Você está na página 1de 23

CIÊNCIA POLÍTICA E TEORIA DO ESTADO

INTRODUÇÃO E PRINCÍPIOS BÁSICOS


Caio Benevides Pedra

-1-
Olá!
Nesta unidade, começaremos a discutir um pouco sobre Ciência Política e Teoria do Estado, dois ramos do

conhecimento fundamentais para quem está começando a estudar Direito. É muito importante, no entanto, ter

em mente desde já que esse material é apenas uma complementação aos seus estudos, o que pode te ajudar a

tirar algumas dúvidas, mas não dispensa a leitura dos autores aqui indicados.

Bons estudos!

-2-
1.0 Introdução à Ciência Política e à Teoria do Estado
Se você está se perguntando por que precisa estudar Ciência Política e Teoria do Estado no início de um curso de

Direito, saiba que essa pergunta vem sendo feita há muito tempo, por inúmeros estudiosos. Historicamente,

segundo Bonavides (2011, p. 48), a Ciência Política levou muito tempo para se tornar uma ciência autônoma na

França, por exemplo. Antes disso, suas discussões e temáticas eram todas abarcadas pelo Direito, principalmente

o Direito Constitucional (e essa aproximação ainda existe, como vocês vão perceber quanto mais se

aprofundarem).

Até mesmo o nome “Ciência Política” precisou de tempo para se firmar e ser por todos reconhecido como algo

específico e determinado. Isso porque, na cultura anglo-americana, por exemplo, o que se chamava “Ciência

Política” era, na verdade, um acúmulo de relatos e experiências vividas por instituições (casos em que os

interesses em jogo eram sempre ditados pelas forças políticas competitivas) ou análises técnicas que se

constituíam ignorando os desenvolvimentos teóricos. (BONAVIDES, 2011, p. 46).

Já na Alemanha, os juristas que se dedicavam a esse estudo, sempre envolvidos com o culto e a superstição do

poder, só recentemente passaram a reconhecer uma “Ciência Política” propriamente dita, com contribuições e

construções próprias, independentemente do condicionamento jurídico, sob a influência de correntes

americanas excessivamente pragmáticas. Antes disso, esses estudos eram todos abarcados pela “Teoria Geral do

Estado”, que apenas reconhecia variações de método e conteúdo dentro de sua amplitude. (BONAVIDES, 2011, p.

46).

A denominação “Teoria Geral do Estado”, que foi forte na Alemanha, não teve a mesma força na França e só

chegou ao Brasil na década de 1940, durante a ditadura, ingressando nos currículos dos cursos de Direito, por

imposição do regime ditatorial e não por pertinência temática ou pedagógica. À época, a Constituição da

República de 1937 enfrentava grande resistência nas escolas pelos professores de formação democrática.

(BONAVIDES, 2011, p. 46).

O fato é que a evolução terminológica veio também acompanhada da evolução dos métodos e delimitações da

Ciência Política enquanto ciência, ramo do saber. Assim, segundo Soares (2004, p. 5-7), a Ciência Política estuda

“a realidade política, o fenômeno político, o mundo ou o universo político e a res publica” (expressão do

latim que significa "coisa do povo" ou "coisa pública", e que deu origem à palavra “república”). Seu objeto de

estudo, então, é “o conhecimento do universo político polarizado pelo fenômeno político do poder”, que ela

analisa e transforma em um “conhecimento ordenado, racional, objetivo e metódico” que pode ser recepcionado

pelos outros ramos do saber, inclusive a Teoria do Estado, que vai, a partir desse arcabouço de ideias, buscar

-3-
entender se o Estado deve se colocar e atuar diante dos fenômenos atuais, além de como fazê-lo. Esse

entendimento se dá a partir do conhecimento e da interpretação das relações de que eles possuem com a

história e com a realidade global.

Fonte: Corgarashu, Shutterstock, 2020

#PraCegoVer: balança que simboliza a justiça em um local com bancos de madeira típicos de um tribunal

Assista aí

https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/746b3e163a5a5f89a10a96408c5d22c2

/7d6e2c5f37028f4f88e86a084606dc89

1.1 Conceituação da Ciência Política e da Teoria do Estado

Desde que Kant (em seu livro Elementos Metafísicos das Ciências da Natureza) definiu como “ciência” a “toda

série de conhecimentos sistematizados ou coordenados mediante princípios”, a ação intelectual dos positivistas

e dos evolucionistas desenvolveu esse conceito de forma a torná-lo cada vez mais preciso. Desenvolvimento esse

que culminou na formulação de um conceito de “ciência” como sendo “o conhecimento das relações entre coisas,

fatos ou fenômenos, quando ocorre identidade ou semelhança, diferença ou contraste, com existência ou

sucessão nessa ordem de relações”. (BONAVIDES, 2011, p. 26).

