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O CONCEITO DE CURRÍCULO: UM BREVE


HISTÓRICO DAS MUDANÇAS NO ENFOQUE DAS LINHAS
CURRICULARES

Débora Lima Campos1


Secretaria Municipal de Educação (SEMED)
(a-dcampos@bol.com.br)
Sebastião Constantino Brito da Silva2
Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia - Amazonas
(scbscefetam@uol.com.br)

RESUMO

Este trabalho, para poder enveredar no que seja, deva ou possa ser entendido como currículo, vale-
se, de início, de um breve histórico das mudanças ocorridas no enfoque curricular a partir de uma
concisa análise da sociedade americana e brasileira. Por esse caminho procuramos esclarecer o
porquê das inquietações do desenvolvimento dos estudos de currículo. Em seguida, passamos a en-
focar o significado de currículo e, para melhor entendimento, nas diferentes linhas de abordagem,
analisaremos algumas definições de currículo para somente depois, traçarmos as conseqüências
dessas idéias e, numa síntese, definir as implicações de todo o estudo para o currículo.

Palavras-Chave: Currículo. Conhecimento Escolar. Política Educacional.

ABSTRACT

In this work, for be able to we will arrive it perceive what be, must or can be understood like cur-
riculum, be worth us of beginning, of a short transcript of the changes occurred in the curricular
approach from a short analysis of the American society. By that road we are going to clear the
reason of the restlessnesses of the development of the studies of curriculum. Right away, we pass
it focus the meaning of curriculum and, for better understanding, in the different lines of approach,
we will analyze some definitions of curriculum for only afterwards, we will draw the consequences
of those ideas, in a synthesis, defined the implications completely the study for the curriculum.

Key-words: Curriculum. School Knowledge. Educational Politics.

1
Licenciada em História pelo Centro Universitário do Norte (UNINORTE), Especialista em Docência do Ensino Profission-
alizante pelo Centro Federal de Educação Tecnológica do Amazonas (CEFET-AM) e Professora da Secretaria Municipal de
Educação (SEMED).
2
Mestre em Educação pela Universidade Federal do Amazonas e Profesor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tec-
nología – Amazonas.

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INTRODUÇÃO da análise da sociedade americana e brasileira,


como um movimento de contínua análise, re-
As mudanças ocorridas na sociedade do formulação, problematização e questionamen-
século XIX e XX, provocadas principalmente tos, tenso a sociologia do currículo como im-
pelo advento da era industrial, trouxeram crí- portante e fundamental elemento.
ticas severas para o sistema educacional e a
escola como instituição social, criada para a
transmissão dos conhecimentos DA CONCEPÇÃO DO CURRÍCULO
As críticas eram voltadas principalmente
ao formalismo desta instituição, sua disciplina As primeiras referências à expressão cur-
rígida, a limitação educativa situada nas maté- rículo: alguns estudos apontam que o contexto
rias estanques e no conservadorismo que fazia do surgimento da expressão currículo é iden-
as pessoas pensarem em repassar aos filhos tificado com a Reforma Protestante do final
aquilo que haviam recebidos, sem se preocupar do século XVI, mais especificamente com o
com as mudanças da sociedade e as novas ne- Calvinismo. Possivelmente, o termo teria sido
cessidades surgidas. utilizado em 1582, nas escriturações da Uni-
Em razão desses fatos, foram criadas versidade de Leiden (Holanda), mas o primeiro
nos Estados Unidos, de 1890 a 1920, várias registro que dele se constata é o de um ates-
comissões que influenciaram sobremaneira as tado de graduação outorgado a um mestre da
decisões a serem tomadas no desenvolvimento Universidade de Glasglow (Escócia), em 1663
do currículo. Assim, até ao final da década de (SAVIANI, 1994, p.39)
1930, grande impulso havia sido dado à educa- Os estudos mais específicos sobre o cur-
ção e ao currículo obrigando as escolas a uma rículo tiveram início nos Estados Unidos, na
completa revisão, atuação e atualização do pes- década de 1920. Os movimentos migratórios e
soal atuante. o amplo processo de industrialização gerou a
A partir da daí, a elaboração do currícu- necessidade de mais escolarização o que reper-
lo passa a ser responsabilidade da escola e dos cutiu diretamente nos currículos (BOBBITT,
professores, no sentido de encontrar os melho- 2004). O modelo institucional dessa concepção
res recursos materiais para sugerir atividades de currículo é a fábrica. A inspiração “teórica”
e experiências de aprendizagem, preocupação é a “administração científica” de Taylor (alunos
esta que chegou até os dias de hoje. vistos como produtos de fábrica) procedimen-
Em meio a todas essas mudanças, nada tos e métodos com vistas a alcançar resultados
tem sido mais significativo, nem tão fundamen- que pudessem ser medidos.
tal quanto as principais modificações que se Considerando o sentido etimológico da
têm feito no currículo de todos os níveis, desde palavra currículo (em latim, curriculum), em
a educação infantil até a universidade. sua origem e abrangência significa o curso, o
Sua natureza decorre do fato de ser o currí- percurso, o caminho da vida ou das atividades
culo o próprio fundamento de qualquer sistema de uma pessoa ou grupo de pessoas. Pode-se
de ensino, ele é o elemento nuclear do projeto dizer que não houve alterações profundas até
pedagógico da escola, viabilizando o processo hoje, mas não podemos deixar de assinalar
de ensino e aprendizagem. Sendo assim toda e importantes variações de vocábulo, no
qualquer mudança não terá efeito, se não acom-
panhar uma reconcepção de currículo.
uso e na apropriação do mesmo pelo
Por isso, a finalidade dessa investigação é vocabulário pedagógico.
esboçar alguns dos ingredientes essenciais ao Na aplicação do termo à educação, pode-
estudo da teoria do currículo: um breve histó- remos encontrar uma variação considerando-se,
rico das linhas conceituais curriculares a partir na linha de evolução dos tempos, as diferentes

