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UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO

METODOLOGIA DA PESQUISA EM DIREITO


PROF. DR. LITON LANES PILAU FILHO

NATÁLIA ROSA MOZZATTO

GÊNERO E DEMOCRACIA: CONSTRUINDO UM MODELO


POLÍTICO FEMINISTA A PARTIR DE JACQUES RANCIÉRE

Passo Fundo
Outubro/2020
SUMÁRIO

Resumo 1
Abstract 1
Introdução 2
1 A crise democrática: de onde vem o ódio? 4
2 Público versus Privado, ou como as mulheres foram excluídas da participação
política 7
3 O modelo político feminista 10
Considerações finais 14
Referências Bibliográficas 15
GÊNERO E DEMOCRACIA: CONSTRUINDO UM MODELO POLÍTICO
FEMINISTA A PARTIR DE JACQUES RANCIÉRE

GENDER AND DEMOCRACY: BUILDING A FEMINIST POLITICAL MODEL


FROM JACQUES RANCIÉRE

Natália Rosa Mozzatto1

RESUMO

A ideia de democracia para o filósofo Jacques Ranciére em sua obra “O ódio à


democracia” parte do conceito de que um governo democrático é aquele no
qual ao governante não são exigidos títulos para governar, rompendo-se a
chamada "força dos bem-nascidos" em ode a uma "participação do acaso".
Deste modo, mostra-se importante e relevante analisar a participação feminina
na política a partir das ideias de democracia trabalhadas por Jacques Ranciére.
Historicamente, diante da divisão de papéis de gênero nos âmbitos público e
privado, as mulheres foram relegadas à vida privada, representada pelos
afazeres domésticos e familiares. Por outro lado, aos homens foi atribuída a
vida pública. Assim, busca-se no presente artigo propor um modelo
democrático feminista, a partir de um efetivo rompimento entre público e
privado, possibilitando-se a promoção de uma agenda política feminista.

Palavras-chave: Gênero. Democracia. Ódio. Participação política. Feminismo.

ABSTRACT

The idea of democracy for the philosopher Jacques Ranciére in his work “The
hatred of democracy” starts from the concept that a democratic government is
one in which the governor is not required to have titles to govern, breaking the
so-called “strength of the well-born" in ode to a "random participation". Thus, it
is important and relevant to analyze the women's participation in politics based
on Jacques Ranciére’s ideas of democracy. Historically, faced with the division
of gender roles in the public and private spheres, women have been relegated
to private life, represented by domestic and family chores. On the other hand,
men were assigned to public life. Thus, the aim of this article is to propose a
feminist democratic model, based on an effective break between public and
private, enabling the promotion of a feminist political agenda.

Keywords: Gender. Democracy. Hatred. Political participation. Feminism.

1Advogada, Mestranda do curso de Mestrado em Direito do Programa de Pós-Grauação em


Direito – PPGD da Universidade de Passo Fundo, vinculada à linha de pesquisa Relações
Sociais e Dimensões do Poder, especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal pela
Universidade do Vale do Itajaí (2014). E-mail 96745@upf.br.
1
Introdução
O Brasil ocupa o terceiro lugar na América Latina em menor
representação parlamentar feminina, taxa esta que permanece praticamente
estabilizada desde a década de 1940, conforme dados coletados pela
organização internacional Inter-Parliamentary Union2.
Quando analisamos a participação feminina no âmbito do Poder
Executivo, os números não se mostram mais otimistas.
O Brasil se encontra na 161ª posição de um ranking de 186 países, atrás
de todos os outros países do continente americano. Para exemplificar, em
nomeações para cargos do alto escalão entre os anos de 2005 e 2016 a
participação de mulheres nos ministérios teve um aumento de 4,5%, enquanto
a média mundial de mulheres em tais cargos é de 18%. Nas secretarias dos
governos estaduais, 70% dos cargos são ocupados por homens. Nas últimas
eleições municipais, ocorridas no ano de 2016, 68% das cidades brasileiras
não tiveram uma candidata à Prefeitura3.
Como podemos relacionar, a partir de uma ótica feminista, este
fenômeno ao fato de que as mulheres foram historicamente excluídas da esfera
pública e relegadas à esfera privada?
Em sua obra "O ódio à democracia" o filósofo franco-argelino Jacques
Ranciére busca analisar os rumos da democracia contemporânea, promovendo
uma crítica à democracia representativa, asseverando que a democracia
representativa na verdade se trata de "uma forma mista: uma forma de
funcionamento do Estado, fundamentada inicialmente no privilégio das elites
“naturais” e desviada aos poucos de sua função pelas lutas democráticas"4.
Portanto, a partir da crítica formulada por Jacques Ranciére à
2 FLORENTINO, Karoline. Representatividade das mulheres na política. Politize! Publicado em
18/10/2018. Disponível em: https://www.politize.com.br/mulheres-na-politica/#toggle-id-1.
Acesso em: 25/09/2020.
3 ROSSI, Marina. Brasil, a lanterna no ranking de participação de mulheres na política. El País.