Como vimos, a Ciência Política precisou de muito tempo para se desvencilhar do Direito e ser reconhecida como

uma ciência autônoma, com seus próprios métodos e objetos. Uma vez reconhecida, no entanto, vamos ver como

ela é conceituada enquanto área de conhecimento a partir desses critérios estabelecidos e desenvolvidos ao

longo das décadas de estudo.

-4-
-5-
1.2 Ciência Política

Para conceituar “Ciência Política” e “Teoria do Estado”, Pinto (2013) faz uma escolha interessante e recorre à

filologia e ao estudo da linguagem em fontes históricas escritas, de forma a entender melhor os significados dos

termos que compõem essas expressões e produzir conhecimento a partir dessas nomenclaturas.

Primeiramente, então, ele recorre ao conceito de “ciência” disposto no dicionário mais famoso e tradicional da

língua portuguesa:

Atentos à objetividade desejada, lembramos que, para Aurélio Buarque de Holanda, ciência é “[...]

saber que se adquire pela leitura e meditação; [...] Conjunto de conhecimentos socialmente

adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que

permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam

compreender e [...] orientar a natureza e as atividades humanas [...]”. (PINTO, 2013, p. 3).

Em seguida, para complementar essa análise, recorre à conceituação de um filósofo:

Para Régis Jolivet, o termo ciência pode ser encarado nos pontos de vista objetivo e subjetivo:

“Objetivamente, a ciência é conjunto de verdades certas logicamente encadeadas entre si, de maneira

que forme um sistema coerente [...]. Subjetivamente, a ciência é um conceito certo das coisas por

suas causas ou por suas leis.” A ciência demanda, portanto, objeto, método e lei. (PINTO, 2013, p. 3).

Trabalhada a análise do termo “ciência”, o autor segue sua análise terminológica dedicando-se, então, ao termo

“política”, que é uma expressão bastante conhecida e discutida pela filosofia:

Os autores, normalmente, separam o conceito clássico e conceito moderno de política. Assim é, por

exemplo, no Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino.

Para o conceito propagado por Aristóteles em sua obra Política, o termo significa a “Arte de

Governar”, abrangendo a natureza, as funções e as várias formas de governo. O termo política

consagrou-se classicamente no âmbito acadêmico como sendo estudo de atividades humanas

referentes à existência do Estado, do poder soberano e de seu exercício. (PINTO, 2013, p. 4).

A este significado, o autor acrescenta considerações sobre a utilização atualizada do termo “política”, que tem

hoje inúmeras outras acepções, podendo ser utilizado para denominar “um conjunto de atividades estatais”,

como a atuação do Estado em busca de um resultado determinado. Acepção essa que dá origem às ideias de

-6-
“política eleitoral”, “política partidária” ou até “políticas públicas”, por exemplo. Nesse sentido, a “política”

assume um conceito bastante popularizado e amplamente utilizado em várias esferas e temáticas do Poder

Estatal. (PINTO, 2013, p. 4).

A partir, então, dessas reflexões, Pinto (2013, p. 4) passa a construir uma conceituação de “Ciência Política” que

respeite a filologia dos termos que compõem a expressão e combine esses significados. A "Ciência Política”,

assim, seria um estudo metódico (com a metodologia e os procedimentos sólidos e específicos que constituem

uma ciência) cujo objeto seria a política enquanto conjunto de atividades do Estado em suas mais diversas

atuações e ramificações ligadas ao exercício do poder soberano, na busca por abranger todo o fenômeno estatal.

