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us REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO

É esse, p~r exeii_Jplo, o caso do termo "legitimidade': primeiramente CAPÍTULO 6


~~a expre_ss_ao d~ li~~uagem jurídica, "a qual se atribuiu um sentido po-
litico tradiCIOnalista , sendo então introduzida na luta partidária. p História, histórias
fi t " , or
1m, o ermo revo 1ução ganhou também a sua "legitimidade". COm lSSO, · e estruturas temporais formais
o t~r~o ent,ra:a na perspectiva da filosofia da história, adquirindo colo-
r~çao ldeologiCa~ dependendo da situação política daqueles que se ser-
Viam da expre~:ao .. T~dos esses níveis de significado, que se justapõem A dupla ambigüidade do uso moderno de "história" [ Geschichte] e "his-
~ut~~~ente, ,!a ex1st1am, quando Max Weber neutralizou a expressão tória" [Historie], ou seja, o fato de que ambas as expressõs podem desig-
leg~t1m1dade para poder descrever tipos de dominação. Com isso, a nar tanto as circunstâncias nas quais se deu um evento quanto sua re-
partir de um reservatór~o en:pírico preexistente de significados possíveis, presentação, desperta questões que já procuramos desenvolver aqui de
ele el~borou um conce1to c1entífico, suficientemente formalizado e ge- maneira mais ampla. 1 Essas questões têm caráter histórico e caráter sis-
nerali:ante para po,der descre~er alternativas constitucionais de longa temático. O significado peculiar de "história", que lhe permite, ao mes-
duraçao, mas tambem alternativas cambiantes e entrecruzadas entre si mo tempo, ser e saber-se como tal, pode ser entendido como uma fór-
cap~zes de esclarecer as "singularidades" históricas a partir das estrutu~ mula geral para um dado movimento circular de caráter antropológico,
ras mternas a elas peculiares. que remete à relação recíproca entre a história e o conhecimento desta.
~ hi~tória s_oc~a~ que queira proceder de maneira precisa não pode Por 0utro lado, a convergência dos dois significados é um fenômeno
abr~r mao da h1stona dos conceitos, cujas premissas teóricas exigem pro- histórico único que só teve lugar no século XVIII. Pode-se notar que a
posições de caráter estrutural. formação do coletivo singular "história" [ Geschichte] * é um fenômeno
semântico que abrange a nossa experiência histórica moderna. Com o
surgimento do conceito "história absoluta" ["Geschichte schlechthin"]
Tradu!ão de Wilma Patrícia Maas e Fabiana Angélica do Nascimento
Rev1sao de Marcos Valéria Murad abriu-se espaço para a filosofia da história, na qual o significado trans-
cendental de história é contaminado pela noção de história como cons-
ciência e como espaço de ação.
Entretanto, seria bastante atrevimento afirmar que, por meio da for-
mação do conceito da "história absoluta" ou de "história em geral" ["Ge-
schichte überhaupt"], que, de mais a mais, do ponto de vista lingüístico,
é uma criação específica da língua alemã, todos os acontecimentos ante-
riores ao século XVIII deveriam empalidecer em pré-história. Deve-se
aqui remeter a Santo Agostinho, que constatou 2 que, sem dúvida, o tema
da história são as coisas humanas, mas que, no entanto, a historia ipsa
[história em si] não é uma instituição dos homens. A história em si vem
de Deus e nada mais é do que o ardo temporum [ordem dos tempos] an-
terior a todos os eventos e segundo o qual todos os eventos seriam arti-
culados. O significado meta-histórico - e também o significado tem-
poral - da historia ipsa não é, portanto, uma constatação exclusiva dos
tempos modernos, mas sim algo que já fora elaborado teologicamente.

*Sobre a distinção entre Geschichte e Historie veja o capítulo anterior. [N.T.]


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H!ST O' RIA > HISTÓRIAS E ESTRUTURAS TEMPORAIS FORMAIS 121

Sem dúvida, a interpretação de que a experiência moderna foi inaugura. instituída por volta de 1780. Somente as estrutur~s tempora,is
da apenas com o advento da história em si tem fortes argumentos se- . queremos designar aquelas estruturas internas tmane7t~s as
mânticos em seu favor. Apenas então pôde ser articulada, do ponto de com tsso. em que se deram os eventos, ou que, pelo menos, a u am
vista lingüístico, uma experiência também inédita, que não poderia ter , - oas
ca azes de articular o espaço da expene~cta. h'ts t'onca
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ocorrido antes. No entanto, o fenômeno semântico que indica o nasd- elas) sao deppesqmsa
campo . propno,
, . a pa rtir da perspecttva tmanente a ma-
mento da moderna filosofia da história não deve ser abordado pela pers-
dos eventos. - b
pectiva dessa filosofia da história. A experiência de uma história em si e '""'uu-..~ . - I lhor delineamento da questao: sa er
para si, dotada tanto de caráter transcendente quanto transcendental,* Essa anteopaçao nos evadaotme t moderna "história absoluta"
. onde existem diferenças e ato en re a . -o nos ossibili-
deveria nos levar a refletir melhor as premissas teóricas da nossa investi- . . d h. tória de tempos anteriores. Essa antectpaça p
gação histórica. A fim de garantirmos a unidade da história como ciên- a vana a ts caráter singular das histórias anteriores ao século ~VIII,
cia, devem ser desenvolvidas premissas teóricas que sejam capazes de tra- ~~~:~j:onecessário
o desconsiderar a semelhança destas. entre st, as-
zer à luz tanto experiências passadas, completamente estranhas, como mo diante da nossa história moderna. . , .
também experiências históricas que nos são próprias. Pois o nosso cam- ~o uestão sobre as estruturas temporats e sufioenteme~-
po de pesquisa não se restringe apenas àqu_ela história que desde os tem- Fmalmente, a q . . , ·s formas do transcorrer histón-
formal para poder evtdenoar posstvet . 'fi dos míticos
pos modernos parece ter se tornado o seu próprio objeto; ele abrange . - preJ· uízo de seus stgm tca h . d fini
assim como sua descnçao, sem .
todas as histórias no plural, infinitamente diversas, que se contavam an-
teológicos. Com isso ficará c1aro que mm'tos .campos , . f,que OJe. t e 1 o-
tigamente. Também a sua unidade na velha Historia universalis só pode como uma problemática genuinamente htstonca ,?r~~ ~~:,os n
ser comparada com a história absoluta se a investigação for direcionada o sob outras premissas, sem que se identificasse a htsto:ta co~~
para possíveis elementos comuns entre uma e outra. É por isso que pro- de conhecimento. Faltou, até o século XVIII, ~m conceito geraata
ponho a investigação das estruturas temporais que possam eventualmen-
para to d as as h 1'sto' rt'as ' res gestae [coisas reahzadas], ad'pragmd
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te ser próprias tanto à história no singular como às histórias no plural. {os fatos] e a vitae [as vtdas . ]
, que d es d e então foram subor ma as· ao ão
Nesse questionamento se destaca, naturalmente, um princípio meto- conceito . d e "h'1s t,or t'a" [ Geschichte] , usado freqüentemente em opostç
dológico e um princípio factual. A história como ciência não tem um
objeto de estudo que seja exclusivamente seu; ela tem que dividi-lo com às ciências da natureza. . cia" ré-histórica"
A

Antes de discutirmos alguns exemplos da expenen p . A • •

todas as ciências sociais e humanas. A história como ciência distingue-se na sua extensão temporal, lem b raremos três modos de expenenoa ngo-
apenas pelos seus métodos e pelas normas, com cujo auxílio ela conduz
a resultados comprováveis. rasamente formalizados: · m suas diferen-
1. A irreversibilidade dos eventos, o antes e o depots e
A questão essencial sobre as estruturas temporais deve possibilitar a tes circunstâncias de desenvolvimento. . d
formulação de questões especificamente históricas, as quais, por sua vez, 2. A capacidade de repetição d os eventos, se J·a por meiO e uma su- d
têm como objeto fenômenos históricos que podem ser isolados pelas .
. posta identidade entre eles, SeJa quan d o °
termo se refered ao .
retorno
a relaçãoe
outras disciplinas apenas sob outros pontos de vista sistemáticos. Dessa determinadas constelações de fatos, ou ainda por mew e um
maneira, a questão sobre as estruturas temporais serve à dedução teóri- tipológica e/ou figurativa entre os eventos.
ca de nosso legítimo campo de pesquisa. Ela oferece um acesso adequa- 3- A simultaneidade da não-stmu. 1tanet.d ad e. Dada uma. mesma cro-
do para a abordagem de todo o campo da pesquisa histórica, sem que se nologia do tempo natural, pode-se fa 1ar d e d'f,
1 eren tes nívets
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tenha necessariamente como limite a experiência semântica da história sos históricos. Nessa fitssura temp oral podem estar h' con ,1 ·a das si-
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camadas de tempo, as quats, epend dendo do agente , tstonco ou
d de duração e
• Transcendente é o que ultrapassa os limites da experiência possível. Transcendental, em tuações investigadas, são dotadas de diferentes peno os c .a
Kant, refere-se ao conhecimento das condições a priori da experiência. [N.R.J
poderiam ser medidas umas em re 1açao - a, s outras · Da mesma torm , 0
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HISTÓRIA, HISTÓRIAS E ESTRUTURAS TEMPORAIS FORMAIS 121