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concepções de educação e escola. Assim, vamos Reiterando as palavras de Dewey, um de


notar que o currículo se moldou respondendo à seus colaboradores William H. Kilpatrick, em
organização e às necessidades de determinada 1935, acrescenta: “currículo é uma sucessão de
sociedade, num dado momento histórico. experiências escolares adequadas a produzir, de
forma satisfatória, a contínua reconstrução da
experiência” (1956, p.84), sendo, no entanto, o
CONCEITUAÇÃO DE CURRÍCULO papel do mestre preparar o ambiente para que
esta sucessão se faça de tal forma que promova
Foram muitas as interpretações dadas ao o desenvolvimento dos alunos e os faça atingir
conceito de currículo através dos tempos em os fins da autodireção, no desenvolvimento de
razão das transformações sociais, culturais suas atividades. Entendemos que a visão do au-
e tecnológicas subjacentes às concepções de tor é a de que o professor tradicional não atuará
mundo, de homem e de educação, formulado na qualidade de transmissor de conhecimentos.
no transcurso da história. Conceitualmente o Através dessas colocações no que diz res-
currículo tem sido interpretado como “lista de peito à definição de currículo, abordadas por
matérias a estudar sob orientação do professor, Dewey e, complementadas por Kilpatrick, ve-
experiências de aprendizagem para desenvolver mos já em seu tempo, e ainda hoje, um avanço
habilidades que preparem para a vida; seriação perante as idéias de currículo como matérias ou
de estudos realizados na escola” (SOARES, disciplinas “feitas e acabadas”.
1993, p.68). Muitos autores seguiram nessa linha traça-
Todavia, mergulhando na definição de da por Dewey, como é o caso de John Franklin
currículo a partir do ponto de vista de alguns Bobbit (2004), que em 1922, defendeu currí-
autores especialistas no assunto como John culo como um conjunto de série ou de coisas
Dewey, William Kilpatrick, Franklin Bobbit, que crianças e jovens devem experimentar para
Ralph Tyler, Hilda Taba, Michael Apple, Lina desenvolver habilidades que os capacitem a de-
Traldi e outros, respeitado o tempo histórico em cidir assuntos da vida adulta. Nessa afirmação
que foram formuladas, buscamos apresentar al- de Bobbit, já encontramos uma preocupação
gumas dessas definições. em definir qual deveria ser a relação entre a es-
Inicialmente, na década de 1930, sob a trutura do currículo e o controle e o poder da
influência de John Dewey, o currículo passou comunidade – uma função social do currículo.
a ser associado à vivência do aluno, às experi- Seguindo essa lógica, em 1935, surgem
ências que possibilitaram aos indivíduos desen- Hollis Caswell e Dwight Campbell, afirmando
volverem-se de forma satisfatória considerando que o “currículo abrange todas as experiências
as diversas dimensões do seu ser. Nessa linha do educando sob a orientação do professor”.
de discussão, afirma o autor: Posteriormente, este conceito seria mais bem
explicitado por Caswell que afirma: “Currículo
é tudo que acontece na vida da criança, na de
O valor do currículo está na possibilidade seus pais e de seus professores”, dizendo ain-
de mostrar ao mestre os caminhos abertos à
da que “tudo que cerca o aluno, em todas as
criança para o verdadeiro, o belo e o bom, per-
mitindo a esse mestre, determinar o ambiente, horas do dia, constitui matéria para currículo”
o meio necessário para o desenvolvimento (CASWELL e CAMPBELL apud TRALDI,
do educando e, assim, dirigir indiretamente a 1984, p.34). Portanto, para esses autores, tudo
sua atividade mental, porquanto, segundo ele, que rodeia o educando será parte do currículo:
tudo se resume na atividade em que entra a in-
teligência reagindo ao que lhe é externamente
pais, materiais, livros, edifícios, conteúdos,
apresentado (DEWEY, 1959, p. 80). etc.
Está claro que nesta tarefa de planejar cur-
rículo para que as atividades possam desenvol-