Definir a atuação estatal como objeto de estudo da Ciência Política, no entanto, pode parecer uma simplificação,

mas não é. A força estatal é marcada pelo poder, e o poder perpassa todas as estruturas sociais. O poder é

histórico e geral, esteve e está presente em todos os momentos e em todos os grupos sociais, mas se manifesta de

formas variadas que precisam ser entendidas e discutidas. Nesse sentido, o autor destaca a amplitude dos

objetos de estudo a partir da grande e dispersa presença do poder nas estruturas sociais:

Cabe à ciência política, portanto, o estudo de todo o processo histórico do exercício do poder, desde

as estruturas mais rudimentares até as mais complexas e as mais modernas; do matriarcalismo

instintivo ao patriarcalismo, como natural expressão de força. Cabe, do mesmo modo, a análise da

estruturação ideológica do poder, dos pré-socráticos aos pensadores da atualidade. Cabe ainda o

estudo detalhado da família como célula de poder, passando pelos clãs, tribos e as polis gregas, o

Império Romano, o Império da China e as civilizações pouco conhecidas como os incas, astecas e

maias, chegando mesmo ao Estado Moderno como hoje é conhecido. No campo filosófico, portanto,

muito há o que se estudar em relação à política, e o mesmo se diga quanto aos campos sociológico,

antropológico, econômico e até o religioso. Não serão poucos, desse modo, os objetivos deste estudo

e não serão poucos os autores a serem consultados. (PINTO, 2013, p. 4).

-7-
2.0 Teoria do Estado
Pinto (2013), ainda seguindo a linha da análise terminológica, conjuga dois significados para a palavra “teoria” a

fim de construir um conceito para a “Teoria do Estado”. No mesmo dicionário brasileiro, ele descobre que:

O termo teoria significa, para Aurélio Buarque de Holanda, o “[...]Conhecimento especulativo,

meramente racional [...] Conjunto de princípios fundamentais duma arte ou duma ciência [...].

Doutrina ou sistema fundado nesses princípios[...]”. (PINTO, 2013, p. 5).

E, mais uma vez, conjugando essa definição filológica com uma definição filosófica, acrescenta que:

Já no Dicionário da Filosofia Larousse do Brasil, teoria é conceituado como um conjunto sistemático

de ideias ou conhecimentos sobre terminado tema. Completa R. Jolivet “[...] que tem por fim unificar

ou mesmo sistematizar um grande número de hipóteses ou leis em uma lei bastante geral”. (PINTO,

2013, p. 5).

A partir daí, é possível compreender a Teoria do Estado como o ramo da ciência que investiga e analisa as

principais características do Estado, bem como seus aspectos, contextos, estruturas, origens, etc. Tudo isso

com a finalidade de possibilitar reflexão e aperfeiçoamento.

Assista aí

https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/746b3e163a5a5f89a10a96408c5d22c2

/a07d8804c1147cec393c08e977278486

-8-
2.1 A Ciência Política e suas três dimensões: a filosófica, a sociológica e a
jurídica

Inúmeros e reconhecidos teóricos e juristas acompanham a tendência universal de estudar a Ciência Política a

partir de um aspecto tríplice ou tridimensional que compreenda as dimensões filosófica, sociológica e jurídica.

(BONAVIDES, 2011, p. 45-46).

Esse entendimento é consequência direta da multiplicidade e da grande abrangência do objeto de estudo da

Ciência Política, que se detém, como vimos, sobre o Estado, o poder e as relações que deles decorrem em todas as

suas esferas e âmbitos. Os fatos e realidades que se constroem e são discutidos pela Ciência Política são também

apreendidos por outros ramos do saber e essas compreensões se alimentam. Aqui, vamos analisar como se

constituem essas dimensões dentro da Ciência Política e de que forma elas se aproximam.

-9-
2.2 Dimensão Filosófica

Os assuntos políticos são temáticas que interessam os seres humanos desde os tempos mais remotos,

principalmente desde Sócrates, Platão e Aristóteles. (BONAVIDES, 2011, p. 40). É natural, então, que a filosofia

enquanto ciência tenha sempre acompanhado a sucessão de fatos históricos e a evolução da construção dos

modelos que hoje naturalizamos na sociedade, na tentativa de discutir as origens, a ideologia e a justificação do

Estado enquanto fenômeno político-cultural. Nesse sentido:

A Filosofia conduz para os livros de Ciência Política a discussão de proposições respeitantes à origem, à essência,

à justificação e aos fins do Estado, como das demais intuições sociais geradoras do fenômeno do poder, visto que

nem todos aceitam circunscrevê-lo apenas à célula máter, embriogênica, que no caso seria naturalmente o

Estado, acrescentando-lhe os partidos, os sindicatos, a igreja, as associações internacionais, os grupos

econômicos, etc.

