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Livro: Psicodiagnóstico – capítulo 4: O contato com o paciente.

A expressão contato, quer dizer: exercitar o tato. Metaforicamente, no psicodiagnóstico,


o papel do psicólogo é tatear pelo caminho da angústia, desconfiança e do sofrimento da
pessoa que pede ajuda; então, tatear é lidar com as situações do outro e resistências.

Primeiro, é preciso ter certeza que os sintomas se mantêm presentes e já foram


manifestados antes do paciente marcar a consulta e que várias medidas já foram
tomadas a fim de driblar o sofrimento. Essas resistências seriam a dificuldade de
compreender o que é o trabalho do psicólogo, estereótipos e preconceito com quem
procura esse atendimento. No caso de crianças ou adolescentes, as dificuldades, na
maioria das vezes, são relacionadas aos companheiros, dizendo que o problema é
indisciplina ou “problemas de idade”. A pior resistência é a que está ligada às questões
internas, causando uma aflição diante de si próprio e com o mundo a sua volta, fazendo
com que a pessoa procure conviver com os sintomas e a família tenta se acostumar.

Frequentemente, outra pessoa percebe os sintomas e acaba assumindo o papel de agente


de saúde, geralmente é alguém como uma certa influência, como por exemplo um
médico, assistente social ou professor. Na maioria das vezes, ela é procurada para
aconselhar ou dar apoio e é dai que surge a decisão da busca por ajuda.

A pessoa em sofrimento, no primeiro contato com o psicólogo, chega coagida pela


necessidade de ajuda. A atitude do psicólogo perante a uma nova história, deve ser vista
com o coração, em conjunto com o paciente, livre de conflitos, críticas e julgamentos,
ele deve focar em estabelecer um vínculo, confiança. Ao estabelecer essa proximidade,
o psicólogo mostra ao paciente que as dificuldades parecem não ir embora se antes não
são acolhidas: a solução só ganhará espaço se houver contato.

Motivos conscientes e inconscientes

O marcar a consulta formaliza um processo de trabalho psicológico já iniciado. Quando


um paciente é encaminhado por outro profissional para o psicólogo, os motivos podem
ser: a própria solicitação do exame ou o paciente foi influenciado por amigos, parentes
ou colegas. Quando não é o próprio indivíduo que busca a ajuda por conta, ele pode ter
uma percepção vaga da sua problemática e chegar ao psicólogo apenas com a
justificativa de que foi encaminhado pelo médico, por exemplo. Ele pode estar
consciente de alguma parte do problema e a situação de enfrentamento de sua
dificuldade ser muito dolorosa. Com isso, é possível que o paciente negue a realidade e
deposite a responsabilidade em quem o encaminhou.

As motivações inconscientes estão no nível mais profundo e obscuro da psique, elas se


constituem nos aspectos verdadeiramente responsáveis pela aflição do paciente. Cabe ao
psicólogo observar, perceber e escutar com tranquilidade, aproximar-se sem ser
invasivo, assim, criando o espaço necessário para que o paciente se abra e fale sobre
suas intimidades. É importante observar como o paciente se refere a si mesmo e aos
seus conflitos internos, isso leva em conta a forma como ele se veste, gesticula, fala, se
comporta e os conteúdos dessas comunicações, possibilitando o psicólogo a decodificar
todas as mensagens.

Quando os pais levam a criança ou o adolescente ao psicólogo, pode ocorrer que o


sujeito constitua “o terceiro excluído ou incluído”. Se ignora o motivo, é excluído, mas
não necessariamente incluído, passível de investigação, porque pode ser que os pais
falem qual é o motivo, mas talvez esse não seja o mais verdadeiro ou o mais importante,
segundo a sua percepção. Isso se dá por ele não ter certeza do que vai acontecer ao
deixar bem claro qual é o motivo mais doloroso e profundo e, consequentemente, o mais
oculto.

Se a realidade está sendo distorcida, pode ocorrer alguns impasses no processo


psicodiagnóstico, caso o psicólogo não perceba e/ou não altere a situação. Primeiro: o
processo pode ser iniciado com o conflito deslocado. Segundo: o paciente percebe a
discrepância e projeta no material de teste suas dificuldades, enquanto o psicólogo
“finge estar investigando uma coisa, mas sorrateiramente explora outra socialmente
rejeitada”. Terceiro: outras dificuldades podem ocorrer, no momento da devolução: a)
no caso do parecer técnico estar contaminado e distorcido; b) porque o psicólogo entra
em aliança com os aspectos patológicos; c) por adotar uma atitude ambígua, não sendo
devidamente explícito; ou, ainda da, d) deixando claros somente os pontos tolerados
pelo paciente e por seu grupo familiar.