Sem dúvida, a interpretação de que a experiência moderna foi inaugura-


absoluta, instituída por volta de 1780. Somente as estruturas temporais
da, ap.enas com o advento da história em si tem fortes argumentos se- (e com isso queremos designar aquelas estruturas internas imanentes às
n:anti~os ..~m. seu favor. Apenas então pôde ser articulada, do ponto de circunstâncias em que se deram os eventos, ou que, pelo menos, aludam
VIsta ~mgmstiCo, uma experiência também inédita, que não poderia ter a elas) são capazes de articular o espaço da experiência histórica como
ocorndo antes. No entanto, o fenômeno semântico que indica 0 nasci- um campo de pesquisa próprio, a partir da perspectiva imanente à ma-
men.to da moderna filosofia da história não deve ser abordado pela pers- terialidade dos eventos.
pectiva dessa filosofia da história. A experiência de uma história em si e Essa antecipação nos leva ao melhor delineamento da questão: saber
para ~i, dotada tanto de caráter transcendente quanto transcendental,* até onde existem diferenças de fato entre a moderna "história absoluta"
devena nos levar a refletir melhor as premissas teóricas da nossa investi- e a variada história de tempos anteriores. Essa antecipação nos possibili-
g~ção histórica. A fim de garantirmos a unidade da história como ciên- ta o acesso ao caráter singular das histórias anteriores ao século XVIII,
Cia, ~evem ser desenvolvidas premissas teóricas que sejam capazes de tra- sem que seja necessário desconsiderar a semelhança destas entre si, as-
zer a luz tanto experiências passadas, completamente estranhas, como sim como diante da nossa história moderna. ·
também experiências históricas que nos são próprias. Pois 0 nosso cam- Finalmente, a questão sobre as estruturas temporais é suficientemen-
po de pesquisa não se restringe apenas àq~ela história que desde os tem- te formal para poder evidenciar possíveis formas do transcorrer históri-
pos mode.rn~s. parece ter se tornado o seu próprio objeto; ele abrange co, assim como sua descrição, sem prejuízo de seus significados míticos
t?das as histonas no plural, infinitamente diversas, que se contavam an- ou teológicos. Com isso ficará claro que muitos campos que hoje defini-
tigamente. Também a sua unidade na velha Historia universalis só pode mos como uma problemática genuinamente histórica foram vistos no
ser comparada com a história absoluta se a investigação for direcionada passado sob outras premissas, sem que se identificasse a "história" como
para pos~íveis ~lementos comuns entre uma e outra. É por isso que pro- objeto de conhecimento. Faltou, até o século XVIII, um conceito geral e
ponho a mvestigação das estruturas temporais que possam eventualmen- comum para todas as histórias, res gestae [coisas realizadas], a pragmata
te ser próprias tanto à história no singular como às histórias no plural. [os fatos] e a vitae [as vidas], que desde então foram subordinadas ao
~e:se questionamento se destaca, naturalmente, um princípio meto- conceito de "história" [ Geschichte], usado freqüentemente em oposição
do~ogico e um princípio factual. A história como ciência não tem um às ciências da natureza.
obJeto de estudo que seja exclusivamente seu; ela tem que dividi-lo com Antes de discutirmos alguns exemplos da experiência "pré-histórica"
todas as ciências sociais e humanas. A história como ciência distingue-se na sua extensão temporal, lembraremos três modos de experiência rigo-
apenas pelos seus métodos e pelas normas, com cujo auxílio ela conduz rosamente formalizados:
a resultados comprováveis.
1. A irreversibilidade dos eventos, o antes e o depois em suas diferen-
A questão essencial sobre as estruturas temporais deve possibilitar a tes circunstâncias de desenvolvimento.
f~rmulação d~ questões especificamente históricas, as quais, por sua vez, 2. A capacidade de repetição dos eventos, seja por meio de uma su-
tem con:o _ob}eto fenômenos históricos que podem ser isolados pelas posta identidade entre eles, seja quando o termo se refere ao retorno de
outras dJsciplmas apenas sob outros pontos de vista sistemáticos. Dessa determinadas constelações de fatos, ou ainda por meio de uma relação
maneira, a questão sobre as estruturas temporais serve à dedução teóri- tipológica e/ou figurativa entre os eventos.
ca de nosso legítimo campo de pesquisa. Ela oferece um acesso adequa- 3· A simultaneidade da não-simultaneidade. Dada uma mesma cro-
do para a abor~agem de todo o campo da pesquisa histórica, sem que se nologia do tempo natural, pode-se falar de diferentes níveis de transcur-
tenha necessanamente como limite a experiência semântica da história sos históricos. Nessa fissura temporal podem estar contidas diferentes
camadas de tempo, as quais, dependendo do agente histórico ou das si-
*Transcendente é o que ultrapassa os limites da experiência possível. Transcendental, em tuações investigadas, são dotadas de diferentes períodos de duração e
Kant, refere-se ao conheCimento das condições a priori da experiência. [N.R.)
poderiam ser medidas umas em relação às outras. Da mesma forri1a, o
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conceito de simultaneidade na não-simultaneidade contém diferentes


