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UNIVERSIDADE VILA VELHA

ARQUITETURA E URBANISMO

LUISA QUADROS ZIPPINOTTI DE LIMA

CASA-ABRIGO:

ARQUITETURA PARA MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

VILA VELHA

2020
LUISA QUADROS ZIPPINOTTI DE LIMA

CASA-ABRIGO:

ARQUITETURA PARA MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso


de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Vila Velha
com requisito parcial para obtenção do título de Arquiteto
e Urbanista.

Profa.Dra. Orientador(a): Simone Neiva Loures.

VILA VELHA

2020
LUISA QUADROS ZIPPINOTTI DE LIMA

CASA-ABRIGO:

ARQUITETURA PARA MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Arquitetura e Urbanismo


da Universidade de Vila Velha como requisito parcial para obtenção do título de
Bacharel em Arquiteto e Urbanista.

Aprovado em ____ de __________ de 2020.

COMISSÃO EXAMINADORA:

Prof.a Dra. Simone Neiva


Universidade Vila Velha
Orientadora

Prof.a Dra. Melissa Ramos da Silva Oliveira


Universidade Vila Velha
AGRADECIMENTOS
RESUMO

A violência doméstica no Brasil é um crime estrutural que mata mulheres brasileiras


todos os dias. Políticas públicas como a Lei Maria da Penha e a Delegacia da Mulher
são uns dos maiores impactos na luta pela igualdade dos direitos das mulheres e
contribuem diariamente para mudanças no cenário de uma sociedade machista. O
Estado é o maior responsável em fornecer amparo às vítimas de violências, e como
principal forma de acolhimento o Brasil conta com as Casas-Abrigo. O estudo ressalta
a relevância desse tipo de trabalho, com intuito de revisar e questionar a forma como
o serviço é prestado atualmente, não só no estado do Espírito Santo como no país,
corroborado por uma revisão bibliográfica, dados no âmbito nacional e estadual e
entrevistas disponíveis na Internet. A partir dos estudos de caso presentes nesta
monografia é possível definir um programa de necessidades e propor um novo modelo
de Casa-Abrigo para o Espírito Santo, de forma que a arquitetura propicie uma melhor
qualidade de vida para as abrigadas.

Palavra-chave: Mulher. Violência doméstica. Casa-Abrigo.


ABSTRACT

In Brazil, domestic violence is a structural crime that kills brazillian women every day.
Public policies like “Lei Maria da Penha” (A brazilian law that seeks to protect and
provide for women who suffered domestic violence) and “Delegacia da Mulher”
(Precints dedicated on assisting women) are the most impactful policies in the fight for
equality in women’s rights, and they contribute daily for the changes in the sexist
society. The estate is the major accountable for providing support for victims of
violence, and in Brazil the main way used for refuge in these cases are the “Casas-
Abrigo” (Shelters for victims of domestic violence). This study shows the importancy of
these kind of service with the intent to revise and question the way this service is
provided nowadays, not only in the whole country but on the “Estado do Espirito Santo
( A state in Brazil), backed by a literature review, data gathered in a national and state
scope and interviews available online. Starting from the studies of cases present in the
monography is possible to define a list of necessities to propose a new model of
women shelter for “Espirito Santo”, a model where the victims have better living
conditions, and how Architecture can make these improvements happen.

Keyword: Women. Domestic Violence. Women Shelter.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Planta baixa térreo, sem escala. ............................................................... 36


Figura 2. Casa-Albergue KWIECO ........................................................................... 37
Figura 3. Casa-Albergue KWIECO ........................................................................... 37
Figura 4. Casa-Albergue KWIECO ........................................................................... 38
Figura 5. Planta baixa térreo, sem escala. .............................................................. 39
Figura 6. Planta baixa primeiro pavimento, sem escala. .......................................... 40
Figura 7. Casa Ada e Tamar .................................................................................... 41
Figura 8. Casa Ada e Tamar .................................................................................... 41
Figura 9. Casa Ada e Tamar .................................................................................... 42
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1- Percepção popular sobre o machismo no Brasil. .................................... 17


Gráfico 2- Evolução da taxa de homicídios femininos no Brasil, por raça/cor (2008-
2018) ......................................................................................................................... 18
Gráfico 3 – Distribuição de homicídio de mulheres por região no ES ...................... 20
Gráfico 4 – Evolução mensal de homicídio de mulheres no ES ............................... 20
Gráfico 5- Atitude das entrevistadas em relação à última agressão ......................... 23
Gráfico 6- Percepção popular dos motivos que levam a mulher a não denunciar seu
agressor .................................................................................................................... 23
Gráfico 7- Conhecimento popular sobre serviços de proteção prestados à mulher: 30
Gráfico 8- Quanto as entrevistadas conhecem sobre a Lei Maria da Penha ........... 32
LISTA DE TABELA

Tabela 1. Programa de necessidades ...................................................................... 43


LISTA DE ABREVIATURAS

CAES Casa-Abrigo Estadual Maria Cândida Teixeira

CEDIMES Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher do Estado do Espírito


Santo

CIDH Comissão Interamericana de Direitos Humanos

CIM Centro Integrado da Mulher

CNDM Conselho Nacional dos Direitos da Mulher

CR Centro de Referência de Atendimento a Mulher

CREAS Centro de Referência Especializado de Assistência Social

DDM Delegacias de Defesa da Mulher

DEAM Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher

ES Espírito Santo

FBSP Fórum Brasileiro de Segurança Pública

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

KWIECO Kilimanjaro Women Information Exchange & Consultancy Organization

MMIRDH Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos

NUDEM Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher

ONG Organização Não Governamental

ONU Organização das Nações Unidas

PEPMES Plano Estadual de Políticas para as Mulheres

PNE Portador de Necessidades Especiais

SESP Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social

SNPM Secretária Nacional de Políticas para as Mulheres


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ............................................................................ 12
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO E JUSTIFICATIVA .................................................... 12
1.2 OBJETIVOS.................................................................................................... 13
1.2.1 Objetivos gerais ............................................................................................. 13
1.2.2 Objetivos específicos..................................................................................... 14
1.3 METODOLOGIA ............................................................................................. 14
1.4 ESTRUTURA DO TRABALHO ....................................................................... 15
2. CONTEXTUALIZAÇÃO .............................................................. 16
2.1 A VIOLÊNCIA CONTRA MULHER ................................................................. 16
2.1.1 Violência em dados: Espírito Santo.............................................................. 19
2.2 VIOLÊNCIA DOMÉSTICA .............................................................................. 20
2.2.1 Violência doméstica na pandemia do Covid-19 ........................................... 23
2.3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA MULHER .. 25
2.3.1 Delegacia especializada de atendimento à mulher ..................................... 28
2.3.2 Lei Maria da Penha ......................................................................................... 30
2.4 CASAS-ABRIGO PARA MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
32
3. REFERêNCIAS PROJETUAIS.................................................... 35
3.1 CASA ALBERGUE KWIECO .......................................................................... 35
3.2 CASA ADA E TAMAR- ABRIGO PARA VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA 39
3.3 PROGRAMA DE NECESSIDADES ................................................................ 43
4. CONSIDERAÇÕES PARCIAIS ................................................... 44
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................... 45
1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata em um primeiro momento do desenvolvimento de uma


monografia que visa colher dados e publicações diversas sobre o tema de violência
doméstica, validando a proposta de um novo projeto de Casa-Abrigo para o estado
do Espírito Santo em que as abrigadas se sintam protegidas e fortalecidas pelo
novo modelo de serviço.

