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ENTRE A PLATAFORMA E O PARTIDO:

AS TENDÊNCIAS AUTORIT Á RIAS E O ANARQUISMO

Patrick Rossineri

Ateneu Diego Gim é nez

2011

Edi çã o original: Entre la Plataforma y el Partido: Las Tendencias Autoritarias y el

Edi çã o original:

Entre la Plataforma y el Partido: Las Tendencias Autoritarias y el Anarquismo Libertad! nº 45, 46, 47, 48 e 49 Buenos Aires

2007­2008

http://ateneudiegogimenez.wordpress.com

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http://www.iwa­ait.org

Traduçã o e diagrama çã o:

Ateneu Diego Gim é nez COB­AIT Piracicaba, 2011

http://www.iwa­ait.org Tradu çã o e diagrama çã o: Ateneu Diego Gim é nez COB­AIT Piracicaba, 2011

ENTRE A PLATAFORMA E O PARTIDO:

AS TEND ÊNCIAS AUTORIT ÁRIAS E O ANARQUISMO

O anarquismo é um movimento – ou seja, uma multiplicidade de tend ê ncias – cujo fim geral é fundar uma sociedade sem explorados nem oprimidos, abolindo qualquer forma de governo e de propriedade dos meios de produçã o, eliminando as classes sociais e seus privil é gios, as desigualdades raciais, sexuais, econô micas, pol í ticas e sociais. Este esboço descritivo compreende a maioria das tend ê ncias que se denominam anarquistas: individualistas, organizacionistas, comunistas, coletivistas, plataformistas, anarcossindicalistas etc. N ã o obstante este caráter movimentista inerente ao anarquismo, algumas tend ê ncias tê m uma vis ã o nã o tã o inclusiva, e apontam para a forma çã o de uma organiza çã o anarquista do tipo partid á ria: um partido anarquista. Estas propostas geralmente tomam como ponto de partida a Plataforma Organizacional que l á pelos anos 20 Makhno, Archinoff e outros destacados militantes anarquistas russos, que haviam conseguido sair da R ússia bolchevique, esboçaram no exí lio. Este documento propunha a reorganiza çã o do anarquismo na R ússia incorporando – sem reconhecê ­lo – elementos de ní tido corte leninista, com a intençã o de superar os erros que haviam levado à derrota anarquista frente à preponderâ ncia bolchevique durante a Revoluçã o Russa. Dentro desta linha plataformista se destam o Workers Solidarity Movement da Irlanda e a North Eastern Federation of Anarchist Communists norteamericana, sendo alguns de seus referenciais mais conhecidos na Am é rica Latina a Alianza de los Comunistas Libertarios do Mé xico, a Organizaci ó n Comunista Libertaria do Chile, a Federa çã o Anarquista Ga úcha brasileira e a Organizaci ó n Socialista Libertaria argentina. Mas tamb ém houve nos anos 60 e 70 outras tend ê ncias que, sem se reconhecerem abertamente plataformistas, esboçaram uma vertente paralela influenciada pela revolu çã o cubana. O principal referencial desta linha foi a Federaci ó n Anarquista Uruguaya, organiza çã o paradigm ática e fonte de inspira çã o de organiza ções anarcomarxistas e anarquistas de estilo partid á rio, como foi o caso na Argentina da Resistencia Libertaria, assim como o de vá rias organiza ções plataformistas. Na maioria destas tend ê ncias e organiza ções existem certos pressupostos compartilhados, padrõ es comuns e elementos afins, que permitem englob á ­las como uma ú nica corrente. Seu elemento de maior destaque é a concep çã o de que a revoluçã o anarquista deve ser propulsionada por organiza ções do tipo partidá rio. Esta concepçã o foi justificada de diversos â ngulos e com argumenta ções diferentes, nem sempre congruentes entre si. De todo modo, os pontos em comum prevalecem sobre as diferen ças, que mais parecem matizes de uma mesma cor. Provisoriamente, digamos que entendemos por partido pol ítico um grupo de pessoas formando uma organiza çã o pol í tica adscrita a uma ideologia e com um programa de a çã o, cuja finalidade é a tomada do poder polí tico, é uma organiza çã o independente do Estado e tem como pretens ã o ser representante da vontade geral e dos interesses da maioria. O partido pol í tico nos é apresentado como um veí culo de transforma çã o social, como um meio para alcançar um fim (o governo). A concep çã o do

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partido anarquista se ajusta aos parâ metros gerais dos partidos pol í ticos na teoria, salvo no que diz respeito à tomada do poder pol í tico; o meio de transforma çã o social é a organiza çã o partid á ria, que estabeleceria a direçã o revolucioná ria. Frente a esta concep çã o representativa, diretiva, externa e mediadora do plataformismo e do anarcopartidismo se levanta a maior parte do movimento anarquista em todas as suas outras vertentes. A seguir, examinaremos alguns dos pressupostos básicos e argumentos que estas tend ê ncias utilizam para justificar a necessidade de se organizar sob a forma de partido.

O que é um partido pol ítico?

Os partidos pol í ticos surgiram como grupos ou clubes de indiví duos colaboradores que apoiavam a candidatura parlamentar de um polí tico. Desde suas origens no come ço do s é culo XIX, os partidos pol í ticos se vincularam à ideia de governo (acesso ao poder) e à ideia de elei ções representativas. Eram facções ou grupos pol í ticos organizados em torno de um candidato, mas com o tempo foram adquirindo um cará ter muito menos provis ó rio ou circunstancial, convertendo­se em organiza ções mais formais, estratificadas e burocratizadas, já nã o se organizando em torno de um indiví duo mas de um programa ou ideologia. Em um sentido mais moderno – segundo afirma o estudioso Francisco de Andrea Sá nchez – um partido pol í tico apresenta certas características que o diferenciam de outro tipo de grupos políticos: “a) uma organiza çã o permanente, completa e independente, b) uma vontade de exercer o poder, e c) uma busca do apoio popular para poder conservá ­lo”. Este autor afirma que assim como dentro da categoria meios de transporte sã o incluí das as diversas classes de veí culos, poderia se dizer que “todo partido pol ítico é um grupo pol ítico, mas nem todo grupo pol ítico é um partido pol í tico”. Um grupo pol í tico pode ser uma ONG, um grupo sindical, um grupo universit á rio, um clube etc., nã o necessariamente um partido pol í tico. Esta distinçã o é essencial quando se trata de abordar o porqu ê da rejei çã o dos anarquistas à forma çã o de um partido. Todas as defini ções de partido pol í tico levam como ingrediente inelud í vel a vontade de aceder a um governo. Vejamos as seguintes defini ções:

1­ “Um partido pol í tico é um grupo de seres humanos que tem uma organiza çã o está vel com o objetivo de conseguir ou manter para seus lí deres o controle de um governo e com o objetivo ulterior de dar aos membros do partido, por meio de tal controle, benef í cios e vantagens ideais e materiais” (Friedrich, Carl J. Teor í a y Realidad de la Organizaci ó n Constitucional Democrá tica, Mé xico, FCE: 297).

2­ “A forma de organiza çã o que, descansando em um recrutamento livre, tem como fim proporcionar poder ao seu dirigente dentro de uma associa çã o e outorgar por esse meio aos seus membros ativos determinadas probabilidades ideais ou materiais” (Weber, Max. Econom í a y Sociedad, Mé xico, FCE, 1969: 228).

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“Um partido é um grupo cujos membros se prop õ em a atuar em concord â ncia na

concorrê ncia pelo poder polí tico” (E. Schumpeter, citado em Andrea S á nchez. Los Partidos Pol í ticos: 61).

Estas s ã o apenas algumas das defini ções que a teoria sociol ó gica moderna admite para a categoria de partido pol í tico. Ent ã o, um partido é uma organiza çã o estruturada para dirigir, administrar, representar, governar, é uma entidade essencialmente mediadora (promove a a çã o indireta). Atendendo ao anterior, a forma partido termina por ser contradit ó ria com algumas das finalidades b ásicas do anarquismo: acabar com qualquer tipo de poder pol í tico, eliminar o Estado e qualquer forma de governo. Esta é a principal obje çã o que se pode fazer à ideia de partido anarquista.

A falácia do partido bakuninista

Mas esta incongruê ncia entre meios e fins costuma ser eludida pelos anarcopartidistas, objetando que quando falam de partido se referem ao sentido que Bakunin lhe deu, como é o caso da ACL mexicana. Em um documento denominado O Anarquismo Revolucioná rio e os Partidos Pol í ticos, afirmam que Mikhail Bakunin “compreendia à perfei çã o a necessidade histó rica de um partido revolucioná rio, formado unicamente pelos elementos mais entregues e abnegados à causa revolucioná ria. Bakunin nã o somente compreendia a necessidade de uma organizaçã o de tais características, mas a construiu no ano de 1868 sob o nome de Aliança da Democracia Socialista”. Em primeiro lugar, é absolutamente falso que Bakunin “compreendera à perfei çã o a necessidade hist ó rica de um partido revolucioná rio”, mais ainda quando o

que se assinala como um partido polí tico de sua cria çã o nã o o era no sentido moderno.

A Aliança era um grupo polí tico de vanguarda para a a çã o e a luta como disse o

pró prio Bakunin: “o único objetivo da sociedade secreta tem que ser nã o a constitui çã o de uma força artificial fora do povo, mas despertar e organizar as forças populares espont â neas”. O papel da vanguarda nã o é dirigir ou conduzir as massas em direçã o à revoluçã o, mas influenciar as classes populares para se auto­organizarem e se emanciparem elas mesmas, de dentro das massas e nã o externamente, estimulando a a çã o direta espont â nea. Bakunin se refere na realidade a pequenos grupos independentes e interconectados entre si que respondem a um mesmo ideal revolucioná rio. O que a Alian ça se propunha era influenciar as massas, nã o dirigi­las de uma posi çã o de poder. A Bakunin interessava muito menos a continuidade de tal organiza çã o depois de produzida a revoluçã o, o que concorda com sua vis ã o insurrecionalista e espont â nea da revoluçã o social. A permanê ncia no tempo ou a participa çã o reformista estavam excluí das das atividades da Aliança. Tomando algumas de suas frases isoladas, poderia ser interpretado que há pontos de contato entre o vanguardismo de Bakunin e a “direçã o revolucioná ria” de Lenin. E isto é poss ível porque a obra de Bakunin é assistem ática, dispersa, fragmentá ria, descont í nua e muitas vezes confusa (o que transparece em express õ es como “a Aliança tem por miss ã o dar a estas massas uma direçã o realmente

