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CAPÍTULO 1

Introdução ao Estudo da Prótese


Parcial Removível

Adriana da Fonte Porto Carreiro, André Ulisses Dantas Batista e


Arcelino Farias Neto

Introdução O principal objetivo da PPR, além


de repor os dentes e tecidos ósseos-
A Prótese Dentária é definida como -mucosos, é preservar e proteger as
a área da Odontologia pertinente à estruturas remanescentes. Entretanto,
restauração e manutenção da função há cerca de 25 anos, existia uma opi-
oral, conforto, aparência e saúde do nião generalizada de que as PPRs, em
paciente, por meio da restauração dos especial aquelas de extremidade livre,
dentes naturais e/ou da reposição dos estavam geralmente associadas com
dentes perdidos e tecidos orais e ma- lesões periodontais e cáries. Esta opinião
xilofaciais contíguos com substitutos era suportada por estudos clínicos que
artificiais. Nesse contexto, a Prótese mostravam equivocadamente um efeito
Parcial Removível (PPR) é a área da negativo sobre os dentes remanescentes
Prótese Dentária responsável pela repo- e o periodonto.4-7
sição de dentes e estruturas adjacentes O progresso científico, em especial
em pacientes parcialmente edêntulos, em Periodontia, como o consenso de
por substitutos artificiais que podem que o biofilme dentário é o principal,
e devem ser removidos da boca para e, provavelmente, o único responsável
higenização adequada.1 pela gengivite e periodontite, estimulou
A reposição de dentes perdidos por os protesistas na aplicação deste novo
próteses dentárias é um procedimento conhecimento na manutenção dos seus
bastante antigo. Alguns dos princípios tratamentos.8,9 Assim, hoje se sabe que
básicos para confecção de PPR surgi- o sucesso da reabilitação com PPR está
ram há mais de 100 anos na literatura diretamente relacionado à importância
odontológica, como os conceitos de dada à higiene bucal e controles periódi-
retenção e reciprocidade dos grampos cos, visto que a presença de tal aparelho
e a função dos apoios oclusais, discu- na boca aumenta a possibilidade de ade-
tidos por Driscoll,2 em 1889. Palmer,3 são de biofilme e exige mais cuidados
em 1893, já fazia considerações a res- com a higienização.10,11
peito do desenho dos componentes da Com a introdução da Odontologia
infraestrutura metálica, visando mais Preventiva, na metade do século XX,
facilidade de higienização. pôde-se perceber que os dentes naturais

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Prótese Parcial Removível Contemporânea

