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Estudos sobre

Amartya Sen
COMITÊ EDITORIAL

Prof. Dr. Neuro José Zambam – (IMED/RS)


Prof. Dr. Henrique Aniceto Kujawa – (IMED/RS)
Prof. Dr. Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino (IMED/RS)
Prof. Dr. Márcio Ricardo Staffen (IMED/RS)
Prof. Dr. Israel Kujawa (IMED/RS)
Prof. Dr. Vinicius Borges Fortes (IMED/RS)
Prof. Dra. Leilane Grubba (IMED/RS)
Profa. Dra. Salete Oro Boff – (IMED/RS)
Prof. Dr. Fausto Santos de Morais (IMED/RS)
Prof. Dr. Jacopo Paffarini – (IMED/RS)
Prof. Dr. Horácio Wanderlei Rodrigues – (IMED/RS)
Prof. Dr. Fabrício Pontin (UNILASALLE/RS)
Prof. Dr. Sandro Flöhlich (UNIVATES/RS)
Prof. Dr. Karol Magón – (CUECCLD – Cracóvia)
Profa. Dra. Karen Fritz – (UPF/RS)
Profa. Dra. Daniela de Figueiredo Ribeiro – (UNIFACEF/SP)
Prof. Dr. Daniel Rubens Cenci – (UNIJUÍ/RS)
Prof. Dr. Cláudio Machado Maia (UNOCHAPECO/SC)
Profa. Dra. Caliane Christie Oliveira de Almeida Silva (IMED/RS)
Prof. Dr. Alcindo Neckel (IMED/RS)
Profa. Dra. Grace Tiberio Cardoso (IMED/RS)
Prof. Dr. Lauro André Ribeiro (IMED/RS)
Profa. Dra. Thaísa Leal da Silva (IMED/RS)
Profa. Dra. Lorena Freitas (UFPB/PB)
Prof. Dr. Enoque Feitosa (UFPB/PB)
Profa. Dra. Alina Celi Frugoni (Universidade de La Empresa - UDE/UY)
Prof. Dr. Marcos Miné Vanzella (UNISAL/SP)
Prof. Dr. Ricardo George de Araújo Silva (UEVA/CE)
Profa. Dra. Graciela Tonon (Universidade de Palermo/AR)
Profa. Dra. Izete Bagolin (PUC/RS)
Estudos sobre
Amartya Sen
Volume 9

Anais do IV Seminário Internacional


sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen

Organizadores:
Janine Taís Homem Echevarria Borba
José Carlos Kraemer Bortoloti
Ésio Francisco Salvetti
Diagramação: Marcelo A. S. Alves
Capa: Carole Kümmecke - https://www.conceptualeditora.com/

O padrão ortográfico e o sistema de citações e referências bibliográficas são prerrogativas de


cada autor. Da mesma forma, o conteúdo de cada capítulo é de inteira e exclusiva
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https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


BORBA, Janine Taís Homem Echevarria; BORTOLOTI, José Carlos Kraemer; SALVETTI, Ésio Francisco (Orgs.)

Estudos sobre Amartya Sem - Volume 9: Anais do IV Seminário Internacional sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen
[recurso eletrônico] / Janine Taís Homem Echevarria Borba; José Carlos Kraemer Bortoloti; Ésio Francisco Salvetti (Orgs.) -
- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2020.

675 p.

ISBN - 978-65-5917-006-7
DOI - 10.22350/9786559170067

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Direito, 2. Direitos fundamentais, 3. Estado, 4. Jurisdição. 5. Filosofia do direito I. Título. II. Série

CDD: 340
Índices para catálogo sistemático:
1. Direito 340
Sumário

Apresentação ............................................................................................................ 13
Ésio Francisco Salvetti
José Carlos Kraemer Bortoloti
Janine Taís Homem Echevarria Borba

Parte I
Justiça e escolhas sociais

1 ................................................................................................................................ 19
A condicionalidade da educação no programa bolsa família a partir do pensamento
de Amartya Sen
Denise De Sordi

2 ............................................................................................................................... 39
Como a argumentação pública em Amartya Sen, facilita a mediação autompositiva e
promove o bem-estar social
Neuri Antônio Boscatto
Neuro José Zambam

3 ................................................................................................................................54
Desenvolvimento e liberdade: a privação gerada pelo vício de jogos eletrônicos entre
o público infanto-juvenil
Gabriely Ostwald Haas
Thami Covatti Piaia

4................................................................................................................................ 67
Realização de direitos sociais e justiça social segundo Amartya Sen
Thiago Felipe S. Avanci

5 ............................................................................................................................... 89
Desigualdade social: a paralaxe brasileira e o ponto cego revelado pela pandemia,
reflexões a partir do conceito de capacitações de Amartya Sen
Talvanni Machado Ribeiro
Gustavo Polis
6............................................................................................................................... 99
Desenvolvimento social e justiça de gênero: uma análise pela abordagem das
capabilidades
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo
Fabrício Pontin

7 ...............................................................................................................................113
Mediação e (in) justiça: a importância da escolha no processo mediativo e o valor da
liberdade sob a compreensão de Amartya Sen
Simone Paula Vesoloski
Elisandra Fabrícia Bernstein

8 ............................................................................................................................. 128
O empobrecimento da economia como instrumento a partir da abordagem técnica e
factualista/materialista
Gabriel Fernandes Mafioletti
Fabrício Pontin

9.............................................................................................................................. 148
Os direitos fundamentais sob a perspectiva da justiça como equidade Ralwsiana e da
igualdade de capacidades de Amartya Sen
Elisandra Fabrícia Bernstein
Simone Paula Vesoloski

10 ............................................................................................................................ 165
Pluralidade, desigualdade e democracia no Brasil
Cássio Abreu da Rosa
Lenise da Silva Zanato

11 ............................................................................................................................. 184
O enfoque nas capabilidades de Amartya Sen: dificuldades vivenciadas pelos
privados de liberdade e a sua exacerbação com a crise sanitária da Covid-19
Vinícius Francisco Toazza
Régis Gobetti Bueno
Juliano Teixeira da Rocha

Parte II
Políticas públicas e seguridade social

12 ........................................................................................................................... 208
A relação democracia/desenvolvimento em Amartya Sen: uma análise do uso de
indicadores transnacionais na produção legislativa
Gustavo Polis
Talvanni Ribeiro Machado
13 ........................................................................................................................... 230
O trabalho remoto em tempos de pandemia da COVID 19
Robson Antão de Medeiros

14 ........................................................................................................................... 244
A renda cidadã como mecanismo de redução das desigualdades
Júlio César de Carvalho Pacheco
Gabriel Silveira Pacheco

15 ............................................................................................................................ 261
O auxílio emergencial: a implementação de direitos humanos no contexto da
pandemia do COVID-19
Laiana Karolina Demenech

16 ........................................................................................................................... 280
Política de seguridade social, coronavírus e privação de capacidade em Amartya Sen
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos
William Picolo Fibrans

17 ............................................................................................................................ 301
Proteção social dos trabalhadores uberizados na pandemia: análise dos fundos
financeiros de apoio a entregadores e motoristas
Nayana Shirado
Vanessa Shirado Barbosa

18 ........................................................................................................................... 324
Renda universal garantida e o debate de Sen sobre a liberdade econômica básica,
uma via de ampliação de direitos sociais
Juliana Queiroz Gontiès

19 ............................................................................................................................ 335
Segurança alimentar e pandemia: uma análise das medidas emergenciais de apoio à
agricultura familiar
Nayana Shirado
Vanessa Shirado Barbosa

20............................................................................................................................ 357
Seguridade social e o desenvolvimento das liberdades na perspectiva de Amartya Sen
Dandara de Souza Pereira
Zélia Luiza Pierdoná
Parte III
Fundamentos da dignidade humana, da condição de agente e de justiça

21 ............................................................................................................................374
Nunca me sonharam doutor: fundamentos da dignidade humana, da condição de
agente e da justiça em Amartya Sen
Emerson de Mello Soares

22 ............................................................................................................................387
A liberdade de escolha na relação médico-paciente como um instrumento garantidor da
ideia de justiça em Amartya Sen
Jarbas Paula de Souza Junior

24........................................................................................................................... 409
Amartya Sen: desenvolvimento, direito à educação e ao acesso à internet
Margarete Magda da Silveira
Janine Taís Homem Echevarria Borba
Neuro José Zambam

25 ............................................................................................................................427
Abordagem das capabilidades de Sen e a desigualdade de gênero
Raíssa Ramos
Fabrício Pontin

26........................................................................................................................... 438
As violências escolares e a perspectiva do desenvolvimento como liberdade
Marina Resende Girardi Marques
Daniela de Figueiredo Ribeiro

27 ........................................................................................................................... 460
Austeridade e políticas públicas: impactos sobre a condição de agente das mulheres
Rafaela Rovani de Linhares
Tássia A. Gervasoni

28 .......................................................................................................................... 480
Brasil: o desenvolvimento (in) sustentável durante a pandemia do COVID-19
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos
William Picolo Fibrans
29........................................................................................................................... 498
Entregadores de aplicativo e liberdade: uma análise da realidade laboral em meio a
pandemia do COVID-19 no Brasil a partir da teoria de Amartya Sen
Amanda Brum Porto
Giulia Signor

30............................................................................................................................ 515
Liberdade e desenvolvimento em Amartya Sen: interdependência e
complementaridade na realização humana e equidade social
Júlio César de Medeiro

Parte IV
Epistemologia, desenvolvimento e emancipação na América Latina

32 ............................................................................................................................ 533
A concepção de desenvolvimento em Amartya Sen: indicações para construir o ideal de
sustentabilidade social
Laura Spaniol Martinelli

33 ............................................................................................................................ 547
Amartya Sen e o choque de civilizações
Emannuel Henrich Reichert

34............................................................................................................................563
A apropriação do direito fundamental de acesso à justiça como ferramenta para o
desenvolvimento na perspectiva da teoria de Amartya Sen
Marco André Simm de Faveri
Rafael Fritzen
Luíza Seger

Parte V
Estudos de caso sobre políticas públicas e sociais

35 ............................................................................................................................578
A falta de moradia digna como limitador do desenvolvimento segundo Amartya Sen:
um estudo de caso de Passo Fundo/RS – Brasil
Sandrini Birk Belo
Pricila Spagnollo
Henrique Kujawa
36 ............................................................................................................................592
As repercussões das políticas indígenas no desenvolvimento destes povos: uma
análise a partir de Amartya Sen, no norte do Rio Grande do Sul
Milena Pereira
Henrique Kujawa
Caliane Almeida

37 ........................................................................................................................... 607
Os princípios da bioética e a COVID 19: questões biotecnológicas em discussões
Robson Antão de Medeiros

38........................................................................................................................... 620
Desigualdade social e segregação espacial: limitadores do desenvolvimento como
liberdade
Milena Ubel
Alina Gonçalves Santiago

39 ............................................................................................................................635
Ocupações irregulares em áreas de preservação permanente e o desafio da implantação
de políticas públicas
Daniela Maroni

40 ...........................................................................................................................656
Políticas de enfrentamento do tráfico de drogas no Brasil: análise do caso Tarcísio
em termos de funcionamentos e capacidades
Daniela de Figueiredo Ribeiro
Carlos Guedes Lopes Junior
Apresentação

Ésio Francisco Salvetti 1


José Carlos Kraemer Bortoloti 2
Janine Taís Homem Echevarria Borba 3

O IV Seminário Internacional sobre a Teoria da Justiça de Amartya


Sen é uma realização do Centro Brasileiro de Pesquisa sobre a Teoria da
Justiça de Amartya Sen, coordenado pelos professores Dr. Neuro José Zam-
bam e Dr. Henrique Aniceto Kujawa, da Faculdade Meridional - IMED -
conjuntamente com os Programas de Pós-graduação Stricto Sensu em Di-
reito e Arquitetura da referida instituição. O evento ocorreu no dia 14 de
setembro de 2020 e teve como objetivo refletir sobre o tema: escolhas so-
ciais, políticas públicas e desenvolvimento em Amartya Sen.
O Seminário contou com a participação de instituições nacionais de
ensino superior (Unijui, Unilasale, Universidade Federal de Paraíba, Uni-
versidade Federal de Pelotas, Uni-Facef, Fatec Franca, Makenzie, Univates,
URI-Santo Ângelo, Unichristus Fortaleza) e instituições internacionais
(Cambridge University - UK, Palermo - Argentina, Universidade De La
Empresa - Uruguai, Università degli Studi Mediterranea di Reggio Calabria
- Itália, Universidad Central de Venezuela, Uniwersytet Ekonomiczny w
Krakowie - Polônia, Facultad de Derecho Universidad de la Costa, Colom-
bia Extensión Villavicencio).

1
Membro do Centro Brasileiro de Pesquisa sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen, vinculado ao Programa de Pós-
graduação stricto sensu em Direito – PPGD/IMED.
2
Membro do Centro Brasileiro de Pesquisa sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen e do Grupo de Estudo Direitos
Culturais e Pluralismo Jurídico, ambos vinculados ao Programa de Pós-graduação stricto sensu em Direito –
PPGD/IMED.
3
Membro do Centro Brasileiro de Pesquisa sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen e do Grupo de Estudo Direitos
Culturais e Pluralismo Jurídico, ambos vinculados ao Programa de Pós-graduação stricto sensu em Direito –
PPGD/IMED.
14 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

O seminário contou com conferência geral que abordou o tema “Jus-


tiça Social e contribuições de Sen na atualidade”, tendo como
conferencistas os professores Dr. Neuro José Zambam (IMED), Dr. Flávio
Comim (Cambridge University - UK) e Dr. Karol Ryszkowski (UEK-PO).
Além das quatro mesas de debates que abordaram os seguintes temas: Es-
colhas sociais; Políticas públicas e desenvolvimento; Abordagem sobre
Democracia e Políticas Públicas na América Latina; Democracia, Políticas
Públicas e Justiça. No turno da tarde ocorreram apresentações de artigos,
os quais seguem publicados neste caderno.
Amartya Sen é um pesquisador economista indiano que por meio de
suas pesquisas e publicações, em 1998 recebeu o prêmio de Nobel em Eco-
nomia. Atualmente Sen é professor em universidades como Oxford,
Harvard, Cambridge, Berkeley, Stanford, Cornell, MIT, entre outras. Com
as traduções de suas obras, Sen tornou-se conhecido mundialmente. Seus
escritos foram traduzidos para vários idiomas e discutidos em todo o
mundo. Como economista e filósofo, contribuiu para transformar e rede-
finir os parâmetros da filosofia e economia contemporânea, o que se
evidencia por meio dos novos conceitos introduzidos por ele e que hoje são
imprescindíveis nas discussões da economia e filosofia política. Isso se
deve especialmente à forma inovadora pela qual vincula a Teoria da esco-
lha social de Adam Smith com a Teoria da justiça de John Rawls. As
produções de Amartya Sen concentram-se na relação entre filosofia, de-
mocracia, justiça e fundamentalmente a economia.
As contribuições teóricas de Amartya Sen se tornaram indispensáveis
no momento em que testemunhamos o aprofundamento de crises econô-
micas, retorno de autoritarismos e o crescimento da desigualdade social.
Nesse contexto, é importante salientar que Sen desenvolve temas que ten-
tam ir para além da teoria para contribuir no cotidiano das pessoas e
comunidades. A sua compreensão é que as ciências só fazem sentido se
puderem ser aplicadas ao mundo real, aos problemas enfrentados pela hu-
manidade. Foi com esse intuito que realizamos o IV Seminário
Internacional sobre Amartya Sen. Nesta quarta edição do Seminário o
Ésio Francisco Salvetti; José Carlos Kraemer Bortoloti; Janine Taís Homem Echevarria Borba | 15

tema norteador foi “escolhas sociais, políticas públicas e desenvolvimento


em Amartya Sen”. Temas caros para a contemporaneidade que apesar de
todas as produções e discussões percebe-se os avanços e os retrocessos.
O tema central do IV Seminário Internacional tem importância signi-
ficativa pois, nos aproxima de uma ideia de justiça, tema tão caro para
Amartya Sen. O debate sobre o tema vem precedido de alguns diagnósti-
cos, muito bem percebido pelo autor. Mesmo com todos os avanços
conquistados, um número imenso de pessoas em todo o mundo são víti-
mas de várias formas autoritárias de privação de liberdade. As fomes
coletivas, a falta de acesso a serviços de atenção básica à saúde, ao sanea-
mento básico ou a água tratada maculam diversas comunidades. Em
países considerados desenvolvidos as condições de vida de certos grupos
estão em níveis compatíveis com os de países em desenvolvimento. Do
mesmo modo, não se pode ignorar a desigualdade entre mulheres e ho-
mens e os reflexos decorrentes da carência de liberdades substantivas para
as mulheres.
Com base neste diagnóstico, levantam-se argumentos retóricos com
o objetivo de afirmar que a liberdade política e os direitos civis básicos são
uma espécie de “luxo” que apenas sociedades consideradas avançadas po-
dem ter, tese que fundamenta a ideia de que sistemas políticos autoritários
são necessários para a promoção do desenvolvimento econômico. Ou seja,
a retórica por detrás desta tese é que primeiro seria necessário enriquecer
um país, para posteriormente conferir maiores direitos e liberdades, pois
as necessidades econômicas são mais urgentes. Amartya Sen obviamente
refuta esses argumentos e entende que tanto a liberdade política, quanto
as liberdades civis são fundamentais.
As liberdades civis e políticas são tanto os meios, quanto os fins do
desenvolvimento humano. Nessa perspectiva, as liberdades políticas são
importantes também para a realização das necessidades econômicas, pois
estas dependem de discussões e debates públicos abertos, os quais, para
que possam ocorrer, demandam a garantia de liberdades políticas e de di-
reitos civis básicos.
16 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

As políticas públicas são mecanismos fundamentais para a superação


das desigualdades em vista das condições de justiça, o que contempla ações
concretas para diminuir o sofrimento real e imediato da população em
grave situação de exclusão, a efetivação dos objetivos constitucionais, o fo-
mento à prática da democracia - especialmente o exercício da liberdade,
da participação e das escolhas individuais - e ao equilíbrio social por meio
do atendimento às diferentes necessidades e demandas da população.
As garantias sociais para o exercício das liberdades são a referência
de Sen para a inclusão dos direitos de cidadania, ou seja, para dar condi-
ções reais de exercício das liberdades, consequentemente da condição de
agente do cidadão, quebrando a noção de progresso vinculado unicamente
com o domínio econômico, cujas estatísticas centram cada vez mais a con-
dição de agente a 5% de ricos que se apoderam da mesma quantia que a
soma dos demais 95%.
A inversão do quadro grave de violação da condição humana dos que
vivem em pobreza extrema, se dá por meio de oportunidades reais sociais
adequadas para que os indivíduos possam efetivamente moldar seu pró-
prio destino e ajudar uns aos outros. A questão crucial é que não há
possibilidade de oferta de oportunidades reais sociais aos cidadãos, en-
quanto não for possibilitada uma inversão do status de origem vinculado
à pobreza.
Constatar as diferenças, em que pese a amplitude de tais discrepân-
cias na realidade brasileira, tem o condão de atentar às consequências da
pobreza extrema. Muito embora Sen não vincule a renda como único con-
dicionante para expansão das liberdades substantivas, baixa renda e
pobreza extrema anulam a condição de agente daqueles que amargam tal
realidade.
O cidadão que emerge da pobreza tem possibilidade de lutar pela pro-
teção de sua dignidade, assim como, dotado de sua condição de agente,
resgata e dá sentido ao constituir pretendido pela Constituição brasileira
de 1988.
Ésio Francisco Salvetti; José Carlos Kraemer Bortoloti; Janine Taís Homem Echevarria Borba | 17

A cidadania não está atrelada a avaliações somente de referenciais


econômicos, de bem-estar ou mesmo de concepções ideais, mas orientada
para os cidadãos como sujeitos transformadores e protagonistas das mu-
danças da sua realidade, contexto e cultura cuja meta é a garantia das
condições de escolha.
Para Sen, portanto, a intensidade das necessidades econômicas au-
menta a urgência das liberdades políticas e dos direitos civis básicos. A
complexidade destes temas e a preocupação de Amartya Sen com a aplica-
bilidade e seus reflexos na condição da vida humana motivou a realização
deste seminário.
A Comissão Organizadora do IV Seminário Internacional sobre a Te-
oria da Justiça de Amartya Sen agradece a todos/as que se dispuseram a
promover o debate, mesmo que virtualmente, diante das condições impos-
tas pela pandemia do COVID 19. Este foi um momento importante, que
permitiu conhecer outras pesquisas e pesquisadores, estabelecer relações
acadêmicas e promover intercâmbios com outros pesquisadores e institui-
ções.
O presente Caderno reúne comunicações dos acadêmicos, professo-
res e pesquisadores que se disponibilizaram a apresentar suas pesquisas
no IV Seminário Internacional sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen.

Passo Fundo, RS, Brasil, Primavera de 2020.


Parte I

Justiça e escolhas sociais


1

A condicionalidade da educação no programa bolsa


família a partir do pensamento de Amartya Sen 1

Denise De Sordi 2

1. Introdução

Como um dos principais programas sociais brasileiros, o Programa


Bolsa Família deve ser analisado a partir do processo histórico de organi-
zação do acesso às políticas sociais que tem início na década de 1990 (DE
SORDI, 2019). Suas bases e princípios correspondem às referências teóri-
cas da concepção de “desenvolvimento de capital humano” que tiveram
grande influência na compreensão da pobreza enquanto fenômeno intrín-
seco ao desenvolvimento econômico.
Para o Bolsa Família, os objetivos de curto e longo prazo são os de
minorar a pobreza e romper com seu ciclo intergeracional. Para tanto, o
programa está organizado na seleção de seu público alvo a partir de cortes
de renda e na promoção de condicionalidades a serem cumpridas nas
áreas de saúde e de educação pelos sujeitos atendidos. A expectativa é de
que as condicionalidades oportunizem, pela via do Estado, possibilidades

1
Esse artigo apresenta parte dos resultados de pesquisa de estágio pós-doutoral desenvolvido entre 2019-2020, no
Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIUBE, sob supervisão do Prof. Dr. Wenceslau Gonçalves Neto em
diálogo com minha tese de Doutorado Reformas nos Programas Sociais brasileiros: Solidariedade, Pobreza e Controle
Social (1990-2014). Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-Graduação em Histó-
ria, 2019.
2
Doutora em História Social pelo PPGHI/UFU. Profa. substituta do ICH/UFU. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa
Experiências e Processos Sociais (GPEPS/CNPq/UFU), associada ao Grupo de Investigação História Global do Tra-
balho e dos Conflitos Sociais (IHC/UNL) e ao Observatório para as Condições de Vida e Trabalho (OCTV/IHC/UNL).
Membro do Grupo de Pesquisa Capabilidades, Cognição e Educação (GPECCs/UniLaSalle). E-mail: deni-
sends@me.com.
20 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

de escolhas que no longo prazo eliminarão desigualdades histórica e soci-


almente consolidadas.
No entanto, o Bolsa Família tem como ação imediata a distribuição
de quantias determinadas de dinheiro às famílias atendidas. O acesso à
renda é um dos principais parâmetros de avaliação da eficiência de gestão
do programa. Este parâmetro, ao ser largamente utilizado, está em oposi-
ção ao postulado por Sen (2010) de que apenas a renda não é suficiente
para analisar as dimensões e impactos da pobreza. Para serem eficientes
deveriam considerar o quadro de “privação social geral” decorrente da
condição de pobreza em conjunto com as privações vivenciadas pelos su-
jeitos (SEN, 2010, p. 17).
Nesse ínterim, objetiva-se analisar, por meio de revisão bibliográfica,
quais são as tendências de desenvolvimento como liberdade que estão co-
locadas no Bolsa Família a partir da relação entre acesso à renda e ao
ensino formal. Compreende-se que a associação entre a distribuição ime-
diata de dinheiro aliada ao acesso ao ensino formal constitui uma tentativa
de organização da política social, de modo que os resultados atingidos por
meio desta concepção de acesso não implicam, necessariamente, resulta-
dos globais de desenvolvimento social e humano por meio do programa.
Há o ofuscamento das condições materiais vividas pelas famílias
atendidas pelo programa, provocado pela homogeneização do atendi-
mento que pressupõe que ao acessar o ensino formal todos partiriam das
mesmas condições materiais. A individualização de expectativas de inser-
ção em atividades econômicas ou de acesso aos serviços sociais básicos, no
âmbito do Bolsa Família, está em descompasso com as expectativas sociais
pela ampliação da oferta de serviços básicos que poderiam impulsionar as
oportunidades ligadas ao acesso ao ensino formal.

2. Desenvolvimento de capital humano e desenvolvimento como


liberdade

A partir dos anos da década de 1990, medidas de combate à pobreza


e para a redução da desigualdade social foram sistematizadas como eixos
Denise De Sordi | 21

das recomendações de organismos internacionais, como o Banco Mundial


e o Fundo Monetário Internacional. Nesse ínterim, ações nas áreas sociais
para o combate à pobreza e para a redução da desigualdade social opera-
ram uma mudança crucial nas formas de responsabilização por condições
estruturantes próprias do estado capitalista e das políticas neoliberais. As
responsabilidades por condições estruturais têm, desde então, sido trans-
feridas para as dimensões individuais e particularizadas no campo de ação
dos sujeitos, em detrimento da abordagem sobre condições materiais de
vida como pertencentes ao campo das responsabilidades sociais.
A análise dos instrumentos de controle social (BEHRING;
BOSCHETTI, 2006) do Bolsa Família permite notar o deslocamento das
Políticas Sociais do terreno de embates ligados aos direitos sociais histori-
camente conquistados e consolidados – como potência para a modificação
de condições estruturais – para modelos de assistência social que explici-
tam a gestão das questões sociais como argumento para o crescimento e
controle econômicos. Modelos de assistência, portanto, focalizados e cen-
trados na transferência condicionada de dinheiro.
As formas de intervenção nas questões sociais têm sido aplicadas a
partir de programas sociais que condicionam o acesso aos direitos sociais,
nomeadamente nas áreas de educação, saúde e emprego. As condicionali-
dades, ou obrigações, a serem cumpridas pelos sujeitos que compõem o
público do Bolsa Família estão alinhadas à crítica neoliberal ao bem-estar,
de modo que correspondem ao “realinhamento ideológico” promovido
pelo “conhecimento sobre pobreza relacionado à ‘dependência’, ‘ilegitimi-
dade’, e transmissão ‘intergeracional’ como as áreas de maior crescimento
nas pesquisas e reformas” (MAURIEL, 2008, p. 211) dos organismos mul-
tilaterais.
O papel das condicionalidades, além da focalização em parcela da po-
pulação considerada pobre para o direcionamento do gasto público, está
em modelar respostas que legitimem a distribuição de recursos, configu-
radas como medidas anti-pobreza em médio e longo prazo. Deste modo, a
ação social passa a ser dirigida para a figura estigmatizada do pobre que
22 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

deve ter sua capacidade de inserção no mercado desenvolvida em acordo


com a teoria do capital humano, e a partir dos anos 2000, de forma inte-
grada à teoria do “desenvolvimento humano” (SEN, 2010).
No Brasil, essas teorias sociais foram aplicadas de modo contundente
e acompanharam as mudanças nas diretrizes teóricas e sociais de organis-
mos internacionais que conformaram as políticas sociais no viés de
programas compensatórios como expressão do processo neoliberal; de es-
vaziamento das relações de classe e, consequentemente, do poder
reivindicatório dos sujeitos. As progressivas reformas nos programas so-
ciais brasileiros (DE SORDI, 2019), que encontram uma espécie de fórmula
exemplar em contexto neoliberal com o Bolsa Família, desconsideram que:

À luz da visão mais fundamental de desenvolvimento como liberdade, esse


modo de apresentar a questão tende a passar ao largo da importante concep-
ção de que essas liberdades substantivas (ou seja, a liberdade de participação
política ou a oportunidade de receber educação básica ou assistência médica)
estão entre os componentes constitutivos do desenvolvimento. Sua relevância
para o desenvolvimento não deve ser estabelecida a posteriori. (SEN, 2010, p.
19)

Em contexto de aprofundamento das diretrizes neoliberais, quais-


quer análises sobre as formas de gestão dos programas sociais deve
considerar que “o neoliberalismo reinterpreta o processo histórico de cada
país”, para tanto: “os vilões do atraso econômico passam a ser [...] as con-
quistas sociais e tudo o que tenha a ver com a igualdade, com a equidade
e com a justiça social” (GENTILI; SADER, 2012, p. 147).
Nesse sentido, a caracterização do Bolsa Família evidencia as formas
de penetração social de tais diretrizes teóricas, políticas e econômicas que
informam as maneiras pelas quais se configura a reinterpretação das re-
lações entre classes frente à recomposição do papel do Estado através das
condicionalidades.
Denise De Sordi | 23

3. Programa Bolsa Família: “uma nova cultura institucional”

O Programa Bolsa Família3 é a expressão mais visível tanto da mu-


dança nas concepções que orientam o acesso aos direitos sociais quanto da
forma assumida pelos programas sociais no período da Nova República
brasileira.4 Criado com o objetivo prioritário de “combater a pobreza” e de
gerar condições para que as famílias enfrentem a vulnerabilidade social
via “benefício monetário que visa o atendimento de necessidades básicas”
e “pelo estabelecimento de condicionalidades que induzem o acesso
aos direitos sociais de segurança alimentar, saúde, educação e assistência
social” (BRASIL, 2003, grifos nossos).
A argumentação legal para sua criação baseou-se na identificação de
um “consenso” social em torno da “importância de programas de transfe-
rência de renda” às famílias pobres, ao apontar que programas anteriores,
criados nos anos de 1990,5 por terem sido desenvolvidos de forma inde-
pendente, não se constituíram “política dotada dos necessários atributos
de complementariedade e integralidade”, portanto, em favor da “raciona-
lidade, organicidade e efetividade do Estado na gestão e execução das ações

3
Criado em 2003, pela Medida Provisória (MP) n˚ 132, convertida na Lei 10.836/2004 – regulamentada pelo Decreto
5.209/2004.
4
Em 2015, data de comemoração dos doze anos de existência do Programa Bolsa Família (PBF), o Governo brasileiro
noticiou que “retirou 36 milhões de brasileiros da pobreza extrema” e que nenhuma das “13,9 milhões de famílias
atendidas pelo programa no país” estava abaixo da linha definida como de extrema pobreza “pelas Nações Unidas
como a de renda inferior a R$ 77 por mês por pessoa da família”. “Com um gasto anual de apenas 0,5% do Produto
Interno Bruto (PIB)” o PBF beneficiava cerca de “um em cada quatro brasileiros, ou seja, 50 milhões de pessoas”
(BRASIL, 2015). Aliado a outras medidas compreendidas como um conjunto de políticas públicas, o programa con-
tribuiu para que, pela primeira vez, no ano de 2014, o Brasil fosse retirado do Mapa da Fome divulgado pela
Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) (EXAME, 2018). Cabe ressaltar que, muito
além das operações de “pente fino” levadas a cabo pelo governo de Michel Temer, entre 2016 e fins de 2018, esse
cenário como um todo sofreu drástica mudança sob o governo de Jair M. Bolsonaro, a partir de 2019. Com o des-
manche das políticas de assistência social e de produção e distribuição de alimentos, de acordo com pesquisa
populacional realizada pelo IBGE em 2020, o Brasil voltou ao Mapa da Fome (SUDRÉ, 2020). Além do mais, o próprio
Bolsa Família está em disputa para que seja remodelado e integrado a outros benefícios relacionados ao trabalho e,
até então, assegurados pela Constituição de 1988.
5
Apesar da imagem autônoma que atingiu desde que veio a público com sua regulamentação em setembro de 2004,
o Bolsa Família deve ser localizado como uma ação de um dos eixos do Fome Zero. O lançamento do PBF se deu no
âmbito do Fome Zero com o destaque por ter unificado os programas sociais nacionais de Renda Mínima vinculada
à educação “Bolsa Escola” (2001), o Renda Mínima vinculado à saúde “Bolsa Alimentação” (2001) e o “Auxílio Gás”
(2002) – gestados durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e o programa de Acesso à Alimentação “Cartão
Alimentação” criado como uma das ações do Fome Zero em 2003, durante o governo Lula. A própria unificação
destes programas se deu pela discordância da área econômica e dos setores de oposição ao governo com o modelo
do Fome Zero, que previa ações de participação popular direta e para a promoção da soberania alimentar brasileira.
24 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

de transferência de renda”, o Bolsa Família significaria “uma nova cultura


institucional”, com um “inédito modelo de gestão” para o “enfrentamento
da pobreza” e para a “qualidade do gasto social” (BRASIL, 2003).
Enquanto um programa de alívio imediato de privações materiais bá-
sicas, ao ser articulado com ações da assistência social, o Bolsa Família
objetivou em longo prazo o estímulo ao desenvolvimento das famílias be-
neficiárias, com a interrupção do ciclo intergeracional da pobreza. Com o
Bolsa Família, na avaliação de Campello (2013, p. 19), “o Brasil pôde, en-
fim, recusar a banalização e naturalização da pobreza e da fome e afirmar
um novo patamar de garantias sociais, que exigem o reconhecimento e o
progressivo alargamento de padrões mínimos de bem-estar a todos os ci-
dadãos”.
A ideia de um padrão mínimo de bem-estar a todos os cidadãos é
questionável dentro dos limites do próprio Bolsa Família, que buscou mi-
norar os efeitos e riscos sociais gerados pela condição de pobreza. O bem-
estar nas atuais políticas sociais, orientadas pelo Programa das Nações
Unidas de Desenvolvimento (PNUD), deve ser compreendido a partir da
definição da pobreza “como falta de dotação”, que condiciona:

a elaboração das reformas nos sistemas protecionistas em todo o mundo por


meio de uma ‘nova geração de políticas sociais’ que não têm como resultado
um ‘bem público’, mas um ‘bem individual’, nem a função de produzir prote-
ção social, mas auto-proteção individual. Sob esse prisma, justiça social
também adquire outro significado: o de oportunizar a todos se capacitar, se
auto-cuidar e se inserir no mercado (MAURIEL, 2008, p. 166).

O Bolsa Família foi formulado em diálogo, principalmente, com o su-


porte técnico dos organismos que integram o Banco Mundial. O contrato
entre o Banco e o governo brasileiro priorizou a “avaliação, monitora-
mento, cadastro único e fortalecimento institucional”, de modo que não
haveria contrapartidas visto que o aporte dispendido e orçado seria de dez
por cento pelo Banco, sendo a outra parte, de noventa por cento, pelo pró-
prio governo, sob a justificativa de que “ao condicionar o dinheiro a gastos
Denise De Sordi | 25

com educação e saúde, é uma transferência pensando no futuro. Ele atende


também a pobreza do amanhã” (MURPHY, 2003, p. A-6).
Nesse sentido, o objetivo do Bolsa Família de interrupção do ciclo in-
tergeracional de pobreza tem relação com o deslocamento do bem-estar
relacionado ao trabalho, e que passa a utilizar a figura do pobre como sig-
nificante da categoria política da pobreza, que deve ser gerida e
administrada pelo Estado. Faz-se necessário, portanto, ofertar por meio
do programa um “incentivo”, com a exigência das condicionalidades, para
que os sujeitos atendidos desenvolvam a “autossuficiência”, desviando-se
da dependência do Estado e combatendo possíveis problemas decorrentes
da estrutura familiar.

4. A educação no programa Bolsa Família: ensino formal e


expectativas de mobilidade social

A condicionalidade da educação pode ser encarada como um dos pi-


lares do Bolsa Família, pois não só impulsiona a legitimação social e
política do Programa como também informa referências culturais de qua-
lificação pessoal para os sujeitos atendidos. A proposta é de que o acesso
ao ensino formal possibilite maiores e melhores oportunidades individuais
de escolha ao longo da vida dos sujeitos atendidos, promovendo, portanto,
a quebra dos ciclos intergeracionais de pobreza.
Com o Bolsa Família há a intenção de que a ação do Estado seja he-
gemônica, portanto, é preciso que a convergência para atitudes comuns
dos sujeitos atendidos seja mantida por meio do incentivo à participação e
à mudança de hábitos e valores, de forma mediada pelas relações culturais.
Nesse processo, ocorrem aprendizagens que seriam, como pontua Gohn
(2014, p.67) a “internalização de hábitos e valores transmitidos”.
A discussão sobre estes pontos não é retórica. De fato, foi formal-
mente organizada e pode ser identificada na “Agenda da Família”
distribuída aos beneficiários do programa pelo Ministério do Desenvolvi-
mento Social a partir de 2010. A Agenda trata dos assuntos ligados aos
26 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

compromissos que os beneficiários assumem através das condicionalida-


des, informa sobre o funcionamento do programa e sobre a
obrigatoriedade dos municípios em oferecer serviços básicos.
Entre os assuntos abordados na Agenda da Família vale notar o tópico
“Quais são as oportunidades para melhorar as condições de vida da sua
família?” (BRASIL, 2010, p. 28-29) que apresenta um personagem segu-
rando um cartão, que remete à carteira de trabalho brasileira, e um
caderno em alusão à educação.
No contexto de utilização desta imagem, ainda que o programa ofe-
reça como benefício imediato a transferência condicionada de dinheiro,
está presente a associação direta entre a melhoria das condições de vida
das famílias à educação e ao emprego. No tópico da Agenda sobre “opor-
tunidades para melhorar as condições de vida”, é informado que o
“Programa Bolsa Família procura promover outras ações com o objetivo
de melhorar a qualidade de vida das famílias beneficiárias”:

Muitas entidades da sua comunidade e dos governos do seu município e do


seu estado oferecem ações voltadas para o aumento da escolaridade, qualifi-
cação profissional, geração de trabalho e renda e melhoria das condições de
moradia. Informe-se sobre programas e ações desenvolvidos na sua cidade e
participe sempre que puder. (BRASIL, 2010, p. 28)

Neste tópico da Agenda há um entendimento a partir do qual o Bolsa


Família instrui ações e caminhos que os sujeitos devem seguir para atingir
o status de trabalhador qualificado com o “aumento da escolaridade” e a
“qualificação profissional”. Sendo estas também as responsabilidades
(contrapartidas) que estão colocadas como atitudes esperadas dos benefi-
ciários.
Duas questões que se inter-relacionam estão colocadas. A primeira,
refere-se ao pressuposto de que o emprego seria um fator instantâneo de
melhoria de vida, desconsiderando questões como baixos salários, contra-
tos temporários e/ou precários, dentre tantas outras condições de trabalho
possíveis. Isso implica ainda que a educação formal, realizada através da
frequência escolar, ou a habilitação para outras funções, realizada através
Denise De Sordi | 27

de cursos oferecidos agregaria “capital humano” que se traduziria em qua-


lificação profissional e, portanto, no aumento de oportunidades. A segunda
questão, refere-se ao fato de que, de acordo com pesquisas quantitativas
realizadas a partir de análises do CadÚnico, a maioria dos beneficiários do
Bolsa Família é de trabalhadores inseridos em empregos com alta rotati-
vidade, baixa remuneração e muitas vezes, mas não como regra, informais
(BARBOSA; CORSEUIL, 2013) O educador Miguel G. Arroyo debate o fato
de que políticas sociais são reguladas pelo conceito de redução das desi-
gualdades sociais de modo que pautam determinada “repolitização
conservadora da sociedade” que por sua vez ignora as relações consti-
tuídas entre os eixos das políticas e seu movimento social edificando
valores em torno da educação e do emprego,

“estude e terás emprego” “tire o diploma de ensino fundamental, médio e terás


trabalho”. O acesso ao trabalho como redutor das desigualdades. A inserção
social pela educação tem como mediação a inserção no trabalho. Quando essa
mediação do trabalho entra em crise, as desigualdades se aprofundam, e as
políticas educativas perdem significado (...). A articulação tão mecânica nas
políticas de acesso e permanência, ou de currículos por competências, tendo
como mediação o acesso ao trabalho, expõe essas políticas e sua relação com a
diminuição das desigualdades ao enfraquecimento até ao fracasso, sempre que
o trabalho entra em crise”. (ARROYO, 2010, p. 1398)

Na linha do que argumenta Arroyo, e subjacente à tentativa de arti-


culação do Bolsa Família com oportunidades, está a relação com o
entendimento de que a partir do momento em que todos fossem qualifica-
dos seriam incorporados pelo mercado de trabalho. Singer (2001, p. 422)
frisa, por exemplo, que isso não seria suficiente para promover a absorção
dos trabalhadores “se todos os trabalhadores desempregados incremen-
tassem seu nível de qualificação, o único resultado seria uma concorrência
mais intensa entre eles, com provável queda dos salários pagos”.
A educação como condicionalidade de programas sociais de trans-
ferência condicionada de renda, em seu argumento original, surgiu como
instrumento de combate ao trabalho infantil e, em certa medida, baseada
28 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

no pressuposto de que as famílias de trabalhadores não colocariam espon-


taneamente seus filhos na escola, como a análise do clássico debate entre
Suplicy e Camargo, que definiu a opção por uma Renda Mínima ao invés
de uma Renda Básica de Cidadania, permite evidenciar (DE SORDI, 2019).
No entanto, ao continuar como condicionalidade das políticas de as-
sistência social, passou a cumprir mais um papel de observação e vigilância
do que de promoção de um tipo de desenvolvimento humanístico ou de
um ensino de qualidade que possa equilibrar minimamente as relações
produtivas que estão dadas. O programa, ao identificar uma população
“pobre” - que não enfrenta dificuldades somente relacionadas ao acesso à
educação - em certa medida, afirma que a pobreza existe por diversos mo-
tivos. Elemento com o qual lida através do estabelecimento de
condicionalidades e compensação através do repasse do dinheiro.
Tal afirmação, que parece indicar a intenção de agir sobre causas es-
truturais, é consonante com as atuais concepções que compreendem a
pobreza como “fenômeno multifacetado” (termo muito utilizado em pes-
quisas sobre os impactos do Bolsa Família), para o qual a renda deve ser
considerada em conjunto com a promoção de “capacidades individuais” e
minoração do risco social. Dessa forma, mostra-se alinhada às concepções
teóricas presentes nas orientações do Banco Mundial na forma de uma
“teoria social”. Como é possível depreender a partir do que argumenta
Mauriel em diálogo com Vivian D. Ugá:

Nesse constructo teórico, o conceito sociológico de pobreza carrega essa raci-


onalidade da ‘capacidade/incapacidade’ [de inserção no mercado de trabalho]
e as respectivas estratégias de enfrentamento conformam um padrão de
política social voltado exclusivamente para a compensação. Assim, o combate
à pobreza no Banco Mundial refere-se a um conjunto de ações para ‘transfor-
mação do indivíduo incapaz em um indivíduo capaz e competitivo, por meio
do aumento de ‘capital humano’ (no relatório de 1990) ou de “capacidade hu-
mana” (no relatório de 2000-2001)” (MAURIEL, 2008, p. 223).

Na linha “capacidade/incapacidade” que também orienta práticas


políticas, é possível indicar que a orientação em promover o aumento do
Denise De Sordi | 29

“capital humano” enquanto transformação do indivíduo, acarreta a legiti-


mação de estigmas relacionados a ideia de trabalho em seu argumento
moralizador, por exemplo, o que relaciona o recebimento de benefícios a
um suposto “efeito preguiça”.
De acordo com Oliveira e Soares (2013) tal pressuposto tem como
base o entendimento de que: “um dos efeitos de outorgar um benefício
condicionado ao fato de uma família possuir baixa renda pode levar a aco-
modação e diminuição da oferta de trabalho em seus membros”. Segundo
os autores, os programas de transferência condicionada de renda “pos-
suem impactos pequenos sobre o mercado de trabalho, e que alguns desses
impactos, como a redução da jornada de trabalho das mães e o aumento
na probabilidade de trabalho para certos grupos são positivos”. Para os
pesquisadores, é bastante seguro afirmar que “não existe constatação
empírica que sustente a hipótese que haveria um efeito renda maior do
que um efeito substituição (fenômeno que recebeu a alcunha de ‘efeito
preguiça’), no caso destes programas” (OLIVEIRA; SOARES, 2013, p.341 e
p. 356).
Contudo, nota-se que o “efeito preguiça” é um dos estigmas que estão
sustentados em impressões e valores que foram interpretados socialmente
mediante práticas filantrópicas e princípios de programas sociais anterio-
res que coexistem com as “novas” práticas, as quais se alega instituir em
um formato que estaria livre delas.
Na dimensão da construção e manutenção de estigmas, cabe notar o
PL 286/2009 de Cristovam Buarque – responsável pela implantação do
Bolsa Escola no Distrito Federal, em 1995 - que propôs que o nome do
Programa Bolsa Família seja alterado para Programa Bolsa Escola. A jus-
tificativa se dá pelo “papel de instrumento educacional” do PBF ao vincular
o recebimento do benefício à frequência escolar. De acordo com Buarque,

ao substituir o nome “Escola” por “Família”, o programa retira a ênfase edu-


cacional. Ao dizer que recebia a Bolsa Escola, a família vinculava
automaticamente a remuneração ao processo educacional de suas crianças. Ao
dizer que recebe a Bolsa Família, ela vincula o valor recebido ao quadro de
30 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

pobreza em que se encontra. “Recebo a Bolsa Escola porque meus filhos vão à
escola e graças a isto sairemos da pobreza”, dizia a mãe antes; “Recebo o Bolsa
Família porque minha família é pobre. E se sairmos da pobreza vamos perder
a Bolsa”, dizem hoje. A volta ao nome de Bolsa Escola certamente vai colaborar
para revincular o programa Bolsa Família ao seu intento educacional previsto
no artigo 3o da lei no 10.836, de 2004 que a criou. (BRASIL, 2009)

Neste excerto, há uma clara disputa em torno das prerrogativas e


identificação política dos referidos programas. Somado a isso, e principal-
mente, há a associação entre o nome do programa e sua funcionalidade.
Este é um debate que parte do princípio de que, ao se utilizar do meca-
nismo de transferência de dinheiro, a proposta anunciada pelo nome
escolhido deve incorrer em uma distinta concepção sobre formas de acesso
as políticas e direitos sociais. Sugere ainda, a ideia de um suposto efeito de
acomodação em relação ao recebimento do benefício: “‘se sairmos da po-
breza vamos perder a Bolsa, dizem hoje’”. A proposta de revincular o
programa “ao seu intento educacional” centra-se no argumento de neces-
sidade de funcionalização (e merecimento) do recebimento do benefício e
do acesso à educação.
Silva et. al (2014, p. 220) registram como avaliação do sistema edu-
cacional, visto pela ótica dos programas de transferência condicionada de
renda mínima que, além de se considerar que o rompimento do ciclo in-
tergeracional da pobreza deve estar centrado em melhores condições de
acesso à educação, é preciso “considerar que a causa estrutural da pobreza
no Brasil é a desigualdade na distribuição da renda e da riqueza social-
mente produzida mais do que a incapacidade de geração de renda”.
Trabalho e educação, no cenário do Bolsa Família, apresentam-se
transmutados de suas possibilidades de emancipação humana – e de um
valor significativo de dignidade para os sujeitos - para o controle das pos-
sibilidades sociais em prol de objetivos localizados na dimensão do
desenvolvimento econômico. Uma carta enviada ao presidente Lula e
transcrita por Cohn (2012, p. 61) registrava:
Denise De Sordi | 31

‘Senhor presidente uma ajuda ela se acaba; o que necessito é de um emprego


que garanta minha vida, sem que eu possa estender a mão e pedir uma esmola.
Me ajude; falo com o sentimento de minha alma, dei-me um emprego para
lavar chão, mas que eu trabalhe com dignidade’.

Pesquisas qualitativas têm apontado que o desemprego é um dos


maiores fatores de instabilidade para os beneficiários do programa. Como
registrado por Serapião (2018, p. 99): “todas as famílias possuíam pelo
menos um membro procurando ativamente trabalho”. Como registrou a
pesquisadora, uma das críticas frequentes do público atendido, é de que o
programa “não ajuda a acessar trabalho”. Uma das pessoas entrevistadas
pela autora chega a afirmar: “‘deveria dar mais trabalho, ao invés de dar
100 reais; pois trabalho dá autoestima e conhecimento’” (SERAPIÃO, 2018,
p.125). Uma mulher entrevistada por Rego e Pinzani (2014, p. 141) afir-
mou: “Olha, o que nós queremos, a mudança, é de uma vida melhor, eu
queria mesmo ganhar é a suado meu salário, que tivesse que trabalhar,
toda mãe quer isso para seus filhos, sua família, sua casa”.
É preciso ressaltar que a crítica à condicionalidade da educação, não
significa a crítica à universalização da educação enquanto um Direito So-
cial, mas sim, uma tentativa de interrogar e organizar a análise dos
impactos desta condicionalidade no médio e longo prazo, compreendendo
seus princípios de implementação e as formas como é avaliada. Trata-se
de avaliar o tipo e as condições de acesso ao ensino formal que estão a ser
ofertados aos sujeitos atendidos.
Esta é uma dimensão importante, ainda mais se considerarmos que
índices como o IDH priorizam a renda, a expectativa de vida e a educação.
Como afirma Sen: “o problema da desigualdade, realmente se magnifica
quando a atenção é desviada da desigualdade de renda para a desigualdade
na distribuição de liberdades substantivas e capacidades” (SEN, 2000, p.
144). Ao reconhecer que uma das principais causas da pobreza é a baixa
renda, Sen também reconhece como de igual importância a expansão das
capabilidades para que as pessoas possam levar “o tipo de vida que elas
valorizam” (SEN, 2010, p. 33). Para o autor, as capabilidades podem “ser
32 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

aumentadas pela política pública, mas também, por outro lado, a direção
da política pública pode ser influenciada pelo uso efetivo das capacidades
participativas do povo” (SEN, 2010, p. 33).
Diferentemente do proposto por Sen, as formas de avaliação dos pro-
gramas sociais brasileiros não se ocupam da medição da expansão e da
qualidade dos serviços sociais que são ofertados junto ao crescimento eco-
nômico, de modo que ao homogeneizar o atendimento a seu público alvo,
os princípios que modelam os programas sociais tendem a consideram que
ao acessar o ensino formal, todos partem das mesmas condições materiais
e de desenvolvimento. É ainda nessa perspectiva, pode-se pontuar, que
Nussbaum (2015, p. 12 e 15) diferencia a educação que atende aos pressu-
postos mediados pelo lucro e a educação para a cidadania como parte
fundamental do desenvolvimento e sustentação de sistemas democráticos.
Para a autora, “nenhum sistema educacional funciona bem se seus bene-
fícios só alcançam as elites abastadas”, de modo que “produzir
desenvolvimento econômico não significa produzir democracia”.
Se considerarmos que Sen, não necessariamente se ocupa de propos-
tas que mexam na distribuição de renda, mas sim, de uma perspectiva de
reformas dos postulados neoliberais que visam oferecer oportunidades so-
ciais através de políticas públicas básicas e focalizadas, de modo que os
agentes individuais possam obter renda e opções de escolha maiores e me-
lhores na economia de mercado, podemos considerar que quando se trata
das condicionalidades, especificamente da de educação no âmbito do Bolsa
Família, o foco ainda está em sua utilidade (SEN, 2010, p. 34) e não na
constituição de liberdades dos agentes.
Esta é uma afirmação possível quando notamos que o Bolsa Família
representa um conjunto de experiências sociais e políticas que encontram
suas primeiras propostas nos anos de 1990 e que se cristalizam na pri-
meira década dos anos 2000 (DE SORDI, 2019). Nesse sentido, pensar o
“desenvolvimento como liberdade” pode ser um impulso para a remode-
lação de ordens de importância no desenvolvimento e aplicação deste tipo
de programa social.
Denise De Sordi | 33

A associação entre a distribuição imediata de dinheiro aliada ao


acesso ao ensino formal constitui uma tentativa de organização da política
social, e desconsidera que os resultados atingidos por meio desta concep-
ção de acesso não implicam, necessariamente, melhoria imediata ou
inserção e desenvolvimento de liberdades para atuar e escolher como
atuar em atividades econômicas. Isto significa dizer que no Brasil, as con-
dicionalidades têm cumprido um papel de suporte ao controle dos
antagonismos de classe provocados pelo abismo social caracterizado pela
concentração de renda no país. Nesse sentido, o programa elege determi-
nadas escolhas sociais que estão diretamente relacionadas à gestão das
condições de vida de grande parcela da população, e que possuem alto im-
pacto na forma não só de avaliação, mas de significação do papel deste
programa no interior da sociedade brasileira.
Ao passo em que se observa certa funcionalização do papel social da
educação para a inserção em determinadas atividades econômicas, as di-
mensões que estruturam e organizam o trabalho e, portanto, a vida social,
são deslocadas do terreno de atuação dos programas sociais.
Trabalho - como a dimensão da oportunização da renda e também
da expectativa de vida - e educação, no cenário dos programas sociais de
transferência condicionada de renda, apresentam-se transmutados de
suas possibilidades de emancipação humana – e de um valor significativo
de dignidade para os sujeitos – para o controle das possibilidades sociais
em prol de objetivos localizados na dimensão do desenvolvimento
econômico, como prioridade.

5. Considerações finais

Observa-se que o que PBF tem conseguido atingir em um cenário


macro é, em geral, a transferência condicionada de renda como alívio a
condições de pobreza extrema, desemprego temporário ou complementa-
ridade a baixos salários, articulados com a manutenção de uma rede
mínima de atenção à saúde e à educação que focaliza a promoção do acesso
34 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

aos direitos sociais através do argumento de “melhoria de vida” e “qualifi-


cação profissional”.
Da avaliação dos beneficiários, que tem aparecido em pesquisas
empíricas, a transferência de renda não é a única, nem a mais importante
entrada de renda (SERAPIÃO, 2018, p. 144) mas é a única estável frente as
dinâmicas estabelecidas pela gestão local do programa, com a qual os su-
jeitos podem contar para realizar o mínimo de planejamento. Como
registrou Braga “De fato, sabemos que durante os governos de Lula da
Silva, 2,1 milhões de empregos formais foram criados no país todos os
anos. No entanto, desses 2,1 milhões de empregos formais, 2 milhões re-
muneram até 1,5 salário mínimo” (2016, p.56).
Nesse ínterim, cabe pontuar que entre os anos de 2011 e 2014 (go-
verno de Dilma V. Rousseff, do PT) o Brasil contou com taxas de
desocupação próximas de 4,5%,442 consideradas como um cenário de
pleno emprego (SINGER, 2018, p. 68). No entanto, o número de famílias
atendidas pelo PBF nesse período foi, em média, de 13,8 milhões (DE
SORDI, 2019, p. 165).
As condicionalidades têm um papel importante na tentativa de acei-
tação social do Bolsa Família e em coadunar as concepções sobre as “portas
de saída” da condição de pobreza. Na prática, cidadania e direitos sociais
são vinculados e transformados em um dos benefícios do programa: as
condicionalidades, ou seja, os direitos sociais, são entregues ao seu público
alvo como serviços sociais.
Observadas como mecanismo de legitimação do Bolsa Família, as
condicionalidades e a fiscalização pelos serviços de assistência social, per-
mitem notar que esta apropriação do controle social, antes uma forma de
controle democrático (BEHRING; BOSCHETTI, 2006), é transmutada
para o controle da oferta de serviços delimitada por metas de atendimento
do programa, o que também justifica a implementação da focalização. Este
é um ponto de distorção importante deste modelo de programa social pois
acaba por promover o tensionamento dos instrumentos de controle social
para instrumentos de fiscalização, corroborando
Denise De Sordi | 35

a generalizada tentação dos responsáveis pela política de sintonizar suas deci-


sões de modo a atender aos interesses de um ‘público-alvo’ (e assim contentar
o segmento ‘ideal’ de uma população supostamente inerte) até temas funda-
mentais como tentativas de dissociar a atuação dos governos dos processo de
fiscalização e rejeição democráticas (e do exercício participativo dos direitos
políticos e civis). (SEN, 2010, p. 34)

Como notado em avaliação do Banco Mundial (2017), dentre outros


aspectos, as condicionalidades contribuem para desconstruir mitos em
torno da corrupção moral no uso do dinheiro pelos beneficiários (em be-
bidas e jogos) e na dependência destes em relação ao PBF, o que em longo
prazo tornou a ideia do programa aceita pela mídia, a academia, outros
partidos, bases de apoio do governo e na sociedade civil. Esta estrutura do
Bolsa Família permite que ele seja defendido por “vários segmentos da so-
ciedade e praticamente todas as tendências e partidos políticos” (DE
LORENZO, 2013, p. 398).
Ainda que tais avaliações possam ser compreendidas como algo po-
sitivo, é preciso notar que esta é uma característica importante da
penetração cultural das teorias sociais neoliberais que modelam as políti-
cas sociais atualmente. No caso do Bolsa Família, ao passo que as
condicionalidades entregam aos sujeitos atendidos o acesso focalizado aos
direitos, também informam à sociedade em geral que estes não recebem o
dinheiro de forma passiva e que as condicionalidades cumprem o papel de
corrigir possíveis desvios no desenvolvimento e inserção social dos sujei-
tos. No entanto, os limites para o desenvolvimento da potencialidade de
agência dos sujeitos permanecem circunscritos aos acordos que devem
aceitar ao acessar o programa.
Em países caracterizados pela alta concentração de renda como o
Brasil, tal entendimento abre espaços para que, em certa medida – não
completamente determinante –, relações sociais pautadas por certo con-
servadorismo, se manifestem nas formas de controle social e gestão
institucional de parcela da população identificada como pobre e, portanto,
sujeita a tipos de fiscalização que são também morais. Há posturas, papéis,
36 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

formas de se viver, consumir e trabalhar que são consideradas marcadores


de certa imagem que identifica os “pobres”, arranhões nesta imagem po-
dem se transformar em maior exclusão por, supostamente, identificarem
condições materiais de vida que não se encaixam na imagem da figura do
“pobre” projetada por programas sociais deste tipo. Como pontua Sen
(2010, p. 35) “o papel da renda e da riqueza – ainda que seja importantís-
simo, juntamente com outras influências – tem de ser integrado a um
quadro mais amplo e completo de êxito e privação”.

Referências

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2

Como a argumentação pública em Amartya Sen, facilita a


mediação autompositiva e promove o bem-estar social

Neuri Antônio Boscatto 1


Neuro José Zambam 2

1 Introdução

A mediação, quando oportunizada às partes em conflito, auxilia na


aproximação e no diálogo argumentativo, fazendo com que a comunicação
entre estes seja melhorada e por meio autompositivo, pode surgir um
acordo. Para que seja possível a realização de uma sessão de mediação, faz-
se necessários que as partes ali apresentadas tenham capacidade e condi-
ções para expor suas controvérsias de maneira livre, com argumentação
promissora e clara para a busca de um entendimento.

1
Mestrando em Direito IMED/2019 – Linha de pesquisa Fundamentos do Direito, da Democracia e da Sustentabili-
dade. Membro do Centro Brasileiro de Pesquisas sobre a Teoria de Amartya Sen: interfaces com direito, políticas de
desenvolvimento e democracia. Especialista em Direito do Trabalho e Processo Trabalhista. Atua no Direito – Civil,
Família, Trabalho, Trânsito, Consumidor, Previdenciário, Empresarial e Ciências Jurídicas. Formado em Direito pela
Faculdade IMED e pós-graduado em Direito do Trabalho e Processo Trabalhista, pela Faculdade Uninter. Conciliador
Criminal, certificado pela Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul (AJURIS). Conciliador Judicial, Me-
diador Cível Judicial, Mediador Judicial de Família, registrado no Cadastro Nacional de Mediadores Judiciais e
Conciliadores do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Membro da Comissão Especial de Trânsito da OAB/RS da Sub-
seção de Passo Fundo-RS, Membro da Comissão Especial de Mediação da OAB/RS da Subseção de Passo Fundo-RS,
Delegado OAB-Prev da Subseção de Passo Fundo-RS. E-mail: neuriboscatto@gmail.com.
2
Pós-doutor em Filosofia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Doutor em Filosofia pela PUCRS.
Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Faculdade Meridional – IMED – Mestrado. Professor do
Curso de Direito (graduação e especialização) da IMED de Passo Fundo. Membro do Grupo de Trabalho, Ética e
cidadania da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF). Pesquisador da Faculdade
Meridional. Líder do Grupo de Estudo Multiculturalismo e Pluralismo Jurídico. Coordenador do Centro Brasileiro de
Pesquisas sobre a Teoria da Justiça de Amartya Sen: interfaces com direito, políticas de desenvolvimento e democra-
cia. E-mail: neuro.zambam@imed.edu.br; neurojose@hotmail.com.
40 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

A argumentação pode estar diretamente relacionada com a maneira


de como as pessoas tratam-se umas às outras, analisando vários funda-
mentos mantendo o respeito e a tolerância, pois somos racionais. Devemos
raciocinar sobre nossos próprios erros e buscar aprender com eles e “[…]
não repeti-los, da maneira como o grande escritor japonês Kenzaburo Oe,
espera que a nação japonesa continue comprometida com a ‘ideia de de-
mocracia e determinação de nunca travar uma guerra de novo’ […] (Sen,
2011, p. 76).
O convívio em sociedade gera conflitos, pois a pluralidade é uma ca-
racterística própria; as pessoas pensam de forma diferente e, em algumas
situações, esses conflitos geram discórdia. A comunicação é a ferramenta
adequada para uma possível solução. Todavia em algumas situações é ne-
cessário a busca do Estado, que, na figura do juiz, recebe a controvérsia e
aplica a sentença. Quando a decisão é tomada (pela sentença), nem sempre
satisfaz as duas partes envolvidas, ou seja, um ganha, outro perde. Con-
tudo, a mediação pode auxiliar a encontrarem um acordo possível pelo
meio autompositivo (onde as partes decidem sobre suas vidas e como que-
rem resolver, construindo este acordo). Para tanto, estes atores precisam
ter condições reais para participação numa sessão de mediação e concilia-
ção com uma comunicação argumentativa, por meio do diálogo e da razão.
E, assim, exercer o papel de protagonista de suas próprias vidas e das de-
cisões que construirão em conjunto no presente e no futuro, buscando a
sua melhor escolha social, seu bem-estar. A figura do mediador ou conci-
liador como terceiro imparcial promove essa aproximação e conduz os
atores a uma possível solução autocompositiva, sem ingresso ao Poder Ju-
diciário por meio de uma demanda, mas por intermédio de um pré-
processo.
O objetivo deste trabalho, é entender como é possível a argumentação
pública em Amartya Sen, auxiliar no procedimento de mediação autocom-
positiva, com ênfase, na mediação pré-processual, promovendo o bem-
estar social. Auxiliando no exercício de liberdade primado pela Constitui-
ção Federal de 1988, na qual o Estado tem o dever de auxiliar a sociedade
Neuri Antônio Boscatto; Neuro José Zambam | 41

e proporcionar-lhe a oportunidade de conduzir suas vidas, fazendo esco-


lhas essenciais e ampliando suas capacitações (capabilities). Segundo Sen,
“a argumentação é uma fonte robusta de esperança e confiança em um
mundo obscurecido por atos sombrios – passados e presentes” (2011, p.
76).
Nesse sentido, para a avaliação proposta, se utilizará o método de
abordagem indutivo buscando-se, afirmar a mediação pré-processual
como uma ferramenta com resultados positivos, baseada na comunicação
e argumentação entre os atores envolvidos em conflitos. Utiliza-se como
técnica procedimental a pesquisa bibliográfica, iniciando-se pelas leis que
tratam os métodos autocompositivos e pesquisa junto aos órgãos judiciais
competentes. A fundamentação de argumentação pública e capacitações
(capabilities) nas obras “A ideia de justiça” e “A Escolha coletiva e bem-
estar social” de Amartya Sen, bem como as resoluções do CNJ e leis vigente
será buscado em seguida. Este artigo será dividido em três capítulos.
O primeiro capítulo abordará os conceitos sobre mediação concilia-
ção, autocomposição. O segundo capítulo descreverá brevemente as
políticas públicas da mediação, como a resolução 125/2010, a lei da medi-
ação 13.140/2015 e o Novo CPC Lei 13.105/2015. No capítulo final se
abordará a argumentação pública de Amartya Sen, como facilitadora para
a promoção da mediação pré-processual, autocompositiva. Será utilizado
como referencial teórico a concepção de justiça de Amartya Sen, especifi-
camente a abordagem da argumentação pública e das capacitações
(capabilities), cuja ampliação contribui para a melhoria da liberdade de
escolha.

