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Nova lei do solo. Como fazer? Que fazer?

1- Introdução

Em Novembro de 2007, o então secretário de estado do


ordenamento do território e das cidades, anunciou que o Governo
iria rever, em 2008, a Lei dos Solos, tarefa que classificou como
"complexa e polémica", dizendo ainda, que “a mudança da lei era
uma das três prioridades da agenda do Governo”.

Para aquele governante alterar a presente lei seria de “ enorme


complexidade e nenhum Governo teve a coragem de abrir a caixa
de Pandora".

Estas declarações públicas foram produzidas na presença de


jornalistas, no final de um seminário sobre as alterações ao
Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial que
estavam então em curso, realizado na Casa das Artes de Vila Nova
de Famalicão. Nessas declarações o governante referiu que a
actual lei (datada de 1976) "foi feita num contexto ideológico e
social completamente distinto e muitos instrumentos que prevê
nem sequer foram utilizados" e, assegurou então, "a lei não deve
ser imposta e o Governo está a preparar um documento
estratégico que irá lançar no primeiro trimestre de 2008, para que
possa haver um debate público".

Hoje, mais de três anos passados, compreende-se bem a


mencionada “complexidade e polémica” subjacente à elaboração e
aprovação de uma NLS – Nova Lei do Solo e, por outro lado, poderá
concluir-se que o governante terá sido arrastado por um certo
voluntarismo idealista porventura fruto do seu perfil de académico,
de passagem pelas lides políticas.

Tenha-se em conta que, em Agosto de 2008, o mesmo secretário


de estado já se apresentava mais contido, dizendo que se tratava
de uma questão “complicadíssima”, e que tinha dúvidas sobre a
efectiva necessidade de uma nova lei, considerando que “poderão
bastar uma clarificação e uma actualização de alguns regimes
jurídicos específicos”. O que teria mudado para, a mesma pessoa
que um ano antes parecia plena de certezas, ter agora dúvidas
excruciantes?

Aliás, registe-se, no Programa do XVII Governo Constitucional


2005-2009 nem constava qualquer alusão a tão ciclópica tarefa,
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pelo que não se compreende bem o rasgo do secretário de estado,
sabendo-se, à partida, que se tratava de um assunto que teria que
chegar à Assembleia da República depois de complicado trabalho
técnico e de delicadas negociações políticas.

Mais recentemente, num seminário realizado no LNEC, em 27 de


Setembro de 2010, acerca da designada Nova Lei do Solo, a ministra
do ambiente e ordenamento do território, comprometeu-se em enviar
para a AR até meados do corrente ano um projecto de Lei com aquele
desígnio, e que, ainda antes, haveria lugar a um “amplo debate”.

No Programa do XVIII Governo Constitucional consta, efectivamente,


uma clara referência a este importante assunto, dizendo-se que uma
“Especial atenção será dada à política de solos, através da aprovação
de uma nova lei dos solos, que clarifique e regule os direitos e
deveres da administração pública e dos cidadãos, em especial dos
proprietários e dos outros agentes que intervêm na ocupação, uso e
transformação do solo, designadamente para fins produtivos, de
urbanização e de edificação. Em particular, a nova lei dos solos
deverá clarificar as relações entre o direito de propriedade e o direito
(e dever) de edificar, bem como entre o direito de edificar e uma
repartição transparente, eficiente e justa dos custos de urbanização e
das mais-valias resultantes dos processos de infra-estruturação,
urbanização e edificação. Uma nova política de solos deverá, ainda,
procurar conciliar os objectivos de salvaguarda do solo vivo como
recurso ambiental e produtivo, escasso e não renovável com a oferta
do solo urbano necessário ao desenvolvimento económico e social”.

A ministra expôs, no referido seminário, as razões que motivam o


governo a proceder à elaboração de um novo diploma sobre esta
questão vital, e explanou quais são os principais objectivos que se
propõe alcançar.

Assim, referiu que “ é clara e consensual a manifesta desadequação


da lei vigente, que conta já com três décadas e meia de aplicação” e,
por isso, não atende às “ profundas mudanças entretanto ocorridas
na sociedade portuguesa e nos contextos europeu e internacional”
que envolvem significativas “alterações na organização do nosso
território”.

