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UNIVERSIDADE FEDERAL DO TRIÂNGULO MINEIRO

JÚLIA ALVES DE SOUZA MOREIRA


LEONARDO RODRIGUES PIETRO
GIOVANE RIBEIRO FERNANDES

A CULTURA INDÍGENA E SUAS DIFICULDADES EM SE ESTABELECER NO


SÉCULO XXI

UBERABA
2021
O trabalho a seguir pretende fazer uma análise histórica e sociológica de fatores que geram uma
grande dificuldade para a manutenção da cultura indígena e o preconceito existente contra a
mesma no território Brasileiro, relacionando esses conceitos com a realidade apresentada na
notícia divulgada pelo site Adufes (ADUFES, 2017), na qual a manifestação pacífica feita por
diversas etnias indígenas é reprimida violentamente.

Inicialmente, para discutirmos as relações culturais envolvidas na notícia é necessário conhecer


as diversas visões e definições de cultura que foram construídas e legitimadas com o tempo, já
que, será fundamental para o entendimento do desenvolvimento do preconceito sofrido por
etnias minoritárias, inclusive a indígena, as quais sofrem com isso há muitos anos.

Desse modo, cultura é um termo que surge na Grécia Antiga tendo dois significados principais,
o primeiro sendo um sinônimo de educação, o qual é altamente relacionado com o estado de
“areté” (Estado de perfeição moral grega, que era procurado pelos aristocratas da época e só
poderia ser atingido através da educação), e o segundo se refere ao cultivo da terra. Alícia define
que:

A cultura grega e os seus valores mais caros são projetados como um império universal. Daí a
noção de bárbaro como todo aquele que não participa da cultura grega, ou seja, aquele que não
possui areté como atributo do cidadão virtuoso do mundo grego. (GONÇALVES, 1990).

Logo, a primeira definição de cultura é uma visão que definimos como universalista, isto é, para
os gregos a cultura é formada por costumes e valores que não se modificam, assim, adotando
um conceito universal de cultura, independente de outros fatores como a sociedade, posição
geográfica e outros. Dessa maneira, um indivíduo com cultura nessa definição é aquele que
adota os costumes e os valores gregos e consegue chegar ao status de “areté”.

Esse pensamento grego, favoreceu o desenvolvimento do etnocentrismo na Europa, no qual os


cidadãos europeus enxergavam a cultura, assim como os gregos, de uma forma universalista,
no qual somente eles desenvolviam costumes e valores corretos. Desse modo, cultura era um
sinônimo de civilização, o que favoreceu e legitimou as políticas imperialistas europeias. A
colonização da América acontece neste período social que gerou preconceitos contra diferentes
costumes, etnias e raças.

Para fazermos a análise da reportagem, precisamos conhecer minimamente as definições


modernas de cultura e suas relações com a sociedade. Para isso, é essencial entender que a
contraposição da ideia universalista, acontece com o desenvolvimento do Romantismo alemão
que cria o conceito de “Kultur”, o qual é definido por Alicia:

Kultur se refere ao espírito – Geist que remete à tradição e aos valores nacionais
(idiossincráticos) que se contrapõem às forças do progresso, a noção de Geist realça os valores
espirituais em oposição ao materialismo, as artes e os trabalhos manuais em oposição à ciência
e à tecnologia. (GONÇALVES, 1990)

Desse modo, o conceito de “Kultur” se opõe ao conceito de cultura universal, que era utilizado
pelos europeus como sinônimo de civilização, e portanto, estabelece que a cultura é moldada
por diversos fatores. Sendo assim, as ideias desenvolvidas posteriormente pelos cientistas
sociais geralmente podem-se observar duas vertentes, que se opõem são elas: Universalismo x
Relativismo.