podem ser mantidos por toda a vida do tratamento de maneira racional e eficaz.
indivíduo. Nos Estados Unidos (EUA), Segundo Christensen,16 a manutenção
por exemplo, observou-se nas duas de dentes naturais na população norte-
últimas décadas um declínio constante americana com mais de 65 anos de idade
da prevalência de perda dentária, com aumentou de 7,4 para aproximadamente
um número crescente de pacientes 20 dentes nos últimos 40 anos. Infeliz-
retendo mais dentes e por um período mente, a preservação dos dentes ainda
maior.9,12,13 não é uma realidade que atinge todas as
Assim, com o declínio da perda populações de maneira igual, visto que
dentária de um lado, e o sucesso da os- a cárie, apenas para citar um dos fatores
seointegração e consolidação da Implan- que podem levar à perda dentária, possui
tologia do outro, criou-se um contexto em si uma natureza biopsicossocial.
no qual se passou a questionar sobre Levantamentos epidemiológicos
o futuro dos procedimentos protéticos, realizados no Brasil, entre 1986 e 2003,
pois se acreditou erroneamente que a mostram que, embora a prevalência de
demanda por PPR iria diminuir. cárie tenha diminuído, permanecem
Portanto, o presente capítulo tem grandes disparidades entre as regiões,
o objetivo de discutir a necessidade e mesmo quando se consideram outros
demanda por serviços protéticos num indicadores socioeconômicos, como
futuro próximo, bem como as indica- renda, escolaridade e até mesmo o porte
ções e contraindicações da PPR e a do município. Crianças com 12 anos de
classificação das arcadas parcialmente idade que vivem no Nordeste em muni-
edêntulas. cípios com até 5 mil habitantes, estudam
em escola pública, vivem na zona rural e
são negros ou pardos, têm CPO-D médio
O Futuro da Prótese Parcial (número de dentes permanentes caria-
Removível dos, perdidos e restaurados) de 3,48.
Na outra ponta, crianças que vivem na
Durante muitos anos, a Odontologia região Sul, em municípios com mais de
foi dominada por procedimentos cirúrgi- 100 mil habitantes, estudam em escola
cos e protéticos. Dentes eram extraídos privada da zona urbana e são brancos,
rotineiramente visando à confecção de apresentam um CPO-D cinco vezes
prótese totais (PT). Assim, até a década menor (0,70).12
de 1940, acreditava-se que a perda de Segundo dados do levantamento das
dentes e, consequentemente, o edentu- condições de saúde bucal da população
lismo, eram consequências inevitáveis brasileira, realizado pelo Ministério da
do envelhecimento humano.14,15 Saúde em 2003, diferenças regionais
Apenas em meados do século XX, também são marcantes quanto ao uso
com a introdução da Odontologia Preven- e à necessidade de prótese dentária. Os
tiva, esse pensamento começou a mudar. adolescentes das regiões Norte e Nor-
Desde então, os pacientes passaram a deste apresentam as porcentagens mais
ter uma melhor orientação sobre higiene altas de uso de algum tipo de prótese
bucal e dieta, além de mais acesso aos dentária, enquanto para adultos e idosos,
métodos preventivos, tornando-se possí- um maior uso foi constatado na região
vel ainda o diagnóstico precoce de lesões Sul. As regiões Norte e Nordeste tam-
cariosas e doença periodontal e o seu bém apresentaram maior necessidade

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Introdução ao Estudo da Prótese Parcial Removível

de prótese dentária, sendo as regiões dentária (TPD), e utilizada por vários anos
com maior porcentagem de pessoas como um tratamento definitivo.
com necessidade de próteses totais. De acordo com Zarb et al.,18 vários
De maneira geral, cerca de 85% da po- fatores, como atitude, comportamento,
pulação brasileira adulta e quase 99% atendimento odontológico e as caracte-
dos idosos usavam ou necessitavam rísticas do sistema de saúde, desempe-
de algum tipo de prótese dentária. Além nham um papel importante na origem do
disso, o número de pessoas idosas que edentulismo. Além disso, existe uma rela-
não possuíam sequer um dente funcional ção significativa entre o estado edêntulo
ultrapassa 56%. Entre os idosos, mais de e as preocupações físicas, em geral, as-
22% não possuíam nenhuma das próte- sociadas com baixos níveis ocupacionais.
ses totais e mais de 40% necessitavam Assim, o edentulismo é resultante de uma
de pelo menos uma prótese total.17 combinação de determinantes culturais e
Dados mais recentes do Ministério financeiros e da atitude do paciente frente
da Saúde (2010) mostraram que 69% da à doença, assim como do tratamento por
população brasileira adulta ainda neces- ele recebido no passado.
sita de algum tipo de prótese dentária. Douglass e Watson15 realizaram um
Observou-se que esta necessidade en- estudo prospectivo bastante interessan-
contra-se fortemente associada a fatores te, onde puderam observar que, ao con-
socioeconômicos. trário de outras hipóteses pesquisadas e
Assim, percebe-se que no Brasil atual apesar do bem documentado declínio da
há uma grande demanda de tratamentos perda de dentes e do edentulismo, a ne-
protéticos, que de maneira geral não são cessidade de Prótese Parcial Fixa (PPF)
oferecidos à população nos serviços pú- e PPR aumentará nos EUA. De acordo
blicos, fazendo com que esta permaneça com os autores, mesmo se protesistas e
nessa condição de edêntula ou busque clínicos dedicassem 100% de seu tem-
soluções alternativas, que podem vir a po clínico produzindo exclusivamente
comprometer ainda mais a situação. Por- próteses parciais (fixa ou removível),
tanto, para os grupos menos favorecidos, uma grande e crescente necessidade
o futuro tão sonhado seria na verdade de tratamento protético excederia a
uma PPR retida a grampo com infraes- disponibilidade desse serviço nos anos
trutura metálica, confeccionada por um de 2005, 2010 e 2020 (Tabela 1.1). Nesse
cirurgião-dentista, visto que a realidade sentido, pelo menos dois fatores deve-
atual ainda é PPR mucossuportada, rão contribuir para tal fato: o aumento
muitas vezes confeccionada por práticos da expectativa de vida e o substancial
ou diretamente pelo técnico em prótese crescimento populacional.

