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MÉTODOS DE PARTIDA EM MOTORES DE CORRENTE CONTÍNUA

Carlos Eduardo Salvi, Gean Galina.

Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus Erechim Departamento de
Engenharias e Ciências da Computação
Curso de Engenharia Elétrica
carlos_edu_salvi@yahoo.com.br, gean.galina42@gmail.com

Resumo – O presente artigo aborda as principais sistemas CC continuaram sendo uma parcela significativa das
características dos sistemas de partida em motores de máquinas compradas, isso entrou em declínio nos últimos 40
corrente contínua. Após uma breve revisão bibliográfica, anos. Mesmo assim, os motores CC continuaram sendo
o objetivo será contextualizar as informações obtidas em populares mesmo com os sistemas CC se tornando cada vez
outras publicações científicas para poder descrever os mais raros. Qual o motivo disso? Há diversas razões para tanto.
principais objetivos dos sistemas de partida descritos. Sistemas de potência CC foram e ainda são muito populares
Serão citados alguns tópicos importantes na em carros, tratores e aeronaves. Esses veículos já possuem
implementação dessas máquinas elétricas no geral. sistemas elétricos CC, assim faz sentido considerar o uso de
motores CC. Outra aplicação para esse tipo de motores é onde
Keywords – motores CC, corrente contínua, partida CC. necessita uma ampla faixa de velocidades, pois não existiam
retificadores e inversores baseados em eletrônica de potência,
I. INTRODUÇÃO
o que tornava os motores CC insuperáveis em aplicações desse
Os motores elétricos são dispositivos que convertem tipo.
energia elétrica em energia mecânica (TORO, 1999, p. 107)
ou, também, podem ser definidos como conversores
eletromecânicos de potência capazes de gerenciar elevados
níveis de energia (SIMONE; CREPPE, 2002, p. 84).
Quando o sistema é energizado com corrente alternada, são
utilizados os motores de corrente alternada (CA) e quando é
energizado com corrente contínua, são utilizados os motores
de corrente contínua (CC) (TORO, 1999, p. 107).
A principal aplicação dos motores CC está ligada ao
controle de velocidade quando existe a necessidade de manter
o torque da máquina, mesmo com a variação de velocidade.
Porém, os motores CC possuem custos elevados, em relação
aos CA, necessitam de manutenção mais frequente e não são
recomendados para alguns ambientes como, por exemplo,
quando existem gases que possam causar explosão
(CARVALHO, 2007, p. 85).
As máquinas CC consistem em máquinas versáteis, visto
que podem fornecer torques de partida elevados, assim como
torques de aceleração e desaceleração também elevados. No
caso dos motores, a energia elétrica é suprida aos condutores
e ao campo magnético da máquina CC para produzir o
movimento relativo entre eles e, assim, produzir energia
mecânica. Dessa forma, a energia elétrica é fornecida aos
enrolamentos da armadura da máquina, gerando um campo
magnético. Esse campo interage com o campo magnético
produzido pelos enrolamentos de campo, fazendo surgir uma
força eletromotriz que causa a rotação do eixo do motor (DEL
TORO, 1994) (FITZGERALD et al, 2006) (KOSOW, 2008).

