: sua verdade e seu valor vêm da autoridade ~

Num nível teológico, faz-se uso da Revelação divina, tanto recebida que o produz; corresponde ao famoso dito antigo: magister dixit, ,'), -~
na tradição sapiencial popular como trabalhada cientificamente pela o mestre disse. Distingue-se do discurso autoritário, que lhe soma .'/:'~)
teologia. um caráter impositivo e arbitrário.
- Discurso corporativo: elaborado por membro de uma instituição,
Natureza dos discursos
visando aos interesses dela. Por exemplo, o discurso de um gerente
Para analisar bem um texto e ser coerente nele próprio é importante de uma empresa.
distinguir as diversas naturezas dos discursos. Não saber distingui-los - Discurso representativo: discurso de alguém que recebe a dele-
leva-nos a equívocos interpretativos. Por isso, aponta-se uma série de gação de um corpo social para falar em seu nome. Por exemplo,
tipos de discurso: o discurso de um embaixador.
- Discurso do ator: articula os sentidos conforme o papel que re- - Discurso idealista: parecido com o discurso utópico. Não se refere
presenta e segundo os interesses do personagem que encarna. ao que existe, ao real, mas àquilo que se desejaria que existisse. É mais
Não visa diretamente à objetividade dos fatos, mas aos interesses fruto da vontade (discurso voluntarista) do que da análise. Distingue-
representados. Típico dos políticos, dos hierarcas das Igrejas, das se do discurso utópico porque não apresenta o inexistente como
pessoas com cargos institucionais etc. Predomina o caráter ideo- mola da ação, mas como se já fosse real. Tem caráter ilusório.
lógico. Portanto, não esperemos desses discursos o que é a reali- - Discurso materialista: atém-se às condições materiais de uma
dade, inas como interessa ao ator, no seu cargo, descrevê-la. situação, principalmente às econômicas.
- Discurso do analista: articula os sentidos em vista do conheci- - Discurso espontél.neo: refere-se a uma realidade como ela aparece
mento o mais objetivo possível da realidade. Predomina o caráter se1n mediações teóricas interpretativas. Usa, em geral, o bom

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10. PROCl:SSO DE PRODL:ÇÃO INTELECTUAi
PARíE 11. ASl'El.IOS LM \'lD1\ DE ESTUDO

- Discurso técnico: visa a modificar a realidade sem a preocupação


senso, a experiência diária, a sabedoria adquirida. Opõe-se ao
humana, ética.
discurso científico. Em geral, muitos trabalhos acadêmicos falham por misturar os
- Discurso científico: segue as regras próprias da ciência. Por
discursos, não os distinguindo. Perpetram verdadeira confusão de sen-
exemplo, o discurso psicológico, que se pauta pelo método dessa
tidos, quer na intele~ção e na interpretação de um texto, quer na redação
ciência. de um _trabalho. Assim, por exemplo, jesus, ao falar do inferno, não usou
- Discurso ideológico: representa interesses de um grupo. É antes
um "discurso descritivo" mas "performativo". Portanto, não se refere à
discurso do ator do que do analista. existência de fogo ou ao ranger de dentes, mas exorta as pessoas a uma
- Discurso constatativo, descritivo: sua função é relatar, descrever
conduta que não as faça merecedora do inferno.
o que existe, o que está acontecendo.
No fim das campanhas eleitorais, as pessoas se dizem que cobrarão
- Discurso performativo: não descreve, nem relata, mas é usado
dos políticos as promessas feitas. Imaginam que o discurso do ator_ 0
para realizar algo. Não é falso nem verdadeiro. Pode ser feliz ou
pol~tico - é o mesmo do analista. Equivocam-se. As pro1nessas pertencem
infeliz. Quando, por exemplo, um sargento diz para um cidadão
ao Jogo representativo do político, que poderá ou não as cun1 prir con-
que ele desconhece ser o coronel: limpe meu fuzil, trata-se de um
forme as possibilidades reais que só depois se mostrarão.
discurso performativo infeliz. O mesmo vale da leitura de documentos de autoridades religiosas.
- Discurso autoimplicativo: revela o sujeito que fala, co1nprome-
Espera-se delas um discurso crítico, avançado, mas na verdade elas estão
te-o. Por exemplo: Creio na infalibilidade do papa.
pres.~s aos i~teresses da instituição que representam e não podem con-
- Discurso exibitivo: manifesta o que realiza. Por exe1nplo: Eu te
traria-los. Lidos na perspectiva de u1n discurso autoritativo, os textos são
batizo. mais bem interpretados.
- Discurso explicativo: busca encontrar a causa do fato, da reali-
. Da n:esma maneira, quando escrevemos devemos estar atentos a que
dade. Insere a estrutura compreendida numa estrutura mais vasta,
tl,p~ de dis~urso estamos elaborando. Um erro muito comum é a passagetn
que a engloba. Un1a determinada estrutura da Igreja encontra sua
faol do discurso descritivo ao moralista. Assim, por exemplo, alguém
explicação na compreensão da estrutura maior da cultura atual.
está descrevendo uma situação econô1nica e diz: "O capital financeiro
- Discurso compreensivo: busca a significação do fato, da realidade.
volá~il.é prejudicial ao país". Na frase seguinte, continua, "devemos opor-
Explicita a coerência interna de uma realidade a ponto de dar
nos a hbe_rdade de que ele goza no atual sistema". O verbo "dever" já indica
sentido a todos seus elementos. u~a obrigação ética, um propósito e já não é mais descritivo. Por isso,
- Discurso denotativo: declara, define, descreve o fato, a realidade
misturar o verbo "ser" (existência, realidade) e "dever" (obrigação) num
com objetividade. mesmo parágrafo é confundir a natureza dos discursos 7 •
- Discurso conotativo: reflete elementos subjetivos de quem fala.
- Discurso doutrinal: codifica uma teoria de modo formal, abstrato,
já não mais articulado com a prática; facilmente se torna
defasado.
- Discurso teórico: intenta ser a compreensão e a inteligência de 7· Excel~nt~ ~ crític~ e~e1?1p~o de _tal análise de discurso foi realizado por Cl. Boff,
uma prática. Nunca é separável dela. subt~xto soc1olog1co de Ex1genc1as cristãs de uma ordem política': in id., Coniunidade
- Discurso prático: dirige-se a uma ação inteligente (com teoria) eclesial - Con1unidade política. Ensaios de eclesiologia política, Petrópolis Vozes 1978
pp. 148-156. ' ' '
em vista de transforn1ar a realidade de maneira humana, ética.

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!O. PROCESSO D!: PRODUÇAO JNTELF.CTUAI.
PARTE li. i\SPEC!"OS DA VIDA DE ESTUDO

Modelo interpretativo experiência tem a ver com cctestar, tentar, ensaiar, esforçar-se por, percorrer
uma realidade até o extremo'~
O desafio de todo trabalho acadêmico, em última análise, é inter-
pretar corretamente uma realidade. Para isso, lança mão de muitos
recursos. Um esquema mínimo do que seja esse mundo interpretativo Um segundo momento é percorrer o itinerário semântico, isto é,
facilita essa tarefa. ver como o termo assumiu ao longo da história vários sentidos conforme
culturas, filosofias, situações diversas. Há muitos dicionários que oferecem
Nível lógico o itinerário semântico de uma palavra. Existe a tradução brasileira de um
Busca compreender a linguagem a partir das regras de sua constituição, excelente dicionário filosófico (cultural) que expõe, de maneira breve, a
de sua estruturação. É o nível da gramática, da sintaxe. Dominar esse variação semântica de um termo no mundo da filosofia e da cultura, o
nível implica conhecer bem a gramática e a sintaxe da língua em que se de André Lalande, Vocabulário técnico e crítico da filosofia (São Paulo,
escreve. As regras mais importantes estudam-se na gramática e na sintaxe. Martins Fontes, 3 1999). A modo de exemplo, cito o termo "Abstinência".
Recordo algumas sumamente elementares. A necessidade de um sujeito
e de um predicado em cada oração. Sua concordância. Observar o regime
dos verbos e dos substantivos, usando a preposição correta. A concordân-
Abstinência
cia dos tempos nas orações subordinadas. Erros contra essas regras ele-
mentares impedem frequentemente a própria compreensão do texto. Alemão: Enthaltung, Inglês: Abstinence; Francês: Abstinence; Italiano: As-
tinenza. Ética. Renúncia voluntária à satisfação de uma necessidade ou de
um desejo. Pertence ao vocabulário estoico (Abstine et sustine) e cristão ( =
Nível hermenêutico propriamente dito
abstenção de comer carne). É utilizado nos nossos dias num sentido muito
É o espaço da semântica, da compreensão do sentido das palavras, do especial relativo à propaganda antialcoólica: o abstêmio é aquele que re-
horizonte maior do universo cultural em que as palavras se movem. O sentido nuncia absolutamente ao uso_ do álcool, por oposição ao temperante.
é dado a conhecer pela etimologia e pela história de seus significados. Radical internacional: Absten."8
Um primeiro esforço de intelecção deve ser feito a partir da própria
etimologia da palavra. Um filósofo da linguagem dizia que toda palavra
O nível hermenêutico permite quatro posições fundamentais, que
paga um tributo à sua etimologia. Ao abordar um tema, alistem-se, logo
correspondem, cada uma, a determinado universo de compreensão da
de início, as palavras básicas e vasculhe-se-lhes a etimologia.
realidade. Conforme a pessoa se situe nesse universo cultural, trabalha
com certa maneira interpretativa.
Exemplo de etimologias
- Universo hermenêutico fixista
Tome-se o termo experiência. Em grego, está na base o verbo peirao, que
significa tentar, ensaiar, esforçar-se por. Em latim, na raiz está a forma É a posição típica dos fundamentalistas de toda natureza. Imaginam
arcaica verbal periri, que significa esforçar-se, fazer ensaio. Em alemão, que cada afirmação tem um único sentido permanente e, uma vez des-
experiência tem na base o verbo fahren, que se usa para andar num veículo,
dar-se com alguém. A partícula erexprime frequentemente algo levado até 8. A. Lalande, Vocabulário técnico e crítico da filosofia, São Paulo, Martins Fontes,
o extremo. Já com essas etimologias, o aluno tem uma ideia geral de que 3
1999, p. 7.

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p,\RTE li. ASPECfOS DA \'[!)A DE K~TUIJO 10. PROCESSO DE PRODUÇAO INTELECTUAL

coberto, já não 1nuda. O sentido está única e totalmente na realidade, no se uma situação fusional entre sujeito e objeto, de tal maneira que o
texto. Nós o descobrimos, desvelamos. A cada significante há um signi- conhecimento é o sujeito, e o sujeito é o conhecimento, numa unidade
ficado. E nada mais. Corresponde a uma visão fixista da natureza, da radical, harmônica, includente.
cultura, do conhecimento. O sujeito é percebido como uma tabula rasa
que recebe de fora o conheci1nento, a verdade, o bem, sem dar-se conta Autonomias e dependências
de que ele o faz, interpretando. O ato de conhecer é captar a realidade
Um discurso interdisciplinar relaciona conceitos, instâncias de saber,
uma vez para sempre na sua pura objetividade e luta por esse sentido
campos diferentes do agir humano. Haja vista urna reflexão sobre ética
como o único verdadeiro.
e política. Alguns passos metodológicos realizam, com certa lógica, tal
tarefa.
- Universo hermenêutico relativista
Caracteriza a maneira mais comum do pensamento moderno. As Definir as especificidades
realidades, os objetos, os significantes estão aí e o sujeito, segundo sua - Regime de autonomia
pré-compreensão cultural, social, religiosa, de gênero, de classe, etc. in-
Um primeiro passo é definir com clareza, de maneira abstrata e
terpreta diferentemente. Leva ao extremo duas afirmações clássicas: Tot
teórica, a especificidade própria das duas instâncias. No fundo, trata-se
capita, tot sententiae: tantas cabeças, quantas opiniões. Ou aquele outro
de saber aquilo que distingue a política da ética. Qual é o elemento cons-
conhecido adágio quidquid recipitur per modum recipientis recipitur: o
titutivo da ética e da política de modo que uma não seja a outra. A política
que se recebe, se recebe a modo do recipiente. Tais afirmações entendidas
tem como sua referência específica o poder; a ética, o bem. Nesse mo-
sem mais no plano de conhecimento podem levar a um relativismo total.
mento, conhecem-se melhor e aprofundam-se a episteme, o tipo de saber
Nesse caso, um significante pode receber qualquer significado, desde que
o sujeito o entenda assim. Há formas mais ou menos relativistas. Está em próprio de cada uma com suas regras autônon1as.
questão se existe um absoluto na verdade mesmo que seja aprendido sob
- Regime de dependência
formas diversas.
Esse regime refere-se ao concreto, ao lugar social. Ninguém pratica
- Universo hermenêutico dialético uma política sem levar em consideração a ética e vice-versa. O sujeito
Conserva o caráter absoluto da verdade da metafísica clássica e o concreto encontra-se com as duas instâncias nos momentos de sua de-
caráter interpretativo das filosofias da modernidade de tal maneira que cisão. Nesse nível, aparecem os valores, os interesses do sujeito na política
há u1n processo hermenêutico em que as verdades, sem se negarem, são e na ética; daí surgem conflitos, tomadas de posição. Há várias possibi-
compreendidas em novas coordenadas. Todo conhecimento humano é lidades de relacionar as instâncias.
interpretação, mas de uma realidade que tem sua objetividade indepen-
- Forma reducionista
dente do sujeito. É uma relação sujeito-objeto. A maneira humana de
conhecer é interpretar. É a posição que nega a especificidade de uma das instâncias. Reduz
uma a outra ou de maneira dominadora ou de maneira submissa. É a
- Universo hermenêutico holístico incapacidade de manter a identidade e a diferença. No caso, ou a política
Há uma tendência atual de querer superar a dualidade sujeito-objeto anula a ética, negando-a e agindo como se a própria política, como tal,
para um tipo de conhecimento mais intuitivo, inclusivo, monista. Busca- incorporasse a ética. Ou vice-versa, transforma a política numa atividade

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10. Pll.OCESSO DE PRODUÇÃO INTELECTUAL
PARTE ll. 1\SPECfOS DA VIDA DE ESTUDO

eticizante, negando-lhe sua própria autonomia. Isso acontece, ou porque - Modelo antropológico
uma instância absorve a outra, ou deixa-se absorver por ela. O ser humano é composto de corpo e alma. Cada uma dessas reali-
dades tem sua autonomia, sua identidade própria. A alma não é o corpo,
- Forma paralela nem o corpo é a alma. Mas o primeiro não existe paralelamente à segunda,
A forma paralela parece mais democrática e moderna. Cada instância nem vice-versa, mas ambos constituem un1a unidade pessoal. Só existe
se fecha em si mesma e não aceita a posição crítica de nenhuma outra. o corpo com a ahna. Sem ela, é defunto, um amontoado de células em
Não interfere, porém, em nenhuma outra. É o mundo das especializações decomposição. Só existe alma humana nesse mundo unida ao corpo e
enclausuradas em si mesmas. Forte tendência da ciência moderna em nunca separada dele.
relação à ética, à religião.
- Modelo agápico
- Forma dialética supressiva É a analogia com o amor a um ser humano e o amor a Deus. São
Uma instância incorpora em si a outra, fazendo-a desaparecer. distintos, já que Deus não é um ser humano e vice-versa. No entanto,
Implica tal figura uma concepção da história que não vale para qualquer não conseguin1os amar a Deus sem amar o irmão, e não conseguimos
processo. Funciona antes na relação entre ciência e religião. Supõe com amar deveras o irmão sen1 que o amor de Deus aí esteja presente, mesmo
0 avanço da ciência que todo o mundo da religião, constituído pelo co- não tematizado, nem explicitado, nem sabido.
nhecimento mítico, perde vigência e é suprimido pelos novos conheci-
mentos científicos. - Modelo calcedônico
Os padres conciliares em Calcedônia quiseram buscar uma intelecção
- Forma de integração critica mútua para a dual especificidade da humanidade e da divindade na única pessoa
É a posição que tenta resolver os impasses das posições anteriores. de Cristo. Para isso, recorreram a quatro advérbios numa forma negativa.
Mantém a identidade, a diferença entre as instâncias e, ao mesmo A relação entre a humanidade e a divindade em Cristo não é: inconfuse,
tempo, promove um diálogo entre elas. Respeitando, portanto, as auto- immutabiliter, indivise, inseparabiliter, isto é, de maneira inconfusa,
non1ias, busca um campo de encontro para as mútuas críticas de modo imutável, indivisa e inseparável. Não se confundem as instâncias) nen1
que as duas instâncias en1 questão se beneficiai~. Em termos epi~temo­ muda-se uma na outra, nem se dividen1 ne1n se separam, mas distinguen1-
lógicos, fala-se de interdisciplinariedade, de diálogo entre os diversos se e articulam-se.
saberes. É um campo muito amplo de estudo e reflexão.
A tradição filosófico-teológica dispõe de quatro modelos, que, res- - Modelo sacramental
peitada a analogia de proporcionalidade, ajudam nessa articulação crítica A analogia é tirada da compreensão que a Igreja tem de sacramento
9
integradora e mantêm a distinção na unidade • e ampliada para uma visão sacramental da realidade. No sacramento,
existem dois elementos fundamentais: o sinal e a realidade significada
por ele. O sinal é o rito visível. O que ele significa e realiza é a graça de
Deus. Há uma distinção entre os dois, mas não uma separação, de tal
modo que o sacramento significa realizando a graça e realiza a graça
9. L. Boff, Cl. Boff, Da libertação: o sentido teológico das libertações sócio-históricas,
Petrópolis, Vozes, 1979, pp. 58-64.
significando por meio do rito. Assim a ablução batismal - rito, sinal

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PARTE ll. 1\SPECTOS DA VIDA DE ESTL'.DO
!O. PROCESSO DE PRODUÇÃO INTFLEl.'TUAJ

- significa uma vida nova que é realizada pela ação da graça de Deus. Método de perguntas progressivas
E essa ação da graça de Deus se realiza ao celebrar-se o rito, o sinal. De
modo análogo, existe uma unidade profunda na realidade de que a ética Constitui uma dificuldade na elaboração de um texto 0 fato de não
e a política são sinais visíveis diferentes que a realizam. se ter bem claro o objeto sobre o qual se disserta. Facilmente salta-se de
um pont_o _para o outro, ou repetem-se afirn1ações, ou não se respeita a
- Modelo pedagógico progress1v1dade do pensamento. A fim de prevenir tais dificuldades
Há u1na simples distinção que serve para analisar un1a realidade onde sugere-se o método de perguntas concatenadas. Consiste no seguinte:
se articulam discurso e ação. Há uma lógica própria do conteúdo: a Faz-se uma pergunta central básica, que é o tema principal do trabalho.
lógica das ideias, do tema, do assunto. Quando esse discurso é proposto Responde-se à pergunta com a afirmação-tese a ser trabalhada. Essa
- na Igreja, na aula, no tribunal) no parlamento etc.-, interfere outra afirmação deve levantar outra pergunta. A cada pergunta segue-se uma
lógica: a lógica das relações. O orador estabelece com os ouvintes uma resposta. A resposta deve concluir de tal modo que abra nova pergunta
lógica pessoal de comunicação. Esta sintoniza-se ou não com o discurso, e assim por diante, até fechar a última pergunta com 0 término do
corroborando-o ou anulando-o ou contradizendo-o. Vejam o exemplo. trabalho.
Um pregador está fazendo um sermão (lógica do conteúdo) sobre a Roberlei Panasiewicz, mestrando em Ciências da Religião da Univer-
bondade, a 1nisericórdia de Deus. No entanto, irritadiço com as crianças sidade Federal de Juiz de Fora, seguiu com perfeição esse método. Com
que choram) estabelece uma relação de rejeição, de raiva, de exasperação licença dele, reproduz-se aqui, com pequenas modificações, seu trabalho
com os fiéis) contradizendo a lógica do conteúdo do sermão. Provavel- como exemplificação do método. A dissertação foi avaliada com a nota
mente, em vez de passar a ideia da bondade de Deus, acaba passando máxin1a e com louvor. Sem dúvida, o uso do método contribuiu para 0
uma sensação de irritação que termina por anular seu ser1não. rigor e a lógica do texto.

- Modelo da comunicação Diálogo e Revelação: o diálogo inter-religioso


O esquema da co1nunicação baseia-se no diálogo humano. Há sem- em Andrés Torres Queiruga na perspectiva da sua
pre um transmissor: ponto de partida da comunicação. Ele cria ou co- teologia da Revelação
munica a mensagem para um receptor ou destinatário ou público-alvo.
Perguntas preliminares
Se o receptor reage ou simples1nente propaga a 1nensagen1, ele se faz
també1n transmissor. A mensage1n é transmitida por vários canais: pa- Pergunta fundamental: Tem a teologia da Revelação de A. Torres
lavra) escrita, gestos, imagens e todos os meios de comunicação social. A Que1ruga uma contribuição original para o diálogo inter-religioso? A
con1unicação, para ser ética ou funcional numa sociedade humana, deve resposta é o conjunto da tese.
seguir u1n código, isto é, um conjunto de regras. Interferem na comuni-
cação elementos perturbadores. São os ruídos, não só físicos como Três perguntas parciais:
també1n de outra natureza. Interessa saber na co1nunicação o efeito que 1. Em que contexto surgiu a problemática do diálogo inter-religioso?
ela produz. É o feedback ou retorno. Hoje se desenvolveu enormemente A resposta é o primeiro capítulo.
a técnica de captação dos efeitos da comunicação sob diversos ângulos. .2. Qual é o conceito de Revelação de A. Torres Queiruga que possibilita
Os institutos de pesquisa dedicam-se a isso fazendo a sondagem de o diálogo inter-religioso? A resposta é o segundo capítulo.
opinião.

194 195
lO. PROCESSO DE PRODUÇAO INTELECTUAL
PARTE li. ASPECfOS DA VIDA DE ESTUDO

3. Que pontos teológicos dificultam o diálogo inter-religioso~ como Resposta: É a autocomunicação de Deus com a humanidade e sua
A. Torres Queiruga os enfrenta e que outros pontos de su~ teologrn faci- relação com o diálogo é de mútua implicação.
litam 0 diálogo inter-religoso? A resposta é o terceiro capitulo Pergunta: Qual é a peculiaridade do conceito de Queiruga que pos-
sibilita, com maior sucesso, o encontro inter-religioso?
Resposta: A concepção de revelação como maiêutica histórica e her-
Desenvolvimento das perguntas
menêutica do amor permitem entender a ação reveladora
capítulo 1: Contexto sociocultural do diálogo inter-religioso
de Deus nas diferentes tradições religiosas, favorecendo,
Pergunta: Em que contexto surgiu a problemática do diálogo inter- assim, o diálogo inter-religioso.
religioso? . Pergunta: Aprofundando o conceito de revelação em Queiruga, a
Resposta: Ela surgiu com 0 emergir da consciência do pluralismo saber, como maiêutica histórica e hermenêutica do amor,
religioso. . que outro elemento favorece o diálogo inter-religioso?
Pergunta: Como se deu 0 emergir da consciência do pluralismo re- Resposta: Queiruga mostra como se realiza, por meio da maiêutica
ligioso no mundo contemporâneo? . _ do amor de Deus à humanidade, a universalidade de Deus
Resposta: Por causa (e/ou por reação) do processo de seculanzaçao na "eleição" de um povo.
produzido pela modernidade. .
Pergunta: Diante desse pluralismo religioso, surgido. por causa da Capítulo Ili: Revelação e diálogo inter-religioso
secularização, como 0 cristianismo se pos1c1onou: excluiu, Pergunta: Há alguma questão fundamental na teologia que impeça
condenou ou entrou em diálogo com as religiões? o diálogo inter-religioso? Como Queiruga a enfrenta?
Resposta: Reagiu com posições que podem ser agrupadas em trê.s para- Resposta: Há duas questões fundamentais que dificultam o diálogo
digmas teológicos (exclusivismo; inclusivismo; pluralismo). inter-religioso: o cristocentrismo e determinada concepção
Pergunta: Dentro do paradigma do diálogo, existem formas concretas de salvação.
de diálogo com outras religiões? . Pergunta: Como Queiruga interpreta a Encarnação do Filho de Deus
Resposta: o cristianismo tem buscado esse diálogo medrn~te quatro numa perspectiva que favorece o diálogo inter-religioso?
formas: testemunho de vida, oração, promoçao da paz, Resposta: Ele interpreta-a no contexto do projeto universal de salva-
especialistas. ção de Deus.
Pergunta: Como Queiruga se situa nesse contexto? , Pergunta: E como ele interpreta a salvação em vista da dimensão inter-
Resposta: Ele se situa no nível dos especialistas e seu enfoque e o do religiosa, relacionando-a com sua visão da Encarnação?
inclusivismo (((aberto"). Resposta: Em primeiro lugar, ele articula a concepção de salvação
com a Revelação.
o conceito de Revelação em Andrés Torres Queiruga
Capítulo li:
Pergunta: Há outro aspecto do conceito de salvação em Queiruga
Pergunta: o que permitiu a Queiruga ter uma abertura para esse que facilita o diálogo inter-religioso?
problema? Resposta: Ele dá-lhe uma dimensão de universalidade, ao ultrapassar
Resposta: A sua concepção de Revelação. , _ a inculturação e atingir a in-religionação.
Pergunta: (para introdução à temática): Mas o que e Revelaçao e qual Pergunta: Qual é a implicação da in-religionação?
sua relação com o diálogo inter-religioso?

197
196
PARrF. !1. ASPECl'OS DA Vlll 1\ DE !:STUDO 10. PROCESSO DE PRODUÇAO INTELECTUAL

Resposta: É a conversão das pessoas e das instituições religiosas para Dinâmica


Deus, que, consequentemente, leva a uma maturidade no
Esquema lógico
desenvolvimento da fé.
Como se pode ver, cada resposta termina na possibilidade de nova 1. Estruture num esquema lógico as seguintes ideias sobre 0 tema
pergunta e assim por diante, até fechar o assunto. "educação escolar":
Famílü-:-- compr~misso social -família patriarcal _preguiça
- horar10 - fan1d1a inoderna - orientador espiritual_ escola
Conclusão - autossuficiência-
. escola pública- aula - es co1a part1cu
· 1ar
- one~tador pedagógico - igreja - disciplina _ professor
A inteligência é u1na turbina sempre pronta a funcionar. Está já
orientada para a verdade, para o ser, para identificar, compreender, pro- - ps1colo?o - aluno - impedimentos - objetivos- maus
c~mpanhe1ros - retidão ética - atendünento pessoal_ defi-
cessar e exprimir o lado cognoscível da realidade. Uma turbina não fun-
nição - consciência crítica
ciona sem a pressão da água. Há esquemas que chama1nos de pré-lógicos,
Conferir no anexo no final do livro uma proposta de esquema.
há outros elaborados a partir de estrutnrações simples do pensar e há
2. Preencher as lacunas co1n palavras adequadas:
sobretudo o jogo sucessivo de perguntas em busca de respostas que
cumprem o papel de acionar o processo intelectual produtivo. Com a
Pastoral da juventude
ajuda deles, os iniciantes na produção escrita conseguem mais facilmente
organizar suas ideias e redigi-las.
À guisa de exemplo, o leitor pode ler com proveito as colunas de
___ : não é enquadrar os jovens dentro de u1na paróquia
___: coordenar as atividades dos jovens na paróquia
Economia de J. Betting no Caderno B do jornal O Estado de S. Paulo. É
· 1. Pároco
admirável como ele escreve sobre tetnas áridos de economia usando
2. Coordenador geral
especialmente os esquemas pré-lógicos das figuras de maneira continuada
3. Líder do grupo
e consequente. Lendo tais colunas, vê-se como tal método ajuda a expor
___ . 1. Encontros mensais
pensamentos teóricos de maneira concreta e também garante uma es-
2. Reuniões semanais
trutura ao pensamento.
3. Festas de aniversário
1. Sala
Bibliografia 2. Material de escritório
3. Material esportivo
BOMBONATTO, 1., Seguitnento de Jesus. Uma abordagem a partir da cristologia de
]on Sobrino, tese de doutorado, São Paulo, Pontifícia Faculdade de Teologia
Nª Sra. da Assunção, 2001 (exemplo excelente do uso do n1étodo das
perguntas).
PANSIEWICZ, R., Diálogo e revelação: rumo ao encontro inter-religioso, Belo Ho-
rizonte, Arte, 1999 (exemplo do uso do método das perguntas).
Pedagogia inaciana: uma proposta prática, São Paulo, Loyola, 4 1996.
Subsídios para a pedagogia inaciana, São Paulo, Loyola, 1997.