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ver-se a contento, surgem autores que procuram que aprendem a contribuir para a construção de
definir-lhe melhor os elementos constitutivos e melhores comunidades [...]” (RAGAN, 1973,
as responsabilidades de quem planeja. Estes au- p,23).
tores serão mencionados a seguir. Além dos autores já citados, lembramos
Os estudos sobre currículo na perspectiva ainda de Edward Krug, em 1956, que define
de organização e desenvolvimento começam a currículo como “todos os meios empregados
se consolidar por volta de 1936, através de Ha- pela escola a fim de prover aos estudantes
rold Rugg que atribuiu ao currículo uma ques- oportunidades desejáveis de aprendizagem”
tão técnica. Nessa perspectiva, o autor apresenta (TRALDI, 1984, p.35), restringindo, no entan-
currículo como um programa integral da escola to, o currículo ao ambiente escolar. No que diz
que deve envolver o que o professor e o aluno respeito ao planejamento das atividades peda-
faz e, como o fazem, direcionando para as tare- gógicas o autor defende que “conteúdo e mé-
fas essenciais envolvendo o planejamento e o todo não podem ser encarados como entidades
desenvolvimento do currículo, detalhado pelas separadas” (ibidem).
seguintes ações: determinação dos objetivos, Na mesma linha que restringe o currículo
seleção das atividades e materiais de ensino e, à situação escola, agregamos a definição de Ver-
organização dessas atividades e materiais, para non Anderson (1956, p.10) que também diz que
o bom ensino (apud TRALDI, 1984, p.34). “conteúdo e método não podem ser encaradas
Todas essas tarefas citadas anteriormente como entidades separadas”, e ainda acrescenta:
serão recolocadas, em 1949, por Ralph Tyler “o currículo inclui não apenas as experiências
(1983), considerado um clássico na discussão da sala de aula, mas também as atividades ex-
sobre o tema abordado. Na conhecida obra Prin- traclasses”.
cípios Básicos Currículo e Ensino o referido Nessa concepção de currículo, não apenas
autor levanta questões comumente apontadas a experiência da sala de aula deve ser valoriza-
pelos educadores: Que objetivos educacionais a da, mas também as atividades extra-escolares.
escola deve procurar atingir? Como selecionar Nesse aspecto, ressaltamos o desenvolvimento
as experiências de aprendizagem que possam de atividades em bibliotecas, visitas às comu-
ser úteis à realização desses objetivos? nidade etc.
Dessa forma, observamos que Tyler tam- O foco principal na definição de currí-cu-
bém destaca a experiência do aluno como uma lo, mais uma vez é o aluno, o ambiente sócio-
problemática a ser pensada no planejamento cultural ao qual estão inseridos e o ambiente
curricular, a qual deve ser articulada em cada organizado para o desenvolvimento das expe-
etapa do planejamento como: elaboração de ob- riências desejadas.
jetivos, seleção e organização de experiências, Nessa nossa trajetória cronológica, encon-
bem como na sua avaliação. tramos, em 1960, uma definição científica, feita
Nessa concepção, o currículo é visto como por John Murray Lee e Dorris May Lee, que
uma prática neutra, instrumento de racionaliza- envolve e considera as estratégias e, portanto,
ção da atividade educativa e controle do pla- a parte dinâmica do currículo, definindo-o da
nejamento. O pensamento de Tyler influenciou seguinte forma: “o currículo é a estratégia pela
nos estudos sobre currículo no Brasil, adotado qual as escolas tentam satisfazer os fins da edu-
como fundamento teórico na organização curri- cação”, complementando o seu pensamento,
cular do ensino na década de 1970. afirmam que o “currículo são todas as experi-
Em 1953, William Ragan, em sua obra ências da criança das quais a escola se utiliza
Currículo elementar moderno, concebe currícu- ou tenta influenciar” (LEE e LEE, 1960, p.148).
lo como um recurso instrumental, que consiste Portanto, podemos inferir, tudo que acontece na
em experiências por meio das quais as crianças escola, de acordo com esses autores, envolve o
atingem a auto-realização, ao mesmo tempo em educando, as experiências e a situação ensino-

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aprendizagem. predominantemente a um interesse em controle


