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As citações bíblicas são da Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida, 2ª Edição,
salvo quando indicado pelas abreviações: lit. - tradução literal do original grego ou hebraico IBB -
Rev. - Imprensa Bíblica Brasileira, versão Revisada VRC - Versão Revista e Corrigida de Almeida
BJ - Bíblia de Jerusalém
PREFÁCIO

Este livro compõe-se de mensagens proferidas por Dong Yu Lan, em


março de 1994, na cidade de Cuiabá, MT.
Capítulo Um

A ORAÇÃO QUE MUDOU A HISTÓRIA DE ISRAEL

“Então, orou Ana, e disse: O meu coração se regozija no


Senhor,a minha força está exaltada no Senhor” (1 Sm 2:1a).

A Palavra de Deus é permeada de mistérios, e para obter sua revelação


precisamos lê-la com muita oração. Todavia, a maioria dos leitores da
Bíblia a lê superficialmente, e o resultado é que poucos conseguem ver algo
além da Palavra escrita. Portanto, ao ler a Palavra de Deus ou estudá-la,
devemos pedir a Deus que nos conceda espírito de sabedoria e de revelação
(Ef 1:16-17), para que Ele nos revele Seus mistérios.
É desejo de Deus alimentar Seu povo por meio de Sua Palavra revelada;
por isso toda revelação concedida por Deus é alimento espiritual para nós.
No Antigo Testamento Deus usou o maná para prefigurar Cristo, o
verdadeiro alimento que veio do céu para alimentar Seu povo (Jo 6:31-35).
Primeiramente, o maná foi dado por Deus aos filhos de Israel de maneira
visível, nos quarenta anos que peregrinaram no deserto; este suprimento foi
visto por todo o povo. Mas há outro aspecto do maná que pode ser visto
apenas por algumas pessoas: o maná escondido (Ap 2:17), assim chamado
porque consistia em uma pequena porção colocada numa urna de ouro que
ficava dentro da arca da aliança, que, por sua vez, era colocada dentro do
Santo dos Santos. Quem quisesse ver este maná escondido teria de
atravessar o véu, entrar no Santo dos Santos, remover a tampa da arca da
aliança e abrir a urna de ouro que se encontrava no interior da arca.
Se no Antigo Testamento havia dois aspectos do maná, um visível e outro
escondido, assim também hoje; alguns ao ler a Bíblia, apenas tocam o
“maná visível”, isto é, a Palavra escrita, enquanto outros conseguem tocar o
“maná escondido”. Embora ambos os aspectos representem o suprimento de
Deus, o último indica a graça de provar uma porção especial que está oculta
atrás de cada palavra da Bíblia. Devemos todos buscar penetrar na
revelação da Palavra de Deus, porque isso certamente irá mudar nossa vida.
Agora vamos ver algo a respeito do Primeiro Livro de Samuel. Que está
escondido nas palavras desse livro? Qual é a revelação que Deus nos quer
dar? Qual é a chave que abre esse livro, permitindo assim que entremos em
suas revelações?
O tema principal é, sem dúvida, a história de Samuel. Portanto, no início
vemos como Samuel veio a existir. No capítulo 1 lemos a história dos pais
de Samuel. Sua mãe, Ana, passou por várias tribulações e aflições por ser
estéril. Seu sofrimento constrangeu-a a orar a Deus, e por causa de sua
oração Samuel foi gerado. Depois, ao orar novamente, ela mencionou que
Deus daria força ao Seu rei e exaltaria o poder do Seu ungido. Quando Ana
orou pela primeira vez, não havia possibilidade, humanamente falando, de
sua oração ser respondida, pois ela era estéril. Ao orar pela segunda vez,
nem ao menos se imaginava que haveria um rei em Israel. Vemos que, por
meio da oração de uma mulher quebrantada, Deus não apenas mudou a sua
história, como também mudou a história de Israel. Suas orações, portanto,
são as chaves que abrem todo o livro de Samuel. Muitos princípios
espirituais estão ocultos nessas duas orações de Ana registradas nos dois
primeiros capítulos desse livro, os quais têm muito a nos revelar sobre a
vontade de Deus.

A ANGÚSTIA DE ANA
Ana era esposa de Elcana, um levita que morava nas regiões montanhosas
de Efraim. Ela não podia gerar filhos, pois Deus a deixara estéril. Então
Elcana tomou por esposa outra mulher, cujo nome era Penina (1 Sm 1:1-2).
Cremos que ele tenha feito isto não porque lhe faltasse amor por Ana, sua
primeira esposa; pelo contrário, Elcana a amava muito, ainda que ela não
lhe pudesse dar filhos. Foi-lhe necessário tomar outra esposa porque, entre
o povo de Israel, ter uma descendência era crucial para manter e guardar a
herança que cada família de cada tribo havia recebido ao chegar à terra de
Canaã. Não havendo filhos, perdia-se a herança.
Os levitas faziam parte da tribo que dentre as doze tribos de Israel fora
especialmente escolhida por Deus para servi-Lo. E Deus havia ordenado
aos filhos de Israel que dessem cidades aos levitas, em que habitassem (Nm
35:2). Elcana e família moravam nas regiões montanhosas de Efraim, e de
ano em ano subiam a Silo a fim de adorar e oferecer sacrifícios a Deus. Por
um lado ofereciam sacrifícios, e, por outro, desfrutavam de tudo aquilo que
Deus lhes havia preparado.
Penina, provavelmente se orgulhava pelo fato de ter gerado filhos para
Elcana, e talvez provocasse Ana dizendo: “Eu posso gerar filhos para meu
marido, mas você não”. Por outro lado, é possível que Penina se sentisse
enciumada ao ver a maneira como Elcana tratava Ana. Todas as vezes que
iam a Silo, do sacrifício que ali oferecia, Elcana lhe dava porção simples ao
passo que para Ana dava porção dupla, pois a amava (1 Sm 1:5).
Inconformada com isso, Penina a provocava excessivamente para irritá-la
(v. 6).
Essa situação afligia o coração de Ana, que chorava e não comia. Ana se
encontrava numa situação difícil, pois embora seu marido a amasse, Deus
lhe havia cerrado a madre, e sua rival a desprezava ao máximo. Elcana, por
sua vez, tentava consolá-la, dizendo: “Não te sou eu melhor do que dez
filhos?”. Mas Ana ainda continuava triste; não comia e só pranteava (v. 7).
Vários versículos mostram a angústia que Ana sentia: sua alma estava
amargurada (v. 10); em seu espírito, ela estava atribulada (v. 15); por isso se
encontrava excessivamente ansiosa e aflita (v. 16). Seu sofrimento atingiu
um ponto de tal maneira insuportável que ela não teve outra saída a não ser
ir à presença de Deus. Por causa de toda essa situação dolorosa, Ana orou.
ANA ORA
Por causa dos próprios problemas
“Levantou-se Ana e, com amargura de alma, orou ao S , e chorou
abundantemente. E fez um voto, dizendo: S dos Exércitos, se
benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e
da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao S o
darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará
navalha” (1 Sm 1:10-11). Podemos separar a oração de Ana em três partes.
A primeira mostra sua aflição e amargura, que resultaram numa oração não
tão “espiritual”. Seu desejo era ter um filho, pois sendo estéril sentia-se
aflita e amargurada; e se tivesse um filho não mais sofreria o desprezo e a
provocação de Penina, sua rival. Portanto sua oração no princípio procurava
resolver um problema pessoal. Não sabendo como resolver esse problema
nem como ser libertada de sua aflição e angústia, Ana orou.
Apesar de estar orando por sua situação pessoal, a oração de Ana abriu
caminho para que Deus agisse. Ana não se preocupou em saber se sua
oração estava certa ou errada, mas simplesmente orou. Isso mostra que
muitas vezes temos certos conceitos, principalmente quanto ao que é uma
“oração espiritual”.
Certa vez fui a uma reunião onde os irmãos ficaram invocando o nome do
Senhor uma, duas, três... vinte vezes e nenhuma outra palavra foi dita.
Então eu lhes disse: “Irmãos, invocar o nome do Senhor é muito bom, pois
ao invocá-Lo entramos no espírito (1 Co 12:3); porém, se depois de
invocarmos várias vezes, nenhuma outra palavra for proferida, deixamos de
desfrutar aquilo que o Senhor nos quer dar naquela reunião. É como quando
vamos a um restaurante: primeiro desfrutamos o prato de entrada, e em
seguida, os pratos principais. Se quando nos reunimos apenas invocamos o
nome do Senhor, é como ir ao restaurante e ficar comendo o prato de
entrada uma, duas, três vezes... e não se importar com os pratos principais.
Não fiquemos pensando sobre o que orar, tampouco fiquemos ensaiando
como orar, mas oremos. Vejam o exemplo de Ana: sua oração no início foi
bastante simples: ‘Senhor, olha para a aflição da Tua serva, lembra-Te de
mim’. Foi assim que Ana começou sua oração”.

Por causa da herança


À medida que Ana orava, sua oração também avançava um pouco mais:
“Senhor, dá-me um filho varão”. Para que um filho? Para que aquela
família pudesse conservar sua herança entre os filhos de Israel. Na primeira
parte de sua oração, Ana apenas queria resolver o problema da sua
vergonha, da aflição, do menosprezo que recebia da rival, da situação
humilhante em que se encontrava. Agora percebemos que a oração
progrediu, pois, ao pedir um filho, ela se preocupou em manter a herança da
família.
Os israelitas davam muita importância à herança. Ela incluía a porção de
terra que cada família recebera ao entrar em Canaã, que lhes seria por
direito por toda a vida. Deus providenciou que cada família tivesse como se
sustentar com o que a terra produziria. Mas se, por negligência, um membro
da família nada produzisse na terra que lhe fora dada por herança, pouco a
pouco ela empobreceria. Assim, diante da crua realidade da pobreza, não
tendo mais como se manter, ele vendia sua porção de terra da herança.
Porém, depois de determinado tempo, ele poderia reaver sua propriedade.
Entre o povo de Israel, a cada sete anos, qualquer pessoa que tivesse
vendido sua herança poderia reavê-la, pagando o valor necessário. Passados
outros sete anos, a oportunidade novamente lhe era concedida, e assim por
diante. Na pior das hipóteses, não tendo como comprar de volta, após sete
vezes um período de sete anos, no quinquagésimo ano, sua herança lhe seria
devolvida. Por isso, aquele ano era chamado de ano do jubileu porque
depois de cinquenta anos, a dívida era completamente perdoada e a herança
que fora vendida era devolvida. Certamente era um ano de muita alegria!
Por isso, no Antigo Testamento o povo de Israel dava muito valor à
herança. Somente no caso de uma família não ter descendentes é que não
haveria possibilidades de manter nem de reaver a herança, caso tivessem
vendido a porção da terra. Por esta razão o matrimônio tinha também como
objetivo gerar filhos, o que lhes garantiria uma descendência, a fim de que o
nome da família não fosse extinto entre os filhos de Israel e sua herança
fosse preservada. E, em sua oração, Ana também se importou com isto.

