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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 4

2 INTRODUÇÃO A PSICOLOGIA ................................................................. 5

3 A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA NO BRASIL............................................... 7

4 Psicologia como ciência .............................................................................. 9

4.1 O que é ciência .................................................................................. 12

4.2 Objeto de estudo da psicologia .......................................................... 13

4.3 A subjetividade como objeto da psicologia ......................................... 13

4.4 Behaviorismo ...................................................................................... 16

5 Gestalt....................................................................................................... 18

5.1 Psicanálise ......................................................................................... 19

5.2 Teoria cognitiva comportamental ....................................................... 21

5.3 O senso comum: conhecimento da realidade .................................... 22

5.4 Senso comum no processo terapêutico ............................................. 24

6 EXERCÍCIO PROFISSIONAL E REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO


NO BRASIL ............................................................................................................... 27

6.1 A formação do psicólogo no brasil e o perfil do egresso .................... 30

6.2 O psicólogo adivinha o que os outros pensam? ................................. 33

6.3 A psicologia ajuda as pessoas a se conhecerem melhor? ................. 33

6.4 O psicólogo é diferente de um bom amigo? ....................................... 34

6.5 Qual a diferença entre psiquiatra, psicólogo e psicanalista? .............. 37

6.6 Psicólogos e psiquiatras aproximam-se em suas práticas ................. 38

7 A FINALIDADE DO TRABALHO DO PSICÓLOGO .................................. 40

8 AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ........................................... 43

8.1 Usos e abusos da psicologia .............................................................. 47

8.2 Código de ética profissional do psicólogo .......................................... 48

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8.3 Princípios fundamentais ..................................................................... 50

8.4 Das responsabilidades do psicólogo .................................................. 50

8.5 Das disposições gerais....................................................................... 56

9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................... 59

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1 INTRODUÇÃO

Prezado aluno!
O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante
ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um
aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma
pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é
que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a
resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas
poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em
tempo hábil.
Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa
disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das
avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que
lhe convier para isso.
A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser
seguida e prazos definidos para as atividades.
Bons estudos!

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2 INTRODUÇÃO A PSICOLOGIA

Entendemos a história da psicologia em contexto como uma linha de


pensamento em história da psicologia, inspirada e embasada pelos pensamentos de
Danziger (2006 BRANCO et al., 2014), Pickren (2012 BRANCO et al., 2014), Pickren
e Rutherford (apud BRANCO et al., 2014). Tal perspectiva argumenta que a visão
tradicional de História da Psicologia ignora o conhecimento psicológico teórico, prático
e histórico produzido fora das cercanias estadunidenses e europeias.
É conveniente notar como, historicamente, a constituição do conhecimento
ocidental aconteceu mediante uma formulação epistemológica vinculada a saberes
oriundos de países situados ao norte da linha do equador (Santos, 2009, apud
BRANCO et al., 2014).
No caso da Psicologia, são notórias as hegemonias epistemológicas derivadas
da Alemanha, dos EUA, da França, da Inglaterra, da Rússia (União Soviética) e da
Itália. Ressaltamos que muitas correntes de pensamento psicológico, após o seu
surgimento, difundiram-se para outros países. Isto implica duplo movimento, em que
há, inicialmente, uma dependência em relação a essa matriz (potência externa) e,
posteriormente, ocorre uma polaridade histórica que enseja uma heterogeneidade
abissal em relação ao que ocorre no centro de produção de um conhecimento
psicológico (Klappenbah & Pavesi, 1998 apud BRANCO et al., 2014). Obviamente,
houve extensões desses conhecimentos para outros países situados ao sul da linha
do equador.
Observamos, no entanto, a necessidade de uma reflexão sobre as
consequências dessa migração de conhecimento (Santos, 2009, apud BRANCO et
al., 2014), sobretudo no tocante a sua constituição histórica local.
Em países como o Brasil é possível observar exemplos de recepções de ideias
estrangeiras de forma descontextualizada, relativamente ao seu domínio
epistemológico originário, para se combinar a novas ideias harmonizadas às
contendas locais (Klappenbach & Pavesi, 1998, apud BRANCO et al., 2014). Sob a
luz da Psicologia do Norte, muitas dessas assimilações e elaborações próprias a uma
cultura do Sul tendem a ser desvalorizadas ou atentadas com curiosidade.

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Na desvalorização, rege uma lógica colonial de propagação, dominação e
legitimação dos saberes do Norte. Na curiosidade, percebe-se uma lente crítica a
qual argumenta que não existem psicologias neutras, pois há práticas científicas e não
científicas que criam outras linhas de conhecimento alheias às epistemologias do
Norte e circunscritas em uma forma de conhecimento autônoma e dotada de rigor
(Santos, 2009, apud BRANCO et al., 2014).
Essas teorias e práticas psicológicas poderiam ser vinculadas a uma
epistemologia do Sul, entendida como um:

(...) conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam a supressão


de saberes levada a cabo, ao longo dos últimos séculos, pela norma
epistemológica dominante, valorizam os saberes que resistiram com êxito e
as reflexões que estes têm produzido e investigam as condições de um
diálogo horizontal entre conhecimentos (Santos, 2009, p. 07 apud Branco; et
al.; 2014).

Com efeito, a dispersão do pensamento psicológico não ocorre somente nas


formas de variação relativamente ao seu objeto de estudo, método, teoria, prática e
visão de sujeito e mundo. Acrescenta-se a isso a disseminação do pensamento
psicológico em diversos países, que assimilaram ideias oriundas de sua epistemologia
do Norte e as atualizaram de forma autônoma, ganhando contornos específicos,
conforme BRANCO et al., 2014.
A História da Psicologia em Contexto, destarte, sugere uma visada
historiográfica baseada no conhecimento psicológico produzido localmente em outras
regiões geograficamente consideradas fora dos centros de fundação do conhecimento
psicológico. Essa visada não desconsidera a questão dos fatos históricos, das
sucessões temporais e suas fontes de informação, mas se distancia de uma tradição
homogênea de História Geral da Psicologia como fonte ortodoxa legitimadora de
certezas que sustentam a prática psicológica. Não se trata de invalidar outras histórias
da Psicologia, mas problematizá-las em seus limites e complementá-las (Klappenbah
& Pavesi, 1998, BRANCO et al., 2014).
No transcurso do que foi exposto, salientamos a existência de um conjunto de
conceitos que contribuem com a fundamentação e o pensamento da História da
Psicologia em Contexto, conforme apud BRANCO et al., 2014.

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3 A HISTÓRIA DA PSICOLOGIA NO BRASIL

Vista como uma profissão indispensável, nos dias atuais, a psicologia,


enquanto profissão tem uma história recente no Brasil. Apoiada na regulamentação
da década de 60 e reconhecida como profissão liberal pela Lei 4.119, tradicionalmente
foi constituída por quatro grandes áreas de atuação: clínica, escolar, organizacional e
o magistério, conforme FAVARETTO T; (2011).

Pereira e Pereira Neto (2003; apud FAVARETTO T; 2011) trazem três


momentos considerados de extrema importância para a história da profissão
de psicólogo no Brasil, o pré-profissional, o de profissionalização e o pós-
profissionalização.

O primeiro período é compreendido entre a criação das faculdades de medicina


do Rio de Janeiro e da Bahia (1833; apud FAVARETTO T; 2011) e o final do século
XIX (1890; apud FAVARETTO T; 2011). Nesse momento, não havia nenhuma
sistematização do conhecimento psicológico, o que existia eram pessoas interessadas
nos temas e questões da psicologia (PEREIRA e PEREIRA NETO, 2003; apud
FAVARETTO T; 2011).
De acordo com os mesmos autores, o segundo período, de profissionalização,
é compreendido entre 1890 e 1975 abrangendo desde a gênese da institucionalização
da prática psicológica até a regulamentação da profissão, bem como, a criação de
seus dispositivos formais, conforme FAVARETTO T; (2011).
Habilitado legalmente, o futuro profissional deveria frequentar, primeiramente,
três anos de filosofia, biologia, fisiologia, antropologia ou estatística e fazer então, os
cursos especializados de psicologia. Somente assim, com a formação dos
denominados especialistas em psicologia iniciou-se oficialmente o exercício dessa
profissão. A partir de então, a psicologia passa a ter um conhecimento próprio,
tornando-se detentora de um determinado mercado de trabalho, ainda que
compartilhado com a medicina e a educação (SOARES, 1979; apud FAVARETTO T;
2011).

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Em termos institucionais, pode-se dizer que a psicologia se aproximou
primeiramente da educação com a Reforma Benjamim Constant, em 1890,
incorporando a disciplina de psicologia nos currículos das Escolas Normais. Além
disso, em 1906, acompanhando a tendência internacional foi criado o primeiro
Laboratório de Psicologia Experimental no Brasil (SOARES, 1979; apud FAVARETTO
T; 2011).
Pereira e Pereira Neto (2003; apud FAVARETTO T; 2011) trazem que a relação
da medicina com a origem da psicologia brasileira e seu desenvolvimento, foi
possibilitada pela psiquiatria, porém, por outro lado, a última buscou apropriar-se do
universo psi, numa tentativa de querer transformá-la em especialidade médica ou
mesmo, subordinar o profissional psicólogo para que exercesse papel complementar
ao do médico.
Enquanto a psicologia desenvolvia um conhecimento especializado e
conquistava um mercado consumidor de seus serviços de acordo com Pereira a
Pereira Neto (2003; apud FAVARETTO T; 2011), começaram a ser elaborados
anteprojetos para a regulamentação da profissão, oficializada em 27 de agosto de
1962. Também foi emitido, nesse mesmo ano, o Parecer 403 do Conselho Federal de
Educação, que estabeleceu o currículo mínimo e a duração do curso universitário de
Psicologia.
A terceira fase inicia-se em 1975, onde a profissão de psicólogo passou a estar
organizada e estabelecida. Nota-se que a ênfase das atividades do profissional
psicólogo se centrou, nessa fase, no trabalho autônomo, clínico, individual, curativo e
voltado para uma clientela financeiramente privilegiada, referência obtida pelo campo
médico (BORGES e CARDOSO, 2005; apud FAVARETTO T; 2011).
É possível notar, também, que as faculdades de psicologia propagaram-se
lançando no mercado um número crescente de profissionais contribuindo para a
degradação do valor da mão-de-obra, sinal nítido de perda de autoridade e de
valorização profissional. Para Borges e Cardoso (2005; apud FAVARETTO T; 2011)
é nesse momento que o consultório particular deixou de exercer o papel preeminente
que tivera outrora e novos espaços de atuação começaram a se constituir.

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4 PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA

Fonte: Fonte: medium.com

O século XIX foi marcado por grandes transformações econômicas, políticas e


sociais. Estas transformações emergem no bojo da mudança do modo de produção
feudal para a produção capitalista. A partir das mudanças sociais e políticas vindas
com a Revolução Industrial, ocorre uma predominância do trabalho intelectual sobre
o manual e da razão sobre a emoção, conforme BOLDRINI; (2007).
Com essas mudanças nos ideais há uma quebra dos valores e normas da
tradição europeia, fazendo com que as pessoas mudem sua forma de se
relacionarem, tendo como respaldo não mais as normas sociais e sim seus próprios
sentimentos e percepções, conforme BOLDRINI; (2007).
Nesse processo vai se constituindo uma nova concepção de homem e de
mundo, segundo a qual o raciocínio individual passa a ser valorizado e a noção de
subjetividade se constitui. O funcionamento da sociedade capitalista traz uma
perspectiva de Homem como um indivíduo livre e independente; nesse contexto, a
subjetividade passa a ser entendida como uma experiência individual privada,
universal e profunda. Essa nova concepção de Homem enfatiza não somente a
individualidade, mas também os sentimentos. (Figueiredo, 2002 apud BOLDRINI C,
2007).

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Nessa nova perspectiva surge uma abertura para as ciências, principalmente
as ciências humanas. É neste contexto a psicologia surge numa tentativa de investigar
o ser humano: o que o constitui e como funciona. Para que esse novo conhecimento
conquistasse espaço como empreendimento científico era preciso desenvolver um
método de investigação e controle da subjetividade, conforme BOLDRINI; (2007).
A psicologia começa sua história no meio científico na segunda metade do
século XIX na Europa, com investigadores, denominados “psicofísicos”, que
começaram a estudar os órgãos dos sentidos, pois se entendia que é através deles
que o mundo externo é percebido. Surge então um foco maior no funcionamento do
cérebro, e o reflexo e as sensações passam a ser objetos de estudos científicos (Bock,
1999 apud BOLDRINI C, 2007).
Em 1875, Wundt apresenta a psicologia como uma nova ciência, intermediária
entre a biologia e a sociologia, cujo objeto de estudo seria a experiência imediata do
indivíduo, conforme BOLDRINI; (2007).

Experiência imediata é a experiência tal como o sujeito a vive antes de se pôr


a pensar sobre ela, antes de comunicá-la, antes de ‘conhecê-la’. É, em outras
palavras, a experiência tal como se dá. (Figueiredo, 2002, p. 59; apud
BOLDRINI C, 2007).

