Você está na página 1de 5

A EFUSÃO DO DOM DO ESPÍRITO

Salvador Carrillo Alday

1. A efusão do Espírito ou batismo no Espírito ou batismo no Espírito Santo.

Um dos elementos mais significativos da Renovação no Espírito Santo, muito


estreitamente unido ao encontro pessoal com Cristo glorificado, é a oração para a
“efusão do dom do Espírito”, também chamada “renovação do nosso batismo
messiânico” ou impropriamente “batismo no Espírito Santo”. A expressão tem sua
origem naquele texto dos Atos: “João batizou na água, mas vós sereis batizados no
Espírito Santo dentro de poucos dias” (At 1,5; cfr 11,16). Foi em Pentecostes que se
cumpriu essa promessa do Senhor Jesus1.

Em que consiste essa “efusão do Espírito Santo” ou “ser batizado no Espírito


Santo”, ou “batismo no Espírito”?

2. É uma oração de fé, não é um ato sacramental.

Não se trata, de maneira alguma, de um sacramento. Sabemos, certamente, que o


homem “torna-se cristão” mediante um processo. Esse processo compreende:

a) a conversão e a fé em Cristo Jesus;

b) a recepção dos sacramentos de iniciação: batismo, confirmação e eucaristia (cfr 1Cor


12,13; Gl 3,26-27; 4,6; Rm 6,3-4; 8,9. 14-17; Jo 6,51-58).

Todo aquele, pois, que recebeu os sacramentos da iniciação cristã, tornou-se filho de
Deus, foi incorporado a Cristo morto e ressuscitado, recebeu o dom do Espírito
Santo e pode participar da Eucaristia, banquete da Nova Aliança2.

A oração para a “efusão do Espírito Santo” consiste na oração, cheia de fé e


esperança, que uma comunidade cristã eleva Jesus glorificado para que derrame seu

1
Documentos de Malines, Orientações teológicas e pastorais da Renovação Carismática Católica. Edições Loyola,
São Paulo. Brasil 1975.
F. D. Bruner, A Theology of the Holy Spirit: the Pentecostal Experience and the New Testament Witness. Grand
Rapids, Michigan 1970.
S. Carrillo Alday, O batismo no Espírito Santo. Edições Louva-a-Deus, Rio de Janeiro, Brasil, 1984.
J.M. Carrigues, L’effusion de I’Esprit. La Vie Spirituelle” 128 (1974) 73-81.

J.D.G. Dunn, Baptism in the Holy Spirit. SCM Press, London 1970.
F.A. Sullivan, Baptism in the Holly Spirit: a Catholic Interpretation of the Pentecostal Experience. “Gregorianum”
55 (1974) 49-68.
P. Shoonemberg, El batismo en el Espiritu Santo. “Concillium”, número especial. Novembro 1974, p. 59-81.
Y. Congar, El Espiritu Santo. Herder, Barcelona 1983, pág. 392-404.
Fr. Martin, Le baptême dans I’Esprit. Tradition du Nouveau Testament et vie de I’Eglise. NouvRev Theol T. 106
(1984) n.1 p.23-58.

2
“Ordo baptism parvulorum”: 15 de janeiro de 1969, nº 6 – Cons. Apost. “Divinae consortium naturae”: 15 de
agosto de 1971. – Initiatio christiana adultorum”: 6 de janeiro de 1972. – Const. Dogm “Lumen Gentium” n. 11.
Decr. “Presbyterorum Ordinis” nº 5
Espírito, de maneira nova e em abundância, sobre a pessoa que ardentemente o pede e
por quem os demais oram3.

Essa oração é feita geralmente mediante a imposição de mãos, que não é um gesto
mágico, nem um rito sacramental, mas um gesto sensível de amor fraterno, uma
expressão eloqüente de comunhão humana, um sinal externo de solidariedade na oração,
com o desejo ardente, submetido à vontade de Deus, de que Jesus derrama sobre nosso
irmão o dom do Espírito Santo que Ele nos comunicou4.