Cristo é nossa herança


A terra de Canaã, que foi distribuída entre as doze tribos, representa
Cristo como nossa herança. No momento da nossa salvação cada um de nós
recebeu Cristo (Cl 1:12), que é nossa porção da herança que foi distribuída
entre os santos. O Evangelho de João nos diz várias vezes que quem crê em
Jesus tem a vida eterna. Também em 1 João lemos que “aquele que tem o
Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida”
(5:12). Quem é o Filho de Deus? Cristo. Se temos a vida de Deus temos
Cristo. Todos nós que nascemos da vida de Deus ganhamos Cristo como
vida em nós. Assim como entre o povo de Israel uma vez que alguém
nascesse de determinada tribo passava a ter parte na herança daquela tribo,
também nós, ao nascermos de Deus, temos parte na nossa herança, Cristo.
Ao receber Cristo, todos nós recebemos uma porção igualmente preciosa.
Assim, de modo semelhante precisamos cultivar o Cristo que há em nós
para que algo seja produzido. Se nos tornaremos ricos de Cristo depende de
quanto estamos cultivando a herança que recebemos. Sempre devemos
perguntar-nos: “Que tem sido produzido do Cristo que há em mim?”.
Graças ao Senhor, muitos irmãos e irmãs, depois que foram salvos, têm
uma busca incessante de Cristo. E a consequência disso é que neles Cristo
cresce mais. Esse crescimento é manifestado às pessoas, levando-as a
indagar: “Que há de diferente neles?”. A diferença é Cristo!
Certa vez um irmão contou-me que ao viajar para Cuiabá, houve um
problema com o pneu do seu carro. Como já era noite, ele e os outros que
com ele estavam, após colocarem o estepe, decidiram parar na cidade mais
próxima para arrumar o pneu danificado. Eles foram orientados pelo Senhor
a não seguir viagem sem primeiro arrumar o pneu, e prudentemente agiram
assim. Entraram na primeira cidade que encontraram e não achando
nenhuma borracharia aberta, procuraram um lugar para passar ali a noite.
Então, ainda sem saber onde iriam pernoitar, foram a uma lanchonete. Lá
conheceram uma pessoa que quis ajudá-los. Depois descobriram que aquela
pessoa também era um irmão em Cristo; enquanto estavam na lanchonete,
aquele irmão havia percebido que eles eram cristãos, e por isso procurou
ajudá-los, providenciando-lhes um lugar para dormir. Como ele percebeu
que eram cristãos, se nem os conhecia? Porque, mesmo sem saber, eles
estavam expressando Cristo.
E quanto a nós? Quando as pessoas nos observam, que elas veem? Será
que expressamos Cristo ou os demônios? Será que percebem que somos
cristãos ou será que nos consideram comuns e mundanos? Assim como o
povo de Israel cultivava a terra que receberam como herança, também
precisamos cultivar o Cristo que está em nós. Algo precisa ser produzido
em nós. De acordo com o Evangelho de Mateus 13, podemos ser uma boa
terra ou uma terra ruim, cheia de pedras ou de espinhos, ou ainda uma terra
endurecida. Neste trecho, Cristo se compara à semente que é semeada na
terra. Cristo foi semeado em nós; qual tem sido o resultado? Se não
cultivarmos bem o Cristo que está em nós e não tratarmos com as coisas
negativas que impedem o crescimento Dele em nós, tornar-nos-emos pobres
de Cristo. Não teremos nada que nos sustente nem o que oferecer aos
outros. Em tal situação enfraquecemos e somos levados a vender nossa
herança: deixamos de nos reunir, não lemos mais a Bíblia nem oramos. Não
são poucos os que se encontram assim! E quando outros ficam sabendo que
eles são cristãos, podem pensar: “Se isto é ser cristão, eu não quero crer em
Jesus”. Podemos evitar que isso aconteça conosco, tão somente cultivando a
vida de Cristo que está em nós. Que todos nós, a quem foi dada tão rica
herança, sejamos como a boa terra que produz a trinta, a sessenta e a cem
por um, para glória de Deus!
Por causa da necessidade de Deus
Em sua oração, Ana buscava, a princípio, uma solução para sua
necessidade particular: livrar-se da vergonha de não ter filhos. Logo a
seguir percebemos que sua preocupação era ter um filho para que pudesse
conservar a herança. Então, Ana avançou um pouco mais, e orou a Deus
que, uma vez nascido seu filho, ele seria consagrado a Deus; e não se
passaria navalha em sua cabeça. Na terceira parte de sua oração Ana fez um
voto: “Se me deres um filho varão, ao S o darei por todos os dias da
sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha” (1 Sm 1:11). Por meio
deste voto, a necessidade de Deus foi atendida.
Que conteúdo profundo há nessa pequena oração proferida por uma
mulher desesperada! A partir de uma necessidade pessoal, Ana avançou
para a necessidade de sua família, e, por fim, conseguiu alcançar a
necessidade de Deus. Vemos que a oração de Ana foi se desenvolvendo até
encontrar a vontade de Deus. Cremos que Ana orou assim, não porque
planejara, mas porque sua oração abriu caminho até Deus. Ele a ouviu, ela
concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho. Ana ficou com ele e o
criou, até que o desmamou. Para cumprir seu voto, apresentou o menino à
casa de Deus e o entregou ao sacerdote Eli, como devolvido a Deus. Depois
de cumprir o voto, Ana adorou a Deus e fez uma segunda oração.

A SEGUNDA ORAÇÃO DE ANA


Sua resposta ao voto cumprido
Em 1 Samuel 2 está registrada a segunda oração de Ana. Porém, dessa
vez sua oração foi diferente da que fizera no capítulo um. Sua primeira
oração foi uma petição. Ela primeiramente pediu algo para si; depois por
sua família; e por fim sua petição estava relacionada à necessidade de Deus.
Em sua segunda oração, Ana não pediu mais nada, apenas adorou a Deus.
Ela estava cheia de gratidão e ações de graça. Ao lermos sua segunda
oração, percebemos que ela não conseguiria orar dessa maneira por si só.
Mesmo tendo mencionado suas experiências, essa segunda oração continha
tudo o que Deus desejava: ela mencionou o que há de mais importante no
Primeiro Livro de Samuel. Portanto, na segunda oração vemos a vontade e
o plano de Deus. Em outras palavras, Ana orou sobre o propósito eterno de
Deus.
Em 1 Samuel 2:1 está escrito: “Então orou Ana, e disse: O meu coração
se regozija no S ”. Esse é um ponto importante a ser considerado. A
questão é: Em que nosso coração se alegra? Será que é em assistir televisão
ou em ter um carro novo? Alguns jovens alegram o coração jogando
futebol, outros tocando instrumentos e outros ouvindo música. Qual é a sua
situação? Algumas mulheres alegram o coração com cosméticos, com o tipo
de penteado ou com roupas. Quando alguém faz um elogio: “Como você
está bonita!” então o coração delas se alegra... No mundo, as pessoas se
alegram no quanto possuem ou na posição que têm, em sua capacidade ou
na aparência exterior. Agem assim porque não percebem que as coisas
materiais são passageiras e não possuem valor permanente. Somos gratos a
Deus por Ele nos ter aberto os olhos quanto a estas coisas. Antes também
nós as valorizávamos, mas hoje nosso coração se alegra no Senhor!
Somente em Cristo temos alegria eterna!
Então, em sua oração Ana disse: “O meu coração se regozija no
S ”. Qual mulher estéril não se alegraria por ter tido um filho? Mas
Ana não disse que estava alegre porque tivera um filho. Tampouco disse
que estava alegre porque não iria mais sofrer o escárnio ou o menosprezo da
rival. Também não o era por causa da herança. Certamente havia alegria em
seu coração pelo que acontecera, mas em sua oração, ela disse: “O meu
coração se regozija no S ”, confessando que Ele era sua alegria.
Talvez em seu lugar, ao receber a resposta à oração que fizemos,
sairíamos pulando, dizendo: “Tive um filho... tive um filho... estou tão
contente!”. Então contaríamos a todos acerca do filho que nascera. Mas o
coração de Ana estava alegre e exultante em Deus. O que precisamos ver
aqui não é a questão de ter filhos ou não. A questão é: em que está a nossa
alegria? Não é uma questão de ter bens, posição ou dinheiro: “Estou alegre
porque comprei um carro importado” ou “Consegui quitar um apartamento
em um bairro nobre” ou ainda “Meu filho se formou na faculdade”. A
alegria de Ana estava em Deus. Se não fosse Deus, não haveria filho,
porém, mesmo tendo um filho, se não houvesse Deus não haveria alegria.
Semelhantemente, você pode ter carro importado, apartamento quitado ou
um filho recém-formado, porém sua alegria não deve estar nessas coisas.
Sua alegria deve estar em Deus. Tenha certeza de que se sua alegria não
estiver em Deus, em pouco tempo todas essas coisas já não mais lhe serão
motivo de alegria. É melhor ser como Ana: “O meu coração se regozija no
S ”.
Então Ana disse: “A minha força está exaltada no S ”. Em outras
palavras: “Se o Senhor não me exaltasse, eu não teria força”. A nossa força
vem do Senhor! Se o Senhor não nos exaltar, somos muito fracos. Embora o
nosso homem exterior esteja se corrompendo, contudo o homem interior
está se renovando dia a dia (2 Co 4:16). Se temos alguma força ou se esta
força é manifestada, isto é proveniente do Senhor. Somente o Senhor pode
exaltar e manifestar Sua força em nós. Ana também disse: “A minha boca
se ri dos meus inimigos, porquanto me alegro na tua salvação” (1 Sm 2:1c).
Por meio da salvação de Deus, Ana obteve alegria e seus inimigos foram
envergonhados.
No Novo Testamento há uma oração similar em Lucas 1. Maria, mãe do
Senhor Jesus, fez esta oração quando estava grávida: “A minha alma
engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador”
(vs. 46-47). Maria se alegrava em Deus e, assim como Ana, em sua
humildade foi contemplada e exaltada por Ele (v. 49). Outra semelhança
podemos ver na expressão de Maria: “Encheu de bens os famintos e
despediu vazios os ricos” (v. 53; cf. 1 Sm 2:5).