Esta monografia aponta as mudanças ao longo do tempo e como a movimentação


das mulheres em busca de seus direitos afeta diretamente a forma como o tema é
tratado atualmente. É importante compreender as medidas que foram adotadas,
algumas ainda que tardias, e como isso impacta nos estados brasileiros, sendo
esses impactos visíveis através dos dados presentes nas pesquisas realizadas ao
longo dos anos, principalmente no Espírito Santo.

No decorrer do estudo é apontado as potencialidades e limitações das atuais


políticas públicas em combate à violência contra mulher, em especial ao serviço
de acolhimento, a fim de desenvolver um projeto arquitetônico que atenda às
necessidades das vítimas, fornecendo não só proteção, mas contribuindo para
uma nova vida de superação e empoderamento.

Foram realizados dois estudos de caso: Casa-Albergue KWIECO e Casa Ada e


Tamar, em que é possível obter uma visão de como outros países lidam com a
violência contra mulher, contribuindo para a construção de um programa de
necessidades pontual que atenda a demanda das abrigadas, além de permitir
explorar diretrizes projetuais diferentes dos abrigos brasileiros.

1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO E JUSTIFICATIVA

De acordo com o Senado Federal pelo menos 36% das mulheres brasileiras já
sofreram violência doméstica (BRASIL, 2019). Entende-se que essa porcentagem

12
é um reflexo social de como a mulher é tratada no Brasil, apontando a necessidade
em tratar o tema com mais incisão, visto que a população pouco conhece sobre os
serviços de atendimento à mulher.

Atualmente, os serviços fornecidos pelo Estado do Espírito Santo não contam com
uma estruturação adequada para atendimento das vítimas e suas famílias. Com
isso, é possível utilizar da arquitetura para oferecer um atendimento mais
humanizado, redefinindo os parâmetros estruturais dos edifícios públicos,
configurando uma assistência mais humana e eficiente.

A falta de infra-estrutura adequada corrobora para que os atendimentos não


sejam efetuados como deveriam. A ausência de espaços físicos adequados
para uma escuta qualificada e sigilosa, a falta de equipamentos para
realização de atendimentos, número insuficiente de profissionais, bem como
a rotatividade de pessoal nos serviços dificulta o estreitamento dos laços
entre os serviços e a superação dos contatos individuais [...] (TELES, 2014
P. 42)

A proposta surge diante de uma pandemia que força o isolamento social, e


segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) traz como
consequência secundária o aumento no número de casos de violência doméstica
contra a mulher. Dessa forma, entende-se a necessidade de um amparo de uma
causa urgente, de teor público e a celeridade do Estado em tempos de dificuldade.

1.2 OBJETIVOS

1.2.1 Objetivos gerais

O projeto busca criar um novo modelo de Casa-Abrigo a ser inserido no estado do


Espírito Santo, através de uma pesquisa assertiva que corrobora a necessidade
de uma revisão ao serviço de acolhimento presente no Brasil. Esta iniciativa
propiciara a oportunidade de uma vivência mais saudável através de um espaço
seguro que resgate a essência das mulheres, contribuindo para seu
empoderamento.

13
1.2.2 Objetivos específicos

A fim de propor um novo parâmetro para a Casa-Abrigo do Espírito Santo que


mude a relação do estado com a forma de acolhimento das vítimas, foram
desenvolvidos objetivos específicos que atendam às necessidades em aprimorar
e qualificar o novo espaço público, dentre eles:

• Promover um local seguro, que garanta a reabilitação física e


psicológica das mulheres e seus filhos;

• Contribuir para uma relação de confiança e segurança entre o


Estado e as vítimas;

• Propor um espaço onde é possível superar a violência sofrida;

• Criar espaços que possibilitam a qualificação profissional, de


forma inclusiva ao mercado de trabalho;

• Contribuir para a prevenção da continuidade de situações de


violência.

1.3 METODOLOGIA

Este estudo tem o teor descritivo e abordagem qualitativa que analisa aspectos
exploratórios sobre o tema, com olhar direcionado às mulheres que sofrem
violência doméstica.

É importante compreender o sistema que ampara as vítimas, pois diante da análise


das políticas públicas e dados de pesquisas atuais realizados pelo Estado é
possível sugerir novas propostas que melhorem desde o atendimento inicial até o
pós-abrigamento.

14
A fim de tornar possível o objetivo previamente disposto nesta monografia, o
estudo será inicialmente estruturado de forma teórica por meio de pesquisas
bibliográficas e fontes primárias – como leis, diretrizes e normas federais e
estaduais. Com isso será possível compreender a realidade da violência doméstica
no Brasil e no Espírito Santo e as políticas públicas que contribuem para combatê-
la.

São utilizadas referências projetuais que permitem compreender a estruturação


das casas-abrigo ao redor do mundo, a fim de tomar como parâmetro suas
diretrizes projetuais e programas de necessidades, possibilitando a compreensão
das demandas fornecidas pelos abrigos. O estudo também contará com pesquisas
fornecidas pelos órgãos públicos que contextualizam a veracidade daqueles que
são afetados diretamente e indiretamente pelo tema.

1.4 ESTRUTURA DO TRABALHO

O estudo será disposto em cinco capítulos, todos contendo subcapítulos. O


primeiro capítulo serve como guia para o tema abortado ao decorrer desta
monografia, apontando as principais questões tratadas, metodologia de pesquisa
e objetivos do estudo. O segundo capítulo contextualiza os principais pontos
acerca do tema violência contra mulher, dando enfoque para o feminicídio e
violência doméstica com base em estatísticas nacionais e estaduais. Caminhando
pela história das políticas públicas brasileiras, o estudo ressalta serviços como a
Delegacia da Mulher, a Lei Maria da Penha (2006) e não menos importante, o
serviço de abrigamento Casa-Abrigo. Ainda neste capítulo são tratadas algumas
questões relevantes levando em conta o cenário atual, como a relação gênero e
raça e como a pandemia do Corona Vírus contribui para o aumento de casos de
violência doméstica.

Em seguida são apresentadas as referências projetuais Casa-Albergue KWIECO


e Casa Ada e Tamar, em ambos os casos são apontadas informações técnicas
que apresentam um panorama da realidade de cada abrigo, sempre

15
acompanhados de uma leitura que apontam as potencialidades de cada caso e o
que, possivelmente não se encaixam nos abrigos brasileiros. Por fim o capítulo
ainda desenvolve um programa de necessidades com os estudos de caso e dá
início ao desenvolvimento do projeto arquitetônico da nova Casa-Abrigo capixaba.

Como forma de finalizar a primeira parte desta monografia, o estudo apresenta


considerações parciais, expondo os principais pontos presentes no trabalho de
forma crítica que irá refletir diretamente no desenvolvimento da segunda parte do
projeto, contendo o embasamento necessário para a execução do Trabalho de
Conclusão de Curso II. Por fim são descritas as referências bibliográficas que
corroboram o estudo em questão.

2. CONTEXTUALIZAÇÃO

2.1 A VIOLÊNCIA CONTRA MULHER

A expressão violência contra a mulher é geralmente associada à ocorrência de


agressões físicas e/ou sexuais, devido a uma cultura sutil de depreciação da
mulher, mesmo com a ausência do ato agressivo propriamente dito (Santos, 2007)

Porém a concepção de violência contra mulher é bem mais ampla, visto que de
acordo com a Convenção de Belém do Pará (1994), violência contra mulher é
qualquer ação ou conduta, baseada no gênero que cause morte, dano ou
sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no
privado.