É por isso necessário, disse, “ um novo instrumento jurídico que


corporize uma nova política de solo”. Os objectivos que formulou para
a nova lei são os seguintes:

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- Que melhor se prossiga e alcance a salvaguarda das funções
ambientais, ecológicas e produtivas do solo;

- Que contenha a expansão urbana e a urbanização desordenadas e


promova a reabilitação e revitalização urbanas;

- Que garanta a justa distribuição das mais-valias resultantes quer


das decisões de planeamento territorial quer da realização de obras
públicas;

- Que evite a retenção dos solos com fins especulativos;

- Que assegure a participação dos privados nos processos de


transformação fundiária em condições de concorrência, transparência
e publicidade.

A ministra referiu que o desafio que se propôs contém “uma


indissociável dimensão política e ideológica” e, ainda, que “ devido à
natureza estruturante da política do solo e da própria nova lei é
fundamental um amplo debate de ideias e o contributo de todos”.

Ou seja, o processo que conduzirá a um enquadramento jurídico


diferente da política do solo parece estar lançado e, por isso, é
importante intervir técnica e politicamente para tentar que o produto
final esteja o mais perto possível daquilo que são os interesses
colectivos e os valores da sustentabilidade económica, social e
ambiental.

Uma das questões essenciais que, desde já, se coloca tem que ver
com a afirmação da ministra, quando diz que o processo que
conduzirá a uma “nova lei” tem “uma indissociável dimensão política
e ideológica”. Se assim é, e nisso estamos de acordo, haverá uma
questão de partida que é a de saber a quem (que interesses) vai
servir prioritariamente a “nova lei”. E, por isso, se não se trata de
uma questão apenas técnica e jurídica, então, coloca-se a
necessidade de saber com quem conta o governo na Assembleia da
República para aprovar a “nova lei”? Irá tentar aprová-la à direita ou
à esquerda, no referencial tradicional de divisão do hemiciclo
parlamentar ?

É que seria uma ilusão supor que a elaboração e aprovação de uma


lei com valor reforçado – uma lei de bases do solo parece ser a forma
mais indicada de articular, com eficiência e eficácia, os domínios
envolvidos, ou seja, o Ordenamento do Território e Urbanismo, e o
regime jurídico dos Solos – num campo que envolve ancestrais e
contraditórios interesses, privados e públicos, possa ser aprovada
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consensualmente como foi, por exemplo, a lei de bases do ambiente.
Só se a nova lei não tomasse posição sobre nada de essencial.

Conhecem-se, para já, alguns textos e pareceres já realizados desde


2007por especialistas credenciados, sabe-se, ainda, que reconhecidos
técnicos e académicos estão envolvidos nos grupos de trabalhos e,
finalmente, conhecem-se declarações políticas relevantes no sentido
de que se pretenderia combater a especulação montada sobre o
solo, redistribuir as mais-valias, estimular a reabilitação das
cidades em detrimento da construção extensiva. Tudo isto é
importante e positivo.

Porém, apesar do que é público, há aspectos que não estão ainda


muito claros ou são discutíveis.

A metodologia com que se pretende implementar o processo parece


ser, mais uma vez, idealista, não se conhecendo, de facto, o sentido
concreto em que se irá avançar.

2- Dia gnóstico

Uma lei, qualquer que seja a sua relevância, é apenas um


instrumento jurídico através do qual se visa concretizar determinados
objectivos de natureza política social, económica, cultural e
ambiental.

Normalmente, a produção de um novo diploma legal não significa,


por si só, a garantia de que se atinjam os objectivos traçados, por
mais justos que sejam, e por mais pertinentes que se revelem os
textos introdutórios ao corpo de artigos legais.

Sabe-se que na lei do solo ainda em vigor constava, entre os seus


objectivos centrais, a “preocupação de dotar a Administração de
instrumentos eficazes para, por um lado, evitar a especulação
imobiliária e, por outro lado, permitir a rápida solução do problema
habitacional, na sequência dos novos dispositivos constitucionais”.
Uma parte destas preocupações é datada, mas, a outra, a que diz
respeito à especulação, mantém a sua inteira validade.

Contudo, é necessário recordar, o resultado da lei foi quase nulo. Isto


é, houve, durante os últimos trinta e cinco anos, muita especulação
imobiliária e financeira, não se redistribuíram socialmente as mais-
valias, produziram-se demasiados edifícios habitacionais, dispersou-
se o edificado, a qualidade das infra-estruturas é apenas sofrível e,

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dos pontos de vista ambiental, energético e agrícola, as aberrações
são bastante notórias.