Wundt sugeriu duas formas de estudo do psicológico: uma psicologia


experimental, que se utiliza de um método controlado em laboratório para pesquisar
os processos mentais e fisiológicos do comportamento humano; e uma psicologia
social, que pretendia analisar os fenômenos culturais (como a linguagem) e os
mecanismos mentais de elaboração desses fenômenos (pensamento) por meio de
estudos dos produtos socioculturais, conforme BOLDRINI; (2007).
A partir de Wundt, outros pensadores, como Titchener, Skinner, Piaget, Freud
e vários outros, passaram a formular abordagens que tinham como propósito
desenvolver um método objetivo de fazer psicologia. Todas as abordagens se
constituíram como esforços para que a ciência psicológica pudesse dar conta de
compreender o homem e seu contato com o mundo, conforme BOLDRINI; (2007).
O objeto de estudo da psicologia, como toda ciência humana, é o homem,
porém cada abordagem apresenta um foco, uma concepção de homem diferente.
Assim, o modo de olhar e estudar o objeto também é diferente, dificultando a criação
de um método único e “objetivo” (Bock,1999 apud BOLDRINI C, 2007).

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Esta “falta” metodológica gera um constante questionamento na definição da
psicologia como ciência. Um dos motivos levantados por Figueiredo (2002 apud
BOLDRINI C, 2007) para essa não unificação metodológica é o fato de que a
psicologia é uma ciência muito nova.
Além disso, há uma diversidade de fenômenos que podem ser o foco de estudo
de um psicólogo que são inacessíveis através de um único método, tornando
necessário a existência de diferentes níveis de observação e pesquisa para se chegar
a um (quase) todo, conforme BOLDRINI; (2007).
Outro fator importante é que a realidade pesquisada cientificamente acaba
sempre sendo construída a partir do olhar do pesquisador, e nas ciências humanas o
pesquisador é de certa forma o próprio objeto de estudo (principalmente na
psicologia), o que acaba “quebrando” a supostamente necessária neutralidade
científica (Demo,1995 apud BOLDRINI C, 2007).

Os estudos psicológicos científicos começaram e se desenvolveram sempre


marcados por essa contradição: por um lado, a ciência moderna pressupõe
sujeitos livres e diferenciados – senhores de fato e de direito da natureza; por
outro, procura conhecer e dominar essa própria subjetividade, reduzir ou
mesmo eliminar as diferenças individuais de forma a garantir a “objetividade”,
ou seja, a validade intersubjetiva dos achados. Em contraposição (...) muitos
psicólogos repudiam essa meta de conhecer para dominar os meandros da
subjetividade e afirmam, ao contrário, que o que interessa é conhecer esses
aspectos profundos e poderosos do ‘eu’ para dar-lhes voz, para expandi-los,
para fazê-los mais fortes e livres. É claro que os que pensam assim querem
fazer da psicologia uma ‘ciência’ sui generis não só por ter um campo e um
objeto próprios, mas por adotarem, em relação às demais ciências, outros
métodos e outras metas. (Figueiredo, 2002, p. 57; apud BOLDRINI C, 2007).

Sendo a psicologia uma ciência humana, biológica e social, emerge a


necessidade de uma discussão sobre uma forma mais maleável de fazer ciência,
incluindo o critério de “discutibilidade”, que postula que só pode ser considerado
científico o que for discutível, isto é, aquilo que for visto e dialogado com a partir dos
olhares das diferentes áreas da ciência humana (Demo, 1995; apud BOLDRINI C,
2007).
Essa ideia pauta a perspectiva hoje vigente de que a psicologia é uma ciência
biopsicosocial, isto é, o psíquico é produto de uma somatória de influências. Não há
como negar que fatores políticos, biológicos e sociais têm influência direta na saúde
mental, o que implica o envolvimento de diferentes disciplinas, como a sociologia,
antropologia, biologia entre outras, para se estudar criticamente o ser humano como
multideterminado (Bock, 1999; apud BOLDRINI C, 2007).
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4.1 O que é ciência

De acordo com BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018), a ciência constitui – se de


uma associação de conhecimentos sobre a ocorrência de fatos ou aspectos da
realidade (objeto de estudo), expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa.
Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e
controlada, para que se permita a verificação de sua validade.
Assim, podemos apontar o objeto dos diversos ramos da ciência e saber
exatamente como determinado conteúdo foi construído, possibilitando a reprodução
da experiência. Dessa forma, o saber pode ser transmitido, verificado, utilizado e
desenvolvido, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
Essa característica da produção científica possibilita sua continuidade: um novo
conhecimento é produzido sempre a partir de algo anteriormente desenvolvido.
Negam-se, reafirmam–se descobrem-se novos aspectos, e assim a ciência avança.
Nesse sentido, a ciência caracteriza-se como um processo. Pense no
desenvolvimento do motor movido a álcool hidratado, conforme BOCK A; T. M;
FURTADO T; (2018).
Ele nasceu de uma necessidade concreta (crise do petróleo) e foi planejado a
partir do motor a gasolina, com a alteração de poucos componentes deste. No entanto,
os primeiros automóveis movidos a álcool apresentaram muitos problemas, como o
seu mau funcionamento nos dias frios. Apesar disso, esse tipo de motor foi se
aprimorando, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
A ciência tem ainda uma característica fundamental: ela aspira à objetividade.
Suas conclusões devem ser passíveis de verificação e isentas de emoção, para
assim, tornarem-se válidas para todos. Objeto específico, linguagem rigorosa,
métodos e técnicas específicas, processo cumulativo do conhecimento, objetividade
fazem da ciência uma forma de conhecimento que supera em muito o conhecimento
espontâneo do senso comum. Esse conjunto de características é o que permite que
denominemos científico a um conjunto de conhecimentos, conforme BOCK A; T. M;
FURTADO T; (2018).

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4.2 Objeto de estudo da psicologia

Para ter um aprendizado cientifico, precisa –se de objeto específico de estudo,


como por exemplo, o objeto da Astronomia são os astros, e o objeto da Biologia são
os seres vivos, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
Essa divisão de uma forma geral, demonstra que é possível tratar o objeto
dessas ciências com uma certa distância, ou seja, é possível isolar o objeto de estudo.
No caso da Astronomia, o cientista - observador está, por exemplo, num observatório,
e o astro observado, a luz de distância de seu telescópio. Esse cientista não corre o
mínimo risco de confundir-se com o fenômeno que está estudando, conforme BOCK
A; T. M; FURTADO T; (2018).
Dentro da psicologia, o objeto de estudo não ocorre como a Antropologia, a
Economia, a Sociologia e todas as ciências humanas, que estuda o homem.
Certamente, esta divisão é ampla demais e apenas coloca a Psicologia entre as
ciências humanas. Qual é, então, o objeto específico de estudo da Psicologia? Se
dermos a palavra a um psicólogo comportamentalista, ele dirá: "O objeto de estudo
da Psicologia é o comportamento humano." Se a palavra for dada a um psicólogo
psicanalista ele dirá: "O objeto de estudo da psicologia é o inconsciente". Outros dirão
que é a consciência humana, e outros, ainda, a personalidade, conforme BOCK A; T.
M; FURTADO T; (2018).

4.3 A subjetividade como objeto da psicologia

A identidade da Psicologia é o que a diferencia dos demais ramos das ciências


humanas, a psicologia considera o fato que cada um desses ramo enfoca o homem
de maneira particular, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
Assim, cada especialidade - a Economia, a Política, a História etc. trabalha essa
matéria-prima de maneira particular, construindo o aprendizado para se obter
conhecimentos distintos e específicos a respeito dela. A Psicologia colabora com o
estudo da subjetividade: é essa a sua forma particular, específica de contribuição para
a compreensão da totalidade da vida humana, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T;
(2018).

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A psicologia tem como matéria-prima, o homem a partir dele a psicologia irá
traçar todas as suas expressões, as visíveis (nosso comportamento) e as invisíveis
(nossos sentimentos), as singulares (porque somos o que somos) e as genéricas
(porque somos todos assim) - é o homem - corpo, homem afeto, homem-ação e tudo
isso está sintetizado isso está no termo subjetividade, conforme BOCK A; T. M;
FURTADO T; (2018).
Quando falamos em subjetividade, estamos discorrendo sobre a forma de como
podemos ver esse objeto (homem) de estudo em que a psicologia expõe, portanto, a
subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo
conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e
cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de
outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no
campo comum da objetividade social, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
Portanto a subjetividade, vai ver o objeto de estudo para psicologia como o
mundo de ideias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir
de suas relações sociais, as suas experiências de vida, constituição biológica,
englobando toda fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais, conforme
BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
O mundo social e cultural, conforme vai sendo experienciados por nós,
possibilita-nos a construção de um mundo interior. São diversos fatores que se
combinam e nos levam a uma vivência muito particular. Nós atribuímos sentido a
essas experiências e vamos nos constituindo a cada dia. A subjetividade é a maneira
de sentir, pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um, conforme BOCK A; T.
M; FURTADO T; (2018).
Com a subjetividade, entendemos podemos entender que ela tem a capacidade
de não ser só fabricada, produzida, moldada, mas também é automoldável, ou seja, o
homem pode promover novas formas de subjetividade, recusando-se ao
assujeitamento à perda de memória imposta pela fugacidade da informação;
recusando a massificação que exclui e estigmatiza o diferente, a aceitação condiciona
ao consumo, a medicalização do sofrimento. Nos faz entender que cada sujeito de
forma única pode participar na construção do seu destino e de sua coletividade
conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).

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Por fim, podemos dizer que, estudar a subjetividade, nos tempos atuais, é
tentar compreender a produção de novos modos de ser, isto é, as subjetividades
emergentes, cuja fabricação é social e histórica. O estudo dessas novas
subjetividades vai desvendando as relações do cultural, do político, do econômico e
do histórico na produção do mais íntimo e do mais íntimo e do mais observável no
homem - aquilo que o captura, submete-o ou mobiliza-o para pensar e agir sobre os
efeitos das formas de submissão da subjetividade (como dizia o filósofo francês Michel
Foucault, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
A Psicologia, é um ramo das Ciências Humanas e a sua identidade, isto é,
aquilo que a diferencia, pode ser obtida considerando-se que cada um desses ramos
enfoca de maneira particular o objeto homem, construindo conhecimentos distintos e
específicos a respeito dele. Assim, com o estudo da subjetividade, a Psicologia
contribui para a compreensão da totalidade da vida humana, conforme BOCK A; T. M;
FURTADO T; (2018).
É claro que a forma de se abordar a subjetividade, e mesmo a forma de
concebê-la, dependerá da concepção de homem adotada pelas diferentes escolas
psicológicas. No momento, pelo pouco desenvolvimento da Psicologia, essas escolas
acabam formulando um conhecimento fragmentário de uma única e mesma totalidade
- o ser humano: o seu mundo interno e as suas manifestações. A superação do atual
impasse levará a uma Psicologia que enquadre esse homem como ser concreto e
multideterminado, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
Esse é o papel de uma ciência crítica, da compreensão, da comunicação e do
encontro do homem com o mundo em que vive, já que o homem que compreende a
História (o mundo externo) também compreende a si mesmo (sua subjetividade), e o
homem que compreende a si mesmo pode compreender o engendramento do mundo
e criar novas rotas e utopias, conforme BOCK A; T. M; FURTADO T; (2018).
Algumas correntes da Psicologia consideram-na pertencente ao campo das
Ciências do Comportamento e, outras, das Ciências Sociais. Acreditamos que o
campo das Ciências Humanas é mais abrangente e condizente com a nossa proposta,
que vincula a Psicologia à História, à Antropologia, à Economia etc., conforme BOCK
A; T. M; FURTADO T; (2018).

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4.4 Behaviorismo

De acordo com COSTA J; MONTEIRO M; FILGUEIRA J; (2018), o conceito de


Behaviorismo ou comportamentalismo foi primeiramente utilizado pelo americano
John B. Watson no artigo "Psicologia como os behavioristas a veem", publicado em
1913. Esse termo significa comportamento de um ser humano ou animal e também
pode ser mencionado como comportamentalismo, teoria comportamental ou análise
experimental do comportamento, independentemente de qual nomenclatura adotada,
o conceito é utilizado como base para a psicologia e suas características também são
importantes para a ciência.
O Behaviorismo, portanto, dedica-se ao estudo do comportamento nas
relações do indivíduo com o meio ambiente (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1998, p.
38; apud COSTA J; MONTEIRO M; FILGUEIRA J; 2018).
Mesmo sendo reconhecido como um ramo de estudo da psicologia, o
behaviorismo é bastante criticado no que se refere à consciência das pessoas, pois
segundo sua definição um ser sempre estará interligado a algum fator seja ele
ambiental, social ou mental, contradizendo a ideia que indivíduo sempre tem o
controle das suas ações (Skinner, 1974; Zilio, 2011; apud COSTA J; MONTEIRO M;
FILGUEIRA J; 2018).

Portanto, Watson substitui o objeto de estudo da psicologia da época, que


era a consciência, pelo comportamento dos organismos; abandonou a
introspecção como método e adotou a experimentação de processos
diretamente observáveis no comportamento dos organismos; realizou os
contornos de uma psicologia útil voltada à previsão e controle do
comportamento; voltou-se para um rigoroso monismo físico, no qual o
“mental” era visto como uma descrição do modo como os eventos físicos
funcionavam e a consciência não teria uma existência independente ou
particular (Carvalho Neto, 2002; Marx & Hillix, 1963; apud MELO C; 2008).

Behaviorismo Metodológico se caracteriza por defender a relevância do meio


dentro da criação de sua construção e no processo de desenvolvimento de cada
indivíduo, o principal meio de análise é a observação das experiências onde perceber
–se que o desenvolvimento de conjunto de princípios pode explicar o comportamento
humano da forma mais adequada. Ou seja, essa corrente acredita que é possível
prever e controlar toda a conduta humana com base no estudo do meio em que o
indivíduo vive.