198 199
11. Estudo de um tema ou de uma tese

A autossatisfação é inin1iga do estudo. Se queremos


realmente aprender alguma coisa devemos começar
por libertar-nos dela. Com relação a nós mesn1os,
devemos ser "insaciáveis na vontade de aprender" e
com relação aos outros "insaciáveis em ensinar''.
MAO TSÉ-TUNG

estudo de um tema se faz em particular ou em grupo. Oferecer-

º se-ão algumas orientações tanto para o estudo de um tema como


para o exame de uma tese, devido à semelhança de ambas as atividades.

Estudo pessoal de um tema ou exame de uma tese

Para o estudo de um tema, recorreremos à experiência da tradição


medieval, que caiu em desuso por excesso de formalismo. Assim, jogou-
se fora a água suja, mas infelizmente também a bacia e a criança. Recu-
peraremos a bacia e a criança, trocaremos a água. Percorreremos vários
passos que têm maneiras diferentes de concretização conforme o assunto,
mas cuja formalidade serve para orientar qualquer estudo.
O estudo de um tema significa um itinerário teórico. Consiste na
passagem de um conhecimento vulgar, pré-científico, do sentido comum
para um conhecimento elaborado, sistemático, preciso, científico. Isso se
manifesta pelo vocabulário, pela precisão do uso dos termos, pela con-
catenação das ideias, pela superação da repetição de chavões, de ditos
genéricos, de frases feitas, de slogans difundidos. À medida que alguém

201
p,\RTE li. ASl'ECíOS DA VIDA DE ESTUDO
'f
i
ll. E,',TUDO DE UI\! TE~tA OU DE UMA TESE

!
adentra uma ciência, adquire u1na linguagem própria e exata, com dis- Por isso, defina com exatidão os principais conceitos a serem tra-
tinções e matizes, distanciando-se das vulgarizações de folhetins. balhados. Nos exames, antes de alguém aventurar-se na exposição de
uma tese, deixe bem precisos os conceitos. Se um termo é polissémico,
isto é, tem vários sentidos, exponha-os e depois diga que sentido assu-
1º passo: estabelecer um quadro maior da problemática
mem.Recorde-se do que foi dito em capítulo anterior sobre a importância
Antes de começar a estudar propriamente um tema, cabe adquirir de uma primeira abordagem do sentido de um termo por meio de sua
dele uma visão geral, situando-o. Esse contexto mais amplo se encontra etimologia. A partir daí, já se tem uma intelecção inicial do termo. Em
em artigos de enciclopédias ou dicionários especializados. seguida, preste atenção aos diversos contextos históricos em que o termo
Se o estudo visa a um exame, saiba o aluno formular, em palavras foi usado, ao gênero literário en1 que ele aparece, quais fora1n os autores
claras e sucintas, esse marco referencial geral. Deve incluir dois aspectos que o usaram por primeiro e que significado lhe atribuíram. Por isso, se
fundamentais: um histórico e outro atual. O quadro histórico situa a se trata de um conceito importante, cabe fazer uma rápida exposição dos
questão num processo de desenvolvimento. O quadro atual tnostra em diferentes sentidos que tal conceito assumiu na história do pensamento
que pé está o problema. e em qual sentido, finalmente, ele é entendido nesse trabalho ou tese.

2º passo: estabelecer o nexo ou a relação Distinção de sentidos


com uma questão imediatamente anterior e com a seguinte Etimologicamente, "natureza" vem do verbo "nascer", como algo que nas-
cerá ( nascitura). Natureza é a geração de seres vivos. Pode significar o
Se 0 estudo se faz no interior de u1n curso, é importante relacionar
conjunto de todas as coisas.
0 assunto com o que se viu anteriormente e abrir perspectiva para o que Há uma distinção na escolástica:
virá. No caso de um exan1e, isso se faz mais facilmente. O aluno tem
- natura naturans- a natureza gerante-, que se aplica a Deus;
diante de si toda a 1natéria e é interrogado sobre um ponto. Relacione, - natura naturata - a natureza gerada-, atribuída às criaturas.
portanto, essa questão com as que vieram antes e com as que virã? depois. Em oposição à graça é aquilo que é factível pelas puras forças da criatura
Quanto mais alguém sabe relacionar um assunto tanto mais revela fora do âmbito da salvação, enquanto a graça pertence ao mundo sobre-
domínio da matéria. Se se trata de um exame complexivo, que abarca natural da salvação.
diferentes matérias, essa relação seja ainda 1nais ampla. Por exemplo, Em oposição à liberdade, entende-se como algo determinado em suas
alguém interrogado em antropologia filosófica sobre a liberdade, safüa causas. Na psicologia significa caráter ou temperamento.
também relacioná-la com a ética, com a filosofia da religião, com a psi- Na ciência natural tem vários sentidos. Na Antiguidade, natureza era per-
cologia etc., mostrando como esse tema é vasto e relevante. cebida como algo que permanece sempre o mesmo e determinado em si.
Era uma ordem eterna, tranquila em si, que se manifestava no movimento
teleológico do ser orgânico e dos astros. Já para o mundo newtoniano,
3º passo: definir os conceitos natureza é ordem eterna, objetiva, válida em si, explicável de maneira
Em todo estudo, o leitor deve atentar muito para o significado dos causal-mecânica. Desta sorte, era algo cognoscivel por meio do experimento
termos, para seu correto uso, transferindo para categorias científicas relacionado com grandezas matemáticas. No conceito atua~ natureza é
exatas 0 que se exprime na linguagem popular. É um dos sinais de que campo de pesquisa preparado, criado para a questão científica. Enfim, na
metafisica clássica, natureza significa a própria substância enquanto é
alguém domina um setor científico o fato de empregar adequadamente
princípio de operações.
os termos.

202 203
l I. ESTUDO DE UM TEMA OU DF. UMA TESE
PARfE \!. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO

sição teórica. Tematize-os para si a fim de entender melhor a questão e 0


4º passo: definição do problema específico mesmo _se faça num exame para mostrar uma compreensão profunda.
É um momeuto muito importante do trabalho ou do estudo da tese. Assim, se está dissertando sobre a relação do ser humano com a
Fixar com clareza de que se trata realmente depois que se explicaram os natureza, mostre que sua condição de ser corporal, situado no tempo e
termos e se ofereceu um quadro de referência do conjunto da problemá- no espaço,~ :az nece~sariamente um ser-no-mundo. Está aí em questão
tica. Delimita-se então com precisão a questão. A melhor maneira é a sua _c~ndiçao corporea de um ser situado nas condições temporais e
formulá-la numa interrogação. Como exemplo, tomemos uma questão espacms. Portanto, sobre ela é que deve versar sua atença-0 1n d"ique sob
A •

de antropologia: No quadro geral das relações fundamentais do ser hu- que angulo você vai estudar o ser humano. No caso da filosofia, busque
mano, qual é o significado hoje da relação homem e natureza? compre_ender o se~ ?umano na sua condição de ser finito no horizonte
Evidentemente, para um tema complexo uma só pergunta não é do sentido. E exphc1te também que método vai usar) se h"st, · ou es-
. l orico
suficiente. Então parcele-se a questão em tantas perguntas quantas ne- peculativo, se metafísico ou fenomenológico etc.
cessárias, de modo que uma se siga a outra segundo certa lógica. No . Outra maneira mais longa seria expor as diferentes posições mais
fundo, esse será o esquema do trabalho ou da tese a ser desenvolvido, importantes sobre o tema. Nisso deve-se ser bem objetivo, exato, fiel ao
como vere1nos no parágrafo seguinte. pe~s~mento dos aut~res estu~ados. De cada posição, tnostre em que ela
pri,nc1p~lmente ~onsiste e quais são os seus argumentos mais iinportantes.
5º passo: desenvolvimento do trabalho Alem ~isso, ein1ta, com_ m~déstia, um juízo sobre ela, indicando qual é
Fundamentalmente ele será a resposta às perguntas formuladas no a sua ~iqueza, que contr1bu1ção trouxe no percurso histórico da temática
passo anterior. No exemplo dado, será o estudo do homem como ser-no- e quais os seus limites, suas falhas, seus pontos negativos.
mundo'. Para elaborar tal resposta, subdivida tal pergunta central em Aofi_nal, defina e aponte a posição pela qual se decidiu e fundamente
várias outras, n1aS desde que formem um todo orgânico. Então há dois tal dec1sao com argumentos e razões.
modos de proceder.
Um modo é ir diretamente ao tema de maneira positiva. À medida 6º passo: apontar para consequências do tema
que você estuda, acaba por fazer uma ideia do assunto de maneira cada vez , O mais importante já foi realizado. Se você ainda dispõe de tempo e
mais pessoal. Conjugam-se nesse estudo dois fatores importantes: a auto- fole~o para prossegmr o estudo ou a exposição da tese, mostre as impli-
ridade dos autores que você estuda e sua própria intelecção. Evitem-se caçoes, a_s consequências, os corolários do tema estudado. É 0 momento
dois extremos opostos. O puro psitacismo de aprender de memória uma de exercitar sua inteligência dedutiva e criativa. Iinplica um esforço de
posição ou ser tão crítico a ponto de ousar objetar sem fundamento posições d~se~tranhar do assunto elementos que estão nele implícitos. As inteli-
teóricas de peso. O momento da aprendizagem consiste em assin1ilar bem, gencia_s arguias e dedutivas têm facilidade de fazê-lo. Mostra-se então
com clareza e com consciência, a «ciência normal)) do assunto. Se se trata ~ue nao se ap~endeu de memória um assunto nem que se ficou preso
de um exame, exponha-a com precisão, dando-lhe as razões e argumentos. hteral e mater1ahnente a uina posição.
Nos argumentos, mostre onde está realmente a força probativa. Atente à
natureza do saber que está estudando, ao método próprio escolhido. Dê- 7" passo: indicar alguns problemas conexos
se conta dos pressupostos não explicitados mas que subjazem a uma po-
bTdAinda
d continuando o estudo para além do fundamental , h'aaposs1- ·
l. Pode-se encontrar a resposta a essa pergunta na exposição de H. Cl. de Lima Vaz, 1 I a e de encontrar novas relações e novos campos a ser ulteriormente
Antropologia filosófica, op. cit., li, pp. 23-28.

205
204 ·""
l I. E~TUDO DE UM TE~IAOU DE UMA TFSE
PARTE ll. 1\SPECTOS DA VJll1\ DE ESTUDO

dicionamentos visam criar um clima externo e psicológico gratificante,


investigados. Nunca demos a impressão de que esgotamos o assunto_ e
agradável e propício ao estudo e à aprendizagem, abordados aqui como
possuímos a verdade total. Pretensão perigosa e certament.e falsa. En~ao
um e1npreendin1ento coletivo, interativo, em que todos colaboram,
mostremos os inúmeros aspectos não abordados) as novas 1nterrogaçoes
evitando-se competições, suscetibilidades) rejeições entre os me1nbros.
que surgiram e merecem ulteriores estudos.
Valem aqui as indicações dadas no capítulo 9 sobre os fatores decisivos
para conduzir utna reunião, seja da parte dos participantes, seja da do
8º passo: prever as principais objeções e já antecipar
coordenador. Evitem-se os riscos de todo trabalho em grupo: agressão,
as respostas bloqueios, manifestações emocionais pessoais, competição, busca de
Levando 0 estudo ou a exposição a um grau de maior perfeição, aprovação dos outros, compaixão em relação aos "coitadinhos") apelação,
prevejan1-se as principais objeções possíveis e avancem-se as re~postas. brincadeira fora de hora, vontade de aparecer, omissão, passividade,
Assim, por exemplo, ao defender a posição de uma fé ~omp~omet1da_ com mimetismo, iinposição arbitrária etc.
a política, é previsível a objeção de que a fé é obed1enoa a revelaçao de
Deus e não a uma posição política. Levante-se a pergunta com toda clareza 1º passo: escolha do assunto
e imediatamente dê-se a resposta. O primeiro passo é definir o tema do estudo em grupo. Sua desig-
nação ora vem do professor que atribui ao grupo determinada tarefa, ora
Dinâmica de estudo de um texto do interesse cultural do grupo ou da necessidade de fazer um trabalho
ou de prestar um exame. No entanto, haja um tema bem definido para
1. Distribuição do texto a ser estudado. ser estudado. Se se trata de uma matéria ampla e un1 estudo por un1 pe-
2. Leitura individual do texto. . . ríodo longo, faça-se uma divisão dela, de modo que para cada reunião
3. Elaboração de uma ficha individual com a estrutura e ideias de estudo se designe uma questão bem definida.
principais do texto.
4. Entrega das fichas individuais ao professor. 2º passo: definição dos termos e conceitos
5. Síntese integradora feita a partir do fichamento.
Uma vez escolhido o te1na, vejam-se quais são os termos principais
que aparecem na questão. Elucidá-los de modo que o grupo chegue a
Estudo ou discussão em grupo
um consenso sobre seu sentido. Perde-se n1uito tempo discutindo sobre
conceitos cujo significado é diferente na cabeça dos rne1nbros do grupo.
Funcionam outras regras. São outros os passos para desenvolver um O fato de definir bem os conceitos já é um ato de aprendizagem.
estudo ou discussão em grupo 2 • Há naturalmente alguns pontos ~º1,11~ns
com qualquer estudo. Eles não serão omitidos para que os passos d1dat1cos 3º passo: formulação mais ampla do assunto
fiquem claros. . . Definidos os ter1nos e o assunto, explicite-se mais detalhadamente a
Antes de tudo, fiquem claros os objetivos do grupo. Ele _se_ constitui questão a ser trabalhada. Se é um texto a ser estudado, seja lido pelos
em vista do estudo, da aprendizagen1 de un1 tema. As cond1çoes e con- membros do grupo em busca de um consenso sobre seu conteúdo. Se é
um assunto inais amplo, seja dividido em pontos bem delimitados con-
· · Ca1·c
2. w. Fa\vcett Hill, Learning tlirougli D1scuss1011, uorn1
"a/London • Thousand Oaks,
forme as possibilidades de tempo e número dos membros do grupo.
1994.

207
206
l 1. ESTUDO DE UM JU.,.JA OU DE UMA TESE
PARTE ll. ASPELIOS DA VIDA DE ESTUDO

Cada tema seja subdividido, caso necessário, em subtemas. Os alunos sobre o que pensa sobre a questão. No n1omento em que a reação perde
formulem, com suas próprias palavras, as questões, como teste de com- fôlego, provoque-se outra intervenção.
preensão.Evite-se repetir as palavras do autor, do professor ou ~o texto A discussão avança teoricamente de muitos modos. Uma primeira
lido. Mas reformulem-se com outras palavras as mesmas questoes. . maneira é prolongar a reflexão do próprio texto, tirando-lhe as consequên-
Toda vez que se trate de aprender um tema já dado, um te~to, o pn- cias, a1npliando sua extensão teórica. Uma questão enriquece-se também
meiro esforço consiste em entender de que se trata e n_ão d~ d~zer o que sendo relacionada com outros conhecimentos, integrando-a nun1 arca-
se pensa sobre isso. O aluno acostume-se a reproduzir objetiva e fiel- bouço maior. Isso se faz também percebendo-lhe o alcance teórico e prático.
mente 0 pensamento alheio, antes de tomar posição. Só assim se adquire Uma tomada de posição crítica faz progredir a discussão sob o aspecto
seriedade e honestidade intelectual. de mostrar tanto as riquezas e contribuições positivas do material estudado
como os seus limites, deficiências e inconsistências teóricas.
4º passo: distribuição do tempo Inteligências criativas conseguem ir ainda mais longe. Apresentam
alternativas teóricas à posição estudada e que não tinham sido conte1n-
Diante da complexidade do estudo, distribuam-se tanto as tarefas como o
pladas pelo texto. Avança-se assim de modo positivo no assunto, aduzindo
tempo para cada uma delas, de modo que se preveja terminar a tempo.o estudo
para isso elementos aprendidos e1n outros autores e em outras inatérias.
em grupo. o cronogran1a precisa ser controlado por um cronometrista.
Quanto maior for a capacidade de relacionar temas, tanto mais se
progride num estudo em grupo.
5° passo: discussão dos temas e subtemas Progride-se também procurando os 1nembros em suas intervenções
Distingam-se dois momentos. O momento reproduti~o e o mome_nto relacioná-las con1 as dos colegas, seja reforçando-as, seja complen1en-
crítico criativo. No momento reprodutivo, os alunos discutam unica- tado-as, seja n1esmo discordando delas. Outra maneira de avançar é
mente com a finalidade de entender melhor o sentido do texto ou da encontrar exemplos que visibilizem o discutido teorica1nente.
posição estudada. Ainda não se trata de apor opiniões ~ró~r1as, antes, De tempos en1 tempos, o coordenador resuma com suas palavras o
deixando-as de lado, de concentrar-se na apreensão objetiva e fiel do que foi discutido ou interpele o grupo para que alguém ou vários do
pensamento alheio. . _ . grupo o façam. Isso ajuda a assimilação e o relançamento do tema para
Num segundo momento, abre-se o espaço para as pos1çoes pessoais, prosseguir a discussão. Para estabelecer melhor a maneira de continuar
críticas, criativas, alternativas. As opiniões valem não pela força co~ o estudo ou discussão, formulem-se perguntas sobre o já discutido e
que se diz, mas pelos argumentos que se aduzem .. Co~centrem-se, pois, estudado. Todo exercício de verbalização correta, exata e resumida do
as atenções sobre a força probativa de cada razão indicada. discutido ou estudado favorece altamente a aprendizagem.
A discussão caminha 1nais facilmente se alguém 1med1atamente toma Evidentemente cada aluno tome notas das discussões, fazendo pe-
a iniciativa de coineçar 0 processo, evitando silêncio constrangedor. Outra quenos resumos e esquemas do que vai ouvindo. As pessoas tín1idas ou
· e· f azer uma "volta" de modo que todos digam o que entenderam
maneira . difusas e confusas faça1n, antes de falar, um pequeno esquema de três ou
e pensam do assunto. Esse recurso tem a vantagem de provocar a inter- quatro pontos e sigam-no.
venção de todos, mas tem a enorme desvantagem de as pessoas ~carem
preocupadas com 0 que vão dizer e atentarei:n pouco ao que ~izen:i os 6º passo: avaliação da atuação do grupo e individual
outros. Talvez seja melhor ir lentamente reagmdo ao que alguem disse. Nenhuma tarefa acadê1nica termine se1n uma breve avaliação. Quatro
Nesse sentido, 0 coordenador, depois do toque inicial, interrogue o grupo verbos servem para orientá-la: abolir, conservar, modificar e criar. Abolir

209
208
11. ESTUDO DI: UM TEMA OCDE Ull!A TFSE

PARTE \L ASPECTOS DA VIDA DE ESrUDO

o exame complexivo, ainda vigente em várias instituições, sobretudo nos


- funci·onou Conservar o que deu certo. Modificar aquilo que cursos de filosofia e teologia.
o que nao · . ·b·
mostrou defeitos, embora mereça ser conservado. Criar. o~tras possi 1- Em geral, ele requer um longo tempo de preparação. Portanto, é um
lidades que ocorram aos membros do grupo. Nessa avahaçao, aten~a-se exercício de inteligência, de constância e de resistência intelectual.
à atuação de cada membro e do grupo como um todo, tendo em vista o Quanto mais longo é o período de preparação, tanto mais atento esteja
objetivo principal do estudo e seus passos. o aluno aos diversos aspectos dessa preparação.
No fim do estudo ou da discussão, todos os membros do grupo. de-
Condições materiais e psíquicas
ver1am,co mo resultado-· ter bem claro o tema discutido, saber definir os
. .
principais conceitos envolvidos no estudo, ser capazes de reproduzir O ser humano é espírito-em-matéria. Seu espírito funciona conforme
sintética, objetiva e corretamente as ideias relevante~ d~ texto ou do autor as condições materiais. As condições orgânicas, ambientais ora são tais
en1 questão, elencar por escrito as afirmações mais im~o.rtantes ~e.sul­ que facilitam o funcionamento do espírito em graus diversos, ora impe-
tantes do trabalho, acrescentar algumas consequências teor1cas e pr~t1c~s, dem-no até totalmente. Esse jogo depende em parte de nossos cuidados.
além dos pressupostos de tais afirmações e, por fim, escrever as propr1as A saúde física precisa ser garantida. Obtém-se o descanso necessário
reações sobre o conjunto temático discutido. por meio de exercícios físicos e sono regular. A saúde psíquica implica
Quando se conhece de antemão o texto a ser estudado: prepare-s~ o um nível de tranquilidade interna, de controle razoável dos próprios
aluno lendo-o antes e trazendo suas observações pessoais por e~cr~to desejos. O ambiente externo de silêncio e recolhimento favorece a calma
segundo 0 seguinte esquema: tema geral, conceito~, r~sumo das ideias interior. Evite-se tanto uma dispersão externa numa n1ultiplicidade fe-
lidas reação pessoal diante delas. Esse esquema prehmmar serve de base bricitante de atividades como uma dissipação interna que impede o es-
para' as discussões. Seja ampliado com as ~ontribuições dos colegas, tudo ou a leitura inteira de um texto. Não se salte, na leitura ou estudo,
chegando ao final com uma formulação ennqueoda. de texto en1 texto, de pedaço em pedaço de leitura, nun1 excesso de curio-
sidade intelectual. Haja calma para avançar um tema até o fim, sem
abandoná-lo pelo caminho, iniciando outro.
Dinâmica de estudo de um texto
l º passo: Distribuição do texto a ser estudado. . Condições pedagógicas
2º passo: Leitura do texto em grupo: em voz alta ou baixa. Cronograma
3º passo: Debate orientado sobre o texto em questão a resolver. .
4o passo: Relatório de cada grupo dos resultados obtid~s (por escnto).
Haja um cronograma de estudo na preparação do exame sem rigidez
50 passo: Exposição dos resultados do grupo (em plenano). exagerada, segundo uma previsão razoável. Conhecendo a psicologia
6º passo: Síntese integradora (feita pelo professor e pelos alunos). humana, o cronogran1a deixe uma margem de tolerância para eventuais
70 passo: Entrega dos resultados (por escrito) ao professor. imprevistos. Por isso, seja-se mais exigente nas primeiras etapas. Divida-
se a matéria em partes desiguais para uma divisão de dias iguais. Con-
forme o tempo disponível, divida-se o programa em três ou mais partes.
Conselhos para um exame complexivo de teologia ou filosofia Imaginemos que dividimos o tempo em três períodos iguais. No primeiro
A maneira de estudar um tema é análoga a preparação d~ uma tese período, estudem-se mais ou menos dois terços da matéria. No segundo
para o exame e sua exposição. Na própria exposição, fez-se cont1n~amen!e período o restante, e o terceiro período servirá para recuperar eventuais
alusão ao exame. No entanto, nesse tópico levaremos em cons1deraçao
211

210
PARTE 11. ASPECfOS DA VIDA DE E5l UDO

1 Estudo em grupo
1 L FSTUllü Dl: li:-.\ TEMA OU DE U/o.!A TESF

atrasos, completar alguma questão e sobretudo repassar n1ais vezes o


Excelente recurso é o estudo em grupo. Em parágrafo anterior de-
essencial da matéria.
talhamos exaustivamente um método de estudo em grupo. A lei básica
Aplicação presente é a preparação para a reunião por parte de todos, de uma maneira, pelo
O sábio provérbio latino age quod agis-faze o que fazes-é mui:o menos, sumária e de modo aprofundado por parte do encarregado de
importante nesse período.Ao estudar uma questão, prenda-se~ ela e ~a~ expor o tema.
se deixe levar por curiosidades nem divagar por outras questoes. Nao e
Uso de esquemas
hora disso.
Cada tema se estruture num esquema sucinto, preciso e suficiente,
Importância da motivação seguindo os passos explicitados no parágrafo anterior. Para cumprir sua
Na pedagogia há duas tendências extremas que ocultam, cada u1na, funçao didática, seja claro, lógico, bem estruturado, graficamente bem
uma parte de verdade. Ater-se a uma só leva a perder a verdade da outra. escrito. Recorra-se a marcadores coloridos, a tipos de letra diferentes, a
São a pedagogia da motivação e a dos condicionamentos externos. Sem disposição gráfica sugestiva, de maneira que as palavras-chave apareçam
motivação, não se tem coragem de enfrentar um longo e árduo tra~alho claran1ente.As ideias centrais seja1n percebidas imediata1nente pela pró-
intelectual. As motivações são de diversas naturezas, desde as apostoltcas pria forma externa do esquen1a. A arte do esquema consiste em encon-
e espirituais até as de afirmaçao da própria personalidade, superando os trar as palavras evocadoras, que ao simples olhar despertam no estudante
a memória do aprendido ou lido.
próprios limites.

Necessidade dos condicionamentos Exercício de exposição


Mas mesmo quando as motivações são vivas, necessitamos de ajudas Para o exame complexivo oral, a n1elhor preparação consiste em que
externa~, de condicionamentos que as sustentem especialmente qu~ndo no grupo cada vez um estudante exponha com suas palavras o tema e
0
percurso é longo. Concluindo, ao encetar o tra~alho de pre~araçao do seja criticado e objetado pelos colegas a fim de mostrar sua capacidade
exame complexivo, acorde1nos em nós n1ot1vaçoes para leva-lo a cabo. de exprimir-se oralmente e de responder às dificuldades. É um teste e
Alétn disso, criemos condicionamentos que nos ajudem a perseverar. um exercício de compreensão e formulação do compreendido.