Convive o debate filosófico ademais com a investigação sociológica com a fixação jurídica dos fatos, normas e

instituições políticas... (BONAVIDES, 2011, p. 41).

Uma vez que a Ciência Política se proponha a analisar os acontecimentos, as instituições e as ideias

políticas (bem como os seus históricos e desenvolvimentos), essas questões podem ser discutidas a

partir da análise do passado (como foram ou deveriam ter sido), do presente (como são ou deveriam

ser) ou do futuro (como serão ou deverão ser). (BONAVIDES, 2011, p. 40).

Assista aí

https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/746b3e163a5a5f89a10a96408c5d22c2

/66219a4f68c4658bc175de81f6fd7d58

- 10 -
2.3 Dimensão sociológica

Se a Ciência Política estuda fatos sociais, como vimos, sua aproximação com a Sociologia é inevitável e

indiscutível. Sendo o fenômeno político um fato social por excelência, como ensina Durkheim, a análise de um

fato político vai fundamentar uma Sociologia Política, que vai compartilhar com a Ciência Política noções e

discussões sobre grupos, classes, ideologias, etc.

E esses são aspectos fundamentais que precisam ser considerados em qualquer análise da evolução do Estado.

Bonavides (2011, p. 42-43), citando a obra de Vierkandt, destaca o caráter classista do Estado e da sociedade,

as dinâmicas de luta pelo poder nas sociedades, os partidos como representação de interesses e as tendências e

movimentos reformistas que se constituem considerando as relações de trabalho, a educação, a saúde espiritual

da juventude, e o papel da igreja, por exemplo.

Também aproximam Sociologia e Ciência Política o forte caráter histórico necessário para a análise da evolução

política. (BONAVIDES, 2011, p. 42).

2.4 Dimensão jurídica

A dimensão jurídica da Ciência Política tem como grande expoente o trabalho de Kelsen, considerado o “Pai do

Positivismo”, para quem o Estado e o Direito seriam uma única coisa. O Direito, para Kelsen, seria a lei. E a lei

seria o que definiria e constituiria o Estado. Nesse raciocínio, o papel do Estado seria o de realizar a positivação

do Direito. Seguindo essa abordagem, Kelsen propõe também uma Teoria Geral do Estado com bases

fundamentalmente jurídicas, que assimilam o Estado ao Direito.

Ainda segundo Kelsen, o Estado pertenceria ao mundo do “dever-ser” (que ele chama de “sollen”) e seria

explicado pela “unidade das normas de direito de determinado sistema”. Assim, para o autor, “quem elucidar o

direito como norma elucidará o Estado”, porque a força coercitiva do Estado é o mesmo que o grau de eficácia da

norma jurídica. (BONAVIDES, 2011, p. 44). Essa valorização do Direito é também o que faz com que a Ciência

Política tenha sido (e ainda seja um pouco) reduzida a um simples corpo de normas, objeto de estudo do Direito

Político (BONAVIDES, 2011, p. 43).

O Estado, na teoria de Kelsen, é esvaziado de toda substantividade e de todas as implicações de ordem

moral, ética, histórica, sociológica. Território e população, elementos materiais que compõem o Estado,

assumem aqui as faces de “âmbito espacial” e “âmbito pessoal” de validade do ordenamento jurídico. O que resta

é o Estado como puro conceito, retintamente jurídico. A valorização descomunal (e desproporcional) do poder

(seu elemento formal) aproxima-o da “santidade inviolável de normas concebidas como direito puro”.

(BONAVIDES, 2011, p. 44).

- 11 -
- 12 -
3.0 A Teoria do Estado e o Direito: a teoria monística,
dualística e paralelística
Não foi só Kelsen quem se dedicou a estudar e discutir a relação entre o Estado e o Direito. Essa é uma questão

que há muito ocupa os pensadores. Maluf (2010, p. 1) inicia a sua obra já chamando atenção para essa questão:

O Estado é uma organização destinada a manter, pela aplicação do Direito, as condições universais

de ordem social. E o Direito é o conjunto das condições existenciais da sociedade, que ao Estado

cumpre assegurar.

Para o estudo do fenômeno estatal, tanto quanto para iniciação na ciência jurídica, o primeiro

problema a ser enfrentado é o das relações entre Estado e Direito. (MALUF, 2010, p. 1).