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De acordo com Strapasson (2012 apud SANZOVO V; 2014), o Behaviorismo
Metodológico se caracteriza pela assunção de que a mente existe enquanto
substância imaterial, sendo, portanto inacessível. Disso, decorre que a observação
direta do comportamento humano se constitui como único meio seguro de produzir
conhecimento na Psicologia, visto pertencer ao campo material. Isto significa que “[...]
a mente, enquanto matéria inobservável, não deve ser objeto de estudo da ciência
psicológica e esta, por razões metodológicas, deve se restringir ao comportamento
observável. ” (Strapasson, 2012, p. 83 apud SANZOVO V; 2014).
Surge na década de 30 do século XX o Behaviorismo Radical através dos textos
publicados por Skinner. Segundo Carvalho Neto (2002; apud MELO C; 2008), foi em
1945 que Skinner denominou seu “behaviorismo” de Behaviorismo Radical, para
diferenciar-se das outras versões do Behaviorismo, como a versão Watsoniana.
Desse modo, surge o Behaviorismo Radical com seus pressupostos filosóficos que
embasariam a Ciência do Comportamento de Skinner.
Nessa nova ciência, o comportamento deveria ser o objeto de estudo da
psicologia. Entretanto, ao contrário de Watson, Skinner enfatizou que os eventos
privados do organismo não deveriam ser negligenciados pela Ciência do
Comportamento, todavia não deveriam ser entendidos como causas do
comportamento, conforme MELO C; (2008).
Os primeiros trabalhos de Skinner objetivaram uma investigação de caráter
histórico e conceitual sobre a noção de reflexo, o desenvolvimento de novos recursos
metodológicos e técnicos e uma extensa linha de pesquisa experimental em
laboratório (Skinner, 1938/1966 apud MELO C; 2008).
De acordo com SKINNER (2006), o Behaviorismo Radical, todavia, adota uma
linha diferente, não nega a possibilidade da auto-observação ou do autoconhecimento
ou sua possível utilidade, mas questiona a natureza daquilo é sentido ou observado
e, portanto, conhecido. Restaura a introspecção, mas não aquilo que os filósofos e os
psicólogos introspectivos acreditavam “esperar”, e suscita o problema de quanto de
nosso corpo podemos realmente observar.
Esses estudos e outros que ocorreram posteriores a 1935 proporcionaram a
base empírica para a Ciência do Comportamento de Skinner. Skinner é um pensador
que gera questionamentos atuais e frutíferas investigações conceituais, experimentais
e aplicadas, conforme MELO C; (2008).

17
5 GESTALT

A Gestalt-terapia foi amplamente influenciada pela Psicologia da Gestalt,


estudada pela Escola Gestáltica que defendia a premissa de que a natureza humana
é organizada em partes e todos e somente assim vivenciada (PERLS, 2012; apud
FIORAVANTE N; 2016).

Fonte: leticialima.com.br

Segundo Ribeiro (2007 apud FIORAVANTE N; 2016), a psicologia da Gestalt


examina como o indivíduo percebe sua realidade e a si mesmo, como se organiza no
mundo a partir dessa percepção e como resolve as questões de seu dia a dia com
base nesta realidade apreendida.

Yontef (1998 apud FIORAVANTE N; 2016) explica que Gestalt refere-se à


forma, estrutura, configuração, padrão de um conjunto de elementos e
corrobora com a ideia de que o indivíduo percebe padrões inteiros ao invés
de fragmentos e que existe uma capacidade de percepção inata se utilizarem
da experiência imediata do aqui-e-agora.

A ênfase da Gestalt-terapia no presente é uma influência direta da Psicologia


da Gestalt (WALLEN, 1970, apud YONTEF 1998, p. 160 apud FIORAVANTE N; 2016).
De acordo com Perls (2012 apud FIORAVANTE N; 2016) a Psicologia da Gestalt
desenvolveu as observações a respeito dos conceitos de figura/fundo e todo/parte,
trazendo a noção de que a escolha de qual elemento se distinguirá ao indivíduo num
dado momento é o resultado de diversos fatores.

18
Ribeiro (2007, p. 117 apud FIORAVANTE N; 2016) diz que “a relação entre
figura e fundo, como maneiras pelas quais a pessoa organiza sua percepção
de totalidade, envolve uma questão de percepção, consciência, motivação,
em direta dependência das necessidades humanas”.

O conceito que a Psicologia da Gestalt traz é de que o ser humano percebe e


organiza a sua realidade a partir de um processo perceptivo que compõe um todo que
tem significado para ele, em detrimento de perceber coisas isoladas e sem relação
(PERLS, 2012; apud FIORAVANTE N; 2016).
A análise das relações entre as partes do todo que é o indivíduo, viabiliza uma
compreensão dos eventos que ocorrem num dado espaço vital, ou seja, uma
explicação sistêmica que busca entender o como um evento aleatório afeta e modifica
o todo (TELLEGEN, 1984).

5.1 Psicanálise

A abordagem psicanalítica se fundou como uma teoria desenvolvida por


Sigmund Freud, teve como um grande marco em sua constituição psicanalítica, a
publicação da obra A Interpretação dos Sonhos, no início de 1900. Os estudos de
Freud, que levaram à elaboração da teoria, começaram alguns anos antes, quando
ainda eram realizados na área de formação do autor: a medicina (FREUD, 1996b;
apud CARLONI p; 2003).
A abordagem psicanalítica assume uma cisão na subjetividade, porque a teoria
da psicanalise não coloca a questão do sujeito da verdade, mas da verdade do sujeito.
Essa subjetividade humana se fragmenta dois sistemas – o Inconsciente e o
Consciente – e que é dominada por uma luta interna. Mediante a isso Freud desloca-
se dos ideais da Ilustração, indo interessar-se pelos fenômenos da vida afetiva que
apresentavam dificuldades de estabelecimento conceitual, (GARCIA-ROZA, 2007;
apud CORDEIRO E; 2010).
Começa a investigar os aspectos pulsionais, as forças obscuras que movem o
ser humano, de modo que a racionalidade não se enraizava profundamente, sendo
apenas uma camada de superfície, um verniz, e que não tem as rédeas sobre o
comportamento humano. O mundo, pensado racionalmente, era escorregadio e não
oferecia explicações para certos fenômenos (GARCIA-ROZA, 2007; apud Cordeiro E;
2010).

19
A partir da psicanálise, temos a teoria do inconsciente, onde Freud realiza a
terceira grande ferida ao narcisismo humano. A primeira ferida foi feita séculos antes
por Copérnico com a teoria heliocêntrica, descentralizando o planeta Terra, onde o
homem habita, do centro do Cosmos. Ele divide a estrutura psíquica em id, ego e
superego. O id é a fonte de energia pulsional (libido), conforme CORDEIRO (2010).
Ele é inconsciente e regido pelo Princípio do Prazer, o ego faz a mediação entre
os desejos, do id, as impossibilidades da realidade externa e as interdições do
superego. Está ligado ao Princípio de Realidade, por meio do qual o homem pode se
tornar civilizado, tem parte consciente e outra inconsciente. O superego é o herdeiro
do complexo de Édipo e acusa os desejos do id, antes mesmo que cheguem à
consciência. O superego possui uma maior parte inconsciente e outra pequena
consciente, conforme CARLONI (2003).
Freud também baseia seus estudos no desenvolvimento da libido, e no
desenvolvimento infantil, portanto, Freud divide o desenvolvimento da libido em quatro
fases, que não são lineares, mas podem se sobrepor, mesmo que teoricamente se
defina uma ordem: fase oral, fase anal sádica, fase fálica, latência e fase genital. De
acordo com a fase, o investimento libidinal se encontra em um órgão ou parte do
corpo. Elas serão fundamentais para entender importantes formulações na teoria
freudiana, como o Complexo de Édipo e o Complexo de Castração, Freud (1996ª apud
CARLONI P; 2003).
Por fim, a abordagem psicanalítica, diz que a consciência é mero efeito de
superfície do inconsciente, não é o lugar da verdade, mas da mentira, do ocultamento,
da distorção e da ilusão. Freud coloca a consciência sob suspeita. Ela propõe falar do
homem como um ser singular, através da escuta desse sujeito, de sua verdade e de
sua experiência subjetiva, interessando-se pelo desejo que o racionalismo recusou,
conforme CARLONI (2003).

[...] não me impedirei de modificar ou retirar qualquer uma das minhas teorias
sempre que a progressão da experiência possa exigi-lo. Com referência a
descobertas fundamentais, até o momento atual, nada tenho a modificar, e
espero que isto venha a manter-se verdadeiro no futuro. (FREUD, 1917b
[1916]/1996, p. 292 [grifo do autor] apud Silva A; 2012).

20
5.2 Teoria cognitiva comportamental

A Terapia Cognitivo Comportamental está baseada em uma conceituação, ou


compreensão, de cada paciente (suas crenças específicas e padrões de
comportamento). O terapeuta procura produzir de várias formas uma mudança
cognitiva – modificação no pensamento e no sistema de crenças do paciente – para
produzir uma mudança emocional e comportamental duradoura (BECK, 2013, p. 22;
apud ARAÚJO S; 2018).
Na infância, as crianças desenvolvem suas percepções sobre si mesmas, sobre
as outras pessoas e sobre o mundo. Crença é uma condição psicológica que se define
como uma verdade sobre determinada ideia. Nossas crenças constroem nosso
mundo. Portanto, não são verdades absolutas, são percepções que foram
consideradas verdades (BECK, 2013, p. 52 apud ARAÚJO S; 2018).
As crenças intermediárias, são mais superficiais, e específicas para as
situações. São regras, atitudes e os pressupostos, que influenciam a visão da
situação, e impactam nos pensamentos e comportamentos das pessoas. Elas são
desenvolvidas para que a pessoa consiga lidar com a sua crença central (BECK, 2013,
p. 54 apud ARAÚJO S; 2018).
É uma psicoterapia estruturada de curta duração voltada para o presente e com
foco na solução de problemas atuais, modificação dos pensamentos e
comportamentos disfuncionais (BECK, 1964 apud JUDITH BECK, 2013; apud
ARAÚJO S; 2018). O tratamento está baseado em uma formulação cognitiva, crenças
intermediárias e centrais e estratégias comportamentais que caracterizam um
transtorno específico, além de uma conceitualização ou compreensão de cada
paciente, onde analisamos suas crenças especificas e padrões de comportamento
(ALFORD E BECK, 1997 apud JUDITH BECK, 2013; apud ARAÚJO S; 2018).
Para que haja sucesso no processo terapêutico, o terapeuta investe bastante
na relação terapêutica, na psicoeducação do modelo cognitivo e nas técnicas que
apoiam o paciente mesmo fora do setting terapêutico (ALFORD E BECK, 1997 apud
JUDITH, 2013; apud ARAÚJO S; 2018).

21
5.3 O senso comum: conhecimento da realidade

Existe um domínio da vida que pode ser entendido como vida por excelência:
é a vida do cotidiano. É no cotidiano que tudo flui que as coisas acontecem, que nos
sentimos vivos, que sentimos a realidade, conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).
De acordo com BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018), mostra um
exemplo dizendo que em um instante podemos está lendo um livro de psicologia, logo
mais estaremos em uma sala de aula fazendo uma prova e mais tarde ir ao cinema.
Enquanto isso, temos sede e tomamos um refrigerante na cantina da escola, sentimos
um sono irresistível e precisamos de muita força de vontade para não dormir em plena
aula, logo em seguida lembramos que havia prometido chegar cedo para o almoço.
Todos esses acontecimentos denunciam que estamos vivos. Já a ciência é uma
atividade eminentemente reflexiva. Ela procura compreender, elucidar e alterar esse
cotidiano, a partir de seu estudo sistemático, conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).

Fonte: newstartpsicologia.com

Quando se exercer a ciência, é fundamentado na realidade e é pensando sobre


ela. Distanciamos – nos dela para refletir e conhecer além de suas aparências. O
normal de um cotidiano e o conhecimento científico que temos realidade aproximam-
se e se afastam: aproximam- se porque a ciência se refere ao real; afastam-se porque

22
a ciência abstrai a realidade para compreendê-la melhor, ou seja, a ciência afasta-se
da realidade, transformando-a em objeto de investigação – o que permite a construção
do conhecimento científico sobre o real, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO
O; (2018).
Para se ter uma melhor compreensão, pense na abstração (no distanciamento
e trabalho mental) que Newton teve que fazer para, partindo da fruta a árvore (fato do
cotidiano), formar a lei da gravidade (fato científico), conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).
Ocorre que, mesmo o mais especializado dos cientistas, quando sai de seu
laboratório, está submetido à dinâmica do cotidiano, que cria suas próprias "teorias" a
partir das teorias científicas, seja como forma de "simplificá-las" para o uso no dia a
dia, ou como sua maneira peculiar de interpretar fatos, a despeito das considerações
feitas pela ciência. Enquanto estudantes psicólogos, físicos, artistas, operários,
teólogos vivemos a maior parte do tempo esse cotidiano e as suas teorias, isto é,
aceitamos as regras do seu jogo, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O;
(2018).
O fato é que a dona de casa, quando usa a garrafa térmica para manter o café
quente, sabe por quanto tempo ele permanecerá razoavelmente quente, sem fazer
nenhum cálculo complicado e, muitas vezes, desconhecendo completamente as leis
da termodinâmica, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Quando alguém em casa reclama de dores no fígado, ela faz um chá de boldo,
que é uma planta medicinal já usada pelos avós de nossos avós, sem, no entanto,
conhecer o princípio ativo de suas folhas nas doenças hepáticas e sem nenhum
estudo farmacológico, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
E quando estamos referindo a nós mesmo, quando precisamos atravessar uma
avenida movimentada, com o tráfego de veículos em alta velocidade, sabemos
perfeitamente medir a distância e a velocidade do automóvel que vem nossa direção.
Até hoje não conhecemos ninguém que usasse máquina de calcular ou fita métrica
para essa tarefa. Esse tipo de conhecimento que vamos acumulando no nosso
cotidiano é chamado de senso comum. Sem esse conhecimento, espontâneo, de
tentativas e erros, a nossa vida no dia-a-dia seria muito complicada. Conforme BOCK
A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).