Em 1962, Hilda Taba em seu clássico so- técnico, evidente em sua ênfase nos elementos
bre currículo, O desenvolvimento curricular: e passos incluídos no modelo.
teoria e prática, engrossa as fileiras, chamando Em 1963, Robert Fleming nos diz que o
atenção para o fato de o currículo ser “um pla- “currículo da escola moderna pode ser defini-
no para a aprendizagem”, em que “tudo o que do como a totalidade de experiências da crian-
se conheça sobre o processo da aprendizagem e ça, pelas quais a escola é responsável” (1970,
o desenvolvimento do indivíduo terá aplicação p.10), o que foi corroborado por Ronald Doll,
para a sua elaboração” (TABA, 1974, p.256). em 1964, quando afirmou que “currículo con-
Assim, é Taba quem chama a atenção para siste nas experiências que as crianças vivem
a necessidade de elaboração e planejamento sob a direção e orientação da escola”, desta for-
científico e racional na construção de currícu- ma, esses autores acreditam que ao melhorar o
los, em que, a partir do diagnóstico das necessi- currículo significa melhorar a qualidade dessas
dades sócio-culturais dos educandos, se deter- experiências.
minarão os objetivos a alcançar, a fim de que O reforço e as definições dos diversos es-
os estudantes possam enfrentar as demandas da pecialistas abordados nos parágrafos anteriores
sociedade no presente e no futuro, “participan- remetem-nos ao documento da UNESCO, de
do como membros úteis dessa cultura” (1974, 1968, no qual nos deparamos com a seguinte
p. 25). definição sobre currículo: “são todas as ativi-
Ainda sobre currículo, a autora, também dades, materiais, métodos de ensino e outros
chama atenção para que, em função do que for meios empregados pelo professor, ou conside-
levantado ou considerado como básico, se faça rados por ele, para alcançar os fins da educa-
a seleção dos conteúdos e se proceda à sua or- ção” (UNESCO, 1968, p.30). Nesse sentido,
ganização para, então, determinar a seleção das percebemos que a idéia predominante desse
experiências ou atividades de aprendizagem e documento sobre currículo se reproduz nos es-
sua organização. Finalmente, proceder-se-á à paços institucionais regida por uma visão orgâ-
determinação do que avaliar e dos meios e mo- nica – consensual que media as relações peda-
dos de fazê-lo. gógicas nas escolas.
As preocupações de Taba em nível teóri- Influenciada fortemente por Tyler e Taba,
co podem sem dúvida ser fundamentalmente em 1972, Lady Lina Traldi, propõe uma defi-
associadas à tendência tecnicista, embora um nição de currículo como metodologia para a
interesse em compreensão também se encontre reconstrução curricular e o define da seguinte
em sua discussão sobre fontes de objetivos e forma:
experiências de aprendizagem. A pesquisadora
propõe um modelo de organização curricular Sendo o currículo compreendido como todas
que envolve a determinação de: a) objetivos a as experiências organizadas e supervisiona-
das pela escola e pelas quais, portanto, esta
serem alcançados; b) experiências curriculares;
assume responsabilidade, cabe determinar na
c) centros de organização do currículo; e d) um seleção destas experiências aquelas que sejam
esquema de abrangência e seqüência (TABA mais significativas para o desenvolvimento e
apud MOREIRA, 1997, p.68). formação máximos, completos e harmoniosos
O modelo proposto por Taba, no qual se da personalidade integral do educando (per-
mitindo-lhe alcançar a auto-realização), ao
integrariam tanto o conteúdo como as experi- mesmo tempo em que estejam em harmonia
ências de aprendizagem, pretende superar os com as necessidades da sociedade e com os
problemas dos modelos de organização curri- fins mais elevados da humanidade em geral
cular existentes, inclusive o currículo centrado (TRALDI, 1984, p. 41).
na disciplina. Vê-se que a proposta de organi-
zação curricular da pesquisadora corresponde

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Essa é uma visão ampla e de ordem sistê- intensas e fortes para o educando (TOFFLER,
mica, em que há um todo integrado para ofere- 1974, p.124).
cer conjuntos integrados de oportunidades que Nessa concepção, há necessidade de se
permitam aos educandos atingirem amplos e ter uma educação para a mudança voltada para
objetivos específicos. Estes serão continuamen- o futuro em que se podem destacar vários mo-
te planejados, implementados, avaliados e re- delos de futuros possíveis, dos prováveis e dos
visados para permitir contínuo replanejamento. preferíveis. É claro que isto exigirá maior coo-
Para Traldi (1984, p.41) “todas as expe- peração da parte de todos (inclusive os alunos
riências selecionadas e organizadas sistemica- trabalhando nesse sentido), bem como maior
mente pela escola somente poderão ser enca- criatividade nas conjecturas acerca do futuro
radas na sua dinâmica processual, para levar o dentro do espectro de mudanças.
educando ao seu desenvolvimento pleno”. Nes- Considerando o lado político e em opo-
se caso concordamos plenamente com a autora, sição as teoria sobre currículo que Ralph Tyler
para os quais através de processos, podemos formulara, em 1995, James MacDonald estabe-
empregar conhecimentos não meramente como lece a seguinte conceituação:
um conjunto de informações, mas como um sis- O parâmetro principal do currículo não é
tema para aprender. o aluno, nem a sociedade, nem a herança cul-
Seguindo em nossa ordem, de certa forma tural, mas o processo político de escolaridade.
cronológica, deparamos, em 1968 com Louise Assim, pretendo dizer que o processo político é
Berman, que nos fornece as mais sugestivas e a rede de estruturas, papéis, normas e relações
construtivas contribuições a respeito de cur- interpessoais que operam no processo de esco-
rículo, onde nos diz que habitualmente, “os laridade (MACDONALD, 1995, p.13).
currículos escolares têm dado ênfase mais ao Para o autor, o currículo é um autêntico
que já aconteceu do que está por vir, e que as espaço público, ou seja, um espaço onde múl-
pessoas e os programas escolares precisam ser tiplas perspectivas podem ser articuladas em
orientados para o futuro, devido ao ritmo de- relação ao processo de ensino-aprendizagem.
masiadamente acelerado do mundo de hoje e Assim, a importância dada por ele ao currículo,
de amanhã” (BERMAN, 1975, p.34). Diz ainda e que está por natureza inseparável ao da edu-
que para chegar ao “núcleo essencial da vivên- cação, como uma construção política, parte do
cia e da compreensão humanas” (idi, p.13), o pressuposto de que a escola é o veículo dessa
currículo deverá buscar e estabelecer os “seus atividade política, ou seja, um modo particular
pontos de ênfase ou prioridades”, que são os de organizar o poder e as influências que se en-
ingredientes dos processos fundamentais do contram nas suas práticas cotidianas.
constructo curricular. Por outro lado, Ulf Lundgren, em 1997,
Mais uma vez, dentro da linha de evolu- considera que o currículo não pode se reduzir a
ção que estamos seguindo, Alvin Toffler, em uma atividade política, porque se poderia con-
1974, com sua obra Aprender para o amanhã: siderá-lo um texto institucionalizado e, propõe
o papel do futuro na educação expõe sua preo- a seguinte definição de currículo:
cupação com um mundo de amanhã turbulento
e de mudanças muito rápidas, que somente a
educação poderá responder efetivamente à situ- Defino currículo como uma solução neces-
ação de aprendizagem se a ela incorporarmos o sária ao problema de representação e o pro-
blema da representação como o objeto do
desenvolvimento de uma psicologia do futuro. discurso pedagógico. O objeto do discurso
O autor acredita que somente a combina- coloca-se como um domínio do pensamento
ção de ação-aprendizagem com trabalho acadê- e da construção de realidades sociais quando
mico e de ambos com uma orientação para o a produção social e a reprodução se separam
entre si (LUNDGREN, 1997, p.22)
futuro criará uma motivação de aprendizagens

