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A FILOSOFIA E A DEMOCRACIA

A Filosofia surgiu em ambiente democrático e desenvolveu-se graças

à Democracia. Mas também a Democracia deve o seu sucesso político e a sua aceitação

generalizada nas mentalidades ocidentais ao imenso, sistemático e continuado esforço

da reflexão filosófica.

A Democracia está intrinsecamente ligada à liberdade, seja ela de pensamento,

de expressão ou de acção. E, embora as Democracias ocidentais ainda tenham muito

que caminhar para que os cidadãos sintam que, de facto, os seus direitos são

considerados na organização da vida social e política das comunidades humanas a que

pertencem, é comummente aceite a ideia de que existe a probabilidade de haver um

maior respeito pelos direitos individuais nos regimes democráticos. Mas a liberdade

implica conhecimento. Quanto maior o conhecimento, maior a liberdade.

Os filósofos foram e são, por definição, os amigos da sabedoria. São os amigos

de uma forma ética, livre, de potenciar o conhecimento adquirido pela humanidade. A

Filosofia pode considerar-se, assim, a “mãe” da Democracia por muitas razões. Dentre

elas o facto de terem sido os filósofos aqueles que melhor souberam criticar as práticas
pessoais e colectivas que atentavam contra a dignidade da pessoa, denunciar injustiças

silenciosas, questionar as concepções de direito, justiça e pessoa existentes nas

sociedades em que a escravatura era a base da economia e propor novas formas de

organização social e política que deram origem a regimes políticos gradualmente mais

capazes de contemplar os direitos humanos como base da lei e do Estado de Direito.

Infelizmente, em Portugal não existe uma consciência suficientemente apurada

do papel e da necessidade de se desenvolver uma atitude filosófica generalizada a todos

os âmbitos da vida humana. Penso que isso se deve principalmente ao facto de não ser

culturalmente difundido o amor pelo conhecimento. O modo de olharmos para o

conhecimento tem em vista a sua feição utilitária: conseguir alguma vantagem social ou

económica. Deste modo, a própria escola tem dificuldade em encontrar o seu sentido e a

aprendizagem não é um real interesse social.

Instalado um clima de suspeita sobre todas as instituições e práticas e uma visão

uniforme essencialmente relativista, estamos a perder o sentido do belo, do verdadeiro e

do ético, pois tudo parece insensato e não valer mais a pena. Tal clima não garante que

haja maior liberdade e qualidade de pensamento e reflexão. Pelo contrário, considera-se

inútil o esforço de desenvolvimento dessas competências e deseja-se outra coisa, que

também não se sabe muito bem o que é.

A escola deveria ter aqui um papel importante, primando pela diferença,

vencendo a indiferença, a ignorância e a falta de sensibilidade, mas o contexto que

temos é extremamente útil a todos os que pretendem que os cidadãos tenham cada vez

menos competência para pensar por si mesmos e, portanto, menos liberdade e menos

democracia. Assim, poder-se-ia dizer que as democracias possuem inimigos poderosos,

ligados a grandes poderes económicos e ideológicos. Como poderemos, nós, lutar

contra tão fortes influências?


Da nossa resistência dependem a liberdade e a democracia. A Filosofia ensina-

nos a ter a coragem de remar contra a maré da indiferença, da injustiça e da ignorância.

As aulas de Filosofia deveriam ser esse espaço privilegiado de construção de um

pensamento informado e honesto que busca da verdade, onde quer que ela possa

encontrar-se. Fica a intenção e o anseio sempre insatisfeito de quem não tem apetência

para se conformar.

Helena Castro

Será que esta a ideia que temos da nossa Democracia?