23
A necessidade de acumularmos esse tipo de conhecimento espontâneo
parece-nos óbvia. Imagine termos que descobrir diariamente que as coisas tendem a
cair, graças ao efeito da gravidade; intuitivo, termos que descobrir diariamente que
algo atirado pela janela tende a cair e não a subir; que um automóvel em velocidade
vai se aproximar rapidamente de nós e que, para fazer um aparelho eletrodoméstico
funcionar, precisamos de eletricidade. O senso comum, na produção desse tipo de
conhecimento, percorre um caminho que vai do hábito à tradição, a qual, quando
estabelecida, passa de geração para geração, conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).
Assim, desde de quando se é pequeno aprendemos com o nossos pais a
atravessar uma rua, a fazer o liquidificador funcionar, a plantar alimentos na época e
de maneira correta, a conquistar a pessoa que desejamos e assim por diante. E é
nessa tentativa de facilitar o dia a dia que o senso comum produz suas próprias
"teorias"; na realidade, um conhecimento que numa interpretação livre, poderíamos
chamar de teorias médicas, físicas, psicológicas etc., conforme BOCK A; TEIXEIRA
M; FURTADO O; (2018).
Esse conhecimento do senso comum, além de sua produção característica,
acaba por se apropriar, de uma maneira muito singular, de conhecimentos produzidos
pelos outros setores da produção do saber humano. O senso comum mistura e recicla
esses outros saberes, muito mais especializados, e os reduz a um tipo de teoria
simplificada, produzindo uma determinada visão-de-mundo., conforme BOCK A;
TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).

5.4 Senso comum no processo terapêutico

Fonte: psicologiaviva.com.br

24
Investigações sobre a linguagem no processo terapêutico: a relação
terapeuta-cliente.
As questões relacionadas à linguagem do senso comum e à forma como com
ela lida pelo profissional da psicologia, emergem na relação do psicólogo com o
“cliente”. No trabalho terapêutico, é no primeiro contato que o cliente traz sua queixa,
e a partir dessa queixa inicial é traçado um caminho para se chegar a um diagnóstico.
Este momento é especialmente propício para se investigar as possíveis dissonâncias
presentes na relação terapeuta – cliente, conforme BOLDRINI (2007).
É o que evidencia o trabalho intitulado: Da linguagem do senso comum à
linguagem do diagnóstico: a reinterpretação da queixa na clínica psicológica (Moreira,
1999 apud BOLDRINI C; 2007).
Uma professora de Clínica-escola de uma Universidade de São Paulo notou
algumas falhas no atendimento de psicodiagnóstico, percebeu que os universitários
tendem a se encontrar aprisionados a um pensamento explicativo que esteja de
acordo com as teorias aprendidas na sala de aula, perdendo de vista o modo de viver
peculiar de cada paciente, conforme BOLDRINI (2007).
De acordo com BOLDRINI (2007), para avaliar este fato foi realizada uma
pesquisa com o objetivo de compreender o processo de reinterpretação da queixa,
enunciada através da linguagem do senso comum, para a linguagem diagnóstica.

Não é preciso pesquisar o que é a queixa, mas sim como o sofrimento


psíquico foi apreendido como queixa pelo pensamento psicológico, sendo
necessário compreender os sentidos atribuídos à queixa pelo psicólogo na
interação com quem se apresenta em sofrimento. (Moreira,1999, apud
Boldrini C; 2007).

Este é um conteúdo pouco trabalhado no campo teórico. Um psicólogo precisa


saber diferenciar a linguagem do senso comum de uma pessoa da linguagem
científica, assim como identificar a apropriação pelo senso comum da linguagem
científica. Por exemplo: quando um paciente chega falando que está com ataque do
pânico, não necessariamente isso é real, porém o paciente ouviu os sintomas da
síndrome em algum lugar e se identificou, fechando um autodiagnostico. A maioria
das queixas é pautada na percepção de sintomas e sua interpretação social de
sofrimento psíquico como algo que precisa ser eliminado, conforme BOLDRINI (2007).

25
Uma clínica-escola funciona como uma contribuição na formação do psicólogo,
no sentido de fazer pensar sobre o discurso do paciente, possibilitando as primeiras
experiências do futuro profissional. O trabalho prático é essencial para que os alunos
possam integrar as disciplinas e tematizar os casos na perspectiva bio-psico-social.
Como o aluno ainda possui poucos conhecimentos práticos, é neste contexto que o
universitário começa a entrar em contato com os diferentes modos de viver e perceber
como isso tem influência no processo do diagnóstico, conforme BOLDRINI (2007).
A pesquisa teve um caráter qualitativo, com uma metodologia construcionista
para a análise das práticas discursivas utilizadas tanto pelos usuários dos serviços da
clínica-escola, como dos funcionários e universitários, conforme BOLDRINI (2007).
Através desta pesquisa buscou-se entender como as queixas são
reinterpretadas no processo diagnóstico, pois havia a suspeita de que a descrição da
queixa feita pelo usuário era constantemente interpretada como um sintoma
psicológico, desconsiderando que o discurso da queixa é produto de uma rede de
significações adquiridas no cotidiano do paciente. A pesquisa teve duas etapas: a
primeira analisa o diálogo entre funcionário e o usuário recém-chegado à clínica; e a
segunda etapa é com os usuários reunidos em grupo em uma situação de triagem
com os universitários, conforme BOLDRINI (2007).
A análise da primeira etapa partiu de três critérios: a influência do roteiro sobre
o conteúdo do discurso, a reinterpretação da queixa pelo funcionário e as influências
das condições sócio demográficas na conduta da entrevista, conforme BOLDRINI
(2007).

Pode-se dizer resumidamente que a funcionalidade se refere à utilidade que


a conversa tem para os participantes. No especifico contexto da inscrição no
CPA (clínica escola) este aspecto aparece no uso da queixa, tanto pelo
usuário quanto pela recepcionista. Ou seja, evidencia-se o gerenciamento
da conversa para a reafirmação de repertórios que sejam suficientemente
reconhecidos como indicadores de uma queixa que mereça atenção em nível
psicológico. (Moreira, 1999, apud Boldrini C; 2007).

O primeiro contato do usuário com um atendimento psicológico é o momento


onde a linguagem do senso comum se apresenta claramente. Talvez isso aconteça
porque o primeiro contato, nesta clínica-escola, é realizado com um funcionário, que
aparentemente não possui conhecimento psicológico aprofundado, mostrando-se
como um “igual” para o usuário e possibilitando um maior conforto no uso com as
palavras, conforme BOLDRINI (2007).

26
Já na situação de triagem o foco foi outro: primeiramente perceber o
procedimento do grupo e o fluxo temático e depois analisar como a queixa inicial é
reinterpretada pelos universitários para fazerem o fechamento de um diagnóstico e a
formulação de uma proposta de encaminhamento, conforme BOLDRINI (2007).
Foi observado que o atendimento é pautado no modelo médico, pois se
expressa por meio de um discurso psicopatológico. Na reinterpretação da queixa ficou
claro que o repertório usado pelos universitários estava baseado na queixa inicial.
Ocorreram pequenas modificações durante o processo dialógico no grupo de triagem
onde, através das falas mais abrangentes dos usuários, foi possível realizar mudanças
significativas no diagnóstico final, conforme BOLDRINI (2007).

Os resultados dos encaminhamentos desses usuários (...) indicam que as


queixas iniciais dos usuários passaram por um processo de reinterpretação
no atendimento diagnóstico da triagem através do qual foram traduzidas para
uma linguagem psicológica. (...) Parece ser possível dizer, portanto, que a
queixa diagnosticada, construída neste processo, impõe uma ‘socialização’
da linguagem do senso comum (discurso do usuário) a partir da perspectiva
da linguagem do diagnóstico (discurso institucional). (Moreira, 1999, p.158
apud Boldrini C; 2007).

Esta pesquisa ajuda os psicólogos a repensarem o processo diagnóstico,


demonstrando que é preciso primeiro reconhecer qual é a real “doença” na queixa do
usuário, isto é, não é só classificar e nomear. O psicólogo tem que entender que o
mundo daquela pessoa determina não só como se constitui o sofrimento psíquico,
mas também o modo como este sofrimento vai ser reportado para o psicólogo,
conforme BOLDRINI (2007).

6 EXERCÍCIO PROFISSIONAL E REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO NO


BRASIL

Fonte: psicologiasdobrasil.com.br
27
A Lei 4.119/62 dispõe sobre os cursos de formação em psicologia e
regulamenta a profissão de psicólogo. De acordo com o Decreto, para o exercício
profissional, é obrigatório o registro dos diplomas no órgão competente do Ministério
da Educação e Cultura, conforme MACHADO (2017).
De acordo com MACHADO (2017), estabelece ainda, no Artigo 13°; § 1º, como
atividades especificas do profissional psicólogo:
 Diagnóstico Psicológico;
 Orientação e Seleção profissional;
 Orientação Psicopedagógico; e
 Solução de Problemas de Ajustamento.
Ainda na opinião de MACHADO (2017), quanto aos campos de atuação do
profissional psicólogo, a Resolução nº 013/2007 do CFP, estabelece em seu Art. 3º,
os seguintes contextos:
I. Psicologia Escolar/Educacional; II. Psicologia Organizacional e do Trabalho;
III. Psicologia de Trânsito; IV. Psicologia Jurídica; V. Psicologia do Esporte; VI.
Psicologia Clínica; VII. Psicologia Hospitalar; VIII. Psicopedagogia; IX.
Psicomotricidade; X. Psicologia Social; XI. Neuropsicologia.
Zanelli (2010; apud MACHADO A, 2017), em seu estudo, traz a emergência de
um novo campo de atuação para o profissional que, concomitante ao advento do
Sistema Único de Saúde – SUS, tem levado as psicólogas e psicólogos a
desenvolverem estratégias para atuação em nível de atenção básica, especializada e
de alta complexidade.
Existe também uma crescente demanda pelo exercício profissional do
psicólogo no Sistema Único da Assistência Social – SUAS, sobretudo, em Centros de
Referência da Assistência Social – CRAS, e Centros de Referência Especializados da
Assistência Social – CREAS. Esse novo domínio envolve uma significativa ampliação
do escopo de atividades e contextos de inserção do profissional (CREPOP, 2008;
apud MACHADO A, 2017).
Por mais que a emergência de novos campos de atuação tem convocado o
profissional psicólogo a produção de novas práticas, ainda há um predomínio da
inserção deste profissional da clínica, bem como no acumulo de jornada de trabalho
(ZANELLI, 2010 apud MACHADO A, 2017).

28
Bastos (2003 apud MACHADO A, 2017), faz um panorama da atuação do
profissional no Brasil, e descreve um crescimento no mercado de trabalho para
atuação dos psicólogos na área organizacional, em contraponto, há uma queda
significativa da atuação profissional em outros contextos: Escolar/Educacional; Áreas
Social e Jurídica.
Em um estudo feito por Borges-Andrade, Zanelli, (2004; apud MACHADO A,
2017), verifica-se crescimento da docência, em função da expansão do sistema de
ensino superior no país, como mais um espaço de atuação para os profissionais
psicólogos. Permanece, todavia, a mesma tendência de o psicólogo, em grande
proporção, combinar inserções em diferentes áreas.
Os autores problematizam o dado exposto, percebendo este como um
indicador adicional de fragilidade do mercado de trabalho, As psicólogas e os
psicólogos ao ocuparem vários empregos/ocupações/cargos/funções ao mesmo
tempo, chegando a fazer jornadas duplas ou triplas de trabalho, o que pode incidir na
diminuição da qualidade do serviço prestado (BORGES-ANDRADE; ZANELLI, 2004
apud MACHADO A, 2017).
Quando comparamos áreas próximas, a problemática fica ainda mais
expressiva, por exemplo: na sobreposição entre ações no campo da saúde e na Área
Social; entre a Saúde e a Clínica; a própria Psicologia Organizacional e do Trabalho
e sua crescente preocupação com a Saúde do Trabalhador etc., conforme MACHADO
(2017 apud MACHADO A, 2017). Em um estudo realizado por Martins (2009; apud
MACHADO A, 2017), foi possível constatar que, mesmo com a ampliação das
inserções do psicólogo brasileiro em diferentes áreas, a área organizacional continua
sendo aquela em que há maior percentual de dedicação exclusiva, sobretudo pelo
retorno financeiro.
Foi possível observar que a docência vem deixando de ser uma atividade
complementar e passa a ser uma área de atuação exclusiva para um importante
contingente de psicólogos, conforme MACHADO (2017).
Fica evidente que a procura por mercado de trabalho tem sido influenciada pela
oferta de mercado e valores de salário, levando profissionais a desempenhar mais
que uma jornada de trabalho, visando retorno financeiro, muito mais que
reconhecimento profissional, o que levanta a necessidade de um piso nacional para o
psicólogo em prol da valorização desse profissional, conforme MACHADO (2017).

