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Nº 42

Lugar Comum – Estudos de mídia, cultura e democracia


é uma publicação vinculada a professores e pesquisadores do Laboratório Territó-
rio e Comunicação – LABTeC/UFRJ e à Rede Universidade Nômade.
Av. Pasteur, 250 – Campus da Praia Vermelha
Escola de Serviço Social, sala 33
22290-240 Rio de Janeiro, RJ

EQUIPE EDITORIAL
Barbara Szaniecki
Bruno Cava
Giuseppe Cocco

DESIGN: Carlos Contente


COLABORADOR: Aukai Leisner

CONSELHO EDITORIAL
Rio de Janeiro, Brasil: Adriano Pilatti, Alexandre do Nascimento, Alexandre
Mendes, Bruno Tarin, Clarissa Moreira, Cristiano Fagundes, Eduardo Baker,
Emerson Mehry, Fabricio Toledo, Gerardo Silva, Henrique Antoun, Leonora
Corsini, Marcelo Castaneda, Mariana Medeiros, Pedro Mendes, Rodrigo Bertame,
Silvio Pedrosa, Sindia Santos, Talita Tibola, Tatiana Roque e Vladimir Santafé.

Outras cidades, Brasil: Alessandra Giovanella – Santa Maria, Elias Maroso – Santa Maria, Homero
Santiago – São Paulo, Hugo Albuquerque – São Paulo, Jean Tible – São Paulo, Márcio Taschetto – Passo
Fundo, Mariângela do Nascimento – Salvador, Murilo Duarte Corrêa – Curitiba, Natacha Rena – Belo
Horizonte, Paulo Henrique de Almeida – Salvador, Peter Pal Pelbart – São Paulo, Renata Gomes – São
Paulo, Rita Veloso – Belo Horizonte, Rogelio Casado – Manaus e Simone Parrela Tostes – Belo Horizonte.

Outras cidades: Anna Curcio – Itália, Antonio Negri – Itália, Carlos Restrepo – Colômbia, César Altamira
– Argentina, Christian Marazzi – Suíça, Cristina Ribas – Reino Unido, Diego Sztulwark – Argentina, Gigi
Roggero – Itália, Javier Toret – Espanha, Matteo Pasquinelli – Itália, Michael Hardt – EUA, Michele Collin
– França, Oscar Vega Camacho – Bolívia, Raul Sanchez – Espanha, Sandro Mezzadra – Itália, Santiago
Arcos – Chile, Thierry Badouin – França, Veronica Gago – Argentina, Yann Moulier Boutang – França.

Lugar Comum – Estudos de Mídia, Cultura e Democracia


Universidade Federal do Rio de Janeiro. Laboratório Território e
Comunicação – LABTeC/ESS/UFRJ – Vol 1, n. 1, (1997) – Rio de Janeiro:
UFRJ, n. 42 – jan-mai 2014

Quadrimestral
Irregular (2002/2007)

ISSN – 1415-8604
1. Meios de Comunicação – Brasil – Periódicos. 2. Política e Cultura –
Periódicos. I Universidade Federal do Rio de Janeiro. Laboratório Território e
Comunicação. LABTeC/ESS.
CDD 302.23
306.2
• Apresentação: Marxismo selvagem 7
Bruno Cava

UNIVERSIDADE NÔMADE
• Cinco teses sobre o comum 11
Gigi Roggero
• Negri e Badiou, comunismos 31
Bruno Cava
• Marx contra o estado 45
Jean Tible
• A nova luta da Vila Autódromo e dos moradores que resistem
à remoção: reconstruir a Defensoria Pública e sua autonomia 77
Alexandre F. Mendes
• Operaísmo e pós-operaísmo 85
Sandro Mezzadra
• O comum da cooperação social na metrópole 93
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello

ECONOMIA E SUBJETIVIDADE
• Sobre a possibilidade de acelerar o capitalismo
para gerar seu colapso 113
Entrevista a Daniel Urbina e Javier Luna, por Alonso Almenara
• O trabalho da abstração:
sete teses sobre marxismo e aceleracionismo 121
Matteo Pasquinelli
• A medida da fera coletiva: o valor na era das
novas instituições algorítmicas de ranqueamento e avaliação. 131
Matteo Pasquinelli
• Reflexões sobre o manifesto aceleracionista 143
Antonio Negri

ARTE, MÍDIA E CULTURA


• Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes 155
Bárbara Szaniecki / fotos de Kátia Schilirò
• A “multidão” e o “espetáculo” na queda do comunismo romeno:
análise a partir do filme “Videogramas de uma revolução”. 167
Roberto Lopes Júnior
• Comunicação, Mídia e Lugar; A apropriação socioespacial dos
meios de comunicação, da perspectiva material/conceitual. 177
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva

NAVEGAÇÕES
• Forma jurídica e luta de classe 193
Pedro Eduardo Zini Davoglio
• Universidade biopolítica; razões para novas lutas estudantis 209
Carlos Enrique Restrepo
• Além do bem e do mal: a vontade de potência e a multidão 223
Alemar Rena
• Discriminação da pobreza e
segregação urbana no Rio de Janeiro 237
Marcos Maia
• Peter Seeger, 1919 – 2014 253
Thaddeus Gregory Blanchette
• “Para a sua segurança, você está sendo filmado”:
notas sobre a segurança/consenso na cidade contemporânea. 259
Eledison Sampaio
• Prostituição: um estudo sobre as dimensões
de sofrimento psíquico entre as profissionais e seu trabalho 265
Luciano Ferreira Rodrigues Filho
• Divagações; a potência dos pobres
e os desafios do processo criativo 279
Monique Borba Cerqueira

RESENHAS
• Selvagens do Mundo, Uni-vos!
Resenha de Marx Selvagem, de Jean Tible 288
Hugo Albuquerque
• Revoltas antipemedebistas, o fim da redemocratização
Resenha de Imobilismo em movimento, de Marcos Nobre 295
Bruno Cava

RESUMOS 304
LUGAR COMUM Nº42, pp. 7- 8

Apresentação
Marxismo selvagem

Bruno Cava

Existe uma crítica muito arraigada ao marxismo que, de matiz hegelia-


no, seria intrinsecamente produtivista, teleológico e antropocêntrico. Essa crítica
muitas vezes é manejada contra o marxismo no poder, por exemplo, contra a
forma particular de desenvolvimentismo adotada pelos governos Lula/Dilma no
Brasil. Isto é, um projeto de desenvolvimento baseado numa métrica crescimen-
tista totalmente fundada na economia clássica e neoclássica: nos valores de troca,
na produção extensiva e quantitativa, num modelo molar de estado progressista
em direção ao “Primeiro Mundo”. Não são levados em consideração, nesse modo
de medir desenvolvimentista, as qualidades singulares, as forças minoritárias e a
multiplicidade de formas de vida, em sua riqueza intensiva e transformadora dos
próprios “valores” da economia. O marxismo aparece, nesta modalidade atrofiada
corretamente a criticar-se, como uma ideologia a serviço da redução ao econômi-
co, assim como uma boa consciência e um apelo ao bom senso. Esse marxismo
amante do trabalho, apaixonado pelo poder, com o estado na cabeça, que sonha
proletários e proletárias de disciplina de ferro, mentes mecanicamente programa-
das e absolutamente nenhuma sensibilidade ou vida interior.
O velho ataque ao economicismo e teleologismo do marxismo contorna,
no entanto, o fato que a crítica da economia política de Marx tomou por princi-
pais inimigos o economicismo dos economistas clássicos, como David Ricardo
e Adam Smith, e a dialética teleológica da história de Hegel. Ambas as variantes
teó­ricas são devastadas sem dó na obra de Marx. Por exemplo, mediante o con-
ceito de trabalho vivo – que incorpora o intensivo, a “produção real de vida”, o
“plasma criador”, além de qualquer trabalho visto como objetivação – e de luta
de classe, pois nela a dialética não “resolve” as contradições político-históricas,
enquanto o proletariado não abolir a si mesmo enquanto classe, significando, pre-
cisamente, construir uma sociedade sem classes: uma sociedade não-econômica.
Marx ensina que não estamos presos para sempre na economia, não se trata de
um destino, mas de uma realidade contingente e superável. A dialética é dialética
capitalista e o comunismo a sua destruição. Tal tendência a-dialética e biopolítica
de Marx foi atualizada por uma série de teóricos dos séculos XX e XXI, valendo
destacar aqueles agregados sob a legenda abrangente do autonomismo marxista
8 Apresentação

italiano. Como síntese de um trabalho coletivo, podem-se citar Operários e Capi-


tal (TRONTI, 1966) e Marx além de Marx (NEGRI, 1979).
De fato, o problema não é Marx, mas os marxistas. É certo marxismo de
estado, comprometido com a pactuação, o compromisso e a regulação do capi-
talismo, que toma nostalgicamente por norte as economias centrais fordistas do
segundo pós-guerra, numa tentativa anacrônica de reeditar no Brasil a estratégia
keynesiana daquela conjuntura específica e irrepetível. Só, assim, mutilando as
potencialidades biopolíticas em nome de modelos e projetos, a esquerda no poder
pode tergiversar da luta de classe, para assumir o “econômico” como principal
ponto de encontro com as forças da exploração e da acumulação rentista, com
quem se alia numa coalizão pelo desenvolvimento nacional. Foi assim que, seja
a luta de classe, seja a ruptura não-dialética acabaram engavetadas, relegadas a
ideário irresponsável de marxistas selvagens os quais, despidos de diagnóstico
histórico, se colocariam fora da realidade. Numa gaiola de loucas, tal marxismo
selvagem se colocaria fora de um realismo político. Assim, a esquerda no poder
se isenta, em nome da “correlação de forças”, de tomar partido e imediatamente
com as partes envolvidas, nas lutas de seu tempo.
Contudo, se quisermos falar de capitalismo falando em capitalismo, Marx
é incontornável. Sem utopismos nem transcendências, para efetuar sua crítica ima-
nente do capitalismo, pelas lutas nas lutas. O capitalismo afinal não vai soçobrar por
suas próprias contradições, nem face à denúncia – ou já teria desabado. Se quiser-
mos enfrentar o desafio das lutas pela abolição do trabalho (não há justa medida!)
– isto é, pela abolição da subordinação e expropriação da vida na sua atividade de
cooperação, inovação, revolução – então Marx é incontornável. E se quisermos es-
capar do produtivismo teleológico e dialético, também o são as tendências mais are-
jadas de uma heterodoxia marxista que, à exploração, à teoria do valor e ao estado
desenvolvimentista, lança a aposta da autonomia, da autovalorização e do comum.
É preciso, portanto, ainda falar em trabalho (vivo), em produção (de-
sejante), em poder (constituinte) – três conceitos de positividade para que não
deixemos escapulir, na urgência encarnada das lutas, o caráter afirmativo, alegre
e criador, da noção marxiana de libertação das forças produtivas (da multiplicida-
de). O capital não passa do limite inferior do comum, sua menor potência, porque
confinada aos regimes de sujeição social e servocontrole maquínico, como expli-
cava o militante marxista Felix Guattari.
Este número da Revista Lugar Comum mergulha nesse caldeamento de
qualidades singulares, forças minoritárias e multiplicidade de formas de vida,
num aggiornamento marxista à altura de nossos desejos, numa única palavra: no
comum, diga-se logo, no comum do comunismo.
UNIVERSIDADE NÔMADE
LUGAR COMUM Nº42, pp. 11- 30

Cinco teses sobre o comum

Gigi Roggero

Ao debater o comum, não fica claro se podemos dizer que um ano antes
teria sido muito cedo, ou se um ano depois será muito tarde. Ainda assim, a ques-
tão do comum precisa ser historicizada e situada – quer dizer, localizada dentro
das transformações das relações sociais sob o capitalismo, bem como na vigência
de sua crise contemporânea. A minha análise procede do quadro conceitual que al-
guns estudiosos referem como “capitalismo cognitivo” (VERCELLONE, 2006).
Abordo o “capitalismo cognitivo” como um conceito exploratório e provisório.
Nesse sentido, apesar de não estar interessado em aprofundar-me nos debates em
torno do termo, algum esclarecimento se faz necessário. O termo “capitalismo
cognitivo” não se refere a um suposto desaparecimento do trabalho manual. Tam-
bém não serve como sinônimo de outras categorias (por exemplo, de “economia
do conhecimento” ou “economia criativa”). Ao contrário da abordagem focada
num “pós-fordismo” central e num “fordismo” periférico (HARVEY, 1989), me
concentro aqui na tensão entre a individuação de trabalhadores específicos no
mercado de trabalho e o processo mais amplo de cognitivização do trabalho, en-
foque que fornece uma “marca d’água” para lermos e agirmos dentro da composi-
ção contemporânea do trabalho vivo e das formas de hierarquização e exploração
em nível global.
A historicização do comum é uma questão metodológica. Da minha pers-
pectiva, não há produção de saber comum que não seja um saber situado. Em
outras palavras, não estou interessado na filologia morta a respeito do que Marx
ou qualquer outro pensador revolucionário “realmente” disse sobre o comum. A
minha preocupação é antes pensar o que os pensadores têm a dizer-nos agora,
na presente conjuntura histórica. É isso que conforma o meu ponto de partida,
na análise do conflito entre a produção do comum e as formas capitalistas con-
temporâneas de acumulação e crise. Deixe-me esclarecer que não pretendo opor
filologia e política. Antes, estou propondo que não pode haver filologia viva se
não situarmos Marx e outros teóricos militantes na conjuntura histórica deles, se
não fixarmos os seus objetivos táticos e estratégicos. Deve haver um processo de
tradução que nos possibilite adaptar tais estratégias e táticas ao nosso campo de
batalha.
12 Cinco teses sobre o comum

Mario Tronti escreveu: “O conhecimento vem da luta. Apenas aquele que


realmente odeia, realmente conhece” (1966, p. 14). Tanto o operaísmo quanto
Marx assumem esse ponto de vista revolucionário sobre a parcialidade do conhe-
cimento e o conflito radical que é parte da sua produção. Usando termos deleu-
zianos, precisamos distinguir entre uma escola de pensamento e um movimento
de pensamento. O primeiro é um conjunto de categorias produzidas e defendidas
como forma de patrulhar as fronteiras de um campo acadêmico, disciplinar e/ou
teórico: é a forma como a universidade global trabalha atualmente para despoliti-
zar o pensamento e reduzir o saber vivo ao saber abstrato (Coletivo Edu-Factory).
Ao contrário, um movimento de pensamento busca usar categorias como ferra-
mentas para interpretar a realidade e agir dentro e contra a economia política do
conhecimento. É uma prática teórica imanente à composição do trabalho vivo,
baseada na copesquisa militante (ROGGERO, BORIO & POZZI, 2007). Em ou-
tras palavras, é apenas tomando uma posição parcial que se torna possível com-
preender o todo e transformá-lo – isto é, organizar o comum.

Tese 1: O comum tem um duplo estado


Quando o saber se torna central, enquanto fonte e meio de produção, as
formas da acumulação mudam. Para Marx, o conhecimento era crucial na relação
entre o trabalho vivo e o trabalho morto, mas devido a sua objetificação no capital,
ele se tornou completamente alienado do trabalhador. A incorporação do saber do
trabalho vivo no sistema automatizado das máquinas implica a subtração da capa-
cidade do trabalho, seu know-how (MARX, 1973). Hoje, a clássica relação entre
trabalho vivo e trabalho morto tende a tornar-se uma relação entre saber vivo e
saber morto (ROGGERO, 2009). Em outras palavras, a categoria saber vivo não
se refere apenas ao papel central desempenhado pela ciência e pelo conhecimento
no processo produtivo, mas também à sua socialização e incorporação imediatas
no saber vivo (ALQUATI, 1976). A composição do trabalho cognitivo foi forjada
pelas lutas da educação de massa e se libertou das correntes da fábrica fordista
e do trabalho assalariado. Nesse processo, de um lado, o trabalhador cognitivo é
reduzido à condição de força produtiva e, de outro, ele tende a tornar-se autônomo
em relação ao sistema automatizado das máquinas. Isso leva a uma situação na
qual o general intellect não está mais objetificado no trabalho morto (pelo menos
não em um processo temporal estável). Isto é, o conhecimento não pode mais ser
completamente transferido para as máquinas e separado do trabalhador. O proces-
so prévio de objetificação é agora derrubado, quando o trabalhador incorpora mui-
tos dos aspectos do capital fixo em si próprio. Ele produz e reproduz, vivifica e
Gigi Roggero 13

regenera incessantemente a máquina. Ao mesmo tempo, um excesso permanente


de saber social vivo escapa continuamente da captura pelo trabalho/saber morto.
Nesse quadro, a necessidade de reduzir o trabalho/saber vivo ao trabalho/
saber abstrato – ou seja, o imperativo de medir o trabalho a despeito da crise obje­
tiva da lei do valor – força o capital a impor unidades de tempo completamente
artificiais. Para usar as palavras de Marx, é uma ‘questão de vida e morte’: a lei
do valor não desaparece, mas se torna uma medida imediatamente nua de explora-
ção: ou seja, lei do mais-valor. O capital tem que capturar o valor da produção de
subjetividade “em ambos os sentidos do genitivo: a constituição da subjetividade,
de um comportamento subjetivo particular (uma classe trabalhadora que é hábil e
dócil) e a transformação da potência produtiva da subjetividade, sua capacidade
de produzir riqueza” (READ, 2003, p. 102). Nesse sentido, o comum não é uma
mera duplicação do conceito de cooperação: é simultaneamente a fonte e o pro-
duto da cooperação, o lugar da composição do trabalho vivo e seu processo de
autonomia, o plano de produção da subjetividade e da riqueza social. É devido a
este fato que, hoje, o plano de produção de subjetividade é a produção de riqueza
social, que o capital é cada vez menos capaz de organizar o ciclo da cooperação
“rio acima”. O ato da acumulação, a captura do valor produzido em comum pelo
trabalho/saber vivo, toma forma cada vez mais no fim do ciclo. Desde este ponto
vista, podemos conceber a financeirização como a forma real e concreta, con-
quanto perversa, da acumulação capitalista em um sistema que tem que valorizar
aquilo que não pode medir. Para usar termos de alguns autores próximos a The
Economist, financeirização é o “comunismo do capital” – a captura do comum.
No contexto do comum, como vimos discutindo, a clássica distinção en-
tre lucro e renda se torna bastante problemática: quando o capital se apropria da
cooperação que se realiza, na maior parte do seu ciclo, sem a presença da orga-
nização capitalista, esses dois termos assumem características similares. Hoje, o
rentismo é a forma do comando capitalista que captura a produção autônoma do
trabalho vivo. Isso não significa que o capital seja exclusivamente parasitário: ele
tem de organizar essa captura. A figura corporativa do “cool hunter”1 é ilustrativa
a esse respeito. Nos anos 1920, Henry Ford disse: “Compre qualquer carro, des-
de que seja um modelo T preto”, resumindo o (não obstante inatingível) sonho
capitalista de empurrar as necessidades “a montante”. Hoje, ao contrário, o cool
hunter atua “a jusante”, capturando estilos de vida e expressões subjetivas autôno-

1 “Caçador de tendências” (Nota do T.).


14 Cinco teses sobre o comum

mas. O “centro” vai à “periferia” como forma de capturar sua potência produtiva
comum.2
Essa análise ajuda a responder a questão central para aqueles familiariza-
dos com a literatura sobre as redes e a internet: por que os intelectuais neoliberais
exaltam as características (cooperação livre, centralidade de estratégias não-pro-
prietárias, horizontalidade de compartilhamento etc.) destacadas pelos teóricos
críticos e ativistas com respeito à produção do conhecimento? Começando pela
descrição das práticas cooperativas e auto-organizadas na Web, Yochai Benkler
(2006) admite a hipótese da emergência de uma produção horizontal baseada nos
commons. Nesse sentido, Benkler descreve um movimento de passagem entre
um sistema baseado na propriedade intelectual para um sistema crescentemente
baseado em redes sociais abertas. Da análise de Benkler, pode-se perceber que
os commons estão se tornando, ao mesmo tempo, uma ameaça mortal e uma po-
derosa fonte para o capitalismo. Devido ao fato de que, no contexto descrito,
a propriedade intelectual arrisca bloquear a inovação, o capitalismo tende a se
tornar “capitalismo sem propriedade”. Podemos seguir esse desenvolvimento não
apenas no caso da Web 2.0, mas também no enfretamento entre Google e Micro-
soft e na aliança entre IBM e Linux. Podemos dizer, então, que o comando está
agora baseado numa espécie de “direito comum” capitalista que está além da re-
lação entre direito público e direito privado e que é, atualmente, o eixo central do
desenvolvimento normativo.
Tome-se como exemplo a assistência de muitas companhias de software
e de operadoras de telefonia celular, baseadas na cooperação “livre” e “aberta” do
“consumidor” ou “prossumidor” [prosumer], para citar a muito difundida retórica
da “sociedade da informação”. Essa cooperação do “prossumidor” é direcionada
a zerar os custos da força de trabalho, que é descarregado sobre os clientes. Nesse
sentido, software livre significa trabalho gratuito; o “prossumidor” é, de fato, um
trabalhador sem remuneração. Os únicos trabalhadores remunerados das compa-
nhias são aqueles que controlam o que os “prosumers” são autorizados a escrever.
O capitalismo pode ser capaz de abandonar a propriedade, mas nunca o comando!
Dado este contexto, de forma a recompor o comando e governar a cooperação “a
jusante”, o capital é agora forçado a bloquear continuamente a potência produtiva
do trabalho vivo através da propriedade intelectual e da precariedade. Essa é a
expressão contemporânea da contradição entre as forças produtivas e as relações

2 Enquanto por “a montante” refiro a organização da cooperação social no e pelo capital, por “a
jusante” refiro a organização da captura capitalista da cooperação social que existe em parcial
autonomia relativamente às relações capitalistas.
Gigi Roggero 15

de produção e a base da crise contemporânea: isto é, a crise do “comunismo do


capital” (FUMAGALLI; MEZZADRA, 2009). Portanto, como o capital não pode
organizar a cooperação social “a montante”, tem de contentar-se em conter o peri-
goso poder desta última e, retroativamente, capturar o valor da cooperação. Hoje
o capital assume a imagem do katéchon3, restringindo o “mal” da potência do
trabalho vivo.
No bojo das transformações do trabalho e da acumulação capitalista que
acabaram de ser descritas, o comum assume um duplo estado: é, ao mesmo tem-
po, a forma da produção e a fonte de novas relações sociais; é o que o trabalho
vivo produz e o que o capital explora. A tensão entre autonomia e subordinação,
entre autovalorização e expropriação, toma a forma de uma transição. Mais do
que apenas uma passagem linear de uma etapa à outra, a transição é um proces-
so aberto de contestação entre diferentes paradigmas de produção, compostos de
diferentes forças, possibilidades e temporalidades que coexistem num campo de
batalha prismático “iluminado” pelas lutas sociais. A transição para o capitalismo
cognitivo se apresenta como uma acumulação primitiva (MEZZADRA, 2008)
que precisa repetidamente separar, como Marx escreveu, os trabalhadores dos
meios de produção e das condições de realização do trabalho. Hoje esses meios
de produção não são mais as terras, mas o conhecimento. A acumulação primiti-
va do capitalismo cognitivo separa o trabalho vivo da produção do comum: sua
temporalidade é a reproposição contínua da sua pré-história. Mas esta transição
permanente é também uma contínua reabertura da possibilidade de uma ruptura,
da atualidade do comunismo e da organização autônoma da produção comum.

Tese 2: O comum não é um bem natural


No debate internacional, o comum é usualmente referido no plural –
ou seja, como os commons. É usualmente identificado como algo existente na
­natureza (água, terra, ambiente, território, mas também informação e conheci-
mento). Pode-se atribuir o referente teórico dessa interpretação do comum: a
análise de Karl Polanyi da “grande transformação” (1944). Polanyi reconstrói a
emergência do capitalismo ao longo de uma linha de tensão entre a expansão de
um mercado autorregulado e a autodefesa da sociedade, orientada na direção de
restabelecer o controle sobre a economia. A transformação tem como premissa o
conflito entre o liberalismo econômico e o protecionismo social, entre princípios

3 Katéchon é o conceito que Carl Schmitt toma emprestado à São Paulo para descrever a força
que restringe o mal, que barra o Anticristo.
16 Cinco teses sobre o comum

utilitários e coesão comunitária, entre mercantilização e a defesa dos elementos


naturais (os commons). Nesse quadro, o capital é representado como uma “utopia”
não humana, um fora que tenta se apropriar de uma sociedade, de outra forma,
autorregulada. Consequentemente, nessa formulação, o capital não é uma relação
social, mas um acidente histórico e um desvio da norma da autorregulação. A
grande transformação, então, é a luta entre meios econômicos e objetivos sociais.
Desde a perspectiva polanyiana, o lugar central do antagonismo é o mer-
cado e mercantilização, não a exploração e as relações sociais de produção. Em
anos recentes, muitas posições “polanyianas” apareceram nos movimentos sociais
e entre militantes e estudiosos críticos – por exemplo, com referência às redes.
Neste gênero de abordagem, a luta é identificada como sendo entre os monopo-
listas da informação e o engajamento libertário ou neoliberal pela circulação livre
do conhecimento. Desde essa perspectiva, por exemplo, Web 2.0 é a afirmação de
uma aliança entre a “ética hacker” e o “anarcocapitalismo”. Entretanto, essa pers-
pectiva não vê que a defesa da “comunidade virtual” contra o monopólio e a pro-
priedade intelectual também significa a continuidade das relações de exploração.
O problema, para nós, é deslocar o debate sobre o comum da centrali-
dade das relações de propriedade para deixar recair o foco sobre as relações de
produção. Exaltando a importância da “cultura” e dos “commons antropológi-
cos”, muitos pesquisadores polanyianos concebem a centralidade do conceito de
modo de produção para as perspectivas marxiana e operaísta como uma forma de
“economicismo” (REVELLI, 2001; FORMENTI, 2008). Mas é, precisamente, a
interpretação deles desse conceito, assim como o de trabalho, que é “economicis-
ta”. Como para os estudiosos polanyianos o capital não é uma relação social, este
se torna um dentre muitos agentes que a sociedade precisa controlar. Entretanto,
quando analisamos as transformações materiais do trabalho e da produção nas
décadas recentes, poderíamos dizer que “cultura” e “antropologia”, isto é, formas
de vida e expressões de subjetividade são infinitamente capturadas, sendo-lhes
atribuídas valor. Não há mais um fora para as relações de produção: elas são o
lugar da captura e exploração, mas também de resistência e libertação. Elas são o
lugar dos dois estados de produção do comum.
Por conseguinte, naquilo que definimos como visão polanyiana dos com-
mons, os sujeitos são o individuo e a sociedade, ambos conservando um espaço
antropológico e natural não contaminado contra a invasão externa do capital e
da mercantilização. O conceito de individuo é contínuo com o sujeito universal
da modernidade iluminista, o conceito de sociedade é um todo orgânico: ambos
são portadores do interesse geral que coincide com a conservação da humanidade
Gigi Roggero 17

diante do risco da catástrofe. Nos casos onde a aliança entre a ética hacker e o
anarcocapitalismo falha, ou nos casos em que a primeira é capturada pelo último,
os mesmos estudiosos invocam o fantasma problemático do estado. Para eles o
estado se torna o garantidor da “sociedade” contra a “economia”, ou ainda, um
substituto para a incapacidade da sociedade para se defender. A partir desses pa-
râmetros, então, a comunidade, em um sentido reacionário, precisa proteger a sua
identidade, seus commons mitológicos, da invasão da globalização. Isto é, precisa
proteger esses commons não apenas do capital e commodities, mas também do
trabalho e da sua materialização na mobilidade dos migrantes. Como consequên-
cia, a política se torna uma utopia negativa, e um projeto normativo destinado a
evitar o pior – ou seja, uma política do katéchon. O que está em jogo não é a orga-
nização da potência do comum, mas a sua limitação e a questão do seu “decresci-
mento”. Devido ao mal-entendido, segundo o qual o desenvolvimento capitalista
consiste no processo de crescimento e decrescimento, a imagem dos commons é
feita para espelhar o conceito jurídico, baseado no princípio da escassez e que se
coloca em agudo contraste com a riqueza e abundância característica da produção
do conhecimento. Em oposição a esta abordagem, seguindo Marx, podemos afir-
mar: o capital, ao invés da presumida escassez dos commons, é o limite.
Desde a minha perspectiva, é imperativo que desnaturalizemos o conhe-
cimento no capitalismo cognitivo. Precisamos reconhecer que não é por ser um
excesso natural preexistente que o conhecimento é comum; antes, é comum por
estar incorporado no trabalho vivo e na sua produção. Portanto, o que as singulari-
dades têm em comum não é uma ideia abstrata de humanidade, mas suas relações
concretas e específicas no ambivalente e conflituoso processo de sua constituição.
Mesmo a vida apropriada pelo “biocapital” – isto é, o processo de valorização
capitalista que investe as relações sociais da biotecnologia (RAJAN, 2006) – não
é identificável como um elemento natural. O que é patenteado não é o genoma
em si ou partes particulares do corpo, mas a produção de conhecimento desses
elementos. Nas biocorporações, a valorização através do conhecimento e dos da-
dos tem lugar ao nível da produção da própria vida. O genoma, então, como uma
abstração da vida criada pelo desdobramento de informação, é então combinado
com a abstração do dinheiro no processo de financeirização. A combinação dessas
duas abstrações foram o “comum capitalista”, capturando a produção do trabalho
vivo, e é, portanto, mais importante hoje no processo de valorização que o sistema
de propriedade intelectual em si.
Desde essa perspectiva, o trabalho vivo não tem nada mais a defender
além da cooperação autônoma, o comum, a sua contínua produção e reprodução.
18 Cinco teses sobre o comum

Da mesma maneira, não há nada de natural a respeito dos commons aparente-


mente naturais, já que eles são indefinidamente produzidos e definidos no plano
de tensão determinada pelas relações entre a autonomia do trabalho vivo e o co-
mando capitalista. Nesse sentido, o esquema binário entre o “tipo-Polanyi” e o
“tipo-Marx” proposto, por Beverly Silver (2003), para a história do movimento
operário também não é convincente. Para ela, as lutas do tipo polanyiano são ca-
racterizados por um movimento pendular entre processos de expropriação e prole-
tarização e a reação operária contra tais processos; e as lutas do tipo marxiano são
pensadas como inscritas nas relações de exploração submetidas a uma sucessão
de estágios nas quais a organização da produção muda. Mas o que temos de re-
conhecer é que, no capitalismo cognitivo, nos defrontamos com uma situação na
qual a resistência contra a expropriação do saber é imediatamente a luta contra as
relações de exploração porque essa resistência coloca a questão do controle cole-
tivo da produção (cognitiva) do comum contra a captura capitalista.

Tese 3: O comum não é um universal, é um conceito de classe


Implícita em diferentes interpretações do comum e dos commons é a
questão do sujeito. A sociedade, a comunidade, o indivíduo, o “prossumidor”,
todos esses sujeitos reintroduzem, de diferentes formas, a ideia do universal que
deseja defender a humanidade do capital e da mercantilização. Marx divide o
sujeito histórico da modernidade, o cidadão, com o conceito de força de trabalho.
Mais ainda, as tradições marxista e socialista reintroduziram uma nova figura
do universal através do conceito de classe como portadora do interesse geral. O
operaísmo, como Marx, divide novamente este sujeito e propõe que a classe ope-
rária não pode estar interessada num destino humano geral, pelo fato de ser um
sujeito parcial constituído dentro e contra as relações capitalistas. O uno abstrato é
dividido no antagonismo de duas partes: a classe operária é a potência que deseja
exercer o poder; o capital, por outro lado, é o poder que explora a potência. O
último é o mestre e o primeiro, o escravo. Mas não há suprassunção (Aufhebung)
dialética possível entre eles. De fato, a dialética, que também necessita do sujeito
universal, morre na insurgência parcial da luta de classe.
Situando a questão do comum no antagonismo de classe, não estou me
referindo a uma imagem sociológica ou objetiva da classe, já que ela não existe
fora da luta. Para lembrar Tronti, “não existe classe sem luta de classe” (2008,
p. 72). Da mesma maneira, tarde em sua vida Louis Althusser (2006) afirmou que
a luta não deve ser pensada reatroativamente, mas, ao contrário, é constitutiva da
divisão de classes. Assentados nessa ideia, usamos a categoria de composição de
Gigi Roggero 19

classe que, no operaísmo, indica a relação conflituosa entre a estrutura material


das relações de exploração e o processo antagonista de subjetivação (WRIGHT,
2002). Os operaístas distinguiam entre a composição técnica, baseada na articula-
ção e hierarquização da força de trabalho, e a composição política – isto é, o pro-
cesso de constituição da classe enquanto sujeito autônomo. Dentro deste quadro,
não há ideia de uma unidade original do trabalho que é, então, dividida e alienada
pelo capital e, portanto, necessita ser recomposta, nem há um conceito de cons-
ciência, que precisa ser revelada para reunir a classe-em-si com a classe-para-si.
Porque a classe não preexiste suas condições materiais e historicamente contin-
gentes de formação subjetiva, não há como existir nenhuma simetria ou relação
dialética entre a composição técnica e política. Subjetividade é, ao mesmo tempo,
a condição de possibilidade para a luta assim como é o que está em jogo nela.
O operaísmo forjou essas categorias (i.e., composição técnica e política
de classe) num contexto muito particular, marcado pelas coordenadas do espaço-
-tempo da fábrica “fordista” e, consequentemente, por uma figura específica do
operário. Atualmente, precisamos repensar radicalmente essas categorias, devido
ao fato de que a composição do trabalho vivo foi irreconhecivelmente transfor-
mada pelas lutas mundiais das últimas quatro décadas. As lutas operárias, antico-
loniais e feministas forçaram o capital a tornar-se global.
Por conseguinte, não há mais fora ou dialética de inclusão e exclusão.
Esse é o novo plano espaço-temporal no qual a formação da classe dentro e contra
das relações capitalistas se realiza. A composição do trabalho vivo é constitutiva-
mente heterogênea, por estar baseada na afirmação de diferenças irredutíveis ao
universal. O capital comanda essa heterogeneidade da força de trabalho por meio
de um processo de “inclusão diferencial”. Entretanto, seria apenas o capital que
pode compor as diferenças no trabalho vivo? A heterogeneidade poderia impedir
a possibilidade da composição comum do trabalho vivo? É para essas questões,
que eu passo agora, quando repenso o conceito de classe sob as condições em que
o comum se torna central para o sistema de produção.
Diferenças são articuladas em um sentido disjuntivo, ao passo que as
singularidades são fixadas em suas supostas origens e categorias de pertencimen-
to (étnicas, de gênero, comunitárias, territoriais, ocupacionais, por grupo social,
e daí por diante). Podemos dizer que essa é a composição técnica que sustenta
os mecanismos de segmentação e inclusão diferencial no mercado de trabalho –
isto é, a resposta do capital para governar a crise do trabalho vivo determinado
por uma composição política específica. Sem pôr tais hierarquias em questão,
todavia, reivindicações de reconhecimento de posições e diferenças particulares
20 Cinco teses sobre o comum

correm o risco de ser transformadas em política identitária. Por contraste, pode-


ríamos redefinir composição política como um processo, para usar o conceito de
Jacques Rancière (1999), de “des-identificação” das posições naturalizadas atra-
vés dos mecanismos de inclusão diferencial. É a desarticulação da composição e
recomposição técnica numa linha de força que tem sua definição na produção do
comum. Classe é essa linha de força. Nesse sentido, não podemos falar de classe
como ser, mas como devir.
Não obstante, a assimetria entre a composição técnica e a composição
política não sugerem que essas duas categorias estejam dissociadas. Elas são, an-
tes, processos abertos em contínua formação nos limites da tensão produzida pe-
las múltiplas formas de subjetividade e os mecanismos de valorização capitalista.
Deve ser notado, então, que a composição técnica não é unicamente composta de
dominação capitalista; antes, é o instantâneo de uma dinâmica de conflito e está
indefinidamente aberta à subversão. Similarmente, não se deve pensar que a com-
posição política é, de algum modo, externa às pretensões corporativas ou à novos
fechamentos da política identitária: antes, como a composição técnica, deve ser
pensada como um marcador de um novo campo atravessado pelas lutas sobre
produção do comum. Então o nó da questão é situar e determinar historicamente
a relação aberta e reversível desses dois processos. De um lado, essa relação é
complicada pelo fim da linearidade espaço-temporal das relações entre operários
e capital baseada na fábrica fordista. De outro lado, essa relação é agora caracte-
rizada pela luta entre a autonomia do trabalho vivo e a subordinação capitalista,
entre a produção do comum e a captura capitalista.
Tomando esta perspectiva, podemos ver então que a composição técni-
ca em parte se sobrepõe, em parte diverge radicalmente da composição política,
fazendo com que a organização autônoma do comum se aproxime e, ao mesmo
tempo, se afaste do “comunismo do capital”. A possível reversibilidade entre es-
ses elementos não implica nenhuma relação dialética. Ao contrário, coloca a pos-
sibilidade de uma ruptura e de uma radicalmente nova linha de desenvolvimento
imanente para a organização da potência do trabalho vivo.
Autonomia e desenvolvimento potente das singularidades não são os
efeitos de uma sociedade sem classes, mas daquela que se organiza em torno de
uma relação social antagonista. A insurgência da parcialidade caracteriza a com-
posição do trabalho vivo, mas isto não implica na impossibilidade de conjunção
dessas parcialidades no comum. De fato, o comum é a instituição de uma nova
relação entre a singularidade e a multiplicidade que, ao contrário do universal
vazio, não reduz as diferenças a um sujeito abstrato (o indivíduo no liberalismo e
Gigi Roggero 21

o coletivo no socialismo, ambos amparados por uma relação particular com o es-
tado). Uma singularidade pode se agenciar a outras singularidades sem renunciar
à sua diferença. Resumindo, o quê estamos propondo aqui é multiplicidade, não
natureza; singularidade, não o indivíduo; o comum, não o universal.

Tese 4: O comum não é uma utopia: ele se define por uma nova
temporalidade do antagonismo, para além da dialética público-privado
Nós já estabelecemos que a financeirização não desempenha mais a fun-
ção classicamente atribuída pelos economistas. Hoje a financeirização atravessa
todo o ciclo capitalista: ela não pode ser contraposta à economia real, por que ela
se torna a economia real precisamente no ponto em que a acumulação capitalista
se baseia na captura do comum. É possível aplicar o esquema tradicional do ciclo
capitalista para a corrente transição implicada pelas novas coordenadas espaço-
-temporais do trabalho imaterial e do capitalismo global? Observando a crescente
sucessão rápida de crise nos últimos 15 anos (o colapso dos mercados do sudeste
asiático, a quebra da Nasdaq e a crise dos subprimes), a resposta empírica seria
não. Isto é, a crise não é mais um estágio no ciclo do capital; é a condição per-
manente do desenvolvimento capitalista. Chegamos a um ponto, talvez melhor
descrito pelo seguinte insight de Marx no volume 3 do Capital, onde ele afirma
que a “abolição do capital como propriedade privada nos confins no modo capita-
lista de produção” (1981, p. 567): hoje, o “comunismo do capital” é a captura da
transfiguração do comum por meio das finanças, em que as finanças são o poder
de apropriação do valor, crescentemente criado pelo cooperação social sem a in-
tervenção direta do capital.
Deste ponto de vista, o “comunismo do capital” vai além da dialética
entre público e privado, como estes são dois lados da mesma moeda capitalista.
Como um exemplo, considere-se a transformação contemporânea da universidade
que são comumente referidas através da categoria da corporativização. Com res-
peito à fusão entre público e privado no avanço da corporativização, podemos nos
referir ao contexto dos Estados Unidos, onde as universidade públicas constituem
fundos privados, enquanto as universidades privadas sistematicamente recebem
fundos estatais e federais. Na Itália, em contraste, a tendência corporativizante
é, paradoxalmente, possibilitada por uma espécie de “poder feudal” no sistema
universitário estatal. Mas não há contradições entre esses dois elementos já que
este poder feudal é uma peculiaridade italiana a caminho da corporativização.
Devemos, entretanto, esclarecer que essa corporativização não significa apenas a
predominância de fundos privados nas universidades públicas, nem se refere ao
22 Cinco teses sobre o comum

status jurídico da universidade. Mais do que isso, a corporativização sinaliza que


a universidade em si se tornou uma corporação e que, agora, se baseia no cálculo
de custos e benefícios, das receitas e despesas, na lógica do lucro, competindo
no mercado da educação e do saber. Nesse contexto, corporações do saber – de
universidades a multinacionais de biotecnologia – são atores centrais nas hierar-
quias dos mercados globais da educação e do saber, que auferem uma proporção
significativa de lucro, de valorização, e são cotadas nas bolsas de valores e suas
agências de rating4.
Tomemos a questão relacionada da dívida, uma fonte central da crise
­atual, e um grande exemplo do entrelaçamento íntimo entre a “economia do co-
nhecimento” e a financeirização. Seria um erro pensar que as crescentes taxas uni-
versitárias indicam um retorno aos mecanismos clássicos de exclusão. Mais ainda,
uma análise mais cuidadosa demonstrará que esses aumentos são acompanhados
por um simultâneo aumento nas taxas de inscrição. O sistema de endividamento
é antes um filtro seletivo para reduzir o salário da força de trabalho antes mesmo
que ele seja recebido. Como educação e conhecimento são necessidades sociais
insuprimíveis, a financeirização desse bem social é um modo de individualizar a
necessidade e facilitar a captura do quê é produzido como comum. A financeiri-
zação, todavia, também é um sintoma da permanente fragilidade do capitalismo
contemporâneo. De fato, o aumento da inadimplência no pagamento da dívida
se coloca como uma das principais causas subjetivas da crise econômica global.
Se a financeirização como “comunismo do capital” é a superação da mo-
derna dialética entre o público e privado, então a mobilização contra a corporati-
vização da universidade não pode ser a defesa de um modelo público5. A oposição
à corporativização precisar colocar a questão de como ir além da alternativa entre
público e privado, entre estado e mercado. Isto é, a mobilização precisa construir
uma alternativa dentro, e não contra, do desenvolvimento histórico do capital.
De fato, o apelo ao público assenta na restauração da figura da sociedade civil e
o suposto interesse geral, que necessita da redução das diferenças (especialmen-
te, diferenças de classe) à imagem vazia do universal. Reclamar o público deste

4 É também neste contexto que podemos interpretar a teoria da Nova Gestão Pública, que é
o movimento, “pensamento” e “filosofia” que procurou justificar a introdução dos meios e da
lógica corporativa no setor público.
5 O último foi posto em crise não apenas pelo capital neoliberal, mas também por movimentos
sociais e políticos. Aliás, o slogan da Onda Anômala Italiana e do movimento estudantil trans-
nacional “nós não vamos pagar pela crise de vocês” também significa “nós não vamos pagar
pela crise da universidade pública”. Ver: http://www.edu-factory.org
Gigi Roggero 23

modo significa reclamar o estado, o transcendental, a recomposição de uma su-


posta unidade original que coincide com a figura moderna da soberania política. O
comum, ao contrário, não tem nostalgia pelo passado. Antes, é decisão coletiva e
organização imanente à cooperação do trabalho vivo e à riqueza da produção co-
letiva. Para recordar Marx, “a classe operária não pode simplesmente lançar mão
da maquinaria estatal existente” (1966) (ou seja, o público); “todas as revoluções
aperfeiçoaram essa máquina ao invés de destruí-la” (1963, p. 121-2).
Nessas transformações do capital global, eu gostaria de salientar a ques-
tão da temporalidade de forma a identificar a nova qualidade do antagonismo além
de qualquer apelo ilusório ao público contra o privado. A temporalidade contem-
porânea é ambivalente. Por um lado, essa temporalidade colapsa numa espécie de
presente infinito no qual a precariedade da vida dissolve o “espaço de experiên-
cia”, nos impelindo a reinventar continuamente modos de vida para sobreviver ao
presente (KOSELLECK, 2007). Por outro lado, essa temporalidade abre um novo
espaço, não mais marcado pela linearidade da narração historicista. De fato, são
os conflitos e reivindicações sobre a nova composição do trabalho que promovem
a mudança no quadro temporal e aceleram o colapso da relação normativa entre o
passado e o futuro, reabrindo infinitamente a história no presente.
Olhemos mais rigorosamente. No historicismo, o valor imutável dado ao
passado, assim como o anseio passivo pelo futuro e seu suposto destino progres-
sivo – condensados na perspectiva escatológica compartilhada pelas tradições ca-
tólica e socialista – serviram para estabilizar e conservar as instituições existentes.
Há uma evidente similaridade entre isto e, citando novamente Koselleck (2007), a
“estrutura iterativa da espera pelo apocalipse”: o fim do mundo e o “sol do futuro”
não continuamente adiados, neutralizando os conflitos e reivindicações do presen-
te. A nostalgia (do passado como do futuro), portanto, arrisca ser reacionária ou,
em última análise, é inefetiva. Na nova temporalidade, ao contrário, o conceito de
política assume uma nova qualidade.
De fato, essa relação entre temporalidade e política já foi identificada
por vários estudiosos pós-coloniais como um campo de mudança radical para o
pensamento historicista: para o modelo progressivo tradicional de tempo que con-
finou os sujeitos subalternos à “ante-sala da história” (CHAKRABARTY, 2000).
O “estágio” da pré-política, ou da antipolítica, para usar a retórica amplamente
utilizada por aqueles que pensam que a única forma de política é a representa-
ção, é irrevogavelmente atravessado pela insurgência do “agora” como tempo da
subjetividade e da sua constituição política. Sem a necessidade de aguardar pelo
“ainda não” e pela chegada teleológica do momento da ação, e sem ser forçado a
24 Cinco teses sobre o comum

delegar sua ação a representantes ou à soberania estatal, a figura contemporânea


do trabalho vivo está em posição de superar a ausência do futuro, na plenitude da
decisão no seu presente.
Na sua ruptura da relação normativa do futuro com o presente, os últimos
idealistas da consciência remanescentes também se dissolvem. A transformação
social não é mais a progressão linear da necessidade histórica e da consciência: é
inteiramente imanente à produção de subjetividade e ao comum, acontecendo na
tensão entre a autonomia do trabalho vivo e a captura capitalista. O comum não
é, então, uma utopia: não é um lugar ainda por existir ou que existirá no futuro.
O comum existe aqui e agora e luta por sua libertação. Nesse contexto, o que
referimos como “o evento” não é nunca uma origem: o início é sempre a reorga-
nização do presente e do seu poder de fazer história. Esse é um caminho inverso
em relação ao escolhido por alguns pensadores radicais contemporâneos – por
exemplo, Alan Badiou ou Slavoj Zizek – que sonham com o evento teológico de
um comunismo metafísico e abstrato, sem sujeito e processo, que é privado de
corpos, conflitos e potência.

Tese 5: Instituições do comum como novas teoria e prática do comunismo


Dados os parâmetros do nosso novo contexto, há uma outra categoria
central do operaísmo que temos de repensar: a tendência. Mais precisamente,
temos de pensar a categoria assim como temos de renovar o seu método. A ten-
dência é a identificação de um campo de possibilidade não progressista, no quadro
da heterogeneidade da composição do trabalho vivo e da temporalidade diferen-
cial – isso que o capital captura, de forma a repetir infinitamente sua origem – a
acumulação primitiva. Cotidianamente, o capital tem de “traduzir”, para usar a
linguagem de Walter Benjamin (1995), o “tempo pleno e heterogêneo” da co-
operação do trabalho vivo no “tempo homogêneo e vazio” do valor capitalista.
Paralelamente a Benjamin, Sandro Mezzadra (2008), propõe usar a distinção feita
por Naoki Sakai entre “tradução homolingual” e “tradução heterolingual” como
ferramenta política. No último modo, o sujeito da enunciação fala com o outro
assumindo a estabilidade e homogeneidade da sua própria linguagem assim como
da linguagem do outro. Há a aquiescência das diferenças, mas as inscreve numa
comunidade original. Essa forma de tradução funciona como uma representação
e mediação que reafirma a primazia e soberania da linguagem do enunciador.
Na tradução heterolingual, ao contrário, o outro é o ponto de partida para todas
as partes envolvidas, fazendo dessa forma de tradução independente de toda e
qualquer “linguagem nativa” e produzindo uma linguagem de sujeitos móveis
Gigi Roggero 25

em trânsito. Na tradução heterolingual as diferenças compõe entre si apenas em


um processo comum: a linguagem, portanto, não é simplesmente um meio, mas
aquilo que, precisamente, está em jogo.
Assim, o comum é sempre organizado, seja através da tradução homo-
lingual – isto é, pela redução do saber/trabalho vivo a um saber/trabalho abstrato
– ou através da tradução heterolingual, tornando possível uma composição de
classe forjada pela multiplicidade irredutível dos novos sujeitos do trabalho vivo.
Em certo sentido, a heterogeneidade das lutas torna obsoleta a ideia da sua comu-
nicação; entretanto, não sugere a impossibilidade de sua composição. Ao contrá-
rio, a composição se realiza no processo de tradução para uma nova linguagem: a
linguagem do comum. Em outras palavras, as diferenças não são, em si mesmas,
motivo para antagonismo: um antagonismo inevitável surge quando as diferenças
são reduzidas à identidade, a uma origem abstrata e consequentemente enquanto
falam apenas como diferença e apenas da sua própria diferença. Desse modo,
elas são descentralizadas e domesticadas com sucesso (MOHANTY, 2003) e são,
consequentemente, acumuladas pela máquina capitalista e traduzidas novamente
para a linguagem do valor.
É a interrupção da tradução capitalista que abre o espaço para a composi-
ção política da autonomia do trabalho vivo. Dito de outro modo, o nosso problema
é desconectar de forma radical o materialismo histórico da narração historicista.
A crítica do desenvolvimento capitalista não é o empoderamento de um suposto
não-capital (SANYAL, 2007); antes, está baseado na potência autônoma da co-
operação do trabalho vivo. De fato, o princípio é a luta de classes. Desde essa
perspectiva, a alegação de que falar sobre relações de produção é economicismo
é ter, precisamente, um ponto de vista economicista das relações de produção. Se
a tendência é definida pela concatenação de pontos de descontinuidade, que com-
põem uma nova constelação de elementos, então a “iluminação geral” (MARX,
1973) da tendência e seus planos de desenvolvimento são determinadas pelo anta-
gonismo de classe e os vários dispositivos de tradução na produção comum.
Esse é o contexto no qual podemos colocar a questão das instituições do
comum, começando pela relação antagonista entre autonomia e captura. Certa-
mente, essa instituições não devem ser concebidas como “ilhas felizes” ou co-
munidades livres isoladas das relações de exploração. Como já mencionado, não
há mais fora no capitalismo contemporâneo. Instituições do comum se referem,
antes, à organização da autonomia e resistência do saber/trabalho vivo, ao poder
de determinar o comando e direção coletivamente na cooperação social e produzir
normas comuns para quebrar a operação capitalista de captura. Essas institui-
26 Cinco teses sobre o comum

ções incorporaram uma nova relação temporal – nem linear, nem dialética, mas
heterogênea e plena – entre crise e decisão, entre processo constituinte e formas
políticas concretas, entre evento e sedimentação organizativa e entre a quebra da
captura capitalista e a produção do comum. Para fazer referência às famosas ca-
tegorias de Albert Hirschmann (1970), “saída” e “voz” não são mais alternativas
mutuamente excludentes: a “saída” é imanente às relações sociais antagonistas e
“voz” é simultaneamente aquilo que sustenta e defende a produção do comum.
Estando baseadas na composição e temporalidade do trabalho vivo, as instituições
do comum estão continuamente abertas à sua própria subversão. As instituições
do comum não são uma origem, mas a organização do devir.
Gostaria de examinar isto através de dois exemplos que apareceram nos
movimentos estudantis. O primeiro é a emergência dos black studies, bem como
dos estudos étnicos, de gênero e LGBT, cujas raízes remetem aos movimentos das
décadas de 1960 e 1970, assim como a genealogia dos estudos pós-coloniais pode
ser localizada nas lutas anticoloniais (MOHANTY, 2003). Os Black studies não
apenas sinalizaram o processo de massificação da universidade e da educação su-
perior; foi também a radical afirmação da autonomia coletiva da comunidade ne-
gra e dos estudantes negros dentro e contra a universidade, como expressa através
do controle das formas institucionais de produção do saber. Além da repressão, o
poder foi utilizado como meio de inclusão. Isto é bem exemplificado na estratégia
da Fundação Ford no fim dos anos 1960 (ROOKS, 2006), que forneceu recursos
­absurdos como forma de apoiar os principais defensores da integração racial e
assim marginalizar os militantes mais radicais do movimento black power. Po-
demos ver neste exemplo como a institucionalização capitalista é uma forma de
captura e domesticação das instituições do comum.
O outro exemplo é o movimento universitário Onda anômala, na Itália.
Seu desenvolvimento não está ligado a defesa da universidade pública, mas antes
à construção de uma nova universidade baseada em recentes experiência de “auto­
educação” (coletivo Edu-factory, 2009) e de “autorreforma” da univerisdade, ou-
tro termo que a Onda anômala mobiliza. Não é uma proposta que está endereçada
ao governo ou a algum representante, nem alude a uma prática reformista que
busque suavizar reivindicações radicais. É precisamente o contrário: é a forma
organizada de questões radicais como forma de construir autonomia aqui e agora.
Como no caso dos black studies, “saberes de oposição” (MOHANTY,
1990) e experiência de autoeducação não são imunes à captura: de fato, a gover-
nança acadêmica e a economia política do conhecimento vivem em sua subsun-
ção. Em outras palavras, o problema da governança não é aquele da exclusão, mas
Gigi Roggero 27

antes da domesticação dos elementos mais críticos e radicais. De fato, poderíamos


dizer que a governança capitalista é a forma institucional da captura do comum.
Desde esse ponto de vista, antes do governo há a resistência. Para dizer de outro
modo, a governança não está baseada na plenitude do controle, mas antes é re-
produzida na crise permanente na qual é estruturalmente dependente da potência
criativa do seu inimigo, fazendo do governo um processo aberto que é indefini-
damente reversível.
Para resumir: na modernidade, o público era aquilo que era produzido
por todos nós, mas não pertencia a nenhum de nós, pertencendo ao estado. As
instituições do comum são a força organizacional da apropriação coletiva daqui-
lo que é produzido por todos nós. Assim, como afirma Carlo Vercellone (2009),
temos que, de certo modo, de imitar as finanças: temos de descobrir como seria
possível tornar o estado e as corporações “reféns”. Noutras palavras, como se-
ria possível nos reapropriarmos coletivamente da riqueza social, das fontes e
das forças congeladas na dialética capitalista entre público e privado? Essa é a
questão que baliza a construção de um “novo welfare”, que deveria envolver a
repropriação daquilo que é a capturada pelo rentismo capitalista. Não é por coin-
cidência que este é um tópico central nos movimentos universitários.
Agora podemos redefinir a contradição entre forças produtivas e relações
de produção de uma forma antidialética. Quando o comum é o centro das relações
sociais, a distinção proposta por Michel Foucault entre lutas contra a exploração e
lutas de subjetivação deve ser reformulada, pois, desde a perspectiva do comum,
as lutas a respeito da produção de subjetividade são simultaneamente lutas contra
a exploração. Isto torna possível, então, repensar a liberdade em uma chave ma-
terialista. Quando a liberdade é incorporada na relação entre singularidade e co-
mum, no controle coletivo da produção da potência do trabalho vivo, ela se torna
uma crítica radical da exploração. Essa é a liberdade das forças produtivas que, ao
rachar o desenvolvimento capitalista, abre caminho para um porvir diferente: isto
é, uma tendência diferente.
É uma liberdade comum por ser parcial. A ruptura com o “comum capita-
lista” e com o valor de troca não precisa retornar ao valor de uso contido na noção
mitológica de “bens comuns”. Antes, essa ruptura é a construção de uma nova
relação social que reinventa uma composição radical entre liberdade e igualdade
baseada e continuamente constituída pelo comum. Assim, para além da dialética
capitalista entre privado e público, para reformular Marx (1976), o comum é “a
possessão coletiva como base” da propriedade singular. Além da dialética capi-
talista privado-público está um direito autônomo a uma propriedade do comum.
28 Cinco teses sobre o comum

Essa aposta política pode parecer muito irrealista para aqueles que, nas
últimas três décadas, falaram incessantemente sobre a passividade dos novos su-
jeitos do trabalho vivo que, supostamente dominados pelo “pensamento único”:
isto é, pela dita invencibilidade e pelos aspectos totalitários do capitalismo neoli-
beral. Após os movimentos globais e o início da crise global, esse argumento não
faz mais sentido: o neoliberalismo está acabado. Isso não significa que os efeitos
da política neoliberal tenham desaparecido, mas ela não é mais capaz de constituir
um sistema coerente. Essa é a crise do capitalismo como abertamente reconhecido
todos os dias pela mídia hegemônica, economistas notáveis e mesmo governos
moderados. Neste contexto, é difícil lembrar que apenas 20 anos atrás estes mes-
mos atores proclamaram o “fim da história”.
Sobre a aparente passividade dos sujeitos seria sábio lembrar a resposta
de Marx (1950) a Engels, de 9 de dezembro de 1851. Respondendo ao amigo,
que lamentava o comportamento “estúpido e infantil” do povo parisiense que fa-
lhara em se opor a Luís Bonaparte, Marx escreveu que “o proletariado guardou
suas forças”. De acordo com Marx, o proletariado havia, dessa forma, escapado
de se engajar numa insurreição que reforçaria a burguesia e a reconciliaria com
o exército, inevitavelmente levando a uma segunda derrota operária. Similar à
forma com que os operaístas da década de 1950 e 1960 encontraram o potencial
da resistência na dita alienação e integração daqueles que se tornariam a figura do
operário-massa, temos de encontrar as possíveis linhas de reversibilidade na apa-
rente passividade dos sujeitos contemporâneos do trabalho vivo. Para construir
novas teoria e prática do comunismo, precisamos aprender a nova linguagem do
comum, começando pelo otimismo do intelecto.

Gigi Roggero é doutor em Ciências Sociais pela Universidade La Sapienza, em


Roma, autor de vários livros, como A fábrica do saber vivo e A curva da reta de Lênin (sem
tradução ao português), além de militante e pesquisador do coletivo Commonware (http://www.
commonware.com).

Tradutor:
Silvio Pedrosa é professor de História na rede de ensino municipal no Rio de Janeiro
e participa da Rede Universidade Nômade.
Gigi Roggero 29

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LUGAR COMUM Nº42, pp. 31- 44

Negri e Badiou, comunismos

Bruno Cava

Alain Badiou e Antonio Negri são filósofos do antagonismo. A máxima


“Um virar Dois” percorre as propostas teóricas e políticas de ambos. O Um tota-
liza e estabiliza. O Dois começa a revolução. O ponto de partida das lutas está em
se abrir um processo de divisão, um Dois em ação. É preciso perceber divisões e
assimetrias onde o Um se oferece como solução. O Um é resultado de sínteses e
apaziguamentos, uma produção do poder constituído. O comunismo acontece por
separação, por uma completa dissociação do mundo organizado pelo capital. A
luta revolucionária se orienta pela contínua tendência de suprimir a relação social
do capital, sua estrutura social, sua economia e política mistificadas, seu modo
simbólico de representar os sujeitos.
Negri chama de tendência antagonista o método que pesquisa as dissen-
sões dispersas pelo corpo social. Investiga as superfícies de contato e pressão
entre as forças antagônicas, os choques e manobras, onde a realidade range sob o
peso das sínteses, onde o capital tenta reduzir a subjetividade proletária ao mundo
do trabalho.
Badiou remodela o materialismo dialético para instaurar o Dois como o
próprio ânimo militante do comunismo. Nenhuma união dos contrários, nenhuma
conciliação das classes pode conduzir ao comunismo. A dialética da cisão age in-
clusive por dentro dos movimentos de transformação. O Dois se aplica ao Dois, a
dialética na dialética, a revolução na “revolução”, purificando a força dos desvios
“à esquerda” (contra os anarcodesejantes pós-modernos) e “à direita” (contra os
reformistas e revisionistas de partido).
Ambos os filósofos se colocam como inimigos das sínteses. Atribuem
ao capitalismo a operação reversa, “O Dois vira Um”. Esse Um sintético se dá de
muitas formas redutoras: pela redução da política à representação; da decisão à
gestão; da crítica da economia política ao economismo; do projeto comunista ao
capitalismo de estado (o socialismo); da revolução à “construção do socialismo”.
O crime do Um está em institucionalizar a violência de classe, em sistematizar e
generalizar a desigualdade na estrutura produtiva. Os dois criticam ferozmente as
sucessivas reintegrações dos conflitos e contradições pela ordem posta, dentro de
um sistema que se pretende e se apresenta como onicompreensivo. Um e outro
exercem uma crítica ao modo de organização das relações produtivas como um
32 Negri e Badiou, comunismos

todo, e propõem a radicalização do antagonismo. A amplitude do antagonismo


não cabe no pluralismo agônico das democracias parlamentares, que se movem
sobre o um terreno inquestionado e homogêneo definido pela métrica do capital.
Quer deslocando-se da armadilha das falsas contradições dialéticas, em proveito
do investimento das energias nas contradições antagonistas (Badiou). Quer pro-
pugnando por um antagonismo sem mediações, direto das forças vivas do tra-
balho, relegando ao segundo plano a mediação por parte de partidos, sindicatos
ou governos de esquerda (Negri). Os dois se colocam como antissocialistas e
reclamam nada menos que o comunismo. Os dois são críticos da noção de sín-
tese operada também pelas “esquerdas”. Quem sintetiza é o capital. A dialética
insuficiente e estrutural (Badiou), ou mistificadora e despotenciante (Negri), tem
por objetivo desmobilizar a irrupção do antagonismo. Um e outro desconfiam de
sínteses esboçadas, – de propostas de convergência ou instâncias de conciliação –,
mesmo em seu uso militante, pois essa costuma ser a gramática do capital. Mesmo
quando se referem às forças transformadoras, não parecem se sentir confortáveis
com a linguagem do consenso, a negociação de denominadores comuns, as pre-
tensiosas “frentes amplas”.
Para Badiou e Negri, o comunismo significa a abolição da classe proletá-
ria, o fim da sociedade de classes, a extinção do capitalismo, a supressão do traba-
lho. O comunismo não é a síntese de capitalismo e socialismo, nem a forma social
depois da revolução. O projeto do comunismo é a própria revolução. Sem recair
em socialismo utópico, aderem à ideia do “movimento real de abolição do estado
de coisas”, de Marx e Engels. Não fazem planos da sociedade futura. A revolução
é uma realidade. Deve ser perscrutada nas condições existentes do presente, na
proliferação de lutas sociais já em andamento. Perscrutada, incitada, organizada.
Não há teleologia histórica, o comunismo não está no fim, e não é inevitável
como vitória total. De um modo ou de outro, ambos defendem que o comunismo
já é um processo em curso. Os dois admitem a premissa que a história é movida
pela política do proletariado. Quer dizer, por um sujeito cuja latência subterrânea
está presente em todas as coordenadas do presente. Ele quem forçou a realidade a
mudar para o que é. O capitalismo vem a reboque, como num jogo de gato e rato.
Para Badiou, o proletariado falta, é causa dissipante da situação, e só é simboliza-
do no campo da representação como força produtiva mediada pelo capital, isto é,
como uma contradição estrutural, neutralizada. A emergência do sujeito faz acon-
tecer o irrepresentável, preenchendo a situação de um excesso ontológico que ela
não pode suportar. O evento não realiza um possível, mas, precisamente, o que
acontece é o impossível. Nesse sentido, o sujeito badiounista rasga a história, e
Bruno Cava 33

resgata uma verdade antes invisível, segundo a ordem simbólica. O sujeito é real,
e por isso fora da ordem simbólica capitalista. Para Negri, o proletariado não falta,
mas o capital faz de tudo para não lhe dar nome. Boa parte da tarefa consiste em
elaborar coletivamente noções comuns, que confiram consistência à sua presença.
O proletariado como força produtiva se confunde com o próprio ser, que para
Negri é produtivo e constituinte, absolutamente pleno. A lógica da representação
não torna o sujeito uma falta, este nunca falta ou se dissipa, mas o despotencia
através da matriz de mediações: o estado, o direito estatal, o mercado, em suma,
as relações de produção. O sujeito é real e sobrecarregado de determinações – um
suplemento de ser que o faz intrinsecamente incontrolável e perigoso.
Para ambos, o capital engendra ao redor de si uma teodicéia. O status
quo capitalista procura convencer, por meio de seus especialistas, jornalistas, aca-
dêmicos e todos quantos trabalham dia e noite para conservá-lo, que é ele quem
produz riqueza. Qualquer outro modo de produção não é sustentável, não gera
a mesma quantidade e qualidade de bens sociais. Apresenta o mercado como o
Deus medieval, a força inquestionável por trás da realidade mundana, o poder
pessoal organizador do mundo, da ordenação social, do papel de cada um na pro-
dução. Adapte-se ao mundo real, ele exige sob pena de miséria e desajuste. O
capital atribui as forças produtivas a si mesmo. A sociedade capitalista se expõe
como a sociedade tout court. Negri fala em era da “subsunção real”, a nossa pós-
-modernidade. No estágio que o capital se dissemina pelas relações sociais se
torna mais fácil apresentá-lo como soberano. Mas não passa de um conjunto de
relações de produção projetadas sobre as forças de produção. Basicamente, o ca-
pital é estrutura e não força plasmadora; trabalho coagulado e objetivado, e não
subjetividade fluida. Esse o antagonismo fundamental para Negri. Uma assimetria
absoluta entre os dois termos da relação social do capital.
Na ontologia constituinte, as forças produtivas são um “a mais” quando
comparadas ao mundo organizado pelas relações de produção, o mundo do traba-
lho. Produzem um excedente inesgotável em relação ao que pode ser expropriado
e coagulado como valor. Esse excesso é a própria imaginação real, a capacidade
de auto-organização do trabalho vivo, apesar das constrições de estado e mercado.
Na era da subsunção real, o trabalho vivo comporta toda a produtividade existen-
te. De uma forma ou de outra, a produção social mediada pelo capital se assenta
nas qualidades cooperativas, procriadoras e imaginativas do trabalho vivo. Sem o
trabalho vivo, o valor não é objetivado, não se move, e não há capital. O capital
parasita o trabalho vivo. Negri deixa claro como essa mediação mitiga a produti-
vidade, tudo que se pode fazer e ser, impondo limites e imobilidades ao trabalho
34 Negri e Badiou, comunismos

vivo. A ilimitação e a mobilidade reforçam a autonomia do trabalho vivo. O ca-


pital é sempre um “a menos”, um grau inferior de potência, um desejo refreado e
voltado contra si, como servidão voluntária. Isto não implica antinomia.
A topologia é mais complexa. O poder, a lei e a negatividade só existem
apoiados sobre a potência, o desejo e a positividade – que são ontologicamente
primeiros. Se as instituições do capital conseguem funcionar, é porque conse-
guiram se vitalizar com a exploração do trabalho vivo. Todo poder é potência,
ainda que refratada. O capital contorna o fato e se automistifica como a própria
essência produtiva. Expor como isso ocorre, nas bacias do trabalho vivo, é a tarefa
da copesquisa. Ao mesmo tempo em que organiza os elementos de autonomia, e
dispara os antagonismos. Para o capitalismo, toda alternativa, ou é fantasia, ou
ideologia assassina, como se a alternativa – essa autonomia construída no seio do
trabalho vivo – já não fosse o seu próprio pressuposto inconfesso.
O problema pelo capitalismo, então, é livrá-lo de pessoas corruptas, mal
intencionadas e excessivamente gananciosas, a fim de premiar os justos, os tra-
balhadores e os talentosos. Para que, nesse conto de fadas, possa funcionar como
autêntica meritocracia, uma sociedade de chances iguais para todos. Eis a utopia
de liberais, republicanos e humanistas moralistas, com sua falsa e maniquéia con-
tradição reproduzida todos os dias no jornalismo, os cidadãos de bem em com-
bate à corrupção. Nessa utopia, o capital se confunde com o próprio meio social,
a sociedade na totalidade, cujas divisões agudas e violentas se reduzem a uma
questão de moral e mérito. Negri propõe a práxis constituinte no lugar de todas as
indignações de bela alma, o vade-mécum da grande imprensa.
Por sua vez, o Badiou de Teoria do Sujeito chamaria a realidade domina-
da pelo capital de espaço de posicionamento das coisas que existem, a “situação”
estruturada, o campo dominante da representação. Em sua ordem simbólica, o
antagonismo é recodificado como contradição estrutural. O estruturalismo aco-
moda os conflitos no sistema. O capital e o trabalho, destarte, podem negociar um
ponto justo. Surgem instâncias de mediação “à esquerda”. As sínteses prosseguem
tapando as brechas de eventos revolucionários. A história é escrita; a política é
aprisionada no jogo político da representação. As classes têm de conviver dentro
do capitalismo. Como se o proletariado não desejasse a própria abolição, ou seja,
extinguir a condição inferior, subordinada, explorada, coagida e por vezes violen-
tada. Manipula-se o desejo de Um, a conciliação dos contrários como um bem em
si, o que é ensinado desde a infância.
Badiou e Negri são pensadores da crise. Seu materialismo radical tem
inspirado um novo modo de fazer filosofia, ou uma nova política na filosofia. Em
Bruno Cava 35

tempos de mais uma crise generalizada do capitalismo, não admira as ocupações


e movimentos radicais piolharem de negrianos e badiounistas. Pensar da crise é
o próprio materialismo, a forma marxista. Não existe materialismo marxista sem
teoria da crise. Materialismo não se confunde com apego à matéria, às coisas ou
à realidade objetiva. Isto seria um materialismo fisicalista ou cientificista, uma
tendência do século XIX construída como alternativa à concepção religiosa do
mundo e espiritualismos daqueles tempos românticos. O materialismo marxista
não se concentra na matéria, o que seria apenas outro idealismo, mas na práxis.
A atividade do pensamento não pode se reduzir à especulação ou esquematismos
de razão pura. A verdade materialista não se define pela adequação ou prioridade
dadas às coisas. Mas pelo critério da prática como mobilizador das verdades.
Os dois autores são pensadores da crise porque se instalam nela como
perspectiva e mundo. O pensamento se mobiliza ao deparar com os impasses, os
travamentos, as perplexidades – e todo esse encontro contínuo com as limitações
e condições reais. Um e outro viveram essa crise e elaboraram a teoria a partir
disso. A crise como chave de desdobramento da complexidade do real; a borda
do pensamento a partir do que flui a imaginação, a hipótese como aposta e rea-
firmação de propósito. Frequentemente irascíveis, polemizaram contra todas as
tentativas de revisionismo histórico, diante de eventos/ciclos de lutas, essas gran-
des crises, como a Revolução Russa ou o Maio de 1968. E se falam em derrotas
históricas, não a interiorizam como derrotismo. O materialista não crê na transcen-
dência de si mesmo ao real. Não admite ontologias fundadas no eu, na consciência,
na escuta do ser. Essas teorias burguesas de que o Eu aparece para o mundo de
repente, e daí tem de lidar com essa inadaptação, e angustiado escutar o ser. O Eu
é desde sempre produzido – e não aparece. Com Nietzsche, quando muito esse
Eu é apenas uma doença da razão, uma paixão voltada contra si na forma da (má)
consciência, uma interioridade escavada no ressentimento de não poder efetuar a
própria potência de existir. Esse Eu conflagrado muitas vezes se crê transcendente
apenas para lavar as mãos e não fazer nada, e acaba fazendo a apologia do status
quo. O comunismo é uma práxis constitutiva e não transige com existencialismos.
A crise que importa está nas relações, nos conflitos, na política – e não na desgraça
intima, na interioridade psíquica. Os dois autores não cansaram de recusar todas
as manifestações do individualismo, inclusive as mais sofisticadas. Não confundir
produção de subjetividade com subjetivismos burgueses, detrás do que espreita a
teoria do contrato, o direito civil e o bom pai de família.
Uma diferença crucial entre o sujeito revolucionário para Negri e Ba-
diou está na posição ocupada pela crítica da economia política na maquinaria
36 Negri e Badiou, comunismos

concei­tual. Vale invocar um recente texto sintético (e pregnante) do último6. Para


Badiou, a “Ideia do comunismo” se baseia em três aspectos: político, histórico
e subjetivo. O primeiro elemento se relaciona com a produção de verdades po-
líticas. Elas se definem como cadeias específicas de ações e práticas coletivas,
deflagradas por momentos revolucionários. Acontece, por exemplo, a Comuna
de Paris, e daí dimanam séries de procedimentos políticos-organizacionais que
podem ser retomados e que embutem elementos eternos de libertação e revolu-
ção. As consequências que podem ser aprendidas com o evento definem a sua
verdade política.
A verdade política tem um caráter processual, um conjunto de operações
e um tipo de formalização da realidade. Esse processo prescreve um sujeito para
si, e só pode ser efetivo por meio de um sujeito. Por exemplo, a práxis da organi-
zação leninista para o evento chamado Revolução de Outubro de 1917. O sujeito
é aquela força capaz de transcrever a carga excedente de real desses eventos.
Essa transcrição implica modos de efetuação das verdades políticas na situação
presente. Essa transcrição desestabiliza as coordenadas da presente situação, sua
estrutura entra em risco. O sujeito sustenta o processo de verdade, contra a re-
sistência da ordem posta. O aspecto histórico se relaciona com o caráter trans-
-temporal da verdade. As verdades não existem num limbo. As verdades políticas
se interconectam sem linearidade, numa matriz trans-histórica. Assim, podem se
estabelecer conexões entre, digamos, a Comuna de Paris e a Revolução Cultural
Chinesa, ou entre o Maio de 1968 e a conversão de São Paulo. A operação históri-
ca do sujeito o faz saltar entre esses platôs, colhendo as fagulhas revolucionárias.
A modalidade de existência da verdade é a do futuro anterior. Colocada em mar-
cha pelo sujeito no presente, a verdade reescreve todo o passado dos agentes, e
pela própria força transforma juntos o passado e o futuro. Nesses períodos, o real
se manifesta com a força da verdade. O aspecto subjetivo, por sua vez, se dá com
a decisão de incorporar-se ao sujeito. O indivíduo se torna parte do corpo da ver-
dade deflagrada pelo evento, uma conversão ao movimento da história. A palavra
é essa mesma: “incorporação”.
Um militante da verdade, corporificado com ela, com suas operações,
fiel à universalidade do comunismo. A história que importa para o sujeito, aqui,
se constrói pela sucessão trans-temporal das verdades políticas dos eventos – e
não a História oficial, linear, contada segundo os signos da ordem representativa
da situação. Esta História é vazia e objetivada, uma narrativa meramente simbó-

6 Este § cf BADIOU, Alain.The Communist Hypothesis. 1. ed. Londres: Verso, 2010. p. 229-
260.
Bruno Cava 37

lica, impossível de ser animada pelas verdades. A História serve para legitimar o
estado das coisas, e perpetuar as condições de sua perpetuação. A subjetivação do
indivíduo projeta no presente situado, em consequência, um fragmento de uma
verdade universal e eterna. A Ideia do comunismo consiste na operação com que
se podem mobilizar as verdades políticas de eventos fundantes. Desestabiliza a
situação dada, sobrecarregando a ordem simbólica de um real anômalo e ines-
tancável. É o começo da revolução. É o real, novamente, que intervém graças ao
sujeito. Toda a ordem simbólica, com as suas desigualdades e injustiças, é colo-
cada em questão. É São Paulo, subjetivado no caminho de Damasco, pregando o
igualitarismo absoluto de todos como cristãos, e ameaçando a ordem política do
Império Romano e do judaísmo.
Uma nova identidade universal e eterna (“todos iguais”), o cristão, para
abolir todas as identidades existentes (romano, escravo, estrangeiro, mulher, po-
bre etc.)7. O sujeito “veridificante” renova o comunismo, ao emergir corporificado
com a carga sobejada de verdades. Apesar dessa emergência sempre implicar uma
inovação na situação dada, é eterna enquanto fragmento da verdade universal.
Mas como projetar a Ideia para a organização de novos eventos revolucionários?
Como antecipar a criação de novas possibilidades? Para se começar uma revo-
lução, “é preciso ter uma Ideia (...) Faltando a Ideia, a confusão das massas é
inescapável.”8. Para Badiou, a operação realizada outras vezes pela Ideia compro-
va a abertura da história à ocorrência da verdade. A reabertura desse processo é
uma realidade a ser pesquisada. Onde? “Existem mais e mais de nós envolvidos
em novos tipos de processos políticos entre os pobres e as massas trabalhadoras,
tentando encontrar cada maneira possível de apoiar a reemergência de formas
da Ideia comunista na realidade.”9
Não se pode dizer que Badiou despreza o movimento real de abolição
do estado de coisas. O que se pode dizer, todavia, é a falta de poder explicativo
de seu esquema da Ideia. O que faz toda a diferença. A frase acima, aliás, não diz
quase nada. A práxis depende do teste de hipóteses concretas que, colocadas em
marcha nos movimentos, obtêm alguma espécie de eficácia. Sem sujar as mãos
com alguma eficácia no teste das hipóteses práticas, o marxismo se reduz a uma
discussão puramente intelectual. Não é outro o ensinamento da copesquisa. Em
Badiou, nenhuma analítica do capitalismo global, sua gênese ou crise, nenhum

7 BADIOU, Alain. São Paulo. Tradução de Wanda Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2009.
8 BADIOU, Alain.The Communist Hypothesis. Op. cit. p. 256 e 258.
9 Ibid. 260.
38 Negri e Badiou, comunismos

exame dos termos por dentro da relação do capital, tampouco cartografias das
lutas globais. A teoria do sujeito se articula com a verdade e o evento, apontam-
-se exemplos de revoluções, a relevância de resgatá-las, redimensioná-las, ser fiel
a seus ensinamentos profundos, mas agora... o que fazer? Falta-lhe uma análise
material dos processos de configuração do sujeito revolucionário por dentro das
lutas contemporâneas. Prescreve, sim, saltos à memória das lutas para escovar
a história a contrapelo, ao modo benjaminiano. E desdobra originais arquitetu-
ras teóricas para polemizar com inúmeras correntes revisionistas, esquerdistas ou
simplesmente conservadoras. Em termos bastante mais simples do que em The
Communist Hypothesis – e sem sequer recorrer à tríade (reconfigurada) de La-
can – Badiou poderia ter repetido uma formulação dele mesmo: “o marxismo é a
sabedoria acumulada das revoluções populares, a razão que elas engendram, a
fixação e a precisão desse alvo”10. O fato é que o marxismo de Badiou não se de-
bruça sobre a crítica da economia política11. Pelo contrário, dispensa-a. Considera
o problema da economia política inteiramente adstrito à situação dada. Para Bru-
no Bosteels12, essa opção metodológica é consequente. A periodização da política
procede por saltos históricos atrás de momentos extraordinários de mobilização
de massa. A subjetivação capaz de manter viva a chama do marxismo depende
muito mais da reconstrução do evento – e sua sustentação pela organização polí-
tica – que de intrincadas análises do capitalismo. Daí a preferência de Badiou por
textos por assim dizer de “enfrentamento direto”, como o Manifesto Comunista13,
O que fazer?14 ou Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China15.
Outrossim, no mesmo livro, o comentador de Badiou atribui16 a carência de po-
der explicativo a Negri e Hardt. Os autores generalizaram processos a grandes
escalas e acabaram hipostasiando o antagonismo (por exemplo, com a hipótese
compreensiva da “subsunção real”). Sem, no entanto, atentar para as peculiari-
dades das contradições colocadas. Descartando o exame da diferença entre an-

10 BADIOU, Alain. Théorie de la contradiction apud BOSTEELS, Bruno. Badiou and Poli-
tics. Op. cit. p. 280.
11 No mesmo sentido, ZIZEK, Slavoj. Living in the end times. Londres: Verso, 2010. p. 183-
185.
12 BOSTEELS, Bruno. Badiou and Politics. Op. cit. p. 280-283.
13 MARX, Karl; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998.
14 LÊNIN, Vladimir. O que fazer – a organização como sujeito político. Op. cit.
15 MAO. Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China. Disponível online em
http://www.marxists.org/portugues/mao/1936/guerra/index.htm. Acesso em 6 ago. 2012.
16 BOSTEELS, Bruno. Badiou and Politics. Op. cit. p. 116 e 284, 285.
Bruno Cava 39

tagonismos estruturais e fundamentais, o que dependeria de uma colocação mais


situada, nas frentes em que os antagonismos acontecem. O antagonismo imediato
teorizado por Negri, independente de partidos, sindicatos ou órgãos do estado, re-
duz o escopo da análise. Assim, se perde de vista toda uma zona intermediária de
subplatôs e diagonais, que o materialismo dialético permite configurar com seus
pares intercruzados, sua operação de cisão aplicável a qualquer termo situado.
Em síntese, tem-se uma imputação a Negri de incorrer em pensamento abstrato,
demasiado generalizador. Sobre a questão, Negri se dirige diretamente a Badiou
em “É possível ser comunista sem Marx?”17 Basicamente, imputa ao “maoísmo
radical” francês um horror à história. Uma incapacidade crônica de analisar os
processos histórico-políticos e estabelecer um continuum de acumulações de luta.
A revolução brota do seio das massas ao chamado da organização. Atribui a esse
tipo de maoísmo, que Badiou ainda incorre residuamente, não só o pensamento
abstrato e o ideal de pureza “janseísta”, como também o socialismo utópico.
“Como distinguir o evento de um artigo de fé?”18 Se é absurdo, não creio! Ba-
diou não considera a temporalidade mais lenta dos processos em sua latência,
da construção passo a passo dos antagonismos, e muito menos a transitividade
entre sujeito e produção, entre sujeito e ontologia constituinte. Em suma, segundo
Negri, faltam coordenadas, definições, divisas, metodologias, e toda a espécie de
ferramenta teórico-política para conferir materialidade ao comunismo de Badiou,
que parece estar sempre “além da prática política, além da história”19, excessiva-
mente descolado das lutas, enquanto hipótese à altura dos desafios de seu tempo.
“É portanto muito difícil entender onde se encontram, para Badiou, as condições
ontológicas do sujeito e da ruptura revolucionária.”20
A crítica da economia política não pode faltar à teoria do sujeito comu-
nista. Uma crítica da economia política que considere “modo de produção” no
sentido alargado de produção de subjetividade, na interzona das produções de
sujeitos e objetos. Isto significa não só rejeitar os objetivismos economistas, mas

17 NEGRI, Antonio. É possível ser comunista sem Marx? Tradução de Bárbara Szaniecki.
Revista Lugar Comum, Rio de Janeiro, n. 31-32, p. 56, 2011. O artigo foi publicado depois de
A Hipótese Comunista, de Badiou, e antes de Badiou and Politics, de Bosteels. Negri também
se refere diretamente a Badiou, como seguidor oculto do credo quia absurdum de Malebranche,
em NEGRI, ANTONIO. Spinoza y nosotros. Tradução de Alejandrina Falcón. Buenos Aires:
Nueva Vision, 2011, p. 29, 30.
18 Ibid. p 39.
19 Ibid. p. 38.
20 Loc. cit.
40 Negri e Badiou, comunismos

também os politicismos. De um lado, a redução da crítica imanente do sistema


produtivo ao problema da gestão, do crescimento econômico, do quantitativo e
do extensivo. A redução da “construção do socialismo”. Do outro lado, em vício
simétrico, a redução ao problema da autonomia do político. Como se o político
fosse uma chave de explicação e inteligibilidade de qualquer conflito no social,
entendido como um meio homogêneo. Aqui, dois erros idealistas. Primeiro, por
separar o político da produção, quando não há política senão como produção de
ser, como organização do trabalho vivo, quer para libertá-lo e fortalecer-lhe a
autonomia, quer para explorá-lo e confiná-lo. E erro ainda ao tratar o socius como
médium, como suporte das relações políticas. O próprio social é uma produção,
percorrida ontologicamente pelas dinâmicas constituintes. O social não é o lugar
de aplicação do político.
Na subsunção real, o socius se confunde com a sociedade capitalista,
mas ao mesmo tempo o antagonismo se alastra por todo o corpo social. Daí que
estão erradas, sob a espécie materialista, as invocações de autonomia, seja do po-
lítico, seja do econômico, bem como a hipostasiação do social. No materialismo,
o foco está nos processos produtivos, vistos a partir da crise que os constitui e
mobiliza. Na crise, a tensão ética é levada ao máximo, e o desejo faz do míni-
mo o máximo, expande demandas e dilata sua esfera de querer e amar. É dessa
brecha, da qualidade ontológica da produtividade, que se podem compreender
o social, o político e o econômico, – três platôs interconectados e sem primazia
de um sobre o outro. É a ferramenta materialista, pragmaticamente associada à
copesquisa, – ou à pesquisa participante, – que pode sondar na materialidade das
relações, na tensão do arco retesado, na superfície dos contatos e rangidos com
a máquina, enfim – onde estão as oportunidades, estratégias e capacidades para
radicalizar a crise.
As determinações do antagonismo são essenciais para que não se perca o
bom senso da luta. Aqui, a hora do anticlímax. Antagonismo sem determinação ma-
terial leva a golpes arrevesados, possivelmente ao terrorismo. Que é a ação terro-
rista, ou a luta armada inconsequente, – que qualquer instância de poder sonha em
poder definir-se como o outro –, do que um antagonismo indeterminado ou pouco
determinado? Insuficientemente materialista, daí utópico? O ser sobrecarrega as
relações de determinações. Então é preciso amassar o barro e andar descalço, numa
copesquisa de verdade. É daí que se pode construir uma práxis capaz de transfor-
mar o capitalismo: na auto-organização do movimento alternativo que já existe.
O problema da dialética é que se situa muito distante do ser. É preciso ex-
trair não só os finalismos da dialética, mas também seu descolamento do sistema
Bruno Cava 41

produtivo, quando aquela eleva para fora da história e da política. O mundo a ser
transformado é este e nenhum outro. Viver a crise como mundo significa perceber
como já emergem, aqui e agora, novas formas produtivas e subjetividades, novos
modos de organização, novas ruas e movimentos. Essa força subjetiva atiça os
antagonismos, e pode generalizar as microinsurreições num processo incontorná-
vel. A crise se dá exatamente porque enquanto as subjetividades emergem, com
intensa produtividade, e sobre elas se projetam as malhas de controle e mediação
do capital. Assim que as novas dinâmicas surgem, na sua desmedida, no infinito
qualitativo de suas diferenças, vêm as instâncias estatais e mercadológicas para
expropriar e aplicar o valor. A resistência é primeira no sentido que essa emer-
gência, – uma auto-organização do trabalho vivo, – precede as tentativas de en-
quadrá-la na métrica capitalista. A crise do capitalismo global, hoje, indica muito
mais a dificuldade de o capital subsumir as novas emergências de subjetividades,
do que qualquer falha estrutural ou conjuntural do sistema econômico.
Não é outra a proposta do método da tendência antagonista. Um mate-
rialismo das diferenças ativas, dos fluxos e redes de subjetividade. Trata-se de
apontar a crise como constitutiva da relação do capital, – no sentido que essa
relação se torna tanto mais instável quanto maior a capacidade de autonomia,
cooperação e imaginação do trabalho vivo. Esse método busca apreender a rede
de antagonismos na sua emergência, na rede de diferenciações e singularidades da
nova composição do proletariado. E então acelerar o clinamen, o ponto em que as
singularidades antagonistas, – como os átomos do materialista Lucrécio, – se in-
clinam umas sobre as outros, furam o vácuo homogeneizado do capital, e se agre-
gam e fazem multidão. O sujeito para Negri se autoproduz, uma autopoiese que
é concomitantemente política, de direito e produtiva. Esse sujeito não se origina
nas mediações atributivas do estado, do mercado e de outras formas capitalistas;
não nasce da normatividade ou transcendentalidade. Sua autonomia é de autopro-
dução, inclusive dos próprios limites e formas. É ser, na sua plenitude. Quem tem
medo da ontologia positiva? No fundo, o comunismo precede o capitalismo. Não
como comunismo primitivo, um dia subsumido pelo capital.
Porque a história do comunismo corre por debaixo do capitalismo, como
um rio subterrâneo caudaloso que vaza e aflora por todos os lados, mil fontes e
oásis – do qual o capitalismo é apenas o delta amortecido e seu deserto. Se puser-
mos a cabeça no lugar dos pés, poderemos escutar a força impressionante desse
rio. A formação dos sujeitos está no manancial do trabalho vivo, na qualificação
da vida, cevados de experiência e compartilhamento. O excesso das forças pro-
dutivas em relação às relações de produção significa que sempre haverá mate-
42 Negri e Badiou, comunismos

rial para a imaginação. Um excesso inclusive racional, uma razão contida numa
paixão maior, capaz de desarranjar os esquemas. É a razão liberta das amarras
contra a mediocridade do conhecimento institucionalizado. Ela transita, qual sub-
jetividade selvagem, impregnando códigos, desarranjando fórmulas, desfazendo
roteiros. Essa imaginação real sobrepuja as teologias políticas – com todo esse
monumental aparato de ciências subsumidas ao capital – que o estado precisa para
continuar governando. A imaginação vibrada pelo desejo não cede à superstição,
que é triste, o que no plano político se desdobra como a vitória da esperança sobre
o medo. Foi a eleição do presidente Lula.
A pobreza, por mais empobrecida, vaza com jeitinhos e coisas novas,
com uma recomposição do entorno, o espaço e o tempo. O assédio das coisas não
reinará, porque a contingência do mundo também significa liberdade. Que é a
pobreza absoluta senão subjetividade pura, a potência de ser o que quiser, a liber-
dade de nada ter a perder senão os próprios grilhões? O direito singular coexiste
com outros direitos singulares – que se afirmam encontrando-se e potenciando-se
– no campo relacional e dinâmico em que podem se potenciar. Essa construção
também é sedição ao estado e ao mercado, porque vai além dos limites do que
pode, para reapropriar-se da riqueza, isto é, da própria potência usurpada. O direi-
to singular afirma o que pode e luta para perseverar ante o assédio das causas ex-
ternas. Resiste aos maus encontros do poder constituído, da redução ao valor, ao
mercado, e ao sujeito individual ou coletivo. A afirmação do conatus é resistência.
Ela atravessa a forma de se relacionar, as individualidades e as coletividades, uma
economia de paixões liberta do estado, inclusive do estado dentro de nós. Esse
emassamento sucessivo de mil dinâmicas do trabalho vivo produz o sujeito e gera,
numa combinação enredada pelo desejo, o direito comum dos agregados sociais.
O conatus leva a passagem do ser pleno ao sujeito que participa da cons-
trução comum. O desejo encontra a razão e os dois potenciam, do conatus ao
amor, o amor da construção comum. Cumpre agora pensar um direito além das
mediações, do estado e do privado, das formas capitalistas, um que confira dura-
ção e consistência a esses direitos comuns – um direito do comum.