2 Políticas públicas da mediação, como a resolução 125/2010, a Lei da


Mediação 13.140/2015 e o novo CPC Lei 13.105/2015

Os métodos autocompositivos de mediação e conciliação foram intro-


duzidos no ordenamento brasileiro com sua história ligada diretamente ao
movimento de acesso à justiça, os quais ainda na década de 70 tiveram
42 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

seus primeiros passos para a busca de soluções de conflitos auxiliando na


melhoria das relações sociais da época (BRASIL, 2009, p. 21).
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deu origem à previsão sobre a
matéria de mediação e conciliação judicial, com regras para a criação de
Núcleos Permanentes de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos
(NUPEMECs) e Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania
(CEJUSCs). (BOSCATTO, 2020).
A publicação da Lei 13.140, de 25 de junho de 2015, e do Código de
Processo Civil (Lei 13.105/2015), adicionou uma nova forma para o trata-
mento de conflitos, com métodos específicos em busca de maior celeridade
ao Judiciário. Um novo caminho surgiu para a resolução de conflitos, com
a autocomposição e a utilização dos métodos de mediação e conciliação,
que não trazem o poder de coerção advindo da presença do Juiz, com apli-
cação de sentença, e sim com a atuação de um terceiro, imparcial, neutro
ao conflito.
Os conflitos sociais fazem parte da realidade. Eles não são relativos
apenas à distribuição de bens, mas envolvem a diversidade que constitui a
sociedade, cujos membros têm planos e vidas diferentes, como crença, re-
ligião, concepções políticas e sociais. (ZAMBAM, 2004, p. 50).
Todavia, segundo Warat (2004, p. 11), o conflito estatal é manifestado
pelo litígio, segundo o qual o Estado juiz aponta a decisão correta, a lei
aplicada ao caso, sendo uma visão desqualificada e variada sob o remédio-
simulacro chamada processo. Para Vasconcelos (2012, p. 21), o conflito é
dissenso; trata-se de valores contrariados da contingência humana, algo
natural, fenômeno inerente às relações humanas com posições divergen-
tes de condutas que envolvem valores ou interesses comuns.
Com a publicação da Lei 13.140/15, de 25 de junho de 2015, e a Lei de
Mediação, Lei 13.105/15, evidenciou-se uma nova realidade para o Judiciá-
rio do século XXI, com o intuito de diminuir o número de processos,
abrindo um novo caminho para a resolução de conflitos, com a possibili-
dade da autocomposição.
Neuri Antônio Boscatto; Neuro José Zambam | 43

A Lei 13.105/15 (novo Código de Processo Civil) condiciona os inte-


ressados em uma demanda judicial a indicar se desejam ou não que seja
encaminhado para mediação ou conciliação. Isso está previsto em seu ar-
tigo 334º3, parágrafo 5º, devendo o autor, obrigatoriamente, indicar o
desinteresse ou interesse na mediação ou conciliação. E, sendo designada
a audiência de mediação ou conciliação, o não comparecimento das partes
pode ser considerado ato atentatório à dignidade da justiça e poderá ser
punido com multa, expresso no parágrafo 8º deste artigo.
De tal modo, os métodos autocompositivos de mediação e conciliação
consistem na melhoria da comunicação entre as partes, desde o emissor,
o canal pelo qual a mensagem é transmitida, até o receptor. Muitas vezes
ocorrem falhas nos elementos transmitidos entre as partes. Ou seja, a co-
municação entre elas tem que ser simples e objetiva. Em certas situações,
as partes não conseguem expressar-se de forma que a mensagem que que-
rem transmitir seja entendida. Essa falta de clareza é a falha na
comunicação. A explicação detalhada do conflito é fundamental para re-
solvê-lo, o que comprova a importância da mediação e conciliação, que
auxiliam na comunicação entre as partes.
Segundo a Agência CNJ de Notícias do Conselho Nacional de Justiça
(2020), por ocasião da Semana Nacional de Conciliação, em 2019, o Minis-
tro do STF Dias Toffoli, falou da importância da política de tratamento de
conflitos, trazidas pela Resolução 125/2010 do CNJ, a Lei da Mediação e o
Código de Processo Civil. O que evidencia a consolidação da mediação e da
conciliação como política pública de resolução de conflitos na Justiça bra-
sileira na adoção da autocomposição.

Dias Toffoli lembrou o salto verificado nas estatísticas de desempenho da Se-


mana Nacional da Conciliação. Na edição de 2017, realizaram-se quase quatro

3
(CPC) Art. 334. Se a petição inicial preencher os requisitos essenciais e não for o caso de improcedência liminar do
pedido, o juiz designará audiência de conciliação ou de mediação com antecedência mínima de 30 (trinta) dias, de-
vendo ser citado o réu com pelo menos 20 (vinte) dias de antecedência. [...] § 5º O autor deverá indicar, na petição
inicial, seu desinteresse na autocomposição, e o réu deverá fazê-lo, por petição, apresentada com 10 (dez) dias de
antecedência, contados da data da audiência. [...] § 7º A audiência de conciliação ou de mediação pode realizar-se
por meio eletrônico, nos termos da lei. § 8º O não comparecimento injustificado do autor ou do réu à audiência de
conciliação é considerado ato atentatório à dignidade da justiça e será sancionado com multa de até dois por cento
da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa, revertida em favor da União ou do Estado.
44 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

vezes mais audiências em relação à primeira edição da semana, ocorrida 11


anos antes. Enquanto em 2006 aconteceram 83.987 dessas audiências, na edi-
ção do ano passado da Semana foram realizadas 321.103 audiências. ‘Pode-se
dizer que a Semana Nacional de Conciliação está consolidada no calendário do
Poder Judiciário Nacional como ação a promover a Política de Tratamento
Adequado dos Conflitos de Interesse, consubstanciada na Resolução CNJ n.
125, de 2010’, afirmou o ministro, em referência à resolução normativa que
primeiro regulamentou a política pública da mediação e conciliação no Poder
Judiciário. A iniciativa do CNJ, que completará oito anos de existência no fim
deste mês, seria acompanhada anos depois por alterações legislativas aprova-
das pelo Congresso Nacional. ‘A conciliação e a mediação, inseridas na política
permanente do CNJ de incentivo e aperfeiçoamento dos mecanismos consen-
suais de solução de litígios, estão atualmente albergadas pelo novo Código de
Processo Civil e pela Lei n. 13.140, conhecida como Lei da Mediação (ambos de
2015)’, disse o ministro. A criação de Centros Judiciários de Solução de Confli-
tos e Cidadania (Cejuscs) em tribunais de todo o país também foi citada como
medida do sucesso da política autocompositiva. São esses centros as unidades
responsáveis por propor às partes litigantes que tratem de suas disputas em
sessões e audiências de conciliação e mediação, além de atender e orientar o
cidadão. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2020).

Nesse sentido, a autocomposição, como mencionado anteriormente,


promove o tratamento adequado dos conflitos, em que os atores são os
protagonistas e buscam a solução para a demanda apresentada. Política
esta que vem se consolidando e auxiliando o Judiciário na composição de
acordos.
Em várias situações, uma sentença pode ser boa para um lado, mas
ruim para o outro, dificilmente agradando ambos os atores envolvidos no
conflito. Segundo Toffoli, os protagonistas são as partes, as quais podem,
em conjunto, construir um acordo que venha a satisfazer a ambas, não
dependendo de uma sentença na qual o juiz impõe o seu entendimento,
geralmente divergente para um dos atores do conflito. Todavia, a auto-
composição contribui para este fim, e, de acordo com Warat, (2004, p. 58),
trata-se de “um processo em que as partes envolvidas no conflito, buscam
um acordo possível de ser alcançado, olhando sempre para o futuro da
própria relação entre as partes [...]”.
Neuri Antônio Boscatto; Neuro José Zambam | 45

O papel do mediador ou conciliador é justamente promover esse au-


xílio, aproximando os atores para que eles, como protagonistas, cheguem
a um possível entendimento. “[...] O mediador estimula cada membro do
conflito para que encontrem junto, o roteiro que vão seguir para sair da
encruzilhada e recomeçar a andar pela vida com outras disposições”
(WARAT, 2004, p. 58).
Assim, uma das formas de mediação ou conciliação utilizada pelo Ju-
diciário é a pré-processual, que representa uma maneira para que a
sociedade num todo, de forma célere, possa buscar o Poder Judiciário por
meio dos Cejuscs de cada comarca, que aproximam as partes, ajudando a
evoluir a comunicação para possível solução ao tema apresentado.
A mediação e a conciliação pré-processual, como o nome mesmo diz,
não é um processo ainda, mas este instrumento segue a aplicação das re-
gras e dos princípios da mediação e conciliação, regrados pelo CPC. O
cidadão comparece ao Cejusc da comarca onde se encontra lotado, explica
sua demanda e, com os dados do demandado, se inicia um pré-processo,
de maneira simples e prática. Logo que a demanda é iniciada, a secretaria
do Cejusc emite a carta-convite com um resumo da demanda para a parte
demandada com a data da sessão em que deverá comparecer. Esse tipo de
processo dura em média 90 dias; portanto, bastante célere.
O Conselho Nacional de Justiça, em publicação de 2019, apresenta
dados que já contemplam a mediação pré-processual, os quais não eram
mensurados anteriormente, o que demonstra o fluxo viável de tal método.

O índice de conciliação é dado pelo percentual de sentenças e decisões resolvi-


das por homologação de acordo em relação ao total de sentenças e decisões
terminativas proferidas. A conciliação é uma política adotada pelo CNJ desde
2006, com a implantação do Movimento pela Conciliação em agosto daquele
ano. Anualmente, o Conselho promove as Semanas Nacionais pela Conciliação,
quando os tribunais são incentivados a juntar as partes e promover acordos
nas fases pré-processual e processual. Por intermédio da Resolução CNJ
125/2010, foram criados os Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cida-
dania (CEJUSCs) e os Núcleos Permanentes de Métodos Consensuais de
Solução de Conflitos (NUPEMEC), que visam fortalecer e estruturar unidades
46 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

destinadas ao atendimento dos casos de conciliação. No final do ano de 2018 e


início de 2019 importantes avanços ocorreram na área, com fortalecimento do
programa “Resolve”, que visa a realização de projetos e de ações que incenti-
vem a autocomposição de litígios e a pacificação social por meio da conciliação
e da mediação10; além da classificação dos CEJUSCs no conceito de unidade
judiciária, pela edição da Resolução CNJ 219/2016, tornando obrigatório o cál-
culo da lotação paradigma em tais unidades. Na Justiça Estadual, havia, ao
final do ano de 2018, 1.088 CEJUSCs instalados. A Figura 113 indica o número
de CEJUSCs em cada Tribunal de Justiça. Esse número tem crescido ano após
ano. Em 2014, eram 362 CEJUSCs, em 2015 a estrutura cresceu em 80,7% e
avançou para 654 centros. Em 2016, o número de unidades aumentou para
808 e em 2017 chegou a 982. (BRASIL, 2020, p. 142).

Com mecanismos mais céleres, como a mediação pré-processual, o


Estado pode cumprir seu papel de oportunizar o acesso a toda a sociedade,
para que seus atores tenham condições de exercer com capacidade e liber-
dade de escolha nas suas decisões.
Enfim, a política pública autocompositiva vem se acomodando diante
das negociações do Judiciário por meio da mediação e da conciliação, tanto
pela via processual quanto pré-processual4. Isso demonstra como uma es-
tratégia considerada simples, quando efetivada com dinamismo, e com o
empoderamento dos atores, que com liberdade e poder de argumentar,
optam pela melhor escolha, a que mais possa satisfazer seu bem-estar.
Deste modo o Estado pode ter o seu papel de oportunizar e promover
as escolhas sociais, de uma forma democrática a toda a sociedade, com o
auxílio destes meios alternativos, auxilia na garantia dos direitos constitu-
cionais expressos na Constituição Federal de 1988. Esta facilidade pode ser
efetivada com aplicação da política pública de mediação e conciliação, uti-
lizando-se da teoria da argumentação (escolha social) pública de Amartya
Sen, que será brevemente explicado no capítulo seguinte. Uma sociedade

4
Ao considerar o índice de conciliação total, incluindo os procedimentos pré-processuais e as classes processuais que
não são contabilizadas neste relatório (por exemplo, inquéritos, reclamação pré-processual, termos circunstanciados,
cartas precatórias, precatórios, requisições de pequeno valor, entre outros), o índice de conciliação aumenta sutil-
mente, de 11,5% para 12,3%. Na Justiça Estadual, o índice se mantém constante, observando o total do segmento
(10,4%), mas os números mudam nas avaliações por tribunal. A Justiça do Trabalho é a de maior crescimento, pas-
sando de para 24,0% para 31,7%. Na Justiça Federal, os indicadores aumentam para todos os TRFs, registrando no
total uma elevação de 1,1 ponto percentual [...].(BRASIL, 2020, p. 144).
Neuri Antônio Boscatto; Neuro José Zambam | 47

democrática deve superar as discrepâncias existentes nas relações dos ci-


dadãos que a esta compõem, oportunizando o acesso a serviços tanto de
saúde, educacional, a idosos, crianças, bem como à justiça, promovendo o
bem-estar da sociedade e auxiliando no direito de escolha com liberdade
de opções. As escolhas são características fundamentais de uma sociedade
com tradição democrática (ZAMBAM, 2004, p. 54-55).

3 Argumentação pública de Amartya Sen, escolha social, como auxílio


na resolução de conflitos por meio da autocomposição

Na visão de Sen, (2018, p.15), os vários grupos de pessoas que cons-


tituem uma sociedade, possuem preferências e prioridades diferente. A
sociedade deve ter conhecimento e visão destas prioridades, segundo sua
teoria da escolha social.
Por ser constituída a sociedade, de grupos com pensamentos diver-
sos, escolhas sociais e argumentativas, de todos os tipos, surgem, as quais
se manifestam de formas diferentes. Assim, deve o Estado, propor políticas
públicas que contemplem parte ou toda a demanda de sua sociedade.
A argumentação pública em Amartya Sen, tema em destaque nesta
abordagem, é uma ferramenta privilegiada de auxílio no procedimento de
mediação autocompositiva, com ênfase, proporcionando o bem-estar so-
cial. Pode se afirmar, que segundo Sen (2018), a teoria da escolha social
possui relevância e aplicação diferenciada para cada grupo social, levando
em consideração os interesses individuais, a formação cultural e o ambi-
ente geográfico, entre outros aspectos, com poder argumentativo para
suas decisões.
Nesse sentido, Sen (2018) tenta explicar a teoria da escolha social,
citando a regra da maioria, na qual esta pode possuir decisões equivocadas
nas escolhas de uma sociedade. Na avaliação de direitos individuais, pode
ocorrer prejuízos se for julgado a sociedade como um todo. O estudo da
escolha social nos leva de um conjunto de preferências individuais, cha-
mado pelo autor de perfil, preferência individual, à um conjunto de
48 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

preferência social, que o autor chama de função de bem-estar-social


quando uma situação x, é socialmente classificada acima de uma situação
y, pode se concluir que um Estado x, produz mais bem-estar-social, que
um Estado y. (SEN, 2018, p.47).
O indivíduo de uma sociedade precisa ter capacitações (capabilities),
para argumentar a seu favor suas demandas, sejam pessoais ou sociais.
Assim, a mediação e a conciliação, quando aplicadas como políticas
públicas, podem ter sua eficiência e eficácia aprimoradas para a resolução
de conflitos gerados pelos indivíduos visando a aproximação, o que ocorre
pela melhoria na comunicação entre eles, oportunizando as condições
para que se sintam acolhidos pelo Estado. Empoderados para o exercício
da argumentação, na tentativa de torná-los mais iguais, com liberdade
para individualmente escolher o caminho que pretendem levar sua vida,
proporcionando-lhe bem-estar.
Estes métodos alternativos de solução de conflitos, dirigidos pelos Ce-
juscs, distribuídos pelas comarcas brasileiras, recebem as demandas
processuais e pré-processuais, oportunizando uma alternativa. Ou seja,
outra porta de acesso ao Judiciário para as demandas da sociedade com
um custo insignificante ou sem custo algum. Nesse estágio, um terceiro
imparcial – mediador ou conciliador –, com uso de técnicas negociais, en-
sinadas nos cursos de preparação para a função, proporciona um
ambiente favorável à autocomposição (OLIVEIRA; BOSCATTO, 2020).
Essa forma autocompositiva faz com que os atores envolvidos em
conflitos possam buscar uma solução adequada para suas demandas e sem
interferência direta de um juiz, apenas do mediador ou conciliador, cuja
função é a de receber esses atores e, com ferramentas apropriadas, me-
lhorar a comunicação e conduzir a um possível acordo. Porém é
necessários que estes atores tenham o poder de argumentação, para pri-
meiro, poder explicar a sua demanda, e segundo, conseguir se fazer ser
entendido e ou ainda contra argumentar as posições dos outros atores,
principalmente quando o mediador aplicada a técnica de inversão de pa-
peis aos atores. Técnica esta que consiste na troca de posição entre os
Neuri Antônio Boscatto; Neuro José Zambam | 49

atores envolvidos, e que Sen, também explica como” um método para fa-
zer comparações interpessoais é tentar pôr-se na posição de outra pessoa”,
identificando-se com aquele, de forma objetiva e subjetiva. (2018, p. 245 e
266).
Para que tais atores consigam realizar essa tarefa, necessitam de ca-
pacitações (capabilities), ou seja, a liberdade substantiva5 de poder
escolher a forma de condução de suas vidas da maneira que melhor lhe
convier, exercendo sua característica de agente ativo na sociedade, como
afirmam Zambam; Kujawa (2020, p. 63):

[...] exercer as liberdades substantivas, isto é, a condição de agente social e


poder desenvolver as capacidades básicas (capabilities). Nesse contexto, a po-
breza tem repercussões no conjunto da existência humana e nas condições de
atuar na sociedade de forma livre e autônoma, assim como, ter condições de
influenciar na sua organização e no seu funcionamento.

A procura por um equilíbrio social valoriza a construção da qualidade


de vida e as opções de políticas públicas eficientes que impactam substan-
cialmente no desenvolvimento social que pode ser trazido neste contexto,
desde as condições econômicas até a educação. As políticas públicas de
uma sociedade democrática têm a missão básica da promoção do bem co-
mum, ou seja, o bem-estar de cada cidadão que compõe esta sociedade.
(ZAMBAM; KUJAWA, 2020).
Portanto a capacidade de argumentar deve ser observada para que
atores envolvidos em conflito, possam de maneira autocompositiva, com
poder de argumentação lutar pelos seus direitos, seja na conciliação ou
mediação. Sendo o papel do mediador, oferecer oportunidade para que
haja um diálogo produtivo e a comunicação seja melhorada. Independen-
temente da busca taxativa por um acordo, estabelecendo um terceiro
espaço, ser ele mesmo um espaço intermediário, um campo claro em um

5
“As capacidades (capbility, capabilities) representam as liberdades substantivas, isto é, as condições para que uma
pessoa faça a escolha dos funcionamentos necessários para a sua realização pessoal e para o seu bem-estar. Privar
alguém das condições de escolha é negar-lhe a oportunidade substantiva de se integrar na sociedade; [...]” (ZAMBAM,
2012, p. 11).
50 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

espaço reservado e com ética oportunizando a autonomia para os atores


dialogarem e com o poder de argumentação construam um possível en-
tendimento. Somente o fato de estarem sentados frente a frente
resolvendo seus litígios, com a autonomia da vontade, que é o direito das
pessoas concordarem e quererem participar ou não da mediação ou con-
ciliação, e tomarem as decisões por meio do diálogo argumentativo, com
total poder de escolha. (SPENGLER, SPENGLER NETO, 2013).

Além disso, a autonomia da vontade diz respeito também ao interesse e ao


direito das pessoas de concordarem e quere-rem participar ou não da media-
ção/conciliação, de modo que tais procedimentos não são impostos, mas, tão
somente fomen-tados pela norma legal e pelos operadores do Direito. Ainda,
a autonomia também pode dizer respeito às decisões, dando aos conflitantes a
opção de homologarem ou não o acordo construí-do. Compete a eles optarem
pelo melhor para si mesmos. (SPENGLER, SPENGLER NETO, 2013. p. 85)

Baseado na autonomia da vontade dos atores, o respeito a suas esco-


lhas e decisões, obtidas na sessão de mediação ou conciliação, pode haver
um acordo duradouro, pois foi construído pelas partes, por meio do diá-
logo argumentativo com o poder de escolha.
Assim o raciocínio da escolha social pode ser entendido como a forma
e a reflexão que será feita para se lidar com situações que e apresentam na
tomada de decisões. Em especial a decisões avaliativas da vida dos atores
que envolvidos em conflitos, dependem de uma decisão certeira na con-
dução de sua vida, e para não se comportarem como, o burro de Buridan,
que morreu de fome diante de dois fardos de palha, por não saber qual
deles era melhor. (SEN, 2018, p. 525-526).

4 Conclusão

A escolha-social proporcionada por políticas públicas alternativas de


solução de conflitos, oportunizadas pelos Cejuscs dos Tribunais do Brasil,
por meio pré-processual, podem ser o caminho para uma melhora na co-
municação entre os atores, por meio da condição de argumentação que
Neuri Antônio Boscatto; Neuro José Zambam | 51

cada um deve possuir para participar de sessões de mediação ou concilia-


ção. Em especial, a negociação direta, pela via da autocomposição
garantida pelos direitos constitucionais, ainda que pré-processuais, apre-
senta-se como uma possibilidade de oportunizar a liberdade de escolha na
vida de cada ator, salientando suas capacidades e oportunidades para que
possam buscar o Judiciário para resolver questões que impactam suas vi-
das.
Conclui-se que uma organização social justa tem o condão de opor-
tunizar as condições para a liberdade de escolha ampliando as capacitações
(capabilities) e as forma de argumentação. Esse é um ambiente da media-
ção no qual as pessoas experimentam relações de paz e qualidade de vida.
São novas concepções para o direito ligadas às vidas das pessoas e seu dia
a dia, que por meio destas oportuniza um espaço para argumentação e
aprimoramento na comunicação de atores envolvidos em conflitos, com a
possibilidade de, além da melhora nesta comunicação, comporem acordos
sustentáveis para conduzirem suas vidas promovendo o seu bem-estar,
pela via autocompositiva. A teoria da escolha social de Amartya Sen, base-
ada na argumentação pública, mostra-se condizente com os métodos
autocompositivos de mediação e conciliação. Pois a base da comunicação
é o poder de que os atores possam e tenham condições de argumentar seus
direitos e pensamentos, em prol do enriquecimento na sua condição de ter
uma vida melhor. Constituindo-se o papel do estado fundamental em
construir política pública de alcance a toda a sociedade, abordando de
forma individual e ou coletiva as demandas ali apresentadas.

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52 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

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3

Desenvolvimento e liberdade:
a privação gerada pelo vício de jogos eletrônicos
entre o público infanto-juvenil

Gabriely Ostwald Haas 1


Thami Covatti Piaia 2

1. Introdução

O ser humano, sendo ser social e capitalista, objetiva em alguma fase


da vida ascensão econômica. O progresso financeiro, de modo individual,
proporciona ascensão do indivíduo em diversos sentidos. Nesse sentido, se
destaca o aumento de desenvolvimento de capacidades, ocasionando cer-
tas liberdades.
Falando-se em capacidades, verifica-se que não são desenvolvidas so-
mente as individuais, mas as da sociedade como um todo. Dessa forma,
evidencia-se que o crescimento econômico colabora com as rendas priva-
das, e possibilita, posteriormente, financiamento pelo Estado de
seguridade social.
Tratando-se de desenvolvimento, surge a necessidade de elencar a
principal etapa desenvolvimentista da vida do ser humano, compreendida

1
Acadêmica do 6º semestre da Graduação da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI
– Campus Santo Ângelo. Bolsista do Projeto “Limites ético/jurídicos aos jogos eletrônicos: o vício de uma geração”
da mesma instituição. Endereço eletrônico: gabihaas01@gmail.com.
2
Orientadora do artigo; Doutora em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Visiting
Scholar na Universidade de Illinois – Campus de Urbana-Champaign – EUA (2012). Professora na Graduação e no
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito, Mestrado e Doutorado da Universidade Regional Integrada
do Alto Uruguai e das Missões – URI -, Campus de Santo Ângelo/RS. Coordenadora do projeto: “Limites ético/jurí-
dicos aos jogos eletrônicos: o vício de uma geração” Endereço eletrônico: thamicovatti@hotmail.com.
Gabriely Ostwald Haas; Thami Covatti Piaia | 55

entre a infância e adolescência. Nesse período, o indivíduo absorve a maior


quantidade de informações possíveis, e posteriormente, passa a selecionar
e fixar as mais importantes, quais irão definir sua posição como adulto.
Contudo, é fato que o indivíduo não se desenvolve sem o devido au-
xílio e incentivo. Nesse ponto, frisa-se a necessidade e importância do
auxílio dos pais, e da escola, que transmitem o maior leque de informações
às pessoas.
Dessa forma, fica evidente o papel das instituições em incentivar e
auxiliar no desenvolvimento do indivíduo. Entretanto, depara-se com di-
ficuldades de acesso aos meios educacionais de qualidade. Ainda, somado
a isso, é possível verificar o vício em jogos eletrônicos, por parte do público
aqui pautado, se mostrando, na maioria das vezes, como uma força con-
trária ao desempenho individual e coletivo.
Pelo fio do exposto, se objetiva demonstrar o impasse ao desenvolvi-
mento humano causado pelo vício em jogos eletrônicos, entre o público
infanto-juvenil. Tal dependência, acarreta em problemas desenvolvimen-
tistas, prejudicando a liberdade da sociedade como um todo, sendo ela
econômica ou cultural.
A pesquisa objetiva, de modo breve, relacionar o narrado em “Desen-
volvimento como Liberdade”, de Amartya Sen e Hipnotizados: O que os
nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles, da Brenda
Fucuta, ao prejudicial uso excessivo e desnecessário do meio tecnológico
no público infanto-juvenil, ocasionando entraves desenvolvimentistas so-
ciais, traumatizando os processos de liberdades. A metodologia adotada
para a elaboração do resumo expandido é dedutiva, por meio de pesquisa
em produções acadêmicas, científicas e em legislações.

2. Desenvolvimento

A liberdade é proporcionada pelo desenvolvimento, com aumento de


capacidades e possibilidades. Dentre elas, a liberdade política e qualidade
56 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

de vida, em que é relacionada, segundo Amartya Sen (2010), a “dissonân-


cia entre a renda per capita e a liberdade dos indivíduos para ter uma vida
longa e viver bem”. (SEN, 2010)
Os processos de liberdade estão relacionados com a evolução econô-
mica que aufere o indivíduo. Tal desenvolvimento ocasiona benefícios para
si próprio e contribui com a sociedade

O fato que o direito às transações econômicas tende a ser um grande motor


do crescimento econômico tem sido amplamente aceito. Mas muitas outras
relações permanecem pouco reconhecidas, e precisam ser plenamente com-
preendidas na análise das políticas. O crescimento econômico pode ajudar não
só elevando rendas privadas, mas também possibilitando ao Estado financiar
a seguridade social e a intervenção governamental ativa. Portanto, a contri-
buição do crescimento econômico tem de ser julgada pelo aumento das rendas
privadas, mas também pela expansão de serviços sociais (incluindo, em mui-
tos casos, redes de segurança social) que o crescimento econômico pode
possibilitar. (SEN, 2010)

Facilidades econômicas possibilitam aos indivíduos de usufruir desta


para trocar, ou poder arcar com os custos de produtos disponíveis no mer-
cado. Nesse sentido, verifica-se a possibilidade de evolução, de modo que
a renda viabiliza condições que trazem benefícios a quem os procura.
(SEN, 2010)
A privação de liberdades gera diversas consequências. Aqui, não se
trata somente da privação econômica, mas também política. Ainda, se des-
taca que a pobreza extrema, pode tornar o indivíduo mais suscetível à
violação de outros tipos de liberdade.

A privação de liberdade econômica pode gerar a privação de liberdade social,


assim como a privação de liberdade soca ou política pode, da mesma forma,
gerar privação de liberdade econômica. (SEN, 2010).

Em virtude das privações, surgem necessidades que prendem os in-


divíduos à sensação de incapacidade. Dessa forma, se faz essencial o papel
Gabriely Ostwald Haas; Thami Covatti Piaia | 57

do Estado e demais instituições, a incumbência de cooperar com o fortale-


cimento e proteção das capacidades das pessoas, de modo a incentivá-las
e qualificá-las. (SEN, 2010)
Para o desenvolvimento humano, é necessário que se estabeleçam
condições básicas de vida. Nesse sentido, pode-se destacar a necessidade
de nutrição de qualidade, bem como a participação da vida em sociedade,
não sendo os indivíduos excluídos, tenham condições de moradia e traba-
lho adequadas, capacidade e possibilidade de evolução cultural e
aprendizado/educação permanente.
É necessário que, para ocorrer o desenvolvimento, sejam removidas
fontes de privação. Dentre as principais, podemos citar, de acordo com
SEN (2010) “a pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e
destituição social sistemática, negligência dos serviços públicos e intole-
rância ou interferência excessiva de Estados opressivos”. Ainda, de acordo
com o mesmo autor

existem boas razões para que se veja a pobreza como uma privação de capaci-
dades básicas, e não apenas como baixa renda. A privação de capacidades
elementares pode refletir-se em morte prematura, subnutrição significativa
(especialmente de crianças), morbidez persistente, analfabetismo muito dis-
seminado e outras deficiências. (SEN, 2010)

Com o suprimento das privações, se abre espaço para o desenvolvi-


mento das capacidades individuais. Tais capacidades, dependem de
disposições econômicas, políticas e sociais, sendo o estado e a sociedade
atores imprescindíveis para tais realizações. Nesse sentido, as capacidades
individuais são potencializadas pelas políticas públicas, e as políticas pú-
blicas impulsionadas pelas capacidades da sociedade. (REYMÃO;
CEBOLÃO, 2017)
O homem como agente ativo de mudanças, irá abranger o conceito
de desenvolvimento humano, em que serão desenvolvidas e aperfeiçoadas
as capacidades de cada pessoa. Dessa forma, a sociedade é motivada por
cada indivíduo, e acaba, por consequência, influenciando outros, capaci-
tando-os.
58 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Educação, saúde, saneamento, emprego e outros direitos, vistos por


Amartya Sen como oportunidades sociais e liberdades instrumentais. Tais
direitos, promovem as capacidades de um indivíduo, de modo geral, e ca-
tiva a vontade de desenvolver e passar a buscar uma vida melhor. Dessa
forma, são objetivadas melhoras econômicas e envolvimento em ativida-
des políticas, importantes para a vida privada. (SEN, 2010).

O analfabetismo pode ser uma barreira formidável à participação em ativida-


des econômicas que requeiram produção segundo especificações ou que
exijam rigoroso controle de qualidade (uma exigência sempre crescente no
comércio globalizado).

Nesse ponto, fica evidente o papel da educação de qualidade para o


desenvolvimento e concretização de capacidades das pessoas. Sendo exer-
citado tal direito fundamental e social, são gerados os “instrumentos e as
capacidades para o exercício da autonomia e da liberdade, tirando o indi-
víduo da absoluta pobreza” (REYMÃO; CEBOLÃO, 2017).

Nessa perspectiva, o Estado é responsável por garantir políticas públicas, as-


segurando os direitos sociais dos indivíduos, como a educação, para que esses
possam ser livres. (REYMÃO; CEBOLÃO, 2017)

A educação trata-se de meio imprescindível para que os indivíduos


possam auferir de bens e serviços dos quais dispõe a sociedade. Em virtude
disso, tal direito é tido como fundamental, sendo uma condição necessária
para ter acesso às demais garantias de uma sociedade democrática.
(GADOTTI, 2005)
Por ser direito fundamental, e de todos, deve dispor de amplo acesso
aos indivíduos. Para tanto, é fundamental o papel do Estado, na forma de
garantidor de educação plena e de qualidade a todas as pessoas, evitando
a mercantilização que dá acesso somente aos que podem conquistá-la pela
via financeira.
Gabriely Ostwald Haas; Thami Covatti Piaia | 59

Nesse sentido, a legislação Constitucional brasileira prevê, em seu 6º


artigo, um dos direitos sociais. Em continuidade, aporta o texto legal no-
vamente ao direito aqui referido, no artigo 205, como sendo direito de
todos e dever do Estado e da família, como seguem

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a


moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição.
Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será pro-
movida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho. (BRASIL, 1988)

A educação encaixa-se nos direitos fundamentais de segunda geração


de direitos fundamentais,

relacionada às liberdades positivas, reais ou concretas, que, como se sabe, as-


sociam-se ao Estado do Bem-estar Social. Diferente do Estado Liberal,
pretensamente distanciado dos conflitos sociais, aquele que assume o papel de
agente conformador da realidade social. Ao serem incluídos na agenda das po-
líticas públicas brasileiras, impõem ao Estado a obrigação de garantir os
direitos à saúde, educação, trabalho, alimentação, assistência social, etc.

Os direitos fundamentais de segunda geração, relacionam-se à ideia


de igualdade na atuação do Estado. A ideia presente nessa perspectiva, é
de que as pessoas com realidades diferentes, devam ser tratadas de forma
desigual, de modo que a atuação estatal alcance todos os indivíduos.
(REYMÃO; CEBOLÃO, 2017)
Abarcando também o assunto dos direitos fundamentai de segunda
geração, Sen (2010) discorre acerca do público que o Estado deve oportu-
nizar meios ao desenvolvimento:

(...) são as disposições que a sociedade estabelece nas áreas da educação, sa-
úde, etc., as quais influenciam a liberdade substantiva de o indivíduo viver
60 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

melhor. Essas facilidades são importantes não só para a condução da vida pri-
vada (...), mas também para uma participação mais efetiva em atividades
econômicas e políticas. Por exemplo, o analfabetismo pode ser uma barreira
formidável à participação em atividades econômicas que requeiram produção
segundo especificações ou que exijam rigoroso controle de qualidades (uma
exigência sempre crescente no comércio globalizado). De modo semelhante, a
participação política pode ser tolhida pela incapacidade de ler jornais ou de
comunicar-se por escrito com outros indivíduos em atividades políticas. (SEN,
2010)

Pelo até aqui exposto, nota-se que a educação é pressuposto para o


processo de desenvolvimento, e por fim, da liberdade. Contudo, fica claro
a necessidade de intervenção Estatal, de forma eficiente, visando efetivar
direito básicos e fundamentais constitucionalmente garantidos. (SEN,
2010)
Em virtude disso, surge a necessidade de ser pautada a fase primor-
dial do desenvolvimento humano, compreendida entre a infância,
adolescência e a juventude. São nessas três etapas em que o cérebro ab-
sorve conhecimento, desenvolve e molda o adulto. (FUCUTA, 2018)
Nessa perspectiva, remete-se a um debate interessante, acerca da
cronologia neural, para ser possível distinguir se “somos adultos antes que
o cérebro amadureça” ou “a adolescência dura muito mais do que pensá-
vamos” (FUCUTA, 2018). Para tanto, considera-se que

Um cérebro maduro pode ser comparado a um planeta cujos continentes, ilhas


e arquipélagos estão conectados por meio de uma rede superfuncional de cé-
lulas nervosas. Além dos 86 bilhões de neurônios que temos no cérebro, duas
substâncias gelatinosas e gordurosas em abundância (a massa cinzenta e a
massa branca) são fundamentais para que essa rede funcione de modo efici-
ente.
Durante a adolescência, a massa cinzenta entra em ebulição – sua produção
atinge o seu ponto máximo na puberdade e, então declina subitamente. [...]
Pouco tempo depois de atingir seu recorde, como resultado de uma disputa de
neurônios [...], a massa cinzenta entra em declínio e perde 30% do seu mate-
rial. [...] A redução da massa faz parte de um processo de seleção, de limpeza
neuronal. A massa cinzenta é a morada das sinapses e do processamento de
dados.
Gabriely Ostwald Haas; Thami Covatti Piaia | 61

A evolução do cérebro humano, possui fases de desenvolvimento,


sendo divididas em três as principais. A primeira fase é compreendida pela
infância, momento primordial em que se absorve a maior quantidade de
informações possíveis, principalmente dos pais, e com a introdução do
mundo social e a sociedade escolar. (FUCUTA, 2018)
Na sequência, inicia-se a fase da adolescência, caracterizada pela
etapa em que são fixados os conhecimentos absorvidos. Além disso, o in-
divíduo começa a ter o preparo para a próxima etapa de desenvolvimento.
Ainda, de acordo com a autora Brenda Fucuta, na adolescência o cérebro
“se prepara para se tornar seletivo e determinar a arquitetura dos circuitos
neuronais adultos”.
É na fase de adolescente, que o cérebro do indivíduo sofre uma espé-
cie de “poda”. Dessa forma, “durante o processo da poda estamos
escolhendo o que queremos saber e o que queremos ser”. (FUCUTA, 2018)
Por último, ocorre a fase que conclui o processo de amadurecimento,
denominada mileinização. Nesse processo, “serão reforçados as sinapses e
os caminhos que sobrevierem” e definido, em grande parte, o futuro a ser
seguido pelo indivíduo.
Considerando o fato de que as habilidades que serão desenvolvidas
as habilidades que foram mais vezes treinadas, é nessa fase que o indivíduo
começa a se ornar especialista em algum campo do conhecimento. Para a
autora Branda Fucuta (2018), vislumbra-se o seguinte:

se os caminhos que forem ativados mais vezes durante esse período da vida
são os que permanecem, isso significa que a adolescência pode ser compreen-
dida como um portal para a fixação de habilidades e de maneiras de entender
o mundo. O treino de videogame encontra um endereço permanente no cére-
bro dos adolescentes que preferem jogar a por exemplo, tocar um violino. Por
outro lado, coisas que são pouco usadas, seja o saque da bola na quadra do
vôlei, seja o ponto do bordado, tendem a se perder nas ruas intrincadas das
sinapses, ficando mais difíceis de ser encontradas.
62 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

É nesse ponto que surge o objeto principal da pesquisa: o prejudicial


uso dos jogos eletrônicos entre o público infanto-juvenil, freando o desen-
volvimento deste público. A utilização imoderada do meio digital, acaba
por ocasionar riscos a saúde e aos processos de liberdades. (SEN, 2010)
(FUCUTA, 2018)
O vício em jogos eletrônicos, é considerado doença, incluída no có-
digo Internacional (CID). Os jogadores passam longos períodos diários
dedicados aos games, afetando de forma considerável a saúde mental e
física. (FUCUTA, 2018)
A concentração incansável pelas telas, faz com que o indivíduo per-
maneça por um período longo, gerando certa hipnose. Nos escritos da
autora Brenda Fucuta (2018), extrai-se trecho de entrevista realizada com
um jovem jogador:

“[...] quando a gente joga, entra num estado de hiperfoco. É o que a ciência
chama de hipnose; se você pesquisar, vai entender do que eu estou falando.
No hiperfoco, você não liga mais para nada, porque precisa usar todo o seu
cérebro para jogar. Concentração total do jogo”.

Dessa forma, surge a preocupação com o desenvolvimento individual,


a distração com a escola. Nesse sentido, como já mencionado, a educação
de qualidade é pressuposto para a liberdade, o que pode ser frustrado pelos
indivíduos que acabam deixando de lado a preocupação com o conheci-
mento escolar. (FUCUTA)
Além de prejudicar o desempenho escolar, pesquisas demonstram a
nocividade do uso excessivo dos jogos e telas à saúde, conforme Brenda
Fucuta (2018)

Sofrem as costas, os ombros, os pulsos e os dedos devido aos esforços repeti-


tivos de digitação e à má postura. Sobrem os olhos, com a secura decorrente
da diminuição de piscadas. Sofrem o repouso, com o sono entrecortado e di-
minuído, e, finalmente a saúde e a higiene ficam comprometidas com o
gradativo abandono dos banhos e refeições regulares. Sedentários, muito de-
pendentes se tornam obesos ou com sobrepeso.
Gabriely Ostwald Haas; Thami Covatti Piaia | 63

Entretanto, os malefícios causados podem alcançar proporções ainda


maiores, conforme aborda a autora Brenda Fucuta (2018)

É possível que a massa cinzenta dos jogadores compulsivos, diferentemente


do que acontece com os jogadores frugais, diminua ao ponto de a atrofia, con-
forme mostram neuroimagens geradas por vários estudos. Se o uso moderado
dos vídeo games exercitava o cérebro, o uso excessivo leva à exaustão. [...].
Horas de conexão paralisam o córtex pré-frontal, aquela estrutura cerebral
que mede as consequências. [...]. É muito possível que o uso patológico não
supere o uso saudável. No entanto, não devemos subestimar os riscos de de-
pendência das mídias digitais, acreditando que a relação intensiva que alguns
adolescentes desenvolvem com elas acabará na fase adulta.

Conforme os escritos de Amartya Sen, e pela bibliografia de Brenda


Fucuta, são prejudicados de forma significativa os processos de liberdades.
Dessa forma, o vício em jogos entre o público infanto-juvenil atrasa e pre-
judica o desenvolvimento das pessoas, podendo causar danos irreparáveis,
na medida que a idade mais produtiva ao cérebro humano não apresenta
interesse e nem colabora com sua própria evolução.

3. Considerações finais

O autor Amartya Sen traz em sua bibliografia desenvolvimento como


forma de liberdade. Para ele, os processos de liberdade se relacionam com
as possibilidades que surgem em virtude do desenvolvimento gerado para
determinada pessoa.
Dentre as formas de liberdade, que se pode perceber as liberdades
instrumentais e oportunidades sociais permeiam as principais formas de
evolução, desde que garantidas. Liberdades econômicas, políticas e sociais
são essenciais, sendo o estado e a sociedade atores imprescindíveis para
realizações individuais.
Com o desenvolvimento econômico, é possível ampliar as possibili-
dades de desenvolvimento e contribuir para o processo de liberdades. No
entanto, com a ampliação da capacidade econômica de um indivíduo, o
64 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

reflexo recai sobre a sociedade como um todo, ao passo que o indivíduo


contribui e incentiva política públicas, beneficiando a comunidade ao seu
redor.
No entanto, as possibilidades e capacidades de desenvolvimento não
dependem somente da pessoa. As instituições desempenham papel funda-
mental no processo das liberdades, sendo indispensável o auxílio do
estado, promovendo políticas públicas efetivas, que envolvam os indiví-
duos, com o fim de não só auferir benefícios para si próprios, mas visar
retribuir com os demais.
O desenvolvimento, pode ser alcançado por diversos fatores, sendo a
educação um de seus principais. Com o investimento em educação, de qua-
lidade e para todos de modo igual, s processos de liberdades podem ser
alcançados de forma igualitária e com grande número de pessoas alcança-
das.
Nesse sentido, a educação é direito constitucionalmente garantido.
Faz parte, dos direitos fundamentais de segunda geração, relacionado ao
estado de Bem-estar social, com liberdades e garantias, diferente de um
Estado Liberal, permeado por conflitos sociais.
O direito à educação, é colocado no texto dos artigos 6º e 205º da
Constituição Federal brasileira. Dessa forma, vincula ao Estado em prestar
o auxílio necessário a todos os habitantes deste país, de forma igual. Con-
tudo, no mundo dos fatos é difícil verificar a efetivação de direitos tão
básicos e imprescindíveis para todos.
Os indivíduos que se encontram na fase escolar, são os que também
fazem parte da etapa de vida em que o cérebro humano mais desenvolve.
Observa-se que a evolução humana compreende três principais períodos.
O primeiro de todos, é a infância (crianças), em que são absorvidas a maior
quantidade de informações.
Na sequência, a adolescência, segunda etapa crucial ao desenvolvi-
mento humano, acaba por sofrer um processo de “poda” do cérebro, em
que são selecionadas as informações mais importantes, e tomadas decisões
cruciais.
Gabriely Ostwald Haas; Thami Covatti Piaia | 65

Por último e não menos importante, período compreendido pela ju-


ventude, ocorre o processo de mielinização. Tal etapa é responsável por
fixar as decisões tomadas, e seguir os caminhos escolhidos na fase ante-
rior, que de modo geral, determina como será a vida do indivíduo.
Durante o processo de desenvolvimento humano mais importante,
compreendido pelo público infanto-juvenil, podem ser encontrados empe-
cilhos nocivos ao aperfeiçoamento do indivíduo. Além de falta de
investimento na estruturação do Estado, em educação e demais direitos
sociais, jogos eletrônicos se mostram como um atraso para a atual geração.
Os jogos eletrônicos chamam atenção de grande público, e conquis-
tam mais usuários a cada dia. O problema está no período em que os
indivíduos utilizam os games, passando longas horas diárias online, dei-
xando de lado o mundo exterior.
Ocorre que, a fixação por jogos causa dependência e vício. Usuários
compulsivos ficam fixados por horas corridas, sem intervalos, e dessa
forma, prejudicam a saúde física e mental. Ao passo que são deixadas de
lado a higiene, alimentação saudável, sono e descanso de qualidade, além
das atividades escolares, tão essenciais aos seres humanos que buscam de-
senvolver, frustrando os processos de liberdades.
Pelo exposto, fica claro a intervenção causada pelo vício em jogos ele-
trônicos, causando diversos malefícios aos indivíduos. Dessa forma, são
frustrados os processos de desenvolvimento humano, e consequente-
mente, a liberdade tão desejada, que acaba virando utopia.

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: 05 de out.


1988

FUCUTA, Brenda. Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a


internet faz com eles. 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

GADOTTI, Moacir. A questão da educação formal/não - formal. 2005. Disponível em:


http://www.virtual.ufc.br/solar/aula_link/llpt/A_a_H/estrutura_politica_gestao_
66 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

organizacional /aula_01/imagens/01/Educacao_Formal_Nao_Formal_2005.pdf.
Acesso em: 23 de out. 2020.

REYMÃO, Ana E. Neirão; CEBOLÃO, Karla Azavedo. Amartya sem e o direito à educação
para o desenvolvimento humano. Revista de Direitos Sociais e Políticas Públicas:
Maranhão. v. 3. nº 2. p. 88-104. Jul/dez 2017. Disponível em: https://www.in-
dexlaw.org/index.php/revistadspp/article/view/2520. Acesso em 23 de out. 2020.

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução Laura Teixeira Motta. São
Paulo: Companhia das Letras, 2010.
4

Realização de direitos sociais e


justiça social segundo Amartya Sen

Thiago Felipe S. Avanci 1

1. Introdução

A realização de Direitos Sociais2 não é algo simples. Embora seja uma


afirmação forte, para se iniciar este estudo, no entanto, não deixa de ser
menos verdadeira. A realização dos Direitos Sociais depende da implemen-
tação de ações positivas por parte da administração pública, na instituição
de políticas públicas que resultam de direitos de créditos concedidos a par-
tir do estabelecimento dos Direitos Fundamentais. Embora os Direitos
Individuais sejam realizáveis, sem embargo, por muitas vezes, por atua-
ções positivas por parte do Estado, notadamente sua natureza é negativa.
Isso significa que um Direito Individual seria, aprioristicamente falando,
realizado a partir de um não fazer do Estado – em um espírito liberalista.
Por outro lado, como mencionado, os Direitos Sociais se consubstan-
ciam por ações positivas que visam, aprioristicamente falando, estabelecer
um fazer Estatal – em um espírito social-democrático. A problemática a

1
Doutorado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2020), com bolsa integral pela Fundação Pres-
biteriana Mackenzie. Mestre em Direito pela Universidade Católica de Santos (2011), com bolsa integral CAPES. Pós-
Graduado em Gestão Pública, Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal de São Paulo (2017-2018). Bacha-
rel em Direito pela Universidade Católica de Santos (2007). Professor da Universidade Paulista (2014-). Professor do
Centro Universitário São Judas Tadeu campus UNIMONTE (2017-). Advogado. Gestor Jurídico. Assessor de Governo
da Prefeitura Municipal de Guarujá.
2
Utiliza-se, neste estudo, as expressões “Direitos Sociais”, “Direitos Fundamentais”, “Direito”, entre outras, como
forma de designar a qualidade de substantivo próprio dos institutos em questão.
68 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

ser enfrentada neste estudo é, assim, como realizar Direitos Sociais de


forma otimizada, considerando a escassez econômica de recursos em con-
traponto a uma visão mais humanizada da economia proposta por
Amartya Sen.
Esta análise se dará por meio de revisão bibliográfica qualitativa, a
partir de método dedutivo e silogístico. Visa analisar o que são os Direitos
Sociais, a partir de uma análise histórica e conceitual dos mesmos, pas-
sando-se, na sequência, a compreender melhor como a Economia interfere
no Direito e, por fim, como Amartya Sen apresenta solução em tese, para
a tensão entre a escassez econômica e a realização de Direitos.

2. Direitos sociais e direitos fundamentais

Na visão de Amartya Sen, os “direitos sociais e econômicos”, ou “di-


reitos de bem-estar”, direitos “de segunda geração”, constituem-se em
direito comum aos meios de subsistência e foram em sua maioria acres-
centados em data relativamente recente a listagens anteriores de direitos
humanos, com isso ampliando muito o campo dos Direitos Humanos
(SEN, 2009, p. 307). Deve-se lembrar que Direitos Humanos e Direitos
Fundamentais lidam com o mesmo conjunto de direitos, sob proteção de
fontes normativas distintas. Eis que os Direitos Sociais são composições
dos Direitos Fundamentais.
Alexy e Ferrajoli colocam os Direitos Fundamentais como direitos
subjetivos, baseando seus conceitos nesta característica. Ferrajoli entende
por direitos subjetivos entende-se qualquer expectativa positiva (de pres-
tação) ou negativa (de não sofrer lesão) adstrita a um sujeito por uma
norma (2009, p. 19). Alexy bem explica que para uma teoria estrutural de
Direitos Fundamentais, as questões analíticas são as mais importantes e,
assim, impinge saber o tratamento analítico dos direitos subjetivos. O ju-
rista alemão aborda (2009, p. 184 e ss.), com esta base, dentro do conceito
de direitos subjetivos a norma e a posição: norma é o enunciado normativo
Thiago Felipe S. Avanci | 69

expresso; posição é a situação jurídica decorrente do enunciado norma-


tivo. Exemplificando, em função de um enunciado normativo A, o
indivíduo X encontra sustentação para exercer uma situação B, que se con-
figura no seu direito subjetivo.
A doutrina de Kelsen vislumbrava o direito subjetivo como um mero
reflexo de uma obrigação jurídica3, já que ter um direito subjetivo significa
encontrar-se juridicamente facultado para intervir, por meio de uma
norma, que importe em sanção ao indivíduo que cometeu o ato antijurí-
dico ou violado seu dever. Assim, um Direito Fundamental despido de
meios que lho garantam é um “direito inexistente” (ZOLO, 1994, p. 33
apud FERRAJOLI, 2009, p. 28) ou tout cort, como afirma Ferrajoli (2009,
p. 29).
Ferrajoli deixa claro na distinção dos Direitos Fundamentais com os
direitos patrimoniais, que a universalidade diz respeito a um sentido lógico
de quantificação universal da classe dos sujeitos, pessoas ou cidadãos, que
são seus titulares (ao contrário dos direitos de propriedade em que há sin-
gularidade em quantidade e qualidade). O jurista italiano faz interessante
remissão à Déclaration des Droit de l´homme et du Citoyene que, em seu
art. 1º, previa égalité en droits, paralelamente ao direito de propriedade,
pautado justamente em uma desigualdade de direitos (FERRAJOLI, 2009,
p. 32).
No que tange à titularidade dos Direitos Sociais, há menos dificuldade
na intelecção, tendo em vista que serão, a exemplo da inteligência dos arts.,
196 (direito à saúde usa a expressão “todos”), 203 (assistência social,
“quem dela necessitar”), 205 (educação, “todos”), de todos aqueles que ne-
cessitem de prestações relacionadas à educação, a saúde, a alimentação, o
trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção
à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados (caput do art.
6º) (cf. DIMOULIS, 2006, p. 106 e ss.). Conclui-se, bem assim, que são,
aqueles, universais a todos, estando disponíveis a quem deles quiser fazer
uso.

3
“[...] ‘um mero reflejo de una obrigación jurídica’.” (KELSEN, 1979, p. 102 apud FERRAJOLI, 2009, p. 28)
70 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Em L'età dei diritti, de 1989, Bobbio trabalha com a evolução das cha-
madas dos Direitos Fundamentais e Humanos. Afirma o jurista italiano
que há natural tendência de transformação e ampliação dos direitos, afir-
mando bastar examinar os escritos dos primeiros jusnaturalistas para ver
quanto se ampliou a lista dos direitos, eis que Hobbes conhecia apenas um
deles, o direito à vida. Fortemente movido por um misto das teorias de
Vasak com a de Jellinek, continua afirmando que o desenvolvimento dos
direitos do homem passara por três fases:

num primeiro momento, afirmaram-se os direitos de liberdade, isto é, todos


aqueles direitos que tendem a limitar o poder do Estado e a reservar para o
indivíduo, ou para os grupos particulares, uma esfera de liberdade em relação
ao Estado; num segundo momento, foram propugnados os direitos políticos,
os quais – concebendo a liberdade não apenas negativamente, como não-im-
pedimento, mas positivamente, como autonomia – tiveram como
conseqüência a participação cada vez mais ampla, generalizada e freqüente
dos membros de uma comunidade no poder político (ou liberdade no Estado);
finalmente, foram proclamados os direitos sociais, que expressam o amadure-
cimento de novas exigências – podemos mesmo dizer, de novos valores –,
como os de bem-estar e da liberdade através ou por meio do Estado. (BOBBIO,
1993, p. 32 e 33).

Alexy (2009, p. 446-447) tece interessante pontificação sobre a fun-


ção dos Direitos Fundamentais: ou serão direitos de defesa ou serão
direitos a prestações (sentido amplo ou restrito). Direitos de defesa são
aqueles do cidadão frente ao Estado, pautados na proibição de determi-
nada afetação de determinado bem jurídico. Direitos a prestações em
sentido amplo consistem nos direitos a proteção que o Estado deve pro-
mover por meio de medidas de organização e procedimentais. Direitos a
prestações em sentido estrito são as prestações materiais sociais propria-
mente ditas. Eis aí as múltiplas camadas dos Direitos Fundamentais, em
Direitos Individuais, Sociais ou Transindividuais, como dito por Bobbio.
Seriam estas, assim, as chamadas Gerações/Dimensões dos Direitos Fun-
damentais. Aqui, para todos os fins, não se entrará no debate de
nomenclatura de Gerações ou de Dimensões, considerando-as sinônimas.
Thiago Felipe S. Avanci | 71

Com base nos elementos traçados até agora, pode-se formar um con-
ceito mais maduro de Direitos Fundamentais. Uma posição positivista
formalista clássica identificaria Direitos Fundamentais apenas como aque-
les que o texto constitucional assim expressamente apontaria. Aplicado à
realidade brasileira, a Constituição Federal de 1988 prevê, em seu Título
II, os “Direitos e Garantias Fundamentais”, abarcando os artigos 5º ao 17,
que tratam dos direitos individuais, dos direitos sociais e dos direitos polí-
ticos. No entanto, uma melhor análise indica dissipação de Direitos
Fundamentais por outras partes da Constituição (posição material), reve-
lando que este instituto, mercê de seu fim especialíssimo, não pode ficar
adstrito a uma falta de técnica legislativa do Constituinte. Deveras, de certa
forma o constituinte reconheceu sua incapacidade em elencar sistematica-
mente os Direitos Fundamentais, de forma a os açambarcar em um único
Título, prevendo, pelo §2º do artigo 5º uma aplicação extensiva dos Direi-
tos Fundamentais (direitos decorrentes) bem como sua aplicabilidade
imediata, nos termos do §1º daquele mesmo artigo da Constituição.
Partindo desta premissa interpretativa, pós-positivista, pode-se iden-
tificar os Direitos Fundamentais em função de traços e elementos comuns
à sua espécie, bem como procurando sua raiz incidental nos Direitos Fun-
damentais especificamente previstos e, além, no próprio princípio
norteador dos Direitos Fundamentais: a Dignidade Humana.
Das características comuns, encontra-se evidente o elemento da uni-
versalidade de destinação dos Direitos Fundamentais. “Todos”, “qualquer
pessoa”, “homens e mulheres”, “ninguém”, indicam titularidade universal,
em seu sentido amplo. Ainda que determinados Direitos Fundamentais (li-
mitações ao voto, limitação de elegibilidade, p.ex.) imponham adstrição à
universalidade, conforme já foi explicado em item próprio, não a ferem em
sentido stricto. A par de o constituinte ter imposto determinadas restrições
de fruição dos Direitos Fundamentais, fê-lo embasado na manutenção da
ordem social, da soberania e de outros preceitos necessários à continui-
dade dos próprios Direitos Fundamentais. Além disso, fica evidenciado que
a universalidade acaba, de per si, abarcando algumas outras características
72 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

atribuídas aos Direitos Fundamentais: indisponibilidade, imprescritibili-


dade, irrenunciabilidade.
E, muito embora as Gerações/Dimensões subsequentes à Primeira
protejam efetivamente determinados elementos naquela prevista, o fazem
sob novo matiz, enfoque, aspecto, faceta etc. não observada ou não regu-
lada especificamente naquela ocasião. Além disso, as Gerações/Dimensões
subsequentes dos Direitos se alicerçam na Dignidade Humana, permitindo
uma proteção ainda mais ampla do que a conferida por ocasião das Gera-
ções subsequentes. Em assim sendo, por exemplo, o direito à vida, previsto
no art. 5º caput, Direito Fundamental de Primeira Geração e respeitado
em sintonia com o direito à saúde, previsto no art. 6º caput, Direito Fun-
damental de Segunda Geração e com o Direito Fundamental de Terceira
Geração ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, previsto no art.
225, todos da Constituição Federal do Brasil.
São, assim, Direitos Fundamentais os direitos e garantias, constituci-
onalmente estabelecidos, ou em nível constitucional equivalente, aplicados
inicialmente em perspectiva vertical em face do Estado, mas hoje aplicados
nas relações sociais horizontalmente, que tem como objetivo último a re-
alização da Dignidade Humana.
E bem assim, prosseguindo, observa-se que os Direitos Sociais cons-
tituem uma espécie dos Direitos Fundamentais que visam, a partir do
estabelecimento de prestações positivas e créditos de direitos, realizar a
igualdade material, propiciando acesso a qualidade de vida por parte da
população, que não teria possibilidade de tê-lo em condições normais di-
ante de pobreza ou de dificuldade econômica. Conceituar pobreza não é
algo simples. Rattner aponta critério objetivo e numérico, aliás, como
usado por alguns organismos internacionais:

“No mundo de desenvolvimento internacional, há certo consenso sobre a


renda de US 1,0 dólar por dia como linha de pobreza e, em alguns casos, o
limite é fixado em US 2,0 dólares por dia. O Banco Mundial define como pobre
a pessoa cuja renda está abaixo de certo nível, ajustada pelas diferenças de
poder de compra. Em princípio, os dados estatísticos são baseados na fração
Thiago Felipe S. Avanci | 73

da população de um país que carece de recursos para adquirir a chamada


“cesta básica” (RATTNER, 2010).

Mais uma vez ponderando sobre a pobreza, Sen contrapõe-se identi-


ficando que a pobreza não pode ser aferida apenas como limitação de
acesso ao acúmulo de capital. Daí a importância de instrumentos de Direi-
tos Sociais, como os presentes na seguridade social brasileira, para mais
largamente prevenir ou remediar a pobreza, como uma forma de realiza-
ção de justiça social.

Na teoria da justiça de Rawls, um lugar importante é dado à eliminação da


pobreza medida quanto à privação de bens primários, e esse enfoque rawlsi-
ano com efeito foi poderosamente influente na análise de políticas públicas
para a remoção da pobreza. Finalmente (embora isso seja, em grande parte,
minha própria leitura, que os outros podem ou não julgar ser uma boa inter-
pretação de Rawls), concentrando-se em “bens primários” (isto é, nos meios
gerais úteis para alguém alcançar seus objetivos abrangentes), Rawls reco-
nhece indiretamente a importância da liberdade humana em dar às pessoas
oportunidades reais — por oposição àquelas apenas formalmente reconheci-
das — para fazerem o que bem entendam com suas próprias vidas. (SEN,
2009, p. 70).