Segundo a Juíza Fabriziane Stellet Zapata (2019), de acordo com dados da


Secretaria de Segurança Pública, as violências mais informadas nas ocorrências
trazidas ao Judiciário são as violências psicológica e moral. Embora sejam menos
visíveis, são as que causam maiores estragos na vida das vítimas

16
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2019), revela que em 2018
foram registrados 66.041 casos de violência sexual, o maior número já registrado
no Brasil. Ou seja, 180 estupros por dia – maioria sofrida por mulheres – em que
mais de 75% das vítimas conheciam seus agressores. Entre os anos de 2015 e
2018 os casos de feminicídio subiram cerca de 60%, visto que, em quase 90% dos
casos, o autor do crime é o companheiro ou ex-companheiro da vítima. (FBSP,
2019)

Reconhecendo que a violência contra as mulheres constitui uma


manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e
mulheres, que conduziram ao domínio e à discriminação das mulheres por
parte dos homens e impediram o progresso pleno das mulheres, e que a
violência contra as mulheres constitui um dos mecanismos sociais
fundamentais através dos quais as mulheres são forçadas a assumir uma
posição de subordinação em relação aos homens ( Assembleia Geral da
ONU, 1993, p.1).

O Brasil é o 5° país que mata mulheres no mundo, visto que a grande causa da
violência contra mulher está no machismo estruturante da sociedade brasileira
(ZAPATA,2019). Esse fato não é apenas reproduzido por especialistas, mas é
entendido por mais da metade das brasileiras1, já que 71% considera o Brasil um
país muito machista, como mostra o Gráfico 1.

Gráfico 1- Percepção popular sobre o machismo no Brasil.

Fonte: Brasil, 2019

1 Refere-se as mulheres entrevistadas pela pesquisa Violência Doméstica e Familiar contra à Mulher
realizada pelo Senado Federal no ano de 2019.

17
Desde 2015, a Lei Nº 13.104 prevê o feminicídio como uma circunstância
qualificadora do crime de homicídio, sendo um crime por razões de gênero. É
quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar, menosprezo ou
discriminação à condição de mulher da vítima (BRASIL, 2015). O último
levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA,
revela que a taxa de mulheres assassinadas é de 4,3 para cada grupo de 100mil
mulheres, sendo as mulheres negras as principais vítimas (IPEA, 2020).

De acordo com IPEA (2020), no ano de 2018, 68% das mulheres assassinadas no
Brasil eram negras. O levantamento também aponta que entre os anos de 2017 e
2018 houve uma redução de 8,4% de homicídios de mulheres (IPEA, 2020). Porém
se observarmos o gráfico 2 é possível identificar que a situação melhorou apenas
para as mulheres não negras. Os dados escancaram que a violência não atinge a
todas da mesma forma, pelo contrário, evidenciam a existência de um racismo
estrutural e de um abismo social presente no país.

Gráfico 2- Evolução da taxa de homicídios femininos no Brasil, por raça/cor (2008-2018)

Fonte: IPEA, 2020.

Há uma hipervulnerabilização da mulher negra em relação a qualquer outro


sujeito social. Por conta de machismo e racismo, além da dificuldade de
acesso ao sistema de Justiça, quando ela chega nesses espaços sequer é
reconhecida como digna de proteção (PIMENTEL, 2020, em entrevista, n.p).

O levantamento do IPEA também mostra que a mulher negra é duplamente


vitimada: quando não é a vítima do homicídio, ela está sujeita a uma violência
indireta. O sofrimento psicológico ocasionado pela perda de seus filhos e maridos,
visto que os homens negros tem 74% a mais de chance de serem assassinados

18
(IPEA, 2020). Estas mortes tem um peso social muito grande e expressam as
falhas do Estado em garantir a integridade da maior parte da população.

2.1.1 Violência em dados: Espírito Santo

Em 2010, o Espírito Santo liderava o ranking de homicídios de mulheres no Brasil.


Com números impressionantes, o estado tinha uma taxa de 9,8 em um grupo de
100 mil mulheres, duas vezes maior que a média nacional da época
(WAISELFISZ, 2012).

Com a Lei do Feminicídio (Lei Nº 13.104) em vigor desde 2015 as taxas no estado
foram caindo, deixando de ser o número um em casos de homicídios de mulheres
no país. Em 2017, segundo levantamento realizado pelo G1 ainda era considerado
o estado a maior taxa de feminicídio da região Sudeste e o terceiro estado mais
violento do Brasil.

No ano de 2019 o levantamento anual realizado pela Secretaria de Estado de


Segurança Pública e Defesa Social – SESP revelou que o estado teve 89 casos
de assassinatos de mulheres, sendo 33 casos de feminicídios, uma taxa de 1,6
para 100mil mulheres (SESP, 2019).

Por sua vez, o levantamento do G1 de 2019 mostra que o Brasil finalizou o ano
com uma taxa de 1,2 a cada 100mil mulheres, o que mais uma vez coloca o estado
acima da média nacional quando o assunto é a morte de mulheres.

A região metropolitana do estado Espírito Santo lidera o número de casos, com


46%, seguido pela região norte do estado, com 23%, conforme apresentado
abaixo, no gráfico 3. Em relação a evolução mensal, os meses de novembro (12
casos), janeiro e abril (ambos 9 casos), foram os meses com maior incidência no
ano de 2019 (Gráfico 4).

19
Gráfico 3 – Distribuição de homicídio de mulheres por região no ES

Fonte: Sesp, 2019

Gráfico 4 – Evolução mensal de homicídio de mulheres no ES

Fonte: Sesp, 2019

2.2 VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A cada dois minutos uma mulher é agredida no Brasil. Só no ano de 2018 foram
registrados 263.067 casos de lesão corporal dolosa no âmbito doméstico (FBSP,
2019). A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340, 2006) caracteriza a violência
doméstica e familiar contra mulher como qualquer ação ou omissão baseada no
gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano
moral e patrimonial.

A Lei, que será tratada com mais afinco no decorrer dessa monografia,
exemplificada as diferentes formas de violência no âmbito doméstico, previstas no
artigo 7º, sendo elas:

20
1 – Violência física é qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal.
Comportamento que causa intencionalmente dano ou intimidação a outra pessoa.
No âmbito doméstico, quando envolve agressão direta contra pessoas queridas do
agredido ou destruição de objetos e pertences do mesmo. Tal comportamento
pode invadir a autonomia, integridade física ou psicológica e até mesmo a vida de
outro. A maioria das violências físicas causa danos psicológicos muitas vezes
irreversíveis para a mulher.

2 – Violência psicológica é quando envolve agressão verbal, ameaças, gestos e


posturas agressivas, juridicamente produzindo danos morais. Ou seja, qualquer
conduta que cause à mulher dano emocional e diminuição da autoestima ou que
lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou
controlar suas ações, comportamentos, crenças ou decisões.

3 – Violência sexual é qualquer conduta que constranja a mulher a presenciar, a


manter ou a participar de relação sexual que ela não queira, mediante intimidação,
ameaça, coação ou uso da força. Ou ainda que induza a comercializar ou a utilizar,
de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar métodos
contraceptivos, que force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição.

4 – Violência patrimonial é entendida como qualquer conduta que configure


retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de
trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos,
incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades. Essa violência é utilizada,
muitas vezes, para que a mulher passe a não ter controle sobre seus próprios
bens, ficando cada vez mais dependente do parceiro. Existem parceiros que se
apossam dos bens materiais da mulher. Alguns tentam impedir ou atrapalhar seu
trabalho, outros destroem seus pertences.

