Você está na página 1de 3

AÇÃO POPULAR - HONORÁRIOS DE ADVOGADO

- Na ação popular o autor não age em defesa de interesse pes-


soal, mas do bem coletivo, razão pela qual não se justifica a conde-
nação em honorários de advogado, quando a demanda é julgada
improcedente.
Interpretação da Lei n 9 4.717, de 1965.

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

Manuel Del Hoyo versus Prefeitura Municipal de Pirajuí e Elias Aruth


Apelação cível n.O 207.338 - Relator: Sr. Desembargador
EDGAJU> DE SoUZA

ACÓRDÃO Realmente, a mutuante entregou ao Mu-


nicípio somente a quantia de Cr$ 46.000,00,
ficando retida a relativa àquela taxa (fls.,
Vistos, relatados e discutidos estes autos
cláusula IV, e fls.), razão por que era inad-
de Apelação cível n.O 207.338, da comarca
missível a inclusão da referida parcela na
de Pirajuí, em que é recorrente o juízo
relação de fls., como empenhada.
ex otficio, sendo apelante Manuel Del Hoyo
e apelados a Prefeitura Municipal de Pirajul Mas evidente o erro contábil, pois a cer-
e Elias Aruth: Acordam, em Sexta Câmara tidão de fls. revela que foi dada como
recebida a quantia de Cr$ 15.962,18 (4.0 lan-
Civil do Tribunal de Justiça do Estado,
adotado o relatório de fls., dar provimento, çamento, em 30.12.66, guia fi.o 10.138),
em parte, ao recurso voluntário, contra o quando. na verdade a mutante somente en-
voto do Terceiro juiz; e sem divergência tregou a soma de Cr$ 46.000,00 (fls.).
de votos, negar provimento ao recurso ofi- A desconformidade da relação de gastos,
ciaI. Custas conforme a lei. de fls., com a importância total do emprés-
timo confessado, explica-se pelo fato de te-
A sentença, que julgou improcedente a
rem sido relacionados gastos até 25.3.68.
ação popular, merece subsistir pelos pro-
Mas as informações de fls., ignoradas pelo
prios fundamentos, ora adotados.
autor, como assinalou a sentença, demons-
Uma única alegação do autor apelante tram que a dotação orçamentária de
impressiona à primeira vista. Com base nela, Cr$ 46.000,00 e outras verbas suplementares
exclusivamente, o Ministério Público opinou foram efetivamente consumidas com o ser-
pelo acolhimento dos recursos. viço de que se trata.
Diz-se que a Municipalidade de Pirajuí Assim, não havendo prova da lesividade
obteve empréstimo de Cr$ 46.000,00 da para o patrimÔnio municipal, a ação não
Caixa Econômica do Estado para a constru- poderia deixar de ser julgada improcedente.
ção da rede de esgotos da cidade e que de Num ponto, porém, merece reparo a sen-
tal quantia foi deduzida a soma de tença. A Lei n.O 4.717, de 29.6.65, pos-
Cr$ 15.962,18, correspondente à taxa remu- terior à de n.o 4.632, de 18.6.65, que deu
neratória de serviços de processamento do nova redação ao art. 64 ·do Código de Pro-
empréstimo, que não dera entrada nos co- cesso Civil não faz referência expressa à
fres municipais, não obstante o Munidpio obrigatoriedade da condenação do autor
se tenha confessado devedor do total de nessa verba, caso a ação seja tida por im-
Cr$ 61.962,18. procedente, uma vez que o autor popular