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revolucioná ria”) 1 . Em contrapartida, a obra de Lenin é consideravelmente mais compacta e estruturada e oferece menos lugar para dúvidas. O brit â nico Christopher Hill – o mais brilhante historiador marxista de sua gera çã o – descreve sucintamente a ideia de partido que Lenin defendia no cé lebre O Que Fazer?, de 1902: “somente um partido pol í tico da classe operá ria poderia ser instrumento da revoluçã o. (…) nã o podia haver movimento revolucioná rio sem uma rigorosa orienta çã o teó rica. Mas a consci ê ncia de classe nã o podia brotar espontaneamente na classe operá ria; devia ser introduzida de fora por um partido pol í tico que constituísse a vanguarda e o guia consciente dessa classe”. Por isso, quando a ACL afirma a “necessidade hist ó rica” de um partido revolucioná rio, ao invé s de seguir Bakunin, se enquandra claramente dentro do pensamento leninista. Por outro lado, a ACL declara que renuncia a se autodenominar partido somente por quest õ es t áticas, “j á que hoje em dia se entende por partido a no çã o burguesa de: elei ções, parlamento, poder pol í tico e toda uma s é rie de conceitos que vã o contra a emancipa çã o popular”. O que na realidade nã o pode significar outra coisa que dizer: “somos um partido, mas nã o o reconhecemos publicamente para evitar objeções”. Para a ACL, os partidos pol íticos autorit á rios s ão os burgueses e os leninistas, considerados verticais e centralistas, em oposi çã o a um suposto partido anarquista que, de todo modo, nã o deixaria de lado a divis ã o entre dirigidos e dirigentes, emancipados e emancipadores, inconscientes e conscientes; nisto se resume esta suposta “tend ê ncia bakuninista”. Como bem afirma a respeito o conselhista Roi Ferreiro: quando a ACL afirma que sua pretens ã o é “inserir nosso programa socialista libert á rio [nos movimentos populares] e conduzir as lutas populares por uma vertente anticapitalista”, está dizendo tudo. Quem nã o souber ver aqui mais um “partido revolucioná rio”, sem nenhuma diferen ça essencial com todos os demais que assim se proclamam, é que est á cego. O paradoxal do caso é que a ACL pretende se diferenciar do leninismo atribuindo ao pró prio Bakunin a paternidade do pensamento leninista: “a concep çã o de uma Organiza çã o dos elementos de vanguarda nã o é , como muitos pensam, exposta pela primeira vez por Lenin. Com dé cadas de anteced ê ncia Bakunin entendeu que as organiza ções de defesa e resist ê ncia da Frente das Massas (por exemplo, os sindicatos ou as associa ções operá rias internacionais) nã o eram suficientes para empreender uma luta revolucioná ria, e que faziam falta, al ém delas, os núcleos dos revolucioná rios mais conscientes que disputassem a direçã o dos movimentos populares com as tend ê ncias reformistas e as abertamente burguesas”. Aqui se revela em toda a sua ess ê ncia um partido pol ítico que compete pelo poder com outras forças de características similares. É desnecessá rio dizer que este nunca foi o pensamento de Bakunin. Se a ACL afirma que sua principal diferença com o pensamento leninista consiste em que a organiza çã o anarquista nã o pretende tomar o poder, devemos ter em conta que, a despeito dos fins serem opostos, os meios para consegui­los s ão similares. E isto deveria acender uma luz de alerta em todos aqueles que com boas intenções aderem a este tipo de proposta, porque o salto que vai da direçã o dos movimentos populares à direçã o pol í tico­econô mica da sociedade por uma organizaçã o anarquista pode ser na realidade apenas um passo.

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A artimanha do “partido de Malatesta”

Evidentemente, o conteúdo contradit ó rio do termo partido anarquista tampouco escapa a outros grupos que tendem a justificar sua utiliza çã o. Por exemplo, em Hijos del Pueblo, nº 7 (Buenos Aires, junho de 2007) se afirma que nos anos 70 a Liga Anarco Comunista e a Resistencia Libertaria “levantavam como estrat é gia a necessidade da construçã o de uma Organiza çã o Especí fica Anarquista, sendo a primeira uma tendê ncia ou linha, mais um grupo que participaria do processo da construçã o de tal organiza çã o, que era caracterizada como um partido. Isto se fazia retomando as explica ções de Bakunin e de Malatesta, o qual se referia à necessidade de formar um partido anarquista, entendendo por tal a organiza çã o dos anarquistas”. Em primeiro lugar, faz­se necessá rio esclarecer que a Resistencia Libertaria, segundo aqueles que a integraram, era um partido de quadros na concep çã o moderna do termo, inspirada nos partidos da esquerda revolucioná ria dos anos 70. Por isso é incorreto recorrer a Malatesta – muito mais a Bakunin – para justificar a “necessidade de formar um partido anarquista”. O termo partido tal como Malatesta o usava nã o tinha o sentido da forma histó rica “partido polí tico”, mas era utilizado como sinô nimo de organiza çã o, agrupamento, grupo pol í tico ou facçã o. Um partido em sua concepçã o moderna é um tipo, uma classe de organiza çã o bem definida. A pró pria FAU – que propicia uma vers ã o de anarcopartidismo de cunho pró prio – em sua p á gina da Internet esclarece que o sentido que Malatesta deu ao termo partido é “o conjunto de todos aqueles que combatem por um determinado objetivo pol í tico­social, com os mesmos crit é rios e acordos, independentemente das formas especí ficas de organiza çã o, e tamb é m de sua exist ê ncia ou nã o”. Quando Malatesta falava de partido nã o falava de outra coisa al é m de organiza çã o, frente à s posturas

individualistas de sua é poca. N ã o se referia a um partido político de nenhuma espé cie, mas se referia ao “conjunto de indiví duos que tê m um objetivo comum e se esforçam por alcançar esse objetivo”. Porque o que se discutia nesses anos era se deveriam atuar em organiza ções ou atuar individualmente; nã o eram apresentadas quest õ es como partido sim ou partido nã o. Por exemplo, vejamos a forma de organiza çã o que Malatesta concebe:

“Desejamos que os grupos anarquistas se multipliquem e se alarguem. Fa ça­se uma federa çã o, fa çam­se duas, fa çam­se cem: o importante é que cada um encontre o ambiente que lhe convé m, que cada um possa trabalhar segundo suas ideias e temperamento, e encontre na associa çã o nã o um limite à sua liberdade, mas o modo de

tornar sua atua çã o mais eficaz, sua liberdade mais verdade

Liberdade do indiví duo

no grupo e do grupo na federa çã o”. Esta concep çã o aberta do termo partido em Malatesta nã o corresponde em absoluto com a concep çã o restrita de partido político, mas é aplicá vel a diversos tipos de organiza ções e associa ções. Al é m disso, Malatesta condenou explicitamente o tipo de organiza çã o partid á ria de corte leninista – como o fez com o plataformismo –, e advertia que se a revoluçã o era obra da organiza çã o anarquista e nã o dos trabalhadores por si mesmos “ent ã o j á nã o havia triunfo do anarquismo, mas um triunfo nosso. Por mais que nos cham ássemos anarquistas, na realidade nã o seríamos mais que simples governantes e ser í amos impotentes para o bem como o sã o todos os governantes” (V. Richards: 128). Ent ã o,

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utilizar a express ã o partido anarquista no sentido malatestiano é um anacronismo perfeitamente substituí vel pelos atuais termos de organiza çã o ou coletivo anarquista; é atribuir a uma express ã o um significado diferente daquele que seu autor lhe dava. Este disparate nã o encontra maiores justificativas quando Vernon Richards e Á ngel Capelletti, os mais not á veis comentaristas de Malatesta, nunca interpretaram o enunciado partido anarquista como a proposta de formar um partido pol ítico como forma organizativa dos anarquistas. Ent ã o, qual é o sentido em insistir na utilizaçã o do termo partido anarquista, para logo ter que esclarecer que na realidade se faz referê ncia a um grupo polí tico completamente diferente do que se entende comumente por “partido pol ítico”? Talvez a resposta seja que o que na verdade se est á buscando é a naturaliza çã o do termo partido entre os anarquistas como um primeiro passo em direçã o à forma çã o de partidos polí ticos anarquistas propriamente ditos.

Lenin e a concep ção bolchevique de Partido

Dissemos que a concep çã o de partido de vanguarda que alguns anarquistas assumem se enquadra claramente em uma concep çã o leninista, ao invés de fazê ­lo – como declamam – sobre o pensamento de Bakunin ou o de Malatesta. Vejamos quais s ã o os elementos principais da concep çã o leninista de partido, que ap ó s a revoluçã o russa de outubro de 1917 os bolcheviques adotaram como doutrina oficial. O primeiro ponto a destacar é que Lenin acreditava que a consciê ncia revolucioná ria deveria ser introduzida ao proletariado de fora, externamente. O proletariado por seus pró prios meios s ó levava adiante a luta econô mica, que se atola na luta sindicalista, de finalidade reformista. Sem um partido revolucioná rio que a dirigisse, a luta de classes nã o se desenvolveria plenamente e permaneceria em uma fase embrioná ria. Esta concep çã o de exterioridade do partido com respeito ao proletariado, que inculca a consci ê ncia revolucioná ria verdadeira (marxista, segundo afirmam) a uma massa incapaz de gerar sua pr ó pria autoconsci ê ncia revolucioná ria e suas pró prias ideias, é complementada pelo papel dirigente do partido como vanguarda revolucioná ria do proletariado. Estas ideias foram nitidamente expressadas em 1902 com o capí tulo II do folheto O Que Fazer? em referê ncia à s formid áveis greves da d é cada anterior na R ússia:

Dissemos que os operá rios nã o podiam ter consci ência social­democrata. Esta só pode ser trazida de fora. A histó ria de todos os pa í ses demonstra que a classe operá ria está em condi ções de elaborar exclusivamente com suas pró prias forças somente uma consci ência unionista, ou seja, a convicçã o de que é necessá rio se agrupar em sindicatos, lutar contra os patrõ es, reclamar ao governo a promulga çã o de tais ou quais leis necessá rias para os operá rios etc. Em contrapartida, a doutrina do socialismo surgiu das teorias filosó ficas, histó ricas e econô micas elaboradas por intelectuais, por homens instruí dos das classes possuidoras. Por

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sua posi çã o social, os pró prios fundadores do socialismo cientí fico moderno, Marx e Engels, pertenciam à intelectualidade burguesa. De igual modo, a doutrina te ó rica da social­democracia surgiu na R ússia independente por completo do crescimento espontâ neo do movimento operá rio, surgiu como resultado natural e ineludí vel do desenvolvimento do pensamento entre os intelectuais revolucioná rios socialistas. (Lenin, op. cit.)

