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Estes resumos não dispensam a leitura

dos livros recomendados pelo


Professor Regente e Auxiliar.

Direito das
Sucessões
Professor Jorge Duarte
Pinheiro
2018/2019

Ana Figueiredo
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Enquanto ramo do Direito, o Direito das Sucessões corresponde ao conjunto de normas


jurídicas que regulam a instituição “sucessão”, entendida como sucessão por morte. Todo o
Direito das Sucessões existe em função de um facto, a morte.
A morte é um facto jurídico instantâneo extintivo da personalidade jurídica – art.26º e 70º.
A morte é a causa, facto determinante, ou principal, da aquisição de situações jurídicas.

O conceito de sucessão que foi adotado só abrange situações jurídicas patrimoniais. A exclusão
das situações jurídicas não patrimoniais decorre igualmente da noção legal de sucessão
(art.2024º) e do preceito que caracteriza os sucessores (art.2030º/2)

Espécies de sucessões

O regime jurídico português da sucessão tem como trave-mestra uma classificação a


que alude o art.2026º.
Classificação com base no critério da fonte de designação (4 espécies de sucessão):
• Legítima – nos termos dos art.2132º e 2133º, a sucessão legitima, que
opera na ausência de vontade válida e eficaz do de cuius (art.2131º), tem
como beneficiários o cônjuge, os parentes próximos do falecido e, na falta
destes, o Estado
• Legitimária – nos termos do art.2157º, a sucessão legitimaria reserva uma
porção de bens de que o de cuius não pode dispor (art.2156º) ao cônjuge e
aos parentes na linha reta do falecido
• Testamentária – constitui o espaço de manifestação da autonomia da
vontade do de cuius no domínio sucessório, por excelência. O testamento
é o ato unilateral pela qual uma pessoa dispõe, para depois da morte e a
título gratuito, do seu património (art.2179º/1)
• Contratual

A designação como herdeiro ou legatário

A distinção vem no art.2030º


Nos termos do nº2 do art.2030º diz-se herdeiro o que sucede na totalidade ou numa
quota do património do falecido. A quota é uma fração abstrata, representativa de uma
relação numérica com o todo hereditário.
Ex: “Dou ao João metade do meu património”; “Dou ao João 5% do meu património”

Por outro lado, o mesmo artigo confere a qualidade de legatário àquele que sucede
em bens ou valores determinados.
Ex: “dou ao João o móvel x”; “ dou ao João 100€”
São igualmente legados as deixas de herança ou de quota de herança não partilhadas à
qual foi chamado o testador, bem como a deixa da meação nos bens comuns.

É legatário aquele a quem o autor da sucessão deixou bens determinados, mesmo que
se apure que o de cuius não tinha outros bens na altura da sua morte. Embora suceda na
totalidade do património, o beneficiário da deixa não é herdeiro, uma vez que a aquisição da
totalidade é meramente acidental.
Ex:
“deixo ao João a totalidade do meu património” – herdeiro
“deixo ao João o bem x, bem y, bem z” – legatário, mesmo que sejam todos os bens do
património

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É concebível um legado sem especificação, como o comprova a previsão legal do


legado de coisa genérica (art.2253º). O legado pode ter por objeto bens meramente
determináveis (nomeadamente, através do critério do género). Importa é que esses bens
sejam determináveis no momento da abertura da sucessão.
Ex: se A deixa B, por testamento, os seus imoveis estamos perante um legado. Na
altura em que A morre, sabe-se quais os bens que cabem a B. Basta ver que imoveis
pertenciam ao de cuius à data da abertura da sucessão. Serão esses os bens que B
poderá vir a adquirir.

O art.2030º/4 prevê que o usufrutuário, ainda que o seu direito incida sobre a
totalidade do património, é havido como legatário.
Embora o usufrutuário seja imperativamente qualificado como um legatário, o
estatuto do usufrutuário da totalidade ou de quota da herança é próximo do estatuto típico do
herdeiro. Nomeadamente, o usufrutuário de uma quota tem, tal como o herdeiro de uma
quota, o direito de exigir a partilha da herança.

Segundo o regente (JDP), podemos observar duas situações em que o sucessível é


considerado herdeiro apesar de lhe ter sido deixado apenas bens determinados (é o que se
chama de herança ex re certa):

• Deixas categoriais dicotómicas que esgotam a totalidade da herança:


Ex: A, testador, deixa todos os bens imóveis a B e todos os bens móveis a C. B
e C serão herdeiros, já que o de cujus está automaticamente a repartir a herança em
duas quotas apuradas por referência a categorias abstratas de bens. A sede é o
art.2030º/3: cada deixa funciona como deixa do remanescente em relação à outra,
sem que tenha havido especificação. Por outras palavras, se a B cabem todos os bens
imóveis, C sucederá no remanescente, e vice versa. Ou seja, tudo o que sobra.
o Se A deixar a B todos os bens presentes e a C os bens futuros, B seria, na
opinião de Oliveira Ascensão, legatário e C herdeiro. Contra, Jorge Duarte
Pinheiro defende que a (im)possibilidade de variação do conteúdo da deixa
entre os dois momentos temporais (data do testamento e data da morte) não
pode ser um critério de distinção válido nesta sede, à luz do teor do art.
2030º.

• Legado por conta da quota/legítima: atribuição de bens determinados em


preenchimento de uma quota que caiba ao sucessível por lei (quota
indisponível/legítima) ou que lhe é atribuída pelo testador (quota disponível). O art.
2163º, in fine permite a admissibilidade desta figura: o testador pode designar os bens
que devam preencher a legítima de determinado sucessível, desde que com a vontade
deste (art.2163º,a contrario)
o Exemplo: A deixa a B 25% da sua herança, especificando que, para o
preenchimento dessa quota, ser-lhe-á atribuído determinado imóvel. B é,
ainda assim, considerado herdeiro. Ficando o valor do imóvel aquém dos 25%
da massa hereditária, B tem o direito de exigir a diferença. Diferentemente,
se o valor do imóvel for superior ao valor concreto da quota que lhe foi
atribuída, B será considerado herdeiro até ao limite do valor da quota (25%) e
legatário quanto ao remanescente.
o Galvão Telles considera que o legatário por conta da quota é um herdeiro-
legatário, já que sucede simultaneamente numa quota e em bens

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determinados. Já Jorge Duarte Pinheiro prefere a opção por uma das


qualificações: aqui, a de herdeiro é a que melhor se ajusta.
o Não se confunda esta figura com o legado em substituição da legítima
(art.2165º, nº1 e 2): disposição mortis causa de bens determinados (legado)
cuja aceitação pelo beneficiário implica a não aquisição de uma quota
hereditária (herança) à qual este teria direito de suceder.

Estatutos de herdeiro e legatário

No estatuto-tipo de herdeiro cabem por exemplo o direito de exigir partilha e as


responsabilidades pelos encargos da herança.
O art.2101º/1 confere a qualquer co-herdeiro o direito de exigir partilha quando lhes
aprouver. Tendo sido designados dois legatários para sucederem num mesmo objeto, eles não
podem recorrer à partilha para porem termo à indivisão. O instituto adequado será o da
divisão comum. No entanto, os estatutos do herdeiro e do legatário não são rígidos.
O elemento de regime tido como mais importante é o da responsabilidade externa
pelos encargos da herança. Em regra, tal responsabilidade incumbe ao herdeiro, como
decorre dos art.2068º, 2071º, 2097º e 2098º/1.
Todavia, há uma hipótese excecional de responsabilidades dos legatários pelos
encargos da herança: quando a herança é totalmente repartida em legados (2277º). Na falta
de herdeiros, alguém tem de satisfazer os encargos e esse alguém é o legatário. É o herdeiro
que responde diretamente perante os credores da herança.
Se a herança não chegar para se realizar o cumprimento integral dos legados, por força
do passivo, o herdeiro paga as dívidas e depois reparte o que restar do ativo entre os
legatários, na proporção do valor dos bens que o autor da sucessão lhes pretendia deixar.
Se o autor da sucessão onerar um legatário com o encargo do pagamento do passivo, a
disposição é valida mas produz efeitos exclusivamente no plano das relações internas, isto é,
entre os sucessores. Os herdeiros responderão diretamente perante os credores da herança,
embora com direito de regresso sobre o legatário onerado
O art.2072º regula a responsabilidade do usufrutuário da totalidade ou de uma quota
do património do falecido pelos encargos da herança, obriga apenas o legatário a entregar aos
herdeiros os meios necessários para que estes procedam ao cumprimento dos referidos
encargos. A responsabilidade externa incumbe mais uma vez aos herdeiros.

Em conclusão, o herdeiro sucede no ativo e no passivo, pelo que é uma espécie de


liquidatário da herança, segundo Pamplona Corte-Real. O legatário, por seu lado, apenas
sucede no ativo (em bens): é uma espécie de credor de segunda linha da herança (art. 2070º,
nº1), já que o seu crédito é graduado depois do direito dos credores da herança proprio sensu.
Não se pense que o herdeiro é um sucessor pessoal do de cujus, enquanto que o
legatário seria um mero beneficiário de uma atribuição patrimonial, como sustenta Oliveira
Ascensão. Jorge Duarte Pinheiro reconduz os estatutos de herdeiro e de legatário a uma
atribuição patrimonial, e não a uma qualidade pessoal do sucessível. Esta interpretação é
conforme com o art.2030º.

A designação sucessória em razão da fonte

Factos designativos

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Os factos designativos são circunstâncias que atribuem a alguém a qualidade de


sucessível.
Podem ser:
o Negociais – testamento e o pacto sucessório, que estão na base,
respetivamente, da sucessão testamentaria e da sucessão contratual
o Não negociais – relação jurídicas familiares e relações jurídicas parafamiliares
de união de facto e convivência em economia em comum e o vínculo de
cidadania. Estão na base da sucessão legitimaria e da sucessão legitima.
Nas modalidades de sucessão legal comum, são factos designativos a união conjugal,
o parentesco, a adoção e o vínculo de cidadania. A afinidade, união de facto e
convivência em economia comum operam unicamente no campo das sucessões legais
anómalas.

A lei alude impropriamente aos factos designativos no art.2026º, que, subordinado à


epigrafe “Títulos de vocação sucessória”, dispõe que a sucessão é deferida por lei,
testamento ou contrato. No entanto, o testamento e o contrato não são títulos de
vocação: aqueles negócios atribuem a qualidade de sucessível antes da morte do de
cuius, enquanto a vocação só se concretiza no momento da abertura da sucessão.

Antes da abertura da sucessão, o mapa de sucessíveis é instável, porque


constantemente e até lá podem ocorrer eventos com relevância designativa :
nascimento, morte, celebração ou extinção de casamentos, feitura ou revogação de
testamentos, realização de pactos sucessórios.

As modalidades de sucessão, na perspetiva do facto designativo que está na sua


origem

Os art.2026º-2028º referem-se às modalidades de sucessão segundo o critério do


facto designativo. Em qualquer uma das modalidades de sucessão, um sucessível
pode ser designado para suceder como herdeiro ou como legatário.

Nas modalidades de sucessão voluntaria, como são as sucessões testamentária e


contratual, não há restrições à designação de um sucessível ou como herdeiro ou
como legatário – art.2030º/5.
Nas modalidades de sucessão legal, o interessado é, em regra, designado para
suceder como herdeiro. Nos casos excecionais de sucessão legal anómala, o
interessado é designado para suceder para legatário.

Na sucessão legal, comum, o sucessível é designado para suceder na totalidade da


herança, numa quota do património hereditário, ou remanescente da herança, sem
especificação – art.2131º-2162º
Na sucessão legitima , é objeto da designação um bem determinado (ex: um direito
real de habitação).
Na sucessão legitimaria anómala, é também objeto da designação um bem
determinado (ex: um direito à posição de locatário no arrendamento habitacional).

Uma mesma pessoa pode beneficiar de múltiplos factos designativos que lhe confiram
a qualidade de sucessível em diversas modalidades de sucessão.

Hierarquia das modalidades de sucessão, segundo o critério do facto designativo

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1. Sucessão legitimária
2. Sucessão contratual
3. Sucessão testamentaria
4. Sucessão legítima

Pode haver só sucessão legitima quando não há herdeiros legitimários, não fez
testamento, nem nem contrato. A mesma coisa acontece quando é testamentaria e
com a contratual.
Não pode haver só sucessão legitimaria, já que esta não tem a quota toda.

A sucessão legitima cede qualquer outra modalidade de sucessão por ter carácter
supletivo.
Nos termos do art.2027º, a sucessão legitima é aquela espécie de sucessão legal que
pode ser afastada pela vontade do autor da sucessão.
Esta opera quando o falecido não tiver disposto válida e eficazmente, no todo ou em
parte, dos bens de que podia dispor para depois da morte – art.2131º

A sucessão legitimária tem carácter injuntivo, prevalecendo sobre as outras


modalidades.
Nos termos do art.2027º, a sucessão legitimaria é aquela espécie de sucessão legal
que não pode ser afastada pela vontade do autor da sucessão.
Esta confere ao sucessível o direito à legitima, porção de bens de que o de cuius não
pode dispor, por ser legalmente destinada aos herdeiros legitimários – art.2156º.

As liberalidades que ofendam a legitima, ditas inoficiosas, são redutíveis em tanto


quanto for necessário para que a legitima seja preenchida (art.2168º e 2169º).
Ao enunciar a ordem da redução, o art.2171º fala das expressamente das disposições
testamentárias, bem como das “liberalidades que hajam sido feitas em ida do autor
da sucessão”. Mas a ausência de menção aos negócios próprios da sucessão
contratual no preceito não significa que os negócios próprios da sucessão contratual
subsistam contra a sucessão legitimaria (Ex: art.1705º/3 e art.1759º).

A sucessão contratual ocupa o segundo lugar na hierarquia das modalidades de


sucessão em razão da fonte. A ordem relativa das sucessões contratual e
testamentária reflete-se no regime da revogação.
Sendo o conteúdo patrimonial do testamento livremente revogável pelo de cuius
(art.2179º/1 e 2311º e ss.), a participação do mesmo de cuius num pacto sucessório
incompatível com testamento anterior prejudica a eficácia deste negócio unilateral. O
pacto sucessório pode, portanto, revogar o testamento do disponente, mas, em
principio, não é afetado por um testamento do autor da sucessão: em regra, o pacto
sucessório não é unilateralmente revogável (art.1701º/1, 1705º/1, 1755º/2 e 1758º)

Há porém, uma hipótese em que o valor hierárquico de um pacto sucessório é


idêntico ao de uma disposição testamentária: a do pacto sucessório a favor de
terceiro, em que o disponente tenha reservado para a si a faculdade de livre
revogação (art.1705º/2).

A sucessão legítima

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Noção e espécies de sucessão legitima

Esta modalidade pode coexistir com a sucessão testamentaria e, na falta de testamento, pode
concorrer com outras modalidades de sucessão.

É uma modalidade de sucessão legal, supletiva, que se verifica quando o falecido não tiver
disposto válida e eficazmente, no todo ou em parte, do património de que podia dispor para
depois da morte (art.2131º).
Por conseguinte, a sucessão legitima depende, quanto à existência e quanto ao âmbito, da
sucessão testamentária. No entanto, tal dependência não é exclusiva, porque há outras
modalidades de sucessão. Na falta de testamento, pode a parte do património do de cuius que
estava disponível para disposições mortis causa ter sido validamente diferida por via
contratual. E, havendo testamento relativo a uma parte do património, pode a outra parte
encontrar-se submetida às regras da sucessão legitimária.
Sendo assim, o espaço da sucessão legítima corresponde àquele que não tiver sido
efetivamente ocupado pela sucessão legitimária e pela sucessão voluntária. Ou seja, refere-se
ao património de que o falecido podia dispor para depois da morte e não dispôs.

A exclusão ou limitação do âmbito da sucessão legitima pressupõe a eficácia (em sentido


amplo) de outras modalidades de sucessão.
Por exemplo, se o de cuius deixou, por testamento, metade da herança a um amigo, e que, no
momento da morte, o de cuius tinha um filho, esclareça-se que o afastamento da sucessão
legitima é meramente tendencial. Ocorrerá sucessão legitima, se, por exemplo, o filho, único
sucessível legitimário, repudiar a herança do pai.
A deteção de sucessíveis legitimários no momento da morte não implica necessariamente uma
limitação do âmbito da sucessão legitima. Tal limitação exige que, pelo menos, um sucessível
legitimário possa e queira aceitar.
Por outro lado, também a existência de um testamento ou pacto sucessório não acarreta uma
exclusão total ou parcial da sucessão legitima, á que uma eventual ineficácia lato sensu do
testamento confere espaço à sucessão de cariz supletivo.

O fundamento geral da sucessão legitima é evitar o abandono das situações jurídicas


patrimoniais de que era titular o de cuius. Sempre que o falecido não tenha indicado (válida e
eficazmente) o destino mortis causa de todo ou parte do seu património, a sucessão legitima
providencia a titularidade de todo o património, ao designar pessoas para sucederem e ao
estabelecer que uma delas (Estado) adquire, sem necessidade de aceitação e sem
possibilidade de repúdio.

Existem dois tipos de sucessão legitima:


• Sucessão legitima comum – que é aquela que está submetida ao regime legal
nominado da sucessão legitima, previsto nos art.2131º-2155º-
• Sucessão legitima anómala – subordinada a um regime diferente.

Como a terminologia legal sugere (art.2131º), o sucessível legitimo comum é designado


para suceder como herdeiro.
Caso o de cuius não tiver disposto, por morte, válida e eficazmente de parte dos bens de
que podia dispor, a totalidade do património será deferida por via da sucessão legitima.
Se houver somente um sucessível legitimo comum (prioritário), ele é designado para
suceder na totalidade do património do de cuius e, por conseguinte, assume a qualidade

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de herdeiro, nos termos do art.2030º/2. Caso haja vários cada um é designado para
suceder uma quota do património do falecido, pelo que são todos herdeiros.
Caso o de cuius tiver disposto, por morte, válida e eficazmente de parte dos bens, o
remanescente, que não é especificado, será diferido por via de sucessão legitima. Se
houve somente um sucessível legitimo comum (prioritário), ele é designado para suceder
na totalidade do património do de cuius e, por conseguinte, assume a qualidade de
herdeiro, nos termos do art.2030º/3. Caso haja vários cada um é designado para suceder
uma quota do património do falecido, pelo que são todos herdeiros (art.2030º/2/3)

Modo de calculo da herança

Temos de distinguir consoante a sucessão legitima coexista ou não com a sucessão


legitimária.
Se for aberta a sucessão legitimaria, o valor total da herança legitima, é igual ao valor da
quota disponível menos o valor das liberalidade mortis causa válidas e eficazes. A massa
de calculo tem por referencia a quota disponível, dada a autonomia da sucessão
legitimaria (modalidade de sucessão que abrange toda a quota indisponível) perante a
sucessão legítima (que, portanto, só pode operar no âmbito da quota disponível). O valor
das liberalidades mortis causa, contratuais ou testamentarias, validos e eficazes tem de
ser abatido na sequencia logica do art.2131º.
Se não houver sucessão legitimaria, ao valor do relictum é abatido o valor do passivo e o
valor das liberalidades mortis causa.
A quota do herdeiro legitima será naturalmente quantificada com base no montante de
todo em que integra.

Categorias e classes de sucessíveis legítimos (comuns)

Do art.2132º, conjugado com o art.2133º/1, resulta que são sucessíveis designados como
herdeiros legítimos:
• Cônjuge
• Parentes na linha reta
• Parentes na linha colateral até ao quarto grau
• Descendentes de irmão do de cuius (independentemente do grau de parentesco
na linha colateral)
• Estado

É incorreto a ideia de que os parentes na linha colateral além do quarto grau não
podem ser herdeiros legítimos. O art.2133º/1/c), ao prever a designação de
descendentes de irmão do falecido, sem impor limites em virtude do grau de
parentesco, permite pensar em hipótese de sucessão legítima em benéfico de parente
da linha colateral num grau mais afastado do que o quarto.

O art.2133º/1 ressalva o disposto no titulo da adoção.


Aplica-se o art.1986º/1, primeira parte, pelo que também são sucessíveis designados como
herdeiros legítimos, relativamente ao adotante e aos parentes deste (com exceção dos
parentes do adotante na linha colateral para além do terceiro grau que não sejam
descendentes de irmão do adotante), o adotado e seus descendentes; e são sucessíveis
designados como herdeiros legítimos, agora relativamente ao adotado e os seus

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descendentes, o adotante e os parentes destes (com exceção dos parentes do adotante na


linha colateral para além do terceiro grau que não sejam descendentes de irmão do adotante).
Não há sucessão legitima entre o adotado e os membros da sua família biológica (que
não sejam descendentes do adotado), a não ser que ao adotado seja filho do cônjuge do
adotante: a adoção extingue as relações familiares entre o adotado e os seus ascendentes e
colaterais biológicos (art.1986º/1, segunda parte), quando não se verifique a mencionada
exceção de adoção do filho cônjuge (art.1986º/2).

O mesmo se aplica à filiação por PMA heteróloga que justifica uma aplicação analógica das
regras sucessórias sobre adoção à ultima modalidade de filiação. A titulo de exemplo, são
sucessíveis designados como herdeiros legítimos, relativamente ao beneficiário da PMA
heteróloga e aos parentes deste (com exceção dos parentes do beneficiário de PMA na linha
colateral para além do terceiro grau que não sejam descendentes de irmão do beneficiário), o
filho nascido na sequencia de PMA heteróloga e seus descentes; e são sucessíveis designados
como herdeiros legítimos, agora relativamente ao filho nascido na sequencia de PMA heteroga
e seus descentes, o beneficiário da PMA heterólogo e os parentes deste (com exceção dos
parentes do beneficiário de PMA na linha colateral para além do terceiro grau que não sejam
descendentes de irmão do beneficiário).

A designação de familiares do de cuius permite atingir outra finalidade, que é a proteção da


família – da família constituído pelo vínculo conjugal, pelo vínculo parental, pelo vínculo
adotivo e pelo vinculo de filiação por PMA heteróloga.

No que toca ao tratamento do vínculo adotivo, note-se que a constituição da adoção


pressupõe vontade do adotante, mas produz efeitos sucessórios em beneficio do adotado (e
dos seus descendente) que se não referem somente à herança legal (legitima e legitimaria) do
adotante. Integrando-se na família do adotante, o adotado plenamente é igualmente
sucessível legal hereditário de vários parentes do adotante, aos quais não se exigiu que
consentissem na adoção.

Nos termos do art.2133º/1 que ressalva o disposto no título da adoção, as classes de


sucessíveis legítimos são, por ordem de preferência:
• Cônjuge e descendentes
• Cônjuge e ascendestes
• Irmãos e seus descendentes
• Outros colaterais até ao quarto grau
• Estado.

No caso da PMA heteróloga, impõe-se uma adaptação análoga.

Regras gerais da sucessão legitima

Está submetida a três regras gerais:


• Preferência de classes
• Preferência de graus de parentesco
• Divisão por cabeça
O direito de suceder está apenas atribuído aos sucessíveis legítimos prioritários. É essa
prioridade, que restringe o núcleo de sucessíveis que pode efetivamente beneficiar da
sucessão, decorre da aplicação das duas aludidas regras de preferência.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

A regra da preferência de classes determina que os sucessíveis de uma classe


preferem aos sucessíveis das classes subsequentes, pelo que só aqueles são chamados
à sucessão. Ao apresentar classes ou grupos de sucessíveis, o art.2133º/1 estabelece
que a ordem de apresentação das classes coincide com a ordem de chamamento. O
art.2134º preve que “os herdeiros de cada uma das classes de sucessíveis preferem
aos das classes imediatas”.
A disciplina do art.2137º enquadra-se na logica da regra da preferência de classes: os
sucessíveis de uma classe só são chamados a suceder se nenhum dos sucessíveis da
classe precedente quiser ou puder aceitar a herança.
Ex: se ao autor da sucessão sobrevivem dois descendentes (filhos) e dois
ascendentes (pai e mãe), são chamados morigeramente à herança legitima os
descentes e só estes. Caso um deles repudio a parte deste acresce à do outro
descendente, o que obsta ao chamamento dos ascendentes. Se ambos
repudiarem vai para os ascendentes.
Importante saber que as classes de sucessíveis legítimos comuns existentes não se
esgota no elenco constante das alíneas do art.2133º/1.

A regra de preferência de graus de parentesco estabelece que, dentro de cada classe,


os parentes de grau mais próximo preferem aos de grau mais afastado – art.2135º
Esta regra pode ser posta em causa pelo instituo do direito de representação
(art.2138º - vamos estudar mais tarde).
Esta regra aplica-se, com as devidas adaptações, aos vínculos análogos ao parentesco,
adoção e filiação por PMA heteróloga. Ex: se ao autor da sucessão sobrevivem um filho
biológico, um filho por adoção e um filho por PMA heteróloga e um neto, que é filho
de um deles, são chamados originariamente os três filhos

A regra da divisão por cabeça determina que os sucessíveis legítimos prioritários


sucedem em partes iguais e aplica-se, normalmente, entre parentes de cada classe
(art.2136º) e na situação de concurso de cônjuge com descendestes
(art.2139º/1/1ºparte). A regra vale ainda, em principio, para adoção e para a filiação
por PMA heteróloga, que assentam em vínculos semelhantes ao parentesco.
Ex: se ao autor da sucessão sobrevivem dois filhos, a cada um deles cabe metade da
herança legitima; se sobreviverem dois filhos e cônjuge, a cada um destes sucessíveis
será atribuído um terço.
A lei preve exceções a esta regra nos art.2139º/1/2ªparte, art.2142º/1, art.2146º e
art.2138º.
Nos termos do art.2138º, a regra da divisão por cabeça não prejudica o direito de
representação. Ora, no direto de representação, a divisão faz-se por estirpe
(art.2044º), cabendo ao junto dos descendentes de um sucessível que não pôde ou
não quis aceitar a herança aquilo em que este sucederia. Por conseguinte, ao tomar a
estirpe como unidade de referencia, o funcionamento do direito de representação
pode afastar a regra da sucessão em partes iguais, que tem em vista cada sucessível
individualmente.
Ex: ao autor da sucessão (A) sobrevivem dois filhos (B e C) e dois netos (E e F), filhos de
um terceiro filho (D), que morreu antes do de cuius; a cada um dos filhos cabe um
terço da herança atribuída por via da sucessão legitima e aos netos do de cuius cabe,
no total, aquilo em que sucederia o pai deles se fosse vivo, ou seja, um terço
(art.2139º, 2140º, 2042º, 2039º, 2044º) – a cada um dos netos cabe 1/6. Entre os
filhos do de cuius, incluindo o pré-falecido, e entre os netos, vigora a regra da divisão
por cabeça; todavia o mesmo não sucede na relação dos filhos sobrevivos com os
netos, em que a cada um daqueles cabe um terço e cada um deste um sexto.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

O direito de representação é suscetível de criar exceções à regra da divisão por cabeça


da herança legitima em situações de sucessão de descendestes (art.2140º) ou de
irmãos e seus descendentes (art.2145º). Além disso, quando haja adoção e filiação por
PMA heteróloga são possíveis outras hipóteses de direito de representação, similares
às da sucessão de parentes.

Regime da sucessão legitima por classes de sucessíveis

Se o autor da sucessão falecer sem descendentes e deixar ascendentes, na classe


subsequente (art.2133º/2), o cônjuge sobrevivo não é chamado à sucessão legitima se à data
da morte do de cuius se encontrar divorciado ou separado de pessoas e bens, por sentença, ou
decisão do conservador do registo civil, que já tenha transido ou venha a transitar em julgado,
ou ainda se a sentença de divorcio ou separação viera ser proferida posteriormente àquela
data nos termos do art.1785º/3 (art.2133º/3).
Para além disso não é chamado à sucessão legitima, enquanto cônjuge, aquele que
tiver contraído casamento inexistente (art.1630º) ou um casamento que foi declarado nulo ou
anulado, mesmo que a sentença de invalidação transite em julgado após a morte do de cuius,
a não ser que o chamamento seja salvaguardado pelo instituo do casamento putativo.
E há outros casos de extinção do vinculo matrimonial que privam o cônjuge de direitos
sucessórios legais.
Em contrapartida, a simples separação judicial de bens e o regime de separação de
bens, convencional ou até imperativo, não obstam a que um cônjuge possa ser sucessor
legitimo do outro.
Paralelamente, a condição sucessória de descendente depende da constituição legal (e
do registo) do vínculo familiar. No entanto, o reconhecimento judicial da paternidade posterior
ao decesso do investigando assegura, normalmente, os direitos sucessórios legais do filho
(art.1797º)

A sucessão de primeira classe pode abranger cônjuge e descendentes, só os descentes


ou só o cônjuge.
Havendo concurso do cônjuge com descendestes do primeiro grau, a divisão da
herança legitima faz-se por cabeça, repartindo-se a herança legitima em tantas porções
quantas forem os herdeiros – art.2139º/1/1ªparte – salvo se o cônjuge concorrer com mais de
três filhos.
Se o cônjuge concorrer com mais de três filhos, verifica-se uma exceção à regra feral
da sucessão por cabeça: a quota daquele será igual a uma quarta parte da herança legitima
(art.2139º/1/2ª parte) e os três quartos restantes serão divididos pelos filhos em parcelas
iguais.
Se o autor da sucessão não deixar cônjuge sobrevivo (art.2139º/2) ou se o cônjuge
sobrevivo estiver separado de pessoas e bens (art.2133º/3), a herança legitima divide-se pelos
filhos em parte igual (ou caberá por inteiro ao filho único)
A porção que cabe aos filhos é sempre igual entre eles (concorram ou não com o
cônjuge).
Os descendes do segundo grau e seguintes são chamados à sucessão legitima em
representação dos descendentes do de cuius que não puderem ou não quiserem aceitar a
herança (Art.2140º), haja ou não concurso dos descendentes com o cônjuge.
Na falta de descendes, sucede o cônjuge sozinho ou em concurso com os ascendentes
(art.2141º),
O concurso de cônjuge coma ascendentes enquadra-se já na sucessão da segunda
classe (art.2133º/2).

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A sucessão da segunda classe ocorre se não houver descendentes (2142º/1/1ªparte).


O cônjuge não é chamado caso haja algum impedimento referido anteriormente.
A sucessão legitima dos ascendentes pressupõe que o vinculo do parentesco no
primeiro grau da linha reta com o de cuius tenha sido legalmente constituído e registado, e
que não tenha sido eliminado retroativamente, valendo aqui, com as devidas adaptações, as
observações respeitantes à relevância sucessória da constituição e extinção do vinculo de
filiação.
Por força do art.1856º, a perfilhação posterior à morte do filho não confere a
qualidade de sucessível legal do filho ao perfilhante e aos ascendentes do perfilhante.
A sucessão da segunda classe pode traduzir-se no chamamento de cônjuge e
ascendentes, só dos ascendentes ou só do cônjuge.
No caso de sucessão conjunta do cônjuge e dos ascendentes, ao cônjuge pertencerão
duas terças partes e aos ascendentes uma terça parte da herança legitima (art.2142º/1) –
exceção à regra geral da divisão por cabeça.
Na falta de cônjuge os ascendentes serão chamados à totalidade da herança legitima
(art.2142º/2). Entre os ascendentes vigora as regras de preferência de graus de parentesco e
da sucessão por cabeça (art.2142º/3).
O art.2144º estabelece que, na falta de descendentes e ascendentes, o cônjuge é
chamado à totalidade da herança legitima.

Na falta de cônjuge e parentes na linha reta, são chamados à sucessão legitima os


irmãos e, representativamente, os filhos destes (art.2133º/1/proemio e 2145º). Caso o de
cuius tiver apenas um irmão cabe a este a totalidade da herança legitima. Se à sucessão
concorrem vários irmãos, a divisão da herança faz-se por cabeça (art.2136º), exceto se forem
irmãos bilaterais e outros irmãos unilaterais.
Concorrendo à sucessão irmãos bilaterais e irmãos consanguíneos ou uterinos, o
quinhão de cada um dos irmãos germanos/bilaterais, ou dos filhos que os representem é igual
ao dobro do quinhão de cada um dos outros (art.2146º). Mas o quinhão é idêntico entre
irmãos bilaterais ou entre irmãos unilaterais (art.2136º).
Ex: A, autor da sucessão é filho de P e M, que faleceram antes de A. A A sobreviveram
B, C, D. e E. B e C são filhos de P e M; D é filho de P e N; E é filho de M e O.
O valor total da herança é 60.
A cada irmão unilateral do de cuius cabe um quinhão da herança e a cada irmão
bilateral cabe o dobro. D, E – 1 parte; B, C – 2 partes.
Para determinar o valor de cada parte, reparte-se o valor da herança legitima pelo
numero total de partes. O valor de um quinhão é 10 (60/10).
D e E recebem cada um 10 e B e C recebem cada um 20 (10x2)
(Nº irmãos bilaterais x 2) + nº irmãos unilaterais = x
VTH/x = y
irmãos unilaterias= y
Irmãos bilaterais = y x 2

Na falta de cônjuge, parentes na linha reta, irmãos e sobrinhos do de cuius, são


chamados à sucessão legitima os descendentes dos irmãos que sejam colaterais do de cuius
acima do 3º grau, em representação dos irmãos e descendentes de irmãos e falecido, e,
portante, sem limite máximo de grau (art.2133º/1/proemio e 2145º). Ex: sobrinhos-netos ou
sobrinhos-bisnetos.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Na falta de cônjuge, parentes na linha reta, irmãos e seus descentes do de cuius, são
chamados à sucessão legitima os parentes na linha colateral até ao 4ºgrau que não sejam
irmãos ou descendentes de irmãos do falecido. Ex: tios, tios-avós, primos direitos ou primos
em 1ºgrau. Nesta classe vigora o principio da preferência de grau de parentesco (art.2147º).
Ou seja, os tios precedem os tios-avós e primos diretos.
Ex: F é o autor da sucessão, a quem sobreviveram B, tio-avó, parente no 4º da linha
colateral, E, tio, parente no 3º grau da linha colateral e G, primo direto, parente no 4º
grau da linha colateral. O tio E sucede na totalidade da herança legitima de F.

Também vigora plenamente o principio da divisão por cabeça (art.2148º), o que vai
levar a duas repercussões: na hipótese de concurso entre tio-avó e primo direto, o quinhão
será idêntico. Para além disso, havendo concurso entre colaterais que não sejam irmãos ou
descendentes de irmãos do falecido, o quinhão será idêntico, ainda que um dele seja
duplamente parente do de cuius.
Ex: B e C são filhos de A com Z, enquanto D e E são filhos do mesmo A com X. Ao autor
da sucessão, F, sobreviveram, B, D e E, seus tios. Embora seja duplamente parente de F (pelo
lado de A e pelo lado de Z), B tem direito apenas a um terço da herança legitima e não a
metade.

Na falta de cônjuge, parentes na linha reta, adotado e seus descendentes, colaterais


até ao 4ºgrau, outros colaterais que sejam descendentes e irmãos do de cuius e pessoa que
adotou o falecido, é chamado à herança legitima o Estado (art.2133º/1/proemio e 2152º).
O Estado só sucede após declaração de herança vaga, que implica o reconhecimento
judicial da inexistência de outros sucessíveis legítimos designados como herdeiros (art.2155º)
e não preciso de aceitar nem pode repudiar (art.2154º).
A impossibilidade de o Estado repudiar garante que haja sempre um titular para as
situações jurídicas patrimoniais do de cuius que se não extinguiram com a sua morte. Trata-se
de um fenómeno de sucessão legitima forçada.
A declaração de herança vaga é objeto de um processo especial regulado nos art.938º
e 939º/1 do CPC.
Aberta a sucessão e encontrando-se a herança por aceitar (herança jacente – não foi
aceite nem declarada vaga para o estado – art.2046º), por não serem conhecidos sucessíveis,
por o Ministério Publico pretender contestar a qualidade dos que se apresentarem, ou por os
sucessíveis conhecidos haverem repudiado a herança, tomar-se-ão as providencias necessárias
para assegurar a conservação de bens.

A situação juridica dos sucessíveis legítimos, em vida do de cuius

Ao sucessível legitimo é:
• Reconhecida legitimidade para requerer a justificação da ausência do de cuius e a
entrega de bens à luz do regime da curadoria definitiva (art.100º e 103º)
• Reconhecida legitimidade para requerer a interdição (art.141º/1)
• Reconhecida legitimidade para requerer para intentar ações de nulidade e de
anulabilidade do testamento antes da morte do testador (art.2308º/1/2)

justificação da ausência, a interdição e as ações de nulidade e de anulabilidade do


testamento visam em primeira linha a tutela do de cuius da sua liberdade de testar.
A entrega dos bens aos sucessíveis legítimos, no âmbito da curadoria definitiva, não
corresponde à atribuição de um verdadeiro direito de suceder por via legítima. Os sucessíveis

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

legítimos são tidos como curadores definitivos (art.105º), pelo que representam o ausente
quanto aos bens que lhes foram entregues; e esses bens têm de ser restituídos logo que o
ausente os requeira (art.113º/1). A eficácia do exercício do verdadeiro direito de suceder é
definitiva. A eficácia do direito de aceitar ou repudiar a sucessão do ausente está sujeita à
condição resolutiva da sobrevivência do ausente (art.109º/2).

Sucessão legitima anómala

Existem dois tipos de sucessão legitima anómala:


• Transmissiva
o Ex: ao reconhecer a certas pessoas o direito a adquirir, por morte, uma
indeminização pelos danos não patrimoniais sofridos pela vitima, entre o
momento da lesão e o momento do falecimento, que foram causados pelo
ato que lhes viria a retirar a vida, art.496º/4. Estamos a falar dos danos
sofridos pela vitima, entre o momento da lesão e o momento do
falecimento, que foram causados pelo ato que lhe viria a retirar a vida.
Noutras condições, a indeminização pelos danos não patrimoniais é
transmissível pelas regras de sucessão comuns.
o Os danos não patrimoniais sofridos pela vitima constituem-se na esfera
juridica desta, sendo, portanto adquirido por via sucessório, e não ex novo.
o Não havendo uma norma que restrinja a liberdade de disposição por morte
do de cuius, a sucessão legal na indeminização em apreço apresenta
caracter supletivo.
o É anómalo já que se demarca do regime quanto ao objeto. No caso
descrito anteriormente está-se perante um legado: a sucessão respeita a
um direito determinado e não à totalidade ou a uma do património.
o Para além disso, é anómala quanto aos beneficiários (art.496º/2/3):
§ Cônjuge não separado de pessoas e bens ou o membro da união de
facto
§ Os filhos ou outros descendentes
§ Os pais ou outros ascendentes
§ Irmãos ou sobrinhos que os representam.
O elenco e a ordem não corresponde as normas relativas aos herdeiros
legítimos.

• Constitutiva
o Atribuições de direitos reais sobre a casa de morada comum ao convivente
em economia em comum, por morte do proprietário do imóvel.
§ Por morte do proprietário da casa de morada comum, as pessoas
que com ele tenham vivo em economia comum têm direito real de
habitação sobre a mesma, pelo prazo de cinco anos, e, no mesmo
prazo, direito de preferência na venda.
§ Isto não acontece se ao falecido sobreviverem parentes na linha
reta que com ele vivessem há mais de um ano e pretendam
continuar a habitar a casa, ou se o de cuius tiver feito disposição
testamentária em contrário.
o Atribuições em favor do convivente e do cônjuge: o direito de habitação da
casa de morada comum, o direito de preferência na sua venda, os direito
preferências de habitação da casa de morada da família e de uso do
respetivo recheio são situações jurídicas ativas de derivam de um direito

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

preexistente no património do de cuius, que não existiam, como tais, nesse


património, sendo constitutivas ex novo.
§ Situam-se no âmbito da sucessão legal, por não terem como
fundamento factos designativos negociais, mas vínculos que a lei
refere (convivência em economia em comum, união conjugal)
§ Representam, mais precisamente, manifestações de sucessão
legítima ou supletiva.
§ Isto não acontece se houver disposição testamentaria em contrario
– art.5º/2 LEC
§ Todas essas atribuições constituem exemplo de sucessão legitima
anómala: são legados legítimos e não atribuições a titulo de
herança, como ocorre no regime geral da sucessão legitima; os
beneficiários das aquisições fundanas na LEX não constam do
elenco geral de sucessíveis legítimos, e os direitos preferenciais na
partilha são reconhecidos unicamente a um dos sucessíveis
legítimos gerais (cônjuge)

As particularidades da sucessão legitima anómala obrigam a uma ponderação cuidada do


regime. Os direitos que são objeto de legados legítimos contam para efeitos de cálculo do
valor total da herança e não podem ser adquiridos pelos sucessíveis que tiverem sido
declarados indignos. Referindo-se a direitos pessoas, os legados legítimos não admitem
representação (art.2041º/2/c) – analogicamente). Além disso, introduzem uma exceção ao
principio da indivisibilidade da vocação, por aplicação analógica do art.2250º/2; ao sucessível
chamado a suceder simultaneamente coo herdeiro e como legatário legitimo assiste a
faculdade de aceitar a herança e repudiar o legado ou vice-versa.

A sucessão testamentária
Noção de testamento
O testamento constitui um facto designativo negocial que está na base da sucessão
testamentária (art.2179º/1).
A noção legal não é inteiramente rigorosa. O testamento reveste-se de natureza negocial, não
se reconduzindo a um mero ato jurídico. Para além disso, o conteúdo patrimonial não é
essencial, como decorre do art.2179º/2. Por exemplo, um testamento pode conter
unicamente perfilhação (art.1853º/b)).
Como pode incluir perfilhação, o testamento não é necessariamente revogável (art.1858º, que
inclui a revogabilidade da perfilhação feita em testamento).
Por isto o professor Jorge Duarte Pinheiro prefere definir o testamento como “o negocio
jurídico unilateral pelo qual alguém procede a disposições de última vontade”

Caracteres do testamento
Importante referir que, no entanto, é o conteúdo patrimonial que liga o testamento à sucessão
em sentido técnico e que faz deste um ato especifico. Por conseguinte, a caracterização do
testamento será efetuada por referência ao seu conteúdo patrimonial.
Trata-se de um negócio jurídico mortis causa, unilateral, não recetício, gratuito, formal e
livremente revogável. E, em regra, é um negocio singular e pessoal quanto à autoria.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

O testamento constitui um meio que a lei coloca ao dispor do de cuius para que ele possa
regulamentar a sua própria sucessão.
À semelhança do que acontece com qualquer negocio jurídico, o que for estipulado num
testamento releva dentro de certos condicionalismos legais. E entre esses condicionalismos
contam-se forçosamente dados básicos do nosso sistema jurídico patrimonial,
nomeadamente, as regras da recusa da abertura da sucessão antes da morte do de cuius e da
proibição de aquisição de situações jurídicas a título gratuito à margem da vontade do
beneficiário.
As disposições testamentarias só produzem efeitos após a more do testador, pelo que o
testamento é um negócio mortis causa.
O testamento é também um negócio unilateral, tendo apenas uma parte, um autor. Após a
abertura da sucessão e antes da aceitação, o sucessível adquire o direito de suceder, que lhe
cabe exercer sem liberdade de estipulação (art.2054º/1 e 2064º/1). Ou aceita ou repudia a
sucessão, tal como foi configurada pelo testador. Não há, portanto, um verdadeiro encontro
de vontades.
O sucessível que foi designado por testamento adquire o direito de suceder logo que se
verifique a abertura da sucessão, numa altura em que normalmente não terá conhecimento
do teor das disposições do de cuius. Neste sentido, as disposições relevam antes de serem
conhecidas pelo beneficiário. Não há um autentico destinatário do testamento, negócio não
receticio.
É um negócio gratuito por encerrar uma atribuição patrimonial do autor, sem contrapartida do
beneficiário. Mesmo que a disposição testamentária esteja sujeira a um encargo (art.2244º), a
obrigação que recai sobre o beneficiário não representa uma contrapartida da atribuição.
O testamento caracteriza-se pela solenidade: para ser válido, tem de revestir uma
determinada forma prescrita na lei (art.2024º e ss.). O formalismo que a lei impõe destina-se a
garantir a correspondência entre as disposições testamentarias e a vontade do autor da
sucessão.
O art.2179º/1 inclui a revogabilidade na noção de testamento e o art.2311º/1 estabelece que
o testador não pode renunciar à faculdade de revogar o seu testamento.

O testamento é um negócio normalmente singular ou individual.


No art.2181º proíbe-se o testamento de mão comum: não podem testar no mesmo ato duas
ou mais pessoas, quer em proveito recíproco, quer em favor de terceiro (mas duas ou mais
pessoas, podem fazer disposições recíprocas em testamentais distintos, separados). O artigo
funda-se na proteção da liberdade de testar (e revogar) contra pressões de terceiros, pelo que
da ratio do preceito se extrai a regra da proibição da intervenção de mais do que uma pessoa
no testamento, na qualidade de parte ou noutra qualidade suscetível de influenciar a
declaração de vontade do testador. No entanto, há exceções:
• Art.946º/2 – aceita que releva como disposição testamentaria um ato que foi
realizado com a intervenção de duas partes “se tiverem sido observadas as
formalidades dos testamentos.
• Art.1685º/3/b) – concede eficácia plena a uma disposição que tiver sido autorizado
pelo cônjuge do testador no proprio testamento e que tenha por objeto coisa certa
e determinada do património comum do casal.
• Art.1704º - admite que um esposado faça disposições com carácter testamentário
numa convenção antenupcial, ato que pode comportar a intervenção de varias
pessoas na qualidade de outorgante.
IMPORTANTE: a intervenção varias pessoas no testamento, além de um testador,
não colide com o principio da unipessoalidade se dor ditada por razões de ordem
formal (ex: intervenção do notário ou de testemunhas)

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O testamento é um negocio normalmente pessoal quanto à autoria (art.2182º/1): em


pirncipio, as clausulas testamentarias têm de ser feitas pelo proprio autor da sucessão; em
regra, o testamento não pode se feiro por meio de representante ou núcleo nem pode ficar
dependente do arbítrio de outrem.
Há exceções ao principio da feitura do testamento pelo proprio de cuius, que se referem:
• às disposições testamentárias não essenciais
• à repartição das deixas
• à nomeação do legatário, nas condições previstas no art.2182º/2/3
• à escolha da coisa legada, nas condições previstas no art.2183º
• às substituições pupilar e quase-pupilar.
O art.2182º/1 apenas subordina ao principio da pessoalidade disposições testamentárias
reputadas essenciais:
• instituição de herdeiros
• nomeação de legatários
• determinação do objeto das deixas e vinculatividade das clausulas
Ficam, por isso, de fora as restantes clausulas testamentarias
Mas o numero 2 do mesmo artigo permite até o afastamento desse principio em
aspetos essenciais da sucessão, ao permitir que o testador cometa a terceiro as
situações nomeadas nas alíneas a) e b).

O art.2183º/1, nos termos do qual o testador pode deixar a escolha da coisa legada à justa
apreciação do onerado, do legatário, ou terceiro, desde que indique o fim do legado e o
género ou espécie em que ele se contém. Verificando-se uma dessas três situações de
“delegação de competência” qualquer interessado tem a faculdade de requerer ao tribunal a
fixação de um prazo para que a pessoa designada pelo testador tome a decisão de que foi
incumbido (art.2182º/3 e 2183º/2) sob a cominação: no caso do art.2182º/2/a), de a
repartição pertencer a pessoa designado pelo tribunal ; no caso do art.2182º/2/b), de a
distribuição do legado ser feira por igual pelas pessoas que o testador tenha determinado; e,
no caso do art.2183º/1, de a escolha da coisa legada ser confiada a pessoa indicada pelo
tribunal.
Um ultimo grupo de exceções ao caracter singular do testamento traduz-se nas
substituições pupilar e quase-pupilar, únicas hipóteses de representação legal no conteúdo
essencial do negocio testamentário.

Requisitos de fundo do testamento


Licitude do objeto e do fim
O art.2186º define quando é que uma disposição testamentária é nula. Esta disposição, que
consagra o requisito da licitude do fim, ajusta o disposto no art.281º (que prevê a nulidade do
negócio quando o fim ilícito “for comum a ambas as partes”) ao testamento, que é um negocio
unilateral.
Ex de fim ilícito: as deixas de casas para exploração da atividade de prostituição de terceiros

O objeto do negocio testamentário deve ser licito. As disposições testamentarias condicionais


e modais ilícitas têm-se por não escritas (art.2230º e 2245º).
Na falta de norma especial aplica-se o art.280º, por força do qual é nulo o testamento cujo
objeto seja física ou legalmente impossível, contrário à lei, indeterminável, contrario à ordem
pública ou ofensivo dos bons costumes
Ex de disposições testamentarias essenciais com objeto ilícito: as deixas da lua

Capacidade

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O termo “capacidade” tem em vista a capacidade para testar, a chamada capacidade


testamentaria ativa, não se confundindo com a capacidade para suceder por testamento
(capacidade testamentária passiva).
No lado ativo, distingue-se entre capacidade de gozo e capacidade de exercício.
Têm capacidade testamentaria ativa de gozo todas as pessoas singulares mas apenas as
pessoas singulares (art.2188º). As pessoas coletivas não beneficiam desta capacidade
(art.160º/2)

Têm capacidade testamentária ativa de exercício todas as pessoas singulares que a lei não
declare incapazes de testar (art.2188º).
São incapazes de testar:
• menores não emancipados e os interditos por anomalia psíquica (art.2189º).
A capacidade ou incapacidade do testador determina-se pela data do testamento
(art.2191º)
O testamento feito por incapazes é nulo – art.2190º
• maiores acompanhados – 2189º
• menor de 16 ou 1 anos que tenha por objeto bens subtraídos à sua administração em
virtude ter casado sem autorização dos representantes legais ou o respetivo
suprimento. A incapacidade por menoridade subsiste quanto àqueles bens
(art.1604º/a), 1649º e 2189º/a))
A incapacidade testamentaria ativa não pode ser suprida por meio de assistência ou
representação (art.2182º/1), a não ser no âmbito das substituições pupilar e quase-
pupilar.

A capacidade testamentaria ativa de exercício não significa acesso a todas as formas de


testamento. O art.2208º impede os que não sabem ou não podem ler de dispor em
testamento cerrado, consagrando uma espécie de incapacidade de testar especifica, a
“inabilidade para fazer testamento cerrado”. O testamento cerrado feito por quem não saiba
ou não possa ler é nulo, por aplicação analógica do art.2190º.

Capacidade (cont.): as substituições pupilar e quase-pupilar


Estas substituições correspondem às únicas situações de suprimento da incapacidade de
testar.
Substituição pupilar – faculdade que é conferida ao progenitor, que não estiver inibido total
ou parcialmente do poder paternal, de substituir aos filhos (ditos substituídos) os herdeiros ou
legatários (“os substitutos”) que bem lhe aprouver, para o caso de os mesmos filhos falecerem
sendo menores (art.2297º/1).
O art.2297º/2 preve a caducidade da substituirão logo que o substituído perfaça os dezoitos
anos, ou se falecer deixando descendentes ou ascendentes. Apesar de tal não ser dito no
preceito, a pupilar fica também sem efeito logo que o substituído se emancipe, porque a
faculdade de substituição é atribuída ao seu progenitor enquanto titular do poder paternal
(início do art.2297º/1).

Substituição quase-pupilar – à luz do art.2298º/1 é a faculdade que é conferida ao progenitor,


que exercer o poder tutelar (cujo regime será idêntico ao do poder paternal, nos termos do
art.144º), de substituir aos filhos, no caso de fog ilho ser incapaz de testar em consequência de
uma sentença de acompanhamento, os herdeiros ou legatários que bem lhe aprouver. O
art.2298º/2 enuncia duas causas especificas de caducidade da substituição quase-pupilar:
• levantam-te da interdição por anomalia psíquica
• sobrevivência ao substituído de descendentes e ascendentes.

17
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Fica igualmente sem efeito quando ao substituído sobreviva cônjuge. É concebível a


celebração de um casamento válido pelo substituído, anterior à interdição por anomalia
psíquica, aplicando-se aqui por analogia a solução consagrada para o caso de sobrevivência de
outros sucessíveis legitimários.