Bruno Cava é mestre em Filosofia do Direito pela UERJ, blogueiro, participa da


rede Universidade Nômade, autor de A multidão foi ao deserto (Annablume, 2013), bloga no
quadradodosloucos.com.br.
Bruno Cava 43

Referências:
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ovvero l’autocostruzione politica di soggettività disperse. 2001, resenha, on-line em:
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44 Negri e Badiou, comunismos

___. Interpretation of the class situation today: methodological aspects. Artigo in


Open Marxism, vol. II. Londres: Pluto Press, 2002. p. 69-105. On-line em: http://
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___. É possível ser comunista sem Marx? Trad. Bárbara Szaniecki. In Revista Lugar
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ZIZEK, Slavoj. Living in the end times. Londres: Verso, 2010.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 45- 76

Marx contra o estado21

Jean Tible

Para Sebastião Neto e Elias Stein

Existe um pensamento político marxiano?


O que os textos de Marx, de seus artigos de 1842 até a Crítica do Pro-
grama de Gotha, de 1875, nos dizem sobre sua concepção da política? Existe um
pensamento político marxiano? Se Marx não legou “tratados de teoria política
como Locke, nem sistemas de filosofia do Estado como Hegel” (LÖWY, 2009,
p. 7), insistiu em alguns pontos-chave, tais como a opressão estatal, sua articula-
ção com a exploração capitalista e os elos entre revolução, democracia e comunis-
mo. Isso pode ser percebido nos seus mais variados escritos, nas polêmicas com
Hegel e os jovens hegelianos, nos textos sobre os levantes revolucionários (1848,
Comuna de Paris), nos debates do movimento operário e nas obras sobre a eco-
nomia política. Um pensamento político múltiplo, levando a distantes e díspares
compreensões, desde Bakunin e certos anarquistas que o taxaram de “socialismo
de Estado”, até Hans Kelsen que considerava sua teoria política – assim como a de
Engels – como um “puro anarquismo” (DAYAN, 1990, p. 156), enquanto certos
marxistas a resumiam à ditadura do proletariado.
Norberto Bobbio, em seu artigo “Existe uma doutrina marxista do Es-
tado?” (1979), procurou e não encontrou uma teoria do Estado em Marx. Estava
certo ao afirmar tal inexistência? Michael Hardt e Antonio Negri, em Trabalho
de Dioniso, contrapõem tal perspectiva pensando não num exercício de filologia
marxista, mas situando Marx numa “crítica prática ao direito e às instituições do
Estado a partir do ponto de vista do movimento revolucionário” (2004, p. 11).
Toma forma, assim, não exatamente uma teoria marxista do Estado, mas um ques-
tionamento radical do estatal. Desse modo, “o ponto de partida para uma crítica
marxista do Estado é expresso em termos negativos”, (HARDT; NEGRI, 2004, p.
14), lembrando a definição de comunismo presente em A Ideologia Alemã.

21 Versão ligeiramente modificada do artigo publicado originalmente em Revista Brasileira de


Ciência Política, nº 13. Brasília, jan.-abr. de 2014, p. 53-87.
46 Marx contra o estado

Além disso, trata-se de “um pensamento em movimento, que parte das lu-
tas reais dos oprimidos e que se enriquece com suas experiências revolucionárias”
(LÖWY, 2009, p. 7), ligando-nos à visão de Marx aqui trabalhada, privilegiando
os vínculos entre sua teoria e as lutas. Ao apreender o pensamento político de
Marx acerca do Estado, deve-se não esquecer que “o conteúdo de seu pensamento
não é separável de seus deslocamentos. É por isso que não se pode, para estudá-
-lo, reconstituir abstratamente o seu sistema. É preciso traçar a sua evolução, com
suas rupturas e bifurcações” (BALIBAR, 1995, p. 12). Por isso, a proposta de
seguir suas trajetórias nos numerosos e diferentes escritos (livros, artigos, cartas,
comentários à margem), tomando como fio condutor o projeto marxiano de uma
outra política no sentido da superação da sua dimensão estatal.

Manifesto Político de 1843-1844


Os anos iniciais da década de 1840 configuram-se como um período de-
cisivo no qual Marx define os pilares do seu pensamento político na forma de um
movimento contra o Estado. Num dos seus primeiros trabalhos sobre os “interes-
ses materiais” (MARX, 1859, p. 487), a problemática estatal vem à tona. O autor
acompanha, em diversos artigos na Gazeta Renana, a discussão na Dieta (Assem-
bleia) para definir se a prática tradicional de colheita de lenha por parte dos pobres
configurava-se como roubo ou não. Frente à disputa entre duas concepções de
propriedade – privada versus costumes – o Estado joga um papel determinante.
No âmbito de seu engajamento “prático-teórico” nesse jornal, Marx pole-
miza com Hegel. Seu sistema filosófico “faz sombra a todo movimento intelectual.
Cada tomada de posição” o é “frente ao ‘mito de Hegel’” (LASCOUMES; ZAN-
DER, 1984a, p. 11). Estes artigos representam o início do seu questionamento da
concepção hegeliana do direito e do Estado. De um lado, Marx desenvolve uma
percepção das contradições internas do Estado; de outro, esboça uma perspectiva
diferente, indo além da “negatividade abstrata que a sociedade civil mantém para
Hegel em sua relação com o Estado” (LASCOUMES; ZANDER, 1984b, p. 265),
ao perceber um papel positivo – isto é, de criação – na sociedade.
Partindo de um ideal estatal, Marx decepciona-se com sua ação concreta.
A conclusão dessas matérias jornalísticas, irônica, o deixa bastante claro; “a Die-
ta cumpriu perfeitamente sua missão. De acordo com sua vocação, representou
um interesse particular determinado e o tratou como seu objetivo final” (MARX,
1842b, p. 167). O jornalista-filósofo critica esta elevação do interesse particular
dos proprietários de florestas a interesse geral. E questiona o Estado prussiano por
posicionar-se do lado do interesse privado, estabelecendo uma contradição com
Jean Tible 47

sua suposta encarnação do interesse geral. Conforme colocado por Marx alguns
meses antes, “o Estado que não é a realização da liberdade racional é um mau
Estado” (1842a, p. 218), defendendo o autor a capacidade estatal de mediação e
sua tarefa de, pela capacidade de estar uma esfera acima daquela onde os conflitos
aparecem, fazer prevalecer o ponto de vista racional da totalidade. Eis a solução
política (do Estado).
Marx esboça, entretanto, um deslocamento inicial desta apreensão do Es-
tado como organizador, apontando um outro caminho – e fonte – para que a lei
alcance o interesse geral da comunidade política. Nesse sentido, “estes costumes
próprios à classe pobre são regidos assim por um sentido instintivo do direito; sua
raiz é positiva e legítima, e (…) não encontrou ainda uma posição adequada no seio
da organização consciente do Estado” (1842b, p. 142). O autor distingue direito
dos proprietários e direito à existência e, nesse âmbito, o Estado, para garantir sua
universalidade, deve reagir contra certos interesses privados e incorporar outros.
É sintomático que este engajamento inicial jornalístico-político de Marx
finde-se “pelo Estado: não o ‘verdadeiro Estado’ ou o Estado ideal-racional he-
geliano, mas pelo bem real Estado de Frederico Guilherme IV” (DRAPER, 1977,
p. 75), com a supressão da Gazeta Renana. Pode-se dizer que Marx sentiu na pele
o Estado concreto. A partir desta interrupção, o autor se recolhe para um período
intenso de estudos, de maio a outubro de 1843, no qual aprofunda seus pensa-
mentos acerca do político e do estatal. Seus trabalhos preenchem cinco cadernos
de mais de 250 páginas e “testemunham do esforço tentado por Marx (...) para
iniciar-se na história das revoluções francesa, inglesa e americana e suas conse-
quências” (RUBEL, 1994, p. xxxiv), acompanhadas pela leitura dos clássicos da
política, tais como Rousseau, Montesquieu, Maquiavel e Spinoza. De acordo com
Isaiah Berlin (1978, p. 85), os anos 1843 a 1845 foram os anos decisivos de sua
vida, sendo que é em Paris – e graças ao contato com o movimento operário – que
seu amadurecimento intelectual conclui-se. Tal período tem início com o Manus-
crito de Kreuznach, primeira parte do seu manifesto político.
Neste texto de 1843, Marx, como o colocou 16 anos depois, “para resol-
ver as dúvidas que o tomavam”, empreendeu uma “revisão crítica da filosofia do
direito de Hegel” (1859, p. 487). Trata-se de um texto-chave para a compreensão
do pensamento político marxiano e toma a forma de uma leitura de Princípios da
Filosofia do Direito de Hegel (1821), acompanhada de reflexões e comentários.
Este manuscrito permaneceu ignorado pelas primeiras gerações marxistas, sendo
publicado somente em 1927-1928 por Riazanov na União Soviética e por Lan-
dshut e Mayer na Alemanha.
48 Marx contra o estado

Esta Crítica constitui um texto inaugural. Não por acaso, Marx o men-
ciona e o destaca no Posfácio à segunda edição alemã de O Capital (1873), ao
afirmar que “criticou o lado mistificador da dialética hegeliana há quase 30 anos,
numa época em que ela ainda estava na moda” (1873, p. 17), isto é no ano de
1843. De acordo com Della Volpe, além de sua crítica da lógica hegeliana e das
“‘mistificações’ da dialética a priori, idealista”, este texto “enuncia as premissas
mais gerais de um novo método” (1974, p. 200). Que formas toma esta crítica de
Hegel? O que é o Estado para Hegel?
Em Princípios da Filosofia do Direito, Hegel (§ 261) diz que

em face das esferas do direito privado e do bem privado, da família e da so-


ciedade civil, o Estado é, de um lado, uma necessidade externa e sua potência
superior, a cuja natureza as leis daquelas esferas, bem como seus interesses,
encontram-se subordinados e da qual são dependentes; porém, de outro lado,
é o Estado seu fim imanente e tem sua força na unidade de seu fim último geral
e no interesse geral e no interesse particular dos indivíduos, na medida em que
tais indivíduos têm deveres perante ele assim como, ao mesmo tempo, têm direi-
tos (MARX, 1843, p. 27).

Para Marx, tal definição hegeliana “nos ensina que a liberdade concreta
consiste na identidade (normativa, dúplice) do sistema de interesses particulares
(da família e da sociedade civil) com o sistema do interesse geral (do Estado)”
(1843, p. 27). Ao se expressar em termos de “necessidade externa”, Hegel subor-
dina, em caso de colisão, as leis da família e da sociedade civil em favor das do
Estado, tendo em vista que este representa a “relação essencial” e uma “potência
superior”. Ademais, continua Marx, “Hegel estabelece, aqui, uma antinomia sem
solução. De um lado, necessidade externa; de outro, fim imanente”. Deste modo,
“a unidade do fim último geral do Estado e dos interesses particulares dos indi-
víduos deve consistir em que seus deveres para com o Estado e seus direitos em
relação a ele sejam idênticos” (1843, p. 28).
Dito isto, Marx concentra-se numa dupla fragilidade do texto – e da pers-
pectiva filosófica – de Hegel, sua inversão e abstração. Isto consiste em fazer
da Ideia o sujeito e do sujeito predicado. Hegel parte da Ideia abstrata e inverte,
assim, produto e sujeito; “não desenvolve seu pensamento a partir do objeto, mas
desenvolve o objeto segundo um pensamento previamente concebido na esfera
abstrata da lógica”, incorrendo em mistificações. Em outras palavras, “o movi-
mento filosófico não é a lógica da coisa, mas a coisa da lógica. A lógica não
serve à demonstração do Estado, mas o Estado serve à demonstração da lógica”
(MARX, 1843, p. 36-39).
Jean Tible 49

Ademais, Hegel aponta a contradição entre Estado e sociedade civil e


trabalha sua resolução na forma soberana e monárquica. Segundo este (§ 275),

o poder soberano contém em si mesmo os três momentos da totalidade, a uni-


versalidade, da constituição e das leis, a deliberação como relação particular
com o universal e o momento da decisão última como a autodeterminação a
qual tudo o mais retorna e de onde toma o começo da realidade. Este absoluto
autodeterminar-se constitui o princípio distintivo do poder soberano como tal,
que é o primeiro a ser desenvolvido (MARX, 1843, p. 39).

De acordo com Marx, Hegel indica que no poder soberano estatal se situa
a “universalidade da constituição e das leis” (1843, p. 39). Tal mistificação, para
Marx, poderia ser evitada caso Hegel se baseasse nos sujeitos reais e não numa
subjetivização do Estado. O filósofo procede, ainda, à uma “reconciliação com
a realidade”22, ao transformar “todos os atributos do monarca constitucional na
Europa atual em autodeterminações absolutas da vontade. Ele não diz: a vontade
do monarca é a decisão última, mas a decisão última da vontade é… o monarca”
(MARX, 1843, p. 45), sendo a primeira frase empírica e a segunda metafísica.
Na visão hegeliana, “o Estado como soberano deve ser Uno, Um indi-
víduo, deve possuir individualidade. O Estado é Uno ‘não somente’ nesta indi-
vidualidade; a individualidade é apenas o momento natural de sua unidade, a
determinação natural do Estado”. Para Marx, o filósofo deveria perceber que “o
Uno tem verdade somente como muitos Unos”. Ao invés disso, “Hegel conclui: A
personalidade do Estado é real somente como uma pessoa, o monarca” (MARX,
1843, p. 45-47). Deste modo, “Hegel generaliza o Estado histórico de uma época
bem determinada para fazer dele uma essência geral” e “se proíbe de nos explicar
na sua estrutura e sua gênese (históricas) e então de criticar (de onde compreende-
mos facilmente sua famosa exaltação ou idealização da monarquia ‘constitucio-
nal’ prussiana semi-feudal de 1820!)” (DELLA VOLPE, 1974, p. 206).
Hegel trata, igualmente, do papel-chave da burocracia. Esta é a “cons-
ciência do Estado”, a “vontade do Estado”, a “potência do Estado”, tendo assim
“a posse da essência do Estado, da essência espiritual da sociedade; esta é sua
propriedade privada”. Ligando a distinção Estado/sociedade civil ao papel da
burocracia, Marx defende que “Hegel parte de uma oposição irreal e a conduz
somente a uma identidade imaginária, ela mesma, em verdade, uma identidade

22 Lembrando a conhecida formulação de Hegel no prefácio: “o que é racional, é o


que é real; e o que é real, é o que é racional” (1821, p. 73). A interpretação deste trecho
dividia os hegelianos entre “jovens” e “velhos” e entre “esquerda” e “direita”.
50 Marx contra o estado

contraditória. Uma tal identidade é a burocracia”. Dessa forma, os “delegados


do poder governamental” constituem uma verdadeira representação no Estado e,
frente à oposição entre Estado e sociedade civil, a chave situa-se na mediação des-
tes delegados, gestores do Estado. Demonstrando a que ponto levava a oposição
entre sociedade civil e Estado em Hegel, Marx ironiza que “a ‘polícia’, os ‘tribu-
nais’ e a ‘administração’ não são deputados da própria sociedade civil, que neles
e por meio deles administra o seu próprio interesse universal, mas sim delegados
do Estado para administrar o Estado contra a sociedade civil” (1843, p. 66-68).
Marx questiona, assim, a universalidade do estamento universal de He-
gel, onde este situa a solução do enigma político. Esta mediação – da burocracia
– acaba sendo “uma proteção contra a multidão, a turba. Os estamentos repre-
sentam o Estado em uma sociedade que não é um Estado. O Estado é uma mera
representação” (MARX, 1843, p. 87). Em suma, Hegel

pressupôs a separação da sociedade civil e do Estado político (uma situação


moderna) e a desenvolveu como momento necessário da Ideia, como verdade ab-
soluta racional. Apresentou o Estado político na sua forma moderna da separa-
ção dos diferentes poderes. Ao Estado real e agente, ele deu a burocracia como
seu corpo e colocou esta, como o espírito que sabe, acima do materialismo da
sociedade civil. Opôs o universal em si e para si existente do Estado aos interes-
ses particulares e à necessidade da sociedade civil. Em uma palavra, ele expõe,
por toda parte, o conflito entre sociedade civil e Estado (MARX, 1843, p. 91).

A tais abstrações e apreensões hegelianas, Marx propõe uma inversão.


Assim, “o Estado é um abstractum. Somente o povo é concretum. E é notável que
Hegel atribua sem hesitação uma qualidade viva ao abstractum, tal como a sobe-
rania, e só o faça com hesitação e reservas em relação ao concretum”. Trata-se de
uma ilusão compreender a soberania como absorvida no monarca; pensando em
Hamlet, Marx coloca seu dilema político: “soberania do monarca ou do povo, eis
a question”, nesta oposição uma das duas sendo falsa. É neste âmbito que Marx
pensa a democracia. Esta, ao contrário da monarquia na qual “uma parte determi-
na o caráter do todo”, pode ser “explicada a partir de si mesma”, sendo “o gênero
da constituição. A monarquia é uma espécie e, definitivamente, uma má espécie.
A democracia é conteúdo e forma” (1843, p. 48-49).
Marx chega, destarte, a um entendimento da democracia como autode-
terminação do povo, sendo o momento do demos em seu conjunto. Se “na mo-
narquia temos o povo da constituição; na democracia, a constituição do povo. A
democracia é o enigma resolvido de todas as constituições”. Nesse sentido, “do
Jean Tible 51

mesmo modo que a religião não cria o homem, mas o homem cria a religião,
assim também não é a constituição que cria o povo, mas o povo a constituição”.
Trata-se, assim, de um total inversão do paradigma hegeliano, pois “o homem não
existe em razão da lei, mas a lei existe em razão do homem, é a existência huma-
na, enquanto nas outras formas de Estado o homem é a existência legal. Tal é a
diferença fundamental da democracia” (MARX, 1843, p. 50).
A democracia – e não um estamento burocrático ou um monarca – cons-
titui “a verdadeira unidade do universal e do particular”. Consequentemente, “os
franceses modernos concluíram, daí, que na verdadeira democracia o Estado po-
lítico desaparece. O que está correto”, pois “na democracia, a constituição, a lei,
o próprio Estado é apenas uma autodeterminação e um conteúdo particular do
povo” (1843, p. 50-51). Quem são esses franceses modernos? De acordo com Ru-
bel (1994), foi a leitura de Considerant, Fourier, Proudhon, Saint-Simon, dentre
outros, que influenciou decisivamente Marx.
A democracia, solução do enigma político, diferencia-se decisivamente
das outras formas. No âmbito democrático, “o Estado abstrato deixou de ser o
momento preponderante. A luta entre monarquia e república é, ela mesma, ainda,
uma luta no interior do Estado abstrato. A república política é a democracia no
interior da forma de Estado abstrata” (MARX, 1843, p. 51). Desse modo, “a demo-
cracia só existe na medida em que ela se levanta contra o Estado” (ABENSOUR,
2004, p. 8). Uma distinção fundamental entre o político e o estatal faz-se sentir,
pois – repetindo – “na verdadeira democracia o Estado político desaparece”. A
exceção democrática situa-se precisamente no fato da democracia não permitir
uma “confusão mistificadora” entre parte e todo, entre Estado político e demos. Tal
forma política “vai deixar o campo livre para a atividade instituinte do sujeito que
é ele mesmo seu próprio fim” (ABENSOUR, 2004, p. 110), ligando-se ao escrito
anterior estudado, que começou a levar em conta a criatividade política do povo.
A “verdadeira democracia” vai além da abstração do Estado moderno
sem negar a existência e necessidade de uma esfera política. É que Estado e po-
lítica não obrigatoriamente acompanham-se mutuamente. O pensamento político
marxiano abre nesse texto um ímpeto contra o Estado, tendo em vista que “mais
a democracia aproxima-se de sua verdade (mas uma comunidade política atinge
em algum momento sua verdade?) mais o Estado decresce, conhece um processo
de desaparecimento” (ABENSOUR, 2004, p. 146). Nesse sentido, Marx defende
a “eleição ilimitada” como uma forma da sociedade civil elevar-se “à existência
política como sua verdadeira existência universal, essencial”. O desaparecimento
do Estado liga-se ao da sociedade civil, pois “com uma das partes separadas cai
52 Marx contra o estado

a outra, o seu contrário. A reforma eleitoral é, portanto, no interior do Estado


político abstrato, a exigência de sua dissolução, mas igualmente da dissolução da
sociedade civil” (MARX, 1843, p. 135). Na Inglaterra do século XVII, “sociedade
civil” é sinônimo de “sociedade política” (por exemplo, em John Locke). Para
Rousseau, também. Hegel desloca o conceito do político ao econômico, ligando-
-o à sociedade civil burguesa. Neste âmbito, “a fenda hegeliana entre a sociedade
civil e o Estado não revelou uma outra fenda possível até esse momento desperce-
bida, tanto o estatismo hegeliano a havia espontaneamente ocultado, a que existe
entre a comunidade política e o Estado?” (ABENSOUR, 2004, p. 15-16).
Ademais, a crítica marxiana de Hegel relaciona-se com ideia de proprie-
dade. Para este, o único momento em que se realiza a identidade do universal e
do particular é na pessoa do monarca; “mas se o príncipe é a pessoa abstrata, que
tem o Estado em si, isto significa tão somente que a essência do Estado é a pes-
soa abstrata, a pessoa privada. Só no seu ápice ele exprime seu segredo”. Disso
decorre que “o príncipe é a única pessoa privada na qual se realiza a relação da
pessoa privada em geral com o Estado” (MARX, 1843, p. 60). Nesse sentido,
“a constituição política em seu ponto culminante é, portanto, a constituição da
propriedade privada. A mais alta disposição política é a disposição da proprie-
dade privada”. Tornam-se inseparáveis Estado e propriedade privada; o Estado
é o “próprio poder da propriedade privada” (MARX, 1843, p. 114-116). Dessa
forma, “o verdadeiro fundamento da propriedade privada, a posse, é um fato, um
fato inexplicável, não um direito” (1843, p. 125), as determinações jurídicas ga-
rantindo a propriedade privada.
Forma-se neste escrito, algo como um “princípio político”, um fio condu-
tor do pensamento político marxiano na forma do “contra o Estado”. A partir de
uma crise política e filosófica de Marx, ocorre uma substituição do sujeito político
Estado por outro. Frente à Hegel e sua busca da essência, Marx contrapõe “a exis-
tência, segundo a realidade, em seu fundamento real, o homem real, o povo real, e
posta como a obra própria deste último” (1843, p. 50). Em suma, “uma verdadeira
crítica da modernidade política, sob o signo da democracia” (ABENSOUR, 2004,
p. 42), a influência de Spinoza sendo decisiva23. Em sua lua-de-mel e retiro estu-

23 Segundo Rubel, “num de seus cadernos de estudos de sua estada berlinense, con-
ta-se nada menos de 160 trechos do Tratado Teológico-Político de Spinoza. As pas-
sagens referem-se aos milagres, à fé e à filosofia, à razão e à teologia, à liberdade de
ensino, aos fundamentos da república, ao profetismo etc. Tudo isso, sem o menor
comentário pessoal – e no entanto, sobre a capa do caderno pode-se ler: ‘Spinoza:
Tratado Teológico-Político, por Karl Marx, Berlim 1841’” (1974, p. 172).
Jean Tible 53

dioso em Kreuznach encontramos um momento decisivo na trajetória intelectual


de Marx. Esta Crítica (com sua Introdução) e a A Questão Judaica (junto com os
Manuscritos parisienses e as Glosas) são parte “de um só manifesto cuja substân-
cia será retomada, quatro anos mais tarde, no Manifesto do Partido Comunista (e
com 20 anos de distância, em O Capital)” (RUBEL, 1994, p. xix).
Publicado na primavera (parisiense) de 1844 no único número dos Anais
franco-alemães, A Questão Judaica constitui parte desse momento-chave de defi-
nição intelectual e política de Marx. O cerne de sua argumentação situa-se na – já
abordada – crítica à separação entre sociedade civil e Estado, entre homem e cida-
dão. Marx parte de uma crítica a Bruno Bauer – em seu livro A Questão judaica e
no artigo “A aptidão dos judeus e dos cristãos contemporâneos a tornar-se livres”,
ambos de 1843 –, pois este exige “que o judeu renuncie ao judaísmo e em geral o
homem à religião para serem emancipados de forma cidadã” (1844a, p. 36). Nes-
se sentido, Bauer parece defender que o Estado necessita emancipar-se da religião
para tornar-se um verdadeiro Estado; um Estado religioso ainda não o é.
Entretanto, Marx deseja ir além, questionando quem deve emancipar-se
e de que tipo de emancipação se trata. Bauer atém-se a uma crítica do Estado cris-
tão, poupando assim o Estado tout court e esquecendo as relações – e conflitos –
entre emancipação política e emancipação humana. Marx problematiza os termos
colocados por Bauer. Enquanto este pergunta aos judeus se eles têm o direito de
aspirar à emancipação política, Marx inverte, interrogando se “o ponto de vista
da emancipação política permite reclamar do judeu a abolição do judaísmo, de
reclamar ao homem em geral a abolição da religião?” (1844a, p. 37). Seu questio-
namento da separação estatal continua quando afirma que a emancipação política
tem a seguinte limitação decisiva: “o Estado pode se liberar de uma barreira sem
que o homem seja realmente liberado dela, que o Estado pode ser um Estado livre
sem que o homem possa ser um homem livre” (MARX, 1844a, p. 39-40), ponto
que será retomado mais de 30 anos depois, a respeito do Programa de Gotha.
Marx discute a diferença entre os direitos do homem e do cidadão. Quem
é esse homem distinto do cidadão, pergunta. Trata-se da pessoa enquanto mem-
bro da sociedade civil, indicando a separação entre Estado político e sociedade
civil e marcando, também, a diferença entre emancipação política e humana. Que
significa esta separação? Os direitos distintos, do homem e do cidadão, dizem
respeito aos direitos como membro da sociedade civil e sua separação da “coisa
pública”. Não configura-se como um direito ligando “o homem ao homem”, mas
um que marca sua separação; o indivíduo restrito a si mesmo, egoísta. Ou seja,
“a aplicação prática do direito do homem à liberdade é o direito do homem à pro-
54 Marx contra o estado

priedade privada”, como o direito de gozar de sua fortuna, independentemente da


sociedade; o direito ao egoísmo, de ignorar outrem. Tal liberdade individual funda
a sociedade civil e, dessa forma, “deixa cada homem encontrar nos outros homens
não a realização mas ao contrário o limite de sua liberdade” (1844a, p. 56). O
homem como cidadão é o homem burguês.
A emancipação política é a revolução (contra o feudalismo) da sociedade
civil. Nesse sentido, “questionar o jugo político, era ao mesmo tempo quebrar os
entraves que deixavam cativo o espírito egoísta da sociedade civil. A emancipa-
ção política foi ao mesmo tempo a sociedade civil se emancipando da política, da
aparência mesmo de um conteúdo geral” (1844a, p. 61). Do idealismo do Estado
para o materialismo da sociedade civil. Tal como na Crítica de 1843, trata-se de
vencer a abstração para alcançar a emancipação humana:

é somente quando o homem individual real reintegrará nele o cidadão abstrato


e se tornará homem individual na vida empírica, no seu trabalho individual, nas
suas relações individuais, um ser pertencendo à espécie, que o homem terá reco-
nhecido e organizado suas forças próprias como forças sociais e não separará
mais dele a força social sob a forma da força política. É somente assim que a
emancipação humana será realizada (1844a, p. 63).

Uma revolução outra, para além da Francesa; radical. Marx faz uso do
debate acerca da “questão judaica” para refletir sobre os limites da emancipação
política e prosseguir na sua crítica do Estado político. O erro de Bauer, para Marx,
consiste em pensar a questão da emancipação dos judeus numa ótica religiosa e,
consequentemente, sua solução de modo teológico. Indo contra as cisões modernas,
entre homem e cidadão, espaço público e privado, bem comum e interesses egoís-
tas, Marx defende contra a alienação em suas múltiplas formas (religiosa, social,
política), não a emancipação do Estado da religião, mas do Estado mesmo, pela luta.
Marx segue na linha argumentativa dos Manuscritos de Kreuznach, na
qual o desvanecimento do Estado conjuga-se com a verdadeira democracia. No
entanto, trata-se de uma perspectiva ainda teórica, sem conexão com sujeitos
concretos. Em um período de plena mutação e descobertas, Marx, partindo da
defesa, em 1842, da liberdade de imprensa e de um espaço público incorporando
os direitos dos costumes, pensa, em 1843, a verdadeira democracia e liga-a, em
1844, à revolução. Como vimos no primeiro capítulo, há de se enfatizar o papel
essencial das lutas nesta trajetória, já que seus questionamentos enriquecem-se e
transformam-se com a chegada de Marx em Paris e o contato com o movimento
operário local.
Jean Tible 55

De acordo com Rubel (1994, p. xlvix), a Introdução à Crítica da Fi-


losofia do Direito de Hegel, escrita já em Paris, é a continuação necessária e a
conclusão lógica de A Questão Judaica, ambos publicados no mesmo número
dos Anais Franco-Alemães. Marx afirma, nesse contexto, a necessidade de uma
revolução radical e o papel-chave do proletariado, relacionando-os com o fim da
distinção Estado-sociedade. Marx questiona os anseios alemães por uma revo-
lução “meramente política que deixa de pé os pilares do edifício” e a esta opõe
uma “revolução radical, a emancipação humana universal” (MARX, 1844b, p.
154). Aprofunda, assim, suas interrogações, pensando em que parte da sociedade
poderia existir concretamente outra forma de relação entre universal e particular,
ou seja quem poderia cumprir uma função revolucionária levando ao universal.
Que “representante geral” ligaria particular e universal? Quem a partir de
sua condição particular poderia atingir tal universalidade? Marx inicia com uma
definição negativa, dada a necessidade para haver coincidência entre uma classe
particular e a revolução de um povo, uma “outra classe tem que concentrar em si
todos os males da sociedade, um estamento particular tem de ser o estamento do
repúdio geral”. A luta decisiva toma a forma de um estamento da libertação contra
o da opressão. Onde existe, na Alemanha, a possibilidade positiva de emancipa-
ção? Para Marx, “na formação de uma classe que tenha cadeias radicais, de um
estamento que seja a dissolução de todos os estamentos, de uma esfera que possua
caráter universal porque seus sofrimentos são universais” (1844b, p. 154-155).
Esta define-se como

uma seção da sociedade que viva o mal em geral e não particular, não exigindo,
assim, uma reparação particular. Que alcance o humano. Por fim, uma parte
impossibilitada de emancipar-se sem as demais esferas da sociedade, uma parte
que “só pode redimir-se a si mesma por uma redenção total do homem. A dis-
solução da sociedade, como classe particular, é o proletariado (1844b, p. 156).

Com e contra Hegel, que havia trabalhado em 1821 a ideia do “Stand uni-
versal” na sua Filosofia do direito, Marx propõe o proletariado como uma “‘classe
universal’, uma massa situada virtualmente além da condição de classe, cuja par-
ticularidade já seria negada em suas condições de existência” (BALIBAR, 1995,
p. 65). Um deslocamento decisivo ocorre, do povo do Manifesto de Kreuznach ao
proletariado de sua Introdução um ano depois. O mistério de sua existência e a
“dissolução da ordem social existente” ligam-se à abolição da propriedade priva-
da, concretizando o que o proletariado antecipa na sua negatividade, já que não
possui propriedade. Política e economia ligam-se; “ao declarar o povo como sua
56 Marx contra o estado

propriedade privada, o rei afirma simplesmente que quem detém a propriedade


privada é rei” (MARX, 1844b, p. 156).
Nesse mesmo ano, além do contato com as lutas operárias parisienses,
Marx é interpelado pelo levante dos tecelões da Silésia. Este é o contexto de suas
glosas críticas ao artigo “‘O rei da Prússia e a reforma social’. De um prussiano”.
De um lado, sua caracterização e pensamento sobre Estado prosseguem. De outro
lado, novos elos entre pensamento e as lutas se formam e se desenvolvem, o que
terá um desdobramento a respeito do Estado. Nestes comentários, Marx entende
que o Estado busca situar-se acima da ordem, no âmbito do inquestionável, do
natural. O autor reitera a separação moderna entre Estado e sociedade, sendo este
caracterizado como uma máquina de abstração. Retomando a distinção já tratada
em A Questão Judaica, Marx coloca que “o Estado não pode suprimir a contradi-
ção entre a finalidade e a boa vontade da administração, por um lado, e seus meios
e sua capacidade, por outro, sem suprimir a si próprio”, já que “ele está baseado
na contradição entre vida pública e vida privada, na contradição entre os interes-
ses gerais e os interesses particulares” (1844c, p. 39).
Tal perspectiva de continuidade com os três textos anteriores transforma-
-se com um acontecimento histórico preciso, a insurreição dos tecelões em ju-
nho de 1844 na Silésia. Para Marx, esta desempenhou um papel de “catalisador”
das suas reflexões e vivências nos meses anteriores em Paris; uma “reviravolta
teórico-prática”, a partir de uma indicação concreta da “tendência potencialmente
revolucionária do proletariado” (LÖWY, 2002, p. 134). Este levante vai na linha
do questionamento dos entendimentos hegelianos da política, mas igualmente da
“concepção feuerbachiana da relação entre a filosofia e o mundo, a teoria e a
prática. Ao descobrir no proletariado o elemento ativo da emancipação, Marx,
sem se referir até então a Feuerbach, rompe com o esquema que ainda era o seu
no começo de 1844” (LÖWY, 2010, p. 13-14). Os filósofos não mais são os guias
da ação, nem o proletariado o elemento passivo da revolução. Neste âmbito, pela
primeira vez “Marx associa diretamente o tema do desvanecimento do Estado ao
conceito de revolução” (POGREBINSCHI, 2009, p. 50).
Os Manuscritos de 1844 indicam uma continuidade do “acerto de con-
tas” com Hegel e concluem o que se chama aqui – com Rubel – de Manifesto Po-
lítico (em cinco tempos). Marx efetua, desse modo, um tipo de balanço da crítica
ao seu mestre. Afirma, nesse contexto, que “em Hegel, a negação da negação não
é a confirmação da verdadeira essência”, mas sim “a confirmação da essência apa-
rente ou da essência estranhada de si em sua negação ou a negação dessa essência
Jean Tible 57

aparente enquanto uma essência objetiva, habitando fora do homem e indepen-


dentemente dele, e sua transformação no sujeito” (MARX, 1844d, p. 130).
Isto toma forma, na questão política e estatal, de um status quo; “na
filosofia do direito de Hegel, o direito privado suprassumido = moral, a moral
suprassumida = família, a família suprassumida = sociedade civil, a sociedade
civil supra-sumida = Estado, o Estado supra-sumido = história mundial” (1844d,
p. 130). Os dois enigmas colocados por Marx se cruzam; por um lado, a democra-
cia como enigma resolvido de toda constituição formulada em 1843, por outro, o
comunismo sendo “o enigma resolvido da história” (1844d, p. 105), pensado um
ano depois. Democracia e comunismo entrelaçam-se; “a verdadeira democracia é
o momento do vir-a-ser do comunismo. O comunismo é, assim, o movimento que
se completa no momento da verdadeira democracia” (POGREBINSCHI, 2009,
p. 274). Ou, nas palavras de Engels, “a democracia de nosso tempo é o comunis-
mo” (CLAUDIN, 1985, p. 39).
Em perspectiva semelhante, Shlomo Avineri defende que “o que Marx
qualifica de ‘democracia’ não é fundamentalmente diferente do que ele chamará
mais tarde de ‘comunismo’, e de qualquer forma essa ‘democracia’ baseia-se na
‘essência comunista do homem’” (1968, p. 34). Tal vínculo entre crítica da econo-
mia e da política são reiterados na primeira obra escrita pelos dois parceiros, Marx
e Engels, A Sagrada Família. Nesta, os autores continuam a crítica às abstrações e
apontam os elos entre Estado e propriedade privada, ao afirmarem que “o Estado,
a propriedade privada e assim por diante transformam os homens em abstrações,
ou como os produtos são homens abstratos, em vez de serem a realidade do ho-
mem individual e concreto” (MARX; ENGELS, 1844, p. 216).
Os anos de 1842-1844 indicam, em resumo, uma transição, no qual for-
mam-se conceitos determinantes do projeto – intelectual e político – marxiano,
tais como sua perspectiva de superar a propriedade privada e o Estado, o proleta-
riado como sujeito e os vínculos entre teoria e lutas. Partindo, em 1842, da reivin-
dicação do direito dos costumes para os pobres que nada possuem, nos dois anos
seguintes vemos a Introdução transformar o povo da Crítica em proletariado e os
Manuscritos de 1844 definirem o comunismo como a verdadeira democracia. Ao
fim desse período, Marx é obrigado a deixar Paris e iniciar seu segundo período
de exílio, em Bruxelas, de fevereiro de 1845 a março de 1848. Uma nova etapa se
abre. Com Engels, Marx vai consolidar sua compreensão do comunismo, prosse-
guir na crítica da economia política (já iniciada nos Manuscritos Parisienses) e,
pela primeira vez, participar de uma organização política, isto tudo numa nova (e
revolucionária) conjuntura.
58 Marx contra o estado

Militância comunista e período revolucionário de 1848


Marx prossegue seus estudos sobre a política e o Estado. Num primeiro
momento, trata-se de consolidar certas conclusões teóricas, o que é efetuado, jun-
to com Engels, em A Ideologia Alemã. A isso agregam-se dois elementos novos;
um engajamento político – simbolizado pela redação, com Engels, do Manifesto
Comunista – e uma conjuntura europeia revolucionária que alimenta suas análises.
Marx traça planos, em 1845, de trabalhar seu Manifesto Político de 1843-
1844 na forma de um livro, sistematizando suas perspectivas sobre o Estado e
a política. Esta obra foi objeto de um contrato assinado por Marx com o editor
Leske, de Darmstadt, Alemanha (RUBEL, 2002, p. 557n). O título desse projeto
de obra, Crítica da política e da economia política, indica nitidamente a imbrica-
ção, já apontada na seção anterior, das preocupações políticas e econômicas, dos
dois enigmas. Num dos cadernos de trabalho de Marx, encontram-se onze notas,
balanço dos seus estudos desde o fim da Gazeta Renana no início de 1843 e que
seriam a base da primeira parte deste livro – a crítica da política. Eis os 11 pontos:
i) A história da formação do Estado moderno ou a Revolução
Francesa (…)
ii) A proclamação dos direitos do homem e a constituição do Esta-
do. A liberdade individual e o poder público. Liberdade, igual-
dade e unidade. A soberania popular.
iii) Estado e a sociedade civil.
iv) O Estado representativo e as cartas constitucionais.
v) O Estado constitucional representativo, o Estado democrático
representativo.
vi) A divisão dos poderes. Poder legislativo e poder executivo.
vii) O poder legislativo e os corpos legislativos. Clubes políticos.
viii) O poder executivo. Centralização e hierarquia. Centralização e
civilização política. Federalismo e industrialismo.
ix) Administração do Estado e administração comunal. O poder ju-
diciário e o direito.
x) A nacionalidade e o povo.
xi) Os partidos políticos. O sufrágio, a luta pela superação do Es-
tado e da sociedade civil (MARX, 1845, p. 543).
Não por acaso, o derradeiro ponto trata da abolição do Estado, ponto-
-chave do pensamento político marxiano. Se tal obra não se concretizou, pode-se
dizer que A Ideologia Alemã (1845-1846) segue esse curso de, nas palavras de
Jean Tible 59

Marx, “desenvolver nossa concepção comum, opondo-a às visões ideológicas da


filosofia alemã; de fato, acertar nossas contas com nossa consciência filosófica
anterior”. Escrita no início do período dos dois amigos em Bruxelas, esta obra
tampouco foi publicada. Entretanto, de acordo com Marx, “tínhamos atingido o
objetivo principal: a boa inteligência de nós-mesmos. De boa graça, abandona-
mos o manuscrito às críticas roedora dos ratos” (1859, p. 490).
São poucos os trechos que apreendem diretamente o Estado, mas indicam
uma síntese provisória de seus conhecimentos e reflexões sobre a máquina estatal
e a ação proletária frente a esta. Marx e Engels retomam e consolidam pontos já
abordados antes, presentes igualmente nas notas preparatórias para o livro citado
acima, como o caráter ilusório da comunidade política, mas, também, apontam
elementos novos. Devido à contradição do interesse particular com o interesse
coletivo, tal organização política “assume, como Estado, uma forma autônoma,
separada dos interesses singulares e gerais” (MARX; ENGELS, 1845-1846, p.
37). E, em certos contextos – “naqueles países onde os estamentos não se de-
senvolveram completamente até se tornarem classes” (1845-1846, p. 75) –, tal
autonomia se reforça, os autores pensando essencialmente na Alemanha. Alguns
anos mais tarde, Marx retomará este conceito no caso francês.
Ligando-nos à discussão do primeiro capítulo, nessa obra, Marx e En-
gels colocam que “por meio da emancipação da propriedade privada em relação
à comunidade, o Estado se tornou uma existência particular ao lado e fora da
sociedade civil” (1845-1846, p. 75). A dissolução da comunidade coincide com
a formação do Estado e o surgimento da propriedade privada. O Estado é anali-
sado, ademais, como esfera onde a classe dominante produz politicamente seus
interesses comuns e “que sintetiza a sociedade civil inteira de uma época”. Desse
modo, “todas as instituições coletivas são mediadas pelo Estado, adquirem por
meio dele uma forma política. Daí a ilusão, como se a lei se baseasse na vontade
e, mais ainda, na vontade separada de sua base real, na vontade livre” (MARX;
ENGELS, 1845-1846, p. 76).
No contexto das lutas da classe trabalhadora, os autores pensam, pela pri-
meira vez, num poder proletário; “toda classe que almeje à dominação, como é o
caso do proletariado, exija a superação de toda a antiga forma de sociedade e a
superação da dominação em geral, deve primeiramente conquistar o poder político,
para apresentar seu interesse como o interesse geral”. Tal questão será retomada no
Manifesto e liga-se à polêmica posterior com Bakunin (e Lassalle), estudada adian-
te. Uma primeira concepção de transição surge nesta obra. Marx e Engels criticam
os que se atêm às “lutas no interior do Estado” (1845-1846, p. 37) e reafirmam a
60 Marx contra o estado

luta proletária contra o Estado; estes “têm de suprassumir sua própria condição de
existência anterior, isto é, o trabalho” e, por isso, “em oposição ao Estado, a forma
pela qual os indivíduos se deram, até então, uma expressão coletiva, e têm de der-
rubar o Estado para impor a sua personalidade” (1845-1846, p. 66).
Além disso, Marx e Engels pensam numa outra relação entre indivíduo
e sociedade. Se, no âmbito burguês, os indivíduos no seio de uma classe tinham
seus interesses condicionados por sua existência como membros desta, como “in-
divíduos médios”, isto pode tomar um outro sentido (proletário), pois “com a
coletividade dos proletários revolucionários, que tomam sob seu controle suas
condições de existência e as de todos os membros da sociedade, dá-se exatamen-
te o inverso: nela os indivíduos participam como indivíduos”. Surge, um ponto
fundamental, pois os autores pensam a ação proletária em sua positividade, esta
encarnando uma união de novo tipo, uma “associação de indivíduos” que permite
o “livre desenvolvimento” (1845-1846, p. 66-67). E isto é contraposto à união an-
terior (burguesa) situada num mundo reduzido e marca uma transição. Satisfeitos
com suas conclusões teóricas, os autores passam a pensar em ganhar o proletaria-
do a elas e “começam a estabelecer relações regulares de informação e discussão
com elementos destacados do movimento socialista e comunista de diversos paí-
ses europeus, principalmente Alemanha, França e Inglaterra” (CLAUDIN, 1985,
p. 51). É criado o Comitê Comunista de Correspondência em Bruxelas.
O comunismo é entendido, não mais como fantasia ou ideal, mas como
uma possibilidade concreta, esboçada nos movimentos alemão e francês e nos
cartistas ingleses. Tal perspectiva faz-se presente na sequência de textos a partir
de A Ideologia Alemã até o Manifesto. A elaboração acerca de uma associação
como nova forma de organização prossegue em Miséria da Filosofia. Segundo
Marx, a classe trabalhadora substituirá a antiga sociedade civil por “uma associa-
ção que excluirá as classes e seu antagonismo, e não haverá mais poder político
propriamente dito, já que o poder político é precisamente o resumo oficial do
antagonismo na sociedade civil” (1847, p. 232). Ou seja, o protagonismo do pro-
letariado liga-se à abolição do Estado, sua ação é contra o Estado.
Marx, neste período, reforça, igualmente, o estudo das bases materiais do
Estado, investigando os elos entre economia e dominação política. Em seu embate
contra Proudhon, o autor aponta a incapacidade dele de compreender os desenvol-
vimentos econômicos, encontrados no âmbito da sociedade civil. Pergunta Marx,
em carta ao russo Pavel Annenkov, o que é a sociedade?, definindo-a como a ação
recíproca dos homens. Mas, prossegue Marx, seriam eles livres para escolher a
formação social desejada? Não e estas formas devem ser pensadas no contexto do
Jean Tible 61

“estado de desenvolvimento das faculdades produtivas dos homens” – ou seja do


grau de desenvolvimento da produção, comércio e consumo – que indicam a “for-
ma de constituição social, tal organização da família, das ordens ou das classes,
em uma palavra tal sociedade civil. Coloque tal sociedade civil, e vocês terão tal
Estado político, que é somente a expressão oficial da sociedade civil” (MARX,
1846, p. 70).
Já no Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels colocam que “com
o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial a burguesia conquis-
tou, finalmente, o domínio político exclusivo no Estado representativo moderno”.
Dessa forma, “o poder do Estado moderno não passa de um comitê que adminis-
tra os negócios comuns da classe burguesa como um todo” (MARX; ENGELS,
1848, p. 10). E nas 10 medidas propostas, o Estado aparece com destaque, como
instrumento de centralização do crédito, o que abre alguma ambiguidade que será
explorada por Bakunin e corrigida em prefácio posterior.
Porém, o ímpeto contra o Estado se faz presente e liga-se, neste Manifes-
to e no período posterior, à abolição das classes. Com a supressão violenta das ve-
lhas relações de produção e, assim, dos antagonismos de classe, a produção passa
a ser “concentrada nas mãos dos indivíduos associados”. Nesse sentido, dizem
Marx e Engels, “o poder público irá perder seu caráter político” (1848, p. 28). O
que significa esta perda do caráter político? Que já não se trata do sentido habitual
de Estado. Os autores pensam no contexto da futura centralização dos meios de
produção e, desse modo, o “‘Estado’ aqui já não é mais propriamente Estado, mas
uma nova forma política em processo de constituição e que temporariamente tem
o proletariado em seu leme” (POGREBINSCHI, 2009, p. 95). Uma forma mais
explícita encontra-se em resenha de 1850 do livro Le socialisme et l’impôt, de
Emile de Girardin. Nesta, Marx coloca que “a abolição do Estado tem apenas um
sentido para os comunistas, como a consequência necessária da abolição de clas-
ses, em virtude do que por si mesma a necessidade da força organizada de uma
classe para a supressão da outra deixa de existir” (POGREBINSCHI, 2009, p. 32).
A abolição do Estado é consequência, mas, ao mesmo tempo, causa; “o
movimento parece definitivamente afirmar-se em mão dupla, além de marcar-se
pela concomitância” (POGREBINSCHI, 2009, p. 56). Isto liga-se a uma fórmula-
-chave do Manifesto, na qual “no lugar da velha sociedade burguesa, com suas
classes e seus antagonismos de classe, surge uma associação em que o livre de-
senvolvimento de cada um é pressuposto para o livre desenvolvimento de todos”
(MARX; ENGELS, 1848, p. 29).
62 Marx contra o estado

Este Manifesto marca a adesão da Liga dos Justos, transformada em Liga


dos Comunistas, às ideias de Marx e Engels. Nesse plano, “o problema do Estado
não é abordado por Marx e Engels, nesse período pré-revolucionário, de modo
específico; não dizem o que vai se fazer com a organização estatal anterior estatal
nem como vai ser a nova” (CLAUDIN, 1985, p. 41). As insurreições de 1848,
que ocorrem em toda a Europa continental (Paris, Prússia, norte e sul da Itália,
Hungria...) pouco após a publicação do Manifesto, vão alimentar decisivamente
as reflexões de Marx, nos quatro anos seguintes.
Nesse sentido, o continuum marxiano contra o Estado mostra-se nesses
escritos e liga-se à revolução. Em Luta de Classes na França, Marx pensa a “de-
claração da revolução em permanência” como transição necessária para “a abo-
lição das diferenças de classes”, concretizando o “revolucionamento de todas as
ideias que nascem dessas relações sociais” (MARX, 1850, p. 122). Em sentido
semelhante, na Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas, os autores
defendem uma ação autônoma dos trabalhadores frente aos demais partidos, su-
gerindo que “seu grito de guerra deve ser: a revolução em permanência” (MARX;
ENGELS, 1850, p. 75).
Marx e Engels afirmam, ainda, o objetivo proletário de constituição de
seu próprio poder na forma de conselhos e órgãos “endógenos” (operários) frente à
democracia dos burgueses. Devem, assim, produzir “seus próprios governos ope-
rários revolucionários, seja na forma de municipalidades ou de conselhos munici-
pais, seja por clubes ou comitês operários” (LÖWY, 2002, p. 227), sendo uma for-
ma de controle, pressão e ameaça contra os governos burgueses. Tal associação não
se liga à centralização burguesa e estatal. Se, em 1850, Marx e Engels dirão que
“como foi o caso na França em 1793, hoje na Alemanha a execução da mais rígida
centralização é a tarefa do partido realmente revolucionário” (MARX; ENGELS,
1850, p. 73), Engels corrigirá isto em nota à edição de 1885, defendendo que

é preciso lembrar hoje que essa passagem se baseia num mal-entendido. Na-
quela época – graças aos falsificadores bonapartistas e liberais da história –,
dava-se por assentado que a máquina administrativa centralizada dos franceses
havia sido introduzida pela grande Revolução e utilizada principalmente pela
Convenção como arma indispensável e decisiva para derrotar a reação monar-
quista e federalista e o inimigo externo. Agora, porém, é fato conhecido que,
durante todo o período da revolução até o 18 de brumário, toda a administração
dos départements, dos arrondissements e das comunas era formada por auto-
ridades eleitas pelos próprios administrados, as quais se moviam com inteira
liberdade no âmbito das leis gerais do Estado; sabe-se agora que esse autogo-
verno provincial e local, semelhante ao norte-americano, foi a alavanca mais
Jean Tible 63

poderosa da Revolução, e tanto o foi que Napoleão, imediatamente após o seu


golpe de Estado em 18 de brumário, apressou-se a substituí-lo pelo sistema dos
prefeitos vigentes ainda hoje, o qual desde o princípio foi, portanto, puro instru-
mento da reação. Porém, assim como o autogoverno local e provincial não está
em contradição com a centralização nacional de cunho político, tampouco está
necessariamente atrelado àquele egoísmo cantonal ou comunal estreito, com
cuja face asquerosa nos deparamos na Suíça e que, em 1849, todos os republica-
nos federalistas do sul da Alemanha queriam tornar regra para toda a Alemanha
(1885, p. 73).

Ademais, a reflexão acerca do estatal se reforça em 18 de Brumário de


Luís Bonaparte. Sua análise do bonapartismo retoma e reforça a questão da au-
tonomia do Estado frente à sociedade, já esboçada em A Ideologia Alemã. Como
o golpe de Luís Bonaparte, Marx lamenta que “em vez da sociedade ela mesma
ter se dado um novo conteúdo, o Estado parece ter voltado à sua forma primitiva,
à simples dominação insolente do sabre e do hissope” (1852, p. 18). O bonapar-
tismo lê-se, assim, como a supremacia do poder executivo, o antagonismo acen-
tuado ao máximo entre Estado e sociedade civil. Tal poder estatal hipertrofiado
deriva de características singulares da França (raízes na monarquia absoluta e sua
luta contra todos os poderes locais, territoriais, provinciais), com um “exército de
funcionários” de meio milhão de pessoas que lhe permite garantir a dependência
contínua de distintos setores e interesses.
O Estado é visto como um corpo parasita e “controla, regulamenta, vi-
gia e tutela a sociedade civil” que, por sua vez, está em “estado de dependência
absoluta” e indicando uma “disformidade incoerente do corpo social” frente a
essa “máquina governamental vasta e complicada” (MARX, 1852, p. 79-80). Na
monarquia absoluta, na Revolução francesa e sob Napoleão, “a burocracia só era
o meio de preparar a dominação de classe da burguesia”. Com Luís Felipe e sua
República parlamentar, “ela era o instrumento da classe dominante” e ganha tal
autonomia somente “sob o segundo Bonaparte, no qual o Estado parece ter virado
completamente independente” (MARX, 1852, p. 169).
Tal autonomia não é incompatível com sua representação de interesses
particulares, já que “o poder do Estado não plana nos ares. Bonaparte representa
uma classe bem determinada, e mesmo a classe mais numerosa da sociedade fran-
cesa, a saber os camponeses parcelários”. Marx percebe uma continuidade nesses
processos franceses, a saber, que “todas as revoluções políticas só aperfeiçoaram
essa máquina, em vez de a quebrar” (1852, p. 169), sendo que os partidos lutaram
todos pela conquista desse imenso edifício como principal troféu. Reafirmando
64 Marx contra o estado

sua perspectiva contra o Estado, liga esta análise a um “apelo”, para que a próxi-
ma revolução proletária não o faça, defendendo que a “destruição do aparelho de
Estado não colocará em perigo a centralização”, a burocracia sendo uma “forma
inferior e brutal de centralização, que está ainda afetada pelo seu contrário, o feu-
dalismo” (1852, p. 181).
Entre 1848 e 1852, Marx percebe o “papel primordial – sem precedentes
históricos comparáveis – desempenhado pela máquina do Estado (exército, buro-
cracia, magistratura...) no sufocamento da explosão revolucionária” (CLAUDIN,
1985, p. 335). E o autor prega, como vimos, uma demolição do aparelho buro-
crático-militar “pletórico, parasita e hiper-centralizado” e não sua tomada “como
um troféu”. Segundo Rubel, neste 18 de Brumário “encontram-se reunidos os
elementos fundamentais, e definitivos sem dúvida, da sociologia política de Marx.
De fato, nós os reencontramos quase idênticos no Manifesto sobre a Comuna,
escrito quase 20 anos mais tarde” (RUBEL, 2002, p. 473).
Ainda neste ano de 1852, a Liga dissolve-se. Marx concentra-se, a partir
desse momento, no estudo e na crítica da economia política, “recusando sistema-
ticamente (assim como Engels) qualquer participação em organizações” (CLAU-
DIN, 1985, p. 326) até 1864 quando tomará parte da fundação da Associação
Internacional dos Trabalhadores.

A crítica da economia política


Marx retoma o plano de escrever um livro desenvolvendo sua crítica da
política. Em fevereiro de 1858, o autor escreve para Lassalle pedindo ajuda para
encontrar um editor em Berlim. A obra intitularia-se Contribuição à Crítica da
Economia Política, sendo dividida em seis livros dos quais o quarto trataria do
Estado (MARX, 1858). Tal ideia também é citada numa carta de 28 de dezembro
de 1862 a Kugelmann. Discorrendo sobre seu O Capital em elaboração, Marx
afirma que este aborda o que os ingleses denominam the principles of political
economy e que a continuação disso poderia ser efetuada por outros autores, “ex-
ceto talvez a relação entre as diversas formas de Estado e as diferentes estruturas
econômicas da sociedade” (1862, p. 29).
Como vimos, desde os anos 1840, Marx preocupa-se com os elos entre
economia e política. Em 1844, Engels – num livro que Marx qualificou de “genial
esboço de uma crítica das categorias econômicas” (1859, p. 490) – pensa nas rela-
ções entre estas duas esferas, colocando que “a política não pensava em questio-
nar os fundamentos do Estado em si. Da mesma forma, a economia não se preo-
cupava em criticar a legitimidade da propriedade privada” (1844, p. 10). Quais os
Jean Tible 65

desenvolvimentos nessa fase de crítica da economia política? Marx concentra-se


nas formas materiais que sustentam as formas de Estado. Na “Introdução Geral” à
Crítica da Economia Política, Marx toca nisto ao colocar que “Hegel, por exem-
plo, começa corretamente a ‘filosofia do direito’ pela propriedade, que é a rela-
ção jurídica mais simples do sujeito” (1857, p. 472). As formas de Estado assim
como as relações jurídicas não podem ser explicadas por si mesmas, mas sim nas
condições materiais da vida “que Hegel, à exemplo dos ingleses e dos franceses
do século XVIII, compreende em seu conjunto sob o nome de ‘sociedade civil’;
e é na economia política que convém investigar a anatomia da sociedade civil”
(MARX, 1857, p. 488).
Numa época revolucionária, os fundamentos econômicos transformam-
-se rapidamente, com repercussões em todos planos; do ponto de vista material
(produção econômica) e também nas “formas ideológicas, nas quais os homens
tomam consciência desse conflito e o levam até o fim” (MARX, 1857, p. 489). Na
linha dos Grundrisse, no livro 3 de O Capital, Marx coloca que

é neste fundamento que se constitui a comunidade econômica tal como nasce


nas relações de produção e é sobre este que repousa igualmente a estrutura
política específica da comunidade. É sempre nas relações imediatas entre os
mestres das condições de produção e os produtores diretos que deve-se buscar o
segredo íntimo, o fundamento escondido de toda a estrutura social, assim como
a forma política das relações de soberania e dependência, ou seja, a forma de
Estado numa época histórica dada. Em seus diversos aspectos, estas relações
correspondem naturalmente a um estágio determinado da evolução dos métodos
de trabalho e da produtividade social (1894, p. 1962-1963).

Lawrence Krader parece ter razão ao afirmar que “os problemas trata-
dos em 1841-1846 permaneceram substancialmente os mesmos durante o período
1857-1867, quando os Grundrisse e os volumes de O Capital foram redigidos”
(KRADER, 1974, p. 5). Marx levanta, no entanto, um novo e determinante ponto
em O Capital, a saber “gênese extra-econômica da propriedade” (MEZZADRA,
2008, p. 136). É nesse sentido que François Châtelet vê nesta obra de Marx uma
“onipresença do político” (1975, p. 38), seu assunto sendo “a crítica ao hege-
lianismo político”, devido à sua cegueira quanto ao Estado como “produto das
sociedades e de sua organização econômica; que ele encarna, segundo suas parti-
cularidades históricas, sob as aparências da legalidade” (1975, p. 22-23).
Marx retoma o questionamento da separação entre o econômico e o polí-
tico e sua crítica da economia política configura-se num “assunto eminentemente
político, isto é, tratando do poder, da dominação” (LÖWY, 2009, p. 65). Isto se
66 Marx contra o estado

explicita no capítulo sobre a acumulação originária e seu estudo das condições


necessárias para o desenvolvimento capitalista, isto é a expropriação dos pro-
dutores e a consequente concentração de riqueza. A acumulação inicial e suas
duas facetas; no caso emblemático da Inglaterra e nas políticas coloniais. Nesse
sentido, “o século XVIII introduz um progresso no sentido que é a lei mesma que
torna-se então instrumento da pilhagem das terras do povo”, inclusive em sua for-
ma parlamentar – com as leis de cercamento das terras comunais. Estas permitiam
“aos proprietários fundiários de fazer a si mesmos presente das terras do povo e
de fazer destas sua propriedade privada, ou seja são decretos de expropriação do
povo” (MARX, 1867a, p. 815).
O Estado exerce um papel-chave na transição capitalista, na “constitui-
ção política e jurídica do ‘mercado do trabalho’” (MEZZADRA, 2008, p. 139), o
que se contrapõe à perspectiva das relações ditas livres; não há nada natural nesta
constituição. Marx descreve sua construção sanguinária, com “o povo do campo,
brutalmente expropriado e expulso de sua terra, reduzido à vagabundagem, sendo
submetido a leis de um terrorismo grotesco, à disciplina necessária ao salariado
por meio de chicotadas, marcas ao ferro quente e torturas”. Nesse sentido, “a bur-
guesia ascendente necessita e usa a violência do poder de Estado para ‘regular’ o
salário” (1867a, p. 828-829). Não se trata, entretanto, de uma visão instrumental,
pois as leis são apreendidas como resultado das lutas, o Estado contribuindo para
a balança pender do lado dos capitalistas/proprietários. A violência do Estado é
decisiva para regular as jornadas de trabalho, o ritmo, os salários e as pausas per-
mitidas. Tais leis e acordos desenvolveram-se “progressivamente, em função das
condições reais como leis naturais do modo de produção moderno. Sua formula-
ção, seu reconhecimento oficial e proclamação pelo Estado foram o resultado de
lutas de classes de longo fôlego” (1867a, p. 316). Em suma, Marx defende que
entre dois direitos, a força define quem ganha.
A jornada de trabalho indica o “nível empírico [em] que se exerce o poder
político do sistema capitalista” (CHÂTELET, 1975, p. 63). É interessante notar
que, no momento final da redação de O Capital, a Associação Internacional dos
Trabalhadores (AIT), em seu Congresso de Genebra, defende com um dos seus
principais pontos a luta pela limitação legal da jornada de trabalho a oito horas di-
árias. Segundo a AIT, trata-se de uma reivindicação chave, sendo uma “condição
preliminar, sem a qual todas as outras tentativas de melhoria e emancipação de-
vem se mostrar precoces” (1866b, p. 87). Para Marx, não há nem leis naturais nem
livre mercado, pensando na influência “diabólica” da Inglaterra sobre o mercado
mundial. A violência inicial estatal-capitalista liga-se à questão colonial, como
Jean Tible 67

vimos no primeiro capítulo. Desta forma, “estes métodos baseiam-se em parte na


violência mais brutal; é esse o caso, par exemplo, do sistema colonial. Mas todas
utilizam o poder do Estado, a violência concentrada e organizada da sociedade”
(1867a, p. 846).
Tal sistema capitalista não se viabiliza sem uma instância política; não
é somente um novo modo de produção, mas “resulta de uma operação de po-
der” e “mesmo sob seus aspectos mais abstratos, mais técnicos, o Capital é um
livro político de ponta a ponta” (CHÂTELET, 1975, p. 79-83). O capitalismo
configura-se, assim, como um “sistema econômico-político”. Em suma, não há
capitalismo sem Estado e percebe-se, assim, um substantivo elo entre O Capital
e os escritos anteriores estudados. Tanto O Capital tem uma problematização do
Estado, quanto Marx, em sua crítica inicial a Hegel, já recusa a solução idealista
e a propriedade privada. Pode-se falar de duas facetas de um mesmo movimento.
Para o antropólogo e filósofo Lucien Sebag, O Capital “fornece a verdadeira res-
posta à Filosofia do Direito ao analisar os mecanismos reais do desenvolvimento
da sociedade capitalista” (1964, p. 45), completando sua crítica a Hegel por conta
de sua defesa do Estado como única forma capaz de superar as contradições entre
as demais esferas da vida social.
Por um lado, “o Estado é um fabricante de abstrações, em razão da ficção
unitária (ou do consenso) que ele deve impor à sociedade. A universalização da
particularidade é a contrapartida da constituição do Estado” (BALIBAR, 1995,
p. 62), instituindo uma faceta política à dominação. Por outro lado, conjugam-se
um “fetichismo econômico das coisas” e um “fetichismo jurídico das pessoas”.
Ambos unem-se, “porque o contrato é a outra face da troca, e porque cada um é
pressuposto pelo outro”. Desta forma, “o mundo vivido e percebido a partir da
expressão do valor é na verdade (e Marx indicou isso; era até a razão de sua relei-
tura crítica da Filosofia do direito de Hegel, onipresente no Capital) um mundo
econômico-jurídico” (BALIBAR, 1995, p. 88).
Tais desenvolvimentos marxianos articulam as duas críticas, da econo-
mia e da política. Isso está presente, neste mesmo período, no manifesto de funda-
ção da Associação Internacional dos Trabalhadores e nas suas Provisional Rules.
Marx coloca que “a emancipação da classe trabalhadora deve ser conquistada pe-
los próprios trabalhadores” (1866a, p. 82), o que pressupõe formas próprias para
abolir o domínio de classe. Auto-emancipação e auto-organização unem-se e no
Congresso de Lausanne da AIT isto é explicitado; “a emancipação social dos tra-
balhadores é inseparável de sua emancipação política”, sendo que “seu movimen-
to econômico e sua ação política são indissoluvelmente unidos” (1867b, p. 270).
68 Marx contra o estado

Democracia e comunismo ligam-se novamente, num tipo de “democra-


cia dos produtores”, tendo em vista a problematização da “relação específica
entre a representação e o capitalismo. Ou, melhor, a relação entre o autogoverno
e o comunismo”. A “cooperação é a ‘forma econômica’ da verdadeira demo-
cracia” (POGREBINSCHI, 2009, p. 262-263). A cooperação constitui-se numa
forma alternativa, criativa e antagonista. Deste modo, chega-se à “definição de
um conceito de produção que não é só econômico, mas social e político ao mes-
mo tempo” (NEGRI, 2002, p. 409), indicando a indissolubilidade da democracia
política e econômica.
Se na década de 1840 e no início da seguinte, a abolição do Estado foi tra-
balhada de modo mais direto, no período subsequente a crítica da economia políti-
ca predomina e a abolição liga-se “ao fim da propriedade privada e/ou divisão do
trabalho” (POGREBINSCHI, 2009, p. 53), embora não seja possível separá-las.
Na década de 1870, Marx a aborda de forma mais explícita novamente, devido a
acontecimentos e debates políticos.

A Comuna de Paris como paradigma


A Comuna de Paris causa um forte impacto em Marx. Atribuindo uma
força considerável a esta breve experiência revolucionária, em 12 de abril de
1871, o autor escreve a Ludwig Kugelmann que “a história não conhece outro
exemplo de tamanha grandeza!” (1871a, p. 188). Cinco dias mais tarde, afirma
que “a luta de Paris fez entrar numa nova fase a luta da classe operária contra a
classe capitalista e seu Estado. Independente do desenlace imediato, ela permitiu
a conquista de uma nova base de partida de uma importância histórica universal”
(MARX, 1871b, p. 191).
Em A guerra civil na França, resolução do Conselho Geral da Asso-
ciação Internacional dos Trabalhadores, Marx coloca que “os trabalhadores de
Paris, com sua Comuna, serão celebrados para sempre como gloriosos arautos
da nova sociedade. Seus mártires estão enraizados no grande coração da classe
trabalhadora” (MARX, 1871d, p. 97). Engels, 15 anos depois, declara que se trata
do “acontecimento mais glorioso e terrível dos anais do proletariado” (ENGELS,
1886, p. 294). A Comuna possui um caráter fundador como experiência e criação
política proletária. Como o pergunta Marx, “o que é a Comuna, essa esfinge tão
atormentadora para a mente burguesa?” (1871d, p. 69).
Marx mesmo liga tal experiência às suas reflexões anteriores. Como co-
locado acima, a esfinge política relaciona-se com os enigmas de 1843-1844, e,
Jean Tible 69

igualmente, com os acontecimentos (e reflexões sobre) de 1848. Em carta para


Kugelmann, ele indica que

se você reler o último capítulo do meu 18 de Brumário verá que ali expresso a se-
guinte ideia: a próxima tentativa revolucionária na França não deverá ser, como
ocorreu até agora, a de fazer mudar de mão o aparelho burocrático-militar, mas
sim de esmagá-lo. E é a condição prévia de toda verdadeira revolução popular
no continente. É bem isso aliás o que tentam os heróicos camaradas parisienses.
Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício nos pa-
risienses! (1871a, p. 150).

O Estado é analisado como crescentemente opressor, pois “após cada re-


volução (...), o caráter puramente repressivo do Estado aparece cada vez mais for-
te” (MARX, 1871d, p. 71). Nesse contexto, Marx expõe um ensinamento-chave
da Comuna de Paris, isto é “a classe trabalhadora não pode simplesmente tomar
a máquina do Estado já pronta e usá-la para seus próprios propósitos” (1871d,
p. 70), retomado em prefácio ao Manifesto no ano seguinte. Trata-se de uma reti-
ficação que dissipa uma ambiguidade presente em outros momentos.
Tal máquina estatal com seus organismos, tais como o exército perma-
nente, a polícia, a burocracia, o clero e a magistratura embebe-se e organiza-
-se segundo “o plano de uma sistemática e hierárquica divisão do trabalho, cuja
origem situa-se nos dias da monarquia absoluta, servindo à nascente sociedade
de classe média como uma arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo”
(1871d, p. 70). Aqui percebe-se uma correção implícita daquele trecho sobre a
Revolução francesa como origem da centralização, o que é feito explicitamente,
como vimos na nota de Engels de 1895, da monarquia absoluta, do Estado absolu-
to. Marx “pode desde esse momento abandonar o projeto de estrita centralização
das formas políticas revolucionárias ao nível nacional, vigorosamente defendida
ao longo das revoluções de 1848” (KOUVÉLAKIS, 2004) para um processo mais
complexo de arranjos locais, regionais e nacional, com níveis de autonomia.
Antítese do Império, a Comuna opõe-se à forma monárquica e à domina-
ção de classe. E, sobretudo, constitui-se de modo positivo – de criação de outras
formas – graças a medidas concretas. A primeira situa-se na supressão do exército
permanente e do caráter político da polícia, substituindo-os pelo povo em armas.
Ademais, a Comuna compõe-se de conselheiros municipais (operários ou ligados
à classe operária), eleitos pelo sufrágio universal, com mandatos imperativos e per-
manentemente revogáveis. O mesmo ocorreu com os demais funcionários públi-
cos – como magistrados e juízes – que passaram, além disso, a receber salários de
70 Marx contra o estado

operários. Desse modo, “as funções públicas cessam de ser a propriedade privada
das ferramentas do Governo Central” (MARX, 1871d, p. 73). A Comuna de Paris
atacou-se, igualmente, ao poder da Igreja, expropriando-a; os padres “foram envia-
dos de volta ao recesso da vida privada, para alimentar as almas da mesma forma
de seus antecessores, os apóstolos” (MARX, 1871d, p. 73). Além disso, esboça-se
uma instrução pública e gratuita para todos, sem ingerência estatal ou eclesial.
Uma forma-comuna contra o Estado e passível de expansão para todos os
centros industriais franceses e, também, para uma organização nacional, inclusive
do campo. Estas comunas administrariam seus assuntos via uma assembleia local
de delegados, reunindo-se depois em capitais regionais e enfim numa delegação
nacional em Paris – mantendo, assim, a unidade nacional, sempre com mandatos
imperativos e revogáveis. As eleições teriam outro papel com a massiva partici-
pação popular. Não mais o momento, mas um momento, consoante com a crítica
marxiana da representação. Nesse sentido, “em vez de decidir a cada três ou seis
anos qual membro da classe dominante iria des-representar o povo”, a nova or-
ganização política “iria servir ao povo, constituído em Comunas, assim como o
sufrágio universal serve qualquer empregador na sua busca por trabalhadores e
gerentes no seus negócios” (MARX, 1871d, p. 74). Tal perspectiva explicita o
significado das notas de Marx de 1845, citadas acima, nas quais sufrágio universal
e abolição do Estado estavam lado a lado.
Este governo “quebra [breaks] o poder do Estado moderno” (MARX,
1871d, p. 74), não tendo relação imediata com as comunas medievais, mas sendo
formas contemporâneas de produção democrática revolucionária. A quebra deste
poder liga-se à luta contra a burocracia e à abolição do Estado. Como colocado
por Vladimir Ilitch Lenin, “se todos participam realmente da gestão do Estado,
o capitalismo não pode mais se manter” e, desse modo, “em regime socialista,
todo mundo governará rotativamente e se acostumará rapidamente a que ninguém
governe” (1918, p. 148-174).
Sua característica potencialmente expansiva está baseada no fato de “todas
as formas prévias de governo foram enfaticamente repressivas” (MARX, 1871d, p.
76). Com forte simbologia, a Comuna executou a queima pública de todas as gui-
lhotinas e a demolição da coluna da Place Vendôme, “um monumento da barbárie,
símbolo da força bruta e da falsa glória, uma afirmação do militarismo, uma nega-
ção do direito internacional” (MARX, 1871c, p. 141). Logo, “o verdadeiro segredo
era esse. Era essencialmente o governo da classe operária, o produto da luta dos
produtores contra a classe apropriadora”. Trata-se, assim, da “forma enfim encon-
trada na qual será possível a emancipação do trabalho” (Marx, 1871d, p. 76).
Jean Tible 71

Um governo da classe operária. Tal forma política liga concretamente os


dois enigmas e as duas críticas, da economia e da política. Marx retoma, dessa
forma, a ideia do comunismo como “movimento real que supera o estado de coi-
sas atual” (MARX; ENGELS, 1845-1846, p. 38) e a formulação da negação da
negação de O Capital. A Comuna de Paris visava a expropriação dos expropria-
dores e uma transformação dos meios de produção “agora principalmente meios
de escravizar e explorar o trabalho, em meros instrumentos do trabalho livre e
associado. – Mas isso é comunismo, o ‘impossível’ comunismo!” (1871d, p. 77).
Marx, contra a “antecipação doutrinária e necessariamente fantasmagó-
rica do programa de ação de uma revolução futura”, vê a Comuna de Paris como
um processo revolucionário. De acordo com esta compreensão, “a classe traba-
lhadora não esperava milagres da Comuna. Ela não tinha utopias prontas a intro-
duzir par décret du peuple” (MARX, 1871d, p. 77). Seu principal trunfo situa-se
na sua existência mesmo, suas tendências e potencialidades revolucionárias de
um governo do povo e pelo povo, pois a Comuna “não tem ideais a realizar, mas
liberar os elementos da nova sociedade da qual a colapsante sociedade burgue-
sa é prenhe” (MARX, 1871d, p. 77). Forma e conteúdo harmonizando-se, pois
“a emancipação econômica e social do trabalho requer formas políticas por si
só emancipadoras”. Dessa forma, “a Comuna foi uma forma de emancipação do
trabalho precisamente na medida em que ela não foi um Estado, mas especifica-
mente montada para esmagá-lo” (SAYER; CORRIGAN, 1987).
De acordo com Pogrebinschi, “uma leitura atenta do texto permite per-
ceber que o tempo verbal empregado em boa parte das passagens descritivas da
Comuna é o futuro do pretérito” (2009, p. 149). Tal expansividade liga-se à eco-
nomia, ao encontro da verdadeira democracia com o governo dos produtores. E
não somente um governo dos trabalhadores, mas também de todos, todos que não
vivem do trabalho alheio, sendo “o verdadeiro representante de todos os setores
saudáveis da sociedade francesa e desse modo um verdadeiro governo nacional,
sendo, ao mesmo tempo, um governo da classe operária” (MARX, 1871d, p.
80). Nessas palavras, Marx indica a resolução do conflito universal/particular
apontado em 1843-1844. A “forma enfim encontrada” seria um tipo concreto que
superaria tal dicotomia. Isto se relaciona com seu decisivo internacionalismo. A
Comuna é, assim, “a campeã da emancipação do trabalho, enfaticamente inter-
nacional”. Neste âmbito, “a Comuna anexou a França à classe trabalhadora de
todo o mundo” (1871d, p. 80), admitindo muitos estrangeiros em seu seio e ten-
do o alemão Frankel, da Internacional, como membro da executiva da Comuna
(1871c, p. 141).
72 Marx contra o estado

Este ímpeto antiestatista marxiano continua em seus últimos estudos.


Nos debates com Bakunin e Lassalle, e ao analisar a comuna rural russa nos anos
1880, Marx identifica na opressão estatal o principal adversário daquela; “o que
ameaça a vida da comuna russa não é nem a inevitabilidade histórica nem uma
teoria; é a opressão estatal e a exploração pelos capitalistas intrusos os quais o
Estado tornou poderoso em detrimento dos camponeses” (1881, p. 104).
Balibar defende que Marx efetuou duas retificações na suas duas últimas
décadas de vida, presentes nos dois novos prefácios que escreveu com Engels,
para o Manifesto, para a edição alemã de 1872 e para a russa de 1882. Uma a
respeito do mir – a comuna rural russa – e suas consequências a respeito da com-
preensão da história e do progresso. Outra “foi determinada conjuntamente pelo
ataque de Bakunin contra a ‘ditadura marxista’ na Internacional” e, também, “pela
discordância de Marx em relação ao projeto de programa redigido em 1875 por
Liebknecht e Bebel, para o Congresso de Unificação dos socialistas alemães”.
Ambas desembocam “naquilo que se chamou mais tarde, no marxismo, questão
da ‘transição’” (BALIBAR, 1995, p. 124).
Marx enfatiza a necessidade de uma transformação das condições mate-
riais e, nesse sentido, “se o objetivo é a auto-emancipação do trabalho, os meios
têm de ser ‘prefiguradores’, pois estes são os únicos que funcionarão” (SAYER;
CORRIGAN, 1987). O pensamento político marxiano lança pistas para o que
seria uma democracia dos conselhos, uma democracia revolucionária.

Jean Tible é professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Fundação


Santo André (São Paulo, SP, Brasil) e diretor de projetos da Fundação Friedrich Ebert. E-mail:
jtible@gmail.com

Referências:
ABENSOUR, Miguel. La Démocratie contre l’État. Paris: Édition du Félin, 2004.
AVINERI, Shlomo. The Social and Political Thought of Karl Marx. Cambridge:
Cambridge University Press, 1968.
BALIBAR, Étienne. A filosofia de Marx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
BERLIN, Isaiah. Karl Marx: sua vida, seu meio e sua obra. São Paulo: Siciliano,
1991 [1978].
BOBBIO, Norberto. “Existe uma doutrina marxista do Estado?”. In: BOBBIO,
Norberto et al. O marxismo e o Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1991 [1979], p. 13-32.
Jean Tible 73

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LUGAR COMUM Nº42, pp. 77- 84

A nova luta da Vila Autódromo e


dos moradores que resistem à
remoção: reconstruir a Defensoria
Pública e sua autonomia

Alexandre F. Mendes

A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro conta, desde 1989,


com um Núcleo especializado com atribuição para atuar em conflitos fundiários
urbanos, tutela da moradia adequada e regularização fundiária de comunidades
e favelas do município do Rio, o Núcleo de Terras e Habitação (NUTH). Ele foi
criado a partir das mobilizações dos anos 1980, que colocou a agenda da demo-
cracia urbana, do direito à cidade e da moradia em primeiro plano, após um longo
ciclo de lutas contra o autoritarismo da ditadura e suas remoções forçadas.
A partir de 2007, com o apoio dos movimentos sociais e do trabalho de
diversas pessoas, o Núcleo ampliou sua equipe de dois para cinco defensores(as);
de cinco para 25 estagiários(as), atuando na defesa de cerca de 200 comunidades
do Rio de Janeiro. É essa estrutura que, por circunstâncias políticas e históricas,
acaba inserida em uma conjuntura na qual o poder público passa a promover, a
partir de 2009, a remoção de milhares de moradores(as) de suas casas (19 mil
famílias, segundo dados da própria prefeitura), ou seja: uma das maiores ondas
remocionistas da história do Rio de Janeiro, que se prolonga até os dias atuais.
A resistência, contudo, é viva e permanente. Um dos maiores aprendi-
zados de quem atua nesse campo é entender como os moradores ameaçados se
articulam para evitar os despejos, utilizando e inventando, de forma inteligente e
sensível, uma série de meios e recursos sociais, culturais, midiáticos, técnicos e
jurídicos. Sem essa luta, que é diária, teríamos cifras ainda maiores de violações
e despejos. De acordo com o jurista e historiador Rafael Gonçalves, o primeiro
registro desse tipo de resistência é de 1916, quando os moradores do Morro de
Santo Antônio enfrentaram a Diretoria de Saúde Pública, que tentou, sem sucesso,
removê-los24.
Praticamente um século depois, famílias que residem na Vila Autódromo
se engajam em um dos momentos mais decisivos da luta contra a tentativa de re-

24 Cf. SOARES GONÇALVES, Rafael. Favelas do Rio de Janeiro: história e direito. Rio de
Janeiro: Puc-Rio, 2013, p. 80.
78 A nova luta da Vila Autódromo e dos moradores que resistem à remoção

moção forçada, iniciada em 1993. Naquele ano, a Prefeitura alegou “dano estético
e ambiental” (sic) para tentar retirá-los da Barra da Tijuca, bairro que despontava
como centro de novos empreendimentos imobiliários. A Vila Autódromo resiste
com eficácia e, já contando com a assistência jurídica do NUTH, não só se defen-
de no processo judicial, como consegue a regularização fundiária de seus lotes por
concessão de uso, no governo de Leonel Brizola.
Após algumas tentativas fracassadas de remoção (nos Jogos Panameri-
canos de 2007, por exemplo), todas as fichas do poder público e imobiliário são
apostadas no processo de preparação da cidade para os Jogos Olímpicos de 2016.
A partir de 2009, com a derrota jurídica do argumento ambiental, presenciaram-se
várias tentativas e argumentos para a retirada da comunidade: construção da vila
de mídia, do centro de treinamento de atletas, de um perímetro de segurança para
as instalações dos Jogos, da duplicação de avenida, do parque olímpico e, agora,
de um nebuloso projeto com várias intervenções distintas25.
Em 2010, diante da insistência do poder público (uma verdadeira per-
seguição política), o Núcleo elaborou uma notificação para o Comitê Olímpico
Internacional (COI), apontando violação, pelas autoridades brasileiras, da legisla-
ção internacional e dos princípios éticos adotados expressamente pelo Comitê. A
entidade responde com o envio de dois ofícios questionando o prefeito e o gover-
nador do Rio sobre as denúncias. No âmbito formal, o governador se pronuncia
afirmando que a notificação traduzia a opinião de poucos defensores públicos, e
não de toda a instituição.
Mas na esfera, digamos, “informal”, chega ao Núcleo, através da Chefia
Institucional da época, a informação de que o governo estava enfurecido com o
procedimento adotado, e que “alguém deveria dar um jeito” naquele órgão de
atuação. Relatos de membros da campanha eleitoral de 2011, para a eleição de um
novo defensor geral, informam que o tema foi tratado nas reuniões de apresenta-
ção dos candidatos para o governador. O clima era pesado, algumas comunidades
estavam sendo removidas no mesmo momento (Restinga, Vila Harmonia, Vila
Recreio), mas não houve qualquer intervenção na autonomia do Núcleo, até o
último dia do ano de 2010.
No dia da posse do novo defensor público geral, Nilson Bruno, os(as)
defensores(as) em atuação no Núcleo são convidados(as) para comparecerem ao
gabinete da Chefia. Ali souberam, na própria solenidade, que o órgão especializa-

25 Para um resumo dos diversos argumentos utilizados, conferir em: <http://www.portal-


populardacopa.org.br/vivaavila/index.php/argumentos/109-argumentos-que-nao-se-
sustentam>
Alexandre F. Mendes 79

do iria contar com apenas dois defensores, e poucos estagiários, sendo os outros
defensores lotados em outras comarcas. Um incisivo protesto foi realizado, des-
tacando a quantidade de comunidades atendidas, a importância daquele contexto
e o números de parcerias realizadas pelo órgão público. O atual Chefe recua mas
cobra uma mudança de postura: uma “atuação sem pirotecnias” e com avisos
prévios antes de procedimentos com repercussão, citando expressamente, e várias
vezes, o caso da Vila Autódromo.
Contudo, nos meses que seguiram, a falta de apoio ao trabalho realizado
era evidente. O desgaste era cada vez maior. O defensor geral, em uma atitude no
mínimo infeliz, convida o prefeito para um evento intitulado “Defensoria Pública
e Prefeitura: juntos pela Copa e Olimpíadas”. O encontro foi agendado para o
mesmo dia da remoção integral da Vila Harmonia, comunidade atendida pelo Nú-
cleo, e que foi devastada por violações de direitos humanos que resultaram numa
batalha jurídica nacional e internacional.
A resposta dos movimentos sociais foi realizar uma manifestação na por-
ta da defensoria – o enterro simbólico de Nilson Bruno – acelerando a crise que
culminou na exoneração da Coordenadora do órgão. Poucos dias depois, a mesma
defensora pública, apesar de ter sempre contado com o apoio das comunidades
assistidas, foi afastada em definitivo, justamente no dia em que o Núcleo recebeu
a Medalha Tiradentes, em uma conturbada sessão. Sem condições de trabalho e
com a necessidade de tornar pública a intolerável situação, optou-se pela disposi-
ção dos cargos e a elaboração de uma carta pública com a exposição dos fatos26.
A resposta da Chefia foi a demissão de todos os estagiários, secretários admi-
nistrativos e a instauração de dois procedimentos na Corregedoria contra os(as)
defensores(as).
Passados três anos da intervenção, o Núcleo – reestruturado com três de-
fensoras titulares (concurso interno) e três coordenadores de confiança da Chefia
– se encontra, infelizmente, em uma situação parecida. Atuando ainda para a Vila
Autódromo, mas também em casos emblemáticos como Providência e Indiana
(Tijuca), o órgão obteve decisões judiciais importantes, obrigando a prefeitura a
apresentar projetos urbanísticos, realizar audiências públicas e suspender demoli-
ções de casas negociadas, cujos escombros e entulhos geram um efeito devastador
nos moradores que permanecem e resistem nas áreas afetadas pela remoção.