Quem se exaltar será humilhado


Não é de admirar que a oração de Ana se tenha tornado uma fonte de
inspiração para outros servos de Deus. Em 1 Samuel 2:2 lemos: “Não há
santo como o S ; porque não há outro além de ti; e Rocha não há,
nenhuma, como o nosso Deus”. Sua oração estava cheia de louvor e de
exaltação a Deus. Ana não estava orando suas próprias palavras, mas o
Espírito Santo estava orando por meio dela.
Há outro ponto muito importante no versículo 3: “Não multipliqueis
palavras de orgulho, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca”. Nada que
proceda do orgulho permanece diante de Deus. Quando alguém diz: “Eu
sou melhor que os outros” ou “Todos vocês estão errados, mas eu estou
certo”, isso nada mais é que o orgulho sendo expresso. Que é o orgulho? É
um grande pecado, pois o próprio Satanás é a fonte do orgulho. Isaías 14 e
Ezequiel 28 revelam que, como um anjo cheio de glória, Satanás quis
tornar-se igual a Deus. Por que ele quis estar acima de tudo? Porque se
orgulhou.
Quando um homem se orgulha ou quando fala palavras arrogantes, ele
está agindo segundo o princípio de Satanás. Nabucodonosor, rei de
Babilônia, foi um exemplo disso. Deus o levantara e lhe dera vitórias com o
fim de usar Babilônia para disciplinar Israel. No início ele era humilde,
reconhecendo que as vitórias, os sinais e as maravilhas que haviam
acontecido com ele eram provenientes de Deus (Dn 4:2-3). Porém, passados
doze meses, ao olhar para a grandeza do seu império, ele se orgulhou e
disse: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com
o meu grandioso poder, e para glória da minha majestade?” (v. 30). Tais
palavras arrogantes expressaram seu orgulho e Deus o abateu; ele se tornou
como um animal até que se arrependeu (vs. 33-34).

Quem se humilhar será exaltado


Ao contrário de Satanás e de todos os que se orgulham, o Senhor Jesus
nos ensinou a trilhar o caminho da humildade. Sendo Ele o próprio Deus,
não se apegou ao fato de ser igual a Deus, antes se esvaziou e se humilhou.
Jesus humilhou-se ao ponto mais baixo da humildade: a morte de cruz (Fp
2:5-8). Nada poderia ser mais humilhante do que a morte de cruz: um sinal
de maldição para os judeus e um instrumento utilizado pelos romanos para
a execução dos piores criminosos. Jesus se humilhou, mas Deus O exaltou.
Todo o que se exalta, Deus abate; mas todo o que se humilha, Deus exalta.
Aqui vemos a sabedoria de Deus (1 Co 1:28-29).
Em 1 Samuel 2:4 lemos: “O arco dos fortes é quebrado, porém os débeis,
cingidos de força”. Os orgulhosos são como esses fortes, pois dizem: “Não
tenho medo de nada; sou forte como Golias”. Pessoas assim confiam muito
no que são e têm: “Eu tenho um capacete, uma armadura e, além disso,
tenho um escudo e armas grandes e pesadas”. Que é isto comparado à força
de Deus? Por isso o pequeno Davi, ao enfrentar o gigante Golias, disse: “Tu
vens contra mim com espada, e com lança, e com escudo; eu, porém, vou
contra ti em nome do S dos Exércitos, o Deus dos exércitos de
Israel” (17:45). Davi confiava e dependia de Deus. Não adianta armadura,
capacete ou arco. Se você confia na sua força e no seu arco, saiba que Deus
quebra o arco dos fortes, “porém os débeis são cingidos de força”.
Ana orou segundo a vontade de Deus, e cada palavra em sua oração foi
guiada pelo Espírito Santo: “Os que antes eram fartos, hoje se alugam por
pão, mas os que andavam famintos, não sofrem mais fome; até a estéril tem
sete filhos, e a que tinha muitos filhos perde o vigor. O S é o que tira
a vida, e a dá; faz descer à sepultura, e faz subir” (1 Sm 2:5-6). Isso mostra
que tudo depende de Deus e não do nosso próprio esforço. Diante de Deus,
o que o homem consegue fazer ou o que possui, não tem valor. Mas a quem
se considera fraco e faminto, Deus dará forças, levantará e alimentará.
“O S empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o
pobre do pó, e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar
entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do S
são as colunas da terra, e assentou sobre elas o mundo” (vs. 7-8). O humilde
é levantado por Deus, mesmo que esteja no pó ou no monturo; Deus é quem
o exalta para o fazer “assentar entre os príncipes”. Deus pode exaltar os
mais desprezíveis à posição de maior honra.
“Ele guarda os pés dos seus santos, porém os perversos emudecem nas
trevas da morte; porque o homem não prevalece pela força. Os que
contendem com o S são quebrantados [...] O S julga as
extremidades da terra, dá força ao seu rei, e exalta o poder do seu ungido”
(vs. 9-10). A oração de Ana estava tão misturada com a vontade de Deus
que ela mencionou o rei, o ungido do Senhor. Mas, nessa época, em Israel
nem se pensava em rei. Por que, então, em sua oração o rei foi mencionado?
Será que ela tirou essa frase da sua imaginação? Nada disso. Quando ela
estava orando, o Espírito Santo dirigiu suas palavras, e, em termos do Novo
Testamento, podemos dizer que Cristo orou na sua oração.
Essa foi a oração de Ana. Por meio da sua oração nós temos a chave que
abre o Primeiro Livro de Samuel. Qual é o assunto principal desse livro?
Ele relata o estabelecimento, em Israel, de um rei que seria ungido por
Samuel. Antes havia apenas sacerdotes e juízes em Israel; não havia rei. Foi
a partir de Samuel que se deu início à realeza na nação de Israel.

Deus abençoa os humildes


E quem seria o rei de Israel? De onde viria ele? A oração de Ana nos
responde: O rei viria do mais humilde (v. 8). Um pobre é levantado; um
necessitado é exaltado para assentar-se entre os príncipes e para herdar o
trono de glória. Quem é este? Por conhecermos a história de Davi, sabemos
que por um lado isso se refere a ele que, quando jovem, era desprezado
como se fosse um pobre no pó ou um necessitado no monturo; porém,
depois, o próprio Deus o exaltou. Por fim, Davi foi honrado e exaltado
sobre todos os nomes de reis da terra. Por outro lado, isso diz respeito a
Cristo. Cristo humilhou-se ao máximo, porém, Deus O exaltou
sobremaneira. Vemos, portanto, pela oração de Ana que o rei seria alguém
humilde, exaltado por Deus.
Aqui ganhamos mais uma lição de vida: jamais devemos ensoberbecer-
nos, pois quando o orgulho toma conta de nós satisfazemos Satanás, a fonte
do orgulho. No livro de Jó podemos notar quão difícil foi para ele ver e
reconhecer que era orgulhoso! Nos vários capítulos, Jó manifestou duas
características principais dos orgulhosos: argumentos e justificativas. Mas,
no final do livro, Jó se humilhou. Foi preciso o próprio Deus vir falar-lhe
para que reconhecesse seu orgulho. Assim que percebeu que havia falado
palavras sem entendimento, ele se arrependeu e Deus pôde abençoá-lo. Nos
dois capítulos que antecedem o arrependimento de Jó (Jó 40 e 41), Deus
descreve dois grandes animais como sendo o símbolo do orgulho, que Ele
chamou de “o rei dos animais orgulhosos”. Somente quando Jó viu que tão
horríveis animais representavam seu ego, é que ele se arrependeu
profundamente, a ponto de abominar-se. O resultado vemos no capítulo 42:
Deus abençoou Jó e lhe deu porção dobrada da bênção. Se não tratamos
com o orgulho não há como Deus abençoar-nos.
A história de Saul, o primeiro rei de Israel, traz-nos muitas lições sobre
orgulho e humildade (1 Sm). No início, apesar de ter uma bela aparência e
de se destacar entre todos por causa de sua altura, Saul era bastante
humilde. Ele reconhecia que não era digno de nada por pertencer à menor
das tribos de Israel, Benjamim, e por ser membro da menor família da tribo
de Benjamim (9:21). Visto que era assim tão humilde, ele foi colocado
numa posição de honra por Samuel (v. 22) e recebeu uma porção especial,
na presença dos convidados de Samuel. Depois, Samuel ungiu-o, e o
Espírito de Deus se apossou dele. Mesmo assim, Saul não se orgulhou ao
responder à pergunta do tio sobre seu encontro com Samuel, nem lhe
contou nada a respeito do reino.
Outros fatos revelam a humildade inicial de Saul. Ao ser escolhido para
ser rei de Israel, Saul se escondeu entre a bagagem (1 Sm 10:22). Depois,
ao ser desprezado pelos filhos de Belial, que disseram: “Como poderá este
salvar-nos?”, Saul se fez de surdo. A estes mesmos, depois quando lhe foi
dada a oportunidade, não quis matar (11:12-13).
Mas, assim como Nabucodonosor, Saul por fim se orgulhou e passou a
usar a autoridade que lhe fora confiada, para manter seu domínio sobre
Israel. Saul não confiou em Deus e, com medo de ser derrotado na luta
contra os filisteus, fez algo que O ofendeu. Saul não guardou a Palavra de
Deus, antes agiu precipitada e nesciamente (13:8-14). Como resultado, seu
reino não foi confirmado, mas foi passado para um homem segundo o
coração de Deus: Davi.