Horário reguiar Questão de personalidade


Há vários condicionamentos importantes. Antes de tudo, ter um No rendimento da vida intelectual interfere, além da inteligência) a
horário regular. Ter bem visível diante de si o programa das horas ~e personalidade. O mesn10 vale do exame. Há uma resistência muito
estudo e os temas a serem estudados nelas. Quanto melhor essa div1sao grande de saber-se testado, avaliado. E o exame, queira1nos ou não, é um
e essa programação, mais fácil será o estudo. Perde-se frequentem~nte momento em que todo o nosso ser é avaliado. Como tememos horri-
muito tempo de estudo só pensando em que se vai estudar. Quando isso velmente qualquer sombra de rejeição, o exame nos ameaça com u1n
já está definido de antemão, começa-se imediatamente o estudo indo ao possível fracasso. Daí os medos conscientes e inconscientes. A verdade
ponto programado. de nós e sobre nós tem muitos ângulos. O exame verifica, sim, um
ângulo de nossa verdade. E aceitá-lo é sinal de maturidade. Superestimá-

213
212
PARTE ll. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO

11. ESTUDO DE UM TEMA OU DE UMA TESE

lo ou também não atender a ele revela uma falha de personalidade. Os


testes são feitos para ser enfrentados. Seus resultados sejam, em seguida, la ~om as próprias palavras. Nunca decorar o que não se entendeu.
ponderados por nós no seu justo limite. Eles são feitos para avaliar Existem recursos mnemotécnicos que facilita 1n. Exemplo de um professor
determinado aspecto de nossa vida e não toda ela. de geografia para as serras do Estado do Rio: "O frade Santo Antônio
Além disso, a própria preparação revela qualidades ou defeitos nossos, tocando órgão, ouvindo estrelas, dizia: Amar e querer não é para ti ma~
tais como constância ou inconstância, capacidade de viver um período para que1n quer"; temos as serras: Frade, Santo Antônio, dos órgão~, das
de maior austeridade, renunciando a outras atividades, qualidade de Estrelas, Amar e Querer, Parati, Paquequer.
organização, de planejamento e o seu cumprimento, pacificação dos A memória está também profundamente associada à afetividade à
próprios sonhos e desejos para uma concentração maior no estudo etc. motiv~ção, ao interesse, ao esforço de concentração, ao empenho. Qua;1_
to mais esses elementos estiverem positivamente envolvidos, mais facil-
Trabalho da memória mente se memoriza. Examine-se se a dificuldade de aprender algo não
Testa-se também nesse período a capacidade de nossa memória para vem por causa de algu1na rejeição interna ou até mesino inconsciente. A
reter, de modo organizado, uma matéria vasta, coerente, sistemática, psicanálise estuda muito o fenômeno do esquecimento ligado a meca-
tão diferente da cultura fragmentada de revistas e periódicos. Há inú- nismos de defesa do inconsciente. A memória e 0 esquecimento vincu-
meras técnicas para desenvolver a memória. Ajuda a memorização um lam-se muito ao prazer e ao desprazer ligados a vivências passadas.
texto bem escrito, ben1 estruturado. Quanto mais sentidos externos e A memória depende também de disposições orgânicas de saúde. A
internos se envolverem, mais fácil se torna decorar um assunto: ver, ouvir, exaustão fisica e psíquica dificulta o aprendizado. Na parte da manhã,
imaginar. em que as pessoas estão mais bem dispostas, aprende-se inelhor de me-
Há memórias mais visuais, mais auditivas, mais abstratas. Umas retêm mória. Tanto a hipo como a hipernutrição impedem 0 bom funciona-
mais facilmente ideias, outras números, outras cenas afetivas etc. Conhe- mento da memória.
cer a própria memória torna mais fácil desenvolvê-la. A repetição, embora . O aprendido de memória se firma pela repetição dentro de certo
rápida, fortalece o aprendido de memória. ritmo e ~ão de ~aneira obsessiva e imediata. Ler o texto com atenção
Lance-se frequentemente uma olhadela sobre o que se quer reter. O ant.es de ir dormir permite ao inconsciente processá-lo durante a noite.
exercício de perguntar a si mesmo sobre o assunto e respondê-lo em voz Cmdado, porém, com a qualidade do sono.
alta facilita a aprendizagem. A memória se ajuda da associação. Esta seja
feita entre os eletnentos a serem aprendidos e os já conhecidos. É a me- Criar um eixo principal das ideias
mória lógica. Quanto mais se conseguir entender e ruminar um assunto, Um estudo sistemático e especulativo exercita a capacidade da in-
mais facilmente ele é aprendido de memória. A memória visual se be- teligência tanto de perceber a organicidade das ideias como de ir mais
neficia, por sua vez, da associação entre ideias e conceitos abstratos com fundo a seus pressupostos teóricos e a suas implicações lógicas. Um
realidades e imagens concretas, de modo que com a recordação da imagem sistema se constrói em torno de um eixo central, a modo de varal, em
emerge o conhecimento abstrato. que se dependurem, por assim dizer, os cabides dos conhecimentos dis-
Distinguem-se níveis de memorização. Aprendem-se de cor, ao pé persos. O estudante pergunte-se, no correr da preparação do exaine
da letra, tanto definições importantes como formulações excelentes de co1nplexivo, qual~ o eixo central de seu pensamento que consiga estru-
ideias. Teríamos dificuldade de formulá-las melhor ou de maneira mais ~ur~r todo o seu sistema filosófico ou teológico. Para a compreensão das
precisa. Há outros casos em que basta aprender a ideia e depois for1nulá- ideias e sua estruturação, vai-se do conhecido ao desconhecido, estabe-
lecendo sempre relações entre as ideias e os conceitos.
214

215
li. ESTUDO DE UM TEMA OU DE U/".lA TESE
PARTE li. ASl'ECros DA VIDA DE ESrUDO

modernos. Um mínimo de erudição histórica faz-se necessário. No caso


No exame, o aluno exponha, logo no início, esse eixo no qual inserirá da filosofia, entenda-se cada corrente filosófica no contexto que a prece-
a questão formulada. E esse marco referencial geral é o fruto de toda a deu e que lhe explica a gênese e também como pergunta para as ulteriores
sua reflexão sistemática, especulativa, de várias refundições. Aos poucos elaborações. Cada grande filósofo ou corrente filosófica é uma resposta
se constrói esse quadro geral que vai sendo refeito à medida que novos e uma pergunta. Assim, no caso de 1. Kant, por exemplo, que pretendeu
elementos são aprendidos e assimilados até chegar a sua versão final no responder a questões anteriores que, segundo ele, não tinham ainda en-
término do curso. Ele precisa ter coerência teórica sem ecletis1no, tão na contrado uma solução. São famosas as suas perguntas: Que posso conhe-
moda nos dias de hoje. Como nos recorda João Paulo II na encíclica Fides cer? Como devo comportar-me? Que me é permitido esperar? Quem é o
et ratio, 0 ecletismo aglomera "ideias tomadas isoladamente de distintas homem? Portanto, o aluno levante para si e no exame essas perguntas.
filosofias, sem se preocupar com a sua coerência e conexão sistemática Por sua vez, 1. Kant deixou depois de si uma série de perguntas filosóficas
nen1 com 0 seu contexto histórico" 3. Para evitar essa incoerência teórica, suscitadas por seu sistema e às quais os filósofos seguintes intentaram
a refundição do quadro referencial se faça dentro de uma lógica deter- responder. O estudante procure dar-se conta dessas questões.
minada, cujos pressupostos sejam compatíveis entre si. O risco é fazer
afirmações que têm pressuposições que "urram de estar juntas". Seria o Sugestões didáticas
caso de um cristão dizer que crê na ressurreição dos mortos e na
Método linear
reencarnação.
Em torno de un1 eixo lógico, aparecem mais faciltnente as relações O estudo da matéria extensa do exame complexivo pode percorrer
entre os tratados principais, quer da filosofia, quer da teologia, e dentro dois itinerários. Talvez seja o mais comutn estudar tema por tema até
deles 0 ponto a ser tratado. Quanto mais bem elaborado for o marco chegar ao final. É o método linear. Ele tem muitas desvantagens. Mesmo
referencial, tanto mais o aluno conseguirá transitar de um tratado a outro. tendo sido feito um cronograma, em geral estudam-se bem as primeiras
Espera-se num exame final complexivo precisamente esse domínio questões e negligenciam-se as últimas por falta de tempo. Facilmente se
geral da matéria, que se revela na facilidade de interligar os tr~ta~os e corre o perigo de digressões. Ao ir aprofundando alguma questão, fica-
as segundo uma lógica coerente. Este é o fruto de uma fo~maçao siste- se preso a um ponto, conhecendo-o até profundamente, 1nas descuidan-
mática. Enorme valor especialmente para os dias de hoJe, quando as do-se dos outros. Outro risco é empacar num ponto difícil e assim atrasar
mentes andam muito desorientadas e fragmentadas. o estudo dos seguintes. Esse estudo tende a ser mais fragmentário, ana-
O ideal é conjugar, a respeito de temas culturais, o esquema histó- lítico, dificultando uma visão global e sintética. Impede também de
rico-diacrônico com o sistemático-sincrónico. De cada tema se tenha perceber as relações temáticas, já que se aprofunda mais cada ponto e
uina visão histórica de seu desenvolvimento (corte histórico-diacrônico) não se reflete tanto sobre suas articulações. Por causa de todas essas razões,
e nele se insira a questão concreta a ser tratada. Esta, por sua vez, seja sugerimos outro método.
abordada em seus elementos constitutivos estruturais (corte siste1nático-
sincrônico ). Método de círculos concêntricos adstringentes
Quando se trata de teologia, o esforço é o de mostrar como a questão O método de círculos concêntricos adstringentes consiste funda-
se funda nos textos bíblicos e na tradição tnaior dos Santos Padres, como mentalmente em percorrer várias vezes a mesma matéria em níveis
é ensinada nos grandes concílios e defendida pelos teólogos antigos e diferentes de profundidade. Vai-se de uma visão geral a uma compreen-
são cada vez mais profunda e detalhada.
3. João Paulo II, Fides et ratio, n. 86.

217
216
l l. ESTUDO DE UM TEMA OU JlE UMA TViE
p,\RTI: 1!. ASPECJOS DA VIDA DE F~~TUDO

O método encontra o limite no término do tempo de preparação. O


- 1º passo:
seu segredo consiste em que, a cada volta nova, se repetem as anteriores
Percorre-se uma primeira vez toda a matéria com certa rapidez com
e se avança um ponto. No final) o aluno terá bem firme na me1nória os
a finalidade de captar um eixo central. Sem preocupar-se com entender
todos os pontos nem com aprofundar questões, faz-se uma ideia geral) elementos básicos de todas as questões e elementos mais profundos de
sintética, global, ainda que um pouco vaga de toda a matéria. Recorra-se algumas. Esse método permite ter uma visão sintética de toda a matéria,
a artigos sintéticos, disponíveis em dicionários ou encicl~pédi~s. :~ça-se uma percepção dos pontos fundamentais de cada questão. Ele vai do geral
que 0 professor no final de cada curso apresente uma visão s1n:e~1ca de ao particular, do vago ao detalhado. É pensado sobretudo para exames
todo 0 curso. Aprenda-se be1n claramente) até mesmo de memoria, um orais. Premune o aluno do perigo da dispersão, da curiosidade numa época
roteiro que resuma todo o conjunto das questões. Seria uma espécie de em que ela não ajuda. Oferece uma percepção gradativa em profundidade
refrão filosófico ou teológico. Construa-se tal visão geral repassando dos problemas. O maior risco é ficar parado na primeira volta e sair somente
rapidamente os esquemas de todos os cursos e perguntando-se pelos com frases vagas, superficiais, a modo de slogans. A teologia se transforma
pontos centrais para tecer com eles um texto. numa catequese ou sermão e a filosofia numa conversa de botequim.
Esse método adquire maior eficiência se se usa o recurso de perguntas
-2º passo e respostas. A tradição usou-o na catequese. Naturalmente sem cair no
A segunda volta aperta mais o círculo. Depois de repassar mais uma exagero dos catecismos, cada afirmação seja, na realidade, a resposta de
vez 0 eixo central, vai-se, e1n cada questão, mais em concreto ao ponto uma pergunta. E depois escrevam-se numa folha somente as perguntas.
central. De cada questão fixe-se o problema central e a resposta funda- Para repassar a matéria, basta olhar para as perguntas e tentar respondê-
mental com sua prova principal. las mentalmente. Se se consegue, é sinal que se aprendeu. Se não, volte-se
ao texto. De tanto passarem-se as perguntas com as respectivas respostas,
-3ºpasso a matéria vai sendo aprendida com muito maior segurança.
A terceira volta repete as duas anteriores. No seu interior atente-se, No estudo, distinga-se o que se aprende quanto ao conteúdo, à ideia
desta vez, para os conceitos mais importantes. Sejam memorizados com e se reproduz com as próprias palavras do que se deve aprender ipsis
clareza. No final dessa volta, tenha-se já claro um quadro geral, os pro- litterís, como definições, citações de autores, formulações bem feitas,
blemas e respostas fundamentais das questões nele presentes e de cada dados objetivos etc. Hoje, com a facilidade dos recursos da informática,
questão os conceitos básicos. esse segundo tipo de aprendizado perdeu muito de sua importância.
Entretanto, precisamos ter bem gravado na memória certo conjunto de
-4º passo
definições de conceitos.
A quarta volta refaz os percursos anteriores. Dentro de cada ponto,
aumente-se a erudição quanto às sentenças dos adversários em relação Breve esquema de todo o mé1odo
à posição defendida na tese. De cada adversário, preste-se atenção a seus
Apresentamos aqui, em forma esquemática, o método para facilitar
argumentos, a sua contribuição válida e a seus limites.
ao aluno elaborar o resumo das teses.
-5° passo
1ºpasso: estabelecer um quadro maior da problemática
Se ainda sobrar tempo, depois de repetir as quatro voltas anteriores,
aprofunde-se alguma questão especial, que pedagógica ou estrategica- Formular de modo claro qual é a problemática em questão e como
a tese aí se insere e se entende. Inicia-se, portanto, por um corte histórico-
1nente parece importante.

219
218
PARTE li. ASPECTOS DA \'IDA DE l:STUDO

diacrônico do tema para depois na exposição concentrar-se no sistemá-


l
1
'
Conclusão
li. ESTUDO DE UM TEMA OU DE Ul'llA TESE

tico-sincrónico.
A escolástica primou pelo método formal. Exagerou, sem dúvida,
2º passo: estabelecer o nexo ou a relação o formalismo, conduzindo-o a certa vacuidade de conteúdo ou, pelo
com uma questão imediatamente anterior e seguinte menos, a um descuido da dimensão histórica. Perdeu-se muito ao jogar
Situa-se a tese estudada no tratado em questão, relacionando-a com fora a criança junto com a água suja. Era um método que treinava as
inteligências para a clareza, a distinção, o rigor terminológico, a estrutu-
as anteriores e mostrando como ela é continuada pelas seguintes.
ração das ideias, a sistematização do pensamento, a condensação das
3º passo: Definir os conceitos ideias dos adversários. Aqui procuramos recuperar no contexto atual
Selecionam-se da tese os principais conceitos filosóficos ou teológicos muito desse método. Traçamos um roteiro que se assemelha ao usado
e explicam-se-lhes os diferentes sentidos e o sentido assumido na tese. pela neoescolástica.
Se alguém deseja um exemplo desse método, consulte qualquer ma-
4º passo: definição do problema específico nual clássico de teologia ou filosofia e veja aí como se elabora e se expõe
Formule com toda clareza qual o sentido da questão que vai desen- uma tese. Na sua imensa maioria foram escritos etn latim. Importa mo-
dificar a embocadura teórica das teses que não tinham dimensão histórica.
volver, fazendo-o, se possível, numa frase interrogativa.
No entanto, a estrutura formal do desenvolvimento de um tema merece
5º passo: desenvolvimento do trabalho ser mantido em muitos de seus pontos com proveito.
É a parte mais importante. Desenvolva o tema pedido. Indique qual
a posição que defende. E aduza os argumentos para tal, mostrando a sua
Bibliografia
força probativa, os pressupostos assumidos. Num segundo momento,
mostre a posição de outros autores de peso que divergem de sua posição. CERRUTI, P., A caminho da Verdade Suprema: os preâmbulos da fé, Rio de Janeiro,
Com modéstia, distinga nessas posições adversárias os valores, os pontos Universidade Católica, 1954 (vários volumes; aplicação rigorosa, na língua
positivos, os limites e os aspectos negativos. vernácula, do roteiro indicado).
COMBLIN, J., História da teologia católica, São Paulo, Herder, 1969, pp. 5-45 (aná-
6º passo: apontar para consequências do tema lise do tnétodo formal na escolástica).
Uma vez assumida determinada posição, tire dela as consequências DEZZA, P., Metaphysica gene ralis, Roma, Pontifícia Universitas Gregoriana, 3 1952
(aplicação rigorosa do roteiro do estudo de teses).
teóricas.

7' passo: indicar alguns problemas conexos


Indique brevemente algumas questões relacionadas com esse tema Dinâmica
que, eventualmente, mereceriam ser tratadas em outra circunstância. Elaboração de um roteiro de estudo

8º passo: prever as principais objeções e já antecipar as respostas 1. Tome-se o tema: A vida intelectual é uma vocação relevante.
Finalmente, o aluno antecipe-se ao professor, indique algumas objeções 2. Em que contexto se pensa discutir esse tema: crise da racionali-
feitas a sua posição e adiante os elementos de resposta, caso haja tempo. dade moderna.

221
220
PARTE li. ASPECIOS DA VJDA DE ESTUDO

3. Articule este tema com a formação espiritual e pastoral do


1
1

agente.
4. Procure explicitar os conceitos: vida, intelectual, vocação,
12. Confecção de uma monografia ou dissertação
relevante.
- defina cada conceito
- indique outros sentidos possíveis desses conceitos
- decida sobre o sentido assumido na tese
At ad scribendu1n ne cito prosilias
5. Formule numa frase interrogativa exatamente qual é o problema: (Quanto a escrever, não sejas den1asiado apressado)
num contexto da descrença da razão iluminista, que sentido tem
PEDRO ABELARDO A SEU FILHO ASTROLÁBIO
uma vocação intelectual?
6. Responda à pergunta, provando-a com argumentos:
- riscos do abandono da racionalidade
- tentação do ativismo
- perda no emocionalismo
- estrita profissionalização da vida intelectual: influência do
mercado
- e tantos outros argumentos
7. Consequências dessa vocação intelectual M uitos pontos para a redação de uma monografia já foram indicados
nos parágrafos anteriores. Há dois aspectos bem diferentes. Um de
natureza epistemológica, outro didática.
- para o indivíduo
- para a sociedade
8. Indique algumas questões conexas: vocação intelectual e injustiça
social; problema do elitismo etc.
Aspecto epistemológico
9. Preveja algumas objeções: algumas foram já resolvidas nas ques-
Muitas vezes, a monografia consiste na construção de um instrumen-
tões conexas. Outras são previsíveis: descuido da afetividade,
tal teórico para com ele analisar uma realidade concreta. Esse processo
alienação em relação à práxis etc. passa por vários passos.

1º passo: marco teórico inicial


Para abordar qualquer realidade, para fazer qualquer pesquisa _
teórica ou prática - tenha-se já um marco teórico inicial, provisório.
Do contrário, não se entende ne1n se capta o tema em questão.
~aja uma pergunta prévia, uma suspeita teórica, uma intuição. A
par~1r desse ponto inicial, organizam-se elementos teóricos esparsos, já
o~t1dos, seja por leituras, observações e aulas, seja pelo senso comun1 ,
seJa mesmo por conhecimentos pré-científicos.

223
222
P1\RTE li. ASPECíOS DA VIDA DE ESTUDO

Esse primeiro marco teórico inicial se constrói, portanto, com todos


1 12.CONFECÇAO DE Ul"ltA MONOGRAFIA OU íJISSERTAÇ,\O

se ir construindo-o ao longo da pesquisa em articulação constante com


os elementos teóricos já possuídos, sejam embrionários ou já algo elabo- os dados coletados.
rados. A experiência refletida é boa fonte. Além disso, faça-se um primeiro
estudo exploratório para construir esse primeiro 1narco teórico.
Com esse marco teórico inicial o estudante aproxima-se da realidade Exemplificação dos passos
a ser analisada, começando a pesquisa de coleta inteligente de dados. Esse A pesquisa quer estudar a mudança de consciência dos fiéis de determinadas
marco teórico inicial é o que se tem já na cabeça para ir dando conta comunidades de base. O material acessível são os relatórios. A pergunta
do que se vai pesquisando. básica é: qual é a redefinição de consciência dos membros dessa comuni-
dade e que fatores a provocaram? Para fazer essa leitura, imaginemos que
2º passo: refusão do marco teórico inicial a partir dos novos dados se queira usar o instrumental teórico de P. Berger, que trabalha na pers-
pectiva da sociologia do conhecimento. Então leem-se, em primeiro lugar,
À medida que se vão acumulando novos dados, avançando a pesquisa, as obras de P. Berger com a perspectiva de elaborar um marco teórico inicial
vai-se percebendo que o marco teórico inicial não dá conta de tantos para interpretar os relatórios. Com ele, começa-se a leitura dos relatórios.
novos elementos. Por isso, enxertem-se nele novos elementos teóricos O procedimento será o seguinte: o marco teórico apropria-se, na sua pers-
interpretativos. Estes dados desafiam a capacidade solucionadora da in- pectiva, dos dados dos relatórios; por sua vez, esses relatórios modificam
teligência humana, levantando questões. Resolvê-las: eis a monografia. o marco teórico, obrigando-o a contínuas revisões. O trabalho consistirá
Tal processo ora se faz por pura acumulação estruturada de novos precisamente nesse movimento de reinterpretação dos relatórios à luz de
elementos, ora pela refundição do esquema teórico para evitar contra- um instrumental teórico construído anteriormente e refundido à medida
que os materiais estudados foram exigindo. Quando se conseguir dar uma
dição interna. interpretação razoável a todo o material, ter-se-á concluído o trabalho. E,
A pesquisa processa-se como um contínuo confronto entre o marco
no final, se terá tanto uma refundição do instrumental teórico de P. Berger
teórico inicial e em mutação e os sempre novos dados. Vai-se construin-
como uma nova leitura dos relatórios. Algo novo dos dois lados 1•
do um marco teórico capaz de dar conta de todos os dados. Se algum
dado permanece ainda não explicado, quer dizer que o marco teórico é
ainda insuficiente e deve ser ampliado ou refundido. Aspecto didático
A acumulação de dados e a sua interpretação não são dois momentos
sucessivos, mas dialéticos. Um exige o outro. Os novos dados vão sendo Indicamos aqui resumidamente, em ordem, os passos didáticos de
apropriados teoricamente e constituindo-se assim num marco teórico. uma n1onografia para facilitar o aluno na sua redação.

3º passo: elaboração final do marco teórico 1' passo: definição do tema


Terminada a pesquisa, tem-se então um marco teórico completo. Ele Depende fundamentalmente da natureza do trabalho. Guardadas as
é fruto de elementos teóricos prévios, mas sobretudo dos dados cole- proporções do tipo de exercício acadêmico, o assunto não seja nem tão
tados durante a pesquisa que vão exigindo-lhe contínua refundição.
Na redação da tese, esse marco teórico, que só se construiu no seu 1. Exemplo de tal método: J. B. Libanio, "Uma comunidade que se redefine'', SEDOC
9 (1976). n. 95, col. 295-326. Usando u1n instrumental semelhante, O. Dana fez a análise
final, pode ser didaticamente colocado no início, como se fosse algo que do movimento de cursilhos: Os deuses dançantes. Um estudo dos c11rsilhos de cristandade,
já se tivesse de antemão e com o qual se abordasse a realidade. Ou pode- Petrópolis, Vozes, 1975.

224 225
P1\RTE ll. ASPtCTOS DA V!DA DE ESrUDO
1 12. CONl'ECÇ1\0 DE UMA MONOGRAFIA OU DISSERTAÇÃO

vasto que não possa ser abarcado, nem tão limitado que não forneça A natureza desse trabalho exige precisão nas ideias e lógica do ra-
matéria suficiente. Escolha-se um tema que permita ser dominado du- ciocínio. Evitem-se formulações genéricas, como dizer que os filósofos
rante o tempo designado para o trabalho. Como vimos em capítulo gregos têm uma antropologia dualista. Pior ainda é fazer afirmações
anterior sobre a escolha do tema para uma produção intelectual, delimita- absolutas. Recorde-se a regra da lógica menor: basta um exemplo para
se o tema tanto de modo negativo como positivo. invalidar uma afirmação universal. Assim, se alguém dissesse: «Todo
político é corrupto", bastaria aduzir um exemplo de algum político in-
2º passo: finalidade questionavelmente honesto para que a afirmação se tornasse falsa. As
Que o aluno demonstre saber trabalhar cientificamente, isto é, que provas, conforme do caso, fazem-se por argumentos ou por citações de
domine o aparato científico corrente no mundo da ciência. Execute um autoridade. A força probativa dos argumentos apareça de maneira clara.
trabalho cientificamente exato com maior e menor exigência segundo o Não haja nenhuma afirmação importante que não se prove. Matize-se 0
nível acadêmico almejado: bacharelado, mestrado ou doutorado. Observe pensamento com distinções cabíveis ou expressões corretivas. Por exem-
as regras acadêmicas de um trabalho científico: citações exatas, fontes, plo, em vez de dizer "todo brasileiro é temperamental", diga-se: "É um
bibliografia, além das qualidades internas de todo texto bem redigido, aspecto predon1inante no temperamento da maioria dos brasileiros reagir
coino veremos no parágrafo abaixo. antes com emoção que com racionalidade fria':
A linguagem seja correta. Evitem-se giros de linguagem mal feitos,
3° passo: qualidade do trabalho anacolutos; prefiram-se as frases curtas em que o sujeito, predicado e
No trabalho científico, haja um esquema e uma estrutura lógica, complementos sigam a gramática e a sintaxe. Atenção com as concor-
ordenada, didática e clara, tanto no seu conjunto como nas suas partes; dâncias, com as regências de palavras e verbos, com a estrutura da frase,
perceba-se nele uma progressividade no desenvolvimento das ideias, com a grafia, com a exatidão do sentido das palavras. Nas dúvidas,
evitando dois defeitos muito comuns: repetições e saltos. Antes de co- consultem-se dicionários apropriados. As orações subordinadas, sobre-
meçar a redigir, faça-se um esquema muito detalhado de praticamente tudo as relativas com "que", sejam evitadas. A clareza na expressão do
todas as ideias. Analise-se para ver se existem repetições e se o passo de pensamento é tão importante quanto o próprio conteúdo. Uma correta
uma ideia para a outra tem lógica e progressividade. Utilize-se com estrutura linguística é requisito necessário para dissertações de nível
proveito o método das perguntas. acadêmico de pós-graduação. Na pior das hipóteses, entregue-se o texto
A exatidão na reprodução do pensamento dos autores citados supõe a um corretor de linguagem. No entanto, ele não conseguirá nunca suprir
entendê-los e interpretá-los corretamente. O exercitante revela sua ca- a incapacidade lógica e de estrutura linguística do aluno.
pacidade científica ao saber escolher bem os autores a ser estudados e, No corpo do trabalho, não se citam, em geral, textos em diferentes
portanto, citados. Nesse ponto, a ajuda do orientador é iinprescindível. línguas. Traduzam-se ou resumam-se as ideias) indicando a passagem
Esteja-se n1uito atento à época dos autores e às influências que exerceram original no rodapé. Evitem-se longas citações e um trabalho feito uma
entre si para evitar citar como fonte quem é divulgador. colcha de retalhos de citações. Dessa maneira não se percebe se o aluno
O aluno mostre domínio do tema segundo o nível do trabalho. Se entendeu o assunto ou simplesmente ajuntou uma série de referências.
é de bacharelado, basta uma informação correta. Se é de mestrado, precisa O estudante mostre que percebeu bem e conhece o assunto e sabe for-
cobrir o tema totalmente. Se é de doutorado, necessita avançar algum mulá-lo de modo pessoal e próprio. A originalidade não consiste tanto
ponto nesse tema, tal como uma nova estruturação, interpretação ou na ideia nunca antes dita) mas muito n1ais na maneira peculiar de orga-
relação ainda não percebida. nizar e expor o tema.