A teoria de Marx esclareceu a verdadeira tarefa de um partido socialista revolucioná rio: (…) organizar a luta de classe do proletariado e dirigir esta luta, que tem por objetivo final a conquista do Poder pol í tico pelo proletariado e pela organiza çã o da sociedade socialista. (Nosso Programa, pá g. 127)

Segundo Lenin, ent ã o, nã o é possí vel a autoemancipa çã o da classe operá ria, porque ela nã o pode ter consci ê ncia revolucioná ria se ela nã o lhe for inserida a partir de fora. E quem sã o aqueles que t êm consci ê ncia socialista? Os intelectuais revolucioná rios socialistas, ou seja, uma vanguarda esclarecida que guiará ao triunfo a classe operá ria. Esta vanguarda se organiza como um partido revolucioná rio encarregado de dirigir a luta operá ria contra o capitalismo. O partido revolucioná rio se converte em historicamente necessá rio, no elo inelud í vel entre a classe operá ria e a obtençã o do socialismo. Outro ponto de destaque da teoria leninista é o papel orientador da teoria revolucioná ria. Sem uma teoria rigorosa n ã o há revoluçã o poss ível. E sã o precisamente elementos de origem burguesa que proporcionarã o suas capacidades intelectuais para forjar esta teoria.

N ã o pode haver um forte partido socialista sem uma teoria revolucioná ria que agrupe todos os socialistas, da qual estes extraiam todas as suas convicções e a apliquem em seus procedimentos de luta e m étodos de a çã o. Defender esta teoria, que segundo seu mais profundo convencimento é a verdadeira, contra os ataques infundados e contra as tentativas de alter á ­la nã o significa, de modo algum, ser inimigo de toda crí tica. (Ibidem, p á g. 128)

Ainda que Lenin nã o o expresse como uma condi çã o necess á ria, de fato sã o os intelectuais dos extratos burgueses que se ocupam das tarefas de direçã o do partido revolucioná rio, que por sua vez dirige a luta do proletariado. Em outras palavras, o partido é a vanguarda da revoluçã o social e os intelectuais s ã o a vanguarda do partido. Lenin tamb é m se encarregou de detalhar a forma organizativa do partido comunista. Afirmava que os fins do partido s ó poderiam ser alcançados atravé s de uma forma de organiza çã o disciplinada denominada centralismo democrá tico. O partido era concebido como um exé rcito disciplinado de revolucioná rios, os elementos mais

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conscientes do proletariado, aptos para se desenvolverem em qualquer tipo de situa çã o:

a vanguarda revolucioná ria. O centralismo democrá tico combina o centralismo de um aparato militarizado com o funcionamento democrá tico, exaltando a disciplina consciente e a renú ncia volunt á ria à liberdade com o fim de alcançar unidade de a çã o e uma má xima eficá cia na a çã o do partido. Em teoria, as discuss õ es circulariam de baixo para cima e vice­ versa na estrutura vertical do partido, garantindo que as decis õ es que a direçã o implemente tenham sido discutidas por toda a organiza çã o. O marco geral destas discuss õ es seria o de uma organiza çã o de autoridades eletivas e revogá veis, com estrita disciplina de partido, liberdade de crí tica interna, responsabilidade individual do integrante, trabalho coletivo, soberania da maioria sobre a minoria, subordina çã o à s decis õ es da direçã o, as quais sã o vinculantes para os organismos inferiores. Como dissemos, assim seria o funcionamento do centralismo democrá tico na teoria, mas é preciso sublinhar que historicamente nunca houve uma organiza çã o leninista que tenha chegado a funcionar dentro desta concep çã o, mas sempre o fizeram exacerbando o centralismo hierá rquico, o papel esclarecido da dirigê ncia, anulando a dissid ê ncia interna, priorizando o “aspecto militar” da organiza çã o, a disciplina rí gida

e anulando a iniciativa individual dos militantes. O centralismo democr á tico é uma

ficçã o histó rica e um eufemismo que mascara o burocratismo concreto dos partidos leninistas. Outro aspecto destacá vel da doutrina leninista consiste precisamente em sua repugnâ ncia a qualqer forma de espontaneí smo popular ou à perda do controle da luta operá ria por parte do partido: “nossa 't á tica­plano' consiste em rejeitar o chamado imediato ao assalto, em exigir que se organize 'devidamente o ass é dio da fortaleza inimiga' ou, dito em outros termos, em exigir que todos os esforços sejam dirigidos para reunir, organizar e mobilizar um exé rcito regular” (O Que Fazer, cap ítulo V). Como se p ô de apreciar, Lenin sempre ressalta os aspectos militares, t ático­

estrat é gicos, logísticos, as rela ções de forças, os planos de assalto, ou seja, o que no jargã o pol í tico­militar é denominado de T é cnica do Golpe de Estado, que foi eficientemente empregada por Trotsky em outubro de 1917 e brilhantemente explicado por Curzio Malaparte. Cabe ressaltar que a men çã o ao exé rcito regular que Lenin faz se refere à s forças armadas do exé rcito burguê s, quando nã o é possí vel que o pró prio partido forme um exé rcito revolucioná rio. Quem mais teorizou e promoveu este aspecto militarista do marxismo­leninismo foi Mao Tse­Tung, que dedicou pá ginas interminá veis à exposi çã o dos fundamentos e das “leis” da Guerra Popular e Prolongada em um tedioso manual militar chamado Problemas Estrat é gicos da Guerra Revolucioná ria da China, em 1936. Todo o corpo

te ó rico referente às tá ticas e estrat é gias da guerra revolucioná ria, apesar de ter ficado

completamente desatualizado por raz õ es hist ó ricas, continua sendo fonte de referê ncia principal e de estudo nos partidos leninistas. Todo um exemplo de dogmatismo a­histó rico e cientificista, da parte daqueles que se consideram possuidores exclusivos dos mé todos infal íveis para conseguir revoluções e conhecedores do transcurso materialista­dial ético da Histó ria humana. Toda a terminologia militar que Lenin emprega nã o está divorciada de sua concep çã o de como funciona a pol ítica, nem de suas ideias sobre a import â ncia da

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disciplina dentro do partido. No fundo, a concepçã o leninista nã o difere da que von Clausewitz popularizou: a guerra é a continua çã o da pol í tica por outros meios. Para Lenin:

A ditadura do proletariado é a guerra mais abnegada e mais implacá vel da nova classe contra um inimigo mais poderoso, contra a burguesia, cuja resistência se encontra decuplicada por sua derrocada (…) a vitó ria sobre a burguesia é impossí vel sem uma luta prolongada, tenaz, desesperada, a morte, uma luta que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e uma vontade única. (A Doen ça Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, pá gs. 6­7)

Frente à reprova çã o que alguma vez lhe foi feita sobre a utiliza çã o destes modismos castrenses, em particular da palavra agente, Lenin gabava­se disso com ironia:

Eu gosto desta palavra, porque indica de modo claro e incisivo a causa comum à qual todos os agentes subordinam seus pensamentos e seus atos, e se tivesse que substituir esta palavra por outra, eu só escolheria o termo “colaboradores”, se este nã o tivesse certo tom de literaturismo e de imprecisã o. Porque o que precisamos é de uma organiza çã o militar de agentes. (O Que Fazer, cap. V)

E essa vis ã o marcial da pol í tica, longe de apresentar escr úpulos em sua a çã o,

utiliza qualquer meio ao seu alcance para conseguir seu objetivo, ou seja, a tomada do poder do Estado e a instaura çã o da ditadura do proletariado. Em sua concep çã o, os meios s ã o subordinados aos fins, má xima da qual Lenin foi mestre, dando li ções de oportunismo e arrivismo sem igual. Uma de suas anedotas mais conhecidas é que se

valeu do agente alem ã o, te ó rico socialista e financista judeu Helphand­Parvus – o qual desprezava profundamente – para obter meios econô micos e materiais para ingressar clandestinamente na R ússia, como se sabe, com dinheiro proporcionado pelos imperialistas alem ã es, que sabiam que um triunfo bolchevique tiraria a R ússia da guerra e frearia a contingê ncia de uma revoluçã o protagonizada pelos conselhos operá rios autenticamente radicalizada.

A disciplina partid á ria – assim como em um exé rcito – era uma das pedras

angulares do projeto revolucioná rio leninista. Sem uma centraliza çã o severa e uma disciplina fé rrea, nã o seria poss í vel uma revolu çã o. Fica difí cil conjugar a obedi ê ncia cega que Lenin e seus seguidores exigiam de seus subordinados com a democracia interna, a liberdade de crí tica e o espí rito autocrí tico que recomendavam implementar dentro do partido. Esta disciplina partidá ria nã o se limitava à autodisciplina consciente e à exacerba çã o das responsabilidades do militante. Ap ó s a revoluçã o, Lenin se perguntava o que devia ser feito para manter a disciplina do partido revolucioná rio,

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como era controlada e como era reforçada. A resposta era previs ível: pela consciê ncia, pela firmeza e pelo espí rito de sacrif í cio da vanguarda proletá ria e “pelo sucesso da direçã o pol ítica que esta vanguarda leva a cabo; pelo sucesso de sua estrat é gia e de sua t ática pol í ticas, na condi çã o de que as massas mais extensas se convençam disso por experi ê ncia pró pria. Sem estas condi ções, nã o é poss í vel a disciplina em um partido revolucioná rio, verdadeiramente apto para ser o partido da classe avançada, chamada para derrocar a burguesia e para transformar toda a sociedade” (A Doen ça Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, pá g. 8). As repress õ es que Lenin e Trotsky se encarregaram de encabe çar contra os revolucioná rios que se opunham à autocracia bolchevique e, posteriormente, o genoc í dio selvagem dirigido por Stalin para disciplinar as massas preenchem a express ã o, por experi ê ncia pró pria, de um conte údo funesto. O unitarismo partidista é outro aspecto nã o menos destacá vel da teoria leninista. Para Lenin, um ú nico partido revolucioná rio é encarregado de levar adiante a direçã o revolucioná ria, porque cada partido representa um interesse de classe diferente. Como é l ó gico deduzir, se dois partidos socialistas representam a classe operá ria, pelo menos um deles declama um representa çã o falsa e nã o responde aos interesses de classe dos operá rios. Na visã o de Lenin, o peri ó dico terá um papel central e unificador, assinalando a linha correta ao resto do partido e unificando crit é rios para dentro e para fora da organiza çã o:

…o conteú do fundamental das atividades da organiza çã o de nosso partido, o centro de gravidade destas atividades deve consistir (…) em uma labuta de agita çã o pol í tica unificada em toda a Rússia que projete luz sobre todos os aspectos da vida e que dirija as maiores massas. E esta labuta é inconceb ível na R ússia atual sem um perió dico central para toda a Rússia que apareça muito a mi úde. A organiza çã o que se formar por si mesma em torno deste peri ó dico, a organiza çã o de seus colaboradores (na concepçã o mais ampla do termo, ou seja, de todos os que trabalham em torno dele) estará precisamente disposta a tudo, desde salvar a honra, o prestí gio e a continuidade do partido nos momentos de maior “depressã o” revolucioná ria, até a preparar a insurrei çã o armada de todo o povo, fixar data para o seu começo e levá ­la à prá tica”. (Ibidem)

É claro que semelhante unidade de crit é rios, unidade te ó rico­ideol ó gica e de a çã o somente pode ser alcançada com o mais estrito grau de disciplina militante e de obedi ê ncia à linha que o Comit ê Central preconiza. Do unitarismo partidista dos bolcheviques, os anarquistas e social­ revolucioná rios russos eram percebidos como uma aberraçã o pequeno­burguesa, enquanto percebiam a si mesmos como o partido da vanguarda prolet á ria. Apesar das condi ções histó ricas da R ússia terem sido únicas, algo que nã o pode deixar de reconhecer em muitos escritos, sem nenhum desembara ço Lenin afirmava que “a

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experi ê ncia demonstrou que em algumas questõ es essenciais da revoluçã o proletá ria todos os pa í ses passarã o inevitavelmente pelo mesmo que a R ússia passou” (A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo, p á g. 15). Tendo em conta o destino final do castelo de naipes comunista que Lenin inaugurara e a pl êiade de partidos únicos marxistas­leninistas (trotskistas, estalinistas, maoístas, guevaristas etc.) que presumem ser a verdadeira vanguarda prolet á ria, s ó podemos nos assombrar frente ao pat ético grau de senilidade que as fó rmulas leninistas evidenciam.