296
não age em defesa de interesse seu, pessoal, negativa se me afigura devida. A Lei
mas da sociedade lesada pelo ato impugnado n.o 4.717 resultou do Projeto Ferreira de
na demanda popular. Nesse sentido o magis- Souza, de 1952, do Substitutivo Bilac Pinto,
tério de Paulo Barbosa de Campos Filho de 195! e do Anteprojeto Seabra Fagundes.
(Da Aarão PopulaT Constitucional 2. ed. Lopes Meirelles, solicitado pelo Min. Milton
p. 167) e Antônio Tito Costa (Ação Popu- Campos, no Governo do Marechal Castello
lar e Condenação do Autor em Honorários. Branco; o amálgama de todos esses elemen-
In: RT, 404/440). tos, no Congresso Nacional, ressentiu·se de
Daí o provimento parcial do recurso do uma certa falta de harmonia e entrosamento,
autor, contra o voto do eminente Terceiro que diz com o problema honorário inclusive.
Juiz. A inteligência da lei deve ser procurada,
São Paulo, 9 de junho de 1972. Dimas de pois, com os olhos postos nessa particulari-
Almeida, Presidente, Edgard de Souza, Re- dade, que para logo destaca o aproveita-
lator. Euler Bueno, vencido parcialmente, mento menos adequado de dados anteriores
com a seguinte declaração de voto: Mante- à vigência, entre nós, do principio da su-
nho, reexaminando·a, opinião já expendida cumbência. Veja-se o teor do art. 12, focali-
nesta Câmara, pela aplicação subsidiária do zando a condenação honorária na sentença
principio da sucumbência às ações populares, que julgar procedente a demanda. Essa refe-
regidas por Lei especial, posterior à de rência constitui mera redundância, pois tal
n.O 4.6!2, de 1965. solução já se compreendia assim na antiga
Confesso que, embora bem deduzidas, as como na nova redação do art. 64 do estatuto
considerações do Des. Paulo Barbosa de adjetivo, aplicável subsidiariamente; a rei-
Campos Filho (Af.iío PopulaT. 1968. n.O 66) teração limitada não basta para excluir, pelo
e do Dr. Antônio Tito Costa (RT, 404/440) silêncio, a condenação do autor vencido, qt.e
não me convenceram. se abrange pelo principio da sucumbência,
~ certo que a ação popular tem um regra- adotado pela lei processual geral alguns
mento especial, na Lei n.O 4.717, de 1965, meses antes da promulgação da lei que dis-
em que se inserem alguns dispositivos rela- ciplinou a ação popular. Se o legislador
cionados com honorários e custas; vejam·se entendesse de involuir e, para o caso par-
os art. lO, 12 e U. O primeiro deles relega ticular da ação popular, de reverter ao
para final o pagamento das custas, facili- estágio precedente, curial que o dissesse às
tando assim o ajuizamento da ação popular; claras, de expresso. Não o fez. Em temas de
o segundo manda incluir na condenação dos facilidades expressas não foi além de relegar
réus, à semelhança do que se determinava as custas e o preparo para pagamento final,
pela antiga redação do art. 64 do Código pelas partes, envolvendo assim o autor como
de Processo Civil, as despesas judiciais e o réu. Se o autor vencido deve pagar as
extrajudiciais, inclusive custas e honoráriO!'; custas, por que não deve satisfazer também
e o terceiro impõe o décuplo das custas ao os honorários do advogado do seu adversário?
autor que ajuíze ação popular "manifesta- A condenação honorária, do vencido, seja
mente temerária". O art. 22 da Lei, comple- autor ou réu, sucumbente, nada tem de in-
tando o seu mecanismo, determina que se conciliável com o espírito dos art. 12 e I!
apliquem à ação popular "as regras do Có- da Lei n.o 4.717. Ao contrário, esse espírito
digo de Processo Civil, naquilo em que não da lei especial aceita construtiva e confor-
contrariem" os seus próprios dispositivos. tavelmente a sucumbência da lei geral.
Pergunta·se agora: contraria esses textos o Pode parecer que se estimulará o exercí-
principiO da sucumbência, da nova redação cio da ação popular se se livrar o seu autor,
do art. 64 do estatuto adjetivo? A resposta quando vencido, da responsabilidade deri-

297
vada a automática pela condenação hono- semelhante afrouxamento, a dano do réu
rária_ Mas esse estímulo não favorece o abonado pelo julgamento?
ajuizamento das ações viáveis, senão o das No sentido da plena atuação do princípio
inviáveis, como a presente, e se converte da sucumbência em relação à ação popular,
em ônus inaceitável para as autoridades e ministram proveitosas lições o Prof. José
servidores públicos que precisam contratar Afonso da Silva, da Faculdade de Direito de
advogado para demonstrar a sua atuação Minas Gerais (Ação Popular Constitucional.
regular_ 1968. p. 251) e o nosso Hely Lopes Meirellcs
(Mandado de Segurança e Ação popular.
Observe-se que o art_ 13 da Lei especial
2. ed. p. 68)_
impõe ao autor de ação popular "manifesta-
No caso concreto, outrossim, a sucumbên-
mente" temerária a pena de pagar o décuplo
cia do autor traz matizes de temeridade no
das custas, pena que o processo comum só
ajuizamento da ação, eiva que, conveniente-
comina aos casos de dolo, fraude, violência
mente tratada pela parte, talvez tivesse suge-
ou simulação (art. 63, § 2.°); para a lide rido o exame da sanção espedfica do art_ 13
temerária, "manifestamente" ou não, o da Lei n_O 4_717_
art. 3.° do estatuto adjetivo apenas estabe-
Em suma: o meu voto manteve integral-
lece a composição do dano. Se à temeridade mente a sentença de primeira instância, in-
corresponde tratamento mais severo, no clusive no que diz com a verba honorária,
âmbito da ação popular, por que afrouxar imposta ao autor vencido. Participou do
nele o tratamento da sucumbência do autor? julgamento, com voto vencedor, o Des. Sousa
Não resulta particularmente injusto um Lima.

RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO - ATOS DO PODER JUDI-


CIARIO

O Estado não responde. civilmente pelos atos praticados pelos


órgãos do Poder Judiciário, salvo nos casos expressamente declarados
em lei, porquanto a administração da justiça é um dos privilégios
da soberania.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Julio Batista da Silva versus Estado de Minas Gerais
Recurso extraordinário n.O 70.121 - Relator: Sr. Ministro
DJACI FALCÃO

ACÓRDÃO Brasília, I3 de outubro de 1971. A!iomar


Baleeiro, Presidente. Djaci Falcã.o, Relator
Vistos, relatados e discutidos estes autos, para o acórdão.
acordam os Ministros do Supremo Tribunal
Federal, em sessão plena, na conformidade RELATÓRIO
da ata do julgamento e das notas taquigrá-
ficas, não conhecer do recurso, contra os o Sr. Ministro Aliomar Baleeiro: 1_ O
votos dos Srs. Ministros Relator, Bilac Pinto Recorrente comerciante, foi denunciado pela
e Adalicio Nogueira. emissão de cheques sem fundos, tendo o

298