Davi: humilhado pelos homens, exaltado por Deus


Davi era muito humilde, e desde pequeno aprendera a apascentar ovelhas.
Quando Samuel foi enviado por Deus à casa de Jessé com o propósito de
escolher um de seus filhos para ungi-lo, Davi nem mesmo foi chamado para
participar daquele encontro. Jessé chamou seus outros filhos e apresentou-
os a Samuel, sendo que o primeiro deles, Eliabe, era forte, alto e nobre.
Samuel pensou: “Esse deve ser o rei a quem Deus escolheu”. Porém,
quando ia ungi-lo, Deus lhe disse: “Não, não é este. Não olhe para a
aparência do homem, porque Deus não olha a aparência; Deus olha o
coração”. Que grande lição! Deus não vê o exterior, portanto, não se
importa com a aparência do homem; Ele atenta para o coração. Disso
aprendemos que nosso Deus olha o interior do homem, tanto que o próprio
Senhor Jesus não tinha beleza exterior. Quando começou a trabalhar em Seu
ministério nesta terra, com trinta anos, aos olhos das pessoas Ele aparentava
estar perto dos cinquenta anos (Jo 8:56-57). Jesus não tinha formosura; pelo
contrário, sua aparência era como a raiz de uma terra seca (Is 53:2).
Então, Jessé fez passar a seus sete filhos, um a um, diante de Samuel, mas
nenhum deles Deus escolheu. Samuel deve ter pensado: “Parece que Deus
está brincando comigo. Eu vim aqui para ungir um dos filhos de Jessé; já
sete passaram diante de mim e nenhum deles é o escolhido?”. Então Samuel
perguntou a Jessé: “São só estes?”. E ele lhe disse: “Não, tem mais um”.
“Onde está ele?” quis saber Samuel. “Está apascentando as ovelhas”. Para
uma festa tão solene e importante, Davi nem sequer fora convidado. Jessé
sabia que aquela ocasião não era uma festa comum; era algo importante,
onde iriam comer das carnes das ofertas a Deus. É bem possível que aos
olhos de Jessé e de seus sete filhos, a presença de Davi não fosse
importante. Mas quem os homens desprezaram, Deus escolheu. Deus
preferiu exatamente o que foi humilhado.
Davi foi escolhido por Deus para ser rei da tribo de Judá, mas esse rei
teve um começo bastante humilde. Antes de ser rei, Davi foi menosprezado,
como também o foi sua profissão, que era pastorear ovelhas. Todavia, Deus
o exaltou. As palavras da segunda oração de Ana foram cumpridas: “Deus
dá força ao seu rei, e exalta o poder do seu ungido”. A escolha de Deus fez
o pastor Davi tornar-se o rei Davi, o leão de Judá. Como rei, ele obteve
muita honra e muita glória. Quem o exaltou tanto assim? Deus exaltou o
humilde Davi!
Por isso, Davi prefigura o Senhor Jesus. Apocalipse 5:5 diz que Jesus é
“o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi”. O Senhor Jesus é o descendente
de Davi. Vemos dois qualificativos sobre a mesma pessoa: “o leão da tribo
de Judá” e “a Raiz de Davi”. O leão de Judá é o próprio Davi. Gênesis 49:9
diz que “Judá é leãozinho”, e no versículo 10 diz que “o cetro não se
arredará de Judá, nem o bastão de entre os seus pés”. O cetro representa a
honra, e o bastão representa a autoridade; e quem usava esses apetrechos
eram os reis. Assim, essa passagem diz respeito a Davi, o leão de Judá, o rei
da tribo de Judá. E: “não se arredará de Judá [...] até que venha Siló” indica
que o reino estaria com a descendência de Davi até que Cristo viesse, pois
Siló significa paz. O Senhor Jesus é sacerdote segundo a ordem de
Melquisedeque, que significa “o rei de justiça”, e também o rei de Salém,
rei de paz (Hb 7:2). O Senhor Jesus, o descendente de Davi, na verdade, é a
paz (Ef 2:14), e também é o Rei.
Antes de ser leão, isto é, antes de ser rei exaltado com honra e glória, que
era Davi? Ele era um pastor de ovelhas, alguém menosprezado, assim como
um jumento. Por isso Gênesis 49:11 diz: “Ele amarrará o seu jumentinho à
vide”. Como rei, Davi é um “leão”, mas antes de ser rei, Davi era um
“jumentinho”. Isso nos indica que ele era humilde. Davi era como um pobre
que do pó foi levantado por Deus, e como um necessitado que foi exaltado
por Deus desde o monturo (1 Sm 2:8). Davi foi tal pessoa, desprezado como
um jumentinho, porém foi exaltado até a posição de rei. Assim, Davi foi
colocado para assentar-se junto aos príncipes, junto aos que têm autoridade.
Quem lhe deu esta força? A resposta está na oração de Ana: o próprio Deus
fez isso.
Davi era apenas como um jumentinho. É interessante observar que Saul
estava à procura de jumentas quando se encontrou com Samuel. Deus ungiu
Saul quando este estava à procura de jumentas, e, ao ser ungido, as
jumentas já haviam sido encontradas. Qual é o significado disso? Isso
significa que o ministério de Saul era procurar jumentas. Deus o ungiu para
procurar um “jumentinho” especial: Davi. A principal função de Saul não
era a de rei, mas a de procurar outra pessoa para ser o rei. Por isso, ao ser
ungido, as jumentas já haviam sido encontradas — Deus já achara Davi.
Uma vez que Davi fora achado, Saul deveria retirar-se. Mas ele não fez
isso. Sabendo que Davi ia ser rei, qual foi a atitude de Saul? Ele procurou
matar Davi.
Naquela época, entre os animais de montaria, o mais nobre era o mulo e o
mais humilde o jumento. Estes animais representavam para eles o que para
nós hoje representam, respectivamente, um carro Mercedes-Benz e um
“fusquinha”. Entre os animais que eram, então, utilizados como meio de
transporte, os cavalos de Faraó eram os mais famosos nas guerras, os
camelos eram os mais rápidos e os mulos eram os mais pomposos, os mais
nobres e utilizados pelos reis.
Em 2 Samuel, Absalão, um dos filhos de Davi que se rebelou contra ele,
estava montado em um mulo quando morreu. Absalão estava numa posição
real e os reis montavam em mulos quando saíam para a guerra. Se Absalão
estivesse num jumento com certeza sua vida teria sido preservada. Segundo
o registro bíblico, Absalão tinha uma cabeleira muito longa e pesada. Ao
entrar no bosque de Efraim, montado num animal alto como o mulo, seus
cabelos prenderam-se nos ramos de uma árvore. Se ao entrar no bosque,
estivesse montado num jumento, ele passaria tranquilamente por baixo dos
galhos. Mas Absalão, além de vaidoso, era uma pessoa orgulhosa, e por isso
não quis rebaixar-se nem um pouquinho. Resultado: pelo fato de estar sobre
um mulo, seus cabelos se prenderam nos galhos das árvores e ele ficou
pendurado ali até que Joabe veio matá-lo.
Outra passagem da Bíblia mostra que os mulos eram utilizados pelos reis
como sinal de imponência: quando Salomão tornou-se rei, Davi ordenou ao
profeta Natã que seu filho deveria entrar em Jerusalém montado na sua
mula (1 Rs 1:33). Estar sobre um mulo era sinal de majestade.
Quando Deus procurou um rei para Israel, Ele não estava atrás de
“mulas”, de pessoas que a si mesmas se exaltam, mas estava à procura de
“jumentos”, de alguém que se humilhasse. Por isso, como vimos, antes de
Davi ser rei, ele era como um jumento. Quando achou Davi, Deus disse:
“Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração” (At 13:22).
Deus procurou até encontrar o filho de Jessé. Nesta busca, Ele usou outras
pessoas para procurar esse jumentinho, como Saul, por exemplo. Dessa
maneira, Davi, como um jumentinho, foi achado por Deus e exaltado por
Ele.
Por meio da experiência de Davi nos foi revelado que, se queremos ser
honrados, precisamos primeiramente ser humilhados. Se insistirmos em
ficar sobre os “mulos”, a “altura” poderá ser uma armadilha para nós.
Devemos aprender do Senhor Jesus que, sendo Rei, preferiu entrar em
Jerusalém montado num jumentinho. O Senhor Jesus andou num pequeno
jumentinho e foi aclamado triunfalmente. Visto que se humilhou, Ele foi
exaltado por Deus.
Tudo isso está implícito na oração de Ana. Como Ana conseguiu orar tais
palavras profundas? Cremos que ela não teria condições de inventar uma
oração como essa. No início, sua oração foi direcionada por sua aflição (1
Sm 1:10). Não tinha filhos, pois era estéril; mas depois de orar teve um
filho, Samuel, alguém muito importante no plano de Deus. Por meio de
Samuel, Deus introduziu o rei. Mas como Ana sabia que haveria um rei?
Como ela sabia que Deus iria dar forças ao seu rei e exaltar o poder do seu
ungido, se nem sequer havia rei em Israel? A oração de Ana, na verdade,
contou não apenas sua história como também a história de Davi, desde a
sua humilhação até sua exaltação. É por isso que podemos concluir que a
oração de Ana é um resumo profético de 1 Samuel.
Quantas lições aprendemos com a oração de Ana! Em que nosso coração
se alegra? em quem nos apoiamos? quem desejamos ser? Se queremos
reinar, então, primeiro sejamos um apascentador de ovelhas. Se queremos
ser um leão, antes precisamos ser um jumento. Não podemos esquecer que
Deus quebrará o arco de quem confia no próprio arco, e rebaixará quem se
orgulha de sua posição. Se quem tem filhos pensa que é alguma coisa, então
perderá o vigor. Os que se sentem autossuficientes e se orgulham pelo que
conseguiram, por fim se alugarão por pão. Precisamos reconhecer que o que
temos vem de Deus. É Ele quem nos dá o que comer quando precisamos; é
Ele quem nos sacia plenamente. Quem quiser exaltar-se será abatido, será
humilhado. Mas os necessitados serão exaltados e os fracos receberão
forças.
O Primeiro Livro de Samuel está contido na oração de Ana. Ao orar pela
primeira vez, Ana inicialmente tinha como preocupação principal seus
próprios problemas e angústias; depois ela avançou e preocupou-se por sua
casa; e, então, preocupou-se em servir a Deus por intermédio de seu filho.
Em sua segunda oração vemos alguém orando totalmente de acordo com a
vontade de Deus. Podemos ver o propósito de Deus em sua oração:
estabelecer na terra um reino onde Cristo, tipificado por Davi, é o rei. Esta é
a oração de Ana. Oramos para que entre nós haja muitas “Anas” orando a
fim de que a vontade de Deus seja feita. Que Deus tenha misericórdia de
nós! Se orarmos como Ana orou, Ele nos abrirá um caminho, mudará nossa
situação e estabelecerá Seu reino entre nós.
Capítulo Dois

A IMPORTÂNCIA DA ORAÇÃO

“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos


Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele
nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10:19-20).