Tabela 1.1: Projeções acerca da necessidade de prótese parcial fixa (PPF) e removível (PPR) nos Estados Unidos
(em milhões de horas).

Ano PF + PPR = Total - Suprimento anual = Meta não atingida


2005 363,1 + 172,3 = 535,4 - 46,7 = 488,7

2010 378,2 + 185,3 = 563,5 - 47,8 = 516,7

2020 402,5 + 207,0 = 609,4 - 49,2 = 560,2


Adaptado de Douglass e Watson (2002).

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Prótese Parcial Removível Contemporânea

No Brasil, bem como nos diversos Apesar disso, alguns autores também
países do mundo, o aumento da ex- estimam aumento da necessidade de PT.
pectativa de vida é um fenômeno bem Segundo Douglass, Shih e Ostry,21 esti-
estabelecido, em razão dos avanços mativas baseadas em dados de pesquisa
dos estudos no campo da Saúde e da epidemiológica nos EUA indicam que o
melhora na qualidade de vida. Segundo edentulismo tem diminuído 10% a cada
os dados da Organização Mundial da década e que 90% dos adultos edêntu-
Saúde (OMS), estima-se que no ano los têm e usam próteses totais. Quando
2025 seremos a sexta maior população um número de adultos em cada idade
idosa do mundo e, pela primeira vez na específica é multiplicado pela porcenta-
história do Brasil, teremos mais idosos gem dos que precisam de uma prótese
do que crianças. Nos EUA, seguindo a total maxilar ou mandibular, os resultados
tendência mundial, a expectativa de vida sugerem que a população adulta que
da população aumentou de 45 anos, em precisa de uma ou duas próteses totais
1930, para quase 80 anos em 2000.16 aumentará de 33,6 milhões em 1991 para
Essa transição demográfica, que 37,9 milhões de adultos em 2020. Assim,
repercutirá nas necessidades de trata- o declínio no edentulismo experimentado
mento odontológico, é um fenômeno a cada década pelos últimos 30 anos
mundial, caracterizado principalmente estaria mais que compensado pelos 79%
pelo declínio da taxa de fecundidade,
de aumento na população adulta com
diminuição da taxa de mortalidade nas
mais de 55 anos de idade.
idades avançadas e aumento da expec-
Apesar das projeções futuras de
tativa de vida, tendo como consequência
aumento da necessidade protética,
direta uma mudança na estrutura etária da
passou-se a questionar, a partir da con-
população.19 Faz-se oportuno ressaltar,
solidação da Implantologia no campo da
nesse momento, a importância da Odon-
reabilitação oral, se a PPR e PPF não es-
togeriatria, que atenderá às necessidades
e particularidades específicas desses tariam, de fato, fadadas ao desuso, visto
pacientes com idade avançada. que os implantes apresentam algumas
Assim, a associação entre redução do vantagens como ausência de desgaste
edentulismo, aumento da expectativa de de estrutura dentária sadia e resultado
vida e crescimento populacional indica estético mais satisfatório, devido à au-
que uma proporção maior de adultos sência de grampos.
e idosos estará parcialmente edêntula, Entretanto, nem todos os casos po-
necessitando de reabilitação com PPF derão ser resolvidos por meio do uso de
ou PPR. Por conta desta mudança nos implantes. Segundo Jiménez-López,22
padrões epidemiológicos, acredita-se que existem condições sistêmicas que afe-
poderá ocorrer diminuição na demanda tam negativamente a osseointegração,
por PT, com consequente aumento ou por interferirem no processo regenerativo
substituição por próteses parciais fixas e no nível da microcirculação sanguínea,
removíveis, principalmente entre os gru- como, por exemplo, diabetes, altera-
pos socioeconomicamente menos favo- ções hepáticas graves e uso crônico de
recidos.13 Ainda, acredita-se que haverá fumo. Não são casos de contraindica-
uma possível redução da necessidade de ção absoluta, mas o paciente deve ser
PT em torno de 50 a 60% nos próximos conscientizado de que seu caso tem um
20 anos na Europa.20 prognóstico menos favorável.