A substituição pupilar é havida para todos os efeitos como quase-pupilar se o menos for
declarado interdito por anomalia psíquica (Art.2299º).
Estas substituições só podem abranger os bens que o substituído haja adquirido por via do
“testador” (progenitor que exerce a faculdade de substituição), embora a titulo de legitima
(art.2300º)

Não obstante serem reguladas na mesma secção que se ocupa de substituição direta e
substituição fideicomissária (Art.2281º e ss.), as substituições pupilar e quase pupilar assim a
natureza de substituições pelo lado ativo que configuram meios de suprimento da
incapacidade de testar. Esta qualificação é apoiada por todo um conjunto de elementos:
• os substituídos são pessoas singulares incapazes de testar
• o autor da substituição é o representante legal daquele que é incapaz de testar
• as substituições caducam se os substituídos adquirirem ou readquirem capacidade
testamentaria ativa (na sequencia de maioridade ou levantamento da interdição por
anomalia psíquica)
• a sucessão em apreço é a do substituído, já que as substituições abrangem os bens
que ele haja adquirido.

Legitimidade para dispor em beneficio de certas pessoas; as chamadas indisponibilidades


relativas

Existem restrições à faculdade de dispor morte em beneficio de certas pessoas –


indisponibilidades relativas.
Há duas categorias de indisponibilidades relativas:
o nominadas, previstas nos art.2192º-2198º. Estes artigos estão inseridos numa secção
pertencente ao título da sucessão testamentaria, aplicam-se, com as devidas
adaptações, às doações (art.953º), mortis causa ou inter vivos
o as que destinam a sancionar a violação de regras sobre impedimentos matrimoniais
impedientes, constantes do art.22º/3 da Lei nº103/2009, 11 de Setembro e do
art.1650º/2, estes artigos aludem quer à doação quer ao testamento.

Regime das indisponibilidades relativas nominadas

A lei determina a nulidade da disposição testamentárias feita a favor:


o do tutor, curador, administrador legal de bens e protutor (art.2192º/1/2)
o da disposição a favor do medico ou enfermeiro que tratar do testador, ou do
sacerdote que lhe prestar assistência espiritual, se o testamento for feito durante
a doença e o seu autor vier a falecer dela (art.2194º)
o do cúmplice do testador adúltero (art.2196º)
o dos intervenientes no testamento (art.2197º)
o interpostas pessoas de todas aquelas que foram referidas (art.2198º)

São tidas como intervenientes no testamento as pessoas descritas no art.2197º.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Nos termos do art.2198º/2, consideram-se interpostas pessoas o cônjuge ou o herdeiro


presumido de qualquer um dos sujeitos mencionados nos art.2192º, 2194º, 2196º e 2197º,
bem como outrem que, mediante acordo com um dos sujeitos inibidos, se tiver comprometido
a transmitir a este a coisa ou direito objeto de disposição testamentária. Por exemplo, é
invalida a nomeação como legatário do marido da notaria, contida em testamento publico que
foi lavrado por esta (art.2197º e 2198º)

As indisponibilidades relativas nominadas, com exceção da indisponibilidade atinente ao


cúmplice do testador adultero e à interposta pessoa do mesmo, apresentam como
fundamento a proteção da liberdade de testar. O legislador supor que o autor da liberalidade
se encontra numa situação de inferioridade suscetível de aproveitamento em favor do
beneficiário (direto ou indireto).
A invalidade da liberalidade a favor da pessoa com quem o autor cometeu adultério funda-se
já na proteção da ordem matrimonial. O cônjuge adultério liga-se uma estatuição negativa: o
cônjuge adultero não pode validamente beneficiar o terceiro cúmplice, este não pode
validamente adquirir bens doados ou deixados por aquele.

Esta indisponibilidade constitui uma manifestação da oponibilidade erga omnes dos deveres
conjugais (mais precisamente do de fidelidade), de que os terceiros são obrigados a não
contribuírem para o incumprimento nem a impossibilidade de cumprimento dos deveres a que
os cônjuges estão reciprocamente vinculados.

O âmbito das indisponibilidades relativas nominadas é circunscrito em determinadas


condições. Sendo assim é valida a disposição testamentaria feita a favor das pessoas que
falamos inicialmente, se os beneficiários forem parentes na linha reta, colaterais, até ao
terceiro grau do testador ou se algum deles for cônjuge do disponente – art.2192º/3 e
2195º/b).
Também não são afetados pela nulidade fundada em indisponibilidade relativo os legados
remuneratórios de serviços a favor de médicos, enfermeiros e sacerdotes – art.2195º/a)
Por outro lado, também as disposições a favor da pessoa com quem o testador cometeu
adultério é valida se cumprir um dos requisitos do art.2196º/2.

Há uma discrepância entre a letra do art.2196º/2/a), que alude à separação de facto há mais
de 6 anos, e a letra do art.1781º/a), que, na redação atual, introduzida pela Lei nº61/2008, de
31 de Outubro, se refere à separação de facto por um ano consecutivo.
Há uma ligação entre o prazo de separação do facto constante do art.2196º/2/a), e aquele que
afigura no art.1781º/a). Sempre se entendeu que quando a separação de facto integra uma
causa objetiva do divorcio não há motivo para excluir a validade da liberalidade feira pelo
cônjuge em favor da pessoa com quem cometeu adultério. Ora, após a Lei nº61/2008, de 31
de Outubro, a separação de facto por mais de uma ano é uma causa objetiva de divorcio sem o
consentimento de um dos cônjuges.
Por conseguinte, uma interpretação sistemática e teleológica do art.2196º/2/a), permite a
validade da disposição testamentária a favor da pessoa com quem o autor da liberalidade
casado cometeu adultério, se o testador se encontrava separado de facto há mais de um ano.

O art.1650º/2 e o art.22º/3 da lei nº103/2009, de 11 de Setembro reagem à inobervenaica de


três impedimentos matrimoniais impedientes com situações de indisponibilidade relativa.
São dois os fundamentos das indisponibilidades relativas do art.22º/2 da lei nº103/2009, de 11
de Setembro, e do art.1650º/2:

19
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

o sancionar a violação dos impedimentos aí referidos e, ao mesmo tempo, evitar que


uma das partes se aproveite de uma suposta posição de superioridade para obter
vantagens patrimoniais da outra.
o A “incapacidade para receber” implica nulidade das disposições testamentarias, e não
mera anulabilidade ou ineficácia em sentido estrito, por analogia com o desvalor
fixado para aquela espécie de indisponibilidades.
As indisponibilidades destes dois artigos, são sanções punitivas civis, estando, tal como as
sanções punitivas penais, sujeitas ao principio da legalidade. Deste modo, não lhes é
analogicamente aplicado o art.2198º (interpostas pessoas)

As indisponibilidades relativas não são verdadeiras incapacidades mas meras ilegitimidades: as


disposições testamentarias são nulas por causa de uma especial relação que existe entre o
autor e o beneficiário da deixa.
É, no entanto, discutível se as indisponibilidades são ilegitimidades testamentarias ativas ou
passivas. Segundo Oliveira Ascensão e Pamplona Corte-Real as indisponibilidades (nominadas)
seriam ilegitimidades ativas. Segundo o Jorge Pinheiro Duarte a letra dos artigos que regulam
as indisponibilidades relativas nominadas acentua a vertente ativa (diz-se que a disposição é
nula), enquanto a letra do art.22º/3 da lei nº103/2009 de 11 de Setembro e do art.1650º/2,
acentua a vertente passiva.

De qualquer modo, as circunstancias de indisponibilidade têm de existir à data do testamento,


por acarretarem invalidade das disposições testamentarias (desvalor que pressupor
normalmente um vivio originário do negocio jurídico)

Consentimento
A lei cria um regime especial para o consentimento no negocio testamentário – art.2180º e
2199º a 2203º. No entanto, não se esgota aqui a matéria do consentimento do testador: são
subsidiariamente aplicáveis as regras gerias obre o consentimento do negocio jurídico
(art.240º-257º), adaptadas em função do caracter não recepticio do testamento.

O negocio testamentário exige uma vontade do testador, como podemos ver do art.2180º.
Sendo assim, a expressão da vontade do testador tem de ser clara e cumprida, imposição que
se não encontra para o negocio jurídico em geral.
Tem de haver uma existência de uma vontade negocial e a coincidência entre a vontade
negocial. A vontade deve ser também livre e esclarecida.

Falta de vontade negocial

O art.2199º regula a incapacidade acidental no negocio testamentário.


Basta a prova da incapacidade do testador: o requisito do conhecimento ou notoriedade da
incapacidade, previsto pelo art.257º, adequa-se somente aos negócios reptícios. Enquanto
causa da invalidade, a incapacidade acidental assume maior importância no testamento, uma
vez que apenas a interdição por anomalia psíquica e a menoridade obstam à capacidade
testamentaria ativa. O âmbito reduzido das incapacidades testamentarias ativas amplia o
âmbito de potencial aplicação da incapacidade acidental no testamento, que pode cobrir, alem
de situações transitórias de incapacidade (ex: consumo de álcool), situações permanente de
incapacidade (ex: demência notaria que não tenha sido judicialmente declarada)

As declarações não serias, a coação física e a falta de consciência da declaração importam a


inexistência do testamento, por força dos art.245º e 246º. No caso de declarações não serias e
de falta de consciência da declaração, o terceiro eventualmente prejudicado não pode exigir

20
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DIREITO DAS SUCESSÕES

uma indeminização, que seria paga pelos bens da herança do testador, independentemente
das circunstancias em que foi feita a declaração e da culpa do seu autor. A obrigação de
indemnizar prevista nos art.245º/2 e 246º só existe nos negócios com declaratório.

Divergências entre a vontade e a declaração

Simulação

Art.2200º fala da simulação.


Não havendo declaratório no negocio testamentário, ao cordo simulatório é efeito entre
testador e a pessoa aparentemente designada no testamento.
A disposição simulada é anulável, e não nula, o que introduz um desvio ao regime comum do
art.240º/2.

O art.2200º apenas aborda simulação relativa subjetiva, por interposição fictícia de pessoa.
Aplica-se, no entanto, à simulação absoluta e relativa objetiva as regras gerais. Nestes casos a
disposição testamentaria é anulável. Apesar do recurso subsidiário às soluções da Parte Geral,
o desvalor é a anulabilidade, e não a nulidade, para que se garanta a unidade de
consequências associadas à simulação testamentaria.

A disposição testamentaria dissimulada é válida, nos termos do art.241º/2. Para além disso a
própria lei permite-o no art.2259º/1. Ora, não obstante a simulação, o legatário terá o direito
de suceder na coisa ou soma deixada.
Todavia, a disposição testamentaria dissimulada que se traduzir numa interposição fictícia de
pessoa dificilmente será valida: normalmente, não consta do testamento o verdadeiro
beneficiário, pelo que falta um minino de correspondência entre o ato dissimulado e o
contexto do testamento (art.2187º).

Reserva mental

Ao abrigo do art.244º/2, segunda parte, é anulável a disposição testamentária contrária à


vontade real do testador que tenha sido feita com o intuito de enganar qualquer pessoa.
Dado o caracter não reptício do testamento, não têm cabimento as alusões ao declaratário,
que seja enquanto pessoa que o autor do negocio pretende enganar, seja enquanto pessoa
cujo conjecuemnto é condição de invalidade da declaração contraria à vontade real do seu
autor. Pelo mesmo motivo, para o JPD não parece que tenha direito a uma indeminização
aquele que confiou na validade da disposição testamentaria.

Erro na declaração

Art.247º-
O caracter não reptício do negocio testamentário afasta o requisito do conhecimento ou
cognoscibilidade da essencialidade do erro. Para haver anulabilidade de disposição
testamentaria, com fundamento em divergências não intencional entre a declaração e a
vontade do testador, basta que a essencialidade do erro resulte da interpretação do
testamento.
Não se aplica o art.248º (apenas para negócios reptícios). Aplica-se sim o art.2203º, que traduz
uma conversão legal de disposição anulável em outra que corresponde à vontade do testador.

Vícios na formação da vontade

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Ao abrigo do art.2201º é anulável a disposição testamentaria determinado por erro, dolo e


coação.

Erro-vício

O regime corresponde ao regime geral (art.251º-254º), com os ajustamentos impostos pelo


caracter não reptício do negocio e pelo art.2202º.
Requisitos:
o Essencialidade do erro – requisito geral – e essencialidade resultante do próprio
testamento
o Estabelecido no art.2202º. Em contraste com o que se verifica relativamente ao erro
na declaração testamentaria, não é admissível prova complementar da essencialidade
do erro-vicio. Este artigo só atribui ao erro-vicio o efeito de anulação quando “resultar
do proprio testamento que o testador não teria feito a disposição se conhecesse a
falsidade do motivo”

Não é condição de anulação do testamento:


o Conhecimento ou a cognoscibilidade da essencialidade do erro pelo beneficiário da
liberalidade
o O reconhecimento da essencialidade por acordo entre o beneficiário e o testador
o O conhecimento ou cognoscibilidade, pelo beneficiário, do dolo proveniente de
terceiro que tenha determinado a disposição testamentaria.

Dado o cariz não reptício do testamento, há que adaptar igualmente o regime do erro sobre a
base do negocio, constante do art.252º/2: será anulável a disposição testamentaria viciada por
erro sobre as circunstâncias que fundaram a decisão de testar.

Coação moral

Por força do art.2201º, é plenamente aplicável ao testamento o art.255º. É anulável a


disposição testamentaria determinada pelo receio de um mal de que o testador foi
ilicitamente ameaçado com o fim de extorquir a disposição. E tanto faz que a coação
provenha do sucessível designado ou de terceiro (art.256º). Não se impondo uma tutela do
declaratório, os requisitos da anulação do testamento são idênticos:
o Nunca é necessário que seja grave o mal e justificado o receio da sua consumação

Como o art.2202º se ocupa exclusivamente do erro-vicio, a essencialidade da coação moral


não tem de resultar do próprio testamento, sendo admissíveis prova complementar.

Exploração do estado de necessidade

Tanto na coação moral como na exploração do estado de necessidade, o receio de um mal


determina a declaração negocial. No entanto, na coação moral, o mal é causado para extorquir
declaração; na exploração da necessidade, há um mero aproveitamento de um mal fortuito ou
causado por alguém sem o intuito de extorquir a declaração.

Na falta de norma especifica, deve aplicar-se ao testamento o preceito geral do art.282º/1


preve a anulabilidade, por usura, do negocio jurídico, quando alguém explorando a situação de
necessidade de outrem, obtiver deste, para si ou para terceiros, a promessa ou concessão de
benefícios concessivos ou injustificados.

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Requisitos de forma do testamento

Generalidades

O testamento caracteriza-se pela solenidade, estando legalmente sujeito a um mínimo de


forma. Não é admissível um testamento meramente oral, que é designado como testamento
nuncpativo. A forma escrita é um requisito mínimo de validade do testamento. O testamento
oral é nulo (art.220º)
De acordo com o art.2204º há duas formas comum do testamento: o testamento publico e o
testamento cerrado. No entanto, foi introduzido na ordem juridica portuguesa o testamento
internacional, a que o Código do Notariado alude, a par do testamento publico e do
testamento.

Formas comuns do testamento


Testamento público
2204º
É lavrado por notário no livro de notas para testamentos públicos e para
escrituras de revogação de testamentos (art.2205º; art.7º/1/a) e 11º CN)
Depois de lavrado, é registado num livro próprio para testamentos e para atos
relativos a testamentos (art.7º/1/d) CN)
Não é feito por escritura publica
A escritura publica, com exceção da escritura de revogação de testamento é
lavrada no livro de notas para escrituras diversas e registados no livro de registo de
escrituras diversas (art.7º/1/b) e e), 12º CN)
O testamento público pressupõe a intervenção de testemunhas
instrumentarias (art.67º/1/a) e nº2 CN), o que não acontece na generalidade das
escrituras publicas
Se não visarem a revogação de testamento, as escrituras publicas não têm
caracter confidencial, ao contrario do que acontece com os testamentos públicos
(art.32º, em particular nº2, CN)

Testamento cerrado
2204º
O testamento cerrado é manuscrito e assinado pelo testador ou por outra
pessoa a seu rogo, ou manuscrito por outra pessoa a rogo do testador e por este
assinado (art.2206º/1; art.106º/1 CN).
A pessoa que assina o testamento deve rubricar as folhas que não contenham
a sua assinatura (art.2206º/3)
Este testamento deve ser aprovado pelo notário, nos termos dos art.106º a
108º do CN (art.2206º/4)
A existência de aprovação dos testamentos cerrados implica a nulidade do
testamento simplesmente escrito e assinado pelo testador, designado por testamento
olografo: art.2206º/5. Nem sequer é valido o testamento meramente escrito e
assisando pelo testador que contenha apenas deixas a título do legado, ainda que
sejam de pequeno valor, dito codicilo.
O notário que lavrar o instrumento de aprovação só pode ler o testamento
cerrada a pedido do testador (art.107º/1 CN).
O art.108º do CN regula as formalidades do instrumento de aprovação do
testamento cerrado – art.7º/1/d) CN

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DIREITO DAS SUCESSÕES

A data de aprovação de testamento cerrado é havida como dato do


testamento para todos os efeitos legais (Art.2207º), designadamente, para os efeitos
do art.2191º e da verificação do preenchimento de vários outros requisitos de fundo.
O testador pode conservar o testamento cerrado em seu poder, cometê-lo à
guarda de terceiro ou depositá-lo em qualquer repartição notarial – art.2209º/1
O art.2208º que as pessoas que não sabem ou não podem ler são inábeis para
dispor em testamento cerrado. Caso o façam o testamento e nulo.
O art.2208º justifica que a doutrina efetue uma interpretação ab-rogante do
art.2206º/2, na parte em que se alude à pessoa que não saiba assinar, com o
argumento de que não é concebível que quem saiba ler não saiba assinar.

Testamento internacional
É escrito pelo testador ou por terceiro, em qualquer língua, à mão ou por
outros meios, e elaborado nos moldes da Lei Uniforme sobre a Forma de um
Testamento internacional (art.1º/1 e 3º LUFTI).
Deve ser assinado pelo testador, a não ser que este esta impossibilitado de o
fazer (art.5º LUFTI).
Tem de ser certificado por pessoa habilitada a tratar das matérias relativas ao
testamento internacional (art.4º e 10º da LUFTI). O art.1º do DL nº177/79, de 7 junho,
veio designar as pessoas habilitadas.
O testador não é obrigado a informar a pessoa habilitado do conteúdo do
testamento (art.4º/2 LUFTI) e é aquele que cabe decidir quanto à guarda e
conservação do testamento – art.8º LUFTI
A data do testamento internacional é a data da assinatura do certificado
elaborado pela pessoa habilitada – art.7º LUFTI

O testamento cerrado e o testamento internacional são figuras afins: em ambos, o testamento


é escrito pessoalmente pelo testador ou por outra pessoa seu pedido, intervindo o notário (ou
agente consular) em momento posterior para o aprovar.
Para além disso, em ambos os instrumentos de aprovação ou deposito têm de ser registados
por notário num livro de registos proprio para testamentos e para atos relativos a testamentos
– art.7º/1/d/ CN
A lei impõe a intervenção de duas testemunhas instrumentarias nos instrumentos de
aprovação ou abertura em ambos os testamentos salvo dispensa pelo notário, no caso de
haver urgência e dificuldade em as conseguir, circunstância que deverá ser expressamente
mencionada no texto (art.67º/1/a), 2 e 3 CN)

O art.38º/1/2 do CN, regula a composição dos testamentos públicos e cerrados, das escrituras
de revogação de testamentos e dos instrumentos de aprovação de testamentos cerrados.
A comissão do testamento internacional e do seu instrumento de aprovação – o certificado – é
regulada pelos art.3º e 10º LUFTI.
O art.32º/2 CN impõe o principio da confidencialidade dos testamentos e das respetivas
escrituras de revogação, antes da abertura da sucessão.

Formas especiais do testamento


o Testamento militar
o Testamento marítimo
o Testamento feito a bordo de navio
o Testamento feiro em caso de calamidade publica

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Não é forma especial o testamento feito por português em país estrangeiro, embora se
encontre regulado no art.2223º, que está incluído na secção das formas especiais do
testamento.
O art.65º/1 determina que as situações em que as disposições por morte serão validas quanto
à forma.
A estatuição do art.65º é limitado pelo art.2223º. Tendo em conta a referencia a uma forma
solene, a doutrina dominante entende que a eficácia do testamento depende da observância
da lei estrangeira competente e da utilização de forma escrita coma. Intervenção de notário ou
de outra entidade dotada de fé publica.
Não se deve confundir este testamento do art.2223º com o testamento internacional; e que o
art.2223º só se aplica se o testamento feito no estrangeiro não tiver seguido uma forma
prescrita no direito português (ex: testamento internacional e testamento, publico ou cerrado,
lavrado ou aprovado por agente consular português)

A lei contém regras especificas e comuns para as quatro formas especiais.


As regras especificas do testamento militar figuram nos art.2210º a 2213º; do testamento
marítimo, nos art.2214º a 2218º; do testamento feito em caso de calamidade público, no
art.2220º. O art.2219º manda aplicar, com as necessárias adaptações, o regime do testamento
marítimo ao testamento feito a bordo de aeronave.
O preceituado nos art.2211º e 2212º para o testamento militar aplica-se às restantes formas
especiais (Art.2215º, 2219º, 2220º/1), pelo que todas as formas especiais comportam duas
subformas: testamento publico e testamento cerrado.
Normalmente, a competência para lavrar testamento público ou aprovar testamento cerrado,
incumbe ao comandante de unidade ou força militar, no testamento miliar. Ao comandante do
navio, no testamento marítimo; ao comandante da aeronave, no testamento feito a bordo de
aeronave; e a qualquer notário, juiz ou sacerdote, no testamento feito em caso de calamidade
pública.

Os art.2221º e 2222º fixam regras comuns às varias formas especiais.


Os testamentos especiais estão sujeitos a um prazo de eficácia, caducando dois após a
cessação da causa que obstava a que o testador usasse as formas comuns do testamento –
2222º/1.

Âmbito da forma legal: o testamento per relationem

Testamento per relationem – art.2184º. Este testamento é aquele que remete para outro ato
que, por seu turno, completa uma disposição testamentaria constante do primeiro
testamento.
Ex: testamento cerrado em que A diz que deixa a T os bens que indica num papel, que
está guardado no porta-luvas do automóvel; nesse papel alude-se ao automóvel e uma
bicicleta.

Numa interpretação declarativa e a contrario da segunda parte do art.2184º, a disposição


testamentaria remissiva em causa seria válida se o documento ao qual se reporta o
testamento per relationem tivesse sido escrito e assinado pelo testador com a mesma data ou
com a data anterior à do testamento. É partidário desta posição um setor doutrinário
(Guilherme de Oliveira, Pires de Lima, Antunes Varela) que não limita o alcance do art.2184º:
independentemente de se tratar de disposição testamentaria essencial, basta a remissão para
um documento escrito e assinado pelo testador, com a mesma data ou data anterior ao
testamento.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Para além disso, a mencionada disposição testamentaria remissiva só seria valida se o próprio
documento para o qual remete o testamento per relationem tivesse a forma de testamento
cerrado (ou outra prevista por lei para o testamento). É necessária uma restrição dos
resultados de uma interpretação a contrario doa t.2184º: as disposições testamentárias
essenciais devem observar uma certa dignidade formal, sob pena de carecer de sentido a
prescrição de forma legal para os testamentos (Oliveira Ascensão, Pamplona Corte-Real)

O testamento per relationem tem exigências formas que limitam a sua relevância. Essas
exigências compreendem compreendem as disposições testamentarias essenciais, que são
aqueças que correspondem às que, em regra, têm de ser feiras pessoalmente pelo testador –
art.2182º/1. Quanto às disposições testamentarias essências, só será valida a remissão para
documento que observe as formas legais do testamento, a forma de escritura de documento
particular autenticado.
Embora a escritura publica não seja uma forma comum de testamento formalmente
adequando, a sua admissibilidade excecional não colide com a razão de ser das exigências
formais no domínio testamentário. O mesmo se aplica ao documento particular autenticado –
DL nº116/2008, de 4 de Julho.

Quanto às demais disposições testamentarias, elas serão válidas se a remissão for feita, pelo
menos, para documentos escritos e assinados pelo testador com a mesma data ou com data
anterior à do testamento ( interpretação declarativa e a contrario da segunda parte do
art.2184º). Ex: um testamento cerrado que remeta a determinação do objeto de um legado
para um documento meramente escrito e assinado pelo testador, contendo uma disposição
testamentária essencial, é nulo, por força de uma interpretação restritiva a contrario do
art.2184º. Além disso, a eventual disposição testamentária que especifica a coisa legada e para
a qual remete o testamento cerrado será nula, nos termos do art.2206º/5

Interpretação e integração do testamento

Interpretação do testamento
O art.236º a 238º regem a interpretação do negocio jurídico em geral, mas o art.2187º inclui
normas especiais de interpretação do testamento, pelo que só na insipiência destas se justifica
o recurso às normas gerais de interpretação do negocio jurídico e desde que as ultimas não
colidam com as características do negocio testamentário.

Consagrasse no art.2187º/1 uma orientação subjetivista. A interpretação do testamento visa a


deteção da vontade real do testador.
No entanto, o testamento é feito num momento para produzir efeito noutro (o da data da
morte do testador). Por conseguinte, importa apurar a vontade do testador.
A verdade é que a vontade do autor da sucessão, está limitada pelo “contexto do testamento”
(art.2187º/1).
Deste modo, ao abrigo do art.2187º/2 é admitida prova completamente extrínseca ao
testamento (ex: documental ou testemunhal), para fixar a vontade real do de cuius subjacente
à declaração negocial “mas não surtirá qualquer efeito a vontade do testador que não tenha
no contexto um mínimo de correspondência, ainda que imperfeitamente expressa”
A palavra “contexto” no art.2187º/2 obriga a uma interpretação eu se não circunscreva a
palavras ou disposições testamentarias isoladas; é preciso atender ao teor de todo o
testamento.
O art.2187º/2 desvia-se da solução contida no art.238º/1.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

O art.236º, marcado por uma orientação objetivista e pela teoria da impressão do


destinatário, não aprece muito adequando ao testamento, que não é um negocio reptício e
deve ser interpretado com base nos critérios do art.2187º. Todavia, na impossibilidade de
alcançar a vontade real do de cuius dentro do contexto do testamento, a logica de
aproveitamento do ato legitima, como processo derradeiro de salvaguarda da eficácia do
negocio, que se atribua ao testam-no o sentido que uma pessoa normal possa deduzir do que
foi declarado. Ou seja, valerá a interpretação do contexto que se mostrar mais razoável.

O art.237º escabele que, havendo duvida sobre o sentido da declaração nos negócios
gratuitos, prevalece o menos gravoso para o disponente. Se da interpretação efetuada com
base no art.2187º resultar uma duvida entre dois ou mais sentidos, não pode entregar-se à
sorte a escolha de um deles nem se concluir pela existência de um impasse que retira qualquer
eficácia à clausula testamentaria. Afigura-se plausível o recurso ao critério constante do
art.237º

O art.238º/2 admite aa relevância de um sentido da declaração que não tenha um mínimo de


correspondência no texto do respetivo documento, ainda que imperfeitamente expresso, se
traduzir a vontade real das partes e as razões determinantes da forma do negocio se não
opuserem a essa validade. Se substituirmos a referencia a “texto” pela de “contexto”, o
art.238º/2 tem cabimento para as disposições testamentarias não essenciais, subtraídas que
estão ao fundamento da exigência legal de uma forma especial para o testamento.

Os art.2225º a 2228º, 2260º, 2262º, 2263º e 2274º contém normas interpretativas de


disposições tramontarias. Estas normas fixam o sentido das clausulas na falta de clareza ou
precisão do testador, distinguindo-se das que estão inscritas no art.2187º, que definem a
orientação que deve presidir à atividade do intérprete.

Os art.2225º a 2228º resolvem duvidas atinentes à identificação e ao modo de chamamento


dos beneficiários das liberalidades testamentarias.
o Art.2225º
o Art.2226º - ex: se o de cuius deixar a quota disponível aos seus descendentes, serão
beneficiários apenas os filhos do testador e a quota disponível será divida entre eles
por cabeça (Art.2133º/1, 2135º e 2136º)
o Art.2227º - ex: o de cuius diz no testamento “Deixo a quota disponível ao meu irmão e
aos meus sobrinhos”. Sobrevivem ao autor da sucessão o irmão e dois sobrinhos.
Entendendo-se que todos foram individualmente designados, a quota disponível é
divida em três partes iguais. Isto difere de uma designação dos sobrinhos tida como
coletiva: aos dois sobrinhos caberia, em conjunto, metade da quota disponível e,
portanto, cada um obteria u quarto dessa quota (em vez de um terço, decorrente da
aplicação do art.2227º, que procede supletivamente a um tratamento igualitário dos
chamados por via testamentaria).
o Art.2228º - ex: o de cuius deixa a quota disponível a António e aos respetivos filhos. No
momento da abertura da sucessão, é chamada simultaneamente Antónia e os seus
três filhos, dividindo-se a quota disponível por cabeça entre os quatro sucessíveis. Não
havendo qualquer indicação, afasta.se a situação de chamar Antónia no momento da
morte do testador e de chamar os filhos daquela nos casos de a mão não poder ou não
querer aceitar a herança, ou dela morrer após aceitação.

27
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DIREITO DAS SUCESSÕES

O art.2260º estabelece que o legado feito a favor de um credor , mas sem que o credor refira a
sua divida, não se considera destinado a satisfazer essa divida.

Os art.2262º e 2263º esclarecem duvidas quanto ao objeto de legados testamentários.

O art.2274º dispõe que o legado deixado a um menor para quando atingir a maioridade não
pode ser por ele exigido antes desse tempo, ainda que seja emancipado

Integração das lacunas do testamento

O art.239º estabelece a regra geral em caso de lacuna do negocio jurídico.

Na falta de norma legal especifica, a razão determinante do cariz particularmente formal do


negocio testamentário e o art.2198´não autorizam a integração quanto a aspetos essenciais da
sucessão testamentário (devem ser regulados pelo proprio testador – 2182º/1), isto é
defendido por Corte-Real. Diferentemente Oliveira Ascensão há várias situações de
suprimento de elementos essenciais, sem que haja norma especifica. Contudo as situações
enunciadas (“saltos no textos”, disposições implícitas no proprio testamento) parecem situar-
se mais no domínio da interpretação do que integração.

Um exemplo raro de norma que preve a integração de aspetos essenciais da sucessão


testamentaria resulta a contrario do art.2185º. Havendo instituição de herdeiro ou nomeação
de legatário feita a favor de pessoa incerta, admite-se a determinação do beneficiário “por
algum modo”. Por exemplo, o testador legal certo móvel à pessoa que há muitos anos lhe
salvou a vida, quando no rio estava prestes a afogar-se, mas não chega a indicar o nome dessa
pessoa. A deixa do legado é valida se se puder identificar o sucessível por meia de prova que
não tenha um minino de correspondência no contexto do testamento.

No que toca a pontos secundários, instrumentais, não essenciais (ex: depois de ter
determinado que o cargo de testamenteira era renumerado, o testador não fixo o valor da
retribuição), o testamento é passível de ser integrado de harmonia com a vontade de que o de
cuius teria tudo se houvesse previsto o ponto omisso. O art.239º será então relevante, na
parte que estabelece a integração mediante recurso à vontade hipotética do autor do negocio.

Certos negócios bilaterais validos que se não enquadram, à primeira vista, na apontada
definição de negócios sucessórios apresentam relevância sucessória ou desempenham uma
função de atribuição patrimonial muito parecida com a das deixas testamenteiras e pacticias.

Os ditos negócios bilaterais válidos, que têm diversas manifestações e ocupam um papel
preponderante no domínio do Direito Patrimonial, suscitam uma interrogação: não serão eles
afinal pactos sucessórios não abrangidos pela previsão do art.1700°, n°1, dando corpo a uma
sucessão contratual anómala?

A questão põe-se relativamente a certas doações em vida e a um conjunto de contratos que se


podem chamar a “institutos alternativos ao testamento”

As doações em vida têm reflexos sucessórios: o seu valor integra a massa de cálculo que
permite o apuramento do montante da herança legitimaria (2162.º/1) e da herança contratual
(1702.º/1); após a morte do doador, a sua eficácia pode ser total ou parcialmente atingida, a
requerimento dos herdeiros legitimarias (art.2168.º e ss. sobre a redução por inoficiosodsde).

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Além disso, aplicam-se às doações em vida, com ou sem adaptações, regras da sucessão
testamentaria (art.949.º/1, 953.º, 962.º/2, 967.º).

Dentro de uma lógica dicotômica que é frequentando pensamento jurídico, impera a


contraposicao que é feita entre atos mortis causa e atos inter vivos, excluindo a existência de
atos mistos. À luz do critério que animal tal bipartição, estas e outras doações em vida são
forçosamente atos inter vivos, dado momento em que produz aquele que é o efeito principal
das liberalidade contratuais (954.º/a)) - a atribuição ao donatário de um direito sobre os bens
doados. Nas doações em vida, o donatário adquire, em vida do doador, um direito sobre os
bens doados, embora esse direito possa eventualmente ficar condicionado à morte do
dispondo-te ou ser diferido para a data da morte dele.
Apesar das fragilidades do raciocínio jurídico dicotômico, aceita-se, por enquanto, o aludido
enquadramento das doações em vida. Seja como for, é de sublinhar as particularidades das
doações em vida imputáveis na quota indisponível.

As doações feitas a sucessíveis legitimarmos prioritários tendem a ser imputaras na legítima


subjectiva do donatário, preenchendo, por conseguinte, a respeitava quota hereditária de
modo antecipado. Não sendo globalmente qualificáveis nem como pactos sucessórios nem
como atos mistos, o certo é que as doações em vida imputáveis na quota indisponível têm um
componente de pacto sucessório renunciativo: ao aceitar uma proposta de doação, o
legitimaria aceita que a totalidade ou parte da sua quota hereditária injustiça seja
antecipadamente preenchida, renunciando à intangibilidade qualitativa da legítima.
A deteção de um componente pacticio nas doações em vida imputáveis na legítima subjetiva
do beneficiário não implica a sua nulidade: o art.2028.º/2 permite os contratos sucessórios
admitidos na lei e a lei regula as doações imputáveis na quota indisponível, pressupondo que
são válidas (art.2104.º e ss. Relativos a doações colacionáveis)
Conteúdo do testamento

Conteúdo pessoal e conteúdo patrimonial

O testamento pode ter conteúdo patrimonial ou conteudo pessoal.


O art.2179º/2 determina que são validas ainda que no ato revestido de forma testamenteira
em que estejam contidas não figurem disposições de caracter patrimonial.

Disposições de caracter não patrimoniais são:


• perfilhação, pode-se fazer por testaento, nos termos do art.1853º/b, e é sempre irrevogável,
não sendo prejudicada pela revogação do testamento em que tenha sido feita (art.1858º)
• declaração de maternidade incluida em testamento goza de eficácia constitutiva do vinculo
de filiação, ao abrigo dos art.114º/1 e 129º CRC
• designação de tutor ao filho menor feita em testamento, pelos pais titulares do exercício das
responsabilidades parentais, é válida, por força do art.1928º/3. A designação carece de ser
judicialmente confirmada (art.1931º/1). Quando, falecido um dos progenitores que houver
nomeado tutor ao filho menor, lhe sobreviver o outro, a designação será eficaz se não for
revogada por este no exercício do poder paternal (art.1928º/2). Se o testador nomear mais
de um tutor para o mesmo filho menor, a tutela recairá em cada sim dos designadores
segundo ordem de nomeação, quando a procedência entre eles não for de outro modo
especificada (art.1929º).
Estas regras aplicam-se com as necessárias adaptações, ao filho interdito - art.138º/2, 139º,
143º/1/b
A designação do tutor feita pelos pais pode ser revogada por testamento - art.1928º/3

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• Sufrágios ou a favor da alma que constem de testamento são válidas quando o tentador
designe os bens que devem ser utilizados para esse fim ou quando seja possível determinar
a quantia necessária para o efeito, recaindo o encargo correspondente sobre o herdeiro ou
legatário (art.2224º).

A doutrina (Guilherme de Oliveira, Oliveira Ascenção, Pires de Lima) apresentam outros


exemplos de disposições de carácter não patrimonial que a lei claramente permite inserir no
testamento:
• Erecção de pessoa coletiva, nomeadamente a instituição de uma fundação (art.185º/1)
• Confissão extrajudicial - art.385º/4
• Designação de administrador de bens, bem como a respetiva revogação - art.1967º e
1968º
• Deserdação (Art.2166º/1)
• Reabilitação de sucessível indigno ou deserdado - art.2038º e 2166º/2
• Revogação do testamento (art.2312º a 2316º)
• Nomeação de testamenteiro (art.2320º)

Efetivamente não há obstáculos à inclusão em testamento destas disposições que a doutrina


considera destituídas de carácter patrimonial. No entanto, pode ser questionável a sua
arrumação no campo exclusivamente pessoal, dado o efeito que elas têm - normal ou
predominantemente patrimonial.

A letra do art.2179º/2 não deve levar a crer que só podem figurar num testamento as
disposições cuja inclusão seja permitida, expressa ou tacitamente, por um certo preceito legal.
Vigorando um principio geral de liberdade negocial, deve optar-se por uma interpretação que
não seja demasiado literal. A lei permite inserir no testamento todas as disposições de carácter
não patrimonial cuja inclusão não seja vedada, direta ou indiretamente, pela própria lei.
Ex: não é admissível que, num ato revestido de forma testamentaria, se impugne uma
perfilhação ou que se adopte uma criança, ká que o formalismo imposto para a perfilhação ou
adoção (processo que culmina numa sentença) é distinto daquele que é prescrito para o
testamento.

Em principio, o testamento pode versar as situações de caracter não patrimonial susceptíveis


de serem exercidas por até unilateral do seu titular. ex: disposições sobre o funeral, sobre o
próprio corpo.

No, ambito do conteudo patrimonial, é de destacar duas distinções: uma que contrapõe o
conteúdo principal ao acessório; outra, que separe o conteúdo comum do anómalo.
As deixas a título de herança ou legado cabem no conteúdo principal. Se o autor da sucessão
fizer uma deixa testamentaria em que atribui pura e simplesmente uma quota da herança,
essa quota será quantificada tendo por base o R, deduzido do P.

O conteúdo acessório abarca as condições, termos e modos.

O conteúdo anómalo é o que se demarca do normal, incluido o conteúdo acessório, a


instituição de fundações, a substituição direta e a substituição fedeicomissária.
A instituição de fundações por testamento implica a afetação d num património a
uma pessoa coletiva a crirar, mediante deixa a título de herança ou de legado.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

As substituições direta e fideicomissária traduzem-se em estipulações do testador


destinadas a originar vocações de sucessíveis que estão sujeitas a clausulas acessórias
peculiares: no caso de substituição direta, um sucessível (o substituto) é chamado a suceder
numa herança ou num legado sob condição susprensiva, que se verifica quando outro
sucessível ( o substituído) não possa ou não queira aceitar a herança ou o legado; no caso de
substituição fideicomissária, um sucessível (o fiduciário) é chamado a suceder numa herança
ou num legado, sob termo incerto (a sua própria morte), e outro sucessível (o fideicomissário)
é chamado a suceder numa herança ou legado sob condição suspensiva, em que a condição
consiste na morte do primeiro sucessível em vida do segundo.

Legados

Modalidade de legados com base na classificação romancista


• Legado per vindicationem implica a atribuição da propriedade ou de outro direito real
• Legado per damnnationem atribui ao legatario um direito de crédito contra o herdeiro

Modalidade de legados com base na classificação de Galvão Telles


• Legados disoisitivos que se traduzem numa diminuição do ativo da herança e podem ser:
legados de direitos, reais ou de crédito, preexistentes como tais no património do de
cuias (ex: deixa de coisa pertencente ao autor da sucessão); legados de direitos novos
formados à custa de direitos preexistentes no património do falecido (ex: deixa de
usufruto de um bem que pertencia ao de cuius); legados de exoneração de obrigações (o
de cuius beneficia o legatário perdoando-lhe uma divida que este tinha para com ele).
• Legados obrigacionais acarretar aumento do passivo hereditário: o legatário adquire um
direito perfeitamente novo, que nem foi constituído à custa de um direito preexistente
do autor da sucessão (ex: legado de coisa pertencente a terceiro, quando o testador
sabia quem era o proprietário da mesma)

Os arts. 2269º e 2271º contêm normas supletivas aplicáveis aos legados dispositivos de
direitos reais.

O art.2272º regula também um legado dispositivo de direito real, o legado de coisa onerada: a
coisa legada onerada com alguma servidão ou outro encargo que lhe seja inerente é aquirida
pelo legatário com o mesmo encargo; mas são pagas por conta da herança as dívidas relativas
a foros ou outras prestações atrasadas, bem como as dívidas asseguradas por hipotecas ou
outra garantia real constituída por hipoteca.

O art.2261º refere-se ao legado de crédito, que é um legado dispositivo de direito de crédito.


O art.2273º trata de mais um legado dispositivo de direito de crédito, o legado de prestação
periodica, género que inclui o legado de alimentos.
O art.2258º preve normas supletivas para o legado de usufruto, legado dispositivo de direito
novo. Na falta de indicação em contrario, considera-se que a deixa de usufruto é feita
vitaliciamente ou, se o beneficiário for uma pessoa coletiva, por trinta anos.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Modalidade de legados com base na classificação que separa legados em típicos e atípicos,
consoante estejam ou não tipificados na lei

Já mencionamos alguns legados típicos, tais como, os legados de coisa onerada, de crédito, de
prestação periodica, de alimentos e de usufruto. Convém agora destacar outros:

• Legado de coisa alheia - regulado nos art.2251º, 2252º, 2254º e 2256º. Neste tipo de
legado, o testador deixa uma coisa que, no todo ou em parte, não lhe pertence. Pode
tratar-se de uma coisa pertencente ao próprio legatario, ao onerado com o prórpio
legado ou a terceiro. Ou de uma coisa que pura e simplesmente não se encontra no
património do testado ao tempo da sua morte. Em regra, o legado de coisa alheia é nulo.
Mas há exceções:
• 2251º/3
• É valido a disposição feita pelo testador casado que tenha por objeto coisa certa
e determinado do património do casal, nos termos do art.1685º/3. Não se
aplicando uma das alíneas deste numero, beneficiário adquire apenas o direito
de exigir o respetivo valor em dinheiro - art.1685º/2.
• É valido o legado de uma coisa que não pertencia por inteiro ao testador em
relação à parte que lhe pertencer (art.2252º/1/1ª parte). E será totalmente
válido se do testamento resultar que o testador sabia não lhe pertencer a
totalidade da coisa (art.2252º/2/2ªparte)
• Se o testador lefar uma coisa, com a declaração de que aquela coisa existe no
seu patrimonio, e se ela se encontrar no património de de cuius, mas não na
quantidade legado, haverá ao legatário o que existir - art.2254º.
• É valido o legado de coisa pertencente ao proprio legatário (Art.2256º/2) se à
data da aberuyta da sucessão, a coisa pertencia ao testador; em se a esse
tempo, pertencia, ao sucessor onerado com o legado ou a terceiro e do
testamento resultar que a deixa foi feita na previsão deste facto.
• É válido o legado pertencente ao sucessor onerado ou a terceiro, se do
testamento se depreender que o tentador sabia que não lhe pertencia a coisa
legada - art.2251º/2. Neste caso, há que atender ao disposto nos nº2 e 4 do
art.2251º, regime que também é aplicável ao legado de coisa que não pertencia
por inteiro ao testador, quando do testamento resultar que o testador sabia não
lhe pertencer a totalidade da coisa (art.2252º/1 in fine), e ao legado de coisa
pertencente ao próprio legatario, se à data da abertura da sucessão pertencia ao
sucessor onerado com o legado ou a terceiro e do testamento resultar que a
deixa foi deita na previsão deste facto (art.2256º/3). Por forla do nº2 deste
artigo, a satisfação do legado incumbe ao sucessor onerado com o encargo.

• Legado de coisa generica - tem por objeto uma coisa indeterminada de certo género (ex:
um automóvel)
• 2266º
• Se a escolha pertencer ao sucessor onerado ou legatário, e um e outro falecer
sem a ter efetuado, transmite-se essa faculdade aos herdeiros.
• Se não houver coisa do género que foi deixada no património do testador à data
da sua morte, a deixa será valida enquanto legado de coisa alheira, a não ser que o
testador tenha feito a liberdalidade com a declaração de que a coisa existia no seu
patirmonio, caso em que será nula - 2253º.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• O legado alternativo tem por objeto duas ou mais coisas, ou prestações para que
seja escolhido apenas uma. A liberalidade é válida, estando subordinada ao
regime, devidamente adaptado, das obrigações alternativas - art.2267º. Tal como
no legado de coisa generica, se a escolha da coisa ou prestação pertencer ao
sucessor onerado ou ao legatário, e um ou outro falecer sem a ter efetuado,
transmite-se o direito de escolha aos seus herdeiros . art.2268º.

Disposições condicionais, a termo e modais

Em regra, permite-se a instituição de herdeiro ou a nomeação de legatario sob


condição suspensiva ou resolutiva - art,2229º
Se a instituição de herdeiro viu a nomeação de legatário for efetuada sob condição de
o designado não dar certa coisa ou não praticar certo ato por tempo indeterminado, a
disposição considera-se deita sob codição resiolutiva, a não ser que o contrario resulte do
testamento - art.2234º
Os efeitos do preenchimento da condição, suspensiva ou resolutiva, retrotraem-se
imperativamente à data da morte do testador - art.2242º/1. A retroatividade será limitada nos
termos dos nº2 e 3 do art.277º (Art.2242º/2).

A obrigação de prestar caução pode ser imposta pelo tribunal, nos casos previstos no
art.2236º/1/2 e desde que o testador não tenha dosºensado o sucessível designado de tal
obrigação. Se a caução não for prestada, a herança ou legado durante a pendência da
condição é posta em adminsitração - art.2237º/2.

Também é posta em administração a herança deixada sob condição suspensiva, até


que a condição se cumpra ou haja a certeza de que não pode cumprir-se - art.2237º/1.

Os art.2238º e 2239º referem-se à administração da herança ou legado, nas hipóteses


de incumprimento da obrigação de prestar caução e de instituição do herdeiro sob condição
suspensiva.

A instituição de herdeiro ou nomeação de legatario não é, normalmente, prejudicado


por causa de condições ilícitas ou impossiveis, tal como acontece no regime geral. Apenas
estas condições é que são nulas (“tidas como não escritas”).
Mas se as condições testamentarias forem física ou legalmente impossíveis, é
atenuável a declaração de vontade do testador que exclua a subsistência da disposição
principal - art.2230º/1.
Se forem condições contrárias à lei ou à ordem públuca, ou ofensivas dos bons
costumes, a disposiçãi princpal é imperativamente válida, salvo o disposto no art.2186º
(art.2230º/2)-
A lei dá exemplos de condições contrarias à lei no art.2232º e 2233º. É também
contrária à lei a chamada condição captatória - art.2231º. A solução para essa condição
demarca-se daquela que está consagrada para as demais condições testamentárias ilicitas,
sendo idêntica à que resulta do regime mais geraç - art.271º/1.

A instituição de herdeiro não pode ser sujeita as termo. O termo aponta à deixa a
título de herança tem-se por não escrito - art.2243º/2.
A nomeação de legatário não pode ser sujeito a termo inicial, exceto se a disposição
principal versa sobre direito temporário. Não se verificando esta exceção, o termo final é nulo
- art.2243º/2. Ou seja, a inadimissibilidade dos termos não prejudica as disposições principais.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A nomeação de legatario pode ser sujeita a termo inciail, mas a clausula acessória terá
um efeito peculiar - art.2243º/1: o nomeado adquire o direito legado antes do prazo
estipulado, suspendendo-se somente a execução da disposição principal.

Tanto a insituição de herdeiro como a nomeação de legatário podem ser sujeitas a


disposições modais, modos ou encargos - 2244º -, que são obrigações a cargo do beneficiario
da liberalidade.
O encargo distingue-se da condição suspensiva: o encargo não impede a produção de
efeitos da disposição testamentaria, epans vincula o beneficiário a adotar um determinado
comportamento.
O encargo distingue-se da condição resolutiva: no caso da condição, a liberalidade é
configurada pelo autor dcomo um mero instrumento para obter uma finalidade; no encargo, o
autor quer beneficiar alguém com uma atribuição patrimonial, mas aproveita para alcançar um
objetivo.
O art.2245º manda aplicar aos encargos impossíveis e ilícito o disposto sobre
condições testamenteiras impossíveis e ilícitas. E o tribunal de acordo com o art.2246º quando
considere justificado e o testador não tenha disposto coisa diversa, pode impor ao sucessível
testamentário onerado pelas disposições modais a obrigação de prestar caução.
O art. 2247º fala do caso de o herdeiro ou legatario não satisfazer os encargos.
O art.2248º aborda a resolução da disposição testamentária. Por conseguinte, o efeito
comum do incumprimento do encargo não é a resolução do negócio, aspeto que revela a
separação entre esta clausula acessória e a condição resolutiva.
Verificando-se um dos dois fundamentos de resolução do negocio testamenteiro pela
não satisfação do modo, o art.2248º/3, estabelece que “o direito de resolução caduca
passados cinco anos sobre a mora na satisfação de modo e, em qualquer caso, decorridos
vinte anos sobre abertura da sucessão”.
Ocorrendo a resolução, o encargo deve ser cumprido, nas mesmas condições, pelo
beneficiário da resolução, alvo se outra coisa resultar do testamento ou da natureza da
disposição.

Instituto das fundações

As fundações podem instituidas por testamento.


No ato de instituição testamentaria, o de cuius deve indicar o fim da fundação e
especificar os bens que lhe são destinados - art.186º/1. A dotação patrimonial mortos causa da
futura pessoa coletiva pode ser feita mediante uma deixa a título de herança ou de legado.
O ato de instituição da fundação não pode ser revogado pelos herdeiros do testador,
mas a dotação patrimonial resultante de testamento não está imune ao instituto da redução
de liberalidade (art.185º/3)
Após a morte do testador, na falta ou insuficiencia dos estaturos, compete as pessoas
enumeradas no art.187º. Na elaboração parcial ou total dos estatutos ter-se-à em conta, na
medida do possível, a vontade real ou presumível do de cuius.
Após abertura da sucessão, o reconhecimento da fundação vale como aceitação dos
bens e direitos que lhe foram destinados (art-1888º). Efetivamente, o reconhecimento da
fundação é condição de aquisição de personalidade jurídica (Art.158º/2) e, assim, de aquisição
dos bens atribuídos por via testamentária.
O reconhecimento da fundação instituida por testamento pode ser requerido pelos
herdeiros ou executores testamenteiros do testador/instituidor, ou ser oficiosamente
promovido pela autoridade competente - art.188º/1. O reconhecimento é negado nos casos
do art.188º/3/a) e b). Na alinea b), os bens que o testador tinha destinado à fundação serão

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

entregues a uma associação ou fundação de fins analogos, que a entidade competente


desiganr, salvo disposição do instituidor em contrário - art-188º/5

Ineficácia lato sensu do testamento


Inexistencia e invalidade do testamento
As situações de inexistência de testamento correspondem às do negócio jurídico em
geral e estão submetidas ao regime geral: as dispoisições testamenteiras juridicamente
inexistentes não produzem qualquer efeito; a inexistência pode ser invocada por
qualquer pessoa a todo o tempo, independentemente de declaração judicial.

Nas situações de invalidade, a lei estabelece regras especiais para o testamento.


A estatuirão especifica de causas de invalidade ocorre a partir do art.2179º,
encontrando-se logo um caso no art.2180º.
No entanto, também há situações em que a lei estabeleceu proibições sem ter fixado
as consequências da infração. Ex: 2181º, não podem testar no mesmo ato duas ou mais
pessoas. Se duas pessoas ou mais pessoas testarem no mesmo ato, qual será o
desvalor? Nulidade? Anulabilidade?
O regime proprio de arguição e sanação de invalidadas do testamento de disposição
testamentária refere-se à nulidade e à anulabilidade.
O art.2308º/1 abord ao prazo da ação de nulidade. Por conseguinte, esta nulidade
especial demarca-se da nulidade típica, feral, em dois aspetos: a nulidade típica é invocável a
todo o tempo por qualquer interessado e pode ser declarada oficiosamente pelo tribunal
(art.286º). A nulidade testamentaria atípica está sujeita a prazo, por ter prazo, e um prazo que
depende da data em que o interessado teve conhecimento do testamento, não pode ser
declarada oficiosamente pelo tribunal.
Por sua vez, o art.2308º/2 determina a ação de anulabiliade. Na anulabilidade atípica,
a arguição deve ser feita dentro do ano subsequente à cessação do vício que lhe serve de
fundamento.
As regras de suspensão e interrupção da prescrição aplicam-se aos referidos prazos de
arguição d invalidardes testamentárias atípicas (art.2308º/3), que, porém, são prazos de
caducidade.
Apesar da livre revogabilidade do testamento, a invalidade pode ser invocada em vida
do de cuius (ex: para obstar à entrega de bens a legatários no caso de curadoria definitiva)
Para efeitos de arguição das invalidades, são interessados todos os que serão
chamados a suceder se o testamento ou a disposição for invalidade.
O art.2310º atribui caracter imperativo ao regime de arguição das invalidades.
O art.2309º estabelece um regime própria de confirmação, isto significa que a
nulidade testamentaria atípica é susceptível de confirmação, confirmação que não é
admissível para a nulidade tipica, Além disso, essa confirmação distingue-se da que está
regulada no art.288º, por não sanar plenamente a invalidade: a confirmação feita por um
interessado impede apenas que ele venha invocar a invalidade testamentaria atípica em
apreço; não extingue o direito de arguição que hipoteticamente assina a outros interessados.