Vimos como a oração de Ana avançou passo a passo até penetrar


totalmente na vontade de Deus. Todos os filhos de Deus também podem ter
esse tipo de experiência: quanto mais oramos, mais profunda se torna nossa
oração. Quando fomos salvos, tínhamos como preocupação primeira nossas
coisas; por isso nossas orações eram somente petições ao Senhor: “Senhor,
eu preciso disso... Senhor, dá-me aquilo...”. Pouco a pouco, porém, a vida
espiritual foi amadurecendo e começamos a orar também pela necessidade
dos outros. Podemos até mesmo dizer que nossa oração progrediu.
Perseveramos e continuamos a orar mais, até que um dia penetramos na
vontade de Deus. O resultado de tal oração foi uma consagração forte e
definida, e oferecemos nosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável ao
Senhor (Rm 12:1). A partir de então, nossas orações já não eram apenas
para nosso próprio proveito, mas passaram a ter como objetivo principal a
edificação da igreja. Além disso, nos consagramos totalmente para servir ao
Senhor. Ao tocarmos na vontade de Deus, nossas orações se tornaram
cheias de ações de graça e de louvor.
Ana fora a Silo, cidade onde estava o tabernáculo, oferecer sacrifícios a
Deus, na época em que Eli e seus filhos estavam oficiando como
sacerdotes. Então um dia, após ter comido e bebido, levantou-se e, com
amargura de alma, fez a primeira oração (1 Sm 1:9-10). Ela estava muito
triste e por isso demorou-se muito no orar perante Deus (v. 12).
Naquela época, somente os sacerdotes podiam entrar no templo. É
provável que Ana, por não poder entrar no interior do templo, tenha feito
sua oração do lado de fora, perto de onde Eli estava, assentado numa
cadeira (v. 9). Eli, o sacerdote, já estava velho e sua condição espiritual
também não estava boa. Várias vezes é mencionado que ele estava sentado,
denotando uma situação anormal. Nós, como sacerdotes do Novo
Testamento, os que hoje servem a Deus, não devemos ficar o tempo todo
“sentados” em casa, apenas “engordando” com doutrinas e teorias. Se isso
acontecer, é sinal de que estamos envelhecendo. A situação normal de um
sacerdote é sair para visitar as pessoas, seja para proclamar o evangelho aos
incrédulos, ou para compartilhar a rica Palavra de Deus a todos os Seus
filhos.
O sacerdote Eli ficava assentado junto à porta do templo, junto ao pilar,
aguardando as pessoas que vinham fazer orações. Quando alguém chegava,
ele, como sacerdote, conduzia as orações do povo para dentro do
tabernáculo junto ao altar de incenso. No Antigo Testamento as orações
precisavam passar pelo sacerdote para chegar a Deus. Por causa de sua
condição espiritual confusa, Eli, ao observar o movimento dos lábios de
Ana, pensou que ela estivesse embriagada. Ana, no entanto, esclareceu-o
dizendo-lhe que não estava embriagada, mas atribulada de espírito, e por
isso derramava sua alma perante Deus. Esclarecido da situação, Eli disse a
Ana: “Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que fizeste” (v.
17). Eli, então, apresentou a oração de Ana a Deus.
O LUGAR ESCOLHIDO POR DEUS
Naquela época o tabernáculo estava em Silo. Quando levou o povo de
Israel para o deserto, por meio de Moisés, Deus revelou-lhe que haveria um
lugar na boa terra de Canaã onde o tabernáculo deveria ser colocado, e para
este lugar todos deveriam ir, pelo menos três vezes ao ano, para oferecer
holocaustos e sacrifícios. Este lugar deveria ser o fator de unidade dos
israelitas, pois seria o lugar de habitação de Deus. Quando estavam prestes
a entrar em Canaã, Moisés lhes disse: “Buscareis o lugar que o S
vosso Deus escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome, e
sua habitação; e para lá ireis” (Dt 12:5). Antes de entrarem na boa terra, na
herança que Deus lhes daria, eles podiam adorá-Lo como bem parecesse
aos seus olhos e em qualquer lugar (v. 8). No deserto cada qual fazia
segundo sua própria vontade, cada um escolhendo seu lugar para adorar a
Deus. Mas depois que chegassem à boa terra de Canaã e entrassem no
descanso e na herança dada por Deus, eles não mais poderiam agir como no
deserto. Depois que ganhassem a herança, já não poderiam fazer o que
quisessem. Na terra de Canaã haveria apenas um lugar, e para lá todos
deveriam ir (vs. 11, 13-14).
O capítulo 12 de Deuteronômio é um quadro revelador da realidade
espiritual do Novo Testamento: Cristo é nossa herança. Como cristãos
podemos ainda estar vivendo no “Egito”, que simboliza o mundo, ou
podemos ainda estar servindo a Deus no deserto (é bom lembrar que o povo
de Israel peregrinou no deserto durante quarenta anos, não porque fosse
vontade de Deus, mas por causa da incredulidade deles após ouvirem o
relato dos espias que foram a Canaã (Nm 14). Entrar em Canaã significa
entrar no pleno desfrute de Cristo. Por isso, antes de tomar posse de Cristo
como nossa herança, antes de entrar no pleno desfrute da Sua pessoa, nós
adorávamos a Deus em qualquer lugar como melhor nos parecia. Isso
expressa a experiência de alguém que está num deserto, insatisfeito,
peregrinando de lá para cá. Sim, quando fomos salvos, podíamos fazer o
que bem parecesse aos nossos olhos, mas depois que Cristo realmente se
torna nossa herança, isto é, depois que deixamos de prestar atenção a tudo o
que não é Cristo, não mais conseguimos agir conforme nossa própria
vontade. Então virá a pergunta: “Aonde devo ir?”. A resposta é simples:
Devemos ir ao único lugar que Deus escolheu. O lugar onde Deus faz
habitar Seu nome e onde Ele é invocado é o único lugar que Ele escolheu
para fazer Sua habitação. Hoje esse lugar é a igreja. Por isso o Novo
Testamento nos revela que há somente uma igreja em cada cidade,
conforme a determinação de Deus. Caso um cristão fosse para Corinto, não
poderia agir como bem lhe parecesse; não poderia “fundar” uma nova igreja
lá. Se realmente “entramos” em Cristo como nossa herança, nós nos
reuniremos com a igreja que está na nossa cidade.
Quando o povo de Israel entrou em Canaã, na época de Josué, o
tabernáculo foi erguido em Silo, e assim Silo tornou-se o lugar para onde o
povo deveria ir a fim de adorar e oferecer sacrifícios a Deus. Enquanto
peregrinavam no deserto, o tabernáculo era erguido no centro do
acampamento das tribos de Israel e todo o povo vivia em função dele, pois
o conteúdo principal do tabernáculo era a arca. O tabernáculo prefigura a
igreja e a arca prefigura Cristo. Hoje também devemos viver em função da
igreja e perceber que o conteúdo principal da igreja é Cristo. Por meio do
tabernáculo todo o povo de Israel permaneceu em unidade. No deserto, o
tabernáculo não se fixou definitivamente num lugar, mas moveu-se de um
lugar para outro; contudo, quando entraram em Canaã, o tabernáculo fixou-
se em Silo.
Daquela época até o sacerdote Eli, passaram-se mais ou menos
quatrocentos e cinquenta anos e o tabernáculo continuava em Silo. Sem
dúvida, nesse período, ocorreram muitas coisas, mas o tabernáculo ainda se
manteve ali. Ao ser levado para Silo, é bem provável que ele ainda
possuísse as cortinas do átrio exterior, como no deserto. Mas com o passar
do tempo e com a degradação do sacerdócio, não sabemos se o átrio
exterior se manteve como era. No deserto não havia moradia em volta do
tabernáculo, mas há um registro de que, em Silo, Samuel morava no
templo, contudo não sabemos onde. De qualquer maneira o tabernáculo,
com o Santo Lugar e o Santo dos Santos ainda permanecia como antes.
Sendo assim, Eli deve ter entrado no Santo Lugar e ali, junto ao altar de
incenso, apresentou a oração de Ana.

O TABERNÁCULO
O tabernáculo, conforme o registro do Antigo Testamento, era composto
de três partes: o átrio, o Santo Lugar e o Santo dos Santos. No deserto, o
átrio exterior era como um muro feito de cortinas de linho sustentadas por
colunas, que servia para fazer separação entre o que era comum e o que era
santo. No interior do átrio havia o tabernáculo propriamente dito, algo
parecido com uma cabana retangular, que possuía dois compartimentos: o
Santo Lugar, e mais interiormente o Santo dos Santos. Na entrada do Santo
Lugar, à frente do tabernáculo, havia um véu que era chamado de primeiro
véu. Depois, entre o Santo Lugar e o Santo dos Santos havia uma
separação, o segundo véu. Êxodo 26 nos diz que o tabernáculo era fechado
por tábuas nas laterais e no fundo, num total de quarenta e oito tábuas
sustentadas por bases feitas de prata e unidas umas às outras por travessas
de ouro, que mantinham em pé as tábuas. Por cima, ele era coberto por
quatro camadas de cortinas; a mais interna era de linho fino retorcido e a
mais externa era de peles de animais marinhos. No interior do Santo Lugar,
na parte voltada para o norte, foi colocada a mesa dos pães da proposição
(Êx 40:22-23); o candelabro foi colocado ao sul (v. 24); e o altar de ouro de
incenso ficava diante do segundo véu, diante do Santo dos Santos (vs. 26-
27). No Santo dos Santos estava a arca, e dentro dela estavam as duas
tábuas da aliança. Sobre a arca foi colocado o propiciatório, uma espécie de
tampa feita de ouro, sobre a qual havia dois querubins (vs. 20-21). No Santo
Lugar somente os sacerdotes podiam entrar, e no Santo dos Santos somente
o sumo sacerdote.
Nós, que estamos no Novo Testamento, possuímos a realidade do lugar de
habitação de Deus, pois hoje somos a realidade do templo de Deus. Que é a
arca? A arca representa Cristo. E onde Cristo está hoje? Ele está em nosso
espírito (Rm 8:9-10; 2 Tm 4:22). Portanto, nosso espírito é hoje o Santo dos
Santos. O Santo Lugar representa nossa alma, e o átrio exterior representa
nosso corpo. Além disso todos nós fomos feitos um reino de sacerdotes por
meio de Jesus (1 Pe 2:9; Ap 5:9-10); portanto, agora podemos orar
diretamente a Deus, sem nenhum intermediário.
É importante termos uma compreensão adequada dos tipos do Antigo
Testamento, pois eles nos ajudam a ver os detalhes das experiências
espirituais. Aparentemente, hoje é muito fácil orar, porque não mais temos
as complicações do testamento antigo. Porém, para que isso fosse possível
algo teve de acontecer. Muitas vezes, não damos valor às coisas espirituais
por não vermos tudo o que nelas está implícito. Para que possamos
valorizar mais essa questão de irmos à presença de Deus por meio da
oração, o escritor do livro de Hebreus fez uma comparação entre o que era
praticado no Antigo Testamento e o que experimentamos hoje no Novo
Testamento.
Vejamos como foi descrito o tabernáculo em Hebreus 9. O versículo 2
diz: “Com efeito, foi preparado o tabernáculo, cuja parte anterior, onde
estavam o candeeiro, e a mesa, e a exposição dos pães, se chama o Santo
Lugar”. De acordo com o descrito acima, no tabernáculo, cuja parte anterior
é o Santo Lugar, vemos a mesa dos pães da proposição e o candelabro.
Prosseguindo: “Por trás do segundo véu se encontrava o tabernáculo que se
chama o Santo dos Santos, ao qual pertencia um altar de ouro para o
incenso e a arca da aliança” (vs. 3-4a). Atrás do segundo véu, no Santo dos
Santos, estavam o altar de incenso e a arca da aliança. O registro aqui está
diferente de Êxodo 40. No Antigo Testamento o altar de incenso ficava no
Santo Lugar, diante do véu. Mas em Hebreus está escrito que o altar de
incenso estava além do véu, dentro do Santo dos Santos. Por que esses dois
registros são diferentes? Será que o altar de incenso mudou de lugar ao
longo dos tempos? Ou será que um dos escritores se equivocou? É muito
provável que o escritor desse livro tenha sido Paulo; mesmo que não fosse
ele, o escritor não se equivocaria, pois aqui há um significado espiritual
muito profundo. Para não fugirmos do contexto central da mensagem, que é
a oração de Ana, não vamos falar sobre a mesa dos pães, nem sobre o
candelabro, nem sobre a arca; vamos apenas falar sobre o altar de ouro para
incenso.