. também o tempo astronômico obtém um
extensões temporais, que aludem à estrutura prognóstica do tempo his- tural a longo prazo: Com tsso,, b. t de experiência que desvelam pro-
tórico, pois cada prognóst~co antecipa acontecimentos que já se encon-
valor histórico, ao maugurar a~ 1 os 1
tram dispostos no presente, mas ainda não se realizaram. J.etos que levam para a1e'm do ntmo anua. d
.
- político e soctal sofreu m-
.
.,b . e o campo e açao ,
Conceitualmente, da combinação desses três critérios podem-se de- Hoje parece o vto qu . - " d zido pelo sistema compulso-
preender as noções de progresso, decadência, aceleração ou retardamen- tenso processo de "desnaturahzaçao ' con _u dem mais ser calculados .
. , d s de tempo nao po . .
to, as noções adverbiais como "ainda não" e "não mais': o "mais cedo rio da técmca. Seus peno o . - No entanto, é preciso mdt-
. - . parttr da natureza. .
que" ou "depois de': o "cedo demais" ou "tarde demais': a situação e a de manetra tao pre~tsa a . . d t agrária da população, CUJaS
duração, a cujas determinações distintivas devemos recorrer de modo a car que, nos países mdustnahza ·~s, a ~~~ ;empo da natureza, diminuiu
tornar visíveis movimentos históricos concretos. Tais diferenciações de- tarefas diárias permaneceram regt as p to restantes vão se tornando
ses dez por cen .
vem ser consideradas para toda proposição histórica que parta de pre- de 90o/o a wo/o, e mesmo es . . Certamente, a domma-
d d termmantes naturats.
missas teóricas em direção à pesquisa empírica. É certo que o número hoje independentes os e ais breves os períodos ne-
Ç . , , . da natureza tornou m ., .
de determinações temporais para as circunstâncias históricas pode ser ão ctentlfica e. tecmca
- , ão na guerra e na po l'tica 1 , ao alivta-las das ms-
incontável, assim como o número de acontecimentos "únicos" com os cessários à deosao e a aç d Isso no entanto, não quer
d 1 forças a natureza. '
quais nos confrontamos ex post na realização da ação ou na antecipação tabilidades causa as pe as .d pliadas Pelo contrário, o
do futuro. d ão tenham Sl o am .
dizer que as margens e aç fi , medida que se torna depen-
espaço da ação po ttlc~ p , .
1' · arece atro tar-se, a
De nosso ponto de vista, é necessário antes de tudo árticular a dife- de modo que estas últimas- de ma-
dente das circunstânCias tecmcas, d tendidas como um fator
rença entre as categor-ias temporais naturais e históricas. Existem lapsos d xal _ po em ser en
de tempo que se estendem o suficiente para que uma batalha possa ser neira aparentemente para ? l't. Essas reflexões devem nos
d 1 amento po 1 tco.
decidida - lapsos de tempo durante os quais o sol parece "ficar parado" de retardamento o p aneJ 1" - dos tempos históricos, embora
. . e a desnatura tzaçao . . h 1
- isto é, períodos que cobrem decursos de ação intersubjetiva, quando o mdtcar apenas qu d. . ada em primeira lm a pe o
Possa ser comprova d a, pode -ser con tctonte'cnico J·unto com suas con-
tempo natural, por assim dizer, parece estar desativado, desligado. É claro , . · d t ·al E 0 progresso ' ,
que os eventos e situações mantêm sua relação com a cronologia natural, aparato tecmco e m us n · , · da "história absoluta · E e
. f, substrato empmco . 1
e é exatamente aí que está contido um pressuposto mínimo de sua inter- seqüênoas, que ornece o 1 ssos civilizatórios regtstrados
. d .d de daque es proce . ,
pretação. O tempo natural e a sua sucessão- da forma como sempre os diferenCia a mo erm a d" , da Ásia e da Aménca pre-
1 ·d do Me Iterraneo, . .
nas culturas desenvo Vl as transformaram-se, pnmet-
temos experimentado - pertencem às condições dos tempos históricos, colombiana. As relações entre tempo edes~a~o nos séculos XIX e XX. As
mas nunca se diluem neles. Os tempos históricos são dotados de suces- d . de forma eostva .
ro gradativamente, epms . - provocaram a existênCia de
sões temporais diferentes dos ritmos temporais regidos pela natureza. , ·t0 de comumcaçao
possibilidades de transt. ,e. letamente diferentes.
Por outro lado existem tempos "históricos" mínimos,* os quais per-
formas· de organização meditas e comp ondições intersubjetivas de
mitem que o tempo natural seja calculado. Ainda hoje está por se inves- , do afirmar que as c .
Ora, não se esta queren te da técnica e que só hoJe se
tigar qual é a unidade mínima de rotação dos planetas que se necessita . d , 1 XX decorrem somen
ação política o secu o .d 1 homem. Ao contrário, encon-
supor e conhecer, antes que possam ser racionalizadas astronomicamen- h · t, · 0 produz1 o pe o . ·
conhece o. tempo . lS 1onc ão uma gama d e determinações temporais CUJa
te as épocas das estrelas em termos de uma cronologia astronômica na-
tra-se hoJe em orcu ·, aç · - escn.t a deve ser atribuída aos gregos
fixaçao
descoberta, expenencra e . t . de motivação ou as formas
* Mais uma vez Koselleck recorre a princípios da lingüística estrutural. Pode-se comparar b s aqm as corren es
ou aos judeus. Lem remo , . c ularam em seu contexto
a noção de "tempos históricos mínimos" às "unidades significativas mínimas': as quais, . Tucídides ou Taclto torm
por um mecanismo de identidade e diferença, dotam de sentido o plano morfológico da de procedtmento que , . I -es entre senhor e escravo,
de atuação. Ou !em re~os
linguagem. [N.T.] b as posstvets re aço fi
d"f, entes tipos, representados por l-
exemplificadas por Platao em sete 1 er
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guras principais da ordem política, as quais, na sua contradição, são das constituições a partir desta última. Além disso, o flashback é histori-
igualmente as forças motrizes do movimento histórico.3 São freqüentes, camente refletido, pois Platão acrescenta que só a partir dos eventos pas-
nos textos clássicos, momentos temporais que ainda hoje podem/devem sados se pode aprender aquilo que poderia ter acontecido de melhor
ser utilizados como uma espécie de padrão do conhecimento histórico. manetra.
Existem estruturas temporais do cotidiano, da política e das relações so- Entretanto, não seria possível antecipar experiências que só poderiam
ciais que até hoje não foram ultrapassadas. Daremos, a seguir, algumas ter sido colecionadas depois do decurso de determinados prazos. 6 Tam-
indicações. bém aqui encontramos um pensamento eminentemente histórico, que
se orienta a partir de sucessões temporais e não permanece mais atado a
1. Sem conhecer um conceito que designasse a história, os gregos foram uma pré-história heróica no sentido dos logógrafos. * O esquema poli-
capazes de isolar os tempos imanentes aos eventos. Em Heródoto encon- biano de declínio, que se realiza em três gerações, se comparado às refle-
tramos aquela disputa sofística na qual se discutiu a Constituição ideal.4 xões "hipotéticas" de Platão, é muito menos elástico e mais difícil de se
Enquanto os defensores da aristocracia e da democracia colocavam em verificar empiricamente.? Todas essas teorias da sucessão das Consti-
evidência as respectivas Constituições, considerando inadequados outros tuições têm como ponto comum o fato de que espaço político da expe-
tipos de Constituição, Dario procedeu de outra forma: descreveu o de- riência permanece limitado pela natureza. Considerava-se apenas um
curso cronológico imanente que impulsionaria, mais cedo ou mais tar- número determinado de possíveis formas constitucionais, e a proeza da
de, por força das desordens intestinas, cada aristocracia e cada democra- política consistia em escapar da ameaça da decadência natural, institu-
cia à monarquia. Conseqüentemente, para ele já se deveria introduzir a indo uma forma jurídica mista. A arte de uma forma mista de Consti-
monarquia imediatamente, pois este era o regime que dispunha da me- tuição era tarefa "histórica" que fora desde sempre objeto de reflexão por .,
lhor Constituição e que, de qualquer modo, impor-se-ia no decorrer do Platão, passando por Aristóteles até Cícero. Sem conhecer ou até mesmo
tempo. Além de todos os argumentos constitucionais e técnicos, ele em- formular um campo da "história absoluta", encontra-se registrada nesses
presta à monarquia uma forma de legitimidade histórica que a distingue exemplos, em oposição ao mito (ainda que fazendo uso dele), uma cir-
das outras Constituições. Para nós, tal modo de comprovação pode ser cunstância finita de possíveis formas constitucionais que, embora pos-
qualificado como especificamente histórico. O antes e o depois, o antiga- sam ser repetidas, são determinadas de tal modo que não podem ser
mente e o posteriormente adquirem, do ponto de vista das formas de go- trocadas uma pela outra aleatoriamente: Tais formas estão sujeitas a con-
verno, uma força comprobatória imanente ao próprio decorrer cronoló- dicionamentos imanentes, tal como Aristóteles as tinha analisado na po-
gico da ação, que iria penetrar nas formas de relacionamento político. lítica, tendo criado, a fim de transpô-las, um espaço "histórico" em par-
Lembremos igualmente do terceiro livro das leis, de Platão.s Em lin- ceria com seu próprio tempo.
guagem de hoje, Platão investigou a história do nascimento da diversi- As categorias temporais formais, acima citadas, são parte da forma de
dade constitucional daquela época. Embora ele se sirva, no seu flashback pensar dos antigos gregos. Ainda que, sob essa perspectiva, a história
"histórico", dos mitos e dos poetas, o procedimento de comprovação his- [Historie], como disciplina e investigação (para falarmos como Christian
tórica reside, a nosso ver, na pergunta sobre o suposto período de tempo Meier) tenha por objeto tudo o que diz respeito aos homens, ultrapas-
necessário para o surgimento das então conhecidas formas de Constitui- sando, dessa forma, o domínio daquilo que foi mais tarde efetivamente
ção. Somente depois de uma unidade mínima de duração da experiên- designado como histórico [ Geschichtlichen], ela pode muito bem com-
cia ou de perda da experiência teria sido possível o desenvolvimento de portar a distinção entre decursos temporais irreversíveis e períodos de
uma Constituição patriarcal e, derivando desta, uma Constituição aris- tempo determinados pelo "destino" histórico. De forma implícita, os an-
tocrática ou monarquista, seguida finalmente de uma Constituição de- tigos desenvolveram teoremas sobre determinados lapsos de tempo den-
mocrática. Platão trabalhou, hoje poderíamos dizer, com hipóteses tem-
porais, de modo a deduzir uma gradação temporal e histórica da história *Primeiros escritos gregos. [N.R.]
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tro. d~s quai: e~a P.~ssível pensar a mudança constitucional, ainda que 2. Um outro campo de experiência se abre quando se interroga a tradi-
sob CircunstanCias Ja dadas. Trata-se de tempos de qualidade histórica, ção judaico-cristã. Nela estão contidas determinações temporais de or-
certame~te condicionados pela natureza e que, por conta disso, perma- dem teológica que se colocam em diagonal em relação aos fundamentos
necem hgados a ela, mas cujas estruturas genuínas já avançam em dire- "empíricos'~ Sem abordar a "história", as interpretações judaico-cristãs
ção ao conhecimento histórico.
introduzem critérios que, indiretamente, apontam para estruturas histó-
A isso se acrescenta o fato de que, no campo da experiência dos anti- ricas jamais antes formuladas em qualquer outro lugar. Os judeus foram
gos gregos, as diferentes Constituições eram, ao mesmo tempo, diferen- capazes de incluir o inimigo em sua perspectiva, mas de maneira dife-
tes também do ponto de vista de sua gradação histórica, o que permitia rente dos gregos- veja-se a contribuição de Heródoto e o mandamento
su~ c~~pa~ação. A sucessão da não-simultaneidade, que resultava do metodológico de Luciano. Da vitória de seus inimigos, os judeus extraí-
pnncrpro dracrônico, era igualmente reconhecível como a qualidade si- ram um sentido para sua própria história. Eles lograram incorporar as
multânea da não-simultaneidade- o que foi magistralmente desenvol- derrotas como penitência, como castigos que foram capazes de suportar.
vido no Proêmio de Tucídides.
Tão logo os judeus deram conta de si como o povo escolhido por Deus,
~essa experiência estava incluída a capacidade de repetição das his- puderam integrar as potências orientais na sua própria história. A falta
tónas ou, no mínimo, de suas constelações, de onde se pode derivar seu de uma história universal da humanidade no Velho Testamento não sig-
caráter exemplar e didático. Esse complexo manteve-se assim até parte nifica que a humanidade não tenha integrado sua própria história.
do século XVIII. Examiná-lo como uma unidade seria aplicar uma regra Como outro exemplo do enorme poder de transformação de que são
f~ndamental de nossa disciplina, uma vez que também os esforços teó- dotadas as experiências e os questionamentos teológicos para o conheci-
ncos em prol das condições de comparação vêm encolhendo junto a mento histórico, citamos Santo Agostinho. Sem dúvida, em seu caso tra-
nossos .colegas de ofício por causa da precedência metodológica dada à ta-se de uma síntese da forma de pensar da Antigüidade e da cultura ju-
determrnação cronológica das épocas.
daico-cristã. Ainda que a motivação apologética ressoe sempre ao longo
. Façamos aqui uma referência a mais a um conceito de tempo "histo- da obra de Santo Agostinho, sua doutrina dos dois reinos possibilitou-
ncamente imanente" derivado do mundo natural: trata-se da metáfora lhe desenvolver uma "resposta duradoura" para cada situação histórica.
8
anatômica. O Direito Natural se apropriou dela e a desenvolveu, na épo- Nem o decurso linear nem suas determinações de conteúdo caracterizam
ca do barroco, como alegoria da societas perfecta. Comuns desde a Anti- as proposições temporais e históricas de Santo Agostinho. Trata-se de
güidade, as comparações entre as Constituições e o -corpo humano, suas uma experiência temporal interna, articulada teologicamente por ele, 9
funções e suas doenças produzem determinadas constantes de cunho que lhe possibilitou relativizar todo o espaço dos acontecimentos terre-
natural, pelas quais se podem medir distanciamento ou aproximação. nos. Tudo o que acontece sobre a Terra é passível de repetir-se, de um
Trata-se de constantes naturais que, por seu turno, produzem determi- ponto de vista estrutural. Isso quer dizer que o acontecimento, tomado
nações temporais não deriváveis de uma cronologia exclusivamente na- isoladamente, é ele mesmo destituído de importância. O acontecimento
tural, isto é, biológica ou astronômica. No entanto, a dinâmica histórica só se torna único e adquire seu sentido mais elevado quando é relacio-
s.ó pode ser reconhecida como tal porque sua interpretação continuou nado ao futuro teológico e ao Juízo Final. Ao atribuir à história um sen-
l~gada a categori~s .o.riundas da natureza. Permanece sem resposta a ques- tido para além de si mesma, Santo Agostinho conquista uma liberdade
tao s_obre a possrbrhdade de a "história absoluta" ser capaz de escapar a de interpretação para o fazer e o sofrer humanos, que lhe confere uma
essa Interpretação quase obrigatória, cuja predominância se estende des- habilidade superior para enxergar de maneira especialmente precisa os
de a Antigüidade até as doutrinas do Direito Natural do século XVIII. acontecimentos terrenos.
Pressupõe-se que não escape a esse entendimento, pois os condiciona- Certamente, Santo Agostinho recorreu a diversas doutrinas da Idade
men~os natt1rais, encontrados em todas as histórias- mais aqui, menos do Mundo, seja a das três fases (antes, durante e depois do advento da
acola - não podem ser, por seu turno, inteiramente historicizados. Lei), seja a doutrina das aetates. Tais periodizações, que vão desde a mi-
r
128
REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO
HISTÓRIA, HISTÓRIAS E ESTRUTURAS TEMPORAIS FORMAIS 129

