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A SANGUE FRIO

CAPOTE, TRUMAN. A Sangue Frio. RANDOM HOUSE. 1. Ed

A Sangue Frio foi lançado em 1966 por Truman Capote e revolucionou com sua escrita criando um novo
gênero literário conhecido como Jornalismo Literário. Lançado pelo jornal New York Times em capítulos,
com uma narrativa densa e personagens minimamente construídos de forma detalhista relatando o
assasinato de 4 membros da família Clutter na cidade Holcomb, localizada no interior do estado do Kansas,
nos Estados Unidos.
A narrativa é construída no enredo principal que permeia um fluxo do tempo até o assassinato dos quatro
membros da família, tanto na construção da imagem da pequena cidade do interior, como se fosse um
personagem próprio sendo desmistificado da inocência após o brutal assassinato da família, com elementos
que não consideram qualquer justificativa para os assassinatos e nos guiando na opinião de cada
personagem incrustado de caracteristicas pacatas antes do evento e profundas após este, relatado nos
primeiros parágrafos do autor ao escrever “ Depois disso, porém, os habitantes da cidade, até então
suficientemente confiantes para nunca se darem ao trabalho de trancar as portas, passaram a ter sempre os
tiros presentes na imaginação, essas tremendas explosões que iriam acender o fogo da desconfiança a cuja
luz vizinhos começaram a entreolhar-se com temor, como se fossem estranhos”. O autor garante em dar
características e fisionomia dos próprios perpetradores do ato hediondo que nos permitem sentir alguma
empatia como se fossem pessoas normais, boas, civilizadas e não atrozes, esse é o ponto que percorremos
do ínicio ao fim, com a mudança constante de uma cidade, dos moradores que até então viviam em paz
com algo que poderia englobar toda aquela camada tão distante do mundo globalizado “ Lá onde cresce o
trigo”.
A história é baseada no verdadeiro assassinato dos quatro membros da família Cluttler, mas houve tanta
polêmicas por trás das descrições do autor que alguns críticos não acham tão indissociavel dos relatos
verdadeiros, em entrevista em 1966 ao editor da “Paris Review” George Plimpton, Capote disse que “ claro
que uma narrativa jornalística requer imaginação!”. O autor argumentava que técnicas literárias aplicada ao
jornalismo, davam sabor e estilo à reportagem, e então assim ele escreveu, construindo algo imagético
descrito em um dos últimos parágrafos “ Mas quando a multidão viu os assassinatos, com sua escolta de
policiais rodoviários de casaco azul, ficou em silêncio, como se espantada de constatar que os dois tinham
forma humana” e esse era o sabor principal da história, não era a ficha criminal de Richard Hickock e Perry
Smith, os responsáveis pelo crime, mas sim o fato que podiam ser totalmente normais aos olhos da
população, a visão do próprio leitor não é modificada pelo fato do autor apresentar como duas das
características principais a doçura e inocência da Nancy Clutter, o simpático e amado por todos Herbert
Clutter ou melancólica Bonnie Fox, mas que somos cúmplices de uma moral distorcida do autor onde não a
posições claras quanto aos assassinos ou a chacina, apenas adjetivos que constroem a ilusória imagem
dos dois criminosos.
Mais importante do que a narrativa é a condenação e execução dos criminosos, porque não há
justificativas ou irreverências que transformem o final em sendo apenas o final, e se somos incubidos
também de sentir empatia por isso, é justificado por um dos trechos simples e impactantes da obra que a
riqueza de detalhes descrito na narrativa não poderia causar tanto impacto quanto em uma frase “ A
verdade pode ser brutal” e é isso que destrói qualquer coisa que vai além desse ponto ou impacto que o
livro teve, e mesmo que após temos uma “ justificativa” do crime descrita por uma das falas do assassino “
Vocês estão me mandando para um mundo melhor do que este jamais foi”, é inerente aos detalhes do crime
e o quanto somos parte da ignorância do medo e mal daquela pequena cidade do interior, e qualquer
romantização por parte do autor em relação a história verdadeiro não poderia apagar isto. Quando
confrontado com um destino como a condenação a morte, é irrelevante pensar na história dos dois
criminosos, ou o quanto desconexo da sociedade Perry Smith se sentia, a questão sobre um desfecho
violento é apenas é uma afirmativa de meios violentos e não um debate aberto sobre a pena de morte nos
Estados Unidos e demais países, e a punição trazido neste contexto é um desfecho adequado pra cada
detalhe que expressava a bondade dos quatro membros da família em contraponto aos atrozes.
O impacto que deixou nos que continuaram pode ser medido com um dos pontos a favores da obra, e a
narrativa em um trecho que merece destaque onde a melhor amiga da Nancy está conversando com o
agente Dewey “ Mas gostei muito de o ver, Mr.Dewey” - Também gostei muito de te ver, Sue. Felicidades! -
acrescentou ainda, enquanto a rapariga se afastava pela alameda abaixo, uma jovem bonita, de cabelos ao
vento, a brilhar, uma mulher bela como Nancy teria podido vir a ser” e esse é o contraste que o autor
procura captar ao longo da história, uma perspectiva onde o que poderia ser é destruído nos primeiros
parágrafos junto com um dos únicos personagens que esboçam frieza e apenas o que foi, com um dos
primeiros diálogos após o ato ser repercutido pela cidade “ Quando a hora chega, ela chega. Não adianta
chorar” e isto é o definitivo sobre os acontecimentos relatados, não há espaço para imaginação ou o que
poderia ter sido depois da realidade definitiva de algo brutal.
Portanto a consequência do desfecho não é retratado pelo julgamento ou a pena de morte, mas sim na
memória dos que ficaram e no ambiente de medo onde tudo já foi simples. A mudança não foi gradual dos
primeiros parágrafos, de fato, a confrontação de um desfecho amargo é relatado do início da história como
meio de preparação para imprevisibilidade do acontecimento após os detalhes de cada personagem e
principalmente dos Cuttler, e a visão da vizinhança sobre eles. A leitura pode acrescentar muito em se
tratando de perspectivas ambivalentes sobre quase tudo na narrativa, e o próprio autor denominou o novo
gênero romance não-ficção que cria novas histórias até hoje, mas também a aversão do autor a gravar os
entrevistados que levaram a críticas sobre a maneira como é conduzido a romantização da história, o
professor e escritor Ben Yagoda, autor de um dos mais respeitados livros sobre a “New Yorker”, apurou que
William Shawn, editor da revista durante 30 anos, depois se arrependeu de ter publicado “A Sangue Frio”
( FOLHA, 2015). Como parte da crítica, é fato que o próprio autor adquiriu licenciosidade sobre a história e
decidiu moldar a realidade e subverter o que eram os criminosos na realidade de um ato hediondo, a
permissão sobre as possíveis alterações ainda são discutidas até hoje com críticos fervorosos e outros que
ainda conseguem notar a representatividade e inovação que o livro trouxe pra época, e se não podemos ter
as provas de qualquer entrevista por parte do autor dos moradores da cidade, ou os criminosos
frequentemente visitados por ele ao longo de 6 anos para construção do livro, tampouco podemos deixar a
riqueza de detalhes na narrativa, e a experiência totalmente nova pra qualquer leitor acrescentar na sua
cultura.
Referências

BILENKY, THAIS. ‘A Sangue Frio’ completa 50 anos aclamado por estilo e criticado
por licenciosidade. Setembro, 2015. Disponível em :
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/09/1686719-a-sangue-frio-completa-50-anos-
aclamada-por-estilo-e-criticada-pela-licenciosidade.shtml

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