A relevancia da invalidade testamentaria atípica, nulidade ou anulabilidade, está inteiramente


dependente da ação ou omissão dos particulares. São eles os únicos que a podem invocar. E a
eles cabe também a faculdade de sanar a invalidade típica da dispiosiçaõ testamentaria,
mediante ato de confirmação ou decisão de não arguir a nulidade ou anulabilidade dentro do
prazo fixado pela lei.

35
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Guilherme de Oliveira não admite a confirmação de todas as disposições testamentárias nulas.


Não seriam suscetivwis de confirmação, nomeadamente: as dispoisições contrários à ordem
publica e aos bons costumes, as disposições de carecter pessoal contrárias à lei, como uma
perfilhação de um nascitura antes da conceção. .
Oliveira Ascensão considera que “se há um mero escrito particular que o de cuius designou
testament, não se pode supor a caducidade de ação ou a confirmação”, pelo que tal
testamento seria inexistente. Isto, não obstante o que decorre do art.2206º/5.
Um acordo da relação de Lisboa de 30/10/2007 julgou ser inadmissível a transação numa ação
destinados a obter declaração de nulidade de um testamento, porque dar sem efeito um
testamento não materializa um direito disponível.
Para Jorge Pinheiro Duarte, não se pode dizer que a nulidade tipica, sem prazo e susceptível de
conhecimento oficioso, regulado no art.286º, não se aplica ao negocio testamentário. Essa
nulidade afeta as disposiç~poes testamenteiras condicionais ou modais, ilícitas ou impossíveis,
que se têm por não escritas (art.2229º e 2245º). E tem de aplicar-se às disposições
testamenteiras principais ilícitas (art.280º/1), impossíveis (280º/2), essencialmente
determinadas por um fim ilíticito (art.2186º) ou que não observem a forma legalmente
prescrita (art.220º 2206º/5)

Na falta de atribuição especifica, qual será então a consequência da infração de uma


determinada norma legal relativa ao negócio testamentário? Normalmente, a nulidade
(art.294º), mais precisamente a nulidade atipica, criada que foi especialmente par ao negocio
testamentario. Nas situações menos graves, em que se afigure excessivo o prazo de arguição
da nulidade atipica, terá sentido a anulidade atípica. E nas situações em que se afigure
incompatível a entrega da relevância da invalidade à iniciativa dos interessados, só poderá
haver nulidade tipica.

Seguindo a mencionada orientação, o desvalor que se ajusta ao testamento de mão comum -


art.2181º - é a nulidade atípica.

Revogação do testamento

A remoção corresponde a um ato jurídico do autor pelo qual ele manifesta vontade extinguir o
negócio que realizou. A revogação é um modo de extinção e de ineficácia do negócio juridico,
que se demarca da caducidade.

O art.2179º/1 define o testamento como um ato revogável. O art.2311º/1 proíbe a renuncia


do testador à faculdade de revogar o testamento. O nº2 do mesmo artigo estabelece que se
tem por não escrita qualquer clausula testamentaria que contrarie a faculdade de revoação.
Por conseguinte, fixa-se uma nulidade tipica.
Destingue-se revogação total da revogação parcial como alude o art.2311º/1.

Por outro lado, em termos do modo de operar da revogação do testamento, temos 3


modaliades: expressa, tácita e real. A terceira modalidade é especifica do negocio
testamentário que, em sede gral, não é autonomizada da revogação tácita
• Há revogação expressa de um testamento quando o testador declara, num testamento
posterior ou em escritura pública subsequente, que revoga no todo ou em parte aquele
testamento - art.2312º
A escritura tem de ser lavrada pelo notário no livro de notas para testamentos públicos
e para escrituras de revogação de testamentos e não, como a generalidade das escrituras
publicas, no livro de notas para escrituras diversas - art.7º/1/a), 11º e 12º CN. Além disso, é
exigida a intervenção de duas testemunhas isntrumentárias, que pode ser dispensada pelo

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

notário, no caso de haver urgência e dificuldade em as conseguir, devendo fazer-se menção


expressa desta circunstancia no texto - art.67º/1/a), 2 e 3 CN.
• Há revogação tácita de um testamento quando o mesmo autor faça um testamento
posterior incompativel (art.2313º/1). Se aparecerem dois testamentos incompatíveis com
a mesma data, haver-se-ão por não escritas em ambas as disposições contraditórias
(2313º/2).

O art-2314º regula os efeitos da revogação do testamento que, por seu turno, tenha efetuado
uma revogação expressa ou tácita de outro. Por exemplo, o de cuius faz três testamentos: no
primeiro, nomeia B herdeiro de metade do seu património e lega C o bem x; no segundo deixa
a D o mesmo bem X; no terceiro, declara que revoga o testamento anterior. Após morte do
testador, será eficaz o legado em favor de C?
De acordo com o art.2314º, vigora a regra de que a revogação do testamento revogatório não
prejudica a revogação efetuada por este testamento. Ou seja, no exemplo dado, o legado do
primeiro testamento não produz qualquer efeito, apesar do segundo, que o revogara, também
ter sido revogado.
Todavia, o nº2 do mesmo artigo preve que o testamento anterior ao testamento revogatório
que, por seu turno, foi revogado, recobre a sua força se o testador revogando o posteiror,
declarar ser sua vontade rque revivam as disposições do primeiro. Ou seja, no exemplo, a
chamada roboração, renascimento da eficacia do legado feito primeiro testamento poderia ter
ocorrido se o de cuius declarasse no terceiro testamento que aquele legado voltava a ser
eficaz.

O art.2314º apenas se aplica à revogação expressa ou tácita.

A revogação real opera por destruição física de testamento ou inutilização do


testamento(2315º) ou por alienação ou transformação da coisa legada (2316º).
Qualquer testamento, incluindo o público, pode ser objeto de revogação real por alienação ou
transformação da coisa legada.
Em contrapartida, a revogação real por inutilização do testamento não se aplica ao
testamento público. É admissível no caso do testamento cerrado, nos termos da letra do
art.2315º, e, por identidade ou maioria de razão, também nos casos de testamentos
internacionais e de testamentos com forma especial.
Dilacerar significa rasgar com violencia; obliterar, apagar, cancelar, riscar.
Se o testamento tiver sido destruído e não for possivel ler a primitiva disposição, não há
revogação mas caducidade, se o ato foi praticado por pessoa diversa do testador, se foi
praticado pelo testador sem intenção revogatória ou quando o mesmo se encontrava privado
do uso da razão.
O nº2 do art.2315º diz-nos quando se presume que o ato foi praticado por pessoa diversa ao
testador
A revogação real de um legado testamenteiro por alienação ou transformação da coisa legada
verifica-se quando o tentador tenha alienado ou transformado a coisa legada em outra com
diferente forma, denominação ou natureza - art.2316º.
Não há revogação se se provar que o testador, ao alienar ou transformar a coisa, não quis
revogar o legado, situação em que o legado é eficaz enquanto legado de coisa alheia
(art.2251º).
A alienação em que se traduz a revogação real pode ter sido feita a título gratuito ou oneroso.
Mas há revogação tácita, e não real, se a alienação mortos causa a título gratuito da coisa que
fora legada num testamento for feira por outro testamento (art.2313º). Já a alienação por
pacto sucessório de coisa que fora legada num testamento enquandra-se melhor na moldada

37
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

de revogação real: apesar de não ser logo transmitida a propriedade da coisa, com o pacto
sucessório, a faculdade de disposição do alienante sobre o bem sofre uma limitação imediata.

Caducidade do testamento

O art.2317º contém um elenco meramente exemplificativo de casos de caducidade de


disposições testamentárias, repartido por cinco alíneas.
As alienas a) e e) não obstam ao funcionamento de outras vocaç~pes indiretas na sucessão
testamentarias, além do direito de representação. Adiant-ese que, se o sucessível falecer ao
mesmo tempo que o de cuius, tudo se passa como se aquele tivesse morrido antes.
A preposição da alinea d), esclareça-se que as decisões do conservador proferidas no âmbito
do processo de divorcio e da separação de pessoas e bens são equiparadas a sentença judiciais
(Art.1776º/3 e 1794º).

Casos de caducidade que não estão compreendidos no enunciado do art.2317º:


• Instituição testamentaria de fundação que não tenha sido reconhecida pelos motivos
indicados no art.188º/3
• Novo casamento do beneficiario de deixa testamenteiro que era cônjuge do testador, se
tiver havido violação do prazo internupcial (art.1650º/1)
• Caducidade da convenção antenupcial, em que esteja contida disposições testamentária .
art.1704º e 1716º
• Invalidade ou revogação de uma disposição testamentaria contida em convenção
antenupcial que seja correspetiva de outra, nos termos do art.1706º/1.

(ver mais exemplos pagina 137. Livro do professor Jorge Pinheiro Duarte 2ªedição)

A situação jurídica dos sucessíveis testamentários, em vida do de cuius

Ao sucessível testamenteiro é reeconhecida legitimidade para requerer a entrega de bens


daquele cuja ausência foi justificada - 101º a 103º
E, em vida do cuius, o sucessível testamentário pode arguir a nulidade e anulabilidade do
testamento do autor da sucessão - art.289º e 2308º/1/2. Para aliem disso, podem requerer a
declaração judicial de indignidade daquele que por meio de dolo ou coação induziu o autor da
sucessão a fazer, revogar ou modificar o testamento, ou disso o impedfiu, bem como daquele
que dolosamente subtraiu, inutilizou, faiscou ou suprimiu o testamento, ou se aproveitou de
algum desses factos - art.2304º/c) e d) e 2035º

Sucessão contratual

Modalidades de pactos sucessórios

O art.2028º prevê três modalidades de pactos sucessórios:


• Pactos renunciativos, mediante os quais alguém renuncia à sucessão de pessoa ainda vida
(válida, desde 1 de setembro de 2018, só entre cônjuges e houver uma renuncia reciproca
e em separação de bens);
• Pactos aquisitivos ou designativos, mediante os quais alguém regula a sua apropria
sucessão (1700º e ss – valido) – regula a sucessão depois da morte
• Pactos dispositivos, mediante os quais aluem dispõe de sucessão de terceiro ainda não
aberta (não é permitido – não valido)

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• Para Galvão Telles, a qualificação de pactos sucessórios ajusta-se unicamente aos


pactos designativos. Não haveria verdadeira sucessão contratual nos chamados pactos
renunciativos e dispositisos. O o pacto enunciativo traduz-se num repetido, que seria,
por essência, um ato unilateral. O pacto dispositio cabeia na categoria de contratos de
alienação, ou de disposição inter vivos, de sucessão não aberta.

Os pactos aquisitivos, designativos ou de succedendo, nada mais são do que doações por
morte, mediante as quais o doador designa o donatário seu herdeiro ou legátario.

Por força do art.2028º/2 apenas são válidos os pactos sucessórios nos casos previstos na lei.
Daqui resulta que são nulos os pactos puramente enunciativos e dispositivos, mas que podem
ser válidos alguns pactos desgnativos, A nulidade em apreço só pode ser a dos negócios
jurássicos em geral - art.285º - não sendo aplicável uma nulidade atípica, exclusiva das
disposições testametárias - art.2308º.

Esta regra destina-se a garantir a faculdade individual de decisão - de decisão do de


cuius quanto à disposição por morte de seus bens e do sucessível quanto ao exercício
do direito de suceder. A doutrina alude a yum fundamento adicional da proibilçao, de
ordem moral: repugbaria ao sentimento comum que uma pessoa procedesse coimo se
a outra já esitvesse morta.

O pacto designativo é um ato bilateral que, em principio, não é livremente revogava pelo
doador mortos causa: a bilateralidade do pacto condiciona o teor das deixas a titulo de
herança e de legado; a não revoagbilidade unilateral impede que o de cuius pratique atos
unilaterais de disposições mortos causa a titulo gratuito incompatíveis com as clausulas
pacticias.
Os pactos renunciativos, designativos ou dispositicos, vinculam todas as aprtes, incluindo
aquela que renuncia a uma suceessão, é designada para suceder à outra parte ou dispõe da
sucessão de terceiro.
Ora, o pacto renunciativo traduz-se num ato de repúdio; os pactos designativos ou dispositivos
encerram atos, expressos ou tácitos, de aceitação. O sucessível renunciante, designado ou
dissonante exerce, portanto, a faculdade de aceitar ou repudiar uma sucessão.

Pactos sucessórios designativos

Em regra, as doações por morte são nulas - art.946º/1 e 2028º/2.


As doações por morte inválidas são alvo de conversão em disposições testamentárias, nos
termos do art.946º/2, preceito que é ressalvado pelo dito art.2028º/2.
Como é muito raro que duas partes celebra+em uma doação observando as
formalidades dos testamentos, a doutrina entende que, para operar a conversão,
basta que a doação por morte seja feita por escritura oºublica, forma que se aprocima
do testamento público.
Sublinhe-se que o art.946º/2 consagra uma situação de conversão legal. O negócio muda de
natureza, passa de uma doação a uma disposição testamentária.

Não é aceitável confundir conceputalmente doação e testamento: a doação é um contrato, a


não ser que se trate de doação puta feita a um incapaz; o testamento é um negócio unilateral.

O art.1704º não se refere a doações pra morte mas a disposições testamenteiras: há apenas
uma parte, que é o autor da sucessão. A doação por morte implica uma proposta de alguem e
aceitação de outrem.

39
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A doação por morte, em principio, não é livremente revogavel, enquanto que o


testamento, no seu conteúdo patrimonial é livremente revogável.
Por conseguinte, a conversão operada pelo art.946º/2 tem implicações de regime: um
negócio que foi concebido como doação e que estaria, consequentemente, sujeito à regra
geral da revogação por mútuo consentimento, acaba por ser livremente revogavel pelo
dispinente.

Em casos excecionais, ressalvados genericamente pelos art.2028º/2 e 946º/1, os pactos


designativos são válidos.
Para ser válidos tem de ser feitos em convenção antenupcial (art.1699º/1/a), 1700º,
1701º, 1705º, 1710º). Além disso, entre as partes do pacto designativo tem de estar, pelo
menos um esposado (art.1700º/1), como doador ou donatario. São admitidos em nome do
princípio do favorecimento matrimonial.
Caso não comprar estas condições relevam, quando muito, enquanto disposições
testamentários, nos termos do art.946º/2.

Em todos os pactos designativos válidos são admitidas clausulas de reversão ou


fideicomissárias - art.1700º/2.
O art.960º aplica-se às clausulas de reversão contidas no pacto sucessório. Os
art.2286º e 2296º aplicam-se, com as decidas adaptações às clausulas fideicomissárias a que
estejam sujeitas as doações por morte.
As clausulas de reversão ou fideicomissárias relativas a doações por morte feitas na
convenção antenupcial são revogáveis livremente e todo o tempo pelo doador - art.1707º.
Nada impede, por igualdade ou maioria de razão, a aposição dos pactos designativos
de clausulas de substituição direta, subordinada a uma disciplina de revogaçãi idêntica à das
clausula de reversa e fedeicomissárias e, com as devidas adptações, ao disposto nos art.2282º
a 2285º.

Os pactos designativos válidos podem ser agrupados segundo dois grandes critérios: qualidade
do beneficiário e objeto.
Qualidade do beneficario - há que distinguir entre doações por morte feitas por
esposado em favor de terceiro e doações para casamento por morte (tem necessariamente
como beneficiário um dos esposados)
Critério do objeto - impoe-se uma contraposição dos pactos de instituição de herdeiro
aos pactos de noamação de legatario.

Regime dos pactos designativos, segundo o critério do beneficiário

As doações para casamento são genericamente reguladas nos art.1753º a 1760º.


As doações mortis causa para casamento feitas por terceiro só podem ser revogadas
por mutuo consetntiemnto das partes. Não é possível a revogação unilateral (Expressa), nem é
licito ao doador prejudicar o donatário por atos gratuitos de disposição (Art.1701º/1), inter
vivos ou mortis causa.
As doações mortis causa para casamento entre esposados são irrevogáveis (art.1758º;
art.1701º/1 a contrario. Não é admissível a revogação expressa por vontade do doador ou por
mutuo consentimento das partes; nem é permitido ao doador retirar, total ou parcialmente,
eficácia à doação mortis causa, mediante a relaização de atos gratuitos de disposição, ainda
que os mesmos tenham sido autorizados pelo donatário.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

As doações mortis causa a favor de terceiro, em principio, só podem ser revogadas


com o consentimento de ambas as partes - art.1705º/1 e 1701º/1. Todavia, a doação mortis
causa a favor de terceiro é livremente revogável pelo doador (necessariamente um esposado),
se este tiver reservado contratualmente a faculdade de revogação unilateral - art.1705º/1

Estando subordinadas à regra da irrevigabilidade ou da revogação bilateral, as doações


mortis causa limitam o exercício do direito de disposição a titulo gratuito pelo doador. Para
além disso, limitam também as prerrogativas do donátario.
O donatario aceitou a proposta de doação por morte em vida do de cuius. Deste
modo, se tiver capacidade sucessória passiva, adquire automaticamente o estatuto de
sucessor, obtendo a titularidade das situações juridicas patrimonias abrangidas pelo pacto
sucessorio, sem ter que voltar a aceitar e sem a faculdade de repudiar. Esta ideia é confirmada
pelo art.2055º que só coloca o promblema de aceitação oud e repúdio, após o chamamento,
no que respeita aos títulos legais e testamentários. Contra isto encontra-se pires de Lima e
Antunes Varela que afirmam que a natureza contratual das doações por morte, que envolve a
aceitação do beneficio por parte do donatário, não impede o beneficiário de, na altura do
chamemnte, repudiar o legado ou a herança.

As regras de caducidade dos pactos sucessórios variam em razão do beneficiario.


O art.1703º/1 determina a caduvcidade dos pactos sucessórios para casamento nos
casos previstos no art.1760º. ando entanto a remissão vale apenas para o nº1/a) desse artigo.
Já que a alínea b) e o nº2 foram tacitamente revogados pela Lei nº61/2008 de 31 de Outubro,
que alterou a redação do art.1791º-
A nova redação do art.1791º/1 implica a caducidade dos pactos sucessórios para
casamento se ocorrer divorcio (ou separação de pessoas e bens, nos termos do art.1794º),
independentemente de ter sido ou não o donatário responsável pela rutura.
Os pactos sucessórios a favor de esposados também caducam no caso de o donatário
falecer antes do doador, a não ser que se verifique a situações de art.1703º/2.
O art.1703º/2 prevê uma hipótese de direito de representação em favor de
descendentes nascidos do casamento, o que se justifica à luz do principio do favorecimento
matrimonial, que é o motivo da admissibilidade excepcional de certos pactos designativos.
Os pactos sucessórios a favor de terceiros caducam nos casos previstos para a
caducidade das convenções antenupciais em que se inserem - art.1705º/1 in fine e 1716º; se o
donatário falecer antes do doador (art.1705º/4); e nos termos do art.1706º/1.
Ao abrigo do art.1706º/1, se ambos os esposamos instituirem terceiros seus herdeiros,
ou fizerem legados em seu ebeneficio, e ficar consignado na convenção antenupcial o caracter
correspetivo das duas disposições a invalida ou revogação de uma das disposições produz a
caducidade da outra.
As disposições dizem correspetivas “quando estão incidivelmente vinculadas uma à
outra, no animo do disponente, de tal modo que cada uma delas tenha como condição ou
como motivo essencial a realização da outra.

Pactos designatuivos segundo o critério do objeto

1702 – regula a instituição de herdeiro em favor de esposado, sendo aplicável também à


instituição de terceiro o 1705
Se a deixa contratual tiver por objeto uma quota para determinar o valor da quota atende-se
ao valor que o cuis dispõe gratuitamente

41
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Forma de calculo do valor total da herança contratual = R + D posteriori – P

Sucessão contratual anómala?


Do art.443.º define contrato a favor de terceiro.
A prestação a favor de terceiro pode consistir numa liberalidade destinada a produzir efeitos
após a morte do promissario (art.450°/2 e 451.º).
O art.451.º fala nas situações do contrato a favor de terceiro se destinar a ser cumprida após a
morte do promissario (n°1) e nas situações do contrato a favor de terceiro, quando o terceiro
morrer antes do promissario (n°2).
O terceiro a favor de quem for convencionada a promessa a cumprir após a morte do
pormissarkl adquire a prestação, independentemente de aceitação, mas pode rejeitar a
promessa ou aderir à ela (art.444.º/1 e 447.º/1).
Salvo estipulação em contrário, a promessa eu haja de ser cumprida depois da morte do
promissario é revogarem livremente por este em qualquer momento da sua vida, não
carecendo a revogação do consentimento de mais ninguém, salvo se a promessa tiver sido
feita no interesse de ambas os outorgantes, hipótese em que é exigível a anuência do
promitente (art.448.º)
Se a prestação a favor de terceiro for feita a título de liberdalidade, são aplicáveis com as
necessárias adaptações, as normas relativas à revogação das doações por ingratidão do
donatário (art.450º, n.º 2). O art.964º afirma quando é que adoação pode ser revogada por
ingratidão.
A contribuição do pronussário, mas não a do promitente, está sujeita às disposições relativas à
colação, imputação e redução das doações (art. 450º/1).

O seguro de vida constitui um bom exemplo de contrato a favor de terceiro em que a


prestação se destina a ser efetuada após a morte do promissário.
Por morte do segurado, o beneficiário do seguro de vida adquire a título gratuito um capital
que lhe é entregue pela empresa seguradora. A atribuição emerge de um contrato a que é
estranho o beneficiário. No entanto, apesar da aplicação de várias regras sucessórias (colação,
imputação e redução; indignidade e deserdação, indiretamente, por via do instituto da
revogação por ingratidão), o contrato não corresponde a um pacto sucessório designativo.
O capital encontra-se, ou encontrava-se, no património da empresa seguradora, que o entrega
na sequência de um contrato a título oneroso celebrado com o falecido promissário. Só o
prémio do seguro, contribuição do promissário efetuada em vida deste, é que se pode
considerar ficticiamente integrado numa herança alargada, não confinada ao relictum. Tal
prémio, produto de uma contribuição efetuada pelo promissário em vida, é, por conseguinte,
tratado como se fosse objeto de uma doação em vida, sendo contabilizado no valor total da
herança contratual ou legitimária, e estando sujeito aos institutos da colação, da imputação de
liberalidades e da redução por inoficiosidade.

Segundo o critério do número de titulares, as contas de depósito bancário são singulares ou


plurais. As contas plurais, coletivas ou em contitularidade dividem-se em duas modalidades:
conjuntas e solidárias. As contas solidárias são aquelas em que qualquer um dos contitulares
pode livremente, e por si só, realizar qualquer tipo de operação, incluindo o levantamento da
totalidade do saldo.
Na conta solidária, podem ter sido depositados fundos que pertenciam exclusiva ou
predominantemente a um dos contitulares.
Muitas vezes, as contas solidárias são constituídas com o objetivo de isentar benefícios
patrimoniais, correspondentes ao saldo, da aplicação regras gerais de Direito civil das
Sucessões ou de Direito não civil das Sucessões. Ex.: na conta, que foi constituída por duas
pessoas apenas uma delas deposita dinheiro; no momento da sua morte o outro contitular

42
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

levanta o saldo, sem comunicar aos sucessíveis (legais ou testamentários) do de cuius ou à


Administração Fiscal.
As contas solidárias não originam fenómenos de sucessão pactícia.
• Em primeiro lugar, não se pode defender que, na constituição e movimentação das
contas solidárias, há sempre um contitular que age com espírito de liberalidade, com a
intenção de proceder a atribuições patrirnoniais a título gratuito em favor do outro ou
dos outros contitulares.
• Em segundo lugar, ainda que exista concretamente espírito de iberalidade, as contas
solidárias não são os melhores instrumentos para a sua concretização. O regime das
contas influi no campo da legitimidade para agir e não no campo da titularidade do
saldo. A qualquer um dos contitulares é permitido movimentar a conta e exigir a
totalidade do saldo do Banco, mas isso não significa que o saldo lhe pertença por
inteiro.
• Em terceiro lugar, ainda que se mostre que, com a conta solidária, um pretendia
transmitir, por morte, o saldo em favor de outro, a liberalidade será nula enquanto
pacto sucessório, dada a ausência de uma previsão legal (cf. art. 2028.º. n.º 2) e não
será susceptível de conversão em disposição testamentária, por falta de forma.
Em caso de morte de um dos connnilares, extingue-se a relação contratual conta solidária.
Com base na presunção obrigacional de comparticipação partes iguais ( art. 516.v J, o com
titular sobrevivo pode, quando muito, exigir a parte do saldo que lhe cabe numa divisão por
cabeça. E, como a ,pressunção é ilidível, os sucessíveis do contitular falecido não estão
impedidos demonstrar que ao contitular sobrevivo cabe uma parte menor do saldo ou até que
nada lhe cabe. Quanto à parte do contitular falecido, ela está inteiramemte subordinada às
regras comuns da sucessão.

A opacidade bancária, tão-bem corporizada no sigilo, é uma boa aliada da sonegação de bens (
cf. art. 2096.º) e do desrespeito de normas sucessórias fundamentais.
Ex: A está de relações cortadas com o seu único filho. Para reduzir o mais possivel os
benefícios sucessórios do seu filho, deixa por testamento ½ da sua herança a um sobrinho e
abre uma conta solidária com este. À data da sua morte, A tem bens no valor de 100; o saldo,
que é de 80, foi exclusivamente formado com depósitos efetuados por A; logo que A morreu, o
sobrinho levantou todo o saldo, sem que tivesse comunicado ao Banco o óbito do tio. O único
filho de A tem direito a metade do património hereditário (cf. art. 2159. º, n. º 2 ), mas ignora
a existência da conta e, portanto, do saldo. Embora direito a 50 (l/2x 100), só reclama 10,
pensando que o relictum se resume a 20 (100-80).

Por morte do respetivo titular, a participação social pode extinguir-se ou transmitir-se.


Havendo extinção, a participação social não constitui objeto de sucessão (art. 2025.º). Exs. De
extinção da participação social por morte respetivo titular: na sociedade civil sob forma civil,
art.1001º/1(liquidação pela sociedade da quota do sócio falecido); na sociedade em, nome
coletivo, cf. art. 184.v, n. ºs 1 e 5, do CSC (liquidação da parte do falecido), que se aplicam à
transmissão por morte da parte de um socio comanditado (art. 469.º, n.º 2, do CSC); sociedade
por quotas, art.225.º nº 1, do CSC ( não transmissão da quota aos sucessores do falecido).
Havendo transmissão mortis causa, o destino da participação social tende a ser determinado
pelas regras sucessórias comuns: a participação caberá então a um herdeiro legal ou
testamentário ou a um legatário testamentário do de cuius.
Há casos, em que a transmissão mortis causa da participação social pressupôe o
preenchimento de requisitos constantes do contrato de sociedade o consentimento dos sócios
sobrevivos, importa perguntar se não se estará perante manifestações admissíveis de sucessão
contratual. Ao adquirir a participação social ou ao ter constituído a sociedade, não terá o de
cuius aderido a um esquema de regulamentação bi- ou plurilateral da sua própria sucessão?

43
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O professor Jorge Pinheiro Duarte diz que não. As referidas restrições à transmissão mortis
causa não interferem na determinação do sucessor da participação social; criam, quando
muito, uma intransmissibilidade da participação social se, por fonte negocial ou não negocial,
forem designados como sucessíveis certas pessoas. Ou seja, ou funcionam as regras comuns
da sucessão ou extingue-se a participação social, não havendo sequer sucessão (art. 2025º).

O art.1142º tem a definição de mandato.


O mandato caduca por morte do mandante, salvo se tiver sido conferido no interesse do
mandatário ou de terceiro (arts. 1174.º, al. a), e 1175º). Ou seja, o contrato não caduca
necessariamente por morte do mandante.
O mandato pode ter sido estipulado para ser executado após a morte do mandante (mandato
post mortem exequendum) ou ter por objeto a prática de atos que se traduzem na atribuição
de direitos contidos na herança do mandante, após a morte deste (mandato com
representação mortis causa).
O primeiro mandato será válido se não se traduzn na atribuição a terceiros de direitos mscritos
na herança do mandante. Mas o segundo mandato é nulo, por colidir com a regra da proibição
de pactos sucessórios (cf. art. 2028.º, n.º 2).

Negócio fiduciário, ato complexo que implica a realização de dois negócios, pode destinar-se a
assegurar uma atribuição patrimonial a título gratuito, posterior à morte de uma das partes do
primeiro negócio. De facto, primeiro negócio englobado pela figura (na sua modalidade de
‘fidúcia cum amico”), uma das partes, o fiduciante, pode ter transmitido um direito a outra
parte, o fiduciário, vinculando-se este a celebrar um segundo negocio pelo qual o mesmo
direito é alienado a título gratuito em beneficio de outra pessoa, após a morte do fiduciante.
Ora, o segundo negócio não corresponde, em rigor, a uma liberalidade feita de cuius ( que é o
fiduciante),já que o direito que o fiduciário se vinculou a transmitir em beneficio de outra
pessoa pertence, desde a realização do primeiro negócio, ao próprio fiduciá:rio. Todavia, o
negócio fiduciário, no todo, parece ter um escopo equivalente ao de um negócio mortis causa
que não pode ser revogado unilateralmente pelo de cuius. Há, porém, um aspecto que,
excluindo a inevitabilidade de convergência de resuItados entre negócio mortis causa e o
negócio fiduciário, talvez viabilize a defesa da validade do último: havendo incumprimento do
–fiduciário, relativamente à obrigação de celebrar o segundo negócio, o beneficiário pode ter
direito a uma indemnização em vez de adquirir o direito que o de cuius pretendia que lhe
coubesse.
Direito transmitido pelo de cuius mediante o primeiro negócio será incluído no valor total da
herança legitimária ou contratual, enquanto donatum; a colação e a imputação terão de ser
consideradas tomando como referência a pessoa do fiduciário; uma eventual inoficiosidade
provocada pela transmissão do direito só permitirá uma redução requerida pelo legitimário
contra o fiduciário, que é responsável pelo preenchimento da legitima até ao valor desse
direito (cf. art. 2175.º); se aquele que seria beneficiário do segundo negócio foi declarado
indigno, parece que o fiduciário pode recusar-se legitimamente a cumprir, mas se tiver
cumprido não pode solicitar a restituição do que foi prestado.

O “trust” é um instituto típico do sistema anglo-americano. No art. 2.º da Convenção da Haia


de I de Julho de 1985 relativa à lei aplicável aos Trusts e ao seu reconhecimento, estabelece-se
que o termo ’’trust” designa as relações Jurídicas criadas – inter vivos ou por morte – por uma
pessoa, o disponente (“settlor”), que colocou bens sob o controlo de outrem, o “trustee”, no
interesse de um beneficiário (“cestui que trust”) ou para um fim específico. E acrescenta-se
que o “trust” apresenta as seguintes características:
• Os bens abrangidos pelo “trust” formam uma massa distinta e não fazem parte do
património do “trustee”;

44
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• A titularidade dos bens abrangidos pelo “trust” estão em nome do “trustee” ou de


outra pessoa por do “trustee”:
• “trustee” tem o poder e o dever, do qual deve prestar o “trust” deve prestar contas,
de administrar, aplicar ou dispor dos bens segundo as condições do “trust” e as
normas específicas da lei.
“trust” aproxima-se, assim, do testamento nas hipóteses em que se tenha estipulado que, por
morte do instituidor, o beneficiário adquire os bens, ou os frutos dos bens, abrangidos pelo
“trust’’. Deste modo, na falta de uma disposição legal portuguesa permissiva, a ilicitude de um
“trust” com tal configuração pode enfrentar obstáculos, quer de índole formal (se não
observara forma legal de um testamento) quer decorrentes do princípio da tipicidade dos
negócios unilaterais (cf.art 457 .º).

A sucessão legitimária

Aspetos gerais
Na lei portuguesa, a sucessão legitimaria ocupa um titulo próprio (art.2156º a 2178º).
A redução por inoficosidade não afeta exclusivamente as disposições testamentarias e os
pactos sucessórios; as doações em vida também são redutíveis (art.2168º). Na maior parte das
vezes, a porção deferida por via legitimaria iguala ou excede aquela que é suscetível de ser
diferida por sucessão voluntária (art.2158º a 2161º).
Qualquer sucessível, incluindo o leggitimario e excluindo o estado, é sempre livre de aceitar ou
repudiar a herança ou o legado.

Legitima e legitimários

São sucessíveis legitimários o cônjuge e os parentes na linha reta do de cuius, pela ordem e
segundo as regras estabelecidas para a sucessão legitima (art.2157º). A eficácia sucessório da
adoção é idêntica à a filiação biológica (art.2157º, proemio do art.2133º/1 e art.1986º/1); e o
mesmo se passa com a filiação por PMA biológica. Os ascendentes, sucedem na falta de
descendentes e, não operando o direito de representação, vigo o principio da preferência de
graus de parentesco (art.2157º, 2133º/1, 2134º, 2135º e 2138º)
Aqueles que gozam de prioridade na hierarquia dos sucessíveis, dentro de uma modalidade de
sucessão, são conhecidos pela expressão “sucessíveis prioritários”
O art.2156º refere-se à legitima objetiva ou global, que corresponde à chamada quota
indisponível (QI) ou “herança legitimária”.
A quota indisponível opõe-se à quota disponível que é a porção de bens que o de cuius pode
dispõe livremente a titulo gratuito.
A legitima subjetiva é a quota da herança que cabe a um sucessível enquanto legitimário.
Coincide com a quota indisponível quando haja apenas um sucessível legitimário. Havendo
mais do que um, a legitima subejtiva é a parte da quota indisponível que cabe a cada
sucessível legitimário.
A legitima objetiva ou quota indisponível (art.2158º a 2161º) é:
• de um terço quando os legitimários chamados sejam apenas ascendentes do 2º grau e
ss.
• De metade quando ao autor da sucessão sobreviva só pai e mãe, unicamente um
deles, um descente ou somente o cônjuge
• dois terços nas demais hipóteses: existência de vários filhos, concurso de cônjuge com
parentes na linha reta.

45
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A divisão da quota indisponível faz-se por cabeça, a não ser nos casos de direito de
representação, de concirso do cônjuge com mais de três filhos ou com ascendentes (art.2157º,
2136º, 2138º, 2139º e 2141º).

O cônjuge sobrevivo é um sucessível legitimário privilegiado.


A respetiva legitima subjetiva é superior à dos ascedentes e será superior à dos filhos, se
concorrer com quatro ou mais filhos. Não está sujeito a colação. Na partilha, tem o direito a
ser encabeçado no direito de habitação da casa de morada da família e no direito de uso do
respetivo recheio (art.2103º-A/1).

Calculo da legítima
1. calcular o valor total da herança
O art.2162º/1, permite fixar somente o valor total da herança para efeitos de sucessão
legitiamria, isto é, a massa patrimonial que vai servir para determinação da quota indisponível
ou herança legitimaria propriamente dita. Para se obter o valor total da herança (VTH) para
efeitos de sucessão Legitimária, deve somar-se o valor do relictum (R) ao do donatum (D) e
abater-se o valor do passivo (P).
VTH=R+D-P.
O relictum abarca os bens existentes no património do autor da sucessão à data da sua morte.
O valor dos bens do relictum refere-se à data da abertura da sucessão. Se o de cuius era
casado num regime diferente do da separação de bens, o valor do relictum será igual à soma
do valor dos seus bens próprios com o valo r da meação nos bens comuns do casal. Os bens
deixados por testamento ou doados por morte integram o relictum, uma vez que a
transmissão da opriedade não ocorre em vida do autor das liberalidades.

O Donatum engloba os bens doados e as despesas sujeitas a colação. Bens doados entende-se
bens doados em vida. O valor dos bens doados é o que eles tiverem no momento da abertura
da sucessão (art. 2109.º, n.º 1), valendo o mesmo para as despesas sujeitas a colação. Fixação
do valor da herança, não são consideradas as coisas doadas que tiverem perecido em vida do
de cuius por racto não imputável ao donatário 2162.°, n.º 2.

O passivo inclui todos os encargos da herança, à exceção dos legados – 2068º.


Note-se que os bens legados se enquadram no relictum; nunca no donatum ou no passivo.

2. Apurado o valor total da herança, nos termos do art.2162.º, procede-se à determinação


do valor da quota indisponível, a que se segue o momento de quantificação das legítimas
subjetivas.
Exemplificação.
A faleceu em 2003. Em 1998, doara a B o bem x (que então valia 15). Em 1999, fez testamento
em que deixou a T o bem y. No momento em que A tinha bens no valor de 90 e dívidas no
valor de 20; na mesma arltura, o bem x foi avaliado em 20 e o bem y em 10. Ao de cuius
sobreviveram filhos B, C, bem como o amigo T.
VTH=IOO(R)+ 20(D)-20 (P) = 90
O bem y, que foi legado, está incluído no retictum, pele, que o valor daquele não é adicionado
ao valor dos bens existentes no património do autor da sucessão.
O valor do donatum coincide com o do valor do bem x no momento da bem que se pressupõe
ter sido objecto de doação em vida ( sempre que haja elementos para concluir se a doação era
inter vivos ou mortis causa parte-se do princípio que ela produz efeitos em vida do de cuius).
Ql=2/3X90(VTH)=60.
QD=90(VTH)-60(QI)=30.
O que resulta do art. 2159.º,n.º 2.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Legítima subjetiva de cada um dos dois filhos=60(QI)X1/2=30


Procedeu-se aqui à aplicação dos arts. 2157º e 2139º/1.

O valor total da herança varia em função das modalidades da sucessão. A fórmula R+D-P
aplica-se exclusivamente no âmbito da sucessão legitimária.

Se o autor da sucessão fizer uma deixa testamentária em que atribui pura e simplesmente
uma quota da herança, essa quota será quantificada tendo por base o R, deduzido do P.
Por exemplo:
O de cuius, que tem dois filhos, deixa, por testamento, ¼ da sua herança a um amigo, T.
R=110, D=20, P=l0.
VTH para efeitos de cálculo da legitima (art.2162.º)=110+20-10=120.
QI=90(cf. art. 2159.º, n.º 2); QD=30.
Mas a quota de T não é de ¼ do VTH para efeitos de cálculo da legítima (l/4X12O=30) nem de
¼ do valor da QD ( l/4X30=7,5).
Para efeitos de cálculo da quota testamentária = 110-10 = 100 (R-P)
Valor da quota de T = ¼ x 100= 25.
Recorre-se à fórmula que traduz, no plano quantitativo, as ideias legais de âmbito da sucessão
de herança: a sucessão compreende as situações Jurídicas patrimoniais ativas ou passivas de
que era titular o de cuius no momento da abertura da sucessão e que se não extingam com a
sua morte (cf. arts. 2024.º e 2025.º);

Se for aberta a sucessão legitimária, o valor total da herança legítima é igual ao valor da quota
disponível menos o valor das liberalidades mortis causa válidas e eficazes.
O valor das liberalidades mortis causa, contratuais ou testamentárias, válidas e eficazes, tem
de ser abatido nos termos da lógica do art.2131º.
Não houver sucessão legitimaria, ao valor do relictum é abatido o valor do passivo e o valor
das liberalidades mortis causa. Na falta de uma disposição legal como a dos art.2162º, n.º 1, e
1702.º, n.º 1, não é conferido o donatum.
exemplo com sucessão legitimária:
O autor da sucessão deixa, por testamento, 1 / 4 da herança ao seu amigo T. Sobrevivem ao de
cuius pai, mãe e cônjuge. R = 100, D=30, P=40. Qual é o valor da quota que cabe ao cônjuge na
sucessão legítima (cf. art. 2142.º n.º 1 )?
VTH para efeitos de cálculo da legítima=R+D-P=100+ 30-40=90.
QI ou herança legitimária (art. 2161.º/1 ) =60, QD=30.
VTH para efeitos de cálculo da quota testamentária = R-P= 100-40=60.
Valor da deixa testamentária em favor de T=l/4X60=15.
VT da herança legítima = QD-liberalidades mortis causa=30-15=15.
Valor da quota do cônjuge na herança legítima=2/3 X 15=10.
exemplo sem sucessão legitimária:
O autor da sucessão deixa, por testamento, l/4 da herança ao seu amigo T.
Sobrevivem ao de cuius dois irmãos germanos. R=100, D=10, P=40. Qual o valor da quota que
cabe a cada um dos irmãos da sucessão legítima (cf. arts. 2145.º e 2136.º)’?
VTH para efeitos de cálculo da quota testamentária=R - P=100-40 = 60.
Valor da deixa testamentária em favor de T=l/4X60=15.
VT da herança legítima=R-P-liberalidades mortis causa= l00 – 45 – 15 = 45
Valor da quota de cada um dos irmãos na herança legítima= l/2 X 45 = 22,5.

Como se quantifica a quota mínima do cônjuge na sucessão legítima (art.2139.º, n.º 1,


segunda parte)?
Exemplo:

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A, o autor da sucessão, deixou por testamento 1 / 4 da herança ao seu amigo T. Sobreviveram


ao de cuius o cônjuge e quatro filhos.
R=180, D=20 P=20.
VT para efeitos de quantificação da herança legitimária=R+D-P=l80+20-20=l80. QI (herança
legitimária)=120, QD=60.
VT para efeitos de quantificação da herança testamentária=R-P=l80-20=160. Deixa de T=
1/4Xl60=40
VT da herança legitima=Qd-liberalidades mortis causa=60-40=20.
Na qualidade de sucessível legítimo, ao cônjuge cabe l/4X20=5. Os restantes 15 da herança
legítima são divididos por cabeça entre os quatro cabendo a cada um deles 3.75 (l/4Xl5).
Na situação em apreço, é incorreto quantificar a quota do cônjuge na sucessão legítima em 45
(l/4X I80) ou 40 (1/4X l60).

A formula de calculo do valor total da herança (VTH) para efeitos de determinação da quota
contratual é R+Dposterior-P.
O art.1702º/1 introduz apenas um desvio ao regime geral de calculo da herança, alertando
para a necessidade de se ponderar o donatum posterior. Não se refere ao relictum nem ao
passivo porque a sucessão mortis causa transmite situações jurídicas patrimoniais ativas e
passivas que se não extinguem com a morte do de cuius.
O passivo tem de ser abatido. De outro modo, o herdeiro contratual seria beneficiado, neste
aspeto, relativamente ao herdeiro legitimário.
Exemplo de aplicação do art.1702º/1
A faz: doação em vida do bem x, em 1980; pacto sucessório no qual atribuiu metade da
herança em 1990, doação em vida do bem y em 2000. No momento da sua morte, o bem x
valia 10, tal como bem y. Tinha um ativo patrimonial de 10 e um passivo de 5.
VTH = 10 (R) + 10 (Dposterior) -5 (P) = 15
Valor da quota contratual = 15(VTH)x1/2=7,5.

Imputação das liberalidades (negociais)


A questão principal no âmbito da sucessão legitimaria, é saber se uma liberalidade negocial
deve ser enquadrada na quota disponível ou na quota indisponível.
A imputação de liberalidades precede a redução de liberalidades inoficiosas, a partilha na
sucessão legitimaria e a abertura na sucessão legitima.
São imputadas na quota disponível as liberalidades feitas pelo autor da sucessão em beneficio
de terceiro, isto é, de alguém que não seja sucessível legitimário prioritário.
As liberalidades feitas pelo autor da sucessão a favor de sucessíveis legitimários prioritários
são imputadas ou na quota disponível ou na legitima subjetiva do beneficiário.
Em principio, as liberalidades são imputadas onde o autor disser, desde que a quota escolhida
não seja preenchida.
Se não for possível apurar qual a vontade do autor da sucessão relativamente à imputação, há
que distinguir entre liberalidades em vida e liberalidades em morte:
• Liberalidades em vida – como é o caso das doações em vida, são imputadas na legitima
subjetiva do donatário.
• Liberalidades em morte – como é o caso das deixas testamentarias, são imputadas na
quota disponível

Intangibilidade da legitima
À posição de sucessível legitimário está associada uma proteção especial, que se funda no
principio da intangibilidade da legitima.
O principio da intagibilidade qualitativa assenta nos art.2163º, 2164º e 2165º. À luz
destas disposições, o de cuius não pode, contra a vontade do legitimário, substituir a sua

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

legitima por uma deixa testamentaria, preencher a quota legitimaria do mesmo com bens
determinados ou onerá-la com encargos de qualquer natureza.
O principio da intangibilidade quantitativa, o autor da autor da sucessão está impedido
de privar injustificadamente o legitimário do valor, total ou parcial, que lhe assiste a título de
legitima. A proteção quantitativa do legitimário é assegurada pelo regime da deserdação
(art.2166º e 2167º) e pelo instituto da redução de liberalidades (art.2168º a 2178º).

Redução das liberalidades


São redutíveis as liberalidades inoficiosas.
Dizem-se inoficiosas as liberalidades que impeçam o sucessível legitimário de obter o
montante da respetiva legitima. Ex: há inoficiosidade quando o valor das liberalidades feitas a
favor de alguém que não um sucessível legitimário prioritário excede o da quota disponível. A
diferença entre o montante das liberalidades e o da quota disponível equivale ao valor da
inoficiodade.
As liberalidades inoficiosas são redutíveis, em tanto quanto for necessário para que a legítima
seja preenchida.
Todas as liberalidades são suscetíveis de redução, incluindo as doações em vida (art. 2168.º).
A redução abrange:
1º - as deicas testamentários a titulo de herança
2º - as deixas testatamentarias a titulo de legado
3º - as doações inter vivos (art.2171º)

Não obstante a ausência de referencia às doações mortis causa no art.2171º, estas não estão
isentas da redução por inoficiosidade, nos termos do art.1759º (que se apica às doações
mortis casusa em favor de esposados, por força do art.1755º/2) e do art.1705º/3 (atienente às
doações mortis causa a favor de terceiros.
No âmbito da ordem de redução, as doações mortis causa são equiparadas às doações inter
vivos, em nome de uma certa identidade quanto ao regime da revogação.
Se bastar a redução das disposições testamentárias, será feita, em regra, proporcionalmente
– art.2172º
Caso seja necessário recorrer às liberalidades contratuais, a redução será feita, em regra, da
mais recente para a mais antiga (art.2173º aplica-se às doações em vida e, por analogia, às
doações mortis causa).

Exemplificação:
A morre, deixando bens no valor de 100. Sobrevive-lhe o filho B e todos os beneficiários de
liberalidades que serão mencionados.
1º Situação. A doou em vida o bem x a C; deixou por testamento o bem n a D e toda a quota
disponível a E. A data da abertura da sucessão, o bem x valia 20 e o bem n 20.
VTH=I00(R)+20(D)=l20 (cf. art. 2162.º).
QI=l/2Xl2O==60 (cf. art. 2159.º, n.º 2)
QD=60.
Valor total (VT) das liberalidades=l00 (20 a favor de C, 20 a favor de D e 60 a favor de E).
Inoficiosidade= 100 (VT das liberalidades)-60(QD)==40.
Reduz-se em 40 a deixa testamentária a título de Herança, pelo que E receberá somente bens
no valor de 20.

2º situação Os dados iniciais da situação anterior sofrem as seguintes alterações: Em vez da


quota disponível, A deixou a E o bem z, que à data da morte do testador valia 60. Subsiste,
portanto, uma inoficiosidade de 40. Mas agora reduzem-se proporeionalmente as deixas

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

testamentárias (legados). Apurar o valor da inoficiosidade que será suportado por cada um dos
legatários, D e E, recorre-se à “regra dos três simples··.
80 (VT dos legados) -------- 40 ( valor da inoficiosidade)
60 (valor do legado a E)--------- x ( valor da redução que afeta o legado)
60X40=2400/80=30.
A liberalidade feita a E é reduzida em 30, podendo o legatáno obter unicamente 30.
80(VT dos legados) ----------- 40 (valor da inoficiosidade)
20 (valor do legado a D)------------ x (valor da redução que afeta o legado)
20x40==800/80 = l0.
A liberalidade feita a D é reduzida em 10, obtendo o legatário unicamente 10.

3ª situação. Em 1997, A doa em vida o bem x a C. Em 1999, doa (validamente) por morte o
bem z a D. Em 2001, doa em vida o bem y a E. À da morte de A, o bem x valia 20, o bem z 40 e
,o bem Y 20.
VTH= 100(R)+40(D}=140. Ql=70. QD=70. Inoficiosidade=80-70=10.
Reduz-se em 10 a doação mais recente, que é a doação em vida a favor de t, o qual só
conservará uma vantagem patrimonial correspondente ao valor de 10.

A tutela dos sucessíveis legitimários em vida do de cuius


Os sucessíveis Legitimários beneficiam de proteção legal já em vida do de cuius.
Os legitimários podem arguir a nulidade dos negócios simulados feitos autor da sucessão com
o intuito de os prejudicar antes ou depois da da sucessão (art. 242.º, n.º 2). Procedendo a
nulidade dos negócios simulados, as doações dissimuladas terão de ser ponderadas na
operação de calculo da legítima e estarão sujeitas a redução por inoficiosidade.
A venda feita pelo e de cuius a filhos ou netos que sejam legitimários prioritários carece do
consentimento dos outros descendentes que também sejam legitimários prioritários
(art.877º/1). Se for feita a descendentes que sejam legitimários prioritários sem o
consentimento, ou o suprimento judicial do consentimento, dos demais descendentes com
igual qualidade, a venda é anulável, nos termos do art.877º/2.
A partilha em vida não pode ser feita sem o consentimento de todos os sucessíveis legitimários
conhecidos e existentes na altura (art.2029º/1/2)
A letra do art.1699º/2 impõe o limite ao exercício da liberalidade de fixação do regime dos
bens sem distinguir se os filhos são ou não comuns. Todavia, o preceito é alvo de uma
interpretação restritiva dominante, consolidada, que considera o limite aplicável
unicamentenos casos em que haja filhos de apenas um dos nubentes.