Rettner menciona pesquisa de Oxford Poverty and Human Deve-


lopment Initiative, índice que foi construído com estatísticas colhidas em
mais de cem países em desenvolvimento. A partir de tal pesquisa, foi cons-
truído novo índice, Indicador Multidimensional de Pobreza (IMP),
utilizado no relatório do PNUD – Programa das Nações Unidas para o De-
senvolvimento a partir de 2010 (RATTNER, 2010). Por este novo modelo
de indicador, é crível o retrato da pobreza a partir da leitura de ausência
de certos bens e serviços básicos: se o piso da casa é feito de cimento, terra
batida ou palha; se há banheiro adequado; se os membros da casa devem
caminhar mais de meia hora para conseguir água potável; se há acesso a
eletricidade; se todas as crianças em idade escolar frequentam escolas; o
número de analfabeto na família; outros exemplos de dados que compõe
o índice usam dados da situação de saúde, de vacinação e de subnutrição.
74 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Assim, ao que parece, a ideia numérica objetiva e de Sen, subjetiva,


se encontram e constroem um indicador adequado. Toma-se como con-
ceito de pobreza, a partir deste IMP, se a moradia apresentar padrão de
resposta inferior a 30% em dez indicadores levantados. Com isso, seria
viável calcular a percentagem de pobres multidimensionais em cada país
(RATTNER, 2010).
De todo modo, como se pode perceber, estes dois diferentes conceitos
de pobreza – IMP vs. renda per capita - são antagônicos (embora comple-
mentares). Conforme Henrique Rettner elucida:

Na índia, por exemplo, muito mais gente carece de coisas básicas medidas pelo
IMP do que quando aferidas pela renda per capita. O oposto ocorre na Tanzâ-
nia, que consegue resultados melhores na alimentação, habitação e educação
do que um indicador baseado no cálculo da renda (RATTNER, 2010).

Esta complementaridade se deve a soma da dimensão econômica nu-


mérica (objetiva) e da dimensão social (subjetiva), o que permite
compreender melhor a profundidade humana do problema: restrições à
subsistência, com limitação à nutrição e ao acesso à serviços públicos bá-
sicos, limitação do poder de compra etc. Parece uma solução abrangente e
não excludente do pretendido pela justiça social pregada por Sen.
Apesar de falhas ainda existentes, se usados com ética e com atenção
à realidade, podem ser instrumento importante na compreensão e para
melhoria da realidade social, justamente por constituir visão simplificada
da realidade social. Por isso mesmo que Sen pondera a necessidade de se
observar como usar pesos relativos para solver a problemática.

A escolha de pesos relativos também pode depender da natureza do exercício


(por exemplo, se estamos usando a perspectiva da capacidade para avaliar a
pobreza ou para orientar a política de saúde, ou usando-a para avaliar a desi-
gualdade entre as vantagens totais de diferentes pessoas). Diferentes questões
podem ser resolvidas com base nas informações sobre as capacidades, e a di-
versidade dos exercícios envolvidos pode sensatamente levar a escolhas bem
distintas de pesos relativos. (SEN, 2009, p. 213, nota l)
[...]
Thiago Felipe S. Avanci | 75

Mesmo o uso constante de visões da pobreza baseadas na renda (como a re-


petida invocação do número de pessoas que vivem com menos de um ou dois
dólares por dia — uma prática popular nas organizações internacionais) pode
desviar a atenção da terrível dureza da privação social, que combina a desvan-
tagem da conversão com a da renda. Os 600 milhões de pessoas incapacitadas
no mundo não são atormentadas apenas pela baixa renda. Sua liberdade para
levar uma vida boa está arruinada de muitas maneiras diferentes, que agem
individualmente e em conjunto para pôr essas pessoas em perigo. (SEN, 2009,
p. 219)

3. Economia e direito

Se o aplicar da norma jurídica tenciona fazê-lo isoladamente das con-


sequências econômicas, o resultado pode não proveitoso. Como se viu até
o momento, a realização dos Direitos Sociais depende necessariamente de
uma análise econômica, já que é pela Economia que o Direito ganha sua
efetividade. Assim, a escassez e a utilidade devem ser objeto de estudo do
aplicador do Direito.
Um bem será economicamente relevante se gozar de utilidade e se
for escasso; será útil um bem desejado porque servível; será escasso um
bem com disponibilidade limitada no mundo. Eis que o valor do bem, con-
forme definido pela escola clássica de Smith (SMITH, 2003) e de Ricardo
(RICARDO, 1996), será definido considerado o trabalho (humano) como
algo inerente ao sistema. Isso foi criticado por Marx, posteriormente, que
considerou o trabalho empenhado como elemento influenciador do preço
(MARX, 2013). O pensamento de Marx de mais-valia como influenciador
do preço acabou por ser adaptado considerando o avanço tecnológico
(mais valia relativa), mas o sistema binário de troca de forças interdepen-
dentes permanece: o criador de riqueza (através do trabalho) e recebedor
de riqueza (através da utilização do trabalhador). Este sistema dialético
hegeliano é de mão dupla, na medida em que o criador e o recebedor de
riqueza, por vezes, alternam-se de posição enquanto atores partícipes
deste processo. Há uma interdependência entre os atores que colabora
com o acúmulo de capital, que é o objetivo do sistema capitalista. Neste
76 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

processo de acumulo de capital, crescente, David Harvey ensina que o sis-


tema não é representado por um movimento cíclico, mas por uma espiral4:
a acumulação de capital tende a aumentar na medida em que a moeda é
recurso infinito (HARVEY, 2013).
De todo modo, é importante perceber que há uma correlação direta
entre acúmulo de capital e Direitos Fundamentais Individuais. Quanto
mais acumulo de capital, maior o respeito a direitos individuais. E, da
mesma forma, em teoria, o acumulo de capital se dá com a maior concen-
tração de valor de troca. Amartya Sen observa esta relação, embora revele
que o enriquecimento e o empobrecimento (capacidade de acúmulo de ca-
pital) não tenha como única referência o capital de per si. Sen alerta que
“a pobreza real (com relação à privação de capacidade) pode facilmente ser
muito mais intensa do que podemos deduzir dos dados sobre a renda”
(SEN, 2009, p. 217). E continua, exemplificando que é fundamental na ava-
liação da ação pública de assistência aos idosos e outros grupos com
dificuldades de reconversão, além de sua baixa aptidão para obter uma
renda, o que revela a dificuldade do problema (SEN, 2009, p. 217). Assim,
simplificar o debate à questão monetária de poder de compra seria empo-
brecê-lo. Claramente, o nível de renda é relevante, já que determina o
poder de compra das pessoas e determinar se há ou não o suficiente para
a própria subsistência, a alimentação; por outro lado, nem sempre a ele-
vação do nível de renda caracteriza a elevação da qualidade de vida e o
acesso aos direitos e serviços básicos de um cidadão, como o saneamento,
educação e saúde.
Retornando a formulação econômica, se percebe que a partir da
equação básica de mercado (preço ou valor troca é definido em função da
oferta e da demanda) que o valor econômico não se confunde com valor
axiológico. O valor econômico de um bem deriva de sua escassez (oferta)
e de sua utilidade (procura): este é que o mercado perfeito smithiano e

4
Esta percepção de movimento espiral é importante para a melhor compreensão dos ciclos de Kondratiev, o que se
abordará mais abaixo. Em linhas gerais, o movimento cíclico-senoidal econômico tenciona crescimento, de maneira
que a onda não tem seu vale e crista limitados; por isso, mais interessante é a visualização do modelo senoidal-
espiralado, retratando crescimento econômico.
Thiago Felipe S. Avanci | 77

utópico; o real mercado apresenta mecanismos de manipulação (conside-


rados falhas de mercado) que visam o benefício do “recebedor de riqueza”
por meio de acúmulo maior de capital (NUSDEO, 2013).
Exemplifica-se como mecanismo de manipulação do mercado real a
mais-valia (absoluta e relativa), pela qual que explica manobras que per-
mitem aumento do acúmulo de capital através de contingente de reserva
de trabalhadores. Eis que os Direitos Fundamentais Sociais visam, justa-
mente, equilibrar esta dinâmica, fazendo com que o indivíduo consiga
acúmulo de Direitos Individuais a partir de intervenções estratégicas:
trata-se de uma repartição de riqueza ou salário indireto, observado por
Marx (MARX, 2013).
Contudo, este reequilíbrio na tensão de acúmulo de capital por meio
dos Direitos Sociais, sob a flâmula da Dignidade Humana, decorre de visão
idealista. Também deve ser, pois, explicado, sob uma perspectiva realista:
trata-se de tentativa de manter o sistema de acúmulo de capital operando,
na medida em que se compartilha parte da riqueza para gerar demanda.
A oferta depende da produção; a demanda, por outro lado, depende da
repartição de riqueza. Assim, se há concentração de riqueza absoluta em
um dos polos do sistema, este estará fadado a decadência ou, no mínimo,
à estagnação. Keynes, na primeira metade do Séc. XX, observou este mo-
vimento, diante da depressão mundial de 1929: pelo modelo liberal
clássico, as forças são destinadas a promover o crescimento da oferta, uma
vez que é a partir da oferta que há crescimento da produção; pelo modelo
keynesiano, se investe forças na procura, por meio de injeção e estímulo
no salário direito e indireto (KEYNES, 1992).
Não se pretende fazer crítica quanto a adoção de modelos. Até porque
no meio termo está a social democracia, com política welfarista em um
modelo neoliberal que tenta equilibrar as distorções do mercado a partir
de ações positivas do Estado, sustentadas por fundos públicos. Tais ações
podem ser chamadas Direitos Sociais e coexistem necessariamente com os
Direitos Individuais.
78 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

4. Racionalidade de Sen para a realização de justiça social

A pobreza é um parâmetro essencial para construção e efetivação de


Direitos. Como entende Sen, a identificação da pobreza com baixa renda
está bem estabelecida, contudo, não a revela plenamente considerando in-
suficiências e privações. Isso foi debatido no tópico anterior deste estudo,
a partir da leitura do autor que enfoca o modelo rawlsiano sobre os bens
primários como sendo mais abrangente do que a renda. Isso permite a
identificação de bens primários como meios úteis para múltiplos fins, en-
tre os quais a renda e a riqueza são exemplos específicos (e importantes),
enumerando: heterogeneidades pessoais; diversidades no ambiente físico;
Variações no clima social; diferenças de perspectivas relacionais (SEN,
2009, p. 216).
Somente por esta faceta, percebe-se que há uma evidente complexi-
dade na gestão de Direitos Fundamentais. Em observância da teoria da
norma e das antinomias, literalmente, se está diante de um hard case em
que, como disse Bobbio, o intérprete foi abandonado à própria sorte para
solver a equação5. Em verdade, na hipótese de hard case ou de antinomia
real, a norma jurídica não fornece ao interprete uma maneira de parame-
trizar eventual escolha entre que direito deve ser socorrido em detrimento
de outro.
Considerando a escassez, nem todos podem ter tudo a todo tempo
(HUME, 2004, p. 245) e, assim, cabe ao executivo e ao legislativo, por ve-
zes, fazer a “escolha de Sofia” quando provocados. Deveras, Holmes e
Sunstein já advertiram, parafraseando o livro de Dworkin, que levar os
direitos a sério é levar a escassez a sério6. Eis que se pretende aqui destacar
que, no caso de consolidação de Direitos Fundamentais, em especial, dos
Direitos Sociais, não se está banalizando o processo decisório maniqueis-
tamente entre o “vil metal” versus a “vida humana”. A realidade é que, por
mais vil que se afirme o epíteto, é a economia, na nossa atual conjuntura

5
Teoria da Norma, antinomia real.
6
“taking rights seriously is taking scarcity seriously” (SUNSTEIN e HOLMES, 1999)
Thiago Felipe S. Avanci | 79

social, que sustenta a vida humana em todas as suas esferas de conforto e


comodidade. Portanto, no fiel da balança do processo decisório da antino-
mia, não se está dinheiro e vida; está vida e vida.
Neste sentido, Philippa Foot travou experimento mental denominado
trolley problem (FOOT, 1967), ou o Dilema do Bonde, que ajuda a compre-
ender valores, danos quantitativos e danos qualitativos: o participante é
convidado a imaginar cenário em que ele está em um pátio de manobra de
ferrovia e tem controle, por alavanca, do destino de uma composição des-
governada; pode mandá-la para trilhos à direita (em que estão 5 pessoas
que de lá não podem sair) ou para trilhos à esquerda (em que estão 15
pessoas nas mesmas condições). Não se trata de aplicar uma resposta
quantitativa; na verdade não há uma resposta certa. Sua finalidade é per-
ceber a complexidade de se realizar determinadas escolhas baseadas em
um utilitarismo behaviano7.
Amartya Sen mostra-se extremamente preocupado com o desenvol-
vimento econômico por meio da liberdade. Em debate estabelecido com o
pensamento Rawls no livro a Ideia de Justiça, o autor efetivamente celebra
o pensamento de que o conceito de justiça não é constante (imparcialidade
fechada – juízo imparcial advindo de membros de uma determinada soci-
edade), mas plural (imparcialidade aberta – juízo imparcial subministrado
por membros de fora da sociedade) (SEN, 2009). Isto conduz a um pensa-
mento distinto a respeito do conceito havido de qualidade de vida. A
qualidade de vida de uma pessoa seria, segundo pensamento capitalista,
associada com a capacidade de se acumular riqueza; no entanto Sen de-
fende que a qualidade de vida seria freedom-based, ou seja, liberdade dos
indivíduos caracterizadas pela possibilidade (capabilities) de realização de

7
“Suppose that a judge or magistrate is faced with rioters demanding that a culprit be found for a certain crime and
threatening otherwise to take their own bloody revenge on a particular section of the community. The real culprit
being unknown, the judge sees himself as able to prevent the bloodshed only by framing some innocent person and
having him executed. Beside this example is placed another in which a pilot whose airplane is about to crash is
deciding whether to steer from a more to a less inhabited area. To make the parallel as close as possible it may rather
be supposed that he is the driver of a runaway tram which he can only steer from one narrow track on to another;
five men are working on one track and one man on the other; anyone on the track he enters is bound to be killed. In
the case of the riots the mob have five hostages, so that in both examples the exchange is supposed to be one man's
life for the lives of five” (FOOT, 1967),
80 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

escolhas e consequente respeito a elas: “capacidade de uma pessoa para


fazer coisas que ela tem razão para valorizar” (SEN, 2000, p. 265).
Observando esta construção inicial, tem-se a primeira pedra angular
para a reflexão proposta sobre escolhas difíceis em termos de realização
de políticas públicas: nem sempre é possível garantir o máximo desenvol-
vimento econômico desejado, mas todas as ações devem sempre confluir
para garantir o máximo desenvolvimento econômico possível. Esta leitura
feita de Sen revela uma reaproximação ao utilitarismo, em especial no que
tange, ao uso da racionalidade no processo decisório.
Deveras, Sen pondera que somente é possível atingir a imparciali-
dade aberta se conhecer todas as consequências e todas as variáveis que
estão direta ou indiretamente relacionadas ao processo decisório. Isto por-
que uma valoração adequada efetuada por sujeito que não acompanha as
peculiaridades da vivência daquele grupo social pode incorrer em possibi-
lidade de causar consequências nefastas na imposição de valores com
aquela sociedade incompatíveis. Por isso a racionalidade para o processo
decisório é fundamental como instrumento de realização da justiça: por
isso, “ser atencioso com os desejos e objetivos dos outros não precisa ser
visto como uma violação da racionalidade” (SEN, 2009, p. 207)
Calabresi e Bobbitt, por seu turno, inserem no debate variáveis eco-
nômicas, observando o processo decisório estabelecido em análise da
relação entre oferta e demanda, em um primeiro momento, e posterior-
mente, em uma aceitação social em relação àquela lei econômica
(CALABRESI e BOBBIT, 1978). Esta observação social complementa o pen-
samento do custo social de Coase, indicando que existem externalidades
que impedem a decisão considerando o preço mais baixo em níveis abso-
lutos, mas são tomadas diante do preço mais baixo possível (COASE,
out./1960).
E é justamente aí que a complexidade do processo decisório em
virtude das antinomias se afigura, em especial diante do Poder Judiciário.
Notadamente, existem duas construções teóricas que são aparentemente
opostas: “reserva do possível” e “mínimo existencial”. A primeira
Thiago Felipe S. Avanci | 81

representaria arquetipicamente o dinheiro, enquanto que a segunda, a


humanidade. Há uma homérica disputa entre defensores dos dois lados e
incontáveis trabalhos científicos analisando-as8. Amaral bem observa a
valoração axiológica entre ambos os lados:

O Judiciário, ao apreciar demandas individuais ou coletivas relativas a preten-


sões positivas, deve ponderar o grau de essencialidade da pretensão, em
função do mínimo existencial e a excepcionalidade da situação, que possa jus-
tificar a decisão alocativa tomada pelo Estado que tenha resultado no não
atendimento da pretensão (AMARAL, 2001, p. 228).

Ainda que a questão seja uma antinomia real, sem fácil resolução, a
polarização até hoje existente entre defensores da “reserva do possível” e
do “mínimo existencial” poderia ser revista. Poder-se-ia observar, até
mesmo alinhado com a lição de processo decisório racional de Sen, que irá
se analisar mais adiante neste texto, que o que está em jogo não é dinheiro
versus vida humana, mas sim vida humana e vida humana. Isto fica evi-
dente quando observadas as consequências sociais básicas decorrentes de
perdas econômicas: em outras palavras, o quanto vidas humanas sofreram
por decisões econômicas equivocadas. Mais uma vez, remeta-se à crise
econômica brasileira de 2014-2016 decorrente de escolhas equivocadas do
governo (AVANCI, 2020).
O mínimo existencial é construção teórica sedimentada pela Corte
Constitucional alemã, no pós-Guerra, a partir da necessidade de interpre-
tação de Direitos Sociais mínimos, diante de uma constituição silente,
diante do julgamento do caso BvL 32/70 e 25/71, em 18 de julho de 1972.
Esta construção teórica foi constatada a partir do fato de que o Estado não
tem capacidade suficiente para dar vazão a todos os inscritos em processo
de ingresso em universidade e que, por mais que exista o Direito Social
relacionado a educação, não é sempre possível garantir a todos, todos os

8
No que diz respeito à resolutividade da antinomia, todos os trabalhos observados, no entanto, cingem o processo
decisório a um juízo axiológico de valoração qualitativo, sobre o que é mais relevante: preservar o mínimo existencial
ou preservar a coletividade econômico-Estatal. Este trabalho tensiona proposição não axiológico-valorativa para esta
antinomia, analisando-a por elementos mais objetivos, o que será visto em oportuno, no próximo item 4.4.2, portanto
em mecanismo quali-quantitativo.
82 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

direitos (escassez, novamente). O citado aresto explicitou, neste contexto,


que mesmo na medida em que os direitos sociais de participação em bene-
fícios estatais não são desde o início restringidos àquilo existente em cada
caso, eles se encontram sob a reserva do possível, no sentido de estabelecer
o que pode o indivíduo, racionalmente falando, exigir da coletividade. Isso
deve ser avaliado em primeira linha pelo legislador em sua própria respon-
sabilidade. Ele deve atender, na administração de seu orçamento, também
a outros interesses da coletividade, considerando, conforme a prescrição
expressa do Art. 109 II da Constituição, as exigências da harmonização eco-
nômica geral (ALEMANHA; RECHTSPRECHUNG;, 1972).
O que se observa, portanto, é que a Constituição alemã firmou cami-
nho no sentido de que, no caso de tensão indivíduo-coletividade
(Gemeinschaftsbezogenheit und Gemeinschaftsgebundenheit), o indivíduo
deve tolerar limites à sua liberdade de ação, contanto que permaneça pro-
tegida a individualidade da pessoa. (ALEMANHA; RECHTSPRECHUNG;,
1972). E neste sentido intervencionista, Sayeg defende, em seu estudo, que
o modelo proposto pela Escola de Chicago, em que o Estado somente deve
servir de intermediário para os atores econômicos, deixando o mercado se
regular, não é o melhor para a garantia do mínimo existencial. Esclarece
que

Portanto, a aplicação no Brasil da teoria da Análise Econômica do Direito não


será propriamente segundo a Escola de Chicago, mas sim sob um colorido do
regime econômico neoliberal relativo da economia humanista de mercado, ou
seja, a liberdade de iniciativa, a propriedade privada, o mercado como coorde-
nador da atividade econômica, contudo com o Estado e a Sociedade Civil
presentes e proativos, assim, induzindo impositivamente a alocação eficiente
dos recursos econômicos disponíveis e a regência jurídica da economia, com
vista à consecução dos objetivos fundamentais da República e à concretização
simultânea dos direitos humanos de primeira, segunda e terceira dimensão,
que assegure a toda a população existência digna. (SAYEG, 2012)

Neste sentido, Sen estabelece que estes problemas morais devem ser
resolvidos de forma pragmática e voltada a soluções pontuais, e não ne-
cessariamente globais e sem prever todas os aspectos relacionados àquele
Thiago Felipe S. Avanci | 83

sistema. É uma postura altamente utilitária e racional que visa a realização


da justiça. O que se percebe é que não há necessariamente uma resposta
definida para problemática; trata-se de análise de valores, baseados em
imparcialidade aberta ou fechada (melhor seria esta última, porquanto ob-
serva a realidade local de forma mais eficaz), garantindo justiça social. A
partir destas diretrizes definidas pela escolha social, Sen propõe solução
menos filosófica e mais voltada à resolução prática de problemas observa-
dos pelas ciências sociais:

Às vezes a escolha e a ponderação podem ser difíceis, mas não há aqui ne-
nhuma impossibilidade geral de fazer escolhas arrazoadas baseadas em
combinações de objetos diversos. Fazer escolhas com recompensas incomen-
suráveis é como falar em prosa. Em geral, não é particularmente difícil falar
em prosa (mesmo que M. Jourdain em O burguês fidalgo, de Molière, pudesse
se maravilhar com nossa destreza para realizar uma façanha tão exigente).
Mas isso não nega o reconhecimento de que falar pode às vezes ser muito di-
fícil, não porque se expressar em prosa seja, por si só, árduo, mas porque essa
fala fica difícil, por exemplo, quando somos arrebatados pelas emoções. A pre-
sença de resultados incomensuráveis apenas indica que as decisões
envolvendo alternativas não serão triviais (redutível apenas a contar os “mais”
e os “menos”), mas não indica, de forma alguma, que seja impossível — ou
mesmo que deva sempre ser particularmente difícil. (SEN, 2009, p. 275)

Por isso mesmo, explica Sen que há debate em torno dos Direitos So-
ciais, no que tange à aplicabilidade em cada nação. As críticas, posiciona o
autor, seriam distribuídas em “crítica da institucionalização” e “crítica da
exequibilidade”. A crítica da institucionalização estaria ligada à crença de
que os direitos reais devem se desenvolver numa relação de correspon-
dência exata com os respectivos deveres formulados com precisão. A
“crítica da exequibilidade” parte, na visão de Sen, do argumento de que
talvez não seja possível concretizar muitos dos alegados direitos sociais e
econômicos para todos (SEN, 2009, p. 310). Pondera o autor que a inexe-
quibilidade momentânea de um direito não pode ser impeditiva para que
ele exista. Portanto, parece acertado que a exequibilidade de um Direito
84 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Social esteja em sintonia com um processo racional de escolha, realizando


um direito abstrato no plano fático.

5. Conclusão

O conceito de Direitos Fundamentais, embora complexo, não é capaz


de traduzir uma grave dificuldade enfrentada pelo aplicador dos direitos,
pelo intérprete, pelo hermeneuta ou pelo executor governamental. Esta
dificuldade conste em justamente garantir a efetividade dos Direitos Fun-
damentais em um universo concreto, que lida com uma constância tensão
para a realização causadas por um fundamento da ordem econômica: a
escassez. A abundância de direitos acaba não sendo medida tão-somente
pela designação de dispositivos normativos estabelecidos impressos no pa-
pel, que a tudo aceita.
A efetividade dos direitos designados pelas diversas fontes normati-
vas acaba por encontrar um gargalo financeiro para tocar-lhe efetividade.
Deveras, em se considerando a dinâmica estabelecida pela natureza dos
Direitos Sociais, a escassez econômica ganha contornos mais pujantes por-
quanto estes – Direitos Sociais – somente podem ser estabelecidos a partir
de atuação positiva por parte do Estado, na consecução de igualdade ma-
terial. Se observa, portanto, a dificuldade de o gestor ou de o intérprete,
na prática, implantar políticas públicas considerando este cenário de es-
cassez econômica, em que ele deverá optar por um caminho e
potencialmente negligenciar outro.
Sen propõe uma análise das capabilities para que isso sirva de subs-
trato no processo decisório, diante da certeza da escassez. Por esta análise,
o autor em comento propõe que como forma de realização da justiça social,
que o processo decisório seja humanizado e racional. Isto permite ao ator
compreensão holística da problemática, porquanto análise de indicadores,
por vezes, não revelam suficientes informações sobre todas as variáveis
envolvidas.
Isto irá permitir que o intérprete, o gestor, enfim, o criador ou apli-
cador da política pública, observe que não pode considerar apenas dados
Thiago Felipe S. Avanci | 85

quantitativos e unidimensionais para o combater eventuais problemas so-


ciais, como por exemplo, a miséria. Deve observar dados qualitativos e
quantitativos, de modo que a política pública designada, seja estabelecida
de modo otimizado. Isto é: otimiza-se a política pública, garantindo maior
qualidade possível a quem dela irá se servir. Considerando a escassez, pa-
rece a solução adequada que os gastos públicos em políticas públicas sejam
feitos com consciência e com inteligência.

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5

Desigualdade social:
a paralaxe brasileira e o ponto cego revelado pela
pandemia, reflexões a partir do conceito de capacitações
de Amartya Sen

Talvanni Machado Ribeiro 1


Gustavo Polis 2

1. Introdução

O presente trabalho tem como proposta uma reflexão na busca de


soluções sobre os problemas revelados a partir da Pandemia de COVID-19
no que concerne a extensão das desigualdades sociais, o que evidencia não
só o desconhecimento da escala do problema, mas também a fragilidade
do Estado na condução de politicas que busquem a superação das desi-
gualdades e promoção do bem estar social.
A partir disso, o problema de pesquisa que orienta o presente estudo
é: A proposta de superação das desigualdades social do autor é capaz de

1
Mestrando em Direito pela Faculdade Meridional – IMED, Especialista em Gestão e Docência no Ensino Superior
pela Universidade Luterana do Brasil – ULBRA (2019), Especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário na Atu-
alidade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC MINAS (2017), Graduado em Direito pela
Faculdade Meridional – IMED (2014), integrante do grupo de pesquisa Transnacionalismo e Circulação de Modelos
Jurídicos, grupo de pesquisa Ética, cidadania e sustentabilidade e grupo de pesquisa Modelos Constitucionais Sistê-
micos Autopoiéticos, Técnico em Segurança do Trabalho pelo Centro de Ensino Médio Integrado Universidade de
Passo Fundo – CEMI UPF (2009), Advogado OAB/RS. talvanni.ribeiro@gmail.com.
2
Mestrando em Direito na Faculdade Meridional – IMED. Bolsista CAPES/PROSUP. Membro do grupo de pesquisa
"Transnacionalismo e Circulação de Modelos Jurídicos" vinculado ao Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu -
Mestrado em Direito - da Faculdade Meridional – IMED. Graduado em Direito pela Faculdade Meridional - IMED.
Advogado (OAB/RS). polis.g@outlook.com.
90 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

dar respostas positivas e resolutivas do problema, ou se a mesma não seria


um meio de compreensão para busca de soluções. A hipótese de pesquisa
lançada é de que a teoria proposta por Amartya Sen se apresenta como
meio capaz de possibilitar a compreensão dos problemas, bem como, dar
norte ao desenvolvimento de soluções, sendo, portanto, a compreensão da
teoria, como medida de desenvolvimento de um modelo de superação ou
redução das desigualdades.
O método de pesquisa que conduzira a presente pesquisa será o hi-
potético-dedutivo, baseado em pesquisas e análises bibliográficas, o
método de pesquisa busca sanar eventuais dúvidas que surjam no anda-
mento do trabalho, face alguns dados não serem suficientemente sólidos,
a fim de viabilizar uma compreensão acerca da extensão dos assuntos tra-
tados, mediante a proposição de hipóteses para resolução das questões
levantadas que serão comprovadas ou refutadas ao longo da pesquisa.

2. COVID-19 e a desigualdade social

A pandemia de COVID-19 revelou muito mais do que as fragilidades


no sistema de saúde brasileiro, revelou o expressivo número de pessoas
abaixo da linha da pobreza, revelou o ponto cego a muito tempo debatido,
revelou a gritante desigualdade social presente em um país que simples-
mente nega tal realidade.
A partir de tais considerações, importante observarmos os elementos
revelados, Huri Paz, pesquisador da Universidade Federal Fluminense –
UFF, fez importantes observações, acerca de tais questões, logo no início
da pandemia, o mesmo chamava a tenção para alguns dados que demons-
travam a disparidade de regiões esquecidas pelo poder público e então
extremamente vulneráveis, chamando a atenção para a revelação histórica
de desigualdades que estavam por vir (PAZ, 2020).
Mas afinal, o que se entende por desigualdade social, Monica Dias
Martins apresenta que segundo o relatório do Programa das Nações Uni-
das pata o Desenvolvimento, de dezembro de 2019, o Brasil figurava como
Talvanni Machado Ribeiro; Gustavo Polis | 91

o sétimo país do mundo com maior desigualdade social medido pelo índice
de Gini em 0,533, chama a atenção para o fato de que mesmo que o Índice
de Desenvolvimento Humano IDH esteja relativamente alto em 0,761, a
realidade é outra, a mesma entende que a desigualdade é estrutural ao
capitalismo. (MARTINS, 2020)
Neste cenário, observou-se a expansão da pandemia pelas favelas, pe-
riferias e interiores do Brasil o que escancarou a perversa desigualdade
social e econômica entre as classes sociais. (FIOCRUZ, 2020)
O Conselho Nacional de Saúde, CNS apontou para a necessidade de
atenção aos mais vulneráveis face a desigualdade nas condições de sanea-
mento e moradia face à pandemia, inexistindo, portanto, a possibilidade
de enfrentamento adequando da pandemia por essas pessoas.
A desigualdade, sem dúvida foi a protagonista pelo alastramento da
COVID19 entre o mais pobres, no estado de São Paulo a maioria dos infec-
tados foram os trabalhadores que não puderam parar de trabalhar, os
desempregados, os negros e pardos, segundo estudo realizado pela prefei-
tura de São Paulo, ficou demonstrado que quem precisou sair para
trabalhar teve três vezes mais chances de se contaminar, segundo dados
14,3% da população das classes D e E já haviam sido contaminadas quando
da realização da fase 3 do inquérito sorológico realizado pela prefeitura,
logo, aqueles, que em sua maioria informais e desempregados, em busca
de ocupação e renda, ou seja, cujas funções não comportavam serem de-
sempenhadas em regime de home office, nesta mesma perspectivam, de
acordo com o IBGE, na classe C daquela cidade a prevalência do vírus foi
de 11% e nas classes A e B foram de 4,7%, demonstrando que desigualdade
é fator de risco no cenário pandemiologico. (GOMES, 2020)
A mesma pesquisa fez um recorte racial e demonstrou que negros e
pardos foram o maior índice de contaminação do que em brancos, cuja
diferença de percentual foi praticamente o dobro, sendo 14,8% e 8,1%
respectivamente.
92 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Em artigo publicado pelo WeForum, no portal Econômico Mundial


trouxe a perspectiva de outras desigualdades reveladas, mencionando 5
pontos mostrados pela COVID-19 sobre desigualdade.
Os pontos relacionados no texto são o acesso a espaços verdes, cujo
beneficio físico e mental são demonstrados por estudos, apresenta que
uma pesquisa realizada na África do Sul apontou os bairros ditos “brancos”
tem 12% mais cobertura de arvores e estão cerca de 700 metros mais pró-
ximos de parques públicos do que áreas com residentes negros, outro
ponto apresentado é o acesso e resultado de saúde, cujo destaque se deu
pelo distinto acesso a cuidados de saúde de grupos diferentes, segundo
apresenta, um relatório de 2018 da Comissão Europeia afirmou que os
20% com menor renda estão entre os grupos mais desfavorecidos no que
concerne ao efetivo acesso e cuidados com a saúde.
Outro ponto mencionado foi a exclusão digital, neste sentido apre-
senta que cerca de 50% das pessoas na Índia não possuem acesso a
internet o que representa cerca de 600 milhões de pessoas sem acesso, ou
seja, o trabalho remoto e a educação se tornam uma realidade distante.
Empregos em um mundo virtual foi outro ponto apresentado no ar-
tigo, demonstrando a existência de um abismo digital, cujos dados
sugerem que o numero de pessoas que trabalham em casa esta direta-
mente ligado a qualidade e ao acesso a internet, neste sentido.

O economista de Stanford, Nicholas Bloom, acredita que essa tendência está


"gerando uma bomba-relógio para a desigualdade”. Bloom explica que “funci-
onários mais instruídos e com salários mais altos têm muito mais
probabilidade de trabalhar em casa - portanto, eles continuam a receber salá-
rios, desenvolver suas habilidades e avançar em suas carreiras. Ao mesmo
tempo, aqueles que não podem trabalhar em casa - seja por causa da natureza
de seus empregos ou porque não têm espaço adequado ou conexões com a
Internet - estão sendo deixados para trás. Eles enfrentarão perspectivas som-
brias se suas habilidades e experiência de trabalho se desgastarem durante
uma paralisação prolongada e depois”. (GLOBO, 2020)
Talvanni Machado Ribeiro; Gustavo Polis | 93

A acessibilidade e deficiência aparecem no texto demonstrando que


muitas pessoas foram afetadas de forma desproporcional durante a pan-
demia, segundo o artigo, pesquisas realizadas no Reino Unido
demostraram que dois terços das pessoas com deficiência visual sentiram-
se menos independentes desde o inicio da pandemia, além de demonstrar
que no Reino Unido, mais de dois terços das mortes provocadas pelo Co-
vid-19 foram de pessoas com deficiência, tal circunstancia foi alertada pela
OMS.

A OMS explica que "as pessoas com deficiência apresentam piores resultados
de saúde, têm menos acesso à educação e oportunidades de trabalho e têm
maior probabilidade de viver na pobreza do que as pessoas sem deficiência".
Por exemplo, em toda a União Europeia, menos de uma pessoa em cada duas
com alguma dificuldade de desempenhar atividades básicas está empregada,
de acordo com o Eurostat. (GLOBO, 2020)

Além disso também apresentou dados.

A OMS também chama a atenção para uma pesquisa com pessoas com trans-
tornos mentais graves. Entre 35% e 50% nos países desenvolvidos e 76% e
85% dessa população nos países em desenvolvimento não receberam nenhum
tratamento no ano anterior. A pandemia e a resposta da covid-19 trouxeram
desigualdades sistêmicas pré-existentes como essas - e a necessidade de com-
batê-las - em foco. (GLOBO, 2020)

Deste modo, se verifica que os impactos da covid-19 foram em diver-


sos segmentos, e demonstraram uma fragilidade estrutural.

A covid-19 expôs fragilidades como as desigualdades crescentes, catástrofes


climáticas, ampliação das divisões sociais, corrupção galopante, todas estas in-
justiças amplificadas pela pandemia. E mais: o progresso de décadas foi
varrido e a pobreza – pela primeira vez em 30 anos – está aumentando, assim
como os índices de desenvolvimento humano estão diminuindo (DALLARI,
2020)
94 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Os impactos agravadores advindos com a pandemia foram inúmeros,


sejam econômicos, com a redução de renda, perda de empregos, seja o
impacto na saúde, a limitação de acesso a educação.
Neste sentido podem ser compreendidos como meio de privação das
capacidades, privações data vênia já existentes, mas que foram ampliadas,
e também em certa medida responsáveis, revelando a extensão de um pro-
blema já conhecido, mas subestimado.

3. Capacitações de Amartya Sen

Amartya sem teoriza sobre a superação da desigualdade social, o que


faz, data vênia com ideais e argumentos contundentes no sentido de de-
fender uma teoria, que seja capaz de possibilitar a compreensão de como
superar, bem como norteadora para o desenvolvimento de politicas publi-
cas com objetivos vinculados aos ideais.
Para Amartya Sen, a renda ou riqueza é uma forma inadequada de
julgar a vantagem, ele elenca as capacidades como abordagem principal
em sua teoria, a qual conceitua como as habilidades que uma pessoa possui
para o exercício na busca do que deseja, ou seja, as capacidades são as
liberdades, liberdades de levar um tipo de vida que deseja, sendo a falta
destas liberdades as privações que desencadeiam a desigualdade.
Portanto, para Sen a pobreza tem de ser vista como privação de ca-
pacidades básicas e não como simples baixo nível de renda, critério
comum de identificação da pobreza. (SEN, 200, p.109)
Outros são os fatores além da renda que exacerbam essa privação, a
titulo de exemplo se observa o fator idade, doença ou incapacidade que é
fator redutor de renda de uma pessoa. (SEN, 2000, p. 110)

A abordagem das capacitações (capabilities) apresenta como alternativa de


análise ou de avaliação a multiplicidade de situações, características e contex-
tos que influencia a vida humana e a organização social. Por exemplo, os
requerimentos de alimentação e nutrientes para a capacidade de bem alimen-
tar-se variam muito de pessoa para pessoa, dependendo de características de
Talvanni Machado Ribeiro; Gustavo Polis | 95

metabolismo, de tamanho do corpo, de gênero, de gravidez, de idade, de pa-


rasitoses, entre outras. Da mesma forma, podem-se destacar as condições
sociais, naturais e ambientais, como clima, relevo, disponibilidade de água,
acesso à tecnologia e à comunicação. (ZAMBAM, 2019)

Para Sen, é extremamente necessário coibir os processos de privação


de capacidade, sendo a pobreza nesta perspectiva somente uma das vul-
nerabilidades, assim como tantas outras, como a idade e até mesmo uma
doença.
Portanto, o exercício das capacidades e a redução das desigualdades
necessita de mecanismos viabilizadores, ou seja, politicas públicas focadas
nas áreas essenciais para viabilizar um desenvolvimento, assim, não deve-
mos pensar que a pobreza é o único fator limitante, mas pensar todo o
contexto, seja saúde, educação, pois são chaves.
Logo, é a partir das capacitações que é viabilizado o desenvolvimento
e exercida efetivamente a liberdade, então a superação de uma realidade,
importante enfatizar que para Sen, o desenvolvimento é compreendido
como o processo de expansão das liberdades, ou seja, é a liberdade é pres-
suposto ao desenvolvimento.
Neste sentido, Sen entende que o exercício da liberdade somente é
possível no momento em a pessoa é de fato capaz de viver da forma que
deseja, assim, entende o autor que o desenvolvimento deve ser medido não
só pelo que as pessoas realizam, mas pelas suas reais liberdades em viver
da forma digna. (COUGO, 2016 p.170), também, nesta perspectiva Zam-
ban coloca, que:

O exercício da liberdade está associado às oportunidades que as pessoas estão


expostas ao longo da vida. Disso se pode afirmar que, quanto mais opções de
escolha as pessoas tiverem, melhor poderá́ ser a qualidade de vida. (ZAMBAN,
2019)

Desta forma tem-se que o caminho para o desenvolvimento é a eli-


minação de todas as privações de liberdade que limitam em certa medida
as escolhas da pessoa de decidir a forma digna e particular de bem
(COUGO, 2016)
96 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Para Sen, a expansão da liberdade é vista não só como o principal fim,


mas, também, como o principal meio do desenvolvimento (SEN, 2000)

A abordagem das capacitações (capabilities) é uma modalidade alternativa


para a avaliação das principais ações sociais, seja no âmbito das politicas pu-
blicas, da atuação das instituições ou das opções individuais, que visam à
realização humana e à justiça social. A introdução de um conjunto de indica-
dores alternativos aos tradicionais, como das utilidades, dos bens primários e
das necessidades humanas e sociais, está diretamente relacionado ao vigor de
uma sociedade democrática que prima pelas liberdades politicas e pelo perma-
nente processo de participação. Essa concepção, tanto em nível de
compreensão como da concretização das condições de justiça social, precisa
resguardar a repercussão sobre os direitos políticos e civis e a prevenção de
graves ameaças ao funcionamento das sociedades ou da sua população, por
exemplo, retrocessos políticos, desemprego e aumento das desigualdades, a
fim de aprimorar as condições de convivência equitativa e justificar a aborda-
gem das capacitações (capabilities) em contextos de grave constrangimento
social, politico e econômico. (ZAMBAN, 2019)

Portanto, a discussão das capacidades é extremamente necessária,


sobretudo o debate público, na busca pelo desenvolvimento humano. O
debate público se mostra extremamente importante, revelando-se como
um exercício de liberdades, meio de superação das desigualdades, vetor
para o desenvolvimento.

4. Conclusão

Conclui-se que a Pandemia COVID-19 trouxe a tona problemas co-


nhecidos, mas de extensão por muitos não imaginada, os riscos por falta
de uma organização publica, com debate coerente a realidade, é fato que
se observa.
As privações destas liberdades foram responsáveis não só pelo agra-
vamento das desigualdades, mas foram fatores que levaram vidas, a busca
pela superação se confunde neste cenário como luta pela vida.
A busca por soluções é extremamente relevante e necessária, ao passo
que o debate publico chega como vértice central, nesta perspectiva, as
Talvanni Machado Ribeiro; Gustavo Polis | 97

contribuições de Amartya Sen, viabilizam a compreensão do sistema


social, além disso apresenta uma estrutura, que permite compreender o
funcionamento e a importância do debate publico.
As capacidades, elementos fundamentais desta teoria somente viabi-
lizam-se com o debate.
E são as capacidades que permeiam o exercício de liberdades, que
são mecanismos capazes de possibilitar não só a superação das desigual-
dades como uma visão ampla dos problemas a serem solucionados, pois
permite observações de distintas ordens e sobretudo clareza para a tomada
de decisões e discussões públicas para construção de politicas públicas no
combate a desigualdade social.
A importância da teoria, não só se mostra como mecanismo, mas
como teoria capaz de permitir uma analise detalhada de pontos funda-
mentais ao desenvolvimento, portanto entendemos, que a mesma traz
inúmeras contribuições para a compreensão do cenário social, a ao con-
trario de dar respostas, permite a busca delas.

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6

Desenvolvimento social e justiça de gênero:


uma análise pela abordagem das capabilidades

Nyara Rosana Kochenborger de Araujo


Fabrício Pontin

1 Introdução

Para que sociedades possam evoluir e melhorar a qualidade de vida


de seus indivíduos é necessário que o desenvolvimento social passe por
avaliações e interpretações periódicas, de forma a mensurar o que há de
bom e está funcionando, mas principalmente o que há de ruim e deve pas-
sar por melhorias. Atualmente, essas análises tendem a ocorrer através de
perspectivas econômicas, associando o desenvolvimento à prosperidade fi-
nanceira e a um farto crescimento de PIB (Produto Interno Bruto). Ainda
que esse tipo de análise possa considerar aspectos sociais e relevantes à
vida diária dos cidadãos, como a saúde, a educação, aspectos mais funcio-
nais do dia a dia são ignorados, como a segurança e o direito de ir e vir,
além de não considerar também as peculiaridades envolvendo a desigual-
dade de gênero.
Com o desenvolvimento deste trabalho, pretende-se analisar pressu-
postos mais diretos de análise de desenvolvimento, baseados na teoria das
capabilidades desenvolvida por Amartya Sen e reexaminada por Martha
Nussbaum, através de uma pesquisa bibliográfica de suas produções. Além
disso, busca-se também avaliar os critérios de avaliação de bem-estar so-
cial oferecidos pelos autores, de forma a verificar sua aptidão para o
exercício de análise de desenvolvimento social.
100 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

2 O que são capabilidades

Desenvolvida por Amartya Sen, na década de 1980, a teoria das capa-


bilidades surge como uma nova perspectiva de análise sobre aspectos de
desenvolvimento e justiça social, e também sobre as possibilidades sociais
em relação à capacidade de exercício da cidadania, na qual a expressão
capabilidade “[...] foi escolhida para representar as combinações alterna-
tivas de coisas que uma pessoa é capaz de ou de fazer [...]” (Sen, 2003, p
30, tradução nossa). A partir dessa teoria, Sen sugere focos de avaliação
para observar a habilidade humana de ser ou atingir determinado ponto
de desenvolvimento pessoal e social, os quais são reexaminados (e readap-
tados) por outros filósofos, para que se observe um determinado objetivo
ou característica de uma sociedade, como a presença de boa educação, po-
breza e justiça de gênero.
Conforme descrito no texto Capability and Well-Being (Sen, 2003),
avaliações sociais e de desenvolvimento baseadas no preceito das capabi-
lidades podem ser semelhantes àquelas de análises utilitaristas. No
entanto, ao utilizar uma abordagem capabilista, essas avaliações levam em
consideração aspectos de funcionalidade humana e social com relevância
própria, e não apenas como instrumentos ou meios para determinado fim,
como ocorre nas visões de utilidade.
Ainda de acordo com Sen, a presença de determinadas liberdades in-
dividuais e coletivas influenciam no conjunto de capabilidades possíveis e
disponíveis ao sujeito. Considerando as capabilidades como um conjunto
de objetivos a serem atingidos para que se obtenha determinado nível de
bem-estar, a avaliação desse mesmo conjunto de capabilidades deve con-
siderar as funcionalidades escolhidas (ou atingidas) pelo indivíduo ou
sociedade. Conforme Sen,

A “capabilidade” de uma pessoa representa a liberdade para atingir “funcio-


nalidades” humanas valiosas, as quais podem variar desde coisas elementares
como ser bem-nutrido e evitar a morbidade e a mortalidade escapáveis, até
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo; Fabrício Pontin | 101

conquistas tão complexas quanto alcançar o respeito próprio, ser bem-inte-


grado com a sociedade, e assim por diante.” (Sen, 1990, p 460, tradução
nossa).

Dentro da teoria capabilista elaborada por Sen e posteriormente re-


forçada por Nussbaum, pode-se também observar subgrupos de
capabilidades. De acordo com a autora (Nussbaum, 2000. p 84), as capa-
bilidades podem ser separadas em três tipos diferentes. O primeiro tipo
seriam as basic capabilities, aquelas inatas aos indivíduos, como ver e ou-
vir, as quais ofereceriam as bases, ou equipamentos, necessários para a
funcionalidade humana. As chamadas internal capabilities seriam as con-
dições humanas básicas após certo desenvolvimento, mas ainda sem a
garantia de funcionalidade total, como por exemplo a linguagem, pois
trata-se uma habilidade possível de ser adquirida com a mera observação,
mas que requer certo estudo e prática para que seja utilizada de forma
correta. Sendo assim, as combined capabilities seriam as capabilidades in-
ternas combinadas à fatores externos propícios, como no caso onde
mulheres possuem a capabilidade interna de dirigir, ou seja, sabem con-
duzir, porém não possuem a capabilidade combinada de realmente ter
liberdade para dirigir, devido à fatores socioculturais externos. Vale res-
saltar, no entanto, que a distinção entre capabilidades internas e
combinadas é uma linha tênue, visto que muitas das internas necessitam
de fatores externos para serem desenvolvidas.
Para este trabalho, será colocada em foco a perspectiva da autora
Martha Nussbaum a respeito da teoria capabilista de Amartya Sen, princi-
palmente a partir do texto Capabilities as Fundamental Entitlements
(Nussbaum, 2003). De acordo com a autora, “[...] as capabilidades ofere-
cem uma forma atrativa de entender o conteúdo normativo da ideia de
desenvolvimento” (Nussbaum, 2003, p 34, tradução nossa). A partir disso,
as capabilidades caracterizariam então as titularidades básicas do ser hu-
mano, as quais podem ser colocadas em paralelo com os Direitos
Humanos.
102 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

3 Importância léxica

A linguagem utilizada em teorias capabilistas, ou seja, a linguagem


das próprias capabilidades, está muito ligada à linguagem utilizada
quando se trata de direitos fundamentais e direitos humanos. Isso se deve
às semelhanças entre as titularidades oferecidas e reforçadas pelas capa-
bilidades e àquelas dispostas principalmente na Declaração Universal dos
Direitos Humanos, como a liberdade de associação, as liberdades políticas
e os direitos econômicos (sociais e individuais).
Conforme ressaltado por Nussbaum, as capabilidades e os direitos
humanos “exercem um papel parecido, ambos oferecendo uma base para
comparações interculturais e também uma base filosófica para princípios
constitucionais” (Nussbaum, 2003, p 36, tradução nossa). No entanto,
ainda que tenham uma conexão muito explícita, a linguagem das capabi-
lidades suplementa a linguagem dos direitos, oferecendo maior precisão e
objetividade. Isso se deve à amplitude interpretativa possível através do
léxico empregado quando se tratam de direitos. Como a origem do direito
não é clara em relação à vários aspectos, as análises possíveis de uma
mesma linguagem podem variar, a depender do ponto de origem da aná-
lise, assim como do objetivo a ser atingido ao analisar determinado(s)
direito(s).
A linguagem das capabilidades é capaz de oferecer pontos de obser-
vação mais claros em análises de desenvolvimento, além de outros
aspectos sociais, ao ser clara em si própria a respeito dos objetivos a serem
atingidos e das motivações por trás do exercício de análise sendo realizado.
Também, essa linguagem capabilista é em si mesma uma afirmação da
presença de direitos, visto que “[...] assegurar um direito aos cidadãos [...]
é colocar eles em uma posição de capabilidade de funcionar naquela área”
(Nussbaum, 2003, p 37, tradução nossa). Então, para assegurar que uma
sociedade é socialmente justa e oferece os direitos fundamentais aos indi-
víduos, é necessário observá-la através das capabilidades asseguradas e
efetivamente exercidas no mesmo meio. Outra vantagem dessa linguagem
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo; Fabrício Pontin | 103

também consiste na imparcialidade sociocultural, pois a teoria capabilista


não está ligada à nenhuma cultura ou sociedade específica, seja por requi-
sito de aplicação ou por contextualização histórica.
Ainda assim, a linguagem dos direitos não deve ser totalmente elimi-
nada, visto que exerce papel social importante, de acordo com Nussbaum.
Quando se tratam de demandas de justiça individuais e coletivas, a lingua-
gem do direito funciona para conotar urgência. Ao tratar como direitos,
também é possível enfatizar a autonomia e a possibilidade de escolha in-
dividual.

4 Igualdade capabilista

Pensar na justiça social e justiça de gênero como aspectos relevantes


na análise de desenvolvimento de determinada sociedade é um dos pontos
norteadores da teoria das capabilidades, principalmente a partir da criação
do Índice de Desenvolvimento Humano por Sen em 1990. Medir a quali-
dade de vida através de indicadores econômicos e de crescimento não seria
eficaz, pois a economia nacional (ou local, a depender do foco de observa-
ção) pode estar prosperando e crescendo, mesmo que a qualidade de vida
individual não esteja satisfatória. (Nussbaum, 2003, p 33)
Observar a oferta de direitos humanos, econômicos e/ou sociais em
determinada sociedade também não garante que a qualidade de vida seja
boa, em termos de bem-estar. Quando analisadas as questões de gênero e
(des)igualdade, essa discrepância entre oferta e realidade torna-se ainda
mais presente. Por exemplo, não há registros atualmente de países onde
mulheres não possuam o direito de dirigir, ou então que sejam legislativa-
mente proibidas do mesmo ato. Entretanto, devido a questões culturais e
sociais, essas mesmas mulheres detentoras de um direito não têm a capa-
bilidade de exercer a função de conduzir um carro, pois não têm permissão
matrimonial ou religiosa.
A igualdade de gênero, portanto, se torna um valor político a ser ob-
servado e atingido, o qual deve configurar papel central na configuração
104 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

de sociedades, de forma a oferecer possibilidades sociais, ou seja, capabili-


dades, de forma justa e igualitária tanto a homens quanto a mulheres. É
nesse momento que a análise social por viés capabilista se torna mais im-
prescindível, visto que

[...] Sen argumenta que o espaço das capabilidades oferece um modo mais
produtivo e eticamente satisfatório de observar a igualdade como objetivo po-
lítico. Igualdade de utilidade ou bem-estar é insuficiente [...]. Igualdade de
recursos é insuficiente porque falha em considerar o fato de que indivíduos
precisam de diferentes níveis de recursos, se eles pretendem atingir o mesmo
nível de capabilidade para funcionar. Eles também têm habilidades diferentes
para converter recursos em funcionalidades reais. (Nussbaum, 2003, p 35, tra-
dução nossa)

Dessa maneira, a teoria capabilista se torna a ferramenta mais rea-


lista e objetiva para análises sobre a presença de igualdade de gênero. Além
disso, em sociedades que almejam a igualdade entre os indivíduos, obser-
var a existência de capabilidades seria a forma mais prática de determinar
se há, realmente, uma oferta igualitária de titularidades humanas.

5 Problema no uso do utilitarismo

Conforme previamente exposto, analisar o desenvolvimento e o bem-


estar social através da métrica dos direitos oferecidos pode ser um erro,
causando interpretações irreais da situação dos indivíduos em determi-
nada sociedade. Sen também critica o uso de análises utilitaristas em
relação ao desenvolvimento e as funcionalidades sociais. A utilidade, para
Sen, “[...] é inadequada para capturar a heterogeneidade e a incomensu-
rabilidade de vários aspectos do desenvolvimento” (Nussbaum, 2003, p
34, tradução nossa). Isso se deve ao uso de referências normativas que
objetivam um ponto específico da situação humana e social, além de des-
considerar aspectos relevantes como a liberdade individual.
Também é necessário ressaltar que a própria teoria capabilista de Sen
foi desenvolvida tendo em vista a criação de uma teoria sobre justiça de
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo; Fabrício Pontin | 105

gênero. Essa justiça de gênero deve considerar aspectos sociais e culturais,


além dos aspectos econômicos e políticos de praxe, para que haja uma in-
terpretação realista das funcionalidades dispostas e oferecidas às mulheres
em relação aos homens. Conforme Nussbaum,

Só podemos ter uma teoria adequada de justiça de gênero, e de justiça social


em geral, se estivermos dispostos a fazer demandas sobre titularidades funda-
mentais que são, em certa extensão, independentes de preferências que
pessoas podem ou não ter, preferências frequentemente moldadas por pré-
condições injustas. (Nussbaum, 2003, p 34, tradução nossa).

A crítica de Sen, abordada por Nussbaum, evidencia ainda a falta de


consideração, em análises de utilidade, a respeito da tendência a preferên-
cias adaptativas mostradas principalmente por mulheres. As diferentes
situações socioculturais influenciam no conjunto de escolhas e capabilida-
des disponíveis a mulheres, e essas são levadas a mudarem suas
preferências e adaptarem-nas as condições que lhes são oferecidas, ou
àquelas às quais acreditam ter direitos. Devido a seu histórico desprovido
de bem-estar, ou socialmente influenciado à mediocridade, essas mulheres
adaptam o que seria a sua preferência original àquela em que está dentro
dos seus hábitos sociais e pessoais (Nussbaum, 2000, p 136 e 139).
Não é possível medir em níveis de utilidade as preferências demons-
tradas por mulheres em condições economicamente precárias, e na
maioria dos casos socialmente abusivas. Além disso, a desigualdade de gê-
nero cria condições favoráveis aos homens em diversos âmbitos sociais, o
que torna a abordagem utilitarista de desenvolvimento irrelevante em ter-
mos práticos.

6 Problema no uso da liberdade

No desenvolvimento de sua teoria no texto Capability and Well Being,


os autores abordam a questão da liberdade e capabilidades como “A liber-
dade para levar diferentes tipos de vida é refletida no conjunto de
capabilidades de uma pessoa” (Sen, 2003, p 33, tradução nossa). Ou seja,
106 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

as capabilidades disponíveis ao indivíduo estão intimamente ligadas às li-


berdades exercidas e disponíveis aos mesmos. Os autores reforçam, ainda,
que a própria noção de liberdade é um pouco problemática, pois depende
do contexto de observação e das variáveis envolvidas na análise da pre-
sença ou ausência de capabilidades. Por exemplo, pode-se questionar se
uma pessoa realmente detém a capabilidade de livre arbítrio para escolher
uma moradia, quando não o faz por falta de coragem ou de vontade. Se a
própria definição de liberdade não é clara, então isso seria refletido nos
conjuntos de capabilidades influenciados por ela.
Por outro lado, no texto Capabilities as Fundamental Entitlements,
Nussbaum critica essa postura ampla e, de certa forma, indireta, de Sen.
Ela reforça a ambiguidade do próprio autor ao tratar de liberdade, visto
que esse conceito engloba questões mais específicas do que apenas as pos-
síveis funcionalidades humanas e suas privações. Liberdade também
engloba questões de gênero e violência, assim como limites de ação inter-
pessoal, e pode significar a linha tênue entre a vida e a morte de uma
pessoa. Conforme exemplo dado pela autora, motociclistas em determi-
nado local podem ter a liberdade de conduzir sem capacete, e essa
liberdade em si própria não significaria algo diretamente bom ou ruim. No
entanto, quando um motorista opta por essa liberdade, estaria optando
também pela consequência de ferir-se ou ferir a outros, mesmo que impli-
citamente.
É por este motivo que Nussbaum ressalta a necessidade que algumas
liberdades sejam limitadas, de forma a garantir que outros indivíduos te-
nham suas próprias a seu dispor. Conforme a autora, “Em resumo,
nenhuma sociedade que busque a igualdade, ou até mesmo um mínimo
social amplo, consegue evitar o cerceamento de liberdades em muitas for-
mas” (Nussbaum, 2003, p 45, tradução nossa). Isso ocorre principalmente
com essas liberdades que atravessam as barreiras das relações interpesso-
ais, como a limitação da liberdade de dirigir sem capacete para que a
liberdade de outros motoristas conduzirem em segurança seja também ga-
rantida.
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo; Fabrício Pontin | 107

Para Sen, no entanto, a liberdade seria invariavelmente boa por si só,


e o problema residiria no uso feito com ela. Em sua abordagem, o autor
usa como exemplo a força de um homem, e sua liberdade para fazer o que
quiser com ela. Isso poderia significar bons usos, produtivos a si e à socie-
dade, mas também poderia significar um livre instrumento para a
agressão a mulheres e crianças. Outro exemplo que pode ser citado é a
discriminação racial, no uso da liberdade de escolher seus funcionários
pela cor da pele, um gerente estaria atentando contra a liberdade indivi-
dual de ter um trabalho digno.
Essa visão é criticada por Nussbaum por ser vaga e de certa forma
perigosa, pois abriria espaço para interpretações de liberdade que vão con-
tra o próprio preceito de justiça social de gênero. Ainda que algumas
liberdades sejam fundamentadas nas questões de justiça, outras podem se
utilizar de um viés autoritário, agressivo e/ou prejudicial que vá contra
situações justas e livres. Devido a esse fato, a autora ressalta que “Qualquer
sociedade que permita essas liberdades às pessoas, também permitiu in-
justiças fundamentais, envolvendo a subordinação de um grupo
vulnerável” (Nussbaum, 2003, p 46, tradução nossa). A definição e delimi-
tação das liberdades também funciona como um ponto norteador para a
avaliação e oferta de capabilidades à sociedade, de forma justa e igualitária,
atuando como um pré-roteiro de manutenção social.

7 Listando as capabilidades

Conforme explanado anteriormente, Nussbaum divide as capabilida-


des em três categorias (as basic capabilities, as internal capabilities e as
combined capabilities). Entretanto, em seus escritos, Sen não somente não
ofereceu uma lista de quais seriam essas capabilidades necessárias para
um bom desenvolvimento social e bem-estar, como também negou expli-
citamente a possibilidade de uma lista definitiva (Sen, 2004). Para o autor,
seria impossível a criação de uma lista pré-determinada de capabilidades,
108 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

pois a própria ideia capabilista vem das variações sociais e suas necessida-
des específicas.
Conforme explanado por Sen, “Ter tal lista fixada, emanando total-
mente de uma teoria pura, é contrariar a possibilidade de uma
participação pública produtiva sobre o que deve ser incluído e por quê”
(Sen, 2004, p 77-78, tradução nossa). Ainda que tenha discutido a neces-
sidade de algumas capabilidades gerais que devem ser asseguradas a
todos, como a boa educação, a saúde e a alimentação, Sen se mostra con-
trário à existência de uma lista, pois esta impossibilitaria a adição de novos
itens e também ignoraria a participação pública na sua preparação.
Por outro lado, Nussbaum, além de oferecer uma lista com 10 capa-
bilidades que considera indispensáveis à todas as sociedades, critica essa
ausência de objetividade na teoria de Sen, pois acaba por dificultar as aná-
lises feitas sob viés capabilista. Para ela, não seria possível, sem estabelecer
de antemão quais as capabilidades necessárias, uma análise realista e ob-
jetiva do desenvolvimento social.
A autora denomina essa lista Central Human Capabilities, tratando-a
“[...] como um foco tanto para medições comparativas de bem-estar,
quanto para a formulação de princípios políticos básicos, aqueles funda-
mentais em garantias constitucionais” (Nussbaum, 2003, p 40, tradução
nossa). A partir do ponto básico de relação entre as capabilidades e a dig-
nidade humana, a autora explica que essa lista não objetiva estabelecer
pontos diretos e imutáveis, mas sim um ponto básico norteador, que pode
ser adaptado às realidades e às titularidades almejadas. Sendo assim, soci-
edades que falhem em garantir esses pontos básicos, seriam sociedades
injustas, independentemente de sua situação econômica ou política.