tologia até a moderna filosofia da história, ocupam-se essencialmente


tretanto, com isso também o campo da civitas terrena adquire motiva-
das representações da origem e do fim, redefinindo continuamente a
ções de longo prazo peculiares a estruturas históricas ~e ação, que me~­
própria situação de acordo com configurações gerais do início e do fim
mo em uma paz justa não têm sua manutenção garantida; mesmo aspi-
~os tempos. Nesse sentido, elas permanecem interpretações trans-histó- rando por essa paz, tais estruturas não possuem qualquer garantia para
ncas. O que foi decisivo para Santo Agostinho - e que vale para todas
sua realização.
as tentativas de transformar as doutrinas da Idade do Mundo em deter-
Agostinho deriva uma regra semelhante de sua doutrina da guerra
minações históricas do tempo- foi o fato de que as doutrinas da Idade
justa: também a motivação justa de uma guerra: que ele for~ula com?
do Mundo eram concebidas de tal maneira que se acreditava que, depois
postulado moral, não assegura que essa guerra sep realmente JUSta. A~m,
~o nascimento d.e Cristo, vivia-se a última delas. Desde então não pode- Santo Agostinho desenvolve também, em princípio do ponto de vista
na a~ontecer mais nada de novo, pois o mundo se encontrava sob a pers-
teológico, um fator de movimento que lhe permite deduzir perm.an~n­
pectiva do Juízo Final. O sexto aetas é o último e, portanto, estrutural-
temente o decurso terreno das coisas a partir da relatividade e da limita-
mente idêntico a si mesmo. Com isso, Santo Agostinho colocava-se em
ção da justiça então reinante. 11
dupla vantagem. Empiricamente, nada mais poderia surpreendê-lo, mas,.
Santo Agostinho deduz da história do Império Romano uma outra
do ponto de vista teológico, tudo era inédito e renovado. Santo Agosti-
regularidade desse tipo, cujo sentido imanente ele des~ojou d~ teor te~­
nho pôde definir o tempo - na medida em que este não era nada mais
lógico. Quanto maior se torna um Império, tanto mais agre~siva e beli-
do que o modo de experiência interior de si mesmo como criação de
cosa se torna sua política de segurança e defesa; quanto mais fracos os
Deus - como tensão anímica direcionada para o futuro. No entanto,
ini~igos externos, tanto mais ameaçada se torna a paz interna. ~orno
esse futuro coloca-se teologicamente em diagonal em relação às histó-
um líquido em vasos comunicantes, assim também cresce ~r?porcwnal­
rias empíricas, ainda que ele próprio as estabeleça como histórias finitas.
mente o perigo de uma guerra civil à medida que um Impeno se expan-
Desse modo, Santo Agostinho esboça um horizonte para a civitas terrena,
de e se estabiliza na direção exterior. 12
dentro do qual formula uma série de regularidades que, em sua estrutu-
Portanto, em virtude das suas interpretações teológicas, Santo Agos-
ra formal, delineiam as condições de um possível movimento histórico.
tinho foi capaz de formular juízos, no campo do "sempre igual", os quais,
Santo Agostinho formulou regras de longo prazo de natureza aparente-
também na ausência das premissas teológicas, evidenciam a existência
mente ex:ratemporal, as quais, no entanto, são necessárias também para
de condicionantes temporais. Modernamente falando, Santo Agostinho
o conheCimento do movimento histórico: elas oferecem um padrão com
provê o pensamento cronológico de categorias formais que atuam como
o qual é possível enxergar as regularidades passíveis de comparação; ofe-
rede de condições para um possível movimento histórico. O c~nte~do
recem constantes, de modo que se possam elaborar prognósticos. Pois
de suas proposições estruturais de longo prazo refere-se sempre a ~mtu­
não existem prognósticos face ao absolutamente desconhecido; mesmo
de das constelações históricas e, com isso, também à sua temporalidade.
as mudanças esperadas pressupõem um nível mínimo de constância
A reprodução dessas constelações é dada como provável, desde que sob
tam?ém na alteridade. Assim, Santo Agostinho formula a regra Non ergo
circunstâncias passíveis de comparação. A •

ut szt pax nolunt, sed ut ea sit quam volunt:JO que o homem não se afaste
Como último exemplo daquilo que consideramos formas autentiCas
da paz, mas sim que procure a paz que seja a sua própria. A falta de paz
de conhecimento histórico em roupagem teológica, citamos Bossuet,
~o plano terreno não se deve à ausência de amor do homem por ela, mas
cujo Discours sur l'histoire universelle remete ainda a Santo Agostinho.
Sim ao fato de que sempre ao menos dois indivíduos diferentes a ela al-
Seguindo a teodisséia agostiniana, Bossuet formula afirma~ões qu~, ~em
m~jam, o que acaba por gerar situações de conflito que impedem o pró-
que tenham necessariamente de ser lidas sob o ponto de vista teo~o~IC~,
~no advento da paz. Com isso, o tempo adquire sua qualidade histórica. contêm uma capacidade teórica semelhante àquela que Lübbe reivindi-
E certo que Santo Agostinho deduziu esse axioma da base teológica de
ca para a filosofia da história de Hegel. A constante diferença e~tre o
sua doutrina da paz justa, possível de se dar apenas no outro Reino. En-
planejamento feito pelos homens e sua realização, entre ação deseJada e
lJO REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO !Jl
HISTÓRIA, HISTÓRIAS E ESTRUTURAS TEMPORAIS FORMAIS