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Introdução ao Estudo da Prótese Parcial Removível

Outro fator importante é a condição Diversos estudos apontam que a


financeira dos pacientes, fato que limita maior parte dos cirurgiões-dentistas igno-
a sua indicação. Além disso, existem ra ou negligencia os princípios básicos e
situações em que o paciente tem con- fundamentais que regem a confecção de
dições financeiras, mas não possui uma PPR, delegando o seu planejamento
condições ósseas para a realização do ao TPD.25 Em média, apenas 15% dos
implante, como nos casos de reabsor- modelos enviados aos laboratórios para
ções ósseas. Casos clínicos com espa- a confecção de PPR são acompanhados
ço protético amplo e pouca quantidade de um planejamento.26-32 Provavelmente,
óssea serão dificilmente selecionados se forem considerados apenas os pla-
para implantes quando o paciente não nejamentos nos quais o clínico realizou
desejar realizar um enxerto ósseo. o delineamento, esse valor será ainda
Logo, existem casos nos quais nem menor. Navarro28 relatou que 94% dos
implantes e nem PPF são uma alternati- planejamentos foram realizados pelos
va viável, seja por questões biológicas, laboratórios, enquanto dos 480 modelos
técnicas ou financeiras. Assim, a única de trabalho examinados não encontraram
alternativa seria a PPR convencional, nenhum tipo de planejamento em 13%
que cumpre todos os requisitos que a dos casos. Vieira e Todescan31 encontra-
reabilitação oral mais sofisticada possa ram 99,5% dos modelos sem nenhum tipo
oferecer. de planejamento enviado pelo CD.
Segundo Bonachela e Telles,23 a PPR Recentemente, Batista e colabora-
convencional apresenta algumas vanta- dores avaliaram o planejamento de PPR
gens em relação a outros recursos reabili- em modelos enviados a laboratórios de
tadores que a mantém consolidada dentro João Pessoa.32 Foram fotografados 40
de um contexto social e profissional. São modelos por laboratório, num total de
elas: relação custo/benefício; requer pou- 120 modelos de trabalho e verificaram
co desgaste da estrutura dentária; fácil que 92 modelos (76,7%) não apresenta-
manutenção quando comparada com ram planejamento. Além disso, nenhum
outros tipos de prótese; solução eficiente apresentou referências de plano de
para situações mecanicamente difíceis de inserção ou presença de pinos-guia. O
resolver; menos tempo para a sua reali- cálculo do Índice de Preparo de Boca
zação, quando comparada com outros (IPB) para a avaliação da distribuição
tipos de próteses; versatilidade. Através dos nichos ou descansos, oclusais e
dela, restauram-se tanto as arcadas que de cíngulo, mostrou que 86 modelos
perderam só um dente, como aquelas que (71,7%) foram classificados como ruim,
ficaram com apenas um, podendo ser ou seja, não possuíam nenhum tipo de
indicada e empregada em praticamente preparo de boca básico para receber
todos os casos.24 as próteses. Os modelos também apre-
Consequentemente, mais importante sentaram alta porcentagem de defeitos,
do que conhecer as indicações de uma que poderiam inclusive comprometer a
PPR é a conscientização do próprio confecção adequada das próteses pelos
cirurgião-dentista (CD) a respeito dos laboratórios. Portanto, pode-se atribuir à
bons resultados que ela pode oferecer. negligência do CD o considerável número
Se o profissional for descrente no que faz, de fracassos que ocorrem com este tipo
torna-se difícil esperar o sucesso deste de aparelho, além de sua fama no meio
sistema reabilitador. popular de ser “um aparelho que estraga