5 – Violência moral é qualquer forma de agressão à dignidade da mulher por meio


da calúnia, difamação ou injúria (BRASIL, 2006).

21
Essas agressões não ocorrem de forma isolada, e em casos extremos terminam
em feminicídio. Muitos casos são rotineiras e geram marcas profundas, não só nas
mulheres agredidas, como nas famílias que vivenciam as agressões.

O feminicídio representa a última etapa de um continuum de violência que


leva à morte. Precedido por outros eventos, tais como abusos físicos e
psicológicos, que tentam submeter as mulheres a uma lógica de dominação
masculina e a um padrão cultural que subordina a mulher e que foi aprendido
ao longo de gerações, trata-se, portanto, de parte de um sistema de
dominação patriarcal e misógino (BANDEIRA, 2013, n.p).

A violência doméstica não é apenas um conflito de casal. Ela desencadeia a


instabilidade no núcleo familiar e atinge diretamente o meio em que vivemos. Os
atos de violência iniciados dentro de casa, produzem uma violência sistêmica na
sociedade, que tem a mulher como principal alvo.
Para ZAPATA (2019), a melhor forma de combater a violência doméstica é através
de denúncias ao sistema de justiça, e que dessa forma a vítima mostra ao agressor
o seu descontentamento e a busca por proteção, com vistas a colocar fim ao ciclo
de violência.

[...]quando a mulher consegue sair de sua casa e procurar auxílio na


delegacia de polícia ou acionar a polícia militar, que chega ao local, ela envia
uma clara mensagem ao ofensor de que não aceita mais a situação de
subordinação e subjugação. É o início do rompimento do ciclo de violência,
com sinal claro por parte da vítima de que ela está buscando auxílio e
proteção e uma mensagem para o ofensor de que há limites para a sua
conduta violenta (ZAPATA, 2019, em entrevista, n.p)

Porém para a maioria das vítimas de violência doméstica o ato de procurar as


autoridades ainda não é a primeira opção, como mostra o Gráfico 5. Para 31% das
mulheres a primeira opção é não fazer nada, e apenas 17% das vítimas tendem a
denunciar nas delegacias de polícia os abusos sofridos. Para as mulheres
brasileiras, o principal motivo para não haver mais denúncias de uma agressão é
o medo do agressor, seguido pelo fato da vítima depender financeiramente dele
(Gráfico 6).

22
Gráfico 5- Atitude das entrevistadas em relação à última agressão

Fonte: Brasil, 2019.

Gráfico 6- Percepção popular dos motivos que levam a mulher a não denunciar seu
agressor

Fonte: Brasil, 2019.

2.2.1 Violência doméstica na pandemia do Covid-19

Embora a quarentena seja a medida mais segura, necessária e eficaz para


minimizar os efeitos diretos da Covid-19, o regime de isolamento tem imposto uma
série de consequências não apenas para os sistemas de saúde, mas também para
vida de milhares de mulheres que já viviam em situação de violência doméstica.

23
Sem lugar seguro elas estão sendo obrigadas a permanecer mais tempo no próprio
lar junto ao seu agressor, muitas vezes em habitações precárias, com os filhos e
vendo sua renda diminuída (FBSP, 2020).

No início do isolamento, entre os meses de março e abril de 2020 houve queda no


número de registros decorrentes de violência doméstica nas delegacias de polícia,
mas isso não significa diminuição no número de casos. O real motivo encontra-se
na dificuldade em realizar as denúncias, visto que em função do isolamento muitas
mulheres não conseguem sair de casa para denunciar ou sentem medo por
estarem constantemente na presença do agressor.

Segundo dados do FBSP, além da queda nos registros, houve diminuição no


número de medidas protetivas de urgência, principalmente nos estados do Acre e
Rio de Janeiro. Engana-se quem pensa que o número de feminicídios seguiu os
mesmos padrões de queda. Nesse mesmo período houve um crescimento de 22%
nos casos de mulheres sendo mortas por serem mulheres, em relação ao ano de
2019. Além do aumento dos casos de feminicídio, as denúncias no ligue-180 e as
chamadas para o 190 em decorrência de violência doméstica, também cresceram
em relação ao ano anterior (FBSP, 2020).

A fim de combater os crescentes números de violência doméstica durante a


pandemia foi aprovado pela Câmara Federal, a PL 1444/2020, que prevê medidas
emergenciais de proteção à mulher durante o período de calamidade pública em
decorrência da pandemia do Corona Vírus. Entre as medidas do projeto de lei
estão o menor prazo para análise dos pedidos de proteção; ampliação de vagas
em abrigos; e assegurar às mulheres de baixa renda em situação de violência
doméstica, que estejam sob medida protetiva decretada, o direito a duas cotas do
auxílio emergencial (Agência Câmara de Notícias, 2020).

24
2.3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA MULHER

O desenvolvimento desse capítulo ocorrerá diante a análise dos caminhos


percorridos pelos movimentos feministas, juntamente ao governo federal e
estadual, que consolidaram as atuais políticas públicas2 de combate à violência
contra mulher. Segundo SANTOS (2008) são identificados três momentos-chave,
que moldam o contexto atual: 1) a implantação da primeira delegacia da mulher
em São Paulo, em 1985; 2) o surgimento dos Juizados Criminais Especiais 3, a
partir de 1995; e 3) a promulgação, em 2006, da Lei no 11.340, Lei Maria da Penha.
Esta monografia dá ênfase a dois desses momentos-chaves, sendo eles, a
delegacia da mulher e a Lei 11.340/2006.

O início dos movimentos de união das mulheres no Brasil teve mais expressão ao
longo da década de 1960 e 1970, em um cenário de ditadura militar. Mulheres de
classe média, ativistas, se uniram as organizações sindicalistas que juntos lutavam
pelo direito a democracia e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres.
Esse período foi crucial, se tornando o ponto de partida de uma nova perspectiva
diante a consolidação de políticas públicas de gênero.

Ao decorrer dos anos a força do movimento feminista foi resultando na


implementação de novas ações no poder público, como a criação do Conselho
Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), em 1985, e a criação da Lei nº 10.683,
de 28 de maio de 2003, que prevê a implementação da Secretária Nacional de
Políticas para as Mulheres (SNPM), sendo esse o maior responsável pela
formulação e coordenação das políticas voltadas para mulheres no Brasil.

2 De acordo com ANDRADE (2016), políticas públicas são conjuntos de programas, ações e decisões
tomadas pelos governos com a participação de entes públicos ou privados que visam assegurar
determinado direito de cidadania para vários grupos da sociedade ou para determinado segmento
social, cultural, étnico ou econômico.
3 O artigo 14 da Lei Maria da Penha (2006) prevê os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra

a Mulher, órgãos da Justiça Ordinária com competência cível e criminal, poderão ser criados pela
União, no Distrito Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o julgamento e a
execução das causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher.

25
A trajetória do SNPM desde 2015 ocasiona um desarranjo e enfraquecimento às
políticas públicas voltadas às mulheres, O SNPM perde o status de Ministério e
passa a ser integrado ao Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos
Direitos Humanos (MMIRDH). Com a extinção do MMIRDH no ano seguinte, a
secretaria é transferida para o Ministério da Justiça e Cidadania. Em 2018 a SNPM
é mais uma vez transferida, dessa vez para o Ministério de Direitos Humanos, que
passa a se chamar, em 2019, Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos.