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Nesse caso, o currículo passa a ser um Sob essa perspectiva, a política curricular
documento escrito de solução de problema da é uma ação simbólica, representando uma ide-
representação social3, que interliga os proces- ologia para a organização da autoridade e que
sos de produção e de reprodução, englobando a abrange tanto as decisões das instâncias da ad-
seleção e conteúdos, a organização de conheci- ministração central como as decisões dos con-
mentos e destrezas e a orientação de método de textos escolares, sendo implementada por inter-
transmissão de conhecimentos. médio de três tipos de instrumentos: normativos
Fundamentando-nos em José Pacheco explícitos – leis, decretos-leis, portarias, despa-
(2003), acreditamos que por ser a política uma chos normativos; normativos interpretativos
necessidade para a vida humana, tanto indivi- e subjetivos – circulares e ofícios circulares;
dual como coletiva, a política curricular repre- documentos de orientação e apoio – textos de
senta a racionalização do processo de desen- apoio, documentos internos da escola.
volvimento do currículo nomeadamente com a Segundo José Pacheco (2003, p.15), como
regulação do conhecimento, que é face visível a política não se reduz a um simples texto e o
da realidade escolar e com o papel desempe- Estado é apenas um dos teorizadores, os textos
nhado por cada ator educativo dentro de uma curriculares, oriundos da administração central,
dada estrutura de decisões relativas à constru- são documentos de trabalho que simbolizam o
ção do projeto formativo. discurso oficial do Estado que agrega interesses
Em termos formais, a política curricular diversos e alianças elaboradas a diversos níveis
corresponde ao conjunto de leis e regulamentos de ação.
que dizem respeito ao que deve ser ensinado nas O autor afirma que as análises em política
escolas. Pensando dessa maneira José Gimeno curricular, para terem validade política e teó-
Sacristán, define a política curricular como: rica, devem considerar cinco contextos: con-
texto de influência, contexto de produção do
texto político, contexto da prática, contexto dos
Toda a decisão ou o condicionamento dos resultados e o contexto da estratégia política,
conteúdos e da prática de desenvolvimento do todos vistos como inter-relacionados. Esses
currículo, desde os contextos de decisão polí- contextos situam-se em um ciclo contínuo de
tica e administrativa, que estabelece as regras
políticas e podem ser genericamente definido
de jogo do sistema curricular. Planeja parâme-
tros de atuação com um grau de flexibilidade como:
para os diferentes agentes que moldam o cur- a) o contexto de influência consiste no es-
rículo. Na medida em que o regula, a política paço-tempo onde os conceitos chaves são esta-
é o primeiro condicionante direto do currículo belecidos para gerar o discurso político inicial;
e, indiretamente, é através da sua ação que
outros agentes são moldados (SACRISTÁN,
b) o contexto de produção do texto po-
1988, p.129-130). lítico engloba a produção de diversos textos
legais, oficiais, documentos e textos interpre-
tativos que podem ser contraditórios tanto in-
3
Representação social é entendida aqui sob o ponto de vista ternamente, quanto na intertextualidade, onde
de Denise Jodelet (2001, p.27): é uma forma de conhecimento diferentes grupos competem para controlar a
prático, de senso comum, que circula na sociedade. Esse co- representação e o propósito da política.
nhecimento é construído de conceitos e imagens sobre pessoas,
c) o contexto da prática consiste nas possi-
papéis, fenômenos do cotidiano. As pessoas constroem suas
representações nos seus grupos sociais, através das conversas, bilidades e limites materiais e simbólicos, bem
das visões, das crenças que veiculam. Assim, os conceitos e como na leitura daqueles que implementam a
imagens vão sendo aceitos, naturalizados, considerados verda- política;
deiros, embora sejam apenas representações. Muitos dos pre- d) o contexto dos resultados diz respeito
conceitos, dos estigmas, das exclusões de pessoas, decorrem
aos efeitos das políticas tanto nas estruturas e
desse processo e dos equívocos que podem gerar.
práticas quanto no impacto dessas mudanças