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Prótese Parcial Removível Contemporânea

os dentes e é apenas uma etapa antes apenas um dente. Entretanto, de maneira


da prótese total”. geral, a PPR encontra-se indicada para
Pesquisa semelhante foi desenvol- os casos de arcadas parcialmente edên-
vida no Rio Grande do Norte por Farias tulas, onde a prótese parcial fixa esteja
Neto e colaboradores33 em 2011. Foram contraindicada por razões biomecânicas.
examinados 90 modelos enviados a À medida que a via de suporte dentário vai
laboratórios de prótese para confecção se escasseando, os recursos propiciados
de estrutura metálica de PPR. A maioria pelo suporte mucoso vão sendo recruta-
dos modelos examinados (51%) não dos no planejamento do aparelho remo-
continha informação sobre o desenho vível, com o intuito de poupar os dentes
da estrutura metálica, o que demonstra remanescentes.34
que esta função foi delegada ao técnico Ainda, devido ao menor custo biológi-
em Prótese Dentária. Com relação à qua- co de estrutura dentária, a PPR encontra-
lidade do preparo dos elementos pilares, -se indicada para pacientes que planejam
53% apresentaram área retentiva inade- futuramente receber uma prótese sobre
quada e 49% dos planos guia estavam implantes.
insatisfatórios. Assim, seguem algumas situações
Assim, a preocupação com o ensino nas quais a indicação da PPR só poderia
nas universidades é fundamental, visto ser substituída diante da viabilidade de
que o futuro da PPR pertence a jovens uma reabilitação com implantes.34,35
alunos. O embasamento científico re- t Na ausência de pilar posterior uni ou bi-
lacionado à biomecânica das PPRs e lateral. A PPF encontra-se contraindica-
sua proservação são fatores decisivos da devido a sua limitação biomecânica
no que diz respeito à longevidade deste em decorrência do braço de alavanca
recurso reabilitador. É imprescindível que formado pela presença de pônticos sus-
seja muito bem esclarecida a distinção pensos (cantilevers) (Figs. 1.1 a 1.3).
entre as funções do CD e do técnico em t Na presença de espaço edêntulo
prótese dentária (TPD). O primeiro, com extenso ou múltiplo que coloque em
o auxílio do delineador, deve planejar e risco a integridade da PPF.
desenhar a infraestrutura metálica, visan- t Dentes suporte com sustentação
do sempre a preservação do sistema de periodontal reduzida, o que impli-
suporte e, assim, discutir e supervisionar caria no envolvimento de maior nú-
o trabalho do laboratório. O TPD, de mero de dentes e confecção de uma
acordo com as informações transmitidas PPF extensa.
pelo clínico, deve executar adequada- t Perda óssea extensa, principalmente
mente todos os passos para confecção da região anterior da maxila, onde se
da PPR. faz necessária a reposição de suporte
do lábio. Uma prótese parcial fixa, nes-
sa situação, implicaria na presença de
Indicações
pônticos longos e muito inclinados ou
A prótese parcial removível é o tipo muito curvos no sentido palatovesti-
de prótese mais versátil que existe, po- bular, evidenciando a artificialidade
dendo ser empregada nas mais diversas do trabalho realizado.
situações, desde arcadas com apenas um t Necessidade de recolocação ime-
dente ausente até casos onde permaneça diata dos dentes anteriores, empre-

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Introdução ao Estudo da Prótese Parcial Removível

Fig. 1.1: Arcada mandibular parcialmente edêntula, sem Fig. 1.2: Prótese parcial removível (PPR).
a presença de dentes posteriores que pudessem servir
de suporte para a prótese parcial fixa (PPF).