Segundo os defensores da interpretação restritiva, o preceito visa proteger as expetativas


sucessórias dos filhos de apenas um dos nubentes relativamente às de outros sucessíveis
legitimários prioritários deste (cônjuge do progenitor ou filhos subsequentes do progenitor
com o cônjuge).
Exemplificação:
1ª hipótese:
A morre, deixando bens no valor de 180. Sobrevivem-lhes os filhos C, D e E. Valor da herança
legitimária (art.2162º e 2159º/2) = 2/3x180=120, que é divida por cabeça (art.2157º e
2139º/2). Valor das legitimas subjetivas: C=40; D=40; E=40
2ª hipótese
A e B casam, tendo previamente convencionado o regime de comunhão geral de bens. No
momento do casamento, os bens de A que iriam intergrar a comunhão valiam 180, enquanto B
não tinha bens comunicáveis. A morre. Nesta altura, o património comum é 180 e os bens
próprios de A e B (enquadráveis no art.1733º/1) não são quantitativamente relevantes.
Sobrevivem a A o cônjuge B e os filhos do casal, C, D e E, já nascidos no momento em que foi

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

outorgada a convenção antenupcial. O valor da meação de cada cônjuge é igual a 90. O valor
da herança de A comcide com o da meaçao. Na herança legitimária de A, avaliada em
2/3X90=60 (2159.º, n.º 1), cabe 15 a cada um dos quatro sucessíveis legitimários prioritários
(cf. arts. 2157.º e 2139.u, n.0 1). B recebe imperativamente 105 (90, enquanto cônjuge meeiro,
nos termos dos arts. 1730.º, n.º 1, e 1734.º; e 15, enquanto herdeiro legitimário). Quando B
falecer, e, D e E, seus legitimários pnorítários, repartem entre si a herança legitimária de B,
avaliada em 2/3Xl05=70 (art.2159.º, n.º 1). Como já tinham herdado de uma quota no valor de
151 cada um dos filhos, C, D e E, adquire dos seus por via da sucessão legitimária, um total de
cerca 38,333 (15+23,333).
3ª hipótese
dados iniciais da 2.ª hipótese sofrem as segumtes. ‘terações: a A continua a sobreviver E, só
que este é filho unicamente de A. Imagine-se, porém, que a estipulação convencional do
regime da comunhão de bens entre A e B era válida, por não existir uma disposição legal
semelhante à do art. 1699.º, n.º 2. Quando B morre, sucedem-lhe como legitimários C e D,
uma vez que E é filho somente do primeiro de cuius. No final, cada um dos filhos de A com B,
Ce D, conseguiria, por via da sucessão legitimáriados seus pais, 50 (15, valor da legítima
subjectiva na herança de A; e 35, valor da legítima subjectiva na herança de B). Na sucessão
legitimária E, filho de A, cônjuge que tmha contribuído com a totalidade dos bens que
compõem o património comum, recebe 15, menos de um terço do que aquilo que obtém
qualquer um dos seus meois-irmãos, graças a conjugação da cláusula de comunhão geral de
bens com uma dupla sucessão.
4ª hipótese
Os dados iniciaiss da 3.ª hipótese sofrem a seguinte alteração: aplica-se o art. 1699.º, n.º 2,
sendo nula a cláusula que fixa o regime ela comunhão geral de bens (art. 294º )· Vigorando
eventualmente o regime de supletivo, o património comum não abarca os bens que os
cônjuges levaram para o casamento (art.l722.º, n.ºl, al. a)). A herança legitimária de A atinge
agora o valor de 2/3X180= 120 (art. 2159.º, n.º l); e é dividida por cabeça entre B, e, De E.
Caberá a cada um deles a legítima subjetiva de B falece, deixando um património de 30. São
seus herdeiros legitimários de C e D, mas não E, que era filho somente do primeiro de cuius. A
legítima objetiva na herança de B, que é 20 (2/3X30), será dividida entre aqueles. No final,
cada um dos filhos comuns, C e D, conseguiria, por via da sucessão legitimária dos seus pais, 40
(30, a título de legítima subjetiva relativamente a A; e 10, a título de legítima subjetiva na
herança de B). É muito menor a desproporção entre o que eles adquirem por vía da sucessão
legitimária relativamente a E (30 para este contra 40 para cada um daqueles). E no momento
da abertura da sucessão de A, o valor dos benefícios patrimoniais de E é igual ao de qualquer
um dos outros sucessíveis legitimários prioritários ( incluindo aos de B, cônjuge sobrevivo de
A).

Em síntese, a estipulação da comunhão geral de bens afeta sobretudo a expetativa sucessória


dquele que seja filho apenas de um dos nubentes.
No entanto, a interpretação restritiva do art.1699º/2, que hoje predomina, funda-se no
pressuposto de as expetativas legitimarias dos filhos comuns do casal não são
significativamente atingidas porque ele sucede de ambos os progenitores. Será assim? E se o
progenitor que sobreviveu ao outro voltar a casar ou vier a ter um filho?
A titulo de ilustração:
Os dados da 2ª hipótese sofrem as seguintes alteraç~pes: antes de falecer B volta a casar. No
momento da sua morte, B tem quatro sucessíveis legitimários prioritários: C, D e E, filhos pré-
matrimonaiis dele com A, e F, cônjuge das segundas núpcias. Quando B falecer, C, D, e E e F,
legitimários prioritários, repartem entre si a herança legitimaria de B (70), cabendo a cada um
deles 17,5. No total, cada um dos filhos C, D e E, adquire dos seus pais, por via da sucessão
legitimaria, um total de 32,5 (15+17,5).

51
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Veja-se agora o que sucederia na falta de estipulação de comunhão geral relativamente ao


primeiro casamento. A herança legitimaria de A vale 120 (2/3x180) e é dividida igualmente B,
C, D e E. Cabe, portanto, 30 a cada um. B morre, após o segundo casamento. Sendo o
património de B avalaiado em 30, a legititma objetiva de 20 (2/3x30) é repartida por igual
entre C, D, E e F. Cabe 5 a cada um. Cada um dos filhos, C, D e E adquire dos seus pais, por via
da sucessão elgitimaria, um total de 35 (30+5).

A redução resultante de um acréscimo do numero de sucessíveis legitimários ( cônjuge ou


filhos apenas de B) não choca, porque nem sequer retira aos filhos de A com B a sua posição
proporcionalmente vantajosa (concorrendo à sucessão legitimária dos dois progenitores,
adquirem, na massa total, mais do que os outros sucessíveis legitimários de B: o cônjuge de B
obtém 17,5 e cada um dos filhos de A com ,JJ; ora, a sua posição é bem diferente daquela que
ocuparia alguém que fosse filho apenas de A, no caso de ser válida a estipulação de comunhão
geral (cf., supra, 3.ª hipótese: aquele que é filho apenas de A obtém 15; um filho de A com B
consegue 50)·

Sendo assim, JPD aceita a posição dominante, favorável a uma interpretação restritiva.

Sucessão legitima anómala


A sucessão legitimária anómala tem por objeto um legado e não uma herança.

No entanto, o legado por conta da legítima e o legado em substítuição da legítima não são
manifestações de sucessão legitimária anómala: na pmeira figura, ainda está presente a
herança legitimária, que é preenchida com bens determnados; na segunda, a aceitação do
legado resolve o próprio chamamento legitimário, conferindo ao beneficiário a qualidade de
sucessor testamentári0.
Há, porém, concretizações de sucessão legitimária anómala: uma foi consagrada na legislação
sobre arrendamento urbano; outras estão previstas na LUF.
A Lei n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, que aprovou o Novo Regime do Arrendamento Urbano
(NRAU) e revogou o art. 85.º do RAU, repôs os 1064.º a 1113.º do CC (com nova redacção),
que se aplicam aos novos contratos de arrendamento urbano, e estabeleceu normas
transitórias para os contratos anteriores (arts. 26.º ss. Do NRAU).
Em caso de morte do locatário, no arrendamento para habitação, a lei prevê o arrendamento
não caduca, transferindo-se a posição do arrendatário para as pessoas referidas no art. 1106.
ºCC.se o respetivo contrato tiver sido celebrado na vigência do NRAU, ou para as pessoas
referidas no art. 57.º do NRAU, se o contrato for anterior (cf. arts. 26.”, n.º 2, e 28.º do NRAU).
Mantém-se, assim, uma situação de sucessão 1egitimária anómala similar à que se previa no
art. 85.º do RAU.
Trata-se de sucessão, porque se verifica uma aquisição derivada por morte de uma situação
jurídica patrimonial. Há, mais precisamente, um caso de sucessão transmissiva, dado que a
situação jurídica a que é chamado o sucessível, o direito de arrendamento para habitação, é
idêntica à que se encontrava na esfera Jurídica do de cuius. Trata-se de sucessão legal, porque:
a transmissão em apreço tem por base um facto não negocia. Trata-se de sucessão legitimária,
porque o regime dos arts. 1106. º do CC e 57º do NRAU é injuntivo, não podendo ser afastado
nem pela vontade do autor da sucessão, que é o arrendatário, nem pela vontade do senhorio.
Os beneficiários da transmissão por morte do arrendamento são chamados a suceder num
direito determinado, num legado legitimário, ao contrário dos legitimários comuns, que são
chamados a suceder numa quota do património hereditário (o critério do art. 2030.º, nº2).
O elenco de pessoas designadas para sucederem como legatário, legitimários do direito de
arrendamento não coincide com o elenco aos sucessíveis legitimários comuns.

52
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Na transmissão do arrendamento para habitação, nunca se admite a existência de mais do que


um sucessível legitimário prioritário. E, para definir a prioridade exclusiva na transmissão do
arrendamento, confere-se relevância ao critério da idade.

Em caso de morte do membro da união de facto proprietário da casa de Morada de família, o


membro sobrevivo goza de direito real de habitação, pelo prazo de cinco anos, sobre a casa de
morada de família, e direito de preferência na sua venda, “durante o tempo em que a habitar
por qualquer título” ( art. 5.º, n.ºs l e 9, da LUF).
Se a união de facto tiver começado há mais de cinco anos antes da morte, o direito de
habitação é conferido por tempo igual ao da duração da união (5.º, n.º 2, da LUF ).
Excecionalmente, e por motivos de equidade, o tribunal pode prorrogar os prazos de
atribuição do direito de habitação (art. 5.º, n.º 4, da LUf).
O direito de habitação não é conferido ao membro sobrevivo se este tiver casa própria na área
do respetivo concelho da casa de morada de família ou nos concelhos limítrofes, se a casa de
morada se situar nas áreas dos concelhos de Lisboa ou Porto (art. 5.º, n.º 6, da LUF). O direito
caduca se interessado não habitar a casa por mais de um ano, salvo se a falta de habitação for
devida a força maior (art. 5º, n.5º, da LUF)
Esgotado o prazo em que beneficiou do direito de habitação, o membro sobrevivo tem o
direito de permanecer no imóvel na qualidade de arrendatário, nas condições gerais de
mercado, e tem direito a permanecer no local até à celebração do respetivo contrato, salvo se
os proprietários satisfizerem os requisitos legalmente estabelecidos para a denúncia do
contrato de arrendamento para habitação, pelos senhorios, com as devidas adaptações (art.
5º, n.º 7, da LUF). Na falta de acordo sobre as condições do contrato o membro sobrevivo da
união de facto e os proprietários do imóvel, o tribunal pode fixá-las, ouvidos os interessados
(art. 5.º, n.º8 luf)
A mesma lei confere ao membro sobrevivo da união de facto o direito de uso do recheio da
casa de morada de família pertencente ao falecido, pelo prazo de cinco anos ou por prazo igual
ao da duração da união de facto, se esta tiver durado mais de cinco anos (art. 5.º, n.ºs l e 2, da
LUF).
Direito de uso do recheio caduca, e o respectivo prazo pode ser prorrogado, nos mesmos
termos que o direito de habitação sobre a casa de morada de família (ainda art. 5.º da LDF,
n.ºs 4 e 5).
Se os membros da união de facto fossem comproprietários da casa de morada de família ou do
respetivo recheio, o membro sobrevivo mantém a posição de comproprietário, que nunca
perdeu, após a cessação do prazo direito de habitação, ou de direito de uso do recheio, que
onerava a quota integrada na herança do falecido.
As mencionadas atribuições em favor do membro sobrevivo da união de facto representam
manifestações de sucessão constitutiva legal: o direito habitação da casa de morada de
família, o direito de preferência na sua venda e o direito de uso do recheio da casa são
situações Jurídicas ativas que derivam de um direito ( de propriedade) preexistente no
património do de cuius, que não existiam, como tais, nesse património, sendo constituídas ex
novo; e têm como fundamento um facto designativo não negocial, a união de facto.
Mais: tais atribuições cabem no domínio da sucessão Legitimário.

O cariz sucessório da transmissão por morte do direito ao arrendamento para habitação,


previsto no art. 1106º, e das atribuições por morte dos direitos de habitação, de preferência e
de uso do recheio, reguladas na LUF, implicam a inclusão plena de todos estes direitos na
herança do de cuius designadamente, do valor correspondente, para quantificação do
relictum); a exclusão da transmissão, ou atribuição, quanto a sucessíveis que tenham sido
deserdados ou declarados judicialmente indignos.

53
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A dinâmica sucessória

Da abertura da sucessão

Momento e lugar da abertura da sucessão

A sucessão abre-se no momenta da morte do seu autor e no lugar do ultimo domicílio


dele (art.2031º).
É no momento da abertura da sucessão que as situações jurídicas transmissíveis por
morte deixam de titular.
A avaliação dos bens e do passivo que integram a herança tem como ponto de referenica a
data da abertura da sucessão, ainda que a avaliação, por força das regras da sucessão
legitimaria ou contratual, abarque bens doados em vida (implicitamente, art.2109º). É a esse
momento que, em regra, retroagem os efeitos da aceitação, do repúdio e da partilha
(art.2050º/2, 2062º e 2119º)

A morte enquanto pressuposto da sucessão

A abertura da sucessão é desencadeada pela morte de uma pessoa.


No domínio sucessório, a morte corresponde quer à morte física quer à morte
presumida (115º).
No caso de morte presumida, o momento da morte é o da data fixada pela sentença,
previstos no art.118º e 119º (a sucessão é resolvida no caso do ausente regressar).
A morte física e a declaração de morte presumida só podem ser invocadas enquanto
pressupostos da sucessão desde que o óbito esteja registado (art.1º/1/p) e 2º CRC).

Só a ausência na fase de declaração de morte presumida é que leva à abertura da


sucessão.
Os art.101º, 102º, 103º e 109º sugerem uma eficácia mais ampla da ausência na fase
da curadoria definitiva: justificada a ausência, abrem-se testamentos, os bens do ausente são
administrados pelo cabeça-de-casal; admite-se a aceitação ou repudio da herança ou de
legados; entregam-se bens aos sucessíveis designados legatários que tal o requeiram; e
permite-se a realização da partilha.
No entanto, os sucesisveis a quem tenham sido entregues os bens do ausente são
havidos como curadores definiticos (art.104º). E ao curador definitivo não cabe o estatuto de
sucessor: ele não é titulor dos bens do ausente, representa-o no plano patrimonial (art.110º).

Vocação sucessória

Noção de vocação sucessória

A vocação ou chamamento traduz-se na atribuição ao sucessível do direito de suceder.


1

O direito de suceder é o direito de aceitar, repudiar a herança ou o legado.


O direito de suceder é originário porque não preexistia na esfera jurídica do de cuius.

1
Nos casos de sucessão contratual e de sucessão legal do Estado, não há atribuição do direito de
suceder por morte do de cuius. O beneficiário da sucessão contratual adquire o que lhe foi deixado
a titulo de herança ou de legado, sem necessidade de aceitação e sem possibilidade de repudio. Na
falta de outros sucessíveis legítimos, a aquisição da herança pelo Estado “opera-se de direito”.

54
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

É instrumental porque se destina a permitir a aquisição dos bens deixados pelo


falecido.
Dada a sua instrumentalidade, o direito de suceder esgota-se automaticamente com o
seu exercício e não é suscetível de ser transmitido.

A vocação não se demarca substancialmente da devolução. Tanto num caso como no


outro, ocorre a atrubuição do direito de suceder. A distinção terminolígica reflete uma mera
diferença de perspetivas (art.2024º). A palavra vocação acentua a ideia de chamanete de
pessoas, a palavra devolução a ideia de possibilidade de aquisição de situações jurídicas.
Quando abre a sucessão, produz-se vocação ou a devolução.

Pressupostos gerais da vocação sucessória

O art.2032º/1 alude expressamente a dois pressupostos da vocação: titularidade da


designação prevalente e capacidade. Há, porém, um terceiro pressuposto, a existência do
chamado, sem a qual nenhum dos outros pressupostos é suscetível de se verificar.

O pressuposto da existência do chamado desdobra-se em dois elementos:


sobrevivência (o sucessível titular da designação tem de sobreviver ao de cuius) e
personalidade jurídica (o sucessível titular da designação tem de possuir personalidade jurídica
no momento da abertura da sucessão).
Só se concretiza a vocação a favor de sucessível que tenha sobrevivido ao de cuius. Se
o sucessível for um ser da espécie humana, não pode ter morrido antes ou ao mesmo tempo
do de cuius. Se for uma organização, é indispensável que se não tenha extinguido antes da
abertura da sucessão.
Se o sucessível designado for uma pessoa singular: não se tendo a certeza se a morte
física ocorreu antes ou depois da morte do de cuius, presume-se que as duas mortes foram
simultâneas, nos termos do art.68º/2, pelo que se não concretiza a vocação do sucessível.
A vocação da pessoa singular também não se concretiza se tiver sido declarada a
morte presumida com referencia a uma data anterior à abertura da sucessão (art.114º/3,
115º).
Em contrapartida, a ausência do sucessível, na fase da curadoria definitiva, não impede
a vocação por não ser equiparada à morte física e à morte presumida. Os direitos que passam
às pessoas que seriam chamadas à titularidade deles (art.120º) passam como representantes,
curadores do ausente (art.121º).
É indispensável a personalidade jurídica do sucessível titular da designação prevalente.
Portanto, não se produz vocação, por exemplo, a favor de animais domésticos.
Em principio, exige-se que que o sucessível possua personalidade jurídica no momento
da abertura da sucessão. Mas essa regra comporta exceções quanto aos seres humanos e
quanto às organizações.
Relativamente aos seres humanos, do art.2033º resulta:
• Podem ser chamadas pessoas singulares que ainda não tenham nascido ao
tempo da abertura da sucessçao, mas que já tinham sido então
concebidas;
• Podem também ser chamadas pessoas singulares que nem sequer tinham
sido concebidas ao tempo da abertura da sucessçao, se tiveram sido
designadas como sucessíveis voluntários pelo de cuius, enquanto filhos de
pessoa determinadas, viva ao tempo da abertura da sucessão.
NOTA: os nascituros enquanto tais não beneficiam da vocação. A
atribuição do direito do suceder depende do seu nascimento, nos termos
do art.66º/2.

55
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Leite de Campos: CONTRA, afirma que a personalidade jurídica surge com


a conceção, defende que o nascituro concebido é chamado a suceder e
que “se falecer” os bens adquiridos transmitem-se para os seus herdeiros.
Pereira Coelho: CONTRA, os nascituros concebidos detêm uma
personalidade reduzida que permite ao respetivo chamamento à sucessão.

Entre a abertura da sucessão e a data do nascimento, a administração da


herança ou legado a favor de nascituro é regulada pelo art.2240º:
• Se o nascituro já estiver concebido, a administração compete a quem
adminsitratia os seus bens se ele já tivesse nascido (nº2)
• Tratando-se de deixa a nascituro não concebido, aplica-se o regime de
administração da herança sob condição suspensiva (nº1).
É polemica a questão da partilha no caso de terem sido designados nascituros
não concebidos. Um setor (Pereira Coelho) sustenta que a partilha pode ser
feita logo após a abertura da sucessão, sob condição resolutiva do nascimento
completo e com vida dos sujeitos designados. Outro setor (Pamplona Corte
Real), considera que a partilha não é admissível senão depois de haver certeza
de que não nascem mais filhos.
Jorge Pinheiro Duarte: parece que a partilha não pode ficar indefinidamente
por fazer, nem pode ficar sujeita a ser resolvida sempre que nasça uma pessoa.
Para o professor, a partilha pode ser feita logo após a abertura da sucessão.
Sobrevindo um sucessível, deve aplicar-se analogicamente o art.2029º/2: a
quota do herdeiro superveniente será composta em dinheiro.

A regra da personalidade jurídica no momento da abertura da sucessão como


pressuposto da vocação sofre também exceções no caso de organizações. Por exemplo, as
fundações instituídas por testamento só são reconhecidas após a morte do instituídor. O
reconhecimento, além de atribuir personalidade jurídica (art.158º/2), vale como aceitação dos
direitos destinados à fundação (art.188º/2).
Sublinhe-se que não há exceções à regra da personalidade jurídica enquanto
pressuposto da vocação. O direito de suceder só é atribuído à fundação no momento em que
ela adquire a personalidade jurídica
Não se ignora que o art.2033º/2/b), prevê a capacidade sucessória das sociedades,
sugerindo que elas não cabem nas pessoas coletivas. Mas as liberalidades deixadas às
organizações sem personalidade jurídica consideram-se feitas às pessoas singulares que delas
façam parte (art.197º, que é aplicável direita ou/e analogicamente).

O art.2033º/1 atribui capacidade sucessória geral a todas as pessoas nascidas ou


concebidas ao tempo da abertura a sucessão.
Apesar do preceito consagrar, indistintamente, a capacidade sucessória de pessoa já
concebida à data da morte do de cuius, há quem afirme que não caberá a qualidade de
sucessível legitimo e legitimário ao filho resultante de uma transferência póstuma de
embriões, já existentes no momento da abertura da sucessão, quando o respetivo nascimento
não tiver ocorrido dentro dos 300 dias, subsequentes à abertura da sucessão.
No entanto, o principio da não discriminação com base no nascimento resultante da
utilização de técnicas de PMA (art.13º/1 CRP e art.3º/2 LPMA) é capaz de não legitimar uma
interpretação restritiva que negue a qualidade de sucessível legal ao filho, resultante de uma
implantação post mortem de embrião já existente no momento da abertura da sucessão, só
porque nasceu decorridos mais de 300 dias contados a partir da morte do pai.

56
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

E o mesmo principio pode obstar até a uma interpretação declarativa do art.2033º/1,


adversa ao reocnheicmento de direitos sucessórios legais ao filho nascido por inseminição post
mortem, que é concebido após a abertura da sucessão.
Tendo em conta a letra do mencionado preceito (que atribui capacidade sucessoira
geral a “todas a spessoas nascidas ou concebidas ao tempo da abertura da sucessão), a
ilicitude da inseminição post mortem e razões de segurança jurídica e estabilidade das
posiçºões adquiridas (nomeadamente as que se prendem com a ratio do art.1819º/2), Paulo
Nascimento exclui a vocação legal do filho gerado após a abertura da sucessçao. Mas, no
entendimento de Pamplona Corte-Real, reconhecida a filiação relativamente ao pai falecido, o
principio de não descriminação parece impor a plena aquisição do estado jurídico do filho, sem
qualquer afetação do mesmo pelo nascituro ulterior à morte daquele.

O segundo pressuposto geral da vocação sucessório é a capacidade, que falaremos


mais à frente.

O último pressuposto é a titularidade da designação prevalente.


São chamados à sucessão aqueles que gozam de prioridade na hierarquia dos
sucessíveis, os chamados sucessíveis prioritários.
Se o sucesisvel prioritário chamada não quiser ou não puder aceitar a sucessão, é
chamado o sucessível subsequente, retroagindo a vocação deste ultimo ao momento da
abertura da sucessão (art.2032º/2).

A capacidade sucessória

Em sentido amplo, a capacidade sucessória designa a idoneidade para se ser chamado


a suceder como herdeiro ou legaatario, de todo e qualquer pessoa e ara se ser chamada a
suceder como herdeito ou legatário de certa pessoa.
Em sentido restrito, a capacidade sucessória traduz unicamente a idoneidade para se
ser chamado a suceder como herdeito ou legatário de toda e qualquer pessoa (situação de
capacidade em sentido técnico).
Têm capacidade sucessória em sentido restrito todas as pessoas singulares e coletivas
(art.2033º). Todavia, em certos casos a capacidade está limitada em razão da fonte de
designação (art.2033º/2): as pessoas coletivas distintas do Estado e as pessoas singulares que
ainda não tinham sido concebidas no momento da abertura da sucessão só beneficiam de
capacidade no campo da sucessão voluntaria.

A outra parcela de capacidade sucessória em sentido amplo, a idoneidade para se ser


chamado a suceder como herdeito ou legatário de certa pessoa, corresponde já a uma
situação de legitimidade.
Não beneficiam de idoneidade para suceder a certa pessoa aqueles que tenham sido
deserdados por essa pessoa ou que tenham sido declarado indignos quanto a ela.

Indignidade

As circunstâncias enunciadas nas alienas do art.2034º constituem causas de


incapacidade sucessória, por motivo de indignidade.

57
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

As alienas a) e b) abrangem os atentados contra a vida, ou honra, do adotante ou


adotado.
A condenação mencionada nestas alieneas pode ser posterior à abertura da sucessão,
mas só o crime anterior releva enquanto causa de indignidade (art.2035º/1). Estando a
vocação do sucessível dependente de condição suspensiva, é relevante o crime cometido até à
verificação da condição (art.2035º/2).

Naturalmente, o atentado contra a liberdade de testar tem de ocorrer antes da


abertura da sucessão. E este tipo de situações conserva importância enquanto causa de
indignidade, ainda que as disposições testamentarias determinadas por dolo ou coação
tenham sido anuladas (art.2201º e 2308º/2) ou revogadas.

Como resulta da alínea d), o atentado contra o próprio testamento representa


fundamento de indignidade, não interessando se é anterior ou posterior à abertura da
sucessão.

As causas enumeradas nas alíneas do art.2034º são as únicas que podem implicar a
indignidade, por esta acarretar a aplicação de uma sanção punitiva sujeita ao principio da
legalidade (JPD)2. Por conseguinte, salvo alteração da lei, o atentado contra a vida ou honra do
companheiro do autor da sucessão (membro de união de facto, e não cônjuge) não permite
afastamento do sucessível por indignidade.

A indignidade não opera automaticamente – tem de ser judicialmente declarada.


O art.2037º/1, logo no inicio, fixa os efeitos da indignidade tomando como ponto de
partida a declaração de indignidade, que, numa interpretação atenta ao elemento sistemático,
é a declaração prevista no artigo imediatamente anterior.
O art.2036º/1 prevê que a ação destinada a obter a declaração de indignidade pode
ser intentada dentro do prazo de dois anos a contar da abertura da sucessão, ou dentro de um
ano a contar, quer da condenação pelos crimes que a determinam, quer do conhecimento das
causas de indignidade previstas nas alíneas c) e d) do artigo 2034.º.
No caso de condenação pelo crime previsto na alínea a) do art.2034º, a indignidade
sucessória pode ser declarada na sentença penal (art.69º-A CP). Não tendo a indignidade sido
declarada na sentença penal, a condenação é obrigatoriamente comunicada ao Ministerio
Publico, para que seja intentada ação de declaração de indignidade – art.2036º/3.
Na hipótese de o único herdeiro ser o sucessor afetado pela indinidade, ao MP
incumbe também intentar a ação de declaração de indignidade com fundmaneto em outras
causas (art.2036º/2).
Fora dessa hipótese, a legitimidade para propor a ação de declaração de indignidade é
apurada com base no art.30º CPC.

Para parte da doutrina, a declaração judicial de indignidade só tem de ser requerida


quando a pessoa que incorreu numa causa de indignidade esteja na posse de bens da herança.
Há ainda um setor que não contesta a exigência da declaração juridicial, mas entende que os
prazos estabelecidos no art.2036º se referem somente às situações em que o sucessível que
incorreu em causa de indignidade esteja na posse dos bens; não estando tal sucessível na
posse dos bens da herança, a declaração poderia ser requerida em qualquer momento.

2
Oliveira Ascenção – o art.2034º consagra uma tipicidade delimitativa.
O STJ pronunciou-se pela taxitividade do art.2034º.

58
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

No entanto, o art.2036º não distingue e há razoes de segurança e certeza jurídica que


justificam que deva existir sempre delcarção judicial de indignidade e que esta seja proferida
dentro de certo prazo.
Para mais, a dispensa de declaração judicial ou de prazo para tal declaração, no caso
de sucessível que não esteja na posse dos bens, alarga o âmbito da indignidade, com base num
meio – que é a analogia com o disposto no art.287º/2 – contrario ao principio da legalidade
estrita, que vigora no campo das sanções punitivas, sejam elas civis ou penais.
Por fim, mesmo na situação extrema de condenação por homicio doloso (art.2034º/a))
a lei não contempla a possibilidade de produção de efeitos da indignidade sem declaração
judicial nem de uma declarçaõ judicia a todo o tempo, pressupondo antes uma alternatica
entre declaração na sentença penal ou declaração em ação autonoa intentada pelo MP dentro
de certo prazo (art.2036º/3)

A declaração judicial de indignidade tem como efeito principal o afastamento da


pessoa da sucessão legal e da sucessão testamentaria do de cuius relativamente ao qual ela foi
declarada indigna3.
Se a declaração for previa à abertura da sucessão, o indigno não é chamado. Se a
declaração for posterior, a vocação do indigno é havida como inexistente, sendo ele
considerado, para todos os efeios, possuidor de má fé dos bens da herança – 2037º/2

O sucessível que for declarada indigno é também excluído da sucessão legitimaria.


• Pereira Coelho: o instituto da indignidade não é aplicável à sucessão
legitimaria, porque, tendo caracter geral, o referido instituo cedia perante a
deserdação, instituto especifico da sucessão legitimaria
• Oliveira Ascensão: a indignidade só opera qunado o de cuius não tivesse
conseguido deserdar o sucessível legitimário
• Pamplona Corte Real: o sucessível legigtimario está totalmente sujeito ao
regime da indignidade (obtem apoio da generalidade dos autores).

Aquele que tiver incorrido numa causa de indignidade pode ser reabilitado. A
reabilitação incumbe ao autor da sucessão e pdoe ser efetuada antes da declaração judicial de
indignidade, desde que ele tenha conhecimento do facto que constitui fundamento da
indignidade.
Havendo reabilitação anterior à declaração judicial, esta não será eficaz (total ou
parcialmente). Não cchega a verificar-se a incapacidade de suceder,
Havendo reabilitação posterior à declaração, o que tiver incorrido em indignidade
“readquire a capacidade sucessória” (art.2038º/1).
A reabilitação pode ser total ou parcial, expressa ou tácita.
Só a reabilitação expressa permite a concretização de vocação no campo da sucessão
legal.
A reabilitação tácita, a que alude o nº2 do art.2038º, confere ao indigno uma
suscetibilidade de vocação confinada à sucessão testamentária

Deserdação

3
O afastamento da sucessão contratual, do beneficio conferido pela doação por morte, não ocorre por
declaração judicial de indignidade, mas mediante revogação por ingratidão do donatário. A revogação
por ingratidão do donatário, instituo que se aplica às doações (em vida e por morte), depende de uma
ação proposta com fundamento em causas de indignidade e deserdação (art.970º-979º). Não obstante a
letra do art.975º/a), as doações para casamento são revogáveis por ingratidão do donatário

59
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Em sentido amplo, a deserdação abrange o ato mediante o qual o de cuius pretende


expressamente afastar da sua herança alguém que foi designado para suceder como herdeiro
legitimário, legitimo, testamentário ou contratual.
Ex: o de cuius faz testamento em que declara deserdar o seu irmão, que é sucessível legitimo
prioritário. Tratando-se de sucessão supletiva, o afastamento do irmão será valido,
independentemente de o testador ter ou não apresentado uma razão que justifique o ato.
Em sentido restrito, a deserdação abrange o ato medianto o qual ode cuius pretende
expressamente privar um sucessível da posição que lhe caberaia enquanto herdeiro legitimário
– a lei utliza o termo “deserdação” neste sentido – art-2166º/1.

Ao abrigo do art.2166º/1 o de cuius pode, em testamento, com expressa declaração


de causa, deserdar o sucessível legitimário (designado para suceder como herdeiro), privando-
o da legitima, quando se verifique, relativamente ao sucessível, alguma das ocorrecias das
alienas.
A deserdação tem de ser feita por testamento, estando, por isso, tmabém sujeita as
regras próprias do negocio testamentário.
O testador tem de indicar expressamente a causa, que só pode ser uma daquelas
previstas no art.2166º/1.
Nos casos das al. a) e b) do art.2166º/1 é admissível a deserdação condicional na
dependência de uma ulterior condenação, com base numa aplicação analógica do art.2035º/1.
Sendo induzida pelo art.2166º/2, a analogia não colide com a tipicidade das causas de
deserdação.

O art.2166º/1, proemio, aponta a privação da legitima como consequência da


deserdação.
A deserdação obsta a aquisição da totalidade da legitima (principio da indivisibilidade
da vocação).
Mas a deserdação não se repercute somente no campo da sucessão legitimaria:
• Impede o acesso à sucessão legitima e à sucessão testamentaria, quer por força do
art.2166º/2, que equipara o deserdado ao indigno para todos os efeitos legais,
quer por força de um argumento de maioria da razão. Afinal a deserdação afasta o
sucessível de uma espécie de sucessão que é tuda como intangível e que precede
hierarquicamente as outras espécies de sucessão.
Deste modo, no domínio das causas comuns à indignidade e deserdação, a
deserdação confere ao de cuius a faculade de afastar o sucessível legitimário de
toda a sucessão (exceto contratual) sme necessidade de declaração judicial de
indignidade.

O art.2039º, sobre reabilitação, aplica-se, com as devidas adaptações, à deserdação,


nos termos do art.2166º/2.
Além disso, porque a deserdação é feita por testamento, a reabilitação do deserdado
pode ser feita por revogação expressa da clausula testamentaria de deserdação – art.2312º.
A reabilitação tácita, fundada no art.2038º/2, não confere ao deserdado capacidade
para adquirir no âmbito da sucessão legitimaria; ele apenas pode suceder no âmbito da
sucessão testamentaria.

O art.2167º estabelece que a ação de impugnação da deserdação, com fundamento na


inexistência da causa invocada, caduca ao fim de dois anos a cotnar da abertura do
testamento.

60
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Esta ação é o meio adequado para reagir contra a deserdação, em que o de cuius
invoque expressamente uma causa mencionada no art.2166º/1, que afinal não ocorreu.
O prazo previsto para a ação de impugnação é curto (art.2167º), no pressuposto de
que a abertura do testamento coincide com a tomada de conhecimento do seu teor pelo
legitimário. Não sendo assim, deve entender-se que, por analogia com o art.2308º, o prazo se
conta a partir da data em que o interessado teve conhecimento do testamento e da
deserdação.
Se a deserdação for efetuada sem invocação expressa de uma causa mencionada no
art.2166º/1, o sucessível pode arguir a nulidade da clausula testamentária, nos termos do
aart.2308º (Contrariamente, o prof. Pamplona Corte Real diz que a deserdação é
juridicamente inexistente).

Modalidades de vocação

Vocação originária (imediata) vs. Subsequente

Critério do momento da concretização do chamamento


A vocação originaria ou imediata é a que se verifica na data de morte do de cuius –
art.2032º/1.
A vocação subsequente é a que se concretiza em momento posterior ao da abertura
da sucessão.

A vocação originaria é a regra.


Exemplos de vocação subsequente:
• A vocação do sucessível subsequente (contra – oliveira ascenção, afirma que á
vocação originaria), isto é, daquele que era sucessível não prioritário do de cuius
no momento da abertura da sucessão e foi chamado em virtude de os primeiros
sucessíveis não poderem ou não quererem aceitar a herança ou legado
(art.2032º/2)
• A vocação de pessoa singular que ainda não tinha nascido à data de abertura da
sucessão: embora possam ser designados, os nascituros não beneficiam da
vocação (contra – Capelo de Sousa, afirma a existência de vocação originária dos
nascituros, dependente da conditio iuris do seu nascimento), porque a atribuição
do direito de suceder pressupõe o nascimento completo e com vida
• A vocação do sucessível instituído ou nomeado sob condição suspensiva
(Art.2229º), que só ocorre na data da verificação da condição (como decorre do
regime geral da condição e é, implicitamente, confirmado pelos art.2035º/2,
2059º/2 e 2317º/b))
• A vocação do fideicomissário, que só é chamado após a morte do fiduciário
(art.2293º/1 e 2294º). Além de subsequente, a vocação do fdeicomissario é
sucessiva, porque pressupõe uma vocação anterior (a do fiduciário) que se
concretizou e subsistiu.

No seio das vocação subsequentes, há que distinguir aquelas que retroagem ao


momento da abertura da sucessão das demais:
• As vocações do sucessível subsequente – art.2032º/2/2ªparte
• Vocações do sucessível designado sob condição suspensiva retroagem à data de morte
do de cuius (art.2242º)
Em contrapartida, não beneficiam do mecanismo de retroação as vocação da pessoa singular
ainda não nascida à data de abertura da sucessão e do fideicomissário.

61
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Vocação pura e vocação condicional, a termo ou modal

Critério da sujeição, ou não, da vocação a uma clausula acessória


A vocação pura constitui a regra.
A vocação legal é necessariamente pura.
A vocação voluntaria pode estar sujeita a condição, termo ou encargo.
A vocação é condicional quando está sujeita a condição; a termo, quando está sujeita a
termo; e modal quando está sujeita a encargo.
Vocação testamentaria condicional, a termo ou modal – art.2229º e ss.
Vocação contratual condicional e a termo orienta-se pelo regime geral da condição e
do termo – art.270º a 279º.
Doações por morte, o regime contratual modal está nos art.963º a 967º.

Vocação única (una) e múltipla

Vocação una – quando o sucessível é chamado a suceder num único titulo de vocação
e numa única qualidade sucessória (absolutamente indivisível)
Vocação múltipla – se o sucessível é chamado a suceder em mais do que um titulo de
vocação ou na dupla qualidade de herdeiro e legatário (excecionalmente divisível).

Principio da indivisibilidade da vocação

O princípio manifesta-se nos art.2054º/2, 2064º/2, 2055º/1/1ªparte e


2250º/1/1ªparte.
À luz do principio da indivisibilidade da vocação, aquele que é chamado a suceder por
um só titulo de vocação e numa só qualidade sucessória ou aceita ou repudia totalemtne a
sucessão (indivisibilidade da vocação una).
Ex: se o filho do de cuius é chamado a suceder como herdeiro legitimário, ele não pode
aceitar metade da legítima subjetiva e repudiar o resto.

No caso de vocação múltipla, o principio da indivisibilidade da vocação aplica-se


somente à sucessão legal comum e à sucessão testamentária. O sucessível chamado como
herdeiro legitimário e como herdeiro legitimo não pode aceita por um titulo e repudiar o
outro; e, em regra, o sucessível chamado como herdeiro legal e como herdeiro testamentário
não pode aceitar por um titulo e repudiar pelo outro.
A lei nada diz sobre a sucessão contratual, porque a aceitação do pacto pelo respetivo
beneficiário ocorre antes da vocação, produzindo-se a aquisição sucessória no momento da
abertura da sucessão, sem possibilidade de repudio.

O CC alude à indivisibilidade da vocação do legatário apenas no campo da sucessão


testamentaria (art.2250º)

Exceções ao principio a indivisibilidade da vocação:


• O sucessível chamado a suceder por um título contratual e por outro (testamentário,
legítimo ou legitimário) pode repudiar o último, não obstante estar impedido de
repudiar o primeiro.
• O sucessível chamado a suceder num legado legal e chamado a suceder à herança
(testamentário, legítimo ou legitimário), ou a outros legados, pode optar por adquirir

62
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

ou não o legado legal, independentemente do que tiver decidio, nos outros casos,
quanto à aceitação ou repudio.
• O sucessível chamado à herança, simultânea ou sucessivamente, por testamento e por
lei, pode aceitá-la ou repudia-la pelo primeiro título, não obstante a ter repudiado ou
acietado pelo segundo, se ao tempo ignorava a existência do testamento
(art.2055º/1/2ªparte).
• O sucessivle legitmario que também é chamado à herança por testamento pode
repudia-la quanto à quota disponível, diferida testamentariamente, e aceitá-la quanto
à quota legitimária (art.2055º/2)
• O sucessível que é chamado a suceder a varias deixas testamentárias (legadas e/ou
heranças) pode aceitar umas e repudiar outras, contanto que as deixas repudiadas não
estejam sujeitas a encargos (art.2250º).
• O sucessível que é chamado a suceder a uma parte, diretamente, e a outra parte, por
acrescer, pode aceitar aquela e repudiar esta, quando sobre a parte acrescida recaiam
encargos especiais impostos pelo testador – art.2306º.

Vocação direta e indireta

Critério da pessoa que serve como ponto de referência

A vocação direta dá-se quando alguém é chamado à sucessão unicamente em atenção


à relação que existe entre si e o de cuius
A vocação indireta dá-se qunado alguém é chamado à sucessão em consideração da
ligação existente entre o sucessível e o de cuius e da posição que se estabelece entre o
sucessível chamado e um terceiro, que não entra na sucessão, mas serve como ponto de
referencia da vocação.

A vocação direta constitui a regra.


Na vocação indireta, um sucessível é chamdo a ocupar a posição de outro sucessível
que não quis ou não pôde aceitar a sucessão e esse chamamente cocorre por força de uma
ligação que se estabelece entre ambos.
A vocação indireta caracteriza-se cumulativamente pelos pressupostos e pelos efeitos:
• Pressupõe a existência de um sucessível que não quis ou não pôde aceitar a
sucessão
• Uma determinada ligação entre o sucessível e outro sucessível
• E ao sucessível que foi chamado indiretamente é atribuído o direito de suceder
que cabia ao sucessível que não quis ou não pôde aceitar.

A figura distingue-se do chamamento sucessível subsequente4: é certo que em ambos


os casos há um sucessível que não quis ou não pôde aceitar causa da relação que o liga ao de
cuius e nem sempre ocupa uma posição sucessória idêntica à que cabia ao outro sucessível.
Por conseguinte, no campo dos pressupostos da vocação indireta, não basta a alusão a
um poder ou não querer aceitar, sob pena de se confundir a figura com o chammaneto do
sucessível subsequente. Para ocorrer vocação indireta, é indispensável uma relação entre o
beneficiário e o sucessor que não pode ou não quis aceitar a sucessão, relação que pode ser

4
exemplo de chamamento de sucessível subsequente: ao autor da sucessão sobrevivem o filho e o pai.
O filho repudia, pelo que o pai do de cuius será chamado enquanto sucessível legal subsequente,
exclusivamente por via da sua ligação familiar ao autor da sucessão (art.2133º/1/b), 2157º)

63
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

um laço familiar ou resultar de disposição voluntaria mortis causa, normalmente,


testamentaria.

Cambem no conceito de vocações indiretas a substituição direta, o direito de


representação e o direito de acrescer.
A vocação indireta pressupõe que um sucessível não possa ou não queira aceitar a
herança ou o legado (nomeadamente, art.2309º, 2137º/2 e 2281º/1).
A expressão não poder aceitar traduz uma impossibilidade jurídica de aceitar, que
abrange as seguintes situações:
• A não sobrevivência do de cuius – corresponde à pré-morte, física ou
presumida, e à comorencia. A ausência na fase da curadoria definitiva não
representa um pressuposto da vocação indireta.
• A não aquisição de personalidade jurídica – obsta à eficácia da designação do
nascituro ou da liberalidade que tenha sido feita em favor de entidade, sob
condição de aquisição de personalidade coletiva. Não se concretizará a
vocação direta, mas nada impede o funcionamento da substituição direta ou
do direito de acrescer
• Indignidade
• Deserdação
• Divorcio ou separação de pessoas e bens do sucessível que estava casado com
o de cuius e obrigadão ao dever de coabitação no momento de designação
• Caducidade do direito de suceder

Não preenche o pressuposto “não poder aceitar”, das vocações indiretas, a


impossibilidade material de aceitar (ex: o sucessível estar em coma) ou a incapacidade geral de
exercício.
A expressão “não querer aceitar” identifica-se com o repudio.

Vocação imediata (adquirida originariamente) e derivada (adquirida por transmissão)


Critério da aquisição originaria ou derivada da vocação
A vocação imediata é aquela que foi adquirida originariamente pelo sucessível.
A vocação derivada é aquela que foi adquirida pelo sucessível na sequencia do
chamamento à sucessão de outro de cuius.

A vocação imediata representa a situação normal.


A vocação derivada é a que decorre da transmissão do direito de suceder.
A vocação derivada implica a abertura sucessiva de duas sucessões, chamamento do
segundo de cuius à primeira sucessão, morte do segundo de cuius sem que ele tenha exercido
o direito de suceder que lhe foi atribuído quanto ao primeiro, chamamento de um terceiro à
segunda sucessão na qualidade de herdeiro e aceitação da segunda sucessão pelo terceiro que
à mês foi chamado como herdeiro (exceto se o terceiro chamado for o Estado, enquanto
herdeiro legitimo, caso em que este não tem de aceitar)
Ex: A deixa um quarto da sua herança a B. B morre um ano depois, sem que tenha
aceitado ou repudiado a deixa testamentaria de A. B, solteiro e sem parentes na linha reta,
tinha feita testamento em que deixou a C todos os seus bens. C sobreviveu a B. Em favor de B,
concretizou-se uma vocação imediata relativamente à sucessão de A. Em favor de C,
concretizou-se uma vocação imediata relativamente à sucessão de B. Se C aceitar a deixa
testamentária de B, exerce o direito de suceder que ele próprio adquiriu originariamente. Mas,
com a aceitação da herança de B, C adquire, por transmissão mortis causa, todas as situações

64
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

jurídicas patrimoniais que pertenciam a B, incluindo o direito de suceder a A. C virá a


beneficiar de uma vocação derivada relativamente à sucessão de A.

Não é concebível a existência de vocação derivada no domínio da sucessão contratual:


aquela exige que o titular do direito de suceder morra antes de aceitar; na sucessão
contratual, o destinatário da proposta de doação mortis causa aceita na própria conveção
antenupcial.

A vocação derivada não se confunde com a vocação indireta. A vocação derivada é


uma vocação que foi transmitida. A vocação indireta é adquirida originariamente: a vocação
do sucessível que não pôde ou não quis aceitar a sucessão não chegou a concretizar-se (ex:
pré-morte) ou, tendo-se concretizado, extinguiu-se retroativamente (ex: por repúdio).

Vocação comum e anómala

A vocação comum é a vocação normal: originária, pura, direta e imeadiata (adquirida


de modo não translativo).
A vocação anómala é aquela que se desvia do referido padrão de normalidade.

Vocações anómalas em especial

A transmissão do direito de suceder

Noção e pressupostos da transmissão do direito de suceder

O art.2058º consagra a figura da transmissão do direito de suceder no nº1.


Para facilitar a exposição, afigura-se útil a apresentação de um exemplo, precedida
pelas seguintes referencias terminológicas:
• O sucessível chamado à herança é o transmitente ou segundo de cuius
• O autor da sucessão a que foi chamado o transmitente é o primeiro de
cuius;
• Os herdeiros do transmitente são os transmissários.

A, que morre em Janeiro de 2006, é o primeiro de cuius. B, filho de A, morre em fevereiro de


2006, sem aceitar nem repudiar a herança. de A. Sobrevivem-lhe C, cônjuge, e D, filho de B e C.
B é o segundo de cuius ou transmitente. C e D, herdeiros legais de B (art.2133º/1/a) e
art.2157º), são os transmissários do direito de suceder que foi atribuído a B quanto à herança
de A, se aceitarem a herança de B.

A transmissão do direito de suceder, que se demarca do direito de representação, está


submetida a cinco pressupostos gerais:
• Abertura sucessiva de duas sucessões
• Chamamento do segundo de cuius à primeira sucessão
• Morte do segundo de cuius sem que ele tenha exercio o direito de suceder que lhe foi
atrtibuido quanto ao primeiro
• Chamamento de uma terceiro pessoa à segunda sucessão na qualidade de herdeiro
• Aceitação da segunda sucessão pelo terceiro que à mesma foi chamado como herdeiro

No que toca ao pressuposto b), note-se que é condição indispensável da transmissão do


direito de suceder a sobrevivência do segundo de cuius ao primeiro.

65
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

E o segundo de cuius só pode ter sido chamado na qualidade de herdeiro ou legatário –


art.2249º.
A propósito do quarto pressuposto, esclareça-se que o chamamento do terceiro como
herdeiro pode ter por base qualquer titulo
O ultimo pressuposto, aceitação da segunda sucessão pelo terceiro que à mesma foi
chamado como herdeiro, não é requerido para a transmissão do direito de suceder se o
terceito for o Estado, chamado enquanto sucessível legitimo. Em tal caso, a aquisição da
herança opera-se de direito, sem necessidade de aceitação – 2154º.

O problema da capacidade do transmissário

O transmissário adquire o direito de suceder relativo à sucessão do primeiro de cuius


através da herança do transmitente. Deste modo, ele tem necessariamente de beneficiar de
capacidade sucessória relativamente ao transmitente.
Os descendentes representam o seu ascendente mesmo que sejam incapazes em
relação a ele. Todavia, o direito de suceder relativo à sucessão do primeiro de cuius traduz
uma vocação perante este, pelo que é exigível também a capacidade sucessória do
transmissário quanto ao primeiro de cuius.

Efeitos da transmissão do direito de suceder

O transmissário adquire o direito de suceder que cabia ao transmitente na sucessão do


primeiro de cuius.
O transmissário pode aceitar ou repudiar a herança (ou o legado) do autor da sucessão
nos mesmos termos que o transmitente.
O transmissário tem os mesmos direitos e deveres que o transmitente teria.

A natureza da vocação do transmissário

O transmissário beneficia de uma dupla vocação: a vocação relativa ao transmitente,


adquirida originariamente, e a vocação relativa ao primeiro de cuius, adquirida
derivadamente. A ultima vocação é a vocação do transmissário propriamente dita.
Embora dependa da existência da vocação relativa ao transmitente, a vocação do
transmissário próprio sensu goza de uma certa autonomia.
Normalmente, o transmissário pode repudiar a sucessão do primeiro de cuius, apesar
de ter aceite a herança do transmitente (art. 2058.º. n.º 2)
Alguma doutrina aponta a faculdade normal de repúdio da sucessão do de cuius como
uma exceção ao princípio da indivisibilidade da vocação.
Salvo o devido respeito, não parece haver uma hipótese de divisibilidade da vocação.
O transmissário aceita totalmente o chamamento à herança do transmitente e, por isso,
adquire o direito de suceder; quando repudia a sucessão do primeiro de cuius, não está a
repudiar parcialmente a herança do transmitente; está a exercer um direito que já lhe tinha
sido transmitido. E não se argumente que a divisibilidade reside no facto de o sucessível,
chamado simultaneamente a duas sucessões, não ter de aceitar ou repudiar ambas. Os
conceitos de divisibilidade ou indivisibilidade aplicam-se à vocação múltipla de um sucessível
relativa a um mesmo autor da sucessão.
A vocação do transmissário é uma vocação direta relativamente ao primeiro de cuius.
A vocação do transmitente relativamente ao primeiro de cuius concretizou-se e subsistiu; ele
podia aceitar e não chegou a repudiar a sucessão.

66
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

As vocações indiretas

A substituição direta

O art.2281.º, n.º 1, diz que há substituição direta quando o testador substitui outra
pessoa ao herdeiro instituído para o caso de este não poder ou não querer aceitar a herança.
Mas a noção legal de substituição direta, também dita substituição vulgar ou comum,
é imprecisa: a substituição pode ser feita num pacto sucessório e aplica-se aos legados (art.
2285.º, n.º1)
Propõe-se uma noção alternativa: indicação feita pelo de cuius, por testamento ou
pacto sucessório, de alguém (o substituto) que se substitua a um sucessível prioritário (o
substituído) para o caso de este não poder ou não querer aceitar a herança ou o legado, se a
designação for testamentaria, ou para o caso de o mesmo sucessível não poder adquirir a
herança ou o legado, se a designação for contratual.

Substituição direta expressa e tácita

A substituição direta é expressa quando feita por qualquer meio direto de


manifestação da vontade, e tácita, quando se deduz de factos que, com toda a probabilidade,
a revelam (art. 217º, n.º 1 ).

Substituição em um grau ou mais de um grau

Na substituição em um grau, o substituto de um sucessível não é, por seu turno,


substituído por outrem. Na substituição em mais de um grau (sucessiva), há substitutos de
substitutos. Por exemplo: em testamento, A deixa a B metade da herança; no mesmo
documento determina que, se B falecer antes da abertura da sucessão, a metade cabe a C e, se
este também já tiver morrido, a D. Foi estipulada uma substituição direta em dois graus.
Primeiro grau da substituição abarca B, na qualidade de substituído, e C, substituto. O segundo
abarca C, agora substituído, e D.

Substituição singular ou plural

A substituição direta é válida, independentemente do número de graus.


Dentro do mesmo grau, a substituição direta é singular quando há apenas um
substituto e um substituído; sendo plural, quando houver mais que um substituto ou
substituído. O art. 2282.º permite a substituição direta plural. Por exemplo: A faz testamento,
em que deixa a E metade da herança, estipulando que, se E falecer antes da abertura da
sucessão, a metade cabe a F e G. Depara-se aqui com uma substituição direta (em um grau)
com dois substitutos (F e G) e, portanto, plural.

Substituição reciproca ou não reciproca

A substituição diz-se recíproca quando os sucessíveis designados se substituem uns


aos outros. Se os sucessíveis não se substituem aos outros, verifica-se uma substituição direta
não recíproca, categoria em que se enquadram também os exemplos apresentados para
ilustrar outras classificações. O art. 2283.º, n.º I, admite a validade de uma estipulação de
substituição direta recíproca. Por exemplo, o de cuius deixa em testamento metade da sua
herança a G e a outra metade a H, estabelecendo que, se um deles falecer antes da abertura
da sucessão, a porção do pré-falecido ficará o outro.