26 Para o acesso à carta aberta, conferir: http://comitepopulario.wordpress.com/2011/05/04/


carta-aberta-as-comunidades-as-entidades-e-aos-movimentos-parceiros-do-nucleo-de-ter-
ras-e-habitacao-da-defensoria-publica-rj/
80 A nova luta da Vila Autódromo e dos moradores que resistem à remoção

Ao invés de celebrar as vitórias jurídicas, ou utilizá-las para vantajosos


e bem ponderados acordos judiciais, sempre com a aceitação dos moradores, o
Coordenador e o Chefe Institucional parecem cada vez mais afoitos na realização
de acordos que não são discutidos adequadamente com os interessados e cuja
elaboração tem como protagonista, justamente, o poder público municipal, re-
presentado por sua Procuradoria Geral. Conscientes da operação em andamento,
moradores da Vila Autódromo, Providência e Indiana têm procurado apoio em
várias instâncias de organização comunitária e institucional.
O caso da Vila Autódromo, por exemplo, é gravíssimo. A comunidade
acaba de receber o prêmio internacional “Urban Age”, do Deutsche Bank, por
seu projeto alternativo de urbanização, qualificado como mais viável, adequado
e sustentável em comparação com a proposta remocionista da prefeitura. Ele foi
elaborado em parceria com técnicos da UFRJ e a UFF, com participação direta
dos moradores, tendo sido subscrito por dezenas de entidades e órgão classistas
especializados, entre eles o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).
Pergunta-se: o Chefe da Defensoria Pública apoiou o projeto? Não, pelo
contrário. Há poucos meses, o defensor geral, pessoalmente, compareceu a evento
do poder público, tecendo uma série de elogios ao projeto de remoção e dando a
situação como definitiva, a despeito do quadro jurídico favorável à comunidade.
Além disso, tira fotos – amplamente divulgadas – ao lado de autoridades munici-
pais, enquanto observa, sem qualquer objeção, o projeto apresentado.
Vejamos uma de suas manifestações sobre esse dia, publicada em infor-
mativo para a classe:

O Defensor Geral sugeriu ao Prefeito que os não afetados pela remoção, mas que
possam se interessar pelo empreendimento, conversem e negociem com os mora-
dores que têm previsão para deixar o local, numa modalidade de “troca”, volun-
tária e sem maiores desgastes, haja vista a área já definida para desocupação.27

Ora, nem mesmo o prefeito considera hoje a área como “já definida para
a desocupação”, preferindo confundir os moradores e apoiadores com um projeto
inacessível, que retiraria metade da comunidade. Nos processos judiciais, inclu-
sive, o próprio Município afirma não ter interesse no local. Ou seja, chegamos à
situação esdrúxula de ver a instituição responsável pela defesa jurídica dos mo-
radores se mostrando mais ávida pela remoção do que a própria prefeitura, ré em
várias ações da própria Defensoria.

27 Informativo da DPGE-RJ, grifo nosso.


Alexandre F. Mendes 81

Esse quadro se agravou de uma forma inédita, no dia 25 de março de


2014, quando o Chefe institucional, com os coordenadores do Núcleo de Terras e
de Direitos Humanos, requereram, à desembargadora-relatora do recurso de uma
das ações judiciais, a suspensão de uma liminar obtida pela própria Defensoria.
A decisão tinha sido proferida na última sexta-feira (dia 21 de março), obrigando
o Município a fornecer a lista dos moradores da Vila Autódromo e daqueles que
aceitaram voluntariamente o reassentamento, impedindo qualquer demolição até
que a informação fosse prestada.
Na fundamentação da decisão, o juízo afirma:

Não se nega o interesse público na construção do Parque Olímpico, porém, foi a


própria municipalidade que afirmou prescindir da área onde está a comunidade
da Vila Autódromo e, agora, inova o seu projeto para atingir esta área e sem o
devido processo legal, seja a desapropriação, ou a revogação das concessões,
nem mediante processo licitatório, emite licença [de demolição] ilegal.28

Não é preciso ser expert em Direito para saber que a decisão coloca os
moradores que lutam contra a remoção em uma situação jurídica extremamente
favorável. Nem ser um especialista em saúde pública para compreender o quão
prejudicial é viver cercado de entulhos de demolições de dezenas de casas. Obri-
gar o poder público a fornecer informações e suspender o procedimento de demo-
lição, questionando-se, ainda, o procedimento adotado pelo poder público para
forçar a remoção é uma conquista a ser celebrada pelos moradores e seus repre-
sentantes jurídicos.
Mas aconteceu o contrário. Com o argumento de que moradores que
aceitaram o reassentamento estavam impossibilitados de realizar a mudança para
o novo local, a Chefia e seus cargos de confiança requereram a suspensão da
própria decisão, jogando por terra não só a vitória jurídica dos moradores que lu-
tam, mas também a confiança em seus representantes processuais e o conjunto da
defesa jurídica empreendida por 21 anos. Além disso, partindo de uma premissa
equivocada, a Defensoria estimulou a nefasta prática municipal de colocar um
grupo que, por diversos motivos, aceitou sair da comunidade, contra o grupo que
tenta garantir o exercício do direito à moradia no próprio local, ao invés de buscar
resguardar os direitos de todos.
É, talvez, inédito assistir representantes jurídicos públicos atuando contra
a própria decisão obtida em sede liminar, dispensando qualquer atividade da parte

28 Apelação cível: 0021769-11.2013.8.19.0000 - Desembargadora relatora: Teresa de Andrade


Castro Neves.
82 A nova luta da Vila Autódromo e dos moradores que resistem à remoção

contrária. Trata-se de uma espécie de “suicídio processual”, mas que, lamenta-


velmente, atingiu de forma grave direito alheio. Em perfil oficial na rede social, a
defensoria geral comunica a “derrubada” (sic) de sua própria liminar, nos seguin-
tes termos:

Defensoria Pública derruba liminar que impedia mudança de 300 famílias da


Vila Autódromo para o Parque Carioca – A Defensoria Pública derrubou na
noite desta terça-feira, 25, a liminar que impedia a demolição, e consequente-
mente, a mudança de cerca de 300 famílias da Vila Autódromo para o Parque
Carioca. Por meio do Núcleo de Terras e Habitações (Nuth) e do Núcleo de
Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), a Defensoria entrou na Justiça com
pedido de suspensão parcial da liminar que não deixava os moradores efetuarem
a mudança. 29

A posição da Chefia é equivocada, também, pelos seguintes motivos:


a) em nenhum momento a decisão, ora suspensa, impede a mudança dos
moradores para o Condomínio Parque Carioca;
b) quem determinou a proibição da mudança foi a Prefeitura, ferindo os
direitos dos moradores que assinaram o contrato de reassentamento do
Minha Casa Minha Vida;
c) não havia qualquer necessidade de suspender a decisão judicial, já que
uma simples negociação com a Prefeitura ou uma medida jurídica ade-
quada poderia garantir a mudança dos moradores;
d) o Coordenador do Núcleo atuou diretamente contra o interesse dos mora-
dores, que historicamente são atendidos pelo órgão, e que resistem contra
a remoção e os entulhos gerados;
e) o conflito de interesses não foi resolvido com a atribuição de um defensor
tabelar (para atender o grupo)30, mas com a infidelidade na representação
jurídica daqueles moradores;
f) o presidente da associação de moradores, os seus diretores e demais mo-
radores que resistem, não foram chamados para participar das discussões
ou conhecer o requerimento.
A relação com os(as) moradores(as) da Providência segue um caminho
parecido. Em Ação Civil Pública (ACP), o Núcleo obteve uma excelente limi-

29 Perfil no Facebook da DPGE.


30 O defensor público tabelar é aquele que atua para a outra parte, em caso de conflito de inte-
resses entre os jurisdicionados.
Alexandre F. Mendes 83

nar no Poder Judiciário, determinando que o Município adote os mecanismos


democráticos previstos no Estatuto da Cidade, incluindo a realização de uma au-
diência pública com a população, levando-se em conta possíveis alterações no
projeto original oriundas da participação popular. Enquanto tais procedimentos
não forem realizados, o projeto urbanístico municipal resta suspenso, incluindo
as demolições de casas de moradores removidos, por haver convincentes indícios,
segundo o juízo, de violação à dignidade dos habitantes do local e do patrimônio
histórico-cultural.
A Chefia institucional e seus coordenadores se esforçam para ver reali-
zados os procedimentos democráticos impostos pela decisão? De forma alguma.
Contrariando o direito coletivo à participação, corretamente interpretado e apli-
cado pelo julgador da ACP, o Coordenador do Núcleo, segundo a comissão de
moradores da Providência, pressiona para a realização de um acordo rascunhado
entre ele e o Procurador Geral do Município, tendo como prazo de aceitação o
exíguo período de 48 horas.
Ora, com uma liminar tão sólida e favorável, a Defensoria Pública pre-
cisa se submeter ao prazo estabelecido unilateralmente pela Prefeitura para as-
sinatura do acordo? Os moradores foram convidados a analisar as cláusulas que
constam no documento? Eles concordam com a cláusula que prevê a remoção e
demolição de mais de 70 casas condenadas pelo Município, a despeito de haver
laudos técnicos que não identificam qualquer risco?
Essas oportunas indagações foram lançadas pelas defensoras titulares do
Núcleo, em reunião com os moradores, na tentativa de construir um acordo me-
lhor, com um tempo hábil que garanta a análise e a participação dos envolvidos
ou, então, de ver cumprida a liminar. Só de ouvir tais ponderações, o Coordenador
do Núcleo – segundo os presentes – teve um acesso de raiva e passou a desqua-
lificar grosseiramente as posições de uma das defensoras públicas titular. O fato
acabou por gerar uma representação administrativa das defensoras titulares contra
o próprio Coordenador, tendo como testemunhas os moradores da Providência
que presenciaram a deplorável cena.
Portanto, ao que tudo indica, e como as redes sociais já estão denuncian-
do, a Chefia da Defensoria Pública está atuando como verdadeira “Procuradoria
do Município”, deixando de lado toda as extensas prerrogativas funcionais previs-
tas legal e constitucionalmente para a atuação dos(as) defensores(as) públicos(as),
entre elas, a autonomia, a independência funcional, a participação dos assistidos e
uma atuação voltada para a promoção e garantia dos direitos humanos. Em meio
às violações geradas no contexto dos grandes eventos (Copa e Olimpíadas), for-
84 A nova luta da Vila Autódromo e dos moradores que resistem à remoção

mou-se uma espécie de “não-defensoria”, que sorri docilmente quando está perto
do poder, e se descontrola raivosamente quando está entre os pobres que resistem.
Portanto, os moradores de comunidades e favelas ameaçadas pela remo-
ção, e todos aqueles que lutam por uma cidade mais democrática, enfrentam agora
um duplo desafio: reinventar o Rio, tomado pelo urbanismo higienista do poder
imobiliário e pela apropriação privada dos bens comuns, e reconstruir a Defen-
soria Pública, retomando o caminho virtuoso de uma instituição que sempre foi
apoiada pela população e pelos movimentos sociais.
Lembremos que, para derrotar os bravos moradores do Morro do Santo
Antônio, que resistiram por 40 anos, a Prefeitura do Rio foi obrigada a implodir
o próprio morro, destruindo todos os resquícios da vida de seus milhares de ha-
bitantes. Será que para vencer a luta dos(as) moradores(as) da Vila Autódromo, e
de outras comunidades ameaçadas, teremos que assistir a implosão da Defensoria
Pública e de nossas poucas conquistas democráticas? Esperemos que não.

Alexandre Fabiano Mendes, doutor em direito pela UERJ, é professor adjunto de


direito da UERJ e PUC-Rio. Foi defensor público entre 2006-2011. Participa da Rede Univer-
sidade Nômade.

Referência:
SOARES GONÇALVES, Rafael. Favelas do Rio de Janeiro: história e direito. Rio de
Janeiro: PUC-Rio, 2013.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 85- 92

Operaísmo e pós-operaísmo31

Sandro Mezzadra

O “operaísmo”, também conhecido por “marxismo autonomista”, é uma


corrente política e teórica do pensamento marxista que surgiu na Itália no começo
dos anos 1960. Trata-se de uma leitura original de Marx, no contexto das lutas ra-
dicais dos trabalhadores ocorridas no país durante toda a década, e que levaram à
invenção de novos conceitos teóricos (tais como: “composição técnica de classe”,
“composição política de classe”, “operário massa”, “recusa ao trabalho”) e uma
nova metodologia política (a copesquisa, ou investigação militante). Na Itália, o
desenvolvimento do operaísmo influenciou profundamente uma cultura política
e movimentos sociais nos anos 1960 e 1970. As teorias do operaísmo italiano
revolucionário que, desde 1960, moldaram experiências políticas como o Potere
operaio e os movimentos multifacetados da Autonomia operaia, circularam lar-
gamente também fora da Itália. Por exemplo, na Alemanha, através de revistas
como Autonomie e o trabalho de Karl Heinz Roth; na França, através de revistas
como Matériaux pour l´invervention, Camarades e o trabalho de Yann Moulier
Boutang; e nos EUA, através de uma revista como Zerowork e o trabalho de Harry
Cleaver. Depois das ondas repressivas que, começando em 7 de abril de 1979,
levaram à prisão centenas de militantes e intelectuais do movimento autonomista
na Itália, forçando muitos outros ao exílio (principalmente na França); o começo
dos anos 1990 marcou uma nova temporada política e teórica, com o nascimen-
to do que atualmente é referido como “pós-operaísmo”. A chave para esta nova
temporada tem sido conceitos como “general intellect” (intelecto geral de massa),
“trabalho imaterial”, “capitalismo cognitivo”, “autonomia da migração” e “multi-
dão”. Império (2000), por Hardt e Negri, contribuiu vastamente na disseminação
global desses conceitos nos movimentos sociais, nas discussões marxistas e pós-
-marxistas, bem como nos estudos culturais e pós-coloniais.

Uma nova era na luta de classe está começando. Os trabalhadores a impuseram


aos capitalistas, através da violência objetiva de sua força organizada nas fá-
bricas. O poder do capital parece estável e sólido, e o balanço de forças parece
pesar contra os trabalhadores. E ainda, precisamente, nos pontos onde o poder

31 Tradução de Italy, operaism and post-operaism. Verbete publicado na International encyclo-


pedia of revolution and protest. Oxford: Blackwell, 2009. Tradução por Bruno Cava.
86 Operaísmo e pós-operaísmo

do capital parece mais dominante, podemos ver como está profundamente pene-
trado pela ameaça da classe trabalhadora.

Estas são as sentenças de abertura de Lênin na Inglaterra, de Mario Tronti,


escrito em 1964, como editorial para o primeiro número do jornal Classe operaria,
republicado em 1966 no livro Operários e capital, um livro que viria a tornar-se a
bíblia da primeira onda do pensamento operaísta (TRONTI, 1971, p. 89). O artigo
citado de Tronti é particularmente importante na história e formação do operaís-
mo: as primeiras sentenças claramente indicam um dos mais polêmicos frontes da
corrente de pensamento político: o ataque frontal contra todas as teorias de inte-
gração da classe trabalhadora, que estavam amplamente circulando nos anos 1960,
tanto nas ciências sociais mainstream, como no discurso público, mas também
em algumas variedades do marxismo “terceiromundista”. À polêmica, no mesmo
artigo, Tronti adicionou a formulação de um princípio metodológico (frequente-
mente referido como um tipo de “revolução copernicana”) que, apesar de todas as
diferenças, tornou-se crucial para todas as teorias do operaísmo e pós-operaísmo:
é a ideia de que seja necessário inverter a relação clássica entre o desenvolvimento
capitalista e a luta dos trabalhadores, para identificar nas lutas dos trabalhadores
um elemento dinâmico real (o verdadeiro “movente”) do desenvolvimento capita-
lista, afirmando a subordinação dos últimos às lutas dos trabalhadores.
Como jornal, Classe operaia (1964-67) surgiu da bipartição no interior
da experiência de edição de um jornal militante, os Quaderni rossi (Cadernos
Vermelhos), que tinham sido fundados em 1961, em Turim, por Raniero Panzie-
ri, um intelectual proeminente e líder de esquerda do Partido Socialista Italiano
(PSI). Crítico da nova linha do partido, que lançava as bases para as experiências
seguintes dos governos ditos de “centro-esquerda” no país, Panzieri reuniu um
grupo de jovens intelectuais, trabalhadores e funcionários técnicos, começando
uma investigação sobre as condições de vida e trabalho da classe trabalhadora, em
Turim e ao redor. O jornal Quaderni rossi (Cadernos vermelhos) nasceu da cone-
xão de grupos semelhantes, baseados em outras regiões do Norte da Itália, com in-
telectuais como Antonio Negri e Mario Tronti (o último ligado ao PSI de Pádua, o
outro ao Partido Comunista em Roma) e pesquisadores militantes como Romano
Alquati e Guido Bianchini. Em muitos sentidos, o trabalho feito pelos Quaderni
rossi viria a ser considerado a origem do operaísmo, embora também seja correto
frisar a divisão do grupo (e o nascimento da Classe operaia), como o verdadeiro
momento de emergência de um operaísmo político.
Os Quaderni rossi, que originalmente mantinham uma forte relação com
a esquerda e os sindicatos, produziu uma ruptura real com a cultura política he-
Sandro Mezzadra 87

gemônica da esquerda da época, então profundamente moldada pela leitura de


Gramsci proposta pelos intelectuais do PCI nos anos 1950 e pela linha política
estabelecida por Palmiro Togliatti, desde o fim da guerra. Embora hoje pareça
paradoxal, a ruptura produzida pelos Quaderni rossi foi ambivalente, e basica-
mente consistiu numa dupla redescoberta: a redescoberta de Marx (a primeira
tradução ao italiano do fragmento de Marx incluído nos Grundrisse: o famo-
so “Fragmento sobre as máquinas” foi publicado na quarta edição dos Quaderni
rossi) e a redescoberta da fábrica. Depois da derrota histórica da esquerda em
Fiatin 1953, a fábrica tinha passado a ser concebida pelas organizações oficiais
do movimento do trabalho como um lugar de resistência e formação política de
quadros, mas certamente não como o lugar estratégico para uma ofensiva pelos
trabalhadores. Durante a predominância de uma leitura “historicista” de Marx, a
política de alianças tinha sido reconhecida como a tarefa principal das políticas
socialistas e comunistas.
Quaderni rossi buscaram uma saída para a crise interna e internacional
do movimento do trabalho, na segunda metade dos anos 1950, enfatizando a nova
qualidade da luta e composição de classe, nas novas condições determinadas pela
onda de industrialização de massa, que radicalmente transformou a paisagem so-
cial, econômica e cultural da Itália, entre o fim dos anos 1950 e o começo dos
1960. O jornal começou produzindo uma cartografia acurada das condições e
lutas dos trabalhadores, ressaltando a importância de comportamentos aparente-
mente “apolíticos” dos trabalhadores, como o absenteísmo e pequenos (e mesmo
individuais) gestos de sabotagem. Foram iniciados trabalhos de copesquisa em
muitas fábricas, diretamente envolvendo os trabalhadores na produção de conhe-
cimento, com base em suas condições de vida e trabalho, e vivendo a produção
e transformação do conhecimento como condição para a luta. De certo modo, é
possível dizer que os Quaderni rossi exerceram um papel-chave no estabeleci-
mento da sociologia industrial e do trabalho na Itália, quando a cultura predomi-
nantemente historicista da esquerda era basicamente hostil à sociologia enquanto
tal. Em paralelo, uma nova leitura de Marx (especialmente dos capítulos sobre a
“jornada de trabalho” e sobre a “maquinaria da indústria moderna”, no Capital,
Livro 1) começou a abrir a própria categoria do capital para o reconhecimento de
sua natureza como relação social, como síntese provisória de uma tensão (e de
uma luta), que permanece estruturalmente aberta.
Classe operaia tentou interpretar a radicalização das lutas dos trabalha-
dores, que apareceram pelo menos desde 1962, quando um levante selvagem em
Turim (o levante da Praça Statuto), trouxe à cena o comportamento de novos tra-
88 Operaísmo e pós-operaísmo

balhadores sem qualificação e jovens, a maioria migrantes do sul do país, cujo re-
crutamento tinha transformado radicalmente a composição da classe trabalhadora
nas fábricas do norte da Itália (e antes de tudo, nas fábricas da Fiat em Turim).
O novo jornal se apresentou como um “novo estilo de experimentação política”:
além de intelectuais como Mario Tronti, Antonio Negri e Sergio Bologna, Classe
operaia foi produzido por uma vasta rede de grupos de trabalhadores autônomos,
baseados em váris fábricas no norte do país (com o polo emergente químico de
Porto Marghera, perto de Veneza, cada vez mais exercendo um papel importante).
Crucial à divisão em relação aos Quaderni rossi foi a ideia que a situação italiana
se tornara abundantemente propícia para experimentos políticos de organização
de trabalhadores autônomos (“1905 na Itália” era o título de outro editorial escrito
por Tronti). Mas, ao mesmo tempo, Classe operaia era também o laboratório teó-
rico em que as principais categorias e a metodologia da primeira onda do operaís-
mo foram definidas. O conceito de “composição técnica de classe” foi esculpido
a partir de uma espécie de “lado avesso” do que Marx havia chamado de “com-
posição orgânica do capital”. A este conceito, foi adicionado o de “composição
política de classe”, de modo a considerar também os comportamentos subjetivos,
as necessidades, as tradições de luta, como parte da definição de classe. Enquanto
a análise do novo papel consignado ao estado pelo keynesianismo levou ao con-
ceito de “plano do capital” (que depois foi desenvolvido por Negri, no começo
dos 1970, no conceito de “estado-plano”), no capítulo teórico mais engajado de
seu Operários e capital (“Marx, forza-lavoro, classe operaia”), Tronti postula que
a relação entre trabalho e capital é sempre dupla, é diretamente incorporado como
mercadoria (como “força-trabalho”), mas também separado desta lógica como
uma forma de subjetividade política (como “classe trabalhadora”).
Remetendo a uma leitura dos Grundrisse de Marx, Tronti (1971, p. 211)
elaborou a ideia do “trabalho como subjetividade”, trabalho contra capital, trabalho
como não-capital. Esta ideia implicou uma ênfase radical na parcialidade da subjeti-
vidade da classe trabalhadora. Por um lado, Tronti sublinhou o fato que somente do
ponto de vista unilateral deste sujeito parcial, seria possível produzir um conheci-
mento da “totalidade” do capitalismo. Por outro lado, ele desenvolveu inteiramente
as consequências políticas da opção teórica, estabelecendo o interesse (e a “força
explosiva”) da classe trabalhadora em colocar-se contra conceitos integracionistas
como o “povo” e a própria “soberania popular”, que tinham sido a chave para a te-
oria da “democracia progressiva” do Partido Comunista sob a liderança de Togliatti
(cf TRONTI 1971, p. 79). A copesquisa sobre as novas condições técnicas do tra-
balho nas fábricas “fordistas” levou o grupo da Classe operária a identificar a nova
Sandro Mezzadra 89

composição da classe trabalhadora no “operário massa”: a falta de identificação do


trabalhador sem qualificação no conteúdo do trabalho, longe de ser descrito em ter-
mos de “alienação”, era considerado pelos operaístas italianos como a raiz da recusa
ao trabalho e lutas políticas por um salário independente do trabalho produtivo.
O movimento dos estudantes de 1968 e o “Outono Quente” dos traba-
lhadores de 1969 conduziram a uma nova divisão no operaísmo italiano. Mario
Tronti e outros decidiram continuar sua atividade política e intelectual no PCI,
uma vez que estavam convencidos que as lutas dos trabalhadores estruturalmente
precisavam de um “suplemento” apolítico, de maneira a multiplicar e consolidar
a sua força (uma posição que depois foi elaborada por Mario Tronti na sua teoria
da “autonomia do político”). Antonio Negri e outros, por outro lado, estavam
convencidos que o nível de poder autônomo exprimido pelos trabalhadores no
“Outono Quente” punha diretamente o problema da ruptura revolucionária. A or-
ganização Potere operaio foi fundada sobre esta avaliação e se manteve ativa até
1973. Embora a história da organização ter sido perpassada por muitos contrastes
a respeito da melhor “linha do partido” (com posições oscilando desde uma ên-
fase na autonomia dos trabalhadores e violência, até a redescoberta das políticas
leninistas insurrecionais), o jornal foi um ponto de referência importante para as
experiências mais radicais dos trabalhadores na Itália.
Tanto a nova dimensão das lutas dos trabalhadores (simbolicamente re-
presentadas pela ocupação da fábrica da Fiat em Mirafiori, em março de 1973) e
o alastramento de novos movimentos sociais desde o fim dos anos 1960, levou a
maioria do Poder operaio a propor o fim da experiência do grupo, e sua confluên-
cia num movimento mais amplo da “autonomia operaia”.
A composição do movimento da Autonomia era radicalmente heterogê-
nea, tanto de um ponto de vista político quanto social: apesar de a proposta de
“autonomia dos trabalhadores” ter surgido de algumas grandes fábricas no norte
e de comitês de trabalhadores em Roma, o movimento gradativamente registrou
e exprimiu a militância política de novos setores proletários, especialmente nas
periferias de áreas metropolitanas; os slogans e a linguagem do operaísmo fo-
ram rearticulados para a nova situação, eles se hibridaram, por um lado, com as
tradições políticas mais antigas (como, por exemplo, dos conselhos de trabalha-
dores) e, por outro lado, com as novas e emergentes experiências do feminismo,
ambientalismo e contracultura. A ênfase na organização de um “contrapoder” e o
espalhamento da violência proletária contra o estado e o capital (que era decisiva
para alguns componentes do movimento) foram acompanhados pela ênfase na
criatividade, micropolítica e a redescoberta do “situacionismo” (que a seu passo
90 Operaísmo e pós-operaísmo

era decisiva para outros). O levante de 1977 na Itália (particularmente, em Bolo-


nha e Roma) foi o momento culminante do crescimento do movimento autônomo:
de certa forma, pode ser retrospectivamente considerado como o surgimento em-
brionário de uma nova composição social do trabalho, como o anúncio de muitos
dos temas que estavam em jogo no desenvolvimento do pós-operaísmo nos anos
recentes. 1977 foi também o ano moldado pelo confronto dramático entre o mo-
vimento autônomo e o PCI: desde aquele ano, numa situação progressivamente
caracterizada pelas ações militares das Brigadas vermelhas e outras organizações
de esquerda de luta armada, o Partido Comunista Italiano exerceu um papel-chave
na criminalização do movimento autônomo e na organização da repressão contra
seus intelectuais e militantes.
Desde um ponto de vista teórico, o desenvolvimento do operaísmo italia-
no revolucionário na década de 1970 esteve inteiramente enredado com a história
das lutas políticas e sociais, brevemente rascunhadas acima. Um primeiro elemen-
to que pode ser identificado na tentativa de reconstruir a dimensão internacional
do ciclo de lutas do operário-massa. Esta tentativa levou a um estudo intenso so-
bre a história das lutas de classe nos EUA, particularmente concentrada no Indus-
trial Workers of the World (IWW) e experiências como Facing reality, nos anos
1950, bem como uma investigação das lutas dos trabalhadores nos anos 1960 e
começo dos 1970, na Europa Ocidental. Operai Stato, um livro coletivo publicado
em 1972, e que pode ser considerado uma jogada importante nessa direção, intro-
duz um segundo elemento teórico importante, que é o papel e a forma mutante do
estado no capitalismo. Particularmente importante a respeito, tem sido o trabalho
de Antonio Negri e Luciano Ferrari Bravo: a definição do “estado-plano”, como
já citado, conceito esculpido e embasado em dois ensaios reunidos em Operai
e stato – um dedicado a Keynes por Negri, e outro dedicado ao New Deal nos
EUA, por Ferrari Bravo. Nos anos seguintes, as lutas do operário massa foram
reconhecidas como elemento crucial para causar a crise do “estado plano”: en-
quanto politicamente os operaístas dentro do movimento autônomo pensaram que
era necessário e possível aprofundar a desarticulação da própria forma do estado,
mediante uma mistura de sabotagem e lutas pelo “salário indireto”(quer dizer, o
aumento da despesa pública do estado); a análise da crise do “estado plano” levou
à introdução do conceito de “estado crise”, que antecipou muitos debates sobre a
crise do estado de bem estar social.
Um terceiro elemento teórico crucial, nos anos 1970, foi a copesquisa
sobre formas incipientes de reestruturação capitalista, como uma resposta às lutas
do operário-massa. Pelo menos desde 1973, muitas investigações coletivas e aná-
Sandro Mezzadra 91

lises ressaltaram o fato de o capital, ele próprio, ser compelido pela intensidade
das lutas a inventar novas formas de produção e novas modalidades de enreda-
mento entre produção, circulação e reprodução, de maneira reativa às lutas. O
conceito de “fábrica difusa” buscou captar as formas neocapitalistas emergentes,
enquanto o conceito de “operário social” foi proposto de maneira a identificar a
composição de classe que poderia antecipar, politicamente, a tentativa de reestru-
turação do capital, e reafirmar o comando sobre toda a sociedade.
O que é presentemente referido como “pós-operaísmo” apareceu no co-
meço dos anos 1990. Enquanto, na Itália, um novo movimento estudantil (1990,
1991) e a consolidação do movimento dos centros sociais abriram novas possibi-
lidades para a ação política radical e o pensamento, dois jornais foram lançados
para contribuir com um exame crítico e renovação do legado do operaísmo. O
primeiro, Luogo comune (Lugar comum), começou em Roma com Paolo Virno e
outros; o segundo, Futur Antérieur (Futuro anterior), começou em Paris com An-
tonio Negri, outros expatriados políticos italianos e intelectuais franceses, como
Jean-Marie Vincent. Esses dois jornais começaram um debate sobre o “pós-for-
dismo”, que tentou ler a contrapelo muitos dos personagens e a própria retórica da
nova organização “flexível” do capitalismo.
Nos anos seguintes, uma nova leitura do conceito de Marx de general
intellect foi proposta, de modo a realçar o papel do conhecimento e da linguagem
exatamente na composição do trabalho, dominada e explorada pelo capital; uma
discussão vividamente concentrada no conceito do “trabalho imaterial”; na ênfase
na mobilidade do trabalho, que levou alguns teóricos “pós-operaístas” a propor a
teoria da “autonomia da migração”; e no conceito de “multidão”, originalmente
trabalhado por Antonio Negri na sua apreensão de Spinoza. Esses temas foram
sucessivamente reelaborados para captar a heterogeneidade “técnica” da compo-
sição do trabalho e, a partir daí, propor uma forma de organização política além
da tradição do movimento do trabalho.
Desde 1999, conceitos e teorias pós-operaístas foram profundamente
influenciados pela discussão dentro do movimento alterglobalização: eles foram
agudamente criticados por alguns ativistas e intelectuais de esquerda, ao turno
que outros deles se apropriaram com entusiasmo. Com a publicação de Império,
por Hardt e Negri (2000), o operaísmo e o pós-operaísmo se tornaram “teorias
viajantes”, parte da discussão crítica global em movimentos sociais e na produção
do conhecimento, tanto dentro quanto fora da academia.
92 Operaísmo e pós-operaísmo

Sandro Mezzadra é professor de filosofia política na Universidade de Bolonha, autor


de vários livros, em português, com Andrea Fumagalli, lançou A crise da economia global (Re-
cord, 2010), e participa do coletivo EuroNômade (http://www.euronomade.org).

Tradutor:
Bruno Cava é blogueiro e pesquisador participante da Universidade Nômade.

Referências:
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BIRKNER, M.; FOLTIN, R. (2006), (Post-)Operaismus. Von der Arbeiterautonomie
zur Multitude. Geschichte und Gegenwart, Theorie und Praxis. Eine Einführung,
Stuttgart: Schmetterling.
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FERRARI BRAVO, L. (2001) Dal fordismo alla globalizzazione, Roma:
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HARDT, M.; NEGRI, A. (2000), Empire, Cambridge, MA: Harvard University Press.
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HARDT, M.; VIRNO, P. (Orgs.) (2006), Radical Thought in Italy: A Potential
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Intervistasull’operaismo, Verona: ombre corte (1a ed. 1979).
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TRONTI, Mario (1971), Operai e capitale, Torino: Einaudi (2nd enlarged ed., 1a
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VIRNO, Paolo (2004), A Grammar of the Multitude, Cambridge, MA –
London:Semiotext(e).
LUGAR COMUM Nº42, pp. 93- 109

O comum da cooperação
social na metrópole32

Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello

Há alguns anos, no livro Da fábrica à metrópole [2008, sem edição traduzida],


você disse que a metrópole está para a multidão como antes a fábrica estava
para a classe operária. Gostaria de falar hoje sobre como as transforma-
ções, os movimentos e a crise global estão relacionadas com as análises da
metrópole, a partir do que se podem reler e interpretar muitas categorias do
presente. Recentemente, você assinalou a necessidade de submeter à verifi-
cação crítica algumas categorias consolidadas da experiência pós-operaísta.
Pergunto a você, antes de qualquer coisa, se o esquema de leitura da relação
entre metrópole e multidão também  deveria ser submetido à verificação e
atualização?
Estamos hoje diante de uma situação completamente aberta quanto à me-
trópole. Por isso, discurso deve sim ser submetido a uma verificação, mas conti-
nuarei de qualquer modo a insistir sobre a passagem fábrica-metrópole, sem no
entanto interpretar essa passagem de modo linear. É evidente que a metrópole
seja alguma coisa de radicalmente diversa do que a fábrica. A metrópole é um
lugar de produção que deve ser analisado em toda a sua especificidade. Mas tam-
bém é verdade que ela hoje tenha se tornado o lugar de produção por excelência.
Em segundo lugar, o conjunto dos habitantes da cidade, a multidão ci-
dadã, metropolitana, poderia ser considerada como a classe operária na fábrica?
Também aqui, evidentemente, o discurso deve ser alargado, simplificado, arran-
cado das categorias iniciais. Mas ainda assim, não é uma metáfora afirmar que a
metrópole esteja hoje para a multidão como a fábrica estava para a classe operária.
É preciso insistir nesse elemento: não se trata meramente de uma metáfora porque
uma relação de fato existe, ela acontece, embora a exploração na metrópole não
seja simplesmente igual ao que era na fábrica.
Tenho muito receio das sociologias que, hoje, se mascaram atrás do feti-
che da “espacialidade”, e que compreendem a metrópole exclusivamente a partir

32 Tradução por Bruno Cava.


94 O comum da cooperação social na metrópole

das diferenças e separações. Atrás dessa diversidade, existe um mecanismo de


exploração que atua de maneira absolutamente sólida, e que pode ser chamado de
“mecanismo extrativo”. Se nós assumirmos a passagem fábrica-metrópole, clas-
se-multidão, devemos nos encontrar diante de uma situação não-metafórica que
deve, apesar disso, ser interpretada por meio de novas categorias da exploração.
Particularmente, da forma de exploração que hoje se chama extração, exploração
extrativa, ou melhor, a relação de dominação extrativa.
É sobre o tema do extrativismo que hoje se deve insistir, sem, no entanto,
jamais esquecer que o tecido sociológico da metrópole não pode ser identificado
com a fábrica. Primeiro de tudo, porque a divisão do trabalho não é imediatamen-
te funcional, não é disciplinar e, no limite, não é sequer de controle. Em segundo
lugar, porque estamos numa fase diversa do desenvolvimento da exploração ca-
pitalista, o que Carlo Vercellone – a propósito da relação entre capital cognitivo e
trabalho cognitivo – não chama mais de “pós-industrial”, mas de decisivamente
informática. Uma fase que já começa a encontrar o seu próprio equilíbrio, quando
a relação de exploração – nesta atual fase extrativa – se torna cada vez mais difícil
de definir. Porque nesse âmbito há, seguramente, confusão e hibridação entre ca-
pital fixo e trabalho vivo, talvez reapropriação do capital fixo pelos próprios sujei-
tos, além de acontecer uma emergência de cooperação social que, provavelmente,
também deva ser considerada como um elemento de autonomia.

Você falou de mecanismo extrativo e sobre a cooperação e depois em au-


tonomia, numa passagem que remete aos resultados e significados estrutu-
ralmente ambivalentes do conceito de metrópole, o que nos leva sempre a
uma ordem dupla de questões. De uma parte, aos novos regimes de controle
social, aos mecanismos de captura do valor socialmente produzido, à expro-
priação intensiva da força trabalho e da cooperação social urbana, ao ren-
tismo, às especulações imobiliárias, à multiplicação de fronteiras internas
ao espaço metropolitano. De outra parte, existe a metrópole como — estou
citando Commonwealth [NT: Negri e Hardt, Harvard Press, 2009] — “corpo
inorgânico da multidão”, território de produção de subjetividade e formas
de vida, uma espacialidade específica para processo inéditos de subjetivação
ou, para dizê-lo com as suas palavras, “folheados institucionais que reúnem
o conjunto das paixões para gerar o comum”.
Como deve ser analisada a relação entre essas duas versões da noção de
­metrópole? Trabalhando para valorizar os elementos de relativa autonomia
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 95

recíproca, ou evidenciando-lhes as constantes interações? Quais, em resumo,


as coordenadas fundamentais para um trabalho de pesquisa do tecido metro-
politano, do ponto de vista da construção do comum?
Creio que a economia da metrópole seja fundamentalmente unitária.
Tanto o elemento da autonomia, quanto a exploração extrativa. Ambos os casos
devem evidentemente ser considerados em sua consistência própria, na intensi-
dade com que se dão. Mas é preciso assumir a centralidade da relação entre eles,
recíproca.
E assim voltamos ao assunto, não metafórico, da metrópole que está para
a multidão assim como, antes, a fábrica estava para a classe operária. Porque o
conceito de capital é sempre duplo: há quem explora e quem é explorado, quem
manda e quem resiste. O problema está então em como combinar uma definição
intensiva dos sujeitos em questão com a dimensão relacional, que é uma dimen-
são de redefinição contínua e alternativa dos próprios sujeitos – eu o defino, você
me define, e assim por diante ao infinito. É nesse vaivém que se determinam as
qualidades dos sujeitos – com todos os desenvolvimentos antropológicos que vêm
junto – e a intensidade das forças em campo. É preciso ver essa relação como um
tecido, fluido mas extremamente forte, repleto de ondulações resultantes do cho-
que, como se fossem duas grandes massas se encontrando.
Evidentemente, ir além deste nível real para um análise “micro”, consiste
numa tarefa global. É a passagem da sociologia – uma sociologia marxista, que
assume, portanto, não o fetichismo do objeto, mas a definição do sujeito como
dinâmico – para a política como física operativa das paixões, que somente pode
ser conduzida sobre o terreno “micro”. Este é o verdadeiro “alquatismo” [NT.
Referência ao operaísta Romano Alquati, que conceituou originalmente o mé-
todo da copesquisa, nos anos 1960]: não se trata de uma copesquisa banal, mas
da capacidade de definir e fazer funcionar a pesquisa como máquina operativa
de construção de paixões coletivas. Um pouco daquele método que achamos em
Maquiavel, Spinoza, no Marx histórico e, hoje, em Foucault, ou ainda melhor,
diversamente, na tentativa deleuziano-guattariana dos Mil Platôs [1980], – que
também reduz, por um lado, uma abstração excessiva da realidade e, por outro,
uma atenção escassa à realidade de classe.

Você assinalou os “desenvolvimentos antropológicos” que surgem nas análi-


ses da mutação do tecido metropolitano e dos processos de acumulação ca-
pitalista, e depois adentrou no terreno da metodologia, no sentido que seja
96 O comum da cooperação social na metrópole

necessário fazer do pensamento e da pesquisa uma ferramenta para a inter-


venção no presente. Na metrópole contemporânea, é possível retraçar condi-
ções aludindo também a uma nova dimensão antropológica da política? qual
a postura de pesquisa nesse sentido?
Também a temática antropológica deve ser abordada em duas perspec-
tivas. De uma parte, existe a questão do que podemos chamar de “forma mental
da antropologia pós-industrial”, ou seja, a reconquista do “capital fixo” pelo su-
jeito, a parte mecânica que o homem se reapropria, e com o que rompe o mando
exclusivo do capital. O elemento importante a considerar, aqui, é que o mando
capitalista já não opera mais simplesmente agregando elementos tecnológicos no
corpo humano. Agora, de maneira igualmente importante, ocorre uma capacidade
de reapropriação e transformação autônoma dos elementos maquínicos na estru-
tura do humano.
Hoje, quando se fala em “paixões sociais”, se deve falar em paixões
ligadas ao consumo passivo de tecnologias, mas também e sobretudo falar do
consumo ativo. O tema do consumo deve ser absolutamente arrancado – como
teve de sê-lo no caso do operário industrial – do moralismo e da estupidez de
uma antropologia do homem puro, do homem nu. O homem não é mais puro, o
trabalhador nunca foi despido – essas figuras são sempre vestidas e sujas – mas é
o modo como se vestem e como operam que nos apresenta a única realidade de-
les. Isto vale para a definição do horizonte de necessidades e da pobreza. É claro
que a pobreza, hoje, é alguma coisa de completamente diferente daquilo que era
há um século: hoje, quando se fala em pobreza, se está falando em vez disso em
instrumentos de comunicação, na capacidade de integração social no nível da coo-
peração, e certamente não definindo a pobreza apenas do ponto de vista alimentar
ou habitacional.
Além disso, de outro lado, se pode perceber na metrópole uma rica con-
sistência antropológica, no nível sobre o que se desenvolve inteiramente a auto-
nomia dos sujeitos, e que é ligada a tendências, a comportamentos que são gera-
dores, isto é, comuns. Este elemento de comunalidade (quer passiva, quer ativa)
se dá fundamentalmente na metrópole e é isto que deve ser percebido na pesquisa.
Ademais, existem mil diferenças entre centro e periferia, mil níveis de singula-
ridade, figuras extremamente diversas que já tornaram impossíveis na metrópole
não só a planificação e a programação internas, mas a própria topologia. Agora, é
a consistência antropológica radical que precisa ser reconstruída, em sua descon-
tinuidade. Descontinuidade do objeto e do sujeito, o que não significa no entanto
descontinuidade ou ruptura de um método (a copesquisa), que guarda ainda hoje
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 97

valor heurístico. Por exemplo: uma abordagem antropológica retoma, a meu ver,
as novas condições de vida e produção da metrópole, ante a existência do traba-
lhador cognitivo, renovando aquele método que identificava no operário indus-
trial uma capacidade de resistência e uma força de irradiação geral de suas formas.

Você citou os temas do consumo e da pobreza. Vamos nos delongar ainda


nesses elementos. Há quem, por exemplo se referindo a segmentos do espa-
ço urbano ocidental marcados hoje por altíssimas taxas de desocupação ju-
venil, coloca em relevo a emergência de uma condição de dispensabilidade,
de uma nova condição de pobreza caracterizada por uma marginalização
radical, em relação aos processos de produção, acumulação e valorização.
Você crê que essas perspectivas possam descrever eficazmente segmentos da
cidade contemporânea?
É absolutamente verdade que, hoje, o capital não consegue identificar de
maneira unívoca na metrópole, – isto é, no lugar privilegiado da sua acumulação
e valorização, – os sujeitos que estão imbricados no nível produtivo, da acumu-
lação. Não consegue identificá-los, mas consegue, apesar de tudo, governá-los,
“pastoreá-los”, comandá-los em termos pastorais, logo, de maneira muito geral.
Mas é falso que existam níveis de “total” marginalização – seria como dizer que
existem os tais ”homens nus” – e isto vale em qualquer forma de organização so-
cial. Pelo menos nos grandes “centros capitalistas”, cujo eixo central ia da Rússia
até os Estados Unidos e agora se prolongou aos ditos BRICs.
Deve-se prestar atenção também ao fato que o desenvolvimento capita-
lista procede por “saltos”. Existem certas zonas totalmente marginais, a respeito
do dito desenvolvimento, mas isto não ocorre mais linearmente, e sim por estágios
sucessivos. Veja, por exemplo, que hoje as mais altas taxas de difusão da telefonia
celular se dão na África. Em suma, não existe uma marginalização total, assim
como não existem terrenos de inclusão “total”: é preciso lutar contra a mistifica-
ção da marginalização tanto quanto da inclusão por meio do consumo. Para mim,
esta exclusão “total” parece constituir um elemento polêmico privilegiado – é
necessário destruir esses álibis para uma ação coletiva construída sobre a piedade,
a compaixão, a superstição religiosa. Quando falamos de pobreza, falamos de
condições que tocam à gente explorada, ou seja, submetida de qualquer maneira a
um mecanismo extrativo, e a gente explorada não é nunca totalmente pobre. Para
extrair alguma coisa é preciso haver uma realidade humana que produza, nem
mesmo o escravo é um excluído total do mecanismo produtivo.
98 O comum da cooperação social na metrópole

Assumamos, agora, outro ponto de vista radical sobre a cidade contemporâ-


nea: no último livro de David Harvey, – Rebel cities, – por vezes referindo-se
a seu trabalho com Michael Hardt, ele percorre o tema da metrópole passan-
do pelas duas faces, a da renda e acumulação, e a das lutas. A sua proposta
remete substancialmente à possibilidade de retomar, reinventar e atualizar o
direito lefebvriano à cidade, para reinscrevê-lo nas práticas sociais de produ-
ção do comum [commoning]. Acredita que se trate de uma estratégia à altura
das metrópoles de nosso tempo?
Aqui vamos devagar. Acredito, na verdade, que o “direito à cidade” seja
em vez disso qualificado em termos históricos, que seja assim o direito à cidade
da gente que – para dar um exemplo – morava em Courneuve [na periferia] e tinha
de trabalhar no centro de Paris ou nas fábricas em Billancourt. Era o direito de
atravessar aquela cidade vivaz e bela, vindo de uma periferia miserável. Para dar
outro exemplo: era o direito dos operários que vinham da Itália meridional para
ocupar Turim, em vez de continuarem confinados no cinturão periférico. O direito
à cidade é, em suma, um conceito ligado à reestruturação urbana do período for-
dista. Esta era a cidade de H. Lefebvre, que não compreende ainda o mecanismo
de produção do comum que, a mim, parece hoje constituir o elemento central.
Já a tese à Harvey insiste demais sobre a divisão metropolitana do pro-
letariado, e assim propõe uma visão pessimista e negativa, a respeito da capa-
cidade de associação, reorganização interna e insurreição – a capacidade que o
proletariado urbano começou a demonstrar na cidade pós-fordista. As reflexões de
Harvey não compreendem ainda os movimentos autônomos e a nova política que
expõem, por exemplo, os novos sujeitos do trabalho cognitivo.

Harvey trabalha para mostrar as “raízes urbanas” das grandes crises capita-
listas, fundamentalmente analisando o papel capital que o funcionamento do
mercado imobiliário tinha exercido em qualquer uma das crises. Sem dúvida,
foi assim no colapso de 2008, mas você acredita que o tema possa ser decisivo
também para interrogar desenvolvimentos futuros?
Não creio que o problema do rentismo urbano permaneça tão central. An-
tes disso, estou convencido que nesse respeito haverá uma concessão capitalista
consistente. A renda urbana manterá certo relevo, mas não nesses níveis; vamos
caminhar, penso eu, em direção ao modelo das cidades alemãs, onde a mixagem
dos valores imobiliários é muito vasta. Certamente, nas cidades turísticas como
Veneza, Florença etc, as imobiliárias terão sempre um valor enorme, assim como
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 99

perto de lugares atravessados pelos “megaeventos”. Porém, mais em geral, a me-


trópole deve mesmo tornar-se uma cidade híbrida.
Isso é inevitável, se analisarmos os custos de manutenção da própria ci-
dade: o elemento sempre mais fundamental nesses custos se torna o custo do
comum. Há tempos venho sustentando que os custos de reprodução da cidade
superam a capacidade da renda urbana de produzi-los. Esta última é atacada di-
retamente por impostos, custos de serviços, que terminam por exceder as rendas
imobiliárias. Não se trata tanto de gentrificação, quanto de uma normalização do
consumo urbano. A acumulação passa, ao contrário, através do uso produtivo da
máquina, que vai trabalhar de maneira global, geral: ela produz ideias, lingua-
gens, potências, modos de vida, redes, conhecimentos, mas sobretudo produz co-
operação. Existe uma enorme “combinação”, que custa tantíssimo ao capital, e
que oferece grandíssimo retorno – que está, apesar de tudo, ligada à estrutura do
comum e não ao rentismo.
Resumindo, a meu ver, a cidade que teremos não será construída tanto
sobre o valor imobiliário, quanto sobre o valor obtido mediante a soma e integra-
ção dos serviços: este dispositivo é que qualifica uma cidade, porque a qualifica
enquanto fábrica. Fábrica da multidão: o que não alude somente ao fato que a
multidão produz, como também fala da quantidade de serviços em sua constante
expansão. Se agora se fala de colocar internet banda larga gratuita na cidade, isso
é feito porque produz, porque a gente a usa, a requer, porque faz funcionar melhor
a cidade, porque existem pessoas capazes de apropriar-se dela, porque representa
uma forma de cooperação que atravessa a cidade.

Mudemos de assunto, mais especificamente, para falar da face da metrópole


como lugar de produção de subjetividade e insubordinação: proponho a você,
em longa curva, repassar os acontecimentos e experiências nos últimos anos.
Recentemente, você viajou para a Turquia e o Brasil, onde aconteceram mobi-
lizações e movimentos propriamente metropolitanos. Quais foram os elemen-
tos mais significativos dessas experiências? Quais os nexos e as descontinuida-
des em relação a movimentos como Occupy e os Indignados (15-M)?
No Brasil, a luta começou com uma reivindicação do tipo “direito à ci-
dade” – a tarifa dos transportes urbanos. Começou assim, para imediatamente se
converter numa revolta contra as políticas de desenvolvimento que aparentemen-
te reproduzem a estrutura urbana e estão ligadas às “grandes obras”, a grandes
intervenções sobre a estrutura urbana. Particularmente, no Rio de Janeiro, essas
100 O comum da cooperação social na metrópole

políticas costuram investimentos em grandes eventos, como a Copa do Mundo e


as Olimpíadas, a práticas contemporâneas de exclusão urbana e “revitalização”
privatista das grandes estruturas comunitárias que são as favelas.
Retornando incidentalmente a um ponto tocado antes: as favelas encar-
nam a crítica vivente a quem pensa que a miséria e a pobreza possam ser “totais”;
as favelas são, em vez disso, inclusive na pobreza, grandes pulmões da economia,
de comportamentos produtivos e novas figuras antropológicas, de novas lingua-
gens, de culturas específicas, e não apenas locais, mas verdadeiramente culturas
metropolitanas de altíssimo valor. Além disso, certamente, nelas vivem também
elementos de comunidade perversa, sobre o que pouco discutem os sociólogos do
Rio – a não ser quando a crise chega ao cerne – como, por exemplo, o mercado
do narcotráfico, verdadeiramente destrutivo das comunidades, em particular, do
ponto de vista ético-político.
No Brasil, a luta começou assim, mas depois entrou no jogo não apenas
o tema da restruturação da cidade, mas também todos os símbolos e baluartes de
uma consciência metropolitana branca, formada quando a cidade se emancipou
do escravismo. As favelas são as “outras cidades” vivas dentro da metrópole. O
ataque às favelas se tornou assim o ponto onde as políticas de “desenvolvimento
urbano” colidiram, ao esquecer que as favelas podem ser “outras”, mas também
estão “dentro” da produção metropolitana.
O grupo dirigente do PT, o governo planificador socialista, confundiu
desenvolvimento com produção industrial, no sentido mais rígido da palavra. A
estupidez deste paleo-industrialismo foi subitamente revelada graças a uma resis-
tência rica e vivaz. A oposição foi fortíssima. Uma oposição que certamente não é
de natureza “ecológica”, como também não fora em Gezi Park, em Istambul, mas
sim voltada a manter um espaço comunitário vivo dentro da metrópole. Aqui está
a mutação antropológica: o operário industrial identificava a cidade com a fábrica
e fugia; hoje, ao contrário, é voltando à metrópole que se dá a descoberta de uma
Comuna da produção social. O caráter metropolitano é produtivo, não ecológico,
e é sobre isso que, sem dúvida, age seja a revolta de Gezi Park, seja aquela do Rio
ou de São Paulo.

Você estaria falando de lutas dentro e contra o desenvolvimento?


Eu diria, na realidade, lutas da produção contra o desenvolvimento, lutas
produtivas contra o desenvolvimento capitalista. É preciso começar a distinguir
radicalmente produção e desenvolvimento. Sobre isto, o Manifesto Aceleracio-
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 101

nista [tradução da UniNômade] – que recentemente comentei no site da EuroNô-


made – é muito belo e preciso. É preciso reconquistar um conceito de produção
contra o conceito de desenvolvimento capitalista. E isto vale certamente para
Istambul, onde algumas camadas do trabalho cognitivo estão completamente eu-
ropeizadas, idênticas as que você poderia encontrar em Paris ou Berlim, e que rea-
giram de maneira dura ante a incapacidade das elites de compreender a linguagem
deles. Diversa, no entanto, é a situação em Ancara, onde foram mais relevantes os
elementos políticos ligados à laicidade, porque o aperto fundamentalista islamista
do governo pesou muito.
Trata-se de reivindicações de reconhecimento da comunidade produtiva,
feitas pelos trabalhadores cognitivos, sobre quem atua sobretudo a extração de
valor, da parte do capital. É sobre esse terreno, ambíguo e ambivalente quanto se
queira, mas realíssimo, que se dá uma transformação radical da realidade descrita,
por exemplo, por D. Harvey. É deste ponto de vista que devem ser observadas
também experiências como o Occupy e os Indignados. Que evidentemente se-
jam lutas contra a crise como essa veio se delineando no ocidente: uma crise de
rearranjo global da sociedade, para remodelá-la sobre as necessidades do capital
extrativo. Trata-se, portanto, de um processo de reorganização da metrópole e da
divisão do trabalho, que contempla a destruição do welfare e a construção de no-
vas hierarquias. Por isso, da Espanha à Grécia – e também na Itália, por exemplo,
com a manifestação de 19 de outubro (19-O/2013) – as lutas do welfare todas se
caracterizaram sobre o terreno metropolitano, como uma espécie de sindicalismo
social metropolitano.

Eis aí o movimento dos Indignados e do Occupy: movimentos contra a crise,


nascidos nela e por ela, mas que, além disso, de maneira para alguns sur-
preendente, organizaram o próprio discurso ao redor da reivindicação de
democracia radical, fazendo deste elemento, mais do que de instâncias dire-
tamente socioeconômicas, a cifra mais significativa e de ruptura.
…de acordo com você. Não quero, porém, falando dos movimentos, nos
distanciássemos do discurso especificamente metropolitano. É de qualquer ma-
neira importante que estejam claros os pontos que, daquela passagem política,
daquela experiência de lutas, devam ser reunidos e acolhidos, e aqueles que, ao
contrário, devam ser submetidos à crítica. A horizontalidade total – seja em fase
constituinte, seja numa imaginária constituição futura – que aquele tecido de mo-
bilizações reivindica, me parece um modelo completamente abstrato de estrutura
102 O comum da cooperação social na metrópole

política. Pode muito bem valer na fase de agitação, mas é ilusório quando se busca
verdadeiramente construir e gerir um processo de transformação constitucional.
Penso, em vez disso, num modelo de contrapoder, ou melhor, de con-
trapoderes difusos, que é um modelo mais aberto e capaz de mediar eficaz e efe-
tivamente os modos e as dificuldades de um processo constituinte em relação a
uma horizontalidade que se revela impotente, ignorando a diversidade territorial
e espacial que qualquer movimento político deve, ao invés, assumir e valorizar.
Os Indignados produziram genuínos saltos adiante, quando se reposi-
cionaram no território; a revolta de Gezi Park ganha relevância quando se radica
nos bairros, quando, isto é, cada bairro organiza um contrapoder efetivo e quando
eles se tornam capazes de atacar verticalmente a estrutura de comando. A con-
ferir bem, portanto, essa mesma nova composição metropolitana, para colocar
em questão a pertinência do modelo da horizontalidade total na construção de
projetos duradouros.

O mesmo discurso vale para a experiência estadunidense do Occupy?


Quanto à experiência Occupy, a situação é parcialmente diversa. Trata-se
de um movimento global, que nasce do problema dos despejos, nasce portanto em
torno do tema da dívida. E através do discurso sobre a dívida, chega à Wall Stre-
et. Mas, além disso, sobre o nível da dívida, o Occupy produz pouco, senão em
sua grande capacidade simbólica de uma luta que, enquanto americana, é “vista”
em todo o mundo. Mas, quando medida sobre o terreno da eficácia, foi uma das
experiências mais fracas dos últimos anos. De fato, foi liquidada pelo poder de
maneira muito pesada: de um lado, por meio do discurso do “duplo extremismo”
– Occupy contra Tea Party – e, por outra, com certa inflexão radical das políticas
dos democratas, que absorveram energias do movimento em chave eleitoral, e
que levaram à eleição do prefeito de Blasio. Elemento importante de Occupy se
conserva, apesar disso, no fato de ter emergido como mobilização ligada à mora-
dia, contra o rentismo imobiliário, em torno de um elemento central para qualquer
agenda do sindicalismo metropolitano.

Depois de pincelar os movimentos e lutas mais importantes dos últimos anos,


podemos falar de outro fenômeno  metropolitano, mas que parece mais “es-
púrio”, do ponto de vista político, o tumulto [sommossa]. Da rebelião de Los
Angeles de 1992, até as revoltas londrinas de 2011, passando pelos ocorridos
nas periferias francesas de 2005: novos comportamentos coletivos parecem
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 103

estar radicados nos territórios urbanos, a ponto de definir uma característi-


ca quase objetiva – como mostra o trabalho de “etnografia política do presen-
te”, do seu amigo Alain Bertho. Uma temática a que, em Commonwealth, você
e Hardt dedicavam uma genealogia da rebelião, desde a longa história das
jacqueries, até as revoltas urbanas contemporâneas, definidas como “exercí-
cios de liberdade”, movidos pelo sentimento de indignação, ainda insuficien-
tes mas sem dúvida necessários, a ponto que hoje “jacqueries, lutas de rea-
propriação e revoltas metropolitanas tenham se tornado o inimigo essencial
do biopoder capitalista”.
Trata-se, entretanto, de ocorridos que permaneceram compreendidos segun-
do traços enigmáticos, dificilmente compreensíveis pelas noções mais clássi-
cas, com que o pensamento moderno se habituou a ler a realidade social. Uma
forma de compreensão se dá com a ordem do discurso que atribui a essas ma-
nifestações um caráter de impoliticidade radical. O que acha do discurso da
impoliticidade? E como interpretar os tumultos urbanos contemporâneos?
Trata-se de ocorridos em cuja origem há sempre a morte de um jovem
pelas mãos da polícia. Pode-se dizer que é alguém que morre em forma simbólica
para representar a exclusão. Então, há uma heteronomia dos efeitos da ordem
democrática, da ordem da igualdade formal, que explode. Essas revoltas nascem
essencialmente ante o ato político arquétipo, que é um assassinato injustificado
cometido pelo poder. Por isso seria idiota defini-las como “impolíticas”, porque se
trata de revoltas que nascem de um insulto a um direito fundamental, o direito de
viver. O drama de Antígona seria por acaso impolítico? Acontece uma indignação
política que, a seguir, se irradia pelo tecido metropolitano sempre mais tecnologi-
camente disponível e permeável à difusão de indignações e do tumulto. Trata-se
de lutas que se definem e se organizam através dos novos instrumentos de co-
municação, na combinação oculto/visível que sempre caracterizou as ­jacqueries.
Também elas tinham um conteúdo extremamente preciso: se debatiam contra o
aumento de impostos e as derramas, que empobreciam ainda mais quem não ti-
nha. Este era o conteúdo delas, e é digno de nota como os burgueses pretendiam
que, quando eles falassem de taxas, se tratava de política; quando falassem de
impostos, eis aí o impolítico.
Claramente se falamos de política só fazendo referência à tábua formal
dos direitos e sua tradução por meio da representação parlamentar, então esses
movimentos podem ser tranquilamente definidos como “impolíticos”. Tudo de-
pende de como se pensa a política: se é pensada de maneira marxista, a política é
a capacidade de romper a estrutura do mercado de trabalho e do salário, e a ordem
104 O comum da cooperação social na metrópole

capitalista que os determinam; neste caso, se torna difícil excluir do horizonte


político os fenômenos de insubordinação urbana, que podem, ao contrário, de-
senvolver-se como lutas propriamente sindicais ou políticas no terreno social da
metrópole. Porque atacam à exclusão atravessada pela organização racial do mer-
cado de trabalho, das práticas de salário, ou das operações de baixa redistribuição
e enquadramento da força-trabalho – capital variável. Também a espontaneidade
dessas lutas tem caráter político importante, e de qualquer maneira há sempre uma
espontaneidade apenas inicial, porque depois com a irradiação, a expressão, a
repetição, aparecem sempre elementos de organização. Que mais tarde essas lutas
consigam se desenvolver em estruturas estáveis ou não, este é um problema que
vai além dos limites de nossa conversação.

Em suma, que o discurso da metrópole como fábrica, da metrópole pós-for-


dista, forneça um quadro também para as análises desses fenômenos sociais
e comportamentos coletivos?
O discurso da metrópole produtiva, pós-fordista, é o único quadro para
compreender esses fenômenos até o fundo. Na metrópole contemporânea, o bio-
poder do capital e a biopolítica dos sujeitos se misturam e se enfrentam: não exis-
tem outros lugares em que essa condição seja dada de maneira tão clara. A revolta,
na metrópole contemporânea, surge das violações de um direito elementar – o
direito a viver – e depois se expande, e o faz normalmente, concentrando-se sobre
elementos de opressão mais fortes. Que, frequentemente, têm a ver com a dimen-
são racial e a exclusão e discriminação derivadas. Aí também se insere a exclusão
do consumo: mobs que realizam uma revolta de apropriação de bens, onde a de-
manda de consumo tem determinação de classe e contra o racismo. O componente
racial e de classe se entretecem na demanda apropriadora do consumo: tudo isto
é bastante eficaz para mostrar qual seja o ponto de atrito, a pobreza, a exploração.
Me diverte a execração que os burgueses demonstram ante os jovens que roubam
bens destinados unicamente aos burgueses.

Você introduziu também o tema da raça, que emergiu como chave de leitura
prevalente destes fenômenos metropolitanos. Chave de leitura poliforme e
polissêmica, que foi usada em perspectivas mais diversas, dos discursos secu-
ritários e reacionários àqueles ligados às insurgências pós-coloniais, até todas
as interpretações que foram feitas, a vários títulos, referindo-se à categoria
de “reconhecimento”…
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 105

Sim, certo, o reconhecimento, é uma categoria importante, mas é preciso


estar atento ao tema, que provavelmente vale mais para outras camadas de “exílio
do trabalho organizado”, que para este tipo de revoltas, quando provavelmente a
instância de reconhecimento se realiza sobre terreno religioso. A temática do reco-
nhecimento é sempre portadora de uma ambiguidade, que está ligada ao elemento
de bloqueio ou interiorização da revolta que, em maneira astuta, a burguesia pro-
cura injetar nas “massas multicoloridas”, “multiculturais”, da metrópole. Do nosso
ponto de vista, por outro lado, o discurso da revolta está relacionado a  subjetivida-
des caracterizadas em termos raciais fortes, como acontece no rastro de tumultos
desde os anos 1990, desde pelo menos Los Angeles, até recentemente Londres. E
como acontece ainda hoje no Brasil, onde – vale a pena sublinhar – se reconhecem
juntos na luta trabalhadores cognitivos e jovens das favelas que, depois de séculos
de dominação racial, conquistaram o direito à palavra. Esta ruptura da rigidez do
domínio capitalista, em termos raciais, constitui um evento extraordinário.
Em suma, é evidente que causas e características das revoltas metropo-
litanas podem ser as mais diversas, o caráter distintivo se encontra na resposta
à: “contra o que se rebela?” Ora, quem é estigmatizado do ponto de vista racial,
se rebela contra certa ordem capitalista, quem está excluído da estrutura do mer-
cado de trabalho formal se rebela contra a multiplicação do peso da exploração:
de qualquer forma, esses são excluídos mas não da exploração e da acumulação
capitalista. O grande problema, do ponto de vista político, é então conseguir estar
dentro desses processos e, eventualmente, rompê-los quando se deem puramente
em termos de “reconhecimento” (geralmente identitário e produzindo mecanis-
mos de autorreplicação em separado), para reconhecer melhor do que isso que a
simples diversidade – isto é, a unidade do mando – é imposta a todos.

Você sublinhou que na origem das revoltas urbanas contemporâneas existem


quase sempre comportamentos violentos da polícia, que culminam em assas-
sinato: isto nos leva ao tema da metrópole como espaço de exceção, território
em que a autoridade do estado suspende, ocasionalmente, o direito, os direi-
tos, deixando viger só a força sobre o que o ordenamento se apoia, e que o
garante. Como interpretar a temática e sua relevância no nosso tempo?
Sem dúvida, a tentativa de tornar excepcional a norma da ordem é fre-
quentemente repetida. E no entanto já o fato que seja repetido, mostra que não é
uma constante. A exceção é uma necessidade colocada para determinar o controle,
quando o controle seja precária. Dito isto, o que não se deve nunca esquecer é que,
106 O comum da cooperação social na metrópole

na relação regra/exceção, o elemento decisivo é a regulação estatal, o exercício


do controle da parte do poder soberano. Nesta perspectiva, não se pode confundir
a “exceção” soberana (a ditadura) exercitada em termos constitucionais e as nor-
mas excepcionais decretadas com o fim de manter a ordem pública. Tudo isso nos
leva à memória o acontecido em Gênova, em 2001, mas uma excepcionalidade
daquele gênero me parece (felizmente) sempre mais provável do que a constitu-
cional. Isto para dizer que, para mim, parece muito perigoso identificar uma com
a outra, como amiúde é feito – em maneira pouco razoável e “extremista”. A ideia
de exceção é, para mim, fundamentalmente ligada a momentos muito altos da
luta de classe, e é portanto subordinada também à altura do conflito – não é, por
isso, o que dizem Agamben e outros, em termos sofisticadamente metafísicos,
ou ingenua­mente anarquistas. Não veem porque os patrões devem reconhecer e
designar o próprio poder como excepcional, num momento em que, senão todas,
quase todas as coisas vão bem para eles.
É preciso retomar a relação de classe como relação de guerra, para com-
preender quando e como a exceção possa ser instaurada e transformar-se de pro-
visão de ordem pública à norma constitucional. A ciência política dos grandes
historiadores latinos, dos estadistas ciceronianos, era muito atenta a esta junção:
Tácito trabalhava para mostrar que a exceção está ligada a momentos de conflito
que são, de outra forma, irresolúveis. A exceção emerge quando acontece um
estado de guerra, a menos de querer sustentar que somos em um estado perene de
guerra – o que me pareceria muito estranho. A violência da exceção, diferente da
coberta, muito mais eficaz da exercida cotidianamente, explode quando o poder
tem, de qualquer maneira, a necessidade e a urgência.

No seu discurso, o tema da exceção aparece então ligado à luta de classe. Um


conflito em que, como anotava já Walter Benjamin no princípio do século
passado, as instituições do movimento operário ocidental buscavam excluir
tendencialmente o recurso à violência, deixando-a apenas ameaçada, “repre-
sentada” na forma da greve. Interrogando fenômenos do presente, Michel
Wieviorka, ao contrário, falou numa “violência sem conflito”: parece a você
uma categoria apropriada a nosso tempo?
Penso contrariamente que há conflito: que é a crise senão um conflito
levado ao extremo, um conflito que continua desde a primeira crise pós-moderna
em 1973? Quarenta anos de crise, que talvez esteja terminando com vantagem
para o capital, com a fixação de um redesenho radical das formas de acumulação.
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 107

E todavia: diante de uma recomposição de longa duração de um “capitalismo da


acumulação” – uma nova acumulação originária completamente independente de
qualquer medida ou relação com o salário e o capital variável – se apresenta não
tanto uma crise dada e irresolúvel,  quanto uma resistência implacável, socialmen-
te difusa, sobre o que repousa, além disso, o excedente produtivo do proletariado
cognitivo. O conflito persiste.
Nesta perspectiva, a categoria “violência sem conflito” me parece estra-
nha. É uma das fórmulas habituais com que se elimina o conflito em nome da vio-
lência – que ressoa similarmente as concepções da oniexcepcionalidade da norma
estatal. O conflito é sempre também sem violência. Depois chega a violência: por
quê? Olhemos à dita violência “extremista”. O que foi? Uma violência cujo mo-
vimento foi constrito porque ninguém a escutava, e por isso era uma força, mas a
sua voz se tornou constitucionalmente inaudível.
O grande calvário das pessoas que fizeram os anos 1970 foi, mais do que
ter exercido a violência, não ter conseguido exercer um excedente de protesto
suficiente para ser escutadas, para tornarem-se audíveis. Um excedente que era
objetivo: nas lutas das fábricas, sociais, numa situação de enorme efervescência
que, porém, quando se tornou inaudível, ao contrário de reforçar-se no terreno
social, subitamente teve um caminho militarista e foi, por conseguinte, militar-
mente reprimida. Assim, há conflito – nisso ocorre de trabalhar e desenvolver um
excedente que bloqueie a exceção.

Estamos agora longe do tema inicial, e terminamos na problemática em que


acabamos aportando: em O Trabalho de Dioniso, você propunha uma “crí-
tica prática da violência”, para despedaçar as análises dela sobre o terreno
da especulação abstrata, para calcá-la sobre suas manifestações materiais.
Concluímos então o nosso bate-papo com uma breve reflexão sobre o círculo
violência/medo, que parece cifra fundamental de muitas representações da
cidade contemporânea.
Não se deve mais operar uma sobredeterminação da violência como tal.
Sobretudo, dar um soco num guarda não é a mesma coisa que um assassinato e,
ao contrário, qualquer tipo de delito, de violência, vem qualificado como deli-
to contra a soberania. Isto é absurdo, porque põe uma homologia entre um ato
de violência qualquer e um assassinato: o mecanismo da soberania aplaina tudo,
sobredeterminando os conflitos sociais. Em segundo lugar, sempre há violência,
não é um elemento para ser reprimido, mas para ser organizado. A violência não
108 O comum da cooperação social na metrópole

existe como dado natural, mas enquanto elemento ligado à estrutura do sistema,
de um sistema que exerce uma violência considerada legítima. Então o problema
não é a violência, mas a legitimidade da violência, e qualquer tipo de organização
subversiva se coloca enquanto tal.
Ora, o que é a legitimidade? É a relação que existe entre o exercício do
comando e o consenso a respeito de suas finalidades, em nome do que o comando
é exercido. Quando essa relação é determinada simplesmente pelas exigências
do desenvolvimento capitalista, existem margens particularmente amplas onde o
exercício da legitimidade não funciona, falta ou é torto. De fato, a legitimidade
imposta nestas condições, é igual à violência. A reação a uma ordem capitalista,
imposta em nome do estado, não pode ser senão uma resposta violenta e legítima,
enquanto se subtrai de uma violência suja – a violência do ordenamento legal que
encobre o poder do capital. Não é violência, é contraviolência, é contrapoder, uma
contraexpressão de legitimidade. São legítimos todos os comportamentos relacio-
nados à resistência diante de uma ordem injusta. Mas quem determina o fato que
uma ordem seja justa ou não? De um lado, a consciência de cada um dos sujeitos,
alterada historicamente dentro do desenvolvimento da relação social capitalista.
De outro lado, o comportamento das funções de comando que temos defronte. O
problema de definir a legitimidade nasce desta relação, e deste ponto de vista a
violência define o poder mas também o seu contrário, também a potência biopo-
lítica dos sujeitos.
Não há, portanto, um modo objetivo de assegurar a legitimidade, também
porque ela é sempre e somente uma relação e um meio. Por isso, devem ser obser­
vados com olhar crítico também autores, como W. Benjamin, que quando estão
investidos da violência do regime nazista, não sabendo explica-la, assumem-na
do ponto de vista teológico, renunciando frequentemente a fazer – mas este, em
particular, não é o caso de Benjamin – autocrítica acerca da política comunista
dos anos 1920. A ideia de irracionalidade da violência é fundamental na cultura
burguesa, porque não é nunca exitosa em exercer um comando democrático, que
não tivesse a forma da dominação capitalista. Enquanto a democracia poderia ser
o contrário da dominação, quando os direitos do homem fossem reconhecidos
não formalmente (= regras do mercado), mas materialmente (= instituições do
comum). Assim se pode determinar uma exaltação do consenso, num quadro em
que a violência se pode dar somente quando é consentida, e não por mecanismos
de representação, mas de participação efetiva.
Queremos nos mover na direção da eliminação da violência? O modelo
da democracia absoluta de Spinoza, por exemplo, é um modelo em que um mí-
Entrevista a Toni Negri por Federico Tomasello 109

nimo de violência será possível, porque implica o consenso efetivo de todos no


terreno da igualdade, determinando cada percurso social. Mas também neste caso,
visto que os homens não são sempre bons, querem contrapoderes efetivos que
funcionem para garantir o processo.
O medo, por último, é um elemento fundamental na criação de uma vio-
lência sistêmica. E é o conceito (a paixão) essencial a respeito do que se constrói
a eminência da soberania. P medo é sempre medo do homem no confronto com
outro homem, e é portanto a base da soberania como resposta ao medo do homem
lobo do homem, na sociedade individualista. Que tudo isto fosse pouco convin-
cente, que fosse um instrumento essencial de uma única ordem civil possível –
individualista e burguesa – é evidente. Vale, no entanto, observador que ali, no
próprio cenário hobbesiano, o medo era de qualquer maneira elemento construti-
vo, que por meio da alienação dos direitos se podia organizar o poder soberano. E
depois seguia a ordem. Agora, em vez de o medo construir ordem, ele organiza a
precariedade, que reproduz o próprio medo, o medo é o grande continente de cada
dispositivo de nossa vida. Desta forma, o desejo não vai mais do medo à seguran-
ça, mas do medo ao medo, da incerteza à incerteza. O medo não produz a sobera-
nia, mas distende a dominação. Reproduz a dominação, no sentido que cada um
deve ter medo do outro, à noite não pode sair de casa, as mulheres devem estar
atentas a estupradores que estão em cada esquina, e a televisão mostra somente
notícias criminais e policialescas etc. O medo é, nesse sentido, um elemento cen-
tral para a reorganização das formas sociais capitalistas, e encarna provavelmente
o ponto mais escuro da crise da democracia neoliberal: a ponto de, hoje, a sereni-
dade poder tranquilamente ser considerada uma atitude revolucionária.

Toni Negri é filósofo e militante, autor de dezenas de livros sobre teoria política
e as lutas sociais contemporâneas, muitos traduzidos ao português, como Poder constituinte,
A força de Jó, Alma Vênus Kairós, e em coautoria com Michael Hardt, os canônicos Império
e Multidão.

Entrevistador:
Federico Tomasello é PhD em Ciências Políticas, pesquisador precário e participa
do coletivo EuroNômade.

Tradutor:
Bruno Cava é pesquisador associado à Universidade Nômade, mestre em Filosofia
do Direito pela UERJ, autor de A multidão foi ao deserto (AnnaBlume, 2013), bloga no qua-
dradodosloucos.com.br
ECONOMIA E SUBJETIVIDADE
LUGAR COMUM Nº42, pp. 113- 120

Sobre a possibilidade de acelerar o


capitalismo para gerar seu colapso

Entrevista a Daniel Urbina e Javier Luna,


por Alonso Almenara33

Introdução (por Redação Mulera/Alonso Almenara)


“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. A
famosa frase de Fredric Jameson, esgrimida frequentemente por Slavoj Zizek e
seus acólitos, não deixou de ressoar funestamente no imaginário progressista do
nosso tempo, porque dá conta de uma sensação geral de estancamento, no que
concerne à elaboração teórica de possíveis futuros alternativos ao sistema capi-
talista. Com efeito, a superação do capitalismo parece cada vez mais fantasiosa,
inclusive apesar do contexto de crise econômica global. Mas e se para gerar uma
mudança radical não fosse necessário deter a máquina?
Marx já havia assinalado que o capitalismo carrega em seu seio os vetores
de sua própria dissolução. O próximo passo é perceber que, já que se torna cada
vez mais claro que não se pode deter o sistema, ainda resta aberta a possibilidade
de soltar as amarras e acelerá-lo a fim de provocar seu colapso. Esta tese, quase
de ficção científica, tem sido ressuscitada em diversas instâncias, particularmente
na França sob o influxo dos eventos de Maio de 68, e na Inglaterra nos anos 1990,
impulsionada pela figura do notável filósofo niilista Nick Land.
Hoje, contra todas as previsões, a mesma hipótese parece regressar com
força, especialmente graças ao trabalho de Alex Williams e Nick Srnicek, dois
jovens doutorandos da London School of Economics, que publicaram em maio
passado seu notável Manifesto para uma política aceleracionista. A ideia de uma
revolução pelo excesso ao mesmo tempo me atrai e me assombra. Intrigado, de-
cidi contactar Javier Urbina e Daniel Luna, dois intelectuais peruanos que tem
trabalhado sobre o tema, de maneira vigorosa, e que vêm pensando em publicar
em breve um compêndio de textos fundamentais do pensamento aceleracionista,
inédito em espanhol.
Ambos aceitaram o convite. Inicialmente, a ideia era entrevistá-los por
email, mas rapidamente a dinâmica se transformou na elaboração de um texto a

33 Tradução por Aukai Leisner.


114 Sobre a possibilidade de acelerar o capitalismo para gerar seu colapso

dois, o que não deixa de me parecer perfeitamente afinado ao tema, uma vez que
pode ser visto como uma alusão à dinâmica estabelecida entre o filósofo Gilles
Deleuze e o psicanalista Félix Guattari, cujos textos O anti-Édipo e Mil platôs são
justamente duas das principais fontes desta incipiente tradição filosófica.

Entrevista:
O que é o aceleracionismo?
As origens filosóficas do aceleracionismo são essencialmente francesas
e estão muito bem sintetizadas nas primeiras páginas de The persistence of the
negative, livro de Benjamin Noys. Logo após o Maio de 68, muitos autores e
ativistas buscaram respostas na invocação a disciplinas leninistas ou maoistas.
No entanto, alguns outros teóricos embarcaram numa busca quase anarquista de
liberação de toda a forma de disciplina ou organização, tanto à direita como à
esquerda. Os autores mais representativos desta tendência são Deleuze, Guattari,
Baudrillard e Lyotard, fundamentalmente em seus trabalhos da década de 1970.
Deixando de lado suas importantes diferenças, o que unifica todos esses teóricos
é, para Noys, seguir uma versão da já clássica máxima marxista que conclama
“aprofundar as contradições”. A ideia é que é certo que o capitalismo gere suas
próprias formas de dissolução, então ele deve ser radicalizado até sua autodestrui-
ção. E “quanto pior, melhor”. Esta tendência é o que se pode chamar propriamente
de “aceleracionismo”.

Qual é o giro que dá o aceleracionismo depois de Nick Land?


O que se enfatiza aqui é que o capitalismo pode ser entendido como mo-
tor de dissolução do que poderíamos chamar, de modo simplificado, de “o tradi-
cional”, em que predominam relações de dominação e imposição essencialistas
que acabam por engendrar um controle onipresente. O problema para o acele-
racionista, neste ponto, não é que o capitalismo atual não gere dissolução, mas
que não o faz o bastante. Digamos, um pouco grosseiramente, que não bastam
eliminar os valores feudais… a própria civilização burguesa deve ser erradicada
também. Mas o que acaba acontecendo, quando se segue este tipo de diagnóstico,
é que a agência política se torna cada vez menos relevante dentro de um processo
capitalista que é progressivamente mais macro e decisório (poderíamos dizer que
agência se dissolve na estrutura… ou na própria agência do capital global).
Desta herança, provém o aceleracionismo de Nick Land, a quem muitos
consideram, por seu seu niilismo virulento, o Nietzsche de nossa época. Land,
Entrevista a Daniel Urbina e Javier Luna, por Alonso Almenara 115

filósofo inglês agora radicado em Shangai, foi no início fortemente influenciado


pelo Anti-édipo de Deleuze e Guattari. Na prática, o aceleracionismo landiano
promove medidas libertárias de liberalização e mercantilização total. Então, é
uma espécie de defesa do neoliberalismo, embora devido a razões profundamente
niilistas que visam a radicalizá-lo, inclusive com o propósito de superar o ser
humano, para que advenha um Techno-sapiens (uma técnico-racionalidade avan-
çada, com uma arquitetura cognitiva mais avançada que a humana) e não um
“super-homem”. No entanto, autores como Ray Brassier têm mostrado os pro-
blemas ontológicos e os riscos políticos que este tipo de projeto carrega consigo,
sobretudo em suas formulações da década de 1990.
Em sua formulação mais contemporânea, ao se afastar um pouco da me-
tafísica deleuziana da produção desejante, Land pensa o capitalismo como uma
singularidade virtual ou como uma indivíduo real. Quer dizer, o capitalismo não
é uma mera dinâmica social mas opera como uma entidade. Trata-se de uma enti-
dade maquínica expansiva, cada vez mais eficiente, resiliente, e altamente adap-
tativa. Os humanos fazem parte dessa máquina e se servem, em maior ou menor
medida, da informação vertida pela retroalimentação cibernética de sua produção,
mas as duas (a raça humana e a raça capitalista) são entidades diferentes. Pode-
ríamos dizer que, deste ponto de vista, a relação entre o capitalismo e os seres
humanos é análoga à dos neurônios e nosso “eu”: se sem os neurônios dificilmen-
te seria possível uma experiência de um fenômeno em que me reconheço como
sendo “eu”, isto não nos leva à conclusão de que os neurônio fazem ou são o “eu”;
ambos tem existências diferenciadas e atributos particulares, ainda que sejam in-
terdependentes em uma modalidade de relação não-linear.
Da perspectiva de Land, tanto a política econômica humana quanto seus
processos de decisão moral comprometem o processo expansivo da singularidade
capitalista e desaceleram o processo produtivo otimizador de suas propriedades
emergentes, especialmente, a inteligência. Ao contrário, quando o homem libera
o capital e deixar de intervir em seu controle, acelera seus sistemas cibernéticos
de alta frequência em termos de tecnologia e comércio e otimiza sua inteligên-
cia. Vale esclarecer que para Land a inteligência não é uma coisa psicológica
mas um sistema cibernético de retroalimentação acelerada e altamente adaptativa.
Quantos mais curto o espiral de retroalimentação, melhor (mais inteligentemente)
funciona o sistema.
116 Sobre a possibilidade de acelerar o capitalismo para gerar seu colapso

E como fica esse cenário agora que se começou a falar de aceleracionismo de


esquerda?
Para os aceleracionistas de esquerda, cujos principais representantes são
Alex Williams e Nick Srnicek, a raiz fundamental do aceleracionismo é a moderni-
dade científica e filosófica, fundamentalmente a ilustração e o espírito marxista que
advoga a emancipação da humanidade em seu conjunto. O ponto é retomar a im-
portância da ciência e do conhecimento para promover uma autodeterminação ge-
nuinamente autônoma e coletiva. No entanto, não somente se pensa que a ciência é
a causa da liberdade, mas que esta também reforça aquela em um uma circularidade
virtuosa. É somente liberando o desenvolvimento da ciência dos interesses do capi-
tal que a real liberação pode advir (o que antes era chamado “o desenvolvimento das
forças produtivas”). Para eles, se queremos transformações radicais na humanidade
e na sociedade, pensemos nós na conquista espacial ou em novas formas de orga-
nização social que impliquem que trabalhemos menos e desfrutemos mais, temos
que superar o neoliberalismo. O que o aceleracionista de esquerda traz novamente
ao debate é que o capitalismo, em sua presente fase neoliberal, não somente gera
injustiça, miséria, exploração etc., mas também freia o progresso.

Quais seriam as principais críticas que cada concepção de aceleracionismo


teria para a outra?
Para o aceleracionista landiano, o aceleracionismo de esquerda é mais
uma teologia política que não reconhece que a esquerda é um motor de dissolu-
ção, devido a suas exigências de centralização, planificação, Estado, partido, e
mesmo com o culto à personalidade e o nacionalismo (é territorializante). Rea-
lizar os ideais de esquerda acaba em uma construção e reconstrução de sistemas
que apelam a elementos tradicionais, além de serem opressivos e obstaculizarem
o desenvolvimento científico e tecnológico (que para sempre está ligado ao livre
mercado), gerando pobreza e morte. Em poucas palavras, o fracasso empírico do
socialismo realmente existente é a refutação histórica da ideia comunista.
Por sua vez, o aceleracionismo de esquerda considera que seu antagonista
mantém elementos tradicionais em sua versão neoliberal (em sua origem, valores
vitorianos) e que, devido ao fato de estar subordinado ao capital, nada é possível a
longo prazo, como a exploração espacial e a emancipação da humanidade por via
da tecnologia, que já mencionamos. Na melhor das hipóteses, o que se pode fazer
é a cada ano adquirir celulares mais bonitos e com telas maiores (um fetichismo
dos gadgets), porém sem uma mudança qualitativa dramática.
Entrevista a Daniel Urbina e Javier Luna, por Alonso Almenara 117

O argumento pode ser verdadeiro, mas é analisado com um olhar de ex-


tremo curto prazo, surpreendente em pessoas que dizem promover o aceleracio-
nismo (que supõe um projeto de baixíssima preferência temporal e, portanto, alta
visão geracional e para o futuro). É certo que no prazo de 20 anos, os gadgets
apareceram a cada poucos meses. No entanto, em intervalos grandes, pode-se
também identificar um inegável progresso tecnológico que talvez tenha sido pos-
sível graças à liberação do mercado e não a seu controle e inibição. O correto aqui
seria avaliar seriamente o progresso científico e tecnológico desde os primórdios
da modernização ocidental e comparar rigorosamente em perspectiva se realmen-
te se trata de pura “mediocridade”.
Para além de seus interesses e projetos divergentes, um mais niilista-pós-
-antrópico e outro mais ilustrado e humanista no sentido moderno, o certo é que
em ambos os casos se questiona a abordagem da teoria crítica que não leva em
consideração seriamente o estudo da economia, da produção, da ciência e da tec-
nologia. Nada relevante surgirá, para o aceleracionismo, de uma pura considera-
ção simbólica, textual ou linguística. Nesse sentido, o aceleracionismo, tanto em
Land como em Williams e Srnicek, considera que a pura exegese textual muitas
vezes presente no “radicalismo chic”, não adentra no que constitui uma discussão
relevante sobre o futuro. E por mais que se reclamem materialistas, na prática não
são mais que idealistas simbólicos. Diante dessa situação, que seja o futuro o que
ambos os tipos de aceleracionismo pregam, tanto na concepção de Land via uma
espécie de tecnomaterialismo pós-humanista cyberpunk, como do lado esquerda
de Williams e Srnicek, através de uma espécie de socialização coletiva, que libe-
re, por meio da ciência, o ser humano de toda situação de dominação natural ou
social.

Qual é a posição de vocês nesse debate?


Não cremos se tratar de um debate. E pensamos que pode ser equivocado
e reducionista contrapor o aceleracionismo de Land ao aceleracionismo de es-
querda como se fossem duas caras da mesma moeda. Na verdade, nos parece que
a concepção landiana pensa a aceleração como um processo ontológico, enquanto
o aceleracionismo de esquerda tem uma formulação mais similar à de um progra-
ma político. O aceleracionismo como tal seria a vertente que começa com os filó-
sofos franceses marxistas que mencionamos e chega até Nick Land: a aceleração
entendida como a otimização da inteligência da singularidade capitalista através
da intensificação da atividade comercial e tecnoprodutiva por si, catalisando por
118 Sobre a possibilidade de acelerar o capitalismo para gerar seu colapso

sua vez o progresso tecnológico e econômico do homo sapiens, assim como a


geração e consolidação de sua civilização (a ideia de civilização aqui seria mais
de tipo anarcocapitalista: propriedade privada, liberdade individual, baixa prefe-
rência temporal, ampla visão a longo prazo etc.).
O que deve ficar claro é que, para o aceleracionismo, o que está em ques-
tão é otimizar a experiência da máquina capitalista. Se o processo civilizatório
humano é uma consequência positiva de tal intensificação e liberação da singu-
laridade capitalista, sua produção é um mero efeito secundário do fortalecimento
do “despotismo do capital” (expressão de Jacques Camatte, mas pertinente ao
diagnóstico). Poderíamos dizer inclusive que é eticamente válido falar da submis-
são total às condições do capital, porque assim o ser humano faria duas coisas de
uma vez: 1) desenvolveria civilização e progresso tecnológico e 2) otimizaria a
inteligência até que não seja mais necessária sua instanciação biológica (o corpo
humano). Entretanto, de certo modo Land reconhece que nada disso jamais pode
ser aceito se não se toma como axiomática a “destruição criativa” schumpeteriana
e se aceita que para que a espécie humana como espécie possa ganhar, há sempre
vários que terão que perder (esta também seria uma das linhas teóricas que um
aceleracionista poderia utilizar para debater o tema das desigualdades sociais, a
pobreza, e as crises econômicas). É a única maneira de diminuir nossa preferên-
cia temporal. O fato de pensarmos ser esse o aceleracionismo propriamente dito
obviamente não desautoriza o projeto de Williams e Srnicek. Simplesmente ques-
tiona que se inscreva na mesma tendência. Poderia ser pensado talvez como uma
hiper ilustração marxiano-prometeica, mas não é tão claro para nós que conserve
os pontos centrais da tendência aceleracionista.