São Paulo, 31/03/2018. Disponível em:


https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/27/politica/1522181037_867961.html. Acesso em
25/09/2020.
4 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014. p. 71.

2
democracia representativa contemporânea objetiva-se buscar respostas às
seguintes reflexões: é possível construir uma sociedade justa se as relações
familiares são estruturalmente injustas? Pode-se dizer que a democracia exige
relações igualitárias em todas as esferas da vida, especialmente a familiar?
Qual o papel do feminismo nesta construção democrática?
Para tanto, inicialmente será analisado o fenômeno do ódio à
democracia, a partir da crítica proposta por Jacques Ranciére, a fim de se
contextualizar a origem de uma crise democrática que possa explicar o fato de
que as mulheres têm sido relegadas da política.
Considerando-se que “se há algo que identifica um pensamento como
feminista é a reflexão crítica sobre a dualidade entre a esfera pública e a esfera
privada”5, na segunda seção é proposta uma tentativa de compreensão sobre
como a diferenciação entre o público e o privado historicamente implicou
papéis sociais diferenciados para homens e mulheres, isolando as mulheres da
participação efetiva na esfera pública.
Por fim, tenta-se propor uma reflexão crítica acerca do ódio às mulheres
construído socialmente em um sistema de patriarcalismo que as afasta da vida
pública, a fim de que se possa estruturar um modelo político feminista
efetivamente democrático.
O presente Relatório de Pesquisa se encerra com as Conclusões, nas
quais são apresentados pontos conclusivos destacados, seguidos da
estimulação à continuidade dos estudos e das reflexões sobre esta temática,
considerando-se que “a abolição das barreiras legais à participação das
mulheres na política não representa um acesso a condições igualitárias de
ingresso na arena política”6.
O método de análise utilizado quanto à metodologia empregada foi
utilizado o Método Dedutivo. Nas diversas fases da Pesquisa, foram acionadas

5 BIROLI, Flávia. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e
política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014. p. 31.
6 MIGUEL, Luis Felipe. Gênero e representação política. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI,

Flávia. Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014. p. 94.
3
as Técnicas, do Referente, da Categoria, do Conceito Operacional e da
Pesquisa Bibliográfica.

1 A crise democrática: de onde vem o ódio?


Conceituar no que consiste a democracia não é uma tarefa simples,
especialmente se considerarmos que a própria significação de "democracia"
pode ser uma disputa política.
Entretanto, para tratar do ódio à democracia e da crise democrática
contemporânea, ainda que sob a ótica de Jacques Ranciére, se faz importante
fixar algumas premissas iniciais.
A ideia de democracia não é simplesmente um reducionismo à vontade
da maioria sobre a minoria ou ao medo da tirania da maioria em uma simples
legitimação do voto como condição operacionalizadora da democracia 7.
Neste ponto, Jacques Ranciére traz uma interessante reflexão:
A democracia é propriamente a inversão de todas as relações que
estruturam a sociedade humana: os governantes parecem
governados e os governados, governantes; as mulheres são iguais
aos homens; o pai se habitua a tratar o filho de igual para igual; o
meteco e o estrangeiro tornam-se iguais ao cidadão; o professor teme
e bajula alunos que, de sua parte, zombam dele; os jovens se
igualam aos velhos e os velhos imitam os jovens; os próprios animais
são livres e os cavalos e os burros, conscientes de sua liberdade e
dignidade, atropelam aqueles que não lhes dão passagem na rua.8

