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DOCUMENTO “DIÁLOGO & ANÚNCIO”


Apreciação teológica das Religiões
e caminhos para o diálogo inter-religioso:

Prof. Pe. Marcial Maçaneiro, SCJ

Introdução

Este documento, publicado em 1991, é cronologicamente posterior ao Vaticano


II, mas teologicamente próximo. Foi editado pela Congregação para a Evangelização
dos Povos e o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Trata sobre diálogo
inter-religioso (Parte I) e anúncio de Jesus Cristo (Parte II). Deste modo, articula
Missiologia e Teologia das Religiões (cf. 14).

Não é, portanto, um documento isolável. Seja por causa do tema, seja pelas
citações de documentos anteriores, relidos e assimilados na sua reflexão. Além dos
pronunciamentos conciliares analisados acima, o texto acrescenta Dei Verbum,
Unitatis Redintegratio e Humanae Dignitatis; a encíclica Evangelii Nuntiandi, de Paulo
VI (1979); as encíclicas Redemptor Hominis, Dominum et Vivificantem e Redemptoris
Missio, de João Paulo II (em ordem, 1979, 1986 e 1990); o documento Diálogo e
Missão, do então Secretariado para os Não-cristãos (1984) e alguns discursos de João
Paulo II.

O Documento desenvolve uma avaliação teológica das religiões (cf. 12-14) e


propõe um autêntico diálogo inter-religioso (cf. 1, 2, 7 e 33-54). Sua reflexão segue a
vertente aberta pelo Vaticano II com os enfoques soteriológicos vistos acima (cf. 26),
tendo a peculiaridade de reler o Concílio dinamicamente, ao lado de documentos mais
recentes e à luz de uma Teologia das Religiões consideravelmente amadurecida nos
últimos anos. Isto permite ampliar certas perspectivas (como o horizonte
pneumatológico: 68) sem perder o núcleo cristão (centralidade de Jesus Cristo na obra
salvífica: 81).

Para o nosso estudo, em particular, este Documento se revela indispensável.


Ao considerar a interação diálogo-anúncio na missão evangelizadora, ele enfoca de
modo privilegiado a questão soteriológica, no âmbito das religiões. Concebe diálogo e
anúncio como recursos para a salvação dos povos (cf. 2, 38, 39), e oferece uma
soteriologia atenta às tradições não-cristãs (cf. 14, 16, 17, 19, 25, 29, 33, 35).
Passemos, pois, à sua leitura e análise.

1. EXAME TEOLÓGICO

a) CONSIDERAÇÃO POSITIVA DAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS

O Documento Diálogo e Anúncio (DA) propõe à evangelização uma


consideração positiva das tradições religiosas:

Devemos nos aproximar destas tradições com grande sensibilidade, porque


encerram valores espirituais e humanos. Exigem respeito da nossa parte visto
2

que, no curso dos séculos, deram testemunho dos esforços feitos para as
respostas “aos mais árduos problemas da condição humana” (NA 1) e
expressão à experiência religiosa e às expectativas de milhões de aderentes
seus, e continuam a fazê-lo hoje. (14)

Esta apreciação não é só teórica, mas deve apoiar-se num “estreito contato”
com as religiões. A “experiência prática do diálogo inter-religioso” e a “correta
avaliação teológica destas tradições” estão mutuamente implicadas (idem).

O texto lembra que “o Concílio reafirma a doutrina tradicional segundo a qual a


salvação em Jesus Cristo é, através de caminhos misteriosos, oferecida a todas as
pessoas de boa vontade”(15), e retoma os documentos do Vaticano II a respeito das
religiões. Reaparecem os grandes tópicos do ensino conciliar: a ação invisível da
graça nos corações sinceros, o Espírito Santo que associa os não-cristãos ao mistério
pascal (GS 22); os raios da verdade divina nas religiões (NA 2); as sementes do
Verbo, “riquezas que Deus generoso dispensou aos povos”(AG 11); “o ‘bem semeado’
não só ‘no coração e na mentalidade dos homens’, mas também ‘nos ritos próprios e
culturas dos povos’(LG 17)”(16). Não se trata de repetição casual, mas intencional.
Mantendo uma fidelidade dinâmica ao espírito conciliar, o Documento quer elaborar
uma correta apreciação das religiões e orientar a um autêntico diálogo inter-religioso.

Na continuação, a primeira frase do parágrafo 17 observa:

Estas poucas referências bastam para demonstrar que o Concílio reconheceu


abertamente a presença de valores positivos não só na vida religiosa de cada
crente das outras tradições religiosas, mas também nas mesmas tradições
religiosas a que eles pertencem.