Por isso, antes de nos embrenharmos num qualquer tricot jurídico,


haverá que elencar o que está mal na política de solos portuguesa e,
como consequência, definir que novos e diferentes objectivos se
pretendem alcançar, que corrijam os problemas diagnosticados. Seria
interessante que, já numa fase prévia – onde se supõe encontrarmo-
nos - houvesse lugar ao tal “amplo debate” técnico, nas suas diversas
valências, e político, envolvendo os partidos políticos com assento
parlamentar e associações de diverso cariz.

Depois de estabelecidos os entendimentos e consensos possíveis, nos


planos técnico e político, acerca dos objectivos centrais – e neste caso
eles não serão fáceis consensualizar porque o status quo tem muita
força –, é que se passaria à abordagem do modus operandi, isto é,
que diplomas legais teriam que ser alterados, quais deveriam ser
elaborados de raiz, como e quando se deveria fazê-lo.

Deduz-se, então, por aquilo que acima se registou, que não se crê
viável alterar a política do solo num sentido favorável aos valores
sociais, ambientais e económicos progressistas, mexendo apenas na
lei do solo vigente, mesmo que se tratasse de elaborar uma “nova
lei”.

De facto, basta conhecer o conteúdo de diversos diplomas legais,


como os que enquadram o ordenamento e a gestão e planeamento
territoriais, e, sobretudo, ter uma sensibilidade construída com base
na experiência factual, para saber que não é alterando apenas a lei
hoje vigente (DL 784/76, de 5 de Novembro, com as alterações
introduzidas pelo DL 313/80, primeiro, e DL 400/84, depois) que se
conseguirão atingir os objectivos pretendidos pelo governo, que, na
sua aparência global, até parecem ser justos e aceitáveis.

Da análise daqueles diplomas, e tendo em conta o resultado


depositado no território nacional - que conhecemos muito bem, de
uma forma quantitativa e qualitativa - resulta evidente que, para
diagnosticar e corrigir a "política de solos" praticada no nosso país,
não é suficiente interagir com aquilo que, num ponto de vista restrito
e convencional, se designa por "Lei do Solo", revogando o DL 784/76,
de 5 de Novembro, e aprovando uma “nova lei do solo”.

A actual lei do solo caracteriza-se, de acordo com o que atrás se


referiu, pelos seguintes aspectos centrais:

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I- Desactualização e desarticulação em face do enquadramento
normativo vigente, nomeadamente resultante das reformas
do RJIGT;
II- Défice de regulação no sentido de acautelar os interesses
públicos e corrigir as evidentes insuficientes do livre
funcionamento do mercado imobiliário-financeiro;
III- Défice de concretização dos institutos já previstos na lei por
razões que ultrapassam o diploma em concreto.

Portanto, no mínimo, haveria que rectificar esta situação.

O direito dos solos trata, como se sabe, do estatuto jurídico dos


solos. Por outro lado, a Constituição estabelece que “as regras de
ocupação, uso e transformação dos solos urbanos” são definidas
“designadamente através de instrumentos de planeamento, no
quadro das leis respeitantes ao ordenamento do território e ao
urbanismo”. Face a estas evidências, seria de esperar a existência de
uma complementaridade e interconexão entre os respectivos regimes
legais. O que não acontece. A falta de articulação entre a Lei dos
Solos e os regimes relativos ao ordenamento do território e do
urbanismo é visível, muito em particular no que respeita à execução
dos planos, nomeadamente quanto à concretização das cedências e
compensações no âmbito das operações de loteamento ou
equivalentes.

Sabe-se, como mero exemplo, que o RJIGT - Regime Jurídico dos


Instrumentos de Gestão Territorial, na sua versão actual, e no que diz
respeito à execução de planeamento territorial, consagra sistemas de
execução e mecanismos de perequação compensatória, que
permitiriam teoricamente ultrapassar o problema da retenção dos
solos com fins especulativos e promover a sua disponibilização para
fins públicos.

Contudo, na prática, tais desejos esbarram na total desarticulação


entre os diferentes diplomas que intervêm nesta matéria,
nomeadamente o RJIGT, o Código das Expropriações, o Código sobre
o Imposto Municipal sobre Imóveis, a legislação reguladora de taxas
urbanísticas, para além da muita legislação avulsa com quase nula
aplicabilidade efectiva, como seja aquela que se refere à associação
de Administração com os particulares, às ADUP- Áreas de
desenvolvimento urbano prioritário e às ACP- Áreas de construção
prioritária.