seus indesejados efeitos, ou entre o fazer inconsciente e o propósito vo- conter. Se as doutrinas de desenvolvimento moderno, que compreendem
luntário é derivada, segundo Bossuet, da vontade divina. As antigas me- tipologicamente as fases da Revolução Francesa, são meramente uma se-
ditações teológicas sobre a diferença abismal entre Providência divina e cularização, ou se configuram uma forma de conhecimento factual, é
planejamento humano adquirem, com isso, valor histórico. Uma vez o .uma pergunta que permanece em aberto. Em todo caso, todas as propo-
foco do questionamento sendo deslocado da Providência e seus efeitos sições temporais citadas até aqui foram formuladas em um contexto de
para a surpreendente diferença entre planejamento e resultado, o epi- sentido pré-moderno, nunca direcionado à "história em geral" ou "h~s­
fenômeno teológico se torna um fenômeno histórico. Dessa forma tor- tória absoluta", mas que se desenvolveu tangencialmente a todas as his-
na-se possível visualizar o processo de desenvolvimento temporal das tórias particulares possíveis. Chegou-se então ao que hoje chamamos ~e
estruturas históricas. Com Bossuet, a heterogonia dos fins ganha uma in- história mas nunca foi possível esclarecer a história a partir da própna
terpretação mais laica e terrena do que com Santo Agostinho. Lembre- história: A ligação com o mundo natural, peculiar aos decursos históri-
mos do antigo topos de Bossuet: causas e efeitos encontram-se relacio- cos no mundo da experiência da cosmologia grega e da ardo temporum
nados ao longo dos séculos, mas essa relação só pode ser reconhecida teológica da doutrina de salvação judaico-cristã continha co~heci~en­
pelo historiador sob a condição de uma Providência ex post.I3 Tais traje- tos históricos que só puderam ser apreendidos porque se abnu mao de
tórias de desenvolvimento a longo prazo, que ultrapassam a experiência uma totalidade da história. A questão aqui formulada, sobre a natureza
dos contemporâneos de uma época, não têm mais nada a ver com dou- daquilo que liga a história moderna, como hoje a entendem~s, à va~ie­
trinas das Idades do Mundo de caráter mítico ou teológico. É certo que dade de histórias particulares do passado como um todo, esta com Isso
elas provêm da Doutrina da Providência, de cuja intenção pressuposta parcialmente respondida. É possível que tenhamos ~islumbrad~ o fato
decorrem as cadeias de causalidade a longo prazo. Mas, se a Providência, de que estruturas históricas e experiências temporais tenham sido for-
como instituição divina, desaparece, o planejamento humano não entra muladas muito tempo antes que a "história em si e para si", a história do
em seu lugar. Em vez disso, emerge o perspectivismo, o qual, como em progresso e do historicismo, fossem semanticamente apr~ensíveis. .
Fontenelle, permite aos observadores da história descobrir aquela "his- Concluindo, questionamos de maneira inversa: em virtude de quais
tória absoluta", capaz de instituir circunstâncias geradoras de efeito ao categorias a história, em seu sentido moderno, pode ser d~ferenciada. d~­
longo de diferentes gerações. quelas regularidades identificadas em processos passíveis de repetlçao
Pode-se considerar que o homem que planeja é um herdeiro da Pro- que vimos apontando até aqui? . . . ,
vidência divina. Sob essa perspectiva, a moderna filosofia da história se- Para responder esta pergunta temos que mtroduztr na ~assa hip?tese
ria, de fato, produto da secularização, tomando a expressão de Gilson, coeficientes de movimento e de aceleração que não denvam mais -
uma metamorfose da doutrina agostiniana dos Dois Reinos.I4 Contudo, como antes - da expectativa do Juízo Final, mas que sejam adequados
mais esclarecedora é a questão que se coloca aqui a respeito das estrutu- a um mundo cada vez mais transformado e transformável pela técnica.
ras temporais, ou seja, de como (já) foram formuladas no âmbito de Nosso moderno conceito de história contribuiu para a consolidação
uma experiência histórica t'eológica. Se refletirmos sobre isso, poderemos das determinações especificamente histórico-tempo~ais de pro~re:,s~ e I
,r,
encontrar talvez também um critério comum a uma possível crítica à de regressão, de aceleração e de retardamento. Por meiO do conceito ~Is­
utopia. Dependeria de encontrarmos estruturas temporais que tanto pu- tória em si e para si" o moderno campo de experiência foi a~reendid.o
dessem definir o empirismo da escatologia teológica quanto o empiris- assim, como moderno, sob diferentes pontos de vista. O conceito se arti-
mo da utopia histórico-filosófica como irreais. Não que com isso a efi- cula como um plurale tantum [só plural], um coletivo singul~r que a~r~­
cácia· histórica de tais posições fosse negada, mas certamente se poderia ende ao mesmo tempo a interdependência dos eventos e a mtersubJeti-
responder melhor à questão de sua (in)capacidade de realização. vidade dos decursos das ações. Ele indica o ponto de convergência entre
Nesse contexto, seria necessário também investigar os referenciais a história como Historie e a história como Geschichte, no qual se encon-
tipológicos e figurativos que o tempo profético em si (Bossuet) rs deve tram os principais aspectos transcendentais e histórico-filosóficos. Por
132
REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO

~:, :~xJ·~~~ssão registra a passa~em da noção de história universal como CAPÍTULO 7


o composto por umdades se d
ceita de história universal como sistema ~=ra as, um agregado,. ao con- Representação, evento e estrutura*
uma teoria da hist, · ~ . . ' com 0 que a necessidade de
à n~ção do globo,:;~:,,~: ~~:~~:~;;:e:::~~:preendida erelacionada
esde entao tornou-se possível compreender a históri O problema da representação, isto é, da maneira como a história [His-

;;,:~~:~ô::s~~;~!~:~~!% :~;~,a~~::a:~:p~!~:.:t~ed;:::::~: ~:
te, a partir de relações causais A d. , . d , . fiCien-
torie] narra e descreve, remete, no campo do conhecimento, a diferentes
dimensões temporais do movimento histórico. A constatação de que
uma "história" já se encontra previamente configurada antes de tomar a
uma dinâmica suí generís. Tra~a-se ~~:::a a modermdade histórica é
forma de uma linguagem limita não só o potencial de representação
sujeito ou sujeitos podem ser investigado processo de resultados, cujo
como também exige do historiador que se volte necessariamente à fonte
processo, sem ue . , . s somente na reflexão sobre o
Com isso, a teoiogi~~~ .Issod o propno p~ocesso se faça determinável. em busca.de fatos. Esta contém indicadores de sucessão temporal muito
menta huma vma e outrora cai na ambigüidade do planeja- diversos. Por conta disso, da perspectiva do historiador, a questão pode
d no, o que pode ser verificado na ambivalência do . ser revertida: trata-se de diferentes camadas de tempo que, por sua vez,
fi~i~:o;~~~~i~~eq~:~~e ;~: ~e ser identificado ~o ~esm~ :em;~:~:~ exigem diferentes aproximações metodológicas. Isso leva o historiador a
mete ao espaço e ao mundo na~~:a~ ~a~p·o semantico ongmal, que re- estabelecer um pressuposto: conforme o resultado da investigação, serão

ceito de história extrai sua ambivalên.cia da~~~::g~çrã:~eot


moderno can-
utilizados diferentes meios de comunicação do conteúdo, nos quais, para
usarmos uma expressão de Santo Agostinho, narratio demonstrationi si-
sado como um t d ( · d er que ser pen-
mesmo temp . o ~ amd a que fosse por razões estéticas), mas que ao milis (est).I Antecipando a minha tese: na prática, o limite entre a nar-
o Jamais po e ser dado como terminad . f ração e a descrição não pode ser mantido; já na teoria dos tempos histó-
manece desconhecido ainda q d c . o, pois o uturo per-
, ue e 10rma conheCida. ricos, os níveis que abrigam as diferentes extensões temporais não se
interpenetram completamente. Para explicar melhor esta tese, partimos
Tradu!ão de Wilma Patrícia Maas e Fabiana Angélica do Nasci do princípio de que "eventos" só podem ser narrados e "estruturas" só
Revzsao de Marcos Valéria Murad menta podem ser descritas.

1.Eventos, que são isolados ex post da infinidade dos acontecimentos-


ou, para usar uma linguagem burocrática, são retirados dos arquivos - ,
podem ser experimentados pelos próprios contemporâneos como um
conjunto de fatos, como uma unidade de sentido que pode ser narrada.
É essa provavelmente a causa da prioridade dada aos relatos feitos por
testemunhas oculares que, até o século XVIII inclusive, valeram como
fontes primárias especialmente confiáveis. Reside aí a extrema valoriza-

* Esta contribuição é fruto de uma discussão mantida durante uma reunião do grupo "Poe-
tik und Hermeneutik", em 1970. Os resultados das discussões foram publicados por Wolf-
Dieter Stempel e por mim sob o título Geschichte: Ereignis und Erziihlwzg, Munique, 1972
* Emalem~o, progresso é Fortschritt, literalmente um . , ("Poetik und Hermeneutik" V). Minha contribuição refere-se especialmente às interven-
uma distancia geográfica em relaça- d , passo que se da a frente, cobrindo ções dos senhores Fellmann, Fuhrmann, )auss, Lübbe, Stierle, Stempel, Szondi e Taube, a
o ao mun o natural. [N.T.]
quem expresso aqui os meus cordiais agradecimentos pelas sugestões.
134
REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO
REPRESENTAÇÃO, EVENTO E ESTRUTURA 135