Como se pode ver no trecho reproduzido, essa já é uma concepção bem moderna, que reconhece a separação

entre as ideias de Estado e de Direito sem ignorar a relação de interdependência. O Estado, para Maluf, se orienta

e se mantém pelas normas criadas pelo Direito, e ao mesmo tempo é responsável por garantir o seu

cumprimento. É justamente por isso que a compreensão dessa relação é importante desde já, no início da

formação jurídica.

Os estudos que se dedicaram a compreender as relações entre Estado e Direito dividem-se principalmente em

três teorias: a monística, a dualística e a paralelística, que vamos conhecer brevemente a seguir.

A Teoria Monística é também chamada de “estatismo jurídico” e reúne os pensadores

que acreditam que o Estado e o Direito se confundem em uma só realidade. Para os

monistas, o Estado é a única fonte do Direito e não existe qualquer regra jurídica fora do
TEORIA
Estado, somente o “direito estatal”. É o Estado quem dá vida ao Direito quando a ele
MONÍSTICA
empresta a “força coativa” de que detém o monopólio. Só o Estado pode agir por meio

da coação e uma regra jurídica sem coação seria uma “contradição em si, um fogo que

não queima, uma luz que não ilumina”. (MALUF, 2010, p. 1).

A Teoria Dualística, também chamada de “Teoria Pluralística”, por sua vez, sustenta que

o Estado e o Direito são duas realidades “distintas, independentes e inconfundíveis”.

Para os dualistas, o Estado não se confunde com o Direito e nem mesmo é sua única

fonte. O que o Estado detém é apenas o Direito Positivo (e o poder de positivar o

- 13 -
Direito), mas o Direito não é e não pode ser visto como criação estatal. Trata-se de uma

TEORIA criação social que carrega em si os frutos do desenvolvimento e das mudanças que se

DUALÍSTICA operam na vida de cada povo sob a constante influência de fatores sociais, como as

questões éticas, psíquicas, biológicas, e econômicas, por exemplo. (MALUF, 2010, p. 2).

Nesse sentido:

O direito, assim, é um fato social em contínua transformação. A função do Estado é a de

positivar o Direito, isto é, traduzir em normas escritas os princípios que se firmam na

consciência social. Normas jurídicas têm sua origem no corpo social. (MALUF, 2010, p.

2).

A Teoria Monista, como vimos, é a que não vê separação entre Estado e Direito, já que os

dois são tão próximos e dependentes que se confundem, e que acredita que o Estado é a

única fonte do Direito. A Dualística, no sentido contrário, vê diferenças e separações

claras entre o Direito e o Estado, reconhece outras fontes de Direito e concebe o Direito

enquanto fato social.

É nesse terreno que se desenvolve a Teoria Paralelística, uma corrente eclética, situada

em uma posição de relativo equilíbrio entre os extremos e que, segundo Maluf (2010, p.

2-5), vê Estado e Direito como “realidades distintas, porém necessariamente

interdependentes”.

A Teoria Paralelística, então, reconhece a existência de Direito fora do Estado ao mesmo

TEORIA tempo que admite ser o Estado o detentor da “vontade social predominante” e, portanto,

PARALELÍSTICA o único capaz de positivar o Direito. (MALUF, 2010, p. 3). Assim:

A teoria do pluralismo reconhece a existência do direito não estatal, sustentando que

vários centros determinação jurídica surgem e se desenvolvem fora do Estado,

obedecendo a uma graduação de positividade. Sobre todos estes centros particulares do

ordenamento jurídico, prepondera o Estado como centro de irradiação da positividade.

O ordenamento jurídico do Estado representaria aquele que, dentro de todos os

ordenamentos jurídicos possíveis, se afirmaria como o “verdadeiramente positivo”, em

razão da sua conformidade com a vontade social predominante. A teoria do paralelismo

completa a teoria pluralista, e ambas se contrapõem com vantagem à teoria monista.

Efetivamente, Estado de Direito são duas realidades distintas que se completam na

interdependência. (MALUF, 2010, p. 3).

- 14 -
- 15 -
4.0 A sociedade: origem e seus elementos característicos
Soares (2004, p. 14), ao discutir os inúmeros conceitos de sociedade, começa pelo mais “genérico”, a sociedade

como “o gênero humano, considerado o conteúdo abstrato e todas as formas de convivência humana ou a união

entre os homens em geral”, ou, nas palavras de Bonavides (2011, p. 57), “todo o complexo de relações do

homem com seus semelhantes”. Esse conceito genérico, no entanto, é bastante primário, uma vez que as

sociedades se constituem de formas cada vez mais complexas em razão do aperfeiçoamento de mecanismos

como a divisão do trabalho humano, o aproveitamento e controle de recursos naturais, as descobertas e

invenções.