O ALTAR DE INCENSO E AS ORAÇÕES


Qual é a relação entre a oração e o altar de incenso? Primeiro precisamos
ver com detalhes o que é o altar de incenso. Apocalipse 5:8 diz: “E, quando
tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos
prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de
ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos”. As taças de ouro
cheias de incenso são as orações dos santos. Estas taças de ouro ou
incensários são as orações dos santos. Isso significa que quando Ana orou,
Eli, o sacerdote, levou a oração dela diante do altar de incenso, dentro do
Santo Lugar, pois Ana não podia entrar ali.
O altar de ouro para o incenso deveria estar sempre cheio de incenso. Se
não houvesse incenso, as orações ficariam apenas no altar de ouro. Assim
vemos que além das orações havia algo ainda mais importante: o incenso.
Sem o incenso as orações não “subiam”. Apocalipse 8:3 diz: “Veio outro
anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado
muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o
altar de ouro que se acha diante do trono; e da mão do anjo subiu à presença
de Deus o fumo do incenso, com as orações dos santos”. Muito incenso foi
dado para ser oferecido junto com as orações de todos os santos. Sobre o
altar de ouro, as orações dos santos subiram até Deus, com o fumo do
incenso. Se não houvesse o incenso, onde ficariam as orações dos santos?
Subiriam à presença de Deus? Não, elas ficariam na terra.
Então, que é necessário para que as orações dos santos subam a Deus? É
necessário algo aromático, santo, para que Deus aceite e se satisfaça. Era
essa a função do incenso. Numa situação normal, Eli apresentava diante do
altar as orações das pessoas. Ele acrescentava o incenso à oração, e a oração
subia com o fumo do incenso e chegava a Deus. Quanto mais incenso era
acrescido, mais fumaça subia. Então, isso mostra-nos que todas as orações
precisam ser acrescidas de incenso.
Por que a oração de Ana progrediu passo a passo? Porque cada vez que
ela orava, mais incenso era acrescentado. Primeiramente ela orou pedindo a
Deus um filho para seu próprio benefício, por causa da sua amargura e
aflição; então um pouco de incenso foi acrescentado; ela continuou a orar, e
orou por causa da herança: então, mais incenso foi acrescentado; por fim,
ao oferecer o filho a Deus, para que fosse um nazireu consagrado, mais
incenso lhe foi dado. Assim, passo a passo ela foi progredindo e sua oração
aprofundou-se. Quanto mais orava, mais incenso, até que, ao orar pela
segunda vez, sua oração se tornou cheia de incenso. Dessa maneira, com as
orações saturadas de incenso, Deus não apenas aceitou sua segunda oração,
como também, por meio dela, Ele pôde manifestar Seu desejo.
Portanto, as taças de ouro se referem às orações. E o incenso? O incenso é
Cristo. Por que podemos afirmar que o incenso é Cristo? Romanos 8:26 nos
diz que “o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza;
porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede
por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis”. Por não sabermos orar
como convém, o próprio Espírito intercede por nós, isto é, Ele faz com que
nossas orações sejam aceitas diante de Deus. Quem é o Espírito? O Senhor
é o Espírito (2 Co 3:17); Ele se tornou o Espírito que dá vida (1 Co 15:45b -
BJ). Então Romanos 8:27 completa: “E aquele que sonda os corações sabe
qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele
intercede pelos santos”. Em nossa experiência percebemos que Cristo,
espiritualmente falando, é de fato o incenso. É só por meio Dele que nossas
orações são aceitas.
Ana começou a orar por causa de si mesma, por causa da sua amargura.
Então o Espírito veio e a auxiliou: “Ore mais um pouco... ore pela sua
herança, pela sua descendência”. Depois, o Espírito intercedeu novamente:
“Ore mais... consagre este filho a Deus”. Embora Ana não soubesse orar
como convém, o Espírito intercedeu por ela.
Isso nos mostra que precisamos orar. Não é necessário ficar pensando
sobre o que orar. Tão logo ore! Se você ficar pensando: “Por que devo orar?
Como devo orar? Primeiro eu vou falar isto... depois aquilo e em terceiro
lugar vou agradecer por aquilo...” permanecerá só na sua mente, e não
começará a orar. Veja o exemplo de Ana: Ela simplesmente se abriu a Deus
e, em outras palavras, disse-Lhe: “Deus, estou precisando de um filho;
estou muito amargurada”. Aí o incenso foi acrescentado: “Quero ter uma
descendência para ter uma herança”... mais incenso... “Ó Deus, se me deres
um filho, vou consagrá-lo a Ti”. Desse modo o incenso foi sendo
acrescentado à sua oração. Ter incenso acrescentado às orações significa
que oramos de acordo com o Espírito. Assim, quando oramos, o próprio
Cristo que habita em nós intercede por nós. É em nosso espírito que hoje
temos o altar do incenso. Também é em nosso espírito que Cristo como o
incenso está sendo acrescentado. Quando Deus vê alguém orando em
espírito e em verdade Ele se agrada (Jo 4:24).