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PARTE li. ASPECTOS DA V!LlA DE ESTUDO 1
1
12. CONFECÇÃO DE UMA MONOGRAFIA OU DISSERTAÇÃO

O texto seja conciso, enxuto, sem divagações e repetições. Final- etc. O aluno seja introduzido no manuseio desse material. Nos livros
mente, o aparato científico é importante num trabalho dessa natureza. fundamentais sobre o assunto, há, em geral, referências bibliográficas
Manifesta-se na exatidão e na correção das citações, no manuseio preciso tanto a modo de lista bibliográfica quanto a modo de citações ao longo
das fontes e dos instrumentos auxiliares conforme a natureza do trabalho. do livro. E, finalmente, percorra-se rapidamente uma série de obras do
As instituições acadêmicas têm, em geral, orientações próprias quanto à mesmo tema procurando perceber quais são os livros mais citados. Dessa
maneira de confeccionar um trabalho científico2 • Em termos de Brasil, maneira chega-se às obras fundamentais.
existem as NBR - Referências bibliográficas, editadas pela Associação Dependendo do assunto a ser pesquisado, distingam-se as obras em
Brasileira de Normas Técnicas. dois grupos: fontes e outras obras. As fontes são as obras do autor a ser
estudado ou aquelas que por primeiro trataram do assunto pesquisado.
4° passo: partes do trabalho É o material de primeira mão. As outras obras já tratam desse assunto
num segundo momento e, portanto, têm para o leitor uma relação se-
Todo trabalho estruturado tem três partes: introdução, corpo e cundária com sua fonte.
conclusão. Essas partes guardem uma proporção entre si. Haja no fim A bibliografia se organiza tanto por autor como por assunto ou
do trabalho um índice e uma bibliografia ordenada. Alguns preferem também, se for o caso, por ordem cronológica. A referência seja completa
colocar o índice no início ou mesmo distinguir dois tipos de índice: um segundo o sistema usado pela instituição em que se estuda. Além de
mais simplificado no início (sumário) e outro mais detalhado no final. distinguir fontes e outras obras, classifiquem-se as obras entre funda-
mentais e complementares, ou sejam alocadas nos diferentes temas
5° passo: levantamento bibliográfico tratados na monografia. Dentro de cada unidade, siga-se a ordem alfa-
Antes de começar a redigir o trabalho, mas já com algumas perguntas bética dos sobrenomes dos autores.
fundamentais em mente, faça-se um levantamento bibliográfico sobre o Junto à indicação das obras, aponham-se eventuais outras indicações
assunto. Hoje se tem a facilidade de recorrer a algum programa de busca como, por exemplo, recensões, ou notas biográficas, ou artigos que tratem
na Internet e assim já fazer um primeiro levantamento de obras. O risco delas, ou qualquer informação sobre elas.
é deparar-se com uma bibliografia tão gigantesca que não se saiba por
6º passo: corpo do trabalho
onde começar.
Muitas bibliotecas estão informatizadas. Torna-se viável e fácil orga- Começa-se a redação pelo corpo, deixando para o final a conclusão
nizar a bibliografia tanto por autor corno por assunto. Fichários de autor e depois, no final de tudo, a introdução. Antes de começar a escrever o
e tema se fazem necessários quando a informatização não cobriu todo o texto, faça-se um esquema o mais detalhado possível, no qual se consiga
acervo da biblioteca. aproveitar o máximo das notas tomada das leituras.
Para chegar-se aos livros mais importantes, consultem-se especia- A lei da proporção das partes vale para o todo do texto e para o in-
listas no assunto ou obras de referência. Entre as obras que fornecem terior das partes. Organizem as subdivisões de modo claro e proporcional.
pistas bibliográficas estão: enciclopédias, dicionários especializados, re- O esquema geral obedeça a alguma lógica. Existem diversas possibili-
pertórios bibliográficos, revistas com seções de bibliografia e recensões dades: oposição, progressão, dialética, psicológica, fenomenológica,
comparativa, histórico-cronológica, do mais geral para o mais particular
ou vice-versa, usando esquemas espaciais de cima para baixo ou vice-
2. J. Konings, Vade-mecun1 para trabalhos científicos, pro 1nanuscripto, Belo Hori-
zonte, CES, 1998.
versa etc. Acima indicamos uma série enorme de possibilidades de es-

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 12.CONFECÇÃO DE UMA l\IONOGRAl'IA OU DISSERTAÇÃO

quemas. O esquema mantenha uma unidade fundamental em suas dife-


Exercício de economia de palavras
rentes partes.
As partes guardem entre si uma progressividade segundo a lógica 1. Escreva sem preocupação um texto ou tome um texto próprio
escolhida. A confecção do esquema é um dos momentos mais criativos) já escrito.
de natureza intuitiva. Depois de ter lido e se apossado da matéria, con- 2. Leia-o uma primeira vez e veja que palavras podem ser elimi-
siderando as notas, o redator chega a perceber um fio condutor do as- nadas sem prejuízo do conteúdo e da clareza.
sunto em torno do qual se faz a estruturação. Não se tema gastar tempo 3. Leia-o de novo, e enxugue-o ainda mais.
nesse momento do trabalho. Para chegar-se a um esquema definitivo) 4. Por fim, numa última leitura, reduza o texto ao mínimo de
façam-se muitas tentativas até encontrar a estruturação mais abrangente, palavras possíveis para manter a intelecção correta.
lógica, que consiga aproveitar o máximo das leituras feitas.
Uma vez garantida a unidade e a lógica do trabalho pelo esquema,
inicie-se a redação das partes e subpartes de maneira bastante indepen- J. Guitton aconselha, na formulação de ideias mais difíceis e densas,
dente e até mesmo fora de ordem. Já na primeira redação cuide-se da que se anuncie o que se vai dizer. Diga-se tal ideia e no final, retome-se
linguagem gramatical e de um estilo agradável. O segredo de um estilo brevemente o dito. Claro, isso não se faça com frequência para não se
vivo está no uso da imaginação que cria metáforas, símbolos) compara- cair na repetição e tornar o texto pesado. Vale somente para pensa1nentos
ções, imagens. Não se acanhe o escritor de recorrer às figuras literárias. mais profundos e fundamentais. Ao redigir uma ideia mais complexa,
Há um pequeno segredo, que consiste na inversão simbólica dos verbos redija, num papel ao lado, um pequeno esquema em que se veja com
e adjetivos. Para realidades mortas usem-se verbos e adjetivos de seres clareza as suas partes bem articuladas.
vivos, e vice-versa. Por exemplo, para falar de um rio, que não é ser vivo, No desenvolvimento de uma ideia, comece-se pelo ponto mais sim-
usem-se verbos próprios de ser vivo. «O rio geme, contorce-se de dor, ples e fácil, caminhando para os mais difíceis e complexos, como ensina
ferindo-se contra as margens". E vice-versa. "Fulminou-o com seu olhar". R. Descartes. Chame a atenção para as ideias centrais, tanto preparando-
É preferível escrever mais devagar que atropeladamente e com muitos as com pequenas introduções como redigindo-as de tal modo que se
erros, frases mal construídas, estilo negligenciado. No final já se está perceba, até mesmo graficamente, que é um ponto in1portante.
cansado e a correção se faz muito pesada. Se há dificuldade para construir um esquema, veja-se o seguinte
Siga-se a "lei da economia das palavras", evitando palavras e afir- procedimento:
mações óbvias. Exemplos: Em vez de «no mês de janeiro" dizer "em ja- - fazer uma tempestade de ideias sem ordem sobre a questão e ir
neiro" (pois é claro que janeiro é mês). Outro exemplo: "Para começar, anotando todas as palavras conforme vão surgindo;
quero explicar os termos em questão". Não precisa dizer"para começar". - começar um trabalho de triagem e organização das ideias em
Simplesmente comece. Não precisa dizer que vai explicar os termos. blocos;
Explique-os. Evitem-se expressões de puro "enchimento" ou fruto de - em cada bloco perceber um eixo central e estruturar as ideias em
erros comuns: por sua vez, por um lado e por outro lado (quase sempre torno dele;
se podem omitir ambas as expressões sem prejuízo da clareza), a nível - e por fim estruturar numa ordem lógica os blocos ou eixos que
de etc. já têm dentro de si as ideias ordenadas.
O segredo de elaborar um esquema consiste em encontrar dentro
do tema as "ideias-chave,, ou os "eixos fundamentais". Em seguida,

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO
12.CONFECÇÀO DE: UMA MONOGRAFIA OU DISSERTAÇÃO

organizar em torno desses eixos as ideias e notas tomadas durante as - o título deve ser conciso, mas tão relacionado com o conteúdo
leituras. Por fim, construir um esquema lógico com os eixos. quanto possível, co1n a finalidade de permitir uma visão mais
Diante do acervo de notas tomadas ao longo das leituras, o aluno en- clara dele, apenas pela análise dos títulos;
contre uma "palavra-chave'' que exprima a ideia contida na nota. Eviden- - o texto destinado à publicação deve pertencer a uma das três ca-
temente, uma mesma «palavra-chave" servirá para muitas notas. Agrupe, tegorias seguintes:
então, todas as notas segundo as "palavras-chave" a que pertencem. Aí já se memória científica original, que é o texto que contribui para
terá um material ordenado que facilmente será inserido num esquema. aumentar o conhecimento sobre determinada questão, tendo
No desenvolvimento do tema, cada divisão ou subdivisão seja sempre a particularidade de permitir ao leitor qualificado a reprodu-
introduzida. Se vem numa sequência, relacione-se com o ponto anterior. ção das experiências e a obtenção dos resultados descritos,
E no final faça-se pequeno resumo. com a mesma precisão, ou ainda a repetição de observações,
Em trabalhos sobre algum autor, o leitor perceba sempre quando se cálculos e deduções teóricas, contidas no artigo e em suas
trata da ideia do autor estudado e quando se trata de outro autor ou conclusões;
mesmo do redator do texto. Em geral, em estudos monográficos sobre comunicação provisória ou nota preliminar, que são os artigos
determinado livro ou autor, nunca se usam outras fontes a não ser para que contêm informações científicas originais, mas que não
explicitar, criticar, ampliar a ideia do autor estudado. É necessário aparecer são redigidas de modo a proporcionar ao leitor a verificação
essa conexão de maneira explícita. Evitem-se digressões, inclusões de de tais informações, como no tipo anterior;
longas citações, tiradas de outros autores, mas sem nenhuma referência revisão de conjunto ou atualização, que é o estudo de um
direta com o autor estudado. assunto em que são reunidas, analisadas e discutidas infor-
A elaboração do esquema do trabalho sofre normalmente mudanças. mações já publicadas sobre a matéria, não devendo desprezar
Mas isso se faça antes de começar a redação. É muito difícil modificar nenhum dos trabalhos já publicados que trouxeram algo de
o esquema sobre texto já redigido. Por isso, o estudante procure ir, ao novo ao assunto ou que o enriqueceriam, se tivessem sido
longo das leituras, fazendo esquemas provisórios e refazendo-os à 1nedida levados em conta.
que perceba novos elementos ao avançar nas leituras, na reflexão. - o texto não deve ser enviado para publicação se já foi aceito ou
Terminado o tempo de leitura, anteriormente programado e não publicado em outra revista. Também não deve ser apresentado
deixado aberto - risco de nunca ter1ninar-, o esquema deveria já estar em mais de uma revista cada vez;
fundamentalmente pronto. Poderá haver eventuais mudanças no mo- - o objetivo do artigo deve ficar bem claro na sua introdução;
mento da redação. Mas em pontos menores. - o autor deve indicar com clareza o que é contribuição sua e o que
Na confecção do esquema, nunca esquecer a lei fundamental do é contribuição de outros. Deve também ter cuidado de indicar
conjunto: as partes formam um conjunto completo. Não podem nem as limitações do trabalho, as fontes de erro e os erros prováveis
faltar, nem sobrar e muito menos não ser partes. Com a imaginação dos resultados obtidos, como o limite das suas conclusões. Os
visualize-se esse conjunto para ver se as partes estão bem integradas. autores devem evitar afirmações muito otimistas em relação à
Para o conjunto de um trabalho científico, a UNESCO elaborou precisão de seus estudos e à generalização das conclusões ou dos
normas interessantes, a serem seguidas conforme a natureza do trabalho. resultados obtidos;
Reproduzimo-las. Mesmo para um trabalho não estritamente científico, - deve-se obedecer estritamente ao conjunto de normas e exigências
algumas das observações são válidas: das revistas, quanto à forma de apresentação dos artigos, referên-

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12. CONFECÇÃO DE UMA MONOGRAFIA OU ll!SSERTAÇAO
PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESI UDO

cias bibliográficas, símbolos e abreviaturas etc. Para tanto, reco- Ela visa situar o tema. Recorda eventuais estudos anteriores dedica-
menda-se a leitura prévia de artigos análogos publicados na re- dos ao mesmo assunto. Faz breve balanço deles, enquanto possível com-
pleto, para situar nesse conspecto o aspecto escolhido para a atual pes-
vista escolhida;
_ assunto deve ser exposto de maneira clara, utilizando linguagem quisa. Mostre-se que não se vai repetir totalmente algum já feito.
0
simples e direta, evitando termos pouco correntes, ambíguos e Espera-se algo de novo, mesmo que seja uma simples apresentação pes-
•'jargões técnicos". Quando houver necessidade de usar termos soal do já conhecido, como no caso do trabalho de bacharelado e até
novos, é preciso defini-los bem para melhor compreensão; mesmo do de mestrado. Defina-se, com exatidão, o aspecto escolhido,
_ os autores devem esforçar-se para que seus artigos possuam todos novo, original. Tanto negativamente, dizendo do que não vai tratar, como
os elementos necessários à sua compreensão, dando, para tanto, positivamente, definindo, com precisão, o objeto a ser tratado.
explicações sobre a simbologia utilizada. Devem ser evitadas Avance-se já um resumo, em forma bem esquemática e clara, do que
abreviaturas pouco comuns. É conveniente uma leitura ao final vai desenrolar no trabalho. Na realidade é dizer o que de fato se escreveu
do artigo para emendar os erros tipográficos, retificar a omissão quer quanto ao conteúdo quer quanto ao 1nétodo. Por isso a introdução
de alguns sinais e corrigir erros de sintaxe; se faz no final de tudo.
_ autor deve ter o cuidado de citar todos os outros trabalhos Indique-se por que tal abordagem é útil, interessante cientificamente
0
publicados sobre o mesmo assunto com referências bibliográficas e oferece possibilidade de chegar a resultados válidos. Aponte-se o alcance
explícitas, para mostrar que seu trabalho aumenta os conheci- e o limite do tema. Exponha-se e justifiquem-se as razões por que o es-
colheu. Na tradição americana, um toque autobiográfico tem lugar na
mentos sobre a especialidade;
_ referências a documentos privados e de difusão restrita, isto é, explicitação da escolha.
inacessíveis ao público científico em geral, devem ser evitadas. Finalmente indique-se, se necessário, o tipo de método, as regras
teóricas usadas, suas fontes e as razões por que se adotou tal método e
se consultou tais fontes.
7° passo: conclusão
A conclusão seja breve, ocupando, no máximo, um décimo do corpo.
9° passo: resumo (abstract)
Retome as ideias principais do trabalho de modo conciso e lapidar. Chame
a atenção para os pontos mais importantes e as maiores contribuições da Tornou-se uma convenção que nenhum trabalho seja publicado
pesquisa. Aponte para algumas consequências do resultado. Mostre que numa revista técnica ou científica sem apresentar um resumo informativo.
não se exauriu 0 tema e que ele pode ser continuado, aprofundado. Deixe, O grande número de publicações existentes torna necessário mostrar
portanto, em aberto o tema para ulteriores estudos. Pode até mesmo antecipadamente ao leitor o essencial de cada artigo. Este resumo tem
indicar algumas questões conexas não trabalhadas e que merecem outras três objetivos: mostrar aos que se interessam pelo assunto a necessidade
pesquisas. Tem-se de evitar a todo custo a impressão de qu~ s.e teve a de lê-lo integralmente. Em seguida, dar aos leitores, para os quais o artigo
pretensão de esgotar o assunto. Não se esqueça nunca a modest1a. tem um interesse apenas secundário, o maior número possível de ele-
mentos, para que não tenham necessidade de lê-lo totalmente. E, por
8° passo: ·introdução fim, proporcionar às revistas que publicam apenas resumos um texto já
Paradoxalmente, é a última parte a ser escrita. Somente depois de pronto, elaborado pelo próprio autor.
ter-se redigido 0 corpo do trabalho se está em condição de dizer com A UNESCO elaborou para tal finalidade algumas normas, que
reproduzimos:
segurança os elementos que a introdução anuncia.

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____. .r.i. ___________________ 235
12. CONFECÇAO DE UM,\ MONOGRAFIA OU DISSERTAÇÃO
PARTE lL ASPECfOS DA VIDA DE E~TUDO

1Oº passo: alguns defeitos mais comuns


_ dar informações claras e ordenadas sobre o conteúdo e as con-
clusões do artigo, mencionando também as novas informações Ao descrever as qualidades de uma monografia, já se indicaram alguns
nele contidas, isto é, os fatos observados, as conclusões tiradas e defeitos quando elas não são realizadas. Mesmo con1 o risco de repetição,
as principais características de um novo método de tratamento indicam-se alguns defeitos mais comuns.
ou de um novo instrumento estudado, evitando informações ou O mais grave de todos é a falta de estruturação das partes, dos ca-
conclusões irrelevantes ou secundárias; pítulos e dos parágrafos dentro dos capítulos. O estudante amontoa
_ formar uma unidade, não se restringindo às particularidades do informações, notas tomadas, sem articulá-las entre si. Evita-se tal defeito
artigo; elaborando um esquema bem detalhado e bem estruturado. Não avançar
_ mostrar qual a categoria do artigo, indicando também de que na redação enquanto não se conseguir este esquema. A articulação não
inaneira (aprofundada, sucinta, teórica etc. ) os diversos assuntos se constrói durante a redação, mas é anterior a ela.
foram analisados; Revela esta falta de clareza estruturante uma íuadequação dos títulos
_ descrever todas as informações relativas a novos compostos e os tanto da dissertação ou da tese como dos capítulos e subtítulos. Cuide-se
dados numéricos sobre constantes físicas, mesmo que tais infor- muito da escolha dos títulos e subtítulos.
mações não tenham uma relação direta com o assunto (isso. evita A repetição acontece de várias maneiras. A mais grotesca é no mesmo
que informações muitas vezes preciosas passem despercebidas); parágrafo ou capítulo. Redija-se de tal modo que a ideia apareça uma só
_ explicar os métodos usados para obter os resultados. das expe- vez e que se avance completando-a e não a repetindo. Mais difícil de
riências descritas; se forem novos, o resumo deve indicar os evitar, conforme a metodologia adotada, são as repetições do mesmo
princípios básicos sobre os quais se apoiam, suas aplicações e a tema em capítulos diferentes. Cada vez que se retoma uma ideia, indique-
exatidão dos resultados; se o aspecto novo da aparente repetição.
_ evitar a utilização de termos pouco correntes ou expressões par- Afirmações genéricas e inviáveis de serem provadas. O princípio
ticulares do autor, que só dificultam o entendimento; básico é que toda afirmação seja, de certo modo, verificável ou falsificável.
_ escrevê-lo na terceira pessoa, se o autor desejar vê-lo publicado Esse caráter objetivo corrige as colocações superficiais, vagas.
integralmente em alguma revista (se a redação estiver na primeira Confusão entre afirmações pessoais e reprodução do pensamento
pessoa, a revista será obrigada a uma reformulação. do t~xto ); alheio. Defeito também grave. O leitor deve perceber quando se cita
_ facilitar 0 entendimento do artigo, dispensando sua leitura integral, explícita ou implicitamente um autor e quando se expressam ideias pró-
evitando abreviaturas, sinais convencionais ou termos não comuns, prias. Para facilitar o momento da redação, nas notas fique bem claro: o
assim como chamadas a uma seção, gráfico ou quadro do artigo; que são palavras literais do autor, o que é simplesmente urna ideia for-
_ evitar referências ou citações particulares, que, quando necessá- mulada em outras palavras e o que é comentário de quem leu. As ideias
rias, devem ser redigidas de acordo com as normas usuais da expressas no trabalho revelem claramente essas três diferenças. Que se
publicação a que o artigo é destinado; conheça o valor diferenciado dos autores segundo os critérios da comu-
- observar um limite de 200 a 250 palavras. nidade acadêmica e se sirva de tal conhecimento.
Para os defeitos técnicos, o aluno consulte as normas e regras para
tais trabalhos, próprias das diversas instituições. Aí as exigências e os
juízos variam muito.

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236
PARTE IL ASPECTOS DA Vlll1\ DE ESl'UDO
12. CONFECÇ,\O DE U:-..IA :-..!ONOGRAFIA OU DISSERTAÇÃO

11 º passo: notas
. . Distinga-se o que são as palavras ipsis verbis do livro lido e 0 que é a
A maneira de anotar está passando por uma revolução por causa da 1de1a que se anota com as próprias palavras. Recebetn dois tratamentos
informática. Há programas de computador que facilitam o armazena- de citação diferentes no trabalho científico.
mento, a ordenação e a recuperação das notas. Amontoar uma floresta Toda nota seja considerada definitiva no duplo sentido de ser em si
de notas e não saber encontrá-las, nem usá-las, é tempo perdido em mesma i~teligível, completa e de não precisar ser passada a limpo mais
relação ao trabalho científico. tarde. Existe para facilitar a percepção da ideia central do texto, de tal
Há notas que têm o sentido de ajudar a intelecção da leitura, retendo modo que, a uma simples olhadela para ela, se percebe rapidamente do
a atenção do leitor, e de facilitar uma memorização do conteúdo lido e ~u~ se trata. Anotam-se as palavras literais do autor só quando tanto a
estudado. E depois são lançadas ao lixo. Já cumpriram sua função didática. 1de1a como a formulação o merecen1. Do contrário, basta urna indicação
Sejam bem simples, breves palavras alusivas para fixar a compreensão e sumária do pensamento.
a memória. O tipo de anotação seja tal que se possam ajuntar às notas eventuais
Há outras notas que visam a um trabalho bem preciso e que são observa?ões do leitor, sem perigo de confusão. Notas que queren1 ser
também destruídas a seu término. Outras, porém, têm um caráter mais verdadeiros resumos de artigos ou livros importantes para se conservar
duradouro, já que visam não só a um trabalho definido, mas a ser fonte sejam mais be1n detalhadas e estruturadas. Hoje isso se torna cada vez
para outras atividades acadêmicas. As indicações levam em consideração menos importante, devido à facilidade de policopiar os textos e sobre
esses dois últitnos casos. eles fazer sinais gráficos de realce das ideias.
Em todos os casos, acostume-se a trabalhar com palavras-chave. Em Crie-se um sistema de arquivamento que facilite o encontro do 1na-
cada frase existem palavras-chave. Em cada parágrafo, há uma frase- terial conservado, seja1n notas, sejam textos policopiados e anotados
chave. No conjunto de um texto, há alguns parágrafos centrais. Procure- sejam outros materiais. O sistema de pasta ainda continua a ser um do;
se identificá-los. Treina-se tal capacidade sublinhando durante a leitura melhores, com um índice analítico do material, com indicação exata de
as palavras ou marcando na margem as frases que sejam chave. Depois seu lugar. O segredo da nota é, portanto, sua diferenciação e sua clas-
se relê somente o que se assinalou para ver se se consegue ter ideia do sificação. A diferenciação se faz por verbetes e a classificação varia con-
essencial da leitura. Pode-se criar uma simbologia própria que facilite a forme o sistema adotado.
anotação: parênteses, colchetes, setas e outros sinais.
Princípio básico: toda nota tenha bem clara a fonte bibliográfica
completa, incluindo a página de que foi retirada. Registrem-se os pontos Exercícios de aprendizado de tomar notas
essenciais com a finalidade de recriar ou relembrar, quando necessário,
1. Para a anotação de um texto. Comece com um texto de umas
a leitura feita. Se ela não tiver essa capacidade rememorativa, não adianta
60 linhas, anotando o que lhe parece essencial.
nada. Supõe-se que o leitor tenha um mínimo de capacidade de análise,
2. No dia seguinte, olhe para as notas e veja se consegue refazer
para perceber o ponto importante, e de síntese para codificá-lo com suas
com elas na memória o texto.
palavras. Implica também do leitor certa atenção sobre o objeto em
3. Repita o exercício progressivamente> aumentando tanto o texto
questão e que deseja anotar, escolhendo e selecionando o mais importante.
lido como a velocidade de leitura e anotação.
Sirva-se de siglas, desde que possam ser corretamente decodificadas. Do
4. Outro exercício é anotação de palestra. Ouça uma palestra e
contrário, as notas são inúteis para citação.
anote o que lhe parece essencial. Olhe mais para 0 bloco do

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239
p,\RTE li. ASPECros DA VIDA DE ESTUDO
12. CONFECÇAO DE UMA MONOGRAFIA OU DlSSl:Rli\C,."Ao

papel do que para o ambiente para evitar distração. Siga o ritmo índices, atlas, abstracts, enfim, todo o material que se refere a outras fontes
da palestra, aumentando a atenção nos momentos mais exi- de inforn:ação e que servem de ponto de partida e orientação à execução
gentes teoricamente. Evite um tempo grande entre o que ouve de p~squ1sas. Normalmente esse material não está disponível para em-
e o que escreve. Mas também evite uma simples "taquigrafia" préstimo. Logo no início da vida acadêmica universitária, tenha 0 aluno
maquinal. Escolha o que anota conforme o interesse e a curio- uma ideia de quais são as obras de referência que mais diretamente lhe
sidade intelectual julgarem mais importante. dizem respeito e como consultá-las.
5. No dia seguinte, releia as notas e procure ver se consegue re- O acervo geral é o local em que se encontram os materiais de uso
cordar-se da palestra. rotineiro: livros, revistas, dissertações, periódicos etc. Os usuários têm
6. As anotações devem fazer-se com letra clara, grande, sem eco- acesso a tal material para empréstimo e reprografia. Há outras bibliotecas
nomia de espaço, de modo que visualmente apareça o esquema ~s~~~alizadas conforme a natureza da instituição. Uma informação
da palestra ou da leitura. m1c1 _serve para orientar os alunos no seu uso. Além disso, há uma seção
de revistas, onde se encontram os últimos números ou também os do
an~ antes de i~em para a encadernação e serem alocados no acervo geral.
12º passo: uso da biblioteca
Existem tambem coleções especiais, obras raras que recebem tratamento
Pesquisa e estudo sérios supõem recurso inteligente à biblioteca. próprio.
Há vários tipos de bibliotecas: nacionais, públicas, universitárias, espe- . , _Portanto, _para melhor uso da biblioteca, o aluno conheça, logo no
cializadas, escolares, infantis, dependendo de seus objetivos e de seu 1n1c1~ ~e sua vida de estudos, os recursos e serviços existentes no conjunto
público-alvo. da b1bhot~ca. Uma vfaita dirigida pela bibliotecária e por um professor
A biblioteca possui uma série de setores com atividades próprias a do ramo e um pr1me1ro passo importante para um início de convivência
que o aluno pode eventualmente recorrer: administração geral; seleção, com o universo da biblioteca.
aquisição e registro de livros, revistas, discos e fitas; encadernação e
conservação do material bibliográfico; processamento técnico; disponi-
bilização de bases de dados relativas ao material processado; atendimento Conclusão
e orientação dos usuários; circulação) empréstimos e devolução dos livros
e revistas; seção de periódicos etc. As monografias ganham cada vez mais importância no mundo aca-
Os serviços da biblioteca em vários pontos estão para orientar os dêmico. Nos três níveis- graduação, mestrado e doutorado- 0 aluno
alunos. Antes de tudo, tenham uma visão do conjunto das seções da é testado na sua capacidade de realizar um trabalho científico sé:io, tanto
biblioteca, de maneira que procurem os livros ou revistas no lugar certo. sob. o aspecto metodológico como sob o aspecto do conteúdo. Quanto
Aprendam a maneira de fazer a pesquisa bibliográfica informatizada, mais se avança no nível acadêmico, mais se exige em nível de conteúdo,
conhecendo os recursos do programa adotado. Para pesquisas mais im- embora a questão metodológica continue sempre presente.
portantes, a biblioteca põe os usuários em contato com o mundo externo Procuramos oferecer aqui subsídios de ajuda na elaboração teórica
da informação por meio de programas de busca e de empréstimos pela do méto_do e também na confecção prática do texto. Deixamos para livros
Internet e pelo intercâmbio entre bibliotecas. espec1ahzados as regras técnicas na elaboração do aparato científico. Há
A biblioteca dispõe de um setor de referência onde se encontram certa variedade conforme as instituições acadêmicas. Naturalmente 0
materiais de consulta permanente: dicionários, enciclopédias, anuários, aluno seguirá as da instituição em que estuda.