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Esta desarticulação entre diplomas jurídicos, conhecida desde há
muito, conduz a práticas aberrantes na determinação do valor dos
prédios, implicando, por exemplo, que o valor de um prédio pelo
Código de Expropriações possa ser radicalmente diferente daquele
determinado em função dos mecanismos de perequação resultantes
do planeamento e, por maioria de razão, do valor estabelecido para
efeitos fiscais.

Falta, portanto, unidade e coerência no edifício legal respeitante à


problemática do solo. Ora, não se poderá corrigir esta situação
alterando apenas um diploma.

Se uma lei do solo cuida em especial do regime jurídico do solo, não


podemos esquecer que o regime específico de cada tipo ou categoria
de solos encontra-se previsto em diversos diplomas (RAN, REN,
Florestas, Áreas Protegidas, etc.,) de uma forma desconexa. É
equivalente a situação quanto as questões relacionadas com a
reabilitação e regeneração dos núcleos urbanos centrais que se
encontram degradados e disfuncionais.

Importante, será também a interligação da matéria que aqui se trata


com a política agrícola, porque é inegável a sua influência sobre a
transformação e o uso dos solos enquanto meios de produção, bem
como sobre o redimensionamento da propriedade.

A CRP – Constituição da República Portuguesa estabelece (art.º 93)


como objectivos da política agrícola “a racionalização das estruturas
fundiárias” e “o acesso à propriedade ou à posse da terra (…) por
parte daqueles que a trabalham”, bem como a garantia do “uso e a
gestão racionais dos solos (…), bem como a manutenção da sua
capacidade de regeneração”. E muitas outras coisas que não se irão
agora abordar. Isto será, no entanto, suficiente para sustentar a tese
de que não é aconselhável alterar a lei do solo sem considerar a
vertente agrícola.

É interessante e sintomático que tenhamos estado cerca de trinta e


cinco anos sem que os poderes, executivo e legislativo, se tenham
preocupado em regular aspectos importantes do direito dos solos,
tais como a definição clara do estatuto jurídico dos solos (públicos ou
privados) ou a determinação dos direitos e deveres dos proprietários
dos solos, nem em dotar a administração pública com mecanismos
eficazes para a necessária intervenção no mercado fundiário. De
facto, não obstante a bondade de muitos dos intróitos dos diplomas
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legais, as entidades administrativas, principalmente ao nível local,
não foram dotadas de meios eficazes para concretizar uma política
pública de solos

Este imobilismo político aconteceu, porém, ao mesmo tempo que,


com muito enlevo, se foi mexendo e remexendo na legislação sobre
ordenamento, planeamento, edificação e ambiente!

Por exemplo: a CRP prevê até (art.º 88º), a possibilidade de haver um


regime jurídico especial aplicável aos meios de produção em
abandono, onde se inclui os diversos tipos de solos e de imóveis, o
que permitirá, supõe-se, a aprovação de um regime específico para a
expropriação desses bens, bem como a possibilidade de imposição de
arrendamento ou concessão da exploração, compulsivos.

Por outro lado, não se pode olvidar que existe um crescente consenso
de que uma política coerente de solos deve preocupar-se não só com
a disponibilidade dos solos e com a expansão urbana, mas,
principalmente, com o controlo dessa expansão e o incentivo à
reabilitação, à requalificação e à reconstrução.

3- Como fazer?

Daquilo que se deixou registado resulta que, para além do Regime


Geral (Lei dos Solos), têm um forte impacte directo numa Política de
Solos, embora com extensões e intensidades diversas, os seguintes
diplomas legais e “políticas”:

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- Regime Geral das Expropriações;
- Legislação relativa a Infra-estruturas previstas no PEAASAR II e
PERSU II;
- Legislação de enquadramento do Programa Polis;
-Legislação AUGI;
- Legislação sobre a Reabilitação Urbana;
- A legislação dos PIN;
- Determinados aspectos do RJIGT;
- Regulamentação do direito de preferência da Administração nas
alienações, a título oneroso, de terrenos ou edifícios previsto na lei;
- Legislação sobre servidões administrativas;
- Todo o enquadramento fiscal do imobiliário e solos; Códigos IMI, IRS
e IRC
- A política agrícola;
- A política florestal;
- Os referenciais, políticos, legais e económicos, que regulam as
finanças e competências públicas centrais e locais.
- E, finalmente, como seria lógico, a própria CRP.

Assim, estes diplomas legais, assim como diversas estratégias e


políticas vigentes, deveriam ser alteradas, de uma forma articulada e
coerente, para conseguir atingir os objectivos pretendidos para a
nova política de solos. Ora isto é, convenhamos, complexo.