ção, como fonte, de uma "história" transmitida pela tradição, que repro-
duz um acontecimento a ela contemporâneo.
~ue
- onologia natural em si é destituída de significado his-
E certo a cr 1 K nt demandou que a cronologia se orientasse
O pano de fundo no qual diferentes acontecimentos se organizam em tórico, motivo pelo qu~ a h" . la cronologia.3 Para que se
um evento é, antes de tudo, a cronologia natural. A exatidão cronológica 1 história e não o mverso, a Istona pe
pe a . , I ·a histórica- também para os eventos- era
na classificação de todos os elementos que constituem os eventos per-
tence por isso ao postulado metodológico da narrativa histórica. Neste
constlt,u~ss;. ~~~t~r~~~,~~~r isso se pôde falar, em princípio, de ur~a e:-
necessan? e, . ho"e ode soar estranho. Há estruturas diacro-
caso existe, no sentido de uma sucessão temporal histórica, um "limite trutura diacromca, o que J p 'T' d h"stória revela que
I::~~:
da segmentação em unidades mínimas" (Simmel), 2 abaixo do qual o - . t ao decurso de eventos. J.O a I
nicas que sao e:eus grandes momentos, suas peripécias, suas cri-
evento se dissolve. A unidade de sentido que faz dos diferentes aconteci-
seu ponto de p- . ' r , . também para os atares participantes. Na
mentos um evento é composta de um mínimo de "antes" e "depois': As ses e seu fim sao mte Igiveis .. antes sobretudo na li-
circunstâncias ao longo das quais se dá um_ evento, seu antes e seu de- existência de alternativas, no númer~ de padrtiCip .
. - 0 no estabelecimento de ntmos etermma os,
d podem-se re-
pois, podem ser estendidas; sua consistência permanece, entretanto, pre-
sa à sucessão temporal. Mesmo a intersubjetividade de uma conjuntura ::çe:~,
.
:s condições intrins~cas.às. seq~êndas de:::;'~~~!~;:~.;:
d . m sua estrutura diacromca. or Isso,
de eventos deve, enquanto os atares a realizam, manter-se aderida ao es- Isso,
, 1ad qurre - ou com uma dada tipologia , torna-se possível
bstraçao . campa-
I' d
quema das seqüências temporais. Basta pensarmos nas histórias das eclo- mve e a . - uerras e histórias constitucionais. A em e
sões das guerras em 1914 e em 1939. O que realmente aconteceu, justa- rar seqüênCias de revoluçoes, g . t h' também estru-
tais estruturas diacrónicas ligadas aos aco?teCimen o~, . a dia
mente por conta da interdependência das ações e omissões, só pode ser
turas a longo prazo, expressão de uso mais corrente OJe em .
visto decorridas as primeiras horas, o dia seguinte ...
A transposição de experiências outrora imediatas em conhecimento
2. Sob os preceitos das questões prop?stas pela histó~ia social, ~rt::~
histórico - entendida como o rompimento de um horizonte de expec- " t " foi admitido à história mais recente, especialment~ p
tativa, que deixa à mostra um sentido inesperado -permanece sempre destru ura - 0 "histona
. , . estrutura1".4 Desde então ' são entendidas ,como .
comprometida com a seqüência cronologicamente mensurável. Também a expressa l"d
elação à sua tempora I a - de aquelas circunstanCias
fiashbacks ou avanços em direção ao futuro como meio estilístico de re- - - emnizam
estrutura r . sucessao
segundo a estnta - dos eventos passados.
presentação (é só lembrarmos os discursos de Tucídides) servem para ~ao ~~e
qEul e orgamai·or duração maior estabilidade, alterando-se em pr~-
elucidar o momento crítico ou decisivo no decurso da narrativa. as Imp ICam ' . ,d · 1 ga duraçao
zos mais longos. Utilizando-se as catego_nas de me Ial_e on do sé-
O antes e o depois constituem o horizonte de sentido [Sinnhorizont] . . preCisa o que na mguagem
pôde-se formular de maneira mais d"d '"estado de fato" [Zu-
de uma narrativa- "veni, vidi, vid'- mas somente porque a expe-
culo XIX, era conceituado e compreen I do comod , [Scht"chtung] CUJ.O
riência histórica que constitui o evento está necessariamente inserida
stiinde]. A referência a u_ma JU~ ap; I
. "" t s"ção e cama as '
tático está presente no radical
na sucessão temporal. Desse modo, a sentença de Schiller, de que a his- sentido original é espaCial, ten en o ao es ' T s a ex-
do substantivo "história" [ Geschichte]. Dess:. f~;Ta~s~~;~si:~~~i~do de
tória do mundo é a história do julgamento do mundo, pode ser lida
pressão "história est~u.tural" [Struk~~rg~~; ~ ~:~brado pela etimologia
assim: "O que se perde em um minuto não se recupera em uma eterni-
dade." Mesmo quem se nega a aceitar a pesada conseqüência da frase de forma dupla e metafonca a esse senti o I er
Schiller, ou seja, a dissolução da escatologia na realização processual da
História, terá que fazer da sucessão do tempo histórico o fio condutor da palavra. . .dade são elementos constitu-
t ·aridade e postenon
Ao passo, que
. ,an en - dos eventos a preCisao . - de limites nas deter-
da representação, de modo a tornar possível a narração dos eventos da tivos necessanos a narraçao . ' .t enos significativa na
política, da diplomacia e das guerras, nacionais ou civis, na irreversibili-
dade de seus decursos.
1, · ' videntemente mm 0 m
minações crono ogiCas e,_ e _
descrição de estados OU Situaç~es de 1ongo r.
' razo Isso já pode ser obser-
vado nos fenômenos estruturais que, sem UVI a,.
d. precedem e integram
136
REPRESENTAÇÃO, EVENTO E ESTRUTURA 137
REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO

trial que sucedeu a Revolução de 1848, se ele ocorreu apesar ou por cau-
eventos momentâneos, mas cuja posição em relação a esses mesmos
sa da revolução fracassada. Existem argumentos a favor e contra; pod~
eventos se define de maneira diferente de uma mera relação de anterio-
ser que nem um nem outro sejam convincentes,. m,as .amb~s ren:e~em a
ridade cronológica. Citamos como exemplo algumas estruturas: mode-
dinâmica que se impôs transversalmente em meiO a sltuaçao pohtlca de
los constitucionais, formas de domínio que não se modificaram da noite
revolução e reação. Assim, é possível que a reação, nesse caso, tenha atua-
para o dia, mas que são pressupostos da ação política. Ou ainda as for-
do de modo mais revolucionário do que a própria revolução. Se revolu-
ças produtivas e as relações de produção, que se transformam apenas a
ção e reação podem ser, ao mesmo tempo, indicadores d~ uma e mesma
longo prazo e, às vezes, aos empurrões, mas que, de toda maneira, con-
dinâmica, que se alimenta de ambos os campos e que f01 desencadea~a
dicionam os acontecimentos sociais e atuam em conjunto com eles. Fa-
por ambos, então este par de conceitos indica evidentemente um movi-
zem parte desse grupo de fatores as constelações amigo-inimigo, que de-
mento histórico, um avanço irreversível de transformação estrutural a
cidem a guerra e a paz, mas que também podem prolongar-se sem que
longo prazo, que ultrapassa os prós e contras associados ao sentido polí-
com isso sejam favorecidos os interesses de um ou outro oponente, o que
tico de reação e revolução.
torna esse processo controverso. A isso acrescentamos circunstâncias
. O que hoje se apresenta como reflexão metodológica em relação à
geográficas e espaciais, conjugadas à capacidade técnica, a partir das
história estrutural pode ter feito parte da experiência quotidiana das ge-
quais se originam alternativas de ação política de longo prazo, assim
rações de então. As estruturas e suas transformações podem ser (re- )con-
como formas de relações econômicas ou sociais. É preciso ainda citar
vertidas em experiência quando seu período de duração não ultrapassar
formas de comportamento inconscientes, guiadas por instituições ou
a unidade de memória das gerações contemporâneas.
que criam suas próprias instituições e que tanto ampliam quanto deli-
Sem dúvida, existem também estruturas que são tão duradouras que
mitam os campos de ação e de experiência. Ademais, citemos a sucessão
permanecem guardadas no inconsciente ou na não-consciência daqueles
natural de gerações que, conforme seu limiar de experiência, podem fa-
que a viveram, ou cujas alterações se dão a tão longo prazo que escapam
vorecer a criação de conflitos ou a legitimação da tradição, de forma to-
ao conhecimento empírico dos atingidos. Aqui, somente a sociologia ou
talmente independente do comportamento geracional e das seqüências
a história como ciência do passado podem dar notícia que conduza para
transpessoais. Por fim, devem ser citados aqui também os costumes e os
além dos campos de experiência das gerações contemporâneas de então.
sistemas jurídicos, que regulam os decursos da vida em sociedade e da
vida dos Estados, a longo ou médio prazo.
3. Eventos e estruturas têm, portanto, no campo de experiência do mo-
Sem desejar avaliar aqui a relação de tais estruturas, podemos dizer
vimento histórico, diferentes extensões temporais, que são problemati-
que todas têm em comum o fato de que suas constantes temporais ul-
zadas exclusivamente pela história como ciência.
trapassam o campo de experiência cronologicamente registrável dos
Tradicionalmente, a representação de estruturas aproxima-se mais da
indivíduos envolvidos em um evento. Os eventos são provocados ou so-
descrição, por exemplo, na antiga estatística do absolutismo esclarecido;
fridos por determinados sujeitos, mas as estruturas permanecem supra-
já a representação dos eventos aproxima-se mais d~ narr~7ã.o, ~~ ~?rma
individuais e intersubjetivas. Elas não podem ser reduzidas a uma única
semelhante à história pragmática do século XVIII. Fixar a h1stona des-
pessoa e raramente a grupos precisamente determinados. Metodologica-
ta ou daquela maneira seria impor escolhas inapropriadas. Ambos os ní-
mente, elas requerem, por essa razão, determinações de caráter funcio-
veis, o das estruturas e o dos eventos, remetem um ao outro, sem que
nal. Com isso, as estruturas não se tornam grandezas extratemporais; ao
um se dissolva no outro. Mais ainda, ambos os níveis alternam-se em im-
contrário, elas adquirem freqüentemente um caráter processual - que
portância, revezando-se na hierarquia de valores, dependendo da natu-
pode também se integrar às experiências dos eventos cotidianos.
reza do objeto investigado.
Há, por exemplo, fenômenos de longa duração que se impõem ime-
Assim, as seqüências estatísticas temporais nutrem-se de even~os co~­
diatamente, independentemente de serem combatidos ou favorecidos.
cretos e individuais, dotados de um tempo próprio, mas que so adqm-
Hoje se pode indagar, a respeito do prodigioso desenvolvimento indus-
REINHART KOSELLECK • FUTURO PASSADO REPRESENTAÇÃO, EVENTO E ESTRUTURA 139