II. CARACTERÍSTICAS DOS MOTORES CC


FIGURA1 – Motores CC primitivos
Os primeiros sistemas de potência dos EUA eram de
corrente contínua, mas na década de 1890 os sistemas CA Existem vários tipos de motores CC, como o de excitação
estavam ultrapassando os CC. Apesar disso, até 1960 os independente, em série, composto, de imã permanente entre
outros. Não será abordado as especificidades de cada tipo,
partiremos para as características dessas máquinas no geral, A tensão interna gerada EA de um motor ou gerador
para em seguida poder abordar os métodos de partida para CC é dada pela Equação:
esses motores.
EA = KΦω
A) CIRCUITO EQUIVALENTE DE UM MOTOR CC
Portanto, EA é diretamente proporcional ao fluxo e à
O circuito equivalente de um motor CC está mostrado na velocidade de rotação da máquina. Como a tensão interna
Figura 2-a. Nessa figura, o circuito de armadura é representado gerada relaciona-se com a corrente de campo da máquina? A
por uma fonte de tensão ideal EA e um resistor RA. Essa corrente de campo em uma máquina CC produz uma força
representação é na realidade o equivalente Thévenin da magnetomotriz de campo que é dada por F=NFIF. Essa força
estrutura completado rotor, incluindo as bobinas do rotor, os magnetomotriz produz um fluxo na máquina de acordo com a
interpolos e os enrolamentos de compensação, se presentes. A curva de magnetização (Figura 3). Como a corrente de campo
queda de tensão nas escovas é representada por uma pequena é diretamente proporcional à força magnetomotriz e, como EA
bateria Vescova que se opõe à corrente que circula na é diretamente proporcional ao fluxo, é costume apresentar a
máquina. As bobinas de campo que produzem o fluxo curva de magnetização como um gráfico de EA versus a
magnético do gerador, são representadas pelo indutor Lf e pelo corrente de campo, para uma dada velocidade ω0(Figura 4). É
resistor RF. O resistor separado Raj representa um resistor importante observar que, para obter a máxima potência
externo variável, usado para controlar a corrente que circula possível por quilograma de uma máquina, a maioria dos
no circuito de campo. (CHAPMAN, S.J 2013 p467). motores e geradores é projetada para operar próximo do ponto
Há algumas variações e simplificações desse circuito de saturação na curva de magnetização (no joelho da curva).
equivalente básico. A queda de tensão nas escovas é Isso significa que frequentemente um incremento bem grande
frequentemente apenas uma fração mínima da tensão gerada da corrente de campo é necessário para obter um pequeno
em uma máquina. Portanto, em casos não muito críticos, a aumento em EA quando o ponto de operação está próximo da
queda de tensão nas escovas pode ser desprezada ou incluída plena carga. (CHAPMAN, S.J 2013 p468).
de forma aproximada no valor de RA. Além disso, algumas
vezes a resistência interna das bobinas de campo é combinada
com o resistor variável e a resistência total é denominada RF
(Figura 2-b). Uma terceira variação é que alguns geradores
têm mais do que uma bobina de campo, todas as quais são
incluídas no circuito equivalente. (CHAPMAN, S.J 2013
p467).

FIGURA 3 – Curva de magnetização de um material


ferromagnético. (CHAPMAN, S.J 2013 p468).

FIGURA 2 - (a) O circuito equivalente de um motor CC. (b)


Um circuito equivalente simplificado em que a queda
detensão nas escovas foi eliminada e Raj foi combinada com
a resistência de campo.
FIGURA 3 – Curva de magnetização de uma máquina CC
B) CURVA DE MAGNETIZAÇÃO (CHAPMAN, S.J 2013 p469).
III. PARTIDA DOS MOTORES CC queimarão, abrindo o circuito antes que o motor sofra danos.
Chaves do tipo botoeira de mola podem ser de dois tipos,
Para que um motor CC faça adequadamente o seu trabalho, normalmente aberta e normalmente fechada. As do tipo
ele deve estar associado a alguns equipamentos especiais de normalmente aberta permanece aberta enquanto o botão não é
controle e proteção. Os propósitos desses equipamentos são: pressionado e é fechada quando o botão é pressionado. Por
proteger o motor de danos causados por curtos-circuitos, outro lado, um contato normalmente fechado permanece
sobrecargas de longa duração, correntes de partida excessivas fechado enquanto o botão não é pressionado e é aberto quando
e propiciar um modo conveniente para controlar a velocidade o botão é pressionado. (CHAPMAN, S.J 2013 p510).
de operação do motor. (CHAPMAN, S.J 2013 p505).
A corrente de partida em motores CC é bastante elevada,
podendo ser superior a 20x a corrente nominal do motor em
plena carga. Isso pode danificar severamente e
irreversivelmente a máquina, mesmo que essas correntes
durem apenas alguns instantes. Isso ocorre, porque a
resistência interna de um motor CC normal é muito baixa.
Uma forma de resolver isso é inserindo uma resistência em
série com a armadura do motor, mas não de forma permanente,
apenas para que o motor se estabilize, depois essa resistência
precisa ser retirada para não haver perda de rendimento na
máquina. Essa resistência deve ser variável, sendo ajustada
conforme a velocidade do motor for aumentando. Segue um
exemplo de partida com uma resistência constituída por
segmentos:

FIGURA 5 – (a) Um fusível. (b) Chaves do tipo botoeira


normalmente aberta e normalmente fechada. (b) Uma bobina
de relé e contatos. (d) Um relé com retardo de tempo (RT) e
seus contatos. (d) Relé térmico de sobrecarga (SC) e seus
contatos normalmente fechados. (CHAPMAN, S.J 2013
p511).

Um relé consiste em uma bobina principal e diversos contatos.