A afirmação segue a linha de Lumen Gentium 16, Gaudium et Spes 17 e


Nostra Aetate 2, onde o Concílio reconhece elementos de graça e verdade nas
religiões e explicitamente nos ritos dos povos. Um reconhecimento claro, mas muito
conciso se comparado à opção predominante de tematizar mais demoradamente a
obra salvífico nos indivíduos não-cristãos.

A referência objetiva às tradições religiosas - inequívoca no presente texto - é


capital para a teologia: além de caracterizar de modo geral o Documento, permite uma
releitura do Vaticano II que equilibre melhor a experiência salvífica dos sujeitos
(enfoque subjetivo) e a apreciação dos valores próprios das religiões (enfoque
objetivo). O equilíbrio destes enfoques permite avaliar mais corretamente o significado
salvífico das tradições não-cristãs.

Em consonância com este reconhecimento objetivo, o Documento recomenda:

Além disso, a plenitude da verdade recebida em Jesus Cristo não dá aos


cristãos individualmente a garantia de terem assimilado de modo pleno essa
verdade. Em última análise, a verdade não é algo que possuímos, mas uma
pessoa por quem nos devemos deixar possuir. Trata-se, portanto, de um
processo sem fim. Embora mantendo intacta a sua identidade, os cristãos
devem estar dispostos a aprender e a receber dos outros e por intermédio
deles os valores positivos das suas tradições. Assim, mediante o diálogo,
podem ser induzidos a vencer os preconceitos inveterados, a rever as idéias
preconcebidas e a aceitar, por vezes, que a compreensão da sua fé seja
purificada. (49)
3

b) A AÇÃO UNIVERSAL DO ESPÍRITO SANTO

A presença universal do Espírito Santo aparece com destaque: por sua ação as
religiões contêm e manifestam elementos de santificação (cf. 17); o mesmo Espírito
suscita no coração dos não-cristãos uma oração autêntica (cf. 27), e dinamiza a
salvação na humanidade inteira (cf. 50).

Manifestado em Pentecostes na comunicação do evangelho a todas as raças e


línguas, o Espírito de Deus não conhece fronteiras. “Quando Pedro deu testemunho
da vida e da obra de Jesus, desde o início do seu ministério na Galiléia até à sua
Ressurreição, ‘o Espírito Santo desceu sobre quantos ouviam a palavra’, pelo que
aqueles que acompanhavam Pedro ficaram estupefatos aos verem ‘que o dom do
Espírito Santo fora derramado também sobre os pagãos’(At 10,44-45)”(60).

É o Paráclito que anima o testemunho evangélico e opera a salvação no


interior dos corações, levando “homens e mulheres a conhecerem Jesus como
Senhor” (65). Pois “o Espírito Santo, o Espírito de Cristo, está presente e atua entre
aqueles que escutam a Boa-Nova, ainda antes de a ação missionária da Igreja iniciar”
(68). Sem dúvida, Ele comunica a salvação de Cristo, com o poder de associar os não-
cristãos ao mistério pascal de Jesus Cristo (cf. idem).

A perspectiva do Documento segue as encíclicas Evangelii Nuntiandi (Paulo VI,


1979) e Redemptoris Missio (João Paulo II, 1990), qualificando o Espírito Santo como
protagonista da missão e dom de Deus sobre toda pessoa humana, em todas as
religiões:

É o Espírito que hoje, como nos inícios da Igreja, age em cada um dos
evangelizadores que se deixam possuir e conduzir por ele, e põe na sua boca
as palavras que ele sozinho não poderia encontrar, ao mesmo tempo que
predispõe a alma daqueles que escutam, a fim de a tornar aberta e acolhedora
para a Boa-nova e para o Reino anunciado” (64, cf. tb. 84)1.

c) AS RELIGIÕES NO PLANO UNIVERSAL DA SALVAÇÃO

Em várias passagens o Documento ressalta a universalidade do plano divino,


com referências bíblicas e conciliares. A salvação é dom de Deus a toda pessoa
humana, desde a criação; as alianças com Noé, Abraão e Moisés revelam níveis desta
mesma universalidade (cf. 19). É pensando em todos os povos que Deus elege Israel
como sinal de seu amor. Disso dão testemunho os profetas, que “sobretudo no
período do exílio, apresentam uma perspectiva universal, a consciência de que a
salvação de Deus se estende, para além e através de Israel, às nações”(20). O
desígnio de Deus abraça toda criatura e se manifesta “no universo inteiro”(idem).