29
6.1 A formação do psicólogo no brasil e o perfil do egresso

Segundo Penso (et. al., 2008; apud MACHADO A, 2017) para se formar um
profissional para o terceiro milênio é preciso pensar na sua formação e no seu papel
ético e social perante as transformações sociais. Diante da riqueza de situações de
trabalho nas instituições as quais o psicólogo atua, estuda e pesquisa, suas
intervenções devem assumir um caráter social e comunitário.

Para as autoras a “falar em neutralidade, imparcialidade e objetividade na


Psicologia é impossível, uma vez que o profissional dessa área, também é
um sujeito constituído por todas as suas relações, interações sociais,
emoções e afetividades, vivenciadas durante sua história de vida. Além disso,
podemos dizer que o mundo interno do psicólogo lhe proporciona diferentes
concepções de ser humano, já que ele constrói, com sua subjetividade, a
pesquisa ou a intervenção em Psicologia. Isso não poderia ser diferente,
tendo em vista a impossibilidade de separar a Psicologia, o processo
terapêutico, da subjetividade e a emoção vivenciada pelo profissional”
(PENSO, et. al., 2008, p. 217; apud MACHADO A, 2017).

Os acadêmicos de Psicologia precisam se perguntar se são agentes de


transformação ou de adequação onde não há espaço para a ética, pois o sujeito torna-
se objeto. Deve-se pensar, portanto que toda atividade é uma atividade política e qual
é o lugar ético do psicólogo (LIMA; VIANA, 2009; apud MACHADO A, 2017).
As mudanças nos currículos de formação profissional, ampliando o campo de
atuação para além da Psicologia Clínica evidenciaram uma importante ruptura
histórica da psicologia no Brasil (BETTOI; SIMÃO, 2000; apud MACHADO A, 2017).
Contudo, se de um lado esse processo permitiu maior abertura na formação do
profissional, de outro lado, consolidaram-se segmentações artificiais, desagregadoras
da unidade do fazer psicológico e igualmente alienantes.

Para Branco (2008, p. 32; apud MACHADO A, 2017) a divisão em áreas


aumenta a fragmentação do espaço psicológico, contribui para que os
diferentes profissionais permaneçam surdos às demais tarefas que não se
referem aos seus claustros. A Universidade reproduz essa circunstância e
não reinventa uma formação sem áreas, onde o psicólogo não se defina por
seu local de trabalho, mas por ser um profissional que ofereça ajuda
psicológica em qualquer ambiente que o homem atue.

Pedra (2010; apud MACHADO A, 2017), ao abordar a temática do currículo e


suas representações, o vê como um termo polissêmico, sendo portador de vários
significados. “O currículo é um modo pelo qual a cultura é representada e reproduzida
no cotidiano das instituições escolares” (p. 38).

30
Os grupos sociais definem o que é considerado conhecimento válido,
dependendo do seu momento histórico. Para o autor, os currículos expressam e
validam institucionalmente esse processo, conforme MACHADO (2017).
Na atualidade, com a adaptação dos cursos às novas diretrizes, a Psicologia
passa seguramente por um processo de revisão de suas próprias práticas e conceitos.
A Resolução nº. 5/2011do M.E.C., estabelece um eixo curricular para a graduação em
psicologia mais crítica e preocupada com o seu fazer do profissional, bem como seus
impactos socioculturais, conforme MACHADO (2017).

Nesse sentido, Lima; Viana (2009; apud MACHADO A, 2017) pontuam que é
preciso formar psicólogos articulando as estratégias oferecidas nos Serviços
de Psicologia universitários à realidade dos serviços públicos e privados. É
preciso assumir o desafio de construir projetos políticos pedagógicos na
parceria universidade-serviço-comunidade, inclusive para o desenvolvimento
da habilidade em psicoterapias (p.45)

A representação social da Psicologia e do psicólogo, por conseguinte, durante


décadas, foi marcada pelo desenho de profissionais marcados por atuarem em
consultórios particulares e, eventualmente, em instituições especiais, na esfera do
tratamento psicológico de sujeitos e grupos com transtornos mentais diversos, ou
sofrimento psíquico/moral de alguma espécie (BRANCO, 2008; apud MACHADO A,
2017). Com o passar do tempo, o universo das representações foi sendo alterado e
um novo segmento.
As representações sociais do campo acadêmico, passaram a interferir na
concepção do profissional da Psicologia, a exemplo do que ocorreu em todas as áreas
do conhecimento a partir da década de 1980 (CATANI, 2009; apud MACHADO A,
2017).
Nesse novo segmento, o psicólogo passou a ser concebido como profissional
que, ao contrário do isolamento sócio-político favorecido pela atuação clínica, deveria
estar comprometido com as grandes demandas da sociedade. Para Abdalla; Batista;
Batista (2010; apud MACHADO A, 2017), o psicólogo, contribui com a sociedade ao
melhorar a qualidade de vida das populações, para minimizar os efeitos da paralisia
e/ou expectativas diante dos desequilíbrios socioeconômicos.
Para os autores, é papel do profissional psicólogo, instrumentalizar sujeitos e
grupos no sentido de dar-lhes condições e fazerem escolhas pessoais e coletivas de
modo consciente. Segundo Bock (2010; apud MACHADO A, 2017), a formação em
psicologia deve levar em conta a capacidade do futuro profissional de reconhecer
31
dinâmicas sociais, de conhecer as diferentes abordagens de base teórica e técnicas
disponíveis e fundamentadas. Além de levar em conta, a necessidade de se
desenvolver competências que habilitassem os alunos a investigar permanentemente
os fenômenos e as lacunas do conhecimento, e a considerar a importância de se
aperfeiçoar continuadamente.
Para Abdalla; Batista& Batista (2010; apud MACHADO A, 2017), as
representações do segmento acadêmico se fizeram nítidas através de publicações
sobre o assunto e de forma especial, através das Diretrizes Curriculares, norteadoras
para a estruturação dos currículos dos cursos de psicologia do país, emanadas pelo
Ministério de Educação (MEC).
Assim, pode-se dizer que dois campos de representações passaram a coexistir,
pois a representação social do psicólogo no contexto não acadêmico, marcado pela
expectativa de atuação clínica, parece ter sido mantida, considerando dados
percebidos do discurso leigo, das considerações de estudantes ingressantes de
Psicologia e principalmente, a ausência de estudos que apontem para alguma
mudança (ABDALLA; BATISTA; BATISTA, 2010; apud MACHADO A, 2017).
O psicólogo egresso deverá estar apto a trabalhar de forma crítica, reflexiva e
ética nos mais diversos campos de atuação, por meio de conhecimentos técnicos
aprendidos ao longo da faculdade (BOCK, 2010; apud MACHADO A, 2017).
A Resolução CNE/CES nº 5, de 15 de março de 2011 – MEC, Constitui as
Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia,
estabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a Formação de
Professores de Psicologia, conforme MACHADO (2017).
Este documento, em seu Art. 4º, compreende que: a formação em psicologia
deverá trazer as seguintes habilidades ao psicólogo: I - Atenção à saúde; II - Tomada
de decisões; III – Comunicação; IV – Liderança; V - Administração e gerenciamento;
VI - Educação permanente, conforme MACHADO (2017).
Portanto, conclui- se que as competências do psicólogo egresso são inerentes
à sua atuação profissional, sendo que este deverá seguir o domínio básico de tais
habilidades para desempenhar as ações que demandam de seus conhecimentos
profissionais. Princípios éticos e técnicos atravessam o fazer profissional, criando
novas possibilidades de atuação à medida em que a sociedade evolui, conforme
MACHADO (2017).

32
6.2 O psicólogo adivinha o que os outros pensam?

Na maioria das vezes as pessoas têm um entendimento distorcido sobre a


prática do psicólogo (a), deduzem que o mesmo exerce a função de advinha, porém
não é dessa forma que acontece, o psicólogo (a) não tem bola de cristal nem é o
advinha da sociedade contemporânea, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO
O; (2018).
O psicólogo irá utilizar, um conjunto de associações em relação as técnicas e
colocar em prática todo seu conhecimento, que lhe possibilita compreender o que o
outro diz, as expressões e gestos que o outro faz, integrando tudo isso em um quadro
de análise que busca descobrir as razões dos atos, dos pensamentos, dos desejos,
das emoções, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Portanto, o profissional da psicologia vai da ênfase em seus conhecimentos
acadêmicos de acordo com os seus instrumentos teóricos, para que possa apurar o
que está contido, oculto, escondido ou não-aparente, nesse sentido, a pessoa, grupo
ou instituição tem um papel fundamental, pois o psicólogo não advinha. Para poder
trabalhar, ele precisa que as pessoas falem de si, contem sua história, dialoguem,
exponham suas reflexões, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Quando acontece a aliança terapêutica entre o psicólogo (a) e o paciente, vai
possibilitar o psicólogo (a), junto com o paciente, desvendar as razões em que levou
o paciente procurar a terapia, e vai fazer com que esse paciente compreenda as
dificuldades, caracterizando-se, assim, sua intervenção, conforme BOCK A;
TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Percebemos que as pessoas sabem muito sobre si mesmas, entretanto, o
profissional possui instrumentos adequados para auxiliar o indivíduo a compreender,
organizar e aplicar esse saber, permitindo a sua transformação e a mudança da sua
ação sobre o meio, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).

6.3 A psicologia ajuda as pessoas a se conhecerem melhor?

A psicologia nos mostra que como ciência humana, consistiu em aderir seus
conhecimentos abrangente sobre o homem. A psicologia deu significado ao que
chamamos de emoções, sentimentos, comportamentos, sobre o desenvolvimento a
33
forma como se aprende, as inquietações, vivências, angústias, alegrias, toda essa
questão a psicologia nos permitiu, ter um conhecimento, passamos a saber mais
sobre como o ser humano consegue evoluir diante essas questões que são
essenciais, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Mediante ao grande desenvolvimento que a psicologia conseguiu alcançar, os
estudos e as pesquisas não se limitam aqui, ainda há muito o que pesquisar sobre o
psiquismo humano e, tentar conhecê-lo melhor, é sempre uma forma de tentar
conhecer-se melhor. Mas é importante fazermos aqui alguns esclarecimentos sobre
isso, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
O homem como objeto de estudo científico, mostra que os conhecimentos são
construídos a partir do homem, e que todos são voltados para ele. Mesmo aqueles
que lhe parecem mais distantes foram construídos para permitir ao homem uma
compreensão maior sobre o mundo que o cerca, e isso significa saber mais sobre si
mesmo, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
E a partir desse conhecimento científico forma –se o aprendizado que
possibilita sempre um melhor conhecimento sobre a vida humana. A Biologia, por
exemplo, permite-nos um tipo de conhecimento sobre o homem: seu corpo, sua
constituição e sua origem, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Para compreendermos o homem, não podemos deixar de usar como
instrumento de estudo a história, porque através da história, o homem se faz presente
enquanto parte da humanidade, isto é, podemos compreender que o homem no
decorrer do tempo, foi construindo formas de vida e, portanto, formas de ser. A
Economia abrange outro conhecimento sobre o homem, na medida em que nos ajuda
a compreender as formas de construção da sobrevivência. Não há dúvida: todos os
conhecimentos permitem um saber sobre o mundo e, portanto, aumentam seu
conhecimento sobre você mesmo, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O;
(2018).

6.4 O psicólogo é diferente de um bom amigo?

O ser humano durante o desenvolvimento de sua vida, vai construindo a sua


vida e criando laços ou vínculos com as pessoas, e isso faz com crie uma certa

34
confiança para com outro, portanto, quando isso acontece entendemos que o apoio
de qualquer pessoa pode, sem dúvida alguma, ter uma função de ajuda para a
superação de dificuldades — assim como fazer ginástica, ouvir música, dançar, e sair
com na companhia dos amigos, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O;
(2018).
Entretanto, com o psicólogo (a), não procede da mesma maneira, porque em
seu trabalho, utiliza o conhecimento científico na intervenção técnica. A Psicologia
dispõe de técnicas e de instrumentos apropriados e cientificamente elaborados, que
lhe possibilitam diagnosticar os problemas; possui, também, um modelo de
interpretação e de intervenção, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O;
(2018).
Quando o psicólogo dispõe de seu conhecimento no processo terapêutico, ele
irá realizar a intervenção e ela será de forma intencional, planejada e feita com a
utilização de conhecimentos específicos do campo da Ciência. Portanto, difere do
amigo que não planeja sua intervenção, não usa conhecimentos específicos nem
pretende diagnosticar ou intervir em algum aspecto percebido como crucial, conforme
BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Independente de qual situação em que o psicólogo irá atuar, eles o fazem a
partir de um planejamento e da perspectiva da Ciência. Fazer ginástica pode ser algo
muito prazeroso e podem também ajudá-lo a aliviar tensões e preocupações do seu
dia a dia. Mas não é uma atividade psicoterapêutica porque não está sendo feita a
partir de um planejamento terapêutico nem foi iniciada com um psicodiagnóstico,
conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Porém se o psicólogo, fazer com que a ginástica faça parte da sua intervenção
terapêutica como instrumento, passa a ter um sentido para o processo terapêutico e
com finalidade de trazer o bem-estar. Entretanto se a finalidade da ginástica desviar
para outro caminho que não seja terapêutica e que produza essa intervenção
psicológica no indivíduo, ela deixa de ser psicoterapêutica e passa a ser, de acordo
com a nova finalidade, fisioterapêutica, por exemplo, conforme BOCK A; TEIXEIRA
M; FURTADO O; (2018).
No entanto, podemos não ser tão rigorosos e dizer que os homens construíram,
ao longo de sua história, formas de ajudarem uns aos outros na busca de uma vida
melhor e mais feliz. Amigos são, sem dúvida, uma “invenção” muito boa (já dizia o