7.1 As capabilidades básicas

As capabilidades mínimas que deveriam existir em qualquer socie-


dade bem desenvolvida são de forma resumida, a Vida; a Saúde Corporal;
a Integridade Corporal; os Sentidos, a Imaginação e o Pensamento; as
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo; Fabrício Pontin | 109

Emoções; a Razão Prática; a Afiliação; as Outras Espécies; o Lazer; e o Con-


trole Sobre o Ambiente (Nussbaum, 2003, p 41-42). Essa lista leva em
consideração, em seu núcleo, a questão da pluralidade, ao ser vaga o sufi-
ciente para que seja adaptada às realidades sociais de cada local que as
utilize como ponto norteador. A lista também é passível de adaptações,
mudanças e correções, visto que o intuito da autora não é estabelecer uma
regra, mas sim um auxílio para observações e análises sociais.
A primeira das capabilidades listadas por Nussbaum é a mais simples,
objetiva e amplamente difundida tanto por ela, quanto por Sen, e por ou-
tros filósofos e teoristas. A capabilidade (ou o direito) à vida configura a
primeira e maior prioridade social, pois todas as pessoas devem ter direito
a estarem vivas e a terem uma vida digna e naturalmente longa. Em se-
guida aparece a saúde corporal, que engloba, além de aspectos de saúde
básica, como a ausência de fome e doença, também as questões de saúde
reprodutiva e condições básicas de abrigo. Na sequência, a integridade cor-
poral aparece como a necessidade de se garantir o direito de ir e vir, a
necessidade de segurança (individual e pública), e também as questões de
justiça de gênero, como a proteção contra a violência doméstica e a saúde
sexual.
A capabilidade das sensações, imaginação e pensamentos aborda um
aspecto mais etéreo de interpretação social, no qual a possibilidade de agir
como um ser humano racional por si mesmo é indispensável. Para estas
capabilidades serem atingidas, é necessário que haja a oferta de uma boa
base educacional, que inclua os conteúdos necessários para o desenvolvi-
mento de um raciocínio próprio. Além disso, é nesse ponto que está a
liberdade de expressão e de exercício religioso, artístico e político. O exer-
cício das emoções vem na sequência, abordando a possibilidade de
sentimentos e apegos emocionais, de sentir amor, luto e raiva, sem que
haja medo ou repressão à estas experiências.
A partir disso, a razão prática se torna necessária para que o indiví-
duo possa (e saiba) expressar suas posições críticas sociais, além de
proteger a sua consciência e sua liberdade de decisão. No que tange ao
110 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

relacionamento com outras pessoas, a capabilidade de afiliação configura


dois papéis importantes, sendo eles a capacidade de viver de forma enga-
jada em uma sociedade, e a possibilidade de uma base social de respeito e
não-humilhação, para que todos sejam tratados como seres humanos
igualmente dignos, sem que haja discriminação por determinada caracte-
rística pessoal. Viver em harmonia, e de forma pacífica, com outras
espécies também é uma capabilidade importante, segundo a autora, para
que o mundo em que vivemos seja protegido. Poder brincar, se divertir e
aproveitar atividade recreativas está também na lista de capabilidades in-
dispensáveis para Nussbaum.
Por fim, a última capabilidade citada pela autora trata-se do controle
sobre o ambiente onde o indivíduo está inserido. Este controle diz respeito
a dois âmbitos particulares, o âmbito político, onde a pessoa pode partici-
par ativamente de decisões políticas e governamentais que regem a sua
sociedade, além de proteger também a possibilidade de existirem associa-
ções políticas com interesses variados e com liberdade de expressão. Já no
âmbito material, a pessoa precisa ser capaz de possuir propriedade pri-
vada, tanto a intelectual quanto a física móvel e imóvel. Além disso, deve
ser possível a procura e exercício de trabalho remunerado, e também a
proteção contra buscas e apreensões não justificadas, ou perseguições.

8 Conclusão

A teoria capabilista abordada por Martha Nussbaum possui algumas


semelhanças fundamentais com os textos base de Amartya Sen, a respeito
do uso e da teoria capabilista em análises de desenvolvimento. No entanto,
a autora diverge de Sen quando se trata da delimitação específica dessa
teoria, assim como suas aplicações diretas. Também Nussbaum reflete
acerca dos problemas com determinados tipos de análise de desenvolvi-
mento e bem-estar, como o viés utilitarista, além de criticar a apresentação
da liberdade por Sen.
Nyara Rosana Kochenborger de Araujo; Fabrício Pontin | 111

Desenvolver uma perspectiva capabilista com pontos de observação


bem definidos para interpretações de desenvolvimento é de suma impor-
tância, visto que análises baseadas apenas em fatores econômicos ou de
utilidade falham em apresentar resultados reais. Para que o bem-estar so-
cial seja corretamente avaliado, é necessário haver pontos focais que
demonstrem a verdadeira situação social, através das titularidades oferta-
das e garantidas à sociedade, além daquilo descrito em constituições ou
em relatórios socioeconômicos. sendo assim, através da lista de 10 capabi-
lidades básicas desenvolvidas por Nussbaum, se torna possível a avaliação
de meios sociais independente de fatores como crescimento da economia
ou presença/ausência de direitos.
A abordagem do assunto de capabilidades na análise de desenvolvi-
mento social é bastante estudada por outros filósofos, dispondo de uma
bibliografia bastante extensa, porém para este trabalho optou-se por focar
nas abordagens de Amartya Sen e Martha Nussbaum. No entanto, a pre-
sente pesquisa a respeito de preceitos básicos e capabilistas para
observação do desenvolvimento social irá prosseguir, objetivando a desco-
berta de mais pontos de análise e seus embasamentos teóricos, através da
interpretação dos escritos de outros autores, como Ingrid Robeyns.

Referências

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minist Economics, [S.L.], v. 9, n. 2-3, p. 33-59, jan. 2003. Disponível em:
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NUSSBAUM, Martha. Women and Human Development: the capabilities approach. New
York: Cambridge University Press, 2000. 312 p. Disponível em: https://genderbud-
geting.files.wordpress.com/2012/12/nussbaum_women_capabilityapproach2000.p
df. Acesso em: 08 out. 2020.

SEN, Amartya. Capability and Well-Being. In: SEN, Amartya; NUSSBAUM, Martha. The
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nist Economics, [S.L.], v. 10, n. 3, p. 77-80, nov. 2004. Disponível em:
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SEN, Amartya. Welfare, Freedom and Social Choice: a reply. Recherches Économiques de
Louvain: Louvain Economic Review, [S.I.], v. 56, n. 3/4, p. 451-485, jan. 1990. Dis-
ponível em: https://www.jstor.org/stable/40723937?seq=1. Acesso em: 08 out.
2020.
7

Mediação e (in) justiça:


a importância da escolha no processo mediativo e
o valor da liberdade sob a compreensão de Amartya Sen

Simone Paula Vesoloski 1


Elisandra Fabrícia Bernstein 2

1 Introdução

O Direito evolui a todo instante, as relações humanas se modificam


constantemente, em vista disso, múltiplas são as leis existentes. A doutrina
tenta explicar essa correlação entre pessoas, conflitos e espaço temporal,
já a jurisprudência tenta aproximar e reunir decisões e interpretações dos
tribunais tentando unificar e não deixar tão dispare as decisões. Princípios
são levados em conta de maneira conjunta a este arsenal jurídico, base-
ando-se sempre na dignidade da pessoa humana e levando em conta
diversos outros princípios que são de suma importância para manter o
sistema ordenado, garantindo a segurança e pacificação social. Assim,
tem-se uma base sólida e ordenada, que prima pela proteção à liberdade
de cada indivíduo sem deixar o interesse coletivo de lado, para que seja
possível propiciar um equilíbrio entre o individual e o global.

1
Graduanda do 10º semestre do Curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões,
URI - Câmpus Erechim, RS, membro integrante do Grupo de Estudos do Centro Brasileiro de Pesquisas sobre a
Teoria da Justiça de Amartya Sen – IMED – Passo Fundo, RS. E-mail: simonels17@hotmail.com
2
Graduanda do 10º semestre do Curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões,
URI - Câmpus Erechim, RS, E-mail: elisandrafabricia@hotmail.com
114 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Neste sentido, sabe-se que o acesso à justiça para dirimir controvér-


sias é um direito e uma liberdade de todo e qualquer indivíduo. Contanto
que a própria Constituição garante essa premissa, dando a liberdade e as-
segurando este direito que, na grande maioria é judicializado, seja por
meio de um advogado contratado ou por meio de defensor público. Em
vista dessa garantia, as demandas judiciais fazem parte de uma estatística
crescente ano após ano, oque faz crer que as pessoas não acreditam que
são capazes de administrar os seus próprios conflitos. Por isso, é de
grande relevância, debater sobre esse assunto, o judiciário esta abarro-
tado, além de moroso, por esta razão é necessário que a sociedade no todo,
conheça e compreenda que a judicialização não é o único e nem o mais
eficaz acesso à justiça. A frustração do cidadão pela morosidade na entrega
da prestação jurisdicional através da judicialização por parte do Estado faz
com que o cidadão se depare com a violação do direito pela busca do seu
direito e a ausência de opção a não ser esperar o próprio poder estatal
reconhecer em algum momento a demanda esperada.
Sabe-se que muitas ações poderiam ser resolvidas através desses mé-
todos, restringindo-se a procedência de ações impróprias e em demasia
que congestionam o poder judiciário, tais ferramentas, propiciam um tra-
tamento mais humanizado ao conflito, economia de tempo e de recursos
públicos. Os métodos de resolução de conflitos, tanto a conciliação bem
como a mediação, são instrumentos que, a partir do marco regulatório,
demonstram-se de plausível aplicabilidade e visam dar resposta aos con-
flitos de modo adequado através do diálogo e da construção pela busca de
uma solução.
Desse modo, buscou-se conceituar o conflito e compreender quais as
formas de acesso à justiça, explicitando a mediação como politica pública
capaz de minimizar as demandas judiciais. Ainda, analisou-se a
importância da mediação e do processo mediativo, bem como, buscou-se
compreender qual o valor da liberdade como oportunidade de escolha na
visão de Amartya Sen. Pretendendo cumprir os objetivos propostos,
Simone Paula Vesoloski; Elisandra Fabrícia Bernstein | 115

utilizou-se o método de abordagem indutivo, pesquisa bibliográfica,


documental, monográfica, doutrinária e legislativa.

2 Conflito na sociedade democrática de direito e o acesso à justiça na


contemporaneidade

O conflito está presente em todas as relações humanas. Neste ínterim,


Tartuce (2018) compreende o conflito a partir de variadas expressões que
podem ser remetidas ao sentido de embate, oposição, confrontação, con-
trovérsia, já “no vocabulário jurídico, prevalece o sentido de entrechoque
de ideias ou interesses em razão do qual se instala uma divergência”,
(TARTUCE, 2018, p. 03).
Para Morais e Spengler (2008, p. 45), “conflito tem como raiz etimo-
lógica a ideia de choque, ou a ação de chocar, de contrapor ideias, palavras,
ideologias, valores ou armas”. Nesse sentido, os autores salientam que
para surgir o conflito de fato basta uma ação reagindo sobre outra ação.
A conceituação de conflito é variada, mas todos os autores chegam
praticamente à mesma concepção, pontuando-o como duas vontades dis-
tintas, opostas, onde, na maioria das vezes nenhuma das partes quer abrir
mão de algo em prol de outrem, a comunicação é rompida, além de ensejar
uma situação negativa e difícil. Nessa perspectiva, Souza (2018) entende
que o conflito é sinônimo de discussão, de atrito, discórdia, incompatibili-
dade. Sendo decorrente de expectativas, valores e interesses contrariados.
O conflito nunca desaparecerá da sociedade, como bem dito, conse-
quentemente ele traduz resultados positivos e negativos, muitos dos
conflitos ocorrem por erro ou falta de comunicação para que as partes che-
guem a um consenso. Desse modo, é importante que cada indivíduo seja
responsável pela forma que produz cada ação, minimizando que o conflito
se engrandeça e cause prejuízos materiais, físicos e emocionais para os en-
volvidos.
Como o conflito nunca deixará de existir dentro da sociedade demo-
crática de direito, é importante saber como lidar com ele. A maioria dos
116 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

conflitos acaba sendo judicializado, todavia é importante saber que exis-


tem vários meios de promover o acesso à justiça com a resolução do
conflito por outros meios. Nesse aspecto, Tartuce (2018) ressalta que a ga-
rantia à justiça e a possibilidade de acesso a ela pode ocorrer de dois
modos, o primeiro ocorre de modo pacífico, mediante um terceiro que au-
xilia as partes; e outro modo se dá pelo confronto, ocorrendo num
ambiente contencioso, sendo jurisdicionado e tendo a intervenção do Es-
tado. O acesso à justiça não quer dizer que todos os indivíduos devam ou
possam ir ao Estado requerer o seu ‘direito’, mas que a justiça almejada
possa ser arguida e buscada num ambiente em que se inserem as pessoas,
primando pela imparcialidade da decisão bem como pela igualdade entre
ambos.
A almejada justiça dentro da sociedade contemporânea pode ser en-
tregue de modos distintos. As pessoas ainda estão no modo automatizado
onde precisam da figura do juiz para ponderar, negar ou garantir direitos,
deveres e obrigações. Nesse aspecto, a função do juiz é importante, pau-
tada em uma série de princípios para analisar e julgar demandas que
chegam até ele, contudo, existem outros meios menos morosos, onerosos
e desgastantes de acesso à justiça e que não necessitam mover a máquina
judiciária.
Cappelletti (1998) preceitua que o acesso à justiça pelas vias extraju-
diciais é vantajoso para as partes e para o próprio sistema jurídico, pois
não há necessidade de um julgamento. Os resultados dos métodos de so-
lução de conflitos representam verdadeiros êxitos e caracterizam uma
inovação para a sociedade.
Nesse sentido, Sen (2011) destaca que é necessário perseguir a justiça
e buscar a democracia, e esta democracia deve ser pautada por meio do
debate. Contudo, é imprescindível destacar que argumentar, dialogar deve
ser feito de modo fundamentado “em vez de apelar ao que se pode chamar
de ‘tolerância descomprometida’, acompanhada pelo conforte de uma so-
lução preguiçosa”, (SEN, 2011, p. 12). Sendo assim, segundo o autor
Simone Paula Vesoloski; Elisandra Fabrícia Bernstein | 117

mencionado, para resolver conflitos é importante racionalidade argumen-


tativa e análise imparcial.
Para explicitar o coração do problema e a busca por uma solução im-
parcial para busca de uma sociedade justa, Sen (2011) ilustra um
problema, três crianças: Anne, Bob e Carla e uma flauta, você tem que
decidir com qual delas ficará a flauta. Cada criança tem sua reivindicação.
Anne argumenta que é a única que sabe tocá-la e seria injusto ela não ficar
com a flauta. Já Bob defende que a flauta deva ser dele, pois ele é o mais
pobre e a flauta é o único brinquedo que ele teria. E, por conseguinte, Carla
argumenta que ela trabalhou por meses na construção da flauta e quando
finalizou seria justo ela ficar com a flauta.

Tendo ouvido as três crianças e suas diferentes linhas de argumentação, você


terá de fazer uma difícil escolha. Teóricos com diferentes convicções, como os
utilitaristas, os igualitaristas econômicos ou os libertários pragmáticos, podem
opinar que existe uma solução evidente em nossa frente e que não é difícil
enxergá-la. Contudo, é quase certo que cada um veria uma solução totalmente
diferente como a obviamente correta. (SEN, 2011, p. 43)

Nesse viés, Sen (2011) retrata que não é possível ignorar a pretensão
das três crianças, sendo que cada uma busca a satisfação humana, seja na
remoção da pobreza, no direito de poder fazer, ou seja no direito de des-
frutar o próprio trabalho. Diante disso, cada argumento parte da premissa
do que é vantajoso para cada criança sendo que cada uma argumenta a
seu favor ressaltando a vantagem individual.
Sendo assim, acredita-se que a mediação pode ser um instrumento
capaz de facilitar a busca uma solução adequada para o caso concreto, uma
solução dialogada, construída pelas partes.
Falando em mediação, é importante saber do que se trata. Em vista,
dessa compreensão, a definição da mediação segundo Neiva (2019, p. 33)
é “um procedimento consensual de solução de conflitos, no qual o terceiro
irá auxiliar as partes para que estas consigam restabelecer o diálogo, e
busquem, elas próprias, uma melhor solução para o conflito”. Este terceiro
118 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

auxilia as partes focalizando o problema, porém importante destacar que


este não sugere e nem tampouco intervém no conflito.
Para Salvo (2018, p. 43):

A mediação se destaca entre os demais métodos por ter maior foco no conflito
em si e não exclusivamente na sua resolução, embora seja naturalmente dese-
jada, e possivelmente obtida com a ajuda do mediador, que as auxilia no
desenvolvimento e apresentação de opções de resolução de disputa. Esse é,
ainda, seu aspecto fundamental: as próprias partes estão responsáveis por
construir uma decisão mutuamente satisfatória, o que demanda sua partici-
pação ativa no processo de mediação.

Destarte, na mediação tem-se a figura de um terceiro preparado, trei-


nado para tal finalidade e que auxiliará as partes a resgatar a comunicação
entre ambas, entender o real motivo do surgimento e manutenção do con-
flito, proporcionará ainda que as partes expõem seu ponto de vista,
dialoguem e juntas cooperem para resolução de sua controvérsia. É im-
portante deixar claro que o mediador nada decide, apenas conduz e facilita
o diálogo para que as partes juntas restabeleçam a relação, a comunicação
e cheguem a um acordo.
Como explanado o caso da flauta, é importante ressaltar que as pes-
soas devem ter a liberdade de escolher como resolver os conflitos, deixar
claro os meios de resolução, demonstrando as vantagens e desvantagens
de cada escolha.
Para tanto, Sen (2011) eleva a liberdade que o ser humano tem num
patamar realmente significativo, pois a liberdade de poder escolher con-
tribui para o bem estar social e é muito importante para a vida em
sociedade. As liberdades e as capacidades são valiosas e cabe a cada pessoa
decidir como usar a liberdade que tem.

A liberdade de escolha nos dá a oportunidade de decidir o que devemos fazer,


mas com com essa oportunidade vem a responsabilidade pelo que fazemos, na
medida em que são ações escolhidas. Uma vez que uma capacidade é o poder
de fazer algo, a responsabilidade que emana dessa capacidade, desse poder, é
Simone Paula Vesoloski; Elisandra Fabrícia Bernstein | 119

uma parte da perspectiva das capacidades, e isso pode abrir espaço para de-
mandas de dever [...]. (SEN, 2011, p. 49)

Diante do explanado, é imprescindível esclarecer que o cidadão de-


tém o poder de escolha pela liberdade que lhe é conferida. Em vista disso,
em meio a um conflito, cabe analisar com cautela a escolha pela via opta-
tiva que tratará este conflito, pois como bem dito, cada escolha repercute
numa ação que refletirá um resultado que é fruto de uma escolha anterior.
Em razão dessas escolhas, cabe salientar que a escolha pelo uso da media-
ção no tratamento de conflitos se demonstra precursora e capaz de
proporcionar e trazer variados benefícios.

3 A mediação como política pública e o descongestionamento do


poder judiciário

Importante compreender com mais profundidade o que é tido por


mediação. Trazendo a baila, Souza (2018) conceitua a mediação como um
modo de ajuste e solução de enfrentamento, que conta com o auxilio de
um terceiro imparcial, que apesar de não influenciar e nem se pronunciar
a fim de resolver o conflito, contribui significativamente na busca de uma
deliberação, recuperando a interlocução entre as partes.
Como destaca Centeno (2018, p. 38), a mediação

procura resgatar ou restabelecer a comunicação rompida entre os ligantes,


conduzindo as partes envolvidas no conflito à compreensão de suas divergên-
cias, ao entendimento dos fatores que lhe são correlatos à identificação de
razões que conduzam à solução do litígio, obtida como resultado ou em decor-
rência de uma construção dos próprios mediados.

Além do mais, a mediação se torna um significativo método consen-


sual, pois gera uma solução adequada a real necessidade das partes, maior
satisfação dos envolvidos, reestabelece vínculos e comunicação, é mais rá-
pida que o meio judicializado e, por consequência, desafoga o poder
judiciário.
120 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Nesse caminho, Morais e Spengler (2008, p. 134) reforçam que é


através do auxílio do mediador que as partes poderão compreender as
“fraquezas e fortalezas de seu problema, a fim de tratar o conflito de forma
satisfatória”.
O que se percebe judicializando os conflitos entre os indivíduos, é a
morosidade, o custo elevado, a burocratização, desgaste, insatisfação no
momento da entrega do pleito solicitado, são uma série de fatores que ge-
ram muitas vezes mais desgosto, muitos chegam a duvidar da real ‘justiça’.
Ao aderir um método consensual, é possível eliminar uma série desses fa-
tores mencionados, colocando como protagonistas as partes envolvidas no
conflito dando ênfase numa resolução adequada e mais humanizada.
No processo mediativo as partes em conjunto constroem um acordo.
Por esta razão, podem-se extrair várias concepções através da busca pela
justiça, pela justiça remediável e pela remoção de injustiças a partir da
obra ‘A ideia de justiça de Amartya Sen’ (2011) e fazer uma conexão com o
uso da mediação, e o que o referido autor trata a respeito da equidade
quando ele se questiona: o que vem a ser equidade?
Quanto à equidade, o autor supramencionado retrata que a

ideia fundamental pode ser conformada de várias maneiras, mas em seu cen-
tro deve estar uma exigência de evitar vieses em nossas avaliações levando em
conta os interesses e as preocupações dos outros também e, em particular, a
necessidade de evitarmos ser influenciados por nossos respectivos interesses
pelo próprio benefício, ou por nossas prioridades pessoais ou excentricidades
ou preconceitos. Pode ser amplamente vista como uma exigência de imparci-
alidade. [...] (SEN, 2011, p. 84)

Assim como o autor se reporta que devem ser levados em conta não
apenas os interesses individuais, mas ver os interesses dos outros também,
pode ser comparado e muito bem aproveitado pela mediação, pois a es-
sência dela esta em usar técnicas capazes de fazer com que as partes saiam
de um ambiente contencioso e juntas ponderarem situações, possam fazer
Simone Paula Vesoloski; Elisandra Fabrícia Bernstein | 121

a troca de papéis, se sintam uma no lugar da outra e tenham como resul-


tado um acordo e a restauração da comunicação que estava corrompida,
dessa forma, perfectibilizando a equidade e a alteridade.
A partir das técnicas utilizadas no processo mediativo, por exemplo,
da oportunidade de ouvir o outro, se colocar no lugar do outro, Sen (2011)
ressalta que compreender as exigências do que cada um compreende por
justiça não é um exercício solitário, quando cada um tenta avaliar a forma
de como deve se comportar

temos razões para ouvir e prestar alguma atenção nas opiniões e sugestões
dos outros, que podem ou não nos levar a rever algumas de nossas conclusões.
Também tentamos, com bastante frequência, fazer com que os outros prestem
alguma atenção em nossas prioridades e nossos modos de pensar; nessa de-
fesa, às vezes somos bem-sucedidos, às vezes falhamos completamente. O
diálogo e a comunicação não são apenas parte do objeto de estudo da teoria da
justiça (temos boas razões para sermos céticos quanto à possibilidade de uma
‘justiça não discutida’), mas também a natureza, a robustez e o alcance das
próprias teorias propostas dependem de contribuição com base em discussões
e debates. (SEN, 2011, p. 119-120).

Desse modo, quando se judicializar uma demanda, o juiz apenas en-


tregará o direito ou obrigação para a parte que apresentar provas e que
melhor convencer o juiz ser a merecedora real do objeto em certame, não
existe nenhuma preocupação em resgatar vínculos, resgatar a comunica-
ção, apenas abstém-se no conflito. Utilizando a mediação é possível tratar
o conflito de modo célere, imparcial e neutro, assim, o uso da mediação é
capaz de tratar de fato o problema, reconstruir o vínculo e gerar benefícios
transformadores e positivos, pois ela se pauta no diálogo e na comunica-
ção.
Importante ressaltar que o processo mediativo pode e deve ser incen-
tivado, contudo deve sempre ser levado em conta o livre arbítrio da pessoa
ter a liberdade de escolher. Esse poder de escolha, essa liberdade coaduna
com o pensamento de Sen (2010, p. 17), pois para ele, a liberdade é valiosa,
sendo que “a violação da liberdade resulta diretamente de uma negação de
122 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

liberdades políticas e civis por regimes autoritários e de restrições impos-


tas à liberdade de participar da vida social, política e econômica da
comunidade”.
Ainda, o autor supramencionado enfatiza que a liberdade de modo
geral e a garantia de valorizar e perfectibilizar ela, permitem que os seres
humanos possam por em prática suas volições (vontades), interagindo
com o mundo em que vivem e também influenciando este mundo.
Sendo assim, deixar as pessoas esclarecidas quanto ao método e com
liberdade de escolha é a essência da mediação. A mediação é um processo
voluntario não se pode forçar ninguém a conciliar, mediar, enfim. A me-
diação é uma ferramenta significativa, versátil e menos onerosa, haja vista
contribuir de fato para a legitimação da decisão do conflito à medida que
viabiliza maior participação colaborativa, favorecendo a oportunidade de
dialogar, onde as partes envolvidas chegam a um acordo através do res-
gate da comunicação. Além do mais, descongestiona o judiciário e aos
poucos vai se incorporando a cultura da sociedade.

4 A importância da mediação e o valor da liberdade como


oportunidade de escolha.

Em síntese, o processo mediativo extrajudicial ocorre de modo natu-


ral, nada é forçado, obrigatório ou imposto. Para tanto, tudo começa por
um convite para participar do processo mediativo extrajudicial que é sim-
plificado, a Lei da Mediação3 explicita no artigo 21 essa informalidade em
virtude do convite ser feito por qualquer meio de comunicação, haja vista
a parte que deseja o acordo faz o convite à outra, para que ambas iniciem
a resolução do conflito através da mediação. Todavia, importante ressaltar,
que no convite deve constar data, local, horário e o escopo para a reunião

3
LEI DA MEDIAÇÃO, Art. 21. O convite para iniciar o procedimento de mediação extrajudicial poderá ser feito por
qualquer meio de comunicação e deverá estipular o escopo proposto para a negociação, a data e o local da primeira
reunião.
Parágrafo único. O convite formulado por uma parte à outra considerar-se-á rejeitado se não for respondido em até
trinta dias da data de seu recebimento.
Simone Paula Vesoloski; Elisandra Fabrícia Bernstein | 123

inicial, ainda, o convite se presume rejeitado caso não houver resposta da


outra parte no prazo de até 30 dias após o recebimento.
No processo mediativo, a figura do (a) mediador (a) é mais passiva
do que ativa, sendo este, um (a) terceiro (a) facilitador (a), neutro (a) e
com foco no conflito, investigando a origem do conflito, auxiliando para
que as partes envolvidas reconheçam a origem desta divergência, restabe-
leçam o diálogo e construam um acordo. Ainda, o (a) mediador (a) deve
garantir tratamento igualitário entre os envolvidos.
A aplicação das técnicas de resolução dos conflitos tem grande papel
de pacificação das demandas, e conforme preceitua Tartuce (2018) essas
técnicas tem um valor expressivo, além de ser desenvolvido por um ter-
ceiro imparcial escolhido ou aceito pelas partes, este não apresentará
soluções, ele vai escutar, orientar e incentivar para que as partes restabe-
leçam a comunicação e em paralelo construam uma solução.
Salvo (2018) vislumbra que a escolha do que as partes irão discutir
aparenta ser algo simples e fácil, contudo, por traz tem toda a questão que
envolve como as partes vêm para a autocomposição e trazem consigo o
conflito. Neste momento é imprescindível que o mediador entenda e re-
duza a termo a visão das partes sobre o conflito. Contudo, para que as
partes não permaneçam na dualidade entre acusação e acusado, sempre
que possível é importante à admissão de documentos como notificações,
recibos, relatório, parecer, relativos ao conflito oportuniza que as partes
examinem juntas e se sintam confortáveis para falarem sobre o caso fático.
Para Copatti et al (2017) efetivar a mediação favorece a construção
da democracia, fortalece a cooperação, a participação, gera confiança, re-
define a sociedade, transforma não somente as relações dos envolvidos,
mas também irá contribuir para mudança de um sistema judicial com o
intuito voltado para o consenso e para a pacificação social, fortalecendo o
potencial dos seres humano a fim de cuidarem de si e influenciar o mundo.
A mediação pauta-se no princípio da boa-fé, aonde mediador e partes
conduzem o processo com lealdade, rumando ao provimento final espe-
rado, evitando objeções e comportamentos retardatários. Sendo assim, a
124 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

essência que transforma a mediação em exitosa é o reflexo da cooperação


entre as partes que visam soluções justas e efetivas construídas por cada
envolvido, sendo que cada qual acomoda seus interesses, ciente do ônus e
bônus, mas com a ideia clara de que não há perdedor ou vencedor, mas
sim ambos vencedores. Desse modo, à mediação potencializa a solução das
controvérsias e busca a verdadeira pacificação social.
Nesta senda, Sen (2011) questiona-se no modo de como deve ser pen-
sada a justiça e a injustiça nos dias de hoje. Na visão dele, muitos já
escreveram sobre a justiça a partir de um senso geral de injustiça, sendo
que essa construção acaba gerando longas histórias e impressionantes. Em
busca dessa dualidade, do avanço e do retrocesso da justiça, importante

atribuir importância ao ponto de partida, em especial à seleção de algumas


questões a serem respondidas (por exemplo, “como a justiça seria promo-
vida?”) em lugar de outras (por exemplo, “o que seriam instituições
perfeitamente justas?”). Esse ponto de partida tem como efeito uma dupla di-
vergência: primeiro, toma-se a via comparativa, em vez da transcendental;
segundo, focam-se as realizações que ocorrem nas sociedades envolvidas, em
vez de focar apenas nas instituições e as regras. Dado o presente balanço de
ênfases na filosofia política contemporânea, esse efeito vai exigir uma mu-
dança radical na formulação da teoria da justiça. (SEN, 2011, p. 39).

Desse modo, Sen (2011, p. 11) se questiona e se propõe construir uma


teoria que esclareça como “proceder para enfrentar questões sobre a me-
lhoria da justiça e a remoção da injustiça. Em vez de oferecer soluções para
questões sobre a natureza da justiça perfeita” e até mesmo se busque uma
injustiça remediável. Destacando que é necessária uma mudança social.
Diante da visão explanada e defendia por Sen, acredita-se que a nova
mudança, a fim de se poder alcançar a justiça pode ser buscada e vislum-
brada pela adoção dos meios consensuais, como a mediação e bem como
outros métodos de resolução consensual de conflitos. Todas essas técnicas
possibilitam a comunicação, em especial a mediação busca restaurar a co-
municação entre as partes e tratar o conflito que envolve as pessoas. O
meio judicializado nunca vai resolver o conflito, tão pouco vai entregar o
Simone Paula Vesoloski; Elisandra Fabrícia Bernstein | 125

direito, e as partes envolvidas sempre serão tratadas com essa ideia de


embate, de ganhar ou perder. Para se alcançar a verdadeira justiça, é ne-
cessário muito mais que dar o direito, é preciso modificar a cultura
adversarial, é preciso humanizar, poder transformar, tornar a situação
fragilizada em algo positivo. O uso da mediação eleva a sociedade a um
patamar diferenciado, emancipam os envolvidos, da voz a quem muitas
vezes se esquiva a falar, desafoga o judiciário, pois a prática e a adoção
desse método somam esforços para tentar ao máximo resolver os conflitos
pela via extrajudicial, gerando benefícios para a sociedade como um todo
e minimizando o desgaste dos próprios envolvidos.

5 Conclusão

A presente pesquisa teve como objetivo investigar um dos métodos


de promoção à justiça que ocorre pelo meio consensual instrumentalizado
através da mediação, que é uma política pública capaz de restaurar a co-
municação e oportunizar a efetividade da livre escolha.
Sendo assim, buscou-se esclarecer a conceituação do conflito dentro
da sociedade democrática de Direito. Revelou-se, portanto, que o conflito
pode ser entendido de variadas percepções, mas de modo geral ele é com-
preendido como uma divergência, um desacordo, uma oposição, uma
incompatibilidade. Contudo, ele nunca desaparecerá da sociedade, po-
dendo ser transformador e traduzir-se com resultados positivos ou
negativos. Positivos em vista das partes acharem uma forma de solução e
se resolverem, ou negativos em decorrência de gerar resultados conflituo-
sos e desgastantes para os envolvidos
E como bem dito, o conflito é constante e esta presente nas relações
sociais. Na grande maioria a resolução desses conflitos acaba sendo con-
tenciosa e ocorrendo pela via judicial, o que nem sempre garante a
resolução esperada e não é o único acesso a justiça. Desse modo, impor-
tante ressaltar que o acesso à justiça não se dá única e especificamente pelo
acesso ao Poder Judiciário, existem vários modos de resolver um conflito.
126 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Os métodos consensuais de resolução de conflitos, como exemplo, a medi-


ação, são alternativas que desafogam o judiciário, são menos custosos,
morosos e proporcionam um tratamento mais humanizado e pacífico as
partes envolvidas.
O uso da mediação eleva a sociedade a um patamar diferenciado,
emancipam os envolvidos, da voz a quem muitas vezes se esquiva a falar,
desafoga o judiciário. A prática e a adoção desse método somam esforços
para tentar ao máximo resolver os conflitos pela via extrajudicial, gerando
benefícios para a sociedade como um todo, minimizando o desgaste dos
próprios envolvidos. Assim, a opção que o cidadão tem em recorrer seja
pela via judicial ou pela via consensual é uma forma de liberdade, quando
ele efetiva essa escolha esta colocando em prática a liberdade individual.
Por fim, resta claro como explana Sen, a liberdade é cara e de valor
imensurável. Promover e garantir a sua efetividade é imprescindível e es-
sencial para toda a sociedade. Desse modo, acredita-se que a opção pela
adoção da mediação de fato garante a efetividade da liberdade que é con-
ferida a cada um, ainda, a mediação leva em conta a restauração da
comunicação, pauta-se no diálogo e na participação, e sim, visa e espera
promover a justiça e remover injustiças.

Referências

BRASIL, Lei nº 13.140, de 26 de junho de 2015 (b). Dispõe sobre a mediação entre par-
ticulares como meio de solução de controvérsias e sobre a autocomposição de
conflitos no âmbito da administração pública; altera a Lei nº 9.469, de 10 de julho
de 1997, e o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972; e revoga o § 2º do art. 6º da
Lei nº 9.469, de 10 de julho de 1997. Brasília, DF, 26 jun. 2015. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/Lei/L13140.htm.
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ção como política pública de promoção da cidadania e desenvolvimento. In:
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MORAIS, José Luis Bolzan de. SPENGLER, Fabiana Marion. Mediação e Arbitragem: Al-
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TARTUCE, Fernanda. Mediação nos conflitos civis. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo:
Método, 4. ed., ver., atual e ampl., 2018.
8

O empobrecimento da economia como instrumento a


partir da abordagem técnica e factualista/materialista

Gabriel Fernandes Mafioletti 1


Fabrício Pontin 2

1 Introdução

Pelo menos desde antes do que se convenciona chamar de filosofia


antiga a organização humana é objeto de deliberação para o convívio pa-
cífico em sociedade em prol da prosperidade daquele coletivo. Durante o
período clássico da Grécia Antiga desenvolve-se o imaginário da arte de
coordenação das diversas divisões e especialidade da pólis facilitando a or-
ganização dela. A economia aparece então como ferramenta para pensar a
alocação e distribuição de recursos para melhoria da vida dos cidadãos em
geral.
Porém, com o passar dos anos surgiu uma especialização da econo-
mia que pode ser chamada técnica, passando a focar na construção de
modelos e métodos de análise das trocas e distribuições realizadas entre
seres humanos e nações permitindo a manipulação destes processos. O
desenvolvimento destas análises usualmente referenciadas e baseadas na
atuação de entidades privadas, conforme suas orientações e interesses
eventualmente passou a ser incorporada no processo de tomada de deci-
sões em governos mundo afora, a fim de definir sua atuação.

1
Bacharelando em direito, Universidade LaSalle (UNILASALLE), gabriel.201820300@unilasalle.edu.br.
2
Professor - Universidade LaSalle, Escola de Direito e Política/PPG em Educação PhD (Philosophy), Southern Illinois
University | Institute of International Education Fellow (2008-2012), fabricio.pontin@unilasalle.edu.br.
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 129

A abordagem atualmente construída sob modelos matemáticos há


tempos afastou-se da origem apontada, mesmo inserida no âmbito estatal
continuou a valorizar concentração e foco em resultados como diretrizes
de atuação. A partir da análise feita neste trabalho tanto das tendências
tomadas quanto das características da base informacional adotada tornou-
se possível compreender como a especialização cada vez mais aguda mos-
trou-se eficiente para tratamento de bens privados. No entanto, apesar
destes sucessos a simples transposição de métodos para o manejo de re-
cursos públicos nem sempre se mostra tão eficiente. Observamos que
parte importante deste fracasso pode ser referenciado à pobreza dos dados
tratados, resultado de anos de simplificações acríticas sofridas no âmbito
das observações econômicas.
Esta cegueira produto de determinada arrogância metodológica re-
força-se na medida em que dados baseados em teorias normativas são
tratados como fatos que justificam a desclassificação de dados empíricos,
contribuindo cada vez mais para falta de correspondência entre modelos
e realidade especialmente no tocante a políticas públicas. Esta tendência
afirma apontamentos em relação ao modo como informações são encara-
das na elaboração modelos de tomada de decisão, já que sob o viés
materialista nega-se possibilidades imateriais ou tão circunstanciais que
são dificilmente passíveis de consideração, excluindo aspectos e parcelas
importantes de interações sociais.

2 Desenvolvimento

2.1 Abordagens possíveis

Amartya Sen explica que os estudos econômicos possuem duas ori-


gens. Ambas políticas, mas relacionadas de maneiras diferentes (SEN,
1987, p. 2-3). A primeira poderia ser traçada à Aristóteles, de modo que

Aristotle relates the subject of economics to human ends, referring to its con-
cern with wealth. He sees politics as 'the master art'. Politics must use ‘the rest
130 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

of the sciences’, including economics [...]. The study of economics, though re-
lated immediately to the pursuit of wealth, is at a deeper level linked up with
other studies, involving the assessment and enhancement of more basic goals.
(SEN, 1987, p. 3)

não sendo exagero algum dizer que, nestes termos, a economia pode
ser considerada uma ferramenta da política para a melhora da vida (ou da
qualidade de vida) dos seres humanos e da sociedade em geral. Nesta linha
as ciências políticas (em sentido aristotélico) se preocupariam com duas
principais questões. Primeiro o modo como as pessoas deveriam viver, re-
conhecendo consequências das ações humanas, pensando em relação a um
dever ser. Segundo, a preocupação com o bem humano, interessante para
o indivíduo na medida em que este compõe o todo e corpo político, mas
ainda mais ampla e importante ao Estado (ARISTOTLE, 2009).
O estudo da economia como ferramenta ao pensar no viver bem é o
que Sen (1987, p. 3) chama de abordagem ética (ethical approach, no ori-
ginal) da economia, ou pelo menos a isso está profundamente relacionado.
Os conceitos expostos acima serão importantes mais a frente, mas, por
enquanto, é importante entendermos este papel de ferramenta avaliativa
e agregadora de valor dessa abordagem a atuações frente a relações insti-
tucionais e pessoais que a economia tem (principalmente) para com o
Estado. Afinal existe um grande compromisso que remete a concepções
muito antigas de organização social como método de alcançar melhores
condições de vida para todos os sujeitos envolvidos, logo, é necessário pen-
sar de modo instrumental como titularidades devem ser distribuídas e
restringidas. Este debate não deve permanecer restrito a gabinetes de filo-
sofia e estudos descritivos, mas sim serem tratados segundo concepções e
necessidades reais, assim como muitas vezes as demandas e organizações
de mercados e finanças o foram com muito sucesso, deve-se destacar.
Enquanto isso na mesma obra é apresentada outra origem da eco-
nomia, a abordagem técnica (engineering approach, no original). Esta
segunda possui interesses mais voltado a questões mais concretas/menos
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 131

abstratas, ou seja, busca compreender como os processos de transforma-


ção e manutenção de bens funcionam, estudando métodos de tratá-los de
modo obter o melhor resultado possível em termos de eficiência. Após
compreendidos os fenômenos de produção e geração de riqueza, no meio
econômico tenta-se desenvolver modelos que expliquem o modo como o
mundo funciona, na maioria das vezes na forma de funções ou equações,
para assim podermos mudar as variáveis na entrada de modo a obtermos
o que queremos na saída.
Um objetivo importante desta abordagem é que historicamente tor-
naram-se modo de condução dos estudos com objetivo de maximizar a
produção, ou torná-la mais eficiente, aspecto historicamente valorizada
entre os adeptos desta corrente. Para nossos fins talvez seja interessante
definir eficiência. Por eficiência podemos tomar a capacidade de uso de
menor número possível de recursos para obtenção de maior número pos-
sível de produto naquela relação. Podemos dizer que, dado N como o
rendimento, Pi os produtos na entrada e Po os bens (ou produtos resul-
tantes) na saída, ambos transformados em parâmetros comparáveis,
como, por exemplo, valores monetários, podemos considerar N=Pi/Po.
Quanto menor o número resultante em N, maior a eficiência, conside-
rando conhecidas as limitações. Podemos dizer que a abordagem técnica,
além de buscar “aumentar o Po”, também busca formas de fazer com que
desta relação resulte um número cada vez menor, ou seja, aumentar a dis-
posição total de bens resultantes a partir do menor número de produtos,
ou seja, ser eficiente.
É inegável a contribuição destes estudos para a prosperidade material
da humanidade (SEN, 1987), porém houve com o passar dos anos um afas-
tamento ou desconexão entre estas duas abordagens. O principal resultado
foi um empobrecimento da economia como um todo, de modo que usual-
mente os estudos econômicos são vistos simplesmente como uma
agregação de dados para aumento da eficiência e observação de cenários,
totalmente desconectado de análises morais preocupadas com a melhora
da sociedade em geral. Analisando a conjuntura de cerca de 30 anos atrás
132 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

(mas que representa muito bem a atual) pode-se dizer que os desenvolvi-
mentos desta abordagem técnica

been possible despite the neglect of the ethical approach, since there are im-
portant economic logistic issues that do call for attention, and which can be
tackled with efficiency, up to a point, even within the limited format of a nar-
rowly construed non-ethical view of human motivation and behaviour (SEN,
1987, p. 8)

Apontados estas questões, gostaria de indicar dois grandes [1 e 2]


(embora não únicos) resultados/problemas deste afastamento.
[1] Apesar de as análises utilizarem um parâmetro interessante para
visualização de orientação e comparação entre opções, a utilidade, os mo-
delos usuários deste parâmetro são pouco explicativos e isto se deve
principalmente ao constante trabalho de simplificação e abstração do com-
portamento humano em vias normativas que em diversos campos passou
a ser tomada como descritiva. Isto causou uma desconexão grave entre os
estudos e a realidade social. Estas presunções normativas de atuação hu-
mana individual possuem clara influência nas análises envolvendo
instituições públicas, algo não necessariamente interessante para a atua-
ção governamental.
Por exemplo, em curvas clássicas de análise de oferta e demanda,
quando determinado ator não consegue oferecer serviços segundo os pre-
ços que o mercado definiu como mínimos sua empresa vai à bancarrota.
Porém quando o único bem/serviço que este ator possui é sua mão de
obra, o mínimo que ele necessita é o necessário para sua sobrevivência, e
se a mão de obra que ele dispõe é menor que este mínimo ele não simples-
mente vai à falência e sim falece em decorrência da sua incapacidade de
manter sua subsistência básica. Talvez em um gráfico isto seja somente
uma consequência de ele ter passado de determinado ponto, sendo fácil
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 133

confundir vidas e empresas, mas quando existem opções mesmo que cus-
tosas é totalmente eticamente justificável agir a fim de diminuir a
eficiência, mas salvar vidas3.
Deste modo, reduzindo a análise a um único fator, utilidade4, e obje-
tivando apenas o “melhor” resultado a economia deixa de prestar atenção
a diversos outros fatores dos processos que não contribuíram para o re-
sultado (SEN, 1997). Este tópico será melhor discutido adiante, mas por
enquanto é importante entendermos que [1] o afastamento da abordagem
ética causou uma generalização da economia não como instrumento, mas
como arte própria (utilizando as palavras de Aristóteles) que, ao invés de
aplicada com suas devidas ressalvas tornou-se método de pensamento e
solução, usualmente sem as reflexões necessárias quando transportados,
por exemplo, para análise de políticas públicas.
As inegáveis contribuições da abordagem técnica poderiam sim ser
utilizadas em diversos outros campos, da análise de viabilidade e impacto
de políticas públicas a estratégias de macro e micro gerenciamento, mas
não pela simples transposição, e sim por meio de cuidadosos estudos. No
polo oposto, é altamente possível que diversos cuidados apontados por au-
tores da abordagem ética como Adam Smith e Stuart Mill podem
enriquecer as análises da abordagem técnica, tornando-as muito mais in-
teressantes.
O segundo efeito [2], muito mais claro e direto deste afastamento, é
a falta de sucesso da economia em efetivamente pensar na alocação e rea-
locação de recursos como modo de melhorar a vida das pessoas e da
sociedade em geral. Embora as preocupações de ambas as abordagens pos-
sam convergir, uma não necessariamente carrega a outra consigo. Colocar
em debate suposições e objetivos que a economia instrumentalmente per-
segue pode ser algo extremamente inteligente a se fazer, inclusive em

3
Embora realmente exista uma relação entre aumento de eficiência e melhor distribuição, cabe dizer que isto é
diferente de melhorar a vida das pessoas, ou criar um mínimo, ou aumentar a riqueza de modo geral.
4
Apesar de sua origem o conceito de utilidade sofreu um constante empobrecimento com o passar do tempo, a fim
de facilitar sua utilização em modelos.
134 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

termos político, principalmente quando pensamos em termos de desen-


volvimento não somente econômico, mas humano e social5.

2.2 Base informacional

Isto nos leva a outro ponto importante, extensamente referido, mas


ainda necessário ao abordarmos críticas futuras que pretendo fazer sobre
métodos de análise de políticas públicas, também trazendo alguns pontos
no que toca às teorias mais modernas, ainda, aquelas inseridas sob pers-
pectiva econômica neoliberal. Para que esta parte técnica da economia
possa analisar, planejar e indicar eventos e ações é necessário que algum
parâmetro de medida exista, afinal, como decidir o que é melhor? Precisa-
mos de uma medida unitária que permita comparar, por exemplo, ouro e
chocolate. O consenso de medida é a utilidade. Podemos dizer que moder-
namente utilidade é encarado como uma medida de satisfação pessoal para
o agente que faz a escolha de modo que, uma vez observados os bens/ser-
viços que possuem maior utilidade para o agente, este os buscará. Deste
modo, reduzindo diversos aspectos da tomada de decisão a um valor de
utilidade (inter ou intra pessoal) seria possível entender o que aquele ator
quer (e consequentemente deseja) em um ranking simples.
Entendo que apesar de existirem concepções ordinalistas e cardina-
listas de utilidade esta distinção é irrelevante para os fins aqui
apresentados, já que minha intenção é apontar o caráter reducionista da
utilidade como métrica. Tanto suposições de utilidade como boa represen-
tação de qualquer sentimento quanto a abstração que considera incentivos
financeiros como modo universalizável de comparar preferências inter ou
intra sujeito6 acabam demonstrando certa preguiça metodológica ao redu-
zir universos inteiros que mesmo em condições simples necessitam de
outros elementos.

5
Imagino não ser necessário argumentar em favor de liberdades individuais e do valor da liberdade para o desen-
volvimento, dado o extenso trabalho inclusive compilado por Amartya Sen (2010).
6
Práticas comuns nos estudos classificados como pertencentes à abordagem técnica.
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 135

Inicialmente, o ponto mais básico refere-se à interpretação do desejo.


Via de regra pesquisadores que tomam por métrica a utilidade possuem
dois métodos de informar-se sobre qual item dentro de determinado con-
junto possui maior utilidade para o tomador de decisão: observação ou
declaração. Mesmo assumindo que observação seja um bom método de
percepção de preferências, tendo o mesmo valor que uma declaração7, al-
gumas pontuações devem ser feitas em relação a preferência. Tomar que,
por qualquer meio que seja, exista a possibilidade de estar informado a
respeito da preferência de determinado agente parece ser no mínimo pre-
sunçoso. Na verdade, existem razões diversas para acreditarmos que na
verdade a escolha ou declaração efetiva não simboliza um elemento favo-
rito dentro do ranking do ator, inclusive pelo alto grau de
circunstancialidade envolvido quando falamos em ordenação de preferên-
cias8, fator usualmente agravado pela simplificação conceitual que a
utilidade sofreu.
Estas observações referidas como método de preferência revelada
têm como um de seus critérios a consistência na atuação de agente para
se concluir a respeito das preferências. Mesmo que fosse possível ao ob-
servador descobrir qual efetivamente é o elemento preferido do agente
existem tantos fatores circunstanciais possivelmente interferentes na or-
denação de preferências que estas concepções de análise parecem ser
pouco úteis na medida em que a complexidade de diferentes ordenações
geradas não é comportada pelos modelos atuais (SEN, 1973).
Alguns desses pontos já foram discutidos (KAHNEMAN & TVERSKY,
1986), sendo inclusive relaxados e acrescidos então novos aspectos a res-
peito das teorias clássicas. Porém, nestes novos modelos (e aqui me refiro,
especialmente a prospect theory e estudos relacionados) persistem os pro-
blemas da suposição quanto à factualidade e método de captação de
informações. Saídas interessantes são eventualmente sugeridas9, embora

7
Conforme já exposto por Mafioletti e Pontin (2019).
8
Ainda mais considerando a falta de verificação empírica destas afirmações.
9
Como por exemplo as sugestões colocadas por Goldin e Reck (2020).
136 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

seus esforços direcionem-se no sentido de continuar relaxando critérios


de teorias clássicas, tornando-as menos restritivas em relação à abrangên-
cia de classes de dados inseridos para análise10. Estes esforços, no entanto,
parecem ser dificultados (ou até inutilizados) pela forma como estes dados
são encarados, como fatos absolutos, não passíveis de interpretação.
Um ponto importante quando falamos em análises que envolvem uti-
lidade relacionados à análises da abordagem técnica é que estes
desenvolveram-se observando certos preceitos, conceitos e objetivos pró-
prios das relações entre indivíduos e instituições privadas. Na maioria dos
muitos casos os avanços técnicos dos estudos econômicos são extrema-
mente relevantes, úteis e pertinentes, porém em diversos outros observa-
se uma simples transposição de estudos desenvolvidos sob o prisma da
atenção privada aplicadas ao desenvolvimento de políticas públicas. A uti-
lização destes conceitos varia de pesquisas que buscam observar ou sugerir
atuações a partir da comparação de custo-benefício até análises de valores
de indenizações no meio judiciário11.
A criação de modelos para predição de comportamentos e reações,
inclusive via tomada de decisão é uma ferramenta extremamente interes-
sante para análise de políticas públicas tanto quanto para orientação em
cenários privados. Porém, é necessário que se compreenda as especificida-
des destes dois campos de atuação já que os benefícios e modo de usufruto
de bens é diferente nesses dois âmbitos. Bens disponíveis publicamente
(quais são eles dependerá de cada contexto) são tratados e necessaria-
mente acessados de modo diferente em relação a espaços e bens privados.
A disponibilidade, distribuição e acesso destes bens em âmbito público
deve ser pensada a partir de suas peculiaridades, nos proporcionando me-
lhores métodos de alavancar o desenvolvimento humano e econômico.
Uma das características das propostas tradicionalmente sugeridas
para atuação (característica essa construída e atrelada de forma insepará-
vel ao utilitarismo na perspectiva econômica neoclássica) é o foco nos

10
Em termos de metodologia (indutiva) algo como um aperfeiçoamento das evidências coletadas.
11
Como pode ser bem observado nos trabalhos desenvolvidos por Sunstein (1996, 2007).
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 137

resultados. Usualmente empresas e instituições se beneficiam de proces-


sos que maximizem seus lucros (seu objetivo) já que assim criam mais
possibilidades e se desenvolvem. Porém, também usualmente exclui-se do
processo fatores descartáveis. Quando falamos em processos privados, em
uma análise extremamente simples temos que o lucro L é o preço de venda
PV decrescido do custo de produção CP, a ver

L = PV - CP.

Estando PV fora do controle do produtor, ao menos em mercados


relativamente livres, resta a quem produz diminuir CP se quiser maximi-
zar seus resultados.
Dado que, de forma extremamente simplificada CP é dado pelos cus-
tos em mão de obra MO, custos em termos de matérias primas MP e custos
gerais CG, temos que

CP = MO + MP + CG.

O importante é que se possa diminuir um dos elementos integrantes


de CP sem aumentar os outros. Pode-se, por exemplo, demitir técnicos que
antes observavam o cotidiano da fábrica e implementavam procedimentos
de segurança, até mesmo diminuindo a produtividade por trabalhador, fa-
zendo a fábrica despender mais em MO. Eliminando este técnico diminui-
se MO. É possível também diminuir CP comprando alguma matéria prima
que seja menos custosa, embora libere substâncias nocivas, mesmo que
em níveis totalmente aceitáveis, diminuindo MP. Outra opção para dimi-
nuir CP seria trocando alguns equipamentos de proteção por outros, como
trocando uma máscara por outra que ainda elimine o incômodo provocado
por certos vapores, embora não filtre tão bem as substâncias liberadas,
diminuindo assim CG.
Todas estas modificações são plenamente aceitáveis e âmbito pri-
vado, ainda mais considerando a hipótese de que a qualidade de vida direta
138 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

destes trabalhadores não será imediatamente afetada por estas modifica-


ções e os mesmos estão cientes das condições envolvidas. Porém, é
necessário lembrar que, apesar de dentro das esferas de interesse privado
não existir nenhum dano para os agentes envolvidos, existem fatores que
não são levados em conta, como custos de tratamentos para sustentação
da qualidade de vida destes trabalhadores na terceira idade. O administra-
dor não é diretamente afetado pelo aumento de gastos governamentais de
saúde (GS) decorrentes de sua atuação direta e talvez os trabalhadores não
estejam informados ou consigam conceber os danos causados a longo
prazo, dados seus ganhos imediatos e prejuízos incertos em um futuro dis-
tante. Deste modo, a real descrição da operação que se está sendo feita é

L = PV - (CP + GS)

quando as alterações afetam a saúde destes trabalhadores a longo prazo.


Na perspectiva do administrador, GS é multiplicado por zero, so-
brando apenas a expressão L = PV - CP, porém para o Estado este custo
existe12, e cabe às instituições estatais observar dentro do processo para
compreender a atuação e agir da melhor forma possível para que o admi-
nistrador possa aumentar, sim, seus lucros, mas sob as limitações que são
interesse do Estado que sejam observadas. Existem propostas de alarga-
mento dos fatores envolvidos em análise de custo-benefício de políticas
públicas, porém mesmo estas dão pouca atenção a processos que não afe-
tam o resultado, dados os interesses agregados às medidas que utilizam
utilidade.
Em alguns países, como o Brasil, existem políticas para impedir que
estas decisões sejam tomadas. Existe a exigência da presença de técnicos
de segurança de trabalho para que certas atividades sejam realizadas,
mesmo que isto seja um gasto adicional tanto na contratação deste funci-
onário quanto pela eventual diminuição da produtividade média (embora

12
Mesmo considerando que o Estado ganha percentual variável positivo em todos os processos é necessário lembrar
com isso deve subsidiar ou manter GS e diversos outros serviços, que precisarão ser ampliados casos custos extras
sejam criados e não queiram ser arcados pela iniciativa privada.
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 139

em muitas atividades o técnico em segurança de trabalho seja financeira-


mente benéfico para a empresa). Existe também o controle em termos de
substâncias liberadas em diversos processos, além da exigência da utiliza-
ção de EPIs. Todas estas condições impostas são exemplos de políticas
públicas (mesmo que tímidas, em muitos casos) para diminuição dos ônus
gerados ao sistema público, já que é desperdício na verdade gastar di-
nheiro público para reparação de danos que na verdade poderiam ser
impedidos pela colocação de condições na adaptação de fatores de custos
de produção por parte do Estado, todavia, ainda assim, permitindo que os
agente privados atuem.
Na análise de aumento de produtividade (e consequente lucro) do
proprietário (e consequente maior arrecadação por parte do Estado) é le-
gítimo que ele dê atenção aos resultados, pois é seu fim. Porém, ao Estado,
cabe observar o processo pelo qual chega-se a determinado resultado pois,
ainda no exemplo citado, falta de regulamentações trabalhistas tem a ca-
pacidade de criar um enorme prejuízo em termos de saúde pública
(considerando que os governos não abandonarão seus cidadãos) caso as
instituições privadas não estejam dispostas a arcar com estes prejuízos ou
pequenos fatores de diminuição de produtividade.
Existem argumentos (SUNSTEIN 2007, 2020) de que uma análise de
custo-benefício com alargamento da quantidade de informações utilizadas
permite a adoção de medidas mais inteligentes. Porém é notável nestas
indicações a adoção de parâmetros grosseiros e dificilmente ajustáveis, in-
clusive desprovidos das ponderações éticas na valoração da vida e saúde
de indivíduos. Os valores de cálculo atribuem valoração generosa em rela-
ção a vida, mas alto risco de morte é uma aceitação de pelo menos algum
de mortes, na medida em que diversas fatalidades são em alguns casos
evitáveis. Mesmo quando falamos de impactos negativo na saúde, mesmo
incluindo nos cálculos os custos imputados ao Estado para mantença des-
ses indivíduos, é necessário que se faça um debate ético sobre a
aceitabilidade de alto custo em termos de qualidade de vida e mortalidade
para que se tenha um aumento mesmo que considerável na produtividade.
140 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Ademais, é necessário observar que muitas vezes determinada dico-


tomia entre desenvolvimento material e saúde pública é na verdade
falacioso. Desenvolvimento econômico necessita de trabalhadores e con-
sumidores que, mesmo sem imputar custos ao Estado (por estarem
mortos ou abandonados por este), se não consumirem, não geram desen-
volvimento econômico.
Por último e talvez mais importante devemos considerar a pobreza
da base informacional utilizada. É inegável que a escolha de um único pa-
râmetro mensurável (ou pelo menos que permita a observação de algum
ordenamento) traz diversos benefícios ao tratarmos tecnicamente diver-
sos aspectos da vida em termos econômicos, mas isto não vem sem
prejuízos. Além dos problemas que citei acima (podemos dizer, fundamen-
talmente, fruto da pobreza informacional) as limitações trazidas ao que se
estabelece como utilidade são (ou deveriam ser), inclusive, fator de des-
consideração deste tipo de restrição informacional (escolha de critério), ao
menos quando falamos na análise de políticas públicas e não ganhos auto
interessados.
O mais interessante seria uma pluralização da base informacional
utilizada, sem supressão de termos eventualmente irrelevantes para de-
terminado fim, e entendo que isto não vem sem custos, mas continuar
agindo sem as devidas considerações é agir de forma irresponsável no ma-
nejo de recursos públicos e vidas. O alargamento da base informacional
permitiria análises mais amplas e completas. Diversos campos atualmente
complexificam-se na utilização de variáveis diversas e isto usualmente não
é grande empecilho na elaboração de modelos. Por maior que seja a quan-
tidade de dados inseridos ao tratarmos comportamento por meio de
modelos estas informações acabam sendo reduzidas para utilidade (em
termos de isoinformação). Estas características, já existentes na análise de
preferências individuais torna-se desastrosa quando incluída no âmbito de
políticas públicas.
Ainda em relação à base informacional utilizada, é necessário frisar
além do empobrecimento da abordagem ética, também falta de atenção às
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 141

questões morais. Uma supervalorização (ou até valorização única) de in-


centivos e penalidades econômicas para direcionamento de
comportamentos deixa de levar em consideração diversos outros fatores
que poderíamos chamar de esfera moral. Afinal, incentivos financeiros são
um parâmetro interessante para pesquisa e análise dado seu caráter de
item único (ao contrário da moral, que não deve ser usada referenciada a
uma medida única) permitindo comparações simples no tratamento de
dados. No entanto comportamentos humanos não são reduzíveis a valores
financeiros. Diversos ambientes políticos e laborais possuem uma ética de
trabalho muito desconectada de incentivos financeiros13. Quando analisa-
mos (principalmente) atuações de instituições públicas não existem
motivos razoáveis para excluir questões éticas e morais (além das cultu-
rais), dado que fazem parte das motivações para atuação e possuem valor
intrínseco de civilidade nas relações sociais atuais. A organização de mer-
cado pode ter funcionado bem para a ética capitalista de Weber, porém os
conhecimentos devem ser adaptados para aplicação em contextos onde as
regras e comportamentos possuem outras motivações morais além daque-
las permeadas na sociedade industrial protestante alemã. Tudo isso torna
insustentáveis os modelos de análise já vêm estabelecidos ou usualmente
presentes em diversas agências públicas em contextos variados.
Esta conjuntura leva então, a um outro ponto importante em relação
as análises feitas tanto dentro da economia quanto em outras ciências.
Usualmente nas ciências naturais/biológicas determinados dados são tra-
tados como fatos inegáveis e suficientes para os fins aos quais se destinam.
Por meio de diversas adaptações deram-se diversos desenvolvimentos tec-
nológicos, mas quando tratamos de ciências sociais e comportamento
humano tanto nos estudos filosófico-formais quanto econômicos este
mesmo pressuposto é muitas vezes tomado. Porém isto torna-se um pro-
blema quando tratamos de comportamento humano pois, como alguns há
décadas chamam atenção, existe nas ocorrências cotidianas sociais valor

13
ponto já tendo sido muito bem abordado por Amartya Sen (2010).
142 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

agregado que é inseparável dessas atuações. Captar determinado compor-


tamento e tratá-lo como fato puro torna-se impraticável, principalmente
quando falamos em análise de comportamento humano.