A bobina é simbolizada por um círculo e os contatos são
mostrados como linhas paralelas. Há dois tipos de contatos –
normalmente aberto e normalmente fechado. Um contato
normalmente aberto permanece aberto enquanto o relé não for
energizado e um contato normalmente fechado permanece
FIGURA 4 – Circuito manual de partida para um motor CC fechado enquanto o relé não for energizado. Quando energia
(CHAPMAN, S.J 2013 p507). elétrica é aplicada ao relé (o relé é energizado), seus contatos
mudam de estado: os contatos normalmente abertos fecham e
No início esses circuitos de partida eram constituídos por os contatos normalmente fechados abrem. Um relé com
resistores contínuos, constituídos por várias seções, assim retardo de tempo está mostrado na Figura 5-d. Ele se comporta
havia uma pessoa que movia uma alavanca, variando a exatamente como um relé comum, a diferença consiste em
resistência e removendo gradativamente as seções, variando a que, após ser energizado, decorre um período ajustável de
velocidade. Esse método acabou ficando ultrapassado, sendo tempo antes que seus contatos mudem de estado. Um relé
substituído por circuitos de partida automáticos, eliminando a térmico de sobrecarga está mostrado na figura 5-e. Consiste
chance de erro humano. em uma bobina de aquecimento e alguns contatos
Existem métodos de conexão e desconexão das resistências normalmente fechados. A corrente que circula pelo motor
do circuito necessitando introduzir alguns outros componentes passa através das bobinas de aquecimento. Se a carga do motor
no circuito, para que seja possível realizar esse chaveamento. se tornar demasiadamente elevada, então a corrente que
A figura 5 ilustra alguns dos dispositivos comumente usados circula por ele aquecerá as bobinas, fazendo com que os
em circuitos de controle de motores. Os dispositivos contatos normalmente fechados do relé de sobrecarga se
mostrados são fusíveis, chaves do tipo botoeira, relés, relés de abram. Por sua vez, esses contatos podem ativar alguns tipos
retardo e relés de sobrecarga. Fusíveis servem para proteger o de circuitos de proteção do motor. Um circuito comum de
motor contra curtos-circuitos e são inseridos nas linhas de partida de motor, usando esses componentes, está mostrado na
alimentação que levam energia ao motor. Se ocorrer um curto- Figura 6. Nesse circuito, diversos relés de retardo fecham
circuito em um motor, os fusíveis instalados nas linhas contatos depois que o motor é ligado. Ao fazer isso, cada
segmento da resistência de partida é removido do circuito no IV. O SISTEMA WARD-LEONARD E OS
momento aproximadamente correto. Nesse circuito, quando o CONTROLADORES DEVELOCIDADE DE ESTADO
botão de partida é apertado, o circuito de armadura do motor é SÓLIDO
ligado à sua fonte de tensão e a máquina arranca com toda a
resistência do circuito. Entretanto, o relé de retardo de tempo Um motor CA servindo de máquina primária para um
1RT é energizado no mesmo instante em que o motor arranca, gerador CC, que por sua vez é usado para suprir uma tensão
de modo que após algum tempo os contatos de 1RT fecharão CC a um motor CC, é denominado como sistema Ward-
e removerão o primeiro segmento da resistência de partida do Leonard. Nesse sistema de controle para motor, a tensão de
circuito. Ao mesmo tempo, o relé 2RT é energizado, de modo armadura do motor pode ser controlada variando a corrente de
que após outro retardo os contatos de 2RT fecharão e campo do gerador CC. Essa tensão de armadura permite que a
removerão o segundo segmento da resistência de partida. velocidade do motor seja variada suavemente entre um valor
Quando os contatos de 2RT fecham, o relé 3RT é energizado muito pequeno e a velocidade base. A velocidade do motor
e o processo é repetido novamente. Finalmente, o motor estará pode ser ajustada para valores acima da velocidade base
funcionando a plena velocidade, sem nenhuma resistência de reduzindo a corrente de campo do motor. Com uma
partida presente em seu circuito. Se os retardos forem configuração tão flexível, torna-se possível um controle total
escolhidos adequadamente, os segmentos da resistência de da velocidade do motor. (CHAPMAN, S.J 2013 p516).
partida poderão ser removidos exatamente nos instantes
corretos, de modo que acorrente do motor fica limitada aos
valores do projeto. (CHAPMAN, S.J 2013 p511-512).