240
241
PARTE 1!. 1\SPEC.TOS DA V][)A DE ESTUDO

Bibliografia

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'1994. 13. Leitura
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CES, 1998.
Oh! Bendito o que sen1eia
SALOMON, D. V., Co1no fazer uma monografia. Elementos de metodologia do tra-
Livros, livros à mão cheia ...
balho científico, Belo Horizonte, Interlivros, 4 1974. E 111anda o povo pensar!
SEVERINO, A. J., Metodologia do trabalho científico. Diretrizes para o trabalho O livro caindo naln1a
didático-cientifico na universidade, São Paulo, Cortez/ Autores associados, É gern1c - que faz a palma,
'1980. É chuva - que faz o mar

CASTRO ALVES

Dinâmica
Exame de uma dissertação/tese
Postura fundamental
J. Vá a uma biblioteca ou secretaria de faculdade; peça para ver uma
dissertação ou tese. Ponto fundamental no crescimento da vida intelectual é o bom
2. Examine o título e os subtítulos: são claros, indicam o real tema desempenho na prática da leitura. Muitos estudantes se queixam quer
da dissertação/tese? da dificuldade na escolha, quer do exíguo aproveitamento, quer do ritmo
3. Dê uma estudada no índice: que lhe parece como estruturação? muito lento, quer de dificuldades de concentração, quer da difícil inteli-
4. Veja se descobre qual é a pergunta fundamental que o autor se gibilidade de textos desafiantes etc.
fez e que resposta deu! Evidentemente interferem na prática da leitura n1uitos fatores de
5. Exa1nine o corpo da dissertação/tese: suas partes, a articulação longa data: iniciação precoce ou tardia, maior ou menor hábito de leitura,
entre elas; as subdivisões das partes e dos capítulos: claras? Bem aprendizagem inicial correta ou defeituosa, tipo de inteligência, maior
articuladas? Bem estruturadas? Há progressividade? Percebe a ou menor motivação, exercício e capacidade de atenção etc. As indicações
lógica que as comanda? metodológicas não suprem certas qualidades básicas, mas aumentam o
6. Folheie a introdução e a conclusão e veja se respondem ao que rendimento, quaisquer que sejam as condições iniciais do leitor.
se exige delas. A estima pela leitura nasce da experiência e do conselho. Alguém,
7. Observe os aparatos científicos: citações, bibliografias, abrevia- ao dedicar-se à leitura, em dado momento, descobre seu gosto e seu valor.
turas: dão a impressão de científicidade? Então deslancha. Outros são introduzidos nesse mundo por mãos
8. A partir de uma simples observação, mesmo desconhecendo o alheias.
assunto, que qualidades e defeitos lhe parecem existir na disser- As pessoas vivas, que nos circundam, estão aí para enriquecer-nos
tação/tese? com conversas, encontros, diálogos frutíferos. Muitas outras com que1n

242 243
PARTE li. ASPECIOS DA VIDA DE ESTUDO 13. LEITURA

gostaríamos de entrar em contato escapam da possibilidade de nosso - ler o prefácio, onde em geral o autor expõe o objetivo do livro:
encontro. Se escrevem, tornam-nos possível dialogar com elas por meios para quem escreve, por que escreve e sua temática;
de seus textos. Isso abre altamente nosso círculo de relações. Contatamos - ler sobretudo a conclusão, onde se resumem as ideias principais
pensadores do mundo inteiro, desde que conheçamos suas línguas ou do livro e onde se obtém uma ideia do nível, do método, da qua-
suas obras estejam traduzidas. lidade do texto;
A leitura possibilita-nos maravilhoso recuo ao passado, conversas - folhear rapidamente o livro, atentando aos títulos e subtítulos
com os maiores gênios da cultura, lendo-lhes as obras. Talvez nunca das partes, capítulos e eventualmente parágrafos para fazer uma
ninguém tenha escrito páginas tão lindas sobre o amor de um jovem a ideia geral, lendo algumas linhas no início e no fim de cada parte,
sua amada como W. Shakespeare em sua tragédia Romeu e Julieta. Eis capítulo ou eventualmente parágrafo;
então um jovem vivenciando em si aquela experiência que o dramaturgo - saciar a curiosidade observando as figuras, esquemas, gráficos
inglês tão bem retratou. O mesmo vale de outros escritores, filósofos, que houver.
cientistas, teólogos de todos os tempos. A leitura rompe nosso mundo A finalidade da pré-leitura é ter um primeiro contato com o livro,
pequeno e abre-nos continentes insuspeitáveis. adquirindo uma visão geral e resu1nida do todo.
Adquire-se um esquema mínimo para ler o livro com proveito e para
entendê-lo mais facilmente. A pré-leitura desperta perguntas, interesse,
curiosidade pelo livro, aumentando a motivação de sua leitura. Um
Intelecção da leitura
mínimo de perguntas anteriores, de pré-compreensão de um assunto
O mais importante na leitura não é a rapidez, mas sua intelecção. predispõe à compreensão da leitura. Isso se adquire quer pelo que já se
Em torno de tal ponto giram as principais regras. Facilita a intelecção sabe, quer por essa pré-leitura. A medida que a pré-compreensão é maior,
trabalhar em três lances: pré-leitura, leitura e revisão. Em inglês se cita mais desenvolvida, tanto mais fácil será a intelecção da leitura. Nesta
a expressão SQR' (survey, question, read, recall, review) para exprimir o fase de question, procura-se despertar perguntas, questionamentos, curio-
processo de leitura ou estudo de um texto. sidades, pré-compreensões do texto. A medida que se vai ampliando a
pré-compreensão, passa-se de questões vagas e genéricas para mais pre-
cisas, concretas, específicas.
Pré-leitura (survey, question)
As perguntas surgidas na pré-leitura acompanhem todo o tempo da
Antes de pôr-se diretamente a ler um artigo ou livro, faça-se uma leitura à busca de solução. Pelo menos, façam-se perguntas gerais como:
sondagem prévia. Consiste em obter dele um conhecimento global à - Que é que já conheço ou li deste tema?
guisa de exploração do terreno. - Por que esse autor escreve sobre ele?
Para isso deve-se: - Qual é o ponto fundamental, a tese do texto?
- ler o título, olhar com atenção o índice ou sumário (se for livro) - Como ele prova sua tese?
ou percorrer as subdivisões (se for artigo), - Por que ele tem essa divisão em partes?
- ler a orelha ou qualquer outra indicação que houver sobre o livro/ As perguntas que se trazem à leitura originam-se da própria expe-
artigo; riência, do ambiente em que se vive, das discussões com os colegas, das
- informar-se sobre o autor- campo de especialidade, qualificação, preleções dos professores, de outras leituras, de nossa formação e nossa
época e lugar; cultura anterior etc.

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13. l.El1UllA
PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO

Anotem-se numa folha essas perguntas prévias a fim de confrontá-las Aproveitamento da leitura
com as ideias do autor ao longo da leitura e verifique-se no final da leitura Aproveita-se tanto mais quanto mais claramente se tem em mente a
se foram ou não resolvidas. finalidade da leitura e um quadro de referência no qual ela se insere.
Leituras avulsas de autores ou temas, sem nenhum quadro de referência,
em geral não são retidas e se tornam praticamente perdidas. À medida
Exercido de pré-leitura
que uma leitura vem responder a questões concretas, a objetivos bem
1. O professor distribua entre os alunos ou o leitor tome um definidos, a interesses e desejos explícitos, mais se faz proveitosa. Conhe-
livro. çam-se o significado das palavras e os conceitos-base do livro e se
2. Siga em relação a ele os passos indicados para a pré-leitura. entenda do assunto. Anotem-se as palavras desconhecidas, recorrendo
3. O professor interrogue cada aluno sobre o que ele captou do ao dicionário (geral ou especializado) para conhecer-lhes o significado.
livro na pré-leitura. Crie-se, se necessário, um pequeno glossário para uso privado. De vez
4. Faça seus comentários a partir do resultado da pré-leitura. em quando, releia-se esse glossário até que se aprendam bem as palavras
novas. Em alguns casos, o conhecimento da composição etimológica da
Leitura (read) palavra favorece entender outras novas.

Natureza do texto Cultura básica


A maneira de fazer a leitura depende qualitativamente da natureza
A falta de base cultural para ler um livro impede naturalmente sua
do texto, que determina as regras de leitura. A escolha e a extensão do
intelecção. Gera lentidão, aborrecimento, frustração. A porta de entrada
material de leitura dependem do objetivo desejado, da funcionalidade
de uma temática são artigos-síntese ou livros fundamentais, que sejam
temática. Quanto mais exigente for o nível acadêmico (graduação) mes-
antes estudados que lidos. Antes de ler-se a obra de algum autor clássico
trado, doutorado, pós-doutorado) docência), tanto mais selecionada e
(filósofo, literato, pensador), tenha-se uma ideia de sua vida e de seu universo
de valor seja a leitura. Concilie-se a boa escolha com a abrangência, às
de pensamento, consultando algum artigo de dicionário ou enciclopédia.
vezes exaustiva. De fato, uma boa escolha permite dominar todo um
Há também artigos e livros introdutórios que cumprem tal função. Nunca
assunto sem necessariamente lerem-se todas as obras, já que muitas não
se aborda diretamente uma obra clássica sem um mínimo de introdução.
fazem outra coisa que repetir o já dito. O texto ofereça conteúdo subs-
tancioso para a finalidade estabelecida (tese, artigo, exame etc. ) .
Captação das ideias centrais
Critério de língua e autor Para melhor aproveitamento e intelecção de uma leitura distinga-se,
Naturalmente o critério da língua tem sua relevância, ainda que seja em cada parágrafo, o conceito central dos pormenores, ainda que im-
de maneira negativa. Não se aventure a fazer uma tese doutoral sobre portantes. Capta-se o conceito essencial atendendo ao sujeito e ao pre-
um tema cuja bibliografia fundamental e importante esteja numa língua dicado do parágrafo. Em geral, está no início ou no fim dele. Os outros
que não se conhece bem. elementos estão postos para explicitar tal ideia central a modo de: expli-
Vale também o critério da importância do autor. De preferência, cação, exemplo, ilustração, desenvolvimento, demonstração, prova, de-
leiam-se os grandes mestres de uma ciência. É bom conhecer o who is dução. Algumas vezes o texto favorece esta percepção, quer sublinhando
who dos ramos que se quer estudar. graficamente os conceitos-chave, quer usando expressões verbais que

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PARTE li. ASPECJ-OS lJA VID1\ DE ESTUDO 13. LEITURA

indicam a ideia central. Por exemplo: Este é o ponto central, está-se to- do lido. Elabore para si uma ideia sintética do lido por meio de proce-
cando o núcleo da questão, vale a pena acentuar etc. dimento semelhante à pré-leitura. Retome o índice e veja se agora
Co1no pequeno recurso didático, marque-se com nún1eros ou pala- consegue entendê-lo melhor. Leia de novo a introdução e a conclusão.
vras, a lápis, a sucessão das ideias do autor, quer no texto, quer numa Folheie rapidamente o livro para relembrar de tudo o que lera. Veja se
folha à parte. No final, o esquema aparecerá mais claramente. as questões que se levantaram antes e durante a leitura realmente rece-
Os estudantes sejam iniciados nos cursos a fazer pequenos esque- beram respostas. Pergunte-se finalmente quais as teses centrais do livro
mas das leituras. Esse exercício é fundamental no início da vida inte- e como ele as desenvolveu. Além disso, interrogue-se pelos pontos que
lectual.Vai-se criando a facilidade de entender os textos sempre dentro ainda ficam abertos à ulterior reflexão e à espera de melhor resposta.
de esquemas e também adquire-se a capacidade de fazer depois esquemas Numa palavra, relembre título, autor, assunto principal, questões iniciais
próprios com maior facilidade. Tal exercício se faça, num primeiro mo- e que surgiram durante a leitura, conceitos básicos, e faça um balanço
mento, individualmente. Depois, em grupo, confrontem-se e discutam do que se aprendeu da leitura e do que ainda fica à espera.
os esquemas de modo que se recebam críticas e sugestões dos colegas e Nesse momento, ajudam as seguintes perguntas:
eventualn1ente do professor. Estes esque1nas sejam feitos ora com verbetes, - Estou de acordo com o que li? As conclusões do livro estão em
ora en1 forma escrita corrida a modo de resu1no. Ambos têm utilidades sintonia com o ensinado pelo professor, com o que até então
diferentes. O primeiro favorece a capacidade de fazer esquemas, o segundo pensava? Se não, por quê?
de reproduzir o pensamento alheio em formulações completas. - Consigo distinguir fatos de opiniões? Teses de hipóteses? Verdades
assertivas de posições opinativas?
Pequenas repetições - As conclusões do autor respondem às provas aduzidas, aos argu-
O rendimento da leitura aumenta pela prática de pequenas repetições mentos indicados, aos fatos apresentados?
(recai[). Em breves pausas, ao longo da leitura, repita-se para si o lido no
- Poder-se-ia concluir de outra maneira?
seu essencial. Para facilitar essa repetição, já durante a leitura assinalem-se Na pós-leitura fecha-se a tríade didática para abordar um tema, um
as ideias principais, quer usando marcadores coloridos, se se trata de textos texto: Síntese - análise - síntese. Começou-se na pré-leitura com uma
policopiados ou de uso pessoal, quer anotando-as numa folha à parte, quer rápida síntese. Durante a leitura se fez a análise. Na pós-leitura faz-se de
escrevendo-as sobre papeletas adesivas que não estragan1 o livro. Às vezes, novo uma síntese, mas mais consistente e rica que a inicial. Esta se exprime
o próprio autor facilita a leitura salientando a ideia mais importante ou sobretudo na forma de um esquema que organiza as principais ideias do
apresentando breves resumos. Marque-se, então, essa passagem. Desta sorte, livro, explicita-lhes a estrutura lógica e a articulação interna.
no final de capítulo, basta percorrer as ideias ou passagens sublinhadas e
anotadas para se ter urna ideia dos conceitos-chave e dos elen1entos essen-
ciais do texto. Procure-se ordená-los em esquemas e sínteses provisórias. Ritmo de leitura

Velocidade
Pós-leitura (review)
Um adulto letrado lê, em média, 240 palavras por minuto; com algum
No final da leitura, faça-se uma rápida repetição e verificação de exercício, chega a ler 360 palavras por minuto, sem comprometer a in-
todo o lido. Trata-se de um controle de exatidão do que foi lido, anotado. teligibilidade do texto. Em livros mais leves (romances), alcança-se, sem
É a hora de verificar, avaliar, rever, repassar, fazer um exame retrospectivo muita dificuldade, a média de 600 palavras por minuto.

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PARTE lL ASPECIOS DA \'IDA DE ESTUDO • 13. LEITURA

Arco de reconhecimento inteHgência.A ponte da vocalização retarda e introduz fatores de engano


na leitura, que seria mais rápida e correta se fosse diretamente da vista
O arco de reconhecimento, isto é o conjunto de palavras reconhe-
ao cérebro sem passar pelas cordas vocais.
cíveis num único lance de olhos, determina o ritmo da leitura. Quanto
Diminui tal defeito ler com os olhos ajudados por um objeto que
mais a1nplo for, menor será o número de fixações e mais rápida se torna
corre tão rapidamente sobre as palavras que a fala não consegue acoin-
a leitura. Os olhos conseguem fixar 4 letras. As outras estão fora de seu
panhar. Desse jeito, faz-se a leitura unicamente com os olhos, sem inter-
foco e por isso são menos claras, mas o cérebro consegue reconhecê-las.
ferência das cordas vocais.

Movimento dos olhos Aceleração do ritmo de leitura


Setn nenhum exercício de correção, acontece1n normahnente dois
A velocidade do ritmo da leitura aumenta à medida que o objeto,
pequenos vícios no movimento dos olhos. Estes vão e voltan1 continua- que percorre as palavras, não só acelera seu 1novimento como diminui
mente sobre as mesmas palavras e não avançam continuamente para a frente. os trajetos. Em vez de começar logo no início da linha e terminar no final
já começa 1, Sem depois e termina outro tanto antes. Isso obriga que~
Isso retarda o ritmo, como se um automóvel fosse andando para frente com
ligeiras marchas à ré. Outro vício é deter-se, fixar-se nalgum vocábulo e não olhar, ao fixar-se neste ponto, perceba também as palavras que o antece-
prosseguir continua1nente. Cada parada atrasa o catninho. dem ou o sucedem respectivamente.
O exercício de ir conscientemente lendo con1 continuidade, sem Noutro mo1nento, o objeto que conduz o olhar salta uma linha, depois
voltar o olhar para trás, aumenta a rapidez e o arco de reconhecimento. duas, depois três, assim por diante. O olhar consegue então aos poucos ir
Tal hábito se adquire por meio de pequenos treinamentos, como de olhar abrangendo não só em longitude, mas também em largura mais palavras.
para o pêndulo de um relógio e acompanhar com os olhos o seu deslocar. Inicie-se o exercício com leitura de jornais, revistas informativas,
O pêndulo vai progressivamente aumentando a velocidade para ir tam- onde o conteúdo é de fácil inteligência e mais ou menos familiar. Basta
bém obrigando os olhos a fazer tal movimento com maior rapidez. Na perceber algumas letras e já se intui toda a palavra. Lendo algumas pa-
falta do relógio, a pessoa sentada, com a cabeça imóvel, distante a 1,20 lavras, entende-se toda a frase. Leem-se pedaços de linha, entende-se
m de dois pontos (objetos) separados um do outro por 80 cm, olhe ora todo o parágrafo.
para u1n objeto ora para o outro alternadan1ente e aumente progressi- Para acelerar a leitura, a atenção concentre-se nos sujeitos lógicos
vamente a velocidade do movimento dos olhos (15 minutos cada exer- e predicados, voando rapidamente sobre os complementos circuns-
cício). Assim se acelera o ritmo do movimento das pupilas. tanciais, adjetivos etc. A captação de sujeito e predicado permite a inte-
Outro pequeno exercício é ler com um objeto-dedo, lápis- apon- lecção da ideia exposta.
tando as palavras. Pouco a pouco aumente o arco de reconhecimento até Aumenta a rapidez da leitura aproximar-se de um texto de certa
alcançar linhas e parágrafos. maneira situado e pré-conhecido. Antes de começar uma leitura, informe-
se de que se trata, qual o assunto abordado, de modo que se entende cada
Vocalização na leitura vez mais com cada vez menos sinais gráficos vistos.
O defeito da vocalização ou subvocalização da leitura retarda muito O exercício de velocidade de leitura se faz de diversas formas:
a leitura. Necessita-se de mais tempo para falar que para ver. Lê-se vo- - em "V": descer a mão com os dois dedos (indicador e mínimo)
calizando ou subvocalizando as palavras que se veem, em vez de ir dire- separados e olhar para suas extremidades e ir lendo este pedaço
tamente da vista à inteligência. Faz-se o percurso da vista, vocalização e de frase;

250 251

PARTE li. ASPECTOS DA VJLJAVE ESTUDO


13. LEITURA

-
em espiral: ir descendo com o dedo em espiral ou "S" preguiçoso: Para alguns casos, faça-se quase um resu1no do livro ou tomem-se
ir desenhando sobre o texto um "S" com o dedo e ir seguindo-o notas importantes. A maneira de fazê-lo depende da metodologia do
com os olhos, procurando entender o sentido de todo o texto; leitor. Uns preferem marcar o texto, outros anotar à margem a ideia
- movimento "Z": fazer este movimento com o dedo. central, outros escrever numa folha ou no computador as ideias princi-
- movimento "I": ir descendo com o dedo no meio do texto de pais. De vez em quando, releiam-se as anotações tomadas.
maneira vertical; os olhos se fixam na palavra do meio do texto
e o cérebro reconhece as palavras que vêm antes e depois dessa Obras de referência
palavra do meio; assim se desce com o dedo linha por linha;
- movimento em espiral e ((I" conjugados. São artigos de enciclopédia, dicionários, informações rápidas e
No início, exercite-se de maneira puramente mecânica, sem preo- sumárias, hoje facilmente oferecidas por programas de computador,
cupar-se com a compreensão, mas unicamente com o direcionamento em CD-ROM e na Internet. Cumprem a finalidade de introduzir o leitor
dos olhos. Pouco a pouco, vai-se pedindo intelecção do texto até que se num assunto, apresentando-lhe rápida visão sintética. Servem de primeira
consigam as duas coisas: intelecção e rapidez. Esses exercícios querem abordagem de um tema. Oferecem uma síntese inicial que precisa ser
corrigir o defeito de ler palavra por palavra, para começar a ler por ampliada com o estudo ulterior. No final de um estudo recorra-se a tais
blocos cada vez maiores de palavras. leituras para um arremate último. Aí também encontram-se informações
bibliográficas.
Em geral, não se tomam notas, visto que já são trabalhos bem sinté-
ticos e de fácil acesso. No máximo, marcam-se alguns pontos que merecem
Tipos de leitura
maior atenção. A leitura seja mais rápida e volte-se a ela, se necessário,
A maneira de ler um livro depende muito de sua natureza e da fi- em outro momento.
nalidade da leitura. Diante de um livro perguntemo-nos: por que o le-
remos? Que proveito queremos tirar da leitura? Monografias e artigos especializados

São trabalhos escritos por pessoas competentes sobre um tema


Livro fundamental
mais restrito e mais aprofundado. Supõe do leitor estar por dentro da
Para entrar seriamente num campo novo, inicie-se lendo um livro matéria. Completam um estudo geral, detalhando mais um aspecto. Aqui
básico a modo de manual, de livro de texto. Ele supõe uma leitura lenta, vale muito a autoridade reconhecida de quem escreve e do órgão que
em que se destrinçam os principais temas, assimilando o mais que se publica. Há revistas que só aceitam trabalhos sérios, fruto de pesquisas
pode. A escolha desse livro é muito importante. Consulte-se um espe- e estudos pessoais.
cialista na matéria, se possível, ou oriente-se por recensões ou outras É o material privilegiado para as dissertações e teses. Ajuda a pro-
fontes especializadas. gredir na própria pesquisa. Oferece informação segura e atualizada. Só
Privilegie-se tal leitura, fazendo-a sem premência de tempo, nas lendo tais trabalhos consegue-se estar a par de um tema.
horas de melhor rendimento. Atenda-se à intelecção do livro e não se Supõe uma leitura atenta em condições boas de intelecção. A escolha
avance deixando pontos importantes sem compreender. Recorra-se nas depende muito da finalidade: ora manter-se atualizado ou aprofundar
dúvidas, se necessário, a explicações de professores. um assunto, ora escrever urna monografia ou um artigo especializado.

252 253
PARTE li. ASPECfOS DA V!DA DE ESTUDO !3. LEITURA

Leitura complementar Leitura de jornal e revistas


São leituras que dão uma demão num estudo fundamental já feito. Conta-se de joão XXIII que rezava a Deus pedindo a graça de livrá-
Supõe do leitor conhecimento suficiente do assunto em busca de conferir lo de ler todos os jornais todos os dias. Ler jornais é uma arte. Dois
seus conhecimentos com outras fontes. extremos: nunca ler jornais ou lê-los como se fossem obras científicas.
Essa leitura é mais rápida, já que muita coisa será pura repetição do Aprenda-se a configuração do jornal ou da revista com suas diversas
já estudado. Às vezes basta folhear. Quando se encontra algo novo, então partes e, pouco a pouco, informe-se do valor dos colunistas. Uma vez
detém-se mais para captá-lo melhor. A novidade costuma ser simples feito o mapeamento, escolham-se as partes que merecem mais atenção
complementação de algo não visto no estudo básico ou divergência de e aquelas etn que se lerão somente as manchetes. Há colunistas de peso
opinião. Anota-se somente o que realn1ente aparece como novidade ou e suas reflexões são preciosas.
questionamento sério à posição até então assumida.
Indique com algum sinal os pontos que se julgam na primeira leitura Seguir revistas especializadas
dignos de nota. E depois numa releitura retém-se somente aquilo que
realmente trouxe novidade. É o processo continuado de ler determinadas revistas, consideradas
importantes para a área de especialização do leitor e para a cultura
Leitura de pesquisa
geral. Escolha-se um nún1ero razoável de revistas de renome. Para isso,
peça-se orientação a pessoas competentes ou a bibliotecários/as.
Na pesquisa de um tema bem definido cabe um tipo de leitura cursiva Cada vez que chega um número dessas revistas, dá-se uma olhadela
inteligente. Tendo bem claro na cabeça qual é o ponto em questão, vas- para ver o que apareceu de interessante. Se se tem tempo, leia-se o que
culhem-se muitas obras com certa rapidez, anotando somente aquilo interessa, mesmo que seja rapidamente. Se não, anote-se o importante
que tem referência direta ao ponto em questão. para uma leitura em outro momento.
Nesse caso, é necessário que a pergunta central esteja bem clara para Frequente-se a seção das recensões, notas bibliográficas, livros rece-
o leitor, pois acontece que num artigo ou num livro o autor só acene ao bidos, para informar-se do movimento editorial nesse campo. Há revistas
tema estudado, mas com uma ideia que merece ser anotada. Lê-se tudo especializadas em bibliografia. Percorrê-las com assiduidade permite ao
simplesmente para obter essa breve informação. A leitura cursiva busca leitor estar sempre a par das publicações. Há outras que apresenta1n
pepitas de ouro, jogando fora todo o cascalho. resumos dos melhores artigos da área. Segui-las mantém-nos sempre
atualizados.
Leitura de descanso Seguir revistas abre novos horizontes para alé1n da própria área.
Leitura para férias, viagens, repouso. São livros leves, literários. Desperta-se assim a curiosidade intelectual por temas diferentes. Fun-
Buscam-se a beleza, o gosto do estilo. Leia-se com maior fluidez. Anote- cionam à guisa de aperitivo ou de complementação escolar ou de infor-
se alguma ideia que sirva para palestras e outras atividades mais leves. mação de por onde anda o pensamento.
Nessas leituras atente-se ao estilo do autor, aos giros de frase, às ex- Para começar a seguir uma revista, tomem-se os últimos números e
pressões e imagens bonitas, que aprimoram o leitor na arte de escrever. retroceda-se até o ano que se julgar importante. Outra coisa é recorrer a
Anotem-se e aprendam-se até mesmo de memória imagens literárias ou artigos antigos por exigências acadêmicas.
expressões de linguagem bem formuladas a fim de usá-las quando for o Facilita seguir as revistas criar um grupo de leitura co1n reuniões
caso. periódicas. Dividam-se as revistas entre seus inembros. Nas reuniões,

254 255
PARTE li. ASPECTOS DA VlDA DE ESTUDO

cada membro faça uma resenha do que leu, indicando os temas mais
tratados, os autores e o conteúdo.
í nosidade, a maneira de segurar o livro, a posição do corpo facilitam o
desempenho da leitura.
13. LF!TURA

A medida que se descobrem artigos importantes, organize-se uma


bibliografia ordenada a que se pode recorrer em caso de necessidade. Comparação do bom e do mau leitor
Há programas de computador para isso. Não confiar unicamente na
Délcio V. Salomon resume muito bem em doze pontos o bom e o
memória.
mau leitor. Confira seu hábito de leitura com esse quadro.
O bom leitor: lê com objetivo determinado, lê unidades de pensamen-
to, tem vários padrões de velocidade, avalia o que lê, possui bom vocabu-
Alguns princípios para a leitura
lário, tem habilidades para conhecer o valor do livro, sabe quando deve
Selecionar ler um livro até o fim e quando o deve interromper definitiva ou periodi-
camente, discute frequentemente o que lê com colegas, adquire livros com
O crescimento gigantesco da produção bibliográfica em todos os frequência e cuida de ter sua biblioteca particular, lê assuntos variados, lê
ramos obriga-nos a criteriosa seleção. Ainda a melhor fonte de infor- muito e gosta de ler, é aquele que não é só bom na hora de leitura.
mação são as pessoas competentes na área. Uma consulta a elas é im- O mau leitor: lê sem finalidade, lê palavra por palavra, só tem um
prescindível, seja pessoalmente, seja lendo seus trabalhos e recensões. ritmo de leitura, acredita em tudo o que lê, possui vocabulário limitado,
O estudante acostume-se, desde cedo, a frequentar as recensões das não possui nenhum critério técnico para conhecer o valor do livro, não
revistas e eventualmente a anotar alguns livros a serem lidos em tempo sabe decidir se é conveniente ou não interromper uma leitura, rara1nente
oportuno. Não se deixe facilmente levar pelo marketing comercial, mas discute com colegas o que lê, não possui biblioteca particular, está con-
informe-se junto a pessoas abalizadas. dicionado a ler, lê pouco e não gosta de ler; o mau leitor não se revela
Além disso, a seleção é também comandada pelas necessidades aca- apenas no ato da leitura, pois é constantemente mau 1 •
dêmicas e por sua natureza. Há também leituras para recensear livros.
Mesmo aqui haja um critério mínimo de seleção. Algu1nas revistas já
usam a distinção entre recensão para uma apreciação mais detalhada e Leitura ou fala em público
nota bibliográfica para simples informação sobre o livro. As recensões se
fazem em torno de livros de maior peso com leitura atenta, enquanto as Na vida concreta, somos frequentemente solicitados a ler em público.
notas bibliográficas não exigem tanto. Há, naturalmente, um problema psicológico de receio ou mesmo de
medo de fazê-lo. Aqui, porém, se oferecem alguns recursos e pequenas
Velocidade da leitura técnicas para melhorar o desempenho, com auxílio de recomendações
de fonoaudiólogos.
Técnicas para aumentar a velocidade já foram oferecidas acima. A
velocidade depende da natureza e da finalidade da leitura, como também
já se disse. A lei áurea da velocidade é não ser tão rápida que não se
capte o que se lê nem tão lenta que produza distração. É objeto de
educação durante toda a vida. Os lentos forcem um pouco seu ritmo,
1. D. V. Salomon, Con10 fazer urna tnonografia. Elen1entos de nietodologia do trabalho
sem prejuízo, é claro, da intelecção. Pequenos pormenores como a lumi- científico, Belo Horizonte, Interlivros, 4 1974, p. 45-48.