A consequência deste fenômeno da inversão da relação entre


governante e governado é a quebra da corrente a partir da qual era necessário
um título para governar, a partir da qual se conclui que " democracia quer dizer,
em primeiro lugar, [...] um "governo" anárquico, fundamentado em nada mais
do que na ausência de qualquer título para governar"9.
Ou seja, deixa de existir um título para governar, instituindo-se a
"participação do acaso" em oposição à "força dos bem-nascidos", a fim de se

7 ENGERROFF, Ana Martina Baron; TABORDA, Luana do Rocio. O aparente paradoxo


democrático: reflexões entre a lucidez e a cegueira do ódio à democracia. Revista de Ciências
do Estado. Belo Horizonte, jan./jul. 2018. p. 313-334. Disponível em:
https://periodicos.ufmg.br/index.php/revice/article/view/5098. Acesso em: 25/09/2020. p. 314.
8 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 50-51.
9 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p 57.

4
estruturar um verdadeiro poder político.
A partir desta construção, como se pode explicar o ódio à democracia?
As reivindicações, acontecimentos e disputas do mundo
moderno são imputados à democracia, como o reino dos
desejos ilimitados dos indivíduos na sociedade de massa,
guardando-se uma conotação negativa à expressão. Este ódio
não é atual, existindo desde a sua origem e a violência
decorrente dele também continua presente (seja no âmbito da
ficção ou no real). O ódio à democracia nasce e é continuado
por aqueles que não querem que outros, senão os seus
privilegiados, se mantenham no poder.10

Portanto, é possível dizer que se a principal implicação prática do regime


democrático na esfera política é a ausência de títulos para ingressar nas
classes dirigentes, o ódio surge da irresignação dos setores mais privilegiados
na sociedade que nunca aceitaram esta dinâmica.
Nesta perspectiva, Jacques Ranciére propõe uma reflexão crítica acerca
do significado de democracia:
[...] a palavra democracia não designa propriamente nem uma
forma de sociedade nem uma forma de governo. A “sociedade
democrática” é apenas uma pintura fantasiosa, destinada a
sustentar tal ou tal princípio do bom governo. As sociedades,
tanto no presente quanto no passado, são organizadas pelo
jogo das oligarquias. E não existe governo democrático
propriamente dito. Os governos se exercem sempre da minoria
sobre a maioria. Portanto, o “poder do povo” é
necessariamente heterotópico à sociedade não igualitária,
assim como ao governo oligárquico. Ele é o que desvia o
governo dele mesmo, desviando a sociedade dela mesma.
Portanto, é igualmente o que separa o exercício do governo da
representação da sociedade11.

Continuando a desenvolver suas ideias sobre democracia, define-a


como “as formas jurídico-políticas das constituições e das leis de Estado não
repousam jamais sobre uma única e mesma lógica”12.
Com esta afirmação, o autor promove uma crítica ao que chamamos de

10 ENGERROFF, Ana Martina Baron; TABORDA, Luana do Rocio. O aparente paradoxo


democrático: reflexões entre a lucidez e a cegueira do ódio à democracia. Revista de Ciências
do Estado. p. 323.
11 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 68.
12 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 71.