Fig. 1.3: Paciente reabilitada com prótese total (PT) na arcada superior e prótese parcial removível (PPR)
na inferior.

gando-se no pós-cirúrgico uma PPR t Em Odontopediatria, como mantene-


provisória. dor de espaço, enquanto se aguarda
t Como auxiliar na contenção de fratu- a erupção dos dentes permanentes.
ras maxilares. t Reabilitação de pacientes com fissu-
t Como aparelhos temporários e orien- ras palatinas e grandes discrepâncias
tadores nas reabilitações orais, até que maxilomandibulares.
o tratamento final seja realizado. t Fator de ordem econômica, quando a
t Como protetor de implantes e próte- condição financeira do paciente invia-
se temporária, durante o período de bilizar o pagamento de reabilitações
osseointegração. com PPF ou prótese sobre implantes.

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Prótese Parcial Removível Contemporânea

Contraindicações Assim, a classificação de Kennedy36


está dividida em 4 grupos.
As contraindicações estão restritas
t Classe I: edêntulo posterior bilate-
aos pacientes com problemas motores,
ral. Ausência de suporte de dentes
debilidade mental ou, ainda, com higiene
pilares posteriores em ambas as
bucal inadequada.34
hemiarcadas. Suporte dentomucoso
Com relação à higiene bucal, acredi-
bilateral (Fig. 1.4A).
tamos que esta pode ser uma contrain-
dicação temporária, se o paciente for t Classe II: edêntulo posterior unila-
devidamente orientado a executar higiene teral. Ausência de suporte de dente
bucal efetiva. Nesse sentido, é de extrema pilar posterior em uma hemiarcada.
importância que o paciente usuário de Suporte dentomucoso unilateral
PPR seja orientado quanto à patogenici- (Fig. 1.4B).
dade do biofilme e que o cirurgião-dentista t Classe III: edêntulo unilateral com
preocupe-se com o controle profissional do pilar posterior. Suporte geralmente
biofilme dentário programando controles e dentário, podendo ser eventualmente
mostrando ao paciente que o tratamento dentomucoso devido a sua extensão
não termina quando a prótese é instalada. (Fig. 1.4C).
É óbvio que se deve dar importância igual- t Classe IV: edêntulo na região anterior
mente aos princípios técnicos envolvidos cruzando a linha média (Fig. 1.4D).
no planejamento e na execução clínica e
Complementando a classificação
laboratorial da PPR.
de Kennedy, Applegate38 acrescentou
algumas regras que tornaram a classifi-
Classificação das Arcardas cação das arcadas para edêntulos mais
Parcialmente Edêntulas precisa.

t A classificação deverá ser realizada


Com o intuito de facilitar o enten-
após adequação do meio bucal, vis-
dimento da Prótese Parcial Removível
to que extrações posteriores podem
(PPR), as arcadas parcialmente edêntulas
modificá-la.
são classificadas de acordo com a rela-
ção do espaço protético com os dentes t Se o segundo molar estiver ausente
remanescentes, num sistema proposto e não houver intenção de repô-lo,
por Kennedy, em 1925.36 A necessidade este não entra na classificação. Vale
o mesmo para o terceiro molar.
de uma classificação surgiu diante da
enorme variedade de combinações pos- t Se o 3º molar estiver presente e for
síveis existentes entre dentes e espaços indicado como dente pilar, entra na
edêntulos, que de acordo com Cummer37 classificação.
é de 131.072. Assim, essa classificação t Os espaços mais posteriores regem
tem o objetivo de facilitar a comunicação a classificação (Figs. 1.5A,B).
tanto dos CD entre si, quanto destes t Na existência de mais de um espaço
com o técnico em prótese dentária, bem edêntulo na mesma arcada, utiliza-se
como facilitar o ensino da PPR, através após a classificação de Kennedy o
do agrupamento de situações semelhan- termo “modificação”, seguido de um
tes que facilitam uma sistematização do algarismo arábico que represente a
planejamento e tratamento. quantidade de espaços edêntulos pre-