2.3 Ética/valor

Para que nossa realidade e observações possam ser tratadas por meio
de modelos a fim de compreendermos como mecanismos e sociedades
funcionam e podem ser manejados eventualmente é necessário que deter-
minados comportamentos, atos e bens sejam reduzidos e quantificados.
Porém, mesmo quando os resultados obtidos a partir destas simplificações
possam ser interessantes é necessário que se mantenha em mente a natu-
reza destes dados.
Acontecimentos, bens, decisões e serviços na maioria dos modelos de
tomada de decisão são observados a partir de um viés materialista, anali-
sados a partir de concepções absolutas. Desconsiderando diversos aspectos
importantes cria-se uma dupla arbitrariedade de deixar de examinar ex-
ternalidades que podem criar tendências (como motivação), observando
mal vieses e eliminar da observação sujeitos que não se encaixam em de-
terminadas concepções, apesar dos esforços recentes para flexibilizar estes
critérios
A reivindicação de que determinados juízos são absolutos acaba
sendo bem interessante para fins de estudo porém parece criar problemas
de falta de correspondência entre a realidade e os pressupostos teóricos.
Afinal, apesar de determinados bens como o ouro possuírem um valor
consensual bem grande em nossa sociedade parece absurdo dizer que sua
importância perante cada ser humano não passa pelas percepções de cada
um. Claro que somos imensamente impactados pelo quão importante
aquele bem (potencialmente) é para nossos pares na medida em que vive-
mos e dependemos destes. No entanto agimos de modo diverso em
situações diversas, com condições diversas, a partir de humores e senti-
mentos diversos, então qual seria o consenso absoluto ao se decidir entre
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 143

construir uma mina de ouro e um hospital? Caso os valores destes bens


sejam considerados absolutos para a sociedade talvez seja fácil decidir, po-
rém e se não forem? Isto indica que estamos escolhendo da maneira
errada, especialmente no tocante a bens públicos.
Em um nível de análise das próprias concepções utilizados para ca-
racterização do indivíduo como elegível ou não para os modelos temos
valores arbitrários também considerados como absolutos. Atores são con-
siderados racionais (e, portanto, integrantes ativos dessa coletividade) se
atuam no sentido de obter o máximo (sendo o “máximo” uma determina-
ção arbitrária) com suas ações. Todos estes conceitos de coerência,
racionalidade, maximização são determinados segundos conceitos muito
estritos e específicos de sujeitos, sem a necessária correspondência com a
realidade e nem constante crítica ou debate que a abordagem ética poderia
proporcionar, ao entender a economia como ferramenta subordinada a
outros fins. Talvez este panorama funcione muito bem para comporta-
mento mercadológico, mas quando o que está em debate são escolhas
coletivas (que devem beneficiar as pessoas coletivamente), estas conven-
ções e julgamentos de riqueza na alocação de recursos devem ser debatidos
de forma diferente.
Logo, faz pouco sentido dizer que se está alargando as definições de
coerência ou considerando comportamentos irracionais como coerentes
quando os critérios de racionalidade e coerência não são universalizáveis,
mas sim subjetivos para cada sujeito. Deste modo, transformar algo em
utilidade (ou algum outro parâmetro que seja, embora pertencente à
mesma categoria, como incentivos financeiros), valorando ações e atua-
ções que tem diversos critérios e vetores subjetivos sob o pressuposto de
que o comportamento público em relação a bens públicos direciona-se or-
ganicamente segundo valores objetivos é um erro na verdade bastante
grosseiro.
Admitir que as atuações não podem ser observadas e analisadas sob
o pressuposto de serem “fatos objetivos” é na verdade um caminho para a
144 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

construção de prismas de análises mais cuidadosos. Como indica Putnam


(pág. 33)

What I am saying is that it is time we stopped equating objectivity with des-


cription. There are many sorts of statements-bona fide statements, ones
amenable to such terms as "correct," “incorrect," "true," "false," “warranted,"
and “unwarranted”- that are not descriptions, but that are under rational con-
trol, governed by standards appropriate to their particular functions and
contexts

ou seja, não necessariamente as observações devem deixar de existir,


mas devem ser entendidas sob forma circunstancial, como próprias para
cada contexto no qual estão inseridas. Alguma discussão deve existir sobre
o rumo de estudos de tomada de decisão sob estes aspectos, mas de qual-
quer modo, diversos avanços nestes campos na verdade geram políticas
institucionais desinteressantes.
O reconhecimento da existência de diversos vetores subjetivos, em-
bora seja um desafio normativo, mesmo com colaboração de verificações
e incorporações dos estudos empíricos, é uma necessidade para que se evi-
tem abstrações e burocratização tão disfuncionais em departamentos
públicos de tomada de decisão. O aceite destas diretrizes pelo argumento
do poder de análise e predição demonstrados em campos diversos nas re-
lações privadas não necessariamente indica o melhor caminho no trato de
políticas públicas.
Grande parte destas dificuldades causadas podem ser relacionadas a
necessidade de observação material a guiar os vetores e valores observa-
dos quando o comportamento humano é analisado. Talvez já tenha
passado da hora de admitirmos que fatores imateriais, aqueles que neces-
sitam da interação e interdisciplinaridade com outras áreas do
conhecimento por parte da economia devem ser levados em conta, não
somente para que se mantenha a credibilidade, necessidade e presença dos
estudos econômicos, mas também para que a economia, como ferramenta,
possa servir para outro fim além de maximizar e perseguir fins diversos,
para que, por meio da política, a economia possa tornar a vida melhor.
Gabriel Fernandes Mafioletti; Fabrício Pontin | 145

3 Conclusão

Observando o histórico afastamento entre as chamadas abordagens


técnica e ética da economia nota-se a urgência de incorporação de elemen-
tos voltados para análise moral e reflexiva tanto da mesma como ciência
social e aspectos formais quanto em relação ao seu papel dentro da estru-
tura social. Deste modo é necessária uma reavaliação e reconsideração na
elaborações destes estudos a fim de incorporar características diferentes
daquelas valorizadas na construção de modelos para tomada de decisão
atualmente, permitindo que sirvam a outros propósitos que não aqueles
privados usualmente voltados para concentração de renda, algo provavel-
mente não tão interessante para a construção de um ambiente social
saudável.
Percepções voltadas para as os pressupostos e características adqui-
ridas quando no desenvolvimento de estudos voltados para atuação de
tomada de decisão em ambientes privados produziram ótimos resultados,
porém mostram-se cada vez mais desastrosas na aplicação em âmbito pú-
blico. A revisão da base dos conhecimentos normativos usualmente
tomados como descritivos e factuais traz luz a dificuldades já observadas
na administração pública, que poderia ser fortalecida por uma abordagem
menos tecnicista e mais reflexiva em relação a si própria e conhecimentos
que outras áreas do conhecimento proporcionam.
Deixando de reduzir acontecimentos e bens a uma métrica única, in-
corporando peculiaridade na base de dados parece ser um retorno a
determinado nível de complexidade no tratamento de dados valorizando a
correspondência com a realidade e diminuindo a arbitrariedade nas análi-
ses. Toda complexificação vem com custos porém estes deixam de ser tão
relevantes na medida em que cria-se uma insustentabilidade no que não
toca ao que pode ser valorado em termos de base informacional justa-
mente pela falta de capacidade destes modelos em pensar a melhoria da
146 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

vida dos integrantes da sociedade em invés de valores de indivíduos ou


grupos particulares.
Afinal é ainda fundamental que se sejam observadas dentro das aná-
lises econômicas as considerações apontadas há anos por Amartya Sen e
expoentes do seu pensamento em relação ao modo como estes dados são
encarados. Além da constante redução em relação a pluralidade da base
informacional e empobrecimento da isoinformação presente aquilo que é
inserido nos modelos de análise para resultarem em uma decisão a ser
tomada são encarados como fatos incontestáveis. Sem revisão de pressu-
postos de consideração, tratamento e consciência em relação a
circunstancialidade as análises econômicas em especial em relação a polí-
ticas públicas continuarão a servir a interesses diversos que aqueles
voltados para o bem público.

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WALSH, V. Sen after Putnam. Review of Political Economy, v. 15, n. 3, p. 315-394, 2003.
9

Os direitos fundamentais sob a perspectiva


da justiça como equidade Ralwsiana e
da igualdade de capacidades de Amartya Sen

Elisandra Fabrícia Bernstein 1


Simone Paula Vesoloski 2

1 Introdução

Os direitos e garantias fundamentais dispostos na Constituição Fede-


ral de 1988 são considerados como indispensáveis à pessoa humana,
porquanto visam assegurar uma vida digna, pautada na igualdade e na
liberdade, objetivando a construção de uma sociedade justa e igualitária.
Considerando o vasto rol desses direitos e o debate acerca de sua imple-
mentação e proteção, o presente trabalho é um estudo preliminar do
diálogo entre dois teóricos liberais no sentido de abordar brevemente as-
pectos sobre os direitos fundamentais em uma perspectiva baseada na
justiça como equidade de John Rawls e na igualdade de capacidades de
Amartya Sen.
O principal objetivo da pesquisa é buscar justamente esse diálogo en-
tre as teorias de ambos os autores, apresentando e comparando duas
concepções distintas de justiça social, de modo a estudar a teoria da justiça

1
Acadêmica do 10º semestre do curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões
- URI Câmpus Erechim. E-mail: elisandrafabricia@hotmail.com
2
Acadêmica do 10º semestre do curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões
- URI Câmpus Erechim, membro integrante do Grupo de Estudos do Centro Brasileiro de Pesquisas sobre a Teoria
da Justiça de Amartya Sen – IMED – Passo Fundo, RS. E-mail: simonels17@hotmail.com
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 149

rawlsiana juntamente com a abordagem de capacidades de Amartya Sen


como forma de proteção dos direitos fundamentais. Insta destacar que as
abordagens teóricas da justiça de Ralws e Sen são distintas, contudo é pos-
sível investigar a complementação entre os pensamentos dos autores no
que tange a proteção da dignidade humana.
Para tanto, a proposta do trabalho, em um primeiro momento, é
apontar linhas gerais sobre os direitos fundamentais consagrados na
Constituição Federal de 1988. No segundo capítulo, serão abordados os
conceitos da justiça como equidade de John Rawls, seguindo, no terceiro
capítulo, com a apresentação da igualdade de capacidades de Amartya Sen.
Portanto, esta pesquisa tem o intuito de debater e confrontar o pen-
samento desses dois grandes autores, fazendo um estudo sobre a
possibilidade da aproximação da justiça como equidade de Rawls versus a
igualdade de capacidades de Amartya Sen, polemizando e perscrutando
argumentos que visam proteger os direitos fundamentais e fomentar o de-
senvolvimento.
Por fim, essa pesquisa não pretende esgotar o assunto, apesar disso
tende muito a contribuir para compreender as ideias de equidade, justiça,
igualdade e capacidade de John Rawls e Amartya Sen.
Com o intuito de cumprir os objetivos propostos, a metodologia uti-
lizada para o desenvolvimento do presente trabalho, se baseou em
pesquisa bibliográfica e documental, por meio dos métodos indutivo e ana-
lítico-descritivo.

2 Direitos e garantias fundamentais

Os direitos e garantias fundamentais estão previstos na Constituição


Federal de 1988, em seu Título II, em que a principal finalidade é de ga-
rantir os direitos básicos individuais, sociais, difusos e à democracia ao
cidadão brasileiro. Subdivide-se em cinco capítulos: I- “Dos Direitos e De-
veres Individuais e Coletivos”; II – “Dos Direitos Sociais”; III- “Da
Nacionalidade”; IV- “Dos Direitos Políticos” e V- “Dos Partidos Políticos”.
150 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Para Pinho (2020), algumas inovações foram feitas pela Constituição


Federal de 1988, como, por exemplo, foi a primeira constituição brasileira
a estabelecer os direitos fundamentais antes mesmo da estruturação do
Estado, refletindo, assim, a sua relevância na democracia hodierna, como
também abarcou os interesses coletivos e difusos e prescreveu deveres ao
lado dos direitos individuais e coletivos, diferentemente das demais cons-
tituições brasileiras.
Nesse aspecto, o autor Bonavides (2004, p. 585) denomina que a
Constituição é “[...] a Lei das Leis e o Direito dos Direitos; o código de
princípios normativos que fazem a unidade e o espírito do sistema, vincu-
lado a uma ordem social de crenças e valores onde se fabrica o cimento de
sua própria legitimidade”.
Ressalta-se que as constituições contemporâneas são dotadas de um
rol vasto de direitos fundamentais conjuntamente com os preceitos regu-
lamentam sua efetivação, de modo a determinar um regime especial de
tutela. Essa espécie de constitucionalismo se fortaleceu a partir da segunda
metade do século passado, diante da reorganização da comunidade jurí-
dica europeia com a implantação de normas constitucionais providas de
princípios éticos e com perspectiva futura garantida por “cláusulas de eter-
nidade”, tendo em vista a inobservância dos direitos da pessoa humana ao
longo da primeira metade do século XX (PEREIRA, 2018).
Nesse seguimento, a Constituição Federal de 1988 adota essa matriz
constitucionalista, levando em conta também o rompimento com o auto-
ritarismo experimentado nos anos anteriores (PEREIRA, 2018). Assim,
conforme se denota no sistema adotado pela Constituição brasileira, o
termo “direitos fundamentais” é considerado um gênero que engloba as
espécies de direitos individuais, coletivos, sociais, étnicos e políticos, sendo
que as constituições escritas estão atreladas às declarações de direitos fun-
damentais. Dessa maneira, entende-se que os direitos fundamentais são
aqueles indispensáveis à pessoa humana, reconhecidos e integrados no di-
reito positivado (PINHO, 2020).
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 151

De acordo com as lições de Marmelstein (2019, p. 18), há cinco ele-


mentos básicos no conceito de direitos fundamentais, quais sejam:

[...] norma jurídica, dignidade da pessoa humana, limitação de poder, Consti-


tuição e democracia. Esses cinco elementos conjugados fornecem o conceito
de direitos fundamentais. Se determinada norma jurídica tiver ligação com o
princípio da dignidade da pessoa humana ou com a limitação do poder e for
reconhecida pela Constituição de um Estado Democrático de Direito como me-
recedora de uma proteção especial, é bastante provável que se esteja diante de
um direito fundamental.

Dessa forma, é possível afirmar que os direitos fundamentais são in-


dispensáveis aos cidadãos, porquanto imprescindíveis para a garantia de
uma vida digna pautada na igualdade e na liberdade, sendo que o Estado
deve buscar efetivar os direitos fundamentais e inseri-los no cotidiano das
pessoas, não somente reconhecê-los formalmente (PINHO, 2020).
Insta salientar que os direitos fundamentais possuem aplicação ime-
diata, forte no artigo 5º, §1º, da Constituição Federal de 1988, assim não
há necessidade de regulamentação para serem concretizados3, porquanto
são vinculantes e exigíveis; também são cláusulas pétreas e, desse modo,
não podem ser revogados (artigo 60, §4º, inciso IV, CF/1988); por fim,
são hierarquizados, isso significa que, se uma lei embaraçar ou frustrar a
concretização de um direito fundamental, de modo desproporcional, então
essa lei poderá ter a sua aplicabilidade afastada por inconstitucionalidade
(MARMELSTEIN, 2019).
Nessa toada, é necessário destacar as características dos direitos fun-
damentais, conforme lição de Pinho (2020, p. 94):

a) Historicidade. Para os autores que não aceitam uma concepção jusnatura-


lista, de direitos inerentes à condição humana, decorrentes de uma ordem

3
Ao contrário dos direitos fundamentais, o termo direitos humanos possui uma abrangência maior, de modo que é
utilizado para se referir aos direitos do homem reconhecidos internacionalmente, como também compreendidos
como determinações éticas que necessitam ser positivadas. Pode ser considerado como uma categoria de faculdades
e instituições, que em cada período histórico efetiva as imposições da dignidade, da liberdade e da igualdade, de modo
que precisam ser positivados pelos ordenamentos tanto em nível nacional quanto internacional (PEREIRA, 2018).
152 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

superior, os direitos fundamentais são produtos da evolução histórica. Surgem


das contradições existentes no seio de uma determinada sociedade.
b) Inalienabilidade. Esses direitos são intransferíveis e inegociáveis.
c) Imprescritibilidade. Não deixam de ser exigíveis em razão da falta de uso.
d) Irrenunciabilidade. Nenhum ser humano pode abrir mão de possuir direitos
fundamentais. Pode até não usá-los adequadamente, mas não pode renunciar
à possibilidade de exercê-los.
e) Universalidade. Todos os seres humanos têm direitos fundamentais que de-
vem ser devidamente respeitados. Não há como excluir uma parcela da
população do absoluto respeito à condição de ser humano. f) Limitabilidade.
Os direitos fundamentais não são absolutos. Podem ser limitados, sempre que
houver uma hipótese de colisão de direitos fundamentais.

Então, isso significa que os direitos fundamentais são resultantes de


um passado histórico diante de incongruências em determinadas socieda-
des; também são direitos pessoais e intransferíveis, de modo que nenhuma
pessoa pode renunciá-los, assim como não há óbice ao não uso desses di-
reitos e isso não acarreta a sua exigibilidade; inclusive, esses direitos se
estendem a todos os cidadãos, não havendo que se falar em exclusão de
determinada parcela da população; por fim, os direitos fundamentais não
são absolutos e podem ser limitados em casos de colisão entre eles.
Além disso, os direitos fundamentais estão abarcados em uma cate-
goria jurídica complexa, de modo que é possível examiná-los de várias
maneiras, porquanto se manifestam no constitucionalismo contemporâ-
neo como resultante de um intenso processo histórico em que foram
ampliados, gradualmente, em seu alcance e força vinculante dentro do or-
denamento jurídico (PEREIRA, 2018).
Digno de nota que os direitos fundamentais são divididos em gera-
ções ou dimensões. Brevemente, é possível afirmar que os direitos de
primeira geração são aqueles individuais que representam uma forma de
defesa do cidadão em relação ao Estado, também conhecidos como direito
de liberdade, dentre eles estão os direitos à vida, segurança, propriedade,
liberdade de pensamento, entre outros. Em seguida, os direitos de segunda
geração não têm a intervenção estatal e visam assegurar um ideal de vida
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 153

digna aos indivíduos, ou seja, são os direitos sociais, econômicos e cultu-


rais. Também, os direitos de terceira dimensão estão ligados aos valores
da fraternidade para resguardar os direitos da sociedade voltados ao cole-
tivo. Em relação aos direitos de quarta geração, não há unanimidade entre
os doutrinadores, porém seus defensores aduzem que são os direitos rela-
cionados à engenharia genética, compreendendo os direitos à democracia,
à informação e ao pluralismo. Ainda, alguns doutrinadores apontam a
existência dos direitos de quinta dimensão, consubstanciados na paz, ou
seja, no bem-estar geral da humanidade (OLIVEIRA JUNIOR, 2017).
De acordo com Bonavides (2004), seguindo o entendimento do dou-
trinador alemão Konrad Hesse, em uma acepção lata, a perspectiva dos
direitos fundamentais está centrada na criação e manutenção de pressu-
postos elementares de uma vida pautada na liberdade e na dignidade
humana. Já em uma compreensão mais restrita, específica e normativa,
entende-se como os direitos que o próprio direito vigente qualifica como
tais.
Também, importante mencionar acerca da dignidade da pessoa hu-
mana, nas palavras de Ingo Sarlet (2002, apud MARMELSTEIN, 2019, p.
16):

[...] onde não houver respeito pela vida e pela integridade física e moral do ser
humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem
asseguradas, onde não houver uma limitação do poder, enfim, onde a liber-
dade e a autonomia, a igualdade em direitos e dignidade e os direitos
fundamentais não forem reconhecidos e assegurados, não haverá espaço para
a dignidade da pessoa humana.

Isso significa que a dignidade humana é pautada pelo respeito à au-


tonomia da vontade e a integridade física e moral, como também à
objetificação do ser humano e à proteção do mínimo existencial
(MARMELSTEIN, 2019).
154 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

3 A justiça de equidade de John Rawls

De acordo com Rawls (2000), a justiça pode ser considerada como a


primeira virtude das instituições sociais, a qual é indisponível, sendo que,
se uma teoria for inverídica, mesmo que seja econômica e elegante, deve
ser revisada ou eliminada, como ocorre com as legislações injustas, mesmo
que bem projetadas e organizadas, deverão ser reformadas ou abolidas.
Nesse ponto, em uma sociedade pautada na justiça as liberdades são tidas
como invioláveis, sendo que os direitos assegurados pela justiça não po-
dem ser objeto de transações políticas ou ao cálculo de interesses sociais.
Ainda, o autor defende que somente é possível aceitar uma teoria falha, se
não tiver uma teoria melhor, ou seja, poderá ser aceita uma injustiça a fim
de evitar injustiças maiores.
O objetivo do autor é expor um conceito de justiça mais genérico que
conduz a um plano superior de abstração a apresentada na teoria do con-
trato social, tal qual em Locke, Rousseau e Kant. Assim, o contrato original
não é aquele que introduz uma sociedade particular ou que determine uma
maneira particular de governo, mas, sim, que os princípios da justiça são
o objeto do consenso original para a organização básica da sociedade.
Dessa forma, a partir desses princípios que pessoas livres e racionais, que
buscam efetivar seus próprios direitos, aceitam se associar em um posici-
onamento inicial de igualdade. Então, tais princípios devem regulamentar
os demais acordos posteriores, pormenorizar os tipos de acordos de coo-
peração social possíveis de se assumir e as formas de governo passíveis de
se estabelecer. Nesses termos, o autor considera e denomina os princípios
da justiça como justiça como equidade (RAWLS, 2000).
Em outras palavras, Calgaro (2015, p. 17) explicou que:

[...] Rawls formulou uma teoria da justiça como equidade. Para ele, a justiça é
o pilar de uma sociedade bem ordenada, ou seja, justa e equitativa, cuja ideia
não é eliminar as desigualdades, mas sim trabalhar com uma visão de equi-
dade, ou seja, o fato de reconhecer igualmente os direitos de cada pessoa. Para
chegar a esse resultado, no entanto, o autor imaginou uma situação que seja
hipotética, em que os indivíduos estariam na posição original (ou seja, similar
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 155

a um estado de natureza), podendo escolher os princípios da justiça, sendo


eles o da liberdade e o da igualdade, sucessivamente, por uma ordem lexográ-
fica. Esses indivíduos, que são tidos como razoáveis e também racionais,
estariam sob o “véu da ignorância”, ou seja, não conheceriam todas as situa-
ções que lhes trariam vantagens ou mesmo desvantagens na vida social, não
saberiam de suas condições e talentos, permitindo-os agir sob uma forma de
cooperação social, agindo de forma imparcial. Desse modo, na posição origi-
nal, todos os indivíduos compartilhariam de uma situação que seria equitativa,
ou seja, todos esses cidadãos seriam livres e iguais.

Considerando que as pessoas escolheriam as regras sociais caso não


tivessem conhecimento de suas capacidades e habilidades, observando-se
que tal hipótese seria classificada como o véu da ignorância, como também
de que as pessoas não teriam conhecimento de seus talentos naturais e
morais, então, elas poderiam concordar e escolher os princípios de justiça
sem se utilizar dos recursos, vantagens e desvantagens concretas
(WEBER; CALGARO; LUDGREN, 2014).
Em outras palavras, Outeiro (2019) refere que a posição original é
uma hipótese concebida por pessoais morais, as quais não serão influen-
ciadas ou condicionadas por contingências arbitrárias ou forças sociais em
suas decisões. Nesse ponto, denota-se que se trata de uma questão proble-
mática deliberativa, momento em que todas as pessoas devem entrar em
um consenso e concordar de forma racional com uma ideia de justiça em
contraponto de outra.
O autor supramencionado vai além, ressaltando que:

[...] O resultado dependeria, então, da quantidade de informações disponíveis,


pois é plausível afirmar que na posição original, cada um escolherá um prin-
cípio de justiça que o beneficie. Nessa posição originária, coloca-se um véu,
como forma de cegar os indivíduos sobre certas situações sociais e econômicas
pessoais, denominado véu da ignorância, para reduzir complexidades e con-
tingências que levam à discórdia e ao atrito. Por conseguinte, as pessoas não
conhecem seus valores, preferências, interesses, condições pessoais, etc. No
entanto, entendem as relações políticas, base da organização social, e outros
fatos genéricos. Como não se sabe quem faz parte do grupo que poderá ser
sacrificado, adota-se uma postura cautelosa e prudente no momento da esco-
lha, que não irá prejudicar ninguém (OUTEIRO, 2019, p. 14).
156 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

No entendimento de Godoy (2010), Rawls pretende demonstrar que


a sua teoria contratualista direciona a princípios de justiça diferentes do
utilitarismo e do perfeccionismo, como também de que os princípios de
justiça podem ser projetados como princípios morais que pessoas morais
em uma situação equitativa e sem interesse escolheriam. Assim, o termo
“contrato” adota um sentido diferente, eis que evidencia o pluralismo de
interesses e o acordo acerca da divisão adequada das vantagens conforme
os princípios de justiça toleráveis por todos.
Adicionalmente a isso, nas palavras de Outeiro (2019, p. 05):

A justiça rawlsiana compreende a distribuição dos bens sociais primários


como condição básica para que uma pessoa possa realizar seu projeto de vida.
Por isso, a interpretação destes bens como direitos fundamentais (civis, polí-
ticos, sociais e difusos) ajuda a lançar luz sobre o significado de dignidade
humana: é o mínimo que uma pessoa faz jus para viver a vida que deseja, com
dignidade.

No que tange aos bens primários, o autor defende que os bens pri-
mários sociais são aqueles que estão disponíveis à sociedade, aqui se
enquadram os direitos, oportunidades, liberdade, renda e riqueza, en-
quanto que os bens primários naturais são a riqueza, o vigor, a inteligência
e a imaginava, sendo que os primeiros prevalecem sobre os últimos
(CALGARO, 2015).
Por fim, Weber, Calgaro e Ludgren (2014) explicam que Rawls en-
tende que a sociedade deve garantir a liberdade para todos de modo
igualitário, como também distribuir igualmente a riqueza e oferecer opor-
tunidades justas a todos. Assim, a justiça distributiva de Rawls objetiva
demonstrar como deve ser feita a distribuição dos bens sociais e quanto
cada pessoa devem contribuir para o benefício de todos, isso realizado
através de um consenso público. Desse modo, evidencia-se que Rawls efe-
tivamente se importa com as pessoas menos favorecidas para que essas
sejam incluídas no processo político e social.
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 157

4 Perspectivas de Amartya Sen sobre a igualdade de capacidades

A partir desse ponto, far-se-á um breve apanhado acerca da concep-


ção igualitária que o autor Amartya Sen defende. A sua ideia de igualdade
diz respeito às questões sobre a distribuição dos ônus e bônus dos recursos
insuficientes da sociedade e do desenvolvimento de políticas estatais, a
qual é conhecida por igualdade distributiva, que, por ser mais concisa, tem
o poder de complementar a teoria de justiça de Rawls (OUTEIRO, 2019).
Nesse passo, segundo Outeiro (2019) a compreensão que Sen tem em
relação à igualdade, esta relacionada com a renda e a distribuição de re-
cursos, pois, a partir do momento em que as pessoas vão utilizar sua
renda, Sen acredita que sempre haverá desigualdade em razão de cada ser
humano utilizar esses recursos de modo distinto um do outro.
Destarte, Sen (2010) salienta que a pobreza é um limitador da capa-
cidade do indivíduo e que se manifesta por meio da baixa renda. A relação
entre renda e capacidade esta conexa com vários fatores, como exemplo a

idade da pessoa (por exemplo, pelas necessidades específicas dos idosos e dos
muitos jovens), pelos papéis sexuais e sociais (por exemplo, as responsabilida-
des especiais da maternidade e também as obrigações familiares
determinadas pelo costume), pela localização (por exemplo, propensão a inun-
dações ou secas, ou insegurança e violência em alguns bairros pobre e muito
populosos), pelas convicções epidemiológicas (por exemplo, doenças endêmi-
cas em uma região) e por outras variações sobre as quais uma pessoa não pode
ter controle ou ter um controle apenas limitado. Ao contrastar grupos popu-
lacionais classificados segundo idade, sexo, localização, etc., essas variações
paramétricas são particularmente importantes. (SEN, 2010, p. 121).

Nesta senda, Sen (2010) sintetiza que, por exemplo, a idade esta re-
lacionada à renda e consequentemente com a capacidade, pois, com idade
mais avançada menor será a capacidade que esta pessoa terá e geralmente
repercutirá numa menor renda. Todavia, a renda em si também não é fa-
tor máximo para definir capacidade, pois muitas vezes o indivíduo pode
ter renda elevada, mas não terá saúde, podendo vir a pagar o melhor hos-
pital, mas mesmo assim será ‘mortal’, o dinheiro em si não é capaz de
158 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

comprar a saúde plena ou até mesmo a imortalidade. O autor, ainda ex-


plana e defende que o aumento da capacidade anda a par a expansão das
produtividades e do poder de auferir a renda em si.
Assim, Outeiro (2019) destaca que o problema da desigualdade de
renda a partir da análise em examinar a igualdade, aduz a uma necessi-
dade básica e essencial, amparada em conceber programas públicos de
redistribuição de riqueza, por se a essência basilar esta centrada em igua-
lar de certa forma a renda, uma pessoas que tenha maior renda deverá
pagar tributos maiores se comparado com uma pessoa de baixa renda, ou
o Estado tem o dever de executar programas que venham propiciar o au-
mento de recursos dos que menos tem.
Diante disso, o poder aquisição, a questão renda esta interligada a
fome. A renda inadequada é uma forte condição de uma vida pobre e com
isso a esta privação de capacidade em adquirir uma renda esta ligada,
como mencionado anteriormente, com a idade da pessoa, papel sexual e
social, a localização que tais pessoas se encontram; Sen (2010) destaca que
esses fatores reduzem o potencial do indivíduo para auferir renda e com
isso vê a importância da avaliação da ação pública, vislumbrando a criação
de alternativas para reduzir a desigualdade, a pobreza e a fome.
Entretanto o papel permissor dos direitos políticos e civis, da própria
participação democrática é importantíssima. Conforme defende Amartya
(2000), o uso desses direitos estão instrumentalizados por valores, princí-
pios, prioridades e, acima de tudo pela participação efetiva de cada
indivíduo na articulação de políticas públicas capazes de fomentarem a
mudança esperada e dar voz a quem não é ouvido. As discussões e os an-
seios da população demonstram que é pela participação democrática que
se tem a identificação das necessidades e se faz com que as políticas públi-
cas e direcionamentos de recursos sejam investidos de modo assertivo,
garantindo o próprio funcionamento do sistema democrático.

Assim como é importante salientar a necessidade da democracia, também é


crucial salvaguardar as condições e circunstâncias que garantem a amplitude
e o alcance do processo democrático. Por mais valiosa que a democracia seja
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 159

como uma fonte fundamental de oportunidade social existe ainda a necessi-


dade de examinar os caminhos e os meios para fazê-la funcionar bem, par
realizar seus potenciais. A realização da justiça social depende não só de for-
mas institucionais (incluindo regras e regulamentação democráticas), mas
também de prática efetiva. (SEN, 2000, p. 186-187).

Para Vesoloski e Ceni (2018, p. 515) é possível criar meios alternativos


para mudar o cenário atual, propriamente como Amartya ressalta, é pos-
sível impedir a fome aguda resultante recriando-se sistematicamente um
nível mínimo de renda e, intitulamentos para as pessoas afetadas pelas
mudanças econômicas.

Assim, os recursos necessários para recriar a renda integral dessas pessoas,


ou para reabastecê-las com a quantidade normal total de alimentos consumi-
dos, partindo do zero, não precisariam ser vultosos, desde que fossem
organizadas eficazmente medidas preventivas. (SEN, 2000, p. 198).

Dessa maneira, Vesoloski e Ceni (2018, p. 515) ressaltam que a parti-


cipação democrática por meio do povo estreitando laços com governantes,
traduz-se em políticas públicas bem formuladas, traçadas e assertivas que
podem servir como medida de proteção à sociedade e aumento da capaci-
dade de cada indivíduo. Essa linha de raciocínio vai de encontro ao
pensamento defendido por Amartya, e como consequência, essas condutas
melhoram a vida das pessoas que se deparam com a fome cotidianamente.
Nesse diapasão, Amartya (2000) aborda as políticas governamentais
como uma alternativa, tendo o importante papel de integrar o governo à
atuação eficiente e de outras instituições econômicas e sociais. A partir
disso, vislumbram-se as políticas públicas como alternativas capazes de
promover medidas de combate a fome, a qual devem ser constantemente
revisadas e (re)estruturadas para se manterem efetivamente plausíveis de
mitigar a fome que assola grande parcela da população.
Assim, segundo Amartya (2000) ressalta na obra “Desenvolvimento
como liberdade”, políticas públicas bem planejadas e executadas correta-
mente geram pequenas despesas púbicas e reduzem acentuadamente
epidemias e disposições comunitárias para assistência médica. A partir
160 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

desse apontamento, resta cristalino que a introdução de uma política pú-


blica adequada que nasce de uma escolha social bem delineada, gera
implicações positivas em vários aspectos para a população.
Nessa linha, Sen (2011) salienta que a comunidade precisa se reorga-
nizar e manter o ideal de uma sociedade plenamente justa. Assim, o autor
destaca que as argumentações públicas por meio das escolhas sociais e de
equidade juntamente com as demandas sociais participativas traduzem-se
em desafios práticos para tornar a democracia em si mais efetiva.
De acordo com Vesoloski e Ceni (2018, p. 519), percebe-se que as po-
líticas públicas são fundamentais e imprescindíveis na
contemporaneidade, pois, é a partir de uma política pública bem estrutu-
rada que será capaz de reduzir efetivamente impactos negativos causados
em decorrência da fome. Desse modo, as autoras acreditam que essa pre-
missa coaduna com a ideia defendida por Sen, pois, a política pública surge
de uma liberdade democrática, do ativismo das pessoas na identificação do
problema e no redimensionamento de medidas sanatórias, e consequen-
temente essa participação concebe as pessoas liberdade social, a qual
repercutirá na busca pelo justo, na busca por igualdade e por politicas pú-
blicas equânimes.
Entretanto, Sen pontua que a minimização da fome e a busca por
uma igualdade de renda oportuniza a capacidade de cada indivíduo, toda-
via, esses pontos são importantes, mas, em vários escritos do autor, de
modo especial na obra “A ideia de justiça”, Sen (2011) retrata que a liber-
dade para concretizar a vida do ser humano é valiosa, em primeiro lugar
porque a liberdade da maior oportunidade de buscar os objetivos que cada
ser humano valoriza e em segundo lugar, a oportunidade nos possibilita
escolhas, sem restrições impostas por outros. Então, o autor acaba retra-
tando que a capacidade esta orientada pela oportunidade que é gerada
através da liberdade.
Nesse compasso, Sen (2011, p. 305) aduz que “as capacidades têm um
papel na ética e na filosofia política que vai muito além de seu lugar como
rival da felicidade e do bem-estar como guias para a vantagem humana”.
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 161

O autor destaca a felicidade não é a única coisa que o ser humano valoriza,
existem várias outras coisas que o ser humano valoriza, mas a capacidade
de ser feliz é um aspecto fundamental da liberdade que cada indivíduo va-
loriza e essa “perspectiva de felicidade ilumina uma parte extremamente
importante da vida humana’, (SEN, 2011, p. 310).
Sen (2011) elenca a capacidade como um aspecto da liberdade relaci-
onadas com as oportunidades. Desse modo, para Sen, as capacidades são
características das vantagens individuais e igualdade de capacidade, ou
seja, a redução da desigualdade de capacidades expande a capacidade de
todos. Assim, a capacidade reflete num vasto conjunto de fatores e ativi-
dades que um indivíduo pode fazer e escolher e esta conexa com o
desenvolvimento da sociedade e com a racionalidade pautada na respon-
sabilidade da escolha, seja ela uma escolha individual ou uma escolha
social, onde todos devem enfrentar essa escolha de modo consciente.

5 Considerações finais

A presente pesquisa teve como objetivo investigar e abordar o diálogo


entre as teorias de Amartya Sen e John Rawls, apresentando e comparando
as duas concepções distintas de justiça social, de modo a estudar a teoria
da justiça rawlsiana juntamente com a abordagem de capacidades de
Amartya Sen como forma de proteção dos direitos fundamentais. Insta
destacar que as abordagens teóricas da justiça de Ralws e Sen são distintas,
contudo é possível investigar a complementação entre os pensamentos dos
autores no que tange a proteção da dignidade humana.
Sendo assim, buscou-se na primeira seção esclarecer e apontar de
modo geral aspectos relacionados aos direitos fundamentais consagrados
na Constituição Federal de 1988. Já na segunda seção, foram abordados os
conceitos da justiça como equidade de John Rawls, e por fim, na terceira
seção esta pesquisa buscou apresentar a concepção e a compreensão que
Amartya Sen tem a respeito da igualdade de capacidades e toda a temática
que abrange a capacidade, a liberdade, a participação democrática e o pa-
pel da argumentação e da escolha pública e individual.
162 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Portanto, esta pesquisa teve a essência e intuito amparado no debate


e no confrontamento do pensamento desses dois grandes autores menci-
onados no decorrer da pesquisa, fazendo um estudo não exaustivo sobre a
possibilidade da aproximação da justiça como equidade de Rawls versus a
igualdade de capacidades de Amartya Sen, polemizando e perscrutando
argumentos que visam proteger os direitos fundamentais e fomentar o de-
senvolvimento.
Desse modo, restou claro que John Rawls acredita que a justiça tem
de ser vista com relação às exigências da equidade, da imparcialidade e do
acordo unânime sobre um conjunto de princípios de justiça, já na percep-
ção e visão de Amartya Sen, o desenvolvimento aumenta a capacidade, e
consequentemente maximiza a oportunidade e a liberdade das pessoas,
sendo necessários métodos capazes de efetivar e oportunizar o governo
por meio de debate para promover e garantir plenitude à justiça social,
favorecendo uma política mais igualitária e uma vida justa para todos os
indivíduos.
A partir da efetivação e da implementação de políticas públicas que
emanam a escolha social, será possível vislumbrar as mudanças positivas
produzidas, bem como a melhoria da qualidade de vida das pessoas, a mi-
nimização das desigualdades e injustiças, mantendo sempre o propósito
de construir uma sociedade mais justa, igualitária e equânime.
Alcançar com plenitude a justiça social, a concretização da liberdade,
da igualdade e da capacidade não é uma tarefa fácil, mas é preciso cada
vez mais conhecer e compreender a abrangência e a importância não so-
mente para a sociedade, mas para cada ser humano, analisando a realidade
local e delineando com assertividade as mudanças que se esperam produ-
zir e que essas mudanças sejam realmente capazes de serem
implementadas. Garantir a perfectibilizarão dessas premissas dentro da
sociedade democrática de direito requer responsabilidade, compromisso e
ativismo, pois essas premissas destacadas são tidas como princípios nor-
teadores e de grande valia para a coexistência pacífica e digna de toda a
sociedade.
Elisandra Fabrícia Bernstein; Simone Paula Vesoloski | 163

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164 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

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line.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidspp/article/view/11723. Acesso em: 14
out. 2020.
10

Pluralidade, desigualdade e democracia no Brasil

Cássio Abreu da Rosa 1


Lenise da Silva Zanato 2

1. Introdução

O ideal platônico da democracia reconhece um contexto no qual todas


as classes cumprem uma função vital, de tal forma que cada qual contribui
para a comunidade através daquilo que está apto a realizar. A distribuição
de tarefas e obrigações deve ocorrer com vistas à natureza das coisas, da
realidade, não convindo violentá-las em nenhum sentido, pois a premissa
da democracia e da justiça é que cada um seja tão feliz quanto possa, de
acordo com sua natureza.
Também segundo essa premissa, os governantes não podem ter en-
tre suas ambições o alcance do poder para si próprios, mas devem, sim,
governar apenas aqueles que exerçam o poder com vistas ao desenvolvi-
mento comum. Se o governo fosse exercido por aqueles que buscam o
poder para si próprios, a sociedade seria deficiente e injusta.
Essa situação ideal foi evoluindo através das contribuições de
inumeráveis doutrinas através dos tempos, ressaltando-se a perspectiva
de Rawls quanto ao liberalismo político, situação democrática em que as
pessoas são consideradas livres e iguais. Nesse sentido, a democracia se
aproxima a um ideal de justiça política que equivale a realizar, nas

1
Mestrando em Direito – PPGD IMED, Passo Fundo, RS, casiorosa@gmail.com.
2
Mestranda em Direito – PPGD IMED, Passo Fundo, RS, lszanato@gmail.com.
166 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

instituições básicas, os valores da liberdade e da igualdade. Isso consiste


em garantir o valor equitativo das liberdades políticas. Desta forma, se
garantiria um procedimento político justo, que produziria políticas sociais
que suporiam garantir a todos as mesmas oportunidades de influir nas
decisões políticas, antes de agir sobre a estrutura social e econômica.
Porém, essa doutrina não dá conta de diversos elementos caracterís-
ticos da sociedade atual, como no caso brasileiro, em que a concentração
excessiva do poder econômico e do poder sobre o controle da informação
cada vez mais interfere de forma não democrática no processo político,
limitando o exercício efetivo as liberdades políticas iguais para todos os
cidadãos.
Diante dessas premissas pode-se estabelecer uma dúvida quanto aos
limites da ideia de democracia como contexto no qual se admite o plura-
lismo diante de situações de conflito de valores e/ou concepções políticas
antagônicas. Reconhecendo-se a impossibilidade de harmonização plena
de convicções políticas, morais e éticas relativas à democracia – ligadas,
em sua maioria, à prevalência de desigualdades sociais, econômicas, cul-
turais, etc. que podem ou não ser inerentes ao pluralismo – tem-se como
problema da presente pesquisa: quais os limites da ideia de democracia
diante da ascensão da extrema direita em sociedades tradicionalmente de-
mocráticas?
Em resposta a esse questionamento é possível evocar a hipótese de
que, como defende Arendt, os homens nem sempre compreendem o au-
têntico alcance de sua condição política ou, se o compreendem, é
demasiadamente tarde. Nesse sentido, a desigualdade não se refere unica-
mente à questão econômica, mas à própria pluralidade de doutrinas e
juízos éticos e morais que, de forma inconsciente, dirigem as ações políti-
cas no sentido de afetar significativamente a consolidação de uma
democracia, revelando-se em momentos de crise como ameaças e viola-
ções à ordem democrática pretensamente estabelecida.
No mesmo sentido, pode-se evocar a hipótese de que na atualidade o
maior paradoxo da política é a discrepância entre a insistência geral em
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 167

direitos humanos fundamentais e inalienáveis de que cada vez mais são


sujeitos apenas os cidadãos mais prósperos e a situação daqueles que ca-
recem desses direitos. Nessa realidade, se o parâmetro de uma democracia
equivale a ter direitos, isso, por sua vez, depende cada vez mais de que o
Estado atribua a todos a condição jurídica de cidadania e não de se defen-
der a igualdade entre todos os cidadãos em uma realidade social na qual
milhões de excluídos têm direitos básicos suprimidos para atender aos in-
teresses “ressentidos” de uma minoria privilegiada.
Como terceira hipótese tem-se que é possível consolidar apoios soci-
ais a políticas que reduzam as desigualdades sem causar conflitos, através
de políticas sociais que beneficiem a todos, distribuindo benefícios a partir
de critérios não excludentes (como raça ou pobreza, por exemplo), contri-
buindo assim para diminuir os ressentimentos que levam a polarizações
sectárias. Se essas polarizações sectárias puderem ser evitadas, como afir-
mam Levitsky e Ziblatt, a desigualdade pode ser reduzida sem que
ocorram reações adversas que conduzam à eclosão de ideias totalitárias.
Como no caso brasileiro, a partir do avanço político da extrema di-
reita, torna-se de extrema relevância analisar essa questão, até mesmo
para compreender em que sentido a jovem democracia deve ser fortalecida
para não retroceder, para não estar à mercê dos interesses minoritários
que, em detrimento dos avanços sociais e políticos das últimas décadas,
impõem atualmente a exclusão de identidades minoritárias, a eliminação
do espaço democrático em nome de um corpo orgânico que nega a plura-
lidade em nome da ameaça de uma identidade nacional, racial, cultural ou
confessional.
Essa reflexão, portanto, tem sua relevância justificada pela necessi-
dade de compreender o momento atual e, sobretudo, analisar em que
sentido a democracia brasileira não se solidificou a ponto de resistir ao
retrocesso a que o país se encontra submetido institucional, social e politi-
camente.
O objetivo geral deste estudo é analisar os limites da ideia de demo-
cracia diante da ascensão da extrema direita em sociedades
168 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

tradicionalmente democráticas. Seus objetivos específicos são compreen-


der o quadro atual das sociedades democráticas diante do conceito de
democracia; analisar as possíveis causas da ascensão da extrema direita e
seu reflexo sobre a democracia brasileira; estabelecer algumas das estra-
tégias possíveis para o resgate e consolidação da democracia brasileira a
partir dessa experiência.

2. O retrocesso democrático: causas, desdobramentos e perspectivas


futuras

2.1 O quadro atual das sociedades democráticas

Em todo o mundo vive-se um momento de “mal-estar” quanto à de-


mocracia, o que supõe um desafio sem precedentes para a política em sua
dimensão de exercício e de legitimação do poder e como ação de governo
para satisfazer demandas e garantir direitos de cidadania.
Tais problemas adquirem, em cada contexto específico, uma dimen-
são e um alcance distinto e, no caso brasileiro, percebe-se uma tendência
de retrocesso democrático e de questionamento do liberalismo internaci-
onal, impulsionada pelo avanço de ideias nacionalistas e de extrema
direita.
Para compreender esses desdobramentos, torna-se imprescindível
abordar concepções prevalentes sobre a democracia, evocando a premissa
do liberalismo político de Rawls, as lições de Arendt sobre a aproximação
entre democracia e cidadania e a abordagem de Sen em referência à con-
cretização fática da democracia e da igualdade.
Rawls concebe a democracia atrelada à justiça, aproximando seu con-
ceito à configuração de uma sociedade bem ordenada:

Uma sociedade bem-ordenada pressupõe três coisas: a primeira que se trata


de uma sociedade na qual cada indivíduo aceita e sabe que todos os demais
aceitam precisamente os mesmos princípios de justiça; a segunda que todos
reconhecem ou há bons motivos para assim acreditar que sua estrutura básica
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 169

– isto é, suas principais instituições políticas, sociais e a maneira segundo a


qual se encaixam num sistema único de cooperação – está em concordância
com aqueles princípios; terceira que seus cidadãos têm um senso normal-
mente efetivo de justiça e, por conseguinte, em geral agem de acordo com as
instituições básicas da sociedade que consideram justas. Numa sociedade as-
sim, a concepção publicamente reconhecida de justiça estabelece um ponto de
vista comum, a partir do qual as reinvindicações dos cidadãos à sociedade po-
dem ser julgadas” (RAWLS, 2000, p.79).

Nesse sentido, muito do que se pode dizer sobre a concepção de Rawls


(2000) sobre a democracia depende da forma como se sobrepõem as no-
ções de justiça e de democracia no dever social e político descrito na ideia
central de sociedade bem ordenada. A partir da análise e reflexão da forma
como realiza essa articulação é possível visualizar aspectos característicos
de sua ideia de democracia, cujo vínculo com a política democrática é evi-
denciado através do desenvolvimento do conteúdo dos princípios de
justiça e sua aplicação no marco de uma democracia constitucional.
Pode-se afirmar, portanto, que a concepção de democracia desenvol-
vida pela teoria política de Rawls (2000) se refere ao arranjo institucional
das sociedades liberais e democráticas modernas que, na prática, pode ser
regulado em termos de uma concepção normativa da justiça por um re-
gime consensual constitucional e que, mediante a deliberação correta,
orientada pela razão pública, oferece a possibilidade de conduzir a socie-
dade ao ideal realista de uma sociedade democrática bem ordenada, unida
e estável, como sistema equitativo de cooperação entre cidadãos conside-
rados livres e iguais.
Arendt não sistematiza uma teoria da democracia, mas sua obra per-
mite identificar uma definição do termo localizada na rede conceitual
através da qual identifica elementos que distinguem a democracia como
forma de governo identificável em determinadas condições. Essa definição
se refere à proposta de cidadania democrática e o fio condutor de sua obra
é a recuperação do sentido da ação política como a atividade humana por
excelência, que reabilita a cidadania e o espaço público no qual esta se ex-
pressa. A ação política “descansa na presunção de que podemos produzir
170 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

a igualdade através das organizações, porque o homem pode agir em um


mundo comum, modifica-lo e construí-lo junto a seus iguais”, com todos
os desafios que isso supõe. (ARENDT, 1989, p. 380).
Contudo, na atualidade, os homens se convertem em seres fragmen-
tados e atomizados, ou seja, isolados uns dos outros, impondo-se uma
liberdade solipsista e um individualismo exacerbado. Com isso, os indiví-
duos não possuem a capacidade de ver e ouvir os outros e de serem vistos
e ouvidos por eles, fechando-se em suas próprias experiências e tornando-
se incapazes de criar algo em comum com os outros. Assim, a possibilidade
de criar uma cidadania democrática e responsável por seu próprio destino
é impossível. Isso corresponde à emergência do individualismo moderno
e de uma sociedade burguesa competitiva na qual o privado se converte
no único interesse comum, a que Arendt (1989, p. 421) denomina filiste-
ísmo, enfatizando: “o retiro do filisteu à vida privada, sua devoção sincera
às questões de família e de sua vida profissional foram o último e já dege-
nerado produto da crença da burguesia na primazia do interesse
particular. O filisteu é o burguês de sua própria classe”.
Sen (2011) entrevê a importância da democracia como fonte de opor-
tunidades sociais, como forma de alcançar a justiça social não somente
através de formas institucionais (regras e normas democráticas), mas
também do modo como essas regras e normas são exercidas na sociedade.
Por vezes, a democracia é analisada na perspectiva dos processos elei-
torais. Embora o voto seja importante para a expressão e a efetividade do
processo democrático e para a forma como a esta expressão opera em uma
sociedade democrática, a democracia não pode limitar-se a isso, pois a efe-
tividade dos votos depende decisivamente do que está em jogo nas urnas
– liberdade de expressão, acesso à informação e direito a divergir. Sem
esses pressupostos o voto tende a eleger tiranos ou regimes autoritários:

A dificuldade reside não apenas na pressão política e punitiva que é exercida


sobre os eleitores na própria votação, mas na forma como as expressões da
opinião pública são frustradas pela censura, pela exclusão de informação e por
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 171

um clima de medo, junto com a supressão da oposição política e da indepen-


dência dos meios de comunicação, bem como a ausência de direitos civis e das
liberdades políticas fundamentais. Tudo isso torna redundante, para os gover-
nantes, usar muita força para garantir o conformismo no próprio ato de votar.
Na verdade, um grande número de ditadores no mundo tem conseguido gi-
gantescas vitórias eleitorais, mesmo sem coerção evidente sobre o processo de
votação, principalmente suprimindo a discussão pública e a liberdade de in-
formação, e gerando um clima de apreensão e ansiedade. (SEN, 2011, p. 357).

Contudo, a definição da democracia vai muito além dos processos


eleitorais, estendendo-se sobre a própria ideia da justiça social, da qual é
inseparável, como pressuposto para a redução da desigualdade, cuja natu-
reza influi consideravelmente sobre as prioridades da luta pela justiça
social. Para Drèze e Sen (2015, p. 429), uma parte da luta pela justiça social
se refere à resistência à concentração de riqueza e poder, mas também à
resistência à “exclusão continuada, que afeta uma grande parcela da po-
pulação, de instalações e oportunidades básicas que devem estar
disponíveis para todos”, que ser relaciona à construção de serviços públi-
cos essenciais e direitos elementares.
Diante destas análises conceituais da democracia, compreende-se que
o quadro atual das sociedades democráticas é de deterioração dos princi-
pais postulados dos conceitos de democracia anteriormente expostos. Essa
deterioração é consubstanciada pelo retrocesso das liberdades democráti-
cas e pela erosão das instituições e do equilíbrio entre os poderes e pela
erosão do próprio Estado de Direito. Nesse contexto emergem também
novas segmentações políticas – nacionalismo versus cosmopolitismo ou
“globalismo”; homogeneidade versus diversidade social, cultural e de op-
ção sexual; quanto aos direitos das mulheres; a favor ou antimercado -,
fazendo com que o conflito social e político já não se explique apenas ou
principalmente através da oposição entre esquerda e direita.
Essa condição impede a articulação política na sociedade, impedindo
o consenso nos moldes propostos por Rawls (2000), que enfatiza o ângulo
dialético da composição e não na oposição, postulando a política como uma
resposta de justiça que, mediante a despolitização do conflito de valores,
172 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

mitiga ou remove as fontes do conflito divisório e seus efeitos para manter


a ordem institucional dos regimes democráticos.
Como os conflitos atuais se caracterizam por relações assimétricas de
poder, têm origem em lutas que provêm do pluralismo de doutrinas e do
peso dos julgamentos de valor que se acirram, a democracia é constante-
mente limitada e acaba por retroceder para acomodar não mais o
consenso, mas uma pretensa homogeneidade.

2.2 A ascensão da extrema direita e seu reflexo sobre a democracia


brasileira

Dadot e Laval (2016) argumentam que os problemas da democracia


no mundo não se limitam aos países onde esta não existe ou onde tenha
deixado de existir, mas no restante do mundo, onde o problema principal
é a deterioração das elites, a corrupção, a desconfiança dos cidadãos nas
instituições democráticas e nos partidos políticos, na falta de condução de-
mocrática dos líderes, bem como na ausência de líderes e, sobretudo, na
ausência de resposta da democracia aos problemas dos cidadãos.
Atualmente, vários países assistem à ascensão de líderes e sistemas
que questionam a democracia liberal, seja eleitoralmente, seja como sis-
tema de direitos e deveres, especialmente aquelas democracias que
supõem a salvaguarda das sociedades abertas a respeito da diversidade e
da pluralidade social. A isso se soma a ascensão da extrema direita na Eu-
ropa e regimes totalitários vigentes em diversos países. Conforme Dadot e
Laval (2016), não se pode negar que o que se denomina ordem internaci-
onal têm seus fundamentos nos sistemas políticos existente em cada país
e as democracias menos flexíveis ou o autoritarismo são tendências em
alta e que têm questionado a ordem internacional liberal com posições na-
cionalistas e excludentes.
No Brasil, percebe-se claramente que a incapacidade dos governos
em cumprir suas promessas comprometeu a confiança do povo para com
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 173

os políticos e partidos. Economicamente, as famílias de classe média, de-


vido à recessão, convivem com o empobrecimento e o desemprego. Os
jovens desempregados, depois de terem realizado esforços para crescer,
sentem que o sistema no qual acreditaram falhou e os índices de preocu-
pação diante de problemas como a violência, a corrupção, o desemprego e
pobreza se incrementam.
Bermeo (1992), discorrendo sobre a ascensão do estado de exceção –
que se move nos limites da legislação sem alterar a ordem democrática em
sua lógica, mas suspendendo direitos supostamente para a manutenção da
ordem e a prevenção de atos terroristas – esboçou uma tipologia de golpes
de estado a partir do próprio governo estabelecido eleitoralmente, ampli-
ando assim a noção clássica de intervenção externa para minar uma
democracia. Essa tipologia corresponde a:

a) Golpes executivos, quando o que estão no poder suspendem o funcionamento das


instituições democráticas.
b) Fraude eleitoral, quando o processo eleitoral é manipulado para garantir a vitória
de determinado candidato.
c) Golpe promissório, quando a democracia é tomada por pessoas que convocam
eleições imediatamente para legitimar seu governo.
d) Ampliação do poder de um dos três poderes – Executivo, Legislativo ou Judiciário
-, quando os que ocupam o poder desgastam as instituições democráticas sem der-
rubá-las.
e) Manipulação estratégica das eleições, quando os processos eleitorais não são exa-
tamente livres, mas também não são claramente fraudados.

No Brasil, percebe-se que os reflexos dessa tipologia são bastante cla-


ros quanto aos dois últimos tipos sistematizados pela autora, ao que se
soma a percepção generalizada de que a ação dos governos é orientada
unicamente à satisfação dos interesses dos ricos e poderosos e não do
povo. Isso levou a população, via de regra, ao voto indignado, fundamental
para a eleição de um presidente que a maioria dos eleitores consideram
não fazer parte do establishment tradicional. Esse voto, justificado pela re-
volta contra a elite política e econômica, se nutre e retroalimenta o
174 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

discurso do povo contra as elites que levou à consideração de Jair Bolso-


naro como uma liderança democrática – não pelos princípios democráticos
que pudesse defender, mas pela ideia de que a democracia pode ser tradu-
zida unicamente pelo exercício do voto.
A eleição de Bolsonaro, também, revela a eclosão de um fenômeno
que vai além da consideração de que a democracia se traduz como pro-
cesso eleitoral, relacionando-se diretamente com a indiferença dos
cidadãos quanto à própria democracia como regime de governo.
O afastamento da política, a não identificação nem com a esquerda e
nem com a direita, o aumento do voto “por pessoa” e não “por partido”
revelou um contingente enorme de cidadãos desiludidos com os governos,
as ideologias e a democracia, proporcionando o crescimento de uma lide-
rança populista, com um discurso simplório e em muitos pontos
totalitário.
É importante, contudo, considerar que o que ocorreu no Brasil não é
exceção, mas sim uma tendência global de “animosidade” para com a de-
mocracia. Em várias partes do mundo a democracia tem perdido
legitimidade, porque atrelada a uma visão neoliberal que não cumpriu com
as promessas de inclusão social para amplos setores da população ou não
foi capaz de satisfazer as expectativas de ascensão social daqueles que fo-
ram retirados pelos governos social-democratas da pobreza absoluta, mas
não ascenderam socialmente. Em consequência, os governos, questiona-
dos e pressionados, não se mostraram capazes de reagir ou não souberam
fazê-lo e essa inércia voltou esses setores populares contra a democracia.
No processo eleitoral, o discurso inflamado, escatológico e de extrema
direita do candidato Jair Bolsonaro capitalizou a frustração de classe média
e a queda do consumo dos estratos mais baixos da população, unindo-se à
ofensiva empresarial, a lideranças evangélicas, a grupos fascistas e ativis-
tas jurídicos contra os avanços nos direitos sociais e as políticas públicas
voltadas para negros, LGBTs, mulheres, entre outros. (MARIANO;
GERARDI. 2019).
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 175

Também Lisboa (2018) se refere ao processo eleitoral como dramá-


tico, tutelado por um sistema judiciário ativista e uma profusão até então
inédita de fake news. Aspectos que comprovariam essa premissa vão desde
a prisão de Luis Inácio Lula da Silva, que figurava em primeiro lugar nas
pesquisas de intenção de votos, e sua proibição de registrar a candidatura
(nesse momento contava com o dobro das intenções de voto que Bolso-
naro, que alcançou o primeiro lugar, com oscilações constantes). Essas
oscilações permaneceram, no primeiro turno, até o momento em que foi
vítima de um atentado, que apesar de dar vazão a muitas polêmicas, con-
solidou sua candidatura e a fez crescer gradualmente. A comoção
generalizada fez com que rapidamente superasse 25% das intenções de
votos e, ainda, o episódio consolidou entre os descontentes a sua candida-
tura como a única capaz de enfrentar o campo da esquerda e lhe concedeu
o pretexto principal para silenciar e não participar de debates, diminuindo
assim o risco de contratempos causados pelo embate com os adversários.
(LISBOA, 2018).
No segundo turno, o ataque massivo de fake news em proporções
jamais vistas em uma eleição brasileira, através de grupos de WhatsApp,
especialmente envolvendo comunidades evangélicas, ajudou a candida-
tura de Bolsonaro a permanecer à frente até a eleição.
Mariano e Gerardi (2019), nesse sentido, reforçam que é importante
destacar que a campanha de Bolsonaro recebeu assessoria direta de Steve
Bannon, assessor político americano que foi estrategista da campanha de
Donald Trump e que ainda permanece como assessor do governo ameri-
cano. A eleição revelou um país dividido, com a vitória de Haddad na
maioria dos municípios mais pobres (98%) e Bolsonaro em 97% dos mu-
nicípios mais ricos.
Piketty et al. (2019) observam que o que foi eleito corresponde a uma
agenda elitista, que pretende privatizar a totalidade das empresas nacio-
nais, permitir a exploração e a destruição dos recursos florestais e
minerais, destruir a seguridade social dos mais desvalidos do país que é
176 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

considerado um dos países mais desiguais do planeta, aprofundar a re-


forma trabalhista, privatizar toda a rede federal de ensino, etc.
Essa destruição é ampla e radicalmente defendida pelas entidades re-
presentativas do empresariado e suas consequências podem ir muito além
das expectativas mais avassaladoras.

2.3 Estratégias possíveis para o resgate e consolidação da democracia


brasileira no atual cenário

De um modo geral, o avanço da extrema direita como ameaça à de-


mocracia exige que os governos busquem formas inovadoras de
democracia deliberativa, um governo “aberto” a participação cidadã que
permita legitimar as ações governamentais, restaurar a confiança nas ins-
tituições e revitalizar a democracia para além dos processos eleitorais.
Porém, na realidade brasileira, os atores sociais representados por
movimentos sociais e grupos de ativistas por direitos humanos e funda-
mentais encontram-se fragmentados há anos, encerrados em agendas
pontuais e acostumados a se relacionarem com as instituições governa-
mentais especializadas no encaminhamento de suas demandas.
No outro extremo, as políticas desenvolvidas por Michel Temer, após
o impeachment de Dilma Rousseff atingiram diretamente os sindicatos,
que vivem uma queda significativa em sua arrecadação a partir da Re-
forma Trabalhista, que também aprofundou a terceirização do trabalho.
Ainda, o país vive uma transição na forma de organização dos segmentos
sociais no contexto de uma sociedade segmentada, mais fechada em estru-
turas coletivas e menos aberta às plataformas globais ou universais.
Após a vitória de Bolsonaro ativistas de direitos humanos organiza-
ram algumas reações significativas, com a formação de redes em defesa
desses direitos, o que não representa uma nova articulação do campo pro-
gressista, mas revela um potencial social de oposição às políticas do novo
governo e o novo bloco que se encontra no poder.
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 177

Contudo, a dificuldade maior do governo parece ser o próprio campo


institucional em que se encontra, com uma pulverização da representação
partidária importante no Congresso e maiores dificuldades para a aprova-
ção de projetos sem a recorrência a práticas ilegais para a garantia da
maioria necessária.
Uma possível estratégia de resgate e consolidação democrática pode
ser depreendida da afirmativa de Levitsky e Ziblatt (2018) sobre os desa-
fios da democracia norte-americana e sua profundidade. Segundo os
autores, as normas democráticas enfraqueceram nos Estados Unidos em
razão da polarização sectária extrema, que vai além das diferenças políti-
cas e atinge conflitos de raça e de cultura.
No Brasil essa premissa é absolutamente verdadeira, pois também
aqui os esforços dos governos anteriores para alcançar não apenas a igual-
dade racial, mas para reduzir a desigualdade socioeconômica e proteger a
diversidade. Alimentaram uma reação insidiosa e intensificaram a polari-
zação extrema, que é algo que, para Levitsky e Ziblat (2018, p. 22), “é capaz
de matar democracias”.
A proposição dos autores é perfeitamente aplicável como estratégia e
como aconselhamento ao caso brasileiro:

Portanto, há, sim, razões para alarme. Não apenas os norte-americanos elege-
ram um demagogo em 2016, mas o fizeram numa época em que as normas
que costumavam proteger a nossa democracia já estavam perdendo suas
amarras. Contudo, se as experiências de outros países nos ensinam que a po-
larização é capaz de matar as democracias, elas nos ensinam também que esse
colapso não é inevitável nem irreversível. Tirando lições de outras democra-
cias em crise, este livro sugere estratégias que os cidadãos devem – e não
devem – seguir para defender a democracia nos Estados Unidos. (LEVITSKY;
ZIBLAT, 2018, p. 22-23).