3. É uma nova missão do Espírito Santo.

Esta nova efusão do Espírito Santo pode explicar-se à luz da teologia das
“missões divinas”. “Que o Espírito Santo seja enviado ou venha de novo, não quer dizer
que se tenha ido embora mas que surge na criatura um relacionamento novo com o
Espírito: ou porque antes nunca estivera ali ou talvez porque começa a estar de maneira
diferente da que estivera antes5.
Tratando-se, inclusive, de uma pessoa que se encontra em estado de graça e que,
portanto, é habitada pelo Espírito Santo, pode-se dizer que o Espírito Santo lhe é
enviado de novo. Santo Tomás de Aquino ensina-o claramente. A missão do Espírito se
dá para o aumento da graça, quando alguém é elevado a um novo estado de graça, ou
para o progresso na virtude, ou para a manifestação de um carisma do Espírito. O
próprio Santo Tomás oferece os seguintes exemplos: quando alguém, ardendo em fervor
de caridade, se expõe ao martírio ou renuncia ao que possui; ou empreende qualquer
outra empresa árdua; ou quando alguém progrida no dom de milagres ou de profecia6.

4. É uma graça que renova e atualiza as graças já recebidas.

Em termos sacramentais, esta nova efusão do Espírito é uma graça que renova,
atualiza de maneira existencial e põe em atividade o rico caudal de graças que Deus
tem dado a cada um através dos sacramentos recebidos.

Porá em atividades, em alguns, o que recebeu somente no seu batismo; em outros, o


que Deus tem dado também através da reconciliação e da eucaristia. Nestes ativará a
graça matrimonial; naqueles renovará o carisma sacerdotal. De maneira análoga,
esta graça beneficiará também os carismas do próprio estado de vida e de vocação
3
João XXIII e Paulo VI anelavam para a Igreja uma nova efusão de Espírito Santo. Ver capítulo II. A oração em
comunidade assegura a eficácia da súplica: “Eu vos asseguro também que se dois dentre vós se põem de acordo
na terra para pedir algo, seja o que for, consegui-lo-ão de meu Pai que está nos céus. Porque onde estão dois ou
três reunidos em meu Nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,19-20).
Que pensar então se se trata de pedir o Espírito Santo, dom por excelência de Deus? Cfr Lc 11,13.

4
A imposição de mãos é um gesto que encontramos com freqüência no N. T., e nem sempre em função de conferir
ministério ordenado: Mt 9,18; 19,15; Mc 6,5; 7,32; 8,23-25; 16,18; Lc 4,40; 13,13; At 9,12.17; 13,3; 28,8. – cfr. R.
Laurentin, Pentecostalismo entre os católicos. Editora Vozes Ltda, Petrópolis 1977.

5
S. Tomás, Suma Teológica / q 43 a 1

6
S. Tomás, Suma Teológica / q 43 a 6 ad 2m: “Sed tamen Secundum ilud augmentum gratie praecipue missio
invisibilis attenditur, quando aliquis proficit in aliquem novum actum, vel novum statum gratiae; ut puta cum aliquis
proficit in gratiam miraculorum aut prophetiae, vel in hoc quod ex fervore caritatis exponit se martirio, aut
abrenuntiat his quae possidet, aut quodcumque o pus arduum aggreditur”.
F.A. Sullivan, Baptism in the Holly Spirit. Gregorianum 55 (1974) 62.
Y. Congar, El Espiritu Santo, pp. 210-217. – A. M. de Monléon, em “Instina” 1976, 347 n. 19.
pessoal; a uns fará viver em plenitude o chamado ao estado de simples celibato; em
outros levará à perfeição o dom de uma virgindade consagrada na vida religiosa.

Nesta perspectiva, a efusão do Espírito, na Renovação, tem uma semelhança


notável com o batismo no Espírito que os Apóstolos receberam no dia de Pentecostes.
Não estavam eles também perfeitamente providos com uma profusão de graças
equivalentes aos nossos sacramentos?