Verifica-se que, no decorrer do processo histórico, grupos sociais passaram a executar tarefas

específicas, atingindo um amplo e intricado pluralismo social, que exige que recorra o jurista à

Ciência Política como condição para o desenvolvimento de estudo aprofundado dessas relações

sociais e jurídicas.

Assim, faz-se necessário estabelecer uma caracterização geral das complexas sociedades, delineando

os pontos em comum por meio de análise do conjunto de regras de atuação de cada sociedade.

(SOARES, 2004, p. 15).

Citando Dallari, Soares (2004, p. 15) elenca os elementos considerados necessários pelos estudos dessa natureza

para que os agrupamentos humanos sejam reconhecidos como sociedades. os seguintes:

A finalidade ou valor social


As manifestações de conjunto ordenadas (ordem social e ordem jurídica)
O poder social

Cada um destes tópicos poderá ser compreendido a seguir.

- 16 -
Fonte: Michael D Brown, Shutterstock, 2020

#PraCegoVer: imagem pictórica de pessoas em forma de desenho, em cima de um disco ou círculo, sendo que

uma delas está do lado de fora e sendo ajudada por outra a subir nele.

- 17 -
4.1 Finalidade ou valor social

Sobre a finalidade (ou valor social) da sociedade, é importante destacar que se trata de um elemento bastante

discutido pelas mais diversas teorias (ou concepções). Pela concepção determinista, então, o homem é

totalmente submetido às leis naturais e ao princípio da causalidade, não podendo escolher um objetivo ou

orientar a sua vida social pois esta estará sempre condicionada a fatores que ele não pode controlar. (SOARES,

2004, p. 15).

De acordo com a concepção finalista, o homem deve ser sujeito de sua própria história e, assim, contribuir para

transformações sociais. Já a concepção tomista acredita que o homem tem consciência de que deve viver em

sociedade e, por isso, busca fixar como objetivo da sua vida social uma finalidade condizente com o que lhe

parece mais valioso e com as suas necessidades fundamentais. (SOARES, 2004, p. 15).

Já Tomás de Aquino refere-se ao bonum commune (bem comum) como a finalidade principal da sociedade

organizada. Nesse raciocínio, é responsabilidade do Estado garantir aos membros da sociedade as condições

necessárias para que alcancem o bem-estar material e cumpram o instinto humano de conservação. A finalidade

social escolhida pelo homem, então, seria o bem comum, que consistiria no “conjunto de todas as condições de

vida que configurem e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana”. (SOARES, 2004, p. 15-

16).

Fique de olho
Foi o Papa João XXIII que formulou esse conceito de “bem comum”, tido como a finalidade das
sociedades. Segundo ele, "o bem comum consiste no conjunto de todas as condições de vida
social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana"
(Encíclica "Pacem inm Terris", II, 58)

- 18 -
4.2 Manifestações de conjunto ordenadas

A simples reunião de um grupo de pessoas em busca de um mesmo objetivo não é suficiente para garantir que

esse objetivo seja alcançado. Para isso, é preciso, antes, que esse grupo esteja organizado para agir em busca

desse fim. É disso que se trata a manifestação de conjunto ordenada: a ação de um grupo em conjunto orientada

para um fim específico. E, para isso, é preciso que essas ações tenham reiteração, ordem e adequação.

A reiteração vem da ideia de que as manifestações de conjunto em busca de um objetivo devem ser realizadas

permanentemente, e os atos individuais devem se conjugar em um todo coletivo. A ordem, que alguns autores

dividem entre natural e humana e outros em social e jurídica, diz respeito à produção das manifestações para

que se alcance o objetivo planejado, seja por causalidade ou por imputação. E, por fim, a adequação é a

necessária preocupação com as exigências e possibilidades da realidade social.

4.3 Poder Social

O poder social é uma realidade verificável em diversas modalidades de relacionamento humano e consiste na

faculdade de alguém impor a sua vontade ao outro sem necessariamente precisar recorrer ao uso da

força. (SOARES, 2004, p. 18).