35
poema: “Amigo é coisa para se guardar, do lado esquerdo do peito...”), conforme
BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Contudo, como forma ou tentativas de melhorias de vida temos as religiões e
as ciências também, porém, não podemos confundir estas tentativas com a atuação
especializada do psicólogo. O psicólogo (a) é aquele profissional que irá possibilitar o
homem a se tornar saudável, através da sua intervenção durante o desenvolvimento
do processo terapêutico, este homem vai passar a ser capaz de enfrentar as
dificuldades do cotidiano; e faz isso a partir de conhecimentos acumulados pelas
pesquisas científicas na área da Psicologia, conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).
O desenvolvimento histórico da psicologia como ciência, criou teorias
explicativas da realidade psicológica (por exemplo, a Psicanálise), ou descritivas do
comportamento (por exemplo, o Behaviorismo), bem como métodos e técnicas
próprias de investigação da vida psicológica e do comportamento humano, conforme
BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O; (2018).
Com o crescimento das pesquisas na área da psicologia, hoje ela possui
instrumentos próprios para obter dados sobre a vida psíquica, como os testes
psicológicos (de personalidade, de atenção, de inteligência, de interesses etc.); as
técnicas de entrevista (individual ou grupal); as técnicas aprimoradas de observação
e registro de dados do comportamento humano, conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).
As pesquisas mostraram que os dados coletados por meio de testes,
entrevistas ou observações devem ser compreendidos a partir de modelos
psicológicos, isto é, cada teoria em Psicologia tem ou se constitui em um modelo de
análise dos dados coletados. Por exemplo, numa abordagem psicanalítica, a análise
dos sonhos poderá ser feita a partir da associação livre do paciente cada um dos
elementos presentes no sonho que relata, e estes dados analisados a partir da teoria
do aparelho psíquico postulada por Freud, conforme BOCK A; TEIXEIRA M;
FURTADO O; (2018).
Contudo, com a coleta e análise dos dados, o psicólogo pensará em sua
intervenção, que pode ser uma terapia (existem inúmeras: a rogeriana, a psicanalítica,
a comportamental, o psicodrama etc.), um treinamento, um trabalho de orientação de
grupo ou qualquer outro tipo de intervenção individual, grupal ou institucional, no

36
sentido da promoção da saúde, conforme BOCK A; TEIXEIRA M; FURTADO O;
(2018).

6.5 Qual a diferença entre psiquiatra, psicólogo e psicanalista?

Segundo Bock (1999 apud CORTIZO M, HENRIQUE T; 2013), a Psicologia e


a Psiquiatria são áreas do saber fundadas em campos de preocupações diferentes.
Desde Wundt, a Psicologia tem seu objeto de estudo marcado pela busca da
compreensão do funcionamento da consciência, enquanto a Psiquiatria tem seu
trabalhado para construir e catalogar um saber sobre a loucura, sobre a doença
mental. Os conhecimentos alcançados pela Psicologia permitiram realçar a existência
de uma “normalidade”, bem como compreender os processos e o funcionamento
psicológico, não assumindo compromisso com o patológico.
A psiquiatria, por sua vez, desenvolveu uma sistematização do conhecimento
e, mais precisamente, dos aspectos e do funcionamento psicológico que se
desviavam de uma normalidade sendo entendidos e significados socialmente como
patológicos, como doenças, conforme CORTIZO M, HENRIQUE T; (2013).
Portanto, existem dúvidas em relação aos profissionais mencionados no
subtítulo, os psicólogos, psiquiatras e os psicanalistas são três áreas que trabalham
com a mente humana, mas são distintas em alguns pontos e possuem abordagens
diferentes. No entanto, os três profissionais podem atuar juntos no tratamento ou
acompanhamento de um paciente, conforme FRANCO, Giullya (2020).
Porém, cada uma delas, em sua área de atuação e com seu método de
tratamento, busca garantir ao paciente o aumento da qualidade de vida e a promoção
da saúde. Por isso, é importante conhecer cada uma delas para saber qual profissional
procurar, conforme FRANCO, Giullya (2020).
O psicólogo é o especialista em saúde mental que utiliza a terapia para
trabalhar questões e problemas de categoria comportamental e psicológica. O
psiquiatra é um médico especializado em psiquiatria que tem habilidade para tratar
transtornos mentais como depressão e psicoses. O psicanalista utiliza associações
livres, sonhos e materiais inconscientes do próprio paciente para poder auxiliá-lo em
sua recuperação.

37
Alguns psicanalistas utilizam a técnica da regressão, que consiste em instruir
o paciente a buscar na sua mente o exato momento de sua vida que possa ter
originado as emoções negativas, conforme FRANCO, Giullya (2020).
Formação: os especialistas dizem que só quem foi analisado pode analisar
seus pacientes e chega-se há passar 8 anos em cursos de sociedades psicanalíticas.
Existe a formação em psicanálise destinado a Psicólogos, médicos e profissionais
com formação universitária que desejem vir a ser psicanalistas.
É necessária experiência em análise pessoal, algum conhecimento dos
fundamentos da teoria psicanalítica e percurso em prática clínica. E temos a formação
em psicologia que tem a duração de 5 anos, podendo o profissional de psicologia
depois de formado especializar em psicanálise, conforme NATHÁLIA B; (2016).

Fonte: novoolharsc.com

6.6 Psicólogos e psiquiatras aproximam-se em suas práticas

A Psicologia e a Psiquiatria são áreas do saber fundadas em campos de


preocupações diferentes. Desde Wundt, a Psicologia tem seu objeto de estudo
marcado pela busca da compreensão do funcionamento da consciência, enquanto a
Psiquiatria tem trabalhado para construir e catalogar um saber sobre a loucura, sobre
a doença mental, conforme BOCK A et al., (2018)

38
Os conhecimentos alcançados pela Psicologia permitiram realçar a existência
de uma “normalidade”, bem como compreender os processos e o funcionamento
psicológicos, não assumindo compromisso com o patológico, conforme BOCK A et al.,
(2018).
De acordo com BOCK A et al., (2018) a Psiquiatria, por sua vez, desenvolveu
uma sistematização do conhecimento e, mais precisamente, dos aspectos e do
funcionamento psicológicos que se desviavam de uma normalidade, sendo
entendidos e significados socialmente como patológicos, como doenças. De certa
forma, poderíamos dizer, correndo o risco de um certo exagero ou reducionismo, que,
enquanto a Psiquiatria se constitui como um saber da doença mental ou psicológica,
a Psicologia tornou-se um saber sobre o funcionamento mental ou psicológico.
O médico Sigmund Freud, com suas teorizações, foi responsável pela
aproximação entre essas duas áreas por ter dado continuidade ao funcionamento
normal e patológico. Freud postulou que o patológico não era mais do que uma
exacerbação do funcionamento normal, ou seja, uma exacerbação entre o que era
normal e doentio no mundo psíquico, ocorrendo apenas uma diferença de grau. Com
isso, as duas áreas estavam articuladas e as respectivas práticas se assemelharam e
se aproximaram muito, a ponto de estarmos aqui ocupando este espaço para
esclarecermos a você as diferenças entre elas, conforme BOCK A et al., (2018).
Mas se Freud aproximou esses saberes em suas preocupações, a década de
50, no século 20, traria o desenvolvimento da psicofarmacologia, o qual foi
responsável por uma retomada das bases biológicas e orgânicas da Psiquiatria,
tributária dos métodos e das técnicas da Medicina. Assim, ocorreu um novo
distanciamento entre a Psicologia e a Psiquiatria, sobretudo em relação aos métodos
e técnicas de intervenção utilizados por estas duas especialidades profissionais,
conforme BOCK A et al., (2018).
No dizer de BOCK A et al., (2018) a Psicologia deu continuidade à expansão
de seus conhecimentos por outros campos, sempre marcada pela busca da
compreensão dos processos de funcionamento do mundo psicológico, dedicando-se
a processos, como o da aprendizagem, o dos condicionamentos, o da relação entre
os comportamentos e as relações sociais, ou entre os comportamentos e o meio
ambiente, o do mundo afetivo, o das diversas possibilidades humanas; enfim, centrou-

39
se nos variados aspectos que foram sendo apontados como constitutivos do mundo
subjetivo, do mundo psicológico do homem.
Para BOCK A et al., (2018) as fronteiras entre a Psicologia e a Psiquiatria,
excetuando-se as práticas profissionais farmacológicas, tendem a diminuir no campo
profissional no que diz respeito às intervenções nos processos patológicos da
subjetividade humana. Os afazeres desses profissionais realmente se aproximam
muito. Os psiquiatras têm buscado muitos conhecimentos e técnicas na Psicologia, e
os psicólogos têm se dedicado mais à compreensão das patologias para qualificar
seus afazeres profissionais.
No dizer de BOCK A et al., (2018) quando se toma, especificamente, a
patologia, a loucura, a doença mental ou os distúrbios psicológicos como temas ou
objetos de trabalho, os pontos de contato dessas áreas são muitos e o
desenvolvimento de um trabalho interdisciplinar tem sido a meta de ambos os
profissionais. Mas, se sairmos desse campo e entrarmos no campo da “normalidade”,
da saúde, do desenvolvimento, os psicólogos aparecerão acompanhados de outros
profissionais, como os assistentes sociais, os pedagogos, os administradores, os
sociólogos, os antropólogos e outros mais.
Neste campo, as possibilidades teóricas e técnicas da Psicologia são
outras: intervenções nas relações sociais e nas relações institucionais;
desenvolvimento de trabalhos em Educação e de programas de intervenção no
trânsito, nos esportes, nas questões jurídicas, em projetos de urbanização, nas artes;
enfim, a Psicologia pretende contribuir com a promoção da saúde, conforme BOCK A
et al., (2018).

7 A FINALIDADE DO TRABALHO DO PSICÓLOGO

Uma das concepções que vêm ganhando espaço é a do psicólogo como


profissional de saúde. Um profissional que, ao lado de muitos outros, aplica
conhecimentos e técnicas da Psicologia para promover a saúde. Segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS), saúde é o “estado de bem-estar físico, mental
e social”. Ampliando um pouco essa concepção, ao falarmos de saúde, estamos
fazendo referência a um conjunto de condições, criadas coletivamente, que permitem
a continuidade da própria sociedade, conforme BOCK A et al., (2018).

40
Para conforme BOCK A et al., (2018) estamos falando, portanto, das condições
(de alimentação, de educação, de lazer, de participação na vida social etc.) que
permitem a um conjunto social produzir e reproduzir-se de modo saudável. Nessa
perspectiva, o psicólogo, como profissional de saúde, deve empregar seus
conhecimentos de Psicologia na promoção de condições satisfatórias de vida, na
sociedade em que vive e trabalha, isto é, em que está comprometido como cidadão e
como profissional.
Assim, o psicólogo tem seu trabalho relacionado às condições gerais de vida
de uma sociedade, embora atue enfocando a subjetividade dos indivíduos e/ou suas
manifestações comportamentais. Pensar a saúde dos indivíduos significa pensar as
condições objetivas e subjetivas de vida, de modo indissociado. Reafirmamos que a
profissão do psicólogo deve-se caracterizar pela aplicação dos conhecimentos e
técnicas da Psicologia na promoção da saúde. Este trabalho pode estar sendo
realizado nos mais diversos locais: consultórios, escolas, hospitais, creches e
orfanatos, empresas e sindicatos de trabalhadores, bairros, presídios, instituições de
reabilitação de deficientes físicos e mentais, ambulatórios, postos e centros de saúde
e outros, conforme BOCK A et al., (2018).
No ponto de vista de conforme BOCK A et al., (2018) neste ponto, é importante
lembrar que o compromisso do psicólogo é a promoção da saúde e não o impedirá de
intervir quando se defrontar com a doença e a necessidade da cura. Isto é, deparando-
se com indivíduos que apresentem certa ordem de distúrbios e sofrimentos psíquicos,
que necessitem de uma intervenção curativa, poderá buscar a cura através de
terapias verbais ou corporais (o psicólogo não pode valer-se de medicamentos, pois
esta é uma prática restrita aos médicos — no caso, os psiquiatras).
Assim, a prática do psicólogo como profissional de saúde irá caracterizar-se
pela aplicação dos conhecimentos psicológicos no sentido de uma intervenção
específica junto a indivíduos, grupos e instituições, com o objetivo de
autoconhecimento, desenvolvimento pessoal, grupal e institucional, numa postura de
promoção da saúde, conforme BOCK A et al., (2018).