Esta universalidade é visível na missão de Jesus Cristo. O Novo Testamento


mostra sua extensão, desde o início da pregação do Filho de Deus até a manifestação
do Paráclito para toda a oikoumène, em Pentecostes (cf. 21, 23, 68). As atitudes de
Jesus têm abertura crescente, primeiro às “ovelhas perdidas da casa de Israel”(Mt
15,24), depois aos demais povos: “De todas as nações fazei discípulos”(Mt 28,19). A
Igreja se coloca a serviço deste mesmo desígnio, como “sacramento universal de
salvação” (33, citando Lumen Gentium 5).

1
Cf. Evangelii Nuntiandi 75 e Redemptoris Missio 21.
4

No correr dos séculos, esta atitude permitiu reconhecer a graça salvífica em


homens e mulheres de várias culturas, chamados por Deus a adorá-Lo em “espírito e
verdade”(Jo 4,23). Assim, nasce a perspectiva patrística dos “germes de salvação”
lançados pelo Verbo de Deus no meio dos povos, já antes da encarnação. Esses
“germes” dotam as religiões de valores positivos, ordenados à salvação em Cristo. De
tal modo, que as religiões constituem “uma preparação para o Evangelho”,
desempenhando “um papel providencial na economia divina da salvação”(17). Trata-
se da teologia das semina Verbi (sementes do Verbo) e da praeparatio evangelica
(pedagogia para o Evangelho) que o Documento reedita.

A intenção não é simplesmente repetir as afirmações do Vaticano II. Os


parágrafos 24 e 25, especialmente, tematizam essa perspectiva com mais detalhes
que alguns textos conciliares. A intenção é oferecer uma abordagem teológica que
visualize o lugar das religiões na história da salvação.

O Documento afirma que é justo conceber a presença seminal do Verbo “antes


e fora da economia cristã”(24), seja na filosofia dos antigos, seja nas tradições
religiosas (cf. nota 7, no rodapé do parágrafo citado). Deus quer que todos sejam
salvos e, por isso, comunica a salvação dentro e fora do Povo eleito, iluminando os
corações retos com a luz de sua Sabedoria (cf. 23, aludindo a Jo 1,9). Este movimento
salvífico abraça as religiões numa única história de salvação, de Adão a Cristo (cf. 25).
De tal modo, que as religiões de todos os tempos foram tocadas pela “presença e
influência universal do mistério de Cristo”(idem). Pois Cristo é o próprio autor da
salvação. Sua humanidade se une à nossa, operando a redenção de todos. A esse
respeito o Documento é claro:

O plano divino de salvação é único e o seu centro é Jesus Cristo que, na


Encarnação, “se uniu de certo modo a cada homem” (28, citando Gaudium et
Spes 22).

O texto prossegue, mencionando a ação do Espírito Santo, que reúne os


cristãos e os não-cristãos no único Cristo salvador:

Deste mistério de unidade deriva que todos os homens e todas as mulheres


que são salvos participam, embora de modo diferente, do mesmo mistério de
salvação em Jesus Cristo, mediante o seu Espírito. Os cristãos são
conscientes disso, graças à sua fé, enquanto os outros desconhecem que
Jesus Cristo é fonte de sua salvação. O mistério da salvação atinge-os por
caminhos por Deus conhecidos, graças à ação invisível do Espírito de Cristo.
(29)

Neste momento, a reflexão se volta às religiões, ponderando o papel delas na


salvação dos indivíduos:

É através da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas,
e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras
religiões respondem afirmativamente ao convite de Deus e recebem a salvação
em Jesus Cristo, mesmo se não O conhecem como o seu Salvador. (idem)

De certo modo, as religiões estão qualificadas pela graça e pela presença do


Espírito a oferecerem salvação. Não autonomamente, pois é Cristo quem salva. Mas
como o próprio Verbo ali está semeado, potencializando os elementos de santificação
e verdade das religiões, aquele que responde positivamente a esses elementos acolhe
implicitamente a salvação. Pouco adiante, lemos afirmação semelhante:
5

Em muitos casos eles (os não-cristãos) podem já ter respondido implicitamente


à oferta de Deus de salvação em Jesus Cristo; um sinal disto pode ser a
prática sincera das próprias tradições religiosas, na medida em que elas
contêm autênticos valores religiosos. Podem já ter sido atingidos pelo Espírito
e, dum certo modo, estar associados, sem o saberem, ao Mistério Pascal de
Jesus Cristo. (68)

Portanto, as religiões são concebidas por Deus em sua bondade e providência,


favorescendo os homens no caminho da salvação. Elas possuem sementes do Verbo
que “ilumina todo homem” (Jo 1,9), tornando-se meios da graça, pelos quais a
redenção de Cristo se estende aos crentes, fora do cristianismo.

d) “APERFEIÇOAR EM CRISTO”

As religiões propiciam o encontro humano com o Absoluto e manifestam, em


seus valores, lampejos da Verdade divina. Contudo, a presença desses elementos não
garante por si só a absoluta santidade das religiões. Pois a oferta da graça deve ser
correspondida pelo ser humano, sempre sujeito a erros e impurezas. Aliás, também à
fé cristã se aplica esta observação, visto que nós cristãos ainda não assimilamos de
modo pleno a verdade recebida em Cristo (cf. 49). A assimilação vivencial do
evangelho é um processo contínuo dos discípulos de Jesus.