O poder social sempre existiu na sociedade humana, apresentando, em qualquer grupo social, traços

característicos de sociabilidade — o poder é um fenômeno social — e de bilateralidade — o poder é

a correlação de duas ou mais vontades, sendo que uma predomina. (SOARES, 2004, p. 18).

- 19 -
5.0 Teorias sobre os fundamentos da sociedade: a
interpretação organicista e mecanicista da sociedade
As sociedades organizam-se de formas variadas, que se distinguem pelos fins, pela amplitude e pelo grau de

intensidade dos vínculos que envolvem os membros do grupo social aos tipos de associação existentes. Assim, a

partir da análise das finalidades, pode-se distinguir dois tipos de sociedades: as de fins particulares, que

possuem objetivos definidos voluntariamente escolhidos por seus membros, e as de fins gerais, que possuem

objetivos indefinidos e genéricos que se destinam a possibilitar aos indivíduos que busquem atingir seus fins

particulares. (SOARES, 2004, p. 19).

O Estado é uma forma de sociedade que Soares (2004, p. 19) denomina como “sociedade política”, que é a que

se ocupa da “totalidade das ações humanas, coordenando-as em função de um objetivo comum”, coexiste com

outras estruturas sociais, tais como a família, as tribos e os clãs, delas se diferenciando pelo monopólio legítimo

da coação física para fazer valer as suas determinações.

A interpretação organicista compreende a sociedade como “o conjunto de relações por intermédio das quais

vários indivíduos vivem e atuam solidariamente, de forma ordenada, visando estabelecer entidade nova e

superior”. Os principais teóricos que se destacaram nessa corrente foram Aristóteles, Platão, Comte

(organicismo materialista), Savigny (organicismo ético e idealista) e Del Vecchio. (SOARES, 2004, p. 13).

Bonavides também relembra Aristóteles e Platão e os apresenta como o “tronco milenar da filosofia grega” de

onde procedem os organicistas. E destaca já na produção aristotélica a ideia de que os homens são partes de um

todo que é social. (BONAVIDES, 2011, p. 58).

Na doutrina aristotélica assinala-se, com efeito, o caráter social do homem. A natureza fez um

homem um “ser político”, que não pode viver fora da sociedade.

Se a sociedade é o valor primário fundamental, se a sua existência importa numa realidade superior,

subsistente por si mesma, temos o organicismo.

Reunião de várias partes que preenchem funções distintas e que, por sua ação combinada,

concorrem para manter a vida do todo. (BONAVIDES, 2011, p. 58).

Mas é importante anotar a observação de Bonavides, que apontou que os organicistas apresentavam tendências

a adotar posições ideológicas reacionárias em relação ao poder. (SOARES, 2004, p. 13).

- 20 -
Entende esta que o homem jamais nasceu na liberdade e, invocando o fato biológico do nascimento,

mostra que desde o berço o princípio de autoridade o toma nos braços, rodeando-o, amparando-o,

governando-o. Vinte e quatro horas fora da proteção dos pais bastariam para acabar com o ser que

chega ao mundo tão frágil e desprotegido. Dependência, autoridade, hierarquia, desamparo,

debilidade, eis já no núcleo familiar os vínculos primeiros que envolvem a criatura humana e dos

quais jamais logrará desatar-se inteiramente. Fazem os organicistas a apologia da autoridade.

Estimam o social porque veem na Sociedade o fato permanente, a realidade que sobrevive, a

organização superior, o ordenamento que, desfalcado dos indivíduos na sucessão dos tempos, no

lento desdobrar das gerações, sempre persiste, nunca desaparece, atravessando o tempo e as idades.

Os indivíduos passam, a sociedade fica. (BONAVIDES, 2011, p. 59).

Os mecanicistas, por sua vez, atacam a Teoria Organicista sempre negando que exista alguma espécie de

identificação entre os organismos biológicos e a sociedade, pois a sociedade experimenta fenômenos que não

encontram equivalência na realidade do sujeito, tal como migrações, mobilidade social e suicídios, por exemplo.

No organismo individual, as partes não vivem por si mesmas, nem podem estar fora do ser que integram ou em

outra posição que não aquela que a natureza lhes determinou. (BONAVIDES, 2011, p. 60-61).

A teoria mecanicista é predominantemente filosófica, com especial destaque para os filósofos jusnaturalistas,

segundo os quais a “sociedade é um grupo derivado de um acordo de vontades formalizado por seus

próprios membros” que se unem por um “mesmo interesse comum”, que depende da conjugação de seus

esforços para que seja alcançado. De acordo com essas ideias, o fundamento da sociedade é, então, o

consentimento dos cidadãos firmado por meio do pacto social. (SOARES, 2004, p. 13-14).