O ÓLEO DA UNÇÃO E O INCENSO


Êxodo 30 trata primeiramente do altar de incenso, depois também
menciona o óleo da unção e, por fim, o incenso. O óleo da unção tipifica o
Espírito consumado, a manifestação última e máxima do Deus Triúno
processado. O óleo da unção era feito de um him de azeite, mais quatro
especiarias: mirra, cinamomo, cálamo e cássia. Essas quatro especiarias
formavam três unidades de quinhentos siclos: mirra, quinhentos siclos;
cinamomo, duzentos e cinquenta siclos; cálamo, também duzentos e
cinquenta siclos; e cássia, quinhentos siclos. As especiarias cinamomo e
cálamo formavam juntas uma unidade de quinhentos siclos; eram quatro
especiarias, que compunham três unidades de quinhentos siclos. O número
quatro representa a criação, tendo o homem como seu representante
principal. Então, o número quatro representa o homem. E o número três
representa o Deus Triúno. Portanto, na composição do óleo da unção o
Deus Triúno está simbolicamente mesclado com o homem.
A mirra era utilizada para embalsamar os cadáveres e diz respeito à morte
de Cristo; o cinamomo representa a eficácia da morte do Senhor; o cálamo é
um junco que surge dentro do pântano e representa a ressurreição; por fim,
a cássia representa a eficácia da ressurreição. Essas especiarias eram
misturadas a um him de azeite, mostrando que o Deus Triúno passou por
um processo completo: tornou-se carne, viveu aqui na terra por trinta e três
anos e meio, foi crucificado, sepultado, ressuscitou, ascendeu ao céu, foi
exaltado e entronizado. Por meio deste processo, Ele se tornou o Espírito
que dá vida (1 Co 15:45b). Essa composição de quatro especiarias em três
unidades de quinhentos siclos foi divinamente estabelecida. Até mesmo o
fato de as duas especiarias do meio serem de duzentos e cinquenta siclos
cada uma, também possui um significado maravilhoso.
Para entender melhor, usemos outro tipo análogo a este quanto à
composição quatro mais três. No tabernáculo, entre o Santo Lugar e o Santo
dos Santos havia quatro colunas, sobre as quais estava pendurado o véu.
Essas quatro colunas proporcionavam três entradas. Novamente vemos aqui
o número quatro mais o número três, o quatro representando a criação cujo
representante principal é o homem, e o três representando o Deus Triúno. O
fato de a unidade do meio das especiarias estar partida em duas de duzentos
e cinquenta siclos cada uma, significa que o Deus Triúno foi partido na
pessoa do Filho, o segundo da Trindade. O mesmo aconteceu com o véu no
tabernáculo. Mateus 27 diz que o véu do santuário rasgou-se de alto a
baixo. Quando o véu foi rasgado, será que todo o véu caiu por terra? Não,
porque estava pendurado nas colunas. Então, o véu que rasgara deve ter
ficado pendurado nas duas colunas intermediárias, abrindo assim a entrada
do meio, pois das três entradas, apenas uma se abriu. Que significa isso?
Significa que o segundo da Trindade divina, o Filho, foi partido por nós. É
por isso que a unidade do meio (quinhentos siclos) foi dividida em duas.
O óleo da unção, portanto, era composto dessas especiarias mais o azeite
de oliva. Ao azeite de oliva, que representa o Espírito de Deus, eram
acrescentadas quatro especiarias, para então formar o óleo sagrado da
unção. O óleo sagrado da unção não representa apenas o Espírito Santo,
mas representa o Deus Triúno que passou por um processo: Aquele que
tinha a natureza divina acrescentou a Si a natureza humana: viveu na terra
uma vida humana cheia de sofrimentos, morreu, foi sepultado e, por fim,
ressuscitou. Foi entronizado e glorificado, consumando-se, finalmente, em
o Espírito (Jo 7:39) para ser a realidade do óleo sagrado da unção. Por meio
deste Espírito composto, tudo o que Cristo é, fez, alcançou, obteve e
cumpriu torna-se disponível a todos os que O recebem.
A composição do óleo sagrado da unção difere da composição do incenso
sagrado. Quanto à composição do incenso sagrado, Êxodo 30:34-35 diz:
“Disse mais o S a Moisés: Toma substâncias odoríferas, estoraque,
ônica e gálbano; estes arômatas com incenso puro, cada um com igual peso;
e disto farás incenso, perfume segundo a arte do perfumista, temperado com
sal, puro e santo”.
O estoraque era um derivado da mirra, portanto uma substância vegetal.
A ônica era um pó derivado de uma espécie de caramujo que vive em
concha, é de origem animal; e o gálbano era um vegetal, utilizado para
ressaltar o aroma das outras duas substâncias. A essas três substâncias
aromáticas foi acrescentado o incenso puro que representa a ressurreição.
O incenso é, então, uma composição de extratos provenientes da vida
animal e vegetal mais o gálbano, também vegetal para lhe ressaltar o aroma.
O incenso representa Cristo, Aquele que tem tanto a natureza divina quanto
a humana. Cristo morreu e ressuscitou, e, assim, para Deus, Ele é como o
incenso aromático.Sem a ressurreição de Cristo, tudo o que Ele é e fez, não
teria sentido para nós (1 Co 15:17). A ressurreição de Cristo é a prova de
que Deus aceitou Sua obra na cruz.
As substâncias componentes do incenso indicam o mesclar de Deus com
o homem, e também dizem respeito à morte de Cristo. O que Cristo é e o
que Ele fez subiu como aroma agradável a Deus por meio de Sua
ressurreição. Se o Senhor Jesus tivesse somente passado pela morte, sem
ressuscitar, nenhum de nós seria aceito por Deus. Mas, aleluia, Ele
ressuscitou, então, nós também ressuscitamos com Ele.
Na fórmula do incenso sagrado havia também a necessidade de se
acrescentar sal (Êx 30:35). Por que sal? Porque é germicida, e portanto um
conservante natural. Tanto o mel quanto o açúcar estão sujeitos à
proliferação de bactérias e germes, mas o sal mata a ambos e conserva os
alimentos. No Novo Testamento, o Senhor Jesus afirmou que somos o sal
da terra (Mt 5:13). Por isso, o relacionamento entre os cristãos deve ser
“temperado” com sal, para que seja preservado sempre saudável. Os
relacionamentos muito “açucarados” facilmente se contaminam e
degeneram. Por isso o incenso precisava ser temperado com sal, puro e
santo, para poder agradar a Deus. Do mesmo modo o relacionamento entre
os irmãos deve ser sempre “temperado” com sal, pois isso preservará a
unidade e satisfará o coração de Deus.
Em 2 Samuel percebemos que Davi, em consequência de sua afeição
“açucarada” e desequilibrada com relação aos filhos, chorou
excessivamente quando seu filho Absalão morreu, dizendo: “Meu filho
Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por
ti” (2 Sm 18:33). Joabe, general do exército de Davi, ao vê-lo naquele
estado de desalento, repreendeu-o, pois como se sentiriam seus soldados e
todo o povo ao ver Davi pranteando seu filho descontroladamente? Absalão
queria matar Davi, e agora que o exército dele fora derrotado e os inimigos
mortos, Davi deveria alegrar-se com o povo. Mas se visse o rei
manifestando sua afeição natural, o povo que havia obtido vitória sobre os
inimigos teria um sentimento de derrota e ficaria entristecido também. Isso
demonstra que o excesso de afeição natural de Davi pelo filho foi
prejudicial. É muito provável que se Davi tivesse acrescentado “sal” ao seu
relacionamento com o filho, Absalão não teria sido tão rebelde como foi.
A IMPORTÂNCIA DA ORAÇÃO
Depois que analisamos cada um dos componentes do incenso sagrado,
podemos compreender por que é tão importante a oração. O incenso precisa
ser acrescentado à oração para agradar a Deus e isso só acontece quando
oramos. Por isso não importa como você ora; o importante é que ore! A
princípio, Ana foi orar apenas para que seu problema fosse resolvido,
porém, à medida que orava, o incenso era acrescentado e sua oração
alcançou as profundezas de Deus; por isso lemos que ela se demorou
perante Ele (1 Sm 1:12).
Em Mateus 6:5-13 o Senhor Jesus nos ensina como orar: “Tu, porém,
quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta orarás a teu Pai que
está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará. E, orando,
não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo
seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis pois, a eles; porque
Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais”
(vs. 5-8). Isso diz respeito à nossa atitude ao orar: sempre em secreto, diante
do Senhor. E qual deve ser o conteúdo da nossa oração? Em primeiro lugar
o nome do Pai deve ser santificado: “Santificado seja o teu nome” (v. 9).
Deus é santo e devemos santificar o Seu nome. Em seguida devemos pedir
por Seu reino: “Venha o teu reino” (v. 10a). Onde está o Pai? Está nos céus,
todavia Ele deseja estabelecer o reino dos céus aqui na terra. No Antigo
Testamento, o reino de Israel era a manifestação do reino de Deus na terra.
E hoje? Hoje a igreja deve manifestar o reino de Deus na terra! Cientes
disso, devemos pedir-Lhe: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no
céu” (v. 10b). Nos céus já é feita a vontade de Deus; mas e na terra?
Durante muito tempo Deus não teve como fazer Sua vontade na terra.
Agora, porém, há um lugar na terra onde a vontade divina pode ser feita: a
igreja. Tudo o que temos de fazer é permitir que a vontade de Deus seja
feita entre nós.
Portanto, na primeira parte desta oração é-nos mostrado o propósito de
Deus quanto ao Seu nome, reino e vontade; e na segunda parte da oração
que devemos orar pelas nossas necessidades, porém, sem nos preocupar
com o dia de amanhã; isso indica que devemos viver pela fé diariamente (v.
11). Na terceira parte desta oração vemos que temos de cuidar das nossas
fraquezas diante de Deus e do nosso relacionamento com as pessoas (v. 12).
Em quarto lugar também devemos pedir a Deus que nos livre do maligno e
de todo mal que procede dele. Por fim devemos render a Deus o poder e a
majestade, segundo os quais Ele pode exercer Seu poder para expressar Sua
glória.
Assim, essa oração é o padrão que o Senhor nos deixou. Acreditamos
firmemente que esta é a oração do desejo eterno de Deus de cumprir Seu
plano; por isso sempre procuramos orar segundo este padrão. Contudo, caso
ao nosso lado alguém estiver orando sem seguir esse modelo, não devemos
criticar, tampouco devemos ficar analisando se a oração é espiritual ou não.
O importante é que todos nos aproximemos de Deus para orar, e, assim, Ele
mesmo acrescentará incenso às orações que por fim alcançarão a vontade
divina.
Em Mateus 6, o Senhor Jesus ensinou-nos como orar. Mas vejamos o que
o Senhor Jesus também nos ensinou em Lucas 18:1-8, quanto à prática da
oração. Ele contou a parábola sobre o dever de orar sempre e nunca
esmorecer: Certa viúva queria que um juiz iníquo julgasse sua causa; ele,
porém, recusava-se a ouvi-la. Ela continuou a insistir, até que o juiz,
cansado de ser importunado, resolveu julgar a causa de tal mulher tão
persistente. O Senhor Jesus aproveitou esta parábola para mostrar que se
aquele juiz, sendo iníquo, concedeu àquela viúva a sua petição, quanto mais
Deus, sendo justo, fará justiça aos Seus que a Ele clamam dia e noite! Jesus
quis mostrar-nos o princípio da oração: nunca devemos desistir de orar;
pelo contrário, devemos orar, orar e orar, mesmo que o Senhor pareça
demorado em nos atender.
Ao orar, não fique pensando: “Devo orar como a oração de Ana” ou
“como é mesmo a ordem? primeiro a necessidade de Deus, depois a
minha?”... depois “ah! deixe-me ver... esqueci”. Não; simplesmente ore, não
se preocupando em como orar. Se perseverar orando, um dia você irá orar
exatamente a vontade de Deus! É triste ver irmãos que em vez de orar ficam
pensando e pensando: “Qual é a primeira frase que vou falar? Será que
estou orando certo?”. Se é assim que você ora, isso indica que você está
diante do altar do incenso, porém, nenhum incenso está sendo acrescentado.
O importante é orar. Ore: “Senhor, eu quero isso... eu quero isso... eu quero
isso”. Apresente sua oração, pois é somente ao orar que o incenso é
acrescentado. Foi assim que Ana orou, e tanto ela como Deus obtiveram o
que tanto desejavam.