67
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Se a substituição recíproca abarcar mais do que dois sucessíveis, observa-se a vontade


do de cuius na delimitação do beneficio da substituição. No silêncio do de cuius, o benefício da
substituição é repartido na proporção do que foi atribuído diretamente aos designados que
venham a ser chamados como substitutos (arts. 2283º, n.º2, e 2285.º, n.º2). Por exemplo, o de
cuius deixa em testamento metade da sua herança a I, um quarto a J e um oitavo a L,
estipulando que, se um deles falecer antes da abertura da sucessão, a porção do pré-falecido
ficará para os restantes co-herdade. Se I morrer antes do testador, a J cabe, enquanto
substituto, o dobro que cabe a L. Se o valor total da herança for 90, J terá direito a 12,5, por
insituição direta, e a 30, enquanto beneficiário da substituição direta; e L a 6,25, por instituição
direta, e a 15, na qualidade de substituto.
O art. 2283º/3 como regra supletiva a divisão por cabeça entre os forem chamados
enquanto substitutos. Por exemplo, o de cuius deixa em testamento um terço da sua herança
a M, um quarto a N e um oitavo a O, estipulando que, se um deles falecer antes da abertura da
sucessão, a porção do pré-falecido ficará para os restantes co-herdeiros e para P. Se M morrer
antes da abertura da sucessão, a quota de um terço será repartida em partes iguais .

O funcionamento da substituição direta depende do preenchimento de dois


pressupostos:
• não poder ou não querer aceitar a sucessão, por substituído (comum às
vocações indiretas, está especificamente previsto no art. 2281.º, n.º 1);
• sobrevivência do substituto até à altura do afastamento do substituído
(imposto pela aplicação direta do art. 2317.º, al. b) à vocação do substituto, de
índole condicional.

Não poder ou não querer aceitar a sucessão, por substituído


Nos termos do art.2281.º, n.º 2, se o autor da sucessão tiver previsto apenas o caso de
não poder entende-se ter pretendido abranger o caso de não querer, salvo declaração em
contrário.
A morte do substituído, após a abertura da sucessão, antes dele declarar se aceita ou
repudia a sucessão não funciona como não poder aceitar: opera a transmissão do direito de
suceder e não a substituição direta.
A invalidade da designação do substituído afeta a validade da substituição direta.
Quando muito, haverá uma conversão da substituição direta em substituição direta a favor
daquele que seria o substituto.
Além dos pressupostos gerais da vocação indireta, releva como impossibilidade
jurídica de aceitação da sucessão pelo substituído a falta de verificação da condição suspensiva
ou a verificação da condição resolutisa se a vocação do substituído tiver sido condicionada’»
Havendo pacto sucessório em favor de esposado ou havendo disposição testamentária
em vista do casamento/em consideração do estado de casado, o divórcio ou a separação de
pessoas e bens do beneficiário enquadra-se numa situação de impossibilidade jurídica de
aquisição ou aceitação (art.1791.º, n.º l, na redação da Lei n.º 61/2008, de 31 de Outubro). Tal
situação desencadeia qualquer substituição direta eventualmente estipulada, incluindo a
“reversão-substituição” do art. 1791.º, n.º 2. Efetivamente, ao determinar que os bens objeto
da liberalidade “revertem” para os filhos do casamento, o autor da doação mortis causa para
casamento ou da disposicão testamentária em vista do casamento/em consideração do estado
de casado está a efetuar uma substituição direta.
Os substitutos sucedem nos direitos e obrigações em que sucederiam os substituídos,
exceto se for outra for a vontade do de cuius (art.228º), o que tacitamente exclui da
substituição direta as situações jurídicas constituidas intuito personae.

68
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A substituição direta produz efeitos na sucessão voluntária, na qual prevalece sobre o


acrescer ( cf. art. 2304. º) e o direito de representação (e – f. art. 2041.º, n.º 2, al. a),
analogicamente aplicável à sucessão contratual obstando à aplicação do art.1703.º,n.º2)·
E nula a substituição direta que colidir com as regras da sucessão legitimária (cf. arts.
2156.º e 2163º). Por exemplo:
A, tendo por únicos sucessíveis legais os filhos, B e C, fez testamento em que
determinou que se algum dos deles não pudesse ou não quisesse aceitar a parte que lhe
coubesse na herança, deveria a mesma ser atribuía ao amigo T. R=90. B repudia.
Mapa evolutivo da partilha
QI=60 QD=30 VT=90
B 30-30(a)=0 15-15(b)=0 0
C 30+30(a)=60 15 75
T 15(b) 15

(a) A substituição direta é parcialmente inválida, operando apenas no âmbito da QD; a


porção repudiada por B, correspondente à sua legitima subjetiva (30), acresce à
porção de C (arts. 2157.º e 2137.º ,n.º 2)·
(b) À porção repudiada por B, que se inscreve no âmbito da QD (15), é chamado T, por via
da substituição direta.

Um ilustre Professor, admite a substituição direta na vocação legitimária, dando um exemplo


em que o autor da sucessão tem um único legitimário. No entanto, se o único legitimário não
puder ou não quiser aceitar, não há vocação legitimária ou porque a mesma se não
concretizou ou porque, tendo-se concretizado, foi retroativamente eliminada. Por exemplo:
No testamento, A designa o seu amigo Z como herdeiro universal, para o caso de o cônjuge,
umco sucessível legitimário do de cuíus, não querer ou não poder aceitar a herança. Se o
cônjuge repudiar, não há sucessão legitimária. A herança estará totalmente ao dispor do de
cuius. Por isso, é plenamente válida a substituição directa a favor de Z.

Não é conceptualmente viável o funcionamento da substituição direta âmbito da sucessão


legítima. O substituto ocupa a posição do substituído, vocação daquele é moldada sobre a
deste ( cf art. 2284.º). Sendo o substituto um sucessível testamentário ( ou contratual), o título
de vocação substituído terá de ser o mesmo.
As alegadas situações de funcionamento da substituição direta no âmbito da sucessão legítima
são afinal situações em que o substituído foi tacitamente designado sucessível testamentário
(ou contratual).

Obstante o uso do termo “direta nesta substituição, a mesma adequa-se plenamente ao


conceito de vocação indirecta: o substituto é chamado em consideração da ligação que o de
cuius estabelece negocialmente entre aquele e outro sucessível, o substituído, que não chega
a entrar na sucessão; a vocação do substituto é moldada pela do substituído e pressupõe que
o último não tenha podido ou querido aceitar a sucessão.
A expressão “direta’’ é usada para estabelecer o contraste com a substituição fideicomissária.
Na substituição fideicomissána, produzem-se duas vocações, a do substituto ( fideicomissário)
e a do substituído ( o fiduciário), sendo a primeira mediada pela segunda. Na substituição
direta, a vocação do substituto ocorre em lugar da do substituído: diretamente, sem que haja
uma prévia vocação eficaz do substituído.
Além de indireta, a vocação do substituto é condicional: está sujeita a condição suspensiva,
dependendo da resolução ou não concretização da vocação do substituído.

69
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O direito de representação
Nos termos do art. 2039.º, dá-se a representação sucessória quando a lei chama os
descendentes de um herdeiro ou legatário (representantes) a ocupar a posição daquele que
não pôde ou não qus aceitar a herança ou o Iegado (representado).
O direito de representação é inequivocamente uma vocação indireta.
São beneficiários exclusivos do direito de representação os descendentes daquele que
não pôde ou não quis aceitar a sucessão.
Constituindo o único caso em que a lei sucessória portuguesa favorece os
descendentes perante o cônjuge, o instituto visa proteger os parentes na linha reta
descendente do sucessível designado.
Além de operar na sucessão legal e testamentária (art.2040º), o direito de
representação também se dá na sucessão contratual (art.1703.º, n.º 2).
Na sucessão legal, o direito de representação corresponde a uma substituição direta
de origem legal; na sucessão voluntária, o direito de representação equivale a uma
substituição direta presumida, isto é, a uma designação de segunda linha assente na vontade
conjetural do testador ou do doador mortis causa, já que se entende que o de cuius teria
querido beneficiar os descendentes do sucessível que designa, se soubesse que este não viria a
suceder.

Os pressupostos do direito de representação variam em razão do título da vocação.


O único caso de direito de representação na sucessão contratual encontra se previsto
no art. 1703.º. n.º 2, que se refere a uma doação por morte feita por terceiro em favor de
qualquer dos esposados, havendo predecesso do donatário.
A hipótese de direito de representação na sucessão pactícia a abrange apenas a
doação para casamento mortis causa feita por terceiro. É desencadeada somente pela não
sobrevivência do donatário ao doador, sendo irrelevante outra situação de não poder adquirir
a sucessão. Os beneficiários não são todos os descendentes do donatário, mas apenas aqueles
que nasceram do casamento a que respeita a convenção antenupcial. Ou seja, os
descendentes comuns do casal, com exclusão, por força da letra da lei, daqueles que foram
adotados pelo casal e seus descendentes.
Dada a não injuntividade da sucessão contratual, o direito de representação não
funcionará se outra tiver sido a estipulação das partes na convenção antenupcial (p.e., se tiver
sido estabelecida uma substituição direta para o caso de pré-morte do donatário).

O art.2041.º disciplina os pressupostos do direito de representação na sucessão


testamentaria.
O n.º 1 indica como pressupostos a pré-morte e o repúdio.
A pré-morte, física ou presumida, é equiparada a comoriência .
Mas a não sobrevivência não determina o direito de representação na hipótese de
deixa testamentária sob condição suspensiva: a al. b) do art. 2317.”, não ressalva a
representação sucessória, no que contrasta com as als a) e e).
A indignidade e a deserdação não são pressupostos do direito de representação na
sucessão testamentária, elemento que é confirmado pelos arts. 2037.º, n.º 2, a contrario, e
2166.”, n.º 2.
Não constitui pressuposto do direito de representsão- na sucessão testamentária o
divórcio ou a separação de pessoas e bens do sucessível que estava casado com o de cuius e
obrigado ao dever de coabitação no momento ressalva a representação sucessória, no que
contrasta com as als. a) e e).

70
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Atendendo à não injuntividade da sucessão testamentária, o direito de representação


não se verifica se o de cuius o excluir, expressa ou tacitamente.
Mediante estipulação de substituição dire. ta, o de cuius afasta taci “-1arnente
direito de representação ( cf. na. 2041.u, n.º 2, al. a)).
Não há, normalmente, direito de representação quanto à posição do fiduciário: não
podendo ou não querendo ele aceitar a sucessão, a substituição no silencio do testamento,
converte-se de fideicomissária em direta(art.2293.-, n.º 3), aplicando-se plenamente o art.
2041.º, n.º 2, al. a).
Por força do art. 2041.\ n.º 2, ais. B) e e), não ocorre o dfreito derepresentação em
relação ao fideicomissário, nos termos do art. 2293 .º, n.º2, nem no “legado de usufruto ou de
outro direito pessoal”.
Não se verifica o direito de representação em favor dos descendentes de beneficiário
de substituição direta se o substituto não tiver sobrevivido ao de cuius: aplica-se o art.2317.º,
al. b), porque a vocação do substituto depende da verificação de uma condição suspensiva.

O art.2042.º ocupa-se do direito de representação na sucessão legal.


O artigo tem em vista somente a sucessão legal comum, que é hereditiria. Não há
representação nos legados legais, porque são conferidos intuitu personae.
O direito representação opera se um sucessível não quis ou não pôde aceitar a
herança legal.
Os pressupostos comuns do direito de representação na sucessão legal são, assim,
mais amplos do que na sucessão testamentaria, estando compreendidos quaisquer casos de
impossibilidade jurídica de ace itaã.o (p.e., a indigmcade, como esclarece expressamente o art.
2037.º, nº2).
Mas o direito de representação só ocorre na sucessão legal em que os representados
sejam: filhos, irmãos ou pessoas que foram adotadas pelo de cuius.
O art. 2042.º alude expressamente ao direito de representação no caso de .sígnação
legal dos filhos e dos irmãos.
O direito de representação na designação legal de filhos refere-se à sucessão legítima
e Iegitimária ( cf. arts. 2040.º e 2160.º, respetivamente). O direito de representação na
designação legal de irmãos e de adotados respeita somente à sucessão legítima.
Na sucessão legal, o chamamento de descendentes de filhos, de irmãos e de pessoas
que foram adotadas pelo autor da sucessão faz-se sempre por direito de representação (cf.
arts. 2040.º e 2160, para os descendentes de filhos; art. 2145.v, para descendentes de
irmãos;).

O funcionamento do direito de representação


Representante ocupa a posição do representado na sucessão do de cuius. Ele é
chamado aos direitos e obrigações em que sucederia o representado: beneficia do direito de
suceder nos mesmos bens e mediante o mesmo título de vocação; está obrigado a suportar o
resultado da aplicação das regras de imputação e colação das liberalidades que foram feitas
pelo de cius ao representado quando este era sucessível legitimário prioritário.
Só que as liberalidades que forem feitas pelo de cuius ao próprio representante, a
partir do momento em ele que for sucessível legitimárío prioritário ( v.g., após a declaração
Judicial de indignidade ou morte do representado), estão sujeitas às regras de imputação e
colação aplicáveis aos sucessíveis legitimários prioritários, o que comportará eventuais
repercussões numa posição sucessória decorrente de um chamamento que foi indireto.

Chamamento do representante representa uma exceção ao princípio da preferência


de grau de parentesco na sucessão legal (arts. 2135.º 2138.º e 2157 .º). Por exemplo: A morre;
sobrevivem-lhe os filhos, B e C, e o neto D, cujo pai é C.

71
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

C repudia. A ½ da herança que cabia a C é deferida a D (por direito de representação) e


não a B (por acrescer). Isto apesar de B ser parente de A no Iº grau e D só no 2.º grau da linha
reta.

Descendentes representam o seu ascendente, mesmo que tenham repudiado a


sucessão deste, ou sejam incapazes em relação a ele (art.2043º)
Por conseguinte, os representantes não sucedem ao representado mas ao de cuius
cuja sucessão o representado não pôde ou não quis aceitar. Este aspeto distingue a
representação da transmissão do direito de suceder: para beneficiar da vocação derivada, o
transmissário tem de ser também capaz relativamente ao transmitente e não pode ter
repudiado a sucessão deste.

Direito de representação opera por estirpes ou subestirpes (estirpe dentro da estirpe).


Entende-se por estirpe o grupo de descendentes do representado.
A cada estirpe cabe aquilo em que sucederia o ascendente respetivo ( art. 2044.º. n.º
1) Quando a estirpe compreenda vários ramos (subestirl)es), a cada ramo cabe aquilo em que
sucederia o ascendente daqueles que formam esse ramo (art. 2044.º, n.º 2).
O funcionamento do direito de representação por estirpes introduz exceções ao
princípio da divisão por cabeça na sucessão legal ( arts. 2136º 2138.º e 2157.º). Por exemplo: A
morre; sobrevivem-lhe dois filhos, B e C, e dois netos, D e E, ambos filhos de C; C repudia. São
chamados B, diretamente, D e E, em representação de C. A herança de A não será repartida
em partes iguais (B recebe ½ e D e E recebem ¼)
Repare-se que, no seio de cada estirpe ( e subestirpe ), a partilha faz-se de acordo com
a divisão por cabeça.

A representação tem lugar, ainda que todos os membros das várias estirpes estejam,
relativamente ao autor da sucessão, no mesmo grau de parentesco, ou exista uma só estirpe
(art. 2045.º).
No caso de estirpe única com único membro, a vigência do direito de representação na
sucessão Iegitimária implica que, em regra, uma doação feita ao representado, quando ele era
sucessível prioritário, venha a ser imputada na legítima subjetiva do representante. Por
exemplo, A, o de cuius, tem um filho B, que, por sua vez, é pai de C. A fez uma doação em vida
a B, que morreu antes da abertura da sucessão; e fez testamento em que deixou a quota
disponível a um amigo. Sucedendo C a A, enquanto representante de B, a doação em favor de
B imputa-se na quota indisponível.

A transmissão do direito de suceder demarca-se do direito de representação.


O risco de indistinção prática resulta de dois elementos:
• um dos pressupostos do direito de representação é a morte do sucessível que
não aceitou a sucessão;
• e, em ambas as figuras, um sucessível ocupa a posição de outro que faleceu.
Todavia, são claras as diferenças:
• para operar o direito de representação, a morte do sucessível que não aceitou
a sucessão não pode ser posterior à morte do de cuius; o sucessível que é
chamado à posição do sucessível falecido tem de ser descendente deste e não
precisa de aceitar herança deste último para suceder ao primeiro de cuius .
• Na transmissão do direito de suceder, a vocação do transmitente concretizou-
se; pode ser transmissário qualquer herdeiro prioritário do transmitente; e a
aquisição do ius delationis relativamente ao primeiro de cuius exige
normalmente aceitação da herança do transmitente.

72
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Por exemplo: A tem dois filhos, B e C. B é casado com D e tem um filho E. C é


casado com F e tern um filho G. B morre em 2008. A morre em Janeiro de 2009.
Sobrevivem-lhe todos os sujeitos referidos, exceto B. Em Fevereiro de 2009, morre C
sem haver aceitado ou repudiado a sucessão de A.
À herança de A são chamados: E, em representação de B, e C, por direito
próprio. Mas C falece sem ter exercido o direito de suceder relativo à herança de A.
São chamados à sucessão de C o cônjuge F e o filho G. Se esses aceitarem a herança de
C, na qual se encontra o direito de suceder relativo à herança de A, adquirem, de
modo derivado, este mesmo direito.
Suponha-se que o património de A estava avaliado em 120 e que ele não fez
testamento. F e G aceitam a herança de C.
QI = 80 QD =40 VT=120
E 40 20 60
F 20 10 30
G 20 10 30

Pré-morte de B desencadeia o direito de representação, que apenas aproveita aos


descendentes. O cônjuge de B, D, não é chamado à sucessão de A. E ocupa na totalidade a
posição que caberia a C, caso ele tivesse sobrevivido a A, ou seja, a E é atribuído o direito de
suceder a A que, de outra forma, pertenceria a C.
A morte de C desencadeia já o mecanismo da transmissão do direito de suceder, que
beneficia os respetivos sucessíveis prioritários: F, conjuge e G, filho (arts. 2133.º, n.º I, al. a), e
2157º). O direito de sucederar a A, encontrando-se na herança de C, é naturalmente repartido
pelos sucessíveis segundo as regras gerais da sucessão de C ( divisão por cabeça, nos termos
dos arts. 2139.º, n.º 1, e 2157º).
Note-se que F e G têm de ser capazes quer quanto a C quer quanto a A,1_424 Se, p.e.,
F tiver sido deserdada por C, G adquire a totalidade da herança de C (a porção na herança de C
que caberia a F, se ela pudesse aceitar, reverte para G por acrescer) e, portanto, a totalidade
do direito de suceder a A que caberia a C (60). Se F for capaz quanto a C, mas tiver sido
declarada indigna relativamente a A, F adquire metade da herança de C, com exclusão da.
Metade do direito de suceder relativamente a A, que reverte separadamente para G por
acrescer. G obtém novamente a totalidade do direito de suceder a A que caberia a C.
Se houvesse repúdio em vez de incapacidade, o resultado seria idêntico. F e G têm,
pois, de aceitar ambas as sucessões.
Contraste, para suceder a A, basta que E seja capaz em relação a ele e que aceite a
herança do avô. O sucessível E pode adquirir metade da herança de A, por direito de
representação, mesmo que tenha repudiado a sucessão de B ou seja incapaz em relação a este
último ( cf. art. 2043.º).

O direito de acrescer

O direito de acrescer é uma vocação indireta que implica a designação de vários


sucessíveis para sucederem em conjunto num mesmo objeto (herança ou direito determinado)
e a atribuição a pelo menos um deles do direito de suceder relativo à parte que outro ( ou
outros) não pôde (puderam) ou não quis (quiseram) aceitar; ou, na eventualidade de
designação contratual, a atribuição a pelo menos um deles do direito de suceder relativo à
parte que outro ( ou outros) não pôde ( puderam) adquirir.

73
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Apesar de se tratar de uma vocação indireta, o direito de acrescer emerge, regra, de


uma vocação direta.5
Havendo concurso de sucessíveis prioritários quanto a um mesmo objeto, tenta-se
resolver a situação de não aquisição sucessória por um deles mediante a repartição daquele
objeto entre os restantes, evitando, assim, o chamamento de sucessíveis subsequentes.

O direito de acrescer verifica-se na sucessão legal hereditária (cf. arts. 2137.º n.º 2) e
na sucessão testamentária (cf. arts. 2301.º a 2307.º). Na sucessão testamentária, a ideia de
aproveitamento da designação prioritária, subjacente ao acrescer, apoia-se na vontade
conjugal do testador.
Excecionalmente, é admissível o direito de acrescer na sucessão contratual.

O direito de acrescer divide-se em


• direito de não decrescer
o corresponde à variante comum do direito de acrescer, manifesta-se
quando a porção acrescida (que é aquela que um dos sucessíveis não qms
ou não pôde aceitar) não está onerada com um encargo especial. Em tal
circunstância, a porção acrescida é adquirida por força da lei, sem
necessidade de aceitação do beneficiário, que não pode repudiar
separadamente essa parte ( cf. art. 2306. º, primeira parte).
• direito de acrescer em sentido restrito
o tem lugar quando a porção acrescida está onerada com um encargo
especial. Neste caso, a aquisição da porção acrescida depende de
aceitação pelo beneficiário, que pode repudiar a porção acrescida e aceitar
aquela a que foi chamado diretamente (art. 2306.º, segunda parte).

Para haver direito de acrescer na sucessão legal, exige cumulativamente:


a) designação de vários sucessíveis para sucederem em conjunto na herança
legal;
b) impossibilidade jurídica de aceitação ou repúdio por um desses sucessíveis;
c) inexistência de direito de representação (cf. arts. 2138.º e 2157.º).

A que tem maior relevância é a impossibilidade jurídica de aceitação.


A não sobrevivência do sucessível ao de cuius não se inclui entre as situações de “não
poder aceitar” na sucessão legal. Em vez do acrescer, a não sobrevivência de um dos
sucessíveis legais designados simultaneamente derermina o chamamento direto dos
sucessíveis sobrevivos à totalidade herança legal. É o que resulta, nomeadamente, dos arts.
2139.º, n.º 2, e 2159.º, n.º 2.
Por exemplo:
A, casado com B, teve dois filhos, C e D; o cônjuge B, morreu antes da abertura da
sucessão; a herança de A é repartida total e directamente entre C e D, nos tennos do art. 2139.
º, n. º 2. C é chamado directamente a metade e D directamente à outra metade; não se prevê
um direito de acrescer por causa da morte de B.
A teve dois filhos, B e C; B morreu antes da abertura da sucessão; C é chamado
direcamente à sucessão legitimária, como único sucessível: consequentemente, a legítima
objetiva é de metade e não de dois terços. Isto é, o art. 2159. º, n. º 2, obsta a que se fixe uma
legítima objetiva de dois terços, que caberia inteiramente a C (um terço por vocação direta e
outro terço por acrescer desencadeado pela pré-morte de B).

5Tem acesso ao crescer aquele que é beneficiário de uma vocação direta, mas não apenas ele. Pode p.e. caber
direito de acrescer ao titular de direito de representação relativamente à parte que outro co beneficiário de direito
de representação tenha repudiado.

74
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Por razões de certeza e segurança Jurídica, o direito de acrescer opera já nos casos de
mcapacidade sucessória por indignidade ou deserdação. Havendo dúvidas doutrinárias sobre a
necessidade de uma declaração iudicial de mdignidade» e estando consagrada a possibilidade
de impugnar judicialmente a deserdação (cf. art. 2167.º), a jurisprudência recomenda uma
interpretação meramente declarativa das disposições legais que, aludindo, sobrevivência e a
existência, fundaram a exclusão da pré-morte enquanto pressuposto do direito de acrescer na
sucessão legal (arts. 2139.º, n.º 2).

Para haver direito de acrescer na sucessão testamentária, exige-se cumulativamente:


a) instituição de vários herdeiros (na totalidade ou numa quota do património)
ou nomeação de vários legatários quanto ao mesmo direito determinado; art.
2301º e 2303º
b) impossibilidade Jurídica de aceitação ou repudio por um dos sucessíveis que
foi instituído ou nomeado (coincide com o que foi estabelecido para os
pressupostos gerais das vocações indiretas, salvo quanto a um aspeto: a
resolução da disposição testamentaria pelo não cumprimento do encargo, nos
termos do art.2248º, desencadeia o acrescer stricto sensu a favor do
beneficiário da resolução.)
c) ausência de disposição contrária do testador (v.g., substituição direta);
d) inexistência de direito de representação. No caso específico da nomeação de
legatários, requer-se ainda que o legado não tenha “natureza puramente
pessoal” - 2304º

Quanto à alínea a) como afirmam nº1 do art.2301º e nº1 do art.2303º, a instituição ou


nomeação não tem de ser conjunta.
Mas aqui a palavra significa “simultânea”: produz-se o acrescer ainda que os
sucessíveis tenham designados em testamentos feitos em momentos diferentes. No entanto,
os sucessíveis têm de ter sido designados para sucederem em conjunto no mesmo objeto
(herança ou direito determinado).

O art. 944.º, que se aplica quer às doações inter vivos quer às doações mortis causa,
estabelece no n.º 1 que, na falta de uma declaração do’ doador, não há acrescer entre os
beneficiários de uma doação feita a várias pessoas conjuntamente.
Todavia, o n.º 2 determina que a falta de uma declaração do doador não prejudica o
direito de acrescer entre os beneficiários de um usufruto constituído por doação.
Para haver acrescer na sucessão contratual, exige-se cumulativamente:
a) instituição de vários herdeiros (na totalidade ou numa quota do património)
ou nomeação de vários legatários quanto ao mesmo direito determinado;
b) impossibilidade Jurídica de aquisição por um dos sucessíveis que goi instituído
ou nomeado
c) ausência de clausula pacticia contraria (ex: substituição direta)
d) inexistência de direito de representação consagrado no art.1703º/2.

No caso especifico da nomeação de legatários, requer-se ainda que o legado não


tenha “natureza puramente pessoal”
Em regra, o aproveitamento da vocação contratual prioritária para definir a
titularidade de todo o objeto a qie vocação respeita depende da vontade real do de cuius.

Funcionamento do direito de acrescer

75
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O acrescer funciona dentro de cada título.


A lei regula o acrescer na sucessão testamentaria e da sucessão legal separadamente.
Não há acrescer entre herdeiros com títulos diversos de vocação.
Ex: A tem um irmão B que deixou a C, por testamento, metade da sua herança. Se C
repudiar, B não beneficia de acrescer. A deixa testamentaria caduca (art.2317º/e),
aumentando a herança legitima de metade para a totalidade do relictum, B é chamado
diretamente a toda a herança de A, na qualidade de sucessível legitimo.

No âmbito da vocação legal, se o cônjuge concorrer com descendentes e nenhum


deste puder ou quiser aceitar, o cônjuge recebe a totalidade do que lhes caberia, por direito
de acrescer – art.2141º (o cônjuge recebe um terço, por vocação direta e dois terços por
acrescer).
Quando haja efetivamente concurso de cônjuge e ascemdemtes ma sucessão legal, a
parte que alhum ou alguns dos ascendentes não puder ou não quiserem aceitar acresce à dos
outros ascendentes chamados – art.2143º. Só se não existerem outros ascendentes é que a
parte daquele que não pôde ou não quis aceitar acresce à do cônjuge sobrevivo.

No âmbito da vocação testamentária (e, por analogia, no âmbito da sucessão


contratual), o acrescer funciona tendencialmente entre sucessíveis com a mesma qualidade:
ou entre herdeitos instituídos ou entre legatários nomeados.
No titulo da sucessão testamentária é efetuada uma regulamentação separado do
acrescer entre herdeiros – 2301º - e do acrescer entre legatários (art.2302º e 2305º). O
art.2302º regula o acrescer entre legatários nomeados em relação a um mesmo objeto que
não seja o usufruto de determinado bem, da totalidade ou de uma quota da herança. O
art.2305º refere-se ao acrescer entre legatários-usufrutuarios, mandando aplicar o disposto no
art.1442º e no mencionado art.2302º. (FALTA)

Não há acrescer de herdeiros sobre legatários e verifica-se uma única hipótese de


acrescer delegatários sobre herdeiros ( constante do art. 2306.º).
O art.2303.º não admite situações de acrescer de herdeiros sobre legatários,
limitando-se a estatuir a caducidade da disposição testamentária a título de legado em
beneficio do herdeiro (ou legatário) que estava especificamente onerado com o encargos.

A primeira parte do art.2306º para além de se aplicar a sucessão testamentaria


contém uma norma geral extensível a outras espécies de sucessão: em princípio, a aquisição
da parte acrescida dá-se por força da lei, sem necessidade de aceitação do beneficiário, que
não pode repudiar separadamente essa parte.

Os beneficiários do acrescer têm os mesmos direitos e deveres dos que não puderam
ou não quiseram aceitar a sucessão – art.2307º

Havendo apenas dois sucessíveis designados para sucederem simultaneamente num


mesmo objeto, a parte do que não adquiriu acresce na totalidade à parte do outro; havendo
mais do que dois sucessíveis, a porção acrescida será, em princípio, repartida na proporção das
suas quotas na herança (se herdeiros) ou no direito determinado (se legatários).
No domínio da quota disponível, e, de cuíus pode determinar que o acrescer não
observe a regra da proporção das quotas.
Havendo concurso de cônjuge com quatro ou mais filhos (cf.arts. 2139.”, 0 1, segunda
parte, e 2157 .º), na sucessão legal, se um dos filhos não puder ou não quiser aceitar a
herança, o acrescer opera por cabeça e não na proporção das quotas. Ou seja, o cônjuge não é

76
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

favorecido relativamente aos demais co-beneficiários do acrescer, porque já lhe foi garantido
o limite mínimo de um quarto, que apresenta natureza excecional.

A parte final do artigo 2306.º prevê o único caso de acrescer de legatários sobre
herdeiros.
São pressupostos específicos desta situação peculiar de acrescer:
a) deixa a título de herança onerada com um encargo especial imposto pelo
testador, que é o legado;
repúdio do herdeiro instituído originariamente:
b) e chamamento, por acrescer, de um co-herdeiro testamentário à porção onerada,
que a repudia.
E imprescindível o duplo repúdio sucessivo apesar de a parte final do art. 2306.º só
aludir a um repúdio (o do co-herdeiro chamado por acrescer). O valor líquido da deixa
hereditária; em contrapartida, o duplo repúdio indicia que a deixa onerada é
patrimonialmente pouco atraente, sendo, por isso, razoável a atribuição imediata da quota ao
beneficiário do encargo.
Após o duplo repudio, o beneficiário do encargo especial é chamado a suceder na
quota inicialmente onerada.
Com a aceitação, o encargo extingue-se por contusão (o onerado e o beneficiário da
oneração e a mesma pessoa).
Por exemplo:
A fez testamento em que deixou a B metade da herança e a outra metade a C, tendo
onerado B com o encargo de pagar uma renda vitalícia a T. B repudia. C, que aceitara a quota a
que fora chamado diretamente, é chamado a pronunciar-se sobre aceitação ou o repúdio da
parte acrescida; repudia. T é chamado a aceitar ou a repudiar a metade a que fora chamado
diretamente B.
T aceitar, sucede na qualidade de herdeiro testamentário. Se repudiar, a deixa
testamentária em favor de B caduca, tal como o respetivo encargo, abrindo-se a sucessão
legítima com vista à atribuição de metade do relictum.
A excecionalidade do acrescer de legatários sobre herdeiros não permite pensar que o
mesmo ocorra se não houver identidade da fonte de designação. Por este motivo, não há
acrescer entre legatários testamentários e herdeiros legítirnos44s. veja-se dois exemplos:
A, que tem um irmão B, fez testamento no qual deixou a C toda a herança, com o
encargo de pagar renda vitalícia a T. Se C repudiar, a deixa testamentária caduca, tal como o
respetivo encargo. B é chamado a totalidade da herança, na qualidade de sucessível legítimo.
Se B repudiar, é chamado um sucessível legítimo subsequente e não T.
A, que tem um irmão B, fez testamento no qual deixou a C metade da herança e a
outra metade a D, tendo onerado C com o encargo de pagar urna renda vitalícia a T. Se C
repudiar e D repudiar a porção acrescida, T e chamado imediatamente a suceder na quota em
que fora instituído C.

Hierarquia das vocações indiretas

No domínio da quota indisponível e da quota disponível deferida por sucessão legítima


em que não opera a substituição direta, o direito de representação prevalece sobre o acrescer
( cf. arts. 2137.º, n.º 2, 2138.º e 2157.º).
Na sucessão testamentária, a substituição direta ocupa o primeiro lugar na hierarquia
das vocações irdiretas; segue-se o direito de representação e, por fim o direito de acrescer. A
posição cimeira da substituição direta funda-se no art. 2041.°, n. º 2, al. a), relativamente à
representação, e, implicitamente, no art. 2304.v, quanto ao acrescer (por haver

77
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

incompatibilidade entre a cláusula testamentária de substituição directa e o acrescer). A


supremacia do direito de representação relativamente ao acrescer decorre do art. 2304º.
Ex:
A fez testamento, designando B para suceder em metade da herança e C para suceder
na outra metade; o testador acrescentou que, se B morresse antes da abertura da sucessão, a
quota deixada a B ficaria para D. B morreu de A. Sobreviveram ao de cuius C, D e ainda E, filha
de B.
Deste modo, na hipótese que foi apresentada, D seria o beneficiário, porque a
substituição direta precede as duas outras vocações indiretas.

Na sucessão contratual, a hierarquia é idêntica à que vale para a sucessão


testamentária, por aplicação analógica dos arts. 2041.º, n. º 1, al. a), e 2304.º.

Substituição fideicomissária

1. Noção

Ao abrigo do art. 2286.º, diz-se substituição fideicomissária, ou fideicomisso, a disposição


pela qual o testador impõe ao herdeiro instituído ( o fiduciário) o encargo de conservar a
herança, para que ela reverta, por sua morte, a favor de outrem ( o fideicomissário).
Esta noção legal é muito imprecisa, referindo-se somente à substituição fideicomissária
regular de deixas testamentárias a título de herança. A substituição fideicomissária pode ser
feita num pacto sucessório ( cf. art. 1700.º, n.º 2); aplica-se aos legados (cf. art. 2296.v); e
pode verificar-se quando falte a estipulação ou do encargo de conservar ou da reversão.
Numa noção mais abrangente, a substituição fideicomissária regular corresponde à
disposição testamentária ou patícia mediante a qual e, de cuius impõe ao sucessível designado
o encargo de conservar a herança ou o legado (o fiduciário), para que o objeto da deixa
reverta, por sua morte, a favor de outrem (o fideicomissário ).

Substituição fideicomissária, concretizam-se e subsistem duas vocações relativamente ao


mesmo autor da sucessão: a do fiduciário e a do fideicomissário. Contudo, as vocações dos
sucessíveis designados mediante a cláusula de substituição fideicomissária são sucessivas, e
não simultâneas: a vocação do fideicomissário produz-se depois da morte do fiduciário (art.
2293.º, n.º 1).

Na substituição fideicomissária, o chamamento do substituto (enquanto fideicomissário)


pressupõe um chamamento prévio do substituído (enquanto fiduciário), que adquire a
sucessão, sendo reconhecido como titular (onerado) da herança ou do legado desde a
abertura da sucessã até à data da sua própria morte (art. 2293 .º).
Na substituição fideicomissária, teremos igualmente duas aquisições sucessivas (a do
fiduciário e a do fideicomissário). Só que elas decorrem de um único negócio (testamento ou
pacto sucessório), que é efetuado pelo de cuius. Por conseguinte, a aquisição do
fideicomissário não resulta de um negócio entre este e o fiduciário.
No fideicomisso, temos também dois sujeitos, o fiduciário e o ndeicom1ssário, para um
património que pertenceu a outrem, recaindo sobre o fiduciário a obrigação de conservar tal
património (afim da obrigação que recai sobre o “trustee”). No entanto, tanto o fiduciário
como o fideicomissário são proprietários (sucessivos) dos bens.

78
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

2. Âmbito da substituição fideicomissária

A substituição fideicomissária não é uma figura exclusivamente sucessória: são admitidas


substituições fideicomissárias nas doações em vida ( cf. art. 962.º).
Plano sucessório, a substituição fideicomissária opera nos títulos contratual e
testamentário.
Ao proibir a imposição de encargos sobre a legítima, contra a vontade do herdeiro, o art.
2163.º obsta à validade de substituições fideicomissárias no âmbito da quota indisponível,
salvo aplicação analógica do art. 2164º.
Não é conceptualmente viável a substituição fideicomissária na sucessão legítima: se os
sucessíveis legítimos forem referidos no testamento ou no pacto sucessório têm-se por
tacitamente designados como sucessíveis testamentários ou contratuais.
O art. 2295.º. n.º 2. Ao determinar que são havidos como fideicomissários aos herdeiros
legítimos do fiduciário, não contém uma manifestação de funcionamento da substituição
fideicomissária na sucessão legítima. Trata-se antes de norma que procede à integração de
uma lacuna do testamento.

3. Modalidades de substituição fideicomissária

Regular vs. Irregular

A substituição fideicomissária regular é aquela a que se alude no art.2286.º. O de cuius


prevê quer o encargo de conservar a herança ou o legado quer o beneficio de reversão.
Na substituição fideicomissária irregular, havendo também vocação sucessiva, não
chega a ser estipulado um desses dois elementos: ou falta a referência à reversão e, portanto,
ao fideicomissário · ou falta a referência à obrigação de conservar o património.
O art.2295º/1 elenca o que os fideicomissos irregulares compreendem.
O art.2295º/1 aplica-se com as devidas adaptações, aos legados (2296º) e aos pactos
sucessórios.

Nos fideicomissos irregulares da al. a), o fiduciário é o sucessível que não pode dispor
dos bens. Dado o silêncio do de cuius quanto à reversão, o art. 2295.º, n.º 2, estabelece que
são havidos como fideicomissários os herdeiros legítimos do fiduciário.
Este fideicomisso é totalmente válido, ao contrário da deixa de bens sob condição de
os não transmitir a determinada pessoa, em que a cláusula acessória se tem por não escrita
(arts. 2232.º e 2230.º, n.º 1). Há por exemplo, fideicomisso irregular, e não liberalidade sob a
dita condição, se A deixar a B todos os bens da herança, declarando que este não pode dispor
dos mesmos.
Nos fideicomissos irregulares das als. b) e e), falta a estipulação do encargo de
conservar o património, No caso da al. b ), o fideicomissário é aquele que for chamado ao que
restar dos bens deixados pelo de cuius a outrem, que é o fiduciário. No caso da al. e), o
fideicomissário é aquele a que for chamado aos bens deixados a uma pessoa coletiva, que será
o fiduciário. Não obstante a inexistência de uma cláusula que imponha o encargo de
conservação do património (presente no fideicomisso irregular da al. a), tacitamente, e no
fideicomisso regular, expressamente), nestes dois fideicomissos irregulares, o fiduciário está
ainda sujeito a esse encargo. Ele não pode dispor livremente dos bens: carece de autorização
Judicial ou do consentimento do fideicomissário (cf. art. 229s.-, n.º 3, segunda parte). A
ausência da cláusula leva apenas a uma atenuação do encargo: para a alienação ou oneração
de bens abrangidos pelo fideicomisso, não é imprescindível uma autorização Judicial, nos
termos do art. 2291.º (fundamental para o fideicomisso regular e para o fideicomisso irregular
do art. 2295.º, n.º 1, al. a)), bastando o consentimento ao fedeicomissário.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Em um grau vs. Em mais que um grau


Substituição fideicomissária em um grau, o fideicomissário não é, por seu turno,
fiduciário de outro fideicomissário.
Na substituição em mais de um grau (sucessiva), há fideicomissários que são
fiduciários de outros fideicomissários.
Por exemplo: A faz testamento em que institui B seu herdeiro universal, onerando-o
com o encargo de conservar a herança, para que ela reverta, por sua morte, a favor de C; no
mesmo ato, A diz que C também tem de conservar a herança, para que esta reverta, por sua
morte, a favor de D. Foi estipulada urna substituição fideicomissária em dois graus. O primeiro
grau da substituição abarca B, na qualidade de fiduciário, e C, enquanto fideicomissário. O
segundo grau abarca C, agora enquanto fiduciário, e D, fideicomissário.
A luz do art. 2287.º, são nulas as substituições fideicomissárias em mais de um grau.
Todavia, por força do art. 2288.º, a nulidade, em princípio, não é total. Ocorre uma redução
legal: o primeiro grau da substituição não é afetado, salvo se o contrário resultar do
testamento, tendo-se por não escritas as cláusulas que fixam graus subsequentes. Assim
sendo, no exemplo apresentado, a cláusula que estabelece o fideicomisso entre B e C é
relevante, ao passo que a cláusula que prevê o fideicomisso entre C e D é inválida.
A proibição da reversão em mais de um grau estende-se aos chamados fideicomissos
condicionais, em que a reversão para o fideicomissário está subordinada a um acontecimento
futuro e certo (art. 2288.º, segunda parte), isto é, a uma condição suspensiva.
Por exemplo: A deixa os seus bens a B, para que este os conserve, a fim de, por sua
morte, reverterem para C, no caso de B falecer sem filhos; e, no mesmo testamento,
acrescenta que C está obrigado a conservar os bens, para que estes revertam, por sua morte, a
favor de D, se C falecer sem filhos. É válida somente a cláusula respeitante a B-C.
No entanto, entende-se que a proibição da reversão em mais de um grau não se
estende à reversão sob condição resolutiva da vocação anterior. Seria, por exemplo,
totalmente válido o testamento anterior se o testador determinasse que, morrendo C sem
filhos, D seria tido como herdeiro desde o falecimento de C, considerando-se C como nunca
tendo sido chamado. Nestas circunstâncias, a substituição fideicomissária não terá mais de um
grau: caso C morra sem descendentes, D ocupa a posição de C no fideicomisso, a título de
substituto direto; caso C morra com descendentes, ele é o único fideicomissário.
Dentro do mesmo grau, a substituição fideicomissária é singular quando há apenas um
fiduciário e um fideicomissário: sendo plural, quando houver mais que um fiduciário ou
fideicomissário. O art. 2287.º permite a substituição fideicomissária plural. Por exemplo: A faz
testamento, em que deixa a E metade da herança, com o encargo de conservar a quota, para
que ela reverta, por sua morte, a favor de F e G. Depara-se aqui com uma substituição
fideicomissária (em um grau) com dois fideicomissários (F e G) e, portanto, plural.

4. Estatuto do fiduciário

A vocação do fiduciário concretiza-se no momento da morte do autor da substituição


fideicomissária.
A vocação do fiduciário está onerada: sobre ele recai o encargo de conservar os bens
deixados para que eles revertam, por sua morte, para o fideicomissário.
O encargo em apreço revela que a vocação do fiduciário é também uma vocação a termo
incerto: a sua vocação cessa quando ele morre, concretizando-se então a vocação do
fideicomissário.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Enquanto fiduciário, o herdeiro ou legatário tem o gozo e a administração dos bens


sujeitos ao fideicomisso (art. 2290.º. n.º I). Em princípio, não é admitida a alienação ou
oneração de bens sujeitos ao fideicomisso, que não corresponda a um ato de administração
ordinária. No caso de fideicomisso regular ou do fideicomisso irregular previsto no art. 2295.º,
n.º 1, al. a), a validade de ato de disposição depende de autorização Judicial, que só é
concedida, com as devidas cautelas, havendo evidente necessidade ou utilidade para os bens
da substituição (art. 2291.º, n.º 1) ou, se houver evidente necessidade ou utilidade para o
fiduciário, contanto que os interesses do fideicomissário não sejam afetados (art. 2291.º, n.º
2). Nos fideicomissos irregulares previstos no art. 2295.º, n.º 1, als. b) e e), não se exige
autorização Judicial para a prática de ato de disposição dos bens sujeitos a fideicomisso se o
fiduciário tiver obtido o consentimento do fideicomissário (art. 2295.º, n.º 3, segunda parte).
Em coerência com as restrições impostas ao fiduciário em matéria de disposição, o art.
2292.º prescreve que os credores pessoais deste não têm o direito de se pagar pelos bens
sujeitos ao fideicomisso, mas tão-somente pelos seus frutos.
Por tudo isto, é patente a semelhança entre o estatuto do fiduciário e o do usufrutuário,
estabelecendo, aliás, o art. 2290.º, n.º 2, que são extensivas ao fiduciário, no que não for
incompatível com a natureza do fideicomisso, as disposições legais relativas ao usufruto.
Não se deve concluir, porém, que o fiduciário seja um usufrutuário. A expressão que figura
no dito art. 2290.º, n.º 2, e a interpretação a contrario do art. 2293º/2 levam a crer que ele é
um titular provisório dos bens sujeitos a substituição, ou seja, um proprietário temporário.

5. Estatuto do fideicomissário

A vocação do fideicomissário concretiza-se no momento da morte do fiduciário (art.


2293º, n.º 1). Só a partir desta altura é que o fideicomissário pode dispor dos bens abrangidos
pela substituição e, se tiver sido designado por testamento, aceitar ou repudiar a sucessão
(art. 2294.º).
No entanto, entre o momento da morte do autor da sucessão e o momento da morte
do fiduciário, o fideicomissário é titular de uma expetativa sucessória. E o que resulta dos
limites impostos à prática de atos de disposição pelo fiduciário (designadamente, art. 2291.º,
n.º 2, e art. 2295 .º n” 3, segunda parte).
Se o fideicomissário não sobreviver ao fiduciário, a substituição fica sem efeito (cf. art.
2293.v, n.º 2), pelo que a vocação do fideicomissário é uma vocação sob condição suspensiva,
em que a condição é a morte do fiduciário em vida do fideicomissário.
Além disso, a vocação do fideicomissário é subsequente à do fiduciário e não retroage à
data da morte do autor da sucessão, que é também o autor da substituição fideicomissária.
O fideicomissário não ocupa uma posição idêntica à que foi do fiduciário. Por isso, o caso
julgado constituído em ação relativa aos bens sujeitos ao fideicomisso, em que foi parte o
fiduciário, não é oponível ao fideicomissário se ele não interveio nela (na. 2290º, n.º 3).
Não estando a designação do fideicomissário onerada com o encargo de conservar a
herança ou o legado (encargo que, eventualmente estipulado, não relevaria devido à
inadmissibilidade da substituição fideicomissária em mais de um grau), ele é um proprietário
definitivo, dotado de plenos poderes de disposição sobre os bens.

6. A substituição fideicomissária e outras vocações anómalas

O art. 2293.º, n.º 3, consagra um caso de conversão legal supletiva da substituição


fideicomissária em direta. Esta conversão aplica-se aos legados ex vi do art. 2296.º; e às
substituições fideicomissárias pactícias em que a vocação do fiduciário se não tenha
concretizado.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A substituição fideicomissária obsta ao direito de representação na sucessão testamentária


seja em beneficio dos descendentes do fiduciário (art. 2041.º, n.º 2, al. a), conjugado com o
art. 2293º, n.º 3), seja em beneficio dos descendentes do fideicomissário (cf. art. 2041.º, n.º 2,
al. b)). Paralelamente, a cláusula fideicomissária pactícia exclui a unica hipótese concebível de
direito de representação na sucessão contratual.

Se o fiduciário designado testamentariamente sobreviver ao autor da sucessão e falecer sem


ter chegado a aceitar ou a repudiar a herança ou o legado, o fideicomissário é chamado a
suceder e a sua vocação é eficaz a partir do momento da morte do fiduciário (art. 2293.º, n.º
I).
Contudo, os herdeiros do fiduciário beneficiam da transmissão do direito de suceder (art.
2058.º), podendo adquirir os frutos dos bens, abrangidos pela substituição fideicomissária, que
foram produzidos entre a morte do primeiro de cuius ( aquele que estipulou a substituição) e a
morte daquele que foi designado por este como fiduciário (art. 2290.º, n.º l) ·
Mas se o fiduciário, sobrevivendo ao autor da sucessão, falecer ao mesmo tempo que o
fideicomissário sem ter chegado a aceitar a repudiar a herança ou o legado, os herdeiros do
fiduciário adquirem o direito de suceder (art. 2058.º) como titulares definitivos dos bens
abrangidos pela substituição fideicomissária (cf. art. 2293.º, n.º2)

Se o fideicomissário designado testamentariamente, sobrevivendo ao de cuius e ao fiduciário,


falecer sem ter chegado a aceitar ou a repudiar a herança ou o legado, verifica-se uma
transmissão do direito de suceder na titularidade definitiva dos bens (a partir do momento da
morte do fiduciário), que aproveita aos herdeiros do sucessível subsequente. O direito de
suceder na qualidade de fideicomissário transmite-se aos herdeiros deste (art. 2058.º, n.º 1).

Vocação legitimária

1. – Cálculo da quota indisponível


A interpretação do art. 2162.º

O art. 2162.º regula o modo de cálculo do valor total da herança para efeitos de
apuramento da legítima objetiva.
No entender da escola de Lisboa, a respetiva fórmula de cálculo é R+D-P. Primeiro,
atende-se ao valor dos bens existentes no património do autor da sucessão; depois, soma-se o
valor do donatum, sob a dupla forma de bens doados e despesas sujeitas à colação; por fim,
abate-se o montante das dívidas da herança.
De acordo com a escola de Coimbra, a fórmula é R-P+D. Nesta ótica, o valor do passivo
hereditário é subtraído ao do relictum, antes de ser considerado o donatum.
Fórmula de Lisboa é fiel à letra do art. 2162.º, n.º I.
A Escola de Coimbra insiste na orientação prévia à entrada em vigor do Código Civil de
1966, procedendo a uma interpretação corretiva do mencionado preceito, com o argumento
de que as doações não respondem pelas dívidas da herança: a lei manda agregar o donatum
unicamente para proteger a expectativa sucessória dos herdeiros legitimários; os credores
hereditários não se podem pagar senão pelos bens existentes no momento da morte.
Os resultados das fórmulas são idênticos quando o relictum é igual ou superior ao
passivo. Se o relictum for inferior ao passivo, isto é, no caso de herança deficitária, a situação é
diferente.
Exemplificação:
O de cuius deixa bens no valor de 60, tem dívidas no valor de 100 e fez doações no
valor de 50. Sobreviveu-lhe um filho.

82
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Para a Escola de Lisboa, o VTH para efeitos de fixação da legitima objetiva é 10


(60(R)+50(D)-100(P)). A legítima subjetiva do filho é 5 (art. 2159 .º, n. º 2 ).
Para a Escola de Coimbra, é 50. Abate-se o passivo ao relictum (60-100). Como as
dívidas da herança só podem ser satisfeitas à custa do ativo, converte-se o valor negativo de
40 em 0 e soma-se o donatum de 50. A legitima subjectiva do filho é 25. Como se vê, de
acordo com a Escola de Coimbra, no caso de herança deficitária, o valor total da herança para
efeitos de apuramento da legítima é igual à totalidade do valor do donatum.

Abstraindo do aspeto aritmético (recusa de valores negativos), há que apurar se a


razão invocada pela doutrina Coimbra, para uma interpretação corretiva do art 2162.º, n.º 1,
chega para afastar a presunção do art.9º/3.
Efetivamente, os direitos dos credores da herança não podem ser satisfeitos à custa de
bens que se não encontrem no património do de cuius no momento da respetiva morte. Os
bens doados em vida pelo autor da sucessão pertencem a terceiros. Se os credores do de cuius
não se conformam os atos de doação inter vivos entretanto efetuados, dispõem de meios
próprios de defesa, v.g., a impugnação pauliana (cf. arts. 610 e ss.)
A inclusão do donatum na massa de cálculo que leva à fixação da legitima é efetuada
exclusivamente para tutela dos legitimários.
No entanto, a ponderação do passivo após a adição do donatum ao relictum não
significa que os credores possam exigir a satisfação dos seus interesses Junto dos donatários. O
art. 2162.º, n.º 1, visa somente pemitir o cálculo da legítima; são outros os preceitos que
definem a responsabilda.de pelos encargos da herança (v.g., os arts. 2068.°, 2069.º e 2071.º ).
Por conseguinte, no exemplo dado supra, o legitimário paga o passivo com todo o
relictum; os credores hereditários não podem reclamar mais, porque a responsabilidade do
herdeiro está confinada às forças da herança entendida como relictum. Paralelamente,
embora se detete uma inoficiosidade contabilística, de 45 (valor da QD=5; doações=50), o
Legitimário apenas pode reduzir as doações em 5, montante suficiente para obter o valor
líquido correspondente à sua legítima (os bens obtidos por via da redução estão isentos do
passivo ) Como se vê, os donatários nunca respondem pelo passivo.
E não se diga que, só com a fórmula de Lisboa, o passivo afeta indiretamente a eficácia
das liberalidades em vida. Estas liberalidades podem ser afetadas em qualquer hipótese. No
exemplo dado supra, se não houvesse passivo, a doação não seria inoficiosa. O VTH seria de
110. A legítima do filho seria de 55 e poderia ser paga com o relictum (que era de 60).
Em suma, a tese de Lisboa respeita a lógica matemática (que distingue entre o zero e
números negativos) e a lei. Respeita a lei, ao não ignorar a ordem indicada no art. 2162.º, n.º
1, e ao não responsabilizar os donatários pelo passivo hereditário. E respeita a lei também, ao
não privilegiar excessivamente a posição de um adquirente a título gratuito mortis causa
quando não estão totalmente satisfeitos os direitos dos credores da herança: como se observa
no exemplo apontado supra, no caso de herança deficitária a posição coimbrã tem como
consequência a fixação de uma legitima de valor muito superior ao que decorre da fórmula
R+D-P (25 em vez de 5).