5. E uma graça que liberta de obstáculos e ataduras.

Esta efusão do Espírito Santo pode também compreender-se da seguinte maneira.


Segundo a palavra de São Paulo: “todos nós fomos batizados num só Espírito e
bebemos do mesmo Espírito” (1Cor 12,13); assim sendo, desde o primeiro momento
possuímos o Espírito Santo, o qual habita em nós como em seu próprio Templo (1Cor
6,19). Está ali com tida a plenitude de seu ser infinito e com toda a potencialidade de
sua atividade divina. Devido, no entanto, a obstáculos, diques e barreiras que colocamos
voluntária ou involuntariamente, a ação do Espírito não chega a manifestar-se em nós
em toda a sua plenitude.

Nestas circunstâncias, esta nova efusão de Espírito Santo é uma graça de Deus
que rompe a dureza de nosso coração, remove as traves, derruba os obstáculos e nos
dispõe para que o Espírito atue em nós com toda a liberdade. Todas estas são graças de
“libertação”, que o Espírito Santo opera no interior do crente fazendo-o crescer nessa
“liberdade para a qual Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

6. É uma nova experiência do Espírito.

O primeiro efeito desta graça é ter uma “experiência do Espírito Santo” que
habita no coração do crente que se enquadra perfeitamente no padrão de nossa teologia
tradicional.
“Sobre o modo comum pelo qual Deus está em todas as coisas – ensina Santo
Tomás – há outro especial que convém à criatura racional, na qual Deus se encontra
como o conhecido naquele que conhece e o amado naquele que ama. E, conhecendo e
amando, o homem toca o próprio Deus que habita nele como em seu templo. E isto
acontece somente pela graça santificante.
Outrossim – continua o autor – dizemos que em verdade possuímos algo, quando
podemos livremente usar ou desfrutar dele. Pela graça santificante, pois, não só
possuímos o Espírito Santo que em nós habita, como temos o poder de desfrutar da
Pessoa divina”.7

7. É princípio de vida nova.

Como conseqüência dessa “efusão de Espírito Santo”, que é abertura ao Espírito e


à sua ação soberana, virá uma verdadeira explosão de vida que se manifestará em
“frutos” de santidade e em “carismas” para edificar-se a Igreja.

7
S. Tomás, Suma Teológica / p. 43 a 3.
D. Mollat, L’experience spirituelle. Feu Nouveau, Paris 1974.
A.M. de Monléon, L’experience de Dieu dans la foi. “I I est vivant” 44, p. 21
ss; 45, p. 25-30.
Seja-nos permitido enumerar, através de exemplos, alguns dos frutos que se
percebem aqui e ali, depois dessa oração implorando a nova vida do Espírito:

- Conversão interior radical e transformação profunda de vida;


- luz poderosa para compreender melhor o mistério de Deus e seu plano de
salvação;
- novo compromisso pessoal com Cristo;
- abertura sem restrições à ação do Espírito Santo;
- exercício ativo das virtudes teologais, fé, amor, esperança;
- entrega generosa ao serviço dos demais, dentro da Igreja;
- gosto pela oração e o amor à Sagrada Escritura;
- busca ardente dos sacramentos da reconciliação e da eucaristia;
- revalorização da missão da Virgem Maria no plano da redenção;
- amor à Igreja e suas instituições;
- força divina para dar testemunho de Jesus em toda parte;
- anseio de um ilimitado campo de apostolado8.

8. É fonte de frutos e carismas do Espírito.

Esta “nova missão do Espírito” (empregando a terminologia de Santo Tomás),


beneficia o crente em todo seu ser, tocando “seu espírito, sua alma e seu corpo” (1Ts
5,23). É por isso perfeitamente normal e de nenhuma forma estranho que, por ocasião
da efusão do Espírito (seja durante a própria oração ou pouco depois, ou dias mais
tarde), a pessoa tenha uma singular “experiência de Deus” e de sua ação, não somente
por seus frutos espirituais, mas por seus efeitos sensíveis, como por exemplo: uma paz
jamais experimentada, uma alegria nunca sentida, inclusive a cura de alguma
enfermidade psicológica ou física.