rem significação por força de uma perspectiva estrutural de longo pra- dito. "A relevância, em perspectiva, de um enunciado narrativo abran-
zo. Narração e descrição se ajustam de modo que o evento se torna um gente" (Jauss)- ainda que seja considerada, em termos hermenêuticos,
pressuposto para proposições estruturais. uma conditio sine qua non para o conhecimento histórico - transfere
Por outro lado, estruturas mais ou menos duradouras, mas de todo suas prerrogativas à relevância, em perspectiva, de uma análise estrutu-
modo de longo prazo, são condições de possibilidade para os eventos. ral abrangente.
O fato de que uma batalha possa ser decidida nos três tempos do "veni, Esse procedimento de gradação e de estratificação se pode realizar
vidi, vinci" pressupõe determinadas formas de dominação, certa capa- desde o evento isolado até a história universal. Quanto mais rigorosa for
cidade técnica sobre as circunstâncias naturais, assim como uma per- a coerência sistemática, quanto mais longos forem os prazos dos aspec-
cepção global das configurações "aliado-inimigo" etc. - estruturas, tos estruturais, tanto menos eles poderão ser narrados em ordem crono-
portanto, que fazem parte do evento que constitui essa batalha e que o lógica estrita, com antes e depois. Também a "duração" pode se tornar
condicionam. A história da batalha narrada de maneira apodíctica por evento, do ponto de vista historiográfico. Conforme o ângulo da pers-
Plutarco contém dimensões temporais de diferentes extensões, que estão pectiva, certas estruturas de médio alcance, como a sociedade estamen-
no centro da narração ou da descrição muito tempo "antes" de serem tal de tipo mercantil, por exemplo, podem ser integradas, como um com-
analisados os efeitos que conferiram "sentido" ao evento da batalha. Tra- plexo único de eventos, a conjuntos de eventos maiores. Nesse caso, elas
ta-se, portanto, de estruturas in eventu, para utilizarmos uma expressão adquirem importância e valor específicos e se deixam determinar cro-
de H. R. Jauss, sem prejuízo do pressuposto hermenêutico de que elas só nologicamente, permitindo definir épocas na evolução do modo e das
se tornam apreensíveis na sua significação post eventum. Tais estruturas relações de produção. Uma vez analisadas e descritas, as estruturas po-
correspondem às "causas gerais" de Montesquieu, 5 as quais tornam pos- dem ser objeto de narrativas, como fatores que pertencem a um conjun-
sível que uma batalha, travada em meio a acasos, possa ser, mesmo as- to de eventos de outra ordem. A forma mais adequada para se apreender
sim, decisiva para a guerra. o caráter processual da história moderna é o esclarecimento recíproco
No que diz respeito aos eventos isolados, pode-se afirmar que certas dos eventos pelas estruturas e vice-versa.
condições estruturais possibilitam seu transcurso. É possível descrevê-las. Permanece, contudo, um resquício irresolúvel, uma aporia metodo-
Entretanto, elas podem ser também inseridas na narrativa se, entendidas lógica que não permite amalgamar eventos e estruturas. Existe um hiato
como causas independentes da cronologia, contribuírem para a análise entre os dois elementos porque suas extensões temporais não podem ser
do evento. obrigadas à congruência, nem na experiência, nem na reflexão científica.
Inversamente, certas estruturas só podem ser apreendidas nos even- A distinção e delimitação entre evento e estrutura não deve conduzir a
tos nos quais se articulam e por meio dos quais se deixam transparecer. que se eliminem suas diferenças, de modo a conservar sua finalidade
Um processo de conquista de direitos trabalhistas tanto pode ser uma cognitiva: nos ajudar a decifrar as múltiplas camadas de toda história,
história dramática, no sentido de um "evento", como também um indi- como nos lembra a etimologia de "história" [Geschichte].
cador de circunstâncias sociais, jurídicas ou econômicas de longo prazo. O antes e o depois de um evento conserva características temporais
Conforme o tipo de investigação, modifica-se a ênfase da história nar- próprias, que jamais se deixam reduzir totalmente às condições de longo
rada e a forma de reproduzi-la: ela é, então, hierarquizada em níveis tem- prazo. Cada evento produz mais e, ao mesmo tempo, menos do que está
porais de diferentes extensões. Ou bem se problematiza o caráter an- contido nas suas circunstâncias prévias: daí advém sua surpreendente
terior ou posterior do acontecimento, do processo e de seu ponto de novidade. 6 Os pressupostos estruturais para a batalha de Leuthen nunca
partida e respectivas conseqüências, ou a história é decomposta em seus poderão esclarecer de modo suficiente por que Frederico o Grande ven-
elementos, destacando-se as condições sociais que permitem compreen- ceu a batalha da maneira como venceu. Seguramente, os eventos e as
der o decurso dos eventos. A descrição de tais estruturas pode ser até estruturas remetem uns aos outros: a composição do exército de Fre-
mesmo "mais dramática" do que a narração do processo propriamente derico II, seu sistema de recrutamento, sua implantação dentro de um
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sistema agrário como o do leste do Elba, aliados ao sistema fiscal e o "cai- ÍIIÚTlPlc~s alternância dos níveis temporais, com a passagem do evento
xa de guerra" constituído sobre essas bases, a arte da guerra de Frede- a estrutura e vice-versa, não resolve em nada o problema: tudo pode
rico II dentro da tradição da história militar- tudo isso possibilitou a :explicado, mas não de qualquer maneira. Quais explicações são váli-
vitória de Leuthen. Contudo, o 5 de dezembro de 1757 permanece único ou deveriam ser, só pode ser decidido estabelecendo-se um pressu-
na sucessão cronológica imanente. teórico. Que estruturas permitem estabelecer o âmbito das histó-
O desenrolar da batalha, seus efeitos políticos e bélicos, a importância singulares possíveis? Que fenômenos podem se tornar eventos, que
da vitória no contexto da Guerra dos Sete Anos, isso só pode ser narra- devem ser integrados à trama da história passada?
do de maneira cronológica, extraindo daí seu sentido. Mas Leuthen tem característico da historicidade de nossa disciplina o fato de que as
um significado simbólico. Já a própria história subseqüente de Leuthen questões preliminares não possam ser reduzidas a um deno-
pode ganhar significado estrutural. Ou seja, o evento adquire uma cate- comum; esclarecer seus níveis de temporalidade é um impera-
goria estrutural. Na história da tradição prussiana de Estado, por seu metodológico. Eventos e estruturas são igualmente "abstratos" ou
impacto exemplar para a avaliação dos riscos bélicos no planejamento para o conhecimento histórico- isso vai depender do nível
militar da Alemanha prussiana (Dehio), Leuthen converteu-se em um fa- em que nos colocamos. Com isso, ficar a favor ou contra a rea-
tor duradouro e de longo prazo, que substituiu as condições dadas, cons- histórica do passado não é uma alternativa.
titucionais e estruturais, que, por sua vez, haviam tornado possível a pró- A esse respeito sejam permitidas duas considerações relevantes do
pria batalha. de vista da teoria do conhecimento: o conteúdo factual estabele-
Se relacionarmos metodologicamente as formas de representação às ex post aos eventos investigados nunca é idêntico à totalidade das
dimensões temporais subordinadas a elas no "âmbito do objeto" da his- '"'·''-"1" passadas, supostamente tomadas como reais naquele mo-
tória, chegaremos às seguintes conclusões: primeiro, os planos temporais, Todo evento investigado e representado historicamente nutre-se
por mais que se condicionem reciprocamente, nunca se fundem total- ficção do factual, mas a realidade propriamente dita já não pode mais
mente; em segundo lugar, conforme o nível em que se dá a investigação, apreendida. Com isso não se quer dizer que o evento histórico seja
um evento pode adquirir significado estrutural, assim como, da mesma ·-·... u-.n:;'-n.tu sem cuidado ou de maneira arbitrária, uma vez que o con-
forma, e em terceiro lugar, a "duração" pode converter-se em evento. p-ole das fontes assegura a exclusão daquilo que não deve ser dito. Mas
Isso nos conduz à relação, do ponto de vista da teoria do conhecimen- esse mesmo controle não prescreve aquilo que pode ser dito. Pode-se
to, entre os conceitos de evento e estrutura, os quais foram esboçados, que o historiador, de um ponto de vista negativo, está sujei-
até aqui, apenas no que diz respeito à sua forma de representação e aos tado pelos testemunhos da realidade passada. Por outro lado, de um
correspondentes planos temporais. modo positivo, quando interpreta um evento a partir das fontes, ele se
aproxima daquele narrador literário que se submete à ficção contida nos
4. Seria errôneo querer atribuir aos "eventos" um conteúdo maior fatos para tornar mais verossímil a sua narrativa.
de realidade do que às assim chamadas estruturas, só porque os eventos, Assim, de acordo com a teoria do conhecimento, o conteúdo factual
no desenrolar concreto de um acontecimento, permanecem atados ao dos eventos passados que são relatados não é maior do que o conteúdo
antes e ao depois ligados à cronologia natural, empiricamente verificável. factual das estruturas, que talvez ultrapassem o limiar do conhecimento
A história seria diminuída, se ela se obrigasse somente à narração, em empírico das gerações que os viveram. Estruturas de longa duração, não
detrimento de uma análise de estruturas cuja efetividade está em outro apreensíveis pela consciência dos contemporâneos, podem até mesmo ser
nível temporal, não sendo menor por isso. -ou ter sido - tão mais "efetivas", quanto menos estiverem integradas