2. A. legítima objetiva e o número de sucessíveis legitimários prioritários

O montante da quota indisponível varia em razão da qualidade e da quantidade dos


sucessíveis.
É de um terço quando os legitimários chamados sejam apenas ascendentes do 2.º grau e
seguintes (art. 2161.º, n.º 2). E de metade quando ao autor da sucessão sobreviva só pai e
mãe, unicamente um deles, um descendente ou somente o cônjuge (arts. 2158.º, 2159.º, n.º
2, e 2161.º, nº2.). Será de dois terços nas demais hipóteses: existência de vários filhos ( art.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

2159.”, n.º2 ), concurso de cônjuge com parentes na linha reta (arts. 2159.º, n.º I, e 2161.º, n.º
l ).
O sucessível legitimário que não sobreviver ao de cuius não conta para a determinação da
legítima objetiva, a não ser que haja direito de representação.
Exemplo I: A tem dois filhos e um deles morre antes do de cuius; a quota indisponível será
de metade da herança (art. 2159.º, n.º2), e não dois terços.
Exemplo 2: A tem dois filhos, B e C, e um neto, D, cujo pai é B; B morre antes do de cuius a
quota indisponível será de dois terços da herança; D representa B na sucessão legitimária de A
( cf. art. 2160 .º)

Diversamente, por razões de certeza e segurança jurídica, o sucessível legitimário


deserdado ou declarado indigno é tido em consideração para o apuramento da legítima
objetiva, ainda que não haja direito de representação
Por exemplo: A tem dois filhos e um deles é declarado judicialmente indigno antes da
abertura da sucessão; a quota indisponível será de dois terços (cf. art. 2159.”, n.º 2, que só
alude à existência); a legítima subjetiva do filho indigno acresce à do outro filho (cf. arts.
2137.º, nº. 2, e 2157.º).

As liberalidades em favor de sucessíveis legitimários

As liberalidades inter vivos


As doações inter vivos sujeitas a colação

Noção de colação

A colação é um instituto que visa a igualação dos descendentes na partilha do de cuius,


mediante a restituição (fictícia ou real) à herança dos bens que foram doados em vida pro este
a um deles – 2104º/1.

A colação tem por fundamento uma presunção legal iuris tantum (não é absoluta,
dado o caracter supletivo da colação – suscetível de dispensa (2113º)) de que o autor da
sucessão quando faz uma doação a sucessível legitimário prioritário (descendente), não
pretende avantaja-lo relativamente aos demais.
Na falta de uma manifestação de vontade do autor da liberalidade em vida, entende-
se que a doação se limita a preencher antecipadamente a quota que caberá ao donatário na
herança do de cuius: porque recebe mais agora, o donatário receberá menos do que os irmãos
na altura em que falecer o progenitor comum.

Âmbito subjetivo da colação

Estão sujeitos à colação:

• os descendentes titulares de uma pretensão atendível de entrar na sucessão legal e


que eram, à data da doação, presuntivos sucessíveis legitimários do dador – 2104º/1 e
2105º
• os representantes do descendente que era à data da doação presuntivo sucessível
legitimário do dador, mesmo que não tenham beneficiado dessa liberalidade – 2105º e
2106º
• transmissários do direito de suceder que foi adquirido originariamente por um
descendente do dador mesmo que não tenha de tal beneficiado

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• os adquirentes do quinhão hereditário alienado pelo descendente que era à data da


doação presuntivo herdeiro legitimário do doador – 2128º - e os credores desse
descendente que tenham exercido a faculdade de sub-rogação prevista no art.2067º,
ainda que tais adquirentes ou credores não hajam tirado beneficio da liberalidade em
vida.

Não sujeitos à colação:

• cônjuge (não há propriamente uma disposição que o exclua – não é uma lacuna)
• ascendentes ainda que sucessíveis prioritários legítimos
• os descendentes que não eram à data da doação sucessores legitimários prioritários,
ainda que venham a ser aquando a abertura da sucessão
• os donatários que não sejam sucessores legitimários (incluindo o conjue de
descendente obrigado à colação)

Sublinhe-se que o cônjuge do de cuius não está entre os sujeitos obrigados à colação.
Apesar de não haver nenhuma disposição legal que o exclua expressamente do âmbito da
colação (art.2107º/1, alude ao cônjuge do descendente obrigado à colação e não ao cônjuge
do de cuius), ele não vem referido nos art.2104º e 2105º

Para o professor Jorge Pinheiro Duarte tal omissão não cosntitui uma lacuna,
suscetuvel de integração nos termos do art.9º/3. Até porque o isntituot da colação se funda
numa presunção legal iuris tantum de que o autor da sucessão quando faz uma doação a um
dos filhos não pretende avantaja-lo relativamente aos demais. Uma vez que a condição de
cônjuge é obviamente diversa da de filho, afigura-se forçado partir do pressuposto de que
normalemtne o de cuius pretende tratar de igual modo aquele e este. Por conseguinte, não se
vislumbra uma razão que legitime a inclusçao, por analogia, do cônjuge no grupo de sujeitos
obrigados à colação.
Para o professor Oliveira Ascenção sujeita, por analofia o cônjuge à colação, quando
ele concorra com descendentes, argumentando com a existência de uma lacuna, “fruto da
inferior qualidade técnica da reforma de 1977 que se esqueceu de alterar as regras de colação,
depois de ter atribuído ao cônjuge a qualidade de sucessível legitimário prioritário, com a
possibilidade de concorrer com descentes do de cuius.
Para o professor Pamplona Corte-Real não se observa uma lacuna legal: “foi
intencional a não sujeição do cônjuge à colação, adentro, alias, da filosofia que presidiu à
reforma de 1977-1978”, assente na preocupação de lhe conferir uma posição sucessória
inequivocamente privilegiada perante os demais legitimários; “ a comissão revisora, nos seus
trabalhos preparatórios (elemento interpretativo não desculpável apesar de não estarem
publicados), assumiu não pretender sujeitar o cônjuge à obrigação de colacionar face aos
descendentes”

Âmbito objetivo da colação

Estão sujeitos a colação os bens doados em vida aos descendentes que à data da
doação eram sucessíveis legitimários prioritários (art.2104º/1 e 2105º) e a outros sujeitos que
nessa mesma data já estejam obrigados à colação (Ex: bens doados a representante, após a
morte do representado).

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Uma vez que o art.2104º/1 apenas alude a bens ou valores doados, não estão
abrangidos pela colação os bens que foram deixados por testamento, isto é, bens que foram
objeto de doações mortis causa: não faz sentido falar de restituição relativamente a doações
que não transmitem a propriedade dos bens antes da abertura da sucessão.
Não estnado compreendidas no conceito de doação, ficam fora do âmbito objetivo da
colação as situações indicadas no art.940º/2: renuncia a direitos, repudio de herança ou
legado, donativos conforme aos usos sociais (Ex: prendas de aniversario).
Em contrapartida, são havidas como doação, para efeitos de colação todas as despesas
realizadas gratuitamente pelo falecido em proveito dos descendentes, com exceção das que se
são referidas no art.2110º/1 (2104º/2). Em regra, as despesas realizadas gratuitamente pelo
de cuius em proveito dos descendentes estão sujeitas a colação. O mencionado art.2110º
enuncia as despesas não sujeitas a colação.
Os frutos da coisa doada sujeita a colação, percebidos desde a abertura da sucessão,
devem ser conferidos (art.2111º)
Não é objeto de colação a coisa doada que tiver perecido em vida do autor da
sucessão por facto não imputável ao donatário (art.2112º).

Para efeitos de colação, o valor dos bens doados é o que eles tiverem à data de
abertura da sucessão (art.2109º/1). Se os bens doados forem consumidos, alienados ou
onerados, ou perecerem por culpa do doantario, atende-se ao valor que esse sbens teriam na
data da abertura da sucessão, se não fossem consumidos, alienados ou onerados, ou não
tivessem perecido – 2109º/2. A doação em dinheiro, bem como os encargos em dinheiro que a
oneraram e foram cumpridos pelo donatário são atualizados à data da abertura da sucessão
nos termos do art.551º (art.2109º/3).
No entanto, o valor colacionável dos frutos dos bens doados, percebidos desde a
abertura da sucessão, será já o correspondente à diferença entre o valor dos frutos da sua
perceção e o valor das despesas que estiveram na génese da sua obtenção.

Se a doação tiver sido feita simultaneamente em favor do descendente obrigado a


colação e do seu cônjuge, a colação recai apenas sobre a parte daquele (art.2107º/2).
Ao abrigo do art.2107º/3, está sujeito a colação tudo o que for doado nominalmente
ao descendente obrigado a colação, mesmo que ele se encontre casado no regime da
comunhão geral, sendo, portanto, indiferente se o bem doado assuma a qualidade de bem
próprio ou comum.
No caso de doação feita por ambos os pais, casados entre si, em beneficio de
descendente comum obrigado a colação, que tenha por objeto um bem integrado na
comunhão conjugal, o art.2117º esclarece que haverá colação por morte de cada um dos
doadores.

Funcionamento da colação

A colação pressupõe pluralidade de descendentes que pretendam entrar na sucessão e


que sejam sucessíveis legitimários prioritários, desde que não sejam chamados todas a
suceder como representantes de uma única pessoa.
A colação faz-se pela imputação do valor da doação ou da importnaica das despesas na
quota heriditaria, ou pela restituição dos próprios bens doados (restituição real, em espécie),
se houver acordo de todos os herdeiros (art.2108º/1).
Em regra, a coalção faz-se pela imputação do valor da doação ou da importância das
depsesas na quota hereditária (restituição fictícia).
Neste contecto, a quota hereditária é a parte que acabe ao legitimario numa herança
legal ficticiamente alargada, resultado da soma da legitima subjetiva com uma quota numa

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

massa que inclui a herança legitima e a parte da liberalidade em vida sujeita a colaççao que foi
imputada na quota disponível (por força da restituição fictícia que o instituto em apreço
impõe).
Os bens ou valores doados são imputados:
1º- legitima subjetiva do beneficiário
2º - se o valor da liberalidade exceder o da legitima subjetiva, a diferença é
imputada na quota disponível, mais precisamente na quota hereditária
restante do donatário.

O donatário só tem direito a receber do relictum que for deferido por via da sucessão
legal o que faltar para preencher a sua quota hereditária. Ou seja, a igualação subjacente à
colação faz-se, normalmente mediante a atribuição de mais bens do relictum aos
descentdentes não doantarios, para compensar aquilo que o donatário receeu em vida do de
cuius.
Se os bens ou valore doados não excederem a quota hereditária do beneficiário, é
possível a igualação absoluta na partilha entre os descendentes que são herdeiros legais
prioritários.
Se os bens ou valores doados excederem a quota hereditária do donatário, não haverá
igualação ou haverá uma igualação confinada ao que for possível. A doação não sera afetada,
salvo se for inoficiosa (art.2108º/2) ou se outra coisa tiver sido estipulada no contrato de
doação6. Porque a colação não importa a redução das doações, o art.2118º ao prever um ónus
real associado à eventual redução das doações sujeitas a colação, deve ser alvo de
interpretação abrogante.

Exemplificação:
A, autor da sucessão, doa ao filho B 50 e deixa por testamento 4 a T.
Sobrevivem a A estes sucessíveis e ainda o filho C.
R=40
VTH = 90
QI = 60; QD = 30
Legitima subjetiva de cada filho 30.
Na legitima subjetiva do donatário, é imputada parte da doação (30), e o resto (20) na
QD; na QD também será imputada a deixa testamentaria (4).
QD livre, que será objeto da sucessão legitima = 30-20-4 = 6. É este valor que está disponível
para se proceder à igualação, compensando C, legitimário não donatário, por aquilp que
recebe a mais o legitimario donatario.
Quota hereditária de cada um dos filhos = legitima subjetiva + quota na herança
legitima fictícia
Massa de calculo da herança legitima fictícia = 6 (herança legitima ou QD livre) + 20
(valor da doação sujeita a colação que foi imputada na QD) = 26. O quantum da quota na
herança legitima fictícia é o que resulta da divisão por cabeça (2139º/2). 26/2 = 13
Quota hereditária de cada um dos filhos = 30 (legitima subjetiva) + 13 (quota na
herança legitima fictícia) = 43
B recebeu um valor superior a da sua quota hereditária (50). Portanto todo o relictum
livre na QD será atribuído a C. A igualação não é absoluta, opera na medida do possível.

QI= 60 QD = 30 VT = 90

6Será relevante a clausula do contrato mediante a qual o donatário se vincular a restituir a parte que da doação
que eceder o valor da quota hereditária. No entanto, para haver uma estipulação de igualação absoluta, ao
contrário do que entende a escola de Coimbra, não nos aprece que seja suficiente a determinação de que a doação
é feita por conta da legitima

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

B 30 20 50
C 30 6 36
T4 4

Como se observa, a colação pode implicar um desvio às regras da sucessão legitima. Os


descendentes que são sucessíveis legitimários prioritários podem não sucerder por igual na
herança legitia real, que é ao relictum que não foi o objeto de disposição (no exemplo, um
deles, o não donatario, adquire tudo e o outro nada).
Sempre que o valor da doação sujeita a coalçção é superior ao da legitima subjetiva do
beneficiário, e há bens livres na quota disponível, a igualação faz-se à custa deles, ocorrendo
então um fenómeno de sucessão legitima corrigida.

A colação visa a igualação da partilha entre descendentes, pelo que os descendentes são os
beneficiários da colação, sejam eles descendentes não donatários ou descendentes donatários
que tenham recebido menos do que outros descendentes donatários. Mas, o cônjuge, que não
está obrigado a colação nem é beneficiário da colação, pode obter uma vantagem reflexa na
sequencia do funcionamento do instituto entre descendentes; tendo uma posição idêntica, ou
privilegiada, na sucessão legal (art.2139º/1 e 2157º), ele não pode receber do relictum livre
menos do que aquilo que ele recebe um descendente.

Pamplona Corte Real: A não sujeição do cônjuge à colação no Direito Sucessório português.
Outros considerando críticos sobre a vocação sucessória do cônjuge e do companheiro.
Fernando Nogueira: por razões de justiça, não estando sujeito à colação, o cônjuge também
não deve beneficia da igualação

Exemplificação:
A, autor da sucessão, doa ao filho B 40 e deixa por testamento 4 a T. Sobrevivem a A estes
sucessíveis, o filho C e o cônjuge D.
R = 50
VTH = 90, QI = 60, QD = 30
Legitimas subjetivas = 20
Na legitima subjetiva do donatário, é imputada parte da doação (20) na QD; na QD
também será imputada a deixa testamentária (4).
QD livre, que será objeto da sucessão legitima = 30-20-4=6. É este valor que esrá
disponível para se proceder à igualação, compensando C, legitimario não donatario, por aquilo
que recebeu a mais o legitimario donatario.
Massa de calculo da herança legitima fictícia = 6 (herança legitima ou QD livre) + 20
(valor da doação sujeita a colação que foi imputada na QD) = 26. O quantum da quota na
herança legitima fictícia é o que resulta da divisão por cabeça (2139º/2). 26/3=8,666...
Quota hereditário de cada legitimario = 20 + 8,666 = 28,666... B recebeu um valor
superior ao da sua quota hereditária. Portanto já não tem direito ao relictum livre (6). Na
logica da colação, sendo impossível a igualação absoluta, todo o relictum livre seria atribuído a
C. Mas a igualação entre C e B não pode ser feita com sacrifico da posição de D, que tem
direitos nunca inferiores aos dos descendentes na sucessão legitima real. Caberá então 3 a C e
3 a D.

QI=60 QD=30 VT=90


B 20 20 40
C 20 3 23
D 20 3 23

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

T 4 4

Exemplificação com doação sujeita a colação de valor inferior à quota hereditária:

A, autor da sucessão tem três filhos, B, C, D. Doa ao filho B 26 e deixa por testamento 9 a T.
VTH = 90
Na legitima subjetiva do donatario, é imputada parte da doação (20), e o resto (6) na
QD; na QD também será imputada a deixa testamentária (9).
QD livre, que será objeto da sucessão legitima = 30-6-9=15
Massa de calculo da herança legitima fictícia = 15 (herança legitima ou QD livre) + 6
(valor da doação sujeita a colação que foi imputada na QD) =21. O quantum da quota na
herança legitima fictícia é o que resulta da divisão por cabeça = 21/3 = 7
Quota hereditária de cada um dos três filhos = 20 (legitima subjetiva) + 7 (quota na
herança legitima fictícia) = 27.
B tem direito a 1 de relictum, para completar a sua quota hereditária (1+26=27). Cada
um dos dois outros filhos tem direito a 27 do relictum.

QI=60 QD=30 VT=90


B 20 6+1 27
C 20 7 27
D 20 7 27
T 9 9

Todos os exemplos apresentados assentam no calculo prévio da quota hereditária,


método de execução da colação que é mais conforme à lei (art.2108º/1).
Todavia, é ainda muito seguido o método de execução da colação por tentativa, que,
por prescindir da determinação prévia do valor da quota hereditária, é simultanemante mais
simples e mais falível.
Exemplificação:
A, autor da sucessão tem três filhos, B, C, D. Doa ao filho B 26 e deixa por testamento 9 a T.
VTH = 90
QI=60 QD=30 VT=90
B 20 (a) 6 (a) +1 (d) 27
C 20 (b) 6 (c) +1 (d) 27
D 20 (b) 6 (c) +1 (d) 27
T 9 9

(a) imputação prioritária da doação sujeira a colação na QI; imputação do excesso na QD


(b) afetação do relictum para satisfação das legitimas subjetivas
(c) afetação do relictum com vista à eleimnação da vantagem quantitativa que B tem
sobre C e D, numa tentativa de igualção que consegue ser absoluta
(d) afetação do relictum restante segundo as regras comuns da sucessão legitima (por
cabeça).

Comparando este mapa com aquele que a colação foi efetuada após o calculo da quota
hereditária, verifica-se que os resultados são os mesmos e isto deve acontecer sempre que os
métodos sejam aplicados corretamento, havendo apenas diferenças quanto à evolução da

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

distribuição da quota disponível (diferenças que não existiriam se a doação sujeita a colação
tivesse sido igual ou inferior à legitima subjetica do donatario).

Dispensa da colação

O art.2113º/1 admite que a colação possa ser dispensada pelo doador, mostrando que
o instituto da colação admite carácter supletivo.
A dispensa pode ser feita expressa ou tácita (217º).
Um exemplo de dispensa tácita é por exemplo quando o de cuus faz a doação por
conta da quota disponível.
A colação presume-se sempre dispensada nas doações manuais e nas doações
remuneratórias (2113º/3), pelo que não se exige declaração, expressa ou tácita, de dispensa.
Professora Cristina Pimenta Coelho, afirma que em opososição as demais doações, a
imputação na quota hereditária das doações manuais ou remuneratória pressupõe uma
declaração do doador nesse sentido. O art.2113º/3 preve uma presunção ilidível.
Pamplona Corte-Real considera a presunção iuris et de iure.
A dispensa pode ser efetuada no ato de doação ou posteriormente, pela mesma forma
pela qual foi feita a doação ou por testamento (Art.2113º/1/2).
Sendo posterior à doação, de harmonia com o principio invito beneficium non datur, a
dispensa tem de ser aceite pelo donatário, porque, no fundo equivale a uma liberalidade.

A dispensa da colação obsta à imputação da doação na quota hereditária do donatário.


A doação dispensada de colação é prioritariamente imputada na quota disponível (art.2114º),
valendo como uma vantagem patrimonial efetiva do donatário perante os demais legitimários.
A doação dispensada de colação não é incluída na massa de caldulo que serva para
fixar a quota hereditária (a que alude o art.2108º/1) dos vários legitimários que concorrem à
sucessão.
Exemplificação com duas doações sujeitas a colação, uma dispensada e outra não:
O autor da sucessão tem três filhos, B, C e D. Doa ao filho B 26, sem dizer mais nada.
Doa ao filho C 6, por conta da quota disponível.
VTH=90
Numa partilha, com execução da colação por tentativa, prescindindo-se da
determinação previa da quota hereditária, depara-se com o seguinte mapa

QI=60 QD=30 VT=90


B 20 (a) 6 (a) + 2 (e) 28
C 20 (b) 6 (c) + 6 (d) + 2 (e) 34
D 20 (b) 6 (d) + 2 (e) 34

(a) imputação prioritária da doação sujeita à colação na QI; imputação do excesso na QD


(b) afetação do relictum para satisfacção das legitimas subjetivas
(c) imputação da doação dispensada da colação
(d) afetação do relictum com vista à eleminação da vantagem quantitativa que B tem
sobre C e D, numa tentativa de igualação, que consegue ser absoluta
(e) Afetação do relictum restante segunda as regras comuns da sucessão legitima (por
cabeça).

Explicando esta partilha à luz do conceito da quota hereditária.


Na legitima subjetiva de B, é imputada parte da doação (20), e o resto (6) na QD; na
QD também será imputada a doação feita a C (6)
QD livre, que será objeto da sucessão legitima = 30 – 6 – 6 =18

90
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Massa de calculo da herança legitima fictícia = 18 (herança legitima ou QD livre) + 6


(valor da doação sujeita a colação que foi imputada na QD) = 24. O quantum da quota na
herança legitima fictícia é o que resulta da divisão por cabeça: 24/3 = 8
Quota hereditária de cada um dos três filhos = 20 (legitima subjetiva) + 8 (quota na
herança legitima fictícia) = 28
A doação feita a C foi dispensada da colação e por isso acrsce ao valor da sua quota
hereditária (6+28).

Revogação da dispensa da colação

A dispensa da colação feita no testamento está subordinada ao regime do negócio


testamentário, sendo unilateralmente revogável.
A dispensa da colação que for realizada no ato da doação reveste natureza bilateral e
só pode ser revogada por mútuo consentimento dos contraentes.
Pamplona Corte-Real – a dispensa é livre; como resulta do art.2113º/2, que admite a
sua estipulação num testamento, “a dispensa da colação, mesmo que inserida numa doação
corresponde a um negocio unilateral de natureza mortis causa, embora em união de atos com
a liberalidade em vida.
Embora a lei preveja a revogabilidade unilateral de certos atos contidos em doações
(cláusulas fideicomissários e de reversão: 1700º/1 e 1707º), o professor JPD não será essa a
solução que quadra à dispensa colação: o facto de esta poder ser feita por testamento não
torna irrevelevante o consentimento do donatario, que tem aceitar ou repudiar o beneficio
patrimonial associado.
A revogação da dispensa de colação carece de acordo do donatario, tal como a
alteração de qualquer contrato – 406º/1.
Em abono da necessidade de revogação bilateral da dispensa da colação. Maria
Cristina Pimenta Coelho acrescenta o argumento que diferente entendimento traduzir-se-ia
numa violação do principio da intangibilidade qualitativa da legitima, consagrado no art.2163º
na parte em que dispõe que o testador (autor da sucessão) não pode, contra a vontade do
herdeiro, designar os bens que devem preencher a legitima deste.
Paula Barbosa e Pamplona Corte Real consideram que havendo revogação unilateral
da dispensa de colação efetuada no ato da doação, o legitimario-donatario tem a faculade de
devolver o bem doada à herança, recusando o preenchimento unilateral da legitima subjetiva
que está subjacente à imputação colácticia. No entanto, é duvidoso que o citado art. 2163º
sirva de base a uma “restituição à herança” de bens que foram doados ao legitimario.

Doações sujeitas a colação feitas a legitimário que não quis ou não pôde aceitar a sucessão

Em regra, a colação só abarca as doações em favor daqueles que entrem na sucessão.


Não há colação se o donatário não quiser ou não puder aceitar a sucessão, sem ter
descendentes que o representem.
Se, porém, não houver lugar à colação pelo facto de o donatário repudiar a herança
sem ter descendentes que o representem, o art.2114º/2, estabelece que a doação é imputada
na quota indisponível. A doação feita ao repudiante é imputada numa legitima subjetiva
fictícia, destinada apenas a suportar o valor da liberalidade; se for inferior à respetiva quota
hereditária legal, opera o acrescer na sucessão legal em favor dos co-herdeiros, relativamente
à diferença, nos termos gerais.
As doações sujeitas a colação feitas a legitimário que não pode aceitar a sucessão por
motivo de indignidade ou deserdação, sem ter descendentes que o representem, são
imputadas na quota indisponível, por aplicação analógica do art.2114º/2. O preceito pretende

91
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

evitar que uma atuação voluntaria do descendente-donatario atinja a eficácia de liberalidades


realizadas pelo de cuius em beneficio de outras pessoas.
Já as doações sujeitas a colação feitas a legitimario que não pôde acietar a sucessão
por mortivo de não sobrevivencia ao de cuius, sem ter descendentes que o representem, são
imputadas na quota disponível. (diferentemente, Cristina Pimenta Coelho e Capelo Sousa
afirmam que se aplica analogicamente o art.2114º/2, também a estas doações, pressupondo
que o principio do aproveitamento dos negócios jurídicos é a única razão de ser da disposição
legal.

Doações sujeitas a colação não imputadas na quota hereditária

Já se verificou que nem todas doações sujeitas a colação são imputadas na quota
hereditária legal.
Não são objeto de colação efetiva as doações sujeitas a colação cujo donatario
repudiar a herança, for deserdado ou declarado indigno, sem ter descendentes que o
representem. Acabam por ser imputadas prioritariamente na quota indisponível, criando-se,
para o efeito, uma legitima subjetiva fictícia exclusivamente para se efetuar aquela imputação;
se a doação exceder o valor da legitima subjetiva que caberia ao donatário, o excesso é
imputado na quota disponível como uma liberalidade comum, sem qualquer intuito de
igualação.

As doações inter vivos não sujeitas a colação

Doaçõe snão sujeitas a colação em favor de terceiros

As doações feitas a pessoas que na altura não era sucessíveis legitimários priritarios são
naturalemtne imputadas na quota disponível, uma vez que à data eles não tinham uma
expetativa no domínio da sucessão legitimaria.

Doações não sujeitas a colação em favor de sucessíveis legitiamrios prioritários

As doações não sujeitas a colação que sejam feitas a sucesseveis legitimários prioritários
causam duvidas sérias (ex filho único)
Como se procede se não for possível aputar qual era a vontade do autor da sucessão?
Pereira Coelho diz que se aplica o art.2114º/1 às doações não sujeitas a colação a
favor de sucessíveis legitimários prioritários, que, portanto, devem ser imputadas na quota
dispoivel.
Contudo, o art.2114º/1 deve ser objeto de uma interpretação sistemática: é um artigo
situado numa secção dedicada à colação e é precedido por outro artigo sobre dispnesa da
colação. A estatuição do art.2114º/1 respeita somente às doações eujtias a coalção que dela
também tenham sido dispensadas. Onde se diz “não havendo lugar à colação” deve ler-se “não
havendo lugar à colação por ter havido dispensa”.
A orientação seguinda por Pamplona Corte Real e Jorge pinheiro Duarte diz que em
regra, as doações devem ser imputadas na quota indisponível.
A tendencial imputação na quota indisponível das coações não sujeitas a colação a
favor de sucessíveis legitimairios priotiratios funda-se num conjunto de três razões:
1. Evita um avantajamento excessivo de certos legitimários perante outros. Tem em
vista especificamente a situação d econcurso do conjuge donatario com outros
legitimários. Imputar normalmente a doação entre casados na quota disponível
atribuirira ao conjuge do de cuius uma vantagem quantitativa, perante

92
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

descendentes e ascendentes, quando já é grande, e criticado, o beneficio relativo


que ele obtém na sucessão legal
2. Preserva a liberdade de disposição por morte do de cuius. O principio do
aproveitamento dos nefocios jurídicos recomenda a imputação tendencial das
liberalidades em vida feritas a sucesseceiveis legitiamrios na quota indisponível.
A imputação tendencial das doações na quota disponível aumenta o risco de
inoficiosidades, que, atendendo à ordem de redução, atingirá, sucessivamente
liberalidades testamentarias e liberalidades contratuais subsequentes à doação
feita ao sucessível legitimario. É preferível a contrução doutrinararia que melhor
salvaguarde a eficácia das doações e disposições testamentarias feitas pelo de
cuius.
É preciso não esquecer que o art.62º/1 CRP, ao garantir o direito À transmissão da
propriedade privada por morte, turela um mínimo de liberdade de disposição por
morte do de cuius, liberdade que já não é muita num contexto em que
frequentemente o autor da sucessão está impedido de determinar o destino de
dois terços do seu patrimonio (art.2158º, 2159º/2 e 2161º/1)
3. É coerente com o papel das doações no alargamento fictício da massa de calculo
relevante para efeitos de determinação da herança legitimaria, nos termos do
art.2162º. Permite ver que nas doações liberalidades que, em principio, se
destinam a antecipar a satisfação dos direitos que cabem ao doantario na sucessão
legitimaria.

É imprescindível uma invocação conjunta destes 3 aspetos:


• no caso de doação ao conjuge, colhem as três razões apontadas
• no caso de doação a descendente que seja o único legitimario ou a ascendentes, a
regra da imputação na legitima subjetiva do donatario apoia-se nas duas ultimas
razões.

Sublinhe-se que imputar na quota indisponível não é o mesmo que imputar na quota
hereditária legal; a colaçã identifica-se com a segunda técnica de imputação, não com a
primeira; a imputação na quota indisponível consittui apenas uma fase da coalção, da
imputação na quota hereditária legal.

Exemplificação (Pamplona Corte-Real):


A doa o bem x a B, cônjuge, e o bem y a C, filho. Legou a um sobrinho S o bem n. Morre,
deixando bens no valor de 40. Na data de abertura da sucessão, o bem x valia 25, o bem y
outro tanto e o bem n 7. Sobrevivem a A, além de B e C, o filho D.
QI=60 QD=30 VT=90
B 20 (a) 5 (a) + 6 (d) 31 (e)
C 20 (b) 5 (b) +1 (c) 26
D 20 6 (d) 26
S 7 7

(A) Imputação prioritária da doação feita B na QI, por força da construção doutrinaria
adotada; como a doação (25) é supeior ao valor da legitima subjetiva do donatario
(20), a diferença (5) foi imputada na QD.
(B) Imputação da doação feita a C na respetiva quota hereditária (primeiro na legitima
subjetiva e depois na quota que cabe a C na sucessão legitima), por força do instituto
da colação.
A quota hereditária é de 26 (legitima subjetiva de 20 e quota na herança legitima
fictícia de 6).

93
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

QD livrem que será objeto da sucessão legitima = 30-5-5-7=13.


Massa de calulo da herança legitima fictícia = 13 (herança legitima ou QD livre) + 5
(valor da doação sujeita a colação que foi imputada na QD) = 18. O quantum da quota
na heranã legitima ficticia ºe o que resulta da divisão por cabeça: 18/3 = 6.
(c) tem direito apenas a 1 do relictum
(d) Os sucessíveis legitimaios prioritários repartem entre si o restante relictum livre na QD
(30-5-5-7-1=12/2=6); no caso concreto, ocorre uma igualçaõ absoluta entre C e D,
repara-se que B, conjuge, apenas umputou a doação na quota indisponível; não teve
que suportar uma igualação à custa dos bens livres na QD e beneficiou reflexamente
da colação.
(e) Como se observa, apesar de ter sido benediciado com uma doção de valor identidco
ao de C, B obtém um valor final superior a este, consequência de não estar sujeito a
colação.
Nesta hipótese especifica, de doação a um filho sujeita a colação e de doação ao cônjuge, há
convergência entre a tese de Pamplona Corte-Real e o entendimento de Paula Barbosa. Mas a
convergência desfaz-se numa circunstancia em que não haja doação a filho sujeita a colação.

Com base nos mesmos dados, para tornar mais evidente o que separa as três grandes posições
doutrinarias sobre o tratamento particional supletivo da doação feita ao conjuge:
• Imputação prioritária na QI – Pamplona Corte Real
• Imputação prioritária na QD – Pereira Coelho
• Sujeição a colação – Oliveira Ascenção

Exemplificação (Pereira Coelho):


QI=60 QD=30 VT=90
B 20 25 (a) 45
C 20 (b) 5 (b) 25
D 20 0 20
S 7-7 (c) = 0 0

(a) Imputação prioritária da doação feita a B na QD, por força da construção doutrinaria
adotada
(b) Imputação da doação feita a C na respetiva quota hereditária (priemito na legitima
subjetiva e depois na quota que cabe a C na sucessão legitima), por força do instituto
da colação
(c) O montante das liberalidade simputadas na QD excede em 7 o valor da QD; o legado é
totalmente reduzido, por ser inoficioso.

Exemplificação (Oliveira Ascensão)


QI=60 QD=30 VT=90
B 20 (a) 5 (a) + 2,666 (c) 27,666...
C 20 (b) 5 (b) + 2,666 (c) 27,666...
D 20 7,666... (c) 27,666...
S 7 7

(a) Imputação da doação feita a B na respetiva quota hereditária (primeiro na legitima


subjetiva e depois na quota que cabe a B na sucessão legitima), por aplicação
analógica do instituto da colação

94
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A quota hereditária é de cerca de 27,666 (legitima subjetiva de 20 e quota na herança


legitima ficticia de cerca de 7,666)
QD livre, que serºa objeto da sucessão legitima = 30 – 5 – 5 – 7 = 13
Massa de caluclo da herança legitima ficticia = 13 (herança legitima ou QD livre) + 10
(valor da doação sujeita a colação que foi imputada na QD) = 23. O quantum da quota
na heranã legitima ficticia ºe o que resulta da divisão por cabeça: 23/7 = 7,666...
(b) Imputação da doação feita a C na respetiva quota hereditária (primeiro na legitima
subjetiva e dpeois na quota que cabe a C na sucessão legitima), por aplicação direta do
regime da colação
(c) Igualação, na QD, à custa dos bens livres do relictum

O critério supletivo de imputação na quota indisponível das doações não sujeitas a


colação em favor de sucessíveis legitimários prioritários serva pra todas as doações, com
exceção das remunatorias e manuais.
Mesmo quando são feitas em beneficio de sujeitos obrigado a colação, tais doações
presumems-se sempre dispensados da colação (2113º/3), sendo por conseguinte, imputadas
na quota disponível, salvo estipulação distinta.
Paralelamente, é de crer que, sendo feitas a sucessível legitimario prioritário não
obrigado a colação, estão dispensadas de imputação na quota indisponível, salvo declaração
em contrario. A doação remuneratória gratifica o donatario por um serviço prestado ao
doador (941º) e a doação manual (que se realiza mediante a entrega direta do bem ao
donatario) é feita discretamente. Não se afigura que nenhuma das duas possa ser em
principio, considerada comoa ntecipação de uma quota do doantario. O cariz remuneratório
ou deliberadamente pouco visível das doações sugere antes uma atribuição patrimonial para
além da quota.

Para o professor JPD, o reconhecimento da figura da dispensa de imputação na


legirima é um corolário da defesa do criteiro supletivo de imputação na quota indisponível das
doações não sujeitas a colação em favor de sucessveis legitimários prioritários.
À dispensa de imputação na legitima, que determina o enquadtamente da liberalidade
prioritariamente na quota disponível, caberá um regime análogo ao da dispensa da colação:
pode ser expressa ou tácita; pode ser efetuada no ato de doação ou posterioemnete, pela
mesma forma mediante a qual foi feita a doação ou por testamento; e a dispensa tem de ser
aceite pelo donatario, se for posterior à doação.

Situações de não puder aceitar:


• Pré-morte
• Comomerencia – 68º/2
• ausencia

é um não puder jurídico e não físico. Transmite-se o direito de suceder (ex: se estiver em
coma) – 2058º - funciona para todos os herdeiros.
No direito de representação morre antes ou ao mesmo tempo
No direito de suceder morre depois.

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A partilha em vida

Noção e natureza da partilha em vida

O art. 2029.º. n.º 1, define a partilha em vida. Não obstante esta noção, a partilha em
vida também pode ser realizada com sucessíveis legítimos prioritários, não legitimários do
doador (ex: sobrinhos deste)
Por exemplo:
Além de bens de uso pessoal, A tem um imóvel onde reside. Com o consentimento de
todos os seus filhos, B, C e D, A doa o referido imóvel, com reserva de usufruto, a B, que se
compromete a pagar a C e a D tornas no montante correspondente à quota que lhes caberia
no bem doado. O bem doado foi avaliado em 600, obrigando-se o donatário a pagar 200 a C e
200 a D.
A partilha em vida é um contrato complexo baseado numa ou mais doações em vida.
Em princípio, é um ato com carácter definitivo que tem como objetivo repartir os bens do
doador pelos seus presuntivos herdeiros legitimários, normalmente com o intuito de evitar
desavenças entre eles que poderiam surgir numa partilha sucessória.
Como se diz no n.º I do art. 2029 .º, a partilha em vida não assume a natureza de um
pacto sucessório. Ela não se traduz numa disposição de herança de pessoa viva. Não estão em
causa direitos relativamente a uma herança não aberta, mas direitos (ao bem doado e às
tornas) que são adquiridos pelos sucessíveis legitimários (donatários e não donatários) em vida
do de cuius.

Regime da partilha em vida

Ao abrigo do art. 2029 .º, n.º 3, as tornas em dinheiro ( devidas aos legitimários não
donatários), quando não sejam logo efetuados os pagamentos, estão sujeitas a atualização nos
termos gerais.
A tendencial definitividade da partilha em vida deteta-se quando se prevê a
necessidade de intervenção de todos os presumidos herdeiros legitimários, ou como
donatários ou como credores de tornas (art. 2029.º n. º 1 ), e quando se determina que se
sobrevier ou se tomar conhecido outro presumido herdeiro legitimário, pode este exigir que
lhe seja composta em dinheiro a parte correspondente” (art. 2029.º, n.º 2). Neste ultimo caso,
este não pode exigir a anulação ou a resolução das doações correspondentes à partilha em
vida; pode apenas exigir dinheiro.
Por exemplo:
Após a partilha em vida que teve por objeto o imóvel, A vem a ser pai de E. A
superveniência deste filho não atinge a partilha efetuada, implicando apenas um ajustamento
de tomas. A E cabe um quarto do valor do bem doado. Ou seja, 150, já que o valor é 600. Cada
um dos restantes filhos, B, C, D, terá de pagar 50 ao filho superveniente de A.
Todavia, será nula (professor JPD) a partilha em vida em que tenha havido omissão
intencional de legitimários prioritários (arts. 2029º/1/2 e 294.º). Para o professor Pamplona
Corte Real será anulada. Para o professor Oliveira Ascensão haverá uma inoponibilidade da
partilha aos legitimários que dela foram excluídos.

Atendendendo à sua característica definitividade, a partilha em vidr que visa a


igualação, traduz uma renúncia em vida à colação por parte daqueles que com ela
beneficiariam, relativamente aos bens que forarr doados no âmbito dessa mesma partilha.
Contudo, a definitividade não se pode traduzir em renúncia em vida à intangibilidade
quantitativa da legítima, que é proibida pelo art. 2170º.

96
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Se a partilha em vida não respeitar o valor das legítimas subjetivas, o legitimário lesado
pode requerer a redução de liberalidades, ainda que tenha dado o seu consentimento na
partilha em vida.

Por exemplo: Numa partilha em vida, A, que tem três filhos, B, C e D, doa um imóvel a B,
obrigando-se este a pagar tomas a C e D. O imóvel valia então 900; B pagou de imediato 300 a
C e 300 a D.
A morre dez anos depois. Não tem nenhum bem relevante no seu património. O imóvel doado
na partilha em vida vale agora 1800. Nos termos do art. 2162.º, a QI é igual a dois terços desse
valor (donatum), 1200. A QI deve ser repartida igualmente entre os filhos do de cuius: 1200/3
= 400.
Por via da partilha em vida, B obteve 1200 (1800 do bem doado-600 de tornas; C e D,
obtiveram, cada um deles, apenas 300 (tornas pagas por B), menos 100 do que o valor que
lhes cabia a título de legítima subjetiva.
QI = 1200 QD = 600
B 400 800
C 400 (300) 0
D 400 (300) 0

C e D podem requerer a redução por inoficiosidade da doação a favor de B em 200 (100 por
cada requerente).

As liberalidades mortis casusa de bens determinados

Tipos de liberalidades mortis causa de bens determinados

• legados por conta da legítima


• legados em substituição da legítima
• pré-legados

O legado por conta da legítima imputa-se numa quota hereditária legal fictícia, numa
lógica semelhante à das doações sujeitas a colação.
O legado em substituição da legitima imputa-se prioritariamente na legitima subjecriva e,
sendo inferior ao valor desta, implica a perda do valor da diferença.
O pré-legado imputa-se na quota disponível.
Por exemplo, A, autor da sucessão, faz testamento em que deixaiose-a filho B o bem x, por
conta da legítima. A data da morte de A, o seu património vale 90, incluindo o bem x, avaliado
em 25. Sobreviveram ao de cuius, B e C, outro filho.

QI=60 QD=30 VT
B 25(a)+5(b) 15(d) 45
C 30(c) 15(d) 45

(a) Imputação do legado por conta da legítima


(b) Relictum livre que cabe a B para completar a respetiva legítima.
(c) Legítima subjetiva
(d) Efeito da sucessão legítima

Suponha-se que afinal o bem x era deixado em substituição da legítima.

97
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

QI=60 QD=30 VT
B 30(25)-5 (d) d
C 30(b)+5(c) (d) d
(a) Imputação do legado em substituição da legítima; sendo o respetivo valor (25) inferior
à legítima subjetiva (30), o beneficiário perde a diferença (5).
(b) Legítima subjetiva, por vocação direta
(c) Acrescer na sucessão legitimária, resultante da (pressuposta) aceitação por B de
legado em substituição da legítima inferior à legítima subjetiva.
(d) Valores provisoriamente em branco variam em função da posição doutrinárias

Se a deixa do bem x tiver sido um pré-legado, a liberalidade não será imputada


prioritariamente na QI, o que contrasta com o reg1me dos legados por conta e em substituição
da legítima.

O legado por conta da legítima e o pré-legado podem ser feitos por testamento ou pacto
sucessório. O legado em substituição da legítima só pode figurar em testamento, não sendo
admissível em pactos sucessórios.

. Ao autor da sucessão cabe esclarecer o sentido da disposição mortis causa de bens


determinados que faz em benefício de sucessível legitimário. Concluir se 1,e está perante uma
deixa imputável na quota indisponível concluir se se está perante uma deixa imputável na
quota indisponível (legado por conta ou em substituição da legitima) ou um pré-legado?
Para JPD, o critério normal de imputação das liberalidades mortis causa de bens
determinados a sucessíveis legitimários é o inverso do das doações em vida: as liberalidades
por morte imputam-se tendencialmente na quota disponível, as liberalidades inter vivos na
quota indisponível.7
As liberalidades mortis causa, ao contrário das doações, não traduzem uma
antecipação da sucessão, mais precisamente da sucessão legal; constituem a própria sucessão
e uma sucessão que se distingue da legal. Por isso, é natural que não tenham como ponto de
referência os direitos legais dos sucessivas legitimários e que sejam feitas justamente com o
intuito de lhes atribuir mais do que já lhes cabe por lei. A área por excelência dos negócios
mortis causa é a quota disponível, porque, em princípio, a outra quota, justamente designada
por indisponível, está subtraída à vontade do de cuius.
Para mais, o art. 2264.º, apesar de se encontrar inserido no campo da sucessão
testamentária, referindo-se ao legado a favor de um dos co-herdeiros, que onerem toda a
herança, estatui que a liberalidade vale por inteiro e não apenas pela parte que exceda a
quota que cabe ao herdeiro; ora, o artigo, tendo em vista o legado atribuído por via
testamentária, alude genericamente aos co-herdeiros, que, portanto, tanto podem ser
testamentários, legais ou pactícios. À luz deste art. 2264.º, o legado testamentário a favor de
herdeiro deve ser entendido como tendo sido deixado para além da quota hereditária que
cabe ao beneficiário.8
E o próprio legado contratual deve, em princípio, ser imputado na quota disponível9.

1. O pré-legado

O pré-legado em favor de sucessível legitimário prioritário

7 Contra, Oliveira Ascensão que diz que o critério geral deve ser o da imputação na legitima
8 Contra, Oliveira Ascensão – o pré-legado nunca é de presumir. Ainda que o testador fale em legado, deve entender que pretende
preencher as quotas dos herdeiros, se forem estes beneficiários, e não desigualá-los
9 Contra, Pamplona Corte Real que adota o critério geral da imputação dos legados contratuais na QI. No sentido de que a imputação de

uma doação mortis causa na legitima exige o acordo, expressos ou tácito do legitimário-donatário.

98
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Sempre que não haja elementos que permitam considerar a -deixa testamentária de
bens determinados como sendo imputável na quota indisponível, ela será imputada na quota
disponível, valendo como um legado testamentário puro ou pré-legado.
O sucessível legitimário pode adquirir o legado, para além da sua quota. Ou seja, pode
adquirir simultaneamente herança e o legado, somando o valor daquele ao valor deste.
Por exemplo:
O autor da sucessão deixa por testamento o bem x a B. Sobrevivem ao de cuius os
filhos B e C. VTH=R=60. Valor do bem x=10.
QI=40 QD=20 60
B 20 (a) 5 (c) 35 (d)
C 20(a) 5(c) 25 (d)

(a) Legítima subjetiva


(b) imputação da deixa testamentária
(c) quota na sucessão legítima
(d) B obtém um valor igual à soma do valor da sua quota na sucessão legal (20+5, isto é,
legítima subjetiva +quota na sucessão legitima) com o do legado (10). C adquire
apenas a quota na sucessão legal. Por isso, o VT obtido por B é superior ao obtido por
C em I0, justamente valor do legado.

O sucessível não é obrigado aceitar um legado testamentário; pode repudiar o legado e


ainda sim conservar a legítima subjetiva (art.2055.º/2, aplicável aos legados ex vi do art.
2249.º). E pode repudiar toda a sucessão.
Será que pode aceitar o legado e repudiar a legítima, fora da situação prevista no art.
2055.º, n. º 1, segunda parte (aceitação por título testamentário, repúdio da sucessão legal
hereditária, se no momento do repudio o sucessível ignorava a existência do testamento)?
Supomos que sim: estando em causa um chamamento como herdeiro (legitimário) e
outro como legatário (testamentário), afigura-se aplicável o art. 2250.v, n.º 1.

2. Legado por conta da legitima

Noção, regime e natureza do legado por conta da legítima

O legado por conta da legítima é uma deixa por conta da quota hereditária, cujo
recorte se extrai de uma interpretação a contrario do art. 2163 .º.
O testador ( ou o doador, no caso de sucessão contratual) pode designar os bens que
devem preencher a quota de um sucessível legitimário, se ele consentir nesse preenchimento.
Como o testamento é, em pnncípio, um negócio singular, o consentimento do
destinatário, no caso de legado por conta da legítima feito por via testamentária, só se pode
exprimir pelo ato de aceitação da própria deixa, que ocorre após a abertura da sucessão.
Indiciam a existência de um legado por conta da legítima p. e., expressões como: deixo
o bem x, por conta da legítima; ou deixo o bem x, em preenchimento da quota que cabe ao
meu filho.

O legado por conta da legítima é uma herança ex re certa e não um legado próprio
sensu. Por conseguinte, o aceitante do legado beneficia de acrescer sobre co-herdeiros.
Acrescer não só sobre co-herdeiros legais, mas também sobre co-herdeiros testamentários: o
legado por conta da legítima tem por base um título legal (relativo à quota legitimária que se
destina a ser preenchida) e um título voluntário (respeitante aos bens que, por testamento ou
pacto sucessório, o de cuius indica para preenchimento da quota do beneficiário).

99
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O legitimário não é obrigado a aceitar o legado por conta da legítima nem a legítima
por preencher. Ele pode escolher entre repudiar toda a sucessão (e se repudiar a sucessão
legitimária repudia a sucessão legítima e o legado, que pressupõe a existência de uma legítima
subjetiva), aceitar o legado por conta da legítima ou aceitar a legítima por preencher.
A aceitação do legado por conta da legítima não o priva da qualidade de herdeiro
legitimário (será um herdeiro legitimário e, eventualmente também legitimo, ex re certa), mas
impede-o de reclamar outros bens do relictum livre que não aqueles que faltem para
preencher a sua quota hereditária legal fictícia.

Imputação e igualação no legado por conta da legítima

Legado por conta da legítima imputa-se prioritariamente na quota indisponível; se


exceder o valor da legítima, é imputado na quota disponível.
O valor do legado por conta que exceder a legítima subjetiva não está forçosamente
sujeito ao regime do pré-legado.
O legado por conta da legítima é uma deixa por conta da quota hereditária legal
fictícia. Com ele, o autor da sucessão procura atingir uma finalidade de igualação’», pelo que é
analogicamente aplicável o regime de funcionamento da colaçào524_ o legado será imputado
na quota hereditária legal fictícia.
A parte que exceder o valor desta quota (e, portanto, não a totalidade do legado que
exceda a legítima subjetiva do beneficiário) é que valerá por inteiro, como pré-legado,
avantajando patrimonialmente o beneficiário perante os demais co-herdeiros legais.
Por exemplo:
O autor da sucessão deixa por testamento o bem x, por conta da legitima, ao cônjuge
B. Sobrevivem ao de cuius o cônjuge e os filhos Ce D. VTH=R==90. Valor do bem x=25.

QI = 60 QD=30 VT=90
B 20(a) 5(a)+5(b) 30
C 20 10(b) 30
D 20 10(b) 30

(a) Imputação do legado por conta da legitima na quota hereditária de B (primeiro na


legítima subjetiva e depois na quota que lhe cabe na sucessão legítima), por aplicação
analógica do instituto da colação. A quota hereditária é de 30 (legítima subjetiva de 20
e quota na herança legítima fictícia de 10). QD livre, que será objeto da sucessão
legítima= 30-5=25. Massa de cálculo da herança legítima fictícia= 25 (herança legítima
ou QD livre) + 5 (valor do legado por conta da legítima que foi imputado na QD)=30. O
quantum da quota na herança legítima fictícia é o que resulta da divisão por cabeça:
30/3=10
(b) Distribuição da QD livre entre os legitimários com o propósito de igualação.
Distribuição da QD por tentativa, prescindindo-se da determinação prévia do valor da
quota hereditária:
B 5+5(b2)
C 5(b1) +5(b2)
D 5 (b1) +5(b2)
(b I) Afetação do relictum com vista à eliminação da vantagem quantitativa que B tem
sobre C e D, numa tentativa de igualação, que consegue ser absoluta.
(b2) Afetação do relictum restante, à luz das regras comuns da sucessão legítima (por
cabeça).

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Segundo exemplo, em que o bem x vale 35:


QI = 60 QD=30 VT=90
B 20(a) 10(a)+5(b) 35
C 20 7,5(c) 27,5
D 20 7,5(c) 27,5

(a) Imputação do legado por conta da legítima na quota hereditária de B (primeiro na


legítima subjetiva e depois na quota que lhe cabe na sucessão legítima), por aplicação
analógica do instituto da colação.
A quota hereditária é de 30 (legítima subjetiva de 20 e quota na herança legítima
fictícia de I O).
QD livre, que será objeto da sucessão legitima= 30-15=l 5.
Massa de cálculo da herança legítima fictícia= 15 (herança legitima ou QD livre) + 15
(valor do legado por conta da legitima que foi imputado na QD) =30. O quantum da
quota na herança legítima fictícia é o que resulta da divisão por cabeça: 30/3= 10.
(b) Imputação da parte do legado por conta da legitima que excede a quota hereditária: é
esta parte que vale como pré-legado.
(c) Distribuição da QD livre entre os Legitimários não legatários com o propósito de
atenuar o avantajamento do outro legitimário (igualação relativa).