Não é intenção deste texto complicar aquilo que já de si não é fácil, e


tem-se como certo que, se forem corrigidos alguns aspectos
obsoletos, como as desarticulações inter-diplomas, patentes com a
actual lei do solo, já não será mau. Mas, pergunta-se, não seria mais
útil e correcto considerar, desde já, que o processo vai implicar mais
tempo e esforço do que aqueles que têm transparecido dos discursos
oficiais, alimentando ilusões a diversos tipos de públicos? Parece que
sim porque, para ineficiência e ineficácia, já basta aquela que temos
tido e tanto prejuízo tem causado.

E, porque se referiram as complicações, começar por uma, bem


grande: aquela que se relaciona com a determinação dos direitos e
deveres dos proprietários dos solos, que, sendo uma questão jurídica
e ideológica central, que ainda hoje determina acalorados debates, e
não estará completamente encerrada (se algum dia estará). E isto
porque se torna incontornável atender à aparente hesitação
doutrinária que o próprio Tribunal Constitucional parece evidenciar
nos últimos tempos – veja-se o Acórdão n.º 329/99, cujas conclusões
foram ulteriormente seguidas pelos Acórdãos n.º 571/99, 602/99 e
544/01, em tudo contrários a outros, anteriores, que se referiam ao
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jus aedificandi como “a velha concepção clássica da propriedade
individualista e liberal”. Por tudo isto, parece ser aconselhável que,
em artigo adequado da CRP, se esclareça, por uma vez, que o direito
de propriedade não comporta, automaticamente, o jus aedificandi,
esclarecimento que, aliás, já acontece em alguns países europeus,
como, por exemplo, em Espanha.

Para se alterar a situação que vigora entre nós no domínio da política


do solo, e com particular envolvimento com o ordenamento e
urbanismo, desde 1965, há que perceber, com rigor, por que motivos
de diferente jaez, nunca foi feito um esforço sério nesse sentido, nem
sequer no período pós-25 de Abril. Porque se, de facto, o DL 784/76,
contem uma marca, que alguns dirão ser inspirada numa visão
estatizante e intervencionista da Administração no âmbito da política
dos solos, própria da época em que foi aprovada, também não é
menos verdade que este diploma legal veio trazer um
enquadramento muito negativo para as autarquias locais, impedindo-
as, e também ao estado, de promoverem directamente o solo
urbanizado.

A quase não utilização, por parte da Administração Central e Local,


dos instrumentos estabelecidos pela lei dos solos em vigor assenta,
para além da já mencionada desarticulação legislativa entre os
diplomas aplicáveis (Código de Expropriações, Código IMI, IRS, IRC,
RJIGT, RJUE, etc.,), agravada pelas lacunas da legislação conexa,
numa muito prolongada falta de “vontade política” em utilizá-los, a
que não será estranha a crónica Incapacidade financeira,
principalmente dos municípios, muito agravada, aliás, no período
mais recente, desde meados dos anos noventa, em que eles
adquiriram, paradoxalmente, uma maior consciência da importância
das políticas de solos voluntaristas.

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4- Que fazer?

O governo já explicitou quais são os principais objectivos de política


de solos que pretende atingir através da reforma em curso.

Numa perspectiva social e política progressista, e nesta matéria não


há como fugir à questão ideológica, embora haja por vezes quem se
esconda por trás do biombo da técnica jurídica e da normalização
europeia, não será naquilo que foi já anunciado pelo governo que as
principais divergências políticas surgirão à esquerda. O problema está
em saber como se concretizarão, de facto, os desígnios publicitados
no corpo dos diversos diplomas legais que deverão ser alterados e
elaborados de novo. Ora isso vai ter, num parlamento em que o
partido do governo é minoritário, uma discussão intensa e uma
negociação rasgada, porque a direita, esteja ela onde estiver, não
dorme quando este tipo de assuntos vem à liça.

É que não parece estar garantido que, numa matéria como é a que
estamos a analisar, onde os interesses económicos e financeiros são
tão candentes, principalmente numa sociedade que tendeu, durante
muitas décadas, a confundir propriedade do solo com direito de
edificar e/ou especular a qualquer preço, que o grupo parlamentar
que apoia o governo saiba e queira, quando as coisas aquecerem,
contrariar as visões que caracterizam as opções que privilegiam os
interesses particulares em detrimentos dos interesses gerais e
colectivos.

É, por isso, importante consolidar quais são objectivos centrais que


devem estar subjacente à nova política de solos e que devem
traduzir-se num elenco de medidas posteriormente cristalizáveis no
corpo de diferentes diplomas.