5
“democracia representativa”, por ser esta uma forma de funcionamento do
Estado, fundamentada inicialmente no privilégio das “elites naturais” e desviada
aos poucos de sua função pelas lutas democráticas13.
Por este raciocínio o sufrágio universal não é uma consequência natural
da democracia. Na verdade, o sufrágio universal é uma forma mista, vinda das
oligarquias, que é desviada pelo combate democrático e reconquistada pela
oligarquia, ao passo em que esta submete seus candidatos e suas decisões à
escolha dos eleitores.
Analisando-se a realidade brasileira a partir de Jacques Ranciére,
Mónica Brun Beveder expõe que embora o sentimento antidemocrático, o
temor e a recusa do intolerável "poder do povo" sejam marcas constitutivas da
formação social brasileira, as reflexões propostas pelo filósofo nos traz a ideia
de recuperar o potencial e a "força singular" próprios à democracia, sendo esta
a ação que arranca dos governos oligárquicos o monopólio da vida pública e da
riqueza a onipotência sobre a vida14.
Portanto, o chamado "novo ódio à democracia" faz da palavra
"democracia" um operador ideológico, despolitizando as questões da vida
pública para transformá-las em "fenômenos de sociedade", ao mesmo tempo
em que nega as formas de dominação que estruturam a sociedade15.
A consequência desta dinâmica é a construção de sujeitos políticos a
partir da dupla lógica da dominação, que separa o "homem público" do
indivíduo privado, conforme ressalta, ao tratar da condição das mulheres como
cidadãs políticas:
Mas essa mesma bizarrice marca a torção da relação entre
vida e cidadania que fundamenta a reinvindicação de um
pertencimento das mulheres à esfera da opinião política. Elas
foram excluídas do benefício dos direitos do cidadão em nome

13 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 71.


14 BEVEDER, Mónica Brun. O ódio à democracia e o rechaço da política. Revista da
Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro
- 1º semestre de 2016. n. 37. p. 357-361. Disponível em: https://www.e-
publicacoes.uerj.br/index.php/revistaempauta/article/viewFile/25405/18370. Acesso em:
25/09/2020.
15 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 116.

6
da divisão entre as esfera pública e a esfera privada.
Pertencendo à vida doméstica, portanto ao mundo da
particularidade, elas são estranhas ao universal da esfera
cidadã.16

Uma estrutura política que se diz “democrática“, porém se divide


estruturalmente entre “público” e “privado” a fim de retroalimentar o poder
político das oligarquias é um reflexo do ódio à democracia que pode justificar o
fato de que até a atualidade das mulheres continuam sendo relegadas da vida
e da participação pública.
Defende-se que esta dinâmica reflete uma crise democrática, pois se
considerarmos que a democracia é a inversão das tradicionais relações que
estruturam a sociedade humana, instituindo-se a "ausência de título" para
governar, há de outro lado um sistema social patriarcal que reiteradamente
afasta as mulheres da participação política.

2 Público versus Privado, ou como as mulheres foram excluídas da


participação política
Sofia Aboim, citando Norberto Bobbio, esclarece que a distinção entre
"público" e "privado" é uma das grandes dicotomias do pensamento ocidental,
tratando-se de um binômio fundador que subsume muitos outros e cujas
fronteiras são confusas e intercambiáveis17.
A dualidade entre público e privado corresponde a uma visão restrita da
política, que, “em nome da universalidade na esfera pública, define uma série
de tópicos e nem experiências como privados e, como tal, não políticos”18. A
partir desta dinâmica é que se isola a política das relações de poder da vida
cotidiana.
Assim, ressalta-se que:

16 RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 78.


17 ABOIM, Sofia. Do público e do privado: uma Do público e do privado: uma perspectiva de
género sobre uma perspectiva de género sobre uma dicotomia moderna. Estudos Feministas,
Florianópolis, janeiro-abril/2012. P. 95-117. Disponível em:
https://www.scielo.br/pdf/ref/v20n1/a06v20n1.pdf. Acesso em: 25/09/2020. p. 95.
18 BIROLI, Flávia. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e

política: uma introdução. p. 31.