De acordo com o site do Senado Federal, alguns dos principais serviços que
atendem exclusivamente às mulheres e que possuem expertise no tema da
violência contra às mulheres4 são: Centros Especializados de Atendimento à
Mulher, Casas- Abrigo, Casas de Acolhimento Provisório, Delegacias
Especializadas de Atendimento à Mulher e Casa da Mulher Brasileira.

A primeira organização feminista do Espírito Santo foi criada em 1984, o Centro


Integrado da Mulher (CIM), com objetivo de atender as demandas jurídicas das
mulheres. Alguns anos depois, em 1922 foi criado o Fórum de Mulheres do ES,
uma entidade de movimento feminista que vem pautando a luta por melhores
condições de vida para mulheres e homens e o fim de todos os tipos de violação
(OLIVEIRA, 2019).

Com objetivo de propor junto aos órgãos públicos políticas sociais que garantam
os direitos das mulheres, em 15 de dezembro de 1997 é instituído pela Lei Estadual
nº 5.533, o CEDIMES, Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher do
Estado do Espírito Santo, que desde 2011, estabelecido pela Lei complementar nº
594, está ligado administrativamente a Secretaria de Direitos Humanos.

4O site do Senado Federal também informa sobre outros serviços, como: Núcleos ou Postos de
Atendimento à Mulher nas Delegacias Comuns, Juizados Especializados de Violência Doméstica e
Familiar contra à Mulher, Promotorias Especializadas, Serviços de Saúde Geral e Serviços de Saúde
voltados para o atendimento dos casos de violência sexual e doméstica. Disponível em:
<https://www12.senado.leg.br/institucional/omv/acoes-contra-violencia/servicos-especializados-de-
atendimento-a-mulher

26
Outro marco importante foi o processo de elaboração do Plano Estadual de
Políticas para as Mulheres (PEPMES). O documento foi entregue pelo movimento
de mulheres em 2014 ao Governador do Estado Renato Casagrande e foi
institucionalizado oficialmente em 29 de agosto de 2019.

De acordo com a Secretaria Estadual de Direitos Humanos, o PEPMES é um


documento amplo, que compreende a diversidade das mulheres, bem como os
seus aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais e ambientais. Entender isso
é determinante para a elaboração de respostas efetivas para as inúmeras
situações de violação dos direitos das mulheres.

Como medida de combate à elevada taxa de violência contra mulher no Espírito


Santo, foi criado O Pacto Estadual pelo Enfrentamento à Violência contra as
Mulheres, tendo como referência o pacto criado em âmbito nacional, desenvolvido
pela SNPM.

Elaborado pela primeira vez em 2011, o Pacto foi atualizado com base no cenário
atual, e institucionalizado em 2019. O documento tem como objetivo geral
‘prevenir, combater e enfrentar todas as formas de violência contra as mulheres, a
partir de uma visão integral desse fenômeno, construindo uma rede de
atendimento articulada e garantindo os direitos das mulheres’ (ESPIRITO SANTO,
2019).

O Pacto busca entender a complexidade da violência contra mulher, para que seja
possível reverter os índices alarmantes de violência, através de objetivos
específicos, sendo eles:

1- Reduzir os índices de violência contra as mulheres no estado do Espírito


Santo;

27
2- Garantir e proteger os direitos humanos das mulheres em situação de
violência, considerando as questões raciais, étnicas, geracionais, de
orientação sexual, de deficiência e de inserção social, econômica e regional;

3- Promover uma mudança cultural, a partir da disseminação de atitudes


igualitárias, da prática de valores éticos, de irrestrito respeito às diversidades
de gênero e da valorização da paz (ESPÍRITO SANTO, 2019).

O caso do Espírito Santo chama a atenção na medida em que até 2012, o


estado aparecia como campeão na taxa de homicídios femininos no país.
Embora tenha apresentado crescimento entre 2016 e 2017, parece ter havido
uma redução consistente da violência letal contra as mulheres no estado,
provavelmente reflexo das diversas políticas públicas implementadas pelo
governo no período e que priorizaram a o enfrentamento da violência
baseada em gênero (CERQUEIRA, 2019. P.36).

2.3.1 Delegacia especializada de atendimento à mulher

Pioneira na América Latina, a Delegacia Especializadas de Atendimento à Mulher5,


também conhecida como Deam, surgiu em resposta às queixas de grupos de
mulheres sobre o machismo nas delegacias de polícias, e como suas denúncias
não eram levadas a sério. Dessa forma, em 1985, admitindo o machismo endêmico
nas delegacias de polícia, criou-se a primeira Delegacia Especializadas de
Atendimento à Mulher (SANTOS, 2008).

Apesar do surgimento da primeira Deam ter conduzido grande visibilidade aos


movimentos feministas governamentais e não-governamentais da época, relatos
descritos em SANTOS (2008) evidenciam a falta de atenção a outros serviços
igualmente necessários, como casas-abrigo. “A delegacia da mulher não era
suficiente porque o problema da violência [conjugal] é estrutural e as vítimas

5 No Estado de São Paulo as delegacias especializadas no atendimento à mulher são denominadas


‘Delegacias de Defesa da Mulher’ – DDM.

28
precisam entender por que levaram tanto tempo para reagir’’ (MORENO, 1994,
apud SANTOS, 2008, p.157).

Segundo o Decreto 23.765/85, cabe à Delegacia de Defesa da Mulher investigação


e apuração dos delitos contra pessoa do sexo feminino, previstos na Parte
Especial, Título I, Capítulos II e VI, Seção I, e Título VI do Código Penal Brasileiro’6.
Sendo assim, crimes como homicídio (artigo 127) e dano (artigo 163) não eram de
competência da Deam, sendo atribuídos as delegacias de mulher apenas em
1996, através do Decreto 40.693/96.

Atualmente todas as capitais brasileiras contam com pelo menos um Deam. O


Espírito Santo possui com um total de 14 delegacias da mulher, em que todas as
cidades da Grande Vitória7, com exceção da cidade Fundão, contam com uma
Deam. As delegacias especializadas são parte da Polícia Civil, estão vinculadas
às secretarias estaduais de Segurança Pública e integram, atualmente a Política
nacional de prevenção, enfrentamento e erradicação da violência contra a mulher
(BRASIL, 2010).

Como aponta Silveira (2006), enquanto algumas cidades contam com casas-
abrigo há quase vinte anos, outras ainda não tem implantada sequer uma
Delegacia da Mulher. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – o
IBGE, revelaram que em 2018, mais de 90% dos municípios, não contavam com
uma delegacia especializada para atendimento à mulher. Apesar dos dados
revelarem um número escasso de Deams pelo Brasil, ainda sim as delegacias da
mulher são a maior referência para as brasileiras, quando o assunto é serviços de
proteção a mulher. Isso é o que aponta o gráfico 6, em que 78% das entrevistas já
ouviram falar das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.

6 Isso incluía, dentro outros, lesão corporal (Artigo 129), constrangimento ilegal (Artigo 146), ameaça
(Artigo 147), estupro (Artigo 213) e atentado violento ao pudor (Artigo 214).
7 A Região Metropolitana da Grande Vitória, é constituída pelas cidades, Vitória, Vila Velha, Serra,

Cariacica, Guarapari, Viana e Fundão.

29
Gráfico 7- Conhecimento popular sobre serviços de proteção prestados à mulher:

Fonte: Brasil, 2019.

A situação atual das Delegacias da Mulher é considerada de desempenho


questionável, além de serem um número total insuficiente. Ainda assim, é inegável
os impactos das Deams na pauta das políticas públicas contra violência à mulher,
além de terem contribuído de forma efetiva para deslegitimação da violência
sexista que atingem milhares de mulheres por todo Brasil.