Assim como os americanos, boa parte dos brasileiros estão amedron-


tados e receosos quanto ao futuro do país, mas, como aconselham Levitsky
e Ziblat (2018), para proteger a democracia é preciso humildade e ousadia,
aprender com a experiência de outros países a perceber os sinais de alerta
178 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

e a reconhecer os alarmes falsos. É preciso aprender também com o pas-


sado, com a história de superação de outras situações de ruina democrática
para responder a essa crise e superar a divisão existente na atualidade.
Nesse sentido, é importante ter em mente que o controle democrático
sobre os componentes autoritários é ilusório, pois estes componentes uti-
lizam as ferramentas da democracia liberal contra ela própria. Em
consequência, não havendo um evento traumático que tenha separado a
democracia do autoritarismo hoje vivido, a análise deve ser muito atenta
para que se distinga o momento preciso em que a democracia degenerou
para se transformar em autocracia. Nesse sentido, o trabalho se torna mais
difícil na medida em que as formas autocráticas se tornam mais sutis, mas
não menos perigosas. (LEVITSKY; ZIBLAT, 2018).
Como se percebe, as estratégias possíveis para o resgate e consolida-
ção da democracia se encontram precisamente no mapeamento das
dificuldades do governo eleito em consolidar-se como representação da
vontade da maioria da população e, com isso, implementar sua agenda.
Essas dificuldades, ao mesmo tempo em que indicam que a ascensão
da extrema direita ao poder através do voto representa um alerta impor-
tante quanto à fragilidade da democracia brasileira, também indicam que
nem todos os princípios defendidos por essa extrema direita foram acolhi-
dos pelos seus eleitores, visto que a participação de atores inéditos no
processo – juízes, pastores, assessores políticos americanos, produtores e
disseminadores de fake news, etc. – direcionaram também de forma iné-
dita o resultado das eleições.
Nesse sentido, é importante registrar a opinião de Levitsky e Ziblat:

Embora analistas muitas vezes assegurem que demagogos são “só falastrões”
e que suas palavras não devem ser levadas demasiado a sério, um rápido
exame dos líderes demagógicos mundo afora sugere que muitos deles de fato
cruzam a fronteira entre palavras e ação. É por isso que a ascensão inicial de
um demagogo ao poder tende a polarizar a sociedade, criando uma atmosfera
de pânico, hostilidade e desconfiança mútua. As palavras ameaçadoras do
novo líder têm um efeito bumerangue. Se a mídia se sente ameaçada, pode
abandonar o comedimento e padrões profissionais, num esforço desesperado
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 179

para enfraquecer o governo. E a oposição pode concluir que, pelo bem do país,
o governo tem que ser afastado através de medidas extremas – impeachment,
manifestações de massa, até mesmo golpe. (LEVITSKY; ZIBLAT, 2018, p. 90).

Contudo, é necessário ter em mente que “a erosão da democracia


acontece de maneira gradativa, muitas vezes em pequeníssimos passos”.
É importante estar alerta a cada um deles e à ameaça que lhes corresponde
quanto à subversão da democracia, pois essas iniciativa costumam apre-
sentar um verniz de legalidade, são aprovadas pelo Congresso, julgadas
constitucionais pela Suprema Corte, adotadas com o pretexto de apressar
o combate à corrupção, aos privilégios, para “’limpar’ as eleições, aperfei-
çoar a qualidade da democracia ou aumentar a segurança nacional”.
(LEVITSKY, ZIBLAT, 2018, p. 92).
Diante dessas situações, é importante compreender que do ponto de
vista da construção de relações sociais democráticas, é importante desen-
volver a sensibilidade tanto às consequências de escolhas e ações pessoais
como às capacidades de ação e relações cujo impacto seja mais amplo e
abrangente.
Levitsky e Ziblatt (2018, p. 242) descrevem a importância de que mo-
vimentos políticos que construam pontes de comunicação que
transcendam os abismos entre campos políticos. Ações como estas teriam,
na visão dos autores, consequências importantes no sentido de “fomentar
mais lealdades transversais numa sociedade que delas tem demasiado
pouco”.
Essas ações corresponderiam a alianças que auxiliam na construção
e na sustentação de normas de tolerância mútua, aproximando pontos de
vista divergentes sobre formas de agir e de enfrentar problemas comuns,
com maiores probabilidades de estabelecer consensos democráticos.
De qualquer modo, é importante assinalar que juntamente com o
presidente eleito e sua equipe de governo, que terão de apresentar resul-
tados, seus eleitores e apoiadores terão de cobrar esses resultados com
base naquilo em que acreditaram durante a campanha, compreendendo
que a democracia se assenta sobre essa base.
180 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Essa aprendizagem não tem sido a realidade do governo de Trump,


por exemplo, em quem Bolsonaro se espelha e a quem busca agradar. Cabe
à oposição encontrar o caminho para expor as debilidades desse governo
e sua incapacidade e enfrentá-las propositivamente – quando mais não
seja, para evitar que o que ocorreu em 2018 se repita em 2022.

3 Conclusão

Este artigo abordou o tema dos limites da ideia de democracia diante


da ascensão da extrema direita em sociedades tradicionalmente democrá-
ticas e estabeleceu três hipóteses quanto a essas possibilidades, embasadas
no conceito de democracia desenvolvido por John Rawls, Hannah Arendt
e Amartya Sen.
Quanto à primeira hipótese, baseada em Arendt, de que os homens
nem sempre compreende o autêntico alcance de sua condição política ou
essa compreensão é tardia e, por isso, a pluralidade de doutrinas, de juízos
éticos e morais afetam significativamente a democracia, considera-se que
foi comprovada a partir das análises estabelecidas.
Nesse sentido, conclui-se que no caso brasileiro é possível atribuir a
Bolsonaro as características do filisteísmo que Arendt delineia, mas o mais
grave nessa configuração não é a representação do filisteu não é derivado
da sua incapacidade para entender a essência da democracia, mas a sua
incapacidade de sentir qualquer interesse por ela e pelo que se refere ao
humano – direitos, liberdades, etc.
O mais preocupante, portanto, na ameaça representada pela ascen-
são da extrema direita ao poder, não é a visão mercantilista tradicional
sobre o ser humano, mas a generalização dessa visão a tudo o que e hu-
mano, ou seja, a banalização do humano para reduzi-lo a objeto, a coisa, a
partir do que se pode esperar a eclosão da barbárie.
Relativamente à segunda hipótese, ancorada na ideia de Arendt de
que a discrepância entre a insistência geral em direitos humanos funda-
mentais e inalienáveis e seu gozo apenas por parte dos cidadãos mais
Cássio Abreu da Rosa; Lenise da Silva Zanato | 181

prósperos representa o maior paradoxo da política atual, pode-se afirmar


que essa ideia cada vez mais tem sido utilizada como argumento falacioso.
A partir desse argumento busca-se justificar o “ressentimento” das
classes privilegiadas contra as políticas sociais implementadas por gover-
nos progressistas e seu argumento de que é necessário promover não a
igualdade, mas a homogeneidade, como se a desigualdade não fosse mais
do que uma “invenção” da esquerda.
Essa perspectiva alimenta a polarização, ingrediente extremo que ao
mesmo tempo impossibilita a discussão qualificada sobre a importância da
democracia para a evolução social e permite o avanço de ideologias totali-
tárias.
Sobre essa questão, portanto, conclui-se que é válida a terceira hipó-
tese construída inicialmente, sobre a relevância de políticas sociais.
Contudo, estas políticas apenas são relevantes para reduzir as polarizações
quando capazes de eliminar as causas dos ressentimentos que lhes dão
origem.
Diante dessa realidade, conclui-se que a ascensão da extrema direita
tende cada vez mais a eliminar o espaço público em nome de uma fusão
da pluralidade, da comunidade em um corpo orgânico, sob o manto da
restituição de uma identidade nacional, racial, cultural ou confessional que
supostamente está ameaçada pela polarização e pelo “excesso de direitos”
das minorias.
De qualquer modo, da reflexão quanto às estratégias possíveis para o
resgate e consolidação da democracia brasileira, conclui-se que o mal-estar
que se vive no cenário atual também traz em si os elementos que devem
fundamentar a luta para alcançar esse objetivo: a exigência de combate à
corrupção, a intolerância quanto à captura das políticas públicas por inte-
resses particulares, a exigência de serviços públicos melhores, de
segurança, enfim, o desejo de mudança que precisa ser capitalizado pelas
forças progressistas.
Esse desafio é enorme, mas a relevância e a urgência das tarefas a
serem cumpridas para o resgate da democracia brasileira, embora não
182 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

admita um grande otimismo, ensina cada vez mais a compreender que a


crise vivida pela democracia pode levar a um quadro ainda mais opressor
e ameaçador.
Porém, como todos os grandes movimentos da história existe a espe-
rança de que evoluirá para novas experiências que tenderão a ser
democráticas, atendendo às demandas e expectativas de uma cidadania
cuja tendência também será o amadurecimento e o despertar – talvez de-
finitivo – para a valorização da justiça, da inclusão social e dos direitos
humanos.

Referências

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SEN, Amartya. A ideia de justiça. Tradução de Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Men-
des. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
11

O enfoque nas capabilidades de Amartya Sen:


dificuldades vivenciadas pelos privados de liberdade e
a sua exacerbação com a crise sanitária da Covid-19

Vinícius Francisco Toazza 1


Régis Gobetti Bueno 2
Juliano Teixeira da Rocha 3

1 Introdução

O presente trabalho tem como objetivo traçar um olhar crítico do sis-


tema penitenciário brasileiro, frente a pandemia que assola o país,
partindo da premissa das condições precárias existentes no cárcere, con-
siderando as capabilidades referidas por Amartya Sen. Para tanto, utilizar-
se-á o método dedutivo para responder os aspectos evidenciados pela pan-
demia e como a falta de oportunidades, resultantes e somadas àquela, são
fatores decisivos ao cometimento de novo delito.
A pandemia causada pela transmissão, em humanos, do coronavírus
SARS-CoV-2, infectou, no Brasil, até o momento, mais de 5 (cinco) milhões
de pessoas, conforme dados retirados do sítio Johns Hopkins University &

1
Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo. Especialista em Direito Penal. Pro-
fessor da Faculdade de Direito da UPF. Advogado. Presidente do Conselho da Comunidade do Sistema Penitenciário
de Passo Fundo. Presidente da APAC de Passo Fundo. Membro do Conselho Penitenciário do Estado do RS. E-mail:
vinitoazza@hotmail.com.
2
Graduando em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo - UPF. E-mail: buenoregis@hot-
mail.com.
3
Graduando em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo - UPF. E-mail: juliano_da_ro-
cha@yahoo.com.br
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 185

Medicine4. Ademais, deste universo de contaminados que foram registra-


dos, resultaram em mais de 151 (cento e cinquenta e uma) mil mortes,
segundo números levantados por esta mesma Universidade.
Outrossim, ainda não se tem certeza de todas as consequências e efei-
tos decorrentes desta pandemia que incidirão sobre a sociedade. No
entanto, é óbvio que já sentimos algumas de suas sequelas, mormente, no
que concerne aos efeitos econômicos, sanitários e sociais. Conforme aler-
tado, em abril deste ano, pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU, a
pandemia poderia causar uma crise global de alimentos5, e, “coincidente-
mente” este programa foi o vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 20206.
Ciente dos riscos advindos e propagados pela pandemia, o Conselho
Nacional de Justiça editou a Recomendação nº 62/2020, para que Tribu-
nais e magistrados adotassem, conforme o disposto no artigo 1º, “medidas
preventivas à propagação da infecção pelo novo coronavírus – Covid-19 no
âmbito dos estabelecimentos do sistema prisional e do sistema socioedu-
cativo”.
É óbvio que a Constituição Cidadã de 1988 é guiada pelo princípios
da dignidade da pessoa humana7 (artigo 1º, III, CRFB 1988), sendo direito,
destarte, das pessoas privadas de liberdade, o direito à vida saudável e
digna, devendo o Estado agir a fim de assegurar atendimento das necessi-
dades dos presos, além de fornecer meios, instrumentos indispensáveis a
fim de que os estabelecimentos prisionais possam combater a transmissão
deste vírus e tratar dignamente os seres humanos que lá se encontram.
Tal entendimento vai ao encontro do tutelado pela nossa Carta Maior
e, também, pela Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San

4
https://coronavirus.jhu.edu/map.html Acesso em 15.out.20
5
https://insight.wfp.org/wfp-chief-warns-of-hunger-pandemic-as-global-food-crises-report-launched-
3ee3edb38e47 Acesso em 14.out.20
6
https://insight.wfp.org/world-food-programme-chief-pays-tribute-to-front-line-staff-and-partners-after-nobel-
peace-prize-fc406608d60 Acesso em 13.out.20
7
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito
Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III - a dignidade da pessoa humana.
186 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

José da Costa Rica – Decreto nº 678/1992)8, principalmente que consta em


seu artigo 5, 1 e 2, os quais seguem ipsis litteris:

1. Toda pessoa tem o direito de que se respeito sua integridade física, psíquica
e moral.
2. Ninguém deve ser submetido a torturas, nem a penas ou tratos cruéis, de-
sumanos ou degradantes. Toda pessoa privada da liberdade deve ser tratada
com o respeito devido à dignidade inerente ao ser humano.

No mesmo sentido são as Regras de Nelson Mandela (Regras Míni-


mas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos)9, especialmente o
que consta na Regra 1, Regra 13, Regra 17 e Regra 18, 1 e 2.
Diante do exposto, os juízes de execução deveriam conceder prisão
domiciliar a todos os presos no regime aberto e semiaberto. O Departa-
mento Penitenciário Nacional (DEPEN) estimou que mais de 30 mil presos
foram postos em liberdade. A concessão de liberdade, decorreu do fato da
vulnerabilidade e insalubridade existente no sistema prisional, bem como
o racionamento de água, superlotação das celas e a presença de equipes
médicas em apenas um terço das unidades prisionais, o que impede o con-
trole da doença. No Estado gaúcho, segundo dados do Tribunal de Justiça,
em levantamento efetuado pela Corregedoria-Geral de Justiça, entre me-
tade de março até final de maio, 7.736 presos saíram do sistema prisional
do Estado, sendo que 2,9% voltaram a cometer crimes e regressaram aos
presídios.
Na cidade de Passo Fundo/RS, um dos locais com maior índice de
óbitos por causa da Covid-19, foi editada Portaria nº 011/2020-VECR com
o cunho de adotar medidas preventivas para evitar que o vírus se propague
nas casas prisionais, sendo que 1,43% dos presos colocados em prisão
domiciliar retornaram ao presídio por praticarem delitos. O apenado, ao
reingressar à sociedade, seja pelo cumprimento da pena, concessão de

8
https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm Acesso em 15.out.20
9
https://www.unodc.org/documents/justice-and-prison-reform/Nelson_Mandela_Rules-P-ebook.pdf Acesso em
15.out.20
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 187

liberdade provisória ou medidas excepcionais, como é o caso da Pandemia,


enfrenta o preconceito e o sensacionalismo.
Aqueles que procuram uma vida longe do crime, acabam enfrentando
inúmeros obstáculos e segundo destaca GRECO (2015, p. 334): “o estigma
da condenação, carregado pelo egresso, o impede de retornar ao normal
convívio em sociedade”.
Nesse diapasão, acaba ocorrendo a reincidência, a qual é causada pela
falta de oportunidade do egresso em ser inserido na sociedade. Destarte, a
pena não cumpre com seu escopo ressocializador, tendo em vista que os
direitos elencados no artigo 41 da Lei de Execução Penal (LEP)10 não são
cumpridos pelo Estado. Ademais, as celas são superlotadas, onde os direi-
tos humanos são esquecidos. Assim, ao ser colocado um autor de delito
“leve” no convívio daqueles que praticam delitos graves, ocorre a evolução
do crime, onde a omissão do Estado em não recuperar a população carce-
rária, sofre suas consequências com a reincidência. Em 2014, o INFOPEN
divulgou um levantamento que 75% dos encarcerados tinham apenas o

10
Art. 41 - Constituem direitos do preso:
I - alimentação suficiente e vestuário;
II - atribuição de trabalho e sua remuneração;
III - Previdência Social;
IV - constituição de pecúlio;
V - proporcionalidade na distribuição do tempo para o trabalho, o descanso e a recreação;
VI - exercício das atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas anteriores, desde que compatíveis com
a execução da pena;
VII - assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa;
VIII - proteção contra qualquer forma de sensacionalismo;
IX - entrevista pessoal e reservada com o advogado;
X - visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados;
XI - chamamento nominal;
XII - igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena;
XIII - audiência especial com o diretor do estabelecimento;
XIV - representação e petição a qualquer autoridade, em defesa de direito;
XV - contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação
que não comprometam a moral e os bons costumes.
XVI – atestado de pena a cumprir, emitido anualmente, sob pena da responsabilidade da autoridade judiciária com-
petente.
188 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

ensino fundamental em seu “currículo” escolar, o que é um indicativo de


pertencer às camadas sociais mais pobres.
Sobre a disponibilidade de oportunidades, SEN (2011, p. 288-289)
explana que:

Pessoas diferentes podem ter oportunidades completamente diferentes para


converter a renda e outros bens primários em características da boa vida e no
tipo de liberdade valorizada na vida humana. Assim, a relação entre os recur-
sos e a pobreza é variável e profundamente dependente das características das
respectivas pessoas e do ambiente em que vivem — tanto natural como social.

O autor indiano refere que o desenvolvimento deve estar pautado em


uma interpretação da liberdade como o fim último e o principal meio,
apresentando um conjunto de condições que ampliam o olhar sobre a per-
cepção do desenvolvimento desde a análise das oportunidades, realizações
e direitos.
O apenado que retorna à sociedade, seja por não ter tido acesso a uma
educação, seja geracional ou institucional, acaba não tendo oportunidades
de conseguir arrumar um emprego, e sendo a grande maioria de baixa
renda, a única solução é voltarem para o crime. Sen (2011, p.276) propõe
uma teoria que analise como as pessoas estão vivendo e quais suas pers-
pectivas de sobreviver, onde em um país desigual como o Brasil, inúmeros
cidadãos encontram, de maneira infeliz, diante da sua baixa renda, cami-
nhos ilícitos para a sobrevivência.
Assim, é possível observar que a falta de políticas públicas voltadas
aos mais vulneráveis são fatores determinantes para a perpetuação da prá-
tica de delitos, o que poderia ser minimizado diante da oferta de
oportunidades ao público egresso do sistema prisional como meio eficaz
de diminuição da criminalidade, resultando na construção de uma socie-
dade mais justa e igualitária.
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 189

2 Raio-X do sistema prisional brasileiro

É possível elencar diversos aspectos de contradições existentes no sis-


tema prisional brasileiro em contraponto com a legislação vigente. Dentre
eles a estrutura física debilitada, a falta de investimentos por parte dos
órgãos responsáveis, as violações de direitos humanos no interior do cár-
cere e o descumprimento de condições mínimas garantidas em lei, como
as precariedades do sistema de saneamento básico, debilidade ou inexis-
tência de estrutura de saúde e a conhecida, superlotação.
A soma de todos esses fatores resulta na fracassada tentativa da res-
socialização, que é uma das finalidades do cumprimento da pena,
conforme a previsão do artigo 59 do Código Penal (CP)11. ASSIS (2007,
p.75) refere que essa realidade pode ser observada quando se fala que:

[...] a superlotação das celas, sua precariedade e insalubridade tornam as pri-


sões um ambiente propício à proliferação de epidemias e ao contágio de
doenças. Todos esses fatores estruturais, como também a má-alimentação dos
presos, seu sedentarismo, o uso de drogas, a falta de higiene e toda a lugubri-
dade da prisão fazem com que o preso que ali adentrou numa condição sadia
de lá não saia sem ser acometido de uma doença ou com sua resistência física
e saúde fragilizadas.

O conjunto dessas negligências não prejudicam tão somente o corpo


físico do/a apenado/a, mas principalmente o seu aspecto psicológico, sua
saúde mental. Aí se sente a grande incoerência do sistema, pois ao mesmo
tempo em que as leis preceituam uma execução de pena com caráter hu-
manizado e com finalidade de tratamento penal (ressocializador), estes
não são considerados no dia a dia do cárcere.

11
Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos
motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme
seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime:
I - as penas aplicáveis dentre as cominadas;
II - a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos;
III - o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade;
IV - a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível.
190 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Logo, quanto maior o descumprimento da legislação, maior é o


abismo entre a sociedade e o homem e a mulher presos, pois quanto me-
nor é o atendimento individualizado, menores são as chances de uma
futura reinserção social, passam a serem vistos como rebanhos ou unica-
mente como números da execução penal, que em tese, apenas restringiria
a liberdade por determinado tempo em face do cometimento de um delito,
mas manteria a condição de cidadão, e por sua vez, de sujeito de direitos.
No Brasil, o contraste é grande entre o campo teórico em que se en-
contram positivadas as normas jurídicas e a prática da execução penal.
Desse modo, o que ocorre é o aumento da violência, o encarceramento em
massa e, posteriormente, os alarmantes índices de reincidência, como se
percebe entre o ideal e o real, transcrito nas palavras de BEDÊ (2017, p.
01):

As prisões deveriam ser estabelecimentos em que condenados fossem penali-


zados e ao mesmo tempo recuperados para o convívio em sociedade, mas
acabam que por realizar o inverso de seu propósito. O sistema carcerário bra-
sileiro atual encontra-se falido, sem qualquer perspectiva de mudança
positiva, como superlotação, falta de defensores públicos, médica, psicológica,
maus-tratos, corrupção, reincidência de 70%, etc.

Portanto, um dos piores efeitos da falência do sistema prisional é a


ineficiência da ressocialização do apenado pelo cumprimento da pena, que
é a principal função na atualidade. Nesse aspecto, FOUCAULT (1984, p.
248) refere que:

Dizem que a prisão fabrica delinquentes; é verdade que ela leva de novo, quase
fatalmente, diante dos tribunais aqueles que lhe foram confiados. Mas ela os
fabrica no outro sentido de que ela introduziu no jogo da lei e da infração, do
juiz e do infrator, do condenado e do carrasco, a realidade incorpórea da de-
linquência que os liga uns aos outros e, há um século e meio, os pega todos
juntos na mesma armadilha

Essas palavras podem ser verificadas na prática prisional, pelos nú-


meros alarmantes abordados no site governamental, que refere o
quantitativo de 748.009 apenados em dezembro de 2019, sendo desses,
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 191

362.547 com condenação no regime fechado, 133.408 no regime semia-


berto, 25.137 em regime aberto, 222.558 em prisão provisória (temporária
ou preventiva), 250 em tratamento ambulatorial e 4.109 cumprindo me-
dida de segurança (DEPEN, 2019).
Já no Rio Grande do Sul, a realidade era de 41.169 presos em dezem-
bro de 2019, destes 27.785 no regime fechado, 11.105 no regime
semiaberto, 2.220 em regime aberto, 27 em tratamento ambulatorial e 52
em medida de segurança (DEPEN, 2019).
Diante dos dados pode-se observar que no Brasil, 38,04% dos presos
que estão no fechado são presos provisórios, sem penas definidas, en-
quanto que no Rio Grande do Sul esses dados são ainda mais alarmantes,
chegando a 44,04 % de provisórios dos 27.785 que estão no regime fe-
chado (DEPEN, 2019).
Além da ampla utilização da prisão processual, culminando em altos
índices de encarceramento, deve-se considerar a falta de uma política in-
terna na grande maioria dos estabelecimentos prisionais de separação
entre presos provisórios e definitivos, como preceitua o artigo 300 do Có-
digo de Processo Penal (CPP) “as pessoas presas provisoriamente ficarão
separadas das que já estiverem definitivamente condenadas, nos termos
da lei de execução penal”.
Pode-se constatar que o déficit das vagas no sistema prisional que
chegou a 312.925 em 2019, segundo o INFOPEN-DEPEN, também é fruto
das escolhas judiciais pelo aprisionamento preventivo ao invés de optar
por medidas cautelares diversas como preceitua o artigo 319 do CPP12. O

12
Art. 319. São medidas cautelares diversas da prisão:
I - comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar ativida-
des;
II - proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva
o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de novas infrações;
III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o
indiciado ou acusado dela permanecer distante;
IV - proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação
ou instrução;
V - recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência
e trabalho fixos;
192 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

que contribui e muito para a superlotação e inclusiva para a inserção de


presos primários em facções criminosas, já que acabam por serem recru-
tados como soldados do crime. As violações da lei não param por aqui,
pois, diante de um alto número de presos provisórios, acaba sendo impos-
sível cumprir o artigo 88 da LEP, que prevê o limite de presos por cela,
bem como, a separação de presos idosos – acima de 60 anos (art. 82, §1º,
LEP).
No artigo 5º, XLIX, da Constituição Federal é assegurado aos presos
o respeito à integridade física e moral. Porém, infelizmente, o mesmo Es-
tado que deveria garantir essa cláusula pétrea, na prática é quem viola,
como se observa na fala de CAMARGO (2006, p.01): “o Estado não garante
a execução da lei. Seja por descaso do governo, pelo descaso da sociedade
que muitas vezes se sente aprisionada pelo medo e insegurança, seja pela
corrupção dentro dos presídios”.
A situação é ainda pior em relação ao público feminino nas prisões.
Para tanto, faz-se necessário uma breve análise sobre uma sociedade em
que a concepção de ser mulher é ser inferior e sua função social se detém
em atividades domésticas, procriação, cuidado com a prole e a sua aparên-
cia como ser delicado e sexo frágil. No momento em que a autora de um
ilícito penal acaba sendo uma mulher e ingressa no sistema prisional, o
qual é majoritariamente ocupado por homens e por eles construído, o des-
caso por parte do Estado e também pela sociedade, é verossímil, dadas as
condições em que as mulheres presas são jogadas à deriva e sem apropri-
adas ao gênero. Logo, consoante o entendimento de CERNEKA (2009, p.
61):

Imagine um mundo de um só sexo – haveria diversidade, sim, mas nem tanto.


Imagine um mundo onde existissem somente homens – as decisões seriam

VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver
justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais;
VII - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando
os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração;
VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução
do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial;
IX - monitoração eletrônica.
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 193

tomadas por eles, para eles, pois só eles existiriam. Como poderiam contem-
plar outros se “outros” não houvessem? A verdade é que foi assim por
milênios, e somente nos últimos séculos as mulheres passaram a ter voz, a ter
visibilidade, podemos dizer que passaram a existir socialmente! No entanto, o
mundo do cárcere encontra-se muito atrasado nesta conquista de voz. Existem
mulheres encarceradas? Surge uma dúvida quando olhamos as políticas pú-
blicas de construção de presídios, de penas alternativas e, ainda mais, de
criminologia e acesso à justiça.

Nesse sentido, é possível observar essa diferenciação até mesmo na


taxa e na tipificação de crimes. Percebe-se a porcentagem de crimes, como
tráfico de drogas, é mais recorrente entre mulheres do que homens. Con-
forme o relatório do DEPEN que aponta que em 2019, haviam 36.929
mulheres encarceradas, representando 4,94% da população carcerária no
país. Dessas, haviam 1.446 mulheres com filhos, 225 lactantes e 276 ges-
tantes/parturientes no Brasil. Em se tratando da realidade do Estado do
Rio Grande do Sul, tem-se 2.079 mulheres presas, ou seja, 5,05% da po-
pulação prisional (DEPEN, 2019).
Conforme expõe DAVIS (2018, p.70) a problemática vivenciada pelas
mulheres encarceradas até mesmo por simpatizantes antiprisionais, que
acabam por não dar a atenção devida a questão de gênero em suas pautas:

Apesar da disponibilidade de retratos detalhados da vida em prisões femini-


nas, tem sido extremamente difícil persuadir o público – e até mesmo, por
vezes, os ativistas antiprisionais que se preocupam sobretudo com as dificul-
dades dos prisioneiros do sexo masculino – sobre a centralidade do gênero na
compreensão do sistema de punição estatal. Embora os homens constituam a
ampla maioria dos prisioneiros no mundo, aspectos importantes da operação
da punição estatal são ignorados quando se presume que mulheres são mar-
ginais e, portanto, não merecem atenção. A justificativa mais frequente para a
falta de atenção dada às prisioneiras e às questões específicas em torno do
encarceramento feminino é a proporção relativamente pequena de mulheres
entre as populações carcerárias ao redor do mundo.

Os efeitos do desprezo do gênero e sua ineficiência de tratamento pe-


nal e política criminal, demonstra-se com os dados estatísticos, os quais
194 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

apontam que, a partir dos anos 2000 até 2016, onde se constatou um ín-
dice de crescimento de 455% (quatrocentos e cinquenta e cinco por cento)
no que tange à taxa de aprisionamento feminino, pois nos anos 2002 ha-
viam aproximadamente 6 mil presas e em 2016 chegou a mais de 42 mil
presas (DEPEN).
Sobre os tipos penais praticados, tem-se que 17.506 (50,94%) come-
teu crime descrito na lei de drogas, 9.114 (26,52%) contra o patrimônio,
4.617 (13,44%), contra a pessoa, 1.452 (4,23%), tipificados em legislação
específica, 789 (2,3%) contra a paz pública, 616 (1,79%) contra a digni-
dade sexual, 176 (0,51%) contra a fé pública, 60 (0,17%) contra a
administração pública e 35 (0,1%) por particular contra a administração
pública. Sendo que o percentual no sexo masculino de prática criminosa
tipificadas na lei de drogas é de 19,17%, patrimoniais 51,84% contra a pes-
soa 17,5%, legislação específica 4,92%, contra a dignidade sexual 3,95%,
contra a paz pública 2,24%, contra a fé pública 0,41%, contra a adminis-
tração pública 0,18% (DEPEN, 2019).
Esses percentuais tão distintos entre os gêneros demonstram o quão
necessário é ter estabelecimentos prisionais distintos e adequados às ne-
cessidades de cada público, visto que só assim poderá se falar em
tratamento penal e, por conseguinte, em ressocialização.
Em relação aos tipos de estabelecimentos prisionais que são destina-
dos em razão de gênero, tem-se que, no Brasil, o percentual de 74,85%
das unidades prisionais são destinadas ao público masculino, 6,97% são
destinados exclusivamente ao público feminino, e 18,18% são estabeleci-
mentos penais denominados mistos, mas que, na prática, não são
adequados a recepcionar o gênero feminino (DEPEN, 2019).
No Estado do Rio Grande do Sul, há 3 penitenciárias femininas, loca-
lizadas em Porto Alegre, Guaíba e Torres, sendo que apenas a Penitenciária
Feminina Madre Pelletier (Porto Alegre) tem condições específicas para
recepcionar mães com filhos (DEPEN, 2019).
Do numerário de mulheres presas, em relação a sua cor/raça, 16.558
são pardas, 10.331 brancas, 4.741 negras, 243 amarelas e 65 indígenas. Em
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 195

relação a outros dados estatísticos, o sistema não foi atualizado desde 2017,
como por exemplo a respeito da condição das mulheres, se são provisória
ou presas definitivas, segundo o último levantamento do Infopen mulher
feito em julho de 2017 pelo DEPEN (2019): “(...) 37,67% das mulheres pre-
sas no Brasil são presas em regime provisórios, ou seja, sem condenação,
seguidos de 36,21% composta por presas sentenciadas em regime fechado
e 16,87% presas sentenciadas em regime semiaberto”.
Em relação ao tipo de recolhimento prisional, denota-se ampla utili-
zação da prisão preventiva. Discussões acerca da medida restritiva da
liberdade antes de decisão condenatória fomentam grandes diálogos, uma
vez que, na prisão preventiva, segundo exposto por DEZEM (2015, p. 285):

[...] de um lado tem-se a necessidade de respeito ao acusado, notadamente no


que tange ao princípio da presunção de inocência; de outro há situações fáticas
em que a liberdade do acusado deve ser restringida para que outros bens jurí-
dicos também sejam assegurados.

Por constituir embate entre dois direitos e deveres fundamentais e


legalmente previstos no ordenamento jurídico, a prisão preventiva deve
ser calcada, sempre, nos preceitos e fundamentos da proporcionalidade e,
quanto mais, deve ser decidida sob o prisma da necessidade e da razoabi-
lidade.
Ademais, pode-se observar outros aspectos, como a questão da idade
das detentas, sendo que a maioria delas são relativamente jovens (DEPEN,
2019, p. 29): “Entre essas, 25,22% possuem entre 18 a 24 anos, seguido
de 22,66% entre 35 a 49 anos e 22,11% entre 25 a 29 anos. Somados ao
total de presas até 29 anos de idade totalizam 47,33% da população car-
cerária”.
No concernente à escolaridade, pode-se observar que a maior parte
delas não conseguiu finalizar sequer o ensino fundamental DEPEN (2019,
p. 34-35):

No que concerne ao grau de escolaridade das mulheres privadas de liberdade


no Brasil, é possível afirmar que 44,42% destas possuem o Ensino Fundamen-
tal Incompleto, seguido de 15,27% com Ensino Médio Incompleto e 14,48%
196 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

com Ensino Médio Completo. O percentual de custodiadas que possuem En-


sino Superior Completo é de 1,46% das presas.

Outro importante aspecto é o estado civil das mulheres privadas de


liberdade no Brasil DEPEN (2019, p. 37):

Sobre o estado civil das mulheres custodiadas, é possível observar que, entre
esta população, destaca-se o percentual de mulheres solteiras, que representa
58,4% da população prisional, seguindo a mesma tendência do segundo se-
mestre de 2016. As presas em união estável ou casadas representam 32,6% da
população prisional feminina.

Já em relação ao número de filhos, é possível perceber que quase to-


das são mães de no mínimo um filho DEPEN (2019, p. 43-44):

(...) 28,9% possuem um filho, acompanhado de 28,7% com dois filhos e 21,7%
com três filhos. É interessante notar que o percentual de mulheres somadas
que possuem mais de quatro filhos representa 11,01%, ao passo que entre os
homens este percentual é de 7,11% para mesma faixa.

Como se não bastasse a invisibilidade por parte do Estado, que deve-


ria garantir direitos mínimos às mulheres, ainda são esquecidas também
pela família ou companheiros. VARELLA (2017, p.38) refere:

De todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas.


Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namora-
dos e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma
complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a
família inteira. (...) Enquanto estiver preso, o homem contará com a visita de
uma mulher, seja a mãe, esposa, namorada, prima ou a vizinha, esteja ele num
presídio de São Paulo ou a centenas de quilômetros. A mulher é esquecida.

Logo, pode-se imaginar toda a precariedade que a mulher passa ao


adentrar em um sistema carcerário que na sua grande maioria foi pensado
para acolher homens e não apresenta o mínimo adequado para recepcio-
nar o gênero feminino, ofertando-lhe a dignidade garantida em diversos
instrumentos legais, dentre eles as Regras de Bangkok (2016, p.10):
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 197

O principal marco normativo internacional a abordar essa problemática são


as chamadas Regras de Bangkok − Regras das Nações Unidas para o trata-
mento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para
mulheres infratoras. Essas Regras propõem olhar diferenciado para as especi-
ficidades de gênero no encarceramento feminino, tanto no campo da execução
penal, como também na priorização de medidas não privativas de liberdade,
ou seja, que evitem a entrada de mulheres no sistema carcerário.

No entanto, infelizmente, estamos distantes em minimizar as indife-


renças relacionadas à questão de gênero no cárcere. Até porque o cárcere,
por si só, já é uma violência monstruosa, que afeta todo o equilíbrio do ser
humano que é habitado nele. Não são raros os casos de detentos e detentas
que necessitam fazer uso de medicamentos psiquiátricos ou, ainda, bus-
cam dentro da prisão a iniciação na drogadição como forma de suportar o
confinamento e suas mazelas. Por isso, a grande importância dos poderes
do Estado, em buscarem, juntos, medidas eficientes para conter e reduzir
o Estado de Coisas Inconstitucional verificadas nos presídios e reconhecida
pela Suprema Corte pela ADPF 347/2015.

3 A crise sanitária da Covid-19 e o agravamento das condições dos


internos e egressos do sistema prisional

A Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou, em 30 de janeiro


de 2020 que o surto causado pela Covid-19 constituí uma emergência de
Saúde Pública. Até o dia 4 de setembro de 2020, foram confirmados no
mundo 26.171.112 casos de Covid-19 e 865.154 vidas ceifadas (OPAS,
2020).
O vírus espalha-se por meio de contato direto e/ou indireto, através
de secreções como saliva e gotículas respiratórias, sendo que as pessoas
que estão em contato próximo (menos de 1 metro) com uma pessoa infec-
tada pode contrair o vírus quando as gotículas infecciosas entrarem em
contato com sua boca, nariz ou olhos (OPAS, 2020).
198 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Sabe-se que as nações apresentam realidades diferentes diante de


suas capacidades de enfrentamento da pandemia. Neste sentido, SANTOS
(2020, p.8-9) expõe que:

Uma pandemia desta dimensão provoca justificadamente comoção mundial.


Apesar de se justificar a dramatização, é bom ter sempre presente as sombras
que a visibilidade vai criando. Por exemplo, os Médicos Sem Fronteiras estão
a alertar para a extrema vulnerabilidade ao vírus por parte dos muitos milha-
res de refugiados e imigrantes detidos nos campos de internamento na Grécia.
Num desses campos (campo de Moria), há uma torneira de água para 1300
pessoas e falta sabão. Os internados não podem viver senão colados uns aos
outros. Famílias de cinco ou seis pessoas dormem num espaço com menos de
três metros quadrados. Isto também é Europa – a Europa invisível. Como estas
condições prevalecem igualmente na fronteira sul dos EUA, também aí está a
América invisível. E as zonas de invisibilidade poderão multiplicar-se em mui-
tas outras regiões do mundo, e talvez mesmo aqui, bem perto de cada um de
nós. Talvez baste abrir a janela.

Por um lado, as recomendações para o enfrentamento da pandemia


são o distanciamento social, lavagem constante das mãos, isolamento, uso
de máscaras, todavia, tais medidas são incabíveis no contexto vivenciado
dentro do sistema carcerário.
A pandemia da Covid-19 é um problema para o sistema prisional
mundial, mas no Brasil, onde a “solução” para a alta taxa criminal concen-
tra-se no encarceramento, a terceira maior população prisional do mundo
fica vulnerável ao vírus. O artigo 38 do Código Penal brasileiro retrata que
o preso terá todos os seus direitos não atingidos pela perda da liberdade
preservados, devendo ser resguardada a sua integridade física e moral.
Ante a falta de estrutura, a superlotação acaba ganhando vez e a im-
posição de condições desumanas. Nesse sentido VARELLA (2019):

Os que não aceitam o argumento de que a pena de um condenado deve ser a


privação da liberdade, não a imposição de condições desumanas, precisam en-
tender que o castigo das celas apinhadas tem consequências graves para quem
está do lado de fora.
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 199

Diante da omissão do Estado Brasileiro em proporcionar condições


adequadas e dignas aos presos, como podemos falar em recuperação e res-
socialização dos que lá se encontram? Ainda, em decorrência da atual
pandemia, é hialino que as condições sanitárias precárias agravaram-se,
haja vista a falta de investimento na área, ferindo de morte diversas dis-
posições jurídicas internacionais que regulam sobre o tema. Não à toa que
mais de 30 mil presos contraíram a Covid-19 e ocorreram 122 óbitos
(DEPEN, 2020).
No que concerne às normas do Pacto de San José da Costa Rica, po-
demos citar que os itens 1, 2, 4 e 6 do artigo 5, que trata do “Direito à
Integridade Pessoal”, são inertes em nosso país. Para fins de esclareci-
mento, passamos a citá-los.

1. Toda pessoa tem o direito de que se respeito sua integridade física, psíquica
e moral.
2. Ninguém deve ser submetido a torturas, nem a penas ou tratos cruéis, de-
sumanos ou degradantes. Toda pessoa privada da liberdade deve ser tratada
com o respeito devido à dignidade inerente ao ser humano. (...) 4. Os proces-
sados devem ficar separados dos condenados, salvo em circunstâncias
excepcionais, a ser submetidos a tratamento adequado à sua condição de pes-
soal não condenadas. (...) 6. As penas privativas da liberdade devem ter por
finalidade essencial a reforma e a readaptação social dos condenados.

Se não bastasse a inobservância aos preceitos contidos no Pacto de


San José da Costa Rica, verifica-se, ainda, o descumprimento de diversos
dispositivos estabelecidos pelas Regras Mínimas das Nações Unidas Para o
Tratamento de Reclusos:

Regra 1: Todos os reclusos devem ser tratados com o respeito inerente ao valor
e dignidade do ser humano. Nenhum recluso deverá ser submetido a tortura
ou outras penas ou a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes e deverá
ser protegido de tais atos, não sendo estes justificáveis em qualquer circuns-
tância. A segurança dos reclusos, do pessoal do sistema prisional, dos
prestadores de serviço e dos visitantes deve ser sempre assegurada. (...) Regra
12: 1.As celas ou locais destinados ao descanso noturno não devem ser ocupa-
dos por mais de um recluso. Se, por razões especiais, tais como excesso
200 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

temporário de população prisional, for necessário que a administração prisio-


nal central adote exceções a esta regra deve evitar-se que dois reclusos sejam
alojados numa mesma cela ou local. 2. Quando se recorra à utilização de dor-
mitórios, estes devem ser ocupados por reclusos cuidadosamente escolhidos e
reconhecidos como sendo capazes de serem alojados nestas condições. Du-
rante a noite, deverão estar sujeitos a uma vigilância regular, adaptada ao tipo
de estabelecimento prisional em causa. (...) Regra 13:Todos os locais destina-
dos aos reclusos, especialmente os dormitórios, devem satisfazer todas as
exigências de higiene e saúde, tomando-se devidamente em consideração as
condições climatéricas e, especialmente, a cubicagem de ar disponível, o es-
paço mínimo, a iluminação, o aquecimento e a ventilação (...) Regra 16: As
instalações de banho e duche devem ser suficientes para que todos os reclusos
possam, quando desejem ou lhes seja exigido, tomar banho ou duche a uma
temperatura adequada ao clima, tão frequentemente quanto necessário à hi-
giene geral, de acordo com a estação do ano e a região geográfica, mas pelo
menos uma vez por semana num clima temperado. Regra 17: Todas as zonas
de um estabelecimento prisional utilizadas regularmente pelos reclusos devem
ser sempre mantidas e conservadas escrupulosamente limpas. Higiene pes-
soal. Regra 18: 1. Deve ser exigido a todos os reclusos que se mantenham
limpos e, para este fim, ser-lhes-ão fornecidos água e os artigos de higiene
necessários à saúde e limpeza. 2. A fim de permitir aos reclusos manter um
aspeto correto e preservar o respeito por si próprios, ser-lhes-ão garantidos
os meios indispensáveis para cuidar do cabelo e da barba; os homens devem
poder barbear-se regularmente. Regra 19: 1. Deve ser garantido vestuário
adaptado às condições climatéricas e de saúde a todos os reclusos que não es-
tejam autorizados a usar o seu próprio vestuário. Este vestuário não deve de
forma alguma ser degradante ou humilhante. 2. Todo o vestuário deve estar
limpo e ser mantido em bom estado. As roupas interiores devem ser mudadas
e lavadas tão frequentemente quanto seja necessário para a manutenção da
higiene. 3. Em circunstâncias excecionais, sempre que um recluso obtenha li-
cença para sair do estabelecimento, deve ser autorizado a vestir as suas
próprias roupas ou roupas que não chamem a atenção.

Concernente às Regras de Mandela supracitadas, verifica-se que o


Brasil não as cumpria, ou observava parcialmente alguma delas. Com a
propagação do vírus no âmbito dos estabelecimentos prisionais, ocorreu
uma piora das condições higiênicas e sanitárias. Não por outra razão, que
os juízes das execuções concederam prisão domiciliar a apenados dos
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 201

regimes aberto e semiaberto, sendo que mais de 30 mil reclusos foram


postos em liberdade, o que representa aproximadamente 4% da
população prisional do nosso país, a fim de evitar uma piora da situação
interna das casas prisionais.
O fato de apenados saírem do sistema prisional por razão de uma
medida excepcional (evitar um maior surto do Covid-19), por exemplo,
não impede que eles encontrem as mesmas dificuldades dos apenados que
cumpriram suas penas e buscam uma vida longe do ilícito, tendo em vista
a ignomínia que carrega pelo resto de sua vida por ter passado por um
estabelecimento penitenciário.
Embora não se tenha índices concretos da estrutura familiar e finan-
ceiras dos apenas e egressos, em um levantamento realizado no ano de
2014, constatou-se pelo DEPEN que 75% dos presos tinham no máximo o
ensino fundamental, o que dificulta ainda mais o retorno ao convívio so-
cial, em se tratando da busca de uma emprego. Ante o desemprego que
assola o país, agravada pela crise sanitária, sendo egresso ainda, recebe o
plus do estigma que carrega, o que ocasiona pela falta de oportunidades,
na retomada ao caminho do crime.
A falta de acolhimento por parte da sociedade e acompanhamento do
Estado, bem como o preconceito, aliado a falta de oportunidade em encon-
trar trabalho para prover seu sustento e de sua família constitui-se em um
dos fatores que leva a reincidência. Silva (2011, p. 40) enfatiza que os
egressos, ao retornarem à sociedade, encontram outra condenação (de-
semprego) e não conseguem viver ou sobreviver, sendo que a sociedade
fala na ideia de ressocialização, todavia, repudia, repele e rejeita os egres-
sos, não havendo alternativa para o ex-condenado, que só encontra
solução retornando ao crime e sendo recepcionado pelas facções.
Amartya Sen (2011, p. 48) propõe uma teoria que analise como as
pessoas de fato estão vivendo e quais suas perspectivas de sobreviver.
Além do mais, o autor indiano refere ser necessário definir, com base na
realidade local, uma lista de capacidades mínimas para reduzir as
desigualdades existentes. Desta forma, a lição doutrinária de Sen possui
202 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

grande relevância no Brasil, pois sendo um país desigual, inúmeros


cidadãos encontram-se, de maneira infeliz, em situação extrema de
vulnerabilidade social, sendo um dos motivos que levam ao caminho do
crime, enquanto forma de sobrevivência.
A discussão racional pública deve ganhar espaço para debater o meio
e o fim das questões de justiça. Não haverá uma justiça perfeita, mas con-
forme o entendimento de Sen (2011, p.14), é necessário olhar as questões
práticas para tornar o mundo menos injusto.
Aos internos do sistema prisional, é necessário realizar cursos de ca-
pacitação, alfabetização, tendo em vista que muitos apenados são
analfabetos funcionais. Mais a mais, é preciso desenvolver as qualidades
que cabe apenado tem e que foram desacreditadas, estimulando o traba-
lho, não como passa tempo, pois o trabalho visa fundamentar a dignidade
da pessoa como alguém capaz de prover sua subsistência com autonomia
e, ao regressar ao convívio social, ter estimulação social, mas acima de
tudo, incentivo do ente estatal.
Ademais, em vez do cárcere ser considerado “a faculdade do crime”,
deve-se ser o local da qualificação profissional do apenado, que ao sair da
sua condenação, não carregue o peso de ser alguém desacreditado, mas
tenha um currículo de alguém que mudou e está capacitado e possui o
auxílio necessário para buscar uma melhorara na sua vida.
Investir no tratamento penal interno e em políticas aos egressos é
estimular as capabilidades de cada um. Pois, o tratamento adequado in-
terno e oportunidades aos egressos, gera um ganho para todos, já que o
Estado “ao matar” o criminoso e devolver um cidadão reintegrado, dimi-
nuirá os índices de violência e criminalidade; a sociedade sentir-se-á mais
segura e terá pessoas melhor qualificadas para o mercado de trabalho; a
família do egresso poderá romper com o ciclo viciosa do crime e da violên-
cia e dará bons cidadãos para convivência social e o egresso terá direito de
recomeçar, tendo a certeza que ser-lhe-á dado oportunidades de recome-
çar uma vida digna.
Vinícius Francisco Toazza; Régis Gobetti Bueno; Juliano Teixeira da Rocha | 203

4 Conclusão

Os privados de liberdade encontram diversas dificuldades dentro sis-


tema prisional, tendo em vista que o objetivo principal da pena é seu
caráter ressocializador, esculpido na Magna Carta, e endossado por vários
dispositivos infraconstitucionais e internacionais, não se verifica na prá-
tica o real cumprimento daquele que seria o principal dever do Estado, a
prevenção do crime e, ainda, a reintegração do sujeito à sociedade.
Os altos índices de reincidência demonstram o quão falido está o sis-
tema prisional tradicional, compreendendo uma das maiores populações
prisionais do mundo, resultantes da falta de investimentos e moderniza-
ção, combinadas com a omissão no cumprimento da lei, acabam por não
preparar o apenado para a saída, ou seja, fornecer o tratamento adequado
para o cometimento de cada tipo penal previsto na legislação.
Criar conceito de justiça perfeita e ressocialização sem colocar em
prática os precedentes legislativos, acaba tornando a norma sem sua efi-
cácia devida. A maioria da população prisional é representada por pessoas
que não tiveram acesso mínimo a políticas educacionais, de saúde e mobi-
lidade urbana, o que resulta por si só na segregação dos mais pobres e na
própria criminalização das periferias. Além do mais o ambiente prisional,
mais que uma forma de segregação, acaba por incentivar o privado de li-
berdade, que boa parte ainda não possui pena, num faccionado, para poder
ter acesso ao mínimo dentro de um sistema que também reflete as desi-
gualdade sociais da macro sociedade.
A ausência de condições sanitárias adequadas nas casas prisionais,
ainda mais neste período de pandemia, demonstra o despreparo do Estado
brasileiro em proporcionar a tão mencionada ressocialização do apenado
e o devido tratamento penal elucidado na Lei de Execução Penal. Sendo
que ao sair, o egresso se depara com uma realidade ainda mais sanguiná-
ria, pois todos lhe cobram uma nova postura, que saia trabalhando,
“regenerado”, sem nunca terem lhe ofertado o mínimo. Na primeira porta
que bate pedindo trabalho é negado, porque não teve a escolarização nem
204 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

a profissionalização durante o cumprimento de pena, nem os documentos


foram feitos. Como desejar que ele saia diferente se nada lhe foi dado. Se
o que tinha era pouco e a única coisa que carrega é o estigma de um his-
tórico criminal, que sempre “literalmente” lhe fecham as portas por onde
passa.
Não há como pensar em reintegração de quem nunca se sentiu inte-
grado na sociedade. Não há como pensar em humanização do sistema
prisional, sem pensar em avanças nas capabilidades mínimas dos sujeitos
durante o período de cumprimento da pena, que passa por individualizar
a pena e proporcional o devido tratamento penal a cada um segundo suas
necessidades. Não há como pensar em diminuição dos índices de reinci-
dência, criminalidade e violência sem o Estado dar condições mínimas de
acomodação e em tratamento penal durante a pena e um acompanha-
mento técnico e efetivo aos egressos do sistema prisional, atendendo as
demandas que surgem, fornecendo um local de escuta e acolhimento, que
gerem pertencimento e reconexão com a sociedade que um dia os rejeitou.

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Parte II

Políticas públicas e seguridade social


12

A relação democracia/desenvolvimento em Amartya Sen:


uma análise do uso de indicadores transnacionais
na produção legislativa 1

Gustavo Polis 2
Talvanni Ribeiro Machado 3

1 Introdução

A fase seguinte aos eventos de 1945 foi marcada por fortes mudanças
sociais e culturais no ocidente. O desenvolvimento da ideia dos Direitos
Humanos, bem como a necessidade de impedir que os horrores vividos
durante a Segunda Guerra Mundial impulsionaram o debate político e
acadêmico acerca da categoria “desenvolvimento”. Desde então, a teoria
sobre o desenvolvimento afastou-se da predominância do econômico e
transferiu-se para outro foco, o desenvolvimento humano, ou seja, aquelas
práticas que se pautam pela constante melhoria do bem-estar dos
indivíduos. Um dos autores de maior renome nessa esfera teórica é

1
GT2: Políticas Púbicas e Seguridade Social.
2
Mestrando em Direito pela Faculdade Meridional - IMED. Bolsista CAPES/PROSUP. Membro dos grupos de pesquisa
"Transnacionalismo e Circulação de Modelos Jurídicos" e “Estado, Constituição e Democracia”, vinculados ao Pro-
grama de Pós-Graduação Strictu Sensu - Mestrado em Direito - da Faculdade Meridional - IMED. Graduado em
direito pela Faculdade Meridional – IMED. Advogado (OAB/RS). polis.g@outlook.com.
3
Mestrando em Direito pela Faculdade Meridional - IMED, Especialista em Gestão e Docência no Ensino Superior
pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA (2019), Especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário na Atu-
alidade pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC MINAS (2017), Graduado em Direito pela
Faculdade Meridional - IMED (2014), integrante do grupo de pesquisa Transnacionalismo e Circulação de Modelos
Jurídicos, grupo de pesquisa Ética, cidadania e sustentabilidade e do grupo de pesquisa Modelos constitucionais sis-
têmicos autopoiéticos, Técnico em Segurança do Trabalho pelo CEMI - UPF (2009). Advogado (OAB/RS).
talvanni.ribeiro@gmail.com.
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 209

Amartya Sen, de modo que seu pensamento será objeto de análise deste
trabalho.
Concomitante a esses acontecimentos, o mundo fora assolado pelos
efeitos do fenômeno da globalização. O desenvolvimento tecnológico e os
processos de internacionalização do capital financeiro modificaram as es-
truturas sociais e culturais do planeta. Desses acontecimentos, não saiu
ileso o Estado Nacional, até então senhor da ordem. Os Estados se viram
forçados a ceder espaço para novos agentes, de matriz transnacional, que
passaram a atuar em conjunto e, em determinadas ocasiões, em substitui-
ção as estruturas estatais. Exemplo desse panorama é a penetração de
instituições globais em assuntos historicamente de responsabilidade naci-
onal, como o processo legislativo.
Não podendo ser diferente, o Direito foi profundamente atingido pela
intensificação das questões transnacionais nos assuntos locais. A busca de
organismos de caráter global para a formação das mais diversas leis têm
se tornado cada vez mais comum, inclusive no Congresso brasileiro. A uti-
lização de indicadores transnacionais/globais para a legitimação de
projetos de leis no âmbito jurídico nacional é prática comum, em especial,
os projetos de leis visando o combate à corrupção foram fortemente ins-
pirados por diretivas, dados e estudos elaborados por atores do cenário
global.
A efetivação do desenvolvimento humano na era da globalização tem
se mostrado como um grande desafio. Associar os novos movimentos
transnacionais e seus interesses, muitas vezes de cariz estritamente pri-
vado, com as nuances do desenvolvimento humano, como a democracia e
o debate público com transparência, é uma das chaves para que esses di-
ferentes aspectos possam convergir, de modo a propiciar maior bem-estar
para os indivíduos.
Desse modo, o problema central do presente artigo é: A utilização de
indicadores transnacionais/globais no processo legislativo é um impedi-
tivo para a promoção do desenvolvimento segundo a teoria Amartya Sen?
Utilizando o método hipotético-dedutivo, baseado em pesquisas e análises
210 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

bibliográficas, o trabalho tem como principal objetivo demonstrar como a


manutenção de um ambiente democrático funcional, pautado pelo debate
público transparente, é indispensável quando da utilização de indicadores
transnacionais/globais no processo de criação de leis, visando a promoção
do desenvolvimento segundo a teoria de Amartya Sen. Os objetivos espe-
cíficos são: a) Demonstrar os efeitos dos processos globalizatórios e
transnacionais na esfera do Direito; b) Analisar a utilização de indicadores
transnacionais/globais na produção legislativa nacional anticorrupção; e
c) demonstrar a relevância da democracia e os seus processos para a per-
secução do desenvolvimento na teoria de Amartya Sen.
Com o intuito de adimplir os objetivos da investigação o trabalho sub-
divide-se em três partes: 1) Transnacionalismo: um novo horizonte para o
Direito; 2) A utilização de indicadores transnacionais no processo legisla-
tivo: o caso brasileiro do combate à corrupção; e 3) A democracia como
pressuposto para o desenvolvimento.