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nos padrões de qualidade, liberdade e justiça ganizado de significados e práticas ligados ao


social; sistema central, efetivo e dominante de signi-
e) o contexto da estratégia política englo- ficados, valores e ações que são vividos” (AP-
ba as atividades sociais e políticas de modo a PLE, 1982, p.32).
contribuir para a resolução/atenuação das de- Dessa forma, compreendendo o papel
sigualdades, no fundo, a base da investigação ideológico da educação e, particularmente de
social crítica. currículo, é que se torna possível fazer crítica à
Temos, pois, a partir desses autores, um neutralidade, tratando de forma mais explícita
avanço significativo na compreensão do que os conflitos existentes na sociedade, conteúdo
seja política curricular porque, primeiro, não só que em grande parte está contido no currículo
definem a política curricular como explicitam oculto e, que sem revelar contribui para a ma-
seu processo de construção e, o que é mais im- nutenção da ideologia dominante.
portante, sem dicotomizá-lo. Segundo, porque A noção de currículo oculto tem exercido
dão voz a todos os agentes políticos sem criar uma particular atração sobre aqueles que ana-
hierarquias entre eles. Terceiro, e em conseqü- lisam o funcionamento da educação e sobre
ência dos anteriores, reconhecem no processo os educadores, de modo geral. Apesar de sua
político, uma relação dialética entre global/lo- conotação crítica, foi um educador americano
cal, destacando não só o movimento do global da ala conservadora, Philip Jackson, quem pri-
para o local, mas o inverso também. Quarto, meiro usou o termo na forma em que ficou co-
destacam os conflitos políticos existentes nos nhecido. Num livro publicado em 1968, Life in
diferentes contextos de produção da política classrooms, em que analisava certas caracterís-
curricular, liberam não só a visualização de ticas, ele assim sintetizava o sentido que dava
conflitos culturais no processo de construção à expressão que depois ia se tornar usual nos
da política curricular como também de movi- círculos educacionais:
mentos hegemônicos e contra-hegemônicos no
processo político.
Refletindo acerca das concepções de cur- [...] os grandes grupos, a utilização do elogio
rículo da forma que estão tratadas ao longo do e do poder que se combinam para dar um sa-
texto, onde se concebe currículo numa dimen- bor distinto à vida de sala de aula coletiva-
mente formam um currículo oculto, que cada
são mais ampla, observa-se:
estudante (e cada professor) deve dominar se
quiser se dar bem na escola. As exigências
criadas por estas características da vida de
Sua forma de ser visto não como produto, sala de aula podem ser contrastadas com as
mas sim deve ser vista como uma seleção e exigências acadêmicas ─ o currículo oficial,
organização de todo o conhecimento social por assim dizer ao qual os educadores tradi-
disponí¬vel em uma determinada época. Uma cionalmente têm concedido mais atenção (JA-
vez que essa seleção e organização acarretam CKSON apud SILVA, 1992, p.94).
opções sociais e ideológicas conscientes e in-
conscientes, então uma tarefa primordial do es-
tudo do currículo será relacionar esses princí-
pios de seleção e organização do conhecimento Outro teórico que chamou atenção para a
à sua estrutura institucional e interacional nas existência de um currículo oculto, embora sem
escolas e, em seguida, ao campo da ação mais
amplo das estruturas institucionais que cercam usar esta expressão, foi Louis Althusser (1985)
a sala de aula (APPLE, 1982, p. 30). em seu ensaio Aparelhos ideológicos de Esta-
dos, ao enfatizar a ideologia como tendo uma
existência material: “Uma ideologia sempre
O autor citado dá muita importância à existe em um aparelho e em sua prática ou prá-
hegemonia definindo-a como “um conjunto or- ticas” (p.89), em outro momento de sua produ-