Durante muito tempo, (e em algumas localidades até hoje) as delegacias se


constituíram como o único espaço de denúncia e assistência aos casos de
violência contra a mulher, revelando em certa medida que o foco das políticas
de atenção à violência contra a mulher concentrara-se na esfera da
Segurança Pública, na perspectiva da denúncia/ criminalização (SILVEIRA,
2006, p.56).

2.3.2 Lei Maria da Penha

Maria da Penha Maia Fernandes nasceu no Ceará em 1945. Maria da Penha,


como ficou conhecida, sofreu duas tentativas de homicídio por parte de seu marido,
Marco Antonio Heredia Viveros, no ano de 1983. Apesar de ser condenado duas
vezes por seus crimes, Marco Antonio permaneceu em liberdade. Sua prisão só
ocorreu graças às pressões da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH), que recebeu o caso em 1998.

30
Maria da Penha se tornou um símbolo na luta contra a violação dos direitos
humanos das mulheres. Sua história virou base para expor a omissão do Brasil em
relação aos casos de violência contra mulher, que na época encaravam essa
questão como um problema de esfera civil e não criminal. Com um atraso de doze
anos em relação aos países vizinhos como Argentina e Chile, o Brasil sanciona
em 7 de agosto de 2006 a Lei n° 11.340, popularmente conhecida como Lei Maria
da Penha, que cria mecanismo amplos para coibir, punir e prevenir a violência
doméstica contra mulher (SANTOS, 2008).

Atualmente, a principal legislação à frente do combate à violência contra mulher


no Brasil é a Lei Maria da Penha (Lei n° 11.340/2006), que estabelece medidas de
proteção e assistência as mulheres, além da criação de políticas públicas de
prevenção. Segundo as especificações da lei, a violência contra à mulher deve ser
combatida por meio da tríade prevenção-assistência-repressão. Como uma das
principais inovações, a lei prevê medidas protetivas de urgência para as vítimas,
além de equipamentos indispensáveis como: Casas-abrigo, Centros de Referência
da Mulher e Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. A lei
também reforçou o papel das Deams e atribuiu novas funções, presentes no artigo
11 da Lei Maria da Penha8.

Segundo o artigo 6º da Lei 11.340/2006 “a violência doméstica e familiar contra a


mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos”, esse artigo é
fundamental para desvincular a violência doméstica da Lei 9.099/99, que antes,
eram tratadas como “infrações penais de menor poder ofensivo”, que resultavam
em penas curtas de seis meses a um ano, ou até mesmo na distribuição de cestas
básicas, sendo assim, o autor do crime não era punido da forma devida.

Os principais avanços da Lei Maria da Penha consistem nas medidas


protetivas de urgência e na criação dos juizados especializados de Violência

8Art. 11º da lei Maria da Penha: No atendimento à mulher em situação de violência doméstica e familiar,
a autoridade policial deverá, entre outras providências: I - garantir proteção policial, quando necessário,
comunicando de imediato ao Ministério Público e ao Poder Judiciário; II - encaminhar a ofendida ao
hospital ou posto de saúde e ao Instituto Médico Legal; III - fornecer transporte para a ofendida e seus
dependentes para abrigo ou local seguro, quando houver risco de vida; IV - se necessário, acompanhar
a ofendida para assegurar a retirada de seus pertences do local da ocorrência ou do domicílio familiar;
V - informar à ofendida os direitos a ela conferidos nesta Lei e os serviços disponíveis

31
Doméstica e Familiar contra a Mulher. Antes da lei, a maioria desses casos
de violência contra mulher, como as ameaças, vias de fato, lesões corporais,
perturbação da tranquilidade e crimes contra honra, eram analisados no
Juizado Especial Criminal sob a ótica da Lei 9.099/99, que traz em seu bojo
o objetivo da conciliação (ZAPATA, 2019, em entrevista, n.p).

Apesar da Lei Maria da Penha representar um importante instrumento legal de


proteção aos direitos humanos das mulheres, ainda existe uma parcela de
brasileiras que pouco conhece sobre as aplicações dessa lei. É o que mostra o
gráfico 8, em que é possível analisar que 79% das mulheres tem pouco ou nenhum
conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, o que afirma a necessidade em divulgar
a legislação que garante à mulher uma vida livre de violência.

Gráfico 8- Quanto as entrevistadas conhecem sobre a Lei Maria da Penha

Fonte: Brasil, 2019.

2.4 CASAS-ABRIGO PARA MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A primeira Casa-abrigo para mulheres no Brasil, surgiu no ano de 1986 em São


Paulo, inaugurada pela Secretaria de Segurança Pública. Em seguida, na década
de 1990, outras casas-abrigo foram surgindo nos estados de São Paulo, Ceará e
Distrito Federal. Em 2018, segundo o IBGE, na esfera estadual existiam 43 casas-
abrigo em 20 estados brasileiros e 153 casas-abrigo de responsabilidade municipal
concentradas principalmente nas regiões Sudeste (55) e Sul (50).

32
De acordo com as Diretrizes Nacionais de Abrigamentos para Mulheres em
Situação de Risco e Violência as casas-abrigo constituem serviços públicos
(municipais, estaduais, regionais e/ou consorciadas) que compõem a Rede de
Atendimento à Mulher em situação de violência, com o propósito de prover, de
forma provisória, medidas emergenciais de proteção e locais seguros para acolher
mulheres e seus filhos(as), no qual as usuárias poderão permanecer por um
período determinado, após o qual deverão reunir condições necessárias para
retomar o curso de suas vidas (BRASIL, 2011).

As casas-abrigo no Brasil são sigilosas e de longa duração (90 a 180 dias), seu
público alvo são mulheres em situação de violência doméstica e familiar sob risco
eminente de morte, acompanhadas ou não de filhos, e tem o objetivo de garantir a
integridade física e emocional das mulheres e auxiliar no processo de
reorganização da vida das mulheres e no resgate de sua autoestima (BRASIL,
2011). Para que isso seja possível, os abrigos contam com atendimento
psicológico, social e jurídico, encaminhamento para atividades profissionalizantes,
programas de geração de renda e acompanhamento pedagógico para as crianças,
sendo a criação da casa-abrigo e os serviços citados, previstos na Lei Maria da
Penha.

As unidades de acolhimento têm a característica de mudar constantemente de


endereço afim de garantir o sigilo. Porém muito se discute sobre o sigilo não
necessariamente garantir a segurança das usuárias, principalmente em cidades
de menor porte. Outro ponto importante é a impossibilidade de construir um local
próprio e que atenda às demandas especificas do serviço, visto que os abrigos são
casas comuns alugadas. Sendo assim, é necessário reavaliar a obrigatoriedade
do sigilo de forma que assegure a proteção e segurança das mulheres.

Muitas vezes a manutenção do sigilo se converte em um grande problema


para as usuárias e funcionárias da casa-abrigo, sustentando-se no
cerceamento da liberdade das mulheres. O paradoxo é que um serviço que
deveria incentivar a autonomia acaba impedindo a mulher de transitar
livremente (SILVEIRA, 2006 p. 69).

33
As Diretrizes também indicam o processo em caso de abrigamento e como as
vítimas são encaminhadas a esse serviço9. A necessidade do abrigamento é
identificado pelos serviços especializados (normalmente as Deams) e não
especializados (delegacias de polícia). Quando identificados, é acionado o Centro
de Referência de Atendimento a Mulher (CR) mais próximo, ou na falta desse
serviço, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que
realizam a avaliação e admissão da vítima. Com isso é realizado o transporte da
mulher e seus filhos para o serviço de abrigamento. O CR (ou CREAS) também é
responsável pelo atendimento pós-abrigamento quando é iniciado o processo de
desligamento do serviço.