41
Mas o que significa trabalhar para a promoção da saúde?
Mantendo o parâmetro colocado no trecho anterior, de que pensar a saúde dos
indivíduos significa pensar as condições objetivas e subjetivas de vida, de modo
indissociado, podemos especificar um pouco mais essa questão, quando nos
referimos ao psicólogo ou à Psicologia, conforme BOCK A et al., (2018).
A Psicologia tem, como objeto de estudo, o fenômeno psicológico, esse
fenômeno se refere a processos internos ao indivíduo. E a subjetividade, o seu mundo
interior, que é, como não podemos deixar de lembrar, construído no decorrer da vida,
a partir das relações sociais com toda sua riqueza, com todas as suas possibilidades
e limitações. Aqui vamos falar de saúde mental dos indivíduos, significando a
possibilidade de o indivíduo pensar-se como ser histórico, perceber a construção da
sua subjetividade ao longo de uma vida, conforme BOCK A et al., (2018).
Como caracteriza, conforme BOCK A et al., (2018) perceber a si próprio é, aqui,
sinônimo de compreender-se como síntese de muitas determinações. Ter e manter
uma condição saudável do psiquismo é conseguir pensar-se como um indivíduo
inserido em uma sociedade, numa teia de relações sociais, que é o espaço onde ele
torna-se homem.
Assim, a saúde mental do indivíduo está diretamente ligada às condições
materiais de vida, pois a miséria material caracterizada por fome, falta de habitação,
desemprego, analfabetismo, altas taxas de mortalidade infantil tornam-se, nessa
visão, a condição que prejudica o desenvolvimento do indivíduo, conforme BOCK A
et al., (2018).
Poderíamos usar a seguinte imagem para tornar mais claro nosso
pensamento: como construir um mundo psíquico, se não há matéria-prima
adequada?
As construções serão frágeis. Retomando e sintetizando, o psicólogo trabalha
para promover saúde, isto é, trabalha para que as pessoas desenvolvam uma
compreensão cada vez maior de sua inserção nas relações sociais e de sua
constituição histórica e social enquanto ser humano, conforme BOCK A et al., (2018).
Quanto mais clareza se tiver sobre isso, maiores serão as possibilidades de o
indivíduo lidar com a situação cotidiana que o envolve, decidindo o que fazer,
projetando intervenções para alterar a realidade, compreendendo as relações que vive
e, portanto, compreendendo a si mesmo e aos outros, conforme BOCK A et al., (2018).

42
8 AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO

Fonte: laopinion.com

Ainda conforme BOCK A et al., (2018) colocada a finalidade do trabalho do


psicólogo, podemos agora falar das áreas e locais nos quais ele trabalha. Nos
consultórios, nas clínicas psicológicas, hospitais, ambulatórios e centros de saúde,
para citar apenas algumas instituições de saúde, os psicólogos estarão atuando para
promover saúde. Nesses locais, a doença poderá estar presente, merecendo
intervenções terapêuticas. Aí o psicólogo precisará do conhecimento da Psicologia
para fazer um diagnóstico, intervir e avaliar.
Na opinião de BOCK A et al., (2018) a atuação do psicólogo nesse campo é
muito conhecida; conhecemos muitas de suas técnicas, como testes, entrevistas e
terapias. Esse tipo de atuação aparece nas novelas, nos filmes e nos livros. As
pessoas comumente se referem a esses psicólogos como “o terapeuta”.

43
Na escola ou nas instituições educacionais (creches, orfanatos etc.), o
processo pedagógico vai se colocar como realidade principal. Todo o trabalho do
psicólogo estará em função deste processo e para ele direcionado. E isso irá obrigá-
lo a escolher técnicas em Psicologia que se adaptem aos limites que sua intervenção
terá dada a realidade educacional. Estará sendo psicólogo porque estará utilizando o
conhecimento da ciência psicológica para compreender e intervir, só que, neste caso,
com o objetivo de promover saúde num espaço que é educacional, conforme BOCK
A et al., (2018).
Na empresa ou indústria, as relações de trabalho e o processo produtivo vão
ser colocados como realidade principal do psicólogo. Portanto, os conhecimentos, as
técnicas que utilizará estarão em função da realidade e das exigências que elas
colocam para o profissional. A promoção da saúde naquele espaço de trabalho é seu
objetivo maior. Sempre que falamos nessa área, citamos as empresas e indústrias,
isto porque são as organizações mais conhecidas do trabalho dos psicólogos. Mas,
na verdade, sempre que estivermos pensando em promover saúde a partir da
intervenção nas relações de trabalho, estaremos dentro desse campo. Hoje já existem
psicólogos que fazem trabalhos junto a sindicatos, centrais sindicais, centros de
referência dos trabalhadores, núcleos de pesquisa do trabalho etc., conforme BOCK
A et al., (2018).
De acordo com BOCK A et al., (2018) são psicólogos que têm como realidade
principal de intervenção o processo de trabalho ou as relações de trabalho. Se
pensarmos assim, esse profissional poderá estar atuando num hospital ou numa
escola, desde que sua intervenção se dê no processo de trabalho, e não no processo
de tratamento da saúde ou no processo educacional.
No dizer de BOCK A et al., (2018) o que estão querendo dizer, com isso, que
não há uma Psicologia Clínica, outra Escolar, e ainda outra Organizacional, mas há a
Psicologia, como corpo de conhecimento científico, que é aplicada a processos
individuais ou a relações entre pessoas, nas escolas, nas indústrias e nas clínicas,
assim como em hospitais, presídios, orfanatos, ambulatórios, centros de saúde etc.
Claro que não podemos negar que, na medida em que os psicólogos iniciam
suas atuações nesses campos, passam a desenvolver discussões e reflexões que
especificam uma intervenção, conforme BOCK A et al., (2018).

44
Isso pode levar, tem levado e é desejável que leve à construção de
conhecimentos específicos de cada campo: sua clientela, seus processos, sua
problemática, criando assim, como áreas de conhecimento dentro da Psicologia, a
Psicologia Educacional, com todos os seus ramos: aprendizagem, alfabetização,
relação professor-aluno, análise institucional do espaço escolar, fracasso escolar,
educação de deficientes etc. a Psicologia Clínica, coloca todo seu conhecimento sobre
populações específicas, como a Psicologia da gravidez e do puerpério, a Psicologia
da terceira idade etc., , conforme BOCK A et al., (2018).
Seus conhecimentos sobre os estados psíquicos alterados, sobre a angústia, a
ansiedade, o luto, o suicídio etc. E a Psicologia do Trabalho, também com seus
conhecimentos: o stress, consequências psíquicas do trabalho, a saúde do
trabalhador, as técnicas de seleção, treinamento, avaliação de desempenho etc.,
conforme BOCK A et al., (2018).
Como caracteriza, conforme BOCK A et al., (2018) há, ainda, a possibilidade
de o psicólogo se dedicar ao magistério de ensino superior e à pesquisa. Esses
profissionais estão mais ligados à Ciência Psicológica enquanto corpo de
conhecimentos, produzindo-os ou transmitindo-os. Essas são consideradas atuações
de base na profissão, pois, para atuar, os psicólogos dependem da produção do
conhecimento e da formação de profissionais. E também ao magistério do ensino
profissional (antigo ensino técnico), como pode ser o caso de seu professor, conforme
BOCK A et al., (2018).
Esse profissional trabalha no sentido de contribuir com a formação dos jovens,
dando-lhes mais uma possibilidade de enriquecer a leitura e compreensão que têm
do mundo. Devido aos conhecimentos que possui sobre o psiquismo humano, o
psicólogo tem sido requisitado também para o trabalho nas áreas de publicidade —
na produção de imagens (de políticos, por exemplo); Marketing, pesquisas de
mercado etc. Ele está conquistando espaços na área esportiva, junto à Justiça, nos
presídios e nas instituições chamadas de reeducação ou reabilitação. Pode-se citar,
também, uma área menos acessível para o psicólogo, mas na qual sua contribuição
tem sido prestimosa, que é a de planejamento urbano, conforme BOCK A et al.,
(2018).

45
De acordo BOCK A et al., (2018), fica claro, portanto, que a Psicologia possui
um conhecimento importante para a compreensão da realidade e por isso é utilizada,
pelos psicólogos ou por outros profissionais, em vários locais de trabalho, em vários
campos. Mas os psicólogos também precisam dos conhecimentos de outras áreas da
ciência para construir uma visão mais globalizante do fenômeno estudado. Na
Educação, por exemplo, o psicólogo tem necessidade dos conhecimentos da
Pedagogia, da Sociologia e da Filosofia.
Na maioria dos locais de trabalho, os psicólogos não estão sozinhos. Nesses
locais, o profissional necessita compor-se em equipes multidisciplinares, onde cada
um, com seu conhecimento específico, procura integrar suas análises e ter, assim,
uma compreensão globalizante do fenômeno estudado e uma prática integrada,
conforme BOCK A et al., (2018).
Áreas de psicologia

46
Fonte: site.cfp.org.br

Quando a natureza da agência é priorizada como critério, encontramos, por


exemplo, psicólogos que definem sua atuação como clínica, em função de
ser exercida em consultórios particulares (Mello, 1975); ou os que definem
como "Psicologia Social", e não como clínica, o atendimento clínico que
oferecem para população de baixa renda em instituições ou centros
comunitários (Carvalho, 1984 apud Carvalho A; Psicol. Cienc.
prof. vol.4 no.2 Brasília 1984).

8.1 Usos e abusos da psicologia

Ainda conforme BOCK A et al., (2018), a Psicologia, além de usada pelos


psicólogos, tem sido também “abusada” por eles. O sentido do abuso, ou melhor, o
critério do abuso da Psicologia pode ser dado pelo fato de não estar sendo usado o
conhecimento para a promoção da saúde da coletividade. Não gostaríamos aqui de
apontar locais ou processos onde esse fato estaria ocorrendo, pois ele poderá
acontecer em qualquer prática de qualquer psicólogo — na clínica, na escola, no
hospital psiquiátrico ou na empresa.
No entanto, um deles não deve deixar de ser citado: a utilização da Psicologia
para práticas repressivas, que podem existir nas escolas, presídios, instituições
educacionais e/ou de reabilitação, hospitais psiquiátricos etc. Isto se torna possível
porque o conhecimento da Psicologia, ao permitir que saibamos promover a saúde
mental, permite também que saibamos promover a loucura, o medo, a insegurança,
com o objetivo de coagir o indivíduo, conforme BOCK A et al., (2018).

47
8.2 Código de ética profissional do psicólogo

Um Código de Ética deve expressar, de um lado, a dinamicidade própria da


liberdade, do risco e da criação e, de outro lado, mostrar um conjunto de ações ou
comportamentos que sejam representativos da realidade com os quais o homem se
põe diariamente em contato.
Toda profissão define-se a partir de um corpo de práticas que busca atender
demandas sociais, norteado por elevados padrões técnicos e pela existência de
normas éticas que garantam a adequada relação de cada profissional com seus pares
e com a sociedade como um todo.
Um Código de Ética profissional, ao estabelecer padrões esperados quanto às
práticas referendadas pela respectiva categoria profissional e pela sociedade, procura
fomentar a autorreflexão exigida de cada indivíduo acerca das suas práxis, de modo
a responsabilizá-lo, pessoal e coletivamente, por ações e suas consequências no
exercício profissional.
A missão primordial de um código de ética profissional não é de normatizar a
natureza técnica do trabalho, e, sim, a de assegurar, dentro de valores relevantes para
a sociedade e para as práticas desenvolvidas, um padrão de conduta que fortaleça o
reconhecimento social daquela categoria.
Códigos de Ética expressam sempre uma concepção de homem e de
sociedade que determina a direção das relações entre os indivíduos. Traduzem-se em
princípios e normas que devem se pautar pelo respeito ao sujeito humano e seus
direitos fundamentais.
Por constituir a expressão de valores universais, tais como os constantes na
Declaração Universal dos Direitos Humanos; socioculturais, que refletem a realidade
do país; e de valores que estruturam uma profissão, um código de ética não pode ser
visto como um conjunto fixo de normas e imutável no tempo. As sociedades mudam,
as profissões transformam-se e isso exige, também, uma reflexão contínua sobre o
próprio código de ética que nos orienta.
A formulação do Código de Ética do Psicólogo, o terceiro da profissão de
psicólogo no Brasil, responde ao contexto organizativo dos psicólogos, ao momento
do país e ao estágio de desenvolvimento da Psicologia enquanto campo científico e
profissional. Este Código de Ética dos Psicólogos é reflexo da necessidade, sentida
pela categoria e suas entidades representativas, de atender à evolução do contexto
48
institucional-legal do país, marcadamente a partir da promulgação da denominada
Constituição Cidadã, em 1988, e das legislações dela decorrentes.
Consoante com a conjuntura democrática vigente, o presente Código foi
construído a partir de múltiplos espaços de discussão sobre a ética da profissão, suas
responsabilidades e compromissos com a promoção da cidadania. O processo
ocorreu ao longo de três anos, em todo o país, com a participação direta dos
psicólogos e aberto à sociedade.
Este Código de Ética pautou-se pelo princípio geral de aproximar-se mais de
um instrumento de reflexão do que de um conjunto de normas a serem seguidas pelo
psicólogo. Para tanto, na sua construção buscou-se:
 Valorizar os princípios fundamentais como grandes eixos que devem
orientar a relação do psicólogo com a sociedade, a profissão, as
entidades profissionais e a ciência, pois esses eixos atravessam todas
as práticas e estas demandam uma contínua reflexão sobre o contexto
social e institucional.
 Abrir espaço para a discussão, pelo psicólogo, dos limites e interseções
relativos aos direitos individuais e coletivos, questão crucial para as
relações que estabelece com a sociedade, os colegas de profissão e os
usuários ou beneficiários dos seus serviços.
 Contemplar a diversidade que configura o exercício da profissão e a
crescente inserção do psicólogo em contextos institucionais e em
equipes multiprofissionais.
 Estimular reflexões que considerem a profissão como um todo e não em
suas práticas particulares, uma vez que os principais dilemas éticos não
se restringem a práticas específicas e surgem em quaisquer contextos
de atuação.
Ao aprovar e divulgar o Código de Ética Profissional do Psicólogo, a expectativa
é de que ele seja um instrumento capaz de delinear para a sociedade as
responsabilidades e deveres do psicólogo, oferecer diretrizes para a sua formação e
balizar os julgamentos das suas ações, contribuindo para o fortalecimento e ampliação
do significado social da profissão.