Ora, trata-se de um procedimento historiográfico comum, hoje em à totalidade constituída pelo evento singular, empiricamente apreensível.
dia, alternar os níveis de argumentação, deduzindo um de outro- ainda Mas isso só pode se dar no plano hipotético. A ficcionalidade dos eventos
que esse outro seja de natureza totalmente diversa. Infelizmente, porém, narrados corresponde, no nível das estruturas, ao caráter hipotético de
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sua "realidade". Ora, sem dúvida, tais afirmações da teoria do conheci- 5. A partir da diferente coordenação entre eventos e estrutura, assim
mento não podem impedir o historiador de se servir da ficcionalidade e como do significado (que se altera a longo prazo) dos conceitos históri-
das hipóteses para comunicar lingüisticamente a realidade passada como cos, podemos deduzir a mudança que afeta o velho provérbio Historia
um resultado de um estado de coisas empiricamente assegurado. magistra vitae. A esse respeito, consideremos mais uma observação.
Mas, para isso, o historiador precisa lançar mão de conceitos históri- O fato de que as dimensões temporais contidas em um processo his-
cos que, ao mesmo tempo em que recobrem a massa de constelações de tórico são apreendidas de forma distinta faz com que os ensinamentos
eventos passados, devem ser entendidos hoje, por ele mesmo e por seus trazidos pela história também sejam apreendidos de forma distinta. Fa-
leitores. Nenhum evento pode ser relatado, nenhuma estrutura represen- bula docet sempre foi um clichê, uma fórmula vazia passível de ser pre-
tada, nenhum processo descrito sem que sejam empregados conceitos enchida das mais diferentes maneiras - como qualquer antologia de
históricos que permitam "compreender" e "conceitualizar" ["begreifen"]* provérbios pode atestar-, tendo sido possível lhe atribuir conteúdos de
o passado. Ora, toda conceitualização [Begriffiichkeit] tem alcance mais sentido contraditório. No que diz respeito à sua estrutura temporal for-
vasto do que o evento singular que ela ajuda a compreender. As catego- mal, deve-se ao contrário indagar em que nível a história se estabelece,
rias empregadas na narração de um evento singular, por meio da lingua- ou deveria se estabelecer, como mestra da vida: no nível das circunstân-
gem, não possuem a mesma unicidade temporal que pode ser atribuída cias de ação em curto prazo e de sua moral respectiva, junto às quais a
ao próprio evento. À primeira vista, essa afirmação é trivial. Entretanto, história atua como modelo de experiência, ou no nível dos processos de
ela deve ser lembrada para elucidar a exigência estrutural que decorre do médio prazo, a partir dos quais certas tendências podem ser projetadas
emprego não usual de conceitos históricos. em direção ao futuro? No primeiro caso, a história instrui a respeito das
O estudo da semântica histórica 7 mostra que todo conceito que faz condições de existência de um possível futuro, sem prognosticá-lo; no
parte de uma narrativa ou de uma representação- por exemplo, Esta-
segundo, a história diz respeito ao nível da duração meta-histórica, a
do, democracia, exército, partido, para citar apenas conceitos gerais -
qual, por isso mesmo, não está situada fora do tempo.
torna inteligíveis contextos, precisamente por não reduzi-los à sua sin-
Inclui-se aqui a análise de cunho social e psicológico dos partidos
gularidade histórica. Os conceitos não nos instruem apenas sobre a uni-
socialdemocratas, conduzida por Robert Mitchel com o objetivo de iden-
cidade de significados (sob nossa perspectiva) anteriores, mas também
tificar uma regularidade na formação das elites como medida profilática
contêm possibilidades estruturais; colocam em questão traços contem-
do comportamento político. Com o provérbio "a arrogância precede a
porâneos no que é não-contemporâneo e não pode reduzir-se a uma
queda': evocamos aqui uma expressão que formula, pura e simplesmen-
pura série histórica temporal.
te, uma possibilidade histórica, ainda que tenha sido empregada, na épo-
Conceitos que abrangem fatos, circunstâncias e processos tornam-se,
ca, somente uma vez.
para o historiador - que se serve deles nos procedimentos cognitivos
Onde a história só informa sobre a possibilidade de repetição dos
-categorias formais que podem ser colocadas como condições para his-
eventos, é lá que ela deve demonstrar possuir condições estruturais ca-
tórias possíveis. Somente os conceitos providos de duração, aptos a uma
pazes de desencadear algo como um evento análogo. Tucídides, Maquia-
utilização reiterada em outros contextos, e que remetam a um referen-
vel, Guicciardini em menor escala, mas também Montesquieu e Robert
cial empírico- ou seja, conceitos de caráter estrutural- permitem q~e
Michel puderam contar, falando em termos modernos, com tais condi-
uma história que em seu momento foi dada como "real" possa ser hoJe
ções estruturais.
dada como possível e, com isso, ser representada.
No entanto, uma vez que as próprias condições estruturais se modifi-
cam - como, por exemplo, a técnica, a economia e com isso também a
* O sentido dicionarizado do verbo begreifen é "compreender, entender". No entan~o: be-
greifen dá origem ao substantivo Begriff, literalmente, "conceito': As aspas são do ongmal. Sociedade como um todo e mesmo sua Constituição - a história terá
[N.T.] que informar sobre as próprias estruturas em processo de alteração, co-
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mo é o caso da história moderna. As estruturas mostram-se cada vez "É possível prever o que está por vir, desde que não se queira profetizá-
mais instáveis e modificáveis, submetendo-se ao empuxo da temporali- lo em detalhe" (Lorenz von Stein). 8
zação. Originou-se aí o impulso inicial da escola historicista, a qual re- A história singular deixa de ser exemplar por seu caráter repetitivo, a
sultou da reflexão sobre o espantoso ineditismo de seu próprio presente. não ser que se deseje evitá-la. Seu valor está em enunciar proposições
Pois o âmbito da experiência se estreita na mesma medida em que tem estruturais, que falam de um futuro construído como um processo. Exa-
que se adequar continuamente aos processos que outrora ocorriam no tamente quando a heterogeneidade dos fins é introduzida como fator
longo prazo e que hoje são abreviados com uma velocidade variável ou constante de incerteza, a análise histórica estrutural conserva seu poten-
simplesmente acelerada. Assim, a singularidade da história pôde se tor- cial prognóstico. Nenhum planejamento econômico é hoje possível sem
nar um axioma de todo conhecimento histórico. que se tenha em conta as experiências advindas da crise da economia
A singularidade dos eventos - principal premissa teórica tanto do mundial - única no gênero - de 1930. A história como disciplina de-
historicismo como das teorias do progresso - não conhece a repetição veria então renunciar a essa função em nome do axioma da singularida-
e, por isso, não permite nenhuma indicação imediata quanto ao provei- de? A história refere-se às condições de um futuro possível, que não se
to das ações passadas. Neste ponto, a "história" [ Geschichte] moderna deduz somente a partir da soma dos eventos isolados. Mas nos eventos
destronou a velha historia como magistra vitae. Mas o axioma do princí- que ela investiga delineiam-se estruturas que estabelecem ao mesmo
pio da singularidade individual que determina o conceito moderno de tempo as condições e os limites da ação futura. Desse modo, a história
história se refere - estruturalmente falando - menos ao ineditismo demarca os limites para um futuro possível e distinto, sem que com isso
efetivo dos eventos do que à singularidade do conjunto das transforma- possa renunciar às condições estruturais associadas a uma possível repe-
ções da modernidade. Isso comprova-se pelo que passamos a chamar de tição dos eventos. Em outras palavras, só se chegará a uma crítica bem
"mudanças estruturais". fundamentada à garantia voluntarista oferecida pelos planejadores de
Daí não resulta, entretanto, que o futuro se subtraia terminantemen- um futuro utópico quando a história [Historie] como magistra vitae ex-
te a qualquer ensinamento que venha da história. O que acontece é que trair seus ensinamentos não apenas das diferentes histórias, mas também
os ensinamentos se movimentam sobre um patamar temporal compre- das "estruturas dinâmicas" de nossa própria história [ Geschichte].
endido sob um ponto de vista teórico diferente. Tanto a filosofia da his-
tória quanto os procedimentos prognósticos dela decorrentes informam
sobre o passado, de forma a deduzir, a partir dele, instruções e diretivas Tradução de Wilma Patrícia Maas e Fabiana Angélica do Nascimento
Revisão de Marcos Valéria Murad
de ação para o futuro. Tocqueville, Lorenz von Stein ou Marx são teste-
munhas disso. Se, no entanto, abandonarmos o campo de experiência
tradicional e nos aventurarmos em um futuro desconhecido, antes de
t~do tentaremos compreender a experiência de um "tempo novo': A par-
tir daí, o caráter pedagógico da "história" se modifica. É certo que o diag-
nóstico e o prognóstico podem continuar a apoiar-se, como sempre, em
estruturas duráveis, de modo a projetar respostas para questões futuras
a partir da premissa teórica da capacidade de repetição dos eventos. Po-
rém, desde a Revolução Industrial e da Revolução Francesa, esse caráter
repetitivo não recobre mais o espaço da experiência. As mudanças es-
truturais de longo prazo, com intervalos de tempo cada vez mais curtos,
resultam em predições que têm por objeto não mais eventos concretos
singulares, mas sim as condições de um determinado futuro possível.