A construção de um conceito de quota hereditária comum ao legado por conta da legítima


e à colação.
A quota hereditária é a parte que cabe ao legitimário numa herança legal ficticiamente
alargada, resultado da soma da legítima subjetiva com uma quota numa massa que inclui a
herança legitima e a parte das liberalidades sujeitas a igualação que foram imputadas na quota
disponível.
Exemplo:
O autor da sucessão doa em vida o bem x ao filho C. Além disso, faz testamento em que
deixa ao cônjuge B o bem y, por conta da legítima, e ao filho D o bem z, por conta da quota
disponível. Sobrevivem ao de cuius os três beneficiários. VTH=90. Valores dos bens: x=30;
Y=24; z=6.
QI=60 QD=30 VT=90
B 20(a) 4(a)+3(e) 27
C 20(b) 10(b) 30
D 20 6(c)+4(d)+3(e) 33

(a) Imputação do legado por conta da legitima.


(b) Imputação da doação sujeita a colação.
(c) Imputação do pré-legado.
A quota hereditária é de 28 (legítima subjetiva de 20 e quota na herança legítima
fictícia de 8).
QD livre, que será objeto da sucessão legitima= 30-4-10-6=10.
Massa de cálculo da herança legítima fictícia= 10 (herança legitima ou QD livre) +
14 (valor das liberalidades sujeitas a igualação que foram imputadas na QD) =24. O
quantum da quota na herança legitima fictícia é o que resulta da divisão por
cabeça: 24/3 = 8.
O valor da doação feita a C (30) excede a quota hereditária (28), pelo este nada
mais tem a receber do relictum livre ( 1 O). B recebeu do valor da quota
hereditária 24. C recebeu apenas 20 (o legado de 6 está para além da quota), ou
seja, menos 4 do que B.
(d) Afetação do relictum livre para igualar D a B (igualação absoluta eles).

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

(e) Afetação do remanescente do relictum livre (10-4=6) para igualar, na medida do


possível, D e B a C.

Vocações indiretas no legado por conta da legítima

A aceitação de um legado por conta da legítima inferior à quota hereditária, legal não
constitui um não poder ou não querer aceitar a diferença em forma de quota não preenchida.
Ao aceitar o legado, o legitimário adquire também essa diferença.
Se o Legitimário aceitar a quota hereditária legal por preencher, o legado por conta da
legítima caduca pura e simplesmente, não se desencadeando qualquer vocação indireta.
Se o legitimário não puder ou não quiser aceitar a sucessão, funcionarão já as
vocações indiretas.
São aplicáveis cumulativamente as regras da sucessão legal e da sucessão voluntária. O
de cuius não se limita a deixar ao legatário por conta da legítima uma quota que a lei já
concede, indica os bens que a integram. O sucessível chamado a suceder como legatário por
conta da legitima beneficia simultaneamente de dois títulos de vocação, que continuam a
coexistir no caso de aceitação. Deste modo, o filho do sucessível declarado indigno pode
suceder, em representação do pai, à quota hereditária legal deste, mas não ao legado por
conta da legítima10.
O sucessível legitimário a quem o de cuius deixa um legado por conta da legítima
beneficia simultaneamente de um facto designativo negocial e de um facto designativo não
negocial, tendo que optar por um deles (se não repudiar a sucessão). O facto designativo não
negocial (art.2157º) confere-lhe a expectativa de vir a suceder como herdeiro legitimário típico
(com a respetiva legítima por preencher). O facto designativo negocial (o testamento ou pacto
sucessório) dá-lhe a expectativa ou a simples esperança de vir a suceder numa legítima
subjetiva preenchida em bens determinados (legado por conta). Se o sucessível legitimário não
quiser ou não puder aceitar a sucessão, os seus descendentes são chamados, por
representação, ao legado por conta, se se preencherem os pressupostos da representação na
sucessão voluntária, já que o legado é atribuído por via negocial.
Por exemplo:
A faz testamento em que deixa ao filho C um bem x, por conta da legitima. C tem um filho D. A
A sobrevivem C e D. Se C repudiar a sucessão de A, D representará C no legado por conta,
sendo chamado simultânea e alternativamente ao legado e à quota hereditária legal não
preenchida. Mas se C tiver sido declarado indigno relativamente a A, D já não será chamado
indiretamente ao legado ( cf. art. 2037.º, n.º 2, a contrario e art. 1041.º, n.º 2); representará o
pai apenas na herança legitimária típica, que não é ex re certa.

3. Legado em substituição da legítima

Noção de legado em substituição da legitima

O legado em substituição da legítima identifica-se com a disposição mortis causa de


bens determinados em beneficio de um sucessível legitimário que conformando-se com ela,
nada mais pode reclamar a título de legítima, independentemente do valor que lhe foi
atribuído pelo de cuius (cf. art. 2165.º, n.º2).
Nesta figura, que o art. 2165.º, n.º l, expressamente admite, dois elementos estão
invariavelmente presentes: a ideia de opção entre legítima e legado e a ideia de que o

10 Contra, Pamplona Corte Real, o filho de sucessível declarado indigno ou deserdado pode representá-lo na alternativa da aceitação do
legado por conta da legitima; no legado por conta, o titulo voluntario é absorvido pelo legitimário até ao limite da sua imputação na QI. O
professor JPD discorda dizendo que é duvidosa a invocação de um fenómeno de consumpção, quando é viável a coexistência de títulos e o
titulo voluntario pode produzir algum efeito (ex: acrescer sobre herdeiros testamentários)

102
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

aceitante do legado em substituição não pode reclamar a eventual diferença entre o valor do
legado e o valor da legítima.
Na prática, o legado não precisa de ser feito com recurso às fórmulas “em
substituição”, “em lugar” ou “em vez da legítima”. É, nomeadamente, indício seguro da
existência de um legado em substituição da legítima uma deixa de certos bens a um
legitimário, acompanhada pela deixa do remanescente ou dos demais bens a outro sucessível.
Pode, porém, surgir a dúvida se uma certa disposição se traduz num legado por conta
ou num legado em substituição da legítima. Não se conseguindo resolver o problema
mediante interpretação do testamento, o professor JPD crê que deve prevalecer a qualificação
de legado em substituição. Por um lado, o testamento releva sobretudo pelo seu efeito de
demarcação perante a sucessão legal; e a demarcação é maior no caso de legado em
substituição do que no legado por conta da legítima. Por outro lado, no direito português, a
dimensão imperativa da sucessão é demasiado ampla, pelo que importa aproveitar os espaços
de flexibilização da sucessão legitimária que são consentidos pela lei; e o legado em
substituição constitui um instrumento que liberta o de cuius dos constrangimentos
decorrentes da consagração de legítimas subjetivas.
Aproveite-se para esclarecer que a lei manifesta preferência pela eficác1a do legado
em substituição da legítima (em detrimento do chamamento à sucessão legitimária), ao
estabelecer que o silêncio do sucessível a quem foi deixado o legado vale como aceitação, se
ele tiver sido notificado nos termos do art. 2049.º, n.º 1 (cf. art. 2165, n.º 3).

Os motivos que levam o de cuius a deixar o legado e o legitimário a aceitá-lo podem


ser os mais diversos.

Regime e natureza do legado em substituição da legítima

O sucessível designado legatário em substituição é chamado à sucessão


simultaneamente por testamento e por lei.
A vocação legitimária produz-se, independentemente da vontade do de cuius, e a
nomeação de legatário não é inválida nem inoficiosa.
Aplicam-se cumulativamente, as regras da sucessão legal e da sucessão testamentária
ao chamamento indireto ao legado em substituição da legitima. P.e., é inválida a substituição
direta no legado; o descendente do sucessível foi declarado indigno não pode suceder ao
legado, em representação.
O sucessível legitimário a quem o de cuius deixa um legado em substituição da legítima
beneficia simultaneamente de um facto designativo negocial e de um facto designativo não
negocial, tendo que optar por um deles (se não repudiar a sucessão). O facto designativo não
negocial ( cf. art. 2157.º) confere-lhe a expectativa de vir a suceder como herdeiro legitimário
típico (coma respetiva legítima por preencher). O facto designativo negocial (testamento) dá-
lhe a expectativa ou a simples esperança de vir a suceder unicamente como mero legatário
testamentário (legado em substituição). Se o sucessível legitimário não quiser ou não puder
aceitar a sucessão, os seus descendentes são chamados, por representação, ao legado em
substituição, desde que se preencham os pressupostos da representação na sucessão
testamentária, já que o legado é atribuído por via testamentária11.

O sucessível designado legatário em substituição não pode suceder pelos dois títulos a
que foi chamado (cf. art. 2165.º, n.º 2). Se não se decidir pelo repúdio da sucessão, o que

11Contra, Pamplona Corte Real: o legado em substituição da legitima tem caracter legitimário, apesar de ser atribuído por via negocial; a
indignidade ou deserdação de um sucessível legitimário permite aos representantes que, colocados exatamente na posição do
representado, possam também, se o quiserem, não obstante o art.2037º/2 optar entre a aceitação do legado em substituição ou da quota
legitimaria.

103
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

também lhe é consentido, tem de escolher entre aceitar o legado em substituição ou aceitar a
herança.
A aceitação do legado em substituição implica a perda imediata do direito à legítima (e
à totalidade da herança), enquanto a aceitação da herança tem como consequência legal a
perda do direito ao legado.
Com a aceitação do legado em substituição, o sucessível perde o direito à quota
hereditária, incluindo a legitima subjetiva. Se o legado for inferior ao valor da legítima, isto
significa que o sucessível vem a adquirir bens em valor inferior ao que conseguiria se aceitasse
a herança.
E nula a deixa pactícia de legados em substituição da legitima, uma vez que a aceitação
contratual do legado tem um efeito equivalente à renuncia à intangibilidade quantitativa da
legitima, em vida do autor da sucessão, renúncia que o art. 2170.º não permite.

O legatário em substituição não é um herdeiro legitimário. Ele não chega a adquirir a


legítima. Com a aceitação do legado, verifica-se a resolução da vocação legitimária, pelo que o
sucessível é tido como nunca chamado à sucessão legitimária.
Assim sendo, o legatário em substituição não pode recorrer à ação de redução (cf. art.
2169.º quanto à legitimidade ativa).
Embora o legado em substituição não apresente natureza legitimária, a função
desempenhada pelo mesmo (ocupa o lugar da legitima) e a proteção da liberdade de testar
impõem a sua imputação prioritária na quota indisponível (cf. art. 2165.º, nº4)
A semelhança do que se prevê no art. 2114.º, n.º 2, para o donatário, a()i. legatário em
substituição acaba por ser reconhecida uma “legitima fictícia” de montante igual ao da
legítima que lhe caberia, se aceitasse a herança.
O princípio do aproveitamento dos negócios Jurídicos Justifica que se proceda à
imputação das doações em vida feitas ao legatário como se ele fosse um herdeiro legitimário.

Porque a aceitação do legado em substituição determina a impossibilidade Jurídica de


aceitar a herança legitimária, não ficando a “legitima fictícia” do legatário inteiramente
preenchida, o que restar amplia a quota disponível ou reverte para um beneficiário de vocação
indireta.
A aceitação do legado em substituição da legítima implica a perda do direito à legítima
(art. 2165.º, n.º 2). Se o sucessível legitimário aceitar um legado inferior à sua quota
hereditária legal nada mais pode reclamar. A aceitação do legado em substituição é
incompatível com a aceitação da herança legal, representando uma hipótese de .. não poder
aceitar a herança legal”. Por conseguinte, os descendentes beneficiam do direito de
representação quanto ao valor do excesso da quota hereditária legal sobre o legado em
substituição da legítima, nos termos do art. 2042º
Por exemplo:
A faz testamento em que deixa ao seu filho C um bem x, em substituição da legítima. A A
sobrevivem os filhos B e C, bem como D, que é filho de C. R=90. À data da abertura da
sucessão, o bem x valia 20. C aceita o legado.
QI=90 QD=60 VT=90
B 30 15 45
C 20(a) 0(b) 20
D 10(a) 15(b) 25

a) No âmbito da QI, C adquire o valor do legado em substituição, que é inferior ao da


legítima subjetiva que lhe caberia em 10; esta diferença de l O é atribuída a D, que
representa C.

104
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

b) Ao aceitar o legado em substituição, C perde o direito à herança legítima, à qual é


chamado D, por direito de representação.
O legado em questão substitui toda a quota hereditária. O aceitante do legado não pode
concorrer à sucessão na qualidade de herdeiro legitimo.
A lógica do legado em substituição é paralela à do legado por conta da legítima, que se não
limita a preencher a legítima mas toda a quota hereditária legal.
Se o valor do legado em substituição for superior à legítima e inferior ao da quota
hereditária legal, há direito de representação ou acrescer no âmbito da sucessão legítima.
Mas é concebível a instituição testamentária tácita do legitimário designado legatário em
substituição no quantum a que teria direito enquanto sucessível legítimo, na linha do que se
afirmou a propósito da substituição direta.
Ex.: o autor da sucessão, que tem dois filhos, B e C, deixa, por testamento o bem x a B, em
substituição da legítima, acrescentando que ele conservará a sua posição enquanto herdeiro
legítimo. Se B aceitar o legado em substituição, não pode suceder na herança legítima;
todavia, pode sucede enquanto herdeiro testamentário num valor idêntico.

Aceitante do legado em substituição opta pelo título testamentário, que é incompatível


com o título legal. Por isso, é um simples legado testamentário, cabendo-lhe o estatuto
correspondente: não beneficia do direito de acrescer na sucessão legal; em regra, não pode
requerer inventário, nem responde pelos encargos da herança; pode exigir ao herdeiro o
cumprimento do legado e reivindicar de terceiro a coisa legada.

A posição de Pamplona Corte-Real sobre o legado em substituição da legítima

São grandes as divergências entre a tese do professor JPD e a posição de Pamplona


Corte-Real.
A opinião do professor Pamplona Corte Real é que o legado em substituição da
legítima, até ao limite da sua imputação na quota indisponível, é um legado legitimário cuja
aceitação não obsta a que o beneficiário obtenha a qualidade de herdeiro legítimos.
Há um fenómeno de absorção do título voluntário pelo legitimário, semelhante ao que
se verificaria também no legado por conta da legítima.
Tratando-se de um legado legitimário (‘”uma legítima em forma de legado”), é viável o
direito de representação no legado em lugar da legitima deixado a um sucessível que fora alvo
de uma declaração judicial de indignidade.
O instituto da inoficiosidade pode ser atuado pelo aceitante do legado, na sequência
de uma interpretação extensiva do art. 2 I 68. “, mediante a qual se confere legitimidade aos
legatários legitimários para requerer a redução.
O professor JPD considera que o legado em lugar da legítima é um legado
testamentário cuja aceitação retira ao beneficiário a possibilidade de suceder enquanto
herdeiro legítimo; que a aceitação do legado implica uma opção pelo título testamentário, não
cumulável com o título legal; que, havendo indignidade, não é admissível representação no
legado em substituição; e que o legatário em substituição não pode requerer redução de
liberalidades.

Exemplificação do impacto das divergências


Autor da sucessão, tem dois filhos, B e C. Deixou por testamento a B o bem x, em
substituição da respetiva legítima. A data da abertura da sucessão, A tinha bens no valor de 90
e o nem x estava avaliado em 20. B aceitou o legado.

Partilha segundo a posição do autor destas lições

105
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

QI=60 QD=30 VT=90


B 30-10(a)=20 15-15(c)=0 20(d)
C 30+10(b)=40 15+15(c)=30 70

(a) O legado em substituição da legítima, no valor de 20, é imputado na quota


indisponível, numa legítima fictícia do beneficiário; como o valor do legado é inferior
ao legítima subjetiva propriamente dita, B perde o direito à diferença.
(b) Uma vez que B não pôde aceitar a sua herança legitimara, a diferença entre o valor
desta e o do legado acresce a C ( arts. 213 7 .”, n.º 2, e 2157.º).
(c) Por força da aceitação do legado em substituição, B não pode aceitar a quota na
herança legítima, que acresce a C.
(d) A aceitação do legado em substituição da legítima limita a posição sucessória do
legatário aos bens que lhe foram legados ele fica excluído da herança legal.

Partilha segundo a posição de Pamplona Corte-Real

QI=60 QD=30 VT=90


B 30-10(a)=20 15(c) 35
C 30+10(b)=40 15(c) 55

(a) O legado em substituição da legítima, no valor de 20, é impttt2\<lo na quota


indisponível, numa legítima fictícia do beneficiário; como o valor do legado é inferior
ao legítima subjetiva propriamente dita, B perde o direito à diferença.
(b) Uma vez que B não quis aceitar a sua herança legitimária, a diferença entre o valor
desta e o do legado acresce a C ( arts. 2137 .º, n.º 2, e 2157.º).
(c) Embora não possua a qualidade de herdeiro legitimário, B conserva a qualidade de
herdeiro legítimo.

Suponha-se outra hipótese:


A, autor da sucessão, tem dois filhos, B e C. B é pai de D. A deixou por testamento a B o bem x,
em substituição da respetiva legítima. A data da abertura da sucessão, A tinha bens no valor
de 90 e o bem x estava avaliado em 20. E foi declarado judicialmente indigno relativamente a
A.
Seguindo a perspetiva de Pamplona Corte-Real, D pode adquiro legado em substituição da
legítima, enquanto representante de B. Os resultados seriam idênticos aos que se verificam se
B não tivesse sido declarado indigno, ocupando D exatamente a posição que caberia a B.
QI=60 QD=30 VT=90
D 30-10(a)=20 15(c) 35
C 30+10=40 15 55

A visão do JPD é oposta, D não pode representar B quanto ao legado em substituição, que é
uma manifestação de sucessão testamentária. O direito de representação devido a
mdignidade opera unicamente na sucessão legal. Consequentemente, o resultado é o
segumte:

QI=60 QD=30 VT=90


B 30 15 35

106
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

C 30 15 55

Resta ilustrar a discordância relativa à legitimidade do legatário em substituição para requerer


a redução de liberalidades, que Pamplona Corte Real defende e que o professor JPD nega.
Pamplona Corte-Real concretiza a sua tese com o seguinte exemplo
A, autor da sucessão, tem um filho B, a quem deixa um 1móve1 em substituição da legítima no
valor de 40, legado que foi aceite e que constituía o único bem da herança. A havia feito em
vida uma doação a terceiro (T), no valor de 70, sendo que havia um passivo hereditário na
ordem dos 10.
VTH (2162.º) = 40+ 70 - 10 = 100. QI (2159.º, n.º2)=50.
QI=50-10(b)=40 QD=50+10(b)=60 VT=100
B 40
T 70(c)
(a) Imputação do legado em substituição da legítima.
(b) Sendo o legado em substituição da legítima inferior à quota indisponível e não
havendo outros sucessíveis legitimários, o valor da quota disponível é alargado com o
montante da quota indisponível que excede o valor do legado.
(c) Imputação da doação.

No entanto, a doação excede em 10 o valor da quota disponível, circunstância que


decorre da existência de um passivo de I0.
Quem suporta o encargo do passivo de 10? Na ótica de Pamplona Corte-Real, seria o
donatário. O legatário em substituição reduziria a doação em 10, para pagar aos credores da
herança.
Para JPD, o passivo terá de ser suportado pelo legatário. E um caso de herança toda
distribuída em legados (art. 2277.º). B não foi obrigado a adquirir o legado em substituição.
Era livre de não aceitar o legado. Decidiu aceitar, o que fez depois da abertura da sucessão,
altura em que estava em condições de ponderar as consequências da sua opção; tinha ou
devia ter conhecimento dos valores do relictum, do donatum e do passivo. Dada a total
correspondência entre o relictum e o bem legado, o de cuius não lhe pretendia atribuir uma
vantagem patrimonial de 40, mas de 30 (40-10, nos termos do art. 2277.º).
Além disso, admitir aqui uma redução por inoficiosidade não se revela muito
consistente com uma orientação que onera o relictum, e não o donatum, com a satisfação do
passivo hereditário.

Aparentemente, a conceção de Pamplona Corte-Real enfrenta três obstáculos:


1. O princípio da indivisibilidade da vocação, que é absoluto no campo da vocação legal
hereditária e que obsta a que uma pessoa impossibilitada de suceder como herdeiro
legitimário consiga obter a qualidade de herdeiro legítimo quanto ao mesmo de cuius
2. A contradição entre a negação ao aceitante do legado em substituição do direito à
diferença entre o valor do legado e o da legitima (que é intangível) e a concessão plena
de direitos na sucessão legitima (não intangível).
3. O reconhecimento ao legatário em substituição de um meio que é concebido para
tutela de uma quota (a redução por inoficiosidade), não se mostrando adequado à
proteção do interesse do legatário em substituição (que é a aquisição do bem legado).

As deixas a título de herança

107
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Imputação das deixas a titulo de herança

Em princípio, salvo estipulação em contrário, as disposições pactícias ou testamentárias a


título de herança imputam-se na quota disponível.
Mas pode-se configurar um exemplo de imputação de deixas a título de herança na
quota indisponível:
A faz testamento em que deixa metade da herança a B, seu filho e único sucessível
legitimário, um quarto a T e um quarto a Z. Se B aceitar a deixa testamentária, esta não se
soma à respetiva legítima subjetiva; B obterá da herança de A um valor total que coincide
precisamente com o da sua legítima.
Todavia, não ocorre uma absorção do título testamentário pelo legitimário.
Por um lado, nada impede que uma pessoa acumule dois títulos que não são
incompatíveis. Por outro lado, o testamento não é inútil: só aquele que é chamado por título
testamentário beneficia de acrescer sobre herdeiros testamentários. Se B não fosse designado
para suceder como herdeiro testamentário, apenas Z aproveitaria com um eventual repudio
de T.
O exemplo é interessante por mais um motivo.
A imputação é antes de mais uma questão de interpretação da vontade do de cuius,
em muito dependente do pnncípio do aproveitamento dos negócios Jurídicos. A imputação da
deixa testamentária feita a B na quota indisponível decorre de uma interpretação do
testamento, em que se atende, como impõe o art. 2187.v, n.º 2, ao contexto e não
unicamente à disposição testamentária isolada que beneficia B. A imputação desta deixa na
quota indisponível constitui a única forma de assegurar a eficácia total do testamento. Se a
liberalidade feita a B fosse imputada na quota disponível, as disposições testamentárias seriam
(parcialmente) inoficiosas.

Considerações finais sobre a imputação das liberalidades

A imputação subsidiaria

A Imputação subsidiária pode compreender duas variantes:

1. imputação na quota disponível da parte das liberalidades prioritariamente


imputáveis na quota indisponível que não caiba na legítima subjetiva do
beneficiário.
Está expressamente prevista na segunda parte do art. 2165.º n. º 4, aplica-se nas
situações em que a legítima subjetiva livre do beneficiário não é suficiente para nesta
se efetuar a imputação total das liberalidades prioritariamente imputáveis na quota
indisponível (doações a legitimários prioritários que não tenham sido dispensadas da
colação ou da imputação na legítima subjetiva, legados por conta e em substituição da
legítima, certas deixas a título de herança).
Atrás viu-se vários exemplos desta variante, todos relativos a liberalidades de valor
superior à legitima subjetiva do beneficiário. Mas a imputação subsidiária na quota
disponível pode ocorrer também no caso de uma liberalidade prioritariamente
imputável na quota indisponível cujo valor não seja superior ao da legítima subjetiva
do beneficiário. Basta que o legitimário tenha sido contemplado com duas ou mais
liberalidades prioritariamente imputáveis na quota indisponível cujo valor total exceda
o da respetiva legítima subjetiva.
Por exemplo, A doou ao filho B 30 e fez testamento em que lhe deixou um legado por
conta da quota no valor de 30. A legitima subjetiva de B é 45. A doação é

108
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

integralmente imputada na quota indisponível (30 para 45). O legado é imputado


primeiro na legítima subjetiva (15) e depois na quota disponível (15).12

2. Imputação na quota indisponível da parte das liberalidades prioritariamente


imputáveis na quota disponível que exceda o montante desta última quota.
Verifica-se quando as liberalidades feitas em favor de sucessível legitimário imputáveis
em primeiro lugar na quota disponível ( doações dispensadas da colação ou da
imputação na legítima, pré-legados e a generalidade das deixas a título de herança)
não podem ser totalmente enquadradas em tal quota disponível.
Por exemplo:
O autor da sucessão doou o bem x a T e deixou o bem Y, por testamento, ao filho B. À
data da morte, A tinha bens no valor de 75. O bem x valia então 15 e o bem y 20.
Sobreviveram ao de cuius T e dois filhos, B e C.

QI=60 QD=30 VT=90


B 30(5)(*) 20-5(*)=15 45
C 30 0 30
T 15 15

(*) O legado imputa-se na QD; todavia, o valor total das liberalidades imputadas na QD
( 15+ 15) excede em) o valor da QD; não faz, porém, sentido reduzir o legado (cf. arts. 2168.º,
2169.º e, sobretudo, 2171º) quando a legítima subjetiva do respetivo destinatário ainda está
por preencher; por isso, imputa-se o prioritariamente o legado na QD e aquilo que exceder
esta quota (5) é imputado na parte que cabe a B na QI.
Outro exemplo:
O autor da sucessão doou o bem x ao filho B. Em testamento subsequente, dispensou tal
doação da colação e deixou o bem Y a T. A data da morte, A tinha bens no valor de 75. O bem x
valia então 15 e o bem Y 20. Sobreviveram ao de cuius T e dois filhos, B e C.
QI=60 QD=30 VT=90
B 30(5)(*) 15-5=10 40
C 30 0 30
T 20 20

(*) E certo que o de cuius dispensou a doação da colação, mas ao mesmo tempo fez um
legado; a relevância plena da dispensa da colação impunha a imputação da doação por inteiro
na QD; procedendo-se assim surgia uma inoficiosidade de 5, que implicava a ineficácia de uma
disposição testamentária, que o autor pretendia fazer; parata,e1ar a liberdade de disposição
mortis causa, imputa-se 5 da doação na legítima subjetiva do donatário, que ainda está por
preencher.
No entanto, se a dispensa de colação tivesse sido feita no próprio ato, a doação tinha de ser
integralmente imputada na QD, sendo a liberalidade testamentária reduzida em 5; de outro
modo, estar-se-ia a admitir uma revogação unilateral, parcial e tácita de uma dispensa que
assumiu natureza bilaterais

12 A doação é imputada na legítima subjetiva antes do legado por conta feito em testamento, porque a ordem de imputação das
liberalidades que se destinem a serem prioritariamente enquadradas na quota indisponível é a inversa da ordem de redução por
inoficiosidade.

109
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Como resulta dos exemplos em apreço, a imputação subsidiária a na quota indisponível funda-
se nos princípios da economia processual e do aproveitamento dos negócios jurídicos.

A imputação e as vocações indiretas

Como decorre da lógica do proteção da liberdade de disposição a título gratuito do de cuius, a


imputação de liberalidades na quota indisponível faz-se tendo como referência a legítima
subjetiva que no final caiba ao beneficiário, hipoteticamente ampliada graças a uma vocação
indireta.
Por exemplo:
A doa em vida ao seu cônjuge B o bem x e faz testamento em que deixa ao seu amigo T dois
terços da quota disponível. Sobrevivem a A o referido cônjuge B, dois filhos, C e D, e o amigo T.
VTH=180. Após a abertura da sucessão, o filho D repudia a herança de A. O bem x foi avaliado
em 65. A doação feita a B será imputada na sua legítima subjetiva final, resultante do
chamamento direto e do chamamento por acrescer.

QI=120 QD=60 VT=180


B 40+20(a)=60(b) 5(b)+5(c)+2,5(d) 72,5
C 40+20(a)=60 5(c) + 2,5 (d) 67,5
D 40-40(a)=0 5 (c) – 5 (d)=0 0
t 40 40

(a) Efeito do repúdio de D na sucessão legitimária: acrescer em favor de B e C


(b) Imputação prioritária da doação na legítima subjetiva ampliada (60); imputação do
excesso na QD ( 5 ). Isto em vez da imputação prioritária, da doação na legítima
subjetiva a que foi chamado diretamente B (40) e imputação do excesso na QD (25)...
(c) Chamamento direto à sucessão legítima.
(d) Efeito do repúdio de D na sucessão legítima: acrescer em favor de B e C

A imputação ex se

A imputação a se é um instituto consagrado no art. 564.º II do CC italiano, que dispõe o


seguinte:
“Em todos os casos, o legitimário, que pede a redução de doações ou. De disposições
testamentárias, deve imputar na sua porção legitimária as doações e legados que lhe foram
feitos, a não ser que disso tenha sido expressamente dispensado”.
O preceito regula as condições de exercício da ação de redução por inoficiosidade.
Mais genericamente, a imputação ex se é uma obrigação que recai sobre Legitimário
prioritário: ele tem de imputar (primeiramente) as liberalidades, inter vivos ou mortis causa,
que lhe foram feitas, na respetiva legitima subjetiva, a não ser que o de cuius tenha
determinado o contrário.
Exemplo:
Anselmo legou o bem x ao seu filho Guido e o bem Y ao seu amigo Salvatore. A data da morte,
Anselmo tinha bens no valor de 900; o bem x. foi avaliado em 200 e o bem Y em 270.
Sobreviveram a Anselmo Salvatore e dois filhos, além de Guido, Carlo e Tommaso.
QI=600 QD=300 VTH=90
Carlo 200 10 210
Guido 200(*) 10 210
Tommaso 200 10 210

110
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Salvatore 270 270

(*) O legado do bem x é totalmente imputado na QI, embora parte da QD estivesse livre (30),
que serão repartidos por cabeça entre Carlo, Guido e Tommaso, por via da sucessão legítima,
nos termos do art. 566 I do CC italiano.

Salvo melhor opinião, na falta de uma disposição legal similar à do art. 564 II do CC italiano, no
direito português, a figura geral da imputação ex se só é aplicável às liberalidades inter vivos.
Se a partilha da herança de Anselmo estivesse sujeita ao regime Jurídico sucessório português,
os resultados seriam os seguintes:
QI=600 QD=300 VTH=90
Carlo 200 0 200
Guido 200(170)(*) 30 230
Tommaso 200 0 200
Salvatore 270 270

( *) Imputação prioritária do legado na QD livre (30) e imputação subsidiária do valor restante


do legado (170) na legitima subjetiva do beneficiário, que, portanto, ainda tem direito a 30 do
relictum; para satisfazer os seus direitos sucessórios no âmbito da QI (200- 170).

A tutela quantitativa da legitima


A tutela quantitativa da legitima em geral

A propósito da designação legitimária, já se falou da intangibilidade da legítima e da


dupla vertente que a mesma comporta - a vertente quantitativa e a vertente qualitativa.

A redução das liberalidades

Têm legitimidade para requerer a redução os herdeiros legitimários ou os seus


sucessores ( cf. art. 2169. º), aqueles que tenham adquirido o quinhão do herdeiro legitimário,
por alienação de herança, e os credores do legitimário repudiante que exerçam a faculdade
prevista no art. 2067.º (e em tanto quanto for necessário para a satisfação dos respetivos
créditos).
Não é permitida em vida do autor da sucessão a renúncia ao direito de reduzir
liberalidades (art. 2170º ). Desta proibição extrai-se a nulidade (art 294.º) de qualquer negócio
unilateral ou bilateral contrário à intangibilidade quantitativa da legítima, que seja feito pelo
sucessível legitimário antes da abertura da sucessão (incluindo o legado pactício em
substituição da legítima).
A faculdade de redução deve ser exercida Judicialmente, quando não haja acordo dos
interessados (legitimários e beneficiários das liberalidades inoficiosas).

No âmbito da designação legitimária, foi já tratada a matéria das liberalidades


redutíveis.
Acrescente-se que a transferência de bens através da fixação convencional de um
regime de bens com um componente de comunhão, ao contrário da doação para casamento,
não está sujeita a redução por inoficiosidade. Como é provado pela preocupação de tutela da

111
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

expectativa Jurídica do sucessível legitimário, decorrente do 1699.º, n.º 2: o preceito não seria
necessário se houvesse sujeição a redução por inoficiosidade.
A liberalidade feita a sucessível legitimário que se destine a ser imputada na quota
disponível, mas que exceda o valor desta quota só será inoficiosa se o excedente não puder ser
imputado subsidiariamente na legitima subjetiva do beneficiário.
Nem sempre a inoficiosidade relevante para redução é aquela que se traduz na
diferença entre o valor da quota disponível e o das liberalidades exclusivamente imputáveis
nessa quotas.

Em traços gerais, a redução abrange em primeiro lugar as disposições testamentárias e


depois as doações, mortis causa ou inter vivos, ordem que se funda na revogabilidade
unilateral daquelas liberalidades. Efetivamente, em regra, as doações não são unilateralmente
revogáveis (as doações entre esposados são até irrevogáveis). No entanto, a lei admite a
estipulação de reserva da faculdade de livre revogação pelo doador em pactos sucessórios de
esposado em favor de terceiro (cf. art. 1705.º, n.º 2). Existindo tal estipulação, parece que se
justifica a exclusão da analogia que, no campo da inoficiosidade, equipara estes pactos
sucessórios às doações em vida. Ou seja, as doações mortis causa de esposado a terceiro, em
que o doador tenha reservado a faculdade de livre revogação, ficam no mesmo plano que as
disposições testamentárias.
No seio das disposições testamentárias, as deixas a título de herança reluzem-se antes
dos legados (cf. art. 2171.º), o que é coerente com a natureza do legado enquanto encargo
geral da herança.
Por conseguinte, havendo uma disposição testamentária e uma doação mortis causa
de esposado a terceiro, em que o doador tenha reservado a faculdade de livre revogação, a
redução começará por aquela das duas liberalidades que se traduzir numa deixa a título de
herança.
Se bastar a redução de liberalidades testamentárias a título de herança, será feita
proporcionalmente (art. 2172.º, n.º 1 ). Se não houver liberalidades testamentárias ou não for
suficiente a redução destas, passa-se aos legados atribuídos por testamento (incluindo os
legados em substituição e por conta da legitima, na parte que for imputada na quota
disponível). Havendo vários legados, mais uma vez a redução será proporcional (art. 2172.º/1).
Na falta de liberalidades testamentárias ( e do pacto sucessóno com a referida reserva
de livre revogação) ou não bastando a redução destas, haverá que recorrer às liberalidades
contratuais ( doações em vida e mortis causa): começar-seá pela última, no todo ou em parte;
se isso não bastar, passar-se-á à imediata; e assim sucessivamente” (art. 2173.º, n.º I, aplicável
direta e analogicamente).
Havendo diversas liberalidades contratuais feitas no mesmo ato ou na mesma data, a
redução será feita entre elas rateadamente (art.2173.º, n.º2, primeira parte, aplicável direta e
analogicamente).
Contudo, se houver a necessidade de reduzir duas ou mais doações mortis causa feitas
no mesmo ato e na mesma data, não sendo todas deixas a titulo de herança ou de legado, a
redução começará pelas nomeações contratuais de herdeiro, atendendo ao facto de o
sucessor estar onerado com o cumprimento dos legados.
E outros desvios à sequência comum de redução são concebíveis:
• Disposições testamentárias remuneratórias são reduzidas depois das demais
disposições testamentárias ( art. 2172.º, n.º 2) e, portanto, ainda que, p.e., aquelas
sejam deixas a título de herança e estas legados.
• Igual preferência é conferida à liberalidade contratual remuneratória, havendo
diversas liberalidades contratuais no mesmo ato ou na mesma data (art. 2173.º,
n.º 2, primeira parte, aplicável direta e analogicamente).

112
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• Caso de o testador ter declarado que determinadas disposições testamentárias


devem produzir efeito de preferência a outras ‘’as primeiras só serão reduzidas se
o valor integral das restantes não for suficiente para o preenchimento da legítima”
(art. 2172.º, n.º 3), isto independentemente de se estar perante deixas a título de
herança ou de legado.
• Ao abrigo do princípio geral da liberdade contratual, uma doação pode ser
reduzida antes de uma disposição testamentária ou de uma Iiberalidade contratual
mais recente, se tal tiver sido convencionado entre o doador e o donatário e desde
que não se trate de doação entre esposados (a redução da doação entre
esposados antes de uma liberalidade contratual mais recente ou de uma
liveralidade testamentaria teria impacto similar ao de um ato de revofação (total
ou parcial) que não é admitido pelo art.1758º.

Em suma, a ordem de redução não é imperativa. O testador pode determinar que uma
disposição testamentária seja reduzida totalmente antes de outra, ainda que aquela seja um
legado e esta uma deixa a título de herança. E as partes de um contrato de doação podem
estipular que a sua doação seja reduzida antes de qualquer outra liberalidade ( contratual ou
testamentária ).

O art. 2174.º, n.º I, fixa a regra da redução em espécie ou in natura.


A lei prevê três situações de redução em dinheiro:
• Redução de aquilo que se despendeu gratuitamente em favor de herdeiros
legitimários (art. 2174.°, n.º 3).
• Redução de legados ou doações que tenham por objeto bens indivisíveis, se a
importância da redução não exceder metade do valor bens (art. 2174.º, n.º 2,
segunda parte)13
• Redução de doações, se os bens doados tiverem perecido por qualquer causa
ou tiverem sido alienados ou onerados (art. 2175.º)
O regime deste artigo é mais pesado para o donatário do que o consagrado no
art.2109º/2, facto que na prespetiva do professor Pamplona Corte-Real
demarca bem o vigor da expetativa numa ótica quantitativa do legitimário. O
professor Galvão Telles diz que a solução do art.2175º é tida como
injustificada por impor o preenchimento da legitima à custa do donatário ou
dos seus sucessores mesmo que o perecimento do bem se tenha dado por
caso fortuito ou de força maior, portanto sem qualquer culpa do donatário e
sucessores respetivos.

Nos casos de bens doados a herdeiro legitimário, ou que tiverem perecido ou tiverem
sido alienados ou onerados, a insolvência do donatário onerado, com o encargo da redução
em dinheiro não determina a responsabilidade de outros beneficiários de liberalidades, v.g.,
do donatário imediato (cf. art. 2176.º). Ou seja, a redução deixa de se fazer (total ou
parcialmente), em detrimento dos herdeiros legitimários.
Em todas as hipóteses de redução (em espécie ou em dinheiro), o donatário é
considerado, quanto a frutos e benfeitorias, possuidor de boa fé até à data do pedido de
redução ( art. 2177.º). De sorte que o beneficiário de uma doação inoficiosa conserva a

13
Se a importância da redução exceder metade do valor dos bens, o art.2174º/2, primeira parte, estabelece que estes pertencem
integralmente ao herdeiro legitimário, e o legatário ou donatário haverá o resto em dinheiro

113
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

totalidade dos frutos do bem doado que foram percebidos até ao momento em que for
requerida a redução.

A ação de redução caduca dentro de dois anos, a contar da aceitação da herança pelo
legitimário (art. 2178.º).
O direito de redução extingue-se também com a renuncia ao mesmo, posterior à
abertura da sucessão.
O donatário não pode opor a usucapião ao legitimário, se não tiverem decorrido os
prazos correspondentes, contados a partir da morte do de cuius. Antes da abertura da
sucessão, o legitimário está impedido de reagir (art.2178º)

Natureza da redução de liberalidades


A redução tem carácter pessoal, e não real: os atos de alienação e oneração não são
prejudicados; os terceiros adquirentes não podem sequer ser demandados (arts. 2175.º e
2176.º).
A redução consiste numa impugnação negocial de natureza constitutiva que implica a
ineficácia relativa e superveniente da liberalidade inoficiosa.
A inoficiosidade verifica-se à data da abertura da sucessão, pelo que a liberalidade
inoficiosa não sofre qualquer vício quando é efetuada. Não se pode, p.e., reconduzir a redução
de uma doação a uma declaração de nulidade ou anulação.
A redução determina a ineficácia da Iiberalidades.
A ineficácia da liberalidade inoficiosa produz-se mediante o exercício pelo Iegitimério
do seu direito potestativo de reduzir, o que revela o cariz constitutivo da redução. Tal
ineficácia é relativa porque apenas o legitimário pode invocar a redução. A ineficácia é
superveniente dado que a redução somente pode ser invocada após a abertura da sucessão e
não prejudica a situação do donatário, quanto a benfeitorias e frutos, até ao momento do
pedido de redução.

Tutela qualitativa da legítima


A tutela qualitativa da legítima em geral

O princípio da intangibilidade qualitativa da legítima assenta nos arts. 2163.º, 2164.º e


2165.º.
A primeira parte do art. 2163.º proíbe ao testador a imposição de encargos sobre a
legítima. A segunda parte do art. 2163.º proíbe ao testador a designação de bens que devem
preencher a legítima, contra a vontade do herdeiro. O art. 2164.º consagra a figura da cautela
sociniana, que será tratada especificamente no próximo número. O art. 2165.º, n.º 2, confere
ao legitimário a faculdade de aceitar a legítima por preencher em vez de abdicar dela,
adquirindo um legado que a substitui.
Os arts.1678.º, n.º 2, al. d), segunda parte, e 1729.°, n.º 2, também traduzem uma
preocupação com a tutela qualitativa da expectativa do legitimário.
O art. 1678.º, n.º 2, al. d), segunda parte, garante ao legitimário casado a titularidade
da administração dos bens que tenham sido doados ou deixados por conta da legítima, não
obstante esses bens terem sido doados ou deixados a ambos os cônjuges com exclusão da
administração do legitimário. A cláusula de exclusão é, portanto, irrelevante, aplicando-se ou o
n.º 1 ou o n.º 3 do art. 1678.º.
Nos termos do art. 1729.º, n.º 2, relativo ao regime da comunhão de adquiridos, os
bens havidos por meio de doação ou de deixas testamentarias de terceiro que integrem a
legítima do beneficiário não assumem a qualidade de bens comuns, ainda que o testador ou
doador tenha determinado que tais bens entram na comunhão. Os bens atribuídos em

114
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

preenchimento da legitima pertencem ao património próprio do cônjuge beneficiário (art.


1722.º, n.º 1, al. b)).
Em contrapartida, os arts. 1733.º, n.º 1, al. a), e 1888.º, n.º 2, não se inscrevem no
conjunto normativo de defesa da expectativa do legitimário: aludindo a bens doados ou
deixados por conta ou a título da legítima, aplicam-se também a bens que não tenham sido
atribuídos para integrar a legítima do beneficiário da liberalidade.

Cautela sociniana

Se, apesar da proibição estabelecida pelo art. 2163.º, primeira parte, a legítima for
onerada, há que distinguir.
Se o encargo em apreço é um legado de usufruto ou pensão vitalícia e a quota
disponível está, total ou parcialmente livre, o legitimário pode adotar uma de duas atitudes:
aceitar a disposição testamentária e então ela é cumprida; “entregar ao legatário tão-somente
a quota disponível”.
A segunda atitude se refere o art. 2164.º.
A faculdade que é prevista neste artigo, designada por cautela sociniana, pode ser
exercida por cada legitimário em separado e independentemente de serem várias as deixas
que atingem a legitima. O professor Galvão Telles é contra sustentando a necessidade de
haver uma deliberação maioritária dos legitimários no que respeita à cautela sociniana.
O regime do art. 2164.º é de estender às doações de usufruto e de nua-propriedade,
às deixas de nua-propriedade e aos fideicomissos.
Para funcionar a cautela sociniana, não é preciso que o legitimário ‘eatregue” ao
beneficiário a totalidade da quota disponível: basta que sejam entregues os bens
correspondentes aquilo que ele receberia se se abrisse a sucessão legítima. O professor
Pamplona Corte-Real exige que esteja livre uma parte da quota disponível suscetível de
abarcar quantitativamente o valor do encargo. O professor JPD, tem duvidas quanto a esta
posição, já que o instituto da cautela sociana procura justamente evitar certas operações de
calculo, reconhecidamente difíceis e aleatórias.
Nos termos do art. 294.º, os encargos sobre a legítima que se não enquadrem na
lógica da cautela sociniana são nulos, por violação da primeira parte do art. 2163º.

O princípio da intangibilidade qualitativa da legítima


O princípio da intangibilidade qualitativa da legítima confere aos legitimários a
faculdade de reclamarem o preenchimento dos seus direitos com bens hereditários à sua
escolha.
No entanto, a consistência desta faculdade suscita dúvidas acerca do alcance do
principio.
Conhecem-se situações em que os direitos de um legitimário não são satisfeitos com
bens hereditários à sua escolha. Por exemplo, e, de cuius que pretenda que um Iegitimário
suceda num detenninado bem pode deixar todos os outros bens a terceiros. Estando o
relictum livre limitado a um bem e não sendo inoficiosas as deixas testamentárias em favor de
terceiros, o legitimário verá a sua quota totalmente preenchida com o bem restante,
independentemente de ter preferido adquirir um bem da herança distinto.
E conhecem-se até situações em que a legitima é preenchida com bens não
hereditários, com ou sem o consentimento do legitimário. É o que se sucede quando a lei
prevê que a redução das liberalidades inoficiosas seja feita em valor (arts. 2174.º, nºs 2 e 3, e
2175.º) e que a quota do legitimário que não interveio numa partilha em vida válida seja
composta em dinheiro (art. 2029.º, n.º 2); ou quando se impõe a imputação subsidiária de
doações dispensadas da colação ou da imputação.

115
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Apesar de tudo, não se deve negar o princípio da intangibilidade qualitativa e a sua


projeção no preenchimento da quota do legitimário.
A intangibilidade qualitativa conhece gradações.
• Numa manifestação mais intensa, o de cuius não tem liberdade de disposição
a título gratuito. Era o que sucedia, p.e., no direito germanico inicial.
• Num grau inferior, concede-se ao autor da sucessão liberdade disposição; no
entanto, todas as suas liberalidades deverão ser imputadas na quota
disponível.
• Aceita-se que o de cuius faça liberalidades imputáveis na legítima, mas
reconhece-se ao Legitimário o direito de não se conformar com um ato
unilateral de concretização da sua quota legitimária com bens determinados,
pelo qual seja exclusivamente responsável o de cuius, sem ser privado dos
seus direitos sucessórios. É neste estádio que se situa o direito português. Se,
o legitimário, para não perder o valor da sua legitima, tivesse de aceitar uma
liberalidade do de cuius, destinada a ser imputada na quota indisponível,
então já não vigoraria, entre nós, o princípio da intangibilidade qualitativa.
O direito positivo português consagra uma fórmula moderada do principio
intangibilidade qualitativa.

A natureza do direito à legitima (na sucessão comum)

1. A natureza da sucessão legitima

Em abstrato, a legítima subjetiva pode ser uma:


• A legítima é pars valoris ou parte de um valor se os legitimários não forem sequer sucessive1s
em sentido estrito (beneficiários de uma transmissão por morte), gozando apenas da qualidade
de credores de um direito pecuniário a cuja satisfação estão obrigados os herdeiros legais ou
instituídos. É o que se observa no direito alemão.
• A legítima é pars bonorum, parte dos bens da herança ou do ativo hereditário, se os
Iegitimários forem legatários de bens no valor correspondente ao dos seus direitos injuntivos. É
o que se observa no direito espanhol.
• A legítima é pars hereditatis, parte ou quota da herança, se os legitimários forem herdeiros,
sucessíveis aos quais cabe uma parcela do ativo e do passivo hereditário para satisfação dos
seus direitos injuntivos. No direito francês, a reserva, figura equivalente à legítima do direito
português, é tida pacificamente como uma pars hereditatis.

No direito português, não se contesta o carácter hereditário da legitima em causa na sucessão comum.
No entanto, vários elementos podem gerar alguma perplexidade. Por exemplo: O herdeiro sucede na
totalidade ou numa quota do patnmónio, o que inclui ativo e passivo. Ora, para apurar o valor da
legítima, abate-se o passivo.

Aparentes falhas lógicas da construção aceite em Portugal levam Pamplona Corte-Real584 a


defender que, sendo pars hereditatis, a legítima é também pars boncrum, enquanto o legitimário não
conseguir um determinado quantum, apurado com base no art. 2162.º. O legitimário teria direito a um
valor, a satisfazer primeiramente através do relictum; garantido esse valor, a legítima passaria a ser
exclusivamente uma quota da herança.
Na opinião do Jorge Pinheiro Duarte, a legítima é uma quota da herança e somente uma quota
da herança.
A legítima é uma pars hereditctis, como resulta da letra dos arts. 2158.º-2161.º (o Iegitimário
tem direito a “dois terços, metade ou um terço da herança”) e da vigência do pnncípio da
intangibilidade qualitativa da legítima.

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DIREITO DAS SUCESSÕES

A lei concebe a legítima estntamente como uma quota da herança, embora pretenda que o
legitimário seja mais do que um herdeiro simbólico. O art. 2162.º, n.º 1, não consagra a teoria da pars
bonorum, quando exige que, para efeitos de cálculo da legítima, se pondere o valor do donatum; o
preceito impede que um autor da sucessão retire relevância económica à posição de legitimário,
mediante a realização de doações em favor de outrem, o que ocorreria se apenas interessasse o ativo
correspondente ao relictum. A consideração do donatum indica unicamente que foi rejeitada a ideia da
legítima como quota hereditária nominal. O donatum somado não é efecnvamente reintegrado na
quota indisponível. A atribuição ao legmmário, por via da redução de liberalidades, de bens que se não
encontrem no relictum é também um processo de obstar a um esvaziamento, hipoteticamente
fraudulento, dos direitos do legitimário. E a imputação tendencialmente prioritária de doações feitas ao
legitimário na quota indisponível é, por um lado, uma contrapartida do alargamento do valor total da
herança legitimária mediante a inclusão do donatum, e, por outro lado, mais um sinal de defesa da
consistência económica da porção legitimária (já que a ela podem concorrer outros sucessíveis, além
daquele que está obrigado a imputar a doação na respecnva legítima subjetiva).
O legitirnário é, portanto, um herdeiro, cuja posição é delimitada por um valor fixado com base
no art. 2162º
Enquanto herdeiro, o legitimário responde pelo passivo e participa, desde a morte do de cuius
até à partilha, na frutificação e/ou valorização ou desvalorização do património hereditário.
Dois exemplos:
1. Evidencia a forma como opera a responsabilidade do legitimário pelo passivo
A, que tem um filho E, deixou metade da herança a R. No momento da sua morte, A tinha
bens no valor de 110 e dívidas no valor de 20. VTH=90. A quota indisponível é de metade
(art.2159.º, n.º 2), correspondendo a 45. O mesmo sucede com a quota disponível. Cada
um dos sucessíveis, E e R, é titular de uma quota avaliada em 45. Ambos suportam a
responsabilidade pelo passivo na proporção das suas quotas (idênticas). De outro modo,
obteriam uma vantagem patrimonial de 55 (produto da mera divisão do relictum por dois),
em vez de 45 (produto da divisão por dois do resultado da subtração do passivo ao ativo ).
Se a partilha for efetuada sem que se proceda à liquidação (art. 2098.º, n.º I), a totalidade
do relictum é repartida entre os sucessíveis (110/2=55), mas cada um deles terá de pagar
metade do passivo (20/2 = 10), o que corresponderá ao saldo individual de 45 (55-10).
2. Participação do mesmo sujeito na variação do património hereditário até ao momento da
partilha
A, que tem um filho f, deixa metade da herança a T. VTH ( no momento da morte de A)=90;
QI=45, QD=45. A F cabe 45 e a T igual valor. Mas, após a abertura da sucessão, urn dos
bens integrados na herança valorizou-se em mais 10, pelo que o VTH passa a ser 100.
Então, na partilha, F terá direito a 50, não estando limitado a 45 (sem prejuízo de a data de
apuramento de uma eventual inoficiosidade ser sempre a da abertura da sucessão).

Da pendencia da sucessão à partilha


1. A pendencia da sucessão

1.1. A fase da pendencia da sucessão ou herança jacente

A fase da vocação segue-se a da pendencia da sucessão, ou herança Jacente.


Segundo o art. 2046.º, diz-se jacente a herança aberta, mas ainda não aceita nem declarada
vaga para o Estado.
Aberta a sucessão, verifica-se a vocação. Esta consiste, normalmente, na atribuição ao
sucessível do direito de aceitar ou repudiar a herança ou o legado. As situações Jurídicas patrimoniais
abrangidas pela sucessão adquirem-se pela aceitação (cf. art. 2050.º, n.º 1 ). No entanto, entre a morte
do de cuius e a aceitação, pode decorrer um período relativamente longo (nomeadamente, art. 2059.º)
Mas se o Estado for chamado enquanto sucessível legítimo, a aquisição depende de declaração
de herança vaga, dispensando-se uma aceitação (arts. 2154.º e 2155.º).