256 257
PARTE !L ASPECTOS DA VIDA DE FSTUDO

Qualidades da leitura
í
'
Postura diante do auditório
D.LEITURA

A leitura para públicos maiores, especialmente no microfone, seja Olhando de frente para o auditório, imagine um grande X que en-
bem mais lenta que a normal. Articulem-se bem as palavras, acentuando volva todos os presentes. Fale olhando para o ponto de interseção, cali-
tnais as consoantes. As vogais reboam, dificultando a intelecção da pala- brando para ele a intensidade da voz, e imagine lançando-a para o alto
vra. Não se calcam as guturais fortes nem se abaixa o tom no final das da cabeça e para a frente. Durante a fala olhe para o público a fim de
frases. Pronuncia-se claramente até a última sílaba da frase. estabelecer contato com ele. Reaja de modo espontâneo diante das rea-
Sem teatralização, dê entonações diferentes, conforme o sentido da ções percebidas nos ouvintes. Quando houver algum ruído estranho no
frase: interrogações, exclamações, súplica, lamento, surpresa, admiração, auditório ou circunvizinhança, não concorra com ele elevando a voz. Às
glorificação, pensamento interrompido, indignação etc. Adapte o tom vezes, basta uma leitura mais lenta. Economize a voz, recorrendo, quanto
da voz ao gênero literário: narrativo, diálogo com modulações diferentes puder, ao microfone. Acostume-se a monitorar o calibre da voz com
conforme os personagens, afirmações incisivas, estilo preceptivo (ordem), exercício conjunto do ouvido e do aparelho fonador. Conheça bem o
conclusivo. Jogue com o volume da voz para dar mais importância a uma volume próprio sem forçar a voz. Preste atenção mais na voz ressonante
palavra ou frase. Varie a afetividade do tom. Escanda as frases a serem do que no que está acontecendo na laringe. Isto produz os ajustes mus-
retidas por causa de sua importância ou mesmo repita alguma palavra culares necessários na garganta e boca. Se está previsto um exercício mais
ou frase marcante.
longo da voz, como no caso de conferências e aulas, economize a voz nos
O silêncio e a interrupção abrupta servem para chamar a atenção
intervalos.
de algum distraído. Rompem o atropelo das palavras e a monotonia da
recitação. Abrem espaço para o ouvinte interiorizar o lido ou refletir
Exercícios de voz e postura
sobre ele, além de ser pequeno descanso para o leitor.
A boa leitura divide bem as frases, de modo que não se lhe perde o Há vários exercícios das cordas vocais: aquecimento com vibração
sentido. Prepare-se lendo o texto previamente. Na fala livre, evite frases da língua (trrr, brrr) e com a pro lação das vogais; emitir um zumbido
longas. Deixe-se observar por um outro para que lhe indique os defeitos hum ... hum ... fazendo vibrar os lábios e a face; modular a voz, mantendo
e sobretudos os cacoetes: «né", "uai", "bah" etc. a mesma intensidade e percorrendo a escala de notas; bocejo para limpar
a voz antes da leitura; evitar tomar leite, que favorece secreção, enquanto
Atitude interior e relaxamento a maçã a desimpede; massagear as cordas vocais com suaves movimentos
Não ler como quem quer desincumbir-se de uma tarefa, mas como da cabeça para os lados combinados com engolir de saliva; estirar a língua;
quem o faz com gosto e alegria. Crie então uma atitude interior de prazer, gargarejar; rotação da língua dentro da boca; mastigar chicletes; encurvar
mentalizando-a. Dependendo da duração da leitura ou da fala e de sua a língua para cima e para baixo etc.
importância, um exercício prévio de relaxamento é muito útil. Deitado Há exercícios para distender os músculos próximos ao aparelho
ou sentado, de olhos fechados, acompanhe os movimentos da respiração fonador: levar a cabeça para trás, trazê-la ao centro e deixá-la cair brus-
abdominal e relaxe a mandíbula, a língua e toda a área do rosto. camente; com os olhos fixos para frente, deixar a cabeça cair ora para a
Um dos segredos da boa leitura é a respiração. Tranquilize-se antes direita ora para a esquerda; fazer a rotação da cabeça; elevar os ombros
de ler, fazendo respiração abdominal e autossugestão apaziguante. Du- e em seguida deixá-los cair (três vezes): direito, esquerdo e os dois juntos;
rante a leitura, controle as pausas de respiração, para evitar sensação de provocar uma rotação deles para frente e depois para trás; deixá-los cair
afogamento. para frente e depois para trás: isolada e simultaneamente.

258 259
PARTE li. ASPECTOS DA VJllA DE ESTUDO

Cuide-se da postura corporal. Ao ler ou falar em pé, apoie-se sobre


1
'
13. LEITURA

O número de passos depende, portanto, do número dos participantes


a bacia pélvica. Evite-se tensão muscular do omoplata e do pescoço, e do tempo disponível, de modo que se façam as sínteses intermédias até
posição bem plantada no solo. uma síntese final única dentro do tempo previsto.

Conclusão

Ler pertence mais ao mundo do prazer, da gratuidade, que ao do


sacrifício, do dever. Muitos nunca aprenderam realmente a ler, porque
vincularam tal atividade à coação escolar, aos deveres de casa, às leituras
obrigatórias para o vestibular. Não chegaram a descobrir o prazer ma-
ravilhoso de mergulhar no universo de ideias, de imagens, de comuni-
cação dos livros.
Além dessa motivação primordial, existem recursos que nos ajudam a
melhorar a qualidade de nossa leitura. Apresentamos precisamente neste
texto alguns subsídios nessa linha. Nada substitui, porém, a primeira ini-
ciativa de começar a ler. Aprende-se a nadar nadando. Aprende-se a ler lendo.
E muito. E coisas bonitas. E descobrindo nas leituras ideias, valores, beleza,
lições de vida. Oxalá terminemos essa leitura com paixão pela leitura.

Bibliografia

JAMET, E., Leitura e aproveitamento escolar, São Paulo, Loyola, 2000.


MARTINS, M. H., O que é leitura, São Paulo, Brasiliense, 1982.

Dinâmica de síntese
Perfil da Igreja hoje
1" passo: Cada um anote num papel o que lhe ocorre sobre o tema.
2º passo: 2 a 2 procurem fazer uma síntese das ideias.
3º passo: 4 a 4 procurem fazer uma nova síntese das ideias.
4º passo: 8 a 8 (ou mais) procurem fazer uma nova síntese.
Sºpasso: 16 a 16 (ou mais) tentem uma síntese de tudo e assim por
diante até terminar o tempo previsto.

260 261
r
1

14. O ensino acadêmico

Pensar incon1oda con10 andar à chuva.


FERNANDO PESSOA

á três pilares do sistema acadêmico: a aula magistral, o seminário,


H a tutoria. As universidades e faculdades dificilmente se reduzem a
um dos componentes. Divergem antes pela proporção entre eles. Toda
tentativa de substituir totalmente o curso magistral te1n fracassado. Houve
no rastro revolucionário de Maio de 1968 na França acerbas críticas ao
curso magistral. Era a bête noire do sistema educativo universitário, ex-
pressão do autoritarismo acadêmico. O estudante não encontra na
universidade o lugar de palavra. M. de Certeau resumiu bem o espírito
de Maio de 1968 com a expressão Frise de parole- Tomada da palavra 1 •
No furor contra o mundo acadêmico tradicional, alguém escreveu um
cartaz que dizia: "Professores, vocês nos envelhecem!" 2 • Sonhou-se então
com o mito do autoensinamento, que encontraria no professor somente
uma fonte de informação a ser consultada. Tentou-se criar, e1n alguns
lugares, um sistema baseado totalmente em seminários. O professor
exerceria a simples função de quem não atrapalha ou, no 1náximo facilita 1

a relação e a discussão entre os alunos. Mas não se foi longe.

1. M. de Certeau, La prise de parole: pour une nouvelle culture, Paris, DDB, 1968.
2. !d., ibid., p. 46.

263
PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 14. O ENSINO ACADÊMICO

O segredo reside num equilíbrio dinâmico entre esses três compo- substituí-lo. Não é lectio, mas prae-lectio. E o que os professores clássicos
nentes do siste1na acadêmico, cada um cumprindo uma função própria, faziam era oferecer o conjunto de ele1nentos necessários para a intelecção
diferente e insubstituível. do assunto. Esses conhecimentos positivos chamavam-se eruditio, que
deu origem à nossa palavra "erudição" com outro matiz. A eruditio era
não tanto aumentar a soma de conhecimentos, como hoje se entende,
A aula magistral mas antes obter aqueles dados necessários para a compreensão do
autor, texto ou assunto tratado. A preleção clássica, e nisso continua
Explicitação
ainda modelo para nós hoje, não visava tanto a uma massa de infor-
É o método mais conhecido no mundo latino. Os alunos matriculam- mação, mas antes a desenvolver e ativar o espírito do aluno, oferecendo-
se em cursos em que os professores fazem suas preleções, nos quais lhe os subsídios necessários para a compreensão do tema em estudo.
transmitem sua respectiva disciplina e submetem os alunos a exames A didática moderna, em relação ao professor, desenvolveu-se muito.
para darem conta do ensinado em aula. Com esse sistema evitam-se os Escapa de nosso objetivo aventurar-nos por essas trilhas. Há um mínimo,
perigos do autodidatismo: lacunas graves, insegurança, falta de método, porém, necessário que vem já desde a Antiguidade. O curso é uma viagem.
falta de perspectiva geral do assunto, desorde1n nos conhecimentos, No início estamos descansados. Aço damos o passo. No final, diminuímos
autossuficiência, audácia ingênua e acrítica, perda de tempo por falta de a velocidade pelo cansaço. Comece-se um curso com lepidez, oferecendo
orientação de um especialista, levar-se pelo gosto sem percepção da mais matéria, de modo que na metade do semestre se tenha visto uns dois
proporção e da importância do assunto etc. terços dela. Preveja-se de tal maneira o tempo que toda a matéria seja
O professor na aula oferece informações que não se encontram tão tratada ou, pelo menos, receba um mínimo de orientação. O importante
facilmente ordenadas. O aluno economiza tempo e energia. A aula pro- não é a quantidade de matéria e a erudição, mas que se saia com uma
picia sínteses difíceis de serem elaboradas num mundo de monografias. visão compreensiva, progressiva e sistemática do curso. Que o professor
Os livros são mortos, as aulas revelam a todo momento o pensamento se empenhe nessa tarefa! Compreensiva no sentido de perceber onde está
sempre em gestação do professor. o problema e sua solução; progressiva no sentido de captar como se
O termo aula tem em latim duas palavras: schola e praelectio, de que desenvolve tanto histórica como logicamente a questão; sistemática no
se originaram as duas palavras portuguesas "escola" e "preleção''. No sentido de fazer-se uma síntese ordenada e coerente do conjunto da ma-
sentido em que estamos tratando aqui, aula é sinônimo de preleção. A téria. Toda disciplina é um complexo que se insere no arcabouço maior
etimologia parece estranha, mas não o é. Chama-a de uma leitura an- do curso.Ajudar o aluno à percepção dos conjuntos particulares integra-
tecipada: prae-lectio. A aula é uma leitura que o professor faz de um texto, dos num conjunto maior é um dos objetivos fundamentais das aulas.
de um livro, que o aluno vai "ler'', ou de um tema sobre o qual vai ler. Embora a aula pareça uma atividade em que o professor passa um
Portanto, lê-o antes e díante do aluno, explicando-o a ele. Sob esse as- ensinamento para os discípulos que o escutam passivamente, ela tem
pecto, a aula é sempre referida a um texto fora dela que será objeto da condições de superar essa impressão e realidade de endoutrinamento e
<<leitura'', enquanto ela é uma pré-leitura auxiliar. passividade por meio de dinâmicas ativas e estímulos a atitudes críticas
Quanto mais complexa for a lectio (leitura depois da aula), seja sobre por parte dos alunos. O professor não só comunica conteúdos, também
um texto, seja sobre um assunto, tanto mais importante se faz a praelectio ensina a manejar o método de sua disciplina.
(aula) feita por uma pessoa preparada, especializada no assunto. A aula Há variantes no sistema de aula magistral. Há o rígido alinhamento
tem a finalidade de ser uma ajuda para um ulterior estudo e não a de aula e exame, de maneira que o professor simplesmente se preocupa em

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PARTE ll. ASPECTOS DA \'[J)A DE ESTUDO
14.0 ENSINOAC1\Df:MICO

ensinar sua 1natéria e depois verificar se o aluno a aprendeu pela via do inicie e se trabalhe sobre a dimensão existencial, problematizada, e, em
exame. Que cada aluno se organize, seja frequentando e anotando as outros momentos, o professor não terna expor, sem mais, uma matéria
aulas, seja auxiliando-se das notas dos colegas, 1nesn10 com frequência estruturada sistematicamente.
remissa, seja por estudos pessoais! No final do curso ou durante, conforme
o caso, pedir-se-á conta a ele por meio de exigências avaliatórias. Há Questões didáticas
outras formas interativas entre aluno e professor por meio de dinâmicas,
de participação em aula, de um controle maior da frequência, sem deixar Dentro do sistema centrado na aula, vale aqui a regra clássica que a
de lado as aulas e os exames. pedagogia inaciana herdou e vulgarizou dos três momentos: antes da
aula, aula e depois da aula.
Tipos de aula
Antes da aula
Nesse sistema, há dois tipos de aula. Um em que predomina a preo-
cupação de expor um conjunto orgânico e elaborado do assunto. O es- O aluno prepare-se para a matéria que vai ser ensinada, lendo o
tudante é convidado antes a aprendê-lo e assimilá-lo. Quanto mais clara, manual, a apostila ou recorrendo a outra informação (dicionários,
sistemática, bem trabalhada for a exposição tanto mais bem-sucedido enciclopédias, Internet). Tanto mais importante é a praelectio - pré-
será o curso. É a maneira n1ais clássica de lecionar, que tem imenso valor leitura - quanto mais a aula se centra em algum texto fundamental.
e talvez ainda maior hoje numa cultura fragmentada e para ouvintes É imprescindível que o professor tenha um programa de tal forma
pouco habituados a urna visão ordenada da realidade. No entanto, a elaborado e comunicado aos alunos que se saiba, de antemão, o assunto
receptividade de tais aulas é menor por certa dificuldade que se tem de cada aula. Os estudantes exijam de seus professores que já no início
atualmente de receber um corpo teórico bem estruturado, já feito. Sente- do semestre apresentem um cronograma suficientemente detalhado para
se pouca motivação por tal tipo de curso. que se preveja o assunto de cada aula.
Outro tipo de aula inicia-se com a problematização do assunto. Em rápido estudo antes da aula, atente o aluno ao seguinte:
Parte-se da situação existencial, cultural dos alunos. De dentro dela, le- - que pontos lhe pareceram mais difíceis, e por isso merecedores
vantam-se os problemas que o curso pretende responder ou, ao menos, de mais atenção, quando da explicação do professor;
aos quais quer oferecer elementos teóricos de solução. Para isso, lança-se - que perguntas o terna lhe suscitou para que fique atento para ver
mão de dinâmicas em que os alunos exprimem suas inquietações, dúvidas, como a aula as responde; caso ela não o faça, é o momento de
perplexidades. Além disso, o professor recorre também a sua experiência formulá-las em aula;
do dilaceramento da cultura moderna e pós-moderna. - em que pontos tem urna opinião já formada para confrontá-la
Evidentemente esse curso tem a enorme vantagem de despertar mais com a do professor.
interesse. Corre o perigo de dedicar muito tempo à problematização e
não conseguir passar para os alunos um conjunto estruturado da matéria. Durante a aula
Mais: os estudantes continuam, de certo modo, confirmados em seu Quanto maior for o nível de interesse e atenção, tanto mais se
mundo existencial dilacerado em vez de defrontar-se com a serenidade aprende. Tal se mostra já pelo lugar em que se senta, que pode facilitar
teórica de um terna bem trabalhado. ou dificultar a atenção, fundamental para qualquer compreensão. Tendo
Como sempre, o caminho mais viável hoje parece ser uma combi- feito a preparação, as anotações se tornam mais fáceis, pois já se vem à
nação dessas duas tendências, de maneira que, em alguns momentos, se espera de respostas ou esclarecimentos não contidos no texto lido. Esses

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PARTE lL ASPECTOS DA VIDA DE ESIUDO l4. O ENSINO ACADÊMICO

pontos devem ser anotados. Vale a pena também fazê-lo quando o pro- Para as segundas, avance a matéria, se for o caso, ou mostre ao aluno que
fessor consegue formular de maneira mais clara e didática aquilo que isso será visto mais adiante. Em ambos os casos, o bom professor valoriza
está no texto de modo mais difícil. sempre as perguntas dos alunos. Nunca os humilha nem desconhece ou
A relação entre o professor e os textos escritos é comparável àquela destrata suas dúvidas. Toda pergunta merece uma resposta, nem que
entre o texto de uma peça de teatro e sua representação, entre a pauta de seja para fazê-lo mais profundamente em outro momento.
uma música e sua execução. Dá vida à letra morta. Nunca é uma pura Tenha o professor ou um texto básico próprio, ou adote um manual
leitura de um texto, mas sua vitalização que leva o aluno a entendê-lo, em que o aluno encontre sistematicamente o básico do curso. Além
apreciá-lo, perceber-lhe tons e cores novos. disso, formule o professor, no final de cada capítulo do tratado, um
Aproveitar-se-á mais da aula se se tiver já de antemão um esquema conjunto de perguntas que abarquem o principal da matéria. Dessa
preparado de maneira bem espaçosa. Nele se introduzam as explicações maneira, o aluno, ao respondê-las corretamente, terá mostrado uma
do professor, sobretudo as bem-sucedidas. compreensão da matéria estudada. Uma boa didática tanto oferece no
Anote-se, naturàlmente, unicamente aquilo que se entendeu. Even- início do curso uma visão geral de toda a matéria como no seu final faz
tualmente apontem-se os pontos duvidosos à espera de explicação, seja uma síntese ou repetição. O ideal é que o professor a faça antes e depois
no decurso da própria aula, seja por meio de perguntas diretas sobre eles confira corno os alunos a fizeram, seja por via oral, seja escrita.
em aula, seja por meio de consultas ao professor em outro momento. Um bom professor incentiva a leitura dos livros básicos e comple-
Dependendo do professor, as questões duvidosas sejam esclarecidas mentares. Para isso, prepara urna bibliografia comentada: conteúdo
em aula. Para tanto, tenha-se o bom-senso de perceber se se trata de uma principal do livro, observações sobre o autor, qualidades e limites da obra.
dúvida que interessa a toda a classe ou se é muito pessoal. Neste último Apresentar uma longa bibliografia sem orientações é inútil e contrapro-
caso, seja feita em outro momento. Caso se julgue bem propor a dúvida, ducente.Valorizem-se as leituras feitas pelos alunos, quer arguindo-os
a fim de não falar demais e confusamente, escreva no papel algumas pa- em aula, quer por meio de pequenos recursos didáticos: ficha de livro,
lavras que facilitem a sua formulação. Por exemplo, vamos imaginar que resu1nos, pequenos trabalhos, protocolo com o elenco das leituras etc.
o professor explicou na aula de antropologia a relação entre corpo e alma.
O aluno não entendeu bem a relação da alma com o todo do ser humano. Depois da aula
Quer fazer uma pergunta. Escreva no papel as palavras: alma, parte, todo, No fim do dia, antes de fechar o tempo de estudo, revejam-se a ma-
continuar a viver. E então formule a pergunta: a alma é parte ou um todo téria lecionada e as próprias notas. Muitas vezes essas foram tomadas de
do ser humano? Se é parte, como pode continuar vivendo sem o corpo? modo abreviado, sincopado e, se não forem completadas no mesmo dia,
É importante fazer perguntas em aula dentro do limite de não per- praticamente se tornarão ininteligíveis em outro momento. Por isso, no
turbar os colegas ou o andamento geral da explicação da matéria. A próprio dia da aula completem-se os apontamentos em relação ao manual
pergunta revela tanto a incompreensão do assunto como o contrário. No e anotem-se as dificuldades ainda persistentes, à espera de solução.
primeiro caso, procura-se entender o que já foi dito. Não se tenha ver- A tradição medieval valorizou muito os "exercícios" depois da aula.
gonha de fazer tais perguntas, pois a aula é o lugar de aprender. Há outras É o «para casa" das escolas modernas. Em nível universitário, esses exer-
perguntas que mostram que o aluno entendeu muito bem a ponto de cícios assumem diversas formas. A mais comum é o estudo em grupo,
provocar o avanço da explicação. Um bom professor sabe distinguir bem do qual já tratamos acima.
essa dupla espécie de pergunta e dar-lhe a resposta conveniente. Para as Há também dinâmicas que, mesmo feitas no tempo de aula, signi-
primeiras, explique de novo, com outras palavras e exemplos, o já dito. ficam uma atividade de pós-lição, já que abordam temas já tratados em

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PARTE ll. ASPECTOS DA VIDA DE F$TUDO
i 14. O ENSINOACADE~HO)

aula e aprofundados pelos alunos. Ao longo do livro e no final, encontra- A sobrecarga de aulas e as exigências escolares pouco criativas tam-
se uma série de modelos de dinâmicas úteis para essa finalidade. bém impedem o bom aproveitamento por parte do aluno. Não há espaço
Sem esses exercícios, o método da aula magistral claudica grave- para reflexão e estudo pessoal. Vive-se fazendo "trabalhinhos". É uma das
mente. Por meio deles, os alunos são obrigados a reter com clareza a doenças mais comuns no atual mundo acadêmico.
matéria aprendida e a expô-la oralmente, seja diante do professor e dos O aluno precisa aprender a mover-se nesse mundo das aulas. Das
colegas, seja com os colegas no estudo de grupo ou de outra forma. Sem aulas criativas, valiosas, aproveitar o máximo. Das aulas menos estrutu-
formular-se para si e para os outros a matéria, não se tem certeza de radas, participar com perguntas em busca de um fio condutor. O próprio
tê-la aprendido e compreendido. aluno pode influenciar o professor, propondo-lhe questões pertinentes
O estudo pessoal antecede e se segue às aulas. Gira ora em torno do e objetivas, provocando-lhe a criatividade.
que se viu em aula, ora em torno de outros assuntos. Pelo estudo pessoal, Pode-se evitar a dificuldade de concentração na aula por pequenos
o estudante assimila e aprofunda a matéria ensinada. Há para isso um recursos didáticos: anotar alguns pontos, comparar o que se ouve com
método simples. Consiste em instaurar consigo mesmo um processo de o que já se sabia, apontando as dúvidas. Quem tem problemas de atenção,
perguntas e objeções de maneira que, ao respondê-las, se avança no estudo sente-se em lugar que facilite seguir a aula, na frente e não muito próximo
do tema. de janelas.
O segredo para aproveitar de uma aula é gostar dela. Nem sempre
é fácil. Mas se se consegue motivar a si mesmo nessa direção o proveito
Método das perguntas a si mesmo será seguramente maior. A liturgia nos ensina a pedir a Deus que "nos
Qual é o problema principal em questão? Por que se levanta tal problema? faça amar o que Ele prescreve para conseguir alcançar o que Ele promete".
Como ele se situa na história? Como ele se articula com outras questões Para isso, veja-se nela algo de bom para nós, algo que nos diz respeito.
estudadas? Qual é a sua natureza? Como ele se desenvolve? Que argumentos
se aduzem para resolvê-lo? Qual é a estrutura da argumentação? Qual é o Reunião de professores
argumento decisivo? Que outras posições existem a respeito desse proble-
ma? Em que se apoiam e por que se discorda delas? Quais os pressupostos Essa reunião se torna rotina em todas as instituições. Cumpre vá-
das soluções? Que vantagens e limites têm a solução apresentada? Que rias funções. Existem as reuniões formais, para tratar, seja ou não com
pontos ainda ficam obscuros? Que objeções se apresentam contra a solução a presença dos alunos, dos aspectos legais da instituição: currículos,
apresentada? distribuição das matérias e aulas, revisões periódicas dos cursos etc.
Outro tipo de reunião é a modo de seminário de estudo. Encontrarn-
se os professores para estudar e discutir un1 assunto de seu interesse.
Dificuldades das aulas Nesse caso, há várias modalidades, desde convidar algum expositor de
As aulas dependem evidentemente da competência do professor na fora até promover um debate livre sobre o assunto determinado.
matéria e das suas qualidades didáticas. Aí se encontram as maiores difi- Em outras reuniões, os professores discutem o desempenho de sua
culdades dos alunos. Há professores pouco preparados no conjunto da função de ensino a partir das ressonâncias que têm sobre os alunos.
matéria, outros falham na arte de ensinar: aulas monótonas, repetitivas, Nelas se toma ciência das críticas dos alunos em relação às diferentes
desconexas, sem originalidade. Há aqueles que se restringem a ler seus apon- matérias. Os professores ponderam esses dados obtidos, tirando as con-
tamentos ou a promover discussões de textos por não ter preparado a aula. clusões cabíveis.