O VÉU FOI RASGADO


No Antigo Testamento, somente os sacerdotes tinham acesso ao altar de
incenso, que se localizava no Santo Lugar. Mas no Novo Testamento isso
mudou. Nas últimas três horas na cruz, o Senhor foi julgado por Deus. Deus
olhou para Cristo como se Ele fosse cada um de nós; não olhou para Cristo
como se fosse o Filho, mas como se fosse um pecador, assim como nós.
Nessa hora Jesus exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?”. Deus de fato O desamparou naquele momento. Por isso o
céu se encheu de trevas e na terra houve terremotos, e o mais importante
aconteceu: o véu do santuário rasgou-se de alto a baixo (Mt 27:51; Mc
15:38).
Por meio da morte de Jesus o véu que separava o Santo Lugar do Santo
dos Santos foi rasgado. Por isso Hebreus 10:19-20 ousadamente declara:
“Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo
sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu,
isto é, pela sua carne”. O sumo sacerdote podia entrar apenas um dia ao ano
no Santo dos Santos, e quando entrava levava consigo sangue, para fazer
expiação pelos seus pecados e pelos pecados do povo (Hb 9:7). Mas, por
meio da morte de Jesus, não há mais separação pelo véu, pois há um
caminho novo e vivo para entrarmos na presença de Deus: o caminho que o
sangue de Jesus nos abriu para que entremos com intrepidez no Santo dos
Santos! Não há mais separação entre o Santo Lugar e o Santo dos Santos.
É por isso que o livro de Hebreus diz que o altar de incenso pertence ao
Santo dos Santos. Aleluia! o véu foi rasgado! Por meio do Filho de Deus
que foi partido na cruz, hoje temos acesso à presença de Deus. Além disso,
não precisamos mais de um Eli, de um sacerdote intermediário para levar
nossas orações à presença de Deus. Agora nos foi dado o direito, o
privilégio de entrar com intrepidez no Santo dos Santos sempre que
quisermos.
De acordo com o registro de Hebreus, ninguém além do sumo sacerdote,
e um único dia ao ano, no dia da expiação, podia entrar no Santo dos
Santos. Ao entrar, ele precisava levar o sangue da oferta pelo pecado dele e
de todo o povo. Assim que entrava no Santo dos Santos, espargia o sangue
diante da arca, no propiciatório. Sobre o propiciatório havia dois querubins
da glória como que vigiando quem entrasse. Quem entrasse ali estava
exposto à morte. Por quê? Porque nada impuro ou contaminado podia entrar
ali, pois aquele lugar era santíssimo. Então o sumo sacerdote, assim que
entrava, imediatamente espargia o sangue sobre o propiciatório; o sangue
era sua garantia de vida, e unicamente por causa dele o sacerdote
permanecia vivo.
Se o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos um dia por ano, com
Moisés era diferente: ele podia entrar todos os dias do ano. Em Êxodo
30:36 lemos o que Deus disse a Moisés: “Uma parte dele (do incenso)
reduzirás a pó e o porás diante do Testemunho na tenda da congregação,
onde me avistarei contigo; será para vós outros santíssimo”. Este versículo
afirma que Deus se avistaria com Moisés diante do testemunho, que estava
no Santo dos Santos; e há outros versículos que revelam que Deus falava
com Moisés face a face (Êx 33:11; Dt 34:10). Se Moisés não entrasse no
Santo dos Santos, como Deus falaria com ele? Êxodo 25:22 diz: “Ali [onde
estava o testemunho — cf. v. 21] virei a ti, e, de cima do propiciatório, do
meio dos dois querubins que estão sobre a arca do testemunho, falarei
contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os filhos de Israel”. Moisés
era alguém que tinha livre acesso ao Santo dos Santos. Deus aparecia a ele e
lhe falava tudo o que necessitava falar ao povo de Israel, e Moisés Lhe
falava tudo sobre o povo.

O APÓSTOLO
Se Moisés não era sumo sacerdote, por que ele tinha esse privilégio? Qual
era a sua posição no Antigo Testamento? Moisés podia servir a Deus porque
era um levita, mas não era sacerdote nem sumo sacerdote. Então, qual era a
posição de Moisés? Hebreus 3:1-2 nos explica: “Por isso, santos irmãos,
que participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e
Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus, o qual é fiel àquele que o
constituiu, como também o era Moisés em toda a casa de Deus”. De acordo
com estes versículos, Jesus é o Apóstolo. De acordo com o texto, Moisés
também era um apóstolo. Ser um apóstolo é ser enviado por Deus para fazer
o que Ele quer. Ser apóstolo é ser como Moisés, um servo fiel que foi
estabelecido por Deus como Sua testemunha, tendo sido por isso
comparado a uma das quatro colunas que havia entre o Santo dos Santos e o
Santo Lugar. No livro de Gálatas vemos que Pedro, João e Tiago eram
considerados colunas da igreja. Eram colunas que ficavam voltadas para o
lado de dentro do Santo dos Santos, diante da arca do testemunho. Isso nos
mostra que ser uma coluna na igreja é ser alguém que sempre está diante de
Deus.
Hoje, graças ao Senhor, todos podemos entrar nos Santo dos Santos.
Todos podemos ter comunhão com Deus; podemos estar diante Dele, assim
como Moisés. Todos nós estamos incluídos no ministério da nova aliança (2
Co 3:4-18). Na comunhão com Deus, o rosto de Moisés tornava-se
resplandecente, porém, a glória que brilhava em seu rosto, pouco a pouco se
desvanecia; por isso ele tinha de usar um véu sobre o rosto para que o povo
não visse a terminação da glória do seu rosto. Nós, porém, podemos, com o
rosto desvendado, contemplar e refletir a glória do Senhor. Portanto,
apóstolo é antes de tudo alguém que vive em íntima comunhão com Deus, e
por isso pode ser enviado por Ele para ser Sua testemunha.
Ser um apóstolo também implica ser enviado por Deus para fora do
arraial, isto é, ser enviado para pregar o evangelho aos gentios, para
anunciar as boas novas aos que estão fora do arraial. Jesus, como apóstolo,
saiu fora do arraial, ao ser rejeitado pelos judeus religiosos. E nós, por
desfrutarmos da Sua presença no Santo dos Santos, que é o nosso espírito,
somos energizados e encorajados a tomar o estreito caminho da cruz na
terra, carregando seu vitupério (Hb 13:12-13).
Por exemplo, ao ir para determinada cidade e após pregar o evangelho e
as pessoas serem salvas, você pode estabelecer uma reunião de casa ali.
Além disso, Deus também levará você a cuidar dos irmãos que foram
salvos, suprindo-os com Sua Palavra. Por meio do suprimento da Palavra, a
vida de Deus crescerá neles, e assim pouco a pouco a igreja ali será
edificada. Neste sentido cada um de nós pode ser um apóstolo, alguém
enviado por Deus. No entanto, não se autodenomine apóstolo para sua
própria vanglória. O que nos importa é a função de apóstolo, não o título
nem a posição de apóstolo. É o desempenho da função de apóstolo que leva
as pessoas à salvação, cuidando delas a fim de crescerem espiritualmente
para a edificação da igreja.
O PROFETA
Moisés também foi chamado de o profeta. Ele foi um profeta especial,
alguém que falava face a face com Deus. Com outros profetas Deus falava
por meio de visões e de sonhos, mas com Moisés Ele falava face a face, no
Santo dos Santos. Por isso ele era chamado de o profeta, pois não era um
profeta comum. O Senhor Jesus também foi chamado de o Profeta, mas Ele
é o Profeta superior, diante do qual todos os outros se calam, e a quem hoje
devemos ouvir (Mc 9:7).
No Novo Testamento, Deus fala conosco e, por isso, nós podemos falar
por Ele. No Novo Testamento, profetizar é diferente de predizer, prática
comum em muitas religiões. Ser um profeta, no sentido bíblico original,
significa ser alguém que fala por Deus (1 Co 14:3, 19, 24-25).
Em pequenas reuniões de casa todos têm oportunidade de falar por Deus,
já que numa reunião assim o número de pessoas é pequeno. É como a figura
da mesa da proposição que ficava no Santo Lugar. Na mesa havia doze pães
que representam o alimento espiritual que cada um pode compartilhar com
os outros. Caso nas reuniões de casa haja doze pessoas, cada uma pode
“comer um pão”. Se porém houver vinte ou mais pessoas, cada uma terá
apenas um pequeno “pedaço de pão”, isto é, a oportunidade para falar terá
de ser dividida com mais pessoas, e, assim, cada uma irá profetizar menos
pelo Senhor. Portanto, quando o número excede a doze, é melhor
multiplicar-se em dois grupos; mas se o número é menor podemos “comer
mais de um pão”, porque há mais oportunidade de profetizar pelo Senhor.
Nas reuniões de casa, somos treinados a falar por Deus. Mesmo quem
nunca falou por Deus, nas reuniões de casa pode aprender a falar; não é tão
difícil assim. Em 1 Coríntios 12:2-3 diz-se: “Sabeis que, outrora, quando
éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos ídolos mudos, segundo éreis
guiados. Por isso vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito
de Deus afirma: Anátema, Jesus! por outro lado, ninguém pode dizer:
Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo”. No passado, pelo fato de
adorarmos ídolos mudos, nos tornamos “mudos” para falar as coisas de
Deus. Deus é vivo e fala, e todos nós podemos falar, o que não significa
que, necessariamente, todos tenham o ministério de profeta. Isso mostra que
espiritual não é o que tem boa eloquência ou que ora bem. Se é alguém que
declara que Jesus é o Senhor, ou que invoca: Senhor Jesus, então você é
espiritual e poderá vir a ser um profeta. Sempre que proclamar que Jesus é o
Senhor, você estará profetizando.
Nas reuniões de casa, onde há oito ou doze irmãos, todos podem falar, ler
a Bíblia, compartilhar experiências, cantar e orar. Que desfrute é! Numa
reunião pequena assim também há tempo suficiente para orar. Não
precisamos de um “orador” profissional que ore em nosso lugar; tampouco
precisamos preocupar-nos com a maneira como iremos orar. Por temer que
suas orações não sejam adequadas, isto é, não tenham palavras bonitas nem
sejam gramaticalmente corretas, muitos irmãos não oram. Mas a reunião de
casa tem ambiente familiar, por isso, pouco a pouco, todos ficam à vontade
para pronunciar algumas sentenças, e, com certeza, em pouco tempo
também poderão orar como Ana.
Todos podemos ser pessoas de oração, como Ana. Ana conseguiu orar
segundo a vontade de Deus focando no Seu propósito para com o povo. Sua
oração foi levada diante do altar de incenso e o incenso foi acrescentado. A
oração de Ana foi realmente muito boa. Tudo isso foi revelado para nos
mostrar que, ao orar, não precisamos fazer uma redação, com início, meio e
fim. Se oramos bem ou mal, isso não importa. O importante é orar. O
Senhor mesmo é quem acrescenta incenso; Ele intercede por nós; Ele é
nosso sumo sacerdote que já penetrou o véu. Não se esqueça: A oração de
Ana simplesmente nos mostra que devemos e podemos orar. Já nos foi
aberto um novo e vivo caminho até à presença de Deus. Todos podemos
profetizar e também ser enviados por Deus para introduzir outras pessoas
no Santo dos Santos. Quando oramos em Deus, o incenso é acrescentado à
oração. Deus fala conosco e somos motivados a falar por Ele, introduzindo
outros na mesma experiência. Não podemos parar de orar, pois somente os
que oram conhecem de fato a vontade de Deus.
Sumário
PREFÁCIO
Capítulo Um
A ORAÇÃO QUE MUDOU A HISTÓRIA DE ISRAEL
Capítulo Dois
A IMPORTÂNCIA DA ORAÇÃO

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