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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS


FACULDADE DE LETRAS
ESPECIALIZAÇÃO EM ESTUDOS LITERÁRIOS E ENSINO DE LITERATURA

Disciplina: O ensino de literatura em perspectiva multicultural Sala: 21 (Pós-A)


Professor responsável: Flávio Pereira Camargo E-mail: camargolitera@gmail.com
Discente: Letícia Cristina Alcântara Rodrigues

Estudo dirigido – Estranhar o currículo: questões de gênero e sexualidade / 3,0 pontos

O texto de Ruth Rocha, Faca sem ponta, galinha sem pé (2009), chama a atenção, em primeiro lugar,
pelo próprio título, que, conforme a ilustradora Suppa leva o leitor, inicialmente, a outro mundo “(...) fiquei
feliz, pois imaginei que desenharia um monte de galinhas!” 1. Entretanto, o que Rocha discorre ao longo de
seu texto, aparentemente inocente, é a força que a reprodução de marcas culturais e de poder exercem na
sociedade e na própria construção de identidade do ser humano.
Uma faca sem ponta ou uma galinha sem pé apresentam-se como coisa/animal fora do comum,
considerado uma “anormalidade” frente ao conceito geral que rege a sociedade. Assim como parece
estranho uma galinha sem pé, é também o comportamento de um sujeito que não “respeita” as características
e comportamentos padrões para seu gênero que, conforme Tomaz Tadeu da Silva (1999), é o termo que se
refere “aos aspectos socialmente construídos do processo de identidade sexual” (p. 91). Nessa construção
social, encontramos arraigados conceitos e pré-conceitos que estereotipizam uma sociedade que se vê
envolta na dicotomia homem/mulher, em que o primeiro está em um patamar de poder que busca inferiorizar
o segundo, gerando uma oposição e polaridade entre os dois gêneros, à medida que associa/pressupõe certos
comportamentos a um a outro, como destaca Daniela Auad (2006, p. 22): “o feminino é associado, na
maioria das vezes, à fragilidade, à passividade, à meiguice e ao cuidado. Ao masculino correspondem
atributos como agressividade, o espírito empreendedor, a força e a coragem”.
Na narrativa de Rocha (2009) encontra-se, em diversos momentos, a reprodução de certos discursos
que reforçam a diferença e oposição entre os dois gêneros – masculino e feminino, reforçando a diferença
entre homens e mulheres, como se pode notar nos nas falas de Pedro, Dona Brites e seu Setúbal,
respectivamente:
“— Onde é que já se viu mulher jogar futebol? [...] O que é que meus amigos vão dizer?” (p. 6)
“— Que é isso menina? Que comportamento! Menina tem que ser delicada, boazinha...” (p. 7)
1
SUPPA. Contra-capa. In: ROCHA, Ruth. Faca sem ponta, galinha sem pé. Ilust. Suppa. Ed. reform. São Paulo: Moderna, 2009.
“Filho meu não foge! Volta pra lá já, já, e bata nele também. E vamos parar com essa choradeira!
Homem não chora!” (p. 7)
Nessas falas, encontra-se o estabelecimento de comportamentos considerados comuns e normais para
determinado gênero, não cabendo a ele avançar sobre os limites daqueles. Importante compreender que tais
posicionamentos são validados pelos pais – aqueles que educam – e reproduzidos por aqueles que recebem
aqueles conceitos/definições: Dona Brites e seu Setúbal demonstram em suas falas qual deve ser o
comportamento de cada um dos filhos, de acordo com as convenções sociais. Pedro não pode chorar, pois é
homem, assim como Joana deve ser delicada, pois é mulher. Essa reprodução, de acordo com Silva (1999)
reflete como o discurso é estabelecido ao longo dos anos, com a determinação da relação de poder que
acontece entre os sexos feminino e masculino. O autor aponta que os movimentos feministas trouxeram a
compreensão de que as relações sociais estão edificadas não apenas sobre as estruturas capitalistas, mas pelo
patriarcado (p. 91), refletindo em como os dois lados desta dicotomia homem/mulher são compreendidos e
construídos.
No texto de Rocha, encontra-se explicito essa reprodução quando Pêdra, que era Pedro antes de
passar por debaixo de um arco-íris, diz: “— Mas é que todo mundo diz isso – disse Pêdra. — Que menina
não joga futebol, que mulher é dentro de casa...” (ROCHA, 2009, p. 19). Importante ressaltar que esses
conceitos estão tão arraigados no imaginário sobre o gênero, que os personagens, a princípio, continuam a
reproduzi-los: Joana, que gostaria de fazer atividades restritas a meninos, impõe as mesmas restrições ao
irmão que se tornou menina, assumindo a mesma posição de poder que Pedro detinha antes da troca: a de
apontar o comportamento esperado para a menina:

— Ah, mas eu não me sinto menina! Tenho vontade de chutar tampinha, de empinar papagaio, de
pular sela... [fala de Pêdra]
— Ué, eu também tinha vontade de fazer tudo isso e você dizia que menina não podia – reclamou
Joano. [...]
— Pois é, agora aguenta! Não pode, não pode, não pode... [fala Joano] (ROCHA, 2009, p. 19-20)

Além disso, Joano, como novo menino, reforça ainda mais as marcas de poder ao afirmar que
“Menina só serve para atrapalhar” (ROCHA, 2009, p. 22), assumindo assim o discurso das relações de
gênero, que é, conforme Auad (2006) estão organizadas para produzir desigualdades, pois as “relações de
gênero como socialmente construídas, percebemos que uma série de características consideradas
‘naturalmente’ femininas ou masculinas corresponde às relações de poder” (p. 19), conforme podemos ver
tanto nas falas dos pais dos garotos quanto nas próprias falas deles, pois são naturalizadas de tanto serem
praticadas, contadas, repetidas e recontadas:
“Logo na esquina, Pedro, quer dizer, Pêdra, que agora era menina, deu o maior chute numa tampinha
de cerveja que estava no chão.
— Vamos parar com isso? – disse Joano — Menina não faz essas coisas.” (ROCHA, 2009, p. 18)
“— Menino não pode!
— Menina não faz!” (ROCHA, 2009, p. 24)

O fato de terem alterado de gênero/sexo não trouxe, inicialmente, uma nova visão para os jovens
Joana/Joano e Pedro/Pêdra, antes, houve um reforço ainda maior das diferenças baseadas em constructos
sociais e culturais, em que a troca não alterou as permissões concedidas para cada um desses gêneros. Isso
explicita o que Guacira Lopes Louro (2004) apresenta, retomando Judith Butler (1990), para quem sexo
também é um constructo cultural, uma vez que sugere que “sexo é cultural na mesma medida em que o é o
gênero” (p. 66-67). Por isso, a princípio, a mudança de sexo dos jovens não afeta a visão incrustada neles de
gênero, pois o homem tem um comportamento específico, enquanto a mulher outro, o que implica que Joana
ao virar Joano deva assumir o discurso do gênero que representa agora, mesmo que minutos antes tenha
estado “do outro lado”: “Não pode porque é mulher! [...] Mulher é mulher, homem é homem!” (ROCHA,
2009, p. 10).
Ruth Rocha, por meio de sua narrativa, acaba por instigar a compreensão e a reflexão sobre esses
papeis cristalizados, esses pré-conceitos e constructos sociais e culturais que estabelecem uma dicotomia
entre os gêneros e os sexos masculino e feminino, em especial ao mostrar os discursos aos quais os jovens
estão expostos e dos quais são frutos. Por fim, a autora aborda de forma singela um tema que requer muito
estudo e questionamento sobre as práticas que corporificam e produzem uma relação de gêneros na
sociedade como um todo. Ao final, Pedro e Joana compreendem que não é um gênero ou o que se espera
dele que deve reger sua percepção de sujeito, mas sim suas experiências:

Pêdra ficou olhando para Joano:


— Sabe que você é bem esperta para uma menina?
Joano respondeu:
— Você também é bem esperta... para uma menina.
[...]
E correram, juntos, em direção ao arco-íris. E finalmente perceberam que alguma coisa, novamente,
tinha acontecido. [...] Então Joana viu uma tampinha de cerveja na calçada.
Correu e chutou a tampinha para Pedro.
Pedro devolveu e os dois foram jogando tampinha até em casa... (ROCHA, 2009, p. 27-30).

Já não importa para os dois irmãos o que é próprio de menina e o que é próprio de menino, apenas o
que é próprio de uma criança, divertir-se com uma tampinha de cerveja, sem pré-julgamentos ou
estereótipos, sem estabelecer uma relação de poder, apenas uma igualdade na percepção de que ambos são
indivíduos.