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P1\RTF IL ASPFCros DA VIDA DE ESTUDO 14.0 ENSINO ACADÉMICO

Há reuniões consagradas a verificar o desempenho dos alunos, suas que manter, sem mais, porque está dando certo; o que corrigir porque
principais dificuldades, os casos mais difíceis, em busca de soluções tem falhas; o que criar porque se sentiu falta. Seria inútil deixá-las todas
possíveis. O diretor da faculdade ou alguém, por outras razões, comuni- para o final do curso, quando já não há mais possibilidade de melhorias
cará aos alunos aquelas informações que os ajudem a melhorar a vida no estudo por parte dos alunos e no ensino por parte dos professores.
escolar. As avaliações são uma chamada à responsabilidade, ao equilíbrio,
Nos finais dos semestres ou do ano letivo, cabe uma reunião em que à justiça feita tanto aos alunos como aos professores. Toda avaliação se
se reveja o conjunto da vida acadêmica. Nela trabalham-se mais detalha- faz das duas partes. O resultado sempre reflete uma relação de aprendi-
damente as perguntas e dificuldades levantadas nas reuniões ao longo zado em que aluno e professor estão envolvidos. É todo o processo
do semestre ou do ano. A diversidade da natureza de reunião de pro- educativo que é avaliado para eventuais redimensionamentos diante dos
fessores caracteriza a faculdade. objetivos propostos e não alcançados ou de novos objetivos que sedes-
cobrem necessários.
Para evitar uma avaliação unilateral, reduzida praticamente a um só
Avaliação
exame final, os professores usem vários tipos de teste e assim se façam
Os latinos tendem a exagerar o sistema de avaliação, enquanto o uma ideia um pouco mais ampla do aluno. A tendência pedagógica é
mundo saxónico o relativiza. Os dois extremos, rigor na avaliação ou desenvolver sistemas avaliativos interativos, participativos, reflexivos,
laxismo, não são formativos. A personalidade humana é plural. Ela se superando o meramente mensurável.
manifesta sob diversos ângulos. Durante a formação é importante que Há vários modelos de prova. Há exames escritos. A geração nova
as pessoas vão conhecendo a verdade de si. Antes de tudo, fique bem claro está acostumada com o tipo de múltipla escolha. Tem aspectos válidos,
que a dimensão intelectual, testada no mundo acadêmico, é uma das mas restritos. A prova escrita se faz por meio de temas a sere1n desenvol-
muitas facetas da pessoa humana. Mais: o aspecto que o mundo acadê- vidos na hora, com ou sem recurso às próprias notas e a outro material
mico capta, até mesmo da capacidade intelectual do aluno, é parcial. E didático. Esses são propostos anteriormente ou formulados na hora. As
mais parcial ainda aquilo que aparece nos exames. O clima geral das provas escritas visam a verificar tanto a capacidade de reflexão, de de-
instituições escolares seja tal que não se exagere, de modo nenhum, a senvolver um tema, como o conhecimento memorizado de dados obje-
avaliação curricular. tivos, considerados imprescindíveis. As perguntas nesses casos são bem
A avaliação seja um processo aberto, participativo, transparente, diferentes.
dinâmico, amplo e contínuo da compreensão da realidade escolar, na Há também provas orais, com o professor ou diante de uma banca.
qualificação tanto do aprendizado dos alunos como do ensino dos São parciais ou complexivos. Cada exame tem suas vantagens e seus li-
professores. Ofereçam-se oportunidades para novas tomadas de decisão, mites. As provas orais testam a capacidade de exposição diante de outras
seja por parte dos alunos, seja por parte dos professores, por meio de um pessoas mais que o real conhecimento do aluno. Pois há casos em que se
processo de muito diálogo de ambas as partes. Os alunos busquem as fica bloqueado mesmo tendo estudado e conhecendo a matéria.
causas de um rendimento reduzido. Os professores analisem os resultados Além da tradicional forma dos exames, há outras avaliações. Os
dos alunos sob a ótica da sua capacidade de ensino e de criar motivação alunos fazem um dossiê de cada matéria. Nele anotam as leituras, as
de estudo. tarefas realizadas, breves observações pessoais, de tal modo que o pro-
As avaliações sejam programadas de modo que permitam correção fessor consiga ter uma visão objetiva do empenho do aluno. Isso oferece
de rota segundo quatro pontos: o que abolir porque não funcionou; o outro critério de avaliação, se não exclusivo, ao menos complementar.

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PARTE li. ASPECTOS D1\ VIDA DE f,',TUDO
14. O ENSlNOAC1\DF.MICO

A prática de pequenos trabalhos escritos, feitos individuahnente ou As avaliações emitem um juízo sobre o aluno sob vários ângulos:
em grupo, revela uma faceta do aluno. Evidentemente tais trabalhos posse de informações julgadas necessárias, capacidade de reflexão, inte-
correm o risco de ser sin1ples colagem, cópia ou resumo de outro texto lecção pessoal, assimilação da matéria, capacidade de comunicação oral
sem falar de mãos estranhas. O acesso fácil à Internet com bibliografia~ ou escrita do aprendido, domínio de si diante do professor ou dos colegas.
seletivas e amplas, co1n textos já feitos, dificulta ter um sistema verdadeiro Cada prova valoriza mais um aspecto. Na avaliação, o aspecto qualitativo
de avaliação. e positivo é sempre mais importante que o quantitativo, embora, por
Outra for1na mais pessoal é a "reação". Trata-se de u1na tomada de uma enfermidade endêmica, os alunos vivam à busca de notas. A avaliação
posição do aluno diante de um tema qualquer. Não é uma pesquisa, nem qualitativa positiva não se limita a medir o nível de conhecimento do
um resumo, nem uma reprodução de ideias de outrem, mas um comentário aluno. Busca descobrir-lhe as competências e habilidades, apontando-lhe
próprio sobre uma questão bem limitada, feito breve e concisamente. também os limites. A verdade de si é sempre necessária.
A participação em aula, nas dinâmicas, oferece também excelente
fonte de avaliação do aluno. Há uma tendência a discursos vagos e ge-
Férias
neralizados e uma dificuldade de precisar os termos. Revela-se bom teste
a dinâmica de verbalização de distinções. O professor prepara uma série As condições socioculturais mudaram muito. As férias assumiram
de frases antitéticas ou cuja resposta supõe sim e não, distinguindo os papel relevante no sistema atual, seja sob o aspecto econômico, seja
aspectos. Por exemplo: "Cremos na Igreja e não cremos na Igreja". O sob o cultural. Hoje a indústria do turismo recebe com as férias enorn1e
aluno responde: "Cremos na Igreja no sentido de que ela tem a presença incentivo. A modernidade concebe o lazer de maneira diferente. Isso
do Espírito da Verdade e por isso nô-la ensina. Não cremos na Igreja no nos obriga a uma reflexão crítica e positiva sobre as férias.
sentido de que só Deus é o término de nosso ato de fé e a Igreja não é A tradição antiga distinguia dois momentos fundamentais nas
Deus''. Essa excelente maneira de avaliar o nível de compreensão e exatidão férias do estudante: as férias maiores e as menores. Esses termos não
dos alunos se faz de maneira oral ou escrita. tinham nenhum significado de extensão de tempo.
A compreensão revelada pelo estudante não seja simplesmente As férias maiores eram mais breves e as menores mais longas. As
memorizada, mas aberta a novos problemas, hermenêutica ao inter- férias maiores caracterizavam-se pela ausência de qualquer atividade
pretar situações e textos, criativa ao superar o puramente dado, pros- acadêmica. Visavam exclusivamente ao descanso físico e psíquico do
pectiva ao voltar-se para o futuro. O material aprendido não bloqueie 0 estudante. Mudança de ambiente, maior tempo e regularidade de sono,
pensamento, 1nas, pelo contrário, o facilite. exercícios físicos ao ar livre, contato com a natureza, alimentação sadia,
Na avaliação, saiba o aluno o que é avaliado e o resultado dessa higiene n1ental etc. Julgava-se que duas semanas fossem o suficiente para
avaliação. Cada avaliação capta apenas um aspecto do universo de saber essa recuperação do desgaste de energias do ano letivo.
e da personalidade do aluno. Para evitar frustrações ou também vaidades As férias menores ocupavam o restante do tempo. Conservava-se
bobas, a avaliação seja colocada no seu devido lugar. No momento atual, ainda um pouco dos descansos das férias maiores, mas se aproveitava
a avaliação adquire uma relevância especial. Vive-se numa sociedade para atividades intelectuais complementares. Muitos aproveitavam-nas
extre1namente subjetivista, de opiniões, de superficialidade nos pareceres, para o aprendizado de línguas estrangeiras, frequentando cursos espe-
de tolerância acrítica. Os exames situam o estudante diante de um cializados. Outros dedicavam-se a leituras que não haviam podido fazer
mundo objetivo, que não funciona a seu bel-prazer. Esse é um dos va- durante o semestre. Outros interessavam-se por outros campos culturais,
lores maiores da objetividade didática, expressa nos exames. como literatura, arte, cinema etc.

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 14.0 ENSINOAC1\DE:.11co

Evidentemente, não cabe transpor sem mais tal esquema para os dias Iidade principal é transmitir uma metodologia correta em vista da
de hoje. No entanto, essa sabedoria de nossos antecessores tem algo a obtenção de novos conhecimentos. É um tirocínio do método por meio
ensinar-nos. Há dois tempos qualitativamente diferentes nas férias, do exercício e não simplesmente pela explicação didática.
embora não sejam necessariamente separáveis em dois momentos ma- Aprende-se a aprender. Desenvolve as qualidades criativas do aluno
terialmente estanques. Um momento exigido por nosso corpo de real e seu talento de investigação, especialmente no método histórico-positivo.
descanso físico e psíquico para recuperar as energias gastas e um momento Propicia ao aluno um contato direto com as fontes. Exercita-o na capa-
de uma atividade complementar. Um não deve sacrificar o outro. cidade analítica, crítica e sintética. Articula a iniciativa de cada participante
A função do orientador é ajudar o aluno a encontrar esses dois tipos numa experiência coletiva sob a orientação de um professor competente
de objetivos das férias. Certa sobrecarga de atividades durante todas as no campo.
férias termina por cansar mais que repousar. O mesmo se diz de fazer cursos Em geral, o número oscila entre 12 a 15 alunos. A duração costuma
e cursos. É necessário um momento realmente de repouso e lazer em que ser de 1 crédito/semestre, perfazendo umas 15 reuniões. Antes de cada
o corpo e o espírito descansem. Cada um descubra sua maneira de descansar. aluno entregar-se à própria pesquisa, o professor os orienta, oferecendo-
Para quem leva uma vida intelectual, certamente sono e exercício ao ar livre lhes os elementos metodológicos necessários. É inais exigente da parte
são exigências inegociáveis. Por isso, certos lazeres noturnos à custa de um do aluno, pois seu trabalho pessoal é essencial para o seu bom encami-
sono tranquilo e sadio, embalados por efeitos etílicos ou festas ruidosas, nhamento. O aluno aprende também a trabalhar em grupo.
não cumprem a função de descanso. A própria linguagem popular criou a
expressão <'ressaca" para traduzir os efeitos negativos desse pseudolazer. Tipos
Cada vez se percebe um empobrecimento maior do manuseio da
Estudo do estado de determinado problema
língua pátria e um desconhecimento da literatura. Lê-se muito pouco
além do estritamente necessário para os cursos acadêmicos. As férias são Escolhe-se um tema único. Por exemplo, "Individualismo moderno".
excelente ocasião para os estudantes entrarem em contato com as obras Num primeiro momento, o professor apresenta o projeto da pes-
literárias de valor mundial, desde os clássicos gregos até a nossa lite- quisa, o método a ser adotado, o elenco dos problemas envolvidos no
ratura moderna. Que o orientador ofereça sugestões concretas3 • tema central. Detalha-o de tal modo que cada aluno assuma um aspecto
do problema. Fixa-se já um cronograma de apresentação. Conforme o
número de alunos e sessões, há uma ou duas apresentações por vez. Para
Os seminários que haja um tempo de preparação para os primeiros a apresentarem o
tema, o professor ocupe as primeiras reuniões com exposições, tanto
Finalidade e natureza
temáticas como metodológicas. Eventualmente deixe-se um intervalo de
A tradição saxônica valoriza mais os seminários de leitura e outras semanas livres e se façam duas sessões por semana. O critério decisivo
formas de aprendizagem diferentes da aula magistral. É um recurso di- é que em cada sessão haja uma exposição substanciosa por parte de
dático que introduz e inicia o aluno no mundo da pesquisa. Sua fina- um ou dois alunos.
Nas sessões, haja o tempo suficiente para uma apresentação subs-
3. A modo de exemplo, haja vista as tragédias gregas, as obras de Homero, a Eneida, os tanciosa do aluno, discussões do grupo e u1na intervenção final conclusiva
grandes romancistas russos como Dostoievski e Tolstoi, os ale1nães como Hesse e Th. Mano;
em língua inglesa Shakespeare, Poe, Dickens, Hemmingway; franceses como Bernanos,
por parte do professor. Os alunos utilizem-se evidentemente dos diversos
Camus, Gide etc.; sem falar naturahnente dos literatos de nossa língua portuguesa. recursos didáticos: esquemas, transparências, cartazes, vídeos etc.

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PARTE IL ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 14. O ENSINO AC\\lÍ:MICO

A avaliação leve em consideração tanto o conteúdo como a didática Seminário propriamente dito: elabora-se diretamente um tema para
na exposição e também eventuais intervenções ao longo da discussão. se praticar o que se aprendeu no pró-seminário. Tomam-se temas de
Nesse sentido, cada seminário oferece elementos para o professor avaliar maior alcance e importância no conjunto do curso cotn a finalidade de
a todos os alunos. A avaliação não se restringe à mera apresentação. ter-se uma visão do seu real status quaestionis, sem pretensão de origi-
Evita-se assim o desinteresse de quem já fez a própria exposição. nalidade ou avançar a matéria. É de natureza receptivo-reprodutiva.
Há diversas maneiras de fazer o estudo de um tema. O método da Seminários típicos de curso de mestrado.
interrogação consiste em o professor expor o problema e formular a Seminário de pesquisa: tem a pretensão de avançar um tema, intro-
respeito dele diversas interrogações. A cada aluno toca uma questão. No duzindo os alunos no processo realmente de pesquisa científica. Participa,
final do seminário se terá uma resposta conclusiva e global. Outra pos- de fato, de um trabalho produtivo propriamente dito. Corresponde ao
sibilidade é escolher um ou vários textos, distribuí-los entre os alunos nível de doutorado.
de modo que cada um fará o estudo sobre o que lhe couber. As análises
e os comentários do texto têm as exigências proporcionais à capacidade Seminário de leitura
dos alunos, levando em consideração o conteúdo, submetendo-o a um O seminário de leitura é uma forma muito proveitosa de estudo.
exame filológico, interpretando-o no contexto da obra do autor, seu
Além da finalidade de o aluno entrar em contato com alguma obra fun-
tempo e ambiente etc.
damental do ramo, o seminário é ocasião de ele exercitar a leitura em
alguma das quatro principais línguas estrangeiras: francês) italiano, inglês
Estudo de uma obra fundamental
ou alemão. A língua espanhola é considerada leitura normal para os de
O seminário gira em torno do estudo de uma obra fundamental. tradição lusitana. Esse exercício acadên1ico comporta vários passos.
Dependendo dela, providencie-se a melhor edição crítica disponível.
Numa primeira leitura, todos anotem suas impressões. Compare-as - 1° passo
com críticas, comentários já existentes sobre a obra e seu autor. Recorra-
O professor prepare para os alunos uma lista de livros fundamentais
se, se for o caso, a artigos, recensões, notas bibliográficas.
e de peso sobre o assunto a ser estudado. Os alunos se dividam em grupo
Uma segunda leitura atenta e sistemática permite uma análise
histórico-cultural e estrutural da obra. Caso seja difícil que cada aluno conforme o livro que escolheram.
faça isso a respeito de toda a obra, dividam-se os capítulos entre os alunos
para apresentações parciais. A maneira prática de conduzir o seminário, -2° passo
em todos esses casos, depende muito do tipo de aluno, da disponibilidade O professor introduza os alunos na leitura do livro selecionado.
de tempo, do número de participantes etc. Ofereça um mínimo de informação e de metodologia de leitura. As in-
formações versem sobre quem é o autor, o conteúdo e o significado do
Seminário de níveis diferentes livro em questão. Planeje com os alunos um cronograma de leitura,
Pró-seminário: orienta-se a introduzir os alunos nos pressupostos, prevendo o tempo dedicado a ela e as páginas a serem lidas. Marquem-se
condições, métodos e outros objetivos específicos de determinada matéria também as sessões de encontro. Cada aluno tenha um protocolo em que
e da instituição acadêmica. Aprendem-se os elementos básicos do trabalho constem esses dados, e na reunião de encontro com o professor preste
científico. Interessa mais a parte metodológica do que o tema como tal. conta de seu andamento. Em vez de o professor fazer a introdução, pode-
Faz-se no curso de graduação. se optar pela alternativa de o próprio aluno se informar sobre o autor, a

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PARTE I!. ASPECTOS lJA VIDA DE ESTUDO
14. O ENSINO ACADÊMICO

obra em questão, levando etn consideração tanto a localização histórica mecânica, puramente funcional, a corrói. O acompanhamento do cres-
de ambos como a temática do livro. Procure também saber dar razão da cimento qualitativo do aluno se faz por meio de um intercâmbio fra-
importância da obra escolhida. terno e pessoal entre orientador e estudante. Vão aqui algumas obser-
vações a partir da experiência de muitos anos desse método usado na
-3ºpasso
Faculdade de Teologia dos jesuítas de Belo Horizonte.
O estudante faça a leitura dentro do cronograma estipulado. Organize
uma ficha de leitura onde anote as principais ideias do livro, suas dificuldades Natureza
de compreensão e as observações pessoais de modo claro e distinto.
Pela orientação de estudo, estabelece-se um contato pessoal e aca-
-4ºpasso dêmico entre o estudante e o professor. No nível humano, é uma pessoa
mais experimentada que se dispõe a seguir o aluno na trajetória de sua
Nas reuniões com o professor, os alunos exponham com suas palavras
formação intelectual, animando-o, motivando-o e abrindo-lhe horizontes
e de maneira clara as ideias lidas, suas dificuldades e opiniões. O professor
reaja questionando, explicando, discutindo. mais amplos. Desperta em seu orientando a paixão pelo estudo, em geral.
e pelos cursos, em particular. No nível acadêmico, acompanha-o na
-5º passo organização e na prática de estudo.
Com a percepção que vai tendo do aluno, transmite-lhe, no âmbito
No final do seminário, busque-se entre todos um apanhado das prin-
de uma relação fraterna, elementos para que ele se forme urna auto-
cipais ideias do livro. E termine-se com uma avaliação.
irnagem verdadeira e um conhecimento objetivo de suas reais capacidades
Seminário de síntese intelectuais.
Num sistema de orientação de estudo colegiada, no sentido de que
No último semestre ou bimestre, conforme o tempo disponível, orga-
os professores se reúnem para o conselho de classe, os orientadores in-
nizem-se os seminários de síntese. Os alunos que estão preparando o exame
tercambiam suas impressões com as dos colegas e assim todos obtêm
complexivo, quer individualmente quer em grupo, façam um levantamento
uma conceituação mais realista e veraz dos estudantes. Em encontro
das dificuldades que têm em cada matéria. Convide-se o respectivo professor
posterior con1 o orientando, o professor passa-lhe as impressões que
e esclareçam-se com ele as questões. O aluno, a modo de exercício, exponha
recebeu dos outros professores e confere com ele a verdade dos fatos.
uma das questões do exame diante dos colegas e do professor. No final, a
O aluno tem aí espaço para exprimir suas expectativas e propostas,
partir da 1naneira como o aluno expôs o tema e respondeu às objeções, o
pois só assim o professor consegue ajudá-lo concretamente.
professor faça sua crítica e dê orientações para a preparação do exame.
Fazendo esse exercício com todos os professores, os alunos não terão ne-
Ajudas no campo metodológico
nhuma surpresa maior no exame quanto à maneira de seu desenrolar.
Antes do primeiro contato, o orientador informe-se por meio da
secretaria do currículo escolar anterior do seu orientando a fim de ter já
A tutoria uma ideia de que estudos fez e de que outras atividades profissionais
exerceu.
No sistema tutorial, a orientação dos estudos ocupa lugar central. Especialmente nos primeiros semestres do curso, o orientador co-
Seja bem levada, por parte tanto do professor como do aluno. A rotina munique elementos metodológicos a seu orientando: como estudar?

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i 281

J
p,\RTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 14. O ENSINO ACADÊMICO

Como aproveitar das aulas? Como ler? Como redigir? Como tomar notas? momento assimilativo em que predomina a intelecção memorizada e o
Como organizá-las? Como fazer esquemas? Fichamentos? Resumos? No momento criativo em que a fantasia e a imaginação excelem. O uso da
correr dos semestres, os orientadores estabeleçam uma pauta de assuntos imaginação é muito importante na aprendizagem. Exercite-se o aluno
metodológicos a serem tratados com todos os seus orientandos nas reu- em representar graficamente mesmo as ideias abstratas, usando de imagens,
niões. O temas abordados nesse livro cabem em tal agenda. símbolos, quadros, desenhos, esquemas. Usem-se para isso também mar-
A pauta das conversas compõe-se de questões como a organização cadores coloridos, clareza gráfica. Com a ajuda do computador, os esquemas
do horário de estudo, o peso que se dá a cada matéria, o cronograma que adquirem melhor qualidade gráfica. Quanto mais bonita, organizada, for
se planeja em vista das exigências escolares das diferentes matérias, distri- a representação ou esquema, tanto mais facilmente se aprende.
buídas ao longo do semestre para evitar as concentrações costumeiras de Tenha uma ideia da situação geral do aluno no referente ao conjunto
fim de semestre. A distribuição do tempo para as diversas matérias e outras do estudo. Sonde o seu mundo de motivação, dando-se conta dos fatores
atividades orienta-se pelo peso de créditos que a instituição acadêmica de desestimulo a fim de ajudá-lo a superá-los. E também certifique-se
atribui às matérias, dedicando, portanto, mais tempo àquelas que têm eventualmente das condições psicológicas, familiares, comunitárias,
mais créditos e são tidas, no consenso dos professores, como principais. do ambiente de silêncio, de saúde, de sono, de lazer, de exercício físico
A vida de estudos dos alunos, como a de um trabalhador comum, etc. Com efeito, a vida de estudo requer o homem todo.
cubra um mínimo de 40 horas semanais entre aulas, estudo pessoal e No início de cada semestre, comente com os alunos os resultados do
outras atividades acadêmicas. O aluno tenha uma ideia objetiva do tempo semestre anterior, sopesando os êxitos e insucessos a fim de melhorar o
realmente dedicado aos estudos, sem ilusões. Há tarefas previsíveis com rendimento no novo semestre.
mais antecedência a serem escalonadas de modo que se evite acúmulo em Oriente o aluno na escolha das leituras entre os livros e artigos
algum semestre especial. No início do semestre, os professores apresentem propostos pelos professores, dentro do tempo disponível. Vele para que
aos alunos o cronograma geral das aulas e de todas as outras atividades e ele mantenha o equilíbrio entre as matérias, sem esquecer nenhuma, mas
exercícios exigidos. Então, o orientador, diante do mapa dos cronogramas também sem concentrar-se demais em uma ou outra. Introduza-o no
de cada curso, discuta com o orientando a maneira de organizar o próprio costume de seguir periodicamente uma ou várias revistas, conforme o
projeto semestral. O aluno aprenda, desde o início, a fazer pequenos interesse cultural. Por isso, faça urna breve visita ao revisteiro da biblio-
programas e projetos de vida, e segui-los com revisões periódicas. teca, com oportunas informações sobre as principais revistas do ramo
Em cada encontro, indague o orientador de como o aluno está se ou afins. Seja ele mesmo, ou a bibliotecária, ou ambos, em momentos
situando em cada matéria: interesse, grau de intelecção e reflexão, assi- diferentes e com propósitos tarnbé1n diversos, no início do ano letivo,
milação pessoal e criativa, aprofundamento, interpretação correta, ano- expliquem aos novatos a localização dos livros e revistas. Assim eles
tações em aula, leituras, acompanhamento e participação nas aulas, estudo circularão com maior desenvoltura.
da apostila ou texto fundamental, dificuldades etc. Ajude-o a ir fazendo O orientador incentive o aluno ao estudo em grupo não só naquelas
a integração das matérias, relacionando-as entre si, tanto dentro de um matérias em que o professor mesmo encaminha o estudo nessa direção,
semestre como no conjunto do curso. Sonde se problemas de compreen- mas também em outros momentos, sobretudo em disciplinas mais difíceis.
são por parte do aluno não se originam de falta de base cultural, de la- Nesse caso, os alunos tanto beneficiar-se-ão de colegas mais avançados
cunas intelectuais e linguísticas ou de pouco hábito de reflexão. como exercitar-se-ão na exposição ordenada e clara das próprias ideias.
Ao longo dos estudos, cuide que o aluno vá lentamente criando um Conforme os interesses e a curiosidade intelectual do orientando, o
eixo sistematizador de todos os seus conhecimentos e saiba equilibrar o professor abra-lhe novos campos culturais: arte, literatura, aprendizado

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l'ARTE II. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 14.0 ENSlNOACADÊ:-.IJCO

de línguas estrangeiras antigas e modernas, atividades culturais da cidade, Orientador de estudos ajude seus alunos a superarem as dificuldades
visita a museus etc. Ventile com ele assuntos referentes a seus projetos na vida de estudo. Aqui se apontam algumas que parecem mais comuns
futuros com respeito ao campo dos estudos, de modo que ele já vá e importantes, seguidas de alguma sugestão positiva.
preparando-se com leituras, frequência a seminários, palestras, cursos
de férias etc. Dificuldades da vida de estudo
Mesmo que o aluno tenha um orientador para a monografia do
Dispersão e quantidade de matérias e atividades
bacharelado, cabe ao acompanhante de estudos segui-lo no referente ao
cronograma, ao ritmo de leitura, à proporção e ao peso do empenho. Já as crianças e o adolescentes do 1° e do 2° graus vivem uma farândula
No final dos semestres, faça-se uma avaliação do desempenho da de atividades. E os psicólogos começam a identificar neles, já bem cedo,
orientação de estudos de ambas as partes e preveja-se o próximo se- sintomas de estresse. É uma característica da vida moderna. No curso
mestre, seja numa continuidade, seja com mudança de orientador. Que superior não se está isento da dispersão e da quantidade de atividades e de
isso aconteça com toda simplicidade e naturalidade, sem constrangimen- matéria. A mentalidade da especialização fez que cada assunto se tornasse
tos. Além disso, esse último encontro é boa ocasião para oferecer suges- um universo gigantesco. Com os recursos da Internet, consegue-se levantar
tões concretas para as férias. uma montanha de bibliografia. Portanto, não há outro caminho a não ser
estabelecer um plano de estudos e de vida a partir de prioridades e então
Relação com as outras atividades selecionar, organizar as atividades e leituras segundo ele, não se deixando
vencer pela extrema curiosidade nem pelo borboletear de atividades.
Os estudantes costumam ter atividades pastorais, estudantis, sociais,
políticas fora do âmbito estritamente acadêmico. No entanto, o orienta-
Desorganização na vida de estudos
dor ajude-os a integrar tais atividades à sua vida de estudos, encontrando
não só a justa medida como também um sentido novo. Com efeito, os Mesmo dentro de um limite bem definido de estudo e atividades,
estudos e as atividades pastorais exercem um papel de mútua crítica, alguém pode perder-se no interior de cada matéria por falta de organi-
1notivação e realimentação teórica e existencial 4 • zação e método. O texto visa precisamente a oferecer elementos para
ordenar a vida de estudo. O segredo mais simples é ter um horário se-
Periodicidade manal e diário em que se preveja para cada hora o que se vai estudar,
de tal maneira que a pessoa ponha imediatamente mãos à obra. É sábio
A periodicidade dos encontros varia muito conforme os orientandos,
nunca ir para uma ação sem saber de antemão o que se vai fazer e não
a fase em que se encontram, o tempo disponível de ambas as partes. Vale
deixar para escolher na hora. Perde-se tempo em hesitações. No início
o princípio geral de que nos começos os encontros sejam mais frequen-
da vida intelectual, ajuda o seguinte estratagema. Numa folha, escreva-se
tes até que o orientando crie já seu ritmo próprio.
o horário diário em duas colunas. Numa está o tempo previsto para cada
Se um orientador tem vários orientandos de um mesmo curso, é útil
ação e a outra fica em branco. No final do dia, revise-se o programa e
e economiza tempo promover reuniões de todos os orientandos e nelas
coloque-se na coluna em branco, ao lado do tempo previsto, o tempo
discutir com questões comuns a todos, desde as matérias que estudam
real dedicado a cada ação. Só assim se sabe exatamente o que de fato foi
até sugestões metodológicas.
cumprido e as dificuldades que intervieram. Pouco a pouco se chega a
4. Para a prática pastoral, desenvolvi un1 método inspirado e1n J. L. Segundo, "Ar- uma maior aproximação entre o real e o desejado e à identificação das
ticulação entre teologia e pastoral', Perspectiva Teológica 19 ( 1987), n. 49, pp. 321-352. causas perturbadoras.