De modo semelhante, o Documento recorda a necessidade de sanar o erro que


houver nas religiões, e elevar o que há de bom e verdadeiro. Tarefa que toca
diretamente a atividade missionária da Igreja, empenhada em “aperfeiçoar em Cristo
estes elementos (de verdade e graça) que se encontram noutras religiões”(18). Pois
“afirmar que as outras tradições religiosas contêm elementos da graça não significa,
por outro lado, que tudo nelas seja fruto da graça. O pecado atua no mundo e portanto
nas tradições religiosas; apesar dos seus valores positivos, refletem também os limites
do espírito humano, que por vezes está inclinado a escolher o mal. Uma aproximação
aberta e positiva às outras tradições religiosas não autoriza, portanto, a fechar os
olhos perante as contradições que possam existir entre elas e a revelação cristã. Onde
for necessário, é preciso reconhecer que existe incompatibilidade entre certos
elementos essenciais da religião cristã e alguns aspectos destas tradições”(31).

A concretização histórica das religiões pede constante purificação, para que a


graça tenha trânsito e frutos, segundo a vontade de Deus. Isto requer a prática do
discernimento evangélico. Discernimento necessário a qualquer experiência de diálogo
entre cristãos e não-cristãos (cf. 32), como serviço à verdade que liberta e salva.

e) UNIDADE DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

“O Antigo Testamento dá testemunho do fato que, desde o início da criação,


Deus estabeleceu uma aliança com todos os povos (cf. Gn 1-11). Isto demonstra que
há uma só história de salvação para a humanidade inteira” (19). “Todos os homens e
todas as mulheres são criados por Deus à sua imagem. Paralelamente, todos são
chamados a um destino comum, que é a plenitude da vida em Deus”(28). Na criação
visualizamos a vocação comum da humanidade, toda ela destinada à comunhão com
a Trindade. Não existem diferentes histórias salvíficas, pelo fato de não haver distintas
humanidades. O desígnio divino de salvação é “único” e tem em Jesus Cristo o “seu
centro”, pois Ele recapitula todas as pessoas humanas num único Corpo (idem).
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A unidade da história salvífica revela o profundo vínculo entre criação-


revelação-redenção, cujo ápice está em Jesus Cristo, ao mesmo tempo Verbo de
Deus, ser humano pela encarnação e redentor universal (cf. 22). A consideração sobre
o valor salvífico das religiões será feita inserindo-as na unidade de uma só história de
salvação, porque um só é o desígnio de Deus.

f) A IGREJA E OS NÃO-CRISTÃOS “SALVOS EM CRISTO”

Neste Documento o enfoque eclesiológico se enquadra numa reflexão maior e


prioritária: a reflexão sobre as relações entre diálogo e anúncio, como constitutivos da
missão da Igreja num contexto de pluralismo religioso (cf. 4). E o “eixo” que integra
evangelização e diálogo inter-religioso numa mesma missão é a concepção da Igreja
sacramento universal de salvação:

A Igreja foi querida por Deus e instituída por Cristo para ser na plenitude dos
tempos sinal e instrumento do plano divino da salvação (LG 1), cujo centro é o
mistério de Cristo. Ela é o “sacramento universal de salvação”(LG 48) e “é
necessária para a salvação”(LG 14). O próprio Senhor Jesus lhe inaugura a
missão “com a pregação da Boa-nova, quer dizer, da vinda do Reino de
Deus”(LG 5)”. (33)

Em poucas linhas o Documento fala da sacramentalidade da Igreja, de sua


necessidade à salvação, do anúncio do Reino, e acrescenta a centralidade de Cristo
no plano divino. Estas referências ao magistério do Vaticano II são importantes, como
suporte teológico, mas muito sucintas neste parágrafo. Diz o texto que a pregação e
até a existência da Igreja visam a salvação de toda pessoa humana. Porém não se
comenta a extensão da Igreja como mistério, nem de que modo nela se incorporam os
não-cristãos, para se entender em que sentido a Igreja é “necessária” à salvação.
Nestes pontos o Concílio já tocou e subentende-se que isso seja conhecido. Aqui, o
Documento recolhe alguns textos conciliares, para mostrar a relação entre Igreja,
Reino e salvação dos não-cristãos. A reflexão prossegue tratando sobre a Igreja e o
Reino:

A relação entre Igreja e Reino é misteriosa e complexa. Como o Vaticano II


ensina, ‘o Reino manifesta-se principalmente na própria pessoa de Cristo’. Mas
a Igreja, que recebeu do Senhor Jesus a missão de anunciar o Reino, ‘consitui
na terra o germe e o início’. Ao mesmo tempo, a Igreja, ‘no seu crescer lento,
aspira ao Reino perfeito’(LG 5). O Reino é inseparável da Igreja, porque ambos
são inseparáveis da pessoa e da obra de Jesus mesmo. Portanto não é
possível separar a Igreja do Reino, como se a primeira pertencesse
exclusivamente ao campo imperfeito da história, enquanto o segundo fosse o
perfeito cumprimento escatológico do plano divino de salvação. (34)

O liame que une Igreja e Reino é a pessoa de Jesus Cristo. Ele inaugura o
Reino e envia a Igreja a anunciar sua chegada: “Dizei ao povo: o Reino de Deus está
próximo de vós!” (Lc 10,9). Enquanto anuncia esta Boa Notícia e oferece a todos a
salvação em Cristo, a Igreja mesma se torna presença do Reino de Deus, cujos
germes tendem a crescer até a perfeição escatológica. De tal modo, que Igreja e
Reino se implicam mutuamente num único plano de salvação universal. Assim, todos
quantos recebem a graça salvífica - mesmo fora do cristianismo - participam
misteriosamente desse Reino, tendendo à comunidade-Igreja, como que ordenados a
ela em virtude do Cristo que ali se encontra como Redentor e Cabeça da nova
humanidade.
7

Neste sentido, o Documento diz:

Os membros das outras tradições religiosas são ordenados ou orientados


(ordinantur) para a Igreja, enquanto ela é o sacramento em que o Reino de
Deus está ‘misteriosamente’ presente, pois, na medida em que eles respondem
à chamada de Deus, sentida na sua consciência, são salvos em Jesus Cristo e,
por conseguinte, já compartilham, de qualquer modo, da realidade significada
pelo Reino. (35)

A graça atua nas consciências, suscitando o amor a Deus e a prática da


justiça. Responder positivamente a esta moção interior é aceitar implicitamente a
salvação. O texto é claro em reconhecer que tais sujeitos são salvos em Jesus Cristo,
mesmo não o sendo visivelmente na Igreja. Estando de fato “salvos”, ingressam
misteriosamente na realidade salvífica que o Reino expressa, ao lado dos cristãos que
ali ingressaram pelo batismo. Uns, participam do Reino num modo implícito e além da
visibilidade eclesial; outros, de modo explícito, na Igreja visível.

Esta verdade, contudo, não anula o dever de anunciar Jesus Cristo. Quando a
Igreja envia missionários e executa a evangelização, está possibilitando que também
os não-cristãos, já alcançados pela graça redentora, possam explicitar a salvação
recebida, à luz do evangelho de Cristo. O conhecimento de Cristo, por sua vez, pode
suscitar o livre ingresso dos sujeitos à Igreja, dando visibilidade àquela participação
efetuada na ordem da graça. Por isso a Igreja não esquece sua missão de “fazer
crescer ‘o Reino de nosso Senhor e do seu Cristo’(Ap 11,15), de que é serva”(35).

Em seu papel de serva do Reino, a Igreja toma consciência de duas


implicações. Primeiramente, “que a realidade incoativa deste Reino se pode encontrar
também para além dos confins da Igreja, por exemplo, nos corações dos seguidores
de outras tradições religiosas, na medida em que vivem valores evangélicos e
permanecem abertos à ação do Espírito”(35). Em segundo lugar, “que esta realidade
está, na verdade, no estado incoativo; ela encontrará o seu completamento no ser
ordenada para o Reino de Cristo já presente na Igreja, mas que só se realizará
plenamente no mundo que há de vir”(idem). Enquanto não atingir sua maturidade
escatológica, a Igreja reconhece o mistério da salvação que se estende a todos, além
de suas fronteiras visíveis. Ao mesmo tempo, esforça-se em proclamar abertamente o
Reino de Cristo, ao qual tendem todos os remidos, cristãos ou não.

Com esta reflexão, o Documento apresenta três destaques: assume uma


perpectiva soteriológica cristocêntrica; reafirma o ensino conciliar sobre o mistério do
Reino que ultrapassa a própria Igreja; e classifica os não-cristãos como “salvos em
Cristo, ...na medida em que vivem valores evangélicos e permanecem abertos à ação
do Espírito”(35).

g) “DIÁLOGO DE SALVAÇÃO”

O diálogo da Igreja com as sociedades, religiões e culturas é um convite


insistente do Vaticano II. O presente Documento segue a trilha do Concílio. Assume o
diálogo como quesito fundamental à evangelização e esclarece sua dinâmica na
relação da Igreja com outras religiões. Daí o horizonte missionário em que se move a
reflexão: missionário no amplo sentido de evangelização, onde se conjugam tanto o
anúncio de Cristo aos outros, como o diálogo entre cristãos e não-cristãos.