O que dizer, desde a perspectiva aceleracionista, sobre o Peru?


Sobre o Peru, em sentido macro, para ambos os tipos de aceleracionismo
o que façamos ou deixemos de fazer é irrelevante devido a nossa importância
marginal na economia global e no sistema de seguridade internacional (não temos
realmente voz e voto nesse deserto). Se se pensar em um nível micro, mesmo
sendo conscientes de sua iminente irrelevância (talvez ao modo de um contraditó-
rio imperativo ético da agência individual), poderíamos pensar que o imperativo
aceleracionista landiano seria a promoção da mercantilização na sociedade, dis-
solvendo todo tipo de elemento tradicional em prol de uma sociedade o mais tec-
nocomercialista possível. Seria algo como um neoliberalismo, mas ateu, niilista e
o mais liberador possível (“um neoliberalismo com face niilista”).
Entrevista a Daniel Urbina e Javier Luna, por Alonso Almenara 119

No caso da esquerda, o que se busca é também um desenvolvimento pro-


dutivo e tecnológico, mas com vistas a beneficiar a sociedade. Isso implicaria que
haja um maior empoderamento e liberdade dos indivíduos. O problema é que o
aceleracionismo de esquerda a nível local é impraticável, porque exige o elemento
global do marxismo clássico (“não há comunismo num só país”). E o aumento
dos benéficos sociais para os cidadãos só é viável com um aumento significativo
da produção. Pode-se distinguir entre o aumento da produção e o caráter global
da superação do neoliberalismo, mas neste caso as duas coisas estão intimamente
vinculadas, devido à importância que se dá aos problemas globais (principalmen-
te demográficos e ecológicos). O outro seria cair no assistencialismo, populismo
e medidas neokeynesianas não sustentáveis a longo prazo. Ou pior, ecologismos
primitivistas que são tudo menos realistas e viáveis (tudo isso descreve sem dúvi-
da o espectro de posições políticas de nossa esquerda latino-americana).
Em todo caso, o que ambos fazem ao pensar no futuro é introduzir a pos-
sibilidade da inteligência artificial, com a diferença de que no caso de Williams
e Srnicek ela parece subordinada aos interesses humanos. No caso de Land, a
História parece um processo de intensificação, em que em certo ponto se produ-
ziu a singularidade tecnocapitalista e a humanidade se tornou progressivamente
irrelevante. Se queremos usar a imagem marxista clássica, para a esquerda a ques-
tão é produzir “proletários tecnológicos”, que sirvam aos seres humanos. Para a
visão landiana, o que se busca é a superação da humanidade por meio dessa nova
inteligência evolutiva e ciberneticamente superior. No entanto, há que entender
que esta posição não defende um projeto irracional de obsolescência humana ou
um hedonismo niilista superficial. Se trataria na verdade de um projeto de inten-
sificação do produto evolutivo mais extraordinário já criado (até onde sabemos
hoje) no universo: a inteligência. A inteligência deve ser preservada e fortalecida
a todo custo porque sua escassez, ao parecer cosmicamente absoluta, a torna o
bem mais precioso do universo (esta é um das possíveis consequências derivadas
do paradoxo de Fermi). Então, se a inteligência é o que há de mais escasso no
universo, o fundamento e o valor de sua existência é um tema econômico, mais
que ético ou político (talvez pudesse haver um acordo com a afirmação de Ray
Brassier segundo a qual o pensamento tem interesses que não coincidem com os
dos seres viventes).
Nesse sentido preciso, ninguém quer eliminar nada apenas por fazê-lo.
A única coisa que se deseja é preservar ou intensificar a inteligência, ignoran-
do qualquer consideração sobre suas instanciações presentes (por exemplo, o ser
humano). Também seguindo esta linha, não estaria correto afirmar que o atual
120 Sobre a possibilidade de acelerar o capitalismo para gerar seu colapso

aceleracionismo landiano é niilista e virulento. É um projeto plenamente otimista


e afirmativo, mas absolutamente inumano. Um ponto importante a assinalar aqui
é o tema dos recursos para a aceleração do capital tal como a defende Land. Se
realmente se trata de acelerar a máquina a níveis cada vez mais extremos de pro-
dução e consumo, cedo ou tarde isso não terminaria por destruir a Terra? Não nos
levaria a uma catástrofe ecológica mundial? A resposta a isto é evidentemente
afirmativa, mas também deve considerar-se que as barreiras próprias da consti-
tuição fisiológica e cognitiva do ser humano (ou de outros seres vivos) não são
barreiras ao capital (já que se trata de entes diferentes). O processo expansivo do
capital não teria por que circunscrever-se a limites planetários. Frente à escassez
de recursos terrestres, a indústria deverá necessariamente colonizar o espaço, mi-
nar primeiro a totalidade do centro da Terra, e logo o resto dos planetas, incluindo
o Sol (sua energia é demasiado abundante e valiosa para desperdiçá-la). Se pen-
samos em uma inteligência completamente instanciada em outros suportes mate-
riais que não os biológicos (que são tão frágeis frente às condições gravitacionais,
às enormes distâncias espaciais e ao passar do tempo) não é difícil pensar em uma
possibilidade de colonização espacial. Temas como esses foram abordados por
Krafft Ehricke em O imperativo extraterrestre e o próprio Land em seu texto Lure
of the void.
Para além dessas especulações sobre o futuro, que se avizinham à ficção
científica, é interessante contar hoje com abordagens que vejam os problemas so-
ciais e econômicos em perspectiva global, de mãos dadas com disciplinas atuais
e questionando lugares comuns teóricos e empíricos. Mesmo assim, se trata de
um debate que não produziu mais do que manifestos ou boas intenções, sobretu-
do no caso dos aceleracionistas progressistas. De modo que ainda é muito cedo
para pronunciar-se sobre os fracassos ou sucessos que tais abordagens possam
alcançar.

Daniel Luna é filósofo e professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru


(PUCP). Escreve em Vacío.

Javier Urbina é psicólogo com formação psicanalítica e associado à Nova Escola


Lacaniana de Lima. Escreve em Critical Hit.

Tradutor:
Aukai Leisner é estudante de Graduação em Direito na UFPR e colabora com tra-
duções para a Uninôamde.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 121- 129

O trabalho da abstração: sete teses


sobre marxismo e aceleracionismo34

Matteo Pasquinelli

Tese 1. O capitalismo é um objeto de alta abstração; o comum é uma força


de abstração maior.
A noção marxiana de trabalho abstrato identificou o mecanismo profundo
do capitalismo, isto é, a transformação do trabalho em equivalente geral. Mais
adiante, Sohn-Rethel (1978) enxergou a relação estreita entre a abstração da lin-
guagem, a abstração do mercadoria e a abstração do dinheiro. Na introdução dos
Grundrisse, Marx (1867) explica a abstração como a metodologia que aparecerá
10 anos mais tarde no Capital (1867). Em Marx, o concreto é um resultado, o
produto do processo de abstração: a realidade capitalista e, especificamente, a re-
alidade revolucionária, é uma invenção: “O concreto é concreto porque concentra
muitas determinações, daí a unidade do diverso. Ele aparece no processo do pen-
samento, portanto, como um processo de concentração, como um resultado, não
como ponto de partida, mesmo que seja o ponto de partida na realidade e, portan-
to, também o ponto de partida da observação e concepção” (MARX, 1857: 101).
A abstração é ao mesmo tempo a tendência do capital e o método do
marxismo. Então o marxismo autonomista tomou posse da abstração e “bordou-a
de novo no macacão do operário”: a abstração como o movimento do capital, mas
também como o movimento de resistência a ele. Negri (1979: 66) particularmente
colocou a abstração no centro do método da tendência antagonista, como um pro-
cesso de conhecimento coletivo: “o processo de determinação abstrata está dado
inteiramente nessa iluminação proletária coletiva: é portanto um elemento de crí-
tica e uma forma de luta”. A idéia do comum nasceu como um projeto epistêmico.

Tese 2. O capitalismo evoluiu em direção a abstrações monetárias


e tecnológicas (técnicas de financeirização e de governança por meio
de algoritmos).
O capitalismo contemporâneo evoluiu segundo dois principais vetores
de abstração: abstração monetária (financeirização) e abstração tecnológica (os

34 Tradução: Aukai Leisner.


122 O trabalho da abstração

algoritmos da sociedade da metainformação). Colocando em termos do diagrama


da composição orgânica do capital (MARX, 1867: 762), isso significa: a composi-
ção tecnológica evoluiu em direção à abstração algorítmica das redes (governança
da informação), enquanto a composição de valor evoluiu em direção à abstração
monetária dos títulos derivativos e créditos futuros (governança da dívida). “As
finanças, como o dinheiro em geral, expressam o valor do trabalho e do valor
produzido pelo trabalho, mas por meio de formas altamente abstratas. A espe-
cificidade das finanças, em alguns aspectos, é que ela visa a representar o valor
futuro do trabalho e sua produtividade futura.” (HARDT In: MATARAZZI, 2008:
9). O comércio algorítmico ou algonegócio [algotrading] é um bom exemplo da
evolução conjunta dessas duas linhagens maquínicas e uma boa medida do estado
de desespero dos capitais de investimento.
De outro ponto de vista, baseando-se nas novas formas de trabalho ciber-
nético, Alquati (1963) tentou combinar essa evolução paralela na noção de infor-
mação valorizante (misturando as noções de informação cibernética e de valor,
da teoria marxina). Alquati descreveu uma fábrica cibernética que, como as redes
digitais hoje em dia, era capaz de absorver o conhecimento humano e torná-lo
inteligência maquínica e valor maquínico (alimentando dessa maneira o capital
fixo). O capitalismo passou a mostrar então o perfil de uma inteligência global
autônoma: “A cibernética recompõe globalmente e organicamente as funções do
trabalhador genérico, que são pulverizadas em micro-decisões individuais: o Bit
conecta o trabalhador atomizado às figuras do Plano econômico”. (ALQUATI,
1963 : 134). Na fábrica de Alquati, já temos o embrião de uma máquina abstrata,
uma concreção do capital que não é mais feita de aço.

Tese 3. A abstrações é a forma de ambos o capitalismo cognitivo e o biopoder.


A noção de normatividade biopolítica foi introduzida por Foucault em
seu curso de 1975, Os anormais. Através da modernidade, Foucault enxergou
uma forma de poder que não era exercida por meio de técnicas de repressão da
sexualidade, mas por meio de produção positiva de conhecimento sobre a sexuali-
dade. Foucault (1975 : 50) distinguiu desta maneira os domínios da Lei e da Nor-
ma: “A função da Norma não é excluir e rejeitar. Ao contrário, está sempre ligada
a uma técnica positiva de intervenção e transformação, a uma espécie de projeto
normativo. O que o século XIX estabeleceu através da disciplina de normaliza-
ção… não parece ser um poder ligado à ignorância, mas um poder que funciona
somente graças à formação de um conhecimento”.
Matteo Pasquinelli 123

O fato curioso é que a noção foucaultiana de poder normativo foi inspirada


por seu mentor Canguilhem (1966), que emprestou essa idéia do neurologista Kurt
Goldstein (1934), aplicando-a às ciências sociais. Em Goldstein, o poder normativo
é a habilidade do cérebro para produzir novas normas a fim de se adptar ao meio ou
responder a traumas. De maneira similar à Gestaltheorie, Goldstein acreditava que
o poder normativo do organismo era baseado no poder da abstração.
Foucault (1945) iniciou seu primeiro livro com uma crítica de Goldstein,
transformando mais tarde o poder de abstração numa apropriada epistemologia
do poder. A biopolítica nasceu como noopolítica – e o problema essencial que
acossa a política da vida é ainda a política da abstração. Ambos os paradigmas do
biopoder e o do capitalismo cognitivo devem ser descritos como a exploração e
alienação exercidas pelo poder de abstração.

Tese 4. A abstração é a espinha dorsal da percepção do Mundo (e do Eu).


A abstração é a forma da sensação, e portanto do corpo e mundo per-
cebidos. Já há mais de um século, a Teoria da Gestalt mostrou que a percepção
visual de uma figura é baseada na capacidade holística do cérebro de generalizar
pontos e linhas abstratas, isto é, num poder coletivo do organismo. “A percepção
e a consciência perceptual dependem de capacidades para ação e o pensamento;
a percepção é um tipo de atividade que demanda pensamento”, lembra a mais
recente escola do performativismo (NOE, 2004: vii).
A percepção é sempre uma construção hipotética (ou abdução, como
diria Pierce). Da filosofia budista a Spinoza à neurociência contemporânea (MA-
TURANA; VARELA 1980), a mente emerge como enxame – uma cooperação
coletiva e uma abstração de singularidades (átomos, células, neurônios, etc) pro-
duzindo o efeito túnel do corpo e do Eu (METZINGER, 2009). A neuroplasti-
cidade é a capacidade da mente de se reorganizar depois de um prejuízo, mas é
também sua estrita disfuncionalidade e abertura para o caos. Se o enxame atô-
mico se recompõe de maneira diferente, novas formas de Gestalt surgem, como
por exemplo alucinações, sonhos, imaginação e invenção. A abstração deve ser
considerada como um poder coletivo da mente, abstrato e lógico, que precede
também a linguagem, a matemática e a ciência em geral: é o poder de perceber
em detalhe e reconhecer uma emoção, de projetar o Eu além de seus limites
culturais, de mudar os hábitos para se recuperar de um trauma, ou de inventar
uma nova norma para se adptar ao ambiente (GOLDSTEIN, 1984). É também,
é claro, o poder de manipular ferramentas, máquinas e informações. A abstração
deita raízes profundas no tempo e na vida. Também Deleuze e Guattari (1980:
124 O trabalho da abstração

496) lembram que o gesto artístico primário dos humanos foi uma linha abstrata:
a arte primitiva começa com o abstrato (WORRINGER, 1908).

Tese 5. Eros é a cruel abstração do Eu.


Não há oposição entre vida e saber como lembra vigorosamente Cangui-
lhem (1965: xvii): “Nós aceitamos muito facilmente que há um conflito funda-
mental entre vida e saber, de tal ordem que sua recíproca aversão só pode conduzir
à destruição da vida pelo conhecimento e ao rebaixamento do conhecimento pela
vida. [...] Não se trata de um conflito entre o pensamento e a vida, no homem, mas
de um conflito entre o homem e o mundo.”
Como lembra Tronti (1966: 14), o conflito é um mecanismo epistêmico:
“O conhecimento está vinculado à luta. Quem odeia verdadeiramente, verdadei-
ramente sabe”. No entanto, a separação milenar entre corpo e alma, e particular-
mente entre Eros e abstração, ronda as interpretações do capitalismo cognitivo.
Muitos filósofos radicais lamentam a des-erotização do corpo pelo trabalho digi-
tal, o hiperfluxo de informações e a atmosfera midiática hipersexualizada (Agam-
ben, Berardi, Stiegler etc) e, como resposta política, eles parecem sugerir a “in-
surreição erótica” da vida nua.
No entanto, se o biopoder é uma máquina abstrata, a resistência não está
em demandar mais corpo, mais afeto, mais libido, etc, mas em recobrar o poder
alienado da abstração, isto é, a habilidade de diferenciar, bifurcar, e perceber as
coisas em detalhes, inclusive nossos próprios sentimentos (FOUCAULT, 1976:
159 sobre a ironia do dispositivo da sexualidade que incita à continua “liberação
sexual”). Contra a recepção usual da filosofia do desejo, Negarestani (2009) notou
que Deleuze abre seu livro Diferença e Repetição (1968) postulando uma cone-
xão fundamental entre diferença e crueldade. A abstração não deve ser entendida
como um impulso contra a “vida”, mas como um gesto violento de todo ser contra
seu próprio Grund (identidade, gênero, classe, espécie, etc).
Em Spinoza, com efeito, a alegria e o amor marcam a passagem a uma per-
feição mais elevada. “A anatomia humana contém a chave para a anatomia do maca-
co” – sugere Marx (1857: 105) numa afirmação aparentemente antropocêntrica. Ao
contrário, essas palavras insinuam anastroficamente o passo em direção a um estágio
pós-humano: “A anatomia do alien contém a chave para a anatomia do humano”.

Tese 6. O poder de acumular, o poder de restringir, o poder de acelerar.


A política é tática e estratégia de temporalidade (isto é, de invenção do
tempo). A esse respeito, Marx foi acusado de dois erros opostos: messianismo do
Matteo Pasquinelli 125

kairós (“Marx secularizou o tempo messiânico na concepção da sociedade sem


classes”, Benjamin, 1940) e quantificação do kronos, ou a medida da mais-valor
em tempo de relógio (Marx ainda pertence à tradição aristotélica da mensurabili-
dade do ser, notam Hardt e Negri 2000: 354).
Entre eles, há a tentativa mais elegante já feita para compactar a totali-
dade da engrenagem capitalista industrial em uma pequena fórmula, qual seja, a
equação da tendência do declínio da taxa de lucro (MARX, 1894: 317), que vai
se tornar o primeiro diagrama do aceleracionismo. “Qual é o caminho revolucio-
nário?… Retirar-se do mercado capitalista?… Ou ir na direção oposta? Ir ainda
mais longe, quer dizer, aprofundar o movimento do mercado, de decodificação
e desterritorialização?… Não retirar-se do processo, mas ir em frente, acelerar o
processo, como queria Nietzsche” (DELEUZE; GUATTARI 1972: 239).
O operaísmo tem repetidas vezes criticado a formulação marxiana da
composição orgânica do capital, por estar restrita ao perímetro da fábrica indus-
trial e não aberta à totalidade da metrópole. Depois de romper a prisão da compo-
sição orgânica do capital, no entanto, a teoria italiana (Agamben, Esposito, Virno)
construiu outra sob o nome de katechon, ou “a força que contém o mal”, que tem
sido considerada o modelo ambivalente para as instituições da multidão (VIRNO,
2008: 62). Contra o dilema claustrofóbico do katechon, a hipótese aceleracionista
tenta respirar o ar do grande Fora.

Tese 7. Do “general intellect” à inteligência alienígena, ou o tema da


abstração.
A ontologia do antagonismo do marxismo autonomista frequentemente
sustenta uma posição humanista no interior de uma tradição antropocêntrica (por
exemplo Berardi, 2011): com efeito, o capitalismo é uma força inumana, uma for-
ça que busca explorar e superar o humano. No entanto, qualquer projeto de auto-
nomia deveria ser postulado como o devir-pós-humano da própria classe trabalha-
dora: uma vez que não há uma classe original de que se deva sentir nostalgia. “O
Capital devidamente considerado é uma vasta força inumana, uma forma de vida
genuinamente inumana (dado que é inteiramente não-orgânico) da qual todos nós
pouco sabemos. Uma nova investigação dessa forma deve proceder exatamente
como uma cartografia anti-antropomórfica, um estudo sobre finanças alienígenas,
uma Xenoeconomia” (WILLIAMS, 2008).
O marxismo especulativo pode ser definido como a passagem do para-
digma do capitalismo cognitivo para um paradigma que descreve o capitalismo
como uma inteligência alienígena: ” a história do capitalismo é a de uma invasão
126 O trabalho da abstração

de um espaço de inteligência alienígena vindo do futuro, que deve ser montado


inteiramente a partir dos recursos do inimigo” (LAND, 1993). Aqui, nenhum fa-
talismo ou dualismo à vista: a autonomia política do General Intellect (VIRNO,
1990) tem que se tranformar também em inteligência alienígena. A subjetividade
da abstração tem que estabelecer novas alianças com forças não-humanas e ma-
quínicas. Especificamente, a equação marxiana da queda da taxa de lucro tem
que encontar seu gêmeo epistêmico. Nesse sentido, o aceleracionismo marxista
(SRNICEK; WILLIAMS, 2013) parece não ser somente uma mera aceleração
catastrófica do capital (como em Virilo, Baudrillard e Land), mas uma aceleração
epistêmica e uma reapropriação do capital fixo como tecnologia e conhecimento
(uma espécie de singularidade epistêmica).
A inteligência coletiva tem que se organizar em uma inteligência hostil
– também no sentido de inocular o hospedeiro35 como um parasita maligno. Uma
inteligência alienígena não está preocupada com qualquer ortodoxia, mas prolife-
ra e organiza suas próprias heresias.

Matteo Pasquinelli é pesquisador, escritor e doutor pela Universidade Queen Mary


de Londres, com uma tese sobre as novas formas de conflito no capitalismo cognitivo, com
pesquisa em filosofia no campo do pós-estruturalismo francês e operaísmo italiano. Escreveu,
em 2008, Animal spirits: a bestiary of the commons (sem edição traduzida ao português).

Tradutor:
Aukai Leisner é estudante de Graduação em Direito na UFPR e colabora com tra-
duções para a Uninôamde.

35  A palavra “host”, em inglês, além de radical da palavra “hostile” (hostil, em português),
também tem o sentido de “hospedeiro”, nome dado, na biologia, a animais ou plantas que para-
sitam outros animais ou plantas como estratégia de sobrevivência (N. do T.).
Matteo Pasquinelli 127

Referências:

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128 O trabalho da abstração

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LUGAR COMUM Nº42, pp. 131- 141

A medida da fera coletiva:


o valor na era das novas instituições
algorítmicas de ranqueamento e avaliação36

Matteo Pasquinelli

1. A concepção bicéfala de valor em Marx


Alguns autores defendem que, em Marx (1867), encontramos uma con-
cepção bicéfala de valor. Em seu interessante livro More Heat than Light, Miro-
wski (1989), por exemplo, mostra como Marx fez uso de dois modelos extraídos
da ciência de seu tempo, para descrever os arcanos da gênese do valor: o novo
campo da termodinâmica e a física newtoniana. Em Marx, teríamos uma medida
do valor baseada no número de horas gastas no trabalho e uma medida de valor
baseada no trabalho socialmente necessário; uma medida termodinâmica de valor
e uma medida gravitacional de valor; uma medida inspirada por Carnot e outra
inspirada por Newton; uma medida métrica e a outra topológica; uma baseada
em cavalos de potência e outra no campo de forças; uma mais substancial e outra
mais relacional. Obviamente, nenhum dos dois modelos dá conta da carnalidade
do trabalho vivo e ainda lutamos no interior desse dilema como numa camisa de
força. Como medir o valor econômico e, em particular, o mais-valor do trabalho?
De maneira interessante, de acordo com Deleuze (1986), também a rup-
tura inovadora representada pela biopolítica foucaultiana tem a ver com a intro-
dução de uma noção de poder como campo de forças, como uma máquina social
abstrata, que veio substituir os antigos modelos de poder e economia política ba-
seados nas máquinas termodinâmicas industriais. Numa entrevista com Negri,
Deleuze certa vez observou que um regime de máquinas está ligado a um modelo
específico de sociedade e poder, mas uma máquina em si não explica nada, uma
vez que são os agenciamentos maquínicos sociais e econômicos mais amplos que
devem ser analisados, além de qualquer determinismo tecnológico.

Cada tipo de sociedade corresponde a um tipo particular de máquina, com as


máquinas mecânicas simples correspondendo a sociedades de soberanis, as má-
quinas termodinâmicas às sociedades disciplinares, e as máquinas cibernéticas
e computadores às sociedades de controle. Mas as máquinas não explicam nada

36 Tradução por Aukai Leisner.


132 A medida da fera coletiva

- há que se analisar o aparato coletivo, de que as máquinas são apenas um com-


ponente. (DELEUZE, 1990)

Ferramentas, técnicas, máquinas, protocolos e algoritmos “não explicam


nada”. Eles devem ser entendidos como manifestações e configurações de pro-
cessos mais profundos. De fato, Deleuze sugeriu um paralelismo e uma homolo-
gia entre as formas tecnológicas e as formas políticas, que pode ser estendida às
formas econômicas: as máquinas podem também nos dizer algo sobre a forma-
-valor em um tempo específico? É essa a linha de pesquisa de um outro livro de
Mirowski (2002), Machine Dreams: Economics Becomes a Cyborg Science. Mas
eu penso que essa questão se torna mais interessante quando invertida: a forma
do valor pode nos dizer algo sobre a evolução da tecnologia numa era específica?
Se você for economista, preferirá ver o mundo das máquinas pela perpesctiva do
valor. Se for um cibernético, estará tentando a ver a economia somente como uma
extensão das máquinas. Marx (1867) tinha uma solução simples e elegante para
esse dilema (não à toa inspirada pelo pai da computação, Charles Babbage): a
estrutura de uma máquina sempre espelha e substitui uma divisão anterior e mais
primitiva do trabalho (intelectual e manual) e então aprimora a produção e acu-
mulação de mais-valor. Nesse sentido, as máquinas sempre nos dizem algo sobre
a forma-valor. Minha pergunta bastante simples é, pois: que modelo de máquina
aplicamos hoje, inconscientemente, para nossa visão de sociedade e entendimento
do valor? Intuitivamente, podemos dizer que a máquina informacional (e seus
agenciamentos em redes de informação) é a forma primordial de valor nos dias de
hoje. No entanto, essa resposta necessita ser propriamente explicada e expandida.

2. A tradição ocidental da mensurabilidade do Ser


A questão anterior pode ser formulada da seguinte maneira: que forma de
valor estão medindo as máquinas contemporâneas? O problema da substância do
valor é também, filosófica e politicamente, o problema de sua medição e que de que
aparelhos são usados para medi-lo. Podemos dizer que a matemática existe precisa-
mente porque há alguma coisa que sempre escapa à medida, à mensurabilidade. A
própria economia pode ser entendida como uma tentativa de domesticar o excesso,
de se haver com ele e capturá-lo. O capitalismo sempre tentou controlar a susbstân-
cia do trabalho vivo, através da aplicação, em diferentes eras, de distintos aparelhos
de medição. Essas máquinas de medição são aquelas, em Deleuze e Guattari (1972),
que sempre esquecemos de mencionar: não as máquinas desejantes e produtoras
(máquinas da primeira síntese) mas as máquinas de registro (máquinas da segunda
Matteo Pasquinelli 133

síntese). As máquinas de registro cortam o fluxo da produção desejante e a inscreve


em códigos e números, para extrair a mais-valor do fluxo. Sempre que Deleuze e
Guattari descreviam máquinas de produção, eles também tinham em mente máqui-
nas de registro e medição – para capturar e regular a produção mesma.
Por que precisamos “fazer medidas” a todo custo? Por que esse impulso
animal à aritmética e à geometria? O próprio Marx é considerado parte da tradição
ocidental e aristotélica da mensurabilidade do Ser, devido a seu desejo de calcular
matematicamente o mais-valor. Ainda assim, as fórmulas de Marx não são fórmu-
las do equilíbrio econômico mas, ao contrário, fórmulas que, indo além da lógica
hegeliana, revelam a assimetria inerente do capital e tentam identificar sua crise
interna, sua desproporção, sua desmedida, como no caso da famosa equação da
lei do índice decrescente de lucro (MARX, 1894). Há escolas de pensamento, no
entanto, que não subscrevem essa ideia de uma crise objetiva do capital, e se de-
bruçam sobre uma crise subjetiva, isto é, uma intervenção interna e uma ruptura,
efetuadas por uma novo sujeito político. O marxismo autonomista, por exemplo,
sempre sublinhou a autonomia do trabalho contra a autonomia do capital, desde
a famosa revolução copernicana de Tronti (1962). De acordo com essa tradição,
foram o excesso do corpo social, a desmedida do trabalho vivo, a insubordinação
da classe trabalhadora para desarticular a revolução industrial, para gerar um mo-
vimento internacional dos trabalhadores, e para empurrar a evolução do capitalis-
mo no sentido do pós-fordismo, o desenvolvimento da revolução informacional e
eventualmente o próprio capitalismo financeiro que conduziram o capitalismo na
tentativa desesperada de escapar da força gravitacional da luta de classes e suas
ameaças para a estabilidade política. O que de fato o capital busca medir, monito-
rar e capturar é precisamente um excesso, que não é somente um poder de geração
coletiva de valor que precede o capital, mas também um poder destituinte, sempre
pronto a produzir instabilidade política. O que devemos sublinhar neste ponto é
que nunca há uma produção individual de valor – o valor em si é sempre uma
relação coletiva, uma medida coletiva, uma abstração coletiva anterior a qualquer
técnica monetária. O dinheiro é, de fato, “a moeda do comum”. A especulação
pode apenas germinar e proliferar com base num solo e regras comuns.

3. Intermezzo: O status da economia política em cinco escolas de


pensamento contemporâneo
Obviamente, nos falta uma Gesamttheorie, ou teoria unificadora do valor.
Sobre essa questão da medida e desmedida do valor, tirando um tempo e fazendo
algumas piadas conceituais, poderíamos dividir as interpretações contemporâneas
134 A medida da fera coletiva

da economia política em cinco escolas de pensamento: os purificadores, os calcu-


ladores, os autonomizadores, os circuladores e os aceleradores.
Primeiramente, os purificadores são aqueles que se recusam a estudar
economia e, especificamente, a economia marxiana, temendo cometer o pecado
do economicismo (como Badiou), ou aqueles que reconhecem as disciplinas eco-
nômicas como meras encarnações da antiga teologia cristã, de cuja danação não
parece haver saída (como Agamben).
Em segundo lugar, os calculadores são os fiéis companheiros da suposta
racionalidade inerente à economia, sempre calculando o valor do trabalho com
um relógio à mão, e somente no perímetro das paredes da fábrica e, dessa mesma
forma, medem também direitos e bem-estar de toda a população metropolitana
(em sua maioria, “marxistas kitsch” para usar a feliz expressão de Negarestani).
Terceiro, os autonomizadores são aqueles que reconhecem o excesso do
trabalho vivo além de qualquer medida de racionalidade econômica, a totalidade da
metrópole como um sujeito produtivo, e a organização espontânea e a inteligência
coletiva das novas subjetividades (esse é o autonomismo de uma maneira geral).
Em quarto lugar, os circuladores são aqueles que, hoje mais do que nun-
ca, apoiam uma guinada monetarista em economia política, a hegemonia da cir-
culação do dinheiro sobre a produção, e a idéia de controlar a crise econômica e
democrática pela via da injeção ou invenção de novas moedas, por exemplo.
Quinto, os aceleradores são aqueles que imaginam o fim do capitalismo
através do sequestro de suas tendências tecnológicas, do planejamento de novas
infrastruturas hegemônicas, e da introdução de uma renda básica radical (ver o re-
cente Manifesto Aceleracionista, de Williams & Srnicek, 2013 [NE. tradução em
português publicada na Revista Lugar Comum nº 41]). Trata-se aqui, obviamente,
apenas de simplificações ilustrativas.

4. Gattungwesen: O monstro coletivo marxiano emerge novamente.


Voltemos ao problema da geração de valor coletiva e da natureza coletiva
do valor. Esse esquema afeta quaisquer definições de bens coletivos, e especifica-
mente o debate contemporâneo sobre “o comum” (no singular, sem “s”) ou “dos
comuns” (commons). Como apresentado em Commonwealth, por Hardt e Negri
(2009), a noção de “comum” se origina da crise da medida marxiana de valor, isto
é, a crise do tempo como unidade de medida do trabalho. O tempo privado e o
tempo de trabalho já não podem ser diferenciados um do outro: a metrópole já não
pode mais ser distinta da fábrica. No interior da fábrica social, dentro da metró-
pole como espaço produtivo expandido, o tempo não pode mais ser a unidade de
Matteo Pasquinelli 135

medida da produção. (HARDT; NEGRI, 2009: 317). Voltando à idéia do capital


como um acúmulo de relações sociais, Hardt e Negri chamam de “o comum” a
essa ampla produção de relações sociais valorizantes, que são subsequentemente
capturadas pelo capital. No entanto, o que esse solo comum produtivo parece não
revelar imediatamente é seu poder antiprodutivo e destituinte, isto é, o poder de
sabotar a acumulação de valor.
Nos manuscritos de 1844, o jovem Marx (1932) discutia outra entidade
coletiva semelhante: Gattunswesen, o homem como ser-genérico. O ser-genérico
é o principal traço da natureza social humana ou, se se preferir, de sua dimensão
de animal político. Como lembra Nick Dyer & Whiterford (2004), o conceito de
Gattunsgwesen surge em Marx a partir do conceito de alienação e foi criticado por
ser ainda demasiado humanista e naturalista (no entanto, é precisamente aqui que
Marx afirma que “A natureza é o corpo inorgânico do homem”). Hoje, podería-
mos reelaborar e adotar o conceito de pós-humanismo, homólogo ao conceito de
campo de forças de Foucault, o corpo-sem-orgãos (CsO) de Deleuze-Guattari (um
e outro também encontraram inspiração nessa passagem) e o devir-máquina da
multidão. Gattungwesen pode tornar-se o conceito de um monstro social, portador
de uma inteligência alienígena, vinda do futuro, e não de um princípio inconscien-
te da natureza. De maneira parecida, a teoria do “comum” tentou mostrar a exis-
tência de um monstro coletivo no centro do capitalismo contemporâneo. Aparatos
específicos de medida, controle e captura são então necessários para domesticar
tal fera coletiva. Evocado o monstro social, temos que entender como o capital
consegue capturar essa rede de relações e campo de forças: como ele consegue,
hoje, impor uma medida à fera coletiva.

5. Modelos topológicos do campo do valor


Novos modelos empíricos de valorização devem ser introduzidos para
entender as metamorfoses do capital sob a pressão das forças sociais das últimas
décadas. Eu proponho uma descrição do campo de forças econômicas, primeiro
como um espaço topológico e não somente num sentido quantitativo, como ainda
o faz a economia política ortodoxa. Esse espaço topológico segue os contornos de-
senhados e tornados visíveis pelas novas instituições de avaliação e ranqueamen-
to. Eu proponho aqui quatro exemplos: a economia-referência da universidade, a
economia-atenção da internet, a econimia-prestígio do mundo da arte, e a influên-
cia geopolítica das agências de risco internacionais. Todas elas funcionam como
redes de valorização e acumulação, como polvos gigantes e armados até os dentes,
imersos em águas de diferentes oceanos. Por motivos de clareza, eu proponho uma
136 A medida da fera coletiva

distinção entre ranqueamento, que é uma forma de medida maquínica e objetiva,


e avaliação, que é uma forma de medida política e subjetiva, mas na verdade esses
dois modelos podem ser considerados diferentes encarnações do mesmo diagrama
maquínico do campo social. De maneira similar, eu sugeri que se faça a distinção
entre redes socias (informais) e aparatos institucionais (formais).

6. Distinção entre ranqueamento algorítmico e avaliação político


Por ranqueamento eu quero dizer uma posição em determinado espectro
de acordo com uma medida objetiva, um método, um algoritmo (como ocorre na
avaliação dos periódicos acadêmicos, nos resultados do mecanismo de busca do
Google, ou no cálculo do número de seguidores no Facebook ou no Twitter). Isso
não é difícil de entender: pense em quanto você é importante, como pessoa ou
como empresa, de acordo com o número de seguidores que você tem no Twitter,
de amigos no Facebook ou de links conduzindo ao seu site. Por outro lado, por
avaliação eu quero dizer a posição em uma escala segundo um sistema de me-
dições subjetivas, baseadas no reconhecimento, confiança e suporte por pessoas
com as quais uma complexa rede de relações foi estabelecida. Tomemos o mundo
da arte, onde não há um “número”, mas o seu valor é gerado por um trabalho
informal e contínuo de relações pessoais. E, em especial, observemos as agências
de nota internacional, que oferecem suas medições a investidores no interior de
um tecido de relações puramente políticas e conflitos de interesse monstruosos.
Eu defino o primeiro diagrama como algorítmico porque ele implica o uso de pro-
cedimentos codificados, e o segundo diagrama como político, porque ele implica
a milenar arte política de construir consenso, confiança e alianças sociais, a partir
de relações informais. Na verdade, ambos os casos são sistemas maquínicos, de
acordo com a definição de Deleuze e Guattari, na medida em que misturam auto-
matismos com relações sociais. De maneira semelhante à definição marxiana de
máquina (1867), em que a máquina sempre ocupa as relações abstratas de uma
divisão prévia do trabalho, alguns algoritmos de ranqueamento calham de estar
formalmente instalados em estruturas de avaliação informais (ver também como
as mídias sociais como o Facebook e o Twitter mapeiam nossas relações sociais
anteriores, instalam-se nelas e as deformam).

7. Distinção entre redes sociais e aparatos isntitucionais


Obviamente, a rede digital global e suas mídias sociais são o melhor
exemplo para ilustrar o gigantesco aparato para produção e registro de relações so-
ciais. Numa escala menor, mas com impacto econômico significativo, poderíamos
Matteo Pasquinelli 137

tomar o caso do mundo da arte, que é também baseado em redes que são informais,
fluidas, não-hierarquizadas, e não necessariamente institucionais. Essa malha de
relaçoes sociais também constitui a substância de instituições aparentemente mo-
nolíticas: se universidades e agências de risco revelam toda a rigidez de hieraquias
institucionais e do poder político, sua constituição ontológica não é tão diferente
daquela das redes socias na internet e nas metrópoles: elas são, em outras palavras,
uma condensação de relações sociais. A distinção entre redes formais e informais,
entre aparatos institucionais e espontâneos é somente introduzida por questões de
clareza, já que mesmo aqui estamos percorrendo o mesmo continuum maquínico.

7.1. A economia-referência da universidade como institucional e os aparatos


algorítmicos de medição
Foi na universdade alemã, no final do século XIX, que um sistema de
avaliação para publicações acadêmicas foi introduzido, através do rastreamento
e cálculo do número e da matriz de citações bibliográficas. Quanto mais citações
a um artigo ou livro, maior a influência acadêmica de seu autor. Como é sabido,
todo pesquisador universitário está ainda enredado nesse aparato de medição, que
determina a carreira e grau de competição dele. Não basta publicar um livro, é
crucial e acumular constantemente referências a seu próprio trabalho. Esse siste-
ma de avaliação também atravessa e conforma as universidades em uma escala
global: como qualquer posição acadêmica, as universidades fazem parte de um
sistema global de avaliação. O ranking dos “dez mais” das melhores universida-
des do mundo é constantemente atualizado pela mensuração de diferentes aspec-
tos que não podemos discutir aqui, como o desempenho de suas pesquisas, livros
publicados, patentes registradas etc. Esses índices medem o prestígio de todas
as universidades e, portanto, seu “valor global”. Como é de conhecimento geral,
epecialmente ao se ler as recentes crônicas anglo-americanas, tal rede de valori-
zação tem um grande impacto no status social de uma determinada universidade,
nas taxas de mensalidade e, por conseguinte, no endividamento estudantil. O en-
dividamento dos estudantes pode ser pensado como o reverso da pirâmide cog-
nitiva da avaliação universitária, reproduzindo suas segmentações e hierarquias
econômicas como num espelho.

7.2. A economia-atenção da internet como social e os apartos algorítmicos de


medição.
O algoritmo do mecanismo de pesquisa do Google nasceu da aplicação
do antigo modelo germânico usado para mensurar publicações acadêmicas a cada
138 A medida da fera coletiva

documento da web. Essencialmente, o algoritmo Page Rank do Google calcula


automaticamente o valor de rede de cada link na web e decide a importância e visi-
bilidade de um determinado documento, com base no número de links que lhe re-
ferem. O algoritmo Page Rank do Google pode ser tomado como o diagrama mais
empírico da acumulação de valor no capitalismo cognitivo (ver PASQUINELLI,
2009, 2011) e como o principal acumulador dessa informação valorizante que Al-
quati (1963) já havia detectado nas fábricas cibernéticas. De um modo mais geral,
a internet hoje finalmente revela sua dimensão total de “produção social” na eco-
nomia da atenção de mídias sociais como Facebook e Twitter, em que, de maneira
parecida com o algoritmo Page Rank do Google, o prestígio pessoal é calculado
precisamente com base em números, como “curtidas”, “seguidores”, e “amigos”.

7.3. A economia-prestígio do mundo da arte como aparato social e político de


medição
Sob um olhar mais detido, a economia-atenção que a internet tornou vi-
sível, sempre esteve no centro da economia-espetáculo das mídias de massa e
especialmente do mundo das artes. A obra de arte, hoje em dia, funciona como um
significante irreproduzível, cujo valor é mensurado, acumulado e especulado no
interior de uma matriz social complexa. Nessa rede de valorização que circunda
a obra de arte, há papéis bastante codificados ligados uns aos outros: autores,
curadores, críticos, galeristas, exibições, revistas, museus e, eventualmente, o pú-
blico (num agenciamento coprofágico, chamado por Negarestani de “centípede
humano”). Basta folhear os principais periódicos de arte para ver como a arte
contemporânea é uma meticulosa engenharia social, mais preocupada com a sutil
hierarquia dos argumentos de autoridade do que com questões estéticas. Com-
parado aos algoritmos impassíves das redes digitais e com os rigorosos índices
universitários, o mundo das artes, como o mundo do espetáculo das mercadorias,
é organizado em torno de vetores de valorização que parecem muito mais fluidos
e informais, uma presa fácil para as incursões da especulação financeira (que,
de fato, não precisa de uma base para um tal processo de valorização social. Ver
MALIK; PHILLIPS, 2012).

7.4. A economia da confiança das agência de avaliação como aparatos de


medição institucionais e políticos
Num nível geopolítico, as agências de avaliação mostram mecanismos
muito similares àqueles que tentei explicar em outras escalas. Pela história recente
da crise global, vemos que o destino da dívida pública está nas mãos de agências
Matteo Pasquinelli 139

de avaliação privadas, o braço armado de gigantecos interesses econômicos, que


dessa maneira influem no destino de países inteiros. Poderíamos dizer que os
aparatos políticos e institucionais arquitetados por essas organizações represen-
tam o mais claramente o substrato maquínico da economia da dívida, uma vez
que o grau de especulação sobre a dívida depende da quantidade de confiaça que
é numericamente atribuída a um determinado país ou empresa. Além disso, é a
amplificação midiática dos anúncios das notas dessas agências (a incrível histeria
midiática associada a códigos simples como AAA, AA, A+ etc.), que as torna
máquinas de governança política e biopolítica. Trata-se claramente de agentes
privados, mas sua influência se espraia através da esfera pública da linguagem e
dos atos performativos: ironicamente, quando elas enfrentam problemas legais,
e são processadas por algum governo, protegem suas avaliações com a Primeira
Emenda da Constituição Americana – a liberdade de expressão. As técnicas das
agências internacionais de avaliação são cúmplices e orgânicas à violência da
especulação financeira.

8. Máquinas abstratas sempre substituem máquinas sociais


Os mecanismos de avaliação e ranquemaento susbtituem a tradicional
disciplina do tempo da metrópole fordista, com uma forma fluida de controle bio-
político que incita a competição, a espetacularização e a especulação. Não preten-
do introduzir aqui uma diferença estrita entre o campo temporal do fordismo e o
campo social do pós-fordismo, sendo ambos vertentes da mesma lei do valor e da
mesma evolução maquínica. Como as máquinas descritas por Marx em um capí-
tulo de O Capital, esses sistemas de mensuração não inventam nada de novo: ele
vêm apenas para ocupar e mapear uma rede de relações socias e comportamnetos
pré-existentes. As economias de produção social claramente existiam muito antes
dos sitemas de avaliação e ranqueamento virem codificá-las, medi-las controlá-
-las e capturá-las. Também a máquina da dívida emergiu para sobrecodificar essas
relações. A “fábrica da dívida” (LAZZARATO, 2011) pode ser considerada a ima-
gem especular e negativa dessas redes de valorização.

9. A fábrica do homem endividado é cognitiva e maquínica


Mecanismos de avaliação e ranqueamento são os mesmos que descre-
vem, de modo invertido, as redes de dívida do capitalismo financeiro e mantêm
vivos os aparatos de assujeitamento e competição do neoliberalismo. Podemos
dizer que o grau de confiança mensurado e projetado pelas agências de risco, é
um espelho político daquele senso de culpa que é a base da relação econômica
140 A medida da fera coletiva

devedor-credor (ver LAZZARATO, 2011, em A fábrica do homem endividado).


Esses novos aparatos de débito não aposentaram os aparelhos do capitalismo cog-
nitivo, mas é o próprio capitalismo cognitivo e maquínico a fornecer locais e fer-
ramentas para a governança da dívida e a medida de seu valor. É um capitalismo
cognitivo e maquínico, e uma nova estirpe de instituições de medida, que fazem
com que a dívida e todos os ardis da especulação financeira se tornem pervasivos
e persistentes, nos enredando impiedosamente.

Matteo Pasquinelli é pesquisador, escritor e doutor pela Universidade Queen Mary


de Londres, com uma tese sobre as novas formas de conflito no capitalismo cognitivo, com
pesquisa em filosofia no campo do pós-estruturalismo francês e operaísmo italiano. Escreveu,
em 2008, Animal spirits: a bestiary of the commons (sem edição traduzida ao português).

Tradutor:
Aukai Leisner é estudante de Graduação em Direito na UFPR e colabora com tra-
duções para a Uninôamde.
Matteo Pasquinelli 141

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142 A medida da fera coletiva

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LUGAR COMUM Nº42, pp. 143- 151

Reflexões sobre o manifesto aceleracionista37

Antonio Negri

O Manifesto Aceleracionista começa com um reconhecimento abran-


gente do cenário dramático da crise atual: o cataclisma. A negação do futuro. O
apocalipse iminente. Mas não fique com medo! Não há nada de político-teológi-
co aqui. Qualquer um atraído por isso não deveria ler o manifesto. Não há nele
tampouco nenhum dos xiboletes do discurso contemporâneo, ou melhor, apenas
um: o colapso do sistema climático do planeta. Mas, embora isto seja importante,
essa questão aparece aqui completamente subordinada às políticas industriais e
somente pode ser abordada mediante a crítica delas. No núcleo do manifesto,
está “a crescente automação nos processos produtivos”, inclusive a automação do
“trabalho imaterial”, o que poderia explicar a crise secular do capitalismo. Seria
catastrofismo? Seria uma interpretação ruim da noção de Marx da tendência à
queda da taxa de lucro? Eu não diria isso.
No manifesto, a realidade da crise é identificada com a agressão do neo-
liberalismo contra a estrutura das relações de classe, organizada no estado de bem
estar social dos séculos XIX e XX. A causa da crise está no bloqueio das capaci-
dades produtivas pelas novas formas capitalistas do comando, manejadas contra
as novas figuras do trabalho vivo. Noutras palavras, o capitalismo teve de reagir e
bloquear a potência política do trabalho pós-fordista.
A isto, segue uma crítica ácida tanto das forças governamentais da direi-
ta, quanto de boa parte do que sobrou da esquerda – esta última geralmente enga-
nada (na melhor das hipóteses) por uma nova e impossível defesa da resistência
keynesiana, uma esquerda incapaz de imaginar qualquer alternativa radical. Nes-
sas condições, o futuro parece ter sido cancelado, em face da imposição de uma
paralisia completa no imaginário político. Nós não podemos sair desta condição
espontaneamente. Somente uma abordagem sistemática assumindo o ponto de
vista de classe, visando à a construção de uma nova economia, em conjunto com
uma nova organização política dos trabalhadores, tornará possível a reconstrução
da hegemonia e colocará as mãos proletárias num futuro possível.
Ainda há espaço para conhecimento subversivo!

37 Tradução por Bruno Cava.


144 Reflexões sobre o manifesto aceleracionista

A abertura do manifesto é adequada à tarefa comunista hoje. Ele repre-


senta um salto decisivo e determinado para frente – necessário, se quisermos
adentrar no terreno da reflexão revolucionária. Mas, sobretudo, ele dá uma nova
“forma” ao movimento, em que “forma”, aqui, significa um aparato constitutivo
que é pleno de potência, voltado a romper o horizonte hierárquico e repressivo do
capitalismo de estado hoje. Isto não diz respeito a uma inversão da forma-estado
em geral; em vez disso, refere-se à luta de potência contra o poder, à biopolítica
contra o bipoder. É aqui, nessa premissa, em que se opõe radicalmente ao presente
uma possibilidade de futuro emancipador, em que se experimenta a operação do
“Uno se divide em Dois”, e que constitui hoje não uma conclusão, mas a única
premissa racional de práxis subversiva.
Mas vejamos, a seguir, como se desenvolve a teoria. A hipótese do mani-
festo aceleracionista se trata de libertar dentro da evolução do capital a da potên-
cia do trabalho, contra o bloqueio que o capitalismo determina; se trata portanto
de perseguir, sim, o constante crescimento econômico e a evolução tecnológica
(acompanhados de crescentes desigualdades sociais), mas provocando uma com-
pleta inversão da relação de classe. Retoma-se, dessa maneira, o “dentro e con-
tra”, o refrão da tradição operaísta. O processo de libertação se dá acelerando
o desenvolvimento capitalista sem, no entanto (e isto é importante), confundir
“aceleração com velocidade”: porque aqui a aceleração tem todas as característi-
cas de um dispositivo-motriz, de um processo experimental de descoberta e cria-
ção, dentro do espaço de possibilidades determinado pelo próprio capitalismo.
O conceito de “tendência” marxiano se acopla, aqui, com a análise espacial dos
parâmetros do desenvolvimento – à insistência sobre a “terra” (territorialização
e/ou desterritorialização) própria de Deleuze e Guattari. E há um elemento ulte-
rior fundamental: a potência do trabalho cognitivo que o capitalismo determina,
embora reprime; que ele constitui, embora reduza segundo a crescente automação
algorítmica da dominação; e que ele valoriza ontologicamente (produção crescen-
te de mais-valor), embora desvalorize do ponto de vista monetário e disciplinar
(e não somente na crise, mas também na inteira sequência do desenvolvimento,
particularmente através da gestão da forma-estado) – muito bem, essa potência,
sem querer ofender aqueles que ainda se agitam bufamente em sustentar que a
possibilidade revolucionária deva estar ligada ao renascimento de uma classe ope-
rária novecentista, esclarece que, sim, há uma classe, porém bem diversa, com
uma potência bem superior: é a classe do trabalho cognitivo – é a classe que se
liberta, a que deve libertar-se.
Antonio Negri 145

Completa-se aqui a retomada do conceito marxiano e leninista de ten-


dência. E, por assim dizer, está aqui desfeita qualquer ilusão “futurista”, aí onde
esteja a luta de classe, que determina não somente o movimento, como também a
capacidade de transformar a mais alta abstração dele em sólida máquina de luta.
Sobre a capacidade de libertar as forças produtivas do trabalho cognitivo
se baseia o discurso inteiro do manifesto. É preciso cortar ao meio a ilusão de um
retorno ao trabalho fordista, é preciso apreender definitivamente a passagem da
hegemonia do trabalho material à do trabalho imaterial e, portanto, considerando
o comando capitalista sobre as tecnologias, atacar a “abordagem sempre mais
retrógrada do capital ante a tecnologia”. As forças produtivas são limitadas pelo
comando capitalista. O tema fundamental se torna, então, libertar as forças produ-
tivas latentes, assim como o materialismo revolucionário sempre fez. É sobre essa
“latência” que é preciso agora delongar-se.
Mas antes de fazê-lo, devemos perguntar-nos como, não por acaso, a in-
sistente atenção do manifesto aceleracionista está neste ponto voltada à temática
da organização. É nele desenvolvida uma forte crítica contra qualquer concep-
ção de organização “horizontal”, “espontânea” dos movimentos, contra qualquer
concepção da “democracia como processo”: trata-se, segundo o manifesto, de
nada mais nada menos do que determinações fetichistas (da democracia) sem
qualquer consequência efetiva, destituinte ou constituinte, diante das instituições
capitalistas de comando. Esta última afirmação talvez seja excessiva defronte dos
movimentos atuais que se colocam com força (e sem alternativas nem instru-
mentos adequados) contra um capital financeiro e suas produções institucionais.
Mas é certo que não se pode jogar fora alguma passagem institucional forte, que
seja mais forte do que o horizontalismo democrático tenha condições de propor,
quando se esteja falando de transformação revolucionária. Será preciso planejar,
antes ou depois do salto revolucionário, a transformação desde a abstração do
conhecimento da tendência, segundo a potência constituinte de instituições futu-
ras, pós-capitalistas, comunistas. Um “planejamento”, portanto, que – segundo o
manifesto – não é comando vertical do estado sobre a sociedade operária, mas que
hoje deve ser convergência na rede de capacidades produtivas e direcionais – esta
é a indicação que deve ser assumida e a tarefa a desenvolver-se: planejar as lutas
antes do planejamento da produção. Mas disso se falará ainda.
Voltemos a nós. Antes de tudo, trata-se então de libertar a potência do tra-
balho cognitivo, de arrancá-la de sua latência. “Seguramente, não sabemos ainda
o que um corpo tecnossocial moderno pode!” Devemos insistir em dois elemen-
tos. Um chamamos de “apropriação do capital fixo”, e da consequente transfor-
146 Reflexões sobre o manifesto aceleracionista

mação antropológica do sujeito do trabalho. O outro elemento é sócio-político,


isto é, a consideração que essa nova potencialidade dos corpos é essencialmente
coletiva, política. Noutros termos, se pode dizer que o excedente, o valor acres-
cido na produção e no desenvolvimento tendencial da potencialidade constituída
da apropriação do capital fixo, deriva essencialmente da cooperação produtiva
social. Provavelmente, isto é a passagem fundamental do manifesto. Com uma
atitude que atenua e, por vezes, torna inessenciais as determinações humanísticas
da crítica filosófica, o manifesto aceleracionista insiste sobre as qualidades ma-
teriais e técnicas da reapropriação corpórea do capital fixo. A quantificação pro-
dutiva, a modelização econômica, as análises do big data, os modelos cognitivos
mais abstratos etc: bem, tudo isso deve ser apropriado através da educação e da
reelaboração científica feitas pelos sujeitos do trabalho. Que os modelos matemá-
ticos e os algoritmos estejam a serviço do capital não é uma qualidade deles, não
é um problema de matemática – é somente um problema de força.
Que exista aqui certo otimismo está fora de dúvida. Tal percepção oti-
mista do corpo tecnossocial não é muito útil para a crítica da relação complexa
homem-máquina, mas de qualquer forma esse otimismo maquiaveliano nos ajuda
a mergulhar na discussão sobre a organização, que é tão urgente hoje em dia.
Hoje urgentíssima. Então, se o discurso se refere à questão da força, isto conduz
diretamente à questão da organização. Manifesto aceleracionista: a esquerda deve
desenvolver uma hegemonia sociotecnológica – “as plataformas materiais da pro-
dução, das finanças, da logística e do consumo podem e devem ser reprogramadas
e reformadas na direção de fins pós-capitalistas.” Existe indubitavelmente aqui
uma forte confiança na objetividade, na materialidade, se diria no Dasein do de-
senvolvimento – e assim certa subvalorização dos elementos sociais, políticos e
cooperativos, das convenções implicadas quando se adere a um protocolo básico:
o “Uno se divide em Dois” – mas essa subvalorização não deve nos impedir de
compreender a importância da reapropriação das técnicas mais altas do comando
capitalista, da abstração do trabalho, a fim de retomá-las numa administração co-
munista que se pretenda conduzida “das próprias coisas”. Entendo esta passagem
do seguinte modo: é preciso amadurecer todas as possibilidades produtivas do
trabalho cognitivo, com vistas a propor uma nova hegemonia. E aqui se repõe
novamente o tema da organização. Propõe-se – já tínhamos dito – contra o hori-
zontalismo extremista, segundo uma nova reconfiguração da relação entre redes
e planejamento; e contra qualquer concepção pacífica de democracia como pro-
cesso, uma atenção deslocada dos meios (voto, representação, estado de direito
etc) aos fins (emancipação coletiva do autogoverno). Obviamente, novas ilusões
Antonio Negri 147

de centralismo e reinterpretações vazias da “ditadura do proletariado” não são


repetidas pelos autores. Mas o manifesto pega a necessidade de avançar no es-
clarecimento da organização, propondo um tipo de “ecologia das organizações”,
insistindo, assim, sobre um quadro plúrimo de forças que entram em ressonância
entre si e que, somente assim, conseguem, além de qualquer sectarismo, produzir
motores de decisão coletiva. Podem ser nutridas dúvidas sobre tal proposta; po-
dem ser reconhecidas dificuldades ainda maiores do que as opções felizes ofere-
cidas hoje. De qualquer forma, é uma direção a explorar-se. Isto está ainda mais
claro hoje, no fim do ciclo de lutas que começou em 2011, que demonstrou todos
os limites insuperáveis de suas formas de organização, uma vez defrontando-se
com o poder, e apesar da força e de novos conteúdos revolucionários genuínos.
O manifesto propõe três objetivos urgentes – decisivamente adequados
e realistas. Antes de tudo, uma espécie de infraestrutura intelectual que construa
um novo projeto ideal e novos estudos sobre modelos econômicos. Em segundo
lugar, uma iniciativa forte sobre o terreno dos meios de comunicação mainstream:
internet e as redes sociais, indubitavelmente, democratizaram as comunicações
e podem ser utilíssimas nas lutas, mas a comunicação permanece ainda de todo
subordinada às mais poderosas formas tradicionais de comunicação. Trata-se de
concentrar meios ingentes e todas as energias possíveis ao escopo de por as mãos
sobre meios de comunicação adequados. Em terceiro lugar, se devem reacender
as capacidades de construir todas as possíveis formas institucionais (transitórias
ou permanentes, políticas e sindicais, globais e locais) de poder e de classe: uma
constituição unitária de poder de classe será possível somente através do agencia-
mento e da hibridação de todas as experiências até agora desenvolvidas e ainda
outras a inventar-se.
O futuro precisa ser construído: essa instância iluminista atravessa o
manifesto. E também uma política prometeica, humanista, está completamente
incluída – um humanismo que, no entanto, propõe-se de andar além dos limites
impostos pela sociedade capitalista, abre-se ao pós-humano, à utopia científica,
entre outras coisas, retomando os sonhos de conquista espacial do século XX,
para novamente exemplificar, levantar barreiras sempre mais insuperáveis contra
a morte e todos os acidentes da vida. A imaginação racional deve se fazer acompa-
nhar da fantasia coletiva por novos mundos, organizando uma “autovalorização”
forte do trabalho e do social. A época mais moderna em que vivemos, nos mostrou
que nada existe senão dentro da globalização, que não há mais um Fora – hoje,
no entanto, nos colocando novamente o tema da construção do futuro, temos a
148 Reflexões sobre o manifesto aceleracionista

necessidade, e sem dúvida a possibilidade, de levar pra Dentro também o Fora, de


dar ao Dentro uma poderosa respiração.
Que dizer deste documento? Alguns de nós o sentem como um “comple-
mento” pós-operaísta, nascido sobre o terreno anglo-saxão, menos disponível a
reedições do humanismo socialista, mais capaz de desenvolver um humanismo
positivo. O nome “aceleracionista” é certamente infeliz, dá um sentido “futurista”
ao que não é futurista. O documento tem indubitavelmente um sabor de atualida-
de, não somente na crítica do socialismo e da social-democracia “reais”, mas tam-
bém nas análises e na crítica dos movimentos de 2011 e a seguir. Põe com extrema
força o tema da tendência do desenvolvimento capitalista, da necessidade de sua
reapropriação e sua ruptura: em suma, sobre essa base, propõe a construção de
um programa comunista. Tudo isto fortalece nossas pernas para seguir em frente.
Algumas críticas talvez úteis para reabrir a discussão e avançar no racio-
cício e no acordo. A primeira é que talvez haja um pouco de determinismo, não
somente tecnológico, mas também político, neste projeto. A relação com a histo-
ricidade (ou, se preferir, à atualidade, à práxis) arrisca ser falsificada por alguma
coisa que não se gostaria chamar de teleologia, embora pareça. A relação com as
singularidades e, por conseguinte, com a capacidade de considerar a tendência
como virtualidade (implicando singularidades) e as determinações materiais (pro-
movendo a própria tendência) como potência de subjetivação, me parece subva-
lorizada: a tendência não pode ser definida senão enquanto relação aberta, relação
constituinte, animada pelos sujeitos de classe. Pode-se objetar que esta insistência
sobre a abertura venha a determinar efeitos perversos, isto é, por exemplo, levar
a um quadro tão heterogêneo que se poderia definir caótico e, assim, irresolvível,
uma multiplicidade agigantada a ponto de significar um mal infinito. É sem dúvi-
da o que tanto o pós-operaísmo quanto Mil platôs podem por vezes fazer pensar.
Este é um ponto difícil, crucial: exploremo-lo mais tarde.
É verdade que – nesse escopo – o manifesto está armado como uma boa
solução quando – exatamente no centro da relação entre sujeito e objeto (que
nós, habituados a outras terminologias, chamaremos relação entre composição
técnica e composição política do proletariado) – quando se põe a elaborar sobre
esta encruzilhada uma antropologia transformadora dos corpos dos trabalhado-
res. É assim que as derivas do pluralismo poderiam ser evitadas. Mas também é
verdade que, se pretendemos proceder sobre esse terreno – que nós resguardamos
como útil, ou melhor, como decisivo – se deva também romper em alguma parte
com aquela progressão implacável da tensão produtiva, que o manifesto indica. É
preciso determinar os “limiares” no desenvolvimento, limiares que consistem em
Antonio Negri 149

consolidações – diriam Deleuze e Guattari – dos agenciamentos coletivos, para


a reapropriação do capital fixo e a transformação da força-trabalho, das antropo-
logias, linguagens e atividades. Esses limiares são determinados na relação entre
composição técnica e composição política do proletariado e fixados historicamen-
te. E é exatamente porque, hoje, não consigamos definir com precisão uma tal
relação, que às vezes nos encontramos metodologicamente inertes e politicamente
impotentes. Ao contrário, é a determinação de um limiar histórico, e a tomada de
consciência de uma modalidade específica da relação entre técnica e política, que
permite a formulação de um processo de organização e a definição de um progra-
ma adequado.
Veja-se bem: quando se coloca este problema, se coloca implicitamente
(aceitando a progressividade da tendência produtiva) o problema de definir melhor
o processo em que se forma e se consolida a relação entre a singularidade e o co-
mum. Temos necessidade de especificar quão comum existe em cada conexão tec-
nológica, desenvolvendo um aprofundamento específico da antropologia produtiva.
Sempre sobre o argumento da reapropriação de capital fixo. Foi dito já
que, no manifesto, a dimensão cooperativa da produção (e ainda mais a produção
de subjetividade) esteja subvalorizada quando comparada com os critérios tecno-
lógicos, bem como a importância dos aspectos materiais que constituem – além
dos parâmetros de produtividade – também as transformações antropológicas da
força-trabalho. Insisto sobre esse ponto. É sobre o conjunto das linguagens e dos
algoritmos, de funções tecnológicas e de know how, dentro do que se constitui o
atual proletariado, e onde o elemento cooperativo se torna central e revelador de
possível hegemonia. Esta afirmação deriva da anotação que a estrutura própria
da exploração capitalista já está mudada. O capital continua, na realidade, a ex-
plorar, mas em formas paradoxalmente limitadas, a respeito de sua potência de
extração de mais-valor da sociedade inteira. Quando se toma consciência desta
nova determinação, nos damos conta que o capital fixo, isto é, a parte do capital
implicada diretamente na produção de mais-valor, se refere, ou melhor, se instau-
ra essencialmente no excedente determinado da cooperação, isto é, sobre alguma
coisa de incomensurável que, como dizia Marx, não consiste na soma de mais-
-trabalho de dois ou mais trabalhadores, mas no acréscimo que deriva do fato que
trabalham juntos (o acréscimo, em suma, que está além da soma).
Se assumirmos a preeminência do capital extrativo em relação ao que
explora (compreendendo naturalmente o segundo no primeiro), se pode chegar a
conclusões bem interessantes. Vou mencionar aqui apenas uma. A transição entre
o fordismo e o pós-fordismo foi descrita certa vez como a aplicação da “automa-
150 Reflexões sobre o manifesto aceleracionista

ção” à fábrica e a “informatização” à sociedade. A última é de grande importância


no processo que leva à subsunção completa (real) da sociedade no capital – a in-
formatização é, de fato, interpretando e guiando esta tendência. A informatização
é, de fato, mais importante do que a automação, que por si mesma, naquele mo-
mento histórico específico, conseguiu caracterizar uma nova forma social de uma
maneira somente parcial e precária. Como o manifesto esclarece e a experiência
confirma, hoje estamos muito além desse ponto. A sociedade produtiva parece
não apenas globalmente informatizada, mas tal mundo social computadorizado
está em si próprio reorganizado e automatizado, de acordo com novos critérios
de gerência do mercado de trabalho e novos parâmetros hierárquicos na gestão da
sociedade. Quando a produção está socialmente generalizada através do trabalho
cognitivo e do saber social, a informatização permanece a forma mais valiosa de
capital fixo, enquanto a automação se torna o cimento da organização capitalis-
ta, dobrando tanto a informática e a sociedade da informação para dentro de si.
Tecnologia da informação é, assim, subordinada à automação. O comando dos
algoritmos é marcado pela transformação da produção.
Estamos, então, num nível mais alto de subsubção real. Daí o grande pa-
pel exercido pela logística que, depois de ser automatizada, começou a configurar
qualquer e toda dimensão territorial do comando capitalista e estabelecer hierar-
quias internas e externas do espaço global, assim como o maquinário algorítmico
que centraliza e comanda, por graus de abstração e ramos do conhecimento, com
variáveis de frequência e função – o sistema complexo de conhecimento que, des-
de Marx, nós estamos acostumados a chamar de “General Intellect”. Agora, se o
capitalismo extrativo expande seu poder de exploração extensivamente a qualquer
infraestrutura social e intensivamente a qualquer grau de abstração da máquina
produtiva (em qualquer nível das finanças globais, por exemplo), será necessário
reabrir o debate sobre a reapropriação do capital fixo dentro do espaço prático e
teórico. A construção de novas lutas deve ser medida de acordo com tal espaço.
O capital fixo pode, potencialmente, ser reapropriado pelo proletariado. Isto é
potencialmente o que deve ser liberado.
Um último assunto – omitido pelo manifesto, mas inteiramente consisten-
te com a argumentação teórica, é a “moeda do comum”. Os autores do manifesto
estão bem acordados que hoje, o dinheiro tem uma função particular – como má-
quina abstrata – de ser a forma suprema da medida do valor extraído da sociedade,
por meio da subsunção real da sociedade hoje, pelo capital. O mesmo esquema
que descreve a extração/exploração do trabalho social nos força a reconhecer o
dinheiro: como medida-dinheiro, hierarquia-dinheiro, planejamento-direito. Tal
Antonio Negri 151

abstração monetária, como tendência de tornar-se hegemônico do próprio capital


financeiro, também aponta a formas potenciais de resistência e subversão no mes-
mo altíssimo nível. O programa comunista para o futuro pós-capitalista deveria ser
conduzido sobre esse terreno, não apenas avançando a reapropriação proletária da
riqueza, mas ao construir um poder hegemônico – assim, trabalhando sobre “o co-
mum” que está na base tanto da mais alta extração/abstração do valor do trabalho,
quanto de sua tradução universal em dinheiro. Isto é hoje o significado da “moeda
do comum”. Nada de utópico mas, em vez disso, uma indicação programática e
paradigmática de como antecipar, dentro das lutas, o ataque sobre a medida do
trabalho imposto pelo capital, sobre as hierarquias de mais-valor (impostas dire-
tamente pelos patrões), e sobre a distribuição social geral da renda, imposta pelo
estado capitalista. Nisso, grande montante de trabalho ainda está para ser feito.
Para concluir (apesar de tantas coisas ainda a discutir!), o que significa
atravessar a tendência do capitalismo até o fim, e sobrepujar o próprio capitalismo
nesse processo? Apenas um exemplo: hoje isto significa renovar o slogan “Recusa
do trabalho”. A luta contra a automação algorítmica deve positivamente captar o
aumento da produtividade que ela determina, e então deve realizar reduções drás-
ticas do tempo do trabalho disciplinado e controlado por máquinas e, ao mesmo
tempo, deve resultar em aumentos salariais substanciais cada vez maiores. Por ou-
tro lado, o tempo a serviço dos autômatos deve ser ajustado de maneira igual para
todos. Uma renda básica deve ser instituída de modo a traduzir qualquer figura do
trabalho em reconhecimento de uma igual participação de todos na construção da
riqueza coletiva. Desse modo, qualquer um será capaz de livremente aumentar até
o máximo de suas habilidades sua própria joie de vivre (resgatando o apreço de
Marx a Fourier). Tudo isso deve imediatamente ser reivindicado através da luta.
E, neste ponto, não deveríamos esquecer de abrir outro tema: a produção de sub-
jetividade, o uso agonista das paixões, e a dialética histórica que isto abre contra
o capital e o comando soberano.

Toni Negri é filósofo e militante, autor de dezenas de livros sobre teoria política
e as lutas sociais contemporâneas, muitos traduzidos ao português, como Poder constituinte,
A força de Jó, Alma Vênus Kairós, e em coautoria com Michael Hardt, os canônicos Império
e Multidão.

Tradutor:
Bruno Cava é mestre em filosofia do direito pela UERJ, blogueiro, participa da
rede Universidade Nômade, autor de A multidão foi ao deserto (Annablume, 2013), bloga no
quadradodosloucos.com.br.
ARTE, MÍDIA E CULTURA
LUGAR COMUM Nº42, pp. 155- 166

Fotografia, parrêsia e poéticapolítica


dos vaga-lumes

Bárbara Szaniecki /
fotos de Kátia Schilirò (exceto Zuzu Angel)

Desde ano passado venho acompanhando o trabalho de Katja Schilirò


cuja fotografia é orientada para situações de conflito e de genocídio. Também
acompanho com admiração a produção de midialivristas autônomos que, sem la-
ços com partidos ou empresas (sejam as tradicionais, sejam aquelas que adoraram
a forma de rede), tem registrado desde 2013 os movimentos de protestos pelas
ruas das cidades brasileiras. Registros que, pela hostilidade da polícia militariza-
da, exigem uma boa dose de coragem. Registros que, por conta da parcialidade
da mídia monopolizada, insistem em apresentar outros lados da verdade. É por
essa persistência em enfrentar a polícia militar e desmentir a mídia monopolizada
que venho acompanhando esse trabalho, sem cessar de pensar que há nele algo
daquilo que Foucault chamava de “coragem da verdade” ou “dizer-verdadeiro”
para então considerar essa prática fotográfica contemporânea, como apresentei
no início desse artigo, como um “registrar-verdadeiro”, isto é, como uma foto-
grafia parrêsia: muito longe de uma pretensa “objetividade” sobre os fatos tal
como a grande mídia costuma nos apresentar seu discurso jornalístico e visual,
a fotografia parrêsia está ancorada no corpo, simultaneamente numa experiência
individual e num modo de vida coletivo. Ao mesmo tempo em que pensava nesse
tipo de prática fotográfica parresiástica, totalmente inspirada no livro A Coragem
da Verdade de Michel Foucault, as imagens produzidas por Katja me levaram ao
livro Sobrevivência dos Vagalumes, de Georges Didi-Hubermann. Nele, recortei
três temas que, embora distinguíveis, se entrelaçam continuamente: a noção de
sobrevivência em seu sentido mais potente, a questão do tempo no método arque-
ológico, e a análise da imagem na sua poética política. Apresento aqui algumas
imagens de Katja Schilirò. No meio de uma produção espetaculosa de imagens
midiáticas – fotos de estádios de futebol tinindo de novos, de jogadores entre
outros poderosos, de mulheres de plástica perfeita, de holofotes ofuscantes entre
outras luminosidades que se apresentam como o único horizonte para a Nação –,
surge uma poéticapolítica dos vagalumes...
Junho começou com uma série de grandes manifestações de insatisfação
contra a gestão da cidade e ganharam um impulso grande com alguns fatos que
156 Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes

suscitaram forte comoção pública e resistiram ao ritmo de consumo midiático:


o desaparecimento do pedreiro Amarildo, morador da Rocinha, e a chacina de
13 jovens da Maré. Nesta ocasião, o Projetação, coletivo nascido ele mesmo do
encontro de alguns jovens nas ruas, projetou em vários cantos da cidade a ima-
gem mais catalisadora do que sintética Amar é a Maré Amarildo que teve forte
impacto no imaginário das manifestações. Amarildo desapareceu em 14 de julho
de 2013. Em 14 de agosto foi realizado um ato para cobrar das autoridades, no
caso o Secretário Estadual de Segurança, responsável pelas UPPs, uma resposta.
Da Rocinha a Ipanema, a favela desceu. Sempre presente no imaginário de classe
média carioca como o que de pior poderia lhe ocorrer, o ato transcorreu da forma
inimaginável, tão pacífica quanto potente. A faixa “Abaixo o genocídio dos tra-
balhadores negros e negras. Fim da PM. Desmilitarização de todas as polícias.
Fim das UPPs” dá o tom.
Bárbara Szaniecki / fotos de Kátia Schilirò 157
158 Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes

Não se trata somente do desaparecimento de Amarildo, já suficientemen-


te cruel em si mesmo, mas do “genocídio de Amarildos”. Iniciada a travessia do
túnel Zuzu Angel – a foto de Stuart Angel, sorrindo em sua fragilidade de vagalu-
me antes de ser brutalmente torturado e assassinado, me vem em mente, sobrevi-
vente –, a multidão grita “Cadê o Amarildo?” Provavelmente muitos ali presentes
ouvem ressoar ao longe “Cadê Stuart Angel?”, “Cadê Zuzu Angel?” Nos registros
do povo ali reunido “sobrevivem” as resistências de Canudos, de Palmares, das
lutas sob a ditadura dos militares. Rapazes dão, com a ponta do dedo, nos muros
sujos pela poluição e pela história, o seu recado. Uma vez em Ipanema, a mani-
festação se transforma numa performance artística. Katja se equilibra na tarefa de
não expor os rostos daqueles que, num clima de repressão ou de estigmatização
social, não querem ser identificados (são fotografados de costas ou ao longe ou
na escuridão ou...) e de expor os rostos que vêem, nessa exposição, uma forma
de proteção. Há também quem registre com um celular o rosto e a fala do militar.
Rostos se mostram ou se escondem enquanto, na ausência do corpo de Amarildo,
outros corpos se jogam ao chão. Meses depois, são as imagens desses vagalumes
atravessando o túnel, livres em sua travessia do morro ao asfalto, não apenas por
inserção no mercado de trabalho e de consumo como, sobretudo, pelas lutas que
assumiram – que sobrevivem em minha memória.
Ao contrário de certas expectativas, as manifestações não cessaram. Des-
de junho 2013, vagalumes desaparecem para logo reaparecer em outro lugar. Por
todo Brasil, militantes e midialivristas lutam sob os holofotes da cidade espetacu-
larizada. Porque ela, como Debord ontem ou Agamben hoje descrevem, de fato
existe! mas a ela muitos resistem.. 
Em 11 de março deste ano de 2014, Katja
postou esta foto no seu mural de facebook junto com um texto curto mas suficien-
temente longo para falar desse lugar que são as “ruas”, dos encontros e dos afetos
que nela têm acontecido, das mudanças de subjetividade que têm provocado e das
transformações na cidade que hoje soam possíveis:
Bárbara Szaniecki / fotos de Kátia Schilirò 159

Este velho cavalheiro, que fala palavrão, que gesticula suas belas mão, sempre
trêmulas, que nas ruas, acho que vive, se encontrou e viveu as manifestações,
fez bons amigos. Que gentilmente me beija e se alegra quando lhe dou um beijo
carinhoso nas bochechas (este é nosso maior segredo), me faz pensar na riqueza
que encontrei nestes 3 anos de Ruas. Estranhamente estou numa crise com isso,
exatamente neste momento, nesta semana, mês. O que faz eu estar me sentindo
em casa, quando estou nas ruas e profundamente deslocada e estranha quan-
do me encontro na rua Visconde de Pirajá, andando, com vitrines lindas para
olhar? Essa mudança. essa crise é solitária e muitas vezes te afasta da balada,
dos velhos amigos, do que você era e não consegue mais ser. Estranhamente sou
mais feliz, mas ainda é confuso, estranho, solitário, perturbador. Eu o conheço
como Presidente. (Kátja Schilirò, perfil pessoal do Facebook)

Exatamente um mês depois, em 11 de abril, acontecia o violento despe-


jo de famílias que estavam ocupando um terreno vazio há dois anos. O despejo
ocorreu às 5 horas da manhã, com truculências (destruição dos pertences e uso de
cassetete, spray de pimenta, bomba de gás lacrimogêneo e balas de borracha con-
tra os moradores) e irregularidades (presença de aparato militar sem a presença de
oficiais de justiça no local, e com detenções de crianças e adolescentes) que foram
em seguida denunciadas à Relatora de Direito à Moradia Adequada da ONU. Para
pressionar por uma solução, algumas famílias se dirigiram à Prefeitura do Rio
160 Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes

de Janeiro no centro da cidade e deram início a um acampamento na passarela


coberta da estação de metrô Cidade Nova. Mais uma vez expulsas pela policia,
as famílias se instalaram ao relento no gramado. Dias depois, perseguidos pela
chuva, se refugiaram sob a marquise de um prédio. Após ver fotos e uns posts no
facebook decidi ir ao acampamento com amigos. Lá observei uma emocionante
rede de solidariedade composta por militantes e midialivristas que havia organiza-
do, com determinação e dedicação, a coleta e distribuição de itens de necessidade
básica para a agora denominada Ocupa Oi-Telerj. E lá estava Katja. Me falou do
seu cuidado em registrar esses momentos tão delicados de homens, mulheres e
crianças e que não havia outra maneira senão experimentado essa fragilidade no
compartilhamento de um pouco de sopa e de sono-insônia, entre doações e inti-
midações, dos dias e das noites cariocas.
Bárbara Szaniecki / fotos de Kátia Schilirò 161
162 Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes

É dessa fotografia parrêsia que me parece nascer, sob as luzes de uma


Prefeitura que sucumbiu à ordem globalizada, uma poéticapolítica de vagalumes:
fragmentos de rostos, detalhes de corpos, rastros de movimentos.
Nos passos de Aby Warburg, tento compor um pequeno Atlas Mnemo-
syne com fotos de refugiados que a própria Katja selecionou em seu facebook
ou com as imagens de refugiados realizadas por Laura Waddington no seu filme
Border e que Georges Didi-Huberman mencionou em seu livro. Na madrugada
de quinta-feira 17 de abril, os ocupantes da Oi-Telerj foram novamente acordados
e expulsos pela policia. Depois de longa caminhada na madrugada, encontraram
refúgio no estacionamento da Catedral Metropolitana no centro da cidade onde
puderem ficar por 17 dias (até sábado 3 de maio) até serem removidos para um
abrigo na Paróquia Nossa Senhora do Loreto na Ilha do Governador. Lá perma-
necem até hoje longe dos holofotes da mídia e provavelmente permanecerão até
o apagar das luzes da Copa.
No Rio de Janeiro, a Semana Santa foi mesmo carregada. O horizonte
fechado dos Apocalípticos parecia, de fato, ter se concretizado. Pouco dias depois
da Via Crucis dos refugiados da Oi-Telerj, na terça-feira 22 de abril, o jovem
dançarino Douglas Rafael Pereira conhecido como DG foi encontrado morto com
marcas de tiro na comunidade do Pavão-Pavãozinho, Zona Sul do Rio de Janei-
ro. Revoltada, a comunidade desceu para protestar. Edílson da Silva dos Santos
conhecido como Matheus, de 27 anos e portador de deficiência mental, também
acabou sendo atingido e morto por um tiro no rosto. A comunidade, com o dedo
em riste, acusou a UPP na comunidade e a PM no asfalto. A comunidade, de cabe-
ça erguida, organizou o enterro de seus jovens como uma manifestação. Lá estão
mais uma vez, as faixas: “Policia assassina. DG e Edilson: vítimas do Estado”.
Lá está, mais uma vez a travessia, de um outro túnel desta vez, o que liga Copa-
cabana a Botafogo. E lá estão, novamente, os vagalumes: tão frágeis de tão fortes,
tão massacrados de tão potentes. Amarildos, Douglas, Cláudias, DGs, Edilsons...
E lá, enfim, está Katja gestando sua políticapoética: “Estas fotos estão
propositalmente escuras, para resguardar os parentes e manifestantes”, avisa no
seu facebook.
Bárbara Szaniecki / fotos de Kátia Schilirò 163
164 Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes

Considerações finais
Partindo de Foucault, do “dizer-verdadeiro” que descreve em A coragem
da verdade, levantei a hipótese de um “registrar-verdadeiro” por parte de fotógra-
fos e midialivristas que tem enfrentado forças policiais e interesses poderosos, vi-
síveis e ocultos, para nos mostrar outras versões dos fatos. Muito além da suposta
objetividade da grande mídia, o que me chamou a atenção no trabalho de Katja,
em seus post e fotos expostas no facebook, foi sua adesão a um modo de vida para
que pudesse fotografá-lo. Ao fazer da “rua” seu lugar e sua comunidade, fez de
sua fotografia uma parrêsia. Uma vez apreendida sua prática, como qualificar a
sua poética? Uma vez apreendido seu operar, como qualificar seu olhar? Tal como
Marika38 desenhava borboletas, Katja fotografa vagalumes. Esses persistem como
que atraídos pela luz no fim do túnel ainda que cientes que correm, literalmente,
o risco de se queimar. Pois no Brasil, não há “estado de exceção” e sim “regra do
genocídio”. Há, contudo, esses “momentos de exceção em que os seres humanos
se tornam vagalumes – seres luminescentes, dançantes, erráticos, inapreensíveis
e resistentes enquanto tais [...]”. Ignoram o horizonte anunciados pelos apoca-
lípticos – aqueles que, cegados por Cronos, não vêem Aion e Kairos, os acon-
tecimentos e as oportunidades, e anunciam o tempo dos mortos, qual seja, o das
eleições – e insistem na travessia, do morro ao asfalto, do túnel de São Conrado a
Ipanema, de Copacabana a Botafogo. Seguem em frente, sobreviventes.

38 Marika Friedmanova, menina judia de 11 anos, desenhava no campo de concentração de


Theresienstadt. É citada por Georges Didi-Huberman em Sobrevivência dos Vagalumes.
Bárbara Szaniecki / fotos de Kátia Schilirò 165

Bárbara Szaniecki é designer, mestre e doutora em design pela PUC-Rio. Atual-


mente desenvolve a pesquisa de pós-doutorado “Tecnologias digitais e autenticidade: o estatuto
da imagem fotográfica na linguagem visual contemporânea” na Escola Superior de Desenho
Industrial da UERJ pelo PNPD/Capes. É autora de Estética da Multidão (RJ: Civilização Brasi-
leira, 2007) e Disforme Contemporâneo e Design Encarnado: Outros Monstros Possíveis (SP:
Annablume, 2014). É coeditora das revistas Multitudes e Lugar Comum, e membro da Rede
Universidade Nômade.
166 Fotografia, parrêsia e poéticapolítica dos vaga-lumes

Referências:
COCCO, Giuseppe. “Introdução - A dança dos vagalumes”. In: CAVA, Bruno;
COCCO, Giuseppe (org.). Amanhã vai ser maior – o levante da multidão no ano que
não terminou. São Paulo: AnnaBlume, 2013.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Survivance des lucioles. Paris: Éditions de Minuit, 2009.
FOUCAULT, Michel. Le Courage de la vérité. Paris: Seuil/Gallimard, 2009.
ZIMMERMANN, Laurent. Penser par les images – Autour des travaux de Georges
Didi-Hubermann. Nantes: Éditions Cecile Default, 2006.

Vídeo : https://www.youtube.com/watch?v=qlMwiQV_wUQ (a partir de 1:22)


LUGAR COMUM Nº42, pp. 167- 175

A “multidão” e o “espetáculo” na queda do


comunismo romeno: análise a partir do
filme “Videogramas de uma revolução”.

Roberto Lopes Júnior

Se numa Cidade os cidadãos não tomam das armas porque


estão prisioneiros do terror não se deve dizer que aí reina a
paz, mas que nela não há guerra. A paz não é mera ausência
de guerra, mas uma virtude que se origina da força do espírito,
pois nela a obediência é o desejo constante de seguir o direito
comum da Cidade. (ESPINOSA, TP, V, § 2, 3, 4)

Introdução
Romênia, Timișoara, entre 17 e 21 de dezembro de 1989. Uma garota
ferida (com um longo gesso em seu braço esquerdo) é colocada, com dificuldade,
num leito do hospital público da cidade. Ao finalmente se acomodar, e sendo in-
formada que será filmada pela emissora de TV local, a garota começa a apresentar
sua mensagem para a câmera. Rodica Marcau, funcionária de uma cooperativa,
faz um longo relato, informando que foi ferida por duas balas ao defender a loja
contra membros da Securitate39, durante as manifestações que ocorriam na cidade
nesse período. A jovem também denuncia prisões, maus tratos, agressões e tor-
turas feitas pelos órgãos de repressão do governo. Rodica, em nome da loja e da
juventude de Timișoara, declara apoio a “revolução” que ocorria no país, onde
pede “mais pão” e o fim da ditadura comunista, rejeitando a Securitate, pedindo
força aos que resistiam na praça da ópera na cidade, e prestando homenagem aos
quatro mil mortos nos protestos, cobrando a identificação dos cadáveres.
A cena descrita é a de abertura do filme “Videogramas de uma revolu-
ção”, lançado em meados de 1992, pelo diretor alemão Harun Farocki e o docu-
mentarista romeno Andrei Ujica. O filme retrata, a partir de filmagens obtidas por
câmeras amadoras e da televisão estatal romena, os últimos, e tumultuados, dias
do ditador comunista Nicolai Ceaucescu no poder, terminando com sua prisão e
fuzilamento em 25 de dezembro de 1989. A obra de Farocki e Ujica não foi a úni-

39 Departamentul Securității Statului, policia secreta romena em atividade entre 1948 e 1989.
168 A “multidão” e o “espetáculo” na queda do comunismo romeno

ca a tratar sobre a derrocada dos Ceaucescu, porém, pela abordagem utilizada e o


satisfatório resultado final obtido, é até hoje o de maior repercussão sobre o tema.
Entre as revoluções que marcaram a queda do comunismo no leste eu-
ropeu durante 1989, a ocorrida na Romênia foi a única em que houve violência
e derramamento de sangue. Esse aspecto mostrou-se previsível devido tanto ao
longo período de domínio despótico, desde 1965, do então chefe de estado Ni-
colai Ceaucescu, quanto a paradoxal situação do país, sendo ao mesmo tempo
um dos regimes comunistas com melhor relação entre as nações capitalistas, mas
também um dos países socialistas mais fechados, com sombrias políticas ligadas
ao controle de natalidade, forte censura, repressão por vezes brutal realizada por
sua polícia secreta, obras e projetos megalomaníacos, e um monumental, muitas
vezes caricato, culto a personalidade de Ceaucescu e sua esposa, Elena40.
O presente ensaio realizou breve análise do filme Videogramas de uma
revolução, identificando inicialmente a obra de seus diretores e descrevendo as
principais partes constituintes da película. Posteriormente, foi feito uma tentativa
de relacionar os acontecimentos narrados no filme com diferentes análises polí-
ticas e filosóficas, discutidas em artigos localizados, sobre o fim do comunismo
romeno, e especular sobre uma possível coincidência de fatores entre a Romênia
de 1989 com movimentos e protestos sociais ocorridos no mundo pós-uerra fria.

Contextualizando o filme e seus diretores...