Posteriormente, no final do século XIX, Franz Boas, a partir do conceito de “Kultur” desenvolve
o que chamamos de “Relativismo Cultural”, que resumidamente, assume a cultura como algo
que é formado, ou seja, algo que é construído pelas interações de grupos sociais entre eles
mesmos ou entre a natureza, “As culturas são formadas por traços e complexos de traços que
são o produto de condições ambientais, fatores psicológicos e conexões históricas”
(GONÇALVES, 1990). Assim, o relativismo cultural entende que cada cultura diferente é
causada por conta que os indivíduos são colocados em situações sociais e naturais diferentes.

Após Boas, vários antropólogos e sociólogos estudaram e definiram vários conceitos que
contribuíram para a criação do conceito de multiculturalidade que é dividido em três por
Candau, temos o multiculturalismo assimilacionista, o diferencialista e o intercultural.
(CANDAU, 2008). Sucintamente, o multiculturalismo assimilacionista, é essencialmente
universalista, no qual traz a ideia de inserir as minorias na sociedade garantindo seus direitos
como cidadãos desde que os mesmos se adequem à cultura dominante, dessa forma, legitimando
que uma cultura é superior a outra e podendo causar a extinção da cultura de minorias. No
entanto, o multiculturalismo diferencialista representa a visão relativista, que leva em
consideração todas as diferenças entre sociedades e defende a preservação total das bases
culturais sem debates ou adaptações, por isso, também acaba sendo um pouco limitada, pois
pode causar separações extremas entre as pessoas de diferentes culturas. Por sua vez, o
multiculturalismo intercultural é o mais utilizado entre todos eles, pois é o mais democrático e
inclusivo, basicamente ele busca compreender as diferenças culturais, porém diferente da visão
diferencialista, afirma que é possível a alteração de certas culturas por um processo de
hibridização cultural através de debates e interações naturais entre os diferentes grupos sociais.

Durante o contexto social do século XVI, Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil que já continha
uma população muito abundante, os quais tinham costumes, tradições, ritos e outros valores
sociais muito diferentes da sociedade europeia. Estima-se que ao todo existiam mais de 1300
idiomas nativos que hoje foram reduzidos a 274. Isso mostra o quanto a cultura indígena foi
desvalorizada. Os indígenas brasileiros sofreram, e sofrem até hoje com as mais diversas
dificuldades entre elas estão: demarcações de terras, suas lutas por direitos equitativos e com a
dificuldade na manutenção cultural em um meio totalmente diferente e preconceituoso.

Durante o século XVI, o qual ocorreu a chegada dos primeiros padres jesuítas para a
“conversão” dos índios em cristãos ignorando totalmente os costumes e o que hoje chamamos
de cultura indígena.

Neste sentido, utilizaram a própria cultura ameríndia elevando seus costumes à barbárie. Desse
modo, os jesuítas possuíam uma árdua batalha no mundo colonial reduzir os costumes dos
nativos em favorecimento aos preceitos da fé católica para assegurar a salvação das almas dos
“negros da terra” ... (LIMA, 2011)

Na época, os colonos portugueses buscavam a escravização dos índios utilizando como


legitimadora a própria cultura indígena, porém os jesuítas, consequentemente, a igreja católica
faz com que os índios se tornem fiéis e não escravos. Todos esses acontecimentos históricos de
não aceitação da cultura indígena vão refletir futuramente no preconceito contra os índios. O
processo de multiculturalismo assimilatório aplicado pela igreja católica favoreceu a não
escravização dos índios, porém fez com que sua cultura fosse mal vista pela sociedade de
maneira com que deveria ser esquecida. Assim, podemos entender que o preconceito contra a
cultura indígena é construído em contexto social histórico e, infelizmente, ainda reflete na
sociedade contemporânea.

Há mais de 500 anos que várias tribos indígenas sofrem opressões e discriminações.
Revoltados, os índios contemporâneos tendem a pedir ajuda das mídias sociais quando o estado,
o grande defensor dos direitos, não se sensibiliza deixando o indígena à mercê da sua sorte. Um
líder da tribo indígena “baniwa” que vive no território da Amazônia faz uma pergunta que nos
deixa comovido:
"Somos os Baniwa, vivemos no Alto Rio Negro, Amazônia. Andamos pelados. Nosso único
esporte é caçar. Não temos pátria nem religião. Comemos com as mãos e cortamos o cabelo
sempre igual...Isso, pelo menos, em 1.500. De lá para cá, tudo mudou. E, se mesmo assim,
você continuar a ser 'homem branco', porque nós não podemos continuar a ser índio?".
(Baniwa, 2017).