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~1

PARTE ll. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO 14. O ENSINO ACADÍ:MICO

Falta de tempo para reflexão de si e temem, por isso, exprimi-la. À inedida que superem esse entraves
Aumentar ou diminuir o tempo de reflexão decorre da escolha de afetivos, liberam esse lado de sua inteligência.
tipo devida e, portanto, não é questão estritamente de tempo. Uma vida É fundamental ir à raiz das dúvidas de intelecção. Às vezes, trata-se
mais reflexiva implica necessariamente uma diminuição das atividades e simplesmente de falta de base teórica. Aproxima-se, por exemplo, de um
da presença da mídia na vida. Exige pausas e tempos de silêncio que não autor cujo pensamento supõe o conhecimento de outros autores que a
se coadunam com um ativismo febricitante nem com a reinante poluição pessoa desconhece. Fica difícil entender. A solução é buscar construir a
de imagens. A reflexão é ajudada por um duplo esforço. Desligar-se, de base exigida. Em outros casos, trata-se de incapacidade pessoal de abs-
um lado, de tudo o que nos arranca para fora e, de outro, instalar uma tração ou de teorização, ou de falta de base linguística. Há casos também
conversa interior. Favorece desenvolver uma reflexão pessoal o sistema em que o próprio autor é difícil, usa um vocabulário hermético, alheio
de pequenas perguntas que se encadeiam de modo que ao terminar uma ao mundo do leitor. Nesses casos, talvez as leituras não sejam adequadas.
resposta se faz uma outra pergunta no vácuo da resposta. Em outros casos ainda, trata-se do que se dizia há pouco: questão psi-
cológica de insegurança. Não depende da inteligência mas de um tra-
balho pessoal de amadurecimento da personalidade.
Falta de hábito de estudo
Finalmente, existem exercícios práticos. Ao ler um parágrafo, pergunte
Vida intelectual é inteligência, mecanismos e motivação. Sem os a si mesmo qual foi a ideia central que percebeu. Em princípio, cada pará-
três fatores juntos não se cria hábito de estudo. Para ser um intelectuat grafo tem uma ideia central. Acostumar-se a descobri-la cria um habitus
basta possuir uma inteligência média que não se aborrece com o pensar. mentis de leitura. Para descobrir essa ideia central, observe-se qual é o sujeito
Em seguida, motive-se na linha de sentir gosto e prazer no estudo. lógico principal e o seu predicado correspondente. Muitas vezes, esta ideia
Enfim, iniciem-se exercícios, como qualquer atleta que se prepara para vem precedida e seguida de outros elementos. Ela fica no centro.
um jogo. Os exercícios repetidos formam os hábitos. Quanto mais cedo Existe1n exercícios de interpretação de textos com respostas alterna-
começam os hábitos, melhor. É imprescindível certa disciplina interior tivas em que se assinala aquela que corresponde à ideia em questão. É
e exterior. Ninguém consegue saltar essa lei de nossa conduta humana. um tipo de prova muito usado pelo sistema de múltipla escolha nos
vestibulares e exames parecidos.
Dificuldade de captação do essencial de uma questão Outro pequeno exercício consiste em prestar atenção às palestras e
Há três fatores: tipo de inteligência, de personalidade e exercício. Há fazer pequenos esquemas de suas ideias principais. Inclusive, se as cir-
pessoas que são mais intuitivas. É o lado feminino, artístico de nossa cunstâncias o permitirem, confronte-se tal captação com o próprio
inteligência. Com uma palavra, frase ou imagem conseguem exprimir conferencista.
o núcleo da questão. Além disso, certas pessoas têm facilidade de perceber Ajuda também colocar a ideia fundamental em forma de pergunta e ver
as semelhanças, as analogias entre as ideias, conseguindo assim mais se o texto lhe é resposta ou não. Por aí, percebe-se se se entendeu ou não. É
facilmente estruturá-las. Outras, porén1, são analíticas. Vão fundo, mas um bom hábito fazer a si mesmo perguntas sobre o que se está lendo.
perdem a visão de conjunto. Enfim, outras duvidam se entendem bem
Dificuldade de estruturar lógica e progressivamente
ou não o que leem. Um acompanhamento lúcido ajuda esses tipos a
corrigirem o próprio limite. Dificuldade cada vez mais comum. Corno já se tratou no texto, aqui
Um segundo fator vem da personalidade. Pessoas inseguras e de- se repetem algumas observações. A capacidade de estruturar depende
pendentes afetivamente, mesmo que intuam uma questão, desconfiam de exercício e do maior ou menor manuseio de esquemas teóricos já

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PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DE ESTUDO
, 14. O ENSINO ACADf:MICO

possuídos. Eles foram longamente desenvolvidos no capítulo sobre o Perigo do estresse


processo de produção intelectual. Um exercício bem simples é, antes de
É a doença de nossos dias, mais séria do que se pensa. A reposição
fazer qualquer intervenção oral, ter à mão um papel em que se escrevem
das energias depende do momento em que se interrompe a atividade.
os pontos que se quer expor. Também antes de redigir qualquer texto,
Pesquisas de laboratório, especialmente a respeito do exercício dos mús-
preparar antes um esquema e observar se está bem estruturado ou não.
culos, e que parecem ser aplicáveis às tarefas intelectuais, mostram que
Não se pôr a escrever sem esquema lógico e progressivo.
existe um momento ótimo de interrupção. As medições de esforço físico
Superficialidade na intelecção constataram que se alguém trabalha até a exaustão o rendimento por
unidade de tempo é menor e a recuperação mais longa. Se se intercalam
Alguns temem que sejam superficiais na compreensão de um pro-
pausas para descanso, cresce o rendimento. Mas, se as pausas forem
blema. Há um pequeno recurso didático que os obriga a avançar na in-
maiores do que necessárias, o rendimento cai. Aplicando ao trabalho
telecção. Formule numa frase o que se entendeu. Depois, pergunte-se:
intelectual: se alguém chega a um estresse, o rendimento dele já vinha
que significa isso? Vem uma resposta. Volte a perguntar: que significa
caindo fazia tempo e agora necessitará de longo tempo de descanso. Se
isso? E assim repita essa pergunta e responda enquanto conseguir. Isso
ele tem as devidas interrupções e descansos, o rendimento cresce. Se
leva a uma explicitação e a um aprofundamento do problema.
chega a ser exagerada a interrupção - preguiça-, então o rendimento
Incapacidade de comunicação diminui. Aqui funciona mais uma vez a velha sabedoria: in media stat
virtus- a virtude está no meio. Não exagerar, mas também não perder
Ora é um problema de inteligência, ora de afetividade. Há pessoas
0 ritmo de trabalho com muitas folgas. Vale também o conselho de que
tão tímidas e inibidas que se sentem bloqueadas e paralisadas diante dos
"a variedade deleita". Às vezes, basta mudar de atividade que se produz
outros. Aí as ideias não fluem. É dificuldade de natureza afetiva e não
já certo descanso. Hoje o tema do estresse é muito estudado. Remeto o
intelectual. Há outros casos em que alguém não consegue exprimir-se
leitor à bibliografia'.
porque de fato não entendeu o assunto. É questão de voltar sobre o as-
sunto a fim de melhor compreendê-lo. Além disso, toda vez que se entra
num campo cultural novo, aprenda-se o vocabulário correspondente. É
Conclusão
o mesmo procedimento da aprendizagem de uma língua. Sem conhecer
as palavras inglesas, é claro que não se é capaz de exprimir o pensamento O tripé do ensino acadêmico - aula, seminário, tutoria- funciona
em inglês. O mesmo vale dos campos semânticos. Há um trabalho básico quando os três pés estão inteiros e firmes. A predominância de um dos
de memorização, sem o qual não há expressão possível. No entanto, esse três depende da maturidade afetiva e intelectual dos alunos. Nos inícios,
processo vai junto com a penetração do universo de ideias. a aula magistral é fundamental, mais importante. Lentamente o aluno
Preocupação exagerada e paralisante com o exame
vai aprendendo a trabalhar em seminário e sendo capaz de n1elhorar seu
nível de leitura. Nesse momento, os outros dois pilares - seminário e
Tanto a quantidade dos exames como sua pressão aterrorizante cau- tutoria - se tornam mais importantes.
sam danos à vida intelectual. Há procedimento metodológico de esca-
lonar as preparações segundo a relevância da matéria e relativizar seus
resultados. Há coisas mais importantes que tirar 10 nas provas. Já se s. E Boucher, A. Binette, Vença o stress, São Paulo, Loyola, 1996; R. de Maris, Stress
existencial e sentido da vida, São Paulo, Loyola, 1997; C. A. de Lolio, A vida é para ser
tratou da avaliação em outro momento. curtida: reduza seu stress, São Caetano do Sul, Atclie Editorial, 1997.

288 289
PARTE li. ASPECTOS DA VIDA DF ESruoo

No fundo, trata-se de um processo didático cuja medida ideal não


existe no papel, mas se descobre nos diversos casos. Faça1n-se contínuas
revisões para que se consiga a justa medida para cada momento do pro-
cesso educativo.
Conclusão

Bibliografia

FARINA, R. Metodologia: guida pratica alle esercitazioni di seminario e alie tesi di


laurea per le discipline umanistiche, Turim, Società Editrice Internazionale,
1979.

Dinâmica
Verbalização
Desenrolar da dinâmica
ste não é um livro simplesmente p_a~a ser lido. É um roteir~ teórico-
- entrega-se a cada um uma frase significativa
- cada um pensa um pouco sobre ela
E prático para a vida de estudos. In1c1amos com urna reflexao sobre a
natureza da vocação intelectual. Em seguida, escolhemos algumas ati-
- e traduz em palavras o que a frase lhe significou
tudes que julgamos fundamentais para ela.
O primeiro aprendizado na vida intelectual é saber pensar. Todos
Sentido da dinâmica
pensam. Mas nem todos refletem sobre o procedimento de seu pensar
- conhecimento pessoal: por parte da própria pessoa e dos
para nele perceber as potencialidades e deficiências. Apontamos alguns
colegas
elementos simples no tirocínio do pensar 1 •
- desenvolver a capacidade de verbalização no nível lógico e
Dentro de uma realidade concreta e das possibilidades que ela oferece
afetivo
é que se é intelectual. Atitude de realismo. Para tanto, tenha-se clareza
sobre os objetivos almejados e os meios disponíveis. Uma boa progra-
mação articula os meios com os objetivos. Dedicamos também uma
reflexão concreta sobre o emprego do tempo. Questão crucial num
mundo de numerosas solicitações. Não faltou um aceno à criatividade
para contrabalançar um realismo sem inspiração.

1. Desenvolvemos este tema em outro livro: A arte de fortnar-se, São Paulo, Loyola,
ZOO!.

290 291
PARTE[]_ ASPECros llA VIDA DE ESTUDO CONCLUSAO

No trabalho intelectual defrontamo-nos continuamente com outros Os alunos vivem às voltas com estudo de temas e preparação de
pensadores e suas obras. Nessa relação, exige-se de nós uma honestidade exames. Perdem-se por falta de método. As sugestões oferecem um roteiro
que se manifesta numa abordagem livre e sem preconceitos, num esforço concreto tanto para estudar um tema como para preparar as teses para
de entender o que o autor diz e numa leal reprodução de seu pensamento. exames, especialmente os sistemáticos e compreensivos.
Tocamos alguns aspectos desse tema tão atual e complexo. A monografia recebeu atenção especial. Sem entrar nos aspectos
Só é intelectual quem tem a mente aberta. Essa atitude envolve toda técnicos e de aparato científico, as orientações trataram as questões ine-
a pessoa. No nível cultural, a inteligência descobre sua verdadeira natureza todológicas da estruturação do trabalho.
de intérprete da realidade em contínuo processo de interação com outros Não há vida intelectual sem muita leitura. E para muitos a leitura é
saberes. Afetivamente, a abertura implica uma liberdade fundada na verdadeiro desafio. Indicamos sugestões para melhorar-lhe o rendimento
tranquilidade de sua autonomia. Teologalmente, a abertura reconhece a até ela tornar-se uma paixão, um gosto, um prazer.
importância do outro como mediador do Outro maior. Abordamos estas O último capítulo versou sobre o ensino acadêmico, sustentado no
três dimensões da abertura. tripé da aula magistral, do seminário e da tutoria. Cada um dos pilares
A vida intelectual é uma educação contínua do senso crítico, que mereceu uma reflexão, com indicações práticas para seu aperfeiçoamento.
tem duas faces. Uma primeira a respeito de si mesmo, que supera inge- Uma primeira leitura serviu de mapeamento das questões. O leitor
nuidades e ideologias camufladas. Diante dos outros, a percepção crítica voltará ao texto todas as vezes que for necessário recordar alguma orien-
nos defende de rejeições infundadas e aceitações fáceis. Aqui se estudaram tação necessária. Este livro nasceu muito mais da experiência que de
elementos para a formação da consciência crítica. leituras. A bibliografia mais importante foi a vida. Deixa o leitor aberto
Todo ser humano é ético. Vive num mundo em que seus atos têm sempre a suas novas experiências, que completarão a leitura, enriquecendo-a.
consequências. Responde por eles. O intelectual, dotado de maior conheci-
mento e percepção, vê aumentada sua responsabilidade. Tanto maior
quanto mais amplo o alcance de suas ideias e produções culturais. Aponta-
mos aspectos dessa responsabilidade de intelectual na sociedade de hoje.
O intelectual sempre aprende. Como criar uma atitude permanente
de aprendizado que não seja um simples acúmulo de saber? Como se
processa em nosso interior a assimilação intelectual? Questões que pro-
curamos iluminar.
A vida de estudo implica uma série de atividades. Elas ocupam o
cotidiano do estudante. Ao abordá-las, concentramo-nos em pontos bem
concretos. Para as reuniões de grupo, indicamos elementos que as agi-
lizam. A importância crescente do trabalho em grupo exige maior preparo
na sua condução.
Um longo capítulo ofereceu subsídios para facilitar o processo de
produção intelectual, especialmente de trabalhos acadêmicos. Oferece-
mos três métodos que provocam a capacidade criativa por meio de ima-
gens, esquemas teóricos e perguntas.

292 293
Anexos
Anexo 1. Elenco de dinâmicas de grupo

1. Quebra-gelo: dois círculos concêntricos: um frente ao outro,


trocam informações. A cada três a cinco minutos gira-se um dos
círculos.
2. Dupla: depois da palestra, saem dois a dois passeando e conver-
sando: eventualmente se dá uma questão sobre a qual
conversar.
3. Painel ou mesa-redonda: alguns expõem uma questão sob pontos
de vista de diferentes: trava-se discussão entre painelistas e com
o público.
4. Grupo de escuta: um grupo no centro discute e o de fora ouve.
Depois abre-se espaço para os de fora interferirem.
5. Distribuir uma parábola: por grupo: este a estuda e depois a
representa só com mímica, sem palavras: a plateia deve descobrir
qual foi.
6. Manifestação de expectativa: cada participante recebe uma folha
em branco e desenha nela um símbolo de sua expectativa; depois
penduram-se num barbante todas as folhas. Se houver tempo,
cada um explica seu símbolo, ou deixa-se para no final ver se o
encontro respondeu ou não às expectativas. Ou se dá um giz a

297
ANEXOS ANEXO 1. ELENCO DE DINÃMIC\S DE GRUPO

cada um (ou a alguns) e se pede que desenhem/escrevam no 13. Exercícios de observação:


quadro, em forma de palavra, desenho, símbolo, sua expectativa a. distribuem-se desenhos de objetos existentes dentro de um
para o curso/palestra. Feito o desenho, pedir que outros o inter- raio geográfico razoável para que as pessoas os descubram,
pretem. O conferencista/animador pode também fazê-lo. Por fim, acrescentando um pormenor de identificação;
o que fez o desenho o explica. b. numa sala, o pessoal observa bem a posição das coisas; sai da
7. Resumo do dia: corta-se uma folha em cinco tiras. Cada um es- sala; modifica-se a posição de algumas coisas; depois volta-se
creve sobre ela: "Eu", e depois em 4 frases (uma em cada tira) os de novo para identificar tais mudanças: cada acerto ganha
pensamentos que resumem melhor o dia. Colocar as tiras em um ponto, cada erro perde um ponto;
ordem de importância a partir do "Eu". Depois guardá-las. Assim c. o que alguém observou de mais original e singular de algum
termina a dinâmica. Eventualmente haja espaço para que alguns colega: sempre com delicadeza e respeito.
as leiam em público, caso queiram. d. aplicar à oração: fazer isso a respeito de um texto do Evange-
8. Mensagem do dia: Cada pessoa no plenário se associa a uma lho: cada um medita um tempo uma cena evangélica e, em
outra. Cada um escreve num bilhete uma mensagem para seu grupo, narra o que observou nessa cena.
colega a partir da vivência do dia. O outro ao receber, responde-a 14. Autorrevelação: distribuir uma sentença ou imagem sugestiva
no verso. Depois devolve-a ao colega. Em plenário haja oportu- para que cada um discorra sobre ela (levar material). Eventual-
nidade para que se leiam algumas dessas mensagens e seus res- mente o animador acrescente seus comentários.
pectivos comentários, se os interessados o desejarem. 15. Fator autobiográfico: cada um escolha uma música, uma comida,
9. Objeto-símbolo: cada grupo ou pessoa busca um objeto que um roteiro turístico, um animal, uma parábola, uma história, um
simbolize a reunião ou o dia e o coloca na sala ou o leva para a personagem bíblico, uma frase da Escritura com que se identifique
liturgia. e explique por quê.
10. Exploração do espaço: Cada um experimente pelo tato o lugar, 16. Interpretação de texto: dar um texto bíblico e fazer perguntas sobre
a posição mais cômoda ou a pior para sentir o espaço. Depois ele para serem respondidas (em grupo ou individualmente).
cada um escolha o lugar mais aprazível e fique ali uns dez minutos 17. Dinâmica de síntese: dar um tema: cada um o pensa, anota; depois
em oração-contemplação. Partilhar a experiência. cada dois fazem uma síntese: cada quatro fazem uma síntese das
11. Corredor de caminhada: fazer o pessoal caminhar conforme o sínteses anteriores, e assim por diante (8, 16, 32).
ritmo natural de cada um num espaço relativamente estreito, de 18. Dinâmica de análise: começa com um plenário: dá-se um tema,
modo que cada um sinta o descompasso do colega e saiba aceitá- a discussão continua depois com a metade, depois com 1/4, 1/8
lo. Analisar o que sentiu, despertar para as diferenças de ritmo: etc., até a pessoa ficar sozinha e concluir sua reflexão.
o seu e o dos outros; saber acomodar-se ao outro; partilhar a 19. Organizam-se alguns entrevistadores para sondar os colegas
experiência. durante um tempo e apresentar depois os resultados; por exemplo,
12. Pesquisa na Bíblia: para um trecho relativamente pequeno da "o que você pensa da teologia da libertação?"
Bíblia, organizar perguntas à busca de resposta; por exemplo, 20. Gincana: dar tarefas aos grupos e prazo de execução.
Mt 5: o que Jesus nos diz sobre o olhar? (É necessário preparar 21. Discussão: um grupo prepara um tema e outro levanta objeções
muitas pesquisas: a dinâmica funciona ora grupalmente, ora e dificuldades. Trava-se entre eles uma discussão. Ou, em vez de
individualmente.) um grupo, duas pessoas fazem diante dos colegas um debate de

298 299
ANEXOS
l ANEXO L FJ.ENCO DE DINÃMICAS DE GRUPO

defesa e objeções sobre determinado assunto. Por exemplo, o das ideias, com fantasia solta e proibição de emitir juízo de valor
Mercosul. sobre as ideias expressadas. Há produção e intercâmbio de ideias
22. Painel integrado: discussão normal em grupo. Cada membro ao máximo. Nesse primeiro momento da dinâmica, a quantidade
desse grupo tem um número. Depois eles se reunirão pelo número de ideias é mais importante que a qualidade. O uso dessa chuva
e cada um relatará o que se discutiu no seu grupo. Evita-se de ideias depende da finalidade da reunião. Operem-se, em se-
plenário. guida, ou na própria reunião, ou em outro momento, sistemati-
23. Simular um júri: escolhem-se o que será julgado (por exemplo, zação, triagem, ponderação, valorização, combinação, confronto
envolvimento com drogas), a vítima, os advogados, os promotores entre as ideias a fim de chegar a um conjunto mais rico e completo.
e os juízes. Para isso, anotar as ideias num quadro ou conservá-las por escrito
24. Exercício de cabeça fria e negociação: dar um tema a alguém; todos para momento ulterior. Na dinâmica, reine absoluta liberdade e
a atacarão e ela procurará ficar serena e sempre negociar uma igualdade entre todos, para que não haja inibição e todos inter-
solução. venham quantas vezes e como quiserem de maneira contínua. É
25. Stop: lança-se o tema. Começa a discussão. Alguém diz "Stop", e o fluxo de ideias que ativa a imaginação a produzir mais ideias
continua o assunto; outro repete o procedimento, e assim por diante. por associação. Evitem-se reações inibidoras às sugestões (por
Evitar os stops que prejudiquem o andamento da discussão. exemplo, «Que bobagem!", «Isso é impossível!") ou sorrisinhos
26. Criação de cartazes sobre um tema: levar material (revistas, de desprezo. A dinâmica funciona melhor em grupos de oito a
jornais etc. ) . quinze pessoas com duração de vinte minutos a uma hora, no
27. Phillips 66: discussão no plenário em pequenos grupos de 6 máximo. Se se quiser algo mais pensado e profundo, dê-se o tema
durante 6 minutos para aquecer um plenário ou pedir sugestões aos participantes alguns dias antes da reunião de modo que as
ou levantar perguntas ao conferencista. O objetivo é provocar a pessoas venham preparadas para a tempestade cerebral.
participação quando o auditório é grande. Haja flexibilidade de 29. Dinâmica clássica: palestra, perguntas para grupos (diferentes
número e tempo. A vantagem consiste em recolher assim muitas, para cada grupo ou as mesmas para todos), plenário.
variadas perguntas ou sugestões com a participação de todos. 30. Escolinha: um dos participantes recebe um tema sobre o qual dá
Evitam-se os monopolizadores da palavra. Mas perdem-se as uma espécie de aula e todos os outros são alunos que fazem
perguntas ou sugestões pessoais interessantes que não passam no perguntas.
grupo. 31. Berlinda: Um membro expõe a posição do grupo ou uma tese e
28. Tempestade cerebral: Há duas maneiras de fazê-la. Primeira: responde a todas as dificuldades.
lança-se um tema e todos falam o que lhes ocorre imediatamente. 32. Dramatização: representar uma situação vivida no passado, no
Esta forma é mais espontânea e superficial. Segunda: distribuem- presente ou prevista para o futuro.
se para cada participante uma ou várias fichas. Cada um escreve 33. Sociograma para a descoberta da liderança: todos respondem
em cada ficha uma só ideia. Esta forma é mais lenta, refletida, sigilosamente a esta pergunta: com quem você gostaria de traba-
obtendo ideias mais pensadas. O anonimato favorece a liberdade lhar, tendo-o como líder? Assinar a resposta. Com as respostas
de expressão para os tímidos. Em seguida, ou se recolhem as fichas armar o mapa das relações grupais.
ou cada um lê o que escreveu. É um tipo de sondagem com a 34. Plástica viva: cada grupo escolhe uma imagem, uma cena e, com
finalidade de produção de ideias. Existe liberdade total na emissão seus corpos, sem palavras, a representa.

300 301
ANEXOS

35. Exercício de nomear uma realidade significativa: em particular


ou em grupo, cada um vai dizendo os títulos mais significativos
que atribui a esta realidade (Jesus, Nossa Senhora, mãe, pai, mestre
etc.). Anexo li. Respostas de testes
36. Cochicho: no final de uma exposição, antes de partir para um
debate com o auditório, as pessoas conversam duas a duas e depois
uma delas relata o resultado da conversa. Vale também para outras
situações, por exemplo para conhecer a reação do auditório a
determinada situação ou problema.
37. Desinibição: todos fazem um gesto e falam o que querem, alta, es-
pontânea e simultaneamente, de modo que se sintam liberar-se.
38. Autoconhecimento: cada um tome um papel e responda:
- o Eu que eu julgo ser: você gosta, admira, confia nele?
- o Eu que os outros julgam que eu sou: dizem o que pensam
de você; isto é importante para você? qual é a primeira im-
pressão que você causa?
- O Eu a que eu aspiro? Exercício de esquemas lógicos
40. Escolhas-relâmpago: escolha um nome simbólico para si ou para
determinada pessoa! Indique uma utopia/desejo! Uma música! 1. Educação escolar
Um livro! Uma pessoa-modelo! Um texto significativo da Escri-
Definição
tura! Um símbolo! Objetivos
41. Verbalização: entrega-se uma série de frases que resumam o
Consciência crítica
estudo e cada um desenvolve uma delas. Por exemplo, "a crisma Compromisso social
é o sacramento da maturidade psicológica; é a nova efusão do
Retidão ética
Espírito Santo" etc. Atores:
42. Entrevista: a cada aluno se dá uma série de perguntas para res- Família: patriarcal e moderna
ponder depois de conversar com os colegas na mesma disposição Escola: pública e particular
da dinâmica quebra-gelo.
Igreja
43. Leitura/interpretação de texto: Dá-se um texto para ler e faz-se Impedimentos:
uma série de perguntas, só respondíveis por quem leu e entendeu Preguiça
o texto. Autossuficiência
44. Exercício de esquematização: dá-se uma série de palavras sem or- Maus companheiros
dem, pedindo que as pessoas as coloquem dentro de um esquema.
45. Exercício de escuta: fazer silêncio; ouvir o ruído mais longínquo;
trocar impressões.

302 303
ANEXOS

Meios:
Disciplina
Horário Anexo Ili. Avaliação do curso
Aula: professor e aluno
Atendimento pessoal: psicólogo, orientador pedagógico, orien-
tador espiritual

2. Pastoral da juventude
(DEFINIÇÃO):
(NEGATIVA):não é enquadrar os jovens dentro de uma paróquia
coordenar as atividades dos jovens na paróquia
(POSITIVA):
(AGENTES): 1. Pároco
2. Coordenador geral
3. Líder do grupo
(PROGRAMA): 1. Encontros mensais
2. Reuniões semanais 1. Formule em cinco afirmações o que lhe pareceu mais importante
3. Festas de aniversário de todo este curso ou da leitura do livro e que você pretende reter para
(RECURSOS): 1. Sala
a vida! Redija em forma de uma só frase simples.
2. Material de escritório 2. Como me situo diante da vocação intelectual?
3. Material esportivo 3. Como pretendo resolver a tensão entre liberdade criativa e
disciplina?
4. Indique três dificuldades importantes no desenvolvimento da vida
intelectual e que encaminhamento de solução você prevê!

304 305
Bibliografia

CHARMOT, F., A estrada real da inteligência. Estudos sobre a educação intelectual


e o valor das disciplinas fundamentais do curso secundário, Porto Alegre,
Globo, 1944.
FARINA, R., Metodologia. Avvia1nento alia tecnica del lavara scientifico, Roma, Las,
'1994.
!RALA,N., Eficiência sem fadiga, São Paulo, I.oyola, 1969.
____ ,A reeducação do controle cerebral na vida psíquica, s/c, 1944.
____ , Controle cerebral e emocional., São Paulo, Edições Loyola, 20ª ed., 1997.
KONINGS, J., Vade-mecum para trabalhos científicos, nlimeo., Belo Horizonte,
CES, 1998.
MORIN, E., A cabeça benfeita. Repensar a reforma, reformar o pensan1ento, Rio de
Janeiro, Bertrand Brasil, 22000.
SALOMON, D. V., Como fazer uma monografia. Elernentos de metodologia do tra-
balho científico, Belo Horizonte, Interlivros, 4 197 4.
SERTILLANGES, A. D., A vida intelectual: espírito, condições, métodos, São Paulo,
Saraiva, 1940.
SEVERINO, A. J., Metodologia do trabalho científico. Diretrizes para o trabalho
didático-científico na universidade, São Paulo, Cortez/Autores associados,
'1980.
TIERNO, B., Las mejores técnicas de estudio. Saber leer, tomar apuntes y preparar
exámenes, Madri, Temas de hoy, 5 1995.

307