Vale ressaltar que toda e qualquer possibilidade de abrigamento requer o


acompanhamento da mulher por um serviço especializado da rede de 33
atendimento e a articulação com a segurança pública, por se tratar de
situações nas quais a mulher necessita de proteção especial e de casos nos
quais a possibilidade de apoio da rede primária encontra-se comprometida
em função da situação de violência (BRASIL, 2011, p.16).

Durante 20 anos as casas-abrigo foram a única forma de abrigamento


especializado para mulheres em situação de violência fornecidos pelo Estado.
Porém, o texto das diretrizes (BRASIL, 2011) aponta para novas alternativas de
abrigamento que assegurem não apenas mulheres sob risco eminente de morte.
Como exemplo das novas metodologias, foram criadas as Casas-de-Acolhimento
Provisório de Curta Duração, que constituem um abrigamento temporário de
duração máxima de 15 dias, não sigilosos.

O conceito de abrigamento diz respeito à gama de possibilidades (serviços,


programas, benefícios) de acolhimento provisório destinado a mulheres em
situação de violência, que se encontrem sob ameaça e que necessitem de
proteção em ambiente acolhedor e seguro. Sendo assim, o abrigamento das
mulheres em situação de risco ou ameaça de morte em virtude de violência
doméstica não se resume apenas ao acolhimento, essa rede de atendimento deve

9Os serviços de abrigamento contam com Casa-Abrigo, Casas de Acolhimento Provisório ou outros
serviços de abrigamento, de acordo com a necessidade estabelecida pelo CR ou CREAS.

34
assegurar “o bem-estar físico, psicológico e social das mulheres em situação de
violência, assim como sua segurança pessoal e familiar” (BRASIL, 2011).

O Estado do Espírito Santo conta com três casas-abrigo em funcionamento, sendo


duas de responsabilidade municipal, localizadas nos municípios da Serra e
Colatina, e uma estadual, a Casa-Abrigo Maria Candida Teixeira – CAES. O CAES
foi inaugurado em março de 2005 por meio de um convênio entre a União (através
da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres da Presidência da República) e
do estado, através do SESP.

A Casa-Abrigo estadual está localizada na região metropolitana da Grande Vitória


e seu funcionamento é 24h. A casa tem características residências que visa a
aproximação com o ambiente familiar. O abrigo conta com uma equipe de
profissionais da área da educação, saúde e serviço social, além de suporte jurídico
fornecido pela NUDEM10.

3. REFERÊNCIAS PROJETUAIS

3.1 CASA ALBERGUE KWIECO

A Casa-Albergue KWIECO está localizada na cidade de Mochi, capital da região


de Kilimanjaro, na Tanzânia. Construída no ano de 2015 o abrigo para mulheres
foi projetado por Hollmén Reuter Sandman Architects e conta com 423m².

10 A NUDEM (Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher) tem como função prestar assistência jurídica
integral e gratuita às mulheres vítimas de violência em razão do gênero, bem como, promover a defesa
de seus direitos, garantindo-lhes o acesso e respeito às garantias fundamentais. O serviço é fornecido
pela Defensoria Pública do Espírito Santo.

35
Figura 1. Planta baixa térreo, sem escala.

FONTE: Ukumbi Adaptado

KWIECO, também conhecida como Organização de Consultoria e Intercâmbio de


Informações das Mulheres de Kilimanjaro, foi fundada no ano de 1987. A
organização proporciona assessoramento jurídico, de saúde, sociais e econômico
às mulheres. Assim como no resto da África, as mulheres de Kilimanjaro são
altamente vulneráveis a violações de seus direitos à vida, à liberdade e à
segurança. Violência contra as mulheres é permitida por atitudes sociais e
culturais; a lei não é capaz de fornecer garantias adequadas contra a violência,
nem é capaz de promover atitudes favoráveis ao gozo das mulheres sobre seus
direitos fundamentais (ARCHDAILY, 2015).

36
Figura 2. Casa-Albergue KWIECO

Fonte: Juha Ilonel

KWIECO traçou um projeto para desenvolver o conceito de Casa


Abrigo. Juntamente com a ONG Ukumbi, a KWIECO apresentou o projeto ao
Ministério das Relações Exteriores da Finlândia e recebeu fundos para estabelecer
as operações e infraestrutura necessárias para a primeira fase. A primeira fase do
edifício do abrigo foi inaugurada em maio de 2015. Ukumbi e KWIECO estão
tentando levantar fundos para a segunda e última fase do edifício. (ARCHDAILY,
2015)

Figura 3. Casa-Albergue KWIECO

Fonte: Juha Ilonel

37
A arquitetura da Casa Abrigo respeita a cultura local e a hierarquia
espacial. Materiais locais, energias renováveis, mão de obra local e know-how são
usados, bem como planejamento participativo para garantir que os usuários
tenham um senso de propriedade mental no abrigo (ARCHDAILY, 2015). O abrigo
comporta até 20 mulheres com seus filhos. A construção conta com um único
pavimento, com cobertura metálica e piso de cimento queimado, composto com 10
quartos, fraldário, lavanderia, dois sanitários, um sanitário PNE, cozinha, refeitório
e um espaço administrativo. A edificação é desenvolvida em torno de um pátio
interno central aberto, onde mulheres e crianças circulam livremente. O acesso é
restrito a um único portão, que aparenta pouca segurança.

Figura 4. Casa-Albergue KWIECO

Fonte: Juha Ilonel

A relevância desse projeto para a pesquisa está presente na importância do abrigo


KWIECO no combate à violência contra mulher. Presente em um cenário
excepcionalmente machista, o abrigo representa um avanço na busca pela
legitimidade dos direitos das mulheres em países onde a violência é corriqueira.
Outro ponto a ressaltar é a conexão do abrigo com a cultura local, além de contar
com um espaço amplo e arborizado. Apesar de conter todos os espaços
necessários para abrigar mulheres e seus filhos, alguns pontos devem ser levados
em consideração para o desenvolvimento do projeto da nova Casa-Abrigo
capixaba, visto que a localização e cultura do abrigo africano são diferentes da
proposta dessa monografia. A Casa Albergue KWIECO apresenta pouca

38
privacidade, visto que os quartos estão diretamente ligados ao pátio central, além
da falta de um espaço infantil, como parquinho para crianças.

3.2 CASA ADA E TAMAR- ABRIGO PARA VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Este abrigo é um dos únicos no mundo que foi projetado e construído em


consultoria com a equipe que irá ocupá-lo e executá-lo. Liderada pela ativista
pioneira dos direitos humanos, Ruth Rasnic, do grupo internacional No To
Violence, a instalação fornecerá um refúgio muito necessário para mulheres e
crianças em dificuldades e abusos de todas as localidades e origens.
(ARCHDAILY, 2018)

Figura 5. Planta baixa térreo, sem escala.

Fonte: ARCHDAILY Adaptado

39
Figura 6. Planta baixa primeiro pavimento, sem escala.

Fonte: ARCHDAILY Adaptado

O abrigo de 850m² está localizado em um bairro residencial tranquilo na cidade de


Tel Aviv em Israel, desde 2018. A construção foi projetada pelos arquitetos Amos
Goldreich e Jacobs Yaniv. O novo abrigo substituiu um existente na cidade, com
objetivo de criar um espaço mais seguro e protegido, que dá a seus habitantes
uma sensação de lar.