A teoria mecânica é predominantemente filosófica e não sociológica. Seus representantes mais

típicos foram alguns filósofos do direito natural desde o começo da idade moderna. Seus corolários,

com rara exceção, e Hobbes é aqui uma dessas exceções, acabam, sob o aspecto político, na

explicação e legitimação do poder democrático.

Das teses contratualistas, da postulação que estas fazem, infere-se que a base da Sociedade é o

assentimento e não o princípio de autoridade.

A democracia liberal e a democracia social partem desse postulado único e essencial de organização

social, de fundamento a toda a vida política: a razão, como guia da convivência humana, com apoio

na vontade livre e criadora dos indivíduos. (BONAVIDES, 2011, p. 61).

- 21 -
Fique de olho
De acordo com a Teoria Mecanicista, são três as hipóteses que podem explicar o surgimento da
sociedade:
1- a sociedade originou-se da vontade humana formulada por meio de pacto;
2- a sociedade é resultado da última etapa de evolução da primeira hipótese, em perspectiva
material ou espiritual;
3- a sociedade teria nascido da predisposição e das necessidades da natureza humana.
(SOARES, 2004, p. 14).

Os organicistas, então, são os que “se abraçam ao valor Sociedade” e se esquecem das liberdades individuais e da

autonomia. Assim, com base nessas crenças, os organicistas tendem a assumir posições antidemocráticas,

autoritárias e de direita, bem como defender justificações reacionárias do poder e autocracia. Os mecanicistas, ao

contrário, são os que não reconhecem a sociedade como uma realidade suscetível de subsistir fora ou acima dos

indivíduos, mas apenas como uma soma de partes. (BONAVIDES, 2011, p. 59).

Se o organicismo e o mecanicismo foram as duas mais importantes formulações históricas sobre os fundamentos

da sociedade, qualquer conceito que se desenvolva sobre “sociedade” vai trazer maior influência de uma ou de

outra concepção. Assim, quando se diz que “a sociedade é o grupo derivado de um acordo de vontades, de

membros que buscam, mediante o vínculo associativo, um interesse comum impossível de obter-se pelos

esforços isolados dos indivíduos”, trata-se, na verdade, de um conceito bem alinhado ao mecanicismo. Todavia,

quando se define a sociedade como “o conjunto de relações mediante as quais vários indivíduos vivem e atuam

solidariamente em ordem a formar uma entidade superior”, estamos diante de um conceito fundamentalmente

organicista. (BONAVIDES, 2011, p. 57-58).

é isso Aí!
Nesta unidade, você teve a oportunidade de:
• compreender que a Ciência Política passou por algumas evoluções terminológicas e, principalmente,
pela evolução dos métodos e delimitações enquanto ciência, para então conseguir ser reconhecida como
ciência autônoma e se desvencilhar das outras ciências, principalmente do Direito.
• saber que, apesar de ter se desvinculado do Direito, a Ciência Política e as Ciências Jurídicas têm muitos
pontos de encontro e se alimentam em vários pontos.
• ter sempre em mente que, conforme a Ciência Política possibilita, existe um caráter classista do Estado e
da sociedade, bem como dinâmicas de luta pelo poder nas sociedades.

• compreender que o bem comum, tido como a finalidade social escolhida pelo homem, consistiria no

- 22 -
• compreender que o bem comum, tido como a finalidade social escolhida pelo homem, consistiria no
“conjunto de todas as condições de vida que configurem e favoreçam o desenvolvimento integral da
personalidade humana”.
• entender que qualquer conceito que se desenvolva sobre “sociedade” vai trazer maior influência d o
organicismo ou do mecanicismo, já que estas foram as duas mais importantes formulações históricas
sobre os fundamentos da sociedade.

Referências
BONAVIDES, P. Ciência Política. 18. ed. São Paulo: Malheiros, 2011.

MALUF, S. Teoria geral do Estado. 30. ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

PINTO, K. Curso de Teoria Geral do Estado: Fundamento do Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Atlas,

2013.

SOARES, M.L.Q. Teoria do Estado: introdução. 2. ed. rev. atual. Belo Horizonte: Del Rey, 2004.

- 23 -