117
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A pendência da sucessão corresponde ao momento que medeia entre a morte do de cuius e a


aquisição por outrem das situações Jurídicas patrimoniais de que ele era titular, na sequência de
aceitação ou de declaração de herança vagas. 14
Não obstante o termo “herança jacente”, a pendência da sucessão estende-se aos legados.
A pendência da sucessão pode ser total ou parcial. É total quando nenhuma das situações
Jurídicas patrimoniais transmissíveis por morte tiver sido adquirida. É parcial se alguma dessas situações
Jurídicas já tiver sido adquirida, v.g., devido à aceitação de um dos sucessíveis prioritários.

A doutrina debate a natureza da herança Jacente do conjunto de situações Jurídicas situadas no


âmbito da sucessão pendente.
Não oferece dúvidas a personalidade Judiciária da herança Jacente (art- 12. º, al. a), do CPC),
nem a respectiva caracterização como património autónomo. A questão controvertida prende-se com a
explicação duma fase, aparentemente anómala, em que subsistem situações Jurídicas sem titular.
Em Portugal, destacam-se quatro construções:
• A herança Jacente expnme uma “obnubilação do sujeito”: haveria uma relação Jurídica
que estaria “congelada”, reduzida a direitos e deveres potenciais, por força da dita
obnubilação, até ao momento do aparecimento de um novo sujeito, altura em que as
situações Jurídicas retomariam a sua plenitude
• A herança Jacente surge corno uma hipótese de direitos e obrigações ‘’à espera de
sujeito’’.
• Estar-se-ia perante situações Jurídicas sem sujeito.
• Sublinhando a falta de direitos subjetivos dos sucessíveis chamados sobre os bens
hereditários (enquanto não existir aceitação), há quem veja na herança jacente um
“estado de vinculação” de uma universalidade Juridicas.

Para o professor Jorge Pinheiro Duarte, a justificação mais ajustada parece ser a que identifica
a herança Jacente com um fenómeno de situações Jurídicas sem sujeito. Efetivamente, o que ocorre é a
falta temporária de um sujeito. Entre o momento da morte do de cuius e o momento em opera a
aquisição em beneficio dos sucessíveis, as situações Jurídicas não têm titular. Mas tinham titular antes
do primeiro momento; e virão a ter um ou mais titulares, a partir do segundo.
Durante a pendência da sucessão, não há uma mera “obnubilação do sujeito”, o que
pressuporia a existência de um sujeito oculto. E falar de situações Jurídicas “à espera de sujeito”, ou de
vinculação de bens, sem que se encontrem titulares de direitos subjetivos, não contraria a imagem de
situações Jurídicas (ativas ou/e passivas) sem sujeito.

1.2. Administração da herança jacente

No nosso ordenamento, em regra, a gestão das situações jurídicas, incumbe ao respetivo


titular. De qualquer modo, o princípio da legitimidade do titular não obsta à intervenção de terceiro na
qualidade de gestor de negócios (arts. 464.º a 472.º).
A gestão de negócios aplica-se igualmente à herança Jacente. Todavia, os requisitos da gestão e
a condição jurídica do gestor não estimulam uma admmistração de terceiro não autorizada pelo dono
do negocio.
Os arts. 2047 .º e 2048.º consagram instrumentos adicionais, específicos de administração dos
bens na fase da pendência da sucessão.
Do art.2047º/1 conclui-se que a vocação é suficiente para legitimar a prática de providências
administrativas. E, como esclarece o art. 2056.º, n.º 3, o exercicio da administração não implica
aceitação da herança/cessação da da sucessão. Mas nem todo o sucessível chamado (necessariamente
um sucessível prioritário) pode providenciar acerca da administração dos bens – apenas “o sucessível
chamado à herança”, não o sucessível designado para suceder como legatário.
Havendo vários sucessíveis chamados à herança, qualquer deles pode, isoladamente,
providenciar acerca da administração dos bens (art. 2047º, n.º 3, primeira parte). Na hipótese de algum
desses sucessíveis se opor à atuação de outro, o art. 2047.º, n.º 3, segunda parte, estatui que prevalece

14Deste modo, salvo hipótese de vocação subsequente, não é concebível pendencia de sucessão contratual. Nesta modalidade de
sucessão, o momento de aquisição tende a coincidir com o da morte do de cuius, não havendo necessidade de uma aceitação
subsequente ao pacto sucessório

118
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

a vontade da maioria. Em caso de impasse (p.e., se houver unicamente dois sucessíveis, opondo-se um
deles ao outro), supomos que resta confiar a administração a um curador da herança Jacente.
As providências administrativas só podem ser tomadas se do retardamento das mesmas
puderem resultar prejuízos. Há, portanto, um parâmetro para o conteúdo e para o modo de exercício
das providências. Elas devem traduzir-se em atos de administração ordinária que se afigurem
necessários para impedir a destruição ou danificação de bens.

Outro instrumento de gestão dos bens, na pendência da sucessão, é a nomeação de curador da


herança Jacente.
Nos termos do art. 2047. º, n. º 3, a adoção de providências administrativas por sucessíveis
chamados à herança não prejudica a possibilidade de nomeação do curador.
A nomeação de curador à herança Jacente pressupõe risco de perda ou deterioração dos bens
hereditários, por “falta de quem legalmente os administre” (art. 2048.º, n.º 1 ).
A nomeação é feita pelo tribunal, a requerimento do Ministério Público ou de .. qualquer
interessado” l art. 2048.v, n.º I), termo que abrange todas as pessoas suscepríves de sofrerem com a
perda ou a deterioração dos bens integrados na herança Jacente, incluindo os sucessíveis designados
como legatários (que, como se viu, o art. 2047.0 não coloca entre os sucessíveis com a faculdade de
providenciar acerca da administração aos bens hereditários).
A curadoria da herança Jacente é aplicável, com as necessárias adaptações, o disposto sobre a
curadoria provisória dos bens do ausente (art. 2048º, n.º2). Compete, assim, ao curador da herança
Jacente, fundamentalmente, a prática de atos de administração ordinária (arts. 94.º, n.º I, e 1159.º,
nº1), o que não exclui os poderes de representar a herança nas ações contra ela propostas, de requerer
os procedimentos cautelares necessários e de intentar as ações que não possam ser retardadas sem
prejuízo para a herança (art. 94.º, n.º 2). Mediante autorização do Ministério Público, o curador da
herança Jacente pode até praticar atos de disposição de bens que excedam o âmbito da administração
ordinária (art. 94.°, n.ºs 3 e 4, e art. 2.°, n.º 1, al. e), do DL n.º 272/2001, de 13 de Outubro, aplicáveis,
com as devidas adaptações, er vi do mencionado art. 2048.º, n.º 2).
A curadoria da herança Jacente termina logo que cessem as razões que a determinaram (art.
2048.º, n.º3), isto é, quando houver pessoa com competência legal para administrar a herança, como é
o cabeça-de-casal, quando deixar de existir o risco de perda ou deterioração dos bens hereditários. A
declaração da herança vaga para o Estado também põe fim à curadoria.

1.3. Notificação do sucessível para declarar se aceita ou repudia

De acordo com o art. 2059.º, n.º I, o direito de suceder caduca ao fim de dez anos, contados
desde que o sucessível sabe que é seu titular. Para limitar o período de pendência da sucessão, a lei
consagra um mecanismo de notificação dos sucessíveis no art. 2049.º, a chamada actio interrogatória,
que assume a forma de um processo cominatório de aceitação ou repudio, sujeito às regras dos arts.
1039.º e 1040.º do CPC.
Nos termos do n.º 1 do dito art. 2049.º, se o sucessível chamado à herança, sendo conhecido, a
não aceitar nem a repudiar dentro dos quinze dias posteriores à abertura da sucessão, pode o tribunal,
a requerimento do Ministério Público ou de qualquer interessado, mandar notificar aquele sucessível
para, no prazo que o Juiz fixar, declarar se aceita ou repudia.
Apesar da epígrafe do art. 2049.º e da letra do respetivo n. º I ( que se refere ao “sucessível
chamado à herança”), a notificação da actio interrogatória vale também para o sucessível chamado a
um legado (art. 2249.º).
Na falta de declaração de aceitação do sucessível notificado, ou não sendo apresentado
documento legal de repúdio dentro do prazo fixado, a herança ou o legado tem-se por aceite (arts.
2049.º, n.º 2, e 2249.º)
Se os sucessíveis notificados repudiarem, sem prejuízo do direito de sub-rogação conferido aos
credores pelo art. 2067.v, serão feitas notificações, aos sucessíveis subsequentes, até não haver quem
prefira ao chamamento legal do Estado (art. 2049.º/3)
Se estiver em causa sucessão em beneficio de incapaz, a notificação para o sucessível declarar
se aceita ou repudia deve ser feita ao respetivo representante legal, nos termos gerais do Direito. Esta

119
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

notificação está sujeita ao disposto no art. 4.º do DL n.º 272/2001, 13 de Outubro (repudio substitui
rejeição).
Compete ao Ministro Público decidir sobre o pedido de notificação (n.º 1 ). Se o Ministério
Público ordenar a notificação, o respetivo despacho marca prazo para o representante legal
providenciar acerca da aceitação ou repúdio da sucessão em favor do incapaz (n.º 2). Se, dentro do
prazo fixado, o representante legal não aceitar a sucessão, o Ministério Público declara-a aceite ou
repudiada, de harmonia com as conveniências do incapaz (nº5).

2. A aquisição sucessória
2.1. A fase da aquisição sucessória

Conhecem-se três sistemas principais de aquisição sucessória:


• No sistema de aquisição automática, a qualidade de sucessor é um efeito que decorre
exclusivamente da morte do de cuius, não se exigindo qualquer outro facto.
• No sistema de aquisição por aditio ou aceitação, a condição de sucessor pressupõe uma
manifestação de vontade do sucessível, um ato do sucessível que se some ao facto da morte do
de cuius.
• No sistema de saisine ou investidura, a aquisição sucessória exige um ato de autoridade.

No ordenamento Jurídico português vigente, a regra é a da aquisição por aditio ou aceitação.


Efetivamente, à luz do art. 2050.º, n.º l (aplicável aos legados, nos termos do art. 2249.º), a herança e o
legado adquirem-se por aceitação.
A aceitação é a declaração de vontade através da qual o seessive; manifesta a intenção de
adquirir a herança ou o legado a que foi chamado. Repúdio é uma declaração de vontade de sentido
oposto ao da aceitação, que obsta. À aquisição sucessória no sistema de aditio
Dada a opção pela regra da aquisição por adi tio, a sucessão fica pendente entre o momento da
morte do de cuius e o da aceitação pelo sucessível. A aquisição verifica-se, portanto, numa altura
necessariamente posterior à da abertura da sucessão. Contudo, a lei determina que os efeitos da
aceitação se retrotraem ao momento da abertura da sucessão (arts. 2050.º, n.º 2, e 2249.º), pelo que o
sucessível aceitante é tido como titular das situações Jurídicas compreendidas pela herança ou pelo
legado desde essa data (arts. 2050.º/1 e 2249º). Paralelamente, os efeitos do repúdio retrotraem-se ao
momento da abertura da sucessível, considerando-se como não chamado o sucessível repudiante,
“salvo para efeitos de representação” (arts. 2062.º e 2249º).

Exceções ao pnncípio da aquisição por aditio ou aceitação:


• Na sucessão contratual, o sistema coincide com o da aquisição automática. Salvo estipulação
diversa (por exemplo, condição iva), o donatário mortis causa adquire os bens doados com a
morte de cuius, sem necessidade de um facto adrcionai. A aqursiçao ocorre no momento do
chamamento, uma vez que o sucessível contratual aceita antes da abertura da sucessão, no
próprio pacto.
O repúdio é uma figura estranha à sucessão contratual; neste domínio, encontram-se apenas as
figuras gerais da rejeição da proposta, da renúncia e do abandono.
O destmatário, que não quiser aceitar a proposta de doação por morte, rejeita-a. Realizado o
pacto, a aceitação do donatário não é unilateralmente revogável. Após a morte do de cuíus, se
o sucessor contratual não quiser manter as situações Jurídicas acnvas que adquiriu através da
sucessão, resta-lhe renunciar aos direitos ou abandonar os bens.
• Também não há repúdio, mas possibilidade de renúncia, na transmissão por morte da direito
do arrendatário habitacional, outro exemplo de aquisição automáticr«
• A aquisição da herança pelo Estado, enquanto sucessível legitimo, concretiza-se por saisine ou
investidura. Diferentemente do que ocorre nas hipóteses de sucessão contratual e de legado
legal correspondente ao direito do arrendatário habitacional, há pendência de sucessão.
Todavia, a pendência cessa com um ato de autoridade, a declaração de herança vaga, e não
mediante aceitação (cf. arts. 2154.º e 2155º). E o Estado não pode repudiar a herança legitima
(art. 2154.º).

120
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

A declaração de herança vaga para o Estado é feita por sentença, proferida num processo em
que é reconhecida a inexistência de outros sucessíveis legítimos, após citação de interessados
incertos (arts. 938.º, e 939.”, n.º 1 ., do CPC; art. 2155.º do CC). É essa sentença que determina
a aquisição.

2.2. Aceitação e repúdio

Embora a lei o não diga expressamente, os sucessíveis só podem aceitar ou repudiar após a
abertura da sucessão. Por um lado, o direito de aceitar ou repudiar só surge no momento em que se
concretiza a vocação. Por outro lado, o efeito diametralmente oposto da aceitação e do repúdio exige
que se assegure uma decisão livre e esclarecida do sucessível. Antes da abertura da sucessão, ainda não
se conhece com rigor o património hereditário e as disposições do de cuius; em vida do de cuius, o
sucessível pode estar sujeito à pressão deste ou ao receio de lhe desagradar.
Em compensação, o art. 2059 .º indica com clareza até quando pode ser praticado o ato de
aceitação. De acordo com o n.º 1, o direito de aceitar caduca ao fim de dez anos, contados desde que o
sucessível tem conhecimento de haver sido chamado. Tendo havido designação sob condição
suspensiva ou substituição fideicomissária, on.º 2 determina que o prazo de dez anos se conta a partir
do conhecimento da verificação da condição, no primeiro caso, e a partir do conhecimento da morte do
fiduciário ou da extinção da pessoa coletiva, no segundo caso.
De qualquer modo, o recurso à actio interrogatória é suscetível de encurtar o prazo fixado
neste art. 2059.º

Aceitação e o repúdio cabem na categoria dos negócios Jurídicos unilaterais. E é pacífica a sua
natureza não receptícia.
A aceitação e o repúdio assumem carácter singular, ou individual, o que resulta do art. 2051.0•
Havendo pluralidade de sucesvers, cada um deles exerce o direito de suceder como entender; não se
exige que todos aceitam ou que todos repudiem.
A aceitação e o repúdio não podem ser feitos sob condição nem a termo (arts. 2054.º, n.º l, e
2064.º, n.º 1). A proibição de condição ou ermo, acompanhada apenas da admissibilidade da aceitação a
beneficio de inventário (consagrada no art. 2052.º, n.º l ), sugere a exclusão de outras cláusulas
acessórias. Se for aposta condição, termo ou outra cláusula acessória (que se não reconduza à aceitação
a beneficio de inventário), a aceitação e o repúdio são nulos, nos termos do art. 294.º.
Em princípio, não é permitida a aceitação, nem o repudio, parcial (arts. 2054.v, n.º 2, 2064.º,
n.º 2). Fora dos casos legalmente previstos, o titular do direito de suceder tem de aceitar ou repudiar a
totalidade da sucessão a que foi chamado. A divisibilidade não autorizada acarreta a nulidade da
aceitação ou do repudio (art. 294.º).
A aceitação e o repúdio são irrevogáveis (arts. 2061. º e 2066.º). Mas a irrevogabilidade não
obsta à possibilidade da renúncia quanto a direitos adquiridos por via sucessória, ou ao abandono de
bens incluídos na herança ou no legado, após a aceitação.
A aceitação e o repúdio são anuláveis com fundamento em erro-vicio qualificado por dolo e
coacção moral, mas não por causa de erro-vicio simples (arts. 2060.v e 2065.º).
Contudo, não sendo atendível para efeitos de anulação, o erro-vicio simples Justifica um caso
de divisibilidade do direito de suceder: um sucessível pode aceitar ou repudiar a herança deferida por
testamento, não obstante ter previamente repudiado ou aceitado a sucessão legal, se ao tempo
ignorava a existência do chamamento testamentário (cf. art. 2055.º, n.º 2 segunda parte).
Na ausência de especificação, e abstraindo da irrelevâacia do erro-vício simples, aplicam-se à
aceitação e ao repúdio as regras gerais sobre a falta e vícios da vontade do negócio jurídico, na medida
em que estas sejam compatíveis com a natureza não receptícia dos atos em apreço. Deste modo, por
exemplo, a falta de consciência da declaração e a coacçãc fis1ca implicam inexistência da aceitação e do
repúdio (primeira parte do art.246.º); e a anulação destes negócios com fundamento em dolo ou coação
(moral) depende do preenchimento dos requisitos da Parte Geral que não visem a protecção do
declaratário (arts. 254.º, n.ºl, e 255.”).

A aceitação e o repudio não estão sujeitos ao princípio da pessoalidade aplicável ao negócio


testamentário. Já que o art.2058º até permite a transmissão do direito de aceitar e repudiar.

121
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Por conseguinte, é admissível o exercício do direito de suceder por representante, quer legal
quer voluntário.
A representação legal na aceitação e no repúdio é objeto de uma disciplina especial – DL
nº272/2001, de 13 de Outubro. O representante legal carece de autorização do Ministério Publico
(art.2º/1/b)) para a prática dos atos seguintes:
• Repudio da sucessão a que foi chamado o menor ou interdito – 1889º/1/j), 1935º/1 e 139º
• Aceitação de sucessão a que foi chamado o interdito ou menor sujeito a tutela, ou sob o regime
de administração de bens – 1938º/1/c), 139º e 1971º/1
• Aceitação de herança, ou legado, com encargos, a que foi chamado o menor sujeito a
responsabilidades parentais (1889º/1/l)).
O inabilitado pratica pessoalmente os atos de aceitação e repuddio, mediante autorização do
curador, a não ser que a administração do património do inabilitado tenha sido entregue ao curador –
153º 154. Em caso de entrega da administração ao curador, a este incumbirá a pratica de qualquer ato
de aceitação ou de repudio, em representação do inabilitado.
O casamento por si só, não confere a um cônjuge poderes para representaçõa a outro no execicio
do direito de suceder. Todavia, o repudio da sucessão só pode ser feita com o consentimento de ambos
os cônjuges, a menos que vigore o regime de separação de bens – 1638º/2.

A aceitação pode ser expressa ou tácita – 2056º/1. O nº2 do mesmo artigo, leva a pensar que tem
de ser feita por documento quando é expressa, mas este preceito (extensivo aos legados), nos termos
do 2249º, não significa que a aceitação expressa tenha de ser feita por escrito, já que o art.217º não
deixa de ser aplicável (declaração verbal de aceitação ou qualquer outra manifestação direta da vontade
de aceitar).
No mesmo art.217º diz-nos quando há declaração tácita.
O legislador determina que não importa aceitação tácita a pratica de atos de administração pelo
sucessível (2056º/3), nem a alieanção de herança, quando feita gratuitamente em beneficio de todos
aqueles a quem ela caberia se o alieanente a repudiasse – 2057º/1.
Em contrapartida no nº2 entende-se que acieta a herança e a aliena aquele que declara renunciar a
ela, se o faz a favor apenas de algum ou alguns dos sucessíveis a que seriam chamados na sua falta.
A anulação do repudio conta como acietação tácita, normalmente.
O silencio do sussevivel notificado vale como aceitação – 218º e 2049º/2.

O repudio tem de ser feito por escritura publica ou documento particular autenticado se existirem
na sucessão repudiada bens cuja alienação deva ser feita destamaneira. Nos demais casos por
documento particular – 2063º.
O repudio tem de ser expresso – 2056º/2. No entanto, o 2057º/1 consagra uma hipótese de
repudio tacito, resultante da conversão legal de uma alienação da herança.

2.3. Aceitação pura e simples vs. A beneficio do inventario

Art.2052º/1:
• Aceitação a beneficio de inventario – requerendo inventario ou intervindo em inventario
pendente
• Aceitação pura e simples – abarca todos os outros casos de aceitação

Os legados tem de ser aceites pura e simplesmente, a não ser que toda a herança tenha sido distribuída
em legados.
A espécie de aceitação da herança tem efeitos no ónus da prova. Incumbe ao herdeito que aceitou pura
e simplesmente provar que o ativo hereditário é insufienciente para o cumrpiemrno dos encargos –
2071º/2; se a herança tiver sido aceite a beneficio do inventario, os bens são inventariados, só
respondendo estes pelos encargos da herança, salvo se os credores e os legatários demonstrarem a
existência de outros bens (art.2071º/1)-

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Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O regime da herança adquirida

1. A prova da qualidade de sucessor15

Para o efeito, estão disponíveis meios gerais, como as ações declarativas de simples
apreciação, e meios especiais de direito.
• habilitação notarial – art.82º a 88º CN
• procedimento simplificados de sucessão hereditária (210º-A a 210º-Q CRC):
o o procedimento de habilitação de herdieros, partilha e registos
o o procedimento de habilitação de herdeiros com/sem registos
o procedimento de partilha e registos (210º-A/1)
• habilitação no processo de decisão
• habilitação judicial e administrativa especial
• certificado sucessório europeu

2. Meios de tutela do sucessor


2.1. A petição da herança

Pode acontecer que os bens sejam possuídos por terceiro que arrogue indevidamente
do titulo de sucessor (herdeiro ou legatário) ou que os possua mesmo sem titulo. Neste
contexto, o herdeito tem ao seu dispor a ação de petição da herança, enquanto ao legatário
assite a faculdade de reinvdção da coisa legada.
Art.2075º/1
Quando não tiver havido aceitação previa da herança, a próprio propositura da ação
exprime uma aceitação tácita.
A petição deve ser intentada antes da partilha. Depois da partilha, o herdeito pode
usar a ação de reivindicação.
Na falta de processo especial, a ação de petição segue o processo comum de declarçaõ
– 552º e ss CPC
O art.2057º/2 determina que ação pode ser intentada a todo o tempo, prevendo,
todavia, dois limtes:
• Os decorrentes da regra de usucapião (1287º e ss), relativamente a cada uma
das coisas possuídas
• Respeitantes ao prazo de exercício do direito de suceder – 2059º

Só o herdeiro pode efetuar a petição da herança – 2075º/1. Quando são vários os


herdeiros, qualquer um deles tem legitimidade para pedir separadamente a totalidade dos
bens em poder do demandado, não podendo este opor-lhe que tais bens lhe não pertencem
por inteiro – 2078º/1.
A procedência da ação não significa que o herdeiro passe a ter a administração e a
disposição dos bens da herança. Continuam a fazer parte da massa hereditária, estando
sujeitos ao regime geral da herança partilhada.
Legiitmidade passiva:
• Possuidores da hernaça ou de parte deles – 2075º/1
• Meros detentores dos mesmos bens

15
Para saber mais informação, livro do professor Jorge Duarte Pinheiro

123
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Se o possuir de bens da herança tiver disposto deles, no todo ou em parte, a favor de


terceiro, a ação de petição pode ser também proposta contra o adquirente, sem prejuízo da
responsabilidade do disponente pelo valor dos bens alienados (art.2076º/1). No entanto, a
boa-fe pode ter relevância – 2076º/2/1ªparte.
De acordo com o nº3 do mesmo artigo é herdeiro aparente aquele que é reputado
herdeiro por erro comum ou geral. Se ele tal como o adquirente, estiver de boa fé respondo
segundo as regras de enriquecimento sem causa, e não pelo valor dos bens alienados –
2073º/2/2ªparte.

2.2. Reivindicação da coisa legada

Na falta de disposição em contrario, o cumprimento do legado incumbe aos herdietos


– art.2265º/1.
De acordo com o nº2 – admite que o testador imponha o cumprimento só a algum ou
alguns dos herdeitos ou a algum ou alguns dos legatários
De acordo com o nº3, os sucessores sobre quem recaia o encargo ficam a ele sujeirto
na proporção dos respetivos quinhoes herefitarios ou dos resprtivos legados, se o testador não
tiver estipulado proporção diversa.
2275º - as despesas feitas com o cumprimento do legado ficam a cargo de quem deva
satisfaze-lo.
O cumprimento do legado de credito ocorre com a entrega ao legatário dos titlos
respeitantes ao credito – art.2261º/1.
No caso de legado de coisa, o cumprimento faz-se mediante a entrega da mesma –
2270º/1ª parte.
No caso de legado consistir em dinheiro ou em coisa genérica que não exista na erança
– 2270º/2ª parte.
Não havendo declaração do de cuius, o legatio tem direito aos frutos da coisa legada
desde a abertura da sucessão, com exceção dos que tiverem sido percebeidos adiantadamente
pelo falecido (2271º/1ª parte). A regra quanto aos frutos é se o legado consistir em dinheiro
ou em coisa não pertencente à herança – 2271º/2ª parte.
Se a coisa legado não for certa e determinada e não estiver na posse de quem está
oenrado com o cumprimento do legado, continua a ser adqueado o uso da ação de
cumprimento, para tutela do legatário, exercida contra o oenrado.
Já não é assim se for certa e determinada. O art.2279º confere ao legatário a faculdade
de reinvidicar de terceiro a coisa legada, contando que seja certa e determinada.

3. A administração da herança

3.1. O cabeça-de- casal

De acordo com o art.2079º a administração da herança, até a sua liquidação e partilha,


pertence ao cabeça de casal.
Por acordo de todos os interessados, pode entregar-se o exercício das funções de
cabeça-de-casal a qualquer pessoa – 2084º. Na falta de acordo, a designação é feita nos
termos do 2080º.
O disposyo no art.2080º e ausência de uma regra que admita o cabeçalato plutal
mostram que as funções de cabeça-de-casal só podem ser exercidas por uma pessoa. Mesmo
quando o de cuius tenha nomeado vários testamenteiros, só um deles, nos termos do
art.2080º/1/b), poderá ser o cabeça de casal.
O art.2080º apenas faz menção aos herdeiros legais e testamentários e não aos
contratuais. A omissão parece dever-se sobretude à raridade estatística da designação

124
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

contratual no nosso ordenamento. Por isso, é de entender analogicamente aplicável aos


herdeiros contratuais.
E havendo concurso entre herdeitos testamentários e contratuais, para efeitos de
determinação daquele que irá exercer a cabeça-de-casal, há que lançar mão das regras das
propriedade na atribuição do cargo (convivência com o falecido há pelo um ano à data da sua
morte, idade). Não será atendível a hierarquia da modalidade de sucessão.
O art.2081º define que quando toda a herança é distribuída em legados, o cabeça de
casal será o legatário mais beneficiado; e que, em igualdade de circunstancias, preferirá o mais
velho.
Se a pessoa que tiver preferência na assunção do cargo de cabeça de casal for incapaz,
o cabeçalato vai recair sobre o representante legal do incapz ou, no caso de inabilitado, pelo
curador – 2082º.
As regras legais destinadas à atribuição do cargo de cabeça de casal não podem ser
afastadas pelo de cuius. O autor da sucessão só pode influir na designação de cabeça de casal
ao abrigo do art.2082º/1/b).
Caso ninguém queira ser ou todas as pessoas foram removidas de ser cabeçalato a
designação da cabeça-de-casal será feita pelo tribunal, oficiosamente ou a requerimento dos
interessados – 2083º.

O exercicio das funções de cabeça-de-casal é obrigatório.


O cargo de cabeça-de casal não será desempenhado, ou deixará de ser desempanho,
se houver substituição, escusa ou remoção. No caso de atribuição por força da qualidade de
sucessível (art.2080º/1/a), c) e d) e 2081º) o cabeçalato é excluído se a pessoa tiver repudiado
a sucessão ou se ela tiver sido deserdada ou declarada indigna, uma vez que o deferimento do
cargo da cabeça de casal em razão d acondição de sucessível pressupõe a existência e
substitencia de um interesse no património do falecido. No caso de cargo de cabeça-de-casal
deferido ao testamenteiro, o exercício do cabeçaato exige aceitação da testamentaria –
2085º/2.
O cabeça-de-casal pode ser substituído a todo o tempo, por acordo dos interessados
na partilha.
A escusa, ato pela qual a pessoa designada para ser cabeça-de-casal manifesta
intenção de não exercer o cargo, releva somente quando esta pessoa se encontre nas
situações do art.2085º/1.
A remoção, que implica o afastamento de uma pessoa do cargo de cabeça-de.casal,
pode ser pedida por quaquwe interessado (2086º/2) quando essa pessoa se encontre nuam
das circunstanicas indicadaos no art.2086º/1.
Apesar de a remoção ter só por si cariz sancionatario, o cabeça-de-casal não está livre
de outras sanções que no caso couberem.

Enquanto administrador da herança, o cabeça de casal:


• Tem poderes relativos aos bens próprios do falecido, mas não aos bes doados
em vida pelo autor da sucessão, que, por não fazerem parte da herança,
continuam a ser administrados pelo donatário – 2087º
• Os poderes recaem também sobre o património comum pertencente ao
falecido e ao seu cônjuge (Art.2087º/1), excedendo o âmbito estritamente
hereditário.
• Enquanto não for liquidada a partrilha, a administração pela cabeça-de-casal
abrange todos os bens compreendidos na herança, incluindo os bens certos e
determinados que foram legados e estavam já em poder do legatário.
• Compreende também os bens deixados sob condição, a termo ou atribuídos
aos nascituros.

125
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

Para assegurar o exercício dos seus poderes, o cabeça de casal pode pedir aos
herdeiros ou terceir a entrega dos bens que deva administrar e que tenham em seu poder, e
usar contra eles meios judiciais de manutenção e restituição da posse quanto às coisas sujeitas
à sua gestão (art.2088º/1).
Por força da 1ª parte do art.2090º/1, os poderes de amdinitração do cabeça-de-casal
não excedem o que decorre dos art.2089º a 2090º.
Os limites impostos à cobrança de créditos e à disposição de bens mostram que os
poderes de cabeça-de-casal se circunscreve,m à administração ordinária.

No exercício das suas funções, o cabeça de casal deve entregar a qualquer dos titulares
do património hereditário ou comum, que o solicite, até metade dos rendimentos que lhe
caibam, salvo se forem necessários, mesmo nessa parte, para satisfação de encargos da
administração – 2092º, das despesas do funeral e sufrágios.
Prestação anual de contas – 2093º/1. Havendo saldo global positivo é destribuidos
pelos interessados, depois de deduzida a quantia necessária para fazer face aos encargos do
novo ano (2093º/3).

O cargo de cabeça de casal é gratuito, se não for exercido por testamenteiro – 2094º. É
intransmissível (2095º).

3.2. O testamenteiro

Exerce a função de cabeça-de-casal nos termos do art.2080º/1/b).


O art.2320º entende que há testamentaria quando o testador nomeia uma ou mais
pessoas que fiquem encarregadas de vigiar o cumprimento do seu testamento ou de o
executar, no todo ou em parte.
É possível a nomeação d emais que um testamenteiro – 2320º. Tem que ter
capacidade plena de exercício – 2321º.
É livre de aceitar ou recusar (art.2322º). A aceitação pode ser expressa ou tácita, tem
de ser total e não pode estar sujeita a condição, nem a termo (2323º). A recusa da
testamentaria faz-se por meio de declaração perante notário (art.2324º).
Se o de cuius nomear vários testamenteiros, consideram-se todos nomeados
conjuntamente, salvo se outra tiver sido disposta pelo testador (2329º/1).
Se a nomeação recair sobre um sucessível, a aceitação ou recusa da testamentaria é
independente da aquisição sucessória. A um sucessível que foi designado para suceder como
herdeiro e nomeado para cargo de tetsamentario é licito.
Havendo nomeação sucessiva de testamentareiros, cada um deles só é chamado a
aceitar ou a recusar a cargo na falta de anterior – 2329º/3.
O nomeado pode escusar-se nos mesmos termos da escusa do cabeça-de-casal –
art.2330º. O testamenteiro pode ser removido, a requerimento de qualquer interessado, se
não cumprir com prudencia e zelo os deveres do seu cargo ou se mostrar incompetência no
seu desempenho (2331º/1).
Havendo nomeação conjunta de testamenteiros, na falta de acordo entre eles sobre o
exercício da testamentaria, podem ser removidos todos ou parte deles – 2331º.
Se exercer funções de cabeça-de-casal (2080º/1/b)), a pessoa que for removida do
cargo de testamenteiro perde também o de cabeça-de-casal, por virtude da inerência dos
cargos. O contrario já não acontece, se não estiverem preenchidos os pressupostos específicos
de remoção do testamenteiro.

126
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O testamenteiro tem as atribuições que o testador lhe conferir, dentro dos limites da
lei (2325º), sendo assim, não podem ser conferidas atribuições que colidam com o caracter
pessoal do testamento (art.2182º e 2183º).
Funções do testamenteiro – 2326º
Quando os testamenteiro seja cabeça de casal, o testador pode encarregar do
cumpriemtno dos legados e dos demais encargos da herança – 2327º - e que, para esse efeito,
o autorize a vender quaisquer bens da herança, moveis ou imoveis, ou os bens que forem
designados no testamento – 2328º.
Prestação de contas – 2322º/1
É intransmissível – 2334º
O cargo de testamenteiro é gratuito, exceto se lhe for assinada pelo testador alguma
retribuição (2333º/1). Só terá direito à renumeração que eventualmente lhe tiver sido
conferida se aceitar a testamentaria e dela não for removido; se, após a aceitação, a
testamentaria caducar por causa distinta de remoção, o testamenteiro beneficiará apenas de
uma parte da retribuição proprorcional ao tempo em que exerceu as funções – 2333º/2.

4. Alienação de herança

4.1. Noção
Consiste na transmissão pelo herdeiro do seu direito à herança ou ao quinhão
hereditário. Refere-se à totalidade ou a uma quota do património herefitario, e não a
situações jurídicas determinadas incluídas na herança.
Pode ter como causa um negocio oneroso ou gratuito.
Um herdeiro pode portanto, vender, doar, ou legal um direito que tenha sobre a
herança, já aberta, de terceiros.

4.2. Forma
A alienação da hernaça é um negocio solene.
O art.2126º regula a forma da alienação realizada por negocio inter vivos: escritura
publica ou documento particular autenticado se existirem bens imoveis, salvo se for outra a
solução for imposta por lei especial; documento particular, nos demais casos.
A alienação efetuada por negocio mortis causa está sunordinada às regras formais
deste tipo de negocio.

4.3. Objeto

Em principio abrange todos os direitos e obrigações que cabiam ao alienante, na


qualidade de herdeiro (ex: direito de exigir partilha)
O art.2128º trata especificamente da matéria dos encargos da herança. O adquitent
responde, como é natural, pelos encargos da herança. No entanto, para prevenir prejuízos
injustos para terceiros, o alienante responde solidariamente com o adquirente. Seja como for,
ao alienante é conferido direito de haver do adquirente o reembolso total do que houver
dependido na satisfação dos encargos.
O objeto da alienação é, normalmente, todo o património hereditário que cabe ao
alienante a não apenas o existente à data da transmissão da herança ou do quinhão
hereditário. Dai as disposições legais supletivas inscritas no art.2129º.
Atendendo ao objeto da alienação de herança, a totalidade ou de uma quota do
património, em vez de bens determinados, o regime da disposição de coisa alheia aplica-se
somente à alienação feita sem especificação de bens por quem não vier a ser reocnheicdo
como herdeiro (2127º).

127
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

O art.2125º estabelece determinadas presunções quanto ao objeto da alienação da


herança.
A estatuição do art.2125º/2 tem um efeito peculiar. Por exemplo, os únicos sucessíveis
prioritários de A são B e C, que foram hamados a suceder na totalidade da herança, em partes
iguais. B vendeu o seu quinhão hereditário a T. Após a alineação, C repudiou a herança de A. B
pode adquirir, por acrescer, a porção repudiada por C. Isto apesar de, no momento do
repudio, B já não ser co-herdeiro. Embora seja o titular da outra porção hereditária, T não
beneficia do acrescer.
O art.2125º/3 consagra mais uma presunção quanto ao que está excluído pela
alienação.
Todas as presunções são relativas, ilidíveis.

5. A liquição e a partilha da herança


5.1. Noção de liquidação da herança

Satisfação das dividas do autor da sucessão e de outros encargos gerais que oneram a
herança.
Havendo pluralidade de herdeiros, a liquidação tende a ser feita antes da partilha. Mas
pode ocorrer posteriormente, caso em que a liquidação constitui o ultimo ato do fenómeno
sucessório em sentido amplo.
Nas demais situações (ex: herdeiro único) a liquidação da herança é o ultimo ato do
fenómeno sucessório.
A liquidação não poe termo ao fenómeno sucesosiro, mesmo quando seja o ultimo ato
no âmbito da herança adquirida. Este apenas encerra quando os bens hereditários adquiridos
pelo herdeiro se confundem no património deste, quando o estatuto daqueles é idêntico a dos
bens pessoais do herdeiro. Isto só acontece quando os credores da herança deixam de ter
preferência sobre os credores pessoais do herdeiro na satisfação dos seus créditos à custa dos
bens herdados – 2070º.

5.2. Os encargos da herança

O art.2068º contem um enunciado de encargos a que necessarimanet esse refere a


liquidação
O de cuius não podem criar encargos gerais da herança.
A liquidação da herança tem em vista unicamente os encargos gerais. Todavia, nem
todos os encargos gerais têm a sua origem em momento anterior à abertura da sucessão –
2068º.
As despesas deste art., na parte que ultrapassem o que se afigurar razoável, no caso
concreto (por não se harmonizarem com os usos e a condição social e económica do falecido),
não merecem a qualidade de encargos gerais da herança para efeitos de liquidação, sob pena
de se esvaziar a tutela dos credores de obrigações anteriores, a faculdade de disposição a
titulo gratuiro reconhecida ao de cuius e até a consagração de uma sucessão legitima. A parte
irrazoável deve ser suportada por aquele que é responsável pelas despesas e pelos encargos.
A enumeração do art.2068º não é taxativa.

De acordo com o art.2070º/2 os encargos da hernaça são satisfeitos segundo a ordem


por que vêm indicados no art.2068º. A existência de encargos gerais da herança não
contempledos dita a necessidade de fixar o respetivo lugar para efeitos de satisfação:
• As custas do processo de actio interregatoria, havendo repudio, ocupam a
mesma posição que a dos encargos com a testamentaria, administração e
liquidação

128
Ana Figueiredo
DIREITO DAS SUCESSÕES

• As obrigações alimentares de fonte legal em beneficio do cônjuge ou


companheiro do de cuius (2018º e 2020º) devem ser satisfeitas depois das
dividas do falecido, mas antes do conjunto dos legados.
Será que a ordem não conhece exceções?
• Os legados podem ser legais, contratuais ou testamentários. Por seu turno, os legados
legais podem ser legítimos ou legitimários. A dispositividade dos legados legítimos
não justifica uma construção que os destque entre os elgaos. Mas outra deve ser
orientação quanto aos legados legitimários, não só pela força, distinta, como pela sua
natureza. Faz portanto, sentido situar os legados legitimários ao nível das obrigações
alimentares.
Qual o critério de graduação relativa aos encargos que se encontram na mesma categoria?
• Vale, como critério geral, o momento da constituição das sitações jurídicas, que não é
prejudiciado pelo facto de um credor beneficiar de garantia geral (2070º/2/2ª parte,
aplicável por analogia). Todavia, a regra da priroridade das situações jurídicas
anteriores sobre os posteriores, dentro da mesma categoria de encargos, não se
estende aos legados.
• Os legados (não legitimários) estão atras dos restantes encargos gerais. Mas a posiçã
dos legados, na liquidição, não é igual. Os legados contratuais têm preferência sobre
os outros legados. E entre legados testamentários, há que satisfazer primeiramente os
remuneratórios e aqueles que o testador declarar que devem produzir efeitos de
preferência a outros. Na ausência de critérios que permitem distinguir entre legados,
estes serão pagos rateadamentte – 2278º/1ª parte.

5.3. A responsabilidade dos bens pelos encargos da herança

O art.2068º determina que a herança responde pelas situações jurídicas que nele se
enunciam. Além das situações jurídicas indicadas no artigo, há outros encargos gerais pelos
quais também repsonde a herança. No património herefitario destinado a satisfazer tais
encargos incluem-se, obviamente, os bens existentes no património do autroda sucessão à
data da morte (relictum), o que abrange as prestações devidas pelo herdeiro ao falecido que
não se exitinguiram por morte do de cuius – 2074º/1
No quadro da liquidição, o conceito de herança é mais amplo. O art.2069º coloca no
âmbito da herança bens não compreendidos no relictum, que, também servem para a
satisfação de encargos gerais.

5.4. A responsabilidade dos sujeitos pelos encargos da herança

Incumbe aos herdeiros, enquanto titulares da herança, responder pelos encargos da


mesma, como decorre do art.2068º, 2071º, 2097º e 2098º/1.
Para assegurar o cumprimento dos encargos gerais da herança pelos herdeiros, o
art.2070º estatui a preferência dos credores desses encaegos sobre os credores pessoais do
herdeiro, que é amntida por um período de 5 anos.
Contudo os herdeiros não têm que satisfazer os encargos gerais da herança com os
bens pessoais. A sua responsabilidade está confinada aos bens ou às forças da herança nos
termos do art.2071º.

Em regra os legatários não respondem pelos encargos gerais da herança. Alias, eles são
tidos como uma espécie de credores da herança (2070º/1) e os próprios legados são referidos
entre os encargos (art.2068º).

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DIREITO DAS SUCESSÕES

So respondem no caso do art.2277º. No entanto, está confinafa aos bens que lhe
foram deixados – 2276º/1.
Apesar do que dispõe o art.2072º o legatário que seja usufrutuário da totalidade ou de
quota do património do falecido não satisfaz os encargos gerais da herança; quem cumpre
esses encargos são os herdeiros, embora à custa do usufruturario.
Em contrapartida, os legatários respondem pelos encargos especiais, que são aqueles
que oneram os respetivos legados (2265º/2 e 3, 2276º).

5.5. Modos de liquidação dos encargos da herança

O capítulo do CC sobre liquidação da herança (2097º-2100º) apenas regula a


liquidação da herança indivisa e da herança partilhada.
Na liquidação da herança indivisa, os bens respondem coletivamente pela satisfação
dos encargos – 2097º. E os credores da herança têm de exercer os seus direitos contra todos
os herdeiros, em separado – 2091º/1.
Se determinados bens da herança indivisa estiverem onerados com direitos de
terceiro, de natureza remível e houver na herança dinheiro suficiente, o art.2099º admite que
qualquer dos co-herdeiros ou o cônjuge meeiro exija a remição desses direitos antes da
partilha. Não havendo dinheiro suficiente na herança, a remição será possível unicamente com
o acordo de todos os interessados
O art.2098º/1/2 informa-nos como se procede depois de efetuada a partilha.
O nº3 do mesmo artigo diz-nos a deliberação eventualmente adotado pelos herdeiros
determinará o modo de liquidação da herança, salvo se os credores ou legatários não puderem
ser pagos integralmente nos termos do que foi deliberado, caso em que será aplicada a dita
regra da responsabilidade de cada herdeiro em proporção da sua quota – 2098º/3.
A liquidação da herança partilha é realizada voluntariamente pelos herdeiros ou
mediante ação judicial comum intentada, pelos credores ou legatários, contra os herdeiros.
SE antes da partilha não tiver sido feita a remição de direito de terceiro, de natureza
remível, sobre determinadaos bens da herança, estes bens estarão naturalmente onerados. Na
partilha pode então descontar-se o valor dos direitos, que serão suportados exclusivamente
pelo interessado a quem os bens couberem (art.2100º/1). Caso não tenha ocorrido tal
desconto, o interessado que pagar a remição tem dirieto de regresso contra os outros pela
parte que a cada um tocar, em proporção da sua quota (2100º/2/1ª parte); se um deles for
insolvente, a sua parte é repartida entre todos proprocionalemtne (2100º/2/2ª parte)

Na herança deferida por um só herdeiro, ele é totalemtne responsável pelos encargos


da herança, mas, como acontece em todas as situações, a responsabilidade não ultrapassa o
ativo hereditário e aqueles encargos não são satisfeiros à custa dos bens pessoais do sucessor.
A liquidação será feita em processo de inventario ou fora dele, consoante a aceitação
do herdeiro único tenha sido a beneficio de inventario (2103º e 2171º/1) ou pura e simples

Na herança totalmente distribuída por legados, os encarhos dela são suportados por
todos os legatários em proporção dos seus legados ou nas condições que o testador tiver
estipulado (2277º)

No caso de hernaça declarada vaga para o Estado, procede-se à liquidação da hernaça,


cobrando-se os créditos, vendendo-se judicialmente os bens, satisfazendo-se o passivo e
adjudicando-se ao Estado o remanescente – 939º/2 CPC

No caso de insolvência, a herança, jacente ou adquirida, pode ser objeto de processo


de insolvência (art.2º/1/b) e h) CIRE).

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O processo de insolvência é regulado no CIRE, é definido pelo art.1º.


A situação de insolvência da herança pode ser apurada no inventario ou fora dele. Se
tal situação for detetada no decurso do ivnentario, mediante requerimente de algum credor
ou delebiração d todos os interessados, seguem-se os termos do processo de insolvência que
se mostrem adequiadaos, aproveitando-se o processado do inventario – 46º RJPI.

5.6. Relevância da autonomia da vontade em matéria de liquidação da herança

2098º/2/3
Qual a relevância das clausulas testamentarias que estabeleçam uma responsabilidade pelos
encargos da herança distinta da que é legalmente prevista?
Estas clausulas (art.2244º), vinculam unicamente no plano de relações internas entre
sucessores. Nada obsta a que os credores da herança se dirijam,a ntes da partilha, a todos os
herdeiros (Art.2097º e 2091º), e, uma vez efetuada a partilha, a um deles, na proporção da
quota que lhe tenha cabido na herança (Art.2098º/1). O sucessor não onerado com encargo
especial que responder diretamente perante os credores benedicia de direito de regresso
sobre o sucessor especialmente onerado.

A partilha da herança
1. Noção

Ato pelo qual se por termo à indivisão do património do de cuius, isto é, à mencionada
contitularidade.

2. O direito de exigir partilha

O art.2101º/1 confere a qualquer herdeiro ou ao cônjuge meeiro o direito de exigir


partilha quando lhe aprouver.
Este direito é irrenunciável.
O art.2232º inclui a condição de não partilhar entre as condições contrarias à lei.
Apesar de tudo o art.2101º/2 admite que os interessados convencionem que o património
se conserve indiviso por certo prazo, que não exceda os 5 anos; e que renovem este prazo,
uma ou mais vezes, por nova convenção.

O direito de exigir partilha assiste aos “interessados diretos na partilha” que são
também aqueles que têm legitimidade para requerer o processo de inventario. Este direito
não abrange a dois ou mais legatários chamados a suceder num mesmo objeto, por exemplo.
No entanto, não é indispensável que o requerente da partilha seja co-herdeiro ou
cônjuge meeiro. A partilha pode ser solicitada pelo usufrutuário de quota da herança, um
legatário, com vista à determinação dos bens sobre os quais recairá especificamente o
usufruto. Também deve ser reconhecida ao adquirente do quinhão hereditário e ao credor do
repudiante.

3. Modalidades de partilha

Partilha fora do inventario


Art.2102º/2 – pressupõe acordo de todos os interessados e pode ser realizada nas
conservatórias ou por via notarial
A partilha notaril pode ser: escritura publica ou documento particular autenticado

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Nas conservatórias realiza-se mediante os procedimentos simplificados de sucessão


hereditária disciplinas nos art.210º-A a 210º-R CRC.

Partilha por inventario


Não há acordo de todos os interessados e ainda quando o MP entenda que o interesse
do incapaz a quem a herança é deferida implica aceitação beneficiaria ou quando algum dos
herdeiros não possa por motivo de ausência em parte incerta ou de incapacidade da facto
permanente, intervir em partilha realizada por acordo – 2102º/2.
Há duas modalidades de inventario: o inventario-divisório (art.2º/1/1ª parte RJPI) e o
inventario arrolamento (art.2º/1/2ª parte RJPI). O regime do inventario é estruturado em
função do inventario-divisório, cujas disposições legais se aplicam, com as necessárias
adaptações, ao inventario arrolamento (art.2º/2 RJPI). Para ambas as modalidade, são, em
principio, competentes os cartórios notariais (art.3º RJPI), o que não exclui a possibilidade de
intervenção judicial.

A partilha da herança em que um dos interessados seja menor ou outra pessoa incapaz
está sujeita a regras especiais.
Havendo acordo de todos os interessados, a partilha pode realizar-se fora do processo
de inventario, com a intervenção do representante do incapaz, a não ser que o MP tenha
requerido o inventario, nos termos do art.2102º/2/b).
No entanto, fora do processo de inventario, os pais do menor e, em geral, os
representantes de um incapaz, não podem convencionar partilha sem autorização do MP
(art.1889º/1/l), 1938º/1/c), conjugados com o art.2º/1/b) DL nº272/2001, de 13 de outubro),
sob pena de anulabilidade (art.1893º)
A partilha ocorrerá por inventario se o mesmo for requerido pelo representante legal
do incapaz – art.4º/1/b) RJPI,

4. Efeitos da partilha

Feita a partilha, cada um dos herdeiros é considerado, desde a abertura da sucessão,


titular único dos bens que lhe foram atribuídos, sem prejuízo do disposto quanto a frutos
(art.2119º).
A cada um dos herdeiros são entregues os documentos relativos aos bens que lhe foram
atribuídos.
Cada herdeiros só responde pelos encargos na proporção da quota que tenha cabido na
herança – 2098º/1.
Não tendo passado 5 anos da abertura da sucessão ou da constituição da divida que recai
sobre a herança, os credores da herança e os legatários gozam de preferência sobre os
credores pessoais do herdeiro, relativamente aos bens que a este couberem na partilha.

5. Impugnação da partilha

O art.2121º, prevê que a partilha extrajudicial só é impugnável nos casos em que o sejam
os contratos.
Neste artigo, o termo impugnação é usado no sentido amplo, abrangendo o
reconhecimento de inexistência jurídica, a declaração de nulidade, a anulação, a rescisão ou
outro pedido de declaração de ineficácia.
À partilha feita fora do inventario aplicam-se as regras gerais sobre o negocio jurídico,
nomeadamente as que respeitam à declaração e à vontade.
A impugnação da partolha realizada em inventario pode ser feita por recurso da decisão
homologatória para o tribunal da relação – art.66º/3 RJPI

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DIREITO DAS SUCESSÕES

Por força do art.72º/1 RIJI a anulação da partilha confirmada por decisão homologatória
que se tornou definitiva só pode ser declarada nas situações previstas no mesmo art.

O regime da impugnação está marcado pelo principio da conservação do ato jurídico da


partilha.
O art.2122º exclui a nulidade da partilha quando tenha havido omissão de bens da
herança, estatuindo, unicamente a partilha adicional dos bens omitidos. O art.2123º/1
estabelece que a partilha que tenha recaído sobre bens não pertencentes à herança é nula
apenas nessa parte.
É irrelevante o erro de um interveniente quando ao facto de a partilha não estar a
abranger a totalidade dos bens hereditários.
Se tiver havido preterição ou falta de intervenção de um dos herdeiros na partilha feita em
inventario, na falta de prova de que os outros interessados procederam com dolo ou má-fé,
seja quanto à preterição, seja quanto ao modo como a partilha foi preparado, o art.73º RJPI
confere ao herdeiro preterido a faculdade de requerer a reabertura do processo de inventario
para obter a composição da sua quota em dinheiro.

O principio da conservação da partilha obsta mesmo à livre alteração do ato por acordo de
todos os interessados.

6. Cumulação da partilha da herança com a partilha dos bens comuns do casal

Não é possível efetuar a partilha sucessória dos bens de um de cuius que era casado num
regime com um componente de comunhão, sem realizar a partilha dos bens comuns do casal –
1689º. E esta partilha, que é logicamente previa à hereditária, exige o conhecimento das
normas jusfamilaires entre convenções antenupciais, regimes de bens, administração e
disposição e dividas.
NÃO É IMPORTANTE.

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