FIGURA 7 – (a) Um sistema Ward-Leonard para controle de


velocidade de um motor CC. (b) O circuitousado para
produzir corrente de campo no gerador CC e no motor CC.
(CHAPMAN, S.J 2013 p515).
FIGURA 6 – Relés de retardo de um circuito de partida para
motor CC, que removem os segmentos da resistência de Com esse sistema é possível também inverter o sentido de
partida (CHAPMAN, S.J 2013 p512). rotação do motor invertendo a corrente de campo do gerador,
assim torna-se possível obter um ótimo controle da velocidade
do motor em ambos os sentidos de rotação. Outra vantagem é
esse tipo de sistema poder devolver energia às linhas de
alimentação, pois poderá fazer o motor operar como gerador, VI. CONCLUSÃO
reduzindo assim os custos totais de operação da máquina.
Claro que com todas essas vantagens também existem Este artigo procurou apresentar de forma sucinta os
pontos negativos na utilização de um sistema Ward- principais métodos de partida dos motores de corrente
Leonard. O usuário é obrigado a comprar três máquinas contínua (CC). As atividades industriais estão exigindo
completas de especificações nominais basicamente iguais, o máquinas elétricas com cada vez mais eficiência e totalmente
que é bastante dispendioso. A outra é que três máquinas serão controláveis, que também não sofram grandes variações
muito menos eficientes do que apenas uma. Devido ao seu devido ao acoplamento de cargas.
custo e à sua eficiência relativamente baixa, o sistema Ward- Apesar dos avanços da tecnologia tenderem para a
Leonard foi substituído nas novas aplicações por circuitos substituição das máquinas CC, ainda existem algumas
controladores baseados em tiristores. (CHAPMAN, S.J 2013 aplicações onde as máquinas CC apresentam melhor
p517). compatibilidade, tornando-se a melhor opção.
Um controlador de dois quadrantes ou um completo de
quatro quadrantes, construído com tiristores, é mais barato do VII. REFERÊNCIAS
que as duas máquinas extras necessárias ao sistema Ward-
Leonard. Assim, nas novas aplicações, os sistemas de controle [1] DEL TORO, Vincent. Fundamentos de máquinas
de velocidade de estado sólido estão substituindo largamente elétricas. Prentice-Hall do Brasil, 1994.
os sistemas Ward-Leonard. [2] CARVALHO, Geraldo. Máquinas elétricas. São Paulo:
Um controlador típico de dois quadrantes para motor CC Érica, 2007.
em derivação com controle da velocidade por tensão de [3] SIMONE, Gilio Aluisio; CREPPE, Renato Crivellari.
armadura está mostrado na Figura 8. Esse controlador tem Conversão eletromecânica de energia. São Paulo: Érica,
uma tensão de campo constante fornecida por um retificador 2002.
trifásico de onda completa e uma tensão variável de terminal [4] FITZGERALD, A. E; KINGSLEY, Charles; UMANS,
de armadura fornecida por seis tiristores configurados como Stephen. Máquinas elétricas: com introdução à eletrônica
um retificador trifásico de onda completa. A tensão fornecida de potência. 6. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006
à armadura do motor é controlada pelo ajuste do ângulo de [5] KOSOW, Irving Lionel. Máquinas elétricas e
disparo dos tiristores na ponte. Como esse controlador de transformadores. SãoPaulo: Globo, 2008.
motor tem uma tensão de campo fixa e uma tensão de [6] CHAPMAN, S. J. Maquinas eléctricas. 3.ed. Bogotá:
armadura variável, ele é capaz de controlar a velocidade do McGraw Hill, 2000.
motor apenas em velocidades iguais ou menores do que a [7] CHAPMAN, S. J. Maquinas eléctricas. 3.ed. Bogotá:
velocidade base. (CHAPMAN, S.J 2013 p519). McGraw Hill, 2013.
[8] PAIXÃO, Jacqueline Pinho. Controle de velocidade de
motores elétricos. 2009. 62 p. Monografia
(Especialização em Automação Industrial) - Programa de
PósGraduação em Automação industrial, UTFPR,
Curitiba.

FIGURA 8 – (a)Um controlador típico de estado sólido para


motor CC em derivação. (b)Uma vista detalhada da placa
com os circuito eletrônicos de baixa potência. Pode-se ver os
ajustes para os limites de corrente, a taxa de aceleração, a
taxa de desaceleração, a velocidade mínima e a velocidade
máxima. (CHAPMAN, S.J 2013 p515).