7
Na modernidade, a esfera pública estaria baseada em
princípios universais, na razão e na impessoalidade, ao passo
que a esfera privada abrigaria as relações de caráter pessoal e
íntimo. Se na primeira os indivíduos são definidos como
manifestações da humanidade, ou da cidadania comuns a
todos, na segunda é incontornável que se apresentem em suas
individualidades concretas e particulares. Somam-se, a essa
percepção, estereótipos de gênero desvantajosos para as
mulheres. Papéis atribuídos a elas, como a dedicação
prioritária à vida doméstica e aos familiares, colaboraram para
que a domesticidade feminina fosse vista como um traço
natural e distintivo, mas também como um valor a partir do qual
outros comportamentos seriam caracterizados como desvios. A
natureza estaria na base das diferenças hierarquizadas entre
os sexos.19

Deste modo, o privado foi desvalorizado na construção política das


sociedades, especialmente se considerarmos que "a noção ocidental de
cidadania foi construída com base numa referência masculina, pois os modelos
de relações sociais sobre os quais foi edificada excluem visões do feminino e
das mulheres como seres sociais”.20
É por isto que se fala da participação política das mulheres, observa-se
que a sua exclusão da esfera pública se deu nesta dualidade, estruturada no
gênero. Trata-se de dinâmica complexa e reverberada pelas relações sociais,
conforme bem esclarecem Flávia Biroli e Luís Felipe Miguel:
As relações de gênero atravessam toda a sociedade, e seus
sentidos e seus efeitos não estão restritos às mulheres. O
gênero é, assim, um dos eixos centrais que organizam nossas
experiências no mundo social. Onde há desigualdades que
atendem a padrões de gênero, ficam definidas também as
posições relativas de mulheres e de homens – ainda que o
gênero não o faça isoladamente, mas numa vinculação
significativa com classe, raça e sexualidade21.

A partir do gênero é que, "o mundo social constrói o corpo como


realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e de divisão,

19 BIROLI, Flávia. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e
política: uma introdução. p. 32.
20 ABOIM, Sofia. Do público e do privado: uma Do público e do privado: uma perspectiva de

género sobre uma perspectiva de género sobre uma dicotomia moderna. Estudos Feministas.
p. 106.
21 MIGUEL, Luís Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e política: uma introdução. p. 8.

8
sexualizantes"22, uma vez que a força da ordem masculina se impõe como
neutra, que dispensa quaisquer justificações para ser legitimada. Assim, há
uma ordem social que ratifica a dominação masculina em atos simbólicos,
como a divisão social do trabalho, a divisão sexual entre o público e o privado
que reserva às mulheres os afazeres domésticos, tomando como exemplos.23
Portanto, "são ativados filtros que incidem sobre as mulheres no acesso
a ocupações e no acesso ao âmbito da política institucional, constituindo
padrões sistemáticos de exclusão e de marginalização"24.
Ao propor a decomposição das fronteiras entre público e privado, a fim
de se promover a ascensão feminina no âmbito político da sociedade, o
movimento feminista traz à luz a face da opressão operacionalizada pela
relegação das mulheres ao que se chama de esfera privada ou doméstica:
Os ideais de família, e da intimidade nela vivida, como refúgio contra
a esfera pública são também negados, pois é muitas vezes na esfera
privada que são vividas algumas duras formas de opressão. Desde
logo, a associação do feminino ao privado e do masculino ao público
é vista como uma fonte de desigualdade e injustiça. Desigualdade,
aliás, que só pode ser combatida pela intrusão do político, do público,
na esfera privada, tomando como unidade o indivíduo, e não o
coletivo, como aliás tem sido notado pelos teóricos da
individualização. É, afinal, através da conquista progressiva da
cidadania e do abandono de uma condição associada à natureza, à
reprodução e à maternidade que as mulheres têm adquirido maiores
direitos. A erosão da família patriarcal é consequência do
alargamento da cidadania, da igualdade e da autonomia como
valores morais constituintes da própria modernidade.25

Neste ínterim, práticas e valores que sustentam uma divisão sexual do


trabalho fundada em concepções convencionais do feminino e do masculino
(público x privado) têm grande impacto no acesso das mulheres a cargos