49
8.3 Princípios fundamentais

 O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da


liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano,
apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos
Humanos.
 O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida
das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de
quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão.
 O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e
historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.
 O psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo
aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da
Psicologia como campo científico de conhecimento e de prática.
 O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da
população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos
serviços e aos padrões éticos da profissão.
 O psicólogo zelará para que o exercício profissional seja efetuado com
dignidade, rejeitando situações em que a Psicologia esteja sendo
aviltada.
 O psicólogo considerará as relações de poder nos contextos em que
atua e os impactos dessas relações sobre as suas atividades
profissionais, posicionando-se de forma crítica e em consonância com
os demais princípios deste Código.

8.4 Das responsabilidades do psicólogo

Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos:


 Conhecer, divulgar, cumprir e fazer cumprir este Código;
 Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as
quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente;
 Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho
dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios,
50
conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência
psicológica, na ética e na legislação profissional;
 Prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de
emergência, sem visar benefício pessoal;
 Estabelecer acordos de prestação de serviços que respeitem os direitos
do usuário ou beneficiário de serviços de Psicologia;
 Fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos,
informações concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo
profissional;
 Informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de
serviços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a
tomada de decisões que afetem o usuário ou beneficiário;
 Orientar a quem de direito sobre os encaminhamentos apropriados, a
partir da prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que
solicitado, os documentos pertinentes ao bom termo do trabalho;
 Zelar para que a comercialização, aquisição, doação, empréstimo,
guarda e forma de divulgação do material privativo do psicólogo sejam
feitas conforme os princípios deste Código;
 Ter, para com o trabalho dos psicólogos e de outros profissionais,
respeito, consideração e solidariedade, e, quando solicitado, colaborar
com estes, salvo impedimento por motivo relevante;
 Sugerir serviços de outros psicólogos, sempre que, por motivos
justificáveis, não puderem ser continuados pelo profissional que os
assumiu inicialmente, fornecendo ao seu substituto as informações
necessárias à continuidade do trabalho;
 Levar ao conhecimento das instâncias competentes o exercício ilegal ou
irregular da profissão, transgressões a princípios e diretrizes deste
Código ou da legislação profissional.
Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:
 Praticar ou ser conivente com quaisquer atos que caracterizem
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou
opressão;

51
 Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas,
de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do
exercício de suas funções profissionais;
 Utilizar ou favorecer o uso de conhecimento e a utilização de práticas
psicológicas como instrumentos de castigo, tortura ou qualquer forma de
violência;
 Acumpliciar-se com pessoas ou organizações que exerçam ou
favoreçam o exercício ilegal da profissão de psicólogo ou de qualquer
outra atividade profissional;
 Ser conivente com erros, faltas éticas, violação de direitos, crimes ou
contravenções penais praticadas por psicólogos na prestação de
serviços profissionais;
 Prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de
atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não
estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão;
 Emitir documentos sem fundamentação e qualidade técnico científica;
 Interferir na validade e fidedignidade de instrumentos e técnicas
psicológicas, adulterar seus resultados ou fazer declarações falsas;
 Induzir qualquer pessoa ou organização a recorrer a seus serviços;
 Estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha
vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos
objetivos do serviço prestado;
 Ser perito, avaliador ou parecerista em situações nas quais seus
vínculos pessoais ou profissionais, atuais ou anteriores, possam afetar
a qualidade do trabalho a ser realizado ou a fidelidade aos resultados da
avaliação;
 Desviar para serviço particular ou de outra instituição, visando benefício
próprio, pessoas ou organizações atendidas por instituição com a qual
mantenha qualquer tipo de vínculo profissional;
 Prestar serviços profissionais a organizações concorrentes de modo que
possam resultar em prejuízo para as partes envolvidas, decorrentes de
informações privilegiadas;
 Prolongar, desnecessariamente, a prestação de serviços profissionais;

52
 Pleitear ou receber comissões, empréstimos, doações ou vantagens
outras de qualquer espécie, além dos honorários contratados, assim
como intermediar transações financeiras;
 Receber, pagar remuneração ou porcentagem por encaminhamento de
serviços;
 Realizar diagnósticos, divulgar procedimentos ou apresentar resultados
de serviços psicológicos em meios de comunicação, de forma a expor
pessoas, grupos ou organizações.
Art. 3º – O psicólogo, para ingressar, associar-se ou permanecer em uma
organização, considerará a missão, a filosofia, as políticas, as normas e as práticas
nela vigentes e sua compatibilidade com os princípios e regras deste Código.
Parágrafo único: Existindo incompatibilidade, cabe ao psicólogo recusar-se a
prestar serviços e, se pertinente, apresentar denúncia ao órgão competente.
Art. 4º – Ao fixar a remuneração pelo seu trabalho, o psicólogo:
 Levará em conta a justa retribuição aos serviços prestados e as
condições do usuário ou beneficiário;
 Estipulará o valor de acordo com as características da atividade e o
comunicará ao usuário ou beneficiário antes do início do trabalho a ser
realizado;
 Assegurará a qualidade dos serviços oferecidos independentemente do
valor acordado.
Art. 5º – O psicólogo, quando participar de greves ou paralisações,
garantirá que:
 As atividades de emergência não sejam interrompidas;
 Haja prévia comunicação da paralisação aos usuários ou beneficiários
dos serviços atingidos pela mesma.
Art. 6º – O psicólogo, no relacionamento com profissionais não
psicólogos:
 Encaminhará a profissionais ou entidades habilitados e qualificados
demandas que extrapolem seu campo de atuação;
 Compartilhará somente informações relevantes para qualificar o serviço
prestado, resguardando o caráter confidencial das comunicações,

53
assinalando a responsabilidade, de quem as receber, de preservar o
sigilo.
Art. 7º – O psicólogo poderá intervir na prestação de serviços
psicológicos que estejam sendo efetuados por outro profissional, nas seguintes
situações:
 A pedido do profissional responsável pelo serviço;
 Em caso de emergência ou risco ao beneficiário ou usuário do serviço,
quando dará imediata ciência ao profissional;
 Quando informado expressamente, por qualquer uma das partes, da
interrupção voluntária e definitiva do serviço;
 Quando se tratar de trabalho multiprofissional e a intervenção fizer parte
da metodologia adotada.
Art. 8º – Para realizar atendimento não eventual de criança, adolescente
ou interdito, o psicólogo deverá obter autorização de ao menos um de seus
responsáveis, observadas as determinações da legislação vigente:
§1° – No caso de não se apresentar um responsável legal, o atendimento
deverá ser efetuado e comunicado às autoridades competentes;
§2° – O psicólogo responsabilizar-se-á pelos encaminhamentos que se fizerem
necessários para garantir a proteção integral do atendido.
Art. 9º – É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger,
por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a
que tenha acesso no exercício profissional.
Art. 10 – Nas situações em que se configure conflito entre as exigências
decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos princípios fundamentais deste
Código, excetuando-se os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela
quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo.
Parágrafo único – Em caso de quebra do sigilo previsto no caput deste
artigo, o psicólogo deverá restringir-se a prestar as informações estritamente
necessárias.
Art. 11 – Quando requisitado a depor em juízo, o psicólogo poderá prestar
informações, considerando o previsto neste Código.

54
Art. 12 – Nos documentos que embasam as atividades em equipe
multiprofissional, o psicólogo registrará apenas as informações necessárias para o
cumprimento dos objetivos do trabalho.
Art. 13 – No atendimento à criança, ao adolescente ou ao interdito, deve ser
comunicado aos responsáveis o estritamente essencial para se promoverem medidas
em seu benefício.
Art. 14 – A utilização de quaisquer meios de registro e observação da prática
psicológica obedecerá às normas deste Código e a legislação profissional vigente,
devendo o usuário ou beneficiário, desde o início, ser informado.
Art. 15 – Em caso de interrupção do trabalho do psicólogo, por quaisquer
motivos, ele deverá zelar pelo destino dos seus arquivos confidenciais.
§ 1° – Em caso de demissão ou exoneração, o psicólogo deverá repassar todo
o material ao psicólogo que vier a substituí-lo, ou lacrá-lo para posterior utilização pelo
psicólogo substituto.
§ 2° – Em caso de extinção do serviço de Psicologia, o psicólogo responsável
informará ao Conselho Regional de Psicologia, que providenciará a destinação dos
arquivos confidenciais.
Art. 16 – O psicólogo, na realização de estudos, pesquisas e atividades
voltadas para a produção de conhecimento e desenvolvimento de tecnologias:
 Avaliará os riscos envolvidos, tanto pelos procedimentos, como pela
divulgação dos resultados, com o objetivo de proteger as pessoas,
grupos, organizações e comunidades envolvidas;
 Garantirá o caráter voluntário da participação dos envolvidos, mediante
consentimento livre e esclarecido, salvo nas situações previstas em
legislação específica e respeitando os princípios deste Código;
 Garantirá o anonimato das pessoas, grupos ou organizações, salvo
interesse manifesto destes;
 Garantirá o acesso das pessoas, grupos ou organizações aos resultados
das pesquisas ou estudos, após seu encerramento, sempre que assim
o desejarem.
Art. 17 – Caberá aos psicólogos docentes ou supervisores esclarecer, informar,
orientar e exigir dos estudantes a observância dos princípios e normas contidas neste
Código.

55
Art. 18 – O psicólogo não divulgará, ensinará, cederá, emprestará ou venderá
a leigos instrumentos e técnicas psicológicas que permitam ou facilitem o exercício
ilegal da profissão.
Art. 19 – O psicólogo, ao participar de atividade em veículos de comunicação,
zelará para que as informações prestadas disseminem o conhecimento a respeito das
atribuições, da base científica e do papel social da profissão.
Art. 20 – O psicólogo, ao promover publicamente seus serviços, por
quaisquer meios, individual ou coletivamente:
 Informará o seu nome completo, o CRP e seu número de registro;
 Fará referência apenas a títulos ou qualificações profissionais que
possua;
 Divulgará somente qualificações, atividades e recursos relativos a
técnicas e práticas que estejam reconhecidas ou regulamentadas pela
profissão;
 Não utilizará o preço do serviço como forma de propaganda;
 Não fará previsão taxativa de resultados;
 Não fará autopromoção em detrimento de outros profissionais;
 Não proporá atividades que sejam atribuições privativas de outras
categorias profissionais;
 Não fará divulgação sensacionalista das atividades profissionais.

8.5 Das disposições gerais

Art. 21 – As transgressões dos preceitos deste Código constituem infração


disciplinar com a aplicação das seguintes penalidades, na forma dos dispositivos
legais ou regimentais:
 Advertência;
 Multa;
 Censura pública;
 Suspensão do exercício profissional, por até 30 (trinta) dias, ad
referendum do Conselho Federal de Psicologia;
 Cassação do exercício profissional, ad referendum do Conselho Federal
de Psicologia.

56
Art. 22 – As dúvidas na observância deste Código e os casos omissos serão
resolvidos pelos Conselhos Regionais de Psicologia, ad referendum do Conselho
Federal de Psicologia.
Art. 23 – Competirá ao Conselho Federal de Psicologia firmar jurisprudência
quanto aos casos omissos e fazê-la incorporar a este Código.
Art. 24 – O presente Código poderá ser alterado pelo Conselho Federal de
Psicologia, por iniciativa própria ou da categoria, ouvidos os Conselhos Regionais de
Psicologia.
Art. 25 – Este Código entra em vigor em 27 de agosto de 2005.
Este Código de Ética Profissional é fruto de amplos debates ocorridos
entre os anos de 2003 e 2005, envolvendo:
 15 fóruns regionais de Ética, que culminaram com o II Fórum Nacional
de Ética;
 Os trabalhos de uma comissão de psicólogos e professores convidados;
 Os trabalhos da Assembleia das Políticas Administrativas e Financeiras
do Sistema Conselhos de Psicologia, APAF,
 Tudo sob a responsabilidade do Conselho Federal de Psicologia.

Ao serem incorporadas à vida cotidiana de algumas camadas da população,


“as psicologias” convertem-se quase sempre numa visão de mundo
altamente subjetivista e individualista. Com isso, queremos dizer que mesmo
as teorias psicológicas que não se restringem à experiência imediata da
subjetividade individualizada, como a psicanálise, ao serem assimiladas pela
sociedade, têm se tornado uma forma de manter a ilusão da liberdade e da
singularidade de cada um, em vez de compreender e explicar o que há de
ilusório nessas ideias. É assim que a psicologização da vida quotidiana tem
nos levado a pensar o mundo social e a nós mesmos a partir de uma visão
bem pouco crítica. (...) certamente a tendência que tem mais crescido e
aumentado seu mercado recentemente é a das “terapias de autoajuda“.
Numa mistura de concepções do senso comum ou baseadas em teorias
psicológicas, em pressupostos humanistas sobre a liberdade do homem e
num estilo de administração empresarial nitidamente comportamentalista,
esse discurso (que soa como o de um pastor protestante americano, e isto é
mais do que uma coincidência) prega um paradoxal reforçamento do “eu” com
sua submissão a um conjunto de regras de gerenciamento da própria vida.
(Figueiredo e Santi, 2004, pág. 87-88 apud Moura J; 2008).

O psicólogo como um bom profissional tem como função primordial promover


o bem-estar social, dando suporte para as pessoas ou grupos, para que se tenha
clareza sobre as dimensões de sentimentos, em busca de respostas que possam
identificar as verdadeiras motivações e razões de escolhas e condutas com relação
as suas experiências vivenciadas. E por fim, proporcionar o entendimento de si
57
mesmo, estimulando a inteligência emocional, autocontrole, equilíbrio e qualidade de
vida.

58
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