A edificação, além de ser projetada para abrigar famílias, também acomoda a


sede administrativa da instituição de caridade No To Violence, responsável por
60% das despesas da construção. O local foi cedido pelo município, porém os
vizinhos se opuseram à construção e apenas seis anos depois, o Tribunal Superior
se pronunciou a favor da construção do abrigo.

40
Figura 7. Casa Ada e Tamar

Fonte: Amit Gosher

O projeto do edifício foi idealizado para acomodar 12 famílias, em que cada família
tem em média três filhos, assim comportaria até 24 pessoas ao mesmo tempo. O
abrigo conta com ambientes como: cozinha, refeitório, espaços infantis, (berçário
e playground, ambos separados do prédio principal) e funciona como uma espécie
de creche em que as mulheres deixam seus filhos pela manhã e buscam no final
do dia. Também estão dispostas salas multiuso e sala de aconselhamento. Um
dos pontos altos do projeto é forma como cada família é acomodada, em que
recebem um quarto em um “pequeno apartamento”. Esses “apartamentos” são
conectados por um corredor interno.
Figura 8. Casa Ada e Tamar

Fonte: Amit Gosher

41
O refúgio conta com uma ampla área administrativa, com espaços específicos para
funcionários que incluem assistentes sociais, psicólogo infantil, um advogado em
tempo parcial, além de profissionais adicionais como: psicoterapeutas, terapeutas
artísticos, bem como voluntários como esteticistas, cabeleireiros, massagistas e
praticantes de artes marciais, entre outros, que ajudam as crianças em seus
estudos e conhecimentos de informática (ARCHDAILY, 2018).

Figura 9. Casa Ada e Tamar

Fonte: Amit Gosher

Assim como o estudo anterior, o abrigo de Tel Aviv conta com um pátio central. O
propósito é criar conexões visuais e um corredor interno que conecta os espaços
internos e externos. A principal diferença no abrigo israelense com a proposta do
abrigo capixaba, está na arquitetura densa da casa Ada e Tamar. Com o objetivo
de transparecer segurança e proteção, a aplicação dessa proposta, de muros altos
e grades, Santo poderia trazer a sensação de prisão à Casa-abrigo do Espírito, e
quebrar com a expectativa do sentimento de lar. A principal contribuição desse
projeto para a pesquisa, está presente no desenvolvimento da conectividade entre
no externo (pátio central), com o interno, que além de criar fluxos livres, também
permite a privacidade das famílias abrigadas.

42
3.3 PROGRAMA DE NECESSIDADES

Tabela 1. Programa de necessidades

Casa-Albergue KWIECO Casa Ada e Tamar Nova Casa-Abrigo do ES

10 Dormitórios 7 “apartamentos”, sendo cinco 5 “apartamentos de dois


de dois quartos com banheiro e quartos, um banheiro e uma
dois de um quarto com copa
banheiro

02 Vestiários 04 Sanitários 05 sanitários

Sanitário PNE Sanitário PNE 02 Sanitários PNE

Berçário Berçário Berçário

- Playground Playground

Sala Multiuso 02 Salas Multiuso Sala Multiuso

02 Depósitos 04 Depósitos 04 Depósitos

Jardim central Jardim Central Jardim terapêutico

Refeitório Refeitório Refeitório

Lavanderia - Lavanderia

- Cozinha Cozinha

- Sala de TV -

- Sala de aconselhamento Sala de terapia

- 11 Escritórios 02 Escritórios

- Sala de reunião Sala de reunião

- 02 Copas para funcionários 01 Copa para funcionários

- Pátio de serviço -

- Área de carga/descarga Área de carga/descarga

- - Vestiário para funcionários

- - 02 Salas de visita

- - Enfermaria

- - Academia

43
- - Sala de informática

- - Oficina de artes

- - Espaço de beleza

- - Biblioteca

Fonte: Elaborado pelo autor

4. CONSIDERAÇÕES PARCIAIS

Abordar o tema de violência contra mulher no âmbito doméstico é uma tarefa árdua.
É compreender o sofrimento de milhares de mulheres ao redor do mundo e porque a
luta pelos direitos iguais é tão relevante para erradicar uma sociedade culturalmente
machista como o Brasil.

A coleta de dados e revisão bibliográfica permitem levantar algumas questões


pontuais sobre o tema: o que se caracteriza violência contra mulher e de que forma é
possível protegê-la. É importante focar em medidas imediatas e estratégicas que
possibilitam que as vítimas se restabeleçam na sociedade de forma segura.

A Casa-Abrigo é um serviço que cumpre seu papel, pois permite que mulheres de
todo Brasil se sintam seguras e longe da violência vivenciada dentro de suas casas,
garantem principalmente a integridade física das abrigadas e seus filhos. Mas será
que isso é suficiente? É essencial entender que mulheres em situação de risco se
tornam, em sua maioria, dependentes emocionalmente e precisam começar sua vida
do zero. Compreender as potencialidades e limitações dos serviços fornecidos
possibilita estudar novos modelos de abrigamento.

As referências projetuais presentes nesta monografia permitem reavaliar a


necessidade do sigilo dos abrigos brasileiros. Será que o sigilo realmente garante
segurança? É importante ressaltar que o sigilo priva as vítimas de qualquer contato
com seus amigos e familiares, impossibilita a interação com a sociedade e não
somente com o seu agressor. É uma prisão para a vítima de um crime.

44
Ao longo da elaboração desta monografia surgiram dificuldades quanto a coleta
bibliográfica, o tema ainda é pouco explorado no acervo da arquitetura e urbanismo
principalmente quando se trata de um abrigo para mulheres. As principais referências
encontradas são de países estrangeiros em que não há sigilo quanto a localização do
abrigo, facilitando a exploração de uma arquitetura inclusiva que permite melhorar a
qualidade de vida das usuárias. Quanto a coleta de dados em relação a Casa-Abrigo
do ES, as informações reunidas encontram-se na Internet. O acesso a funcionários e
pessoas ligadas ao abrigo se mostrou de extrema dificuldade, impossibilitando um
levantamento de dados mais direcionado e incisivo.

Com objetivo de elaborar um novo modelo de Casa-Abrigo para o Espírito Santo, será
desenvolvido no Trabalho de Conclusão de Curso II o projeto arquitetônico deste novo
modelo. A importância da arquitetura e urbanismo na humanização desses espaços
se fará presente na proposta de um modelo altruísta e funcional, que não atenda
somente as necessidades das abrigadas e dos funcionários do abrigo, como permite
despertar a essência de lar em quem à habita.

Para mim, qualquer tipo de arquitetura, independentemente de sua função, é


uma casa. Eu projeto apenas casas, não arquitetura. Casas são simples. Elas
sempre mantêm uma relação interessante com a verdadeira existência, com
a vida (WANG SHU apud. PALLASMAA, 2017, p. 07).

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE, Manoela. ES tem a maior taxa de feminicídios do Sudeste e a


3ª maior do país. G1, Espírito Santo, 07 mar. 2018. Disponível
em: https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/es-tem-a-maior-taxa-de-
feminicidios-do-sudeste-e-a-3-maior-do-pais.ghtml. Acesso: 20 set 2020.

ANDRADE, Lucas. Políticas Públicas: o que são e para que existem.


Politize,04 fev 2016. Disponível em: https://www.politize.com.br/politicas-publicas/.
Acesso: 15 out 2020.

77

45
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Sandman Architects. ArchDaily Brasil, 19 out
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