22 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Traduzido por Maria Helena Kühner. 11 ed.
Rio de Janeiro: Bertrand, 2012. p. 17.
23 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. p. 17.
24 BIROLI, Flávia. Divisão Sexual do Trabalho e Democracia. Revista de Ciências Sociais, Rio

de Janeiro, vol. 59, no 3, 2016, p. 719 a 681. Disponível em:


https://www.scielo.br/pdf/dados/v59n3/0011-5258-dados-59-3-0719.pdf. Acesso em:
25/09/2020. p. 721.
25 ABOIM, Sofia. Do público e do privado: uma Do público e do privado: uma perspectiva de

género sobre uma perspectiva de género sobre uma dicotomia moderna. Estudos Feministas.
p. 106-107.
9
políticos26.
É por isso que se mostra necessário redefinir as esferas pública e
privada e as relações por elas espelhadas socialmente, a fim de que exista
justiça na esfera privada, bem como que o acesso a posições não seja
hierarquizado por critérios de gênero27.

3 O modelo político feminista


Joan Wallach Scott traz alguns questionamentos sobre a questão da
mulher como um sujeito ativo da história: como as mulheres poderão conseguir
um status de sujeitos em uma sociedade que historicamente as têm ignorado?
Bastaria tornar as mulheres visíveis?28
Segundo Heleieth Saffioti, “quanto mais as feministas se distanciarem do
esquema patriarcal de pensamento, melhores serão suas teorias"29.
Portanto, sob uma ótica feminista se busca propor um modelo político
feminista, analisando sua viabilidade no espectro social, considerando-se que
“a baixa proporção de mulheres nas esferas do poder político é uma realidade
constatada ainda hoje em quase todos os países do mundo”. 30
A questão é de suma importância se considerarmos que:
[...] as décadas seguintes à obtenção do sufrágio feminino
mostraram que era perfeitamente possível a convivência entre
o direito de voto das mulheres e uma elite política formada
quase exclusivamente por homens. Repetiu-se, com o
sufragismo, o que ocorrera com a luta do movimento operário
pelo voto universal masculino. Seus apoiadores, entre eles o
próprio Marx, tanto quanto seus adversários, julgavam que
seria o prelúdio de uma via eleitoral para o socialismo. Mas o
fim das exigências censitárias e a extensão do direito de voto
aos trabalhadores não abalaram a dominação política da

26 BIROLI, Flávia. Divisão Sexual do Trabalho e Democracia. Revista de Ciências Sociais. p.


722.
27 BIROLI, Flávia. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e

política: uma introdução. p. 36


28 SCOTT, Joan Wallach. Género e historia. Ciudad de México: FCE, Universidad Autónoma

de la Ciudad de México. 2008. p. 36-37.


29 SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Editora Fundação

Perseu Abramo, 2004. p. 56.


30 MIGUEL, Luís Felipe. Gênero e representação política. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI,

Flávia. Feminismo e política: uma introdução. p. 93.


10
classe burguesa.31

Retornamos ao “ódio à democracia” denunciado por Jacques Ranciére:


“através do ódio que manifestam contra a democracia, ou em seu nome, e
através das amálgamas às quais submetem sua noção, obrigam-nos a
recuperar a força singular que lhe é própria”.32
Destarte, as marcações de gênero, raça e classe produzem as pessoas
ingovernáveis sobre as quais o poder do Estado se impõe a fim de
fundamentar o apagamento do ideal de democracia como uma forma de
governo baseada na indistinção entre quem pode ser governado e quem pode
governar.33
Deste modo:
A principal tarefa de uma democracia radical hoje seria
enfrentar, confrontar, interrogar, questionar, fazer oposição à
violência de Estado, esta que se justifica em função da defesa
dos territórios, lucra com essa atividade e se fundamenta na
força de exploração da precariedade dos corpos.34

Teresa Kleba Lisboa ao propor um pacto democrático entre as mulheres,


questiona: como podemos falar em democracia diante das desigualdades de
gênero que se expressam nos mais diversos espaços da sociedade,
reverberadas pelo confinamento das mulheres ao espaço doméstico,
silenciamento, violência, invisibilidade e hierarquias nos espaços de poder?35
Conforme bem esclarece Flávia Biroli:
[...] a defesa de relações mais justas e democráticas na esfera
privada leva a refletir sobre os papéis convencionais de gênero
e a divisão do trabalho, expondo suas implicações para a