Contudo, fica bastante claro que o psicólogo deve dar importância em abordar o
continuum de consciência-inconsciência do paciente em relação aos seus conflitos.
Todos os dados psíquicos são relevantes e possuem seus vários significados, cabe ao
psicólogo abordar cada um sob vários aspectos, para assim, chegar em uma consistência
e especificidade.
Quando o paciente vai ao psicólogo por encaminhamento, deve ser deixado claro quem
o encaminhou, em qual circunstância ocorreu e quais são os objetivos para a
investigação. É fundamental que o psicólogo esclareça, de maneira mais objetiva
possível, as motivações conscientes e inconscientes envolvidas no pedido de ajuda.

Identificação do paciente

Tantos os motivos explícitos, quantos os implícitos, colaboram para que o psicólogo


identifique verdadeiramente quem é o seu paciente: a pessoa que é trazida ou assume a
procura, o grupo familiar ou ambos. A tarefa fundamental do profissional, quando
acontece o primeiro contato entre paciente e psicólogo, é levantar todos os
questionamentos possíveis em torno dele e da situação trazida, para que possa
identificar se o sintoma trazido por ele e pela família, são coerentes. O psicólogo
começa a conhecer “quem é” o seu paciente, por meio de perguntas iniciais quando
acontece primeiro contato.

Definição de problemas e necessidades do psicólogo

No psicodiagnóstico, o psicólogo sofre muita pressão: do paciente e sua família, do


profissional que fez o encaminhamento, do ambiente (local de trabalho) e dele mesmo.
O paciente quer ser ajudado e quer respostas.

O local de trabalho psicólogo exerce muita pressão em cima dele, porque quando
estamos falando de uma equipe formalizada ou multidisciplinar, a competitividade é
algo muito presente. Além disso, a pressão que o psicólogo coloca sobre si mesmo
também dificulta muito o processo, visto que o profissional que encaminhou o paciente
quer respostas específicas, e elas reforçarão ou não a confiança no papel do psicólogo.

Então, o psicólogo espera que o paciente colabore, seja franco, forneça todos os dados
necessários e seja “comportado”, mantendo-se no seu papel. Caso o paciente apresente
resistência, banalizando, não levando a sério e sendo provocador, o psicólogo pode
expressar um sentimento de raiva, que se não for rapidamente banido e diluído, pode
interferir gravemente ou invalidar o processo avaliativo.
Variáveis (constantes) psicológicas do psicólogo e do paciente

Necessidades inconscientes e permanentes mobilizadas no psicólogo-pessoa.

Psicólogo:

a. Aspecto “voyeurista”: psicólogo examina e avalia com “vários olhos” o interior


do paciente, mantendo a neutralidade.
b. Aspecto autocrático: ressalta o poder do psicólogo no processo psicodiagnóstico
e diz ao paciente o que ele deve fazer, como e quando.
c. Aspecto oracular: o psicólogo age como se soubesse, conhecesse e previsse
tudo; esse aspecto é reforçado pelo encaminhamento, porque ele vai fornecer a
resposta.
d. Aspecto santificado: o psicólogo assume o papel de salvador do ambiente.

Paciente:

a. Auto exposição com ausência de confiança; intimidade violada: o paciente se


sente exposto e vulnerável ao psicólogo.
b. Perda de controle sobre a situação: o paciente fica à disposição do psicólogo,
adota uma postura defensiva, já que deve cumprir as ordens impostas.
c. Perigos de auto confrontação: a testagem ataca e confronta aspectos dolorosos e
destrói a sua autodefesa.
d. Tentação a reagir de forma agressiva: tem dificuldade de aceitar as próprias
dificuldades.
e. Ambivalência diante da liberdade: enfrenta riscos de se expor.

Conclui-se que o contato com o paciente e os aspectos dinâmicos da interação clínica


são extremamente importantes para o psicodiagnóstico, visto que a tarefa do psicólogo
nesse processo não se resume a um psicometrista, assim como também é errado vê-lo
somente como um aplicador de técnicas projetivas, mesmo quando o objetivo parece
simples, o psicólogo deve se esforçar e dar importância a tudo o que pode ser
importante pra avaliação.

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