Algumas críticas à concepção leninista de partido

Deixando de lado as cr í ticas provenientes de elementos burgueses ou autorit á rios, as principais objeções às teses de Lenin foram formuladas a partir do comunismo de conselhos e do anarquismo. Apesar do comunismo de conselhos se adscrever dentro da corrente marxista, ele renegava tanto a concep çã o vanguardista e autorit á ria de Lenin como o colaboracionismo social­democrata de Bernstein. Talvez uma das peculiaridades que as crí ticas ao bolchevismo apresentam a partir destes setores comprometidos com uma vis ã o antiautorit á ria da revoluçã o social seja o cará ter profé tico de muitas de suas proposi ções com respeito à posterior evoluçã o da ditadura do proletariado, ou melhor dito, à ditadura do Partido Comunista sovi ético. A pergunta que os comunistas de conselhos alem ã es e holandeses faziam era:

quem deve exercer a ditadura, o proletariado como classe ou o Partido Comunista? Segundo sua ó ptica havia dois partidos comunistas: o partido dos chefes (organiza e dirige a luta de cima, participando do poder) e o partido das massas (que luta de baixo rejeitando o parlamentarismo e o colaboracionismo). Segundo um de seus porta­vozes, o alem ã o Karl Erler, “a classe operá ria nã o pode destruir o Estado burguê s sem aniquilar a democracia burguesa, e nã o pode aniquilar a democracia burguesa sem destruir os partidos” (citado em ibidem, pá g. 15). Para Lenin esta posi çã o era um claro exemplo de “infantilismo de esquerda”. O l í der bolchevique respondia a estas cr í ticas com argumentos que ainda hoje continuam parecendo familiares:

Negar a necessidade do partido e da disciplina do partido, eis aqui o resultado a que chegou a oposi çã o. E isto equivale a desarmar completamente o proletariado em proveito da burguesia. Isto os ví cios pequeno­burgueses dã o por resultado: dispersã o, inconstâ ncia, falta de capacidade para o dom í nio de si mesmo, para a uni ã o dos esforços, para a a çã o organizada que produzem inevitavelmente, e se somos indulgentes com eles, a ruí na de todo o movimento revolucioná rio do proletariado. (Ibidem, pá g. 33)

Segundo acreditava Lenin, as diferenças entre os comunistas de conselhos alemã es e as proposi ções anarquistas eram quase inexistentes. Mas os anarquistas n ã o mereciam a honra de ser alvo de seus ataques devido a sua rejeiçã o ao marxismo e à ditadura do proletariado demonstrarem sua ess ê ncia ideol ó gica pequeno­burguesa. “A concep çã o de mundo dos anarquistas é a concep çã o burguesa do avesso. Suas teorias

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individualistas e sua ideia individualista estã o em oposi çã o direta com o socialismo” (Lenin, Socialismo e Anarquismo, 1905). Um dos teó ricos mais brilhantes do conselhismo, o holand ê s Anton Pannekoek, afirmava que “O velho movimento operá rio está organizado em partidos. A crença nos partidos é a razã o principal da impot ê ncia da classe operá ria; portanto, nó s evitamos a cria çã o de um novo partido. N ã o porque sejamos demasiado poucos – um partido de qualquer tipo come ça com poucas pessoas –, mas porque um partido é uma organiza çã o que objetiva dirigir e controlar a classe operá ria. Em oposi çã o a isto, nó s mantemos que a classe operá ria s ó pode se lançar à vit ó ria quando afronta de modo independente seus problemas e decide seu pró prio destino. Os operá rios nã o devem aceitar cegamente os lemas de outros, nem de nossos pr ó prios grupos, mas devem pensar, atuar e decidir por si mesmos” (Partido e Classe, escrito em 1936, ediçã o eletrô nica por CICA, 2005). Depois de ver a luta de classes como uma luta de partidos – argumentava Pannekoek – se torna difí cil considerá ­la como uma luta de classes. Alé m disso, é uma ficçã o a identidade entre um partido (pessoas que est ão de acordo em suas concep ções sobre os problemas sociais) e uma classe (o papel das pessoas no processo de produçã o) que os bolcheviques prop õ em, j á que as contradi ções nã o tendem a se resolverem entre eles, como mostra a realidade inescus á vel de encontrar partidos operá rios vazios de operá rios e partidos burgueses integrados por operá rios. Este problema é exposto por Pannekoek mediante a senten ça: “a classe operá ria nã o é d é bil porque est á dividida, mas está dividida porque é d é bil”. Uma das causas desta debilidade é a a çã o das organiza ções de tipo partidá rio no interior da classe operá ria. Existe uma contradi çã o entre o termo partido revolucioná rio j á que por sua forma, conte údo e objetivos estes partidos nunca podem s ê ­lo. “Podemos diz ê ­lo de outra maneira: no termo partido revolucioná rio, revolucioná rio sempre significa uma revolu çã o burguesa. Sempre que as massas derrocam um governo e ent ã o permitem que um novo partido tome o poder, temos uma revoluçã o burguesa – a substitui çã o de uma casta governante por uma nova casta governante”. O objetivo dos partidos é tomar o poder para eles e declamar que a revoluçã o consiste nesse ato, em lugar de ajudar a autoemancipar a classe proletá ria. Com uma clareza magistral, Pannekoek descreve os partidos revolucioná rios:

Devem ser estruturas rí gidas com linhas de marca çã o claras através de fichas de afilia çã o, estatutos, disciplina de partido e procedimentos de admissã o e expulsã o. Pois eles sã o os instrumentos do poder – lutam pelo poder, freiam seus membros pela força e buscam constantemente estender o alcance de seu poder. Sua tarefa nã o é desenvolver a iniciativa dos operá rios; em lugar disso, aspiram a treinar membros leais e incondicionais de sua f é. Enquanto a classe operá ria em sua luta por poder e pela vitó ria necessita da liberdade intelectual ilimitada, a domina çã o do partido tem que suprimir todas as opini õ es exceto a sua pró pria. Nos partidos “democrá ticos”, a supressã o está velada; nos

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partidos ditatoriais, é uma supressã o aberta e brutal. (Ibidem)

Ent ã o, o partido é um obst á culo para a revoluçã o porque nã o serve como meio de propaganda e esclarecimento, pelo contrá rio, o governo é sua funçã o principal. E toda autoproclamada vanguarda revolucioná ria cuja intençã o seja dirigir e dominar as massas através do partido revolucioná rio é um elemento reacioná rio. Os partidos sã o formas burguesas de organiza çã o e – como afirma Roi Ferreiro em Por Que Precisamos Ser Anti­Partido – estes partidos nã o sã o outra coisa al é m da ala esquerda do reformismo de esquerda, a extrema esquerda do capital. Os partidos existem em luta e oposiçã o a outros partidos e justificam sua exist ê ncia precisamente neste ponto; deste modo, pretendem converterem­se nos sujeitos executivos de um poder de classe. Os partidos nã o surgem da luta de classes, mas da crença em uma teoria acerca da luta de classes, de um ponto de vista exterior à mesma. E acrescenta Ferreiro: “Ao lutar para mudar as rela ções de poder, o partido luta implicitamente para ocupar um lugar nessas rela ções de poder mudadas – inclusive ainda que, em teoria, possa ser concebida a renúncia ao poder”. E termina com a f ó rmula: maior poder ao partido, menor poder real tem a classe trabalhadora. Este último ponto é especialmente importante porque compreende algumas concep ções de alguns setores anarcopartidistas – que j á mencionamos anteriormente – que creem que apenas tirando de seu programa a tomada do poder já conjuraram o fantasma do leninismo e do autoritarismo dentro de sua organiza çã o. Nã o se trata de uma questã o de palavras, ou concep ções de uma mesma palavra. Trata­se de concep ções diametralmente opostas, poderí amos dizer excludentes, de conceber um projeto revolucioná rio. Do anarquismo, as crí ticas ao bolchevismo foram pró digas, mas aqui s ó mencionaremos algumas das referidas ao partido revolucioná rio. Talvez a crí tica à concep çã o leninista melhor formulada tenha sido a de Luigi Fabbri em sua imprescind í vel obra Ditadura e Revoluçã o; ainda que estivesse enfocada mais que qualquer outra coisa em refutar as teses marxistas­leninistas sobre a ditadura do proletariado, mais que em criticar o cará ter partid á rio do bolchevismo. N ã o obstante, Fabbri desmente categoricamente as afirma ções dos anarcopartidistas a que nos referimos anteriormente sobre a viabilidade de formar organiza ções partid á rias anarquistas:

Os anarquistas têm escasso espí rito de partido; nã o se prop õ em a nenhum fim imediato que nã o seja a extensã o de sua propaganda. N ã o sã o um partido de governo nem um partido de interesses – a menos que por interesse se entenda o do pã o e da liberdade para todos os homens –, mas somente um partido de ideias. É esta sua debilidade, por quanto lhes é vedado qualquer êxito material, e os outros, mais astutos ou mais fortes, exploram e utilizam os resultados parciais de sua obra. Mas esta é tamb ém a força dos anarquistas, pois somente afrontando as derrotas, eles – os eternos vencidos – preparam

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tamb ém a vitó ria final, a verdadeira vitó ria. Nã o tendo interesses pró prios, pessoais ou de grupo para fazer valer, e rejeitando qualquer pretensã o de dom í nio sobre as multitudes em cujo meio vivem e com as quais compartilham as angústias e as esperanças, nã o dã o ordens que elas devam obedecer, nã o lhes pedem nada, mas lhes dizem: Sua sorte será tal qual a forjem; a salva çã o está em vocês mesmos; conquistem­na com seu melhoramento espiritual, com seu sacrifí cio e seu risco. Se quiserem, vencerã o. N ó s nã o queremos ser na luta nada al ém de uma parte de vocês.