Esse questionamento nos faz refletir sobre o que realmente o nativo anseia, e é simplesmente a
necessidade de manter suas tradições vivas e seu contato com a natureza intacta. Em
contrapartida tem o homem social urbano que para preencher suas vontades capitais acaba que
interferindo nos direitos alheios, gerando assim um interculturalismo falho, recheado de
discriminações, racismos e preconceitos, em que na maioria das vezes as minorias (Os nativos
americanos) sofrem opressões e violências desiguais, só por não partilhar de uma cultura
semelhante aos demais.

Quando um grupo étnico diferente se revolta e deseja uma validação de seus valores e tradições,
na sociedade de preconceitos que vivemos, esses grupos acabam sendo reprimidos por outros
grupos majoritários ou até mesmo pelo Estado (que deveria promover a segurança desses
grupos) como acontece na notícia (ADUFES, 2017). Essa repulsa com os nativos, é causada
por motivos históricos de intolerância cultural, racial e outros, podemos caracterizar como
motivos pessoais tais como (Xenofobia, etnocentrismo, racismo e preconceitos) estatais (A
perda de recursos financeiros através da exploração natural ou dos impostos que seriam gerados
pelas terras que foram demarcadas).

Com o avanço em práticas que transgridem os direitos de nativos brasileiros, várias políticas
foram criadas a fim de manter a identidade dos mesmos, porém o descaso de certa parcela da
população, em ênfase, os latifundiários, deixaram os indígenas em situações de extrema
dificuldade tais como: a pobreza, saneamento básico, epidemias e fome por falta de terras para
plantio e caça. As demarcações de terras propendem a ser uma prática que não só beneficia os
indígenas, ao contrário também beneficia a sociedade em geral:

A demarcação das terras indígenas também beneficia, indiretamente, a sociedade de forma


geral, visto que a garantia e a efetivação dos direitos territoriais dos povos indígenas
contribuem para a construção de uma sociedade pluriétnica e multicultural. (...) Beneficiam-
se, ademais, a sociedade nacional e mundial com a demarcação das terras indígenas, visto
que tal medida protetiva consolida e contribui para a proteção do meio ambiente e da
biodiversidade, bem como para o controle climático global, visto que as terras indígenas
representam as áreas mais protegidas ambientalmente... (FUNAI, 2014)
Tendo isso em mente, as relações multiculturais seriam estreitas e longe de racismos, visando
uma interculturalidade saudável e longe de preceitos cruéis e intoleráveis.

A realidade nos mostra o quão contrário é essa interação de índio x homem branco, e as
consequências do racismo estrutural e a disparidade social que os mesmos suportam de forma
direta e triste. A reportagem se passa em um Brasil marcado por corrupção e aversão ao
estrangeiro de uma forma grotesca, segregando-os de aspecto não humano e desigual como
especificado na reportagem; “É uma situação de confinamento, na qual nem sequer os direitos
sociais mínimos, como bolsa-família, estão sendo assegurados aos indígenas.” (ADUFES,
2017). Portanto, o etnocentrismo, preconceito, racismo, a xenofobia e no geral a intolerância
cultural presentes na sociedade fazem com que situações lamentáveis como a noticiada
aconteçam.

Sendo assim, é incontestável o fato de que toda essa segregação contra a população indígena
no Brasil é fruto de um passado de exploração e apagamento de identidade. A partir do momento
em que o invasor da terra considera o nativo como inferior, muda radicalmente a sua religião e
costumes, o educa para seguir os moldes europeus e busca a sua escravização, é engendrado um
marco nas relações sociais entre os grupos que dificilmente é apagado mesmo com o passar de
séculos.