31 MIGUEL, Luís Felipe. Gênero e representação política. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI,
Flávia. Feminismo e política: uma introdução. p. 93.
32 RANCIÉRE, Jacques. O ódio à democracia. p. 121,
33 RODRIGUES, Carla. Problemas de gênero na e para a democracia. Ciência e Cultura. São

Paulo: Jan./Mar., 2017. p. 30-34. Disponível em:


http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S000967252017000100013&script=sci_arttext&tlng
=en. Acesso em 25/09/2020. p. 31.
34 RODRIGUES, Carla. Problemas de gênero na e para a democracia. Ciência e Cultura. p. 32
35 LISBOA, Teresa Kleba. Democracia de gênero: é possível um pacto entre as mulheres?

Revista Feminismos. Salvador, Vol.4, N.1, Jan - Abr. 2016. p. 4-13. Disponível em:
https://cienciasmedicasbiologicas.ufba.br/index.php/feminismos/article/view/30102. Acesso em:
25/09/2020. p 4.
11
participação paritária de mulheres e homens na vida pública36.

Assim, a autora conclui a ideia de que quando a organização das


relações da vida privada constituir uma barreira à participação paritária de
mulheres e homens na vida pública, ficará reduzida a possibilidade de que
questões como o cuidado com as crianças e idosos, a violência de gênero, etc.
ganhem visibilidade na agenda pública e nos debates políticos37.
A partir daí é que se discute a importância e a necessidade da
implementação de um modelo político feminista.
A consolidação dos papéis de gênero atribuídos a homens e mulheres
pela sociedade moderna fez com que a participação política, econômica e
social das mulheres se tornasse difícil, uma vez que já havia se consolidado
uma divisão sexual do trabalho, mantendo-as reclusas ao âmbito privado.
Portanto, a dimensão de gênero que permeou a construção da sociedade
democrática privilegiou os homens, reservando-lhe a atuação no espaço social
de âmbito público. É por isso que se mostra urgente o debate acerca de uma
democracia de gênero, necessária ao pleno funcionamento das estruturas de
um Estado Democrático de Direito.38
Ora, "a cidadania está associada à garantia dos direitos. Sem Estado,
não há democracia; tampouco democracia entre os gêneros".39
E quando se fala em representação política, ainda que sob o prisma do
gênero, não basta simplesmente o debate acerca de propostas para o aumento
de uma presença feminina em grupos de poder, conforme bem ressalta Luís
Felipe Miguel:
Com isso, surge uma última questão de fundo: o esforço deve
ser voltado para colocar mais mulheres em posições de poder
ou para fazer avançar uma agenda política feminista? O

36 BIROLI, Flávia. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e
política: uma introdução p. 34
37 BIROLI, Flávia. O público e o privado. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Feminismo e
política: uma introdução p. 34
38 LISBOA, Teresa Kleba. Democracia de gênero: é possível um pacto entre as mulheres?
Revista Feminismos. p. 5.
39 LISBOA, Teresa Kleba. Democracia de gênero: é possível um pacto entre as mulheres?
Revista Feminismos. p. 5.
12
impulso inicial na direção do Estado, quando surgiram os
órgãos de defesa dos direitos das mulheres, era nessa
segunda direção. Mas a ampliação do número de
representantes do sexo feminino não guarda relação
necessária com uma maior centralidade da pauta do
feminismo. Torna-se preciso, então, investigar a relação entre a
presença de mulheres no poder e a “representação
substantiva” dos interesses delas, isto é, “se as mulheres
buscam e são capazes de promover as questões das
mulheres”.40