2 Transnacionalismo: um novo horizonte para o direito

Durante toda a fase seguinte à chamada Paz de Westfalia, o Direito


foi progressivamente visto como um aparato tipicamente estatal, exclusi-
vamente oriundo do ente estatal e do monopólio da força sobre a qual a
soberania encontrava fundamento (CRUZ; OLIVIERO, 2013, p. 33). Toda-
via, a confecção jurídica, na era da globalização, busca transformar esse
paradigma ao propor um esquema, de certo modo, relacional, até então
desconhecido, tendo como ponto fundamental a centralidade do indivíduo
como entidade “libertada” das relações comunitárias, fazendo com que o
Órgão judicial perca seu caráter de territorialidade.
Entretanto, mais do que falar em uma suposta “superação” do direito
estatal, é preferível falar-se em uma transformação deste, a qual encontra
explicação na hegemonia exercida, em especial, pelo fator econômico no
âmbito do raciocínio jurídico (CRUZ; OLIVIERO, 2013, p. 33). Deve-se ter
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 211

em mente a existência e relevância de novos tipos de poderes transnacio-


nais que não são limitados por qualquer tipo de direito nos moldes
clássicos da teoria jurídica.
Pode-se dizer que a globalização é, de certa forma, o ápice do processo
de internacionalização do capitalismo. Porém, conforme Milton Santos,
para entendê-la se faz necessário a abordagem de dois elementos funda-
mentais: as técnicas e a política (SANTOS, 2006, p. 12). Há erro grosseiro
por parte da história quando estes dois conceitos são considerados sepa-
radamente, pelo fato de serem indissociáveis entre si.
Ao final do século XX, em razão do desenvolvimento tecnológico e
científico, o sistema de técnicas passou a ser presidido pela tecnologia da
informação. Com isso, houve a construção de um elo entre os diferentes
tipos de técnicas e, ao mesmo tempo, as promoveu internacionalmente
(SANTOS, 2006, p. 12).
A globalização não é, entretanto, o resultado desse novo sistema téc-
nico, ela é, também, o que se extrai das ações que garantem a emergência
de um mercado global, o qual encabeça grande parte dos processos políti-
cos de nosso tempo (SANTOS, 2006, p. 12). O esqueleto da atual
globalização pode ser compreendido pelos seguintes fatores: a) unicidade
da técnica; b) a convergência dos momentos; c) a cognoscibilidade do pla-
neta; e d) a mais valia global como motor da história.
Com a proliferação do fenômeno da globalização espaços de debili-
dade passaram a ser ocupados, face a grande fragilidade dos tradicionais
atores nacionais, em maior escala após a Segunda Guerra Mundial, por
uma agenda de interesses transnacionais constituída através de institui-
ções novas, de difícil caracterização à luz do glossário político-jurídico da
modernidade. A homogeneidade tradicional no pensamento político e ju-
rídico fora intensamente perdida. Instalou-se, assim, um cenário de
grande tensão institucional, onde as antigas instituições do Estado e os in-
divíduos depararam-se com uma sensação de profunda insegurança
(STAFFEN, 2015, p. 34). Por assim dizer, a força motriz do Direito já não
mais são anseios de limitação jurídica dos poderes estatais absolutos, mas
212 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

a regulação de dinâmicas policêntricas atreladas diretamente com a circu-


lação de modelos, capitais, pessoas e instituições distribuídos tanto em
espaços físicos como nos virtuais.
Nesse contexto, a capacidade de o ente estatal produzir, soberana-
mente, os sistemas jurídicos nacionais vem, paulatinamente, diminuindo.
Isso ocorre, em grande parte, porque as próprias opções políticas abertas
às maiorias parlamentares encontram-se reduzidas à constante concessão
de soberania à “comunidade transnacional”, principalmente por meio de
instituições como o Fundo Monetário Internacional, a Troika, a ONU e suas
agências, bem como as grandes corporações transnacionais que criam
uma espécie de “estado de necessidade econômica” através do exercício de
seus tentáculos de influência (CRUZ; OLIVIERO, 2013, p. 34), redefinindo,
portanto, o cerne da capacidade legislativa do Estado.
A globalização possibilita o estabelecimento de canais de abertura e
interpretação dos preceitos normativos construídos por agentes de cunho
púbico ou privado, os quais, em função do grande poder que concentram,
além de interferirem na produção da norma, exercem funções de fiscali-
zação e controle das atividades abarcadas pelas normas criadas no seu
espectro de influência juntamente, ou ainda em substituição, do próprio
Estado Nacional (STAFFEN, p. 173, 2019). Assim, não se mostra desarra-
zoado concluir que houve o exaurimento do Estado e das instituições de
caráter monista – dualista (JESSUP, 1956).
Como já demonstrado, a interação de diferentes atores na vida pú-
blica e privada no âmbito da sociedade “sem fronteiras” é deveras intensa.
Todos estes agentes (Organizações Não Governamentais, Empresas, Com-
panhias e os próprios Estados) existem inseridos em um mesmo contexto
cultural, filosófico e econômico, pautados por valores e regras que com-
partilham entre si, em uma espécie de cooperação global (partnership)
(BRASIL, 2001, p. 38).
Insta salientar que grande parcela do mérito para a confecção dessa
network deve-se ao profundo desenvolvimento científico e tecnológico ca-
racterístico da segunda metade do século XX, ao passo em que encurtaram
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 213

as distâncias do globo terrestre, fomentando o intercâmbio cultural em


todos os níveis (BRASIL, 2001, p. 40). Essa transformação desenvolveu-se
e propagou-se como uma rede de nós rígidos e malha elástica, onde cada
espectro está em contraposição com os demais, por exemplo, o progresso
tecnológico permitiu, e permite, uma melhor organização das fábricas, e
estas, por sua vez, aceleram o processo tecnológico.
Compulsando a recente história da Globalização, esta até mesmo con-
funde-se com o desenvolvimento e proliferação das chamadas Instituições
Transnacionais. Durante a década entre os anos de 1950 e 1960 as grandes
empresas, tal qual diversos outros organismos de matriz privada ou pú-
blico-privada, passaram a experimentar e serem influenciadas pelo forte
intercâmbio cultural e jurídico mundial, como consequência, entraram em
um processo de multinacionalização (RADU, 2009, p. 399), disseminando
seus diversos bens e serviços além das fronteiras do país onde iniciaram
suas atividades, inaugurando, dessa forma, uma economia global, inde-
pendente de pressões estatais, pautada com grande influência de correntes
privadas, de caráter transnacional, sendo seus agentes a exemplo dos ban-
cos, organizações internacionais e agências reguladoras, os atores
protagonistas desse cenário.
Pode-se anunciar alguns exemplos para elucidar e ilustrar este novo
palco de cooperação oriundo do novo paradigma global. Composta por or-
ganismos de normatização, de matriz híbrida público-privada, a
Organização Internacional para a Estandardização (ISO) tem criado pon-
tes entre setores públicos e privados, mas, com atribuições de cunho
regulamentar eminentemente públicas. Caso similar é o ocorrido quando
da aderência de diversos Estados ao Comitê da Basiléia, entidade de cará-
ter nacional, com escopo de regimentar as atividades bancárias à níveis
mundiais. Ainda, como maior expoente deste tipo de relação observa-se o
caso do regimento da Internet, cuja responsabilidade de regular o uso da
ferramenta encontra-se no escritório de uma empresa público-privada – a
ICANN, Internet Corporation for Assigned Names — que acaba por prestar
214 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

um serviço público destinado a todo o globo (STAFFEN, 2015, p. 28), pro-


movendo, assim, uma interação entre os diferentes partícipes da atual
sociedade globalizada, inclusive, tornando laboriosa a caracterização des-
ses como sendo agentes públicos ou privados.
Nesta mesma linha, há instituições exclusivamente privadas que
transitam com frequência neste novo espaço mundial, cujas relações de
dependência em relação aos entes públicos e estatais é, de fato, inexistente.
Possivelmente os maiores exemplares desse formato de instituição sejam
a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) e da Câmara Inter-
nacional do Comércio (ICC), as quais desenvolvem seus trabalhos de
maneira completamente autônoma, inclusive elaborando normas acerca
daquilo que lhes é de interesse, com o fito central de promover o comércio
e demais investimentos internacionais, e para isso, fazem-se parceiras im-
portantes de organismos nacionais, internacionais e transnacionais
(STAFFEN, 2015, p. 29), influenciando cada uma dessas instituições par-
ceiras a seu modo e conveniência.
Não sem razão, depreende-se do atual contexto que a governança glo-
bal vai muito além da elaboração de leis e o estabelecimento das diferentes
modalidades de regras. Ao olhos do indiano, especialista em relações in-
ternacionais, Parag Khanna, este ambiente de caos pode encontrar alguma
ordem no desenvolvimento de uma “megadiplomacia” (KHANNA, 2011, p.
33), a qual deve buscar o apaziguamento entre os diferentes atores da
arena mundial, destrancando, assim, recursos de ONG’s, corporações, ins-
tituições transnacionais, bem como de governos para que estes atuem em
um mesmo sentido, possibilitando a realização de empreendimentos con-
juntos, de amplo alcance, capazes de fazer frente as questões resultantes
do estabelecimento de uma comunidade transnacionalizada.
O extenso processo de transferência de poder das economias nacio-
nais para o livre mercado, pautado pelos mercados globais, pode ser
classificado como a mudança mais importante ocorrida no século XX,
sendo levada a feito devido ao poder e a influência das empresas e orga-
nismos de caráter transnacional, assim como pelo advento das networks
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 215

nas quais operam em escala mundial (RADU, 2009, p. 402). Consequen-


temente, é perceptível a proliferação de instituições privadas envolvidas
no trato de assuntos que dizem respeito a regulação de assuntos globais
nos mais diversos campos, como a proteção do meio ambiente, do direito
à alimentação, a tutela da propriedade intelectual e outros tantos.
No tópico a seguir, a título exemplificativo dessa relação entre o am-
biente nacional e o transnacional/global, será demonstrada a influência
desses atores na arena legislativa do Estado brasileiro, por meio da análise
da utilização de diretivas elaboradas por entidades operantes a nível trans-
nacional nas propostas de leis de combate a corrupção que tramitaram no
Congresso Nacional de 2015 até o ano de 2017.

3 A utilização de indicadores transnacionais no processo legislativo:


o caso brasileiro do combate à corrupção

Com o alastramento dos processos de globalização, a produção e uso


de indicadores na governança global entraram em um frenético ritmo de
ampliação e sofisticação (STAFFEN, p. 176, 2019). Agências de classificação
de riscos, agências públicas de desenvolvimento internacional, como ONU
e o Banco Mundial, organismos governamentais de ajuda, empresas glo-
bais, comunidades científicas e ONG’s elaboram métricas de comparação
e desempenho nas mais variadas áreas em nível global (DAVIS;
KINGSBURY; MERRY, 2012, p. 3).
A seu turno, estes índices, indicadores, rankings de circulação e pro-
dução global penetram diretamente em questões e demandas de cunho
verdadeiramente estatais e locais. Quer seja pela vontade de realizar com-
parações, por imposições feitas por meio de contratos de alguma natureza,
ou por proporcionar maior legitimidade a determinadas escolhas, o uso
dos indicadores globais/transnacionais invade o território até então domi-
nado pelo aparato estatal (STAFFEN, 2019, p. 176).
Estes expedientes transnacionais passam a pautar os temas que terão
maior destaque dentro das discussões políticas nacionais. Em especial, o
216 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

controle da corrupção e o rule of law, patrocinados pelo Banco Mundial;


os indicadores dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio sob a batuta
da ONU; o Índice de Percepção de Corrupção elaborado pela Transparên-
cia Internacional; o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado
pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
(STAFFEN; OLIVIERO, 2015), são demonstrativos desse cenário.
A utilização cada vez mais acentuada dos indicadores globais na go-
vernança tem o potencial de promover uma mutação na forma, no
exercício e na distribuição de poder em determinadas camadas da gover-
nança global (DAVIS; KINGSBURY; MERRY, 2012, p. 4). Nesse interim,
desenvolvem sua capacidade de influenciar na criação e execução de polí-
ticas públicas, investimentos, processo legislativo, atuação judicial e na
organização da sociedade como um todo (STAFFEN, p. 177, 2019).
Em face da imbricação entre os atores transnacionais/globais, espe-
cificamente os índices globais, e as demandas locais, a invocação desses
medidores deve vir acompanhada de uma fundamentação mais robusta do
que a simples conveniência e oportunidade. Para Davis, Kingsbury e
Marry, a utilização desses instrumentos deve se desenrolar a partir de al-
guns questionamentos importantes para a sua adequação as realidades
locais:

“What social processes surround the creation and use of indicators?, How do
the conditions of production influence the kinds of knowledge change the na-
ture of standard-setting and decision-making?, How does it affect the
distribution of power between and among those who govern and those who
are governed?, What is the nature of responses to the exercises of power
through indicators, including forms of contestation and attempts to regulate
the production or use of indicators?”(DAVIS; KINGSBURY; MERRY, 2012, p.
4)

É de se considerar, de forma minuciosa, as particularidades de cada


regime democrático dos países, bem como os procedimentos de cada qual
para a atividade legiferante, e as caraterísticas específicas dos indicadores
globais, tal qual a simplificação dos dados e do complexo social,
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 217

comparação com outros padrões, recorte temporal dos fatos, e a


autoridade técnico-científica de quem produziu os dados apresentados
(STAFFEN, 2019, p. 178), no intuito de mensurar a possibilidade de
utilização desses índices como base para as legislações e políticas públicas
nacionais.
Ao utilizar esses indicadores, deve-se efetuar uma atenta análise aos
métodos e expedientes de comparação por eles escolhidos. É fundamental
rememorar que todo indicador é produto de uma simplificação das estru-
turas sociais que, os quais, em muitas situações, carecem de comparação
entre as estruturas que por eles estão sendo analisadas (DAVIS;
KINGSBURY; MERRY, 2012, p. 8). Desse modo, introduzir no discurso le-
gislativo nacional indicadores de governança global sem a devida
comparação acaba por interferir de maneira a enfraquecer o debate pú-
blico e institucional daquele ordenamento jurídico (ESPELAND; SAUDER,
2012, p. 87).
Assim, a utilização desses indicadores como uma ideia de Direito pú-
blico necessita esclarecer, quando inserido em sociedades democráticas, as
condições e o exercício de tal poder (BOGDANDY; GOLDMANN, 2012, p.
53), sob pena de promover um debate público que não seja inteiramente
pautado e guiado pela transparência, valor indispensável para a legitima-
ção democrática de qualquer alteração legislativa.
Nesse sentido, a utilização de indicadores globais de maneira distor-
cida, em especial nos processos legislativos de cada Estado, pode gerar, no
entendimento Staffen (2019, p. 179), idiossincrasias quando a norma será
aplicada na realidade fática. Desse modo, governos com dificuldades em
suas indexações podem fazer usos desses índices apenas como efeito “pla-
cebo”, no intuito de justificar mudanças legislativas internas pautadas por
interesses externos, fazendo com que a legislação não altere em nada a
realidade social em médio e longo prazo.
Dessa forma, a utilização de indicadores de natureza global/transna-
cional embasada apenas na deferência para como as autoridades
218 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

transnacionais, ou por conceitos ideológicos, compromete o processo le-


gislativo como um todo e, especialmente, os resultados normativos
advindos desses processos (CATANIA, 2010, p. 10). Como consequência
lógica, o uso deliberado dos indicadores, sem a devida validação, gera uma
ineficiência da norma produzida, de modo que não atingirá o seu fim social
dentro do território, eis que em desacordo com os parâmetros constituti-
vos daqueles indicadores referenciais.
A produção normativa na era da globalização, como já demonstrado
neste trabalho, é fortemente pautada e impulsionada por demandas de cu-
nho transnacional/global, em momentos sofisticando os anseios nacionais
e em momentos contrapondo-os. Nesse cenário, os indicadores tornaram-
se condições de racionalidade (STAFFEN, 2019, p. 180). Reconhecendo-se
que a produção legislativa passa por uma forte influência exterior, é de se
exigir dos legisladores a observância de primados democráticos e do de-
vido processo legislativo, de modo a garantir a sustentabilidade
democrática das instituições.
O Brasil, a seu turno, não ficou imune a essas movimentações e pres-
sões exercidas pela influência de atores da arena transnacional no processo
legislativo, em especial naquilo que diz respeito ao combate à corrupção.
Nos últimos anos, como respostas as crises políticas desencadeadas pós
2014, o Congresso brasileiro, como resposta aos inúmeros casos de cor-
rupção que assolaram o país, debateu diversas propostas legislativas
visando o combate à corrupção.
O período corresponde de 2015 até 2017 foi marcado por um número
considerável de projetos de leis propondo novos meios de combater a cor-
rupção e fomentar a transparência dos negócios públicos, razão pela qual,
como meio elucidativo, os dados referentes a tais sessões legislativas serão
posteriormente expostos4. Um aspecto marcante do debate acerca dessas

4
Os dados aqui apresentados foram extraídos a partir de estudo realizado por Márcio Ricardo Staffen, publicado na
Revista de Informação Legislativa. Ver em: STAFFEN, Márcio Ricardo. Legislar por indicadores: a iniciativa legislativa
brasileira anticorrupção conforme a influência de atores transnacionais. Revista de Informação Legislativa: RIL,
Brasília, DF, v. 56, n. 221, p. 169-193, jan./mar. 2019. Disponível em: http://www12.senado.leg.br/ril/edi-
coes/56/221/ril_v56_n221_p169.
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 219

propostas foi exatamente que muitas delas tiveram como base para a sua
propositura indicadores, rankings, memorandos e estatísticas disponibili-
zados por organizações como o Banco Mundial, Transparência
Internacional, FMI, ONU, ONG’s, e outros players do cenário global.
Durante a sessão legislativa do ano de 2015 foram apresentadas 134
Projetos de Leis e Projetos de Emenda à Constituição mencionando a pa-
lavra-chave “corrupção”, havendo 22 outras propostas mencionando o
termo “transparência”. Dentre estas propostas, em 31 houve menções a
atores transnacionais/globais em conexão com o termo “corrupção”, e ou-
tras 6 ligadas ao termo “transparência” (STAFFEN, 2019, p. 182).
Quando quantificados, esses dados totalizam 23,13% de menções a
atores transnacionais quando se tratando do tema corrupção, e 27,27%
quando o tema em discussão é a transparência. Foram, respectivamente,
os organismos com maior número de menções a ONU (38,71%), a Trans-
parência Internacional (22,58%) e a OEA (9,6%) (STAFFEN, 2019, p. 182).
Houve a menção expressa a indicadores globais em 5,22% dos 134 proje-
tos. Fica evidenciado, portanto, a importância desses agentes
transnacionais no corpo das propostas elaboradas durante a sessão legis-
lativa de 2015, de modo a comprovar, de maneira efetiva, a hipótese de
penetração de expedientes transnacionais/globais na discussão legislativa
nacional.
Porém, ao analisar materialmente a influência de cada ator transna-
cional/global em cada uma das propostas de lei, denota-se uma falta de
articulação entre o cenário nacional e o contexto onde os dados e informa-
ções foram angariados. Grande parte das menções a tais organismos não
passam, justamente, de menções, e, no caso da ONU, ao apontamento de
Convenções de que o Estado brasileiro é signatário (STAFFEN, 2019, p.
183). Não foram, igualmente, no que diz respeito aos índices utilizados,
demonstradas as conexões entre os dados advindos dos atores transnaci-
onais/globais com a realidade social brasileira.
Na sessão legislativa de 2016, a Câmara dos Deputados propôs o total
de 48 projetos de lei relacionados com o grande tema “corrupção”, e outros
220 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

6 ligados com “transparência”. De um total de 48, verificou-se 16 menções


a atores transnacionais/globais para a categoria “corrupção” e 3 referên-
cias ao tema “transparência” (STAFFEN, 2019, p. 184).
No total, 33,33 das propostas de lei envolvendo o combate à corrup-
ção invocam atores transnacionais, enquanto as propostas de leis com o
escopo de fomentar a transparência citam nominalmente atores transna-
cionais em 50% dos projetos. O ator que mais vezes fora mencionado foi
a ONU (25%), seguido por ONG’s (18,75%), e a Transparência Internaci-
onal (6,25%). Houve menção direta a indicadores transnacionais/globais
em 4,16% dos 64 projetos apresentados (STAFFEN, 2019, p. 185).Nova-
mente, pode-se notar as menções a atores do cenário transnacional/global
como mero argumento de autoridade, sem proceder a devida comparação
entre o contexto nacional e a realidade de onde os dados apresentados pe-
los organismos transnacionais foram coletados.
No ano de 2017, a sessão legislativa apresentou 43 projetos de lei com
a pauta principal “corrupção”, e outras 14 estavam diretamente conectadas
com o termo “transparência”. Dentre estas, em 15 oportunidades houve a
menção a atores transnacionais/globais para as propostas sobre o tema
“corrupção”, e outras 6 menções nos projetos que versaram sobre o tema
“transparência” (STAFFEN, 2019, p. 186).
Dentre as propostas visando o combate à corrupção, 34,88% destas
mencionaram atores transnacionais/globais em suas justificativas, já as
propostas que versavam sobre o tema da transparência os citaram em
42,86% das vezes. Novamente, o ator com maior número de citações foi a
ONU (40%), seguida pela Transparência Internacional (26,67%) e ONG’s
(6,67%). Houve menção direta a indicadores transnacionais/globais em
16,27% dos 57 projetos que tramitaram na Câmara dos Deputados. Espe-
cificamente nos projetos apresentados durante a sessão legislativa de 2017,
notou-se uma maior contextualização dos índices de governança glo-
bal/transnacional com a realidade social brasileira, avançando, dessa
forma, na qualidade da aplicação desses referenciais (STAFFEN, 2019,
p.187).
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 221

No tópico a seguir, abordar-se-á o papel da democracia e do debate


público democrático no pensamento de Amartya Sen, bem como a sua (in)
adequação com os processos de utilização de índices de governança trans-
nacional/global no processo legislativo nacional.

4 A democracia como pressuposto para o desenvolvimento em


Amartya Sen

A partir da leitura de Amartya Sen, reconhece-se a relação indissoci-


ável entre a argumentação pública como protagonista para a concretização
e compreensão da justiça. Esse reconhecimento remete a uma forte ligação
entre a ideia de justiça e a prática da democracia, considerando que a na
filosofia política contemporânea a ideia de que a democracia pode ser con-
siderada como o “governo por meio do debate” já é pacífica na academia
(SEN, 2011, p. 358).
Existe uma visão mais antiquada e formal acerca da democracia, a
qual a vê atrelada, principalmente, com a realização de eleições livres e
secretas, e não com a visão mais ampla, colocando o conceito de democra-
cia lado a lado com a ideia do governo por meio do debate. Contudo, como
anteriormente salientado, a filosofia contemporânea se desenvolveu no
sentido de adotar uma classificação mais aberta para a democracia, asso-
ciando-a àquilo que Rawls denominou de “exercício da razão pública”
(SEN, 2011, p. 358).
Esse conceito fica bastante evidente quando Sen, referindo-se a Índia,
seu país natal, suscita a necessidade de que as vidas, as carências, os direi-
tos e as demandas provenientes dos estratos mais baixos da sociedade
recebam maior atenção na discussão pública e, consequentemente, na ela-
boração de políticas públicas através da participação democrática (SEN,
2015, p. 12). Dito isto, o autor afirma que a democracia não se reduz apenas
à política eleitoral e as liberdades civis, mas também uma verdadeira dis-
tribuição equitativa do poder.
222 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Tanto problemas sociais quanto econômicos nem sempre são fáceis


de detectar e entender e, nesse sentido, um exercício vigoroso de argu-
mentação pública pode desempenhar um importante papel no processo de
expansão da compreensão popular e para fomentar a prática de uma polí-
tica esclarecida (SEN, 2015, p. 282). Porém, isso não quer dizer que o
governo pautado pelos debates seja o principal objetivo da democracia, eis
que as exigências daquela podem ser ainda mais estendidas, de forma a
requerer a inclusão da igualdade plena’ de participação.
A discussão pública aprofundada sobre os temas de relevância e de-
mandas da sociedade, podendo fazer com que os desdobramentos desses
eventos se tornem temas de discussão política, com efeitos sobre a cober-
tura da mídia e o debate público em geral. Dentre as conquistas da
democracia, uma das mais relevantes é a capacidade de fazer com que as
pessoas se interessem, impulsionadas pelo debate público, pelas dificulda-
des dos demais e tenham uma compreensão mais apurada das vidas
alheias das comunidades que se circundam (SEN, 2011, p. 378).
Outro elemento de forte destaque no pensamento de Sen, no sentido
da argumentação pública como propulsora da democracia e auxiliar do
desenvolvimento humano, é a “função protetora da imprensa”. Esta fun-
ção diz respeito a dar espaço àqueles tiveram seus direitos negligenciados
e aos desfavorecidos, sejam eles desfavorecidos econômicos, sociais, cultu-
rais ou políticos. A argumentação pública possui a capacidade de fazer
ouvir as reivindicações da população para com os negócios e decisões pú-
blicas que lhes dizem respeito (FRÖLICH, 2018, p. 199). Dessa forma, o
força do convencimento reside no poder do argumento e não em qualquer
outro critério afastado do ideal democrático.
Compulsando a literatura sobre o desenvolvimento e o conceito de
justiça, denota-se a fundamental importância da Democracia e os princí-
pios que a acompanham, no intuito de que as pretensões
desenvolvimentistas se concretizem. Em todos os níveis, é indispensável
para o desenvolvimento a participação ativa dos indivíduos, o que somente
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 223

se viabiliza através de instituições democráticas bem estabelecidas e em


pleno funcionamento.
No mesmo sentido é o posicionamento de Sen ao afirmar que o de-
senvolvimento não pode ser avaliado de maneira dissociada da vida que as
pessoas levam no seu dia-a-dia e da real liberdade de que desfrutam. O
desenvolvimento não pode ser visto como o melhoramento de “objetos
inanimados de conveniência”, como, por exemplo, o aumento do PIB ou
dos processos de industrialização. O valor real do desenvolvimento deve
depender do impacto que possui na vida e nas liberdades das pessoas en-
volvidas, que necessita ser o objetivo primordial na ideia do
desenvolvimento (SEN, 2011, p. 381).
Desse modo, se o desenvolvimento é compreendido de uma maneira
mais ampla, com maior atenção as vidas humanas, então se torna imedi-
atamente claro que a relação entre o desenvolvimento e a democracia tem
de ser entendida como uma ligação constitutiva, e não somente por meio
de suas conexões externas. Assim, deve-se reconhecer que as liberdades
políticas e os direitos democráticos, como é o caso do amplo debate público
acerta dos assuntos concernentes a sociedade, figuram como componentes
constitutivos do desenvolvimento (SEN, 2011, p. 381).
Amartya Sen descreveu com precisão o papel imprescindível da De-
mocracia e das liberdades políticas dentro de um projeto de
desenvolvimento que possua o indivíduo como peça central. O autor
aponta a existência de três considerações principais que levam a crer que
as liberdades políticas e a Democracia, materializados nos direitos políticos
e civis mais básicos, é proeminente em um processo de desenvolvimento:
a) possuem importância direta para a vida humana, quando associados a
capacidades básicas, como a participação do processo político e social; b)
seu papel instrumental de elevar a intensidade com que as pessoas são
ouvidas quando defendem e expressão as suas ideias e reinvindicações po-
lítica; e c) seu papel construtivo na conceituação daquilo que são
necessidades, ou seja, verdadeiras demandas da sociedade onde vivem
(SEN, 2010, p. 195).
224 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Em que pesa a importância das instituições democráticas, elas não


podem ser lidas como dispositivos mecânicos para a implementação do
desenvolvimento. Seu uso é condicionado pelos valores e prioridades es-
tabelecidos pela sociedade e pelo uso que se faz das oportunidades de
articulação e participação que estão disponíveis (SEN, 2010, p. 208), as-
sim, evidencia-se a importância da manutenção e melhoramento de canais
de transparência dentro do aparato estatal com vista ao acompanhamento
de suas ações em uma forma de accountability.
As discussões e debates políticos, possibilitados pelas liberdades polí-
ticas e direitos civis, desempenham um papel fundamental na formação
de valores. Mais importante do que isso, a identificação de necessidade e
demandas é diretamente influenciada pela natureza da participação e do
diálogo públicos. A força da discussão pública não é apenas um correlato
da democracia, como também o seu cultivo pode fazer com que a própria
democracia funcione de uma maneira mais eficiente (SEN, 2010, p. 208).
Tão importante quanto a própria democracia, é a salvaguarda das
condições e circunstâncias que garantem a amplitude e o alcance do pro-
cesso democrático em si. Por mais valiosa que seja a democracia como uma
fonte de oportunidades sociais, há a necessidade de consultar os caminhos
para fazê-la funcionar da melhor maneira possível, com o escopo de reali-
zar os seus fins. A implementação do desenvolvimento e da justiça social
não dependem somente de suas formas institucionais, mas, em especial,
da sua prática efetiva (SEN, 2010, p. 209).
A sociedade contemporânea é marcada por um contingente de inte-
resses e divergências específicos que são representativos da sua
composição heterogênea e desigual. Tal característica é importante para a
compreensão do ordenamento social, com especial ênfase nas sociedades
democráticas, quando acompanhada de uma ausência de informações se-
guras, pode distorcer a real composição social, bem como as suas
necessidades mais fundamentais (ZAMBAM, 2017, p. 523).
É premissa norteadora da atuação política responsável que a sua atu-
ação se dê visando o bem comum e a integração do tecido social como um
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 225

todo. A composição atual da sociedade, estruturada a partir de uma ampla


pluralidade, juntamente da tradição democrática pressupõem a efetiva
participação dos cidadãos e das organizações da sociedade, de modo que o
reconhecimento das atuais formas de participação, assomado a criação de
outros meios, revelam a capacidade e o dinamismo da democracia e, jun-
tos, consagram a participação como mecanismo de construção da
cidadania (ZAMBAM, 2017, p. 524) e como forma de promover o desen-
volvimento.
É de se concluir que a falta de transparência e do debate público em
um ambiente democrático interfere diretamente na concretização de um
desenvolvimento que possui como foco o ser humano, segundo os escritos
de Amartya Sen. Por essa razão, a utilização de indicadores globais na con-
fecção normativa nacional, na forma anteriormente exposta na segunda
sessão deste trabalho, levanta dúvidas quanto a sua legitimidade e vali-
dade. A falta de discussão pública do conteúdo técnico-científico do
referencial disponibilizado por organismos transnacionais/globais pode
não corresponder com as demandas nacionais, indo de encontro com o
ideal do desenvolvimento que possui como preocupação central o ser hu-
mano, eis que distancia as leis e, consequentemente, as políticas públicas
das necessidades e demandas verdadeiramente presentes no ambiente so-
cial.

5 Conclusão

Conclui-se, portanto, que o fenômeno da globalização redimensionou


a atuação dos poderes legislativos estatais, bem como dos seus respectivos
órgãos judiciais, com a penetração de atores transnacionais em assuntos
historicamente de competência exclusiva do Estado nacional. Entretanto,
mais do que falar em uma suposta “superação” do direito estatal, é prefe-
rível falar-se em uma transformação deste, a qual encontra explicação na
hegemonia exercida, em especial, pelo fator econômico no âmbito do raci-
ocínio jurídico (CRUZ; OLIVIERO, 2013, p. 33). Deve-se ter em mente a
226 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

existência e relevância de novos tipos de poderes transnacionais que não


são limitados por qualquer tipo de direito nos moldes clássicos da teoria
jurídica.
A presença de atores transnacionais/globais influenciando os proces-
sos legislativos estatais é uma realidade, e o Brasil não ficou imune a esses
movimentos. A análise trazida no segundo tópico deste trabalho demons-
trou cabalmente o papel preponderante que os agentes transnacionais
tomaram para si no Brasil, em especial, na influência exercida por esses
atores na discussão legislativa sobre o combate à corrupção, na forma de
indicadores, rankigs e índices produzidos em nível global.
Por outro lado, fica claro que tais indicadores não podem ser utiliza-
dos como base para a produção normativa indiscriminadamente. Estes
devem passar por uma profunda análise de seus métodos e recortes tem-
porais e regionais, bem como uma comparação rigorosa da realidade local
com o ambiente onde as referências transnacionais trazidas por estes in-
dicadores, de modo a concluir se, de fato, é possível o seu aproveitamento
para melhorar lidar com as demandas nacionais.
Amartya Sen ao afirmar que o desenvolvimento não pode ser avali-
ado de maneira dissociada da vida que as pessoas levam no seu dia-a-dia
e da real liberdade de que desfrutam, evidencia a importância do conceito
de democracia para a ideia de desenvolvimento. O desenvolvimento não
pode ser visto como o melhoramento de “objetos inanimados de conveni-
ência”, como, por exemplo, o aumento do PIB ou dos processos de
industrialização. O valor real do desenvolvimento deve depender do im-
pacto que possui na vida e nas liberdades das pessoas envolvidas, que
necessita ser o objetivo primordial na ideia do desenvolvimento (SEN,
2011, p. 381).
Desse modo, se o desenvolvimento é compreendido de uma maneira
mais ampla, com maior atenção as vidas humanas, então se torna imedi-
atamente claro que a relação entre o desenvolvimento e a democracia tem
de ser entendida como uma ligação constitutiva, e não somente por meio
de suas conexões externas. Assim, deve-se reconhecer que as liberdades
Gustavo Polis; Talvanni Ribeiro Machado | 227

políticas e os direitos democráticos, como é o caso do amplo debate público


acerta dos assuntos concernentes a sociedade, figuram como componentes
constitutivos do desenvolvimento (SEN, 2011, p. 381).
Levando a feito uma leitura sobre o desenvolvimento e o seu viés fo-
cado no desenvolvimento genuinamente humano em Sen, a Democracia e
os princípios que a acompanham se revelam como fundamentais para que
as pretensões desenvolvimentistas se concretizem. Em todos os níveis, é
indispensável para o desenvolvimento a participação ativa dos indivíduos,
por meio de amplos debates das questões públicas, o que somente se via-
biliza através de instituições democráticas bem estabelecidas e em pleno
funcionamento.
Por fim, é de se concluir que a hipótese positiva de pesquisa se revela
verdadeira, na medida em que a falta de uma estrutura democrática sólida
e, consequentemente, de transparência no debate público acerca dos indi-
cares utilizados no processo legislativo são impeditivos para a promoção
de um desenvolvimento conforme o pensamento de Sen. Por essa razão, a
utilização de indicadores globais na confecção normativa nacional, na
forma anteriormente exposta na segunda sessão deste trabalho, levanta
dúvidas quanto ao seu potencial de eficiência em território nacional.
A falta de discussão pública do conteúdo técnico-científico do refe-
rencial disponibilizado por organismos transnacionais/globais pode não
corresponder com as demandas nacionais, indo de encontro com o ideal
de desenvolvimento que possui como preocupação central o ser humano,
eis que distancia as leis e, consequentemente, as políticas públicas das ne-
cessidades verdadeiras da população.

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13

O trabalho remoto em tempos de pandemia da COVID 19 1

Robson Antão de Medeiros 2

1. Introdução

O direito ao trabalho, assim como o direito a saúde são direitos hu-


manos fundamentais e encarados como instrumentos para o
desenvolvimento, principalmente social e econômico de uma nação. No
que tange a situação do trabalhador no Brasil, em tempos da COVID 19,
encontra-se em situação contrastante, tendo em vista não somente o fenô-
meno de pandemia que assola o planeta, mas a flexibilidade da
Consolidação das Leis do Trabalho no Brasil, quando da inserção do tra-
balho remoto.
O presente trabalho tem por objetivo analisar as questões do trabalho
remoto e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho
(DORT) por Lesões por Esforços Repetitivos (LER) – DORTLER, que
afetam os trabalhadores brasileiros diante da pandemia da COVID 19,
tendo como problema o seguinte questionamento: como evitar e/ou
amenizar a DORTLER nos teletrabalhadores, em decorrência do trabalho
remoto sem afetar os direitos trabalhistas? A hipótese almejada é a
preservação dos direitos trabalhistas, dentro das liberdades reais

1
GT 2: Políticas públicas e seguridade social
2
Professor e doutor dos Cursos de graduação de Direito e de Comunicação em Mídias Digitais, dos Programa de pós-
graduação em Mestrado Profissional em Gerontologia e em Ciências Jurídicas, da Universidade Federal da Paraíba.
E-mail: robson.antao@academico.ufpb.br
Robson Antão de Medeiros | 231

envolvidas, com resguardo na saúde das partes envolvidas, levando em


consideração principalmente questões culturais, sociais e políticas.
A justificativa para a elaboração deste trabalho enseja pela relevância
do tema para a sociedade brasileira, sobretudo, por se tratar de uma pan-
demia que assola o mundo e como consequência nas relações laborais.
O referencial teórico utilizado para abordar o tema está alicerçado no
pensamento de Amartya Sen, na obra “Desenvolvimento como Liberdade”,
dialogando com autores nacionais e internacionais.
Quanto à metodologia empregada, adotar-se-á o método de aborda-
gem dedutivo, o objetivo metodológico é o exploratório, a técnica de
pesquisa será o levantamento de dados bibliográficos e documentais.

2. O trabalho remoto e a legislação trabalhista

A Revolução Industrial trouxe diferentes e diversas transformações


nas relações de trabalho, sobretudo transformando o trabalho em em-
prego, onde o trabalhador passou a trabalhar por salários. Nesse período,
culminou com a Revolução Francesa, em 1789, onde a Constituição Fran-
cesa consignou o direito ao trabalho no rol de direitos econômicos e
sociais, responsabilidade estatal para assegurar direitos aos trabalhadores
contra a arbitrariedade dos empregadores, além de oferecer a percepção
de um salário que fosse digno para sua subsistência.
A Revolução Francesa e sua Constituição serviram de exemplo para
que outros Estados incluíssem em suas constituições o direito ao trabalho,
dentro do rol dos direitos econômicos e sociais, a exemplo do México, em
1917, quando instituiu a proibição de trabalho de menores de 12 anos de
idade, limitação da jornada de trabalho dos menores de 16 anos de idade a
seis horas diárias, jornada de oito horas, descanso semanal, proteção à
maternidade, salário mínimo, direito de sindicalização e de greve, indeni-
zação de dispensa, seguro social e proteção contra acidente de trabalho.
232 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Outro exemplo culminado com a constitucionalização do direito ao


trabalho foi a Constituição de Weimar, de 1919, onde regulava a participa-
ção dos trabalhadores nas empresas, autorizando a liberdade de coalização
dos trabalhadores, da representação dos trabalhadores na empresas, criou
o sistema de seguro social e a possibilidade dos trabalhadores colaborarem
com os empregadores na fixação de salários e demais condições de traba-
lho, assim como a proteção à maternidade.
Assim, surge a constitucionalização do Direito do Trabalho a partir
de 1917, nas palavras de Sérgio Pinto Martins (2019, p. 53), mostra a pas-
sagem do “Estado Liberal para o Estado Social”, onde as constituições dos
países passaram a constitucionalizar os direitos trabalhistas.
Em 1919 cria-se a Organização Internacional do Trabalho – OIT, atra-
vés do Tratado de Versalhes, incumbindo-se de resolver as questões
inerentes as relações de trabalho, envolvendo empregados e empregado-
res, no âmbito internacional, com convenções e recomendações
trabalhistas.
No Brasil, as questões trabalhistas ocorreram, de forma tímida, frente
as evoluções laborais difundidas ao redor do mundo. Na Constituição de
1824 apenas disciplinou abolição das corporações de ofício, dando liber-
dade de ofícios e profissões, passando pela Lei do Ventre Livre, em 28 de
janeiro de 1871, em que todo filho de escravo tinha a liberdade assegurada,
ficando sob a “tutela do senhor ou de sua mãe até o oitavo aniversário,
quando o senhor poderia optar entre receber uma indenização do governo
ou usar do trabalho do menino até os 21 anos completos”, segundo Martins
(2019, p.56). Há, ainda, Lei Saraiva Cotegipe – Lei dos Sexagenários, de 29
de setembro de 1885, destinada a liberdade dos escravos com mais de 60
anos de idade, mesmo assim, tinham quer trabalhar mais três anos para o
senhor, de forma gratuita. Por último, nesse período veio a Lei Áurea – Lei
nº 3.352, de 13 de maio de 1888, que dava liberdade a todos os escravos
no Brasil.
Já a Constituição do Brasil de 1891 trata a liberdade de associação e a
o livre exercício de qualquer profissão moral, intelectual e industrial. A
Robson Antão de Medeiros | 233

Constituição de 1934 foi a primeira que tratou das questões do Direito do


Trabalho, como: a liberdade sindical, isonomia salarial, proteção do traba-
lho das mulheres e crianças, salário mínimo, jornada de oito horas de
trabalho, repouso semanal, férias anuais remuneradas. Em 1943 há a con-
solidação de todas as leis trabalhistas, nascendo a Consolidação das Leis
do Trabalho – CLT, no governo de Getúlio Vargas. A partir de então, as
Constituições do Brasil possuem em seu diploma questões trabalhistas e
na Constituição de 1988 há um capitulo especifico que aborda os direitos
sociais – Capitulo II, do Título II – dos direitos e garantias fundamentais,
onde o artigo 6º aborda quais são os direitos sociais: educação, saúde, tra-
balho, alimentação, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção
à maternidade e à infância, além da assistência aos desamparados; o ar-
tigo 7º disciplina os direitos individuais e tutelados do trabalho; o artigo
8º versa sobre o sindicato e suas relações; o artigo 9º disciplina as regras
da greve; o artigo 10 menciona a participação dos trabalhadores em cole-
giados e o artigo 11 disciplina as questões de representação dos
empregados nas empresas quando possuem mais de 200 empregados.
Em 15 de dezembro de 2011 foi promulgada a Lei nº 12.551, que alte-
rou o artigo 6º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo
Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, para equiparar os efeitos ju-
rídicos da subordinação exercida por meios telemáticos e informatizados
à exercida por meios pessoais e diretos, em que vigora nos seguintes ter-
mos:

Artigo 6º Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do


empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância,
desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego.

Parágrafo único. Os meios telemáticos e informatizados de comando, controle


e supervisão se equiparam, para fins de subordinação jurídica, aos meios pes-
soais e diretos de comando, controle e supervisão do trabalho alheio. (BRASIL,
2011).
234 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Nesse sentido, a CLT aborda agora as atividades telemáticas e infor-


matizadas, ou seja, disciplina as questões inerentes ao teletrabalho que é
caracterizada pela utilização de tecnologia da informação e comunicação -
TIC no desenvolvimento de suas atividades.
Rosenfield e Alves (2011, p. 414) mencionam que o “termo teletraba-
lho está associado ao trabalho realizado remotamente, por meio de TIC,
possibilitando a obtenção dos resultados do trabalho em um local diferente
daquele ocupado pela pessoa que o realiza”, observando que o trabalho a
distância já era realizado desde os anos de 1950 e nos anos de 1960 e 1970,
segundo Rocha e Amador (2018, p. 153), não era “incomum a prática do
trabalho em casa para a produção de vestuário, têxteis e calçados, emba-
lagem e montagem de materiais elétricos”.
Por sua vez, em 13 de julho de 2017 foi promulgada a Lei nº 13.467,
que alterou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo De-
creto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e as Leis nº 6.019, de 3 de janeiro
de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de julho de 1991, a
fim de adequar a legislação às novas relações de trabalho, acrescentando o
Capítulo II – A, com o título do teletrabalho, seus artigos 75-A até o 75-E,
disciplinando no artigo 75-A que a prestação do serviço pelo empregado
em regime de teletrabalho deve observar as normas desse Capitulo, nos
seguintes termos:

Artigo 75-B Considera-se teletrabalho a prestação de serviços preponderante-


mente fora das dependências do empregador, com a utilização de tecnologias
de informação e de comunicação que, por sua natureza, não se constituam
como trabalho externo.

Parágrafo único. O comparecimento às dependências do empregador para a


realização de atividades específicas que exijam a presença do empregado no
estabelecimento não descaracteriza o regime de teletrabalho.

Artigo 75 – C. A prestação de serviços na modalidade de teletrabalho deverá


constar expressamente do contrato individual de trabalho, que especificará as
atividades que serão realizadas pelo empregado.
Robson Antão de Medeiros | 235

§ 1º Poderá ser realizada a alteração entre regime presencial e de teletrabalho


desde que haja mútuo acordo entre as partes, registrado em aditivo contratual.

§ 2º Poderá ser realizada a alteração do regime de teletrabalho para o presen-


cial por determinação do empregador, garantido prazo de transição mínimo
de quinze dias, com correspondente registro em aditivo contratual.

Artigo 75-D. As disposições relativas à responsabilidade pela aquisição, manu-


tenção ou fornecimento dos equipamentos tecnológicos e da infraestrutura
necessária e adequada à prestação do trabalho remoto, bem como ao reem-
bolso de despesas arcadas pelo empregado, serão previstas em contrato
escrito.

Parágrafo único. As utilidades mencionadas no caput deste artigo não inte-


gram a remuneração do empregado.

Artigo 75-E. O empregador deverá instruir os empregados, de maneira ex-


pressa e ostensiva, quanto às precauções a tomar a fim de evitar doenças e
acidentes de trabalho.

Parágrafo único. O empregado deverá assinar termo de responsabilidade com-


prometendo-se a seguir as instruções fornecidas pelo empregador.(BRASIL,
2017).

Percebem-se que alguns direitos laborais do teletrabalhador foram


suprimidos, como o direito ao pagamento de horas extras, de adicional
noturno, insalubridade, periculosidade, de adicional de sobreaviso/pron-
tidão, tendo em vista as dificuldades do controle da jornada nessa
modalidade, assim como o vale transporte e alimentação.
Milena Fonseca (2012, p. 2) menciona que a Lei nº 12.551/2011 alte-
rou a redação do artigo 6º da CLT, “eliminando a distinção entre o
trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no do-
micílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam
caracterizados os pressupostos da relação desemprego”. Assim como, o te-
letrabalhador exercendo suas atividades fora do estabelecimento do
empregador “não o exime de cumprir as normas de higiene e segurança
236 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

do trabalho, devendo a empresa orientar o empregado com relação à er-


gonometria, de modo a proporcionar conforto, segurança e desempenho
eficiente, sem danos a sua saúde”.

3. A pandemia da COVID 19 e o trabalho remoto

Em dezembro de 2019, pesquisadores chineses anunciam ao mundo


que um vírus letal infectou pessoas na cidade de Wuhan, tornando o epi-
centro do novo coronavírus, com registro do primeiro caso de covid-19.
Em março de 2020, a Organização Mundial de Saúde – OMS anuncia a
nova pandemia que assola o planeta, o Sars-CoV-2, o coronavírus que
causa a Covid-19 é o mais novo integrante da família viral Coronaviridae,
composta por outros 14 tipos de vírus.
No Brasil a comunicação da OMS foi recebida sem muita preocupação
e os governos não atentaram para a gravidade inicial desse vírus letal,
principalmente o governo federal, quando classificou de uma mera “gri-
pezinha”, desacreditando, inclusive os órgãos e pesquisadores nacionais e
internacional, sobretudo a OMS.
Hoje, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa que divulga
diariamente a situação da pandemia de coronavírus no Brasil, a partir de
dados das secretarias estaduais de Saúde, consolidados às 20 horas, se-
gunda-feira, dia 26 de outubro de 2020, o Brasil contabiliza 157.451 óbitos
registrados e 5.411.550 diagnósticos de Covid-19, segundo levantamento
do consórcio de veículos de imprensa G1(2020).
Como toda a repercussão que a COVID 19 tem provocando no mundo,
em especial no Brasil, as empresas públicas e privadas começaram a traçar
medidas de proteção e vigilância sanitárias, após a decretação de normas
estatais para o distanciamento social e fechamento de estabelecimentos de
ensino, comércio e outros serviços, afetando não somente a área econô-
mica, mas social, cultural e de saúde pública. Hoje, aos poucos estão sendo
restabelecidas a “normalidade” seguindo critérios estabelecidos, principal-
mente pelas prefeituras de cada Estado da federação para a reabertura
desses setores.
Robson Antão de Medeiros | 237

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, entre


os dias de 20 a 26 de setembro de 2020, informam que cerca de 2,7 mi-
lhões de pessoas foram afastadas do trabalho devido ao distanciamento
social, onde a maior proporção de pessoas afastadas é a de empregados do
setor público sem carteira assinada, com 9,6 %, 9,1% dos Militares e ser-
vidores estatutários, seguidos por 4,6% dos trabalhadores domésticos
com carteira assinada e 4,2% dos trabalhadores domésticos sem carteira
assinada.
Em relação ao trabalho remoto, o IBGE apresenta que nesse mesmo
período 7,9 milhões de pessoas trabalhando remotamente, onde o nível de
instrução com a maior proporção de pessoas em trabalho remoto foi su-
perior completo ou pós-graduação, com 30,2 % das pessoas e 5,0 % das
pessoas com médio completo ao superior incompleto.
Os dados revelados pelo IBGE mostra a quantidade de pessoas que
em apenas um período realizaram ou ainda estão realizando o trabalho
remoto em consequência da pandemia da COVID 19. Por sua vez, até que
ponto os órgãos público ou privados estão orientando seus trabalhadores
para o cuidado não somente com a saúde mental, mas a física, sobretudo?

4. O desenvolvimento com liberdade frente ao trabalho remoto e a


COVID 19

Nota-se que a pandemia de Covid-19 está provocando uma crise sem


precedentes, ultrapassando fronteiras, sem previsibilidade e com reflexos
significativos humanitários, sociais, econômicos, culturais e de saúde pu-
blica.
Nesse sentido, a pessoa do teletrabalhador reaparece no cenário le-
gislativo brasileiro, de forma “impositiva”, devido a COVID 19, onde a Lei
nº 13.467/2017 estabelece que:

Artigo 75-E. O empregador deverá instruir os empregados, de maneira ex-


pressa e ostensiva, quanto às precauções a tomar a fim de evitar doenças e
acidentes de trabalho.
238 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Parágrafo único. O empregado deverá assinar termo de responsabilidade com-


prometendo-se a seguir as instruções fornecidas pelo empregador. (BRASIL,
2017).

Percebe-se que artigo 75-E, regulado pela CLT, enfatiza que o empre-
gador deverá instruir seus empregados, de maneira expressa e ostensiva
no tocante a prevenção de doenças e acidentes. Esquece-se, entretanto, o
legislador de disciplinar que o empregador deve disponibilizar materiais e
objetos que possa o teletrabalhador desenvolver com satisfação e eficiência
suas atividades laborais. Por exemplo: uma cadeira e mesa ergonômicos,
os meios telemáticos e informatizados de comando, além da instalação de
um provedor ou linha de internet para a realização destas atividades.
Onde está a liberdade desse teletrabalhador que “não” pode dizer ao
seu empregador que não tem condições de executar suas atividades por
motivos de falta de espaço em sua casa, sem condições de ter um provedor
que possa realizar as metas planejadas para aquele período?
A liberdade sofreu transformações com a pandemia da COVID 19
quando o teletrabalhador, além da supressão de alguns direitos laborais,
tem que “reinventar” para continuar trabalhando com a percepção do sa-
lário acordado com o empregador. Assim, recorre-se ao pensamento de
Amartya Sen (2011, p. 262-263) quando menciona que:

A liberdade é valiosa por pelo menos duas razões diferentes. Em primeiro lu-
gar, mais liberdade nos dá oportunidade de buscar nossos objetivos – tudo
aquilo que valorizamos. Ela ajuda, por exemplo, em nossa aptidão para decidir
viver como gostaríamos e para promover os fins que quisermos fazer avançar.
Esse aspecto da liberdade está relacionado com nossa destreza para realizar o
que valorizamos, não importando qual é o processo através do qual essa rea-
lização acontece. Em segundo lugar, podemos atribuir importância ao próprio
processo de escolha. Podemos, por exemplo, ter certeza de que não estamos
sendo forçados a algo por causa de restrições impostas por outros. A distinção
entre o “aspecto de oportunidade” e o “aspecto de processo” da liberdade pode
ser significativa e também de longo alcance. (SEN, 2011, p. 262-263).
Robson Antão de Medeiros | 239

Nota-se que a tecnologia avançada provoca desenvolvimento dos Es-


tados e sua consequente valorização da economia. Por sua vez, Amartya
Sen reitera que a expansão do produto como perspectiva do desenvolvi-
mento só atinge a validade a partir do momento que consegue ocasionar
a expansão das liberdades reais, ou seja, as liberdades básicas que uma
pessoa possa ter.
Pesquisa realizada pelo Grupo Estudo Trabalho e Sociedade (GETS)
da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em parceria com a Rede de
Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (Remir) revelou
que trabalhar de casa durante a pandemia tem causado sobrecarga nos
trabalhadores, com cerca de mil respostas de profissionais dos mais dife-
rentes segmentos, categorias e funções, contemplando, na maior parte,
trabalhadores do setor público (65,12%) e com alto nível de escolaridade
da cidade de Curitiba, em que do “total de trabalhadores entrevistados,
34,44% estão exercendo suas atividades laborais por mais de oito horas
diárias, 17,77% trabalham os sete dias da semana e que o ritmo de trabalho
ficou mais acelerado no home office” (TOKARSKI , 2020).
Outros dados revelados nesta pesquisa da UFPR foi que a maior difi-
culdade apontada pelos entrevistados foi a falta de contato com os colegas
de trabalho (60,55%), seguida pelo número de interrupções (54,59%) e
dificuldade em separar a vida familiar da vida profissional (52,91%), assim
como a maioria (61,15%) afirmou alguma dificuldade ao executar o traba-
lho remotamente (idem).
Novamente recorre a Amartya Sen (2015, p.93) quando aborda os di-
reitos libertários e suas consequências reais:

A prioridade inflexível dos direitos libertários pode ser particularmente pro-


blemática, pois as consequências reais da operação desses intitulamentos
podem incluir resultados terríveis. Em particular pode conduzir à violação da
liberdade substantivas dos indivíduos para realizar as coisas às quais eles têm
razão para atribuir enorme importância, como escapar à mortalidade evitável,
ser bem nutrido e sadio e saber ler, escrever e contar. A importância dessas
liberdades constitutivas não pode ser descartada com a justificativa da “prio-
ridade da liberdade formal”
240 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Vê-se a particularidade que o caso requer, quando o teletrabalhador


para manter-se ativo laboralmente, muitas vezes, submeter-se a exercer
tais situações empregatícias, pelo bem estar de sua família e salario perce-
bido ao fim do mês.
Com isso, a relação ergonômica deve ser avaliada e acompanhada de
perto para evitar danos à saúde desse teletrabalhador, com vista a realiza-
ção de sua atividade laboral, com conforte, segurança e desempenho que
a empresa necessita que é o cumprimento das metas planejadas.
A Secretaria de Vigilância em Saúde, do Departamento de Saúde Am-
biental, do Trabalhador e Vigilância das Emergências em Saúde Pública,
vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil, divulgou em julho de 2019,
Nota Informativa nº 94/2019-DSASTE/SVS/MS, quanto a orientação so-
bre as novas definições dos agravos e doenças relacionados ao trabalho do
Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que dentre ou-
tras doenças ou acidente de trabalho estão os Distúrbios Osteomusculares
Relacionados ao Trabalho (DORT) por Lesões por Esforços Repetitivos
(LER) – DORTLER, ou seja, para a Secretaria:

LER/DORT Todas as doenças, lesões e síndromes que afetam o sistema mús-


culo esquelético, causadas, mandas ou agravadas pelo trabalho (CID-10 G50-
59, G90-99, M00-99). Em geral caracterizam-se pela ocorrência de vários sin-
tomas inespecíficos, concomitantes ou não, que podem aparecer aos poucos,
tais como dor crônica, parestesia, fadiga muscular, manifestando-se principal-
mente no pescoço, coluna vertebral, cintura escapular, membros superiores
ou inferiores. (BRASIL, 2019).

Até agora o Ministério da Saúde não divulgou nenhuma outra nota


informativa no tocante as DORTLER que afetam os trabalhadores brasilei-
ros diante da pandemia da COVID 19. Os dados do IBGE, assim como a
pesquisa realizada pela UFPR revelam o quanto as pessoas estão traba-
lhando de forma remota, com suas consequências e algumas vezes a falta
de estrutura, preparo e as dificuldade vivenciadas na realização de suas
atividade laborais.
Robson Antão de Medeiros | 241

5. Conclusões

O presente trabalho buscou contribuir para a discussão das questões


do trabalho remoto, perpassando pela saúde do teletrabalhador frente a
pandemia da COVID 19, com suporte teórico, sobretudo no pensamento
de Amartya Sen.
Os elementos ensejadores dessas discussões estão presentes nos da-
dos coletadas, atualizados e que as questões de saúde do teletrabalhador
são afetadas frente ao trabalho remoto, principalmente agora em decor-
rência da COVID 19, como já mencionado anteriormente, em que esse
trabalhador, inicialmente não foi contratado para realizar o teletrabalho,
mas foi bruscamente, em sua maioria, adaptando-se, para não perder seu
vínculo empregatício.
O empregador não controla o horário de intervalo dessa ‘nova” jor-
nada de trabalho, como o intervalo de 15 minutos a cada 90 minutos
trabalhado, os Equipamentos adequados a cada trabalhador, disponibili-
zados pelo empregador, o ambiente de trabalho que é agora a residência
do trabalhador, além da ginastica laboral, como as posturas e os alonga-
mentos antes, durante e após a realização das atividades laborais não
disponibilizados pelo empregador.
Corroborando e parafraseando com o pensamento de Sen quando
enfatiza que as capacidade podem ser aumentadas pelas políticas públicas,
contanto que elas venham e sejam efetivas de acordo com os anseios da
sociedade para que ocorra o desenvolvimento.
Como consequências a hipótese almejada foi confirmada com a pre-
servação dos direitos trabalhistas, dentro das liberdades reais envolvidas,
com resguardo na saúde do teletrabalhador, particularmente na seguri-
dade social, de forma positiva para algumas empresas, com menor custo,
tendo em vista que o trabalhador fica em casa, desenvolvendo suas ativi-
dades e de forma negativa para o trabalhador, caso não tenha orientações
242 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

ergonômicas a médio e longo prazo as DORTLER, caracterizados nesse


caso, como acidentes de trabalho.

Referências

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vel em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>.
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das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de
1943, para equiparar os efeitos jurídicos da subordinação exercida por meios tele-
máticos e informatizados à exercida por meios pessoais e diretos. Disponível
em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12551.htm>.
Acesso em: 20 out. 2020.

______. LEI Nº 13.467, DE 13 DE JULHO DE 2017. Altera a Consolidação das Leis do


Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e as Leis
n º 6.019, de 3 de janeiro de 1974, 8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212, de 24 de
julho de 1991, a fim de adequar a legislação às novas relações de trabalho. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/
L13467.htm#art1>. Acesso em: 20 out. 2020.

______. Ministério da Saúde. 2019. Disponível em: <https://renastonline.


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DELOITTE. Pandemia apresenta novos desafios para o trabalho remoto. 28.05.2020.


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ROCHA, Cháris Telles Martins da; AMADOR, Fernanda Spanier. O teletrabalho: concei-
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TOKARSKI, Jéssica. Trabalhar de casa durante a pandemia tem causado sobrecarga


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mia-tem-causado-sobrecarga-nos-trabalhadores-revela-pesquisa-da-ufpr/>. Acesso
em: 20 out. 2020.
14

A renda cidadã como mecanismo de


redução das desigualdades

Júlio César de Carvalho Pacheco 1


Gabriel Silveira Pacheco 2

1. Introdução

O presente artigo tem o objetivo de analisar a possibilidade de o pro-


grama Renda Cidadã mitigar os danos causados pelas desigualdades e
enfrentar a mazela da fome, situações que atingem milhões de pessoas no
Brasil.
Para o estudo, pretende-se abordar, inicialmente, o princípio da dig-
nidade da pessoa humana, que deve servir como estandarte, como
princípio nuclear de todos os esforços no campo político, social e econô-
mico na promoção do desenvolvimento humano. Na mesma lógica e por
essa mesma razão, o artigo destacará os direitos sociais constitucionais,
com ênfase no direito à alimentação. Nesse sentido, cumpre ressaltar que
a Constituição da República elenca um rol extenso de direitos fundamen-
tais e de direitos sociais que visam instrumentalizar a concretização da
dignidade da pessoa humana.
Por fim, o estudo abordará medidas de transferência de renda, como
o Programa Bolsa-Família e o Programa Renda Mínima, dialogando sobre

1
Mestre em Direito, Desenvolvimento e Cidadania pela UNIJUI-RS, Pós-graduado em Processo Civil pelo Instituto
Brasileiro de Direito Processual – Brasília/DF e Pós-Graduado em Direito Constitucional pela ULBRA-RS.
2
Estudante do II nível do Curso de Direito da IMED-Passo Fundo.
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 245

essas iniciativas à luz da obra de Amartya Sen e do conceito de desenvol-


vimento humano na perspectiva das liberdades substantivas e
instrumentais. Identificar a transferência de renda mínima como instru-
mento de emancipação das pessoas é uma das temáticas do presente
artigo.

2. O princípio da dignidade da pessoa humana na constituição da


república

A dignidade da pessoa humana foi alçada a princípio fundamental na


Constituição da República Federativa do Brasil, nos termos do inciso III do
art. 1º. É, na verdade, segundo Piovesan (2003, p. 393) uma ideia-princí-
pio que “simboliza um verdadeiro superprincípio constitucional, a norma
maior a orientar o constitucionalismo contemporâneo, dotando-lhe espe-
cial racionalidade, unidade e sentido.”
Conceituar o sentido de dignidade da pessoa humana não é tarefa
fácil, mas Sarlet traz uma noção interessante sobre o conteúdo do princí-
pio:

“[...] qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor
do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, im-
plicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que
assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e
desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas
para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa
e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão
com os demais seres humanos.” (SARLET, 2004, p. 36)

Por sua vez, Carbonari (2004, p. 91) analisa que “a dignidade não é
um dado natural ou um bem (pessoal ou social); a dignidade é a constru-
ção de reconhecimento e, portanto, luta permanente contra a exploração,
o domínio, a vitimização, a exclusão”.
Dadas essas premissas essenciais do princípio da dignidade da pessoa
humana, é fundamental enfatizar que a positivação do princípio no texto
246 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

constitucional não garante a efetividade de sua intenção. A concretização


da dignidade se faz por meio de políticas públicas e ações concretas desti-
nadas a assegurar o estado de bem-estar social às pessoas. No dizer de
Dallari (2004, p. 46) diz que não basta “afirmar que todos são iguais pe-
rante a lei; é indispensável que sejam assegurados a todos, na prática, um
mínimo de dignidade e igualdade de oportunidades”
Nesse sentido, cumpre ressaltar que a Constituição da República
elenca um rol extenso de direitos fundamentais e de direitos sociais que
visam instrumentalizar a concretização da dignidade da pessoa humana.
Para o presente artigo, importante frisar o âmbito dos direitos sociais
pela sua proximidade com as necessidades econômicas do cidadão.
Os direitos sociais estão insculpidos na Carta Constitucional no art.
6º e incluem a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o
transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à mater-
nidade e à infância e a assistência aos desamparados.
Nesse passo, os direitos sociais asseguram o direito à alimentação e à
assistência aos desamparados, garantias que, juntamente com as demais,
têm o caráter de erradicar a pobreza e viabilizar que as pessoas tenham
acesso ao mínimo existencial indispensável à sobrevivência. Sem alimen-
tação, ninguém sobrevive.
O direito à alimentação, incluído como direito social em 2010, ganha
importância num país que convive com a morte de pessoas pela tragédia
da fome e que convive com a privação de direitos por causa da extrema
pobreza e da falta de renda por parte de significativo contingente de bra-
sileiros.
É de se salientar, no entanto que, embora a Constituição somente te-
nha contemplado expressamente esse direito no ano de 2010, através da
Emenda Constitucional nº. 64, a Carta Magna já previa, de maneira indi-
reta, o direito à alimentação. Nas palavras de Burity e Zimmermann:

“Vários instrumentos do sistema internacional de proteção aos direitos huma-


nos foram ratificados pelo Brasil e, segundo o artigo 5º, § 2º, adquiriram
status de norma constitucional. A Constituição Federal de 1988 consagrou
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 247

princípios cruciais para a implementação do direito humano à alimentação,


nos seus artigos 7º, 23, 208 e 227. Todos esses dispositivos devem ser inter-
pretados de acordo com os princípios internacionais de Direitos Humanos.”
(BURITY; ZIMMERMANN, 2004, P. 107)

Nesse contexto, importante estabelecer resumidamente a diferença


teórica entre direitos fundamentais, direitos humanos e direitos sociais.
Os primeiros, direitos fundamentais, são aqueles elencados pelas Consti-
tuições, aplicáveis, deste modo, aos Estados nacionais que os adotarem.
São exemplos de direitos fundamentais no Brasil a proteção à vida, à liber-
dade, à igualdade, à segurança, à propriedade (art. 5º, caput, da
Constituição Federal), bem como as demais garantias previstas nos arts.
5º a 17 da Constituição.
Já os direitos humanos decorrem de tratados e declarações internaci-
onais. Alcançam, portanto, não somente os indivíduos pertencentes a
determinados Estados, mas sim a todo e qualquer ser humano de qualquer
parte do mundo; daí o seu caráter universal.
Por sua vez, os direitos sociais, que são intimamente ligados ao prin-
cípio da solidariedade, de acordo com Comparato (2010, p. 77) “se
realizam pela execução de políticas públicas, destinadas a garantir amparo
e proteção social aos mais fracos e mais pobres; ou seja, aqueles que não
dispõem de recursos próprios para viver dignamente”.
Seu conceito, segundo Tavares (2012, p. 837), destaca a igualdade
material, ao afirmar “que exigem do Poder Público uma atuação positiva,
uma forma atuante de Estado na implementação da igualdade social dos
hipossuficientes. São, por esse exato motivo, conhecidos também como di-
reitos a prestação, ou direitos prestacionais”.
De outra parte, Silva enaltece o compromisso do Estado com presta-
ções positivas no âmbito dos direitos sociais:

“[...] são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indireta-


mente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores
condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização
248 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito


de igualdade.” (SILVA, 2009, p. 286-287)

Nas palavras de Arruda Alvim (2009, p. 272), “Os direitos sociais cui-
dam, predominantemente, dos direitos daqueles que se encontrem em
situações diferenciadas e que, por isso, necessitam de tutela especial do
Estado”.
Assim, define os direitos sociais como:

“[...] direitos subjetivos de natureza predominantemente individual, voltados


à concretização da dignidade humana em termos substancialmente isonômi-
cos, cuja concretização depende, no mais das vezes, da postura ativa do Estado
no sentido de assegurar tratamento especial aos indivíduos que se insiram em
grupos particulares.” (ALVIM, 2009, p. 274 e 275)

Os direitos sociais são direitos fundamentais protegidos constitucio-


nalmente, uma vez que constam no Título II da Constituição Federal do
Brasil – Dos Direitos e Garantias Fundamentais – o qual possui cinco ca-
pítulos, sendo o segundo referente aos direitos sociais.
Ao afirmar que os direitos sociais são direitos fundamentais, estando
no mesmo patamar do catálogo do art. 5º da Constituição Federal, fica
evidenciada a ideia de que os direitos sociais do art. 6º e seguintes da Carta
Política e Jurídica do país estão protegidos pelas cláusulas pétreas do art.
60, não podendo ser suprimidos, reduzidos ou reformados pelo legislador
comum. São direitos petrificados, que concebem apenas a possibilidade de
reformas tendentes a aperfeiçoá-los e ampliá-los, inadmitindo o retrocesso
social.
Além disso, pertencem à categoria dos direitos humanos, uma vez
que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabeleceu a
proteção aos direitos sociais em seu artigo XXII:

Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à


realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo
com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais
e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 249

personalidade. (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS,


1948)

Nessa perspectiva, a toda evidência é essencial interpretar que se o


Estado brasileiro, ao assegurar o princípio da dignidade da pessoa humana
e ao introduzir os direitos sociais na sua Carta Constitucional assumiu um
compromisso de efetivar as bases de consecução dessas garantias. Erradi-
car a pobreza é uma das garantias que deve ser perseguida pelo Estado.
Por demandar uma atuação positiva do Estado é que a Renda Cidadã
ou programas que transfiram renda para as pessoas em situação de vul-
nerabilidade mostram-se como efetivos meios de implementação do
princípio da dignidade da pessoa humana e do direito social à alimentação
e a assistência dos desamparados, assunto a ser abordado no próximo tó-
pico.