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ção, o autor considera o sujeito, como agente escola, a valorização ou não das situações vi-
do seguinte sistema: a ideologia existente em venciadas de forma objetiva e, subjetivamente,
um aparelho ideológico material, que prescreve que estaremos repensando o currículo e redi-
práticas materiais reguladas por um ritual ma- mensionando sua projeção. Pois, considerar a
terial, práticas estas que existem nos atos ma- experiência do aluno implica fundamentalmen-
teriais de um sujeito, que age conscientemente te tomá-la como ponto de partida no processo
segundo sua crença ( p.92). de reflexão que deve sustentar a prática pedagó-
É oportuno chamarmos atenção para o gica do professor e, ao problematizá-la, extrair
denominado currículo oculto, isto quer dizer o o significado das relações educativas, como
seguinte, que a escola, além de desenvolver o também oportunizar que o aluno se aproprie
currículo explícito, referente à transmissão do criticamente de outras experiências e saberes.
saber ao aluno, ela desenvolve também o cur- Dessa forma, concordamos com Antonio
rículo oculto no sentido referente à transmissão Flavio Barbosa Moreira e Tomaz Tadeu da Sil-
de valores, normas e comportamentos. Assim, va (1995, p.7), o currículo é um artefato social
enquanto o currículo explícito hierarquiza os e cultural, pois o currículo não é um elemento
graus escolares, o oculto desenvolve nos alunos inocente e neutro de transmissão desinteressa-
a aceitação da hierarquia e do privilégio. da do conhecimento social, ao contrário, o cur-
Para Michael Apple (1982, p.127), a idéia rículo está implicado em relações de poder, o
de currículo oculto é entendida como “normas e currículo transmite visões sociais particulares
valores que são implícitas, porém efetivamente e interessadas, o currículo produz identidades,
transmitidos pelas escolas e que habitualmente estabelece culturas individuais e coletivas.
não são mencionados na apresentação feita pe- Sob esta perspectiva, Althusser (1985) em
los professores dos fins ou objetivos”. Ele res- seu ensaio “Aparelhos ideológicos de Estado”,
salta que o conceito de currículo oculto aponta ao tratar da educação em seu caráter ideológi-
para o fato de que o “aprendizado incidental” co, rompe com a noção liberal e tradicional da
durante um curso pode contribuir mais para a educação como desinteressadamente envolvida
socialização do estudante que o conteúdo ensi- com a transmissão de conhecimento e, lança as
nado nesse curso. bases para toda a teorização crítica em educa-
O autor salienta ainda que o papel repro- ção, argumentando fundamentalmente que:
dutor da escola e do currículo, e a idéia de cur-
rículo oculto, possam vir a ampliar-se e passar
a significar não só o terreno por excelência de A educação constituiria um dos principais dis-
controle social, mas também o espaço no qual positivos através do qual a classe dominante
se travam lutas ideológicas e políticas, passível, transmitiria suas idéias sobre o mundo social,
garantindo assim a reprodução da estrutura
portanto, de abrigar intervenções que visem as
social existente. Essas idéias seriam diferen-
mudanças sociais. cialmente transmitidas, na escola, às diferen-
Contudo, considerando a razão social da tes classes: uma visão de mundo apropriada
educação, é preciso reconhecer a importância aos que estavam destinados a dominar, outra
do currículo a partir de seu conteúdo filosófi- aos que se destinavam às posições sociais su-
bordinadas (ALTHUSSER, 1985, p. 21-22).
co e político, no qual está contemplada a idéia
de homem livre e transformador, sujeito de sua
história, consciente de sua produção e, que per-
mite se conhecer apreendendo a dinâmica per- Althusser (1985) explicita a respeito dos
manente do movimento social. mecanismos pelos quais essas diferenciadas
Nessa direção, é compreendendo como as visões de mundo eram transmitidas. De forma
formas culturais são (re)produzidas e reguladas geral, essa transmissão da ideologia estaria cen-
na sociedade, os parâmetros que as orientam na trada em matérias escolares mais propícias ao

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“ensino” de idéias sociais e políticas, como é o dessa cultura.


caso da História, Educação Moral, Estudos So- Os autores dizem ainda que: aquilo que
ciais, mas estariam presentes, também, embora na visão tradicional é visto como o processo de
de forma mais sutil, em matérias aparentemen- continuidade cultural da sociedade como um
te menos sujeitas à contaminação ideológica, todo, é visto aqui como processo de reprodução
como Matemática e Ciências. cultural e social das divisões dessa sociedade.
Se ideologia e currículo não podem ser Nesse entendimento, o currículo não é o
vistos separados da teorização educacional crí- veículo de algo a ser transmitido e passivamen-
tica, cultura e currículo constituem um par inse- te absorvido, mas o terreno em que ativamente
parável na teoria educacional tradicional. Nes- se criará e produzirá cultura. O currículo é, sim,
sa visão, que é a educação? e, em particular, o segundo eles, “um terreno de produção e de
currículo?, senão uma forma institucionalizada política cultural, no qual os materiais existen-
de transmitir a cultura de uma sociedade. tes funcionam como matéria-prima de criação,
Em se tratando de teorização crítica, de recriação e, sobretudo, de contestação e trans-
certa forma, o currículo continua trazendo um gressão” (MOREIRA e SILVA, 1995, p. 28).
calhamaço de tradição. A educação e o currí- Enfim, para discutir currículo de uma forma crí-
culo estão profundamente envolvidos com o tica, acreditamos ser necessário discuti-lo num
processo cultural, entretanto, há diferenças im- sentido amplo e abrangente, não se limitando
portantes a serem enfatizadas. De forma geral, a problemas técnicos como ocorreu em muitos
a educação e o currículo estão, sim, envolvidos momentos da história, entendendo que o campo
com esse processo, mas ele é visto, ao contrário curricular está fortemente influenciado por um
do pensamento convencional, como um funda- conjunto de valores educacionais, pertencente
mento político. a um quadro de referência teórica, histórica e
Para Moreira e Silva (1995), o currículo política.
e a educação estão profundamente envolvidos Pautado nessa discussão, o papel da es-
em uma política cultural, o que significa que cola tanto na parte ética quanto na adaptação
são tantos campos de produção ativa de cultu- à estratificação econômica foi algo que vá-
ra quanto os campos contestados. Em contraste rios dos autores citados abordaram com muita
com o pensamento convencional sobre a rela- tranqüilidade. Muitos dos primeiros líderes do
ção entre currículo e cultura, a tradição crítica movimento para tornar a seleção e determina-
vê o currículo como terreno de produção e cria- ção do currículo numa área de especialização
ção simbólica cultural. Para eles, a educação e o profissional, como Gordon Rugg, Ralph Tyler
currículo não atuam, nessa visão, apenas como e Hilda Taba abraçaram convictamente tanto a
correias transmissoras de uma cultura produzi- cruzada moral quanto a ética da adaptação ao
da em outro local, por outros agentes, mas são sistema econômico como funções patentes da
partes integrantes e ativas de um processo de escolarização.
produção e criação de sentidos, de significa- Ao examinarmos trabalhos de alguns dos
ções, de sujeitos. mais influentes intelectuais e especialistas em
Nessa perspectiva, o currículo educacio- currículo como John Dewey, Ralph Tyler, John
nal, por sua vez, é o terreno privilegiado de ma- F. Bobbit é possível percebermos os compro-
nifestações, desse conflito, reafirmam os mes- missos ideológicos que orientaram grande parte
mos autores, o currículo, então, não é visto, tal da estruturação de currículo no passado e, como
como na visão tradicional, como um local de exatamente a visão da escolarização como uma
transmissão de uma cultura incontestada e uni- instituição de aculturação lentamente se uniu à
tária, mas como um campo em que se tentará visão da escolarização para a adaptação ao sis-
impor tanto a definição particular de cultura de tema econômico na mente do público.
classe ou grupo dominante quanto o conteúdo Portanto o entendimento inicia-se a partir