É também ainda natural que nesta ocasião comecem a se manifestar, no crente,


carismas “para o bem comum”, como os enumerados por São Paulo em 1Cor 12, 7-
11; Rm 12,6-8.

9. É abertura total para receber o Espírito Santo.

É muito útil entender também que receber essa efusão do Espírito Santo não é o
mesmo que fazer uma consagração ao Espírito Santo. Na consagração predomina uma
atitude ativa: a pessoa se dá, se oferece, se entrega, se consagra, ao Espírito Santo para
que Ele realize os planos Deus tem sobre ela. Na efusão do Espírito, ao contrário,
prevalece uma atitude passiva: pede-se a Jesus glorificado que derrame seu Espírito
divino, com a abundância dos seus dons, sobre a pessoa por quem se ora. Esta atitude
ativamente passiva é semelhante à da Virgem Maria quando respondeu à vontade de
Deus, manifestada pelo anjo Gabriel: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim
segundo tua Palavra!” (Lc 1,38).

10. É o início de um novo caminhar no Espírito.

8
Os testemunhos são inúmeros: abundam em cada número das Revistas da Renovação: “New Covenant” (USA), “I I
est Vivant” (França), “Água Viva” (México), “Fuego” (Colômbia), “Alabanza” (República Dominicana), “Jesus Vive
e é o Senhor” (Brasil); “Koinonia” (Espanha), I.C.C.R.O.” (Roma), “Alleluya” (Itália,) “Tychique” (França), “Água
Viva” (Costa Rica), “Renascer” (Guatemala), etc.
Temos que notar finalmente que esta “nova efusão de Espírito” não engloba todas
as riquezas da Renovação no Espírito Santo. Assim como o batismo no Espírito não foi
para os Apóstolos senão o início de uma vida nova no Povo de Deus (At 1,5-8; 2,1),
assim também esta efusão de Espírito não é na Renovação um fim, mas somente o
princípio, o arranque de uma vida nova, de um novo caminhar no impulso do Espírito,
de um viver realmente em plenitude na vida cristã (Gl 5,16-25).

Como se pode ver facilmente, esta “efusão de Espírito” é muito importante e tem
grandes conseqüências para a vida do cristão. Assim sendo, vale bem a pena –
pastoralmente falando – preparar devidamente as pessoas para este acontecimento.
Esta preparação coincide com a “primeira evangelização” de que tratamos no
capítulo anterior.

S.S. João XXIII anelava por um novo Pentecostes para a Igreja e o Papa Paulo VI
implorava, em 9 de maio de 1975, “uma nova efusão do Dom de Deus: que venha, pois,
o Espírito Criador para renovar a face da terra!”9.

Pois bem, “sem que isso suponha desconhecer ou desprezar o que germina, cresce
e floresce em qualquer parte, podemos dizer que a Renovação, em seu nível e a sua
maneira, é uma resposta à espera pentecostal expressada por João XXIII e por Paulo VI,
que também falou que a Igreja tem necessidade de um perene Pentecostes”.10

(Fonte: Livro “A Renovação no Espírito Santo”, de Salvador Carrillo Alday, M. Sp. S.,
da Editora Louva-a-Deus de 1986 Rio de Janeiro. Páginas: 50 à 59).

9
Paulo VI: “não é que os efeitos de Pentecostes tenham deixado de ser atuais ao longo da história da Igreja, mas são
tão grandes as necessidades e os perigos deste século, são tão vastos os horizontes de uma humanidade conduzida
para uma coexistência mundial que logo se vê incapaz de realizar, que essa humanidade não pode ter salvação senão
em uma nova efusão do Dom de Deus. Venha, pois, o Espírito Criador para renovar a fase da terra”. Ext. Apost.
“Gaudete in Domino” de 9-5-1975 n. VII.

10
Y. Congar, El Espiritu Santo, p. 356.

Você também pode gostar