De uma forma, para já, muito generalista, propõem-se como pontos-


chave os seguintes:

a) Incluir na CRP um ponto em que se esclareça, sem margem


para dúvidas, que o direito de propriedade, neste caso do solo,
não atribui o direito à edificação ou/ infra-estruturação;
b) Elaborar e aprovar na AR de uma nova lei de bases do solo, com
valor reforçado que, revogando o decreto-lei 784/76, se
constitua numa lei, com suficiente densidade regulatória, onde
se estabeleçam não apenas os grandes princípios que devem
reger o direito dos solos e assegure a articulação entre as suas
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componentes, mas, também, determinados aspectos que,
desde logo, parametrizassem e orientassem a execução da
política de solos (esclarecer que a hipótese de elaborar um
Código de todo o direito dos solos, que pareceria preferível
numa perspectiva mais radical, talvez não seja de realização
exequível num prazo de dois ou três anos, devido ao rigor e
grande extensão com que teria que ser elaborada e, ainda,
devido à estabilidade política que não está garantida à partida
em tal período).
Nessa lei de solos, e em diplomas legais conexos, abordar-se-
iam os seguintes tópicos:
I- A questão do direito de propriedade do solo, os deveres
dos proprietários e os direitos de intervenção por parte da
administração pública central, regional e local;
II- Um regime geral das expropriações que seja eficaz do
ponto de vista da salvaguarda dos interesses gerais e dos
valores ambientais, sociais e culturais, sem prejuízo de
legítimos interesses dos particulares quando na qualidade
de proprietários imobiliários
III- As bases do estatuto do solo enquanto bem ambiental e
como factor de produção, vitais para a sustentabilidade
colectiva;
IV- A capacidade da administração poder intervir
directamente nos mercados do solo e do edificado
habitacional com o objectivo de os regular in situ, muito
em particular através da capacidade de arrendamento
habitacional a preço controlado;
V- A regulação dos meios e formas de nacionalização e
privatização dos solos, que permitam uma intervenção
atempada e eficaz designadamente para criação de
bolsas de terrenos públicos estratégicos e, por outro lado,
que assegurem a segurança dos valores legítimos de
propriedade;
VI- Um regime dos meios de produção integrados no sector
cooperativo e social de propriedade;
VII- As bases do estatuto do solo enquanto instrumento do
ordenamento do território e do urbanismo;
VIII- Definição do regime de cativação, apropriação ou mesmo
eliminação das designadas mais-valias urbanísticas – que
são, mais exactamente, excedentes especulativos - , a
materializar por via tributária, na sede e nos momentos
processuais adequados, ou por via da dação em espécie,
de uma forma que, salvaguardando os interesses públicos
vitais – neste caso o combate à especulação fundiária –
não onere extemporânea e desproporcionadamente os
proprietários e operadores urbanísticos;
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IX- Bases para a definição de valores padrão para os preços
base dos solos rurais, florestais, com urbanização
programada e urbanizados (Valores de Base Territorial);
X- Bases dos regimes sancionatórios das infracções ao uso
racional e sustentável dos solos e das águas superficiais,
e das infracções urbanísticas

c) Regular com eficácia os mecanismos de atribuição do crédito


bancário hipotecário e a titularização conexa.

Antes de terminar, torna-se imperioso esclarecer que as ideias aqui


registadas não nasceram de uma qualquer inspiração pessoal, sendo,
isso sim, reflexo de uma já prolongada análise de textos de diversos
autores de entre os quais são de destacar:
F. Alves Correia, Freitas do Amaral, João Caupers, Fernanda Paula
Oliveira, Jorge Carvalho, Paulo Correia, Sidónio Pardal, Costa Lobo,
Carlos Lobo, José Casalta Nabais, Jorge Miranda, Rui Medeiros,
Oliveira Ascensão, Gomes Canotilho, diversos conselheiros do
Tribunal Constitucional e, ainda, James A. Kushner, Enterria, Françoise
Choay, Mario Lungo, Leopoldo Moura, Martin Smolka, Joseph Comby,
Henry Lefebvre, Friderich Engels e Karl Marx. Não se optou por ir
fazendo a incorporação de referências, devido à natureza deste texto.

Contudo, sem a experiência prática, e sem o debate permanente com


os professores, colegas, camaradas e amigos, seria impossível ter
abordado este tema, embora da forma muito limitada como acabou
por ficar.

22 de Abril de 2011

Demétrio Alves

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