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Introdução ao Estudo da Prótese Parcial Removível

sentes além daquele que está determi- Considerações Finais


nando a classificação. (Figs. 1.6A,B)
O conhecimento de prótese parcial
t Para determinar a modificação não
removível para sua prática clínica deve
se leva em conta o número de dentes
ser bem fundamentado, pois a reabilita-
perdidos, mas sim a quantidade de
ção oral com PPR faz e ainda fará parte
áreas edêntulas (Figs. 1.7A, B e C).
da clínica odontológica por muitos anos.
t Classe IV nunca apresenta modifi- O aumento na expectativa de vida da
cação. Qualquer espaço adicional população e o modelo assistencial ainda
implicará em outra classificação (Figs. está longe de extinguir a perda den-
1.8A e B) tária, apesar da já observada redução

A B

C D
Fig. 1.4: Desenho de arcadas parcialmente edêntulas com pilares distribuídos segundo a classificação de Kennedy:
Classe I (A), Classe II (B), Classe III (C) e Classe IV (D).

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Prótese Parcial Removível Contemporânea

A B
Fig. 1.5: (A) Arcada maxilar Classe III de Kennedy (edêntulo unilateral com pilar posterior). (B) A perda do dente 27
faz com que o espaço aumente para posterior, criando um espaço sem pilar posterior. A arcada agora é classificada
como Classe II de Kennedy.

A B
Fig. 1.6: (A) Arcada maxilar Classe I de Kennedy (ausência de pilar posterior bilateral) com espaço adicional do dente
12. A arcada é classificada como Classe I de Kennedy modificação 1. (B) A perda do dente 22 gera uma área edêntula
adicional. A arcada agora será classificada como Classe I de Kennedy modificação 2.

do edentulismo. Além disso, diferenças anseios, expectativas, necessidades e


socioeconômicas contrastantes em oportunidades bastante distintas. Sendo
nossa sociedade produzem realidades assim, cabe ao protesista e clínico geral
sociais completamente diferentes, com que reabilita os pacientes parcialmente

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Introdução ao Estudo da Prótese Parcial Removível

B C
Fig. 1.7: (A) Arcada maxilar Classe I de Kennedy. (B) A perda do elemento 22 gera um espaço adicional, que não muda
o tipo da Classificação, por estar localizado anteriormente. Porém esse espaço muda a quantidade de áreas edêntulas.
O arco agora é classificado como Classe I de Kennedy modificação 1. (C) A perda dos dentes 21 e 22 continua gerando
apenas uma área edêntula adicional. O arco permanece como Classe I de Kennedy modificação 1.

edêntulos com esse tipo de prótese, a pacientes edêntulos. Além disso, ela é
responsabilidade de um planejamento mais conservadora do que a PPF e pode
bem embasado, e o seguimento de todas ser utilizada como prótese temporária em
as fases clínicas para obter o sucesso pacientes que serão reabilitados com
no tratamento, devolvendo as funções próteses sobre implantes em um futuro
mastigatória, estética e fonética aos próximo.

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Prótese Parcial Removível Contemporânea

A B
Fig. 1.8: (A) Arcada maxilar Classe IV de Kennedy. (B) A perda do dente 26 gera um espaço adicional, que muda o
tipo da Classificação, por estar localizado posteriormente. A arcada agora é classificada como Classe III de Kennedy
modificação 1 (edêntulo unilateral com pilar posterior).

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