Depois de citar Fabbri t ã o extensamente, quase nã o faria falta acrescentar que quando os italianos Malatesta, Fabbri ou Berneri utilizam o termo partido, nã o se referem a organiza ções pol í ticas partidá rias, mas ao mencionado partido de ideias. Nada mais longí nquo da concep çã o leninista acerca do papel da vanguarda, das organiza ções revolucioná rias e da atualiza çã o das massas. A leitura da obra de Fabbri, al é m de esclarecedora sobre a qualidade reacioná ria do bolchevismo, é surpreendentemente atual, devido ao caráter quase premonit ó rio de muitas de suas proposi ções a respeito de como vai se desenvolver a revoluçã o russa, e que ainda hoje encontram validade extraordiná ria quando aplicadas a supostos “processos revolucioná rios” como o caso cubano ou o bolivariano na Venezuela de Ch ávez.

Durante a revoluçã o russa, os anarquistas mantiveram uma atitude crí tica ao Partido Comunista e à sua atua çã o governista. Um dos porta­vozes mais radicalizados do anarquismo russo foi o Golos Truda, dirigido por Volin. Os anarquistas publicavam raivosamente as arbitrariedades dos bolcheviques, intervindo na autonomia dos comit ês de f á bricas e oficinas, impedindo o controle operá rio da produçã o. Os anarcossindicalistas de Moscou denunciavam o partidismo bolchevique proclamando “Abaixo a luta partidista!”; “Abaixo a Assembleia Constituinte!, onde os partidos irã o voltar e voltar sobre 'crité rios', 'programas', 'lemas' – e sobre o poder pol í tico! Vivam os sovietes locais, reorganizados, de novo, sobre uma linha verdadeiramente revolucioná ria, operá ria e nã o partidista!” (Em Paul Avrich, Os Anarquistas Russos, p á g.

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Durante a revolu çã o de outubro, os partidos podiam estar representados nos sovietes e nos conselhos de trabalhadores por delegados individuais, substituindo de fato os sovietes de camponeses, operá rios e soldados por sovietes de partidos políticos (finalmente ficando tã o somente o partido bolchevique). “Oradores como Lenin e Trotsky nã o eram por certo nem operá rios nem soldados, e muito menos camponeses. Chegaram a ser l í deres de seus conselhos em virtude de serem l í deres de seu partido. Sua ascens ã o ao poder foi cumprida atravé s de anos de intrigas partidá rias. Como periodistas (se era essa sua profiss ã o), tinham uma chance escassa de representar os

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sovietes de tip ó grafos. Como lí deres de seu partido eram figuras proeminentes” (A. Meltzer e S. Christie, Anarquismo e Luta de Classes, pá g. 141). Mais que periodistas, revolucioná rios profissionais, nos permitimos acrescentar. Na realidade, é inevit ável algum tipo de organiza çã o exterior aos comit ês de f á brica, sindicatos, conselhos, comunas, sociedades de resistê ncia, sovietes, ou como quer que se chame a unidade organizativa popular de base. N ã o se pode fechar os olhos e simplesmente afirmar que a propaganda pol í tica nã o existe. Para os anarquistas, se torna importante uma organiza çã o exterior de apoio, mas isso nã o implica na necessidade de formar partidos. Ou seja, os membros de um comitê e fá brica que sã o anarquistas atuam dentro do mesmo por sua condi çã o de trabalhadores, com adscri çã o ideol ó gica anarquista; mas nã o falam nem atuam em nome de uma organiza çã o, nem devem consultar esse organismo sobre qual será a pol í tica a adotar. Uma organiza çã o – ainda que care ça de l í deres ou chefes – que atue como um partido polí tico revolucioná rio dentro das organiza ções operá rias e comunais, se tornará inevitavelmente um dirigente fantasma, em um titereiro oculto por trás da decora çã o, em um lí der invisí vel alimentado pelo culto à organiza çã o como fim em si mesma. Como dizem os anarquistas brit â nicos Meltzer e Christie, certo grau de sectarismo nã o s ó é necess á rio, mas tamb ém é positivo. A pretens ã o de unidade com outras organiza ções de esquerda com maior caudal de afiliados tende a diluir a revoluçã o, nã o a intensificá ­la. “A luta que conta é a que ajuda a construir uma nova sociedade, e isto s ó pode ser feito mediante uma a çã o revolucioná ria individual ou de grupo que propague persistentemente sua propaganda mediante a palavra e a a çã o. Por nosso sectarismo podemos estar na atualidade separados do resto do mundo. Mas em caso contrá rio serí amos parte desse mundo. N ã o aceitamos a absurda afirma çã o do trotskismo de que é necess á rio unir­se ao partido trabalhista para estar em contato com a classe trabalhadora” (Ibidem, p á g. 144). Praticamente poderí amos dizer que est á impl í cito na defini çã o do vocá bulo anarquista a impossibilidade de formar organiza ções partid á rias. Cabe esclarecer que isso nã o significa rejeitar toda forma de organiza çã o, como afirma o individualismo tresnoitado. Pelo contrá rio, dirí amos que a organiza çã o é um meio que deve assumir o cará ter dos fins pelos quais se levantou: uma organiza çã o anarquista é um meio que deve promover fins anarquistas, ou seja, deve prefigurar a nova sociedade revolucioná ria. “O revolucioná rio libert á rio nã o pode ter nada a ver com a organiza çã o pol í tica partid á ria. Esta só pode ser um lugar estrat é gico para alcançar o poder ou um monumento recordat ó rio de batalhas passadas ou um gueto espiritual. Est á sujeita aos perigos impl í citos da burocracia ou da domina çã o. O controle democrá tico nã o é nenhuma salvaguarda, pois ainda que a decisã o majoritá ria seja aceita como uma maneira adequada de fazer as coisas, na prá tica se controla o que entra, de maneira que a maioria possa estar de acordo com as decis õ es a tomar” (Ibidem, p á g. 145). Quando examinarmos mais detidamente a prá tica real de certos enucleamentos anarcopartidistas e neoplataformistas, provaremos como em nome da unidade ideol ó gica e dos mecanismos de autocontrole se torna praticamente imposs í vel qualquer tipo de dissid ê ncia no interior destas organiza ções.

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No começ o, a Plataforma

Pode­se afirmar que praticamente todas as variantes de anarcoleninismo, anarcobolchevismo e anarcopartidismo tê m sua origem na Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertá rios que os anarquistas ucranianos e russos exilados em Paris, que se agrupavam ao redor do peri ó dico bimestral Dielo Truda (A Causa dos Trabalhadores), publicaram em 1926. Os dois integrantes mais not ó rios do grupo eram Piotr Archinoff e Nestor Makhno, o cé lebre comandante guerrilheiro ucraniano. Apesar do documento ter sido assinado pelo coletivo editorial do Dielo Truda, foi redigido praticamente em sua totalidade por Piotr Archinoff, o que é deduzido da

compara çã o da reda çã o do texto da Plataforma com outros de seus artigos. Igualmente,

o programa redigido por Archinoff refletia sinceramente a posi çã o de todo o coletivo editorial de Dielo Truda, que costumava assinar tamb ém como Grupo de Anarquistas

Russos no Estrangeiro. Na verdade, a publica çã o do panfleto foi a apresenta çã o oficial de uma sé rie de artigos e discuss õ es pré vias onde eram analisadas as causas da derrota do movimento anarquista russo pelos bolcheviques e era criticada com rudeza

a proposta de formar organiza ções mistas e de s í ntese, ou seja, que agrupassem em

seu interior as trê s correntes principais do pensamento anarquista, que havia sido patrocinada por Volin, S ébastien Faure e outros anarquistas de renome. Esta situa çã o levou a uma á cida disputa entre Volin, Fleshin e outros anarquistas russos com Archinoff, Makhno e o grupo Dielo Truda, que n ã o estaria isenta de difama ções e inj úrias entre seus protagonistas. As crí ticas à Plataforma foram contundentes e envolveram as figuras mais proeminentes do anarquismo internacional, bastando mencionar Errico Malatesta, Luigi Fabbri, Camillo Berneri, Sé bastien Faure, Max Nettlau, Alexander Berkman e Emma Goldman. Vejamos ent ã o o que era que a Plataforma Organizacional propunha que provocou uma rea çã o tã o ardente.

As propostas da Plataforma Organizacional

O documento que o Dielo Truda publicou come çou afirmando que a debilidade do movimento anarquista internacional se devia a um número de causas, das quais a mais importante, a principal, é a aus ê ncia de princí pios e práticas organizativas no movimento anarquista.

Em todos os pa í ses, o anarquismo está representado por uma série de organiza ções locais que advogam teorias e prá ticas contraditó rias, sem terem perspectivas de futuro nem uma constâ ncia no trabalho militante, e habitualmente desaparecendo, dificilmente deixando o menor rastro atrá s de si. Tomado como um todo, tal estado de anarquismo revolucioná rio só pode ser descrito como uma “desorganiza çã o crô nica”. Como a febre amarela, esta doença de desorganiza çã o foi introduzida no organismo do movimento anarquista e lhe tem sacudido por dezenas de anos. (…)

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Foi durante a Revoluçã o Russa de 1917 que a necessidade de uma organiza çã o geral foi sentida mais profundamente e mais urgentemente. Foi durante esta revoluçã o que o movimento libertá rio mostrou o mais alto grau de seccionalismo e confusã o.

Afirmavam que este estado caótico se devia a uma falsa interpretaçã o do princí pio da individualidade, confundindo­o com o ego í smo, a indiferença pol í tica e a aus ê ncia de responsabilidade. Todas estas afirma ções, apesar de terem sua dose de verdade, eram generaliza ções que os autores da Plataforma exageravam raivosamente com o fim de reforçar sua posi çã o. Por outro lado, para fazer este tipo de generaliza ções, se baseavam na sua pró pria experi ê ncia do fracasso organizativo do movimento anarquista russo. N ã o poderia na verdade classificar­se como um estado de “desorganiza çã o crô nica” a situa çã o do movimento anarquista nos pa íses com forte tradi çã o anarcossindicalista, sendo o caso mais not ável o do movimento espanhol. Nã o somente os anarquistas individualistas eram alvo das crí ticas do grupo Dielo Truda; Tamb é m rejeitavam o modelo organizativo proposto por Volin e Faure, conhecido como organiza ções de s í ntese, que haviam funcionado durante um tempo na revoluçã o russa como a Confedera çã o Nabat e que tamb é m existiam em pa í ses como a França. Inclusive os anarcossindicalistas foram alvo de suas crí ticas.

Rejeitamos como inepta, na prá tica e na teoria, a ideia de criar uma organiza çã o com a receita da “sí ntese”, isto é, reunir os representantes das diversas tendências do anarquismo. Tal organiza çã o, tendo incorporado elementos heterogêneos na teoria e na prá tica, só seria uma jun çã o mecâ nica de individualidades cada qual tendo uma diferente concep çã o de todas as questõ es a respeito do movimento anarquista, uma jun çã o que levaria inevitavelmente à desintegra çã o no encontro com a realidade. O m étodo anarcossindicalista nã o resolve o problema da organiza çã o anarquista, j á que nã o dá prioridade a este problema, interessando­se somente em penetrar e ganhar forças no proletariado industrial.