O filme Videogramas de uma revolução, produção semi-independente lan-
çado em meados de 1992, resultado de quase um ano e meio de pesquisa e levanta-
mento de cerca de 140 horas de material amador e dos arquivos da Televisão estatal
romena, uniu dois documentaristas com visões e técnicas de filmagem opostas.
Hackun Farocki, nascido em 1944 na Alemanha, possui profícua e longa
carreira, em atividade desde o final dos anos 1960, com cerca de 90 documentá-
rios, realizados em diferentes formatos, que lidam sobre aspectos políticos, eco-
nômicos e culturais da sociedade contemporânea. Em meados dos anos 1970,
influências como, por exemplo, a obra “Sociedade do espetáculo” (seja o livro
publicado originalmente em 1967, ou o filme homônimo lançado em 1973) de
Guy Debord, ou as ideias do filosofo francês Michel Foucault, em especial as
ligadas aos conceitos de biopolítica41, se mostrariam duradouras na realização

40 Informações sobre o regime de Ceaucescu podem ser encontrados nos trabalhos de Judt
(2008), Sebestyen (2009) e Brown (2011)
41 O conceito de Biopoder/ Biopolítica, segundo a definição original de Foucault, baseia-se ao
controle dos corpos e da vida exercidos pelo estado contemporâneo por meio de leis e normas
Roberto Lopes Júnior 169

de seus trabalhos, influências essas (discretamente) admitidas pelo diretor em di-


ferentes entrevistas. Seja em seus primeiros filmes, Die Worte des Vorsitzenden
(1969), Die Teilung aller Tage (1970), até sua mais recente obra, a série de filmes
Serious Games I-IV (2009/2010), transitou em películas por vezes confusas, caó-
ticas, ou de cunho minimalista. Grande parte de seus trabalhos têm visões pouco
simpáticas a forma em que os poderes políticos e sociais se apropriam do capital
intelectual e cultural para disseminação (ou controle) de informações, e de uma
mídia e campo artístico que, por motivos diversos, se deixam “manipular” por
essas instituições.
Adrei Ujica, nascido na Romênia em 1951, em seus primeiros anos, de-
vido parcialmente a repressão em seu país, não possuiu uma carreira tão profí-
cua, pelo menos até os anos 1990. Com formação em cinema obtida em cursos
em diferentes países europeus, o diretor romeno usufruiu do relativo clima da
abertura político do país a parte capitalista da Europa nos anos 1980, realizando
seus primeiros filmes, inicialmente curtas metragens. Sua mais ambiciosa obra é
o filme “Ceaușescu: uma autobiografia”, lançado em 2010, com três horas de du-
ração, mostrando, a partir de uma longa e extensa pesquisa em diferentes acervos
arquivísticos romenos, os principais acontecimentos do governo de Ceaucescu
entre 1965 a 1989. Bem recebido em Cannes, o filme obteve recepção mista pelo
público romeno, acusado tanto de enaltecer a vida do ditador comunista quanto de
um pretenso tratamento irônico sobre o mesmo.
Tanto Farocki quanto Ujica, em (poucas) entrevistas concedidas durante
os anos 1990 e 2000, se esquivaram de analisar aprofundadamente o filme e a re-
percussão obtida nele nos cenários norte-americano e europeu. Ujica em particu-
lar tratou a película como parte de um quebra cabeça, completada pelos filmes Out
of Present (1999) e o já citado Ceaușescu: uma autobiografia, buscando identificar
a realidade romena que serviu de pano de fundo para a queda do comunismo.

A queda de Ceauşescu pelas várias “lentes” de Farocki e Urica


Após a cena inicial com a jovem Rudica, o filme dedica sua atenção a
cidade de Timișoara, que em meados de dezembro estava ocupada por protestos
e, posteriormente, conflitos. Curiosamente, os diretores optaram não por (parcas,
porém existentes) imagens feitas nas praças onde os conflitos ocorriam, mas a de
uma câmera no topo de um prédio próximo aos eventos, que filmava a certa dis-

aplicadas pela pedagogia, medicina e economia, que regulariam a sexualidade e o modo de vida
da sociedade. Essas ideias podem ser encontras na trilogia História da Sexualidade, sendo o
primeiro volume publicado em 1976 e os dois últimos em 1984.
170 A “multidão” e o “espetáculo” na queda do comunismo romeno

tancia os manifestantes caminhando para o destino final dos protestos. É a partir


dessa filmagem “isolada” que aparecem as primeiras legendas do filme42, ressal-
tando o pretenso perigo em que esse cinegrafista amador poderia estar correndo,
justificando a postura do mesmo em registrar as imagens em um local “seguro”.
O filme passa para o dia 21 de dezembro, focando os acontecimentos na
capital Bucareste. Nicolae Ceaucescu, nesse dia, organizou (precipitadamente)
uma manifestação, tentando desviar o foco dos protestos ocorridos em Timișoara,
onde seriam apresentadas medidas para acalmar os ânimos da população. Porem,
durante o discurso, ao vivo, o ditador romeno é interrompido por vaias e gritos,
deixando-o atônito e sem ação, com a TV romena saindo do ar por alguns instan-
tes. Iniciava-se o capítulo final do regime comunista na Romênia.
Os diretores dedicam generoso espaço ao tratar sobre esse fatídico discur-
so. Inicialmente, apresentam sua interrupção, as tentativas de Ceaucescu e sua mu-
lher Elena de acalmarem a confusão, além de diferentes registros que filmaram o
discurso e os tumultos, porém não conseguindo identificar suas reais causas. Logo
após essa cena, foca-se em imagens mostrando cidadãos romenos saindo as ruas,
com destaque para a Praça da Universidade estatal de Bucareste, com uma multi-
dão sendo formada e consolidada a noite, sendo mostrado também tiros e bombas
soltados pelo exército romeno tentando, sem sucesso, dissipar essa multidão.
A película dedica então considerável espaço para o dia 22 de dezembro,
iniciado por protestos e confrontos que continuavam a se propagar na capital ro-
mena, culminando com a fuga do casal Ceaucescu, de helicóptero, no comitê
central do partido comunista, fato esse analisado pelo ângulo de duas câmeras
amadoras que registraram o momento.
Como notado por Rohringer (2007), apesar de o filme ressaltar que o
casal pode ser visto nas imagens, percebe-se claramente que o se apresenta são
apenas vultos.
O foco dos acontecimentos divide-se então no comitê central do partido
comunista, onde imagens captadas – de forma irregular e, conforme frisado nas
legendas, muito mais por curiosidade do que por convicção – da população en-
trando e jogando fora documentos e objetos, e na estação de televisão romena,
onde outra multidão se acumulava.

42 A versão analisada é a original lançada pela produtora Videofilmes em setembro de 2008.


Nela, algumas legendas apresentam opiniões e informações acerca dos acontecimentos e filma-
gens ocorridas. Segundo Gervaiseau (2011), essa medida permitiu que houvesse um distancia-
mento reflexivo do espectador em relação as evidências visuais e sonoras apresentadas pelo fil-
me. Versões posteriores do filme substituiriam essas legendas por uma narração em off feminina.
Roberto Lopes Júnior 171

A medida que o dia 22 vai se desenrolando, os diretores focam a “to-


mada” da televisão estatal do país pelos manifestantes, onde a participação de
membros do governo da Romênia na intermediação das transmissões feitas pelos
rebeldes não passam despercebidos pelos diretores, que percebem que algumas
das reuniões não são registradas em vídeo. Horas depois, as primeiras transmis-
sões feitas por líderes do movimento rebelde eram realizadas, onde são mostrados
também imagens da população de Bucareste assistindo as mesmas.
A tarde e a noite desse dia testemunharia também várias cenas dentro do
prédio do comitê central, com líderes renunciando a seus cargos, reuniões “im-
provisadas” da alta cúpula do novo governo romeno, coordenadas – de forma
ansiosa e apressada, mas também cuidadosa ao tratar da transição política do país
em frente das câmeras amadoras – pelo então novo líder do país, Ion Iliescu, e o
vice-presidente Dumitru Mazilu (há um tom de “expectador” no filme nessas par-
tes, onde se evita especular sobre essas reuniões ou que está sendo tratado nelas),
e de alguns militares que tentam ficar a par da prisão de elementos ligados aos
Ceaucescu e de alguns líderes da Securitate. No lado de fora, líderes do governo
de transição discursam para uma excitada multidão, interrompidos por tiros de
origem não identificada.
Nos dias 23 e 24, o filme foca sua atenção aos conflitos ocorridos em
Bucareste, com tiroteios entre rebeldes contra as, aparentemente, forças da Secu-
ritate fieis ao ditador Ceaucescu. O aparentemente é colocado pelos diretores, en-
fatizando certa confusão na identificação de quem estaria atirando em o quê, con-
sequência talvez de décadas de medo impostas pelo governo comunista. Também
são registradas prisões, feitas de forma aleatória, onde soldados detêm e agridem
alguns transeuntes, afirmando que os mesmos eram de serviços de oposição. O
filme não esconde algumas dúvidas, ou certo ceticismo, sobre quais as circuns-
tâncias que estavam motivando os conflitos e arbitrariedades na capital romena.
No dia 25, último dia focado no documentário, ocorre a prisão e execu-
ção do casal Nicolae e Elena Ceaucescu. Legendas analisam, e enfatizam, o gran-
de número de repórteres romenos e estrangeiros esperando o anúncio da execução
do casal. Ao ser mostrado, sendo intercalado com imagens de estabelecimentos
romenos assistindo a execução, o filme apresenta, discretamente, algumas pessoas
não escondendo sua satisfação com o fato.
Conforme percebido por Gueron (2008), no final do filme, Farocki e Uji-
ca, mesmo que usando de uma abordagem não totalmente “imparcial”, evitam
especular a favor de um levante “espontâneo” do poder popular ou da queda pla-
nejada e consentida do regime, com as bênçãos da alta cúpula política do país.
172 A “multidão” e o “espetáculo” na queda do comunismo romeno

Segundo Catharino (2012) e Gervaiseau (2011), a película enfatiza o


papel das filmagens amadoras nos registros dos acontecimentos, algumas vezes
citada diretamente em partes da obra (“Uma câmera analisa a situação”, “As câ-
meras saem à rua”, “Cada vez mais câmeras”). Videogramas também refuta um
caráter excessivamente “conspiratório” da queda de Ceauscescu, onde indica, em
algumas partes, a falta de evidências ou registros que comprovem esse aspecto.

Visões de “multidão” e “espetáculo” na queda do ditador romeno


A partir da análise do filme de Farocki e Ujica, que conceitos filosóficos
contemporâneos poderiam servir de base para a discussão do fim do comunismo
na Romênia?
Bogdan (2012), baseando-se parcialmente no filme, apresentou a teoria
da “contradição performática” ao tratar da transição política na Romênia. Essa
teo­ria, inspirado em ensaios escritos pelo filosofo francês Alan Baidou, e em ideias
do pensador holandês Baruch de Espinoza (1632-1677), especificamente no livro
Tratado político, tentou identificar qual a intensidade revolucionária existente nos
movimentos que derrubaram o ditador romeno, de que forma o caráter autoritá-
rio do regime freou o ímpeto da população em se opor diretamente ao regime, e
de que forma a dinâmica existente dentro do antigo bloco comunista influiu nos
acontecimentos da Romênia. A autora afirma que a “contradição performática”
na revolução romena visualiza-se em um movimento complexo e heterogêneo, e
numa transição política incompleta, que levou a diferentes interpretações sobre os
acontecimentos no país em 1989. Bogdan indica que Videogramas, diferente de
outros documentários sobre o ocorrido, é praticamente o único a captar e identifi-
car algumas dessas contradições e imprecisões no decorrer da obra.
O filosofo francês Michel Foucault (1926-1984), tanto em sua análise so-
bre os conceitos de biopolítica, quanto da sociedade de controle e de disciplina,
podem ser incluídos em análises sobre o excêntrico “reinado” de Ceaucescu no po-
der. No lado biopolítico, o ditador romeno usou e abusou na imposição de políticas
(agressivas) em nome da “fertilidade” do povo romeno, com graves danos para as
mulheres do país. Soma-se a isso tentativas de controle e disciplina (visualizados
em constantes racionamentos de luz e material no dia a dia) contra a sociedade ro-
mena, que chegariam a níveis extremos na segunda metade dos anos 1980. Porém,
Foucault, ao apresentar essas ideias, entre 1974-78, focou esses aspectos aos países
capitalistas, porém sendo percebidas possibilidades de utilização na identificação
de características políticas e sociais no antigo bloco comunista (e.g. FOUCAULT,
2008). Catharino (2012) chega a usar algumas ideias de Foucault em seu trabalho,
Roberto Lopes Júnior 173

relacionando diretamente a estética videográfica do filme de Farocki e Ujica, e a


forma em que mesmo analisa e apresenta os acontecimentos na Romênia.
O já citado Baruch de Espinoza também têm ideias que podem ser relacio-
nadas a realidade romena antes do fim do comunismo, a um estado fechado, com
certa confusão em dividir ao mesmo tempo uma imagem “moderada” no exterior
com draconianas políticas sociais e econômicas dentro do país. Seja por Baigdou,
ou de forma mais enfática, por Michael Hardt e Antonio Negri na obra “Multidão”
(2005) ou “Subversive Spinoza: (Un)contemporary Variations” (2004), seus pen-
samentos poderiam ser adaptados a realidade global do final do século XX e início
do século XXI43. Contudo, as ideias de Spinoza também devem ser utilizadas com
cautela. O filósofo as escreveu na instável realidade europeia de meados do século
XVII, com a reorganização do continente ainda incompleta e obscura, e autores
que a reutilizariam, incluindo Negri, a fariam realizando, muitas vezes de forma
indireta, paralelos com o desenvolvimento do capitalismo ocidental, em especial
na sua cria neoliberal. Como Baigdou afirma em seu texto, apesar de suas obras
poderem ser citadas no âmbito da Romênia de 1989, outros textos precisariam ser
incluídos e de novas pesquisas a serem realizadas, saindo do viés capitalista e fo-
cando na realidade comunista onde a Romênia era inserida na época.
Por fim, incluem-se ideias do situacionista francês Guy Debord (1931-
1994) na abordagem de aspectos de “espetáculo” que marcaram a transição po-
lítica do país em dezembro de 1989. A “tomada” da televisão romena, além da
sua confusa negociação e utilização, pode ser analisada sobre o prisma do “es-
petáculo”, fato esse consideravelmente enfatizado por Farocki e Ujica em Vide-
ogramas. As câmeras, sejam amadoras ou profissionais, estão registrando fatos
históricos, porém, em alguns momentos, sem muita precisão ou agindo pelo calor
do momento, ou como Debord indicou, em 1967, com a tácita permissão do poder
constituinte, que usa esses meios para expor sua versão dos fatos, e molda-los, na
medida do possível, para o público.

Romênia, “revolução” ou “laboratório”?


Vinte e cinco anos depois da queda dos Ceaucescu e do fim do comu-
nismo, a Romênia, membro da OTAN (desde 2004) e da União Europeia (desde
2007), ainda apresenta uma transição política e econômica parcial e insatisfatória.
A participação do país em ambas as organizações é discreta, porém mostrando

43 Sendo que Hardt e Negri acrescentam aspectos relacionados a biopolítica foucaultiana nessa
análise.
174 A “multidão” e o “espetáculo” na queda do comunismo romeno

sensibilidade as crises financeiras sofridas no continente a partir de 2008. Os go-


vernos pós-comunistas de Ion Iliescu (1990-1996; 2000-2004) e Traian Băsescu
(2004-) consolidaram maior liberdade política ao país, mas usando também de
posturas autoritárias que existiam durante o comunismo, causando ressentimento
de parte da população do país.
Contudo, por mais que a transição da Romênia para a democracia tenha
sido incompleta, as experiências ocorridas em 1989 podem, com a devida cau-
tela, serem identificadas como um “primeiro ensaio” que apresentaria, de forma
rudimentar, características que marcariam o complexo jogo geopolítico no mundo
pós-guerra fria.
Nas décadas seguintes, “Revoluções coloridas”, ocorridas em diferentes
ex-repúblicas soviéticas entre 2004-2006, a Primavera árabe a partir de 2010, ma-
nifestações na Turquia e Brasil (2013), Venezuela e Ucrânia (2014) são apenas al-
guns exemplos onde o ciberativismo, mobilizações organizadas por redes sociais,
e um toque de surpresa, resultavam em multidões que desafiavam, intimidavam,
ou em alguns casos até mesmo derrubavam, regimes políticos existentes. Mas
esses movimentos foram e são também mobilizações que sofrem com uma guerra
de informações, com interesses obscuros da mídia internacional, de organismos
políticos ocidentais, muitos ligados aos EUA, e até mesmo de alguns grupos par-
ticipantes desses protestos44.
Na Romênia de 1989, como em outros locais do leste europeu na época,
as câmeras amadoras saíram dos armários e foram utilizadas, muitas vezes de
forma empolgada, pelos seus cidadãos. O papel da TV e mídia em consolidar
o fim do comunismo, mesmo que não devendo ser superestimado, também se
mostrou perceptível, onde a população do país pôde “acompanhar” os principais
acontecimentos e seus desdobramentos (além de seus defeitos e incompletudes)
nos principais meios de comunicação do país.
Farocki e Ujica souberam em videogramas, direta ou indiretamente, apre-
sentar todos esses aspectos em sua película. Longe da futurologia, até pela produ-
ção do filme ainda coincidir com os últimos momentos da guerra fria, os diretores
tiveram a sensibilidade de perceber o forte caráter imagético, e por vezes teatral
(mesmo que violento), ocorrido nos eventos de 1989, na época ainda inseridos
numa bipolaridade Washington-Moscou, que chegava ao fim. Apesar de alguns
exageros, “Videogramas de uma revolução” é um eficiente retrato de um mundo
que estava, de forma abrupta, entrando em uma complexa fase “globalizada”.

44 Algumas informações e discussões sobre essa temática podem ser encontradas no filme
italiano A fábrica de revoluções (2013), dirigido por Franco Fracassi.
Roberto Lopes Júnior 175

Referências:
BOGDAN, J. Sovereignty and the Death of Communism. Journal of Literary Studies
and Linguistics, v. 2, n..1, p 137-153, 2012. Disponível em: http://www.scipio.ro/doc
uments/111455/400528/10Bogdan.pdf
BROWN, A. The rise and fall of communism. New York: Ecco Books, 2011.
CATHARINO, R. F. Videogramas de uma revolução: o acontecimento na imagem.
Anais do V Congresso de Estudantes de Pós-graduação em Comunicação, Niterói,
2012.
DEBORD, G. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FOUCAULT, M. Segurança, Território, População. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
GUERIN, F. Dislocations: Videograms of a Revolution and the Search for Images. In:
GINSBERG, Terri; MENSCH, Andrea (orgs.) Companion to German Cinema. Nova
York: Blackwell Publishers, 2012.
GERVAISEAU, H. P. A. Imagens do passado: usos e noções contemporâneos. In:
MORETTIN, E. (Org.); NAPOLITANO, M. (Org.); KORNIS, M. (Org.). Hstória e
Documentário. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2012, p.211-235.
JUDT, Tony. Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2008.
NEGRI, A. Subversive Spinoza: (Un)contemporary Variations. Manchester:
Manchester University Press, 2004.
NEGRI, A.; HARDT, M. Multidão. Rio de Janeiro: Record, 2005.
ROHRINGER, M. The Making of History: The Different Faces of the So-called
Revolution in Romania. Post Script, 2007. Disponível em: http://www.univie.ac.at/
visuellesoziologie/Publikation2008/VisSozRohringer.pdf
SEBESTYEN, V. A revolução de 1989. Rio de Janeiro: Globo, 2009.

Referências audiovisuais:
Videogramas de uma revolução. Harun Farocki, Andrei Ujica. Alemanha: 1992. 106
minutos.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 177- 190

Comunicação, Mídia e Lugar; A apropriação


socioespacial dos meios de comunicação, da
perspectiva material/conceitual

Carlos Fernando Leite e


Paulo Celso da Silva

Introdução
As sociedades sempre conheceram a luta de classes – que para Marx é o
motor da história – ainda que o entendimento acerca deste conceito tenha sofrido
alterações, em grande medida e justificadamente, devido aos naturais avanços
materiais e conceituais por que têm passado as sociedades, em seu transcurso his-
tórico. Esta é uma discussão sempre atual, pois, conforme Santos (2006, p. 111)
“As características da sociedade e do espaço geográfico, em um dado momento
de sua evolução, estão em relação com um determinado estado das técnicas”. Ou
seja, em todas as épocas, houve sempre uma proporcionalidade entre as demandas
sociais, em todos os aspectos, e o que a(s) ciência(s) podia(m) oferecer.
Inferem-se, da assertiva do autor, os aspectos material/conceitual – tanto
em relação ao homem, quanto em relação às coisas. Aliás, material e conceitual,
em nosso ver, podem ser entendidos como fatores indissociáveis entre si, uma vez
que todos os elementos – inclusive o próprio homem – evidenciam atributos ao
mesmo tempo materiais e conceituais.
A comunicação é aqui entendida como um fator inerente à existência
humana, sendo difícil conceber o homem sem o ato da comunicação. Desde que
se vê no mundo, o ser humano há que se ver em relação ao seu semelhante, o que
implica, inevitavelmente, alguma forma de comunicação. Assim, em qualquer de
suas formas, a comunicação é, em primeira instância, meramente o instrumento
de que o homem se serve para poder relacionar-se com o mundo. Em algum mo-
mento da história, o ser humano intuiu o valor comunicação, não apenas como
mero instrumental de relações, mas, também, como formador e/ou mobilizador do
ideário. A partir desse momento, a detenção de um meio comunicacional passava
a ter outro significado. Embora não se possa determinar com precisão, acredita-se
que o advento ou invenção da escrita seja o momento em que tal intuição ocorreu
ou, se esta noção já existia, a partir de então foi significativamente fortalecida.
178 Comunicação, Mídia e Lugar

Na Internatinal Encyclopaedia of Communications, Erick Barnow e seus


colaboradores apresentam a seguinte definição para comunicação: “Nós incluí-
mos em comunicações todos os meios através dos quais a informação, as ideias e
as atitudes chegam aos indivíduos, grupos, nações e gerações”. Longe de querer
contestar Barnow e seus cooperadores, mas consideramos tal definição um tan-
to quanto reducionista, pois parece incluir comunicação e mídia dentro de um
mesmo entendimento. A mídia é o corolário da evolução histórica das técnicas,
e constitui-se, por definição, na ampliação espaço-temporal das possibilidades e
potencialidades comunicacionais.
O terceiro recorte que compõe o trinômio aqui analisado é o lugar, que
representa, em termos de área científica, a Geografia. Isso corrobora o cunho in-
terdisciplinar do trabalho, em que se analisa a relação entre Geografia e Comu-
nicação. O lugar, em relação às demais dimensões do espaço (região, território,
paisagem, cotidiano), define-se como a primeira instância espacial. É no lugar
que todas as representações manifestam-se e todas as iniciativas são engendradas.
Analogamente a Espaço, Tempo e Movimento, o trinômio Comunicação,
Mídia e Lugar sintetiza a dinâmica social hodierna, em relação às tecnologias
virtuais, em termos de suas possibilidades e potencialidades, tanto material quan-
to conceitualmente falando. Neste entendimento inclui-se o conceito de encurta-
mento do espaço, aceleração do tempo e otimização do movimento, como um dos
grandes atributos das modernas tecnologias.
Definindo o processo, tem-se o encurtamento do espaço, na medida em que
não faz diferença onde a pessoa com quem se estabelece contato está; entende-se
por aceleração do tempo, a capacidade de, em tempo real, poder-se “estar” em vá-
rios lugares ao mesmo tempo, algo absolutamente inconcebível, sem a virtualidade
tecnológica. O inevitável corolário deste processo não é outro, senão a otimização
do movimento, na medida em que múltiplos contatos podem ser feitos a um só gol-
pe. E, por mais paradoxal que possa parecer, quase sem mobilidade, no sentido fí-
sico ou material da palavra, uma vez que se pode estar dentro de uma pequena sala.
O tempo é um elemento acerca do qual a Filosofia e outras ciências têm
incansavelmente refletido, ao longo da história. No que concerne à aplicabilidade
ou ao uso do tempo, nossa relação com ele é sempre individual. Podemos fazer
coisas juntos, mas não podemos administrar o tempo alheio. Cada indivíduo tem
certa autonomia para administrar seu tempo como lhe convém, mas, ao mesmo
tempo, o fenômeno lhe escapa ao entendimento.
A capacidade que as tecnologias virtuais hodiernas têm de agir sobre
espaço, tempo e movimento, alterando a noção até então sustentada sobre esses
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva 179

elementos, talvez seja o principal atributo que justifique sua relevância e explique
o fascínio que estas exercem sobre o pensamento predominante. Por meio do uso
dessas tecnologias, tem-se a impressão de efetivo controle sobre o tempo, em
relação ao espaço, processo este que é mediado pelo movimento (ação). Não é
tão simples assim, mas, o virtual tem, inegavelmente, essa capacidade ou “poder”
de alterar a antiga noção sobre tempo e espaço, que sempre guarda relação com o
movimento ou a ação; obviamente sob a perspectiva do material/conceitual. O es-
paço, por sua vez, foi por muito tempo considerado meramente como o continente
material das ações e representações. A teoria socioespacial de Milton Santos, cuja
tônica é o espaço como instância social dinamizada e transformada pelas ações e
os objetos, binômio que sintetiza o material/conceitual – corrobora isso.
Deixar-se levar pelo fascínio do fenômeno tecnológico como algo “mira-
culoso”, impede, muitas vezes, que se perceba o lado pernicioso que o fenômeno
comunicacional se permite ou é suscetível de ter, quando em posse de certas mino-
rias hegemônicas. Ou seja, embora as tecnologias, especialmente as comunicacio-
nais, sejam importantes pelos amplos e inegáveis benefícios à vida humana, não
significa que se perca a percepção acerca do outro lado, um tanto quanto obscuro
do fenômeno comunicacional. Muitos há também que, mesmo conscientemente,
deixam-se enganar ou recusam-se a aceitar o caráter negativo daquele fenômeno.
Em todas as épocas, dentro da referida proporcionalidade entre sociedade
e técnica, os organismos comunicacionais sempre ocuparam posições centrais ou
determinantes, sobremodo em relação às questões sociais. Não foi muito diferen-
te, ao longo da história, em termos de luta por liberdade de expressão e justiça
social. Quando ainda não existiam as tecnologias virtuais, eram os jornais, as
revistas e as emissoras de rádio que promoviam a comunicação em escala mais
ampla. Tais organismos refletiam as tendências políticas da época.
Toda essa possibilidade e potencialidade comunicacional seriam, a partir
da segunda metade do século XX, ampliada e intensificada pela televisão. Poste-
riormente a isso, a tecnologia atingiu seu ápice: a conquista do espaço, a partir do
que foi concebido o satélite e todas as tecnologias virtuais de que hoje dispomos.
Mas, analisando o prazo histórico anteriormente decorrido, pode-se dizer que o ser
humano conseguiu chegar à era virtual, em um tempo, no mínimo relativamente
curto, historicamente falando. A segunda metade do século XX é inegavelmente
o período em que, proporcionalmente falando, o homem conseguiu conceber a
maior parte de suas tecnologias.
Se fosse possível abstrair-se historicamente e, tal como em um desfile,
assistir ao desenrolar da história, certamente ver-se-ia que, em todos os aspectos,
180 Comunicação, Mídia e Lugar

a evolução histórica se dá, dentro da perspectiva material/conceitual e em pro-


porção linear. Ou seja, assim como todas as consecuções materiais do homem
são oriundas das necessidades naturalmente geradas no transcurso evolutivo da
sociedade e estão em proporção às demandas então existentes, o mesmo também
ocorre aos entendimentos e novas teorizações; o aspecto conceitual do processo.
À medida que a sociedade avança, surgem tanto necessidades materiais quanto
conceituais que precisam ser satisfeitas. O modo como se pensa e entende o mun-
do, por outras palavras, é diretamente proporcional ao estado de materialidade
que se tenha logrado chegar até então. A realidade tecnológica, não é outra coisa,
senão um produto político-econômico e sociocultural, concebido historicamente,
no transcurso de um longo processo.

Classes não hegemônicas e apropriação dos media


A tônica do histórico processo de luta de classes também pode ser sinte-
tizada nos aspectos material/conceitual. Aquele incluiria tudo o que alude à mate-
rialidade, desde as necessidades mais básicas da vida (alimento, moradia, vestuá-
rio), aos aspectos relacionados à aquisição de acesso à tecnologia, seja para a vida
doméstica, profissional ou educacional; enquanto este aludiria a toda a dialética
que se tem desenrolado entre as classes, ao longo da história, independentemente
de como estas eram divididas, a cada período histórico. Neste trabalho – cujo
objetivo é analisar a luta pela apropriação dos meios de comunicação – conven-
cionou-se adotar os termos classes não hegemônicas e hegemônicas.
No que concerne à posse efetiva de meios comunicacionais, parece haver
um ponto de universalidade entre as diferentes nações, ao longo da história: os
detentores daqueles meios sempre foram poucos e, na maioria ou totalidade das
vezes, eram oriundos de pequenos grupos ou elites. É evidente que, possuir um
meio comunicacional qualquer, por mais simples que este seja, é algo que implica
na posse de recursos financeiros, que quase sempre são bastante expressivos. Mas
daí a admitir, que as corporações comunicacionais tenham que, necessariamente,
ser espécies de cartéis da comunicação, é algo um pouco diferente. Países há em
que a comunicação é um verdadeiro monopólio. Em outros, e desta vez, inevita-
velmente considerando o aspecto político, o mecanismo comunicacional é total-
mente estatal ou, pelo menos, o estado exerce forte controle sobre ele.
O aspecto político desempenha papel preponderante no processo de apro-
priação dos meios de comunicação, na medida em que a exploração de uma ativi-
dade comunicacional, ainda está sujeita à lei das concessões, que é determinante
ao processo e, provavelmente, seja sua etapa mais árdua. Ao abordar essa questão,
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva 181

Angelo Serpa faz um contraponto, na obra Lugar e Mídia, entre as cidades de Sal-
vador e Berlim. Fica evidente que, em ambas as cidades, os grupos que pleiteiam
a implantação de rádios comunitárias enfrentam dificuldades semelhantes.
Dentro da questão política, ainda há que se mencionar o fato que, em
Berlim, a atmosfera política, mesmo após mais de duas décadas da queda do muro
e da unificação da cidade, parece conservar muito do que havia quando a cidade
era dividida, especialmente no que alude ao comportamento das pessoas. Parece
haver uma espécie de recusa, por parte tanto do lado leste como do oeste em acei-
tar a reunificação.
Exceto pela necessidade que os habitantes têm, de se deslocarem para o
outro lado da cidade para trabalhar (há mais pessoas do lado leste que vão para
o oeste), em geral, quase ninguém mostra estar disposto em passar para o outro
lado, em sua vivência cotidiana. Reconhece-se que a dificuldade que as pessoas
têm de livrar-se da memória acerca do período de divisão da cidade – embora o
muro tenha existido por menos de duas décadas, sua influência é forte, provavel-
mente devido ao fato de que a referida divisão ocorreu em época de guerra – é
gerada pela forte atmosfera política daquele período.
No aspecto material, as rádios comunitárias têm dificuldades, desde os
trâmites burocráticos que envolvem a aquisição do aparato tecnológico e a viabili-
dade de um local para sua instalação, bem como no que alude à potência e alcance
dos equipamentos, que estão limitados em 26 kw e um quilômetro, respectiva-
mente. Este segundo ponto evidencia o conceitual, na medida em que, se existem
tais limitações, não é por outra razão, senão o reconhecimento da relevância da
detenção de um meio comunicacional, enquanto possibilidade de produção e di-
fusão de conteúdos, com a consequente consolidação da articulação social e o
fortalecimento das iniciativas das classes não hegemônicas. Destarte, estar‑se‑á
promovendo a identidade geosocial do lugar – admitido, com o autor, que a apro-
priação socioespacial dos meios de comunicação seja condição sine qua non a
isso – ou, produzindo “lugares” por meio das ações e dos discursos (SERPA,
2011, p. 16).
Acerca dos representantes das classes dominantes ou hegemônicas e das
não hegemônicas, provavelmente incluir-se-iam nos primeiros, aquelas minorias
elitizadas do mundo capitalista e do universo político. As classes não hegemô-
nicas, por sua vez, têm uma composição muito mais heterogênea, em todos os
aspectos, de modo que se torna difícil defini-las, em termos de quem seriam seus
representantes. Grosso modo, dir-se-ia ser o público em geral, de modo mais es-
pecífico os economicamente ativos, ou muitos que, embora inexpressivos eco-
182 Comunicação, Mídia e Lugar

nomicamente, possuem outros atributos que os tornam participativos à dinâmica


social, em alguma medida.
Pode-se, aqui, abrir um parêntese, reevocando o conceito de homens lentos
e homens opacos de Milton Santos (2006, p. 220). Este se refere àqueles que vivem
abaixo ou fora da lógica do capital, que habitam a cidade e por ela locomovem-
-se, compondo um grupo absolutamente em paralelo (marginalizado) à dinâmica
social vista como normal, mas que, na verdade, não permite às pessoas perceberem
o mundo. A velocidade é a tônica da vida prática, na era das tecnologias virtuais.
Ainda que se mostre paradoxal, na contemporaneidade, os que desfrutam
de mobilidade são os que menos veem, pois estão comprometidos com o arca-
bouço imagético pré-fabricado do mundo hodierno. Estes, ou estão a permear
a cidade presos em suas máquinas (carros, motos, aeronaves), pouco ou nada
podendo ver da cidade, exceto o que os dispositivos eletrônicos (celulares, Ipads,
tablets) podem oferecer, ou estão segregados em seus lares, alienados por suas
mídias fixas (TV, PC).
Qualquer que seja o adjetivo que se escolha para defini-los, no que alude
a sua condição ou posição social, os homens lentos e opacos são os que compõem
o grupo comumente chamado dos excluídos: são os moradores de rua, mendigos
ou não, podem ser os catadores de material reciclável ou ainda aqueles que exer-
cem alguma subatividade para sobrevivência (flanelinhas, lavadores de carros e
outros). Para estes, a cidade apresenta-se de uma forma diferente, sob outra pers-
pectiva. Podemos pensar com Beatriz Sarlo que diz: “Não há cidade sem discurso
sobre a cidade. A cidade existe nos discursos, tanto como em seus espaços mate-
riais” (2009, p. 97).
Inferem-se da assertiva da autora, os aspectos material e conceitual. Por-
que mesmo que o discurso seja também materialidade, enquanto a materialização
do pensamento, se pensamento, em primeira instância, alude ao conceitual. Os es-
paços materiais da cidade, por sua vez, são materialidade, enquanto espaço físico
continente da ação, e são conceituais, quando vistos sob a perspectiva de lugares
construídos pelas ações e pelos discursos (SERPA, 2011, P. 16), ou, em Milton
Santos, o espaço que se dinamiza e transforma pelos objetos e ações (2006, p. 39).
Assim, os homens lentos e opacos seriam, em tese, aqueles que de efeti-
vamente desfrutariam a cidade, de modo indissociável, do ponto de vista de sua
integração com a materialidade da cidade, em todos os sentidos; o mesmo não se
pode dizer quanto ao aspecto conceitual. Estes (os lentos e opacos) têm com a ci-
dade o tipo de relação de que trata Sennet (1997). Algo como ver-se indissociavel-
mente integrado à cidade, via urbanismo, tanto material quanto conceitualmente
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva 183

falando. Em relação a isso é que a (i)lógica do capitalismo, com sua capacidade de


reordenar a dinâmica social, manifesta seu lado mais pernicioso, roubando desses
homens lentos e opacos – por mantê-los fora da lógica do capital, embora estes
tenham a e vivam a/na cidade, percebendo sua movimentação – sua capacidade de
pensar-se, sentir-se e existir na cidade; ou seja, conceitualmente falando.
Talvez um tanto quanto utópico para alguns, pensar nos homens lentos
como socialmente reintegrados, a engrossar as fileiras das classes não hegemôni-
cas, ao menos numericamente, ou, por outro lado, e ainda mais utópico, imaginar
a extinção desta classe de pessoas, hoje absolutamente alheias a quase todas as
questões mais significativas rentes ao social. Mas, utópico quanto possa parecer,
por outro lado, também não se constitui em incômodo pensar que, em alguma
medida, isso poderia se efetivar.
Mencionou-se essa classe de homens lentos e opacos, muito mais a título
de enriquecimento, no sentido de evidenciar um estrato social raramente lembra-
do, devido a sua pouca participação, em todos os sentidos, mas que existe e parti-
cipa da sociedade. Faz-se, neste trabalho, o recorte entre classes não hegemônicas
e hegemônicas, por uma questão, primeiramente didática e, por referir-se aos gru-
pos que de modo mais direto empreendem a luta pela apropriação socioespacial
dos meios de comunicação.
Entretanto, o tecido social não é tão precisamente recortado. Excluam-se
aqueles que mais diretamente estão engajados na questão comunicacional, em
todos os seus desdobramentos, e restará uma imensa parcela da população que,
embora não milite formalmente nessa causa, participa do processo, em maior ou
menor grau, como consumidores de tecnologias. Isso fica mais claro, quando se
observa o relacionamento das rádios comunitárias com a população dos bairros.
Muitas dessas rádios surgiram ou mantiveram-se operantes, em grande medida
devido à mobilização da população.
Consideradas de utilidade pública, tais emissoras constituem-se em vo-
zes que se levantam em defesa da comunidade, além de difundirem a informação
e, em alguns casos, promoverem algum tipo de entretenimento. A malha social
tem muitos espaços ou lacunas que têm que ser preenchidos com iniciativas, as
mais diversas; e a apropriação socioespacial dos meios de comunicação, na visão
de Serpa é o ponto de partida para que efetivamente se possa, por meio das ações
e dos discursos, produzir “lugares” (2011, p. 16). Henri Lefebvre faz a seguinte
referência às lacunas sociais:

Num período em que os ideólogos discorrem abundantemente sobre as estru-


turas, a desestruturação da cidade manifesta a profundidade dos fenômenos
184 Comunicação, Mídia e Lugar

de desintegração (social cultural). Esta sociedade, considerada globalmente,


descobre que é lacunar. Entre os subsistemas e as estruturas consolidadas por
diversos meios (coação, terror, persuasão ideológica) existem buracos, às vezes
abismos. Esses vazios não provêm do acaso. São também os lugares do possível.
Contém os elementos desse possível, elementos flutuantes ou dispersos, mas não
a força capaz de os reunir [...]. As instâncias do possível só podem ser realizadas
no decorrer de uma metamorfose radical (1991, p. 114).

Os subsistemas e as estruturas ali referidas corresponderiam, respectiva-


mente, às classes sociais não hegemônicas e as hegemônicas. Portanto, os buracos
ou abismos a que o autor se refere, definindo como lugares ou instâncias do pos-
sível, podem aludir ao horizonte de possibilidades, material e conceitualmente fa-
lando, dessa grande massa de consumidores de tecnologias. Estes, se por um lado,
não participam de forma direta na articulação social para apropriação dos meios
de comunicação, por outro, têm um papel preponderante no consumo e, mais que
isso, se fosse para encaixá-los em uma das classes, certamente engrossariam as
fileiras dos não hegemônicos.
Este seria outro objetivo, isto é, que não necessariamente toda essa re-
ferida massa, mas que uma boa parcela voltasse-se a esse propósito e por meio
da tecnologia comunicacional, pudesse articular-se, como diz Serpa (2011, p. 17)
“... como uma teia, que costura as táticas de enunciação dos/nos diferentes lu-
gares; uma teia “mundo”, que também abre os lugares para o exterior”. Isso é o
que significa ações e discursos produzirem “lugares”, a partir da apropriação dos
meios de comunicação (idem, p. 16).
Dentro da proposta analítica do material/conceitual e da proporcionalidade
entre os elementos e fatores, poder-se-ia indagar qual seria o estado da arte do pro-
cesso de apropriação dos meios de comunicação, em relação às classes não hege-
mônicas. Em que proporção, tanto material quanto conceitualmente, tais classes têm
efetivado a apropriação socioespacial dos meios de comunicação. Podem-se desta-
car alguns fatores que sintetizam as dificuldades enfrentadas por aquelas classes.
Primeiro, porque bons equipamentos são de alto custo, tanto no que alude
à aquisição, quanto à manutenção e, além disso, há a necessidade de constante
substituição de equipamentos para que se acompanhem os avanços tecnológicos;
também quase sempre existe a dificuldade de se obter um local para o funciona-
mento do ponto comunicacional, quer sejam as rádios comunitárias, ou os domí-
nios virtuais alternativos.
Segundo, porque o poder público quase nunca se mostra disposto a faci-
litar as coisas, tanto no que tange ao político, quanto ao econômico; a legislação
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva 185

é severa, especialmente quanto às concessões, os impostos são altos e ainda há o


problema da limitação de alcance e potência, sobre a qual já se referiu, e que é um
ponto de absoluta importância no que concerne à operacionalidade dos meios de
comunicação, neste caso específico, as emissoras de rádio. Isso porque, existem
bairros que possuem uma área muito extensa; nestes, a referida limitação é um
problema ainda mais grave. No caso dos computadores, a limitação de potência é
tributária do contrato com o provedor, isto é, quanto o cliente compra de potência,
não havendo limitação quanto ao alcance.
Terceiro, porque as classes não hegemônicas enfrentam uma luta desi-
gual contra as hegemônicas, tanto no aspecto material, quanto no conceitual. Ou
seja, os grupos não hegemônicos estão em desigualdade de condições diante do
poder capitalista dos grandes conglomerados comunicacionais, bem como estão
alheios aos processos de tomada de decisão e àqueles que as tomam. Com seu
poder econômico, os grandes complexos comunicacionais auferem influência na
esfera política, de onde partem as decisões e onde é elaborada a legislação.
Os aspectos político, econômico, social, cultural e histórico podem ser
entendidos como recortes materiais/conceituais da sociedade. Na mesma medida,
os recortes materiais/conceituais da cidade são os bairros (lugares). Todos os refe-
ridos aspectos são manifestos nos bairros, isto é, estes são lugares que manifestam
em escala micro, o que a cidade manifesta, em escala mais ampla.
Analogamente a isso, tanto a articulação social, quanto a apropriação, pro-
priamente dita, dos meios de comunicação manifesta-se no lugar, como primeiro
recorte ou dimensão espacial e, dali, pressupõe-se ou seria desejável que se propa-
gasse de modo mais amplo, ou seja, atingindo as escalas espaciais mais amplas, ou,
por outras palavras, engrossando as fileiras dos atores sociais participantes.
Infere-se que seja isso o que Serpa queira dizer quando afirma (2011, p. 17):

E a confrontação dá-se basicamente através dessa produção de lugares enun-


ciados, de lugares percebidos e concebidos através dos conteúdos produzidos,
em geral, por grupos pouco numerosos, mas articulados em rede: como uma
teia, que costura as táticas de enunciação dos/nos diferentes lugares; uma teia
“mundo”, que também abre os lugares para o exterior.

A assertiva do autor não deixa dúvida quanto ao lugar como “... platafor-
ma para a construção de ações e discursos de cunho espacial...” (idem, sinopse).
Ou seja, o lugar, como ponto de partida às iniciativas de articulação social. A am-
pliação desse processo de articulação social em rede ou teia é destacada quando
o autor refere-se à costura das táticas de enunciação. A menção da teia “mundo”
186 Comunicação, Mídia e Lugar

como abrindo os lugares para o exterior é um indicativo do avanço do processo a


uma escala espacial mais ampla, material e conceitualmente.
A dinâmica do cotidiano não nos permite refletir tais fatos, as coisas pare-
cem ocorrer rápido demais; diga-se de passagem, a tônica do mundo hodierno das
tecnologias virtuais é a velocidade, também sob a perspectiva material/conceitual.
Tudo parece coincidência demais; a dinâmica imposta pelo sistema capi-
talista, em todos os aspectos, que não nos permite refletir de modo mais consis-
tente, operando em favor das minorias hegemônicas, cujo interesse direciona-se
unicamente a auferir lucros, em detrimento de quase todas as demais questões.
Por outras palavras, em um mundo absolutamente tecnicizado, não há espaço para
a reflexão crítica.
Não há ciência sem reflexão, assim como a reflexão, no sentido científico
da palavra, tem como corolário um elemento materializável, em algum sentido. O
conceitual tem bem mais relevância que o material, no que trata da luta das classes
não hegemônicas para apropriação socioespacial dos meios de comunicação. Isto
porque as classes dominantes ou hegemônicas não se empenham em impedir tal
apropriação, senão pelo fato de que, uma vez em posse daqueles meios, as classes
não hegemônicas estarão em igualdade de condições para lutar socialmente, no
sentido de que, por meio dos conteúdos que hão de produzir, o ideário predomi-
nante estará sob a mesma influência, a batalha dialética entre as respectivas clas-
ses dar-se-á de modo que ambas as partes tenham o mesmo poder de exposição
argumentativa. A aquisição pura e simples de equipamentos comunicacionais, por
parte dos não hegemônicos, no sentido material do termo, certamente não é o que
preocupa os hegemônicos.
As rádios comunitárias são as vozes do lugar, por meio das quais a comu-
nidade, faz-se representar. A comunicação tem a capacidade de integrar, conso-
lidando, bem como promovendo a identidade geosocial do lugar. Tal capacidade
é evidenciada quando se observa que, os bairros que dispõem de instituições co-
municacionais – mesmo as de pequeno porte, como as rádios comunitárias – em
geral apresentam números mais expressivos no que alude ao político-econômico,
e condições mais favoráveis socioculturalmente falando. Os organismos e insti-
tuições (escolas, hospitais, órgãos públicos, organizações e entidades), bem como
os profissionais e o público em geral, parecem formar ali, mediados pela comuni-
cação, como o vetor relacional por excelência, uma espécie de micrópole.
Há bairros, que equivalem a pequenas cidades, tanto em sua capacidade
econômica, quanto em sua quantidade populacional e consequente representati-
vidade como recorte do espaço mais amplo, que é a cidade por ele integrada. O
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva 187

lugar, ou os atores sociais do lugar carecem inclusive dessa consciência, isto é, da


consciência de sua representatividade social, em todos os aspectos. Aqui estamos
pensando com Santos no conceito de “força do lugar”, que é o referencial do autor
para a análise do cotidiano. As classes não hegemônicas, uma vez apropriando-
-se dos meios de comunicação, têm condições – e certa obrigação moral, até para
fazer jus a sua condição como voz social do lugar – de promover essa consciência,
o que certamente não é o desejo dos hegemônicos.
Aqui, a articulação social está sendo vista da perspectiva de princípio
fundamental, isto é, a constituição da sociedade. Essa articulação fundamental
tem seus recortes. Isso equivale a dizer que todos estão, em princípio, articula-
dos socialmente enquanto atores constituintes do cenário social mais geral e dos
recortes mais abrangentes, que são o político-econômico e o sociocultural, dos
quais dependem os desdobramentos subjacentes. Ou seja, de modo subjacente
a essa fundamentação, ocorrem outras articulações sociais, em menor escala, –
embora indissociáveis ao processo, como um todo – que tratam de questões mais
específicas. Portanto, articular-se socialmente é outro fator que, em certo sentido,
poderia ser entendido como inerente ao homem, tanto quanto a comunicação.
Por essa razão é que, quando se fala em articulação social para apro-
priação dos meios de comunicação, inevitavelmente há que se fazer referência a
tantos outros elementos e fatores, já que se trata de um, dos muitos recortes do
cenário social, além do fato de a própria comunicação ser o vetor, por excelência,
de todas essas relações. O papel que a comunicação passou a tomar, a partir de de-
terminada época e que vem crescendo em importância, especialmente após o ad-
vento das tecnologias modernas, determina sua relevância como fenômeno social.
Uma comunicação efetiva, tanto material quanto conceitualmente falan-
do, é a própria essência de qualquer processo de articulação. A história recente
registra uma experiência feita por uma equipe de intelectuais de diferentes áreas,
que se deslocaram a uma região com cavernas. A proposta do trabalho era justa-
mente permanecer durante algum tempo no interior da caverna – obviamente que
se aproveitou para empreender outros estudos – sem qualquer contato com as de-
mais pessoas do lado de fora, exceto um contato, de vez em quando, somente para
verificação, não sendo passada qualquer informação sobre a realidade cotidia-
na. Também não se levou, com exceção de algum instrumento técnico, qualquer
equipamento eletrônico que pudesse fornecer informações tais como data, hora e
outros fatos cotidianos.
Logo nos primeiros dias, o trabalho já começava a mostrar justamente
aquilo que se previa: não se é possível, pelo menos não por muito tempo, perma-
188 Comunicação, Mídia e Lugar

necer sem um nível, ainda que mínimo, de comunicação. A essa fenômeno que,
depois de um tempo, se manifesta, a saber: perder-se a noção sobre qual é a data e
em que dia da semana se está, ou que horas são, se é dia ou noite, se está chovendo
ou ensolarado, dá-se o nome de defasagem biológica.
Analogamente a isso, podem-se imaginar algumas comunidades que ain-
da hoje existem, em algumas regiões do Brasil, as quais, não dispondo de tec-
nologias, encontram-se proporcionalmente nas mesmas condições que a equipe
citada, no interior da caverna, no que alude às notícias, aos fatos, àquilo que está
ocorrendo no mundo, bem como ao acesso a elementos promotores de cultura, em
todos os aspectos, tais comunidades encontram-se alheias.
Nesses lugares, também devido às grandes distâncias que separam as co-
munidades, torna-se difícil pensar em uma articulação social para apropriação dos
meios de comunicação, nos mesmos níveis que se pensa tal processo, em relação
a outras comunidades que não enfrentam tais dificuldades.
Por outras palavras, assim como existem pontos de universalidade entre
os lugares, há também divergências, tanto no aspecto material quanto no concei-
tual, que hão de ser observadas. Se, cada lugar individualiza-se quanto à sua iden-
tidade social, certamente o faz também, em relação à articulação social ali engen-
drada, isto é, a cada lugar, cabe uma articulação social, que é fruto das demandas
que caracterizam o perfil ou identidade geosocial do lugar, em todos os sentidos.
Os pontos de universalidade ali referidos – sob a perspectiva material/
conceitual – referem-se, respectivamente: à busca pela obtenção de aparato tec-
nológico e a constante necessidade de atualização, bem como ao entendimento
conceitual da relevância da detenção de meios comunicacionais, em relação às
suas possibilidades. Quanto às divergências, sejam elas poucas ou muitas, dizem
respeito aos aspectos político-econômico e sociocultural.
Alinhavando os pensamentos acerca do que até aqui há sido ventilado,
neste trabalho, o trinômio Comunicação, Mídia e Lugar sintetiza a dinâmica so-
cial da sociedade moderna à luz das tecnologias virtuais. A comunicação, enten-
dida como um fator inerente ao ser humano e o vetor relacional, por excelência;
a mídia, definida como a ampliação espaço-temporal das possibilidades e poten-
cialidades comunicacionais e o lugar, como a primeira dimensão do espaço, onde
todas as iniciativas são engendradas. Este trinômio é analisado, em relação ao pro-
cesso de apropriação socioespacial dos meios de comunicação pelas classes não
hegemônicas, dentro da dialética historicamente construída pela(s) sociedade(s),
em sua proporcional evolução, sob a perspectiva material/conceitual.
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva 189

Considerações finais
Comunicação, Mídia e Lugar constituem o trinômio aqui entendido como
a síntese da dinâmica relacional da sociedade, em relação às tecnologias. Finali-
zando, pode-se retomar esse entendimento, sob a perspectiva material/conceitual.
Redefinindo os elementos do trinômio, a comunicação – que, com a evolução
social, tornou-se também uma ciência – evidencia sua materialidade, no aparato
técnico e na linguagem – que é a elaboração da língua – em suas mais variadas
formas (falada, escrita, simbólica etc.), pois que estas são a materialização do
pensamento.
No que tange ao conceitual, temos, em princípio, o instrumento comuni-
cacional básico à sobrevivência, admitido como um fator inerente ao ser humano
e o fenômeno comunicacional, em sentido mais amplo, definido como o vetor que
perpassa todas as relações ou o vetor relacional, por excelência. É este segundo
atributo, o que dá relevância à comunicação, para além de mero instrumento; esta
se traduz, nesta análise, no discurso. Este está para a linguagem, analogamente a
esta, em relação à língua. O discurso é a materialização do pensamento e, concei-
tualmente falando – aludindo à intencionalidade com que se elabora o discurso
– alia-se à ação para produzir “lugares” (SERPA, 2011, p.16).
A mídia – ampliação espaço-temporal das possibilidades e potencialida-
des comunicacionais – não é outra coisa, senão o esperado corolário do inevitável
processo de avanço tecnológico. Em função das demandas sociais constantemente
geradas, a tecnologia, no sentido mais amplo que o termo se permite, não só a co-
municacional, há que responder atendendo àquelas demandas satisfatoriamente,
mantendo a proporcionalidade do estado das técnicas em relação às características
da sociedade em cada período ou época histórica (SANTOS, 2006, p. 111).
O lugar – que neste trabalho traduz-se no bairro – é o continente material
das ações e representações, bem como, em relação ao que há pouco se afirmou, a
instância social produzida pela ação e pelo discurso, ou, conforme Milton Santos
(idem, p. 39), o espaço que encontra sua dinâmica e se transforma pelos objetos
e ações. O lugar é a primeira dimensão ou recorte espacial; é no lugar que todas
as iniciativas são engendradas. No aspecto material, tanto quanto no conceitual, o
lugar manifesta-se de modo multiescalar e onipresencial. De todas as dimensões
espaciais, o lugar é a que guarda relação com a identidade e o cotidiano, pois é no
lugar que descobrimos o mundo (SANTOS, 2006, p. 212).
No processo dialético aqui analisado, a comunicação representa os atores
sociais, ou a sociedade. A mídia, conforme o próprio nome sugere é o mediador
tecnológico daquele processo. O lugar, por sua vez, além de sua materialidade, é a
190 Comunicação, Mídia e Lugar

plataforma para a construção de ações e discursos (SERPA, 2011, sinopse). Esta é


a síntese do processo de articulação social de que aqui se fala. Ou seja, as classes
sociais não hegemônicas, que são atores sociais (representados pela comunica-
ção), articulados socialmente, visando, a partir da apropriação socioespacial dos
meios de comunicação (mídia), à construção de ações e discursos que produzem
“lugares” (idem, p. 16).
A apropriação socioespacial dos meios de comunicação não é um ato
único. Esta se constitui em um processo, um construto histórico, que se desenrola
dentro da noção de proporcionalidade entre sociedade e técnica (SANTOS, 2006,
p. 111), sob a perspectiva material/conceitual.
Pode-se projetar o corolário, ou a culminância desse processo de apro-
priação: a construção de um espaço, ou esfera pública (nas palavras de Serpa
2011), verdadeiramente percebido e sentido como social.

Carlos Fernando Leite é pesquisador da Universidade de Sorocaba, Faculdade de


Filosofia, Pesquisador – PIBIC. Sorocaba - SP - Brasil. 18023-000. E-mail: bubba.johnnyreb@
hotmail.com.

Paulo Celso da Silva é pesquisador da Universidade de Sorocaba, Programa de Mes-


trado em Comunicação e Cultura - Sorocaba - SP - Brasil. 18023-000. E-mail: paulo.silva@
prof.uniso.br

Referências:
LEFEBVRE, H. O Direito à Cidade. São Paulo: Ed. Moraes, 1991.
SANTOS, M. A Natureza do Espaço. São Paulo: HUCITEC, 1996.
SARLO. B. La Ciudad Vista. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2009.
SENNET, R. Carne e Pedra. O corpo e a cidade na civilização ocidental. Tradução de
Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro: Record, 1997.
SERPA, A. Lugar e Mídia. São Paulo: Contexto, 2011.
NAVEGAÇÕES
LUGAR COMUM Nº42, pp. 193- 208

Forma jurídica e luta de classe

Pedro Eduardo Zini Davoglio

Introdução
O marxismo, esse nome vazio45, que não pode indicar mais do que uma
tradição extremamente heterogênea, contabiliza na história dos seus descaminhos
um número dramático de reducionismos, mecanicismos, finalismos46. O próprio
Marx – comumente santificado no altar do Pai por todas as partes envolvidas na
infinita querela que tem seu legado como objeto – não escapou dessa tentação tão
moderna, e acumula ao longo de seus escritos, até mesmo de maturidade, uma sé-
rie de “derrapagens” teleológicas, empiristas, mecanicistas47. Não obstante a per-
manência em sua obra de alguns desses impasses, foi Marx o primeiro a nos for-
necer os instrumentos teóricos necessários à ruptura irrevogável com a ideologia
filosófica que se impunha até então e à fundação de uma compreensão científica
da história. Nesse sentido é que a sua descoberta revolucionária torna-se para
sempre irredutível aos erros teóricos e políticos do marxismo – aos seus próprios
e àqueles cometidos em seu nome. É, portanto, precisamente ao delimitar o objeto

45 “Sobre o primeiro ponto, penso, para dizê-lo completamente abruptamente, que o marxismo
não existe. Como já o lembrei, Sylvain Lazarus estabeleceu que entre Marx e Lenine existe
não continuidade e desenvolvimento, mas ruptura e fundação. Existe igualmente ruptura entre
Estaline e Lenine, depois entre Mao e Estaline. Althusser é ainda uma tentativa diferente. E o
que complica o quadro é que todas estas rupturas são elas próprias de natureza diferente. Tudo
isso faz com que ‘marxismo’ seja o nome (vazio) de um conjunto absolutamente inconsistente,
a partir do momento em que o referenciamos – como devemos – à história das singularidades
políticas”. BADIOU, Alain. O subjetivo sem sujeito. In: Compêndio de metapolítica. Tradução
de Filipe Duarte. Lisboa: Instituto Piaget, 1998.
46 Bastaria citar aqui o dramático exemplo do DIAMAT, codificação marxista feita sob o go-
verno Stálin, mas há um número gigantesco de concepções de natureza similar, da social-de-
mocracia alemã aos soviéticos.
47 “O monopólio do capital se converte num entrave para o modo de produção que floresceu
com ele e sob ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho atingem
um grau em que se tornam incompatíveis com seu invólucro capitalista. O entrave é arrebenta-
do. Soa a hora derradeira da propriedade privada capitalista, e os expropriadores são expropria-
dos. (...) a produção capitalista produz, com a mesma necessidade de um processo natural, sua
própria negação.” MARX, Karl. O capital. Livro 1. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2013. p.832
194 Forma jurídica e luta de classe

de estudo da história, distinguindo-o de uma vez por todas daqueles da ideologia


que o precedeu, ao propor uma problemática teórica adequada à apropriação da
realidade social, que Marx funda uma nova noção de prática e, portanto, de prática
teórica, conferindo um novo estatuto à inteligência dos modos da sociabilidade
humana, o que traz consigo, de imediato, um sem número de implicações, sobre-
tudo filosóficas48, que ainda estão, em muitos sentidos, por serem desdobradas.
O objetivo deste trabalho é testar certas hipóteses que visam a dar conta
de algumas – poucas! – das consequências dessa descoberta. Interrogando seus
lapsos, perseguir as pegadas deixadas por esse ato criador: lê-lo “à luz do dia”
para extrair, embora parcial e sumariamente, elementos para o estudo do objeto
jurídico, que está no centro das preocupações teóricas de uma pesquisa mais longa
em desenvolvimento. Para tanto, será preciso, em primeiro lugar, retomar algumas
proposições que concernem à especificidade da descoberta marxiana, evidencian-
do as chaves de leitura que nos situam em face dela. Trata-se aqui de confessar em
que reside a culpa nessa que será, como qualquer outra seria, uma leitura culpada.
Disso deverá resultar a apreensão do conceito de todo estruturado determinado em
última instância cuja inteligibilidade teórica é orquestrada pela tese do primado
do encontro sobre a forma. Cumprida tal tarefa, será possível resgatar no centro
do debate jurídico soviético49 o restante dos conceitos aptos a situarem o direito
como um momento necessário da constituição e da reprodução da sociabilidade do
capital, respeitando o caráter radicalmente contingente da sua existência histórica.

A especificidade da ciência da história em Marx


Em que consiste, então, a especificidade da démarche marxiana? Qual a
natureza extraordinária e inédita de seu objeto que fez ruir de uma vez por todas
a problemática idealista da ideologia filosófica em que o próprio Marx esteve
envolto pelo menos até 1845? Para ir direto ao ponto, diremos que o método em

48 “La filosofia nació (Platón) con la apertura del continente de la Matemática. Fue transforma-
da (Descartes) por la apertura del continente de la Física. Actualmente es revolucionada por la
apertura del continente de la Historia hecha por Marx. Esta revolución se llama materialismo
dialétctico. Las transformaciones de la filosofia siempre son un eco de los grandes descubri-
mientos científicos. Ellas se producen, essencialmente, después de éstos. Ésta es la razón por la
cual en la teoría marxista la filosofía está en retraso con relación a la ciencia. Hay otras razones
que todo el mundo conoce. Pero en la actualidade ésta es la razón dominante.” ALTHUSSER,
Louis. La filosofía como arma de la revolución. México DF: Siglo XXI Editores, 1974. p.15.
49 Para a definição e um panorama do debate jurídico soviético ver: CERRONI, Umberto. Pen-
samento jurídico soviético. Tradução de Maria de Lurdes Sá Nogueira. Europa-América, 1976.
Pedro Eduardo Zini Davoglio 195

Marx, o Marx maduro de O capital, teve, na lógica profunda da articulação de


seus conceitos fundamentais, o mérito de ser o primeiro a nos fornecer os ele-
mentos necessários para, de um só golpe: a) afastar todo empirismo, delimitando
precisamente a separação entre objeto real e objeto de conhecimento; b) afas-
tar todo mecanicismo e toda teleologia, propondo uma concepção de sociedade,
como um complexo sempre-já-dado de estruturas que se articulam em múltiplas
temporalidades diferenciais, cujas contradições flutuantes estão sob permanente
determinação das relações sociais de produção, que obedece, por sua vez à con-
tingência absoluta da luta de classes.

a) Objeto real e objeto de conhecimento: o anti-empirismo marxiano


Em 1964 Michel Foucault proferiu uma conferência tematizando o im-
pacto gerado pelas “técnicas de interpretação” de Marx, Nietzsche e Freud sobre
o pensamento ocidental. Desde os gregos, diz ele então, a filosofia nutre suspeitas
de que “a linguagem não diz exatamente o que ela diz” (FOUCAULT, 2000, p.40),
que sob o sentido imediatamente expresso nas palavras, haveria um outro, mais
forte e mais essencial; e de que a linguagem “ultrapassa sua forma propriamente
verbal” (Idem), de que a natureza, os acontecimentos ao nosso redor, teriam, sob
o seu véu obscuro, um discurso e uma significação inauditas. Surgiram, portanto,
ao longo da história, uma miríade de formas de interpretação, de pensamentos
sobre o verdadeiro modo de acessar a verdade desse discurso, sempre latente sob
as palavras e os acontecimentos. Na modernidade – isto é, na aurora do capitalis-
mo –, contudo, esse tipo de visão teria sido completamente soterrado. Os séculos
XVII e XVIII teriam eliminado de vez a interpretação e instaurado a soberania de
uma leitura imediata da essência na existência, de uma unidade entre Logos e Ser.
Marx, Nietzsche e Freud desempenhariam então, segundo Foucault, o papel de re-
fundar a possibilidade – e a necessidade – da leitura e da interpretação dos textos
e do mundo. Teriam sido, portanto, os responsáveis por restabelecer a metáfora
do hieróglifo, que estaria, entretanto, lastreada numa compreensão absolutamente
nova do real, dos signos e da sua prática interpretativa.
Retomo esse ensaio, pois considero que de modo algum é ocasional o
fato de, no ano seguinte, Louis Althusser ter aberto a obra coletiva Ler O capital
com uma reflexão sobre “o que é ler?”, invocando esses mesmos três autores e
sentenciando que a falta de interpretar, por ser ela mesmo inevitável, é uma “falta
boa” (ALTHUSSER, 1973, p. 12). É, sem dúvida, no rescaldo de tal contextua-
lização e, sobretudo, da proposição de um novo estatuto da leitura que Althusser
afirma viver o tempo do aprendizado mais dramático da humanidade, aquele que
196 Forma jurídica e luta de classe

diz respeito ao sentido dos atos mais simples da existência: ver, escutar, falar, ler.
Esse recuo arrojado, que absolve Marx ex ante da acusação de padre moderno de
uma metanarrativa, tem como objetivo claro e imediato minar as bases teóricas
da posição empirista, aquela que pugna, para falar em termos althusserianos, a
unidade entre objeto real e objeto de conhecimento, e portanto a leitura do mundo
como um livro aberto.
Pois se é possível encontrar nos Manuscritos de 1844, jamais publicados
em vida por Marx, petições de natureza abertamente empirista50, com o abando-
no dessa problemática de juventude, baseada numa compreensão específica da
alienação feuerbachiana51, e a aquisição de um novo dispositivo teórico, fundado
na articulação de conceitos como relações de produção, forças produtivas, base
e superestrutura, o autor nos apresenta um entendimento renovado e vertiginosa-
mente materialista da prática científica e, mais genericamente, da prática teórica,
capaz de superar uma série de abordagens ideológicas, sobretudo no que se refere
à natureza do objeto das ciências.
Os poucos textos nos quais Marx fala diretamente sobre o seu método
nos dão testemunhos eloquentes a esse respeito. A Introdução de 59, em particu-

50 “A sensibilidade (vide Feuerbach) tem de ser a base de toda ciência. Apenas quando esta
parte daquela na dupla figura tanto da consciência sensível quanto da carência sensível – por-
tanto apenas quando a ciência parte da natureza – ela é ciência efetiva. A fim de que o “homem”
se torne objeto da consciência sensível e a carência do “homem enquanto homem” se torne
necessidade (Bedürfnis), para isso a história inteira é a história da preparação / a história do de-
senvolvimento. A história mesma é uma parte efetiva da história natural, do devir da natureza
até ao homem. Tanto a ciência natural subsumirá mais tarde precisamente a ciência do homem
quanto a ciência do homem subsumirá sob si a ciência natural: será uma ciência. X – O homem
é o objeto imediato da ciência natural; pois a natureza sensível imediata para o homem é ime-
diatamente a sensibilidade humana (uma expressão idêntica), imediatamente como o homem
outro existindo sensivelmente para ele; pois sua própria sensibilidade primeiramente existe por
intermédio do outro homem enquanto sensibilidade humana para ele mesmo. Mas a natureza é
o objeto imediato da ciência do homem. O primeiro objeto do homem – o homem – é a natureza,
sensibilidade, e as forças essenciais humanas sensíveis particulares; tal como encontram apenas
em objetos naturais sua efetivação objetiva, [essas forças essenciais humanas] podem encon-
trar apenas na ciência do ser natural em geral seu conhecimento de si. O elemento do próprio
pensar, o elemento da externação de vida do pensamento, a linguagem, é de natureza sensível.
A efetividade social da natureza e a ciência natural humana ou a ciência natural do homem são
expressões idênticas.” (Itálico no original, sublinhado por mim). MARX, Karl. Manuscritos
econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004. p.112
51 Ver p. 47 e seguintes de: ALTHUSSER, Louis. Análise crítica da teoria marxista. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1967.
Pedro Eduardo Zini Davoglio 197

lar, está cravejada de considerações cujo caráter antiempirista é absolutamente


evidente. “O concreto é concreto, porque é a síntese de muitas determinações, isto
é, unidade do diverso”; “o concreto aparece no pensamento como o processo da
síntese, como resultado, não como ponto de partida”; “as determinações abstratas
conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento”; “o método que
consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira de proceder
o pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo mentalmente como
coisa concreta” (MARX, 2008, p. 258). E uma particularmente sintomática:

a totalidade concreta, como totalidade de pensamento, como uma concreção


de pensamento, é, na realidade, um produto do pensar, do conceber; não é de
nenhum modo o produto do conceito que se engendra a si mesmo e que concebe
separadamente e acima da intuição e da representação, mas é elaboração da
intuição e da representação em conceitos (Ibid., p.259)

Estão aí sintetizadas as principais chaves de sua concepção de ciência.


Incialmente, o sistema científico é criado a partir da abstração de formas realmen-
te existentes, isto é, não se trata de tomar um objeto pré-existente, dado a priori,
mas de forjá-lo, construí-lo como um concreto pensado, como a síntese teórica de
uma série de determinações do real. Esse concreto é, portanto, a reprodução do
real no pensamento, um modo de apropriação do real por meio do pensamento,
e não uma transposição direta desse real para o pensamento. Assim, concebe-se,
segundo Althusser, a divisão entre objeto real e objeto de conhecimento. Este é
constituído pela ciência como instrumento, como meio de produção teórica, capaz
de trabalhar a si mesmo apropriando-se do real, distinguindo-se da história viva,
dos processos orgânicos do todo social de que visa apropriar-se e conhecer. A
ciência é aí pensada como prática teórica, como transformação de uma matéria-
-prima, a intuição, a representação, por meio de uma força produtiva, a problemá-
tica teórica, cujo resultado é um produto inteiramente novo, cuja inteligibilidade
é fornecida pelo próprio campo de sua produção.52

b) Um todo complexo sempre-já-dado


Ao menos desde Hegel o conflito, expresso no conceito de contradição,
apresenta-se como o móbil da história e, portanto, como a chave teórica para com-
preendê-la. Entretanto, tal categoria assume no pensamento do autor o estatuto de

52 Trata-se de um célebre, tanto quanto mal compreendido, processo de generalidades, a res-


peito do qual não há necessidade de nos estendermos aqui. Para mais: ALTHUSSER, Louis.
A dialética marxista. In, Análise crítica da teoria marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1967.
198 Forma jurídica e luta de classe

uma causalidade simples que, para enunciar esquematicamente, pugna a reduti-


bilidade do todo social a um único princípio de interioridade, que pensa os seus
elementos como mera expressão fenomênica dessa unidade, como suas pars tota-
lis53. Assim, em Hegel todas as contradições remontam à mesma contradição ori-
ginária, fundante, da qual são meros epifenômenos, essência alienada na história.
A dialética hegeliana seria, portanto, conforme Althusser, “totalmente dependente
dessa pressuposição radical de uma unidade originária simples, desenvolvendo-se
no seio de si mesma pela virtude da negatividade” restaurando reiteradamente, a
todo tempo, tal “simplicidade originária” (ALTHUSSER, 1967).
No ato de forjar um pensamento materialista como solução aos impas-
ses apresentados por esse tipo de concepção espiritualista do todo, bem como
pela noção de contradição e o modelo causal que a acompanham, Marx funda
uma problemática capaz de operar a reconstrução do objeto da ciência da história
como um “todo complexo estruturado já-dado” (Ibid., p. 169) com dominante.
Nesse processo, a categoria de contradição desempenha papel central, sofrendo
uma verdadeira transmutação de natureza. Pois se, como dissemos, em Hegel a
contradição refere-se a um “processo simples de dois contrários” (Ibid., p. 173),
em Marx ela passará a designar o choque de múltiplos contrários no interior de
uma realidade cuja consistência é a de uma estrutura. Segundo Mao Tse-Tung,
para que sejamos capazes de compreender a natureza dessa transformação, será
preciso entender a distinção decisiva, entre a contradição principal e as contradi-
ções secundárias, seus aspectos principal e secundário54 e a lógica do seu “desen-
volvimento desigual”55. É nessa articulação, diz ele, que reside a especificidade
fundamental do pensamento marxiano.
A distinção entre contradição principal e contradições secundárias reme-
te diretamente à complexidade dos processos sociais que são objeto da ciência da
história. Tal divisão supõe, evidentemente, por princípio, a existência de múltiplas
contradições, sem as quais seria impossível opor uma e outras. É essa complexi-
dade objetiva que afasta de uma vez por todas a possibilidade de remontar, como
em Hegel, o processo histórico a uma origem simples – ou projetar seu telos, o

53 Ver MORFINO, Vittorio. O primado do encontros sobre a forma. Revista Crítica Marxista,
n. 23. São Paulo, 2005.
54 “Na questão do caráter específico da contradição, restam dois elementos que requerem uma
análise particular, a saber: a contradição principal e o aspecto principal da contradição” TSE-
-TUNG, Mao. Sobre a prática e sobre a contradição. Expressão Popular: São Paulo: 1999. p. 70.
55 “Em qualquer contradição, os pólos contrários desenvolvem-se de maneira desigual”. Ibid.,
p. 73.
Pedro Eduardo Zini Davoglio 199

que é o mesmo –, de modo que ele só pode ser tomado como “já-dado”, como
momento específico do desenvolvimento histórico de uma estrutura. A distinção
entre aspecto principal e secundário de cada contradição vem, portanto, ao en-
contro da necessidade de pensar a vertiginosa multiplicidade da totalidade aberta
que é a história. Essa separação é, assim, responsável por indicar o reflexo da
complexidade do todo no interior de cada contradição, isto é, por expressar a
condição de que cada contradição de uma cadeia complexa é dominada por um de
seus aspectos internos.
Diremos, portanto, que a cada momento da conjuntura é possível iden-
tificar uma contradição principal, e uma série de contradições secundárias, cada
uma delas dominada por um de seus aspectos internos. A ilustração é cristalina:

na sociedade capitalista, as duas forças em contradição, o proletariado e a bur-


guesia, formam a contradição principal; as outras contradições, por exemplo, a
contradição entre os restos da classe feudal e a burguesia, a contradição entre a
pequena burguesia camponesa e a burguesia, a contradição entre o proletariado
e a pequena burguesia camponesa, a contradição entre a burguesia liberal e a
burguesia monopolista, a contradição entre a democracia e o fascismo no seio
da burguesia, as contradições entre os países capitalistas e as contradições entre
o imperialismo e as colônias, todas são determinadas pela contradição principal
ou sujeitas à influência desta. (TSE-TUNG, 1999, p.70).

Essa posição prioritária, contudo, não é um elemento inerte, compo-


nente da substância mesma da contradição, mas, ao contrário, o resultado de
um longo processo histórico ao mesmo tempo que de movimentos imediatos
e contingentes próprios de cada conjuntura. Assim, é da natureza profunda do
funcionamento da totalidade complexa o deslocar-se da contradição principal, a
alternação a cada temporalidade do papel desempenhado por cada contradição.
É ao modo específico dessa variabilidade que nos referimos anteriormente com
o conceito maoísta de “desenvolvimento desigual”. Mais uma vez a análise do
caso chinês é iluminadora:

Quando o imperialismo lança uma guerra de agressão contra um tal país, as


diversas classes desse país, excetuado o pequeno número de traidores à nação,
podem se reunir temporariamente numa guerra nacional contra o imperialismo.
A contradição entre o imperialismo e o país considerado passa então a ser a
contradição principal e todas as contradições entre as diversas classes no inte-
rior do país (incluída a que era a contradição principal, a contradição entre o
regime feudal e as massas populares) passam temporariamente para um plano
secundário, para uma posição subordinada. (Ibid., p.71)
200 Forma jurídica e luta de classe

Compreender a contradição no interior dessa problemática significa num


nível mais profundo, atribuir a dignidade de uma existência real a todas as contra-
dições e, mais precisamente, conceber que cada contradição presente numa dada
estrutura, por mais secundária que seja, é uma condição absoluta e necessária
– necessidade do já-dado – da existência de todas as outras. A essa imbricação
profunda, princípio basilar da causalidade em cena nos processos históricos, a
essa determinação recíproca, desigual, estrutural, complexa, Althusser dá o nome
de “sobredeterminação”.
Compreendido isso, poderemos avançar um pouco mais, e responder à
questão derradeira que se impõe imediatamente em face do que acabamos de sus-
tentar. Estaríamos aqui contradizendo o princípio tão caro à tradição marxista
de que a economia – ou nos precavendo contra o economicismo: as relações de
produção – desempenharia um papel prioritário na determinação das transforma-
ções das formações sociais? De modo algum, responderemos com Althusser. Sem
dúvida estamos a quilômetros de distância do tipo de entendimento mecanicista,
“que estabelece, de uma vez por todas, a hierarquia das instâncias, fixa a cada uma
a sua essência e o seu papel, e define o sentido unívoco das suas relações”; “que
identifica, de antemão e para sempre, a contradição-determinante-em-última-ins-
tância com o papel de contradição-dominante” (ALTHUSSER, 1967, p. 188). A
determinação em última instância pelo econômico – pelas contradições econômi-
cas –, a que se referiu incessantemente Engels, é antes o princípio fundador dessa
desigualdade essencial na lógica de desenvolvimento das contradições. Diremos,
assim, que não é o econômico “em pessoa”, que desempenha a todo momento
o papel dominante no modo de produção, mas é ele que articula a relação de
dominância de cada contradição em cada corte da conjuntura, é ele que unifica a
totalidade aberta sob o imperativo da valorização do valor: quando determinadas
formas de existência do capital subsumem materialmente as relações de produção
é que as categorias do modo de capitalista de produzir a vida logram se generali-
zar enquanto tal e compactar a totalidade social sob o fetiche da mercadoria. Creio
que tudo ficará mais claro conforme o argumento se desdobre.

Forma social e reprodução ampliada


Chegamos aqui ao ponto nodal do presente trabalho, qual seja, o con-
ceito de forma social como chave da teoria da reprodução ampliada do modo de
produção capitalista e a sua relação com o princípio da luta de classes. Se, como
dissemos, a história em Marx é concebida como um todo orgânico movido por uma
quantidade enorme de contradições que se imbricam, em que cada uma é a condi-
Pedro Eduardo Zini Davoglio 201

ção de existência necessária e absoluta de todas as outras, deveremos agora avan-


çar um pouco e situá-las em relação ao conceito de modo de produção, e ao modelo
geral de sua existência histórica nas sociedades capitalistas plenamente instaladas.
Em sua Contribuição à crítica da economia política Marx tornou célebre
a tópica descritiva do modo de produção como articulação entre base econômica e
superestrutura56. Essa metáfora presta-se evidentemente a dois papéis principais:
o de indicar a determinação em última instância do econômico sobre as outras es-
feras do todo social; mas, mais fundamentalmente, e é isto que nos interessa aqui,
o de estabelecer subdivisões “regionais” nesse todo. Dessa maneira, a noção de
modo de produção daí resultante é a de uma estrutura de estruturas, um todo arti-
culado em instâncias. Preliminarmente, portanto, diremos que está aqui introduzi-
da uma geografia das contradições estruturais, que a hierarquização do índice de
eficácia de cada contradição responde a uma divisão tópica do todo; que a “força”
de cada contradição depende do local em que está situada no mapa da estrutura.
Tal explicação, em que uma metáfora toma o lugar de uma demonstração
rigorosa, é, pela sua própria natureza, insuficiente do ponto de vista científico. O
inconveniente gerado pelo uso descritivo de conceitos como o de instância é apon-
tado por Mascaro quando nos diz que este encontra limites para “operar distinções
pela estrutura ou pela função de instituições reunidas” (2013, p. 38), fazendo-o
comparativamente a partir de manifestações fenomênicas, i.e., ideológicas. Por
isso, acaba “quase sempre soma[ndo] regiões cujas formas sociais e instituições
são distintas entre si” (Idem). Essa metáfora, portanto, deve ser tomada como uma
distinção preliminar, servindo apenas para indicar separações aproximativas.
À vista disso, nos é aqui exigida uma outra categoria, apta a evidenciar a
distinção precisa entre os núcleos orgânicos da sociabilidade e, por conseguinte,
dos espaços de deslocamento e de condensação das contradições sociais histori-
camente existentes. Como tentei demonstrar em outro lugar57, essa categoria é a
de forma social. Semelhante conceito nos é fornecido pelo próprio Marx e, se o

56 “O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus es-
tudos, pode ser formulado, resumidamente assim: na produção social da própria existência, os
homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas
relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças
produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica
da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência.” (MARX, 2008, p. 47).
57 DAVOGLIO, Pedro. A ‘coerção da forma’: elementos teóricos para a compreensão do di-
reito como forma social. In: Anais do seminário direito e democracia (2012). Florianópolis:
Cultura e Barbárie, 2013. p. 25-39.
202 Forma jurídica e luta de classe

compreendo bem, está intimamente ligado ao de fetiche tal como apresentado no


final da seção 1 do livro 1 de O capital. Ele diria respeito a determinados conjun-
tos de relações sociais que, servindo como momentos elementares da definição
de um modelo específico de sociabilidade, adquirem a consistência de coisas,
de dados naturais. A mercadoria pode funcionar aqui como um exemplo parti-
cularmente ilustrativo. Vejamos. Numa sociedade capitalista, tudo o que existe
apresenta-se à experiência sensível do homem sob a forma de mercadoria. Um
casaco, p. ex., tem por valor de uso aquecer o seu proprietário. Na sociedade do
capital, contudo, o seu valor prioritário não reside no uso, mas na troca. Assim,
o fabricante de casacos jamais computa quando do planejamento da produção, o
número daqueles que têm frio, mas o daqueles que podem comprar o seu produto.
É da lógica de um modo de viver tal, em que tudo se produz para vender, em que
a forma hegemônica assumida pela circulação de bens é a da compra e venda, que
todas as coisas apareçam de imediato como se fossem naturalmente mercadorias.
Aí, o preço apresenta-se sempre como um atributo inerente a cada coisa, como
uma parcela da sua própria substância, um caractere suprahistórico de tudo o que
existe. Este é o fetiche da mercadoria, da forma mercadoria: no capitalismo o “ser
mercadoria”, produto do desenvolvimento histórico, aparece como um atributo
natural, coisificado, de todo valor de uso. Nesse sentido diremos que o “ser mer-
cadoria” constitui-se como forma social, como relação social coisificada, forma
histórica de existência, invólucro fetichizado, que se apresenta imediatamente
como atributo natural.
O modo de produção capitalista, e aqui nos basta indicar isso, não é o
único a ter formas sociais. E a forma mercadoria não é, por sua vez, a única for-
ma social definidora desse modo de produção. Há antes um conjunto de outras
formas cuja existência específica restringe-se a ele: forma valor, forma dinheiro,
forma política, e para irmos direto ao ponto, forma jurídica. Com isso já somos
capazes de apresentar a definição do conceito de modo de produção como uma
cadeia articulada de formas sociais específicas que estabelecem entre si relações
de sobredeterminação. Trata-se de uma definição que, apesar de esquemática, nos
levará ao centro nervoso de nosso objeto. Não sem antes um pequeno desvio.
Na abertura do seu ensaio sobre a Ideologia e Aparelhos Ideológicos de
Estado Althusser nos diz que para continuar viva, uma formação social mais do
que produzir bens úteis, precisa produzir as condições para a produção reiterada
desses bens. Mais do que produzir, é preciso reproduzir-se. É a isto, “reprodução
ampliada”, que nos referimos no título deste tópico. É a isso que Marx referiu-se
em todo o livro 2 de seu O capital. Se como nos disse o mesmo Marx, “não existe
Pedro Eduardo Zini Davoglio 203

produção em geral” (MARX, 2008, p. 241), e toda produção se dá a partir de rela-


ções historicamente estabelecidas, no interior de uma formação social r­ ealmente
existente, então, produzir a vida significa reproduzir formas sociais. Se os apare-
lhos econômicos e estatais existem como concretização contraditória de formas
sociais, como componentes de um todo que se auto-movimenta valorizando o
valor, capitalizando o capital, deve-se reconhecer uma relação íntima entre forma
social e reprodução ampliada: reprodução ampliada é reiterar a existência das
formas sociais elementares do modo de produção.

Forma jurídica e luta de classes


a) Forma jurídica e reprodução
O ensaio – Ideologia e Aparelhos... – segue explicando sumariamente
o esquema da reprodução ampliada do modo de produção capitalista. Divide-se
as condições a serem reiteradas em relações de produção e forças produtivas, e
nestas, meios de produção e força de trabalho. Avança-se então para o estudo da
importância da “superestrutura” na reprodução de tais condições e aprofunda-se
a análise da camada ideológica. O que nos interessa, contudo, é a tese geral, ali
sustentada, de que as relações “superestruturais”, isto é, o Estado, o direito, a re-
ligião, são um momento constitutivo, ineliminável, necessário, da reprodução do
todo social capitalista. Isso nos leva a reiterar algo que já vimos sob outra perspec-
tiva: a “superestrutura” (e as contradições que têm lugar nela) são tão reais, têm o
mesmo estatuto ontológico que a base econômica (e suas contradições); o direito
é tão capitalismo quanto a mercadoria.
Com isso tornamos mais palpável o que foi tratado no tópico sobre a ló-
gica de sobredeterminação das contradições. Esse enfoque investe de importância
decisiva o estudo da política, de suas formas institucionais e jurídicas, e afasta
maciçamente certas espécies de mecanicismo. É mediante tal aquisição que se
pode conceber um trabalho tal como a Teoria materialista do Estado de Joachim
Hirsch. Nele o autor propõe analisar o Estado como uma forma social especifi-
camente capitalista, isto é, como um componente imprescindível da sociedade
do capital. Aí, a burguesia como classe dominante, tendo abandonado a posse
imediata do aparato de violência física, pode fundar seu domínio não mais sobre
a escravização e o servilismo, mas na livre disposição de vontade do trabalhador
na esfera da circulação. Esse apartamento gera um sem número de decorrências
sobre as quais não nos deteremos aqui, já que, contra todo senso comum, a relação
entre o direito como forma social da historicidade capitalista e o Estado moderno
é logicamente indiferente e historicamente secundária.
204 Forma jurídica e luta de classe

É, então, em Evgny Pašukanis que podemos encontrar o primeiro e mais


decisivo desenvolvimento sistemático de uma concepção do direito como for-
ma social58. Ao responder à pergunta derradeira – por que a dominação burguesa
adquire precisamente a forma de direito e não outra? – o pensador soviético nos
põe imediatamente em face da íntima relação entre direito, sociedade burguesa,
e reprodução ampliada do capitalismo. Para isso, foi preciso desconstruir uma
série de fórmulas célebres no interior da tradição marxista e buscar na sutileza do
consentimneto que funda a dominação contemporânea, as chaves para pensar o
direito não apenas como um conjunto de aparatos repressivos e ideológicos, mas
como conjunto de condições constitutivas das próprias relações de produção, e
mais amplamente, reconhecer seu papel como elemento positivo da existência do
modo de produção.
Partindo de uma afirmação aparentemente banal de Marx – “As mercado-
rias não podem ir por si mesmas ao mercado e trocar-se umas pelas outras” (2013,
p. 159) – Pašukanis nos demonstra o vínculo direto entre o sujeito como agente
social e a circulação da mercadoria, esta átomo da sociabilidade burguesa. Tal
agente, nos diz o autor, para que possa ir ao mercado e efetuar trocas, realizando
valor e, portanto, completando o circuito do capital, não pode ser de natureza
qualquer, precisa, ao contrário, estar investido de algumas características impres-
cindíveis. Quais sejam, liberdade negocial e igualdade jurídica. É claro pois, que
para que uma troca seja efetuada dentro de parâmetros capitalistas de circulação,
ela deve estar baseada na livre vontade de indivíduos iguais entre si. Esses predi-
cados nucleares ao funcionamento da compra e da venda num mundo do mercado,
longe de representarem dádivas da natureza ou atributos inerentes à biologia do
Homem, são resultado de uma forma social de existência dos indivíduos: a forma
de sujeito de direito, peça chave da forma jurídica. (PASUKANIS, 1989, p. 84)
É, desse modo, apenas como desdobramento secundário, que a legali-
dade nasce enquanto ponto de acoplamento entre o aparato estatal e a lógica da
subjetividade jurídica. A lei é, portanto, sob esse aspecto particular, um elemento
estabilizador, que visa a dotar de maior previsibilidade e robustez um conjunto
de relações sociais fetichizadas existentes previa e independentemente dela. Por
outro lado, a relação jurídica fundamental é um componente imprescindível das
práticas sociais que são o meio material da permanência das relações de produ-

58 “não há dúvida de que a teoria marxista não deve apenas examinar o conteúdo concreto dos
ordenamentos jurídicos nas diferentes épocas históricas, mas fornecer também uma explicação
materialista do ordenamento jurídico como forma histórica determinada” (PASUKANIS, 1989,
p. 18).
Pedro Eduardo Zini Davoglio 205

ção e das forças produtivas capitalistas. Com isso temos que, independentemente
do conteúdo expresso e praticado das leis, que pode apresentar cunho bastante
progressista, o que caracteriza o pertencimento do direito à lógica de dominação
burguesa é a sua ossatura coisificada expressa no conceito de forma jurídica e no
modelo específico de subjetividade que ela impõe.

b) O primado da luta de classes


Esse tipo de concepção – de modo de produção como conjunto articulado
de formas sociais e, mais especificamente, do direito como uma forma social ti-
picamente capitalista – desperta a ira tanto de intelectuais progressistas quanto de
técnicos e militantes de movimentos sociais. Se não há nada em disputa “no inte-
rior” das formas, se é tudo questão de auto-reprodução de relações já dadas, deve-
ríamos, então, cruzar os braços resignados e sucumbir diante dos ciclos infinitos
dessa gigantesca máquina de aniquilar o desejo? Ou para propor em termos mais
científicos: a luta de classes teria sido completamente elidida dessa problemática
teórica? Respondo negativamente a essa indagação. Se olharmos com atenção
para o percurso que nos trouxe até aqui, uma série de elementos que permitem
refutar essas acusações já estão postos. Mas há ainda algo a avançar.
Parece-me que o antídoto contra esse tipo de ataque ideológico está na
afirmação da historicidade absoluta de todas as formas sociais. Se a história das
sociedades humanas pode ser definida como uma sucessão de modos de produ-
ção, se houve o escravagismo, o feudalismo, o capitalismo, cada um com formas
sociais absolutamente particulares, e cada um deles pereceu para dar lugar a outro
modelo social, isso indica que nem tudo está resolvido no interior da formalização
da reprodução. Haveria, portanto, um princípio capaz de decompor, mas sobretu-
do de compor, criar, constituir, formas sociais. E se tivermos de fato abandonado a
escatologia hegeliana e seus subprodutos, tal princípio não pode ser outro senão a
luta de classes. Temos então que a constituição de cada forma social é o resultado
contingente da resolução de uma multiplicidade de contradições, de tensões, i.e.,
de lutas, no interior de um todo aberto, porque virtualmente mutável.
Quando em seu A corrente subterrânea do materialismo do encontro
­Althusser sustenta que um novo mundo surge sempre de um “vazio”, não creio
que haja aí, ao menos neste ponto, e para ficar à margem da gigantesca querela
que envolve sua “teoria do encontro”, qualquer evento místico ou ideológico. Pelo
contrário, se minha leitura estiver correta, tudo indica que o referido vazio não é
mais do que a possibilidade da prática “fora” da forma social. Ou para abandonar
a metáfora (dentro/fora da forma): esse vazio indica justamente a ação social que
206 Forma jurídica e luta de classe

não é institucionalmente orquestrada pela forma social, que não é reprodução am-
pliada das condições de sociabilidade. O vazio, portanto, não é o fora do mundo,
mas o invisível à forma. Suspeito com isso me aproximar da leitura proposta por
Morfino em O primado do encontro sobre a forma, ensaio que sustenta a tão justa
quanto radical tese do primado da luta de classes sobre as formas sociais.
E para irmos mais longe: não seria esse póstumo e obscuro ensaio um
desenvolvimento de escopo mais amplo e literariamente mais instigante daque-
les elementos que aparecem esboçados no manuscrito Sobre a gênese de 1966
e relativamente bem elaborados no “providencialmente” pouco citado Posfácio
a Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado. Pois se naquele, Althusser nos
apresenta questionamentos a respeito da causalidade capaz de explicar adequa-
damente a transição entre os modos de produção, neste os aparelhos que são a
forma de existência material das formas sociais capitalistas são concebidos como
resultado de uma luta imanente da qual eles próprios são parte. Em todo caso,
o que nos importa reter aqui é enunciado claramente na seguinte frase: “A luta
pela reprodução da ideologia [como forma social] é um combate inacabado que
sempre é preciso retomar e que sempre está submetido à lei da luta de classe”
(ALTHUSSER, 1992, p. 111). Isso porque, conforme dissemos, as formas sociais
não são, apesar da sua aparência fenomênica, dados da natureza, mas resultado do
desenvolvimento das contradições que compõem a estrutura do todo social. São,
portanto, produto da luta de classes, que jamais são um fato consumado, mas pelo
contrário, um movimento incessante, inscrito na essência da sociabilidade cindida
pela exploração de classe.