Assim, a diversidade de mulheres e de problemáticas que lhes dizem


respeito encontram na perspectiva de gênero um meio de fazer avançar suas
propostas. Portanto, a perspectiva de gênero é um dos processos
socioculturais mais valiosos,41 "abrange, de maneira, concomitante, provocar
mudanças na sociedade, nas normas, nas crenças, nos valores e no próprio
Estado, ocasionando mal estar nas pessoas mais rígidas e/ou resistentes"42.
Para Teresa Kleba Lisboa, ainda, a proposta de uma democracia de
gênero parte da ruptura do paradigma de público x privado atrelado aos
gêneros:
[...] a proposta de uma democracia de gênero, não só deve
buscar estabelecer as mudanças necessárias na situação
desigual das mulheres, mas, principalmente, investir na
construção de relações de reciprocidade com os homens:
realizar ações conjuntas com os homens para as quais é
necessário compartilhar espaços políticos; que as mulheres
possam trazer seus problemas para o espaço público e coloca-
los de igual para igual, na agenda política!43

Mostra-se relevante, por esta ótica “articular o ódio à democracia ao ódio


a toda forma de vida cuja marcação de gênero a faça ininteligível diante das
estruturas normativas que sustentam os regimes democráticos”44, para que se

40 MIGUEL, Luís Felipe. Gênero e representação política. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI,
Flávia. Feminismo e política: uma introdução. p. 107.
41 LISBOA, Teresa Kleba. Democracia de gênero: é possível um pacto entre as mulheres?

Revista Feminismos. p. 7.
42 LISBOA, Teresa Kleba. Democracia de gênero: é possível um pacto entre as mulheres?

Revista Feminismos. p. 7-8.


43 LISBOA, Teresa Kleba. Democracia de gênero: é possível um pacto entre as mulheres?

Revista Feminismos. p.8.


44 RODRIGUES, Carla. Problemas de gênero na e para a democracia. Ciência e Cultura. p.

34.
13
possa promover uma revolução democrática de gênero, a fim de romper
efetivamente as barreiras entre o público e o privado que historicamente têm
afastado as mulheres dos espaços públicos e da efetiva atuação política.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisando-se o chamado “ódio à democracia” a partir da perspectiva de
Jacques Ranciére e fazendo um paralelo entre este fenômeno e a realidade
social que tem historicamente afastado as mulheres da participação política,
observamos que a democracia representa um governo anárquico e
fundamentado na ausência de qualquer título para governar, instituindo-se a
participação do acaso na estruturação do poder político.
Deste modo, historicamente as elites e oligarquias manifestam seu ódio
à democracia pela resistência na aceitação de membros de setores não
privilegiados da sociedade em locais de poder.
Porém, quando se fala da participação política das mulheres, observa-se
que a sua exclusão da esfera pública se em uma dualidade entre público e
privado, estruturada no gênero.
E é a partir do gênero que são construídos os papeis de homens e
mulheres na sociedade, organizando-a em um sistema patriarcal.
Nesta sistematização, a ordem social funciona como uma máquina,
ratificando a dominação masculina na divisão social do trabalho, da distribuição
de atividades a cada um dos sexos, atribuindo aos homens o espaço público e
às mulheres o espaço privado45.
Portanto, a diferenciação entre o público e o privado historicamente
implicou papéis sociais diferenciados para homens e mulheres, isolando as
mulheres da participação efetiva na esfera pública.
Tendo como base esta dualidade é que as mulheres foram
historicamente relegadas à esfera privada ou doméstica, o que acaba por
impactar sobremaneira o acesso das mulheres a cargos políticos, muito

45 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. p. 18.


14
embora a conquista pelo voto já venha de muitas décadas.
É por isto que se propõe um modelo político feminista, que busque
redefinir o que se chama de "público" e "privado" em uma efetiva ruptura,
promovendo a ascensão feminina no âmbito político da sociedade.
Mostra-se extremamente relevante a proposta de um pacto político
feminista, em oposição a este novo “ódio à democracia”, construindo-se
caminhos e soluções para que seja possível que mais mulheres cheguem a
posições de poder na sociedade, promovendo-se uma agenda política
feminista.

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perspectiva de género sobre uma perspectiva de género sobre uma dicotomia
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Acesso em: 25/09/2020.

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