Propunham em contrapartida uma uni ã o geral de anarquistas baseada em posi ções precisas no t ático, no teó rico, no organizativo e ferreamente disciplinada sob o princí pio de responsabilidade coletiva, com base em um programa definido e homogê neo. O objetivo do documento era estabelecer uma plataforma mí nima sobre a qual deliberar para dar forma a tal organiza çã o. Os principais pontos que Archinoff, Makhno e seus camaradas propunham como inelud í veis eram:

1. A no çã o da luta de classes como a principal da teoria anarquista. É nesta afirma çã o onde a influê ncia de Archinoff – que havia militado nas fileiras bolcheviques at é 1906 – se manifestava com todo o seu peso. Alé m disso, eram evidenciadas as influê ncias marxistas que conviviam com seu pensamento anarquista, em uma esp é cie de

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anarcobolchevismo nã o declarado.

No dom í nio social toda a hist ó ria humana representa uma cadeia ininterrupta de lutas das massas laboriosas por seus direitos, pela liberdade, e por uma vida melhor. Na hist ó ria da sociedade humana esta luta de classes sempre foi o fator prim á rio que determinou a forma e a estrutura destas sociedades. O regime social e polí tico de todos os Estados é sobretudo o produto da luta de classes. A estrutura fundamental de toda a sociedade nos mostra o estado que alcan çou e no qual se encontra na luta de classes. A menor das mudanças no curso da luta de classes, na posi çã o relativa das forças na luta de classes, produz modifica ções contí nuas no tecido e na estrutura social. Tal é o alcance e o significado universal, geral da luta de classes na vida da sociedade de classes.

Esta postura nã o se diferencia da famosa afirma çã o do Manifesto Comunista de Marx e Engels de que a Hist ó ria da humanidade é a Histó ria da luta de classes entre exploradores e oprimidos. Apesar desta ser uma verdade indiscutível, nã o é menos certo que esta nã o é toda a verdade, mas é uma vers ã o extremamente estreita, determinista e reducionista da Histó ria. Esta atitude favorável a um classismo restrito majoritariamente à classe operá ria urbana e industrializada revelava certa estreiteza de vis ã o, diminuindo a import â ncia da situa çã o camponesa em um pa í s com popula çã o majoritariamente rural. Nã o obstante, na Plataforma as alus õ es à classe trabalhadora costumam ser confusas e mutá veis, porque às vezes parece se referir à classe operá ria especificamente, enquanto em outros casos o faz em um sentido mais amplo, que incluiria os camponeses e assalariados em geral, ou como referê ncia gené rica à s massas laboriosas.

2. A ideia das massas como portadoras de uma capacidade criativa e aná rquica natural. O anarquismo será uma atitude inerente às massas que os pensadores anarquistas, ou seja, Bakunin, Kropotkin e outros, “tendo­a descoberto nas massas, simplesmente ajudaram com a força de seu pensamento e seu conhecimento a especificá ­la e divulgá ­la”. O documento declara expressamente diferenciar­se dos bolcheviques, os quais “consideram que as massas possuem somente instintos revolucioná rios destrutivos, sendo incapazes da atividade criativa e construtiva – raz ã o principal pela qual estas atividades devem ser concentradas nas mã os dos homens que formam o Estado e o Comit ê Central do Partido”. Esta tese dos editores de Dielo Truda será incongruente com as outras proposi ções que sustentarã o no mesmo documento, e que nã o os diferenciam da criticada vis ã o dos bolcheviques.

3. O comunismo libert á rio como a ideia­tronco do movimento. O grupo liderado por Archinoff considerava o individualismo anarquista como refrat á rio à organiza çã o, à disciplina e ao compromisso, pelo qual seus aderentes nem sequer eram tidos em conta

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para a forma çã o de uma Uni ã o Geral de Anarquistas, enquanto o anarcossindicalismo era considerado como um meio para chegar a um fim (o comunismo anarquista). Por isso acreditavam – e nã o sem raz õ es de peso – que era impossí vel chegar a uma sí ntese como a que Volin propunha, por ser arbitrá ria esta divis ã o do anarquismo em trê s ramos (Dielo Truda nº 10, março de 1926). Esta atitude dos plataformistas seria criticada pelos pró prios anarco­comunistas como Luigi Fabbri, por pretender excluir do movimento anarquista todas as outras tend ê ncias que nã o concordavam com a sua. Outro problema que gerava a adesã o excludente ao comunismo libert á rio era que fracassava em sua tentativa de unificar o movimento, precisamente por nã o incluir as outras tend ê ncias, e ent ã o perdia sua principal razã o de existir. Lembremos que o documento afirmava que “as forças de todos os militantes anarquistas devem estar orientadas em dire çã o à cria çã o desta organiza çã o”, ou seja, a Uni ã o Geral de Anarquistas.

4. Formar uma Uni ã o Geral de Anarquistas, fundada na unidade ideol ó gica, na unidade t ática e na responsabilidade coletiva, e implementar um programa de açã o a cumprir. Esta era uma das quest õ es que gerou maiores rejeições e impugna ções. Estes trê s pontos tã o conflitivos eram definidos sucintamente pelos plataformistas, e tiveram que ser ampliados nos documentos posteriores. Os princí pios fundamentais da organiza çã o da Uni ã o Geral dos Anarquistas eram:

1­ Unidade Teó rica: A teoria representa uma força que dirige as atividades das pessoas e das organiza ções ao longo de uma vertente definida em direçã o a um determinado fim. Naturalmente, deve ser comum a todas as pessoas e organiza ções aderentes à Uni ã o Geral, tanto no geral como em seus detalhes, devem estar em perfeito acordo com os princ í pios teó ricos professados pela uniã o. 2­ Unidade Tá tica ou Método de A çã o Coletiva: Do mesmo modo, os métodos tá ticos empregados por membros separados e pelas organiza ções na Uni ã o devem ser unitá rios, isto é, estar em rigoroso acordo tanto entre si como com as teorias e tá ticas gerais da Uni ã o. Uma linha tá tica comum no movimento é de importâ ncia decisiva para a existência da organiza çã o e para todo o movimento: remove os efeitos desastrosos de muitas tá ticas em oposi çã o umas com as outras, concentra todas as forças do movimento, lhes dá uma direçã o comum, levando ao objetivo fixado. 3­ Responsabilidade Coletiva: A pr á tica de atuar sob a única responsabilidade individual deve ser decisivamente condenada e rejeitada nas fileiras do movimento anarquista. As áreas da vida revolucioná ria, social e pol í tica sã o, sobretudo, profundamente coletivas por natureza. A atividade social revolucioná ria nestas á reas nã o pode estar baseada na

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responsabilidade pessoal dos militantes individuais. O órgã o executivo do movimento anarquista geral, a Uni ã o Anarquista, tomando uma linha firme contra a tá tica do individualismo irresponsá vel, introduz em suas fileiras o princ í pio da responsabilidade coletiva: a Uni ã o inteira será responsável pela atividade pol í tica e revolucioná ria de cada um de seus membros; do mesmo modo, cada membro será responsável pela atividade pol í tica e revolucioná ria da Uni ã o como um todo.

Um quarto ponto afirmava a necessidade do Federalismo, da independ ê ncia dos indiví duos e da descentraliza çã o, mas a seguir argumentava que “com frequê ncia o princí pio federativo foi deformado nas fileiras anarquistas: foi reiteradamente entendido como o direito, sobretudo, a manifestar o 'ego' individual, sem a obriga çã o aos deveres que requer a organiza çã o. Esta falsa interpreta çã o desorganizou nosso movimento no passado. É hora de p ô r­lhe fim de forma irrevers í vel e firme. Federaçã o significa o livre acordo dos indiví duos e das organiza ções para trabalhar coletivamente em direçã o a um objetivo comum”. Esta exagerada exceçã o que os plataformistas faziam os habilitava para afirmar que o único federalismo bem entendido era o seu.

5. Instaura çã o de um Comit ê Executivo; guia ideoló gico, vanguardismo, dirigismo e tomada de decis õ es com preponderâ ncia das maiorias. Ainda que na Plataforma seja declarado expressamente que nã o se aspira ao poder pol í tico nem ao governo, mas que a principal aspira çã o do anarquismo deve ser ajudar as massas a conseguirem sua emancipa çã o para a construçã o do socialismo, ela em seguida se contradiz com esta afirma çã o e com a no çã o expressa anteriormente a respeito da capacidade criativa natural das massas:

Apesar das massas se expressarem profundamente nos movimentos sociais nos termos das tend ências e dos princí pios libertá rios, estas tendências e princí pios permanecem dispersos, descoordenados e, consequentemente, nã o levam à organiza çã o do poder condutor das ideias libert á rias, o qual é necessá rio para preservar a orienta çã o anarquista e os objetivos da Revoluçã o Social. Esta força condutora teó rica só pode ser expressada por uma coletividade especialmente criada pela massas para este prop ó sito. Os elementos anarquistas organizados constituem exatamente esta coletividade. (…) Em todas estas questõ es, e em muitas outras, as massas demandam uma clara e precisa resposta por parte dos anarquistas. E a partir do momento em que os anarquistas declaram uma concepçã o da revoluçã o e da estrutura da sociedade, estã o obrigados a dar a estas quest õ es uma resposta clara para relacionar a soluçã o destes problemas com a concep çã o geral do comunismo libertá rio e para direcionar todas as suas

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forças para a realiza çã o deste. Somente neste sentido a Uni ã o Geral de Anarquistas e todo o movimento anarquista asseguram sua funçã o como força condutora teó rica da Revoluçã o Social.

Sã o estas pretens õ es de se converter em uma organiza çã o “criada pelas massas” que atue como guia te ó rico das massas dispersas e desorganizadas, as quais “demandam” uma “clara e precisa resposta” dos anarquistas, que aproximam as concep ções plataformistas com os leninistas. Aqui vemos reaparecer a funçã o da organiza çã o partid á ria em toda a sua dimensã o como condutora do instinto revolucioná rio das massas e como única linha te ó rica admiss í vel. Ou seja, a tã o ponderada criatividade das massas e sua capacidade inata para o socialismo libertá rio nã o parecem desempenhar nenhum papel de importâ ncia senã o sob o guia da organiza çã o partid á ria anarquista; aqui o anarcoleninismo se manifesta veladamente dentro de uma ret ó rica anarquista artificiosa. Esta ideia de conduçã o e guia que os plataformistas propunham é manifestada no formato organizativo centralizado em um comit ê executivo de clara voca çã o hierárquica, em flagrante contradi çã o com os princí pios federalistas.