É notável que mesmo com tamanha riqueza e diversidade cultural própria, essa abundância
cultural não era enxergada aos olhos dos colonizadores, que em sua postura eurocentrista
liquidaram inúmeras tribos que hoje nem sequer sabemos de sua existência. Nesse contexto,
como afirma Vera Maria Candau, “as relações culturais não são relações idílicas, não são
relações românticas; estão construídas na história e, portanto, estão atravessadas por questões
de poder, por relações fortemente hierarquizadas, marcadas pelo preconceito e pela
discriminação de determinados grupos.” (CANDAU, 2008)

Essa intolerância reflete no comportamento de muitas autoridades que ainda enxergam o índio
como perigoso, inferior e bárbaro, arrastando essa imagem distorcida até os dias atuais, como
é perceptível através da reportagem. Mesmo sendo um ato pacífico, foram reprimidos pelas
forças policiais quando apenas desejavam manifestar-se contra o genocídio do seu povo, a
manutenção de suas terras e a retomada do controle sobre suas propriedades.
Referências:

ADUFES. Manifestação com mais de três mil indígenas é duramente reprimida em Brasília
(DF). Disponível em: <https://www.adufes.org.br/portal/noticias/28-andes/1916-
manifestacao-com-mais-de-tres-mil-indigenas-e-duramente-reprimida-em-brasilia-df.html>.
Acesso em: 2 fev. 2021.

FERNANDES, Natalia Morato. A cultura como direito: reflexões acerca da cidadania


cultural. Semina: Ciências Sociais e Humanas, v. 32, n. 2, p. 171–182, 8 fev. 2013.
Disponível em: <https://doc-0s-50-apps-
viewer.googleusercontent.com/viewer/secure/pdf/pnso42b77s2h1mq2etuaecaeo709qsai/918lh
ubpacf1jf3s39behmlhrpuq43nq/1612294050000/drive/02355219521070952114/ACFrOgCjK
Ay0iJtCX2DucV4fcEasOZiwpaGqdNgF1Uf-qhff7ut7Y4yYI7fRRgJu8ysmSeLDSZkd-8>.

GONÇALVES, Alicia Ferreira. Sobre o conceito Cultura na Antropologia. CADERNOS DE


ESTUDOS SOCIAIS - Recife, v. 25, n. 1, p. 61–74, 1990. Disponível em: <https://doc-0g-50-
apps-
viewer.googleusercontent.com/viewer/secure/pdf/pnso42b77s2h1mq2etuaecaeo709qsai/qv7t1
fnddaj2uberundnl448htmb4v8q/1612294125000/drive/02355219521070952114/ACFrOgCSu
SCNnqlvpNiFzDK_Kot8UJA1lC4j2PRy46ap-u435wxH5zsrzlZ_Y-_pSCHDSwZd30cMr_>.

LIMA, Ana Lúcia Sales De. A Companhia de Jesus e o Desafio da Catequização do Gentio:
uma dupla batalha contra os costumes indígenas e a exploração imposta pelos colonizadores
portugueses. 19 set. 2011, [S.l: s.n.], 19 set. 2011. p. 2221–2232. Disponível em:
<http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/293.pdf>.

SILVA, Maria Socorro Pimentel Da. AS LÍNGUAS INDÍGENAS NA ESCOLA: DA


DESVALORIZAÇÃO À REVITALIZAÇÃO. Signótica, v. 18, n. 2, p. 382–395, 2007.
Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/sig/article/view/2793>.

<https://www.youtube.com/watch?v=cQkA5PDow2s>
Acesso em: 03/02/2021

<https://www.brasildefato.com.br/2017/04/25/policia-reprime-manifestacao-de-indigenas-
contra-retrocessos-no-parlamento>
Acesso em: 01/02/2021

<https://www.youtube.com/watch?v=cxdvxwC51Jg>
Acesso em: 03/02/2021

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