Já no início, lemos esta importante observação:


8

O anúncio e o diálogo, cada um no próprio âmbito, são ambos considerados


elementos componentes e formas autênticas da única missão evangelizadora
da Igreja. Ambos são orientados para a comunicação da verdade salvífica. (2)

Portanto, anunciar o Cristo é evangelizar, como dialogar desde a fé também o


é. Um não anula o outro. Juntos constituem a única e autêntica missão
evangelizadora. Tanto o anúncio como o diálogo se destinam a comunicar às pessoas
de todas as culturas e religiões, a salvação oferecida no Cristo Jesus. A missão da
Igreja comporta, ao mesmo tempo, um anúncio de salvação e um diálogo de salvação,
como salienta o papa João Paulo II: “O diálogo insere-se na missão salvífica da Igreja
e é por isto que é um diálogo de salvação”2.

Deus mesmo estabeleceu com a humanidade um colóquio de salvação, na voz


dos patriarcas e profetas, na voz das criaturas, ou ainda na intimidade das
consciências. Sua graça se oferece às pessoas de todas as culturas e religiões,
convidando-as à comunhão na vida divina. Daí que:

A razão fundamental do empenho da Igreja no diálogo não é meramente de


natureza antropológica, mas principalmente teológica. Deus, num diálogo que
dura ao longo dos tempos, ofereceu e continua a oferecer a salvação à
humanidade. Para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja deve, pois, entrar num
diálogo de salvação com todos. (38)

Isso faz do diálogo uma categoria teológica seriamente presente na missão da


Igreja. O diálogo desde a fé estende a todos aquele diálogo primordial de salvação
que o próprio Deus Trino iniciou, revelando-Se e oferecendo-Se à comunhão conosco.
Esta raiz teologal confere ao diálogo uma “qualidade salvífica”, sintetizada na
expressão diálogo de salvação. Desde Paulo VI - com a encíclica Ecclesiam Suam -
vinha se firmando esta intuição teológica (cf. ES 42-44). Quanto a isso, o Documento é
inequívoco: diálogo e anúncio são ítens constitutivos da evangelização. Eles
configuram de modo determinante a missão da Igreja, sobretudo no contexto inter-
religioso.

No caso específico do encontro com outras religiões, a Igreja não estabelece


um anúncio unilateral, mas dialógico, com o contato entre cristãos e não-cristãos em
vários níveis: nível da vida, com abertura, partilha e convivência fraterna; nível das
obras, com a promoção comum da paz e da libertação; nível dos intercâmbios
teológicos, conhecendo as heranças doutrinais e apreciando os valores espirituais uns
dos outros; enfim, nível da experiência religiosa, partilhando o patrimônio místico-
espiritual como a oração, a contemplação e a busca de Deus (cf. 42).

O anúncio do Cristo salvador, comum à catequese, ao culto e à pregação, se


explicita também nestes níveis de encontro inter-religioso. Isto acontece no ritmo da
convivialidade e da partilha espiritual. A dinâmica “dialogal” não enfraquece a força da
mensagem salvífica. Antes a reforça, com um “método de presença, de respeito e de
amor para com todos os homens”(39). Esta postura fraterna constitui verdadeiro
testemunho evangélico, alicerçado da caridade. É neste sentido que diálogo e anúncio
se interagem numa mesma oferta de salvação, tornando o missionário mais atento aos
meios e oportunidades de testemunhar a Jesus Cristo.

2
JOÃO PAULO II: Insegnamenti, vol. VII, 1, 1984, p 595-599, apud Documento Diálogo e Anúncio, 39.
9

h) A DIACONIA DO ESPÍRITO

O diálogo inter-religioso se inscreve na obra redentora. Além de oferecer


espaços de testemunho fraterno, o diálogo possibilita o discernimento de sinais
salvíficos. Nele se explicita melhor a salvação já em curso nas religiões, quer em seu
patrimônio ético e religioso, quer na vida concreta de seus seguidores. Neste sentido,
o cristão comprometido no diálogo exerce o que poderíamos chamar de diaconia do
Espírito:

Neste diálogo de salvação, os cristãos e os outros são chamados a colaborar


com o Espírito do Senhor Ressuscitado, Espírito que está presente e opera
universalmente. (40)

Os sujeitos em diálogo mergulham numa percepção mais aprofundada dos


apelos do Deus salvador, no âmbito de suas respectivas experiências religiosas:

O diálogo inter-religioso não tende simplesmente para uma compreensão


mútua e para relações amistosas. Atinge um nível muito mais profundo, que é
o do espírito, onde o intercâmbio e a compartilha constituem num testemunho
mútuo do próprio credo e numa descoberta comum das respectivas convicções
religiosas. Mediante o diálogo, os cristãos e os outros são convidados a
aprofundar o seu empenho religioso e a responder, com crescente sinceridade,
ao apelo pessoal de Deus e ao dom gratuito que Ele faz de Si mesmo, dom
que passa sempre, como proclama a nossa fé, através da mediação de Jesus
Cristo e da obra do seu Espírito. (idem)

A mencionada diaconia do Espírito se sustenta, portanto, na convicção de que


a obra redentora já se opera nos corações, além das fronteiras cristãs. No diálogo
inter-religioso os cristãos “descobrirão as sementes do Verbo nos corações das
pessoas e nas tradições religiosas a que pertencem” e “poderão discernir os valores
positivos” da busca humana de Deus (82). Perceber estes valores e sinais da graça é
estar atentos ao “apelo pessoal de Deus”(40). E toda resposta positiva constitui um
sim ao dom divino da redenção.

Com esta reflexão, o Documento esclarece como o diálogo se ordena à


salvação: educando o discernimento, possibilitando o reconhecimento da graça,
convidando os crentes à sincera resposta religiosa. O diálogo está definitivamente
inscrito no movimento da redenção universal. Inserir-se nele com sinceridade e
empenho é permitir-se experimentar a verdade salvífica.

i) JESUS CRISTO: MISTÉRIO E ANÚNCIO DE SALVAÇÃO

De forma igualmente vigorosa, o mesmo diálogo que nos aproxima dos não-
cristãos nos impele ao conhecimento autêntico do Cristo redentor:

Isto não significa que, ao entrar em diálogo, se devam pôr de parte as próprias
convicções religiosas. É verdade o contrário: a sinceridade do diálogo inter-
religioso exige que se entre nele com a integralidade da própria fé”(48). (...) “Os
cristãos empenhados no diálogo têm portanto o dever de responder às
expectativas dos seus parceiros sobre os conteúdos da fé cristã, e dar
testemunho desta fé quando são chamados a fazê-lo, de dar a razão da
esperança que está neles (cf. 1Pd 3,15). Para poderem fazê-lo, os cristãos
devem aprofundar a sua fé, purificar os seus comportamentos, escalrecer a
sua linguagem, tornar o seu culto cada vez mais autêntico. (82)
10

O fruto desta solicitude evangélica é uma proclamação mais eficaz da pessoa


de Jesus, alicerçada na transparência da vida cristã. O diálogo inter-religioso pede
convivência fraterna e testemunho coerente do Cristo. É através desde canal dialógico
que o Documento faz passar sua postura soteriológica cristocêntrica. Todo empenho
de diálogo é também empenho de testemunho. E o testemunho tende a explicitar-se
no anúncio claro do Nome de Jesus. Sem ofender outras tradições, sem desqualificá-
las, sem negá-las (cf. 81). Mas sim porque se crê que o mesmo Senhor já lhes
comunicou sementes de salvação. Esta postura cristocêntrica permite uma justa
abertura às outras religiões. Assim, a proclamação de Cristo tem um lugar no próprio
diálogo.

Esta soteriologia centrada em Jesus aparece muitas vezes no Documento:


tratando da missão universal do Filho de Deus (cf. 21), da manifestação do Reino em
sua pessoa (cf. 22), ou do único mistério da redenção para todos os povos (cf. 29). Em
Jesus se revela de modo pleno o mistério de salvação que o Pai decretou a todas as
gentes (cf. 55-57). Esta postura inclusivista é elaborada no Documento com dois
pólos: o mistério e a proclamação da salvação em Cristo.

Enquanto mistério, a redenção em Cristo já atua nas religiões e seus


seguidores, além da Igreja, através dos “germes” de salvação (24) ali depositados e
regados pelo Espírito Santo:

(No verdadeiro diálogo) A sua fé (dos cristãos) abrir-se-á a novas dimensões,


ao mesmo tempo que descobrem a presença operante do mistério de Jesus
Cristo para além dos confins visíveis da Igreja e do rebanho cristão. (50)

Enquanto proclamação, o Nome de Jesus deve ser testemunhado sempre por


todos os cristãos, numa relação de fraternidade e respeito com adeptos de outras
religiões. O anúncio coopera para a salvação, não só porque dá a conhecer o
evangelho, mas porque explicita à luz de Cristo a salvação que está misteriosamente
presente. Daí o convite à proclamação permanente do Senhor:

Por outro lado, o anúncio tende a conduzir as pessoas para um conhecimento


explícito daquilo que Deus fez por todos, homens e mulheres, em Jesus Cristo,
e a convidá-los a serem discípulos de Jesus, tornando-se membros da Igreja.
(81)

Os dois pólos se equilibram numa concepção soteriológica inclusiva, que


permite ao Documento inserir os crentes de diferentes religiões num único plano
salvífico, centralizado em Jesus Cristo:

Em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, nós temos a plenitude da


revelação e da salvação, e o cumprimento dos desejos das nações (22). (...)
Todos os homens e todas as mulheres que são salvos, participam, embora de
modo diferente, do mesmo mistério da salvação em Jesus Cristo, mediante o
seu Espírito (29). (...Jesus) traz a salvação ao mundo inteiro (86).

2. OBSERVAÇÕES FINAIS

O Documento Diálogo e Anúncio segue o caminho aberto pelo Concílio


Vaticano II. Relê o ensino conciliar, agrega outros pronunciamentos - especialmente
Evangelii Nuntiandi e Redemptoris Missio - e avança ainda mais na avaliação
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teológica das religiões e na proposta de um autêntico diálogo inter-religioso (cf. 7, 9 e


toda a Parte I).

Além disso, a reflexão amplia a perspectiva pneumatológica e soteriológica:


reafirma a centralidade de Cristo, no qual “temos a plenitude da revelação e da
salvação”(22, tb. 21, 28, 67); expõe com clareza a teologia das semina Verbi (=
sementes do Verbo: cf. 24-25); conjuga anúncio de Cristo e diálogo respeitoso “com
pessoas e comunidades de outros credos”(9, tb. 10, 14); tematiza a “ação universal do
Espírito”(17, tb. 40, 60, 64) que associa os não-cristãos ao mistério pascal (cf. 15, 68);
fala da vontade salvífica de Deus e reforça a convicção cristã de “que há uma só
história de salvação para a humanidade inteira”(19, tb. 20, 25, 28, 29).

A Igreja é definida como “sinal e instrumento do plano divino de salvação”(33),


“serva” do Reino de Cristo (35) e comunidade comprometida com o diálogo entre
todos os crentes (cf. 4b, 9, 39, 42, 49). Tanto diálogo como anúncio têm igual valor.
“Ambos são orientados para a comunicação da verdade salvífica”(2) e constituem
“elementos autênticos, legítimos e necessários” da missão da Igreja (77).

O texto aprecia positivamente as religiões, reconhecendo nelas “germes


lançados pela Palavra de Deus”(24), a influência do mistério pascal (cf. 15, 25), “um
raio daquela Verdade ilumina todos os homens”(16), “bens espirituais e morais, assim
como valores sócio-culturais”(17).

A toda a humanidade se estende o Reino de Deus, cuja realidade ultrapassa os


confins da Igreja, embora nela ele esteja “misteriosamente presente”(35). A salvação
ocorre além da pertença à comunidade eclesial e do conhecimento expresso do
evangelho (cf. 29, 68). Dessa universalidade salvífica são sinais o bem praticado pelos
não-cristãos (cf. 29), a vivência de “valores religiosos”(68) e as expressões de “oração
autêntica”(27).

Pois Deus iniciou com a humanidade inteira um “diálogo de salvação”(39),


manifesto em muitas vozes e sinais: “os ditames da consciência”(29), os patriarcas de
Israel (cf. 19), a fé de “Abel, Enoch e Noé”, que não pertenciam ao Povo eleito (idem),
os filósofos antigos (cf. 25), o bem presente “nos ritos próprios e culturas dos
povos”(16), os “valores positivos na vida religiosa de cada crente das outras
tradições”(17), a vida sincera e inspirada de muitos mestres não-cristãos (cf. 30).

Em cada um desses sinais contemplamos a presença do Verbo, por quem o


Pai comunica universalmente a salvação, na força do Espírito Santo (cf. 50). Este
diálogo salutar alcança toda a humanidade e se concretiza plenamente em Jesus
Cristo, Palavra definitiva de Deus (cf. Hb 1,1-2).

Portanto, a salvação acontece de fato nas religiões, pela “presença operante


do mistério de Jesus Cristo para além dos confins visíveis da Igreja e do rebanho
cristão”(50). As religiões não estão fora do horizonte salvífico, mas inseridas no plano
de Deus. Embora nem tudo nelas seja igualmente santo e verdadeiro, elas
“desempenham um papel providencial na economia divina da salvação”(17).

OBS. Os números entre parênteses, quando não são citações bíblicas,


indicam o parágrafo do Documento “Diálogo e anúncio”.