Cada organiza çã o aderida à uni ã o representa uma célula vital do organismo comum. Toda célula deve ter seu secretá rio, executando e guiando teoricamente o trabalho pol í tico e técnico da organiza çã o. Com vista à coordena çã o das atividades de todas as organiza ções aderentes à Uni ã o, será criado um órgã o especial: o comitê executivo da Uni ã o. O comitê será responsá vel pelas seguintes fun ções: a execuçã o das decisõ es tomadas pela Uni ã o que lhes foram confiadas; a orienta çã o teó rica e organizacional das atividades dos grupos isolados de forma consistente com as posi ções teó ricas e com a linha tá tica geral da Uni ã o; a manutençã o dos la ços de trabalho e organizativos entre as organiza ções na Uni ã o e as outras organiza ções.

A Uniã o Geral de Anarquistas n ã o se diferenciava muito de qualquer partido pol í tico, salvo a expressa negativa de formar um governo, mas sem renunciar a um papel dirigente sobre as massas, sobre os sindicatos e os conselhos de trabalhadores, mediante um comit ê executivo centralizado.

6. O papel do sindicalismo. Para os plataformistas, o sindicalismo era o principal meio de luta, mas ao nã o ter uma teoria revolucioná ria pró pria, era indispens ável incliná ­lo em uma direçã o libert á ria. O anarcossindicalismo se apresentava aos olhos dos plataformistas como incompleto e incapaz de anarquizar o movimento oper á rio. A t ática da Plataforma para os sindicatos nã o se diferenciava da aplicada pelos partidos leninistas.

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A tarefa dos anarquistas nas fileiras do movimento de trabalhadores revolucioná rios só pode ser cumprida em condi ções tais que seu trabalho se veja intimamente ligado e associado com a atividade da organiza çã o anarquista por fora do sindicato. Em outras palavras, devemos ingressar no movimento sindical revolucioná rio como uma força organizada, responsá vel por cumprir seu trabalho no sindicato perante a organiza çã o geral dos anarquistas, e orientada por esta última. Sem nos restringirmos à cria çã o de sindicatos anarquistas, devemos buscar exercer nossa influ ência teó rica em todos os sindicatos, em todas as suas formas (os IWW, as TU russas). Somente podemos alcançar este fim trabalhando em grupos anarquistas rigorosamente organizados; mas nunca em pequenos grupos empí ricos, sem ligaçã o organizativa nem acordo teó rico entre eles.

Esta proposta nã o se diferencia do dirigismo que os bolcheviques aplicaram sobre os sovietes, convertendo­os em ap ê ndices do Partido Comunista. Em outras palavras, nã o sã o os trabalhadores que decidem livremente em condiçã o de tais, mas a linha é induzida, infiltrada ou imposta a partir de uma organizaçã o exterior ao grê mio ou ao conselho operá rio.

7. A questã o da Defesa da Revoluçã o. Baseados em sua experi ê ncia durante a revoluçã o russa e sua participa çã o na guerra revolucioná ria na Ucrâ nia, o grupo de Makhno e Archinoff propunha a cria çã o de um exé rcito para a defesa da revoluçã o contra a inevit ável rea çã o da burguesia (nã o como estrat é gia excludente para conseguir a revoluçã o, como alguns haviam pretendido).

Como em todas as guerras, a guerra civil nã o pode ser empreendida pelos trabalhadores com êxito a menos que ekes apliquem os princí pios fundamentais de qualquer a çã o militar:

unidade no plano de opera ções e unidade do mando comum. O momento mais crí tico da Revoluçã o virá quando a burguesia marchar contra a revoluçã o como força organizada. Este momento crí tico obriga os trabalhadores a adotarem estes princí pios da estratégia militar. De tal modo, em vista das necessidades impostas pela estratégia militar, al ém da estraté gia da contrarrevoluçã o, as forças armadas da revoluçã o devem estar inevitavelmente baseadas em um exército geral revolucioná rio com um mando comum e com um plano de opera ções.

Em teoria, este exé rcito estaria submetido à jurisdi çã o das organiza ções produtivas de operá rios e camponeses, o que nã o deixa de soar como um formalismo inoperá vel. Segundo advertiam os assinantes do documento, a cria çã o de um exé rcito

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deveria ser tomada nã o como uma quest ã o de princí pio mas uma questã o estrat é gica, à qual os trabalhadores se veriam “fatalmente forçados” a recorrer em defesa da revoluçã o. Até aqui repassamos sucintamente os argumentos bá sicos que a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libert á rios propunham. As respostas nã o se fizeram esperar, nã o só dentro do cí rculo dos exilados russos mas tamb é m entre camaradas de outros pa í ses.

As reações contra a Plataforma

O documento de Dielo Truda provocou uma catarata de respostas crí ticas, algumas destemperadas e outras comedidas. Entre os anarquistas russos exilados, o alvoroço tomou ribetes escandalosos quando começaram as acusa ções cruzadas entre antigos camaradas de luta. Do grupo de Volin, ficou expl í cito que a Plataforma era tributá ria de uma ideologia bolchevique e se fazia refer ê ncia ao passado de Archinoff, que antes de se integrar ao anarquismo em 1906 havia militado nas fileiras bolcheviques; segundo eles, seu autor nunca havia se distanciado das ideias de Lenin. Como contrapartida, Makhno sugeriu que Volin havia passado para os comunistas em 1919, em ocasiã o de ter sido tomado prisioneiro pelo Exé rcito Vermelho. Alexander Berkman saiu em defesa de Volin acusando Makhno de possuir um temperamento militarista e estar moralmente dominado por Archinoff. Sobre este, opinava que “seu caráter é inteiramente bolchevique”; “tem um cará ter dominante, arbitrá rio e tirâ nico. Tudo isso projeta alguma nova luz tamb é m sobre a Plataforma Organizativa” (P. Avrich; Os Anarquistas Russos: 247). A Plataforma era vista como um desvio anarcobolchevique e que preconizava um anarquismo de corte partid á rio. A derrota, o penoso exí lio e a certeza de um futuro ominoso carcomiam por dentro o grupo de exilados russos: as rivalidades pessoais estouravam entre os velhos revolucioná rios; a discó rdia havia ocupado o espa ço da camaradagem, dando um penoso golpe à a çã o do anarquismo russo.

A crítica de Volin, Fleshin e outros exilados russos

Em abril de 1927, foi publicada em russo e em francê s a Resposta ao documento do Dielo Truda, primeira intervençã o em uma larga s é rie de intervenções a respeito do papel da organiza çã o anarquista. A Resposta era inaugurada com a seguinte frase:

“N ã o estamos de acordo com as afirma ções da Plataforma

que teria o documento dali em diante. Continuava com uma rejeiçã o expl í cita das motiva ções sobre as quais o grupo Dielo Truda se baseava para fundamentar sua proposta: que a debilidade do movimento anarquista se devia à aus ê ncia de princí pios organizativos. Sem rejeitar a necessidade de se organizar, o grupo de Volin considerava que a Plataforma “super­enfatizava a importâ ncia do papel da organiza çã o”, estabelecendo um partido centralizado que inseriria uma linha pol í tica e t ática para o movimento anarquista.

revelando o teor cr í tico

”,

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Al é m de rejeitar a ideia de anarquismo de s í ntese segundo estava explicitada na Plataforma, o grupo de Volin defendia que propor a ideia de luta de classes como a única vá lida para o anarquismo, rejeitando os princí pios humanistas e individualistas, implicava em constringir a ideia, limitá ­la a um único ponto de vista.

O anarquismo é mais complexo, sint ético e diverso, como é a pró pria vida. Seu componente de classe consiste principalmente na luta pela liberta çã o; seu cará ter humanitá rio constitui seu aspecto ético e a base da sociedade humana; seu individualismo, o ser humano como finalidade.

Com respeito ao papel das massas, a Resposta afirmava que a tese da Plataforma podia ser resumida em: as massas devem ser dirigidas. Pelo contrá rio, Volin e companhia afirmavam que os anarquistas nã o deveriam dirigir as massas mas atuar a partir das massas. A perspectiva plataformista nã o se diferenciava da dos partidos pol í ticos neste ponto de vista, porque compartilhava com eles pressupostos similares: a) as massas devem ser dirigidas, b) a minoria consciente separada das massas deve levar a iniciativa, c) este coletivo deve se organizar em um partido que deve tomar a iniciativa em todas as á reas da revoluçã o. “Os anarquistas e as organiza ções especí ficas (grupos, federa ções, confedera ções) só podem oferecer assistê ncia ideol ó gica, sem assumirem o papel de l í deres.” A mais leve insinua çã o de caudilhamento, superioridade ou liderança sobre as massas conduziria a uma aceita çã o e submetimento a uma dire çã o separada das bases. Outro dos pontos da Plataforma que a Resposta rejeitava era a obrigatoriedade da aceita çã o de certas decis õ es, cuja rejei çã o acarretava a aplica çã o de sanções; isto significaria “o começo da coerçã o, da viol ê ncia e dos castigos”. Consequentemente, o grupo de Volin rejeitava a ideia de controlar “em momentos especí ficos” a liberdade de express ã o e de imprensa em defesa da revoluçã o, como propunham os plataformistas. Quem imporia estes limites, quem determinaria os momentos especí ficos quando chegasse o caso, quem teria essa capacidade de decisã o? A autoridade e o poder se reabilitariam, ainda que fossem qualificados com outros nomes. A respeito da defesa da revolu çã o, o grupo de Volin afirmava que, na proposta da Plataforma acerca de um exé rcito dirigido por um comando centralizado, se evidenciava um erro t é cnico e um erro pol í tico. O erro t é cnico consistia em crer que um exé rcito destas características é id ô neo para a defesa da revoluçã o pelo simples fato de sua centraliza çã o. O emprego de um plano geral de a çã o idealizado por um comando centralizado nã o est á excetuado de levar a revoluçã o à derrota. Um exé rcito centralizado poderia ser tã o nefasto e ineficaz quanto unidades descoordenadas isoladas e dispersas. O erro político consistiria em que um comando centralizado desalentaria as iniciativas regionais e individuais; alé m disso, geraria um aparato militar esmagador e uma tend ê ncia a considerar o centro de mando especializado como infal í vel. Como consequê ncia, o exé rcito centralizado teria muitas probabilidades de deixar de ser “revolucioná rio” para converter­se em uma ferramenta da rea çã o, tal qual havia ocorrido com o Exé rcito Vermelho. Se as massas perdem a iniciativa de sua