Considerações finais
O presente trabalho nos permitiu identificar no método científico mar-
xiano um instrumento teórico capaz de captar na realidade social cindida pela
exploração, certa relação “dialética” entre as formas sociais enquanto elementos
constitutivos do modo de produção e a luta de classes como motor dos movimen-
tos históricos. No interior dessa problemática pudemos interrogar o nexo entre
o direito como forma e as contradições sociais que passam reiteradamente pelo
seu crivo. Se a análise nos termos propostos é adequada, pode-se concluir que
qualquer palavra de ordem que reivindique “disputar o direito” é completamente
desprovida de sentido, já que este se define, conforme sustentamos, justamente
pelo seu caráter nuclear e imprescindível à reprodução ampliada do capitalismo.
Trata-se, portanto, de, no máximo, problematizar o uso da legalidade e de outras
instituições enquanto momento derivado e relativamente autônomo da forma de
Pedro Eduardo Zini Davoglio 207

direto e da subjetividade jurídica. Isso, contudo, implica toda uma série de novos
questionamentos que devem ser analisados a seu tempo e com o rigor requerido
por toda ciência.

Pedro Eduardo Zini Davoglio é mestrando em Direito Político e Econômico pela


Universidade Presbiteriana Mackenzie. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de San-
ta Catarina (2012). Membro do Grupo de Pesquisa Cidadania e Direito pelo olhar da Filosofia:
Direito, Estado, Política e Capitalismo. Bolsista CAPES/PROSUP. E-mail: pedrodavoglio@
gmail.com. Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/6003609269253616.

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LUGAR COMUM Nº42, pp. 209- 222

Universidade biopolítica; razões


para novas lutas estudantis59

Carlos Enrique Restrepo

Aos estudantes, por suas indeclináveis lutas

O tema que proponho abordar é o da relação entre Universidade e Po-


der, mais especificamente o da forma de poder contemporaneamente denominado
biopolítica. Como espero delineá-lo rapidamente, ainda que não o faça de forma
propriamente rigorosa, a existência e as transformações da universidade resultam
inseparáveis de certa história do poder, sedimentado mesmo nas formas atuais, o
que torna necessário que se reveja para ganhar em compreensão – como em uma
polaróide – do exato momento no qual nos encontramos hoje. Para tal, emprego
o conceito geral de Biopolítica como estabelecido por Michel Foucault (2001;
2005; 2006), compreendido como exercício de poder sobre a vida, isto é, relativo
às novas formaçoes históricas nas quais a totalidade da vida (e não apenas aspec-
tos parciais) passam a ser objetos da administração, gestão e cálculo do poder.
Trata-se de um poder que poderiamos sintetizar sob o aspecto de sua tri-
pla articulação, a saber: um poder voltado ao mesmo tempo aos corpos, às condu-
tas e às almas, em uma estratégia de captura na qual a própria vida (e não somen-
te a vida humana) encontra-se submissa em sua totalidade. Para ir rapidamente,
minha tese é simples: a situação contemporânea da universidade não é somente
a do assédio ou abuso de grandes poderes aos quais ordinariamente associam-se
um modelo de gestão biopolítica (por exemplo, capitalismo global, estado policial
global), mas, além disso, a situação contemporânea da universidade é a do próprio
dispositivo no qual se formam e sobre o qual se erguem os centros do poder da
biopolítica: é como se o poder sobre a vida – na progressão de seu exercício – ti-
vesse sua origem na universidade. Proponho-me, pois, delinear nesta exposicão o
lugar “privilegiado” na qual a universidade se encontra.
A proposta aqui é, pois, a de delinear nesta exposição o lugar privilegiado
que a universidade ocupa hoje como centro dos centros do poder biopolitico: lu-
gar privilegiado, tanto por aquilo que significa para os interesses que hoje diputam

59 Tradução do espanhol por Cristiano Fagundes.


210 Universidade biopolítica

o controle global do espaço universitario, também por aquela possibilidade que


tal espaço oferece para o exercício global de resistência e contrapoder, que pode
ser promovido e propagado desde ali até o resto do campo social, isto é, se ainda
houver resquício da genuina força revolucionária característica das universidades.
Para isto, pois, reconstruamos em uma versão ligeira e condensada a sintese das
relações entre universidade e poder e a derivação biopolítica contemporânea.

Arqueologia da Universidade como elemento de Estado


Em uma idealização equivocada de si mesma, a universidade que surgiu
na idade média (aos fins do século XII) foi tradicionalmente considerada autôno-
ma e livre, e nesta medida, impermeável às intrusões do poder. Desta considera-
ção surgem dois principios aos quais nos acostumamos que diz respeito à defini-
ção da ideia de universidade, a saber 1) sua soberania incondicional e excepcional
respeito aos poderes (na idade média, os poderes religiosos e monarquicos), e
2) a liberdade de investigação (in vestigium ire). Distante do ideal sobre a qual
formou-se o conceito de universidade, a realidade de tais origens é bem diferente,
é portanto necessario definir o surgimento da universidade de uma forma mais
precisa60: não somente está desde os primórdios sujeita ao assalto e captura ao
serviço do poder (então concentrada entre as mãos do papado, do imperador ou
rei), como se afirma um poder desde os primórdios, porque desde suas origens a
universidade se auto-afirma como poder. O mestre Gonzalo Soto (2007) da Pon-
tificia Universidade Bolivariana nos faz relembrar com erudita precisão a relação
especifica que existe entre a universidade e o poder. Frente aos poderes dominan-
tes de seu tempo, constituídos pelo sacerdócium (o papado) e o regnum (principes
e emperadores), a universidade medieval surge como terceiro poder (stadium),
justamente por aqueles que adotaram os ofícios do saber61, mas se o ofício do
saber constituia uma salvaguarda frente aos outros poderes, é justamente porque

60 Em respeito a alguns de nossos própios escritos também, en especial, La destrucción de la


universidad. Autonomía y éxodo del conocimiento hacia la universidad nómada, publicado
en: La universidad por hacer. Perspectivas poshumanistas para tiempos de crisis. Medellín:
Universidad Pontificia Bolivariana, 2013, p. 85-101; versão em portugués: “A destruição da
universidade. Considerações sobre a universidade que vem”. En: Lugar comum, n. 37-38. Rio
de Janeiro: Rede Universidade Nomade (LABTeC/ESS/UFRJ), 2012, p. 241-251.
61 “Ao surgir, a universidade é o terceiro poder medieval frente ao Sacerdotium (Papado) e o
Regnum (príncipes y emperadores). Sua função serea a de preparar profissionais sábios (teó-
logos, advogados, canonistas, médicos...) que com sua sabedoria cumpram função chave na
estruturação dos próprios saberes e da sociedade” (SOTO POSADA, 2007: 404).
Carlos Enrique Restrepo 211

este ofício é um poder por si mesmo, e é por isso mesmo que nos postulações
foucaldianas nos chamam a jamais esquecer a relação que há entre poder e saber.
Por outro lado, sabemos que em toda sua organização medieval, a univer-
sidade é composta por quatro faculdades: a de Teologia, cuja proximidade com o
poder pastoral a converte e ao longo dos séculos seguintes é tornada rainha dos
saberes e da própria universidade; seguida por faculdades de Direito, Medicina
e Artes Liberais, esta última logo convertida em Faculdade de Filosofia, da qual
provirão distintos saberes específicos e disciplinas na Modernidade. Em princi-
pio, não se deve entender esta divisão por faculdades como uma questão relativa
ao poder; significa antes uma certa externalização das faculdades cognicitivas,
como se a universidade fosse uma objetivação da natureza humana separada em
suas potências (como indica o termo “faculdade”), cada uma capaz de produzir
em separado apenas alcances parciais, mas compondo um conjunto de funções
orgânicas voltadas à composição de um todo. Seis séculos mais tarde, porém, o
tema das faculdades é um problema estritamente relacionado ao poder. Referimo-
-nos especificamente ao surgimento da “universidade napoleônica” aos fins do
século XVIII, momento no qual a universidade é anexada como função do Estado,
de onde surge o modelo da universidade estatal (equivocadamente denominada
universidade “popular” ou “pública”), cuja crise vivenciamos hoje. Se o paradig-
ma deste novo modelo é a Universidade de Berlim (Universidades de Humboldt,
Fichte, Schleiermacher e Hegel, fundada em 1810), sua genese remonta aos filó-
sofos iluministas, especialmente Condorcet e Kant que, quase ao mesmo tempo
– ainda que em latitudes diferentes – desenhavam-na em seus escritos: As Cinco
memórias e o Relatório sobre o ensino público (1792-1794), no caso de Condor-
cet e o Conflito das faculdades (1794-1798) no caso de Kant (que exporei com
maior amplitude62).
Não menos que por uma questão de lógica, os escritos de Condorcet e de
Kant, nos quais a Universidade se transforma em uma função de Estado, possuem
algo em comum: o rechaço contra a supremacía da Faculdade de Teologia na
universidade. Para a universidade pensada por Condorcet, a faculdade de teologia
debe ser extinta sem ponderacões em nome do ideal das Luzes; para Kant, por sua
vez, não se trata de extingui-la, mas de submetê-la às suas limitações conquanto
formada por outras faculdades, agora agrupadas sob o seguinte modelo de organi-
zação: três Faculdades ditas “Superiores” (Teologia, Direito, Medicina), seguidas

62 O conjunto de textos de Condorcet sobre o tema inclui las Cinco memorias, el Informe y el
Proyecto de Decreto sobre o ensino público (Cf. Condorcet, 2001). Para o caso de Kant (1999),
seguirá seu escrito canónico sobre a universidade intitulado El conflicto de las facultades.
212 Universidade biopolítica

pela Faculdade de Filosofía como “faculdade inferior”. O que está na base deste
modelo é a questão do poder e, especialmente, o interesse em converter a univer-
sidade em uma garantia de sustentação do Estado, na medida em que as Faculda-
des (e especialmente as superiores) são consideradas por Kant como uma questão
de governo. Desta forma, a universidade para Kant é uma tecnologia, ou melhor,
um dispositivo de governo perfeitamente articulado na estratificação (mais que
uma estrutura) das Faculdades. A superioridade das primeiras residirá no aspecto
da manutenção da relação e ocupação direta de um lugar entre os poderes gover-
namentais; a faculdade inferior, por sua vez, não ocuparia, ao menos em aparên-
cia, um lugar semelhante em distribuição e exercício de poder, mas representaria
na verdade um lugar incômodo por seu caráter questionador do desempenho das
demais faculdades e, por extensão, do próprio governo.
Assim, a função governamental das faculdades superiores não poderia
ser mais alinhada à biopolitica: à faculdade de Teologia concerne o governo das
almas; ao Direito o governo das condutas e costumes; à medicina o governo dos
corpos, e não somente o trato de indivíduos, mas de toda a espécie. Seus repre-
sentantes respectivos são o sacerdote, o juiz, o médico, que adiante serão como
arcontes da cidade: os que repartem a pobre humanidade desmembrada naquilo
que cada um dos respectivos poderes tomam para si: a salvação sob os auspicios
da religião para o poder sacerdotal; a diretriz de costumes e condutas para o juiz;
a saúde, doença e o corpo em si para o médico. Na descrição de Kant, esta tecno-
logia governamental à qual a universidade se presta e na qual o Estado surge como
benfeitor da humanidade reza da seguinte forma:

Conforme a razão (ou seja, objetivamente), os meios que o governo pode utilizar
para cumprir sua meta (ou seja, o de influenciar o povo) seriam os seguintes:
em primeiro lugar com o bem eterno de cada um, seguindo-se do bem civil con-
quanto membro da sociedade e, finalmente, o bem corporal (vida longeva e saú-
de). Através das doutrinas públicas que concernem o primeiro, o governo pode
alançar uma enorme influência mesmo sobre os pensamentos mais íntimos e as
decisões mais reservadas dos súditos, revelando aquelas e manipulando estas;
por meio daquilo que concerne o segundo, mantêm sua conduta externa sob a
tutela das leis públicas; por meio do terceiro, assegura-se a subsistência de um
povo forte e numeroso que seja útil aos seus propósitos. Seguindo a razão, entre
as faculdades superiores deveria dar-se a hierarquia habitualmente admitida, a
saber: primeiro a faculdade de Teologia, depois a de Direito e, finalmente, a de
Medicina. Em contraposição, segundo o instinto natural, o médico deveria ser o
personagem mais importante da espécie humana, tratando-se de quem prolonga
sua vida, seguido do jurista, que se comprometeria em zelar pelos bens materiais
Carlos Enrique Restrepo 213

e, por último apenas (e quase ao umbral da morte), ainda que a dita eternidade
esteja em jogo, convoca-se o sacerdote, pois este –mesmo prezando pela felici-
dade do mundo futuro, mas não provendo nenhum testemunho do mesmo– roga
fervorosamente para que o médico permeneça alguns instantes mais no vale das
lágrimas. (KANT, 1999:5-6).

Como percebemos, de forma sucinta, Kant destrona a Faculdade de Teo­


logia e o primeiro lugar passa a ser ocupado pela faculdade de Medicina entre as
superiores, assim modificando completamente a estrutura da universidade. As-
sim, a primeira das faculdades está a serviço daquilo que tenha uma importância
imediata para a vida (biologica, terrena, corporal da espécie), enquanto as almas
cabem como preocupação no eterno, sem que se negligencie o poder pastoral
sobre o governo, ou seja, alcança “uma enorme influência mesmo sobre os pensa-
mentos mais íntimos e as decisões mais reservadas dos súditos, revelando aquelas
e manipulando estas”. Sobre as faculdades superiores, nos resta dizer que, sujeitas
à função governamental, já não serão mais faculdades livres. Esta liberdade é
perdida quando passam a depender dos orgãos de controle governamental e dos
próprios mandatos condensados nos respectivos aparatos de discurso e nos jogos
de verdade estabelecidos para cada Faculdade: o vademécum para o Médico, os
códigos para o juiz, as escrituras sagradas para o poder pastoral63.
Para a faculdade inferior ocorre todo o inverso. A de Filosofia não segue
nenhum livro determinado e é livre, a ponto de poder deliberar sobre as outras
faculdades (e o governo ele mesmo), mas que assim sendo é impotente, portanto,
por não ocupar lugar algum na distribuição orgânica do poder. Deixemos a des-
crição da Faculdade de Filosofia para outro momento, cuja capacidade de julgar
outras as obriga a mantê-la “afastada a respeitosa distância”, da mesma forma que
a consideração segundo a qual o governo ilustrado não deverá temer a liberdade
de raciocínio, sempre e quando esta faculdade se mantenha como inferior e con-
quanto mantenha a expressão de seus questionamentos entre os muros da univer-

63 O esquema kantiano pode ser considerado como o mesmo da obra de Foucault, e ainda, o
esquema da biopolítica. Foucault segue uma distribuição idéntica en sua análise de poder, tanto
da arqueología como da genealogía e práticas em sí. A Historia de la locura, ou Enfermedad
mental y personalidad, El poder psiquiátrico tratam o assunto do saber médico; Vigilar y cas-
tigar, La verdad y las formas jurídicas, entre muitos outros textos, tratam de Direito, ou alguns
como La noción de individuo peligroso en la psiquiatría legal tratam das hibridações entre
Medicina y Direito em função do poder; e textos sobre a pastoral cristã, que poderiamos dizer
tardíos na reflexão de Foucault, são analítica teologica y de religião cristã segundo a herança
ocidental. De certa forma, Foucault não pensa tanto a partir das disciplinas (como se acreditou),
mas pensa seguindo o dispositivo kantiano da universidade como lugar de poder.
214 Universidade biopolítica

sidade apenas, sem incitar o povo à sublevação, motivado por assuntos sobre os
quais – segundo Kant – nada entendem e deveriam ser deixados como discussões
acadêmicas às quais tampouco conviria ao governo adentrar (e esta conferência é
um bom exemplo disso).
Voltemos, pois, à nossa tese inicial. Desde o momento em que a universi-
dade é anexada como “função do Estado”, esta passa a ocupar um lugar central no
exercício de governo. E este governo que dirige corpos, condutas e almas desde os
tempos de Kant, prefigura uma tecnologia biopolítica que, mediante o dispositivo
das Faculdades Superiores, começa propriamente com a universidade.
Que isto seja uma reconstrução arqueológica da universidade, como a
revisão de um assunto que deveria estar suficientemente claro para todos os uni-
versitários, e a partir do qual poderemos projetar algumas considerações sobre o
contemporâneo.

O novo ecúmeno: o Capital


Como sabemos, a faculdade de Teologia, salvo em alguns casos, termi-
nou por desaparecer das universidades de Estado, apesar da tentativa de Kant de
mantê-la como função de governo. Entre outros motivos, porque o poder pastoral
não é uma função de Estado por própria natureza, mas referente a um poder tão
grande ou superior ao do Estado, considerando que é não é um poder temporal,
mas destinado à eternidade e contra o qual o Estado eventualmente entra em li-
tígio, aspecto que conhecemos na forma de divisão das grandes massas de poder
que são Igreja e Estado, cujo tratamento em todo caso não cabe a este plano.
Como quer que seja, o certo é que, contra as pretensões de Kant, a decisão de Con-
dorcet de retirar a teologia das universidades de Estado e torná-la uma faculdade
à parte como é hoje, apenas relevante às universidades confessionais (católicas e
protestantes), onde mantem – ainda que timidamente – seu papel de Faculdade
fundadora e senhora da Universidade, prevalesceu.
Não obstando esta supressão, a universidade nunca deixou de prestar o
serviço de governança das almas, mas esta faculdade foi transferida a uma terceira
e nova faculdade, surgida no desenvolvimento das novas forças sociais no século
XIX, segundo os novos conhecimentos estatais: a Faculdade de Economia que
passou paulatinamente a ocupar o lugar vazio deixado pela Teologia na distribui-
ção orgânica do poder estatal emanado da universidade.
Ao tratar de economia referimo-nos ao seu sentido amplo, não somente
o da Faculdade, de sorte que seu campo pode compreender outros saberes e dis-
ciplinas formadas no século XIX e XX em suas múltiplas hibridações (por exem-
Carlos Enrique Restrepo 215

plo, a estatística e sua hibridação com Medicina no controle da saúde pública),


e a cujo campo deveriam se somar as Ciencias Sociais, as Escolas Técnicas e de
Engenharia, cuja finalidade antiga tem sido essencialmente militar, até quando é
tornado possível outro tipo de apropriação do saber e do fazer para o implacável
uso e proveito governamental64.
Adotemos, pois, o conceito de economia como formulado por Aristóteles
(Pol.1253b 1-10), para quem, segundo Giorgio agamben, três tipos de relações
são englobadas: “as relaçoes despóticas entre mestres e escravos (que geralmen-
te incluem a direção de uma fazenda agrícola de grandes proporções), as rela-
ções patriarcais entre pais e filhos e as relações conjugais entre marido e mulher”
(AGAMBEN, 2008:41). Vale recordar que estas relações são o objeto primordial
da economia, e os bens materiais e relações de produção são apenas extensões
destas, assimilando-a tanto à função governamental quanto ao poder pastoral.
São, de fato, muitos os autores que postularam por uma gênese teológica não so-
mente relativa ao Estado sob o modelo da soberania, caso de Carl Schmitt (2009);
há igualmente o da gênese da economia sob o modelo teológico, como é o caso de
Max Weber (2004) em seu estudo sobre a ética protestante e o espírito do capita-
lismo, e o de Giorgio agamben que citamos, seguindo os preceitos de “O reino e
a Gloria: uma genealogia teológica da economia e de governo”.
Na modernidade, a economia fez parte da teoria de Estado principalmen-
te desde o Iluminismo, adotado sob forma de “economia política” (veja-se exem-
plo de Rousseau com seu artigo de Economia para a Enciclopédia de Diderot e
D´Alembert). Isto significa que a economia era tema de Estado, por exemplo, sob
forma de finanças públicas e outras matérias. Convertida, no entanto, em Faculda-
de universitária desde o século XIX, a economia permitiu a formação de um poder
ainda superior ao do Estado, a saber: o novo ecúmeno ao qual desde os tempos de
Marx chamamos genericamente de O Capital. Em um aspecto essencial, as rela-
ções de poder redistribuem-se com este novo saber, a ponto que a economia deixa
de ser uma função de Estado para tornar-se, por sua vez, função intermediária da

64 Notar que o surgimento da universidade napoleônica acompanha a tremenda organização


das escolas técnicas. Por outro lado, Jacques Derrida (1997) descreveu este dispositivo militar
com precisão, dos saberes de engenharia e técnico, que, segundo ele, extento atualmente à toda
universidade sob a forma de investigação e pesquisa, dispositivo “mais sensível nos países onde
a política de pesquisa depende estreitamente de estruturas estatais ou nacionalizadas, mas cujas
condições resultam cada vez mais homogêneas entre todas as sociedades industrializadas de
tecnologia avançada”. (DERRIDA, 1997: 127). Para outra tradução, cf. Derrida, 1984.
216 Universidade biopolítica

economia, de forma que a antiga economia polílica é substituída, como ocorre,


por uma política econômica.
Durante o século XIX, nutrida por novas forças e apoiada nos novos sa-
beres, a ecnomia tomou por objeto a produção sob a forma primária do trabalho
material e, concretamente, sob a forma de exploração, como foi magistralmente
descrito por Marx, cujo legado tem sido contribuição decisiva à emancipação
da humanidade. Atualmente, or sua vez, a economia voltou-se para o controle
de outras formas de produção como é o caso com o trabalho imaterial, uma vez
esgotadas as fases prévias do capitalismo artesanal e agrícola e do capitalismo
industrial, até chegar à fase do capitalismo na qual hoje nos encontramos: no
capitalismo cognitivo65.
Neste contexto, um novo governo (não mais estatal) se volta sobre a uni-
versidade ocupando todos seus espaços, ritmando todos seus movimentos, admi-
nistrando o conjunto dos saberees: a organização corporativa ou empresarial do
capital global, aquela que nos dias de hoje escraviza a largos passos a finada dita
“autonomia” da universidade. Mais uma vez, ainda que de modo mais terrível, a
universidade é anexada ao circuito de produção e de manutenção de um novo po-
der: o novo controle biopolítico dos corpos, das condutas, das almas, submetidos
a um dispositivo de gestão e cálculo racional, quando os conhecimentos, os talen-
tos, as capacidades, as forças criativas tornam-se genuinamente em fonte de valor,
e como tais em um novo objeto de exploração. Este modelo de gestão extenso a
todo campo social começa em aquelas que nunca deixaram de ser Faculdades
Superiores universitárias: o Direito, dedicado à manutenção da hiperinflação nor-
mativa e do poder de Estado em sua forma integral de lei; a Medicina, voltando
hoje a ser um verdadeiro flagelo dedicado ao controle populacional sob os rigores
da medicalização permanente – caso da psiquiatria, encarregada de dominar toda
resistência e calar todo pequeno foco discrepante66, mas especialmente com a fa-

65 Para o desenvolvimento desta concepção de capitalismo, vejam-se os trabajos dos filósofos


italianos Toni Negri, Paolo Virno, Franco Berardi (Bifo), Maurizio Lazzarato, Cristian Marazzi,
Giuseppe Cocco, Sandro Mezzadra, Gigi Roggero, entre outros.
66 A este respeito vale recordar a advertencia brutal de Steven Rose (2008) em seu livro Tu ce-
rebro mañana sobre uso político da medicina, tornada, aliás, requisito à “práctica pedagógica”:
“Junto à produção lícita e ilícita de novos empoderadores do estado de espirito y novas pilulas
da felicidade para que nos sintamos ‘melhor que bem’, o futuro oferece posibilidadede que uma
população inteira vague sem rumo pela vida, inmersa en una neblina de satisfação induzida
por drogas, em conformidade com as perspectivas de seu próprio futuro o de um futuro geral
de sociedade, com neuro-tecnologia pronta a eliminar os pequenos tremores de discrepância
que ainda resistem, formando desta maneira parte do formidável arsenal de meios estatais de
Carlos Enrique Restrepo 217

culdade de economia, nova senhora dedicada a manter e garantir a dívida infinita,


mais longeva e irredimível que o próprio pecado original; totalidade referendada
por um espaço policial global (o “monopólio legal da força”) sob a vigilância da
qual vemos desfilar a silenciosa procissão de acadêmicos, seres cinzentos ocupa-
dos demais com o escaneamento de seus diplomas, excessivamente assentados no
paraiso pequenoburguês do conforto professoral, desleixados diante da tarefa de
incomodar os agentes da mensuração, da estandartização, da creditação, da inde-
xação e outras cosméticas que hoje comandam a vida universitária: uma vida cada
vez mais irreconhecível, cada vez mais desapaixonada, cada vez mais funcional e
rotineira, onde a única coisa que vemos passar é a chegada de um novo modelo, a
expectativa de uma nova bolsa e um corpo docente tão despotenciado quanto seus
discursos, sob o canto das sereias da inovação e da investigação.
Voltando, portanto, ao concreto, as perguntas que nos concernem dire-
tamente a nós, aquí e agora: o que realmente estamos fazendo de nosso ser uni-
versitário? O que é, à luz da micro-história do saber e do poder, que estamos
fazendo da faculdade? À faculdade? A pregunta não parte apenas de quem ocupa
uma cadeira na Faculdade de Filosofia, seria uma torpeza imperdoável crer ao pé
da letra de Kant, para quem a filosofia não possui uma relação semelhante à das
outras e a relação destas com o poder. A filosofia também tem seu papel na manu-
tenção do poder, especialmente sob a forma da racionalidade que carcome todas
as faculdades de filosofia no mundo: a filosofia política do libralismo. A filosofia
se matêm perfeitamente sob a sombra dos poderes, e quando não, ocupa discretos
lugares mantendo estreitas relações com os centros de poder universitário. A filo-
sofia também serve ao entrelace biopolítico em razão do uso e direcionamento do
discurso da cristalização dos saberes (pragmatismo, positivismo, epistemologia)
sobre os quais, por sua vez, se fundamentam os poderes cujo exercício começa na
universidade.
A filosofia não pemanece imaculada em respeito à construção e uso dos
poderes, ou respeito à função governamental. A filosofia institucionalizada, a filo-
sofia de professores tornada tribunal de razão é anexa ao conjunto de instrumenta-
lizações e cálculos da condicão biopolítica contemporânea. Tanto que até mesmo
a economia se serve dela em discursos como o da ética empresarial, responsabi-
lidade social corporativa, políticas públicas, empreendedorismo e administração
de si! Tudo para difundir entre nós, filósofos em livres faculdades impotentes e

controle”. Para uma amostra deste “poder psiquiátrico”, conferir entre outros o documentário:
La psiquiatría, industria de la muerte, disponivel em: www.youtube.com/watch?v=7Wbmyw-
iREZA
218 Universidade biopolítica

o grosso dos universitários, uma única questão: o que fazemos nós, aquí e agora,
neste entrelace de poderes à que serve a universidade? O que será de nossa liber-
dade, o que é de nossa potência – diferente, diga-se, do poder? Ou será que nos
cabe apenas o lugar da impotência, o mais indigno quando atingimos as liberda-
des do pensamento?

Biopolítica da vida profissional: razões para nova lutas estudantis


De sua parte e no contexto citado, os estudantes universitários deixaram
de ser o que eram, ou seja, jóvens em formação, para se converterem em trabalha-
dores precários desde o momento em que adentram a universidade. Isto se con-
firma na medida em que a forma com a qual os estudantes integram os sistemas
universitearios de pesquisa (programas para a juventude universitária, grupos de
pesquisa com projetos financiados, etc). A inserção dos universitários em tais siste-
mas coloca em evidência as tensões e contradições entre pesquisa livre e pesquisa
dirigida, isto é, entre o conhecimento vivo – cuja própria condição é a autonomia
– e sua validação, reconhecimento e gestão institucional, seja mediante a supervi-
são ministerial ou subalternos, vice-reitorias e sistemas universitários de pesquisa.
É por isto que ao invés de gravitar as discussões em torno às formas
jurídicas (caso atual das lutas contra a interminável reforma universitária vigente
em todo o mundo), mais urgente seria interrogar o estatuto da produção de saber
em sua transição para a “universidade investigativa”, até a “sociedade do conhe-
cimento”, na qual se torne objeto de decisões políticas à medida em que sofre o
permanente assédio de apropriação do capital.
Neste contexto, a “gestão” das forças vivas do pensamento e criatividade
dos jóvens passa pelo crivo e seleção de prospecções, naquilo que é uma interven-
ção direta sobre o novo meio de competência universitário. A politica de pesquisa
torna-se, pois, redistribuidora de fluxos de formação e trabalho de conhecimento,
em uma longa série de mediações e ascenções (estudantes destacados, prospectos,
becários, magistratura, jóvens pesquisadores, pesquisadores junior, associados,
sênior e demais subtipos e requisitos) que, na cosmética promessa do “êxito” pro-
fissional (trabalho-remuneração) e no reforço dos incentivos (financiamentos de
projetos, garantias de acesso, becas), dissolvem os termos que outrora a profissão
representava, relançada ao calvário da qualificação e formação permanentes. As-
sim, o sistema estabelece um mecanismo perverso que combina reconhecimento
e exploração, enquanto subordina o “projeto” da juventude (vida profissional) a
se moldar sob a observaçnao minuciosa dos quesitos de seleção em cada uma de
todas suas instâncias de validação.
Carlos Enrique Restrepo 219

Para Gigi Roggero (2013), tudo ocorre quando a produção de saber é


recodificada sob a racionalidade empresarial do custo-benefício, inscrita portanto
no circuito do mercado global de educação. Neste caso há que se reconhecer que,
sendo como os produtores de conhecimento o são, os estudates já não são mais
considerados como força de trabalho como aprendizes, mas imediatamente traba-
lhadores precários sob os mesmos princípios de formação.
A rede de exploração que se pressupõe, no entanto, é que somente a pro-
fissão não basta; que a antiga garantia de título universitário para o exercício labo-
ral fica rendida à sua própria insignificância; que o futuro como profissional e ex-
pectativas concomitantes de realização foram confiscadas por um abstrato sistema
de subalternidades e patentes, a começar pela subordinação direta dos estudantes
promovidos ou recrutados por um Grupo, um projeto ou um professor (líder), sob
o complexo funcionamento que, além dos requisitos méritos académicos, impõe
seu compasso no aparato administrativo, o penoso caminho das convocatórias e
concursos, revisionismos constantes de avaliações e acrécimo individual da dívi-
da em educação pós-graduanda e, no final, os rigores do tempo morto das papela-
das e despachos com os quais se forja a vida do estudante como trabalhador. Em
contrapartida, o sistema ameaça constantemente com a possibilidade de fracasso
ao manter marginalizadas franjas de estudantes e profissionais: os “condenados da
terra” nos prédios de pesquisa institucional, os que engrossam a “população flu-
tuante” do cognitariado mais precário (os “não-aptos”, os grupúsculos de estudos
arcaicos românticos, os “semeadores” ingerminados, os profissionais desempre-
gados, a massa mercenária e desesperada do professorado horista…)
Práticas cotidianas como a do fomento à pesquisa e investigação são na
realidade parte de um processo de seleção natural e luta na existência contar a qual
se digladiam atualmente os estudantes universitários, mas ao mesmo tempo uma
instância incubadora e lançadora ao circuito de exploração constituído na gramá-
tica ministerial do modelo linear de inovação (I+D) e política de ciência e tecnolo-
gia (CeT). Por esta razão, a luta dos estudantes deve ser reivindicação autonomis-
ta, por cenários de investigação livre no alvorecer do capitalismo cognitivo que,
em última instância, depende da produção de saber como fonte genuína de valor.
O que vemos prefigura-se em uma luta por conhecimento que deve pro-
longar-se em movimento de fuga e êxodo, toda vez que “nas novas hierarquias
sociais e composição emergente de classe, a universidade não é o único lugar
onde se produz conhecimento e cultura” (ROGGERO, 2012). A Universidade foi
excedida por fluxos de produção de saber, disseminados por todo campo social,
desenvolvidos sem hierarquias de classe e espaços, cenários alternativos de co-
220 Universidade biopolítica

operação, capazes, portanto, de produzir novas formas de organização e novos


meios de expressão. Hoje, trata-se antes de fortalecer a autonomia do conheci-
mento vivo em uma autêntica revolução do conhecimento vivo. O cognitariado,
os estudantes em especial, devem ser capazes de versar entre as gretas do sistema
o deságüe de suas forças vivas (o talento), longes de um modelo de gestão do qual
o saber humano nunca careceu para se desenvolver, mas que acabamos por natu-
ralizar ao longo de séculos de anexações da universidade como função do Estado
e no momento de sua integração capitalista ao mundo empresarial.
Finalmente, também é nossa responsabilidade como professores, não nos
prestarmos mais a este modelo de gestão que vampiriza cérebros, corpos e inte-
gridade da vida dos estudantes, que lhes rouba as almas aplacando-as contra as
andanças burocráticas da pesquisa universitária, cuja função é justamente a de
articular a transição à forma empresarial ou corporativa da universidade. À me-
dida da nomadização e do êxodo, entretanto, há de se retornar às formas apenas
aparentemente caducas do Sábio aficionado, do autodidata, à relação entre mes-
tre e discípulo, mas também potencializar as práticas coletivas do acesso aberto
nas quais, sem guardar para si os segredos da profissão, técnicas, idéias únicas a
primeira vista dos projetos institucionais, acontece o milagre da educação con-
cebida mais em forma de produção social e como ato de solidariedade e dádiva.
Os estudantes terão de exigir de seus professores a coerência com o dever que
Nietzsche prescrevia, se ainda for o caso de manter as escolas: “Seus verdadei-
ros educadores e formadores te revelam qual é o autêntico sentido originário e a
matéria fundamental do teu ser, algo que de forma alguma pode ser educado ou
formado e, em qualquer caso, dificilmente acessível, capturável, paralisável; seus
educadores não podem ser outra coisa senão teus libertadores. Eis aí o segredo de
toda formação”.

Carlos Henrique Restrepo, participa da Universidad Nómada Colombia, é pro-


fessor do Instituto de Filosofía da Universidade de Antióquia (Medelim-Colômbia). Esta con-
ferencia é produto de reflexões realizadas no Seminario de qualificação: “La Universidad sin
condición”. Foi lída na Universidade Industrial de Santander em 17 de setembro de 2013, ao
marco da Cátedra Doutoral: “Pensar la Universidad”, co-organizada com a Universidade Pe-
dagógica Nacional, sob coordenação dos profesores Sonia Gamboa (UIS) e Germán Vargas
Guillén (UPN).

Tradutor:
Cristiano Fagundes
Carlos Enrique Restrepo 221

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Além do bem e do mal: a vontade


de potência e a multidão

Alemar Rena

Estudiosos de Nietzsche amiúde ignoraram e ainda ignoram as qualida-


des distintivas entre multidão [Menge] e massa [Masse] em sua obra. Se Nietzsche
vê na Europa moderna tendências de constituição de uma população uniforme e
heterônoma, sua posição é mais complexa e engloba da mesma forma a possibili-
dade do oposto: a formação de multidões heterogêneas marcadas pela mistura de
raças, culturas, etnicidades, valores, estéticas, etc. A multiplicidade, geralmente
vista pelo filósofo como fonte de riqueza, pode resultar na formação de massas,
mas essa não é uma consequência imperativa (SHAPIRO, 2013, p. 133). Questões
como mobilidade dos povos, formação de novas configurações culturais e consti-
tuição de populações em que a diversidade prevalece foram bem tratadas em seus
escritos. Quando ele falava desses fenômenos, que são tudo menos a conformação
de comunidades homogêneas, ele não usava o termo massa, mas conceitos inova-
dores como “nomadismo”, “hibridação” e “multidão” (idem).
Propomos aqui sondar em que medida Nietzsche fora, não só, como com
frequência se admite, um dos primeiros pensadores a se debruçar sobre uma críti-
ca das massas modernas, mas também um dos primeiros a compreendê-las como
vetor de valores éticos antagônicos àqueles que hoje se costuma situar como in-
dispensáveis para a constituição da multidão. Nesse sentido, nosso intuito é partir
da tese mais central em sua filosofia – a vontade de potência –, e por esse fio
perscrutar a possibilidade de seu pensamento ser lido não somente no horizonte
da singularização, mas já como uma passagem ontológica à singularidade-plural
(NANCY) e, por conseguinte, à multitude (HARDT, NEGRI).
Nos antecipando às desconfianças, confessamos que estamos cientes das
complexidades que essa proposta levanta. Devemos, todavia, reconhecer que a
obra multiplanar – caleidoscópica por vezes – do filósofo dá margens e mesmo
incita leituras subversivas, e produz, ela mesma, como decorrência dessa multipli-
cidade, inúmeras tensões. Se Nietzsche com frequência argumenta em favor das
hierarquias político-sociológicas e se mostra pessimista quanto ao grande número
(cf., por exemplo, 1992, p. 169, §257), ao mesmo tempo nos insinua que, após a
morte das essências teológicas, a riqueza e o excesso de força afirmativa e alegre
pode estar em vias de se revelar ao mundo em toda sua amplitude. Além disso,
224 Além do bem e do mal

nossa proposta aqui não é, como já indicamos, ter Nietzsche como um destino,
mas como ponto referencial para se pensar esta topologia pós-metafísica em aberto
na qual hoje se projeta com mais força um “nós” pré-individual e multitudinário.
Admitidamente determinada a corrigir as teses de Darwin, uma das prin-
cipais formulações da filosofia de Nietzsche sustenta que o animal-homem, ou,
para todos os efeitos, qualquer coisa que exista, não deseja apenas perpetuar-se ou
sobreviver, mas elevar-se, gerar mais vida; essa força atuante, instintiva e da qual
ramifica a vida propriamente dita (até o nível das funções orgânicas, da geração e
da nutrição), Nietzsche chamou de vontade de potência. Se sua formulação está
correta, diz, “o mundo visto de dentro, o mundo definido e designado conforme
o seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente” vontade de potência, e nada mais
(1992, p. 43, § 36). A vontade de potência constitui-se como a face ativa e positiva
da vida, sua negação da degeneração própria da vontade reguladora de impotên-
cia: em qualquer fenômeno distinguem-se forças ativas, primárias, de conquista,
e forças reativas, secundárias, de regulação. Para dar base a sua tese, Nietzsche
lança mão da história, que parece confirmar aquilo de que já se desconfiava: no
presente ou no passado, depara-se sempre com a mesma tresvaloração, i. e., forças
reguladoras e ressentidas rebelando-se contra vontades alegres, criativas e afirma-
tivas. Esta tresvaloração, a que se refere em Genealogia da moral como “rebelião
escrava”, começa quando o próprio ressentimento torna-se criador e gera valores:
“o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e
que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação” (1998, p. 29, cap. I, §
10). Se por um lado a moral nobre e afirmativa olha para si como fonte de valor,
pois sabe-se criadora, a moral escrava cria valores tendo em vista o que se encon-
tra fora dela mesma, minando a potência do outro: “já de início a moral escrava
diz Não a um ‘fora’, um ‘outro’, um ‘não-eu’ – e este Não é seu ato criador. Esta
inversão do olhar que estabelece valores – esse necessário dirigir-se para fora, em
vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento” (idem).
Um ponto que vale notar desde logo é que a vontade de potência – que
em Genealogia da moral Nietzsche iguala a “instinto de liberdade”67 (1998, p. 76,
cap. II § 18) – não significa, como nota Deleuze em seu ensaio sobre o filósofo,
que ela queira o poder ou deseje dominar. Ela “não consiste em cobiçar nem se-
quer em tomar, mas em criar e em dar” (DELEUZE, 2009, p. 23-24). A confiança

67 Uma boa reflexão sobre por que Nietzsche teria usado o termo “vontade de potência” e não
“instinto de liberdade” para definir sua tese pode ser lida em KAUFMANN, Walter. Nietzsche:
phylosopher, psychologist, antichrist. Princeton (NJ): Princeton University Press, 1974. p. 246-
254.
Alemar Rena 225

em si tampouco quer dizer oprimir, fazer sofrer, explorar ou matar (embora isso
possa até ser o que da potência resulta), mas, ao contrário, oferecer aquilo que
transborda da força: “a consciência de uma riqueza que gostaria de ceder e presen-
tear – também o homem nobre68 ajuda o infeliz, mas não ou quase não por com-
paixão, antes por um ímpeto gerado pela abundância de poder” (NIETZSCHE,
p. 173, § 260). Trata-se, sempre, de dar e ao mesmo tempo reter em si a alternativa
de não dar. Em segundo lugar, a potência, como vontade de potência, não é o que a
vontade quer, mas aquilo que quer na vontade. Com isso, Nietzsche pode dar um
sentido supramoral e imanente ao mundo e minar o ascetismo regulador, já que
não há sujeitos em controle das vontades, mas vontades que querem no sujeito. O
crivo pelo qual o valor agora é medido é a vida, e a vida, por sua vez, é a própria
vontade de potência.
Eis que algo curioso revela-se. A vontade afirmativa é, no entanto, do
ponto de vista da luta entre as vontades, o lado mais frágil; a impotência e o res-
sentimento contra a vida sempre prevalecem por onde quer que se olhe: “a história
põe-nos em presença do mais estranho fenómeno: as forças reactivas triunfam, a
negação [da vida] leva a melhor na vontade de poder!” (DELEUZE, 2009, p. 24).
É esta a denúncia de Nietzsche primeiramente contra o cristianismo, mas em se-
guida à permanência de novas formas de ressentimento após a “morte de Deus” (o
capitalismo, a democracia burguesa, a ciência e a filosofia moralistas etc.). Estar
no poder não quer dizer, nestes casos, ser potente, mas precisamente ser capaz de
dominação pela negação.
A imagem abstrata das massas é, no extremo, o uno que resume a vontade
de impotência e o repúdio à criação contínua do mundo. A moral do crucificado e
o consenso majoritário novamente se impõem, agora sob uma formulação contra-
tual e legalista. Os valores possuem papel essencial nas correlações de forças, mas
a “moral do rebanho” é problemática na medida em que, em sua impotência res-
sentida, mina a produção de diferença necessária a toda cultura grandiosa. Diante
isso, insiste Deleuze, é preciso evitar cair no simples dualismo ao interpretarmos
a vontade de potência: porque “pertence essencialmente à afirmação ser ela pró-
pria múltipla, pluralista, e à negação ser una, ou pesadamente monista” (2009,
p. 24). Se a afirmação é múltipla e plural, podemos dizer da mesma maneira que
a vontade afirmativa é uma vontade de singularidade, porque não há pluralidade

68 “Espírito nobre” ou “homem nobre” são conceitos oferecidos por Nietzsche contra o niilis-
mo. A vontade de potência está na base da nobreza e se contrapõe à vontade de impotência, que
por sua vez domina a decadência da cultura moderna.
226 Além do bem e do mal

verdadeira sem singularidades; quer dizer, a vontade de potência necessariamente


corresponde à própria produção da diferença.
Em Humano demasiado humano, a potência chega mesmo a originar-
-se da fraqueza, do debilitamento, do afrouxamento que, de tempos em tempos,
podem lancear o elemento estável de uma comunidade. Assim, as naturezas dege-
nerativas são agentes centrais no processo de acréscimo de uma cultura. Em geral,
o progresso é precedido de um debilitamento parcial. As naturezas mais fortes
conservam o tipo, mas “as mais fracas ajudam a desenvolvê-lo”. Algo semelhante
acontece no indivíduo: “raramente uma degeneração, uma mutilação ou mesmo
um vício, em suma, uma perda física ou moral, não tem por outro lado uma van-
tagem”. A força estável recrudesce no sentimento comunitário; mas as naturezas
degenerativas hão de surgir e, devido a elas, “enfraquecimentos e lesões parciais
da força estável; justamente a natureza mais fraca, sendo a mais delicada e a mais
livre, torna possível todo o progresso” (2005, p. 142).
A potência não implica a consolidação de um poder monista sobre comu-
nidades ou a humanidade, mas um agenciamento complexo de forças que, pelo
conflito, pelo afeto e, quando numa relação de desiguais, pela alegria de dar,
eleva a cultura. Neste complexo enredamento, até mesmo a degenerescência e a
fraqueza possuem seu papel, uma vez que constituem-se como fonte constante de
alteridade. Munida dessas formulações, a transmutação dos valores consiste em
fundar sobre o niilismo – a truanice do devir-reativo – uma força em que o devir,
contra o uno (enquanto uniformização), é afirmado enquanto multiplicidade. Isto
significa dizer que a afirmação da vida “é, ela mesma, múltipla” e que “o devir e o
múltiplo são eles mesmos afirmações” (DELEUZE, 2009, p. 32). É precisamente
nesse ponto que o qualia positivo e ativo da vontade se realiza enquanto uma
vontade de multus.
Num aforismo de A gaia ciência sob o título “Com a multidão”, ­Nietzsche
escreve que “até agora ele andou com a multidão e lhe cantou elogios” (2001,
p.166, § 170). Em seu primeiro livro, O nascimento da tragédia, a multidão ocupa
o lugar da afirmação alegre que com frequência escapa aos “suntuosos” cidadãos
demasiadamente sóbrios. Se há uma imagem da “encantadora possibilidade” de
elevação da alma no horizonte expandido, a encontramos no pathos da experiên-
cia dionisíaca: “o delicioso êxtase que, à ruptura do principium individuations,
ascende do fundo mais íntimo do homem, sim, da natureza, ser-nos-á dado lançar
um olhar à essência do dionisíaco, que é trazido a nós, o mais perto possível, pela
analogia da embriaguez”. Pela influência da beberagem narcótica, já bastante co-
nhecida dos povos primitivos, e pela impregnação da alegria, despertam os trans-
Alemar Rena 227

portes dionisíacos, por cuja “intensificação o subjetivo se esvanece em completo


auto-esquecimento. Também no Medievo alemão contorciam-se sob o poder da
mesma violência dionisíaca multidões sempre crescentes, cantando e dançando,
de lugar em lugar” (2007, p. 28). Agora, graças à “harmonia universal”, cada qual
se sente “não só unificado e conciliado” com o outro, “mas um só (...) diante do
misterioso Uno-primordial”. Cantando e dançando, o homem revela-se como par-
te de “uma comunidade superior: ele desaprendeu a andar e a falar, e está a ponto
de, dançando, sair voando pelos ares” (idem).
É na ruptura do principium individuations que a alegria vem à baila com
mais intensidade, é nela que os “transportes dionisíacos” e a ruptura com a neces-
sidade se deixam sentir; é nela que o “misterioso Uno-primordial”, a essência do
nós originário se torna possível. Perante ela, perante a celebração plural e a “mo-
léstia popular” carnavalesca que se põe a dançar e a voar pelos ares, o indivíduo
sóbrio empalidece em sua parcimônia solitária e em seus espíritos embotados.
Mas algo acontece ao filósofo, algo que o faz mudar de lado. Ao retornarmos ao
aforismo “Com a multidão”, publicado em A gaia ciência mais de 10 anos depois,
descobrimos que ele tornar-se-á o “inimigo” da multidão! Pois “ele a acompanha-
va na crença de que nela a sua preguiça tenha justificativa”. Agora, no entanto,
ele descobriu que a multidão já “não é preguiçosa bastante para ele”, “ela sempre
empurra para adiante” e “não permite a ninguém ficar parado! — E ele [o filó-
sofo] bem gosta de ficar parado!” (2001, p. 166, § 170). Contra essa imagem do
homem utilitarista, produtivo e que “empurra”, Nietzsche oferece a moral anta-
gônica do ócio “com boa consciência”, uma moral que preserva “o sentimento
aristocrático de que o trabalho desonra” (1992, p. 60, § 58). O aristocrata assim
compreendido,69 diferentemente da elite gulosa e acumuladora, celebra o ócio e
ataca o burguês (e a multidão, na medida em que esta se torna o reflexo da merca-
doria) com a “petulância” de uma improdutividade alegre, filosófica e criativa. O
aristocratismo torna-se a arma contra a baixeza do uno e permite afirmar a alegria
de viver e exceder o domínio de uma moral decadente e individualista.70

69 O aristocratismo em Nietzsche, como boa parte de seus conceitos mais recorrentes, possui
uma gama de qualidades e nuanças. Neste estudo, fazemos um recorte considerando no aris-
tocrata as qualidades que se relacionam diretamente à vontade de potência da qual já tratamos
(a vontade criativa, afirmativa, alegre), deixando de fora, por exemplo, qualidades como linha-
gem, vínculos de sangue etc.
70 Em Nietzsche a afirmação de si e a celebração da vida nada têm a ver com o individualismo
cartesiano ou mesmo com o liberalismo; essa afirmação é ela mesma o oposto do individua-
lismo burguês, na medida em que produz uma multidão de singularidades insuportável para a
ética da mais-valia, ansiosa por uma massa de compradores sempre maior para cada produto
228 Além do bem e do mal

No plano político, Nietzsche vê-se compelido a assumir uma postura re-


acionária. O cultivo de valores nobres antagoniza a contaminação da média regu-
ladora. Nesse sentido, ele atacará duramente o Estado, definindo-o como falsifi-
cação da moral (algo ainda pior do que a moral espontânea dos povos ou a moral
dos velhos filósofos, que “falsificavam” a realidade); em uma longa passagem de
Assim falou Zaratustra, ele matiza o Estado como “o lugar onde o lento suicídio
de todos chama-se – ‘vida’!” (2010, p. 76). No Estado os supérfluos “adquirem
riquezas e, com elas, tornam-se mais pobres”. No Estado os agentes de poder
“trepam como macacos” uns por cima dos outros “atirando-se mutuamente (…)
no lodo e no abismo” (idem). O Estado constitui-se, enfim, como um novo dog-
matismo para as massas e destrói também o povo: “abri bem os ouvidos, porque,
agora, vou dizer-vos a minha palavra sobre a morte dos povos. Chama-se Estado
o mais frio de todos os monstros frios. E, com toda a frieza, também mente; e
esta mentira sai rastejando da sua boca: ‘Eu, o Estado, sou o povo!’” (2010, p.
75). Aqui, a provável alusão é à imagem do monstro Leviatã que Hobbes usaria,
em meados do séc. 17, para ilustrar um poder soberano capaz de, a um só tempo,
servir como fundação, extensão e unificação do povo. Para Nietzsche, contudo,
esta composição fria e monstruosa somente pode ser a própria morte do povo, a
completa depredação de suas riquezas, costumes, espontaneidade e capacidade de
invenção. A morte de Deus produz um vazio pós-metafísico que será preenchido
por uma nova teologia circunscrita pelo estatuto unificador e irrestrito do direito
– um abismo de nada que absorve a multiplicidade no uno. Como possibilidade
de superação desse vazio, Nietzsche aventa algo muito mais radical: um mundo
fundado no amor do homem pelo homem despido de idealismos limitadores do
vir a ser, ou seja, limitadores da própria potência, transformando assim o uno em
multiplicidade e devir.
Num mundo em que os valores encontram-se de cabeça para baixo, o
poder geralmente pertence ao ressentimento e à repetição de modelos, e, a po-
tência, à esfera dos erros a serem expurgados, abafados, ridicularizados pelos
“poderosos” que se reúnem em um corpo contagioso e burocrático. A tarefa de
uma filosofia do futuro, de um pensamento nômade e criador, seria desfazer essa
inversão. Nesse sentido, contra a frieza do capitalista rico e do político poderoso
Nietzsche apresenta uma versão completamente improvável do aristocrata, uma
cuja nobreza estaria ainda alinhada à pobreza: “hoje ele é pobre; mas não porque
lhe tiraram tudo, e sim porque jogou tudo fora – que lhe importa isso? (...) Pobres

“individual”. Eis um (apenas aparente) paradoxo do capital: o binômio indivíduo-consumidor,


pela moral liberal, já acumula, desde sempre, uma massa enrustida.
Alemar Rena 229

são aqueles que não entendem a pobreza voluntária dele” (2001, p. 169, § 185). E
mais: “Um esbanjador. — Ele ainda não tem a pobreza do rico que já inventariou
tudo o que possui” (idem, p. 172). Sua definição de nobreza pressupõe o desapego
do acúmulo e o esbanjamento do que se conquista, porque o verdadeiro criador
dançarino, já em princípio despojado do utilitarismo da mercadoria, “pega” o que
precisa quando precisa, como o dono da terra que colhe da árvore quando sente
fome. Apenas as vacas acumulam, estão pesadas e presas ao solo; aves de rapina
se despem da gravidade, elas conquistam e doam, não por uma compaixão com
vistas à salvação, mas porque produzem em excesso e praticam a alegria de dar.
Ao exercer sua vontade de liberdade pela negação do mesmo, o aristo-
crata subversivo denuncia o ressentimento (da igreja ao Estado) e suas intensas
demandas por sobrecodificar, burocratizar e objetificar a experiência do homem
sobre a terra. Ele esquiva-se da vontade-território e transforma a experiência em
linhas de velocidade e máquina de guerra contra a sedentarização. Nessa “petu-
lância” improdutiva e criativa podemos encontrar elementos de um ethos intrín-
seco à realização da biopotência multitudinária. Assim como o aristocrata subver-
sivo, a multidão nada tem de seu a salvaguardar senão sua potência constituinte e
criadora. Ela não aponta para uma teleologia, para comunidades ensimesmadas,
para divindades ou para um Estado. Ela não conforma partidos, classes e não
compreende a idolatria. Seu tempo é o próprio devir, a potência criadora. Ela
nasce de uma conjunção de espíritos livres, e por isso a vontade de potência (ou o
instinto de liberdade) é nela um elemento constituinte. Sua multiplicidade diz não
à linearidade histórica, porque é uma conjunção de potências e devires menores
multidirecionais. Por isso a multidão nunca é a estabilidade, o contrato, o projeto,
e sim a vida, o próprio devir múltiplo dos criadores. Ela é afeita à desterritoria-
lização e suspende o assalto de suas riquezas na medida em que continuamente
recoloca em fluxo sua criação.
Hoje está claro que as engrenagens desenvolvidas pelos Estados moder-
nos com os avanços nos campos tecno-militar e informacional abriram um arsenal
de destruição em escalas e amplitude jamais imaginadas pelo pensamento pro-
fético de Nietzsche, ou talvez imaginadas e por isso mesmo rechaçadas em seu
estado embrionário. O desfecho trágico desta maquinação de morte, liderada pela
vontade-Estado em suas diversas formulações, pode ser melhor dimensionado ao
lembrarmos que, durante o séc. 20 apenas, morreram em guerras três vezes mais
seres humanos do que nos 2.000 anos imediatamente anteriores da história. Não
seria o caso de listarmos aqui as catástrofes – os deslocamentos de refugiados,
os assassínios em massa, as guerras, os exílios, a violência das periferias (sua
230 Além do bem e do mal

pobreza face a face com a riqueza), a fome, a exclusão e a perda que decorreram e
ainda decorrem todos os dias das crises provocadas pelas divisões e doutrinas do
Um-Todos – porque uma tal lista não teria fim. Seja tendo em vista os nacionalis-
mos, as comunidades identitárias, as cobiças econômicas ou os fundamentalismos
religiosos, os muros persistem: “nós que deveríamos dizer nós como se soubésse-
mos o que estamos dizendo e de quem estamos falando”, vemos, mediante todas
essas catástrofes, que a “terra é tudo, menos o compartilhamento da humanidade”
(NANCY, 2000, p. XII). A mútua e expansiva contaminação de sistemas linguísti-
cos, técnicos, políticos, jurídicos e científicos da última metade do século passado
complexificou sobremaneira as correlações de forças e suas determinações, de
modo que nas sociedades pós-fordistas testemunhamos ainda um agenciamento
de poderes labirínticos71 (embora imanentes) em que nada mais escapa à nega-
tividade do capital, nem mesmo a arte. O capital é a radicalização da separação
– outrora circunscrita nas teologias classistas – para todas as esferas e relações
que por ele opera. Se as comunidades essenciais e o Estado ditam um Um-Todos
totalitário, o capital dita ainda um Um-Eu que se quer igualmente colapsado em
si. Em qualquer um desses horizontes, o que nos espera é o assassinato, isto é, “a
morte como a negatividade operativa do Um” (NANCY, 2000, p. 92, trad. nossa).
Se num primeiro momento a multidão aparece em Nietzsche na experi-
ência dionisíaca e carnavalesca do uno-primordial como um sim coletivo à vida,
posteriormente ela retorna subjacente ao sentido da vontade de potência que in-
dica um multus num horizonte de pluralidades descontínuas, a declaração da pró-
pria vida como diferença. A tarefa que resta, deste modo, talvez seja ressituar as
demandas de Nietzsche, ou melhor, situá-las radicalmente numa máquina que,
mediante a captura da consciência e a exploração em escala planetária, faça ex-
plodir a potência pelas brechas que se abrem. Nietzsche esteve consciente de que,
no campo do intelecto ou da práxis, tudo concorre para um horizonte ou de morte
(separações, racismos, fundamentalismos, dogmatismos, castrações do desejo do
outro – impotência) ou de vida (o pensamento, a criação, a produção de bens e
valores comuns, a sublimação da vontade, o carnaval do Uno-primordial – a po-
tência). A negação da vontade de negação ressentida é, antes, uma afirmação da
vida72, e essa é também a afirmação levada a cabo pela multidão.

71 Aqui temos em mente o conceito de Império descrito por Hardt e Negri (2006).
72 Mesmo quando a vontade é a de morte; até mesmo o desejo pelo ocaso, enquanto afirmação
do vir a ser, pode ser uma vontade de vida. Como notara Deleuze, um nada de vontade não é o
mesmo que uma vontade de nada (DELEUZE, 2009, p. 30).
Alemar Rena 231

Nietzsche escreve: “existe um lago que um dia se negou a escoar, e for-


mou um dique até onde se escoava: desde este instante ele sobe cada vez mais”.
Nessa alegoria, o lago é o espírito do homem moderno, que já não deságua naqui-
lo que o transcende, e precisa voltar-se para si e para o mundo como tal. Talvez
seja justamente essa renúncia da transcendência que “nos empreste a força com
que a renúncia mesma seja suportada; talvez o homem suba cada vez mais, já não
tendo um deus no qual desaguar” (2001, p. 193, § 285). A negação do que se en-
contra além se transforma assim em afirmação, e a afirmação do mundo tal como
é (e portanto do próprio homem), em condição para a negação.
Ao fim da primeira parte de Assim falou Zaratustra, o mestre pede a
seus discípulos que vão e percam-se, e que achem-se a si mesmos. Pede a eles
que retornem mais tarde, mas somente após terem lhe renegado: “afastai-vos de
mim e defendei-vos contra Zaratustra! E, ainda melhor, envergonhai-vos dele!
Talvez vos enganaste” (2010, p. 105). A mensagem é clara: achar-se significa
trair, despir-se da devoção a novos ídolos. Em outros termos, Zaratustra não pede
aos discípulos, como teria feito Cristo, que espalhem a sua palavra – a palavra de
Deus –, mas que tornem-se filósofos de si, e em assim fazendo, sejam também
criadores deste mundo. Tendo cumprido essa tarefa, tendo cada qual se encon-
trado, o mestre retornará a eles “com outros olhos”, procurará aqueles que havia
perdido, e “com outro amor”, então, os amará (idem). No futuro, os discípulos
voltarão a ser seus amigos e então festejarão juntos o “meio-dia”, quando o ho-
mem se achará “na metade de sua trajetória entre o animal e o super-homem e
festejará seu caminho para a noite como a sua mais alta esperança: porque será o
caminho de uma nova manhã” (idem, p. 106).
Gostaríamos de propor uma leitura dessas duas passagens em Nietzsche
a partir de algumas considerações tecidas por Paolo Virno em Gramática da mul-
tidão. Virno nota que a crise das comunidades essenciais e das teologias da salva-
ção hoje implicam, pelo menos num primeiro instante, uma perda generalizada de
segurança num mundo em que tanto a angústia existencial, quanto o medo de peri-
gos localizáveis em situações particulares se intensificam. Retomando Heidegger,
Virno pondera que o medo refere-se a um fato pontual (a enchente, o desemprego,
a violência urbana etc.); já a angústia não possui uma causa desencadeadora preci-
sa, ela é “provocada pela pura e simples exposição ao mundo, pela incerteza e pela
indecisão com que se manifesta nossa relação com ele” (2013, p. 16). Se um outro
ethos parece ser condição para a política hoje, este suscita uma relação existencial
e produtiva que nos torna vulneráveis. Contudo, é justamente porque não nos é
dada a possibilidade de refúgio na proteção imediata de comunidades (aquele lu-
232 Além do bem e do mal

gar para onde a água do lago outrora escorreria) que o movimento imaginado por
Nietzsche de elevação do espírito ganha sentido.
Uma outra ideia em Virno parece ser ainda mais crucial nesse contexto,
porque nos permite ir além do desenvolvimento recatado do eu proposto por Zara-
tustra como alternativa para a perda. Virno sinaliza que, se para Aristóteles o pen-
sador deveria situar-se como um estrangeiro à agorá, um estranho à praça pública,
essa hoje se torna justamente a condição que o sujeito, despojado das comunida-
des substanciais que lhe davam arrimo, acaba por assumir: “ser estrangeiro, isto é,
não se sentir em sua própria casa, é hoje condição comum dos muitos” (VIRNO,
2013, p. 22). A orientação e proteção de agora em diante passam “pelas categorias
gerais do intelecto linguístico; em tal sentido, os estrangeiros são sempre pensa-
dores”. Virno inverte a relação oferecida por Aristóteles: “não é o pensador que se
torna estrangeiro na confrontação com sua comunidade de pertencimento”, mas o
estrangeiro, a “multidão dos sem casa” “que adquirem necessariamente o status
de pensadores” (idem). Assim, pelo uso do intelecto abstrato e geral nas comuni-
dades dos sem comunidade (pelo menos sem uma comunidade na qual se pode
escoar), o estrangeiro pode resistir aos golpes aleatórios e se proteger das contin-
gências. A multidão dos “’sem casa’ confia no intelecto, nos ‘lugares comuns’: a
seu modo, é uma multidão de pensadores (ainda que tenham somente educação
elementar e não leiam um livro nem sob tortura)” (idem, p. 23).
O intelecto certamente conduziu a renúncia da metafísica nos últimos
séculos, mas é o intelecto geral que se impõe hoje como condição de superação da
posição de estrangeiros a que fomos lançados; Zaratustra declarava que “aquele
que está perdido para o mundo conquista seu próprio mundo” (2010, p. 53), mas
devemos dizer ainda que esta conquista somente é desejável se já encerra uma
transitividade, nem o outro, nem o si, mas, precisamente, a intimidade do com
que se abre. Do “penso, logo existo” cartesiano, ou do “retiro-me da agorá a fim
de pensar” aristotélico, ambas conjunturas ainda confortavelmente permeadas por
comunidades substanciais (Virno nota que o pensador para Aristóteles é estran-
geiro, mas ao terminar sua tarefa ele pode imediatamente retornar aos assuntos
comuns), vemo-nos agora, talvez um pouco além de Nietzsche, diante de um spi-
nozano “penso no e pelo intelecto geral”, no e pelo outro que me é estranho, em-
bora tão familiar, e portanto existo de forma tão singular quanto plural. Aqui nos
aproximamos da definição ontológica de multidão proposta por Negri, quer dizer,
multidão enquanto a potência de um conjunto de singularidades que colaboram,
uma potência que “não deseja apenas se expandir, mas, acima de tudo, quer se
corporificar: a carne da multidão quer se consubstanciar no corpo do General
Alemar Rena 233

Intellect”. Para Negri, a multidão possui em sua constituição uma tendência para
o General Intellect em direção a modos de expressão produtiva cada vez mais
imateriais e intelectuais, e assim “deseja se configurar como a reinscrição absoluta
do General Intellect no trabalho vivo”73.
Diante disso, se pudéssemos estender a belíssima alegoria do lago pro-
posta por Nietzsche a uma segunda, tendo em vista uma subjetividade que conju-
ga a abertura singular a uma outra que admite uma ontologia transitiva, diríamos
que existe um mar que não pode escoar, e portanto se expandir, porque há des-
de sempre diques que impõem a ele separações dentro das quais, e somente nas
quais, é permitido a sua materialidade subir; mas suas irresolutas dinâmicas, seus
redemoinhos, suas tempestades, suas correntes e matérias que se elevam em gás
na atmosfera somente para precipitar ao mar, não podem ser circunscritas nem
pela teologia do Um-Todos nem por uma singularidade obsessivamente ensimes-
mada, e, em realidade, desejam expandir sobre e para além da superfície, que é o
plano de uma imanência política e afetiva constituinte. Essa outra imagem reinte-
gra o plural ao singular pelo intelecto geral, e o ethos da nobreza transgride-se até
uma outra positividade, que já não é nem exploração, nem generosidade enquanto
salvação, mas o com enquanto produção transitiva dos sujeitos sociais, a própria
impossibilidade de separar a atividade criativa do comum.
Como notaram Hardt e Negri, o problema das instituições modernas – da
família à nação, passando pela corporação – “é que pelas hierarquias, divisões e
limites elas bloqueiam a produção de subjetividade” (2011, p. 177, trad. nossa).
Contudo, se em certa medida a produção sempre fora social, hoje – diante (1) da
desvalorização do trabalho fabril, (2) dos movimentos sociais e (contra)culturais
que a partir de 1960 passam a não mais se legitimarem exclusivamente pela re-
lação capital-trabalho, e (3) do advento do paradigma tecnosocial das redes – a
estreita correlação entre a produção e o intelecto em rede exacerba essa condição.
Esse novo cenário cria condições para que a multitude coloque novamente o co-
mum para circular.74 Fazer multidão torna-se, assim, ir além da superação das es-

73 Cf. Antonio Negri, “Para uma definição ontológica da multidão”. Disponível em: http://
uninomade.net/wp-content/files_mf/113003120823Para%20uma%20definição%20ontológi-
ca%20da%20multidão%20-%20Antonio%20Negri.pdf. Acessado em 03/03/2014.
74 Diversos pensadores, de Virno a Hardt e Negri, têm escrito sobre essas novas relações entre
trabalho, política e produção cultural. Dado foco de nosso estudo, apresentamos tudo isso as-
sim, de forma extremamente resumida. Para uma excelente coletânea de algumas seminais re-
flexões nessa esfera, cf. HARDT e VIRNO (ed.). Radical thought in italy: a potencial politics.
Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.
234 Além do bem e do mal

sencialidades (e portanto além do “além do bem e do mal”), e afirmar o comum a


contrapelo tanto de modelos existenciais quanto da perpe­tuação de formas produ-
tivas violentas e vazias. Não se trata de uma existência de antemão finalizada ou
dada; a biopolítica da potência implica o conflito, a luta e o constante exercício de
um comunismo em aberto, esquizo e criativo, isto é, capaz de criar continuamen-
te o mundo. É nesse processo que o encontro e a produção do intelecto geral se
fortalece também para além de uma existência “qualquer” – ainda que a condição
ontológica de qualquer, como descreveu elegantemente Giorgio Agamben (1993),
seja aí imprescindível – e toca as pontas de um estar no mundo verdadeiramente
político e revolucionário. Se dizemos isso é porque não há como prescindir da
praxis (atividade produtiva do comum) e da luta (o exercício político que essa
atividade condiciona). Se o bem para Agamben é o ponto em que o ter-lugar das
coisas (ou o “tornar-se aquilo que você já é”, como já nos propunha N ­ ietzsche) se
realiza enquanto tal, isto é, em que as coisas “tocam a sua intranscendente maté-
ria” (AGAMBEN, 1993, p. 20), o mal por sua vez é aquilo que quer bloquear esta
realização. A luta deve seguir, portanto, o instinto libertário da vontade de potên-
cia, resistindo e desfazendo as balizas impostas pela fraqueza do mal enquanto
separação (uma força sempre secundária ao amor, ou ainda um amor corrompido
porque um amor do (si) mesmo, para usar uma terminologia proposta por Hardt
e Negri a partir de sua leitura de Spinoza). Uma luta, enfim, não apenas do “eu”,
mas do “nós” contra o apartamento, isto é, contra a aniquilação do comum.
Portanto, ao fazer a multidão radicalizamos as singularidades enquan-
to partículas de desejo e admitimos que, no limite, ser singularmente somente
é possível se também somos transitivamente, não em relação a um mesmo, mas
vis-a-vis à diferença, ao distante, à alteridade, ao contingente. Mas a filosofia de
Nietzsche também passou, de modo particular, por aí. Zaratustra anuncia aos no-
vos filósofos que, se para os ainda velhos transmundanos o “mau-amor” por si
mesmos transforma “a solidão em cárcere” e impõe uma pena aos distantes, “que
pagam” pelo “amor do próximo” (“já quando cinco de vós estão juntos, há sempre
um sexto que deve morrer”), a exigência que se apresenta doravante é uma que
renuncia o amor egoísta – a partir de uma imagem essencial de si – e prenuncia
o amor ao distante, porque somente os distantes são verdadeiramente criadores e
possuem algo a dar: “não o próximo eu vos ensino”, dirá Zaratustra, “mas o ami-
go. Que seja o amigo, para vós, a festa da terra e um presságio do super-homem.
(…) Meus irmãos, eu não vos aconselho o amor ao próximo: eu aconselho-vos
o amor do distante” (2010, p. 88). O amigo, no entanto, nunca é um segundo em
relação ao eu, mas já um terceiro (idem, p. 82), porque todo sujeito é um colóquio
Alemar Rena 235

de no mínimo dois. Nem mesmo sozinhos estamos a sós, pois que somos 1+1
(eu digo sim ou não a mim mesmo), cada 1, em sua singularidade, vivendo um
com que é, desde sempre, con-dicção da essência; ou, como já diziam Deleuze e
Guattari, N+1. Esta é, assim, a verdadeira proximidade, exposta na origem pré-
-individual que é o com.
Se notamos algum pessimismo em Nietzsche, ele já é mais do que qual-
quer negação; é, antes, uma negatividade que contém em si mesma uma afirmação.
Esta é a afirmação da vida, a asseveração de si enquanto singularidade insubstituí-
vel, e precisamente por isso, livre e capaz de verdadeiramente amar o distante e a
alteridade. Em assim fazendo, Nietzsche propõe, no lugar de comunidades essen-
ciais, multidões de corpos livres. Em A gaia ciência ele escreve que, se até agora
“ser pessoa de um elevado sentimento, a encarnação de um único grande estado
de alma” foi apenas um sonho e uma encantadora possibilidade, é possível que o
futuro reserve um lugar para pessoas assim, “uma vez que tenham sido criadas e
estabelecidas muitas condições favoráveis”. Neste ponto, este estado elevado que
“até agora entrou de vez em quando em nossas almas” pode tornar-se habitual,
“um contínuo movimento entre o alto e o baixo, e o sentimento de alto e baixo,
um constante subir-degraus e, ao mesmo tempo, descansar-nas-nuvens” (2001,
p. 194, § 288). Esta é a face de uma afirmação que se revela ao filósofo como o
estágio intermediário para a conquista. Esta, no extremo, conforma o amanhã que,
todavia, já aqui se encontra e implica todos na possibilidade de uma aristocracia
multitudinária e potente.

Alemar Rena é professor da FALE-UFMG e pesquisador nas áreas de Linguística,


Literatura Comparada, Comunicação em Rede e Biopolítica. É integrante do grupo de pesquisa
Indisciplinar (EAU-UFMG/CNPQ) e coeditor da revista homônima do grupo. Publicou Do autor
tradicional ao agenciador cibernético: do biopoder à biopotência, pela Annablume (2009, SP).
236 Além do bem e do mal

Referências:
AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993.
DELEUZE, Gilles. Nietzsche. Lisboa: Edições 70, 2009.
HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Common wealth. London: Harvard University
Press, 2011.
___. Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record,
2005.
___. Império. Rio de Janeiro: Record, 2006.
NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996.
___. Being singular plural. Stanford: Stanford University Press, 2000.
NEGRI, Antonio. The savage anomaly. Minneapolis: University of Minnesota Press,
1991.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio para uma filosofia do futuro.
São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
___. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
___. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
___. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
___. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres. São Paulo:
Companhia das Letras, 2005.
___. O crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
___. O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia
das Letras, 2007.
SHAPIRO, Gary. “Kairos and chronos: Nietzsche and the time of the multitude”.
In: ANSELL-PEARSON, Keith (org.). Nietzsche and political thought. London:
Bloomsbury Academic, 2013.
VIRNO, Paolo. Gramática da multidão: para uma análise das formas de vida
contemporâneas. São Paulo: Annablume, 2013.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 237- 252

Discriminação da pobreza e segregação


urbana no Rio de Janeiro

Marcos Maia

Introdução
O presente trabalho compartilhará brevemente um desdobramento de
alguns mecanismos pertinentes à produção de subjetividade capitalística e seus
agenciamentos de enunciação, que configuram territórios existenciais determina-
dos globalmente pela lógica neoliberal.
Portanto, serão abordadas as tecnologias de poder que deixam de se res-
tringir a práticas individuais de tirania, evoluindo para uma modalidade que se
estende à população através de discursos e ações que definem implicitamente – e
em determinadas ocasiões, explicitamente – modos de existência que prometem
qualidade de vida, ordem social e a sobrevivência da humanidade, implicando
também no que Guattari ([1992] 2012) denomina como “cidade subjetiva”.
Também será feita uma breve contextualização sócio-histórica partindo
dessas tecnologias de poder sustentadas pela produção de subjetividades, simul-
tânea à demonstração de ações políticas excludentes, enquanto analisadores,
para demonstrar alguns dos impactos de toda essa problemática na cidade do
Rio de Janeiro.

Produção de subjetividades
O tema que diz respeito à exclusão social é inerente a uma lógica capita-
lista, a qual visa uma hegemonia globalizada, transformando indivíduos em reféns
de seus próprios desejos através da produção de subjetividades com seus disposi-
tivos de controle utilizados por intermédio de agenciamentos de enunciação.
Portanto, o que é subjetividade? O que seria a produção de subjetivida-
des? Como se articulam esses agenciamentos de enunciação?
Guattari ([1992] 2012, p. 19) faz uma definição que considera como pro-
visória para subjetividade como “o conjunto das condições que torna possível que
instâncias individuais e/ou coletivas estejam em posição a emergir como territó-
rio existencial autorreferencial, em adjacência ou em relação de delimitação com
uma alteridade ela mesma subjetiva”.
238 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

De acordo com o conceito de Bock, Furtado e Teixeira ([1988] 2002,


p. 23), a subjetividade “é o mundo de idéias, significados e emoções construído
internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e
de sua constituição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afetivas e
comportamentais”.
Portanto, entende-se a produção de subjetividades como uma espécie de
indução à adoção de sistemas de referências e supostas verdades e formas de
atuação, de ações, de vivências, de percepção e formas de pensar do indivíduo
construindo também uma série de valores instituídos.
Conforme Guattari ([1986] 2010, p. 35), “trata-se de sistemas de conexão
direta entre as grandes máquinas produtivas, as grandes máquinas de controle
social e as instâncias psíquicas que definem a maneira de perceber o mundo (...)”.
O autor indica que na produção de subjetividades capitalística são estabe-
lecidas articulações entre instâncias extrapessoais – sistemas econômicos, sociais,
tecnológicos, sistemas de mídia – e instâncias de natureza infrapsíquica – afeto,
desejos, memória, imaginações, sensibilidade e demais aspectos da subjetividade.
Considerando a abrangência da produção de subjetividades, operando
através dessas redes de conexões em fluxo contínuo, se articulam os agencia-
mentos de enunciação. Tais agenciamentos, conforme Deleuze e Guattari ([1995]
2011, p. 16), “coordenam os processos de subjetivação ou as atribuições de sujei-
tos na língua, e que não dependem nem um pouco dela”.
Esses autores indicam que ocorrem os agenciamentos da palavra de or-
dem. Porém, a palavra de ordem a que se referem não se trata exclusivamente de
uma ordem transmitida através de uma fala imperativa, pois ela está implícita em
diversos modos de linguagem, carregando uma série de atributos. Tais atributos
podem ser verificados até mesmo numa frase como “eu te amo”, por exemplo, vis-
to que quando ela é transmitida, consequentemente emite uma atribuição à pessoa
amada como condição do ser amado, carregando expectativas, assim como expres-
sa também a condição de quem está amando, se colocando, eventualmente, numa
posição generosa para quem supostamente se espera algum tipo de retribuição.
Conforme Deleuze e Guattari ([1995] 2011, p. 20), “as palavras de ordem
ou os agenciamentos de enunciação (...) designam essa relação instantânea dos
enunciados com as transformações incorpóreas ou atributos não corpóreos que
eles expressam”.
Vale destacar que esses agenciamentos de enunciação são coletivos, não
apenas por se tratarem de um caráter grupal, mas também por se caracterizarem
Marcos Maia 239

pela entrada de diversas coleções de objetos técnicos, de fluxos materiais e incor-


póreos, entidades incorporais, entre outros.
É possível observar esses agenciamentos em piadas racistas ou, por
exemplo, em cenas de teatro ou televisão em que um personagem negro atua de
forma ridicularizada, reforçando estereótipos naturalizados no que se pode cha-
mar de senso comum. Também se podem considerar frequentes esses tipos de
atribuições direcionadas a pessoas metodicamente enquadradas a classes consi-
deradas como pobres.
Essas práticas discriminatórias engendradas em entrelinhas culturais de-
monstram a presença dos “amoladores de facas”, sobre os quais Baptista (1999)
se refere metaforicamente para abordar os atributos que circulam implicitamente
nos discursos de agentes considerados como referências no meio artístico, cientí-
fico e religioso, entre outros, em seu texto “A Atriz, o Padre e a Psicanalista – os
Amoladores de Facas”.
Portanto, percebe-se que há uma variedade nas modalidades de agencia-
mentos de enunciação, seja de formas diretivas ou implícitas, que não substituem
umas às outras, mas se articulam. Entende-se que não há dicotomias entre moda-
lidades de veiculação de enunciados.

As formas arcaicas de enunciação repousam, essencialmente, sobre a palavra


e a comunicação direta, enquanto os novos agenciamentos recorrem cada vez
mais aos fluxos informativos mediáticos, levados em canais cada vez mais ma-
quínicos (as máquinas às quais nos referimos aqui não são apenas de ordem téc-
nica, mas também científicas, sociais, estéticas, etc.) que extravasam por todas
as partes os antigos territórios subjetivos individuais e coletivos. (GUATTARI,
[1987] 2008, p. 5).

Rolnik ([2006] 2012) explica as produções sociais de subjetividades como


implicações coletivas que se estabelecem de modo que produzam uma subjetivi-
dade flexível e processual, que supostamente possibilita a capacidade de criação.
Porém, conforme destaca Rolnik ([2006] 2012), uma liberdade que, atra-
vés de identificações quase hipnóticas com imagens publicitárias, é seduzida pela
ideia de um mundo onde as pessoas são maravilhosas, nunca afetadas por nenhum
tipo de problema e vivem na perfeição. Trata-se de uma espécie de paraíso ima-
ginário onde Deus é substituído (ou atualizado como) pelo capital. Portanto, essa
liberdade oferecida, a princípio, acaba sendo capturada por padrões que visam
uma vida ilusória através da intensificação do consumo.
240 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

Ao ser articulada com o ponto de vista de Bauman (2009, p. 10), esta dita
capacidade de criação contraditoriamente promove uma espécie de “destruição
criativa”, através da qual o que se “(...) destrói são outros modos de vida e, por-
tanto, de forma indireta, os seres humanos que os praticam (...)”. E essa lógica de
consumo, segundo o autor, produz indivíduos ‘consumidoristicamente’ corretos.

As intervenções das tecnologias de poder


A consolidação dessa lógica de consumo e acúmulo de capital ocorre en-
tre diversas instâncias sociais através de uma biopolítica do poder, apresentando
uma tecnologia denominada por Foucault ([1976] 1999) como “biopoder”.
Segundo o autor, anteriormente ao biopoder, no que ele identifica como
“sociedade disciplinar”, uma autoridade soberana exercia o poder impondo-o sob
o corpo do indivíduo e decidindo até sobre sua morte.
A partir da segunda metade do século XVIII, de acordo com Foucault
([1976] 1999), se estabelece o biopoder, coexistindo e articulando-se com o po-
der disciplinar. O biopoder se caracteriza por não ser reduzido ao indivíduo, pois
visa abranger toda a espécie humana, sendo assim um poder global estabelecido
através da subjetividade. Não se determina sobre a morte, mas se estabelece uma
gestão da vida.
O lema no poder disciplinar consiste em “fazer morrer e deixar viver”,
enquanto o biopoder consiste em “fazer viver e deixar morrer”.
Sob o pretexto de preservação da vida e manutenção da espécie, a partir do
biopoder se modernizam processos como o de higienização. Esses processos visam
legitimar a segregação e eliminação de supostas “raças inferiores”, de indivíduos
supostamente inaptos para o mercado de trabalho e incapazes de se tornarem con-
sumidores. Portanto, tal segregação e eliminação são gradativamente naturalizadas.
O conceito de biopoder traz uma análise a respeito da organização da
população, por vezes através de intervenções relacionadas à saúde e informações
de caráter científico, entre outros.

Este bio-poder, sem a menor dúvida, foi elemento indispensável ao desenvolvi-


mento do capitalismo, que só pôde ser garantido à custa da inserção controlada
dos corpos no aparelho de produção e por meio de um ajustamento dos fenô-
menos de população aos processos econômicos. Mas, o capitalismo exigiu mais
do que isso; foi-lhe necessário o crescimento tanto de seu reforço quanto de
sua utilizabilidade e sua docibilidade; foram-lhe necessários métodos de poder
capazes de majorar forças, as aptidões, a vida em geral, sem por isto torná-las
mais difíceis de sujeitar; (...) operaram, também, como fatores de segregação e
Marcos Maia 241

de hierarquização social, agindo sobre as forças respectivas tanto de uns como


de outros, garantindo relações de dominação e efeitos de hegemonia; o ajusta-
mento da acumulação dos homens à do capital, a articulação do crescimento
dos grupos humanos à expansão das forças produtivas e a repartição diferencial
do lucro, foram, em parte, tornados possíveis pelo exercício do bio-poder com
suas formas e procedimentos múltiplos. (FOUCAULT, [1976] 1988, p. 132-133).

Rolnik (1999) destaca uma característica ainda atual que sustenta uma
ideia de dicotomia entre ordem e caos, entre estabilidade e instabilidade. Associa-
-se essa ideia de ordem à segurança, com uma administração dos processos de
subjetivação trazendo o medo como elemento fundamental.
De acordo com Coimbra (2000), do mesmo modo que durante a ditadura
os opositores políticos eram considerados como “inimigos internos do regime”,
atualmente essa atribuição ainda é feita aos indivíduos associados à pobreza. A
nova ordem mundial estabelece cidades sem traços de miséria ou pobreza. Porém,
com a incapacidade de esconder ou administrar a miséria, na ética neoliberal –
baseada em princípios econômicos – os pobres devem ser marginalizados, crimi-
nalizados e eliminados dos grandes centros urbanos.

Subserviência científica em prol da exclusão social


É possível analisar o exercício do biopoder ao longo da história do Brasil,
como, por exemplo, através do processo de higienização ocorrido na cidade do
Rio de Janeiro, ao fim do século XIX, que associava fatores de natureza étnica,
atribuindo predisposições genéticas, como também de natureza econômica como
ameaçadores à saúde, com embasamentos pretensiosamente científicos através de
discursos de ‘experts’, médicos da época.
Conforme lembrado por Baptista (1999, p. 117), “(...) os grandes urba-
nistas e arquitetos, no final do século passado, no Rio de Janeiro, foram médicos
sanitaristas e psiquiatras”. Esse processo consiste na remoção de comunidades
de áreas localizadas no grande centro urbano, promovida por uma aliança entre
Estado e ciência.

A aliança citada anteriormente promoveu em 1893, quatro anos após o início


da República, a demolição do conjunto de casas populares no centro do Rio de
Janeiro, chamado Cabeça de Porco. Os 4 mil habitantes da rua Barão de São
Félix tiveram suas casas interditadas pela Inspetoria Geral de Higiene, no man-
dato do prefeito Barata Ribeiro. Baseada em teoria importada da França, que
localizava as virtualidades ou predisposições genéticas para o crime na pobreza
e na loucura, a Inspetoria Geral de Higiene limpou a cidade evitando futuros
242 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

males. Os habitantes da Cabeça de Porco, traduzidos pela equação pobreza =


perigo = ameaça social, deixaram suas casas e o destino deles foram as en-
costas próximas à antiga residência. A especulação imobiliária se intensificou.
A urbe carioca ganhou face de uma grande metrópole civilizada e saudável.
(BAPTISTA, 1999, p. 118).

No pensamento científico daquela época eram exercidas relevantes influ-


ências da teoria da degenerescência.

A teoria da degenerescência propunha ações que extrapolavam os muros asila-


res, propondo a higienização e a disciplinarização da sociedade. Considerava
ainda a existência de uma hierarquia racial, estando no ápice a raça ariana e na
base a raça negra; muitos teóricos acreditavam ser os negros mais propensos à
degeneração por sua inferioridade biológica. (ANTUNES, [1998] 2005, p. 42).