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desse ponto com um modelo curricular econô- to como uma maneira de preparar a juventude
mico e culturalmente conservador adquirindo para participar ativamente de sua cultura. Nem
forma própria, tornando-se um paradigma do- todas as culturas se nutrem das mesmas clas-
minante. Ficando claro que, historicamente, a ses de conhecimentos, nem uma mesma cultu-
teoria e o desenvolvimento do currículo que ra necessita dos mesmos tipos de capacidades
deveriam estar ligados às mudanças sociais, as e habilidades intelectuais em todas as épocas.
estruturas que legislam a escolarização em seus Assim, uma análise da cultura e da sociedade é
mais diversos níveis de ensino e na promoção um dos critérios que fundamentam a proposta
sócio-econômica da coletividade não desenvol- de currículo.
vem o seu papel político-educacional e, o que Portanto, tudo o que foi visto até aqui é
se vê é um currículo engessado em teorias, va- necessário para permitir exame e análise com-
zio de falas e de práticas cotidianas. pletos (do que existia, do que existe) sobre
conceituação de currículo e; levar à tomada de
decisões que promovam o melhoramento de
CONSIDERAÇÕES FINAIS desenvolvimento do currículo, seu planejamen-
to e replanejamento no sentido de melhorar o
O percurso conceitual e histórico das li- processo ensino-aprendizagem, em benefício
nhas curriculares que realizamos nos permite do educando e da cultura, em médio, curto e
verificar a variedade de posições/perspectivas longo prazo.
sobre a conceituação de currículo. Também
podemos perceber que estas teorias admitem
possibilidades variadas de interpretação, de- REFERÊNCIAS
pendendo do contexto e dos grupos sociais en-
volvidos. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos
Sendo assim, não existe a mais ou a me- de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
lhor definição de currículo, porque uma vez que ANDERSON, Vernon E. Princípios e proce-
implica uma posição de valor, tal definição vai dimentos de melhoria curricular. 2 ed., New
ser melhor para um grupo que opta por determi- York: Ronald Press Co, 1965.
nados valores; o que pode ser a melhor defini-
ção para se trabalhar em um determinado gru- APPLE, Michael W. Ideologia e Currículo.
po, porque ele fez opções, pode não ser válido Tradução: Carlos Eduardo Ferreira Carvalho,
para outro grupo, porque ele fez outras opções. São Paulo: Brasiliense, 1982.
Tomar decisões curriculares é essencial-
mente tomar decisões de valor, e decidir-se por BERMAN, Louis. Novas prioridades para o
uma definição de currículo está em se definir currículo. Rio de Janeiro: Lidador, 1975.
por uma determinada concepção, que inclui
compromissos sociais e políticos; uma vez to- BOBBITT, John Franklin. O Currículo. Porto,
madas essas decisões, a definição assume sig- Portugal: Didáctica, 2004.
nificado.
A concepção de currículo evoluiu acom- DEWEY, John. Vida e Educação. São Paulo:
panhando o desenvolvimento das ciências da Nacional, 1959. Tradução de: The child and the
educação aplicada a diferentes áreas do conhe- curriculum.
cimento. A questão fundamental no âmbito dos
estudos sobre currículo resume-se na explica- FLEMING, Robert S. (org.). Currículo moder-
ção do que deve ser aprendido (conteúdo) e do no: um planejamento dinâmico das mais avan-
como deve ser aprendido (ação). çadas técnicas de ensino. Rio de Janeiro: Lida-
Acreditamos que o currículo deva ser vis- dor, 1970, Tradução de: Curriculum for todays,

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