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a çã o, nada pode substituí ­las. Nenhum exé rcito, aparato ou Cheka – como é a concep çã o bolchevique – salvará a revolu çã o dos compl ô s da burguesia se o povo em armas auto­organizado fracassar. Finalmente, as crí ticas foram enfocadas sobre as formas e o papel que a organiza çã o anarquista devia assumir. A Plataforma propunha acabar com as contradi ções teó rico­prá ticas, com a incoerê ncia ideol ó gica e a dispers ã o organizativa que percebia no movimento anarquista abra çando a unidade te ó rica e a unidade tá tica. Esta se conseguiria entrando em acordo sobre aquilo que deveria ser conservado e abandonado da variedade de ideias anarquistas, reduzindo as “contradi ções te ó ricas” para formar uma ideologia homogê nea e coerente. Assim se conseguiria uma organiza çã o única que excluiria aqueles que nã o entraram em acordo com seu programa. Mas o plano plataformista de conseguir a unidade ideol ó gica e tá tica dos anarquistas fracassaria precisamente porque, longe de conseguir a unidade, geraria rela ções hostis com aquelas organiza ções anarquistas que estivessem em discrep â ncia. Em lugar de ser produzida a unidade e o entendimento, prevaleceriam a disc ó rdia e o enfrentamento. E ent ã o fracassaria o prop ó sito principal da Plataforma, que consistia em formar uma organiza çã o que agrupasse todos os anarquistas sobre uma mesma base: continuariam existindo nã o uma, mas vá rias organiza ções. Uma organiza çã o que pretendesse ser levada a s é rio deveria prestar aten çã o para definir seu papel e seus objetivos com clareza. Segundo a Plataforma, o papel da organiza çã o especí fica é dirigir as massas. “Justapor o termo dirigir com o advé rbio ideologicamente nã o muda substancialmente a posi çã o dos autores da Plataforma, porque concebem a organiza çã o como um partido disciplinado. Rejeitamos qualquer pensamento de que os anarquistas devam dirigir as massas”. Os autores da Resposta assinalavam al é m disso uma contradi çã o flagrante. Apesar das concepções da Plataforma se assemelharem à s de qualquer partido pol ítico, ou seja, a presença de um comit ê executivo centralizado que assume a dire çã o ideol ó gica e tá tica, “ao mesmo tempo ela afirma sua fé no princí pio federativo, o qual está em absoluta contradi çã o com as ideias citadas previamente”, já que federalismo significa autonomia nas bases, nos grupos locais e regionais. Enquanto se exalta a necessidade do centralismo, a disciplina partidá ria, o papel diretivo sobre as massas, a unidade te ó rica e t ática delineada por um comit ê e a necessidade de um exé rcito centralizado, se invoca o federalismo para conjurar o fantasma da centraliza çã o. Como assinalaram Volin e companhia, os autores da Plataforma “est ã o apenas a um passo do bolchevismo, um passo que nã o se atreveram a dar”.

Outras ré plicas à Plataforma

O debate sobre o papel e a natureza da organiza çã o anarquista que a Plataforma propô s envolveu militantes á cratas de renome, que assumiram em sua ampla maioria uma posi çã o de reprova çã o sobre o documento do Dielo Truda. Paralelamente à resposta assinada por Volin, Fleshin, Sobol e outros exilados russos, Sebástian Faure e Jean Grave tamb é m editaram suas crí ticas em diversas revistas e peri ó dicos, enquanto Max Nettlau publicou O Projeto de Constituiçã o de um Partido Anarquista em 30 de maio de 1927.

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Os anarquistas italianos debateram a fundo a Plataforma e redigiram vá rios artigos, na grande maioria impugnando seus pressupostos, como foi o caso de L. Galleani com seu artigo O Princí pio da Organiza çã o à Luz do Anarquismo, de E. Malatesta com um escrito em Le Reveil de Ginebra em outubro de 1927 e de interven ções do grupo Pensiero e Volontà , integrado por personalidades como Luigi Fabbri, Ugo Fedelli e Camillo Berneri. O artigo de Fabbri – originalmente publicado em italiano por Il Martelo de Nova Iorque em setembro de 1927 e reproduzido em Buenos Aires por La Protesta – era intitulado A Respeito de um Projeto de Organiza çã o Anarquista. Fabbri afirmava que a Plataforma era demasiadamente ideol ó gica, pouco prá tica e realista, que al é m disso estabelecia pontos de vista axiom á ticos sobre certas problem á ticas sobre as quais dificilmente se poderia chegar a conseguir uma unidade de crit é rios. Apesar da necessidade de uma organiza çã o anarquista estar completamente justificada, dizia Fabbri, “nã o obstante, desde a introduçã o se adverte que o esp í rito da Plataforma cont é m efetivamente um exclusivismo excessivo, tendente a deixar fora do movimento anarquista todas as correntes que n ã o concordam com ela, nã o só em quest õ es prá ticas mas tamb ém ideol ó gicas”. Excluir outras variedades de pensamento anarquista como o anarcossindicalismo a favor de uma “unidade rigorosa de partido, uma unidade ideol ó gica ou estrat é gica” seria um grave erro, transformando uma corrente interna m algo estranho e adverso. Tamb ém em referê ncia à unidade e variedade dentro do movimento anarquista, Fabbri concluí a que a pretens ã o de constituir uma Uni ã o Geral de Anarquistas “que representasse a generalidade dos anarquistas e que excluí sse dessa generalidade aqueles que nã o pertencessem a ela na realidade sempre seria uma organiza çã o particular e nunca geral”. Isto equivaleria a confundir uma parte com o todo, a tomar as raz õ es particulares como a raz ã o excludente, nã o vendo nenhum movimento anarquista al é m da pró pria organiza çã o. Outro ponto desafortunado da Plataforma consistia em fazer da luta de classes a característica principal do anarquismo, “reduzindo à sua mí nima expressã o seu significado e objetivo humanit á rios”. A luta de classes é um fato inegável, mas s ó corresponde ao m étodo e à a çã o revolucioná ria do anarquismo, cujo car á ter fundamental consiste em afirmar a liberdade social e individual negando qualquer autoridade imposta e de qualquer governo. A socializa çã o que os anarquistas prop õ em será “em benef í cio de todos os homens, de modo que uns deixem de ser os exploradores de outros”. Fabbri tampouco coincide com a ideia de que as massas possuam uma capacidade anárquica inata criadora. A condi çã o de classe das massas nã o é o que as converte em revolucioná rias, elas o s ã o na medida de sua a çã o aná rquica. De todo modo, esclarece, sobre este ponto podem existir diferenças de opini ã o entre os anarquistas, e seria perfeitamente inútil dogmatiz á ­lo em qualquer sentido. Pode­se concordar que os anarquistas participam da luta das classes exploradas para acabar com o capitalismo. “Sobre isso todos estamos de acordo, sem distinçã o: sobre o resto podemos discutir, mas nã o faremos disto o argumento de uma verdadeira e pr ó pria divis ã o de partido”. O ponto da Plataforma que Fabbri considera mais desviado da ideologia

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anarquista é a pretens ã o dirigente da organiza çã o anarquista especí fica sobre o movimento operá rio, a qual poderia levar a estabelecer uma casta dirigente ou – no pior dos casos – uma ditadura anarquista sobre o proletariado, uma verdadeira contradi çã o nos termos. Ainda que os autores da Plataforma pretendessem que a fun çã o dirigente se restringisse à de um guia ideol ó gico, esta situa çã o evoluiria em uma conduçã o de fato de uma minoria anarquista – uma esp é cie de “estado maior” – sobre as massas. “De outra maneira nã o poderia ser explicada a diferença que a Plataforma estabelece entre organiza ções de massas impregnadas de ideologia anarquista e organiza çã o anarquista propriamente dita. Uma diferença que na prática nã o poderia se tornar precisa, j á que nã o se pode estabelecer o grau de anarquismo da primeira em compara çã o com a segunda, nem sancionar a legitimidade da dire çã o ou a superioridade da segunda sobre a primeira”. Berneri tamb é m publicaria um artigo crí tico à posi çã o de Dielo Truda no peri ó dico parisiense Lotta Umana, em dezembro do mesmo ano. Sua posiçã o fica expressa desde o começo: “N ã o estou em absoluto de acordo com a Plataforma”. Assim como para Fabbri, as massas nã o s ã o portadoras de uma capacidade revolucioná ria inata, “na a çã o popular insurrecional vejo mais 'efeitos' anarquistas que 'instintos' aná rquicos; nã o creio que a funçã o dos anarquistas na revolu çã o deva limitar­se a 'suprimir os obst á culos' que se op õ em à manifesta çã o das vontades das massas; vejo graves perigos e nã o poucas dificuldades nos egoí smos municipais e corporativos”. Berneri aponta para as complexidades da vida social e para os particularismos regionais ou culturais de natureza conservadora que sã o encontrados em todas as sociedades humanas, e cujo comportamento a Plataforma simplifica excessivamente universalizando um suposto proceder das massas.

Se o movimento anarquista nã o adquirir a coragem de considerar­se isolado espiritualmente, nã o aprenderá a atuar como iniciador e propulsor. Se nã o alcan çar a intelig ência pol í tica que nasce de um racional e sereno pessimismo (que de fato é o senso da realidade) e de um atento e claro exame dos problemas, n ã o saberá multiplicar suas forças encontrando consensos e coopera ções nas massas. É necessá rio sair do romanticismo. Ver as massas, eu diria, em perspectiva. N ã o existe o povo homog êneo, mas gentes diversas, categorias. Nã o existe a vontade revolucioná ria das massas, mas momentos revolucioná rios, nos quais as massas sã o enormes alavancas. Estar com o povo é fá cil se trata­se de gritar: Viva! Abaixo! Adiante! Viva a Revoluçã o!, ou se trata­se simplesmente de lutar. Mas chega o momento no qual todos se perguntam: O que fazemos? É necessá rio dar uma resposta. N ã o para agir como chefe, mas para que a gente nã o acredite neles. “Tá tica única” quer dizer uniforme e contí nua. A Plataforma chegou à “tá tica única” pela simplifica çã o do problema

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da a çã o anarquista no seio da revolu çã o.

A posi çã o de Berneri est á t ã o longe dos tons demagó gicos que s ã o evidenciados na idealiza çã o das massas da Plataforma quanto do leninismo enrustido que lhe atribui em um pomposo artigo o neoplataformista Jos é Antonio Guti é rrez, ideia que na realidade é uma projeçã o de seu pró prio pensamento. Tampouco é veross í mil a vers ã o sobre a suposta p é ssima qualidade da traduçã o da Plataforma produzida por Volin do russo para o francê s de que dispuseram os camaradas italianos para desautorizar a interpreta çã o de Berneri, j á que Volin era um tradutor id ô neo. Al ém disso, é rid í cula sua imputa çã o de “fazer uma traduçã o t ã o tendenciosa quanto fosse possível”, al ém de insultar a inteligê ncia de quem pretende defender ou justificar. Até em Buenos Aires foram sentidas as sacudidas do debate que o Dielo Truda lançou. No suplemento quinzenal de La Protesta foi publicado de forma epis ó dica o texto da Plataforma (cuja autoria se atribui diretamente a Archinoff). Mediante notas de rodap é sobre a narra çã o, o grupo editor manifestava seus desacordos sobre as teses plataformistas. No Suplemento 257 de 15 de fevereiro de 1927, é relativizada a suposta situa çã o ca ótica do movimento anarquista internacional por nã o corresponder com a realidade dos fatos, é alertado sobre o exagero do “perigo individualista”, é desmentido o fetichismo organizativo que é atribuí do a Bakunin, é impugnada a afirma çã o de que o movimento anarquista tenha sempre lutado por uma unidade t ática e n