A Liga Brasileira de Higiene Mental, fundada por Gustavo Riedel em


1923, foi assumindo a partir de 1926, conforme explica Antunes ([1998] 2005),
um ideal que consistia na eugenia – conceito criado por Galton que estudava ele-
vação e rebaixamento raciais sob os pontos de vista físico e mental – e profilaxia
– o que visava precauções higiênicas. De acordo com a autora, essa concepção
contribuiu para que a sociedade brasileira associasse os problemas sócio-econô-
micos a questões étnicas.
Coimbra e Nascimento (2003) indicam que essa concepção de inferiori-
dade atribuída a determinados segmentos sociais era pretensiosamente legitimada
em caráter dito científico também por outros autores. Alguns desses cientistas
utilizavam a antropometria, com a medição de ossos, crânios e cérebros, para
comprovar as suas teorias de inferioridade de indivíduos. Cesare Lombroso, con-
forme exemplificam as autoras, através da Antropologia Criminal, defendia uma
disposição inata para o crime. Tal disposição era característica de determinados
indivíduos que ofereciam perigos sociais. Logo, a esses indivíduos são atribuídos
os problemas de segurança pública.
Portanto, o processo de reconhecimento da Psicologia como ciência no
Brasil foi marcado pela finalidade de “exercer o controle e a disciplinarização
do proletariado urbano fora dos muros da fábrica”, conforme destaca Antunes
([1998] 2005, p. 49).

A lógica excludente da “cidade subjetiva” neoliberal


A referida “cidade subjetiva” não corresponde exclusivamente à cidade
do Rio de Janeiro, sobre a qual o presente trabalho propõe reflexões, mas a todas
Marcos Maia 243

as cidades, com seus agenciamentos de enunciação, incluindo a cidade do Rio


de Janeiro.
Considerando a ética neoliberal e sua predominância nos dias atuais, es-
pera-se das cidades, com uma estética peculiar e suas vias de acesso entre diferen-
tes redutos comerciais e turísticos, a habitação de uma população supostamente
“adequada”, com uma consistente capacidade de consumo. Idealizam-se cidades
belas que ofereçam um considerável nível de prestígio aos seus habitantes.

Quer tenhamos consciência ou não, o espaço construído nos interpela de dife-


rentes pontos de vista: estilístico, histórico, funcional, afetivo... Os edifícios e
construções de todos os tipos são máquinas enunciadoras. Elas produzem uma
subjetivação parcial que se aglomera com outros agenciamentos de subjetiva-
ção. (GUATTARI, [1992] 2012, p. 140).

Há um imobilismo que limita diversas cidades localizadas em diferentes


países e continentes a essa mesma lógica, o que estabelece os mesmos modelos.

Tudo circula: as músicas, os slogans publicitários, os turistas, os chips da in-


formática, as filiais industriais e, ao mesmo tempo, tudo parece petrificar-se,
permanecer no lugar, tanto as diferenças se esbatem entre as coisas, entre os
homens e os estados de coisas. No seio de espaços padronizados, tudo se tor-
nou intercambiável, equivalente. Os turistas, por exemplo, fazem viagens quase
imóveis, sendo depositados nos mesmos tipos de cabine de avião, de pullman, de
quartos de hotel e vendo desfilar diante de seus olhos paisagens que já encon-
travam cem vezes em suas telas de televisão, ou em prospectos turísticos. Assim
a subjetividade se encontra ameaçada à paralisia. (GUATTARI, [1992] 2012,
p. 150).

No entanto, ao se tratar de padrões, é possível entender como consequên-


cia de tal enquadramento as políticas de remoções de populações não adequadas
à lógica neoliberal de seus territórios de origem, quando esses territórios se lo-
calizam nas cidades destinadas aos grandes empreendimentos, o que decorre em
diversos tipos de enfrentamentos.
Em artigo publicado no jornal “Le Monde Diplomatique Brasil”, são
mencionados esses conflitos:

Sem dúvida, as manobras das classes dirigentes para privar o povo de seus
territórios não param de suscitar resistências. Afrontamentos entre polícia a ou
o exército e moradores de ciudades cayampas e favelas “disfarçados” de luta
contra a delinqüência e a subversão na América Latina; despejos realizados por
244 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

militares nas periferias do Magreb e da África subsaariana; deslocamento for-


çado de antigos habitantes e demolição de suas casas na China “popular” para
abrir terreno a infraestrutura e imóveis destinados a colocar as grandes cidades
em dia com a mundialização do mercado; incêndios metódicos de grande calibre
em ex-bairros “alternativos” de Berlim apropriados pela neo-burguesia após a
reunificação... (GUARNIER, 2010, p. 8).

Entende-se que esse fenômeno de pretensão de transformação das cida-


des em grandes núcleos de empreendimentos não se reduz à natureza da ideolo-
gia, mas abrange a sociedade como um todo através das políticas de desejo no
fluxo da produção de subjetividades capitalística, com auxílio das tecnologias de
poder abordadas anteriormente.
Compreende-se que essa abrangência alcança profissionais de diversas
naturezas, diversos líderes políticos e inclusive indivíduos que, mesmo sob con-
dições de exploração, são estimulados a serem integrados às denominadas clas-
ses dominantes aptas ao consumo de objetos garantidores do que se considera
qualidade de vida ofertados através de todo aparato publicitário. Equipamentos
publicitários que inserem desejos a todos numa realidade que exclui a maioria, em
alguns casos submetendo indivíduos ao endividamento para tentar comprar uma
suposta felicidade num ciclo vicioso potencializado pelo princípio do prazer que
movimenta o mercado.
Percebe-se essa pretensão nas palavras de Hoang Huu Phe, arquiteto e
então diretor do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Vinaconex,
que é a maior construtora do Vietnã, surgida na era do pós-comunismo, conforme
publicado no jornal “Le Monde Diplomatique Brasil”:

O arquiteto Hoang Huu Phe, de 55 anos, insiste que Hanói deve se engajar
numa ampla política de desenvolvimento urbano. “No governo, alguns tratam a
cidade apenas como uma entidade administrativa. Finalmente, essa visão está
se tornando obsoleta. Devemos construir uma capital atrativa e tecnológica, um
destino internacional de férias. Os Estados Unidos, por exemplo, fizeram Las
Vegas surgir de um deserto!”. (MONTHÉARD, 2010, p. 10).

Retornando à concepção de Felix Guattari, ao abordar sobre o que ele


denomina como “cidade subjetiva”, cabe destacar a seguinte afirmação:

Doravante não existe mais, com efeito, uma capital que domine a economia
mundial, mas um “arquipélago de cidades” ou mesmo, mais exatamente, sub-
conjuntos de grandes cidades, ligados por meios telemáticos e por uma grande
diversidade de meios de comunicação. (GUATTARI, [1992] 2012, p. 151).
Marcos Maia 245

Observa-se esse fenômeno provocando desigualdades por intermédio de


um senso competitivo, conforme é relatado por Garnier (2010) em publicação no
jornal “Le Monde Diplomatique Brasil”, quando aborda a concepção da “Paris
do século XXI” divulgada num folheto sobre as reformas programadas pela então
primeira secretária da prefeitura, Anne Hidalgo, que consiste em “(...) reforçar a
identidade de “cidades globais”, “um estatuto que a capital francesa disputa com
numerosas metrópoles mundiais”. Lembrando que Hidalgo é, na ocasião, a encar-
regada pelo urbanismo e arquitetura da cidade.

Como o supertrem circular automatizado previsto pela hipotética “grande Pa-


ris”, o projeto de anel viário em torno dos bairros tradicionais de Anvers não
visa responder às necessidades urgentes de transporte dos habitantes locais, e
sim colocar em relação direta pólos econômicos, estradas, aeroportos e estações
de trem. Em outras palavras, os pontos julgados vitais para a circulação do ca-
pital e que, articulados entre si, permitirão à metrópole francesa não ficar para
trás na competição com suas rivais européias. (GARNIER, 2010, p. 9).

No entanto, ocorre uma naturalização dessas práticas excludentes através


da idéia de que se trata de um processo inevitável para o desenvolvimento das
cidades.

A ética de segregação da pobreza na cidade do Rio de Janeiro


No Brasil, pode-se considerar que o fenômeno de segregação da pobreza,
embora já ocorresse anteriormente, obteve consideráveis avanços a partir da pri-
meira metade da década de 1990 com as políticas neoliberais aplicadas durante o
governo de Fernando Henrique Cardoso que se caracterizou, entre outros fatores,
pela série de privatizações de estabelecimentos e serviços públicos que teve se­
quência desde então, até os dias atuais.
Portanto, alguns pontos demonstram que esse suposto desenvolvimento
tem alcançado apenas uma minoria, porém é sustentado por recursos – sejam estes
econômicos ou territoriais – extraídos de uma maioria.
Auditores da Receita Federal publicaram no jornal “Le Monde Diploma-
tique Brasil” dados do IBGE que demonstram que:

(...) em 1996, a carga tributária indireta sobre famílias com renda de até dois
salários mínimos representava 26% de sua renda familiar; em 2002, pulou para
46%. Para famílias com renda superior a 30 salários mínimos, a carga indireta
era de 7,3%, em 1996, e de 16% em 2002. (GONDIM e LETTIERI, 2010, p. 8).
246 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

E além da arrecadação tributária desfavorecendo uma grande parcela da


sociedade – que nesse contexto, não é desfavorecida apenas economicamente fa-
lando – há uma destinação considerável de recursos públicos sustentando uma po-
lítica de privatização que transforma cidadãos em meros consumidores, conforme
explicita matéria publicada no jornal “Le Monde Diplomatique Brasil”:

É da mesma época, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a Lei n. 8.987,


de Concessões de Serviços Públicos, que cria um marco regulatório para pri-
vatizar as companhias de serviços de saneamento. A chegada das operadoras
multinacionais à área de saneamento contou com o estímulo e o incentivo do
governo federal, por meio de programas de privatização e reestruturação, com
recursos financeiros da Caixa Econômica Federal e do Banco Nacional de De-
senvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O Estado perde sua capacidade reguladora em defesa do interesse público, ado-


ta critérios de mercado para estabelecer as políticas e os preços das tarifas
públicas, e ignora a realidade social. É preciso garantir o lucro das operadoras.
(BAVA, 2013, p. 4).

Portanto, cada vez mais se intensifica e se institucionaliza a ética neolibe-


ral que emerge das atuais características do sistema capitalista.

Esse é o mundo no qual a ética neoliberal − de um intenso isolamento do indi-


víduo, de ansiedade e neurose, de consumismo − se impôs como padrão. Quem
tem dinheiro usufrui a cidade; quem não tem encontra aí uma vida cada vez mais
insuportável. (BAVA, 2013, p. 5).

É possível perceber que no Brasil, onde atualmente é instituído um siste-


ma eleitoral supostamente democrático, a produção de subjetividade capitalística
reforça cada vez mais essa ética de mercado, influenciando na opinião pública
e assim refletindo nas eleições, quando os políticos que aderem e apresentam
tais propostas constituem uma maioria no quadro parlamentar, contaminando até
mesmo muitos daqueles que supostamente não compartilham com os ideais neo-
liberais, através de barganhas que visam apoio político.
Na cidade do Rio de Janeiro, há relevantes fatos históricos que demons-
tram uma finalidade segregação da pobreza através de remoções de diversas co-
munidades dos considerados principais centros urbanos. Em outros momentos,
ainda que esses fatos possam ter sido legitimados por uma outra roupagem, afir-
mam-se as políticas de controle social características do biopoder.
Marcos Maia 247

Atila Roque e Renata Neder, Diretor Executivo da Anistia Internacional


no Brasil e Geógrafa Assessora de Direitos Humanos da Anistia Internacional no
Brasil, respectivamente, demonstram esse cenário através de publicação no Relató-
rio de 2013 da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ:

As remoções de favelas e comunidades de baixa renda não são um fenômeno


recente no Rio de Janeiro. Infelizmente, fazem parte da história e evolução
urbana da cidade. Nos anos 60 e 70, ganharam força as políticas de remoção
da população pobre e das favelas localizadas nas áreas mais valorizadas da
cidade, como a região da Lagoa Rodrigo de Freitas. Dentre as favelas remo-
vidas estão a Praia do Pinto, Macedo Sobrinho, Pasmado e Catacumba. Por
causa de sua localização privilegiada, elas foram alvo de intensa especulação
imobiliária e cobiça. Hoje, décadas após as remoções, podemos ver como essas
áreas foram reocupadas pela classe alta e como esses bairros foram elitizados.
(COMISSÃO DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA
ALERJ, 2013, p. 42).

Nos últimos anos, sob a justificativa dos projetos pertinentes aos mega-
eventos a serem realizados na cidade do Rio de Janeiro, a política de remoções
tem se intensificado, conforme demonstra o Deputado Estadual Marcelo Freixo
no Relatório de 2009 a 2012 da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e
Cidadania da ALERJ:

A leitura do mapa das remoções do município do Rio de Janeiro, com a pers-


pectiva de mais de sete mil famílias retiradas de suas casas em função das obras
para supostamente viabilizar os megaeventos e sua infraestrutura ajuda a reve-
lar a opção da atual política de habitação do Estado. (...) os grandes projetos
em curso abrem frentes de expansão imobiliária e de atração de investimentos,
flexibilizando e abrindo exceções em normas e leis. (COMISSÃO DE DEFESA
DOS DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA DA ALERJ, 2012, p. 30).

A criminalização da pobreza na cidade do Rio de Janeiro


Uma das formas pelas quais as pessoas associadas à pobreza são segre-
gadas dos principais centros urbanos na cidade do Rio de Janeiro, historicamente
falando, se dá através de sua criminalização. Esse fenômeno ocorre sob o pretexto
de estabelecer uma ordem social em detrimento do caos que essa população é
estigmatizada a representar.
De acordo com Carvalho ([1987] 2011), ainda antes da Proclamação da
República, ao final do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro contava com um
248 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

crescimento populacional desordenado que contava com o acúmulo de pessoas


submetidas à exploração de mão-de-obra barata ou sem ocupação fixa. Essas pes-
soas eram tratadas de forma hostil, conforme demonstra a anotação do embaixa-
dor português: “Está a cidade do Rio de Janeiro cheia de gatunos e malfeitores de
todas as espécies”.
O autor indica que essa população era associada a grupos que preconcei-
tuosamente caracterizavam perigo na primeira metade do século XIX.

Eram ladrões, prostitutas, malandros, desertores do Exército, da Marinha e dos


navios estrangeiros, ciganos, ambulantes, trapeiros, criados, serventes de re-
partições públicas, ratoeiros, recebedores de bondes, engraxates, carroceiros,
floristas, bicheiros, jogadores, receptadores, pivetes (a palavra já existia). E, é
claro, a figura tipicamente carioca do capoeira (...). Morando, agindo e traba-
lhando, na maior parte, nas ruas centrais da Cidade Velha, tais pessoas eram
as que mais compareciam nas estatísticas criminais da época, especialmente as
referentes às contravenções do tipo desordem, vadiagem, embriaguez, jogo. Em
1890, estas contravenções eram responsáveis por 60% das prisões de pessoas
recolhidas à Casa de Detenção. (CARVALHO, [1987] 2011, p. 18).

Conforme aponta Carvalho ([1987] 2011), a Proclamação da República


não consistiu ainda, por parte do Estado, na garantia de direitos para todos. Aos
grupos como pobres e mulheres, de modo geral, não eram concedidos, por exem-
plo, direitos como o do voto.
Com a influência da criminologia científica, que começou a predominar
na América Latina no fim do século XIX como modalidade de investigação,

Uma das formulações mais recorrentes propostas pelos criminólogos latino-


-americanos (...) foi a chamada “questão social”, um conceito que abarca (...)
diversos problemas tais como a criminalidade urbana, as doenças e epidemias,
a pobreza e o descontentamento social e político, os quais ameaçavam, na per-
cepção das elites, a integridade da nação e a continuidade do crescimento eco-
nômico. (AGUIRRE, 2009, p. 54).

Portanto, atualmente se produz uma onda de medo que circula por inter-
médio de agenciamentos de enunciação espalhando uma série de atributos que
associam a pobreza ao crime. Lembrando que o Estado, através de suas políticas
de segurança pública, é conivente, visto que ações policiais discriminatórias são
impulsionadas.
Percebe-se que é frequente o exercício de práticas truculentas por parte
da polícia em diversas comunidades da cidade do Rio de Janeiro. De acordo com
Marcos Maia 249

Eduardo Baker, Bruno Cava e Giuseppe Cocco, advogado em Direito Penal, mes-
tre em Filosofia do Direito e Professor da UFRJ, respectivamente, ambos mem-
bros da rede Universidade Nômade, através de publicação no jornal “Le Monde
Diplomatique Brasil”:

Na noite de 24 de junho de 2013, a Polícia Militar do Rio de Janeiro invadiu o


complexo de favelas da Maré com seu equipamento de guerra: blindados, heli-
cóptero e fuzis. A polícia ocupou o território habitado por cerca de 150 mil pes-
soas e protagonizou uma madrugada de terror. Além do cerco no qual “ninguém
entra ou sai”, foram interrompidas as ligações elétricas e de telefone, centenas
de domicílios foram invadidos sem qualquer autorização judicial e, dependendo
de quem se consulta, de nove a catorze moradores foram sumariamente execu-
tados pela polícia. Como simplesmente atirar é “pouco”, a tropa de elite optou
por degolar algumas das vítimas. (BAKER; CAVA e COCCO, 2014, p. 38).

No entanto, acompanhando essa lógica, há de se esperar que a maior


parte da população prisional no estado seja constituída por pobres, assim como a
população das unidades do sistema socioeducativo.
Fábio Simas, membro do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate
à Tortura, informou em audiência pública realizada na ALERJ em 05 de novem-
bro de 2013 que, ao analisar as políticas destinadas à criança e ao adolescen-
te ao longo das visitas que o mecanismo tem realizado a unidades desde 2011,
mais especificamente aos adolescentes que cometeram ato infracional, embora o
Estatuto da Criança e Adolescente esteja instituído há mais de duas décadas, as
práticas exercidas ainda são análogas ao Código de Menores. Simas denuncia a
prática “menorística” aplicada aos adolescentes, sendo estes majoritariamente po-
bres, negros e moradores de favelas, decorrente dos atos infracionais cometidos.
Portanto, também revela que esse processo de criminalização da pobreza ainda é
muito presente nas práticas do sistema de Justiça, da polícia, da mídia e da socie-
dade de modo geral.
Na mesma audiência mencionada, o então subdiretor geral do DEGASE
- Departamento Geral de Ações Socioeducativas do Estado do Rio de Janeiro,
Roberto Bassan Peixoto, informa que até 2011 a maior frequência das apreensões
dos jovens decorria de atos infracionais contra o patrimônio, especificamente rou-
bos e furtos, porém em 2012 e 2013 há uma inversão nessa linha, onde os atos in-
fracionais análogos ao tráfico de drogas ultrapassam os casos contra o patrimônio.
Peixoto destaca também que os atos infracionais análogos ao homicídio não são
os casos principais cometidos por adolescentes, ao contrário de que se diz em sen-
so comum, não atingindo o percentual de 7% das apreensões. Ele informa também
250 Discriminação da pobreza e segregação urbana no Rio de Janeiro

que o aumento das apreensões de jovens ocorreu coincidindo com a realização de


grandes eventos no Rio de Janeiro, tais como a Jornada Mundial da Juventude e a
Copa das Confederações.
De acordo com Santos (2011), no fim do século XIX havia uma distinção
entre as expressões criança e menor, com o termo menor utilizado no Código
Criminal do Império derivado de crimes cometidos “por menores de idade”. Esse
termo era geralmente atribuído às crianças e adolescentes pobres, numa associa-
ção que já se fazia entre a pobreza e o crime. Havia uma perspectiva de controle
em que a pobreza derivava perigo e era necessário que se tomassem medidas de
prevenção contra indivíduos “potencialmente perigosos”.

Considerações finais
Diante do que foi apresentado, no que diz respeito à produção de sub-
jetividades, às tecnologias de poder e à formação das “cidades subjetivas”, cabe
compreendê-los como fenômenos interdependentes que, no contexto neoliberal,
promovem a segregação de indivíduos associados à pobreza.
Muitos indivíduos, inclusive, são considerados como inferiores por não
suportarem as condições desumanas e desiguais a que são submetidos ao longo
da vida. E essas condições não se reduzem ao desrespeito à integridade física,
mas também aos danos psicológicos causados. E, além disso, são induzidos a
todo tempo, por toda parte e de diversas formas, a aderirem padrões de vida que a
realidade os nega para serem “alguém na vida”. Padrões estabelecidos através da
subjetividade e que interferem também em seus laços sociais.
É notável que um viés econômico hierárquico tem assumido cada vez
mais a prioridade no desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro, determinando
condutas de garantias de direitos.
E nessa hierarquia, no entanto, o Estado exerce uma função mínima para
a promoção de dignidade, igualdade e integridade para a população, distorcendo
também o entendimento de liberdade numa lógica de abandono diante de um ce-
nário competitivo em que uma minoria usufrui de condições previamente favorá-
veis submetendo uma maioria a condições de opressão. Porém, o mesmo Estado
se demonstra atuante em medidas de exclusão social em defesa das parcerias com
a iniciativa privada para a expansão do mercado.
Portanto, ainda que possam ser consideradas como fundamentais para a
conquista de uma condição de vida digna, entende-se que os marcos alcançados
através da Constituição de 1988, por exemplo, não serão suficientes enquanto
seus princípios – que até então estão convertidos pela ética capitalista – não forem
Marcos Maia 251

libertados da teoria para a prática produzindo uma subjetividade livre e autorre-


ferencial, viabilizando uma igualdade de direitos que reconheça os mais distintos
modos de existência.

Marcos Maia é psicólogo concluinte no Centro Universitário Celso Lisboa, Rio de


Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: markmaia@hotmail.com.

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LUGAR COMUM Nº42, pp. 253- 258

Peter Seeger, 1919-2014

Thaddeus Gregory Blanchette

Peter Seeger ergeu-se por 75 anos em cima da cena de música


folclórica como um grande pinheiro de madeira vermelha. Andou
com Woody Guthrie na década de ’40, desafiou Joe McCarthy nos
anos ’50 e marchou com Dr. Martin Luther King nos ’60s. Suas
músicas serão cantadas em todos os lugares onde o povo luta para
seus direitos. We shall overcome.
Billy Bragg

Eu tive a enorme boa fortuna de ter encontrado Pete Seeger três vezes na
minha vida.
A primeira vez foi em 1971, quando eu tinha três anos de idade. Minha
mãe era aficionada de música folk norte-americana e me levou, junto com sua
irmã e meus primos, a um pequeno festival onde Pete tocava ao lado de Peter,
Paul & Mary. A memória dele cantando é uma das mais antigas que tenho. Após o
show, fomos nós apresentar aos artistas e me lembro olhando para o rosto de Pete
e pensando, “Que velhinho simpático!” Sua bondade e presença me marcaram
profundamente, mesmo naquela tenra idade. Quando Pete te olhava, você sabia
(como Harry Chapin comentaria mais tarde em sua música em homenagem ao
Seeger, O Velho Folclorista (The Old Folkie) que ele estava realmente presente. É
uma sensação que tenho experimentado com poucas pessoas.
Eu nada sabia, na época, da história do homem.
O fato que Seeger cantava de graça para uma banda de alunos universi-
tários e jovens era o resultado da cassação profissional que ele tinha sofrido por
ter recusado testemunhar contra seus amigos e colegas do movimento comunista
durante a caça de bruxas liderada pelo Senador McCarthy. Seeger, que tinha sido
membro do Young Communist League em sua juventude, foi condenado a 10
anos de prisão por esse “ultraje”, num país que se considerava (e ainda se entende)
como a mais perfeita flor da liberdade e democracia.
A condenação foi revista, mas Pete foi colocado na lista negra das gra-
vadoras, rádios e televisões dos EUA. Por causa disto, nunca lucrou com a ex-
plosão de popularidade da música folk nos anos 1960. Hoje, centenas de milhões
de seres humanos conhecem músicas como “If I had a Hammer”, “Turn, Turn,
254 Peter Seeger, 1919-2014

Turn”,“Where Have All the Flowers Gone?” e “We Shall Overcome” graças a
Pete, mas poucos conhecem o nome do homem que as colocou no repertório glo-
bal. Bob Dylan, Joan Baez, Marlene Dietrich, The Kingston Trio e vários outros
artistas faziam sucesso e ganhavam milhões cantando as músicas do Seeger. Pete,
que vivia numa cabana que ele mesmo construiu, em cima do Rio Hudson no
estado de Nova Iorque, pouco se importava com que outras pessoas poderiam
considerar uma injustiça. Para ele, a música sempre foi a coisa mais importante.
Nascido em 1919 numa família tradicional calvinista de Nova Inglaterra,
Pete Seeger seguia no ramo da família quando decidiu trilhar uma carreira dedi-
cada à música e poesia. Seu pai, Charles Louis Seeger, foi um dos fundadores de
etnomusicologia – carreira ainda seguido pelo sobrinho de Pete, o antropólogo
Anthony Seeger. Sua mãe, Constance Clyver Edson, ensinava música na presti-
giosa Julliard School enquanto sua madrasta, Ruth Crawford Seeger, é hoje con-
siderada uma das compositoras modernistas mais importantes do século XX. Seu
tio, Alan Seeger, foi um dos mais famosos poetas americanos da Primeira Guerra.
(Eu precisava decorar seu poema, “I have a renedvous with death” no colégio).
Seeger estudava no Harvard, mas deixou a universidade para se dedicar
à musica e à política. Envolvia-se profundamente com as lutas para justiça e de-
mocracia da década de 1940, formando parcerias com tais legendas da música
popular americana como Woody Guthrie, Huddy Leadbelly e Lee Hayes. Ajudou
fundar The Almanac Singers e The Weavers, dois dos grupos mais influentes da
música folk dos EUA. Durante a Segunda Guerra, Seeger (assim como meu avô)
treinou para ser um mecânico de aviões, mas (diferente de meu avô) gastou a
maior parte de seu tempo cantando para as tropas. Existe uma foto maravilhosa
dele tocando para uma plateia que incluía a Primeira Dama Eleanor Roosevelt
numa festa racialmente mista no Dia dos Namorados em 1944.
Nos dias de Obama, tal coisa pode parecer absolutamente normal. Em
1944, porém, a segregação racial e as leis anti-miscigenação ainda vigoravam
em 13 estados americanos. Pete conhecia pessoalmente muito bem o que isto
queria dizer: casou-se com a japonesa-americana Toshi Aline Ohta em 1943, um
ano em que os americanos de descendência nipônica apodreciam em campos de
concentração como resultado da política racista de “segurança” inaugurada pelo
governo federal após o ataque do Império do Japão ao Pearl Harbor. (A história
da família de Toshi é tão colorida quanto a do Pete: seu avô tinha sido tradutor de
textos marxistas no Japão, fato que acabou no exílio de seu filho, o pai de Toshi.)
Era justamente essa incapacidade de se calar frente à injustiça – e particu-
larmente frente às injustiças raciais – que colocou Seeger e seus colegas na mira
Thaddeus Gregory Blanchette 255

de Senador McCarthy na década de 1950. Em 1953, quando as músicas “comu-


nistas” dos Weavers foram proibidas nos rádios americanos, Pete tinha 34 anos de
idade e já estava avançada em sua carreira. Sua voz não voltaria às transmissoras
até mais ou menos a mesma época em que eu o conheci pela primeira vez.
Em 1971, quando o encontrei pela primeira vez, Pete Seeger tinha 52
anos de idade e ganhava a vida tocando em universidades, cafés e pequenos fes-
tivais. Já era considerado por todos uma éminence grise da música folk norte-
-americana, fato retratado na música a sua homenagem que Harry Chapin gravou
em 197975: 

Ele é o homem com o banjo e a guitarra de 12 cordas


Cantando as músicas que nos contam quem nós somos.
Quando você olha em seus olhos
Você sabe que alguém está lá.
Faz 40 anos ele está na luta
Carregando o sonho pois o Woody já se foi
Ele é a última voz cantando aquela música “Bound for Glory”
E se você não o conheça, é bom conferir 
Ele é o homem que botou o significado nos livros de música
O mundo pode estar cansado, mas Pete continua forte.

Ironicamente, Harry Chapin morreria dois anos mais tarde, num acidente
de trânsito. Pete, porém, ainda tinha 33 anos de vida para sua frente.
Durante minha infância e juventude, as músicas de Pete Seeger forma-
ram uma trilha sonora constante, tocando em contraponto ao Hino Nacional.
Eram as músicas que cantávamos nos acampamentos, nos protestos, nos bares
e nas ruas. Foi o Pete que me ensinou a cantar e me apresentou a obra76 de
José Marti. Foi Pete que me catequizava sobre os sindicatos77, com sua música
“Talking Union Blues”.
Cada vez que Seeger passava pelo Wisconsin, geralmente acompanhado
pelo filho de Woody, Arlo Guthrie, eu fazia questão de ir assistir seus shows ou
pelo menos ouvi-los no rádio universitário da minha cidade. Mas só foi em 1986
que eu me encontrei com ele novamente.
Naquele ano, eu participava de uma marcha transcontinental que partia
de Los Angeles, rumo ao Washington D.C., militando em favor do fim dos testes

75 Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=6N3-obj0Xvk>.
76 Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=h0gg3-xvMB0>.
77 Ver em <https://www.youtube.com/watch?v=C13JFv4JfH8>.
256 Peter Seeger, 1919-2014

nucleares. Levavam 8 meses, andando 20 quilômetros por dia, em sol, chuva e


neve. Pete alcançava a Marcha em Iowa. Ele andava com a gente, tocava para nós
nas paradas, comia nossa comida terrível sem reclamar, cagava em nossos banhei-
ros químicos fedorentos e, ainda assim, no final do dia, fazia show beneficente
para arcar fundos para a Marcha.
Tudo com 67 anos de idade.
Um amigo meu descrevia com precisão uma interação típica com Pete
na Marcha:

Eu tinha andando quilômetros na chuva, estava insuportavelmente frio e eu es-


tava de saco cheio. Finalmente cheguei no ponto de almoço da Marcha e a única
coisa que tinha preparada lá era umas fatias de pão duro e uns cachorros quen-
tes, todos quebrados. Neste exato momento, quando eu ficava lá lamentando em
silêncio, chegava Pete Seeger. Sem piscar os olhos, ele pegou uma fatia de pão,
botou uma salsicha no meio, e saiu andando, rindo com alguns outros marcha-
dores, para tocar seu banjo embaixo das arvores.

Seeger voltava a acompanhar a Marcha em várias ocasiões. Quando en-


tramos em Nova Iorque, fazia questão de navegar seu saveiro, o Clearwater, em-
baixo da ponte George Washington enquanto passávamos por cima. Também fez
um show de despedida para a gente em D.C.
A terceira vez que encontrei Pete foi o mais triste, pelo menos para mim.
Na década de 1990, o governo americano aparentemente tentou reabilitar
Seeger como uma espécie de tesouro nacional. Em função disto, ele fez uma turnê
pelo Brasil, patrocinada pela Embaixada dos EUA. Lembro que ele foi ao progra-
ma do Jô Soares, que o tratou como realeza visitante. Jô fazia questão de informar
os telespectadores sobre a importância do Pete e avisou ao Brasil inteiro que seu
show no Memorial da América Latina seria de entrada franca. Fez de tudo para
alavancar interesse neste homem, tão importante para a música popular americana
e, no entanto, quase desconhecido no Brasil.
Na noite seguinte eu, Katia Campos Mendes e nosso filho Leonardo fo-
mos para o show no auditório cavernoso do Memorial... e descobrimos que éra-
mos três entre os somente 30 espectadores que vieram assistir Pete.
Pete levava tudo numa boa e fez um show íntimo, cobrando pessoalmen-
te todos os membros da plateia para que eles aprendessem a cantar as músicas.
“Aqui não é uma aula de etnomusicologia,” brincava. “Hoje, vocês vão cantar!”
Depois, ele reunia todos no camarim e bateu papo conosco por mais de uma hora.
Thaddeus Gregory Blanchette 257

Nesta ocasião, Pete estava acompanhado por seu neto, Tao Rodriguez-
-Seeger, que passou vários anos de sua infância em Nicaragua e sabia cantar em
espanhol. Tao e Pete, cientes do crescente influência hispano-falante nos EUA,
estavam incorporando cada vez mais músicas folk em espanhol a suas performan-
ces. Então foi assim, nos meus 28 anos, que Pete e Tao me ensinaram a cantar “De
Colores”78 e me apresentaram à obra do cantor argentino León Gieco.
Pete nunca parou de levar a música do mundo aos EUA e vice versa.
Também nunca parou em seu ativismo. Lutou 40 anos para tentar despo-
luir o Rio Hudson. Militou contra todas as guerras americanas da segunda metade
do século XX. Foi oponente feroz do racismo, em todas suas manifestações. Em
2011, com 92 anos de idade, ele se aliou ao movimento Occupy em Nova Iorque,
marchando de Broadway para Columbia Circle com Tao, Arlo Guthrie e muitos
outros músicos, mais milhares de apoiadores, num evento apelido posteriormente
de “A Marcha Pete Seeger”.
Em 27 de janeiro 2014, o velho folclorista finalmente se foi, deixando um
vazio irreparável nos corações de todos que conheciam o homem e sua música.
Sou cínico e cético com respeito a meu país de origem. Mas nos momen-
tos mais sombrios, lembro que embora os EUA são capazes de fazerem grandes
injustiças e maldades no mundo, também podem criar pessoas como Pete See-
ger e toda sua maravilhosa família. Sua música e seus pensamentos ficarão para
catequizar gerações futuras com suas mensagens de esperança, amor, justiça e
luta. Mas nós que tivemos a boa fortuna por conhecer Pete Seeger, mesmo que
brevemente, sempre sentiremos a falta desse melhor exemplar possível de um
verdadeiro humanitário.

Coda
Para fechar essa breve homenagem ao Pete, e ilustrar bem seu alcance
mundial, segue uma música que ele gravou no ano em que eu o conheci pela
primeira vez, “Rainbow Race” (“Raça Arco-íris”). A canção virou uma música
infantil popular em Noruega. Em 2011, 40.000 noruegueses se juntaram no centro
de Oslo para marcar seu repúdio aos atos do racista Anders Berhring Breivik, que
matou 77 pessoas num acampamento. Breivik odiava a música, que ele taxou
como “lavagem cerebral socialista”. O prefeito de Oslo classificou o evento como
“uma verdadeira manifestação da cultura norueguesa”79.

78 Ver em <https://www.youtube.com/watch?v=VKHeWxPvpkE>.
79 https://www.youtube.com/watch?v=9Q7CPNNWfME
258 Peter Seeger, 1919-2014

Rainbow Race (Raça Arco-íris)


Pete Seeger, 1971

Um céu azul acima de nós


Um mar tocando todas nossas praias
Uma terra tão verde e redonda
Quem podia pedir mais?
E pelo fato que te amo
Tentarei mais uma vez
Para demonstrar para minha raça arco-íris
Que é cedo demais para morrer.
Tem gente que quer ser que nem o avestruz,
E enterrar suas cabeças na areia.
Tem gente que espera que os sonhos de plástico
Podem desgarrar todas aquelas mãos cobiçosas.
Alguns esperam tomar o caminho fácil:
Veneno e bombas. Eles acham que necessitamos disto.
Mas não tem como matar todos os descrentes
Não tem um caminho curto para a liberdade.
Vai contar para todas as criancinhas.
E todos os mães e pais, também.
Essa é nossa última chance a apreender compartilhar
O que foi nos dado.

Thaddeus Gregory Blanchette é antropólogo e professor da UFRJ – Macaé. Nasceu


nos EUA e imigrou-se para o Brasil em 1990. É grande admirador da música folclórica de todos
os tipos.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 259- 264

“Para a sua segurança, você está sendo


filmado”: notas sobre a segurança/
consenso na cidade contemporânea

Eledison Sampaio

A crescente multiplicação de dispositivos de segurança testemunha


uma mudança na conceituação política, a ponto de podermos
legitimamente nos perguntar não apenas se as sociedades em
que vivemos ainda podem ser qualificadas de democráticas, mas
também e acima de tudo se elas ainda podem ser consideradas
sociedades políticas80 (AGAMBEN, 2014).

Num momento instigante e clarividente do seu devir reflexivo, Gilles


Deleuze (1992) colocou sua “caixa de ferramentas” em conexão para formular
uma caracterização crítica do que chamou de sociedades de controle ou da co-
municação. Em tais sociedades, emergentes de forma potente no pós-guerra, iti-
nerários tanto conhecidos quanto inéditos passam a se evidenciar, mobilizando o
campo de exercício da cidade como arena política em dupla dimensão: se por um
lado exige-se um sujeito autônomo, criativo, produtivo e polivalente, por outro
ampliam-se as estratégias de promoção de consensos, ampliam-se as capacidades
de vigilância e controle, formulam-se processos de sociabilidade programada e
fluxos incessantes que forjam liberdades aprisionadas. Nestes termos, a cidade
que controla e que é controlada vê-se atravessada por dispositivos variados, sus-
tentados por intenções, usos, desejos, técnicas e contextos diferenciados. Diz De-
leuze (1996, p. 92): “pertencemos a dispositivos e nele agimos”.
De fato, as sociedades de controle são tão complexas não porque suposta-
mente suprimiram as sociedades de soberania e as sociedades disciplinares. Antes
de substituir qualquer coisa, o controle age como um complexo que aciona técni-
cas de vigilância variadas de tempos e momentos históricos, colocando o moder-
no e o contemporâneo em conversação e negociação. Já avisara Deleuze (2011,
p.44), invocando sua leitura de Foucault: “todo diagrama é uma multiplicidade
espaço-temporal (...) concebem-se diagramas intermediários como passagens de
uma sociedade a outra”.

80 Entrevista disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1568


260 “Para a sua segurança, você está sendo filmado”

Quer-se dizer que o contemporâneo mantém práticas tais como penaliza-


ções em campo aberto81, em analogia ao que ocorria na sociedade de soberania, a
exemplo do que ocorria no Brasil oitocentista. Um salto histórico faz ver que as
jornadas de junho/julho de 2013 no Brasil evidenciaram que o corpo burocrático
estatal, por via do seu aparelho policial, permanece inerte frente a qualquer prin-
cipio constitucional sobre direitos humanos ou a qualquer dos princípios basilares
do Estado Democrático. Um complexo de agressões físicas e psicológicas que,
além de refletir o panorama cotidiano das populações subalternas, mostram que
no Brasil atual da Copa, do Facebook e do Globo, não existe direito à manifesta-
ção, direito ao não – direito a “poder” dizer não. Ou melhor, o tão prolatado di-
reito à diferença só funciona quando da política cultural da imposição mascarada
e da tolerância hipócrita, da conveniência e da alteridade com inicio, meio e fim
rígidos. Isto significa que o mundo moderno, mais que assassinado ou adormecido
pelo fluxo inexorável dos acontecimentos, está bem vivo nos tempos que seguem,
ainda que com outras facetas e novas demandas, ainda que com novos movimen-
tos entre trilhas, partilhas e, sobretudo, rupturas.
Por outra vertente, mediante alegadas razões de segurança, um emara-
nhado de práticas disciplinares não cessam de nascer e se recriar nos vários es-
paços do ambiente citadino. As câmeras de vigilância, por exemplo, amplamen-
te apoiadas em um ideal humanista82 de segurança, podem ser concebidas83 em
alusão ao funcionamento do panóptico de Bentham, redimensionando a análise
foucaultiana da visibilidade como armadilha. Na sociedade contemporânea, resta-
-se ineficaz atribuir à tecnologia uma responsabilidade sobre a esfera de efeitos
relacionados, direta ou indiretamente, aos seus usos potenciais. Desviando disso,
o que se apregoa é que os registros imagéticos e a capacidade de identificação da
videovigilância fazem emergir sérios desdobramentos sociopolíticos e comunica-
cioniais em ordem local, nacional e transnacional.
Nos ambientes institucionais, públicos e privados, o uso de câmeras ain-
da preserva uma lógica eminentemente disciplinar. O “sorria, você está sendo
filmado” deve ser levado a sério, posto que a vigilância não se resume à questão
da segurança; ou melhor, segurança e vigilância não são conceitos sinônimos,

81 Ver conhecido artigo de Passetti (2004) “Segurança, confiança e tolerância: comandos das
sociedades de controle”, disponível em: http://www.scielo.br/pdf/spp/v18n1/22237.pdf
82 Concebe-se o problema do humanismo refletindo-se nas críticas de Arendt (2009) ao mundo
moderno.
83 Sob certos aspectos, diga-se. O panóptico não opera sozinho, mas em consonância com
outras formas de vigilância (LYON, 2010, p. 127-131).
Eledison Sampaio 261

conforme a mídia de espetáculo quer fazer acreditar. Com isso, a videovigilância


distribui-se numa lógica crescente, pois existe uma paranóia agressiva por segu-
rança nas metrópoles. Soma-se a isso o fato de que a vigilância visual, amplamen-
te solicitada e desejada, naturalizou-se como uma das tendências mais expressivas
da cultura contemporânea (LYON, 2010).
De certa maneira, o desejo84 que se reflete no contexto da videovigilân-
cia reforça contradições sociais de outrora, sinalizando que nossa democracia,
tão elogiada como pletora de direitos, reservou grande parte do seu arsenal de
vigilância para um público seleto e a segurança para outro, de modo que: se o
sujeito é criminoso ou subalterno, o olho discriminatório da videovigilância deve
funcionar como um cão farejador, disposto ao trato e ao bote; se se trata de um
funcionário público, com impostos em dia, não é mais um caso de vigilância, mas
de segurança. Em qualquer dos dois casos, também se estará sujeito à vigilância
nas relações de consumo e na Internet, quer queira ou não. É bem verdade que,
no final das contas, todos são potencialmente suspeitos nestes Estados de controle
(AGAMBEN, 2014).
A vigilância atual convoca à participação popular, fazendo soar no bojo
das multiplicidades que a segurança é papel de todos, pois o Estado é incapaz ou
ineficaz de formular políticas públicas sérias para atacar a gênese dos problemas
e não suas conseqüências mais aparentes, visíveis a qualquer olhar mais insidio-
samente moralizado.
A ampliação irresponsável do conceito de segurança, além de refletir
confusões teóricas, funciona como ferramenta discursiva sofisticada de produ-
ção da dominação. Olhando nessa perspectiva, os “indivíduos que controlam a si
mesmos identificam-se com sua própria exploração e dominação, eles consentem
e participam ativamente de sua exploração” (FUCHS, 2011, p. 123).
Não parece que Deleuze, quando aduz sobre o potencial operatório dos
dispositivos, está querendo advogar que o controle é algo democrático ou que
possa tornar-se. Muito pelo contrário, nessas sociedades descritas por Deleuze, “a
democracia transforma-se em discurso de ordem, pretendendo interromper atua-
ções contestadoras (...) “nada deve surpreender, tudo deve ser previsível, visível
e exigir precauções” (PASSETTI, 2011, p. 54). O devir em Deleuze e o novo em
Arendt vêem seus sentidos negados e desqualificados, pois impulsionam desequi-
líbrios e desassossegos para nossa democracia do otimismo, do medo, da insegu-
rança, do cinismo e da falência da crítica.

84 Diga-se o lado problemático, no sentido de desvio ético e violência desse desejo.


262 “Para a sua segurança, você está sendo filmado”

Parece, por outro lado, que Deleuze está numa linhagem reflexiva bem
próxima de Foucault e também Arendt, em que se preze uma formulação crítica
atenta ao fluxo transformista da sociedade: transformam-se os sujeitos, inventam-
-se subjetividades-liberdades, desconstroem-se barreiras cognitivas e racionaliza-
doras do espaço; ao lado disso, sofisticam-se as armas de sujeição e manobra das
diferenças, faz-se crer que a vigilância e o controle são fundamentais para a defesa
do ethos, utiliza-se a cultura como um bom negócio para manter e desenvolver
nossa servidão voluntária. A cultura vem sendo empregada como um excelente
instrumento anestésico de otimização de nossa banalização, do nosso autodescar-
te nessa busca da normalidade e da transcendentalidade capitalista – avisa Agam-
ben85: “Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro”.
Se isso tudo procede de forma ubíqua e em rede, também brotam forças
insurgentes transclassicistas ensinando que o pessimismo é meio importante, mas
a crítica é sempre o fim. No Brasil atual, a Copa do Mundo possui, ainda que
irônica e curiosamente, também efeitos positivos: 1) dinamização da experiência
política, fortalecida por uma troca ética do conflito pela diversidade demonstrado
nos movimentos das ruas; 2) qualquer revolução, antes de alcançar interlocução
com o outro, requer um despertar crítico maduro e muitas vezes desviante de ar-
riscar o novo, sem o receio das práticas de penalização e disciplinarização moral e
jurídica. Pode-se dizer, mesmo com o risco de simplificação, que os Black blocs,
o rolezinho e, sobretudo, as insurgências de junho e julho de 2013, respondem aos
intentos de arte transgressora distribuída e precursora de devires desestabilizado-
res. Ou melhor, esses movimentos criam narrativas em favor de um exercício da
plural e heterodoxo das formas de ação86, dimensão fundamental de qualquer pen-
sar político que se preze. Nossa mirada deve estar bem treinada, pois a segurança
e seu correlato consenso tornaram-se palavras de ordem em nossa democracia da
hipertrofia do comportamento sobre a ação.
Vivemos a era do elogio demasiado aos dispositivos, momento em que
a crítica se rende ao triunfo capitalista de narrar a vida e a morte de forma a le-
gitimar um certo tipo de poder. Nesse ínterim, embora o consenso seja desejado
e planejado, jamais será atingido, pois a cidade pluralista demanda novas subje-
tividades libertárias, descontinuidades eloquentes e desconcertos no âmbito da
cultura urbana.

85 Entrevista concedida ao Boitempo Editorial. Ver: http://blogdaboitempo.com.br/2012/08/31/


deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben/
86 No sentido de Arendt (2009).
Eledison Sampaio 263

O controle exerce-se como instrumento de criação de narrativas posi-


tivas sobre a miséria que estamos fazendo de nós mesmos. A política de subje-
tivação por detrás da segurança é de tal forma sofisticada que qualquer crítica
tende a se tornar tola e ineficaz, relegada à condição de narcisismo e de mili-
tância – ao sentido problemático que tais noções podem atingir quando de um
emprego desarrazoado, cumulado por um pensamento do fechado (disciplinar,
normativo e tecnicista).
Comparar e, pior ainda, identificar o controle como uma forma de de-
mocracia é, de um certo modo, camuflar seu impacto social assimétrico e negar
sua dimensão em termos de violência e dominação. Nestas sociedades em que a
pseudo-tolerância se sobrepõe à ética, onde a vida íntima se converte em ambiente
midiático, o fazer político exige esforços subjetivos que adubem nossa “nossa
capacidade de dizer não87”.
Parece que a busca atual por segurança atualiza, de algum modo, o proje-
to moderno de negação das diferenças, do qual problematizara Arendt (2009) no
alto de sua lucidez crítica. Ancorados na retórica securitária, os novos dispositivos
tecnológicos que inspecionam e policiam os espaços de convívio nas cidades pas-
sam, muitas vezes, despercebidos por grande parte da população. Se, por um lado,
isso reflete um processo de naturalização/banalização da vigilância e do controle,
por outro, de forma mais grave, aponta para um sério problema de despolitização
sobre o tema. Nesse sentido, por detrás da implantação e ampliação de dispositi-
vos de visibilidade – a exemplo das câmeras de vigilância – há um duplo engano.
O mais simples é achar que com mais equipamentos a segurança vai ser garantida.
Mas, o mais grave e oblíquo é uma despolitização do assunto. Serviços prestados
não são o mesmo que ação política.
Todas essas questões se resumem, finalmente, a isto: o moderno (ve-
lho) ideal de consenso, conta agora com mais um elemento para mover o moi-
nho discursivo hegemônico de poder em favor de uma castração de experiências
políticas. Há, realmente, algo de estúpido em nossa democracia brasileira. Mas,
felizmente, o contragolpe da multidão flexibiliza o efeito totalizante do controle,
ampliando o ângulo do olhar para além do fatalismo.

CURRÍCULO DO AUTOR!

87 Ver interessante entrevista com John Holloway intitulada “Nossa força depende da nossa
capacidade de dizermos não”, disponível em: http://www.revistaforum.com.br/blog/2013/10/
nossa-forca-depende-da-capacidade-de-dizermos-nao/
264 “Para a sua segurança, você está sendo filmado”

Referências:
ARENDT, Hannah. A condição humana. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
2009.
DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro. Editora 34, 1992.
___. Foucault. Tradução de Claudia Martins. Editora brasiliense: São Paulo, 2011.
___. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, v. 3, 1996.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. História da violência nas prisões 41ª Edição,
Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2013.
___. Segurança, Território, População. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FUCHS, Christian. Como podemos definir vigilância? Matrizes, São Paulo, jul-dez,
p. 109-136.
LYON, David. Vigilância e visibilidade: espaço, tecnologia e identificação.
Organizado e traduzido por Fernanda Bruno, Marta Kanashiro e Rodrigo Firmino.
Porto Alegre: Sulinas, 2010, p. 115-140.
PASSETTI, Edson. Segurança, confiança e tolerância: comandos da sociedade de
controle. São Paulo em Perspectiva, 18(1): 151-160, 2004.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 265- 277

Prostituição: um estudo sobre


as dimensões de sofrimento psíquico
entre as profissionais e seu trabalho88

Luciano Ferreira Rodrigues Filho

Introdução
Tendo em vista os grandes problemas enfrentados na prostituição com os
julgamentos morais sofridos pela sociedade atual, uma questão pode ser lançada:
como as prostitutas conseguem, apesar dos constrangimentos da situação de tra-
balho, preservar um equilíbrio psíquico e manter-se na normalidade? (DEJOURS,
2010). Sendo a normalidade para a Psicodinâmica do Trabalho o estado de saúde
estável, para isto, o sujeito em situação de trabalho, deve buscar criar estratégias
defensivas (defesas) a fim de conseguir um equilíbrio. Para Dejours (2010),

a normalidade aparece então como um equilíbrio precário (equilíbrio psíquico)


entre constrangimentos do trabalho desestabilizantes, ou patogênicos e defesas
psíquicas (p. 153).

A Psicodinâmica do Trabalho aborda as conseqüências do trabalho na


saúde mental do trabalhador, onde a situação de trabalho acaba gerando conflitos
psíquicos, estes originados na atuação profissional, que se torna ora fonte de pra-
zer, ora de sofrimento.
Para Dejours (2010) a relação com o trabalho é fruto de uma história,
de um passado e de uma memória. O autor, utilizando-se de raízes psicanalistas,
atribui à relação familiar o papel de um dos principais interlocutores para a esco-
lha profissional, pois é assim que a criança irá tomar as angústias dos pais como
suas. Estas angústias são geradas através da curiosidade sobre o que angustia os
pais: porque meus pais estão tristes? Porque meus pais choram? Qual o motivo de
tanta agonia? Perguntas estas que não são verbalizadas pela criança para evitar um
sofrimento maior dos pais, pois sendo feitas trariam à “consciência” a angústia de
seus progenitores.

88 RODRIGUES FILHO, Luciano Ferreira. Prostituição: um estudo sobre a relação de sofri-


mento psíquico entre as profissionais e seu trabalho ∕ Luciano Ferreira Rodrigues Filho. Ouri-
nhos, 2011, 36 f. Trabalho de Conclusão de Curso. (Curso de Psicologia) Faculdades Integradas
de Ourinhos – FIO/FEMM, Ourinhos. Orientador: Dr. Matheus Fernandes Castro.
266 Prostituição

As curiosidades infantis são guardadas até o ponto onde podem ser vi-
venciadas, ou seja, no próprio trabalho. Para Dejours (2010, p. 156) “o trabalho
é a ocasião de transportar mais uma vez o cenário original do sofrimento para a
realidade social, num teatro menos generosamente aberto, contudo, que o prece-
dente ao livre vôo da imaginação”.
Sobre esta falta de generosidade da realidade social, no que se refere ao
trabalho das prostitutas, Ramos (2000, p. 136) acrescenta,

As prostitutas colocam esse temor em cena. Estão sempre em perigo. No


discurso social estão identificadas ao dejeto, ao falo, à parte perdida do
corpo. Como tal, à margem da falta, toda lei protetora as exclui dos direitos
sociais e individuais, tornando-as o alvo privilegiado da violência destinada
ao retorno do recalcado. Aqui, ou estão situada aquém do desejo, ou tentan-
do preservá-lo.

O trabalho, que é para ser um local onde o sujeito possa buscar as respos-
tas às curiosidades infantis, um local de “livre vôo imaginário”, de satisfação, de
criatividade, se torna, às vezes, um local de sofrimentos, de angústias, de insatis-
fação, não favorecendo a atividade imagética e a criação.

Mas, mais do que isso, sua tarefa não tem significação humana. Ela não significa
nada para a família, nem para os amigos, nem para o grupo social e nem para
o quadro de um ideal social, altruísta, humanista ou político. (DEJOURS, 1992,
p. 49).

Com esta citação de Dejours sobre o trabalho, podemos pensar a grande


dificuldade vivenciada, cotidianamente, pelas pessoas que se dedicam a prosti-
tuição, já que não contam com um reconhecimento social e, muitas vezes, não
possuem um bem-estar vinculado às prevenções para a saúde e aos direitos traba-
lhistas. Estes trabalhos que não trazem um reconhecimento ao trabalhador pode se
tornar perigoso para a saúde mental de quem os realiza (DEJOURS, 1994), o que
pode gerar um sofrimento para os trabalhadores.
Para a profissional do sexo os riscos decorrentes de sua profissão, por
parte de um não reconhecimento podem gerar desmotivação, stress, depressão,
sem contar os efeitos secundários, como o aumento excessivo do uso de drogas
(TORRES; DAVIM; COSTA, 1999). Este último, as substâncias tóxicas, podem
se tornar a única fonte de prazer, conforme o psicanalista Sigmund Freud (1996
[1927-1931], p. 50):
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 267

Contudo, os métodos mais interessantes de evitar o sofrimento são os que


procuram influenciar o nosso próprio organismo. Em última análise, todo
sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o sen-
timos, e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso
organismo está regulado.O mais grosseiro, embora também o mais eficaz,
desses métodos de influência é o químico: a intoxicação. Não creio que al-
guém compreenda inteiramente o seu mecanismo; é fato, porém, que existem
substâncias estranhas, as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos,
provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando, também,
tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos inca-
pazes de receber impulsos desagradáveis.

Para a Psicodinâmica do Trabalho, as patologias, bem como, o uso de


substâncias tóxicas, surgem através de um sofrimento patogênico, este, “instalado
quando a organização do trabalho não permite ao trabalhador uma margem de
liberdade/manobra para efetuar ajustes” (ROSSI, 2010, p. 115). Estes são ajustes
favoráveis para o reconhecimento e se os trabalhadores não podem fazê-los a trí-
ade, Trabalho, Sofrimento e Reconhecimento, é rompida.

Figura 1 – Dimensões da análise clínica do trabalho (ROSSI, 2010, p. 115)

Conforme a citação de Rossi (2010), parece-nos que o possível sofrimen-


to psíquico elaborado pelas profissionais do sexo é de outro patamar, não referente
ao reconhecimento por sua atividade, por seu exercício, mas sim, o reconheci-
mento por parte da sociedade, que pelos valores morais não aceitam a prostituição
como uma profissão.
268 Prostituição

Não se trata unicamente do reconhecimento vindo por parte do patrão,


o reconhecimento social também exerce a sua influência sobre o sujeito. Para a
Psicodinâmica do Trabalho, este reconhecimento não se dá exclusivamente através
dos papéis (padrão, gerente, funcionário etc.), mas da relação do Eu com o Outro.
Para Gernet (2010, p. 63) “quando ele (trabalhador) mantém um relacionamento
razoável com a realidade por meio de seu trabalho e este não é reconhecido pelos
outros, é condenado à solidão alienadora que Sigaut define como alienação social”.

A validação do trabalho pelo reconhecimento conferido pelos outros contribui


de maneira considerável para a construção do sentido do trabalho. Sem o re-
conhecimento, o sofrimento gerado pelo encontro com o trabalho segue, com
efeito, desprovido de significação. O reconhecimento permite dar ao sofrimento
uma significação social. Ele pode mesmo permitir a transformação do sofrimen-
to em prazer, quando a engenhosidade empregada para superar as dificuldades
que se apresentam não é colocada em um beco sem saída pela organização do
trabalho e é reconhecida pelos outros como uma contribuição integral (GER-
NET; DEJOURS, 2011, p. 65).

Desta forma, a relação de prazer e sofrimento do trabalhador está dire-


tamente ligada ao reconhecimento em seu trabalho. Para Gernet (2010, p. 61)
“a teoria do reconhecimento da Psicodinâmica do Trabalho pode ser identificada
como o elo central na análise das relações entre saúde mental e trabalho”.
Com isto, a análise a ser feita nesta pesquisa, busca dar uma forma a este
reconhecimento determinante para o estabelecimento de um sofrimento ocasio-
nado em situação de trabalho, neste caso, da profissional do sexo e sua tarefa de
se prostituir.

Material e método
A pesquisa utilizou materiais bibliográficos que abordam a temática so-
bre a prostituição e que auxiliaram na construção da história do seu significado,
além da literatura sobre a Psicodinâmica do Trabalho.
Para um maior aprofundamento no tema, foi realizada uma entrevista
com as profissionais do sexo, de uma casa noturna, da cidade de Jacarezinho-Pa-
raná, este recinto fora escolhido por ser a única na cidade e por receber profissio-
nais de outras cidades. A entrevista, feita em grupo para não inibir as profissionais
e pelo tempo curto cedido para a entrevista já que elas estavam se preparando
para início do trabalho. Foram entrevistadas 4 profissionais, com questões semi-
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 269

-abertas. Não houve seleção das participantes: participaram da entrevista as pes-


soas que se dispuseram.
A entrevista serviu para colher dados sobre a relação das profissionais
com o seu trabalho. Para Dejours (2004; 2007b apud ROSSI, 2010, p. 119), com
este método:

Todos os comentários (atos de pensar sobre a situação) remetem às vivências


subjetivas do trabalhador em relação à organização do trabalho e fornecem
indicação da existência das defesas contra o sofrimento e busca pelo prazer. A
narrativa veiculada no “espaço de discussão” no “coletivo de pesquisa” tam-
bém representa formulação da atividade de pensar sobre a situação de trabalho,
aquilo que não é dito, os olhares, as expressões; tudo constitui material clínico
para análise e interpretação.

Para manter o anonimato das profissionais é utilizada a sigla PS (Pro-


fissional do Sexo) seguido do número de identificação (ex. PS 1, Profissional do
Sexo 1), mesmo as profissionais apresentando nomes fictícios. Quando surgem
questões do pesquisador estará identificado entre parênteses como sendo o “En-
trevistador”. Para a análise dos dados, as falas das profissionais foram divididas
conforme o assunto e sua pertinência para a pesquisa, a divisão seguiu os con-
ceitos utilizados pela Psicodinâmica do Trabalho para comprrender a situação de
trabalho.

Resultado e discussão
A escolha profissional
Uma questão significativa para a relação do sujeito com o trabalho é a
profissão, por isso tentamos entender em nossa entrevista como isso aconteceu na
vida das profissionais com que estabelecemos contato. A fim de esclarecer a es-
colha da profissão, foram solicitadas as profissionais o porquê de trabalhar como
profissional do sexo.

Necessidade (PS 3).

Eu tenho 2 filhos pra sustentar: um bebê de 2 meses e um de 2 anos (PS 1).

Daí tem filho e eu ajudo meu pai (PS 2).

Para a profissional que não tem filhos e nenhum laço com a família, exis-
tem outras razões para a escolha do trabalho:
270 Prostituição

Foi com uma amiga minha. Eu trabalhava num shopping e ela vivia indo lá, ai
uma vez ela mostrou pra mim o que ela fazia ai eu pensei: nossa! Eu trabalho
a semana inteira, escuto cliente me xingando e você ganha tudo isso enquanto
eu to lá ralando pra ganhar esse mesmo tanto que você ganha em 2 ou 3 dias”
(PS 3).

Eu acho assim: você está trabalhando num outro serviço, você rala um dia intei-
ro, ai chega no final do mês, você pega e vai contando todas suas continhas pra
você separar o dinheiro, e aqui não, se você vê que você ta ganhando muito, você
acaba gastando mais do que você ganhou (PS 1).

Neste caso, podemos perceber o quanto o salário é um motivador para a


escolha profissional. Fica claro, até aqui, que as razões apontadas pelas profissio-
nais são da ordem da sobrevivência.
Perguntando sobre o valor ganho, as profissionais disseram que varia,
mas que já chegou a ganhar:

R$ 1.050,00 em três dias (US$ 450,00) (PS 2).

Em três dias? (entrevistador).

Pra você ter noção, mas depende, tem dia que não está bom pra uma, mas está
bom para a outra. Tem dia que nenhuma faz (PS 2).

Depende muito do cliente que vem (PS 3).

Sem dúvida o ganho financeiro é um fator impactante para dar prefe-


rência a certa atividade, mas no relato destas trabalhadoras podemos observar,
contrariamente ao que o imaginário popular acredita, que não é de forma fácil.

Concepção x Gosto do cliente


Para Dejours (2010, p. 158) a concepção “toma o lugar da atividade de
experimentação ocupada outrora, na criança, pelo jogo”. No trabalho, o sujeito
inventa mecanismos (ações) para mostrar que na situação real existe uma “lacuna
que cada trabalhador deve necessariamente gerir entre organização prescrita do
trabalho e organização real”, complementa o autor.
Assim, pode-se perceber a concepção das profissionais, quando não que-
rem realizar os gostos dos clientes:

Tem até um cliente dela, que veio uma vez aqui, um senhor já de idade, ele ficava
piscando pra mim e eu disfarcei que não estava vendo, aí ela foi para o quarto,
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 271

ele saiu e falou assim: “nossa eu queria ir com você e você nem olhou pra mim”;
daí ela saiu do quarto e disse: “nossa eu tive que comer o cu do véio, achei que o
véio ia dar no coro e não”; Depois ele disse assim: “Amanhã eu venho com você”;
No dia seguinte, coloquei umas unhas postiças imensas nos dedos (risos) (PS 2).

A concepção neste caso pode ser vista no mecanismo criado pela pro-
fissional para fugir da situação de ter que “comer” o cliente: “as imensas unhas
postiças”.
Nesta saída, a profissional busca contornar os desejos e gostos do cliente,
revelando sua criatividade na tarefa a ser realizada dentro de sua profissão, e que,
mesmo o cliente pagando bem, não é tudo que elas fazem para agradá-los. Ou
seja, apesar do dinheiro ter sido relatado como algo importante para a escolha da
profissão ele não é capaz de organizar completamente a realização de suas ativi-
dades. Isto também se apresenta na fala seguinte:

Pagando bem, a gente faz de tudo com ele, só não beijo na boca e não faço bo-
quete sem camisinha, porque eu não gosto (PS 1).

Desta forma, a concepção atribuída pela profissional em seu trabalho está


relacionada com o pagamento e a vontade do cliente, mas que, nem sempre, este
pagamento é motivo para ações que não são de gosto da profissional, como: beijar
na boca e fazer sexo oral sem preservativo.

Organização do trabalho
Para a Psicodinâmica do Trabalho, a relação entre o sujeito e o trabalho
se define pelos seguintes pontos:
■■ O trabalho é entendido como estruturante psíquico;
■■ A relação entre homem e trabalho está em contínuo movimento,
aberta a evoluções e transformações;
■■ Homem não está passivo em frente das restrições impostas pela
organização do trabalho, buscando sempre mecanismos para
exercer sua liberdade e manter sua integridade e saúde (DE-
JOURS, 2004 apud SILVA; FREITAS, 2011).
Assim, no texto de Rossi (2010), é indicado o uso da questão: O que se
faz para realizar a sua tarefa? Como meio de:

Levar os trabalhadores a uma formulação, a uma reflexão sobre as situações de


trabalho que jamais foram pensadas, e ainda propiciar informações ao pesqui-
sador para alimentar a interpretação (p. 117).
272 Prostituição

A questão trouxe forte impacto na reflexão das prostitutas sobre seus


cotidianos de trabalho e o que são submetidas a fazer. Isso fica claro quando
respondem:

Não complica não (risos) (PS 2).

Oh! Meu coração! (PS 1).

Eu dou porque eu gosto de dar, e ainda mais por dinheiro, melhor ainda, porque
eu não gosto de dar de graça (PS 1).

Para a profissional, a organização do trabalho gira, principalmente, sobre


o cliente: quanto o cliente irá pagar, quem é o cliente, o que ele tem vontade.
Dentro da boate,

Você não sabe o que vai levar lá pra dentro do quarto. Você não sabe se vai ser
espancada. Tudo isso é um risco que a gente corre (PS 2).

Você não conhece a pessoa com quem irá sair (PS 3).

Aqui dentro, você não sabe quem você vai levar para o quarto, às vezes você
acha que conhece a pessoa e não conhece. Você já foi 3 ou 4 vezes com ele, você
acha que a pessoa é maravilhosa; é depois ele começa se revelar. Então tudo é
um risco. (PS 2).

Você tem que agüentar homens que não quer saber de nada, só quer saber de
encher o saco, chega bêbado e você têm que ficar aturando, mesmo não ten-
do paciência tem que estar ali, ai você tem que pedir licença, retirar, tem que
agüentar (PS 2).

A organização do trabalho reserva a estas profissionais muitos riscos.


O fato de que para a efetivação de seus serviços elas devem ficar sozinhas com
pessoas desconhecidas, revela parte dos perigos que elas enfrentam no dia-a-dia.
Fora da boate, há também o trabalho domiciliar, onde as profissionais vão
até a casa do cliente, algum hotel ou quarto alugado, isto não se dá com freqüên-
cia, só ocorre quando elas afirmam conhecer o cliente.
Além disso, não se pode deixar de destacar o risco que as profissionais
sofrem quanto à saúde, assim, dentro da boate existe todo um acompanhamento
por parte da dirigente do estabelecimento em informá-las e mantê-las prevenidas,
principalmente com as Doenças Sexualmente Transmissíveis - DST89.

89 “As doenças sexualmente transmissíveis (DST) são transmitidas, principalmente, por con-
tato sexual sem o uso de camisinha com uma pessoa que esteja infectada, e geralmente se
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 273

aqui elas se cuidam, usam camisinha(PS 4).

Tem que se prevenir (PS 1).

Precariedade e Medo
Para a Psicodinâmica do Trabalho, o sofrimento está no “centro da re-
lação psíquica entre o homem e o trabalho” (DEJOURS, 2010, p. 160), assim,
o trabalho precário onde o trabalhador se depara com o medo e o pavor se torna
forte agravante do sofrimento.
Além dos riscos enfrentados dentro das boates: de contrair doenças, do
contato com o cliente desconhecido. Existem também, outros perigos enfrentados
pelas profissionais, principalmente as que exercem trabalho nas ruas: a violência.
Elas são vistas com olhares preconceituosos, o qual, de acordo com a notícia do
repórter Glauco Araújo (2007) divulgada pelo site G1, da Globo.com, pode levar
ao aumento da violência contra as prostitutas.

No Rio de Janeiro, rapazes que espancaram uma empregada doméstica em um


ponto de ônibus, na madrugada de 23 de junho, tentaram justificar a violência
afirmando que acharam que se tratava de uma prostituta. Na mesma madruga-
da, uma prostituta foi agredida em outro ponto de ônibus. Um dos rapazes que
espancou a doméstica também foi reconhecido pela prostituta como um de seus
agressores. (ARAÚJO, 2007, s/p.). 

Ainda na reportagem, a socióloga Paula Ballesteros dá seu depoimento


sobre esta violência ao afirma que:

Os valores éticos, morais e sociais estão ficando em segundo plano. Isso esbarra
na percepção que um indivíduo tem do outro. São conceitos muito deficitários
hoje em dia. A história das prostitutas é mais uma questão moral e religiosa do
que legal. É a questão do moralismo, do corpo e da sexualidade... As pessoas

manifestam por meio de feridas, corrimentos, bolhas ou verrugas. Essas doenças quando não
diagnosticadas e tratadas a tempo, podem evoluir para complicações graves, como infertilida-
des, câncer e até a morte. Usar preservativos em todas as relações sexuais (oral, anal e vaginal) 
é o método mais eficaz para a redução do risco de transmissão das DST, em especial do vírus
da AIDS, o HIV. Outra forma de infecção pode ocorrer pela transfusão de sangue contaminado
ou pelo compartilhamento de seringas e agulhas, principalmente no uso de drogas injetáveis. A
AIDS e a sífilis também podem ser transmitidas da mãe infectada, sem tratamento, para o bebê
durante a gravidez, o parto. E, no caso da AIDS, também na amamentação”. (MINISTÉRIO
DA SAÚDE, 2011).
274 Prostituição

ainda reprimem o que você faz ou deixa de fazer com o corpo. Existe essa con-
traposição. Eu sou um indivíduo, mas o outro não pode ser e posso julgar o que
ele faz ou deixa de fazer (ARAÚJO, 2007, s/p.).

Na entrevista, as profissionais do sexo revelam que há o risco de violên-


cia que parte do próprio local de trabalho, do dono da boate,

o lugar que a gente trabalha, tem que ver bem, não é todo lugar que é bom. Tem
lugar que a gente chega que o dono da casa quer te segurar na casa, não quer
deixar sair. Depende, cada lugar é de um jeito (PS 1).

Geralmente, tem gente que fala assim: “A gente só corre risco se for na rua. Mas
é mentira. Mesmo dentro da casa corre risco. Porque você não conhece o lugar,
às vezes você acha que a pessoa é uma coisa e não é (PS 2).

Quando perguntado se alguma delas já sofreu algum tipo de violência:

O último que tentou me bater levou uma pancada na cabeça, saiu embora com
a testa rachada (PS 1).

Ah! É um cara que eu já tinha saído mais de cinco vezes com ele e achei que era
uma ótima pessoa, ai ele queria me violentar a força (PS 2).

Portanto, esta relação direta com o medo e a precariedade do trabalho,


pode acabar se tornando uma fonte de sofrimento patogênico, o que pode levar as
profissionais ao adoecimento psíquico e a somatizações.

O reconhecimento
Dentro dos estudos da Psicodinâmica do Trabalho, o reconhecimento é
uma questão fundamental para o estabelecimento da saúde mental do trabalhador.
Para Gernet e Dejours (2011, p. 64) “o reconhecimento pelo outro é indispensável
para a validação de uma descoberta exitosa na sua confrontação com o real”.
Dejours (2010, p. 158) relata que “o sujeito que, submetendo seu trabalho
à crítica, solicita o julgamento dos pares, pode esperar, em troca, ser reconhecido”.

Toda criação implica essa confrontação. Mesmo o artista, o pintor por exemplo,
por mais isolado que esteja em seu ateliê, não pode escapar do desejo de conhe-
cer o julgamento dos outros artistas, dos outros artistas plásticos, e mesmo dos
pintores inscritos na mesma corrente, na mesma escola de pensamento que ele.
O julgamento do mais próximo é o mais temível e também o mais severo, mas é
o julgamento decisivo (DEJOURS, 2010, p. 158).
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 275

Na citação de Dejours, o autor deixa claro esta necessidade de julgamen-


to do outro. Em nossa pesquisa, percebemos este julgamento vindo do cliente:
quando o cliente se torna conhecido por aparecer diversas vezes no estabeleci-
mento à procura do serviço ofertado. Um outro fato que confirma tal reconheci-
mento se baseia na procura dos clientes pelas profissionais do sexo apenas para
conversas, desabafos, pois sabe que a prostituta estará ali dando um apoio e, con-
seqüentemente, se dá o reconhecimento pelo papel que a profissional estabelece
naquele momento.
Por outro lado, existe a falta de reconhecimento da sociedade, o precon-
ceito com a profissão (perceptível na violência contra a profissional, item 5.2.3) e
também no não reconhecimento por parte da família,

é lógico que o meu pai não aceita (PS 2).

Além disso, tal falta de reconhecimento advêm do próprio governo, por


meio do Ministério do Trabalho, que aceita a profissão, mas não reconhece a pro-
fissional do sexo como uma trabalhadora que merece seus direitos trabalhistas.
Com isto, podemos dizer que a prostituição sofre com o reconhecimento
de vários setores e que este reconhecimento não surge de um momento para o
outro, isto leva tempo, talvez até que deixe de ser levados em questão os valores
moralistas da sociedade.

Conclusão
Sendo o trabalho um constituinte do sujeito, vimos uma escolha profis-
sional marcada pela sobrevivência, ou seja, as profissionais com que conversamos
disseram ter escolhido a profissão por sua remuneração, o que lhes permitiria
melhorar de vida. Para algumas profissionais, a profissão escolhida é uma possi-
bilidade de ganhos para o cuidado dos seus filhos que também não difere da busca
pela sobrevivência, do sujeito e de sua prole.
Para realizar a sua atividade, é possível perceber que no trabalho da pro-
fissional do sexo existe a possibilidade de concepção. Dentro da boate, a prostituta
cria ações da qual possa recusar a tarefa que não é de seu gosto. Desta forma, não
importa o valor pago pelo cliente, tampouco suas fantasias.
Na atuação das profissionais do sexo, elas têm que enfrentar a precarie-
dade, os riscos e o medo dentro de seu trabalho. Tendo que realizar o seu trabalho
com clientes desconhecidos, não sabendo se o cliente possui alguma doença ou
se o mesmo possui uma personalidade violenta. Visto que, alguns clientes vêem a
276 Prostituição

profissão como algo banal e sem valor, justificam o comportamento violento por
estas características preconceituosas.
Além disto, é constada a falta de um reconhecimento social pela ativi-
dade da profissional do sexo. Reconhecimento este que parte dos distintos eixos
sociais como dos pais, familiares, da sociedade e até do próprio governo que não
dá seus direitos trabalhistas. Esta falta de reconhecimento não irá contribuir para
a concretização do “eu” no social. Assim, o trabalho não se torna uma forma do
sujeito consolidar sua identidade, tampouco evitar o risco de uma doença mental
e psicossomática.
A falta de reconhecimento do trabalho da profissional do sexo faz com
que elas tendam a elaborar um sofrimento patogênico. Para Dejours (2010), o
sofrimento patogênico deriva das pressões psíquicas decorrentes da separação do
trabalho de concepção e do trabalho de execução. O sofrimento instaurado na vida
da profissional do sexo é validade quando o trabalho desprovido de reconheci-
mento não lhe oferece uma significação. (Gernet & Dejours, 2011).
Sendo assim, o sujeito só consegue manter uma saúde mental estável
quando o trabalho oportuniza uma normalização, ou seja, quanto o trabalho pos-
sibilita transformar o sofrimento em prazer, caso contrário, o sujeito apresenta
um sofrimento patogênico, que nesta pesquisa, foi constatado a tendência de um
sofrimento patogênico se instaurar na vida das profissionais do sexo.

Luciano Ferreira Rodrigues Filho é formado em Psicologia com ênfase em clínica


e organizacional, mestrando do programa de pós-graduação em Psicologia Social da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo-SP, participante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Traba-
lho e Ação Social - NUTAS.
Luciano Ferreira Rodrigues Filho 277

Referências:
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http://g1.globo.com. Acessado em: 20 set 2011.
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enfermagem, Ribeirão Preto, 7 (3), p. 9-15, julho 1999.
LUGAR COMUM Nº42, pp. 279- 285

Divagações; a potência dos pobres e


os desafios do processo criativo

Monique Borba Cerqueira

O acender do processo criativo


Apresento, a seguir, flashes do meu processo criativo, inimigo íntimo de
modelos e fórmulas.
Esta é uma narrativa de imprecisões – um relato sobre o erro, o inexato,
a ambiguidade, elementos que engatinham como capim rasteiro pelo meio fio do
pensamento.
Muito se discute sobre a importância do contexto no processo criativo. O
contexto pode estar relacionado às circunstâncias, regras, recompensas e respon-
sabilidades implícitas na natureza do trabalho acadêmico. Toda produção guarda
uma marca contextual que precipita, determina a criação. Meu contexto criativo
não foi algo pontual, foi a minha própria vida com suas janelas luminosas e quar-
tos escuros. A vida me comandou a cada chamado, ora me transportando entre
silêncios, ora desprezando e acolhendo perplexidades. E assim a cabeça foi engor-
dando com as ideias e emoções que vinham de onde não se sabe.
O desejo contagioso faz os pensamentos correrem atrás do nosso chama-
do. Assim, autores da ordem do intempestivo, como Nietzsche, Deleuze, Foucault
e tantos outros, revelaram a nobreza de uma linhagem refletida num diálogo sabo-
roso e sem medo. Na maturação desse fazer, texto, autores e personagens se espre-
guiçavam, dormiam e acordavam na unanimidade de uma errância sem tocaias.
Embora muitos acreditem que disciplina e rotina sejam fundamentos es-
truturantes da produção intelectual e artística, penso que o processo criativo é
impermeável a receituários. No meu caso, fundamental foi estreitar os laços com
o meu próprio caos e inesgotar o seu fluxo. A rotina e o rigor sempre me fizeram
improdutiva, seus golpes reiterados na tentativa de me adequar aos evangelhos da
criação constituíram para mim um preço alto demais, que jamais consegui pagar.
Um trabalho visceral é sempre singular, inigualável. Passeia-se por entre
descobertas de si. Não há possibilidade de roteiro fechado. É preciso lançar-se ao
solo numa descida quase vertical, de diferentes alturas, posições diversas, como
as aves e os aviões se inclinam ao plano inferior. Em descida, brusco declive e
forte inclinação, tocamos o plano flácido das sensações.
280 Divagações; a potência dos pobres e os desafios do processo criativo

Sentir tudo de todas as maneiras,


Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo (...)

Multipliquei-me, para me sentir


Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me (...)

Sentir tudo de todas as maneiras,


Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto (...)
(Fernando Pessoa, “Passagem das Horas”, 1916)

Como o desenhista busca o traço solto, inconsequente e impecável, pas-


sei a dialogar com pensamentos descuidados, rápidos e incômodos. Nessa traje-
tória a precisão nunca existiu como meta, ao contrário, acreditava que um bom
trabalho precisava sustentar a imperfeição que escorre de suas linhas.
Não existiam pretensões com a finalidade última desta produção, mas
tão somente com a sua qualidade de fazer pensar. Seu conteúdo deveria se auto-
governar. Cada página deveria estar apta a voar sem que se soubesse para onde,
multiplicando seus efeitos. Assim se desamarravam as expectativas de futuro.
A um dado momento, quando o tempo já escasseava, me acautelei como
bicho escondido na brenha. Tomei posse de minhas melhores dúvidas e me pro-
tegi na intimidade delas, sem me exceder em outras. Ao sopro desgovernado da
dúvida ofereço o meu respeito, à distância.
O encontro com o turbilhão de vida trazido pelos personagens foi o real
fazedor de uma outra escrita. Ritmos suaves, fortes, nervosos; a palavra em as-
sombro, alvoroço, flutuação; cada linha atrás de frases indóceis perseguiam a dor,
insanidade e destreza dos personagens. Tudo na escrita pedia distinção, projetan-
do uma narrativa, por vezes, incomum, singular.
Mas escrever sobre a potência dos pobres, o que seria isso? Tomara suas
façanhas não fosse experiência tormentosa. Mas eram. Os personagens me sa-
cudiam com voracidade. Devagar, aprendia a reter e desprezar o que via. Cada
um a seu modo, eles clamavam por mais astúcia. E eu, longe da estatura deles,
demorava a contentá-los. Não tinha a malícia de merecer ouvi-los. Ocorreu deva-
gar. Aprendi, aos poucos, e de repente já me fazia de morta em meio ao tiroteio
das conversas interiores. Tempos depois começava a desfrutar o acidente feliz de
Monique Borba Cerqueira 281

nos tornarmos um bando ─ agora, sim, eu e os personagens. Eles me ajudavam a


descobrir o que me envolve e fertiliza, falando dentro e fora de mim.
E ali estavam eles, arruinados, divertidos, em fúria de felicidade e conta-
giante confusão. Os personagens me tomaram pela mão e em seu mal completado
processo de existir, enunciavam formas inesperadas de resistência e criação.

De como tudo foi se dando


É muito difícil falar dos pobres. A impressão é de que tudo já foi dito,
repetido e, a semelhança de um carrossel, gira no mesmo lugar. Era preciso dar
outro tom à investigação sobre o tema, atravessando o tempo repetido da pobreza
e dos pobres como representação.

A desvalorização das forças da vida inventa o pobre – o mal provido, pouco


fértil, pouco produtivo, de pouco valor, mal dotado, desfavorecido, desprotegi-
do, digno de compaixão, infeliz. A moral cria códigos de conduta e regras na
direção de um campo impositivo, utilitário e finalista, configurando relações de
dominação expressas em sentenças inabaláveis que modelam o que se deve pen-
sar, como agir, em que acreditar. Num sentido oposto aos domínios da ética, a
moralidade reforça a impotência, regula visibilidades e invisibilidades daqueles
que estão em toda parte: os pobres.
Quando o pobre não é circunstanciado numa fórmula única, estanque, ele é uma
criatura híbrida, o aceitável e o inaceitável, aquilo que todos sabem e não sabem
exatamente o que é. Por isso, requer atenção todo modo de identificar, classifi-
car, qualificar o pobre. Códigos moralmente compartilhados recomendam, indi-
cam, estabelecem que o pobre bom, o pobre dócil é aquele que consome pouco,
é trabalhador, está inserido em algum arranjo ou dinâmica familiar, pode ser
ou não eleitor, pois sua mera figuração existencial produz dividendos políticos.
Esse é o pobre que está na literatura, na mídia, nas plataformas políticas, nos
programas sociais. É o pobre que não pode falar, mas de quem se fala. É o pobre
que recebe elogios, prêmios por seu esforço criativo ou empreendedor, é aquele
para quem se planeja intervenções e se imagina resgatar dos limites da doença,
do crime, da delinquência; às vezes, incômodo, esse pobre é, sobretudo, útil.
Ele se diferencia radicalmente do pobre inaceitável, do vadio, daquele que pode
acumular imperfeições morais graves: ser miserável, sujo, famélico, pavoroso
em sua tradicional figuração supliciada (CERQUEIRA, 2010, p.22).

(...) Pobres e pobreza constituem um tema de difícil abordagem pela exaustão


que se explicita na sua concretude como fenômeno do mundo, generalizado e
282 Divagações; a potência dos pobres e os desafios do processo criativo

banal, apontando cada vez mais para uma realidade aceita socialmente e supos-
tamente imutável.
O predomínio de uma ideia informe e fantasmática de pobreza não dissimula,
molda e atormenta apenas os desvalidos. Implantada no coração social, a amea-
ça representada pela falta soberana gera medo e engendra dispositivos políticos
que percorrem toda sociedade capitalista. Muitas são as gradações que essa
poderosa máquina de codificação estabelecerá nos grupos e indivíduos.
Apontando para vagos e imprecisos contingentes humanos, constela-se uma
grande dificuldade: a de reconhecer que os pobres são, antes de tudo, possui-
dores de desejo, além de serem possuídos pelos desejos alheios. (ibidem, p.23)

Logo no início, era preciso realizar um deslocamento, tomar o atalho que incen-
deia. Era decisivo assumir riscos. De repente, uma tese de doutorado tornava-se
um ensaio, a poucos meses da defesa. Antes, eu já guerreava em silêncio. Outros
motivos amamentavam a minha delinquência, entre eles, o deserto informativo
e a problematização cansada, frequentes nos textos acadêmicos. Era necessário
pensar um ponto de partida distinto.
Uma filosofia que denuncia tudo aquilo que nos separa da afirmação da vida
informa o referencial ético-político deste trabalho. É assim que a nossa pergunta
de partida interroga sobre os chamados “pobres”, conduzindo à desconstrução
de uma insistente figuração constituída por imagens e semânticas negativas.
Aqui, evidenciar a pluralidade de signos da pobreza conduz ao exame da esfera
moral e seus mecanismos de rigidez e auto conservação, apontando também
para o que mais nos interessa, a construção de uma dimensão ético-política
afirmadora de diferenças e produtora de novos sujeitos.
Pobres e pobreza constituem-se sujeitos e processos a serem interrogados numa
direção contrária às investigações cuja regra geral é descrever, informar ou de-
nunciar as faces do seu infortúnio. Importa aqui abordar a potência dos pobres,
sua capacidade de produzir vida na própria vida (ibidem, p.20).

A boa prudência não aguenta tudo o que vê.


Nessa altura, já sabia que o Vagabundo não era um “bêbado trajando
luto”, nem Gabriela a mulata sensual, muito menos, Macabéa, a nordestina ­obtusa.
Do início ao fim da escrita, me contorci em artifícios para alcançá-los. Perseguia
a fantástica veracidade deles. Quando os múltiplos sentidos de cada personagem
brotaram de dentro das suas liberdades o que chegava para o combate da compre-
ensão era desafio mais sofisticado – o divertimento melancólico do Vagabundo, a
Monique Borba Cerqueira 283

competência amansadora de revolta de Macabéa e as mentiras de amor de Gabrie-


la, que só diziam a verdade.
Foi assim que os “pobres”, travestidos em personagens da ficção, abriram
as portas dos seus mundos.

Personagens em fragmentos; assimetrias da invenção


O vagabundo surge. Vem de onde não se sabe. É um personagem sem origem.
Aparece numa pequena multidão, do lado de fora de um circo, andando num
beco pobre, trabalhando numa linha de montagem ou dormindo na rua, nos
braços de uma estátua.
Andarilho do acaso, ele experimenta uma escolha – desfrutar a vida no ócio.
Charlot não teme o fracasso social. Não aceita a culpa, o castigo social, não
elabora a vida como desastre. Ele não se coloca como vítima da privação, embo-
ra mobilize todas as suas forças para escapar dela (CERQUEIRA, 2010, p. 44).

A assimetria vai marcar a figuração de Carlitos. Botas e calças de tamanho exa-


gerado, paletó e colete muito justos. A pujança desse corpo que deseja a todo
momento exceder os limites de uma delicada constituição física, requer demarca-
ção nas extremidades – sapatos colossais e o inseparável chapéu (ibidem, p. 45).

Disposto a viver tudo, experimentar o máximo e escapar de qualquer força que


o aprisione, Carlitos exibe um de seus traços mais vigorosos – ele é o senhor das
intensidades (ibidem, p. 47).

Uma vocação de liberdade


Gabriela no vento agitado, seu vestido farrapo claro. Nada a carregar nas mãos,
nada a reter entre os dedos, apenas olhos límpidos de viver. Na cabeça a trouxa
coberta de pó, a satisfação de acompanhar Nacib, deixar o triste mercado de
escravos e tornar-se cozinheira. O júbilo da chegada naquela terra estranha
vai redesenhar os lábios e expandir no mundo a alegria de Gabriela. Sorriso no
rosto feito vento, momento de clara simplicidade (CERQUEIRA, 2010, p .83).

É na solidão das artes culinárias que Gabriela se recolhe à sua paixão: prepa-
rar seus feitos, lançar explosões, transformar-se incessantemente a partir dos
encontros com o mundo. Sob uma ética que não separa o corpo (pura relação de
força) daquilo que ele pode, inicia-se a constelação de uma nova sensibilidade
(ibidem, p. 85).
284 Divagações; a potência dos pobres e os desafios do processo criativo

Potências do imperceptível
Macabéa anima-se com a pequena grandeza que emerge da superfície. É cega
para o registro do profundo, não possui profundidade alguma. Ela supera a
necessidade do espaço íntimo, interiorizado com seus fantasmas e seus “eus”.
É assim que sua potência de dissimulação se apresenta, como fuga a qualquer
adequação a um “si mesmo”. Livre do compromisso com uma identidade e uma
consciência, Macabéa vive o instantâneo num campo de ausência de toda razão
civilizatória (CERQUEIRA, 2010, p. 125).

Sereno é o abalo radical provocado pelo movimento de superfície. Na contra-


mão das densidades, um absurdo pode maravilhar e tornar perplexo quem se
aproxima. É Macabéa em sua contramarcha, seguindo o próprio rastro obscuro,
ingênuo e silencioso. Sem medo ou recuo, ela alcança uma preciosa aptidão
para o nada (ibidem, p. 129).

Em pouco tempo, confortável em frouxa perspectiva, ganhei a alegria de


me render à banalidade das coisas que nos interrogam a fundo. Assim, permiti que
o trabalho me levasse e esvaziasse, provocando sempre novos preenchimentos.
É nítido o tamanho do desejo encoberto por uma produção.
Escrevi e vivi. Iluminei o meu avesso.
Procedi honesta dentro de mim.

Monique Borba Cerqueira é pós-doutoranda do Programa de Estudos Pós-Gradua-


dos em ­Ciências Sociais - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Pesquisa-
dora do Instituto de Saúde / SP.

Referências:
CERQUEIRA, Monique Borba. Pobres, Resistência e Criação. Personagens no
encontro da arte com a vida. São Paulo: Editora Cortez, 2010.
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
RESENHAS
286 SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque

Selvagens do Mundo, Uni-vos! de Marx, justamente pelo significado


Resenha de Marx Selvagem, disso no plano das lutas. A escolha de
de Jean Tible90 Tible, quando este poderia simples-
mente optar por discutir os desdobra-
Hugo Albuquerque
mentos ontológicos desse processo,
é reveladora do seu ímpeto político e
Marx Selvagem, vetusta tese
iconoclasta. Em algo, ele ecoa o espíri-
de doutorado de Jean Tible, finalmen-
to de obras como a Anomalia Selvagem
te deveio livro. Seu lançamento, no
de Toni Negri, isto é, fazer justiça com
Teatro Oficina da trupe do antropo-
as próprias mãos contra a apropriação
fágico Zé Celso Martinez Corrêa, foi
majoritária e civilizatória de um grande
uma feliz escolha para uma obra desse
pensador – no caso de Negri, Spinoza,
naipe – e tornou-se, no fim das contas,
enquanto aqui, Marx. É, pois, uma pro-
um verdadeiro acontecimento em no-
posta original e audaciosa, que merece
vembro último. Tible lançou um olhar
ser lida – e, obviamente, deglutida da
sobre um Marx menor – em contraste
melhor forma.
com um Marx grandioso, civilizado e
Convém, a título de explica-
arrogante – que se revela, não por aca-
ção, expor a maneira como essas “so-
so, na virada dada pelo filósofo alemão
ciedades”, esses selvagens todos, se
na compreensão do colonialismo e das
articulariam no interior do pensamento
chamadas sociedades sem classes: isto
marxiano, o que implica em questões
é, quando Marx se livra, ou tenta se li-
importantes e delicadas no que toca à
vrar, do paradigma ilumino-modernis-
obra do filósofo alemão: (I) no plano
ta, algo que no plano conceitual se dá
dos conceitos, a afirmação de que o
na forma de seu afastamento definitivo
grau de abertura de Marx para a sub-
da filosofia da consciência hegeliana
jetividade, e consequentemente para as
rumo a uma ontologia do sensível, no
temáticas da filosofia contemporânea, é
qual a temática da subjetividade torna-
mesmo maior do que poderiam supor-
-se horizonte visível.
tar, por exemplo, marxistas ortodoxos,
A opção do autor pela proble-
modernistas e/ou iluministas -- como
mática do pensamento marxiano face
algum bolshevik genérico, Hobsbawn
aos selvagens é uma curiosa, e perti-
e/ou Elster; (II) no plano das lutas,
nente, forma de abordar essa transição
trata-se de uma rearticulação da ma-
neira como se toma o colonialismo, o
90 Publicado originalmente no blogue pesso- capitalismo e formas de resistência, o
al, O descurvo, em http://descurvo.blogspot. que oporia Marx à sujeição incondicio-
com.br/2013/12/marx-selvagem-de-jean-ti- nal ao processo civilizatório – sujeição
ble-selvagens.html
SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque 287

tal que não poucos marxistas se ape- vezes demasiado acadêmico, mais pe-
gam e se apegaram, basta lembrar da sado do que uma obra com essa temáti-
União Soviética ou mesmo de um (ex?) ca demanda. A obra em questão está ar-
trotskysta como Hitchens defendendo ticulada em três capítulos: o primeiro,
a Guerra do Iraque. Conceitos e lutas, sobre a relação de Marx e o colonialis-
nem preciso dizer, estão intimamente mo e a América Indígena, o segundo, a
ligados na práxis marxista. respeito da práxis antiestatal de Marx
Logo, é evidente que Marx – aproximando-o do Clastres que lhe
Selvagem põe o dedo na ferida de uma criticou tão duramente – e, por fim, o
velha doxa do mundo intelectual: aque- melhor e mais relevante capítulo: cos-
la que coloca em lados opostos do rin- mologias, no qual Tible delinea o ponto
gue “marxistas” e “antropólogos” – em de conexão entre Marx e o pensamento
uma arenga interminável e sem solu- ameríndio – aqui, na forma da antro-
ção. O motivo da querela é justamente pologia reversa de Davi Copenawa –,
a segunda razão acima apontada: Marx, o que é precisamente a relação entre a
segundo os “antropólogos”, seria alia- noção marxiana de fetiche da mercado-
do da civilização e seu aparente radica- ria e o de feitiço: os brancos civiliza-
lismo significaria, apenas e tão somen- dos, pois, não estão menos isentos de
te, uma variação possível dentro do serem enfeitiçados, ao contrário, vivem
paradigma organizativo judaico-cristão imersos na atração fatal que nutrem por
do ocidente – mais ou menos aquilo seus objetos técnicos, na medida em
que Pierre Clastres trouxe à baila em que lhe atribuem feições humanas – no
seu Sociedade contra o Estado. E que mesmo movimento em que desumani-
para alguns “marxistas” é isso mesmo: zam a si mesmos e aos outros, sendo
a história é linha reta determinada pelo que só a partir daí tais objetos devêm
o desenvolvimento dos meios de pro- mercadoria.
dução, o que exige um compromisso Sim, Marx, ao contrário de
profundo com a “civilização” e seu Engels, emergiu gradualmente do feti-
avanço – mesmo com certos, digamos, che civilizatório e modernista. E é em
“sacrifícios” em nome do bem maior, torno disso que giro o primeiro capítu-
sendo o comunismo, ele mesmo, ape- lo do livro. E isso não é generosidade
nas o estágio superior da civilização. demasiada, uma apropriação arbitrária
Pois bem, o livro de Tible é ou wishful thinking do autor de Marx
bom porque se livra dessas falácias, Selvagem para com Marx: Tible de-
insere-se na alegremente na polêmica – monstra isso com obstinação ao expor
ainda que por ser um tese de doutorado, o giro marxiano em relação à questão
antes de um livro, carregue um estilo às colonial; o velho Marx possuía uma
288 SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque

posição inicial sobre o imperialismo, ferior aos civilizados, consistindo em


segundo a qual o processo de coloni- formas diferentes de coexistência – am-
zação era visto como uma chance de bas sincrônicas, diga-se de passagem.
povos como os indianos entrarem na Tible, aliás, é particularmente compe-
História para, depois, chutarem os co- tente em demonstrar isso.
lonizadores britânicos, unindo-se aos As coisas esquentam mesmo
trabalhadores do mundo num processo no segundo capítulo, quando Tible faz
que desembocaria na revolução; isso uma leitura do anti-estatalismo na obra
muda, no entanto, quando Marx assu- de Marx e de Pierre Clastres, ousando
me uma posição absolutamente hostil estabelecer um ponto de conexão entre
ao colonialismo, o qual passa a ser en- ambos – o que, a um primeiro olhar,
xergado como mero meio de retroali- seria tarefa impossível. Pois bem, a
mentação da máquina capitalista mun- hipótese que o autor traça é conectar
dial: seria um dispositivo marcado pela a sociedade sem Estado de Marx a a
dialética centro (progresso) e periferia sociedade contra o Estado de Clastres,
(atraso), na qual os civilizados explora- encontrando um comum em meio à
riam os selvagens e bárbaros, que lhes (aparente?) dissonância. Sim, ambos,
eram contemporâneos. A partir daí, a Marx e Clastres, são pensadores anti-
própria luta de classes tornaria-se uma -Estado. A partir daí, ele traça o anti-
modalidade da exploração geral, a qual -estatalismo na obra dos dois para, logo
em escala global era dada pelo proces- mais, promover o encontro entre eles.
so de parasitagem do colonialismo. A transição revolucionária de Marx, o
Grande parte desse giro mar- que há entre o Estado burguês e o co-
xiano se dá em razão da leitura marxiana munismo, como o esconjuramento atu-
do antropólogo americano Lewis Hen- al do Estado em Clastres?
ry Morgan: e a novidade que Morgan E Tible faz bem isso ao nos
trouxe à antropologia foi de não ape- lembrar que Marx não é Lassalle, para
nas deixar de lado o discurso colonial- quem a ideia de um Estado popular e
-racista dos seus pares, mas também – e proletário já aparecia com O caminho:
sobretudo – de afirmar que as as cole- isto é, para Marx, o Estado não é solu-
tividades humanas selvagens não eram ção, mas resultado funesto da socieda-
necessariamente piores. Ao contrário. de de classes, o que pode ser definido
Isto é, ainda há uma certa linearidade na seguinte fórmula. A sociedade de
em Morgan – como há em Marx –, mas classes é causa efetiva do Estado, pois
o que certamente lhe fascinou em Marx este é o local por excelência, no qual
foi que os selvagens não estão postos a classe dominante reprime/media as
em uma condição hierarquicamente in- tensões causadas pela resistência da(s)
SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque 289

classe(s) dominadas. De tal forma, ao na e que, ainda, entendia que o Estado


assumir a posição da classe trabalha- gerava, ou sustentava, a sociedade de
dora como a classe revolucionária, ele classes, logo, a sociedade sem Estado
acreditava que esta ao assumir o poder era condição prévia para a sociedade
seria capaz de promover a universaliza- sem classes – e não o contrário.
ção da qual os burgueses jamais seriam, Tible, no entanto, poderia ter
ou foram, capazes: esta universalização feito um esforço mais conceitual do
levaria a uma sociedade sem classes, ao que descritivo no que diz respeito à in-
fim do capitalismo, e consequente esva- versão Bakuniniana e suas implicações.
ecimento gradual do Estado. Essa tal- E poderia ter mergulhado com mais
vez seja a maior diferença entre Marx profundida na dicotomia marx-baku-
e Engels, uma vez que o segundo via o niniana sobre a sociedade de classes
Estado como causa, ao menos relativa, e o Estado. Isso fica claro quando Ti-
uma vez que ele era instrumento de re- ble prefere rebater a crítica de Baku-
pressão nas mãos da classe dominante: nin ao estatismo colateral do plano de
no engelianismo, uma vez a revolução transição revolucionário de Marx, ve-
sobreviesse e a reação a esta cessasse, jamos nós, pela exposição da falta de
o Estado perderia utilidade. um plano de ação à proposta teórica de
Mas é nas polêmicas com Bakunin, o que teria sido comprovado
Bakunin que chegamos ao ponto que por seus fracassos práticos – ou quando
interessa. No que se refere ao comba- procurar explicar a certeza da antevisão
te político-intelectual com o anarquista (cruel? auspiciosa?) do anarquista, so-
russo, Marx defende sempre uma tran- bre o que seria a experiência histórica
sição revolucionária para a sociedade do “socialismo real”, pelo viés de sua
de classes – e estatal – e sociedade sem eventual razão em relação “a um certo
classes, por não acreditar na abolição marxismo já existente”, e não em re-
estatal “por decreto” como defendida lação a conceitos marxianos efetivos.
por Bakunin; no entanto, Bakunin da A crítica ao modo como a polêmica
sua parte responde a Marx – e não a marx-bakuniniana foi pouco enfrenta-
nenhum marxista, contemporâneo ou da consta do próprio posfácio e, conve-
futuro – que a transição proposta cul- nhamos, é justa.
minaria na prevalência do Estado de Quando trata de Clastres, Ti-
um modo tão ou mais autoritário – não ble nos lembra que para o antropólogo
é que Bakunin discordasse da liberta- francês, o Estado sempre existiu, mas
ção dos trabalhadores, mas sim de que nas sociedades indígenas existentes,
a hegemonia proletária no Estado não este era esconjurado por uma série de
seria capaz de gerar a liberação huma- práticas que esvaziam o desenvolvi-
290 SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque

mento do poder. Isto é, longe de Engels, o contrato social como um mecanismo


que concebeu o Estado como evolução de expropriação, seria possível haver
histórica da divisão do trabalho em As sociedade sem contrato social? E po-
Origens da Família, da Propriedade deria haver sociedade – A Sociedade –,
Privada e do Trabalho, para Clastres o sem haver um Estado para fazer valer
Estado estava posto desde sempre, mas – à força, se necessário – tal contrato?
práticas como o nomadismo e a relação Como os selvagens, que em toda a lite-
entre a tribo e seus guerreiros e chefes, ratura contratualista não travaram con-
ele restava apenas latente. O que os trato social algum, poderiam constituir
povos estudados por Clastres nos apon- uma forma de sociedade?
tavam era a possibilidade de esconju- São questão que ambos, Marx
rarmos o Estado aqui-agora. Isso seria e Clastres, não enfrentaram a seu tem-
possível, pois os povos de Estado, já po, logo, Tible não teria obrigação, em
foram, algum dia sem Estado, não por tese, de fazê-lo descritivamente em
falta de evolução, mas pelos agencia- um trabalho acadêmico. Mas poderia
mentos coletivos que produziam, o que ter adensado a crítica nessa direção.
estaria à nossa mão aqui-agora – e, sim, Deleuze e Guattari, eles mesmo, acer-
você há de ter lido algo do gênero, não taram ao falar, no Anti-Édipo, no acer-
por acaso, em Deleuze-Guattari. to de Marx ao tratar a história como a
Mas Marx, em dado momen- história dos cortes e das contingências,
to, já antevia as sociedades sem Esta- mas apontavam que o pensador alemão
do existentes hoje como um símbolo errou ao fazer leitura da história como
do passado (europeu), mas, sobretudo, luta de classes – quando isso pode se
como flecha apontando para o comu- revelar apenas a história desde o ad-
nismo do porvir. Eis o que seria o casa- vento da burguesia –, o que causava
mento (possível) entre a sociedade sem a ilusão de ótica de ver a burguesia,
Estado e a sociedade contra o Estado, em algum momento, como realmen-
atadas por um fio vermelho. Mas Tible te revolucionária – o que implica em
perdeu a oportunidade para adensar desconhecer os próprios descaminhos
algo que ele mesmo suscitou, quando da revolução passada e, consequente-
lembrou o comentário de Gustavo Bar- mente, das revoluções futuras. Por ou-
bosa sobre o contratualismo em Hob- tro lado, no entanto, D&G esvaziaram
bes: faltou, entretanto, definir o que isso ao, em Mil Platôs, surgirem com
seria, ontologicamente, “sociedade”, a ideia da existência de um Estado, ou
ou qual o motivo de naturalizarmos o um fantasma estatal, que percorreria a
termo como a própria essência da cole- história do humana. A própria noção de
tividade humana; se o próprio Marx via socius, já no Anti-Édipo, é parte dessa
SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque 291

contradição em termos, uma vez que o Assertiva perfeita de Tible. O liame da


pensamento social, ao contrário do que relação entre homem e mercadoria é,
parece, é eminentemente burguês. precisamente, afetivo, dada pelos efei-
Ainda que Marx e Clastres di- tos reais de um discurso imaginário. É
gam “sociedade” como expressão de precisamente essa liame subjetivo que
qualquer coletividade humana, o fato permitiu a virada do capitalismo in-
de não esmiuçar o conteúdo específi- dustrial para o capitalismo financeiro
co do termo leva ao desconhecimento e cognitivo. A mágica devém absoluta,
dos efeitos dessa naturalização. Não, justamente porque os objetos técnicos
os índios não vivem em sociedade por já eram laterais antes, até se tornarem
que não partilham um contrato, isto é, quase que completamente obsoletos
não vivem em regime negocial. O ócio, nos dias atuais: o que gera valor são
isto é, trabalhar para viver e não viver conceitos, abstrações, marcas.
para trabalhar é o que – acima de tudo – E certíssima a crítica de Ti-
distingue os índios de nós, pobres ricos ble a Viveiros de Castro, alguém cujo
ocidentais. Os selvagens não travam so- ponto feliz de sua antropologia está em
ciedades entre si, tampouco vivem sob relacionar a metafísica deleuzo-guatta-
a égide de A Sociedade – portanto, do riana – que é sim marxista – com uma
Estado. A dificuldade de Marx e Clas- pesquisa etnográfica densa – e Vivei-
tres em articular contrato social, socie- ros concorda com o Marx da virada
dade e Estado, possuem um desdobra- mais do que gostaria, e poderia admi-
mentos importantes. O que por trás da tir, como Tible felizmente demonstra.
naturalidade, no sentido de normali- O que Tible não adensou, novamente,
dade, da sociedade é algo que poderia é que se Viveiros, via D&G, vê bem o
ter sido respondido. Entender a história erro marxiano (dar uma demasiada uni-
para além dos termos em que seu deu versalidade à história burguesa), por
a luta na sociedade hegemonizada pela outro lado, novamente por meio dos
burguesia exige, também, uma genealo- dois, repetiram o erro de Marx ao dar,
gia profunda do contratualismo. p.ex., uma existência extra-histórica na
O ponto forte do livro está História ao Estado (sempre houve Es-
mesmo no terceiro – e último – capí- tado), o que polui o pensamento de ne-
tulo. Copenawa e Marx, separados por blina na hora de destrinchar, e desmon-
dois séculos – e um imenso oceano – tar, dispositivos específicos – os quais
de diferença, mas que veem na relação estão a serviço da escravidão universal
mágica – e teológica – dos homens do regime do Capital.
com seus objetos a chave para a crítica Por fim, Marx Selvagem, que
à economia política e ao capitalismo. desemboca em Oswald no final, é uma
292 SELVAGENS DO MUNDO, UNI-VOS / Hugo Albuquerque

obra divertida. Passa por muitos au-


tores, questões e polêmicas caros ao
pensamento-prática da esquerda atu-
al. Mas importante de tudo, é a leitura
correta de Marx presente no livro, ao
levantar a bola para onde o pensador
alemão mirava no século XIX, e não
para o seu retrovisor, isto é, a própria
tradição majoritária alemã. O Marx
maior, felizmente, foi jogado na lata do
lixo da História, primeiro com a que-
da do Muro de Berlim, depois com a
crise do colaboracionismo de esquerda
ao neoliberalismo, agora, mais do que
nunca, é hora de pôr em prática um
outro Marx, o que, a nosso ver, é im-
prescindível. Hoje, mais do que nunca,
é o momento de bradar: Selvagens do
Mundo, Uni-vos!

Hugo Albuquerque é mestrando


em direito pela PUC de São Paulo, bloga no
Descurvo (http://descurvo.blogspot.com.br) e
participa da rede Universidade Nômade (Uni-
Garoa).

TIBLE, Jean. Marx Selvagem. São


Paulo: Editora Annablume, 2013, 242
páginas.
REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava 293

Revoltas antipemedebistas, mentismo, e sua eterna obsessão em


o fim da redemocratização substituir importações e implantar
Resenha de Imobilismo em um parque industrial e tecnológico à
movimento, de Marcos Nobre91
imagem e semelhança das nações de-
Bruno Cava senvolvidas. Em razão de fatores in-
ternos e externos, agoniza a tentativa
de estruturação capitalista baseada na
Marcos Nobre volta ao fim da
ideia de um estado-nação forte, forjado
ditadura, nos anos 1980, para recons-
pela aliança – mais ou menos oculta,
truir a trajetória que nos trouxe aqui,
dependendo do governo – entre uma
nos impasses e dilemas da sociedade
emergente burguesia nacional e os se-
brasileira durante o governo Dilma.
tores intelectualizados e politizados da
Recusando o paradigma das narrativas
esquerda. À medida que o paradigma
de formação do Brasil, tão canônicas
se torna obsoleto, as explicações pela
na tradição acadêmica, sobretudo de
via da formação do povo/nação/estado
certo uspianismo; o autor opta por um
brasileiro, vacilantes na tensão entre
enredo mais conciso – preferindo antes
modernização e emancipação, se tor-
organizar os acontecimentos e ritmar
nam igualmente inadequadas. Já nesse
seu desdobramento político-histórico,
momento, na década de 1980.
a meramente enquadrar o real, segundo
O ciclo do aço se encerra e dá
qualquer teleologia do povo brasileiro.
lugar ao do silício, prefigurando outro
Dessa forma, segundo o princípio da
tipo de capitalismo, o capitalismo cog-
arma de Tchekov, escreverá um livro
nitivo, integrado e globalizado. Nesse
enxuto, na casa das 200 páginas, em
cenário, as insuficiências das relações
que a escassez de conceitos e esque-
produtivas no Brasil acentuam a crise
mas interpretativos explícitos decorre
política ao longo dos anos 1980, tam-
do próprio método. O objetivo é recor-
bém muito abrasada pelas energias de
tar complexidade do real e formular
transformação acumuladas nas lutas
um subsistema com poder explicativo
operárias, estudantis, camponesas, ra-
e potencial crítico, a fim de descrever
ciais e tantas outras que, em sua maio-
“modelos abrangentes de sociedade”, e
ria, se aglutinariam no PT daquela
propor-lhe a transformação.
época.
O fim da ditadura foi tam-
A transformação do capitalis-
bém o fim do nacional-desenvolvi-
mo global é antes de qualquer coisa
91 Publicado originalmente no Quadrado dos transformação das lutas do trabalho
loucos, em 23/1/2014. <http://www.quadra- – a capacidade de organizar, mobili-
dodosloucos.com.br/4018/revoltas-antipeme- zar e agir politicamente, só que nou-
debistas-o-fim-da-redemocratizacao/>
294 REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava

tros termos. Exige-se, assim, renova- de cada um dos condôminos, das posi-
ção de formas e métodos, no nível de ções de poder. Funciona basicamente
uma nova subjetividade política. Os por meio de decisão negativa, isto é,
conservadores se preparam para frear exercendo vetos seletivos, para evi-
as mudanças. Diante da franja amea­ tar o ingresso de novos sócios, barrar
çadora ao pacto social proprietário, propostas em assuntos críticos, e aci-
oligárquico e racista; faz-se necessário ma de tudo impedir que essa lógica de
lançar configurações institucionais que barragem se explicite. Os vetos e blo-
correspondam ao projeto da “transição queios devem acontecer de bastidor, na
lenta, gradual e segura” depois da der- maciota, sempre encobertos pelo bom
rota da ditadura. Como amortecer es- tom do “consenso”, pela aparência pa-
sas energias de transformação? Como cífica e conciliadora de quem só quer
lidar com as mutações na base da pro- trabalhar pelo Brasil. É uma cultura
dução? Como mudar tudo para que política antidemocrática, de mando e
nada mude? clientelismo, concentrada em aplicar
A resposta do autor é: “peme- um mata-leão nos adversários e o dis-
debismo”. A redemocratização acon- senso, sem enfrentá-los abertamente.
tece sob o signo do pemedebismo. O As discordâncias de conteúdo, uma
que não se resume simplesmente ao vez suscitadas, acabam remetidas ao
PMDB. Mas a lógica. A lógica sistê- labirinto pemedebista de filtros, nego-
mica de funcionamento. O conjunto ciatas e vetos escalonados, até o ponto
de táticas, dispositivos, consensos e de neutralização.
etiquetas com que se tentam conter as O pemedebismo resolve vá-
forças transformadoras, as mobiliza- rios problemas para a redemocratiza-
ções sociais e as mutações do trabalho. ção, em tempos de crise e mobilização
Antes reunido para fazer a oposição popular: 1) serve perfeitamente à con-
institucional à ditadura, com o fim dela servação da desigualdade de classe/
o PMDB degenera num discurso anó- racial/gênero, moto contínuo ao pe-
dino e morno, que sucessivamente vai ríodo ditatorial, 2) traduz em termos
“naturalizando-se” na prática política. democrático-constitucionais o pacto
Pronto para apoiar iniciativas abstra- social que a ditadura afiançava, com
tas e slogans genéricos, mas sequiosa- todo seu autoritarismo implícito, e 3)
mente recalcitrante para reagir e barrar adia soluções definitivas para o país,
qualquer tema concreto ou mexida no instaurando o tempo morto da “peque-
status quo. Encastelado como “con- na política”, instituindo uma negocia-
domínio de sócios”, o pemedebismo ção purgatorial – cujo resultado mais
funciona pela defesa egoística da cota nítido foi a Constituição de 1988, cris-
REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava 295

talização dessa baixíssima velocidade O pemedebismo passa a ser


do carro pemedebista. um personagem de fundo, como se
O que o pemedebismo não não houvesse outra forma de governar
resolve, no entanto, é como substituir e fazer política no Brasil que não seja
o nacional-desenvolvimentismo por beijando a mão do Sarney. Noutras pa-
uma organização das relações de pro- lavras, se converte em ideologia, sob
dução à altura dos desafios do mundo a desculpa pretaportê da realpolitik: é
do trabalho. Essa lacuna apertou a cri- assim mesmo, está aí, não tem outro
se econômica, provocando descontro- jeito…
le inflacionário e baixa produtividade É assim que o PSDB dos anos
generalizada. 1990 lida com o pemedebismo. Pro-
Por um breve período, com gramado para fazer as reformas neces-
seu “cesarismo alucinado”, Collor (90- sárias diante das transformações das
92) tentou contornar todos os vetos e forças produtivas, e aliado para isso
rituais, para emplacar uma reestrutu- com o setor empresarial e financista
ração capitalista a toque de caixa. Foi mais dinâmico, realiza um projeto de
rapidamente anulado, numa conjunção fortalecimento do estado, calcado na
emblemática entre bancadas parlamen- centralização do poder no governo fe-
tares, grande imprensa e judiciário – deral – em especial nos aspectos fiscal,
três poderes inteiramente incrustados financeiro e monetário. Para Nobre, o
na represa pemedebista. Desse fato, neoliberalismo é mais um “vagalhão
nasce a percepção que, sem super- ideológico”, usado pragmática e opor-
maiorias no Congresso e o apoio da tunisticamente, do que propriamente a
grande mídia corporativa, e alguma verdadeira prática, todavia sincrética,
influência no judiciário, não é possível da era FHC. Com isso, convivendo
governar. Forja-se, na década de 1990, com o centrão e armado ideologica-
uma segunda figura do pemedebismo: mente, o governo do PSDB pôde pela
a governabilidade. Em nome dela, os primeira vez contornar vetos e nego-
governos passam a construir longos ciar ajustes imprescindíveis, – viabi-
arcos de alianças com o “centrão” e lizando, por exemplo, o Plano Real.
assumir o jogo tático dos vaivéns e Edificado de modo mais transparente
negociações como a própria nature- e democrático do que os anteriores, –
za da política. No intuito de dirigir o que eram geralmente anunciados de
pemedebismo, os governos seguintes, supetão em cadeia nacional, – esse
aos poucos, permitem que ele seja plano encerrou a espiral da inflação,
naturalizado. um dos mecanismos mais brutais de
296 REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava

transferência de renda dos mais pobres seguridade social, do outro. O modelo


aos mais ricos. bateu no teto.
Como o livro nos conta, o O governo Lula se apresen-
governo FHC (95-02) exprimiu o en- tou, numa conjuntura especialmente
contro entre um “apoio inorgânico” da favorável, como aquele capaz de levar
população, parcialmente derivado do o “choque de capitalismo” ao mundo
Plano Real, e o projeto de “choque de do trabalho. Reconhecendo os pro-
capitalismo”: a reestruturação das rela- cessos de transformação, seus confli-
ções de produção depois do abandono tos e subjetividades, é nesse governo
do paradigma nacional-desenvolvi- que, pela primeira vez, as novas for-
mentista. O PT, nessa época, patina- ças produtivas são reconhecidas por
va discursivamente entre uma defesa si mesmas, além da indexação segun-
nostálgica do estado/público (parado- do a verticalização empresarial ou a
xalmente, como se FHC simbolizasse métrica financeiro-capitalista. Isto se
o antiestado) e o slogan generalista da viabilizou graças a um novo projeto
“ética na política” – enquanto paulati- dirigente do pemedebismo. Novamen-
namente burocratizava as redes de mi- te, o governo resolve dirigir o pemede-
litância e copesquisa, que tanto haviam bismo. Estratégia justificada como in-
marcado a década anterior. contornável, especialmente depois do
O sucesso do FHC também foi mensalão, quando naufragou o projeto
o seu fracasso. O problema do “cho- de afrontá-lo mais diretamente, enca-
que do capitalismo” é que tentou resol- beçado por José Dirceu. Com o peme-
ver a crise da produtividade pelo alto, debismo, o governo Lula pôde esticar
de cima a baixo, como se os setores uma pequena fenda, por onde vazaram
empresariais e o capital globalizado políticas sociais de reconhecimento
fossem, eles próprios, os agentes da da dimensão produtiva. A quantidade,
dinamização produtiva. Não pôde re- aqui, foi a qualidade. A massificação
conhecer como, na realidade, os ajus- de programas sociais fomentou o di-
tes estruturais emanam antes nas for- namismo da economia em suas bases,
ças vivas, já existentes no mundo do multiplicando efeitos de autovalori-
trabalho, do que dalguma estruturação zação das camadas outrora considera-
autônoma do capital. Essa insuficiên- das “inorgânicas”. A política social se
cia foi arregaçada cada vez mais até o torna a base e determinante da política
final da década de 1990, agudizando econômica e não mais o inverso: o que,
um impasse entre a reestruturação pro- imediatamente, os setores conservado-
dutiva, de um lado; e a manutenção das res acusam de “interferência política”
desigualdades, baixa renda, déficit em na economia.
REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava 297

Formula-se, como resultado crítico diante dos desafios, tampouco


histórico dessas contradições e dispu- pode dar conta da gênese, estruturas e
tas em meio ao pemedebismo, a pri- funcionamento complexo da política
meira alternativa consistente desde o brasileira, e ainda por cima acaba ser-
desmonte do nacional-desenvolvimen- vindo de justificativa para a conserva-
tismo. O que Nobre chama de “social- ção das desigualdades. Usado para le-
-desenvolvimentismo”. Isto é, outro gitimar muitas opções do governo Lula
modelo abrangente de sociedade, que como o limite máximo da correlação
gradativamente se instala na década de de força, o lulismo coincide assim com
2000. Foi essa consistência que permi- a própria figura ideológica do peme-
tiu ao governo Lula, diferentemente de debismo: a governabilidade. O pacto
FHC, atravessar a pior crise econômi- lulista, no entanto, deve ser criticado
ca desde a quebra da Bolsa de NY. O e tensionado, para reforçar as brechas
autor não deixa de anotar, também, que constituintes, essas que a “pequena po-
esse social-desenvolvimentismo coa- lítica” dos conservadores – inclusive
bita determinada opção de inserção no de um PT pemedebizado, agora síndi-
mercado mundial. Surfando na onda co do condomínio – faz de tudo para
das commodities (gêneros, bens e ser- colmatar.
viços primários), o governo calibrou a É neste ponto que o autor
política para aproveitar a gangorra en- poderia, talvez, avançar a explicação
tre as duas maiores economias, China sobre as transformações materiais dos
e EUA. Essa opção macroeconômica processos produtivos, na equação entre
significou, também, o casamento entre mundo do trabalho, dinâmicas inova-
o governo e grandes conglomerados doras e novas formas de organização
empresariais, cujo virtual monopólio política/produtiva, de onde os antago-
e verticalização do mercado são in- nismos próprios da era Lula/Dilma se
centivados, a fim de constituir players moldam. Além disso, Nobre não reco-
globais: grandes mineradoras, emprei- nhece a possibilidade de um lulismo
teiras, exportadoras e agronegócio. É além-Singer, um por assim dizer “lu-
o neodesenvolvimentismo – embora o lismo selvagem”, que possa servir de
autor não o chame assim – todavia pe- matriz crítica para o próprio governo
dra angular do social-desenvolvimen- Lula (ou Dilma), seu neodesenvolvi-
tismo da forma que foi adotado pelo mentismo, sua progressiva capitulação
governo, especialmente desde 2006. diante do pemedebismo. Não reco-
Nobre polemiza abertamente nhece uma ambivalência no conceito
com André Singer, criticando o con- de “lulismo”, muito minoritária, aliás,
ceito de “lulismo”. Insuficientemente na tese de Singer. Para o nosso autor,
298 REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava

o mensalão teria sido outra vitória pe- mocrática” – que nada mais é do que
medebista, como tinha sido o impedi- a conservação do conteúdo autoritário
mento de Collor – evidentemente por de instituições e da própria socieda-
motivos diferentes. Contudo, não foi de. É o rompimento da naturalidade
uma vitória absoluta. Lula não caiu. dos gestos, uma ação direta ao gosto
O social-desenvolvimentismo não foi fanoniano, que põe abaixo a capa eli-
enterrado. O mensalão também signifi- tista com que é revestida e canalizada
cou o fracasso da reação pemedebista, a energia de transformação. É por isso
articulada entre bancadas parlamenta- que Nobre se adiantou para nelas re-
res, grande imprensa e frações do ju- conhecer um ímpeto antipemedebista.
diciário, contra Lula. E esse fracasso, Mais do que isso, para o autor as revol-
menos do que por alguma habilidade tas são sintoma do fim de um ciclo, do
messiânica do presidente, ocorreu por- próprio ciclo de redemocratização dis-
que as bases materiais não eram mais parado nos anos 1980. As jornadas de
tão “inorgânicas” quanto se pensavam. junho são a expressão da incapacidade
A relação de força mudou de baixo pra de o governo aprofundar o paradigma
cima. Organizada politicamente por socialdesenvolvimentista, do impasse
outras vias, e capaz de afirmar posi- causado pela reocupação (muitas ve-
ções e afrontar os mecanismos amor- zes assentida) do PT e do governo pelo
tecedores, a nova composição social pemedebismo. O abismo olha de volta.
sustentou Lula apesar do mensalão, e Descrente na capacidade de o
garantiu sua reeleição, e a sucessão por PT e o governo Dilma escaparem da
Dilma, em 2010. ideologia lulista, de sua incapacida-
Isto explica, também confor- de  assumida em radicalizar o social-
me o autor, as revoltas de 2013, que -desenvolvimentismo e, finalmente,
também se voltaram contra o PT e Dil- em desatar o nó górdio do pemede-
ma, neles incitando as piores paranoias bismo vigente nas últimas três déca-
e uma verdadeira histeria repressiva. das, é nas revoltas de junho que o au-
Mais do que “soluço” sem repercussão tor aposta muitas fichas. Mais do que
eleitoral (Singer, na FSP), o levante evento em si, como primeira expressão
em andamento exprime o desbloqueio gritada de uma nova cultura democrá-
de forças sociais e produtivas, que tica em estado nascente, numa forma
têm encontrado meios de organizar-se de vida baseada em conflitos abertos e
para além e contra o “pemedebismo de explicitação das relações de poder, no
fundo”. Ou seja, trazendo o dissenso agonismo tantas vezes recalcado pelo
para a rua, rompendo o bom tom e os DNA auto­ritário da democracia cons-
pressupostos de uma “convivência de- titucional brasileira. “Abriu um rombo
REVOLTAS ANTIPEMEDEBISTAS / Bruno Cava 299

na armadura pemedebista”. É irônico,


porque as revoltas também exprimem
o “lulismo selvagem”, o que mostra o
quão distante estão o PT e seus ideó-
logos dos próprios efeitos que ajuda-
ram a construir. A tão falada crise da
representação, no Brasil, tem uma cara
muito própria. Se as instituições não
forem suficientemente ágeis em rege-
nerar-se diante da enchente, poderão
acabar engolidas pelo turbilhão demo-
cratizante e, de uma forma ou de outra,
radicalmente transformadas. Nisso,
apostamos.

Bruno Cava é mestre em Filosofia


do Direito pela UERJ, blogueiro, participa da
rede Universidade Nômade, autor de A multi-
dão foi ao deserto (Annablume, 2013), bloga
no quadradodosloucos.com.br.

NOBRE, Marcos. Imobilismo em mo-


vimento: da abertura democrática ao
governo Dilma. São Paulo: Cia. das
Letras, setembro de 2013. 204 pág.
RESUMOS
ECONOMIA E SUBJETIVIDADE
A medida da fera coletiva: o valor na era das novas instituições
algorítmicas de ranqueamento e avaliação
Matteo Pasquinelli
Resumo: Como medir o valor? Qualquer forma de produção (cultural, artística,
acadêmica, material) está hoje imersa na mesma esfera maquínica de valorização,
isto é, numa rede. Meu artigo foca e enquadra somente essa perspectiva parcial: ele
não discute as redes como um meio de produção, troca e comunicação, organização
ou mesmo de cunhagem de dinehiro, mas como meio de valorização coletiva (quer
dizer, de geração, amplificação, acumulação e especulação de valor coletivo). A
forma-rede parece ser o modelo mais empírico disponível hoje para descrever um
tal processo de valorização social e, mais importante, sua medida. Discutirei quatro
casos: a obsessiva economia-referência da universidade, a pervasiva economia-
conectiva do algoritmo Page Rank do Google, a influência geopolítica das agências
de nota, e também as hierarquias mundanas do universo da arte. Todos funcionam
segundo um modelo de geração de valor turbilhonante, coletivo e baseado em redes.
O papel da especulação não está adequadamente distinto do processo de valorização
coletivo e quanto a este ponto o artigo também é omisso (ou talvez ele apena
imagine um futuro em que a especulação será reinvindicada como um poder coletivo
de sabotagem do valor). No entanto, eu defendo que uma crítica política dessas
instituições maquínicas de avaliação e ranqueamento, que estão gerando, coletiva e
socialmente, a nova medida do “monstro coletivo” (ou a medida do valor coletivo),
têm ainda de ser feita.
Palavras-chave: Marxismo; pós-estruturalismo; economia política.

ARTE, MÍDIA E CULTURA


Fotografia Parrêsia e Poéticapolítica dos Vagalumes
Bárbara Szaniecki
Resumo: Inspirado em Le courage de la vérité de Michel Foucault, este artigo
analisa as práticas de fotógrafos e midialivristas que vêm cobrindo as manifestações
desde 2013 em termos de um “registrar-verdadeiro” e de uma “fotografia parrêsia”
que se distingue da suposta objetividade dos discursos visuais da grande mídia ao
demandar por parte de quem a pratica o compartilhamento dos modos de vida das
ruas. Também analisa as imagens produzidas nessas condições de rua, tais como as
da fotógrafa e ativista Katja Schilirò, como uma “poéticapolítica dos vagalumes”
com base na leitura de Sobrevivência dos Vagalumes de Georges Didi-Huberman.
Palavras-chave: Fotografia; midialivrismo; manifestações; militância; poéticas;
verdade
A “multidão” e o “espetáculo” na queda do comunismo romeno:
análise a partir do filme Videogramas de uma revolução
Roberto Lopes Júnior
Resumo: Análise do filme alemão “Videogramas de uma revolução” (1992), dirigido
por Harun Farocki e Andrei Ujica, sobre a queda do regime comunista de Nicolae
Ceaucescu na Romênia, em dezembro de 1989. Inicialmente foram apresentadas as
carreiras dos diretores do filme, além da descrição das principais partes constituintes
da película. Posteriormente, foi realizada uma tentativa de análise e interligação
entre o conteúdo do filme com artigos que discutiram filosoficamente a queda do
comunismo na Romênia, e na identificação de características em comum entre o fim
do comunismo romeno em 1989 com outros protestos e movimentos ocorridos na
realidade pós-guerra fria.
Palavras-chave: Videogramas de uma revolução; Romênia; fim do comunismo.
The “multitude” and “spectacle” in the end of the Romanian communism:
analysis from the movie “Videograms of a Revolution”
Abstract: Analysis about the movie “Videograms of a Revolution” (1992), directed
by Harun Farocki and Andrei Ujica, about the end of the communist regime of
Nicolae Ceaucescu in Romania in December 1989. The first part of the research
was dedicated to present the work of the directors and a description of the movie’s
principal parts. Later it was made a study unifying the movie content with articles
that discuss, in philosophical terms, the end of communism in Romania, and the
identification of characteristics in common between the events in this country and
the protests occurred in the post cold war reality.
Keywords: Videograms of a Revolution; Romania; End of Communism.

Comunicação, Mídia e Lugar – A apropriação socioespacial dos


meios de comunicação, da perspectiva material/conceitual
Carlos Fernando Leite e Paulo Celso da Silva
Resumo: Este trabalho visa à análise da relação trinominal Comunicação, Mídia e
Lugar, dentro da dialética em que as classes não hegemônicas têm como objetivo – em
relação às hegemônicas – a apropriação socioespacial dos meios de comunicação.
Milton Santos e Angelo Serpa – este, com o conceito de ações e discursos que
produzem lugares, enquanto aquele, com sua teoria socioespacial, a qual propõe o
espaço como instância social, tanto material quanto conceitualmente falando – são
os autores que mais consistentemente embasam o trabalho. Tendo como referencial
teórico as rádios comunitárias e outros espaços virtuais denominados alternativos,
visa-se a evidenciar – também sob a ótica material/conceitual – as dificuldades
enfrentadas pelas classes não hegemônicas, em sua luta com vistas àquela apropriação,
vista como condição sine qua non à construção – que é o desejável e esperado
305

corolário desse processo de embate – de uma esfera pública mais igualitária, em todos
os aspectos. Por outras palavras, a Comunicação, vetor relacional por excelência,
ampliada espaço-temporalmente pela Mídia, em termos de possibilidades e
potencialidades, manifestando-se no Lugar, compondo o arcabouço material/conceitual
em que se constitui a dinâmica relacional da(s) sociedade(s) em seu cotidiano.
Palavras-chave: Comunicação, Mídia, Classes Sociais.
Communication, Medium and Place – The socio-spatial appropriation of media,
from the material/conceptual perspective
Abstract: This paper aims the analysis of the trinominal relation Communication,
Medium and Place, within the dialectics in which the nonhegemonic classes’ goal
– in relation to the hegemonic ones – is the sociospatial appropriation of the media.
Milton Santos and Angelo Serpa – from this one we get the concept of actions
and discourses that produce places, whereas from the first we take the sociospatial
theory, which postulates space as a social instance both material and conceptually
speaking – are the authors whose works back this paper more consistently. Having
community radio stations and other virtual spaces, here called alternative, as
theoretical references, we aim to show – also from a material/conceptual perspective
– the difficulties nonhegemonic classes face, in their struggle for the referred
appropriation, which is seen as a sine qua non condition for constructing – which
is the desirable and expected yield of this fight – of a more egalitarian social sphere
in all the aspects. In other words, Communication, an essential relation vector,
spatial-temporally amplified by Medium, concerning possibilities and potentiality,
manifesting within the Place, making up the material/conceptual structure which
constitutes the society(ies)’s ordinary relation dynamics.
Keywords: Communication, Medium, Social Classes.

NAVEGAÇÕES
Forma jurídica e luta de classes
Pedro Eduardo Zini Davoglio
Resumo: O presente ensaio tem por escopo a relação específica estabelecida entre
o direito como uma forma social e o princípio fundante do marxismo que é a luta de
classes. Isso se justifica tanto do ponto de vista do método científico, como hipótese
de articulação de conceitos no interior da problemática do materialismo histórico;
quanto do ponto de vista político, como questionamento à palavra de ordem que
sustenta a necessidade de “disputar o direito”.
Palavras-chave: forma jurídica; forma social; luta de classes; método; marxismo.
Abstract: This essay studies the specific relationship established between law as a
social form and the class struggle. This is justified from the scientific point of view
306

as a hyphotesis of articulation of concetpts within the problematic of historical


materialism; and from the political point of view, as a questioning of the slogan that
supports the need to “fight for rights”.
Keywords: juridical form; social form; class struggle; method; marxism.

Além do “além do bem e do mal”: a vontade de potência e a


multidão
Alemar Rena
Resumo: O objetivo desse artigo é sondar a tese de Vontade de Potência proposta
por Nietzsche como possível elemento conceitual para se pensar, por um viés
ontológico e político, o que é e pode ser a multidão hoje. Argumentamos que, se a
vontade de potência implica igualmente uma vontade de singularidade, diferença
e afeto, e se por isso ela nos sugere rejeitar as comunidades essenciais e amar o
distante, então aí, no cerne da filosofia de Nietzsche, pode já se encontrar, ainda
que escondida, uma passagem para a multidão. Nesse percurso, procuramos colocar
em evidência não só o fato de que Nietzsche esteve consciente das diferenças entre
grupos antagônicos de conceitos como massa/Estado/contágio do mesmo e multidão/
singularidade/autonomia, mas que seu pensamento quis lidar com esse antagonismo
de forma crítica.
Palavras-chave: Vontade de potência; massa; multidão; singularidade; amor pelo
distante.
Abstract: The aim of this paper is to approach the thesis of Will to Power
proposed by Nietzsche as a possible conceptual element for understanding, from
an ontological and political point of view, what the multitude is and what it can
be today. We argue that, if will to power also implies a willingness to singularity,
difference and affection, and by doing so suggests that we reject essential
communities and love what is far, then, at the heart of Nietzsche’s philosophy, there
can already be found, albeit hidden, a passage to the realization of the multitude.
Along the way, we seek to highlight not only that Nietzsche was well aware of
the differences between antagonistic groups of concepts like mass/herd/State and
multitude/singularity/autonomy, but that his thought deals with this antagonism
critically.
Keywords: Will to power; mass; multitude; singularity; furthest love.
307

Discriminação da pobreza e segregação urbana na cidade do


Rio de Janeiro
Marcos Antonio da Silva Maia
Resumo: O objetivo deste artigo é propor reflexões sobre a idealização da cidade
do Rio de Janeiro nos parâmetros neoliberais através da transmissão de atributos
e pressupostos que estabelecem uma conexão entre os discursos veiculados e
instâncias psíquicas produzindo desejos que possam construir demandas de
intensificação do consumo e acúmulo de capital, caracterizando o que aqui se
denomina como produção de subjetividade capitalística. Tais reflexões visam
problematizar as implicações decorrentes de uma política de segregação que consiste
em excluir da cidade aqueles que, classificados pelos indicadores de pobreza, são
estigmatizados como essencialmente perigosos, desocupados, inaptos ao mercado de
trabalho e propensos ao crime.
Palavras-chave: Cidades; Subjetividade; Pobreza.
Abstract: The objective of this article is proposing reflections about the Rio
de Janeiro city in neoliberal parameters through the transmission of attributes
and presuppositions that make a connection between the rounding discourses
and psychic spheres producing wishes that make demands of intensification of
consuming and capital accumulation, characterizing what is called in this text
as capitalistic production of subjectivity. Such reflections aim dealing with the
implications accrued by the segregation politic that consists to exclude from the city
those who, rated by the poverty indicators, are stigmatized as essentially dangerous,
unoccupied, unfit to labor market and willing to crime.
Keywords: Cities; Subjectivity; Poverty.

Peter Seeger, 1919-2014


Thaddeus Blanchett
Resumo: Lembramos a vida e obra de Peter Seeger, folclorista, músico, pacifista
e ativista norte-americano, um dos grandes mestres da música popular dos Estados
Unidos, embora quase por completamente desconhecido no Brasil.
Palavras-chvave: Peter Seeger, músico, folclore, Estados Unidos, pacifismo
Abstract: We look at the life and work of Pete Seeger, North American folklorist,
musician, pacifist and activist, one of the great masters of U.S. popular music,
although almost entirely unknown in Brazil.
Keywords: Peter Seeger, músico, folklore, United States, pacifismo
308

“Para a sua segurança, você está sendo filmado”: notas sobre a


segurança/consenso na cidade contemporânea
Eledison de Souza Sampaio
Resumo: Controle, segurança e consenso. Três dimensões políticas interpenetradas
na cidade contemporânea. Discutir cada fio de articulação entre elas demandaria
um esforço inalcançável por esse breve ensaio. Limitemo-nos a colocar pequenas
questões sobre as armadilhas que o tão propalado discurso da segurança parece
indicar, localizando as reflexões sobre as cidades brasileiras. Para isso, perseguem-se
alguns rastros deixados por autores como Foucault, Deleuze, Arendt e Agamben.
Palavras-chave: política; cidade; segurança; controle
Abstract: Control, safety and consensus. Three interpenetrating political dimensions
in the contemporary city. Discuss each wire linkages between them would require an
unattainable effort by this brief essay. Let us confine ourselves to put minor issues
about the pitfalls that heralded speech seems to indicate safety, locating reflections
on Brazilian cities. To do so, chase a few traces left by authors such as Foucault,
Deleuze, Agamben and Arendt.
Keywords: policy; city​​; security; control

A potência dos pobres e os desafios do processo criativo


Monique Borba Cerqueira
Resumo: Pobres são reles, desprezíveis, exortados, idealizados, esconjurados,
segundo um universo moral que possui o ardil de uniformizar, operando enquadres,
nomeações e recriações permanentes da subalternidade. Este artigo descreve o
processo criativo ao longo da produção do livro Pobres, resistência e criação.
Trata-se de um relato pessoal sobre os bastidores da escrita, os conflitos, perigos
e delicadezas por trás da produção de um ensaio acadêmico. Baseando-se na
emergência de um novo sujeito ético-político, o estudo operou no campo das artes
– literatura e cinema – de onde foram destacados os três personagens analisados:
o vagabundo Carlitos, de Charles Chaplin, a mulata Gabriela, de Jorge Amado e
a nordestina Macabéa, da obra de Clarice Lispector. Os personagens revelam a
potência dos pobres, configurando formas de resistência e criação que circulam e
expressam novos modos de sentir, pensar e experimentar o mundo, numa perspectiva
afirmativa e criadora.
Palavras-chave: Processo criativo; pobres; resistência e criação
Avowed ramblings: the power of the poor and the challenges and the creative
process
Abstract: The poor are paltry, despicable, exhorted, idealized, exorcized,
according to a moral universe that has the ruse to standardize, operating framings,
309

appointments and permanent recreations of subalternity. This paper describes


the creative process throughout the production of the book, Poor, resistance and
creation. It is a personal account about behind the scenes of writing, the conflicts,
dangers and delicacies behind the production of an academic essay. Based on
the emergence of a new ethical-political subject, the study operated in the field
of arts – literature and cinema – from which three characters will be highlighted:
the vagabond Charlie Chaplin, the mulatto Gabriela, of Jorge Amado and the
northeasterner Macabéa, of the work by Clarice Lispector. The characters reveal
the power of the poor, configuring forms of resistance and creation that circle and
express new ways of feeling, thinking and experimenting the world, in an affirmative
and creative perspective.
Keywords: Creative process; poor ; resistance and creation
310

1 2/3

Notas de conjuntura Notas de conjuntura


As cidades visíveis do Rio As escatologias do segundo milênio
Karl Erik Schøllhammer e Micael Herschmann Javier Lifschitz
Evita (nos) Madonna As novas lutas sociais e a constituição do político
uma história do terceiro mundo Giuseppe Cocco
Sófia Tiscornia e Maria Victoria Pita Fala um policial
A co-produção da greve: Carlos Alberto Messeder Pereira
as greves de dezembro de 1995 na França
Corrupção
Giuseppe Cocco
A máfia e a dinâmica do capitalismo
Carlo Vercellone
a Cultura da produção x
Das propriedades ainda desconhecidas da cor-
a produção da cultura rupção universal
Linguagem e pós-fordismo René Scherer
Christian Marazzi Da corrupção, do despotismo e de algumas incer-
O hibridismo do império tezas: uma perspectiva cética
Michael Hardt Renato Lessa
Espaços, corpos e cotidiano: uma exploração te-
órica Ciberespaço
Byrt Wammack O manifesto do cyber
Ruínas modernistas Coletivo Cyber
Beatriz Jaguaribe Um pesadelo do qual nada poderá nos despertar/
Anders Michelsen
Ciberespaço Cibercidades
Notas sobre o conceito de cibernáutica André Parente
Franco Berardi (Bifo)
Corpo e sexualidade
Corpo e sexualidade Rituais de troca e práticas sexuais masculinas.
Procura-se um corpo desesperadamente Sexo impessoal
Nizia Villaça P. de Busscher, R. Mendès-Leite e B. Proth
Travesti: Eva num corpo de Adão... e eu fui expul- Discursos sobre o masculino: um panorama da
so do paraíso masculinidade nos comerciais de TV
Hugo Denizart Benedito Medrado
aids e comunicação: repensando campanhas e
estratégias Navegações
Antonio Fausto Neto Escravagismo pós-moderno
Yann Moulier Boutang
Os territórios da mundialização
Navegações
Thierry Baudouin
Nação em fluxo: Brasil e áfrica do sul
fernando Rosa Ribeiro
Mediações
Comunidade, etnicismo e externalidades urba-
Equilíbrio distante: fascínio pelo biográfico, des-
nas, handicap ou vantagem para o Brasil: da "lon- cuido da crítica
ga duração" aos problemas contemporâneos Anamaria Filizola e Elizabeth Rondelli.
Yann Moulier Boutang.
311

4 5/6

Notas de conjuntura Notas de conjuntura


As lutas dos desempregados na França 1998 - A eleição que não houve
Entrevista com Laurent Guilloteau Luis Felipe Miguel
Pós-fordismo verde e rosa O significado político das eleições
Pedro Cláudio Cunca Bocayuva Cunha Yves Lesbaupin
Drogas e cidadania Entre um pacote e outro: entre a constituição for-
Gilberta Acselrad mal e a constituição material
Giuseppe Cocco
novos regionalismos
Populações de Estado: novos espaços de massificação do
Nação e regionalização da economia consumo e de produção cultural
Mirtha Lischetti Televisão aberta e por assinatura
Nações, racismo e nova universalidade Elizabeth Rondelli
Toni Negri Funk: um circuito “marginal/alternativo”
Entre cooperação e hierarquia: sujeitos sociais e de produção e consumo cultural
conflitos no Nordeste italiano Micael Herschmann
Giuseppe Caccia Para uma definição do conceito de bio-política
Carta aos federalistas do Nordeste italiano Maurizio Lazzarato
Toni Negri Invasão de privacidade?
Velhos e novos regionalismos: o RS e o Brasil Maria Celeste Mira
Ruben George Oliven Viver na cidade da Bahia
O espaço e o tempo no discurso zapatista Antonio Albino Canelas Rubin
Manuela Feito
Novas paisagens urbanas e identidades sócio- Corpo e sexualidade
-culturais Escrito sobre um corpo: linguagem e violência na
Edson Farias cultura argentina
Juan Manuel Obarrio
Ciberespaço Cultura, Gênero e Conjugalidade: as
Zapatistas e a teia eletrônica da luta “transformações da intimidade” como desafio
Harry Cleaver Marlise Míriam de Matos Almeida

Corpo e sexualidade Navegações


A Aids na pornografia: entre ficção e realidade Entrevista com André Gorz: o fim do trabalho as-
Alain Giami salariado
Thomas Schaffroth e Charling Tao
Navegações
A quem interessa o fim do trabalho Mediações
Gláucia Angélica Campregher O evento modernista
Hayden White
Mediações Os grafites de Brassaï
Espetáculo e imagem na tautologia do capital Suzana M. Dobal
Giuseppe Cocco Motoboy: o carniceiro da fama
Henrique Antoun
312

7 8

Notas de conjuntura Notas de conjuntura


O novo Finanzkapital Universidade: crise também de crescimento
Christian Marazzi Ivo Barbieri
O cinema como folclore-mundo a vida sob o império
Ivana Bentes Michael Hardt

viagens, deslocamentos e fronteiras aceleração e novas intensidades


no mundo contemporâneo Crash: uma antropologia da velocidade ou
Dos pântanos ao paraíso: Hugh Gibson por que ocorrem acidentes ao longo
e a (re)descoberta do Rio de Janeiro da estrada de Damasco
Bianca Freire-Medeiros Jeffrey T. Schnapp
Fronteira, jornalismo e nação, ou de como Máquinas e estética
uma ponte separou duas margens Guillermo Giucci
Alejandro Grimson Do refúgio do tempo no tempo do instantâneo
“Campo” Mauricio Lissovsky
Antonio Negri e Michael Hardt
Onde começa o novo êxodo Ciberespaço
Giorgio Agamben Hipertexto, fechamento e o uso do conceito
Melancolias, viagens e aprendizados
de não-linearidade discursiva
Denilson Lopes
Marcos Palácios
Notícias sobre a história trágico-marítima
Maria Angélica Madeira
Corpo e sexualidade
O lugar habitável no mundo global
Do tabu ao totem: Bundas
José Luiz Aidar Prado
Nízia Villaça
Ciberespaço
Agentes na rede Navegações
Paulo Vaz Imaginários globais, medos locais:
a construção social do medo na cidade
Corpo e sexualidade Rossana Reguillo
Deleuze e a questão homossexual:
Uma via não platônica da verdade Mediações
René Schérer Adeus, AM/FM. o rádio nunca será o mesmo
Marcelo Kischinhevsky
Navegações A respeito da questão do espaço em the
A nação entre o esquecimento e a memória: emperor of the north pole
uma narrativa democrática da nação Jorge Luiz Mattar Villela
Hugo Achugar

Mediações
Sobre ratos e homens: a tentativa de
reconstrução da História em Maus
André Cardoso
313

9 / 10 11

Notas de conjuntura Notas de conjuntura


Política de segurança e cidadania Como bloqueamos a OMC
Pedro Cláudio Cunca Bocayuva Starhawk
MST: o julgamento das vítimas O paradigma das duas fronteiras do Brasil
Ignez Paulilo Abdul-Karim Mustapha
Biopirataria ou bioprivatização?
Richard Stallman Estratégias da memória
A mídia e o lugar da história
Trabalho e território Ana Paula Goulart Ribeiro
Globalização das economias, externalidades, Isso não é um filme? Ídolos do
mobilidade, transformação da economia e da in- Brasil contemporâneo
tervenção pública Micael Herschmann e Carlos Alberto Messeder Pereira
Yann Moulier Boutang Museu da Tecnologia jurássica
A cidade policêntrica e o trabalho da multidão Erick Felinto
Giuseppe Cocco Cidade de Deus: Memória e etnografia
O valor da informação: trabalho e apropriação em Paulo Lins
no capitalismo contemporâneo Paulo Jorge Ribeiro
Marcos Dantas
Ciberespaço
Ciberespaço Cooperação e produção imaterial em softwares
Matrix. o fim do panóptico livres.Elementos para uma leitura política
Katia Maciel do fenômeno GNU/Linux
As novas tecnologias e a democratização
Laurent Moineau e Aris Papathéodorou
da informação
Luis Felipe Miguel
Corpo e sexualidade
Navegar é preciso, viver é impreciso
Corpo e sexualidade
Ieda Tucherman
Somos todos travestis: o imaginário Camp
e a crise do individualismo
Navegações
Denilson Lopes
Caminhando para uma renovação da economia
Navegações política. Conceitos antigos e inovação teórica
Rio de janeiro, cidade cinematográfica. Antonella Corsani
A cidade como produção de sentido
Karl Erik Schøllhammer Mediações
José Oiticica filho e o avatar da fotografia brasileira
Mediações Antônio Fatorelli
Gattaca: sobre o governo totalitário O Joelho aprisionado: o “caso Ronaldo” como
das identidades construção das estratégias discursivas da mídia
Sérgio Oliveira Antônio Fausto Neto
A viável democratização do acesso
ao conhecimento
Waldimir Pirró e Longo
314

12 13 / 14

Notas de conjuntura Notas de conjuntura


Notas e impressões sobre as eleições Totalidades
norte-americanas Michael Hardt e Toni Negri
Américo Freire Minha luta no Império
Pós-modernismo.com e a geração ‘Y” Luca Casarini (entrevista)
Felipe Ehrengerb Diário de viagem da caravana pela dignidade in-
dígena
intensidades eróticas Marco Rigamo
O homossexual no texto
Christopher Lane Propriedade industrial
O sadomasoquismo em dois tempos e capitalismo cognitivo
Nízia Villaça Riqueza, propriedade, liberdade e renda
Prazeres desprezados: a pornografia, no capitalismo cognitivo
seus consumidores e seus detratores Yann Moulier Boutang
João Freire A música em rede: um magma contraditório
Revistas masculinas e pluralização da Alessandro Ludovico
masculinidade entre os anos 1960 e 1990 As Patentes e a saúde pública brasileira:
o caso da AIDS
Marko Monteiro
Carlos André Passarelli e Veriano Terto Jr.
O Brasil e a quebra de patentes de medicamentos
Ciberespaço
anti-AIDS
O samba em rede:
Eloan dos Santos Pinheiro (entrevista)
comunidades virtuais e carnaval carioca
Simone Pereira de Sá Ciberespaço
Cronologia da internet
Corpo e sexualidade Paulo Vaz
‘A Berlim imoral’ dos anos 30:
cinema homossexual pré-Hitler Corpo e sexualidade
Adriana Schryver Kurtz A preferência é mais para a mulata
Natasha Pravaz
Navegações Estudos gays: panorâmica e proposta
Itinerários recifenses Denilson Lopes
Angela Prysthon Cagar é uma licença poética
Tráfico:paisagens sexuais - Alguns comentários Steven Butterman
Anders Michelsen
Navegações
Mediações Que “negro” é esse na cultura popular negra?
Imaginário tecnológico em David Cronemberg Stuart Hall
Ivana Bentes
Tropicália, pop canônica Mediações
Liv Sovik Etienne-Jules Marey
Lars von Trier - Escapando do estético Suzana M. Dobal
Bodil Marie Thomsen Prozac, meios e máfia
Fernando Andacht
315

15 /16 17

Notas de conjuntura Notas de conjuntura


Bem-vindo ao deserto do Real! Porto Alegre 2002:
Slavoj Zizek o trabalho das multidões
A Argentina na indiferença Coletivo
Reinaldo Laddaga Ação contra a guerra global:
a caravana internacional na Palestina
A política da multidão Luca Casarini
Comunidades virtuais, ativismo e
o combate pela informação Resistências
Henrique Antoun Resistir a quê?
Sem o macacão branco Ou melhor, resistir o quê?
Luca Casarini (por Benedetto Vecchi) Tatiana Roque
O contra-império ataca Poder sobre a vida,
Antonio Negri (por Marcelo Matellanes) potência da vida
De Porto Alegre a Gênova, Peter Pál Pelbart
a cidade na globalização Universidade e cidadania:
Giuseppe Cocco o movimento dos cursos
Transformar a guerra globalista pré-vestibulares populares
em seção ativa da inteligência Alexandre do Nascimento
Franco Berardi (Bifo) Panelaços e ruídos:
a multidão em ação
Ciberespaço Graciela Hopstein
Capitalismo flexível e educação em rede O “quilombo” argentino
Alberto Rodrigues Gerardo Silva
História, comunicação e sociedade Emprego, crescimento e renda:
na era da informação história de conteúdo
Gustavo Said e forma de movimento
Antonella Corsani e Maurizio Lazzarato
Corpo e sexualidade
O policial, o massagista e o garoto de programa: Universidade Nômade
figuras emblemáticas de uma erótica gay? O copyright da miséria e
Carlos Alberto Messeder Pereira os discursos da exclusão
Ivana Bentes
Navegações
Rádios livres, rádios comunitárias,
Geopolítica do conhecimento e diferença colonial
outras formas de fazer rádio e política
Walter Mignolo
Mauro Sá Rego Costa e Wallace Hermann Jr
12 proposições:
Mediações
resistência, corpo, ação- estratégias e forças
Música da deriva, a MTV-Brasil
Luis Carlos Fridman na produção plástica atual
Afeto, autenticidade e socialidade: Ericson Pires
uma abordagem do rock como fenômeno cultural
Jeder Janotti Junior
316

18 19 / 20

Para uma Universidade Nômade Introdução


Modulações da resistência
Navegações
Sobre a política cultural dos Cacá Diegues A POTÊNCIA DA MULTIDÃO
Tatiana Roque Para uma definição ontológica da Multidão
Antonio Negri
Transição e Guerra Multidão e princípio de individuação
Sobre o ‘medo’ e a ‘esperanca’ Paolo Virno
em Baruch de Espinosa Poder constituinte em Maquiavel e Espinosa:
Gerardo Silva a perspectiva da imanência
Quem disse que o medo venceu a esperança? Francisco Guimaraens
Márcio Tavares d’Amaral O direito de resistência na teoria política
O ocaso da vítima. Para além da separação contemporânea
entre criação e resistência Thamy Pogrebinschi
Suely Rolnik Representações do poder,
Do silêncio zapatista à euforia petista: expressões de potência
fica algum lugar para nós? Barbara Szaniecki
Walter Omar Kohan
As políticas de ação afirmativa como O capitalismo e a produção de
instrumento de universalização dos direitos subjetividade
Alexandre do Nascimento Trabalho e produção de subjetividade
Por que este novo regime de guerra? Thiago Drummond
Philippe Zarifian A clínica como prática política
Guerra, informação e resistência Jô Gondar
Ricardo Sapia Pensando o contemporâneo no fio da navalha:
entrelaces entre capital e desejo
Universidade Nômade Claudia E. Abbês Baeta Neves
O Direito como potência constituinte: uma crítica Clínica, política e as modulações do capitalismo
à teoria do Direito Eduardo Passos e Regina Benevides
Thamy Pogrebinschi
Comunicação e diferença nas cidades Redes e Movimentos
Janice Caiafa Movimentos sociais, ações afirmativas e
As ilusões etno-genealógicas da nação universalização dos direitos
Lorenzo Macagno Alexandre do Nascimento
As migrações e o trabalho da resistência
Leonora Corsini
Piqueteros: dilemas e potencialidades
de um movimento que emergiu apesar do Estado
e à margem do mercado
Graciela Hopstein
317
318

25 / 26 Expressões do monstruoso precariado urbano:


forma M, multiformances, informe
Barbara Szaniecki
Artaud, momo ou monstro?
Ana Kiffer
O corpo e o devir-monstro
Carlos Augusto Peixoto Junior
Do experimental informe ao Quasi-cinema,
observações sobre “COSMOCOCA - programa in
progress”, de Hélio Oiticica
Inês de Araujo
Culturas múltiplas versus monocultura
Universidade Nômade Pedro de Niemeyer Cesarino
Os novos manifestos sobre as cotas
Alexandre do Nascimento Navegações
Vida no e contra o trabalho: afetos, crítica “Faxina” e “pilotagem”: dispositivos (de guerra)
feminista políticos no seio da administração prisional
e política pós-fordista Adalton José Marques
Kathi Weeks Lutas operárias em São Paulo e no ABC nos anos 70
Os direitos humanos no contexto da globalização: Jean Tible
três precisões conceituais Nas peles da cebola ou da “segunda natureza”
Joaquín Herrera Flores em excesso.A delicada luta pelo estado de exce-
Análise da Nova Constituição Política do Estado ção benjaminiano
Raúl Prada Alcoreza João C. Galvão Jr.
Resenhas
Consumismo e Globalização – faces e fases
Mídia e Cultura
de uma mesma moeda? [Por João Batista de Almei-
Mídia, Subjetividade e Poder: Construindo os
da Sobrinho]
Cidadãos-Consumidores do Novo Milênio
Um novo Imperialismo? [Por Marina Bueno]
João Freire Filho
Resistências criativas: os coletivos artísticos e
ativistas no Brasil
Henrique Mazetti
Guerra Civil Imaterial: Protótipos de Conflito
dentro do Capitalismo Cognitivo
Matteo Pasquinelli
Midialivristas, uni-vos!
27
Adriano Belisário, Gustavo Barreto, Leandro Uchoas,
Oona Castro e Ivana Bentes

Cidade e Metrópole
Cidade e Metrópole: a lição da barragem
Gerardo Silva
Potências do samba, clichês do samba –
linhas de fuga e capturas na cidade do Rio de
Janeiro
Rodrigo Guéron
Trabalho – operação artística: expulsões Universidade Nômade
Cristina Ribas Thomas Jefferson ou a transição da democracia
Cidades, cegueira e hospitalidade Michael Hardt
Márcia de N.S. Ferran Para meu Parceiro Vanderlei
Dispositivo metrópole. A multidão e a metrópole Marta Peres
Antonio Negri
Lutas, Governos e a Crise Global
A Cultura Monstruosa As categorias abertas da nova Constituição
A potência da hibridação – Édouard Glissant e a boliviana. Formação do Estado Plurinacional:
creolização alguns percursos intelectuais
Leonora Corsini Salvador Schavelzon
319

Governo islâmico e governamentalidade


Leon Farhi Neto 28
Sobre a crise: finanças
e direitos sociais (ou de propriedade!)
Maurizio Lazzarato

Governo Lula: Desafios para uma


Política do Comum
Pontos de MídiaBarbara Szaniecki
Gerardo Silva
Por um mundo democrático produzido Universidade Nômade
democraticamente (ou: o desafio da produção do Manifesto da Rede Universidade Nômade em apoio
comum): contribuições a partir da experiência do à luta dos trabalhadores pobres sem-teto da cidade
Sistema de Saúde Brasileiro do Rio de Janeiro
Francini Guizardi e Felipe Cavalcanti Antonio Negri no Fórum Livre do Direito Autoral
Conferência de Abertura
Direito à Cidade no Horizonte Pós-Fordista
Alexandre Fabiano Mendes Nada será como antes: dez teses sobre a crise
financeira Para uma reflexão sobre a situação socio-
Estabilidade de contratos na indústria de energia: econômica contemporânea
Uma visão sul-americana Andrea Fumagalli
André Garcez Ghirardi A revolução inconclusa dos direitos humanos: pres-
Refugiado, Cidadão Universal: uma análise supostos para uma nova concepção de cidadania
Alexandre Mendes
do direito à identidade pessoal
Patricia Magno As novas formas de lutas pós-mídias digitais
Ivana Bentes
O Programa Bolsa Família entre a assistência
A crise da política é a crise da representação e da
condicionada e o direito universal grande mídia
Pedro Barbosa Mendes Giuseppe Cocco
O kirchnerismo e as últimas eleições: uma leitura
Mídia e Cultura crítica
Web 2.0 e o Futuro da Sociedade Cibercultural Cesar Altamira
Henrique Antoun
Uma armadilha de Vertov UNIVERSIDADE
Tecendo a democracia – Reforma universitária,
Discussão coletiva proposta por Inês Araújo
governo e movimentos sociais
Pedro Barbosa Mendes
Navegações
Todo o poder à autoformação!
A clínica do corpo sem órgãos, entre laços
Coletivo edu-factory
e perspicácias. Em foco a disciplinarização
e a sociedade de controle Universidade Aberta
Paolo Do
Emerson Elias Merhy
Tráfico de Drogas: Biopoder e Movimento Estudantil e Universidade: apontamentos
Biopolítica na Guerra do Império a partir da experiência da UFPB
Felipe de Oliveira Lopes Cavalcanti e Paulo Navarro de
Maria Elisa da Silva Pimentel
Moraes
Bula
Cão Mulato/Canis mutatis Navegações
Viralata In Progress Educação na saúde, saúde coletiva e ciências
Edson Barrus políticas: uma análise da formação e desenvolvi-
mento para o Sistema Único de Saúde como política
Resenhas pública
BACHELARD, Gaston. A intuição do instante Ricardo Burg Ceccim, Fábio Pereira Bravin e Alexandre
André dos Santos
Por Wanessa Canellas
Poder Viver
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção Simone Sobral Sampaio
Por Antonio Negri
Tecnologias, hacks e liberdade
Gilvan Vilarim
320

As comunidades que vêm... Experiência e pensa- Interseções Raça/Gênero/Classe


mento em torno de uma utopia contemporânea – Apresentação
ONG CEASM/Maré O Devir-“Mulher Negra”: uma proposta ontológica e
Glaucia Dunley epistemológica
Vanessa Santos do Canto
Mídia e Cultura
Rádio: alguns aspectos estéticos dos estudos de Devir mulher do trabalho e precarização da
recepção existência. A centralidade dos componentes afetivos
Wanessa Canellas e relacionais na análise das transformações do
trabalho
Gordon Matta-Clark entre fotografias: fragmentos de Lucia del Moral Espin e Manu Fernández García
uma performance
Elena O´Neill A discriminação do negro em Cuba: causas e
consequências
A gente saía de manhã sem ter ideia Dimas Castellanos
Yann Beauvais
A ideologia da miscigenação e as relações
Colaboração, uso livre das redes e a evolução da interraciais no Brasil
arquitetura p2p Otávio Velho
Fabio Malini
Os riscos da comunidade capturada X a plataforma
A Prática da Vida (Midiática) Cotidiana
da “favelania”
Lev Manovich
Pedro Cláudio Cunca Bocayuva
Resenhas
Navegações
Entre os muros da escola
O desmoronamento da verdade social na Colômbia
Por Leonora Corsini
de Camilo Torres
Glob(Al): Biopoder e Luta em uma América Latina Alejandro Sánchez Lopera
Globalizada
Trabalho Vivo em Ato na Defesa da Vida Até na
Por Alexandre Mendes
Hora de Morrer
Magda de Souza Chagas e Emerson Elias Mehry
Poder constituinte e poder constituído: os
conceitos de Antonio Negri aplicados às alterações
constitucionais em Portugal e no Brasil
Maíra Tito
29 Legados/efeitos de Félix Guattari
Sylvio Gadelha

ARTE, Mídia e Cultura


Laroyê Exú! O “Trabalho” de Ronald Duarte
Barbara Szaniecki
Proximidades Metropolitanas
Cecília Cotrim
Imagem polida, imagem poluída: artifício e evidência
na linguagem visual contemporânea
Marcos Martins

Resenhas
Universidade Nômade
Segurança, Território, População (de Michel
Para introduzir “Otimismo da Razão”, de Perry
Foucault)
Anderson
Por Wanessa Canellas
Antonio Negri
A People’s History of the United States (de Howard
O triunfo do cérebro
Zinn)
Alberto De Nicola
Por Thaddeus Gregory Blanchette
• As condicionalidades do Programa Bolsa Família:
o avesso da cidadania
Marina Bueno
Seis de dezembro de 2009: o porquê do voto
cidadão
Oscar Vega Camacho
Porque Luiz Inácio desagrada a Caetano Veloso
Marta Peres
321

30 31-32

Universidade Nômade Universidade Nômade


Liberdade Operaísta (Homenagem a Romano Megaeventos, pontos de cultura e novos direitos
Alquati) (culturais) no Rio de Janeiro
Gigi Roggero Barbara Szaniecki e Gerardo Silva
Antecedentes políticos do operaísmo: os Quaderni Biopoder, Trabalho e Valor
Rossi Simone Sobral Sampaio
César Altamira
Comunismo
Mundo-Brasil: Governo/Política/ É possível ser comunista sem Marx?
Movimentos Antonio Negri
Lutas cosmopolíticas: Marx e América Indígena
(Yanomami) Os bens comuns: um setor negligenciado da criação
Jean Tible de riqueza
David Bollier
Manifesto Político Cosmopolita Antropofágico
Carlos Enrique Ruiz Ferreira Inquietações no impasse – Parte II
Coletivo Situaciones
Conversações no impasse: dilemas políticos do
presente, parte 1 Querela pela democracia: Sociedade em movimento
Colectivo Situaciones e processo constituinte
Oscar Vega Camacho
Figuras da subjetividade e da governabilidade na
América Latina Fuga como resistência: a pobreza criando
Enzo Del Bufalo excedentes
Fabrício Toledo de Souza
O caso Battisti e o caso dos refugiados congoleses:
a justiça em termos de luta
Arte, Mídia e Cultura
Fabrício Toledo de Souza
Revalorizar o plágio na criação
Os Cursos Pré-Vestibulares para Negros e as Leonardo F. Foletto e Marcelo de Franceschi
Políticas de Cotas nas Instituições de Ensino
Narrativas no Twitter: o fenômeno no Brasil e as
Superior no Brasil
suas implicações na produção da verdade
Alexandre do Nascimento
Fábio Malini
Vivendo no limbo?
O Chão nas Cidades – Performance e população
Projeto Turbulence
de rua
ARTE, Mídia e Cultura Andréa Maciel Garcia
Biopolítica e teatro contemporâneo Contraponto Brown Sugar
José da Costa André Gardel
Em torno do ‘vírus de grupo’. Seminário Guattari não Experimento carne: Um pouco sobre a “Estética da
cessa de proliferar fome” de Bertolt Brecht e a performance FatzerBraz
Ricardo Basbaum Alexander Karschnia
Transgredir as sigilosas siglas do não”: a linguagem Deleuze e o cinema político de Glauber Rocha:
como espaço de criação de saídas Violência revolucionária e violência nômade
Mariana Patrício Jean-Christophe Goddard
Navegações
Entre a representação e a revelação. Kevin Lynch e Navegações
a construção da imagem (do nomadismo) da cidade Acerca da moralidade do suicídio
Gerardo Silva Fermin Roland Schramm
Play-Ground X Work-Out – Devaneios nefelibáticos Saúde do trabalhador no governo Lula
sob o céu de Copacabana Mônica Simone Pereira Olivar
Marta Peres
Resenha
Resenha Commonwealth: Amor e Pós-capitalismo
MundoBraz. O Devir-Mundo do Brasil e o Devir- (de Antonio Negri e Michael Hardt)
Brasil do Mundo (de Giuseppe Cocco) Por Bruno Cava
Por Bruno Cava
322

33-34 35-36

Universidade Nômade Universidade Nômade


Manifesto Uninômade global: Revolução 2.0 O comum e a exploração 2.0
Universidade Nômade
Direitos Humanos/
Homenagem a Joaquín Herrera Flores Do amor pela rua: aprendendo com o outro nos
Apresentação cotidianos das cidades
Sarah Nery
Joaquín Herrera Flores e a dignidade da luta
Alexandre Mendes Devir-índio, devir-pobre
Bruno Cava
Joaquín Herrera Flores e os Direitos Humanos a
partir da Escola de Budapeste Na trama da sapucaia: geofilosofia e a floresta
André Luiz Machado hipertecnizada
Cleber Daniel Lambert da Silva
Trabalho e Regulação: o Direito Capitalista do
Trabalho e as crises econômicas Foucault e as tecnologias do comum
Wilson Ramos Filho Apresentação
Diálogos pertinentes: micropolítica do trabalho vivo Bio-economia e produção do comum: reflexões a
em ato e o trabalho imaterial: novas subjetivações partir do pensamento de Michel Foucault
e disputas por uma autopoiese anticapitalística no Alexandre Fabiano Mendes
mundo da saúde
Emerson Elias Merhy, Laura Camargo Macruz Entre determinismo e liberdade: a construção do
Feuerwerker, Paula Cerqueira e Tulio Batista Franco comum como novo universal
Judith Revel
A persistência da Escravidão ilegal no Brasil
Ricardo Resende Figueira Resistências, subjetividades, o comum
Judith Revel
Vestfalha – A constituição do Império e as aporias da
Paz Perpétua Tecnologias do comum: reflexões sobre o pós-
Gerardo Silva Leonora Corsini fordismo
Arianna Bove
A influência da esquerda e/ou do socialismo para
a afirmação dos Direitos Econômicos, Sociais e Ética e política na relação sujeito e verdade
Culturais e ideias para uma nova agenda, a avant- Simone Sobral Sampaio
garde, dos Direitos Humanos Potência do Ser: o cuidado de si, o político e o comum
Carlos Enrique Ruiz Ferreira e Giuliana Dias Vieira Ludmila Guimarães
Pistas para a produção de experiências comunitárias
ARTE, Mídia e Cultura Adriana Rodrigues Domingues
O animismo maquínico
Angela Melitopoulos e Maurizio Lazzarato
ARTE, Mídia e Cultura
Entrevistas – Agenciamentos Uma política cultural para as práticas criativas
Projeto de pesquisa visual de Angela Melitopoulos e Barbara Peccei Szaniecki
Maurizio Lazzarato
Metrópole, cultura e breves reflexões sobre os novos
Imaginação e Representação: Whose Utopia? museus cariocas
André Keiji Kunigami Vladimir Sibylla Pires
Para colocar de vez a comunicação imidiatica Indignados globais por uma cultura política digital
Cleber Daniel Lambert da Silva Aline Carvalho
A galinha dos ovos virtuais O rock dos anos 60 e as utopias privatizadas da
Mariano Canal e Patricio Erb contemporaneidade
Luis Carlos Fridman
Navegações
O nascimento da filosofia: uma peça em três atos Navegações
Rodrigo Siqueira-Batista O lugar do animal laborans e as transformações no
mundo do trabalho
ResenhaS Mariangela Nascimento
Estética da multidão (de Bárbara Szaniecki)
Por Bruno Cava
Vida Capital: Ensaios de Biopolítica (de Peter Pál Pelbart)
Por Thais Mazzeo
323

ResenhaS Navegações
Il risveglio della storia: Filosofia delle nuove rivolte Falsificar a moeda!
mondiali (de Alain Badiou) Michael Hardt
Por Gigi Roggero A destruição da universidade. Considerações sobre
Febre do rato (de Claudio Assis) a universidade que vem (esboços)
Por Bruno Cava Carlos Enrique Restrepo
Violeta foi para o céu (de Andrés Wood) Racificar a história e outros temores…
Por Hugo Albuquerque María Iñigo Clavo

ResenhaS
O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia

37-38 (de Gilles Deleuze e Félix Guattari)


Por Bruno Cava
Uma democracia a procura de radicalidade
(de Étienne Balibar)
Por Sandro Mezzadra

Universidade Nômade
A copesquisa nas lutas da cidade

39
Alexandre F. Mendes
A copesquisa militante no autonomismo operaísta
Bruno Cava
A ascensão selvagem da classe sem nome
Hugo Albuquerque
As duas faces do Apocalipse: uma carta de
Copenhague
Michael Hardt

Dossiê 40 anos do Anti-Édipo Universidade Nômade


Dois desejos, dois capitalismos Capitalismo maquínico e mais-valia de rede: Notas
Carlos Augusto Peixoto Junior e Pedro Sobrino Laureano sobre a economia política da máquina de Turing
Tratado de nomadologia: desejo e revolução Matteo Pasquinelli
Vladimir Lacerda Santafé ReFavela (notas sobre a definição de favela)
Memória-máquina Gerardo Silva
Murilo Duarte Costa Corrêa A fronteira como método e como “lugar” de lutas
Rachar as imagens, contraefetuar o acontecimento, segundo Sandro Mezzadra
conceituar a comunidade: a experiência comunitária Pedro Cláudio Cunca Bocayuva
em registros fotográficos de Maio de 68 Entrevista com Antonio Negri em viagem à América
Eduardo Yuji Yamamoto do Sul
Os Quarenta Anos do Anti-Édipo, Política, Desejo e Occupy: a democracia real como construção da
(sub) Deleuze-Guattarianismo indignação
Hugo Albuquerque Bruno Cava
Potências do político em Deleuze e Guattari:
a megamáquina política Dossiê Copesquisa
Aldo Ambrózio e Davis Moreira Alvim Apresentação
Filosofia Política de Deleuze e Guattari: as relações Breves notas sobre o método. Produção de saber
com Marx e copesquisa
Rodrigo Guéron Gigi Roggero
Para fazer copesquisa: os lugares da luta de classe
ARTE, Mídia e Cultura Coletivo Universidade Nômade (Itália)
Por um design desejante: e(ntr)e o virtuo-design
Pesquisa-Cartografia e a Produção Desejante do
e o act-design
Espaço Urbano
M. Lucília Borges
Simone Parrela Tostes
Pelas “gagueiras” da língua: a oficina poética de
Homofobia e cartografia: marcas do medo na
Vladimir Maiakóvski
Avenida Paulista
Pedro Guilherme M. Freire
Luan Carpes Barros Cassal
324

O pesquisador in-mundo e o processo de produção A produção do atraso e do isolamento do


de outras formas de investigação em saúde campesinato: juventude no campesinato brasileiro
Ana Lúcia Abrahão, Emerson Elias Merhy, Maria Paula Beatriz Maria de Figueiredo Ribeiro
Cerqueira Gomes, Claudia Tallemberg, Magda de Sousa As imagens da Multidão
Chagas, Monica Rocha, Nereida Lucia Palko dos Santos, Vladimir Lacerda Santafé
Erminia Silva e Leila Vianna
O “estado de exceção” e a internação compulsória
Por uma cidade menor: hegemonia e resistência Ricardo Gomes
na cidade do Rio de Janeiro
Erick Araujo de Assumpção e Túlio Batista Franco Gestão escolar, democracia, Maria o semiárido e nós
André Antunes Martins
Uma proposta de pesquisa-ação aplicada em uma
aldeia Mbyá-Guarani APTO, 01 qto, sl, coz, bnh, s/gar. Revisitando o
Franklin da Silva Alonso Edifício Master: devires e alegrias num campo
controlado
Arte, Mídia e Cultura Frederico Canuto
To be or not to be a white limousine? Arte, instituição “Novo desenvolvimentismo”: as Unidades de Polícia
e subjetividade: fricções na cidade Pacificadora (UPPs) e a “integração” dos
Barbara Szaniecki pobres urbanos na metrópole carioca
Verdade, ideologia e violência nas primeiras Eduardo de Oliveira Rodrigues
fotografias do povo em Portugal Um novo paradigma constitucional: o árduo caminho
Frederico Ágoas da descolonização
Melissa Mendes de Novais
Navegações
Criando o Comum e Fraturando o Capitalismo: uma Ocupação Mauá e poder de fabulação: considerações
troca de cartas entre Michael Hardt e John Holloway a partir de uma atividade de formação
(Parte I) Stella Zagatto Paterniani
Por uma Escola Plural Pobreza e tecnologia social: o que isto tem a ver?
Alexandre do Nascimento Rosa Maria Castilhos Fernandes e Aline Accorssi
As forças demoníacas das pulsões no pensamento Da biopolítica à noopolítica: contribuições de
freudiano e suas marcas na filosofia da diferença Deleuze
João C. Galvão Jr. Domenico Uhng Hur
A pobreza e a dimensão ética da militância
Resenhas Ricardo Luiz Sapia de Campos
Estratégias de articulación urbana: proyecto y
gestión de asentamientos periféricos en América Arte e Mídia
latina; un enfoque transdisciplinario
(de Jorge Mario Jáuregui) Espectro Livre: o Direito do Povo à Comunicação
Por Pedro Cláudio Cunca Bocayuva Thiago Novaes
Bibliotecas em Rede, DIY: pirataria de e-books no
ensino superior brasileiro
Gabriel Menotti
A Co-produção Televisiva: o envolvimento
dos públicos e dos não-humanos no processo
40 comunicacional mediado pela TV
José Pedro Arruda

Resenhas
Os batalhadores brasileiros: nova classe média
ou nova classe trabalhadora?
(de Jessé Souza)
Por Bruno Cava
Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto
Universidade Nômade conservador
(de André Singer)
O PT se reduziu a um partido da ordem e pela Por Bruno Cava
ordem?

Dossiê: A Potência dos Pobres


Apresentação
Lulismo e o fazer-se de uma nova classe
Jean Tible
Nova classe média ou nova composição de classe?
Giuseppe Cocco
325

41

Universidade Nômade ARTE, Mídia e Cultura


Nem Xenios, nem São Francisco de Assis. O milagre O modo artístico de revolução: da gentrificação à
pertence aos pobres. ocupação
Fabrício Toledo de Souza Martha Rosler
Ubuntu, o comum e as ações afirmativas Economia e subjetividade: O
Alexandre do Nascimento aceleracionismo do ponto de
Cidades insurgentes vista do marxismo
Ricardo Gomes Apresentação
A favor de Althusser. Notas sobre a evolução do Bruno Cava
pensamento do último Althusser Manifesto Acelerar: por uma política aceleracionista
Antonio Negri Alex Williams e Nick Srnicek
A persistência da Escravidão ilegal no Brasil Sobre o aceleracionismo
Ricardo Resende Figueira Steven Shaviro
Biopolíticas espaciais gentrificadoras e O antiprometeísmo entre neoliberais e catastrofistas
as resistências estéticas biopotentes Alberto Toscano
Natacha Rena, Paula Berquó e Fernanda Chagas Uma crítica hacker ao manifesto aceleracionista
McKenzie Wark
Dossiê Devir Menor (org.: Susana Caló)
Devir menor, espaço, território e emancipação Resenha
social. Perspectivas a partir da Ibero-América. Vinte centavos: a luta contra o aumento. (de Elena
Susana Caló Judensnaider, Luciana Piazzon e Pablo Ortellado)
Por Bruno Cava
Devir Autónomo e Imprevisto: Por novos espaços de
liberdade.
Susana Caló
O sul também (não) existe. A arquitetura ficcional da
América Latina
Eduardo Pellejero
O Devir-Mundo das Práticas Menores
Anne Querrien
Dionora. Para uma Arquitetura Menor
Patricio del Real
Arquitetura, Feitiço e Território. Matéria e impulso de
libertação na obra baiana de Lina Bo Bardi
Godofredo Pereira
Abertura Trilogia da Terra
Paulo Tavares
A Cidade Multiforme: O caso do Indoamericano
Atelier Hacer-Ciudad e Colectivo Situaciones
Algumas Considerações acerca da Prática do
Mapeamento Coletivo
Iconoclasistas
Navegações
O desejo do motorista de ônibus: esquizofrenia e
paranoia situadas
Jésio Zamboni e Maria Elizabeth Barros de Barros
Proliferar oásis: por uma história politizada do desejo
e da contingência
Pedro Demenech
Sobre as manifestações de junho e suas máscaras
Javier Alejandro Lifschitz
326
327

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