3. A renda cidadã

Os dados mais recentes sobre a pobreza no mundo e a expansão da


exclusão econômica do Brasil revelam um quadro alarmante, potenciali-
zado pela pandemia do Covid-19. A necessidade de isolamento social, a
perda de renda das pessoas que vivem da informalidade deu números
grandiosos ao problema da fome e da escassez de recursos para milhões
de famílias.
Esse quadro econômico caótico forçou o governo federal a adotar me-
didas de distribuição de renda para que milhões de pessoas pudessem
sobreviver. Partindo do cadastro dos beneficiários do Programa Bolsa Fa-
mília, ampliou-se a lista de pessoas em situação de vulnerabilidade por
falta de renda para enfrentar o período de isolamento social.
O Bolsa-família é um programa criado por força da Lei n.º 10.836, de
9 de janeiro de 2004. O Programa estabeleceu a unificação dos procedi-
mentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do
Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mí-
nima vinculado à Educação - Bolsa Escola, do Programa Nacional de
250 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Acesso à Alimentação - PNAA, do Programa Nacional de Renda Mínima


vinculada à Saúde - Bolsa Alimentação, do Programa Auxílio-Gás, e do Ca-
dastramento Único do Governo Federal.
A lei que criou o Bolsa-Família relaciona como benefícios financeiros
do programa o benefício básico, destinado a unidades familiares que se
encontrem em situação de extrema pobreza; o benefício variável, desti-
nado a unidades familiares que se encontrem em situação de pobreza e
extrema pobreza e que tenham em sua composição gestantes, nutrizes,
crianças entre 0 (zero) e 12 (doze) anos ou adolescentes até 15 (quinze)
anos, sendo pago até o limite de 5 (cinco) benefícios por família; o benefício
variável, vinculado ao adolescente, destinado a unidades familiares que se
encontrem em situação de pobreza ou extrema pobreza e que tenham em
sua composição adolescentes com idade entre 16 (dezesseis) e 17 (dezes-
sete) anos, sendo pago até o limite de 2 (dois) benefícios por família, o
benefício para superação da extrema pobreza, no limite de um por família,
destinado às unidades familiares beneficiárias do Programa Bolsa Família
e que, cumulativamente tenham em sua composição crianças e adolescen-
tes de 0 (zero) a 15 (quinze) anos de idade e apresentem soma da renda
familiar mensal e dos benefícios financeiros igual ou inferior a R$ 70,00
(setenta reais) per capita.
O valor pago às famílias no Brasil não é significativo, tendo somente
a função de atender as mínimas necessidades.
A lei federal inclui objetivos básicos do Programa Bolsa Família, os
quais teriam em tese o intuito de promover a emancipação do cidadão,
como destacado nos objetivos da norma jurídica: promover o acesso à rede
de serviços públicos, em especial, de saúde, educação e assistência social;
combater a fome e promover a segurança alimentar e nutricional; estimu-
lar a emancipação sustentada das famílias que vivem em situação de
pobreza e extrema pobreza; combater a pobreza; e promover a interseto-
rialidade, a complementaridade e a sinergia das ações sociais do Poder
Público.
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 251

Segundo dados do governo, divulgado no Relatório de Informações


Sociais – SAGI do Ministério da Cidadania, em novembro de 2018 estavam
cadastrados no Programa Bolsa Família 14,2 milhões de famílias. Em
março de 2020, quando foram repassados pelo governo recursos da Renda
Básica Emergencial de enfrentamento à Pandemia do Covid-19 estavam
cadastrados 13.058.228 famílias, com cerca de 1,7 milhão de famílias na
lista de espera para a confirmação no cadastro.
Não há dúvidas de que a transferência da renda básica emergencial
mitigou os efeitos da crise econômica, já acentuada em razão do elevado
percentual de desemprego e do aumento de trabalhadores na economia
informal, submetidos a relações precárias de trabalho.
A solução adotada em meio à pandemia que é transitória para o mo-
mento de crise de saúde, não pode ser ignorada diante de um contingente
de cidadãos que estão à margem do sistema econômico, que sobrevivem
de donativos, de coleta e venda de lixo para empresas de reciclagem, que
vivem da informalidade e não estão distantes das benesses do capitalismo.
É inegável que o Estado tem se mostrado impotente jurídica e politi-
camente para resolver essa mazela econômica, a qual tem reflexos
sensíveis nos problemas sociais. A miséria causa problemas sociais porque
a fome nunca age solitariamente. Quem tem fome se vê excluído das be-
nesses do mundo, não tem acesso à educação, aos serviços de saúde, ao
trabalho, à previdência social, ao lazer, à cultura, pois a condição econô-
mica submete às pessoas a uma vida marginal, tanto do ponto de vista
existencial, quanto político.
Da fome e da miséria, surgem milhões de sujeitos que representam o
que Jessé de Souza (2009) chama de “a ralé de inadaptados às demandas
da vida produtiva e social modernas”. São dezenas de milhões de pessoas
segregadas e relegadas “a uma vida trágica do ponto de vista material e
espiritual”, formando uma subgente.
A estratégia de criação de mecanismos administrados pelo Estado,
com a participação dos segmentos econômicos e produtivos do país, pode
252 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

e deve ser encarada como uma alternativa para o enfrentamento da tragé-


dia da fome e da miséria.
Pensar em políticas de governo a partir da transferência de renda,
vinculados à efetivação de programas que visem à emancipação das pes-
soas humanas e a promoção do bem-estar do cidadão é medida urgente e
necessária para viabilizar a segurança da renda num Estado de bem-estar
social, conforme assegura a Carta Constitucional brasileira.
Resolver o flagelo da fome é questão primária e humanitária, neces-
sárias à promoção da cidadania e da dignidade da pessoa humana, que são
princípios fundamentais da CF/1988, consoante se depreende do art. 1º da
Carta Política e Jurídica do Brasil.
Cabe lembrar que no Estado democrático de direito brasileiro, o di-
reito à alimentação foi alçado pela Emenda Constitucional n.º 64 de 2010
à condição de direito fundamental, mas isso não foi e não é suficiente para
que todos tenham acesso aos alimentos necessários à sua sobrevivência.
Ao contrário, a elevação do direito à alimentação ao topos constitucional,
se dá num período histórico em que a falta de alimentos se acentua nas
camadas mais pobres da sociedade de forma acelerada.
É, pois, essencial, discutir o programa da Renda Cidadã ou programas
similares, na perspectiva de inverter a lógica do Orçamento Público, cada
vez mais voltado a produzir renda em favor da elite dos donos do mercado,
permitindo a transferência de renda com viés da erradicação da pobreza e
da emancipação do cidadão.
No Brasil, o programa federal conhecido pela denominação de Bolsa-
Família, em determinados momentos de sua execução, garantiu renda
para cerca de 11,3 milhões de pessoas. Elas recebiam, em média, oitenta e
cinco reais por mês, nos anos 2004-2005, valor que apesar de modesto,
produziu círculos virtuosos de crescimento econômico com sustentabili-
dade, servindo não só para investimentos, mas, especialmente, para que
muitos cidadãos tivessem acesso, minimamente, a um prato de comida
por dia, reduzindo a exclusão e a miséria social e econômica.
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 253

As metas de inclusão social e o combate à concentração de renda fi-


zeram parte do Plano Plurianual para o período 2004-2007 e foram
ratificadas para o período posterior, conforme destaca Rezende e Cunha:

a nova administração sinaliza o seu compromisso com a implementação gra-


dual de mudanças na estratégia de desenvolvimento, a qual deverá pautar-se
pela busca dos seguintes objetivos: inclusão e desconcentração da renda com
vigoroso crescimento do produto e do emprego; crescimento ambientalmente
sustentável, redutor de disparidades regionais, dinamizado pelo mercado de
consumo de massa, por investimentos e por elevação da produtividade; redu-
ção da vulnerabilidade externa por meio da expansão das atividades
competitivas que viabilizam esse crescimento sustentado; e fortalecimento da
cidadania e da democracia. (REZENDE; CUNHA, 2008-2011, p. 135)

A necessidade de limitar o debate sobre o tema à estrutura de um


artigo jurídico não permite o aprofundamento teórico de todos os concei-
tos de renda básica, aliás, não há consenso entre doutrinadores em como
definir a Renda Básica.
Existem experiências no mundo que tentam implantar programas de
renda básica de forma universal, não levando em consideração as carên-
cias de cada família. O tema é tratado por Philippe Van Parijs em suas
obras.
Nesse sentido, cabe destacar que a renda básica tem essa caracterís-
tica de enfrentar o problema com um viés meramente econômico, como
adverte Francine Mestrum:

Essas diferenças e essa confusão também explicam porque a “renda básica”


pode ser promovida por progressistas e por conservadores, com objetivos
muito diferentes. Enquanto os conservadores olharão para a macroeconomia
(inflação) ou o mercado de trabalho (incentivos, salários mínimos), os pro-
gressistas estarão preocupados com a pobreza, igualdade, segurança de renda
e bem-estar. (MESTRUM, 2020)

Com base na profusão de conceitos sobre o tema, o presente artigo


foca-se na ideia de uma renda mínima, cidadã, direcionada para as famílias
mais pobres e desempregados, na busca da erradicação da pobreza, mas
254 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

não exclusivamente com esse objetivo, na medida em que apenas a trans-


ferência de renda, sem o cuidado com o desenvolvimento integral da
pessoa humana, não resolve o problema central da miséria e da exclusão,
que não se limita ao econômico.

4. Amartya Sen

De acordo com a análise de Amartya Sen, o auxílio no formato pecu-


niário não basta para que um estado de desenvolvimento humano seja
alcançado. O economista e filósofo entende que são necessárias liberdades
substantivas e instrumentais garantidas ao indivíduo, ou seja, capacidades
elementares que possibilitem às pessoas encontrarem suas oportunidades
sem privações dos direitos intrínsecos à dignidade humana. Para tanto,
Sen explica em seu livro Desenvolvimento como liberdade, que a expansão
da liberdade (substancial e instrumental) é considerada simultaneamente,
o fim primordial e o principal meio para o alcance do desenvolvimento.
Ou seja, o vínculo formado entre a liberdade de um indivíduo e o desen-
volvimento social do meio em que vive, provoca não só a necessidade de
garantir que a pessoa tenha capacidade de satisfazer economicamente cer-
tas necessidades humanas, mas também de efetivar a capacidade de dispor
amplamente suas liberdade e oportunidades. Para tanto, na situação de
um governo democrático e com princípios constitucionais bem definidos,
cabe ao Estado a responsabilidade de garantir a existência real dos itens
citados, reforçando o seu papel de defensor dos cidadãos, com o desenvol-
vimento de políticas públicas eficazes para aqueles que de outra forma não
encontrariam suas oportunidades, assim como dificilmente possuiriam a
capacidade de aproveitá-las.
Para que se entenda a importância da expansão das liberdades do in-
divíduo, esse processo expansivo precisa manter-se à luz das definições de
capability e da condição de agente, muito referidas por Sen. Ao utilizar o
termo traduzido como capacidade, Sen sinaliza as possibilidades de esco-
lha de uma pessoa, e explica que “já que a ideia de capacidade está ligada
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 255

à liberdade substantiva, ela confere um papel central à aptidão real de uma


pessoa para fazer diferentes coisas que ela valoriza [...]” (SEN, 2011, p.
287).
Quando as capabilities são analisadas a fim de demonstrar o caminho
correto para o desenvolvimento social, encontra-se a dificuldade de propor
apenas a distribuição de renda à população para garantir a expansão das
capacidades. Pelo entendimento comum, a distribuição de recursos finan-
ceiros poderia evitar a privação da capacidade, porém de maneira díspar,
Sen entende que a pobreza não implica de maneira igualitária um estado
de privação de capacidade, ao perceber que na condição de pobreza, so-
mada com alguma possível incapacidade (características que podem ir
desde uma deficiência até condições epidemiológicas, por exemplo), certo
indivíduo precisaria de muito mais do que acréscimos financeiros, como
explica ao dizer:

“[...] pessoas diferentes podem ter oportunidades completamente diferentes


para converter a renda e outros bens primários em características da boa vida
e no tipo de liberdade valorizada na vida humana. Assim, a relação entre os
recursos e a pobreza é variável e profundamente dependente das característi-
cas das respectivas pessoas e do ambiente em que vivem – tanto natural como
social.” (SEN, 2011, p. 289)

Como criador do Índice de Desenvolvimento Humano, notoriamente,


Sen possui o discernimento das qualidades e características que podem
demonstrar possível equilíbrio social, assim como a capacidade de avalia-
ção dos níveis de pobreza e desenvolvimento. Portanto, com sua
perspectiva, torna-se mais fácil entender fatores variáveis da sociedade,
como a riqueza por exemplo, que novamente vem à tona para ressaltar o
inadequado valor que se dá à ela. Segundo Aristóteles, citado por Sen: “é
evidente que a riqueza não é o bem que procuramos, pois é meramente
útil e em proveito de alguma outra coisa” (SEN, 2011, p. 287).
Sobrepondo-se aos bens primários, encontram-se as liberdades subs-
tantivas e instrumentais, citadas anteriormente, e que agora receberão
devida atenção. As liberdades substantivas devem ser interpretadas de
256 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

acordo com sua importância em relação ao mínimo existencial da vida hu-


mana, ou seja, como explicado por Sen:

“[...] incluem capacidades elementares como por exemplo ter condições de


evitar privações como a fome, a subnutrição, a morbidez evitável e a morte
prematura, bem como as liberdades associadas a saber ler e fazer cálculos arit-
méticos, ter participação política e liberdade de expressão etc.” (SEN, 2000, p.
52)

Após a análise inicial de sua definição, as liberdades substantivas po-


dem receber um novo olhar, caracterizado pelo seu possível papel
constitutivo ou instrumental. Sobre a perspectiva do primeiro, extrai-se a
interpretação de que o desenvolvimento humano envolve a expansão das
liberdades citadas. Já sobre a perspectiva do segundo, as próprias liberda-
des básicas recebem a classificação de instrumentais, e como demonstrado
por Sen, podem ser divididas em grupos diferentes, de acordo com a sua
aplicabilidade em gênero, são eles: liberdades políticas, facilidades econô-
micas, oportunidades sociais, garantias de transparência e segurança
protetora. Cada um dos grupos citados refere-se exclusivamente à dispo-
sição de oportunidades em função de direitos estabelecidos com base nos
próprios princípios que originaram as liberdades substantivas. Para a si-
tuação abordada, todos os grupos constituem alto nível de importância,
contudo, faz-se necessária ênfase na denominada segurança protetora
que, parafraseando Sen (2000, p. 57): “[...] é necessária para proporcionar
uma rede de segurança social, impedindo que a população afetada seja re-
duzida à miséria abjeta e, em alguns casos, até mesmo à fome e à morte.”
Ou seja, interpreta-se que a segurança social, as liberdades e a política pú-
blica são interligadas pela complementação mútua que suas funções
geram. Pela mesma perspectiva, o papel que as políticas públicas atuam,
se devidamente concentradas na criação de oportunidades, de acordo com
Sen (2000, p. 58), contraria e abala “a crença tão dominante em muitos
círculos políticos de que o ‘desenvolvimento humano’ [...] é realmente um
tipo de luxo que apenas os países mais ricos podem se dar.”
Júlio César de Carvalho Pacheco; Gabriel Silveira Pacheco | 257

5. Conclusão

O presente artigo procurou evidenciar a importância dos programas


de distribuição de renda principalmente na perspectiva de que combina-
dos com outras medidas e programas possam refletir do desenvolvimento
humano, concretizando o princípio constitucional da dignidade da pessoa
humana e implementando com o desenvolvimento econômico os direitos
sociais. A defesa dos direitos sociais e sua efetivação exigem de parte do
Estado e da sociedade introduzir como prioridade em seus projetos políti-
cos e econômicos a realização destes direitos como caminho de
emancipação e valorização da dignidade da pessoa humana.
O estudo demonstrou que os dados mais recentes sobre a pobreza no
mundo e a expansão da exclusão econômica do Brasil revelam um quadro
alarmante, potencializado pela pandemia do Covid-19.
Nesse contexto, o programa Renda Cidadã pode ser um instrumento
eficaz tanto na mitigação do cenário da fome e da miséria, quanto no de-
senvolvimento de projetos com as pessoas envolvidas no programa,
visando promover o acesso à rede de serviços públicos, em especial, de
saúde, educação e assistência social; combater a fome e promover a segu-
rança alimentar e nutricional; estimular a emancipação sustentada das
famílias que vivem em situação de pobreza e extrema pobreza; combater
a pobreza; e promover a intersetorialidade, a complementaridade e a si-
nergia das ações sociais do Poder Público.
Conclui-se que não há dúvidas de que a transferência da renda básica
emergencial atenuou os efeitos da crise econômica, já acentuada em razão
do elevado percentual de desemprego e do aumento de trabalhadores na
economia informal, submetidos a relações precárias de trabalho. Porém,
essa solução transitória e paliativa, deve ser encarada como uma necessi-
dade permanente e duradoura de transferência renda, cumulada com um
conjunto de ações que não se limitem ao formato pecuniário, mas, para
além disso, busquem-se ressignificados para o programa visando concre-
tizar as necessárias liberdades substantivas e instrumentais garantidas ao
258 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

indivíduo, ou seja, capacidades elementares que possibilitem que as pes-


soas encontrem suas oportunidades sem privações dos direitos intrínsecos
à dignidade humana.
O estudo permitiu chegar-se a conclusão de que é necessário estru-
turar um programa de Renda Cidadã como projeto de Estado e não apenas
de um governo, possibilitando que as pessoas tenham capacidade de satis-
fazer economicamente certas necessidades humanas, principalmente
evitando que morram de fome, mas também de efetivar a capacidade de
dispor amplamente suas liberdade e oportunidades.

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15

O auxílio emergencial:
a implementação de direitos humanos
no contexto da pandemia do COVID-19

Laiana Karolina Demenech 1

1 Introdução

A conexão entre Direitos Humanos em sentido global e determinado


contexto local não poderia ser diferente no atual contexto da pandemia do
COVID-19, já que para conter sua propagação houve mobilização de agen-
tes internacionais, nacionais, regionais e locais. O isolamento social foi a
medida protetiva orientada para garantir a melhor prevenção, o que levou
ao fechamento do comércio, a restrição da circulação de pessoas nas ruas,
a impossibilidade de aglomeração, sendo mantidos ativos apenas os servi-
ços essenciais, como hospitais, farmácias e mercados.
Em que pese o isolamento social garantir a não contaminação pelo
COVID-19, este fato social trouxe efeitos adversos, destacando-se o caso
dos trabalhadores (microempreendedor individual, contribuinte indivi-
dual/facultativo ou trabalhador informal, seja empregado, autônomo ou
desempregado) que deixaram suas atividades laborais e perderam a renda
para prover o sustento próprio e do seu grupo familiar. No Brasil, para
estancar estes efeitos adversos foi estabelecido o pagamento de um auxílio

1
Mestranda em Direito pela Faculdade IMED de Passo Fundo/RS. Taxista CAPES/PROSUP. Graduada em Direito
pela Faculdade Anhanguera de Passo Fundo. Advogada. Membro do Centro Brasileiro de Pesquisas sobre a Teoria da
Justiça de Amartya Sen. Membro do grupo de pesquisa Direitos Culturais e Pluralismo Jurídico. E-mail:
<laianademenech@gmail.com>. Currículo Lattes: <http://lattes.cnpq.br/040439135278354>.
262 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

emergencial. O benefício visa o pagamento de um valor monetário para os


trabalhadores referidos que possam ser enquadrados como família de
baixa renda.
Assim, percebe-se que a defesa da população contra o COVID-19 é um
assunto global e envolve a defesa de toda humanidade para evitar desas-
tres ainda maiores. A luta por Direitos Humanos está presente neste
cenário, ainda mais clamante ao se visualizar a quantidade de mortes que
ocorrem em todo o mundo, dia após dia, devido a contaminação pelo
COVID-19. Em que pese o pânico ser geral, as desigualdades sociais dis-
postas entre os países desenvolvidos, em desenvolvimento e os
subdesenvolvidos, bem como as desigualdades em regiões dentro de um
mesmo país, fazem com que determinadas pessoas sejam mais prejudica-
das que outras. Relativamente a estas desigualdades sociais que o
pagamento do auxílio emergencial ocupou um espaço de destaque. Os Di-
reitos Humanos envolvidos no pagamento do auxílio emergencial
desmembram-se do princípio da dignidade humana, designando-se o di-
reito ao trabalho, à saúde e à assistência social.
Outrossim, a pandemia trouxe à tona um contexto severo de desi-
gualdades sociais e pobreza, uma vez que a estimativa de beneficiários do
auxílio emergencial, no mês de agosto de 2020, está prevista em 72,0 mi-
lhões de pessoas, conforme dados coletados no site do Tribunal de Contas
da União (TCU). O alto nível de pessoas que solicitaram o auxílio emer-
gencial evidencia emergente necessidade da atuação governamental para
reverter tais índices. Discute-se, nesse contexto, a possibilidade de ser es-
tabelecido um benefício de renda básica para todos indistintamente, ou
seja, independente da classe social em que esteja inserido.
Busca-se evidenciar os graves problemas sociais oriundos da pande-
mia do COVID-19, bem como debater soluções mais concretas acerca dos
altos níveis de desigualdade social e pobreza desvelados. Assim, pretende-
se investigar o auxílio emergencial como meio de implementação de Direi-
tos Humanos, a necessidade de soluções de emergência para momentos
Laiana Karolina Demenech | 263

absolutamente atípicos e os impactos sociais revelados durante a pande-


mia do COVID-19. Problematiza-se: De que forma o auxílio emergencial
pode ser identificado como meio de implementação de Direitos Humanos?
O objetivo geral visa apresentar o auxílio emergencial como meio de
implementação dos Direitos Humanos, ressaltando-se as possíveis solu-
ções que podem advir em contextos atípicos e, ainda, a possibilidade de
resposta ao grave problema de desigualdades sociais e pobreza evidencia-
dos durante a pandemia do COVID-19. Para tanto, traça-se os seguintes
objetivos específicos: 1) apresentar o auxílio emergencial no tocante aos
seus requisitos e previsão legal; 2) descrever o transcurso histórico dos
Direitos Humanos e as críticas contra estes direitos; e 3) investigar auxílio
emergencial como instrumento de proteção dos direitos humano e a renda
básica cidadã. A hipótese é o auxílio emergencial é um meio de implemen-
tação dos Direitos Humanos e evidencia a necessidade de estabelecimento
de um benefício de renda básica. Justifica-se a importância por meio da
pesquisa científica de episódios atípicos, como a pandemia do COVID-19,
mostra-se um meio de encontrar alternativas e soluções para momentos
de crise e, quiçá, propostas para minimizar a desigualdade social brasi-
leira. Faz-se uso do método dedutivo e da técnica de pesquisa bibliográfica,
a fim de observar como os ideais dos Direitos Humanos e os referenciais
teóricos de Amartya Sen e Stefano Rodotà estão alinhados com a realidade
social.
Estrutura-se o estudo em três etapas distintas: primeiramente, apre-
senta-se a previsão legal e os requisitos do auxílio emergencial; em
segundo plano, descreve-se o transcurso histórico dos Direitos Humanos
e as críticas auferidas contra estes direitos; e por fim, analisa-se o auxílio
emergencial como possibilidade de concretização dos Direitos Humanos e
aponta-se soluções para os altos índices de exclusão social ressaltados no
contexto da pandemia do COVID1-19
264 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

2 A previsão legal e os requisitos do auxílio emergencial

A Lei n.º 13.982, de 02 de abril de 2020, entra em vigor no cenário


nacional para estabelecer, dentre outros objetivos, “medidas excepcionais
de proteção social a serem adotadas durante ao período de enfrentamento
da emergência de saúde de importância internacional decorrente do coro-
navírus (COVID-19) responsável pelo surto de 2019, a que se refere a Lei
n.º 13.979, de 6 de fevereiro de 2020”.
No artigo 2º da Lei n.º 13.982/2020 foi instituído o benefício de au-
xílio emergencial, que objetiva, enquanto medida excepcional, fornecer
proteção social durante o período de enfrentamento à pandemia do
COVID-19 a trabalhadores informais, autônomos desempregados e mi-
croempreendedores individuais (MEI) que tiveram seu sustento
comprometido devido ao isolamento social.
O benefício de auxílio emergencial equivale ao valor de seiscentos re-
ais mensais, estando previsto o pagamento por cinco meses para até duas
pessoas do mesmo grupo familiar. Ainda, nos casos de mulher provedora
de família monoparental, ou seja, única responsável pelo sustento da fa-
mília, a renda equivalente à hum mil, duzentos reais.
Alguns cidadãos contemplados estão registrados no Cadastro Único
do Governo Federal, desde que atendam as regras para percepção do be-
nefício. O benefício do Programa Bolsa Família será substituído pelo
auxílio emergencial nas situações em que este for mais vantajoso. Aos de-
mais cidadãos não inscritos no Cadastro Único estipulou-se o cadastro
para a percepção do benefício de auxilio emergencial por meio do site ou
aplicativo da Caixa Econômica Federal (CEF).
Os requisitos do auxílio emergencial são cumulativos e estão dispos-
tos no art. 2º da Lei n.º 13.982/2020, quais sejam: a) maioridade legal, ou
seja, possuir idade superior a 18 anos de idade, salvo no caso de mães ado-
lescentes; b) não possuir emprego com registro na Carteira de Trabalho e
Previdência Social (CTPS); c) não ser destinatário de benefício previdenci-
ário ou assistencial, seguro desemprego ou de outro programa de
Laiana Karolina Demenech | 265

transferência de renda federal, não incluso o Bolsa Família; d) renda fami-


liar mensal per capita de até meio salário mínimo (R$ 522,50 no ano de
2020) ou a renda familiar mensal total de três salários mínimos (R$
3.135,00 no ano de 2020; e) não ter rendimentos tributáveis, no ano de
2018, superiores a R$ 28.559,70; f) estar desempregado ou exercer as ati-
vidades como microempreendedor individual (MEI), contribuinte
individual/facultativo do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) ou
ser trabalhador informal, seja empregado, autônomo ou desempregado,
inclusive o intermitente inativo, inscrito no Cadastro Único para Progra-
mas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) até 20 de março de 2020, ou
que, nos termos de autodeclaração, cumpra o requisito da renda familiar
mensal per capita ou renda familiar mensal total; e f) não ser agente pú-
blico, independentemente da relação jurídica, inclusive os ocupantes de
cargo ou função temporários ou de cargo em comissão de livre nomeação
e exoneração e os titulares de mandato eletivo.
O auxílio emergencial compõe a principal atitude do Governo Federal
para minimizar os efeitos sociais oriundos das medidas restritivas e do
isolamento social impostas para o enfrentamento da emergência de saúde
decorrente do COVID-19.
Diante do número de beneficiados do auxílio emergencial e as condi-
ções econômicas da população brasileira, pode-se constatar que o
montante de indivíduos beneficiários do auxílio emergencial é alto em re-
lação ao total estimado da população brasileira. De acordo com dados
coletados no site do Tribunal de Contas da União (TCU), percebe-se que,
no mês de agosto do ano de 2020, o total de 72,0 milhões de pessoas foram
beneficiadas com o auxílio emergencial, ao passo que o total da população
brasileira está estimado em 212 milhões, de acordo com dados do IBGE
lançados no dia 04 de novembro de 2020.
A expressividade do número de beneficiados evidencia que o pro-
blema social brasileiro no tocante a geração de renda para os cidadãos não
é originária apenas do isolamento social decretado durante a pandemia,
mas anterior e mostra que grande parte da população brasileira é pobre
266 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

ou extremamente pobre. Assim, necessária a interferência política para re-


verter os índices, de modo que todos possam dispor do acesso aos Direitos
Humanos de saúde, de assistência social e do trabalho. Ainda, a divulgação
de fraudes no recebimento do benefício não é capaz de descaracterizar o
problema social referido.
Sen (2010) preocupa-se com estas questões sociais e retrata que pri-
vações de renda configuram privações de liberdades essenciais, em
especial a de liberdade econômica, a qual repercute em diversos espaços
da vida do indivíduo. O autor (2010) discute a importância do mecanismo
de mercado para o crescimento econômico e progresso econômico global,
mas esta preocupação vem depois do reconhecimento do valor direto da
liberdade de troca – palavras, bens, presentes.
Neste ponto, não se contraria a importância do mercado, porém, fun-
damental analisar a persistência de privações entre classes sociais que
continuam excluídas do intercâmbio econômico, bem como valorizar os
juízos e as críticas que as pessoas podem realizar sobre estilos de vida e
valores relacionados à cultura dos mercados.
Sen (2010) ressalta que o processo de desenvolvimento não dispensa
o uso dos mercados, mas este fato não elimina o papel do custeio social, da
regulamentação pública ou da boa condução dos negócios do Estados para
o enriquecimento da vida humana. O autor (2010, p. 23) salienta que “a
privação de liberdade econômica, na forma de pobreza extrema, pode tor-
nar a pessoa indefesa na violação de outros tipos de liberdade”.
Assim, não se pode fechar os olhos para privações de renda e recursos
que ficaram evidenciadas, ainda mais, durante o período pandêmico no
Brasil. Precisa-se debater e aguçar a importância da liberdade econômica
para todos os seres humanos, em especial aqueles pobres e excluídos soci-
ais, reconhecendo-se, nesta perspectiva, a importância do deferimento do
auxílio emergencial no Brasil para estancar tais privações. Neste sentido,
nota-se também a importância da interferência estatal para manter o equi-
líbrio das relações sociais e econômicas.
Laiana Karolina Demenech | 267

Contudo, conforme ficará evidenciado no próximo capítulo, não se


pode deixar a responsabilidade apenas nas mãos do Estado e, sim, promo-
ver a mobilização de todos em sentido global, haja vista que, em que pese
o Estado possa interferir na sociedade, existem relatos significativos de
Rodotà (2014) e Sen (2010) em que os próprios Estados são violadores de
Direitos Humanos. Por este motivo, torna-se necessário entender o surgi-
mento dos Direitos Humanos e perceber se as críticas a sua efetividade
realmente merecem ser acolhidas.

3 A origem dos direitos humanos e as críticas à efetividade

Márcio Ricardo Staffen e Leandro Caletti (2017) apresentam o pro-


cesso de reconhecimento dos Direitos Humanos desde o contexto medieval
até o período atual, demonstrando como a lógica destes foram projetadas
no transcurso da história.
Para os autores, na época medieval, São Tomás de Aquino projetou
os Direitos Humanos interligando razão e fé, porém, os reflexos da teoria
na realidade projetaram subordinação e medo a lei divina, de modo que
não se questionava os acontecimentos do presente e do futuro. Este fator
foi fundamental para manter estável a organização social da época, ou seja,
a distribuição de poder e da riqueza atrelada aos critérios consanguíneos.
Staffen e Caletti (2017) explicam que foram necessárias revoluções de
pensamento do ideal dos Direitos Humanos, passando-se a enxergar os
reflexos da racionalidade humana e sua contribuição para emancipação
humana da atitude servil que acompanhou a era anterior. O movimento
intelectual de ruptura teve como protagonista Spinoza, que projetou a im-
portância da razão humana para enxergar o ser humano em sua essência,
possuidor de fragilidades e não apenas sujeito da lei divina.
Na sequência, as revoluções americana e francesa foram as respon-
sáveis pela positivação dos direitos em uma Constituição, de modo que os
Direitos Humanos passaram a ser defendidos em diversos contextos. Em
268 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

que pese ter ocorrido a positivação dos Direitos Humanos em uma Cons-
tituição, nota-se que o problema quanto ao seu alcance e expansão ainda
merece ser refletido, a fim de que se possa dar melhores respostas aos
problemas sociais da atualidade.
O aumento das desigualdades sociais revela até mesmo a negação de
humanidade para alguns sujeitos. A fragilidade de direitos torna os indiví-
duos prisioneiros de uma lógica de consumo oriunda do mecanismo de
mercado. As desigualdades de direitos atraem reações, que muitas vezes
são registradas em opiniões negativas, o que conduz o discurso de defesa
dos Direitos Humanos para caminhos obscuros.
Existem algumas correntes que negam os Direitos Humanos ao de-
fender que os sistemas autoritários são mais propícios para economia do
que os Direitos Humanos ou, também, designando-os como um luxo que
não é possível desfrutar em momentos de crise, de recursos escassos, de
uma economia para outra. Neste sentido:

Los derechos, así se dice, producen economías negativas mientras que los sis-
temas autoritarios, sobre todo en esas versiones más edulcoradas de la
«democracia autoritaria», seducen, aparecen como los más capaces de garan-
tizar la buena eficacia económica. Aparentemente más atractiva se presenta la
versión que propone los derechos como un lujo que no nos podemos permitir
en tiempos de crisis, de recursos escasos, de trânsito de un orden económico
a otro. (RODOTÀ, 2014, p. 19)

A desaprovação dos Direitos Humanos, segundo Rodotà (2014) pos-


sui a finalidade de mascarar práticas dos sistemas autoritários: a troca de
muitas operações que ampliam direitos sociais pelo não reconhecimento
de direitos políticos e civis, algo típico de práticas autoritárias; ou a nega-
ção de direitos sociais como direitos em essência por promoverem
distribuição de recursos. Também, comum a diversas posições é a suspen-
são de garantias constitucionais, especialmente aquelas relacionadas à
atividade econômica e às políticas sociais.
Laiana Karolina Demenech | 269

Na mesma perspectiva de Rodotà, Amartya Sen (2010, p. 292) explica


que existem céticos que não acreditam na profundidade e abrangência dos
Direitos Humanos, veja-se:

[...] essa aparente vitória da ideia e do uso dos Direitos Humanos coexiste com
um certo ceticismo real, em círculos criticamente exigentes, quanto à profun-
didade e coerência dessa abordagem. Suspeita-se que exista uma certa
ingenuidade em toda a estrutura conceitual que fundamenta a oratória sobre
Direitos Humanos.

Sen (2010) descreve que os céticos defendem três críticas contra os


Direitos Humanos: a) crítica de legitimidade – “o receio de que os Direitos
Humanos confundam consequência de sistemas legais, que conferem às
pessoas direitos bem definidos, com princípios pré-legais que não podem
realmente dar a pessoa um direito juridicamente exigível” (2010, p. 292);
b) crítica da coerência – “nessa concepção, os direitos são pretensões que
requerem deveres correlatos. [...] Os Direitos Humanos, nessa concepção,
são sentimentos comoventes, mas também são, rigorosamente falando,
incoerentes” (2010, p. 293); e c) crítica cultural – “a terceira linha de ceti-
cismo não assume exatamente uma forma legal ou institucional, mas vê
os Direitos Humanos como pertencentes ao domínio da ética social.”
(2010, p. 293)
Nas lições de Rodotà (2014), alguns críticos compreendem que o
acréscimo das desigualdades retrata uma causa irreversível, já que ori-
unda de questões estruturais, o que leva ao entendimento de que o
investimento em direitos é uma opção perdida, uma ilusão ou, ainda mais
grave, constitui uma estratégia que desvirtua as condições reais das pes-
soas. Assim, a ideologia de direitos seria um artifício para mascarar as
injustiças, bem como uma forma do ocidente capitalista continuar a impor
seus valores e hegemonia, mesmo que necessário o emprego de força.
O autor explica, ainda, que a rejeição radical torna-se o sentimento
de alguns intérpretes, os quais consideram que os direitos não são um
fardo a ser descarregado, ou mesmo uma oportunidade que se acolhe em
270 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

últimas opções, mas configuram um tema, ou, em outros termos, um pro-


blema, que não pode escapar impunemente por meio de movimentos
ideológicos ou voluntaristas. Contudo, existem reivindicações que enten-
dem que os Direitos Humanos não podem ser deixados ao acaso do
autoritarismo ou perdidos pelo dinheiro, a exemplo do clamor do arquiteto
chinês Ai Weiwei que ficou conhecido por ter realizado o projeto do “Ninho
de Pássaro” para as Olimpíadas de Pequim. (RODOTÀ, 2014)
Ainda, o exemplo anterior é reafirmado pela quebra de direitos civis
básicos, especialmente os conexos com as liberdades civis, está exposta no
documentário Coronation produzido pelo arquiteto Ai Weiwei, no ano de
2020. O filme reproduz a forma como o Estado Chinês efetuou o bloqueio
de Wuhan, o primeiro local do mundo em que pessoas foram diagnostica-
das com o COVID-19. Assim, em que pese o título de grande potência do
mundo, a violação extrema de Direitos Humanos básicos não é exposta.
O documentário Coronation estampa a transgressão de direitos em
um momento histórico (diga-se, atual) que aterroriza toda a humanidade,
restando incontestável a postura de muitas sociedades contra os Direitos
Humanos. A transcrição deste fato social em conjunto com outros dispos-
tos na obra Derecho a tener derechos, de Stefano Rodotà, demonstra que o
apelo aos Direitos Humanos caracteriza a voz de muitas pessoas que têm
o seu apelo silenciado em seu local de origem. Veja-se:

Estamos asistiendo hoy a prácticas comunes de los derechos. Las mujeres y los
hombres de los países del África mediterránea o del Próximo Oriente se movi-
lizan a través de las redes sociales, ocupan las plazas, se rebelan precisamente
en nombre de la libertad y de los derechos, desbancan regímenes políticos
opresivos; el estudiante iraní o el monje birmano, con su teléfono móvil, siem-
bran el universo de Internet con las imágenes de la represión de unas libres
manifestaciones, aun a riesgo de feroces sanciones; los disidentes chinos, y no
solo ellos, piden el anonimato en la red como garantía de la libertad política;
las mujeres africanas desafían los azotes en nombre del derecho a decidir li-
bremente sobre su vestimenta; los trabajadores asiáticos rechazan la lógica
patriarcal y jerárquica de la organización de la empresa reivindicando dere-
chos sindicales, haciendo la huelga; los habitantes del planeta Facebook se
Laiana Karolina Demenech | 271

rebelan cuando alguien pretende expropiarles del derecho a controlar sus pro-
pios datos personales; lugares de todo el mundo son «ocupados» para
defender derechos sociales. Y así podríamos continuar el relato. (RODOTÀ,
2014, p. 13)

Nesse contexto, percebe-se que a violação dos Direitos Humanos


aflige muitos seres humanos, sendo que a possibilidade de invocar estes
direitos representa um modo de averiguar sua importância, poder argu-
mentativo e operacionalidade. Em contextos como a pandemia do COVID-
19, a presença e a defesa dos Direitos Humanos visa preservar vidas e es-
tabelecer laços de humanidade e solidariedade uns com os outros.
Outrossim, as fronteiras do Estado rompem-se e novas relações glo-
bais são estabelecidas, haja vista que, conforme leciona Staffen (2016, p.
182), “os processos de globalização de maneira crescente criaram um mer-
cado mundial, uma nova ordem supra e transnacional que permite a livre
circulação de capitais, mercadorias, bens e serviços”. Neste contexto, in-
sere-se a matriz de Direitos Humanos como um veículo de comunicação
que integra toda a humanidade, visto que estes direitos abarcam todos os
seres humanos como seus receptores e agentes.
Contudo, o ideal de Direitos Humanos merece ser revisitado para sua
efetividade na atualidade, já que as práticas autoritárias e a violação mas-
carada dos Direitos Humanos, ambos já citados, devem ser protestados
por todos. Uma resposta para esta questão é apontada por Staffen (2016),
o qual orienta que os anseios dos Direitos Humanos necessitam buscar as
bases do humanismo em que foram maturados. Para o autor (2016, p.
187), o humanismo representa “historicamente princípios e ideias de irre-
signação com a guerra, com a redução da dignidade das pessoas, com a
exploração e espoliação de bens jurídicos básicos.”
A concepção de humanismo e Direitos Humanos, nos dizeres de Staf-
fen (2016), consubstancia um modo de superar a visão reducionista dos
dogmas jurídicos-estatais dos Direitos Humanos, desmistificando a ideia
de que os Direitos Humanos carecem de representação estatal perante os
Estados ou Organizações Internacionais. A crítica central formulada por
272 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Staffen (2016) concentra-se no fato de que os Direitos Humanos não po-


dem integrar apenas a sua matriz de instrumentalização, ficando
esquecida ou, por interesses políticos, ter reduzido a sua força. Neste as-
pecto, o autor salienta que a ruptura com Direitos Humanos serve de
argumento para que guerras sejam veiculadas e legitimadas, livrando os
governos de punição. Assim, as violações dos Direitos Humanos permane-
cem e todos deixam de acreditar no seu potencial. A propósito:

Novamente o dia 11 de setembro de 2001 marca o ressurgimento de uma ad-


vocacia ostensiva em favor dos primados de soberania nacional em detrimento
dos Direitos Humanos e do humanismo que lhe é peculiar. Há um cenário de
deboche para com os Direitos Humanos amparado pelo resgate de argumentos
insurgentes que clamam por atributos de autodeterminação estatal como con-
dição primeira. [...] Basta uma rápida passada de olhos sobre o contexto
europeu hodierno ou, na recusa dos Estados Unidos em se sujeitar ao Tribunal
Penal Internacional. (STAFFEN, 2016, p. 191)

Outro aspecto ressaltado por Staffen (2016) diz que a autuação dos
Estados se volta, com maior atenção, para questões pós-violatórias, nota-
damente por vias judiciais. Neste contexto, fundamental inserir uma outra
matriz de responsabilidade, que integre os Direitos Humanos ao Direito
Global, despertando a atuação de outros agentes e não apenas as fontes
tradicionais.
Com atenção a estes ensinamentos, percebe-se que o ideal de Direitos
Humanos, cujas bases estão no humanismo, necessita da retomada do dis-
curso de valorização do humano, sendo que um veículo de comunicação
está atrelado a atuação de agentes em âmbito global.
Destarte, a comunicação global dos Direitos Humanos constitui me-
canismo com forte potencial para auxiliar pessoas, governos, instituições
públicas e privadas e organizações internacionais na luta contra com o
COVID-19. As medidas protetivas são orientadas em nível internacional e
recepcionadas em nível local pelos diversos governos que estão aliados à
Organização das Nações Unidas (ONU), sendo que cada país promove suas
Laiana Karolina Demenech | 273

políticas públicas de acordo com os recursos sociais que dispõe. No Brasil,


destaca-se o isolamento social e o auxílio emergencial.
Assim, averígua-se a importância da atuação de agentes internacio-
nais para, de um lado, combater violações e, por outro, promover o acesso
aos Direitos Humanos. As ações movidas para proteção da humanidade
contra o COVID-19 estão alinhadas nos contextos internacional, nacional,
local e regional, seja na atuação da ONU, da OMS, do Governo Federal, dos
Estados Membros ou Distrito Federal e, até mesmo, do Poder Público Mu-
nicipal.
Nesse contexto, a menção de que os Direitos Humanos são um luxo
que não se pode desfrutar em tempos de crise, ou algo que os sistemas
autoritários são mais capazes de realizar, mostram-se informações incon-
clusivas, não dispostas na prática e não condizentes com os movimentos
humanitários em favor da proteção à saúde, ao trabalho e à assistência
social no enfretamento da pandemia do COVID-19.

4 O auxílio emergencial e a implementação de direitos humanos

Os Direitos Humanos requerem um olhar mais claro e profundo, ca-


paz de apresentar a face comum dos valores culturais que estão presentes
em seus enraizamentos. Qualquer percepção reducionista de sentido pode
gerar graves erros interpretativos ante ao imenso significado social, histó-
rico, político e jurídico dos Direitos Humanos.
As contradições, conflitos, negações – muitas vezes, mais forte do que
os reconhecimentos, abusos e negligências, são comuns no mundo dos Di-
reitos Humanos. Em todos os lugares evidencia-se a exigência de direitos
e de lei, algo que desafia os regimes políticos que utilizam formas de re-
pressão. (RODOTÀ, 2014)
A efetividade dos Direitos Humanos está ligada a convicção de mu-
lheres e homens que clamam por estes direitos, visando o reconhecimento
e respeito por sua dignidade e humanidade. O “direito a ter direitos” rela-
ciona-se a própria natureza do ser humano e sua dignidade, sendo um
274 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

meio para proteger contra formas de totalitarismo. Os Direitos Humanos


tornaram-se defesa contra todo poder opressor. Assim, não se pode carac-
terizar a luta pelos direitos como um golpe, ou uma armadilha em que os
indivíduos caem ingenuamente. (RODOTÀ, 2014)
A propósito dos Direitos Humanos integrarem um mecanismo de
acesso a outros direitos, como a dignidade humana, salienta-se que, em
que pese Sen adote uma matriz que se orienta pela expansão das liberda-
des, em sua teoria pode ser constada a importância da projeção Direitos
Humanos, já que estes direitos podem ser utilizados para o indivíduo al-
cançar a liberdade defendida pelo autor. Nestes termos:

Ainda que possamos nos arranjar suficientemente bem com a linguagem da


liberdade em vez de usar a linguagem dos direitos (de fato, é a linguagem da
liberdade que tenho recorrido primordialmente em Desenvolvimento como
Liberdade), às vezes pode haver boas razões para sugerir – ou exigir – que os
outros ajudem a pessoa a alcançar a liberdade em questão. A linguagem dos
direitos pode suplementar a da liberdade. (SEN, 2010, p. 297)

As visões de Rodotà e Sen convergem acerca da importância dos Di-


reitos Humanos e do poder de comunicação que estes direitos tem para
pessoa. A reivindicação de direitos pode, assim, ser utilizada por indiví-
duos privados de direitos e liberdades básicas, como os direitos civis já
salientados. Em uma sociedade em que a ausência de participação política
é orientada pelos governantes, há uma flagrante violação de Direitos Hu-
manos, os quais se cancelados representariam inúmeras pessoas sem ter
meios para buscar respostas às privações impostas.
Para Rodotà (2014), o desenvolvimento dos Direitos Humanos como
um código de comunicação capaz de conectar pessoas, umas às outras, ex-
pande-se em consequência do progresso e disponibilidade de recursos
tecnológicos que favorecem iniciativas e caminhos comuns, reforçando,
assim, a proteção dos direitos do indivíduo. Rodotà (2014) fundamenta
que o histórico dos Direitos Humanos demonstra que a violação é mais
forte que a reivindicação, isso conduz ao pensamento e o desencanto de
que a dimensão dos direitos é hipertrofiada. Assim, a experiência real dos
Laiana Karolina Demenech | 275

Direitos Humanos revela que a intensa dinâmica que os tem seguido e que
os ampara cruza-se intensamente com o consenso civil, com a ação política
e com a inovação institucional. (RODOTÀ, 2014)
Percebe-se que o engajamento com os Direitos Humanos dos cida-
dãos, da atuação estatal e da comunidade global mostra-se a força motriz
que garante e sustenta estes direitos na atualidade. Desse modo, os Direi-
tos Humanos tornam-se a porta voz de milhares de pessoas, homens e
mulheres, em uma pluralidade indistinta, que clama pelo reconhecimento
de seus direitos e de sua dignidade.
A centralidade da pessoa enquanto receptor e agente de direitos
ocupa espaço central no pensando de Rodotà e Sen, estampando que os
Direitos Humanos exigem o compromisso de todos para que sejam mate-
rialmente viabilizados. Bruno Henrique Caetano dos Santos e Thiago
Soares Bispo (2018, p. 250) explicam a obra Derecho a tener derechos de
Rodotà, ressaltando que o autor: “parte dessas contradições para ampliar
a densidade teórica da pessoa como fundamento e valor das normas jurí-
dicas”. Em Sen (2010) destaca-se o papel da condição de agente propiciado
quando há o efetivo exercício das liberdades.
Nesse ponto, em que se centraliza a pessoa como agente da efetivi-
dade dos Direitos Humanos, vê-se a importância do compromisso de levar
a sério os Direitos Humanos, os quais se configuram uma oportunidade
para todos os seres humanos terem sua dignidade e humanidade não vio-
ladas.
A importância dos Direitos Humanos é constada no atual contexto de
proteção contra o COVID-19, sendo evidente a atuação da esfera global na
pandemia. Houve mobilizações em diversos níveis, sendo que no Brasil
destaca-se o estabelecimento do benefício de auxílio emergencial. Este be-
nefício, como já exposto, visa amparar diversas categorias de
trabalhadores que tiveram o seu sustento comprometido devido a impos-
sibilidade de trabalhar, já que prevenção contra o COVID-19 exige
distanciamento entre as pessoas para evitar a contaminação.
276 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

O deferimento do auxílio emergencial pode ser veiculado como um


mecanismo de proteção de Direitos Humanos, em especial os direitos à
saúde, a assistência social e ao trabalho. Sabe-se que uma renda mensal
configura a proteção para aqueles que tiveram o seu sustento inviabilizado
pelo distanciamento social.
A pandemia do COVID-19 trouxe mais um acontecimento histórico
que demonstra o fenômeno da Globalização, sendo que acontecimentos do
outro lado Planeta (no caso, a China) repercutem em sentido global. Desse
modo, houve a necessidade de engajamento de toda a humanidade para
prevenção contra o vírus, bem como encontrar respostas para os proble-
mas sociais que se aguçaram.
Assim, pode-se constatar que o número de beneficiados do auxílio
emergencial demonstra um problema social brasileiro de escassas oportu-
nidades de acesso a renda e recursos anterior a pandemia, que merece a
discussão de políticas públicas para mudar tal realidade.
Nesta perspectiva, salienta-se que a Lei de Renda Básica, aprovada
pela Lei n.º 10.835/2005 e defendida pelo ex-senador Eduardo Suplicy,
defende o estabelecimento de uma renda a toda a população brasileira in-
dependente da classe social. A Lei n.º 10.835/2005 foi aprovada, mas não
foi efetivada. O mecanismo de renda básica seria um benefício mensal para
pessoas poderem custear suas despesas com alimentação, vestuário, edu-
cação, etc. A proposta da renda básica visa estabelecer um meio de
diminuir as desigualdades sociais do Brasil, disponibilizando a todos meios
para garantir sua subsistência.
Devido aos reflexos sociais da pandemia e os terríveis índices sociais
desvelados, a proposta de renda básica passou a ser rediscutida, sendo ob-
jeto de estudo que sua efetivação se dê após a pandemia como forma de
dar respostas as desigualdades sociais e de oportunidades de renda referi-
dos.
Logo, o estabelecimento do auxílio emergencial como mecanismo de
proteção aos direitos à saúde, ao trabalho e a assistência social, configura-
se como um modo de implementação de Direitos Humanos. Todavia, os
Laiana Karolina Demenech | 277

problemas sociais não ficarão estanques, ao contrário, podem ser agrava-


dos ou repercutidos de maneira ainda mais flagrante devido aos altos
índices evidenciados de pessoas desamparadas. Assim sendo, necessário
manter os debates ativos e averiguar a efetivação da renda básica como o
primeiro passo para a mudança social, conforme orientam Zélia Luiza Pi-
erdoná, Andre Studart Leitão e Emmanuel Furtado Filho.

5 Considerações finais

Procurou-se demonstrar a importância social do estabelecimento do


auxílio emergencial aos trabalhadores informais brasileiros como meio de
implementação de Direitos Humanos, restando tal hipótese confirmada.
Assim, a garantia do benefício de auxílio emergencial atenua os efeitos ad-
versos do isolamento social, representando a convergência de todos no
interesse da proteção de Direitos Humanos, como o direito à saúde, ao
trabalho e à assistência social.
Por outro lado, pode-se constatar que os altos índices de beneficiados
do auxílio emergencial demonstram um problema social brasileiro ante-
rior a pandemia e que merece respostas mais concretas. Fato é que a
proteção ofertada tanto pela previdência e assistência sociais merecem ser
revistas, ocupando espaços discussões como a oferta de renda básica a to-
dos. Salienta-se que a discussão deve ser levada a sério, estabelecendo-se
requisitos legais que projetem uma mudança social e não deixem margem
para o enriquecimento de uma parcela da população brasileira, enquanto
a outra sequer possui meios de garantir a renda para custear sua subsis-
tência. Ainda, necessária a responsabilidade social de cada cidadão frente
aos Direitos Humanos para que, caso a renda básica seja efetivada, não
venha a ser objeto de barganha individual ou mesmo a projeção paterna-
lista das políticas públicas, mas constitua meio de emancipação dos
indivíduos e possibilidade de desenvolvimento de suas capacitações
Assim, recorrer aos Direitos Humanos é algo que merece ser defen-
dido por todos, independentemente do espaço temporal ou local em que
278 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

se esteja inserido, já que carregam em si o zelo pela dignidade humana,


cujo valor e significado são entendidos, sobretudo, por quem está privado
dos Direitos Humanos.

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WEIWEI, Ai. Coronation. Disponível em: https://www.aiweiwei.com/coronation/. Acesso


em: 24 ago. 2020.
16

Política de seguridade social, coronavírus e


privação de capacidade em Amartya Sen

Ana Paula Coelho Abreu dos Santos 1


William Picolo Fibrans 2

1. Introdução

O aspecto da pobreza está intrinsecamente ligado à capacidade das


pessoas se desenvolverem em sociedade. Este, contudo, conforme será es-
tudado tendo como base o Autor Amartya Sen, vai além do viés da renda,
e aponta para uma questão de desigualdade social, a qual, no Brasil, foi
intensificada pela crise pandêmica do Coronavírus.
Em um momento de incertezas, no qual ainda sequer há vacina capaz
de preveni-lo, importa debater e fomentar debates que tenham como as-
sunto questões de desenvolvimento e políticas públicas capazes de
solucionar problemas sociais, o que, aliado aos ensinamentos de Amartya
Sen, é objetivo do presente estudo.
É importante considerar que o SARS CoV 2 provocou o agravamento
de crises já existentes, principalmente quanto à população mais carente,
surgindo inúmeros problemas sociais a serem debatidos e solucionados.

1
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de Passo Fundo UPF. Especialista em Direito Constituci-
onal pela Faculdade Damásio Mestranda em Direito pela Faculdade Meridional IMED de Passo Fundo/RS. Membro
do Centro Brasileiro de Pesquisas sobre a Teoria de Amartya Sen. Advogada inscrita na OAB/RS 110.192. E-mail:
anapcas@gmail.com.
2
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Meridional IMED de Passo Fundo/RS. Membro do Centro
Brasileiro de Pesquisas sobre a Teoria de Amartya Sen. Advogado inscrito na OAB/RS sob o n.º 108.982. E-mail:
williampf.adv@gmail.com.
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 281

Nesse ínterim, o presente artigo se atém a responder a problemática de


como prevenir a pobreza e garantir maior proteção aos grupos mais vul-
neráveis durante a Pandemia causada pelo dito vírus na sociedade
(brasileira).
As hipóteses que apontam para uma possível solução do problema
proposto apontam a Seguridade Social, esta que é sustentada pelos pilares
da Previdência Social, Saúde e Assistência Social, como importante ferra-
menta capaz de movimentar o conjunto de soluções indicadas.
Assim, dentre os temas específicos para debate, aponta-se a manu-
tenção do Auxílio Emergencial em vigor no Brasil, o fortalecimento do
Programa Bolsa Família e a expansão da cobertura do benefício de auxílio-
doença da Previdência Social para toda a população, conforme estudo da
Organização Internacional do Trabalho (OIT) recomendando sua aplica-
ção. Ainda, tais temas podem ser identificados como hipóteses para o
problema apresentado, e são estudados relacionando-se intimamente com
os ensinamentos de Amartya Sen, o que será realizado por meio do método
hipotético-dedutivo, com a pesquisa de referências bibliográficas.

2. Reflexos da pandemia do coronavírus na sociedade brasileira –


aspecto de pobreza e capability em Amartya Sen

A crise pandêmica do COVID-19 intensificou variadas situações e ca-


racterísticas da sociedade brasileira. Muitos dados se tornaram ainda mais
alarmantes, chamando atenção para determinados pontos que, poder-se-
ia dizer, estavam ficando de lado das políticas governamentais.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o ín-
dice de Desemprego atingiu a incrível marca de 13,3% no segundo
trimestre de 2020, o maior índice desde o terceiro trimestre de 2017. Con-
comitante, a inflação voltou a subir, e atingiu a marca de 0,87% em
setembro do corrente ano (IBGE, 2020).
Com o aumento do desemprego, elevação da taxa de inflação encare-
cendo produtos como os de cesta básica, dentre outras consequências, as
282 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

populações mais carentes foram atingidas em cheio pela pandemia, tor-


nando-se uma tarefa ainda mais desafiadora garantir a manutenção
própria e da família.
Conforme dados de estudo do Economista Alberto Cavallo, professor
na escola de negócios da Universidade Harvard, noticiado pela Folha de
São Paulo (FOLHA, 2020), entre 18 (dezoito) “nações emergentes e desen-
volvidas analisadas pelo pesquisador, o Brasil registrou a maior
disparidade entre o que ele batizou de ‘inflação da Covid’ e o indicador
oficial (o IPCA), em maio”. Segundo o estudo, a diferença foi de 0,88 %
entre os dois índices acumulados nos últimos 12 (doze) meses, com au-
mento acumulado em 2020 nos preços do arroz, feijão, leite, óleo de soja
e carnes, enfim, produtos de cesta básica.
Os dados acima retratados demonstram o desafio da população em
situação de miséria em garantir sua manutenção e alimentação básicas,
em um contexto de concomitante aumento do desemprego e crise sanitá-
ria. Isto porque, conforme apontam especialistas, a população mais pobre
possui maior dependência de uma renda informal, o que a torna mais vul-
nerável à parada brusca que a economia sofreu com o necessário
isolamento social (FOLHA, 2020).
Estes dados corroboram a afirmação exposta ao início deste estudo,
de que a pandemia agravou crises já existentes. Uma delas é a crise da
pobreza.
De 2014 a 2018, houve um crescimento de 67% (sessenta e sete por
cento) da população que resiste na linha da miséria (FOLHA, 2020), com
perspectiva de esses dados serem superiores com a Pandemia do Corona-
vírus (UOL, 2020).
No mesmo sentido é a perspectiva do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (PNUD) para este ano de 2020, o qual afirma que,
a nível global, cerca de 71.000.000 (setenta e um milhões) de pessoas re-
tornem à situação de pobreza extrema, com alerta para a perda de renda,
limitação da proteção social e aumento de preços como causa de risco
mesmo para aqueles que estavam em situação de segurança (ONU, 2020).
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 283

É uma perspectiva que assombra as populações mais economica-


mente vulneráveis, pois a pobreza pode refletir mais profundamente na
dimensão humana, quanto os números estatísticos usualmente trabalha-
dos são capazes de demonstrar. A crise pandêmica do Coronavírus
agravou as oportunidades sociais, e assim, o desenvolvimento de capaci-
dades defendido por Sen. Ainda, vai além, conforme afirmação da ONU
acima transcrita, até mesmo pessoas em situação de segurança social cor-
rem risco de retornar à pobreza extrema.
A deficiência de políticas públicas e proteção social que auxiliem no
desenvolvimento de capacidades dos grupos mais vulneráveis é um obstá-
culo à ampliação da liberdade destes de buscarem por oportunidades e
atingirem os objetivos que valorizam (SEN, p. 267, 2011). Contudo, nesse
ínterim, os fins não devem ser confundidos com os meios, pois a superação
da situação de pobreza econômica não deve ser entendida como um fim
em si, mas um meio capaz de auxiliar as pessoas a levar uma vida que lhe
pareça boa e que valha a pena (SEN, p. 265-266, 2011).
Sem o desenvolvimento de suas capacidades, torna-se mais difícil en-
contrar criatividade e meios de superar as adversidades da crise. A
situação de pobreza econômica se consolida, e a concretização dos objeti-
vos das pessoas, como por exemplo, de ter uma alimentação adequada,
cuidados com a saúde, lazer aos fins de semana, assistir à série favorita,
viajar, etc., se distanciam, impedindo que as pessoas levem a vida que de-
sejam e valorizam.
Assim, as políticas públicas devem ser elaboradas para auxiliar na ca-
pacitação dos grupos mais vulneráveis, possibilitando que eles deixem
superem este quadro, e sejam trazidos a uma posição mais igualitária em
comparação aos demais membros da sociedade.
Nesse caminho, APPIO (p. 136, 2007) conceitua as políticas públicas
como ferramentas capazes de executar programas políticos com base em
uma intervenção do Estado na sociedade, tendo por fim, garantir igual-
dade de oportunidades aos cidadãos, com objetivo de conferir a estes
condições matérias para a consecução de uma vida digna.
284 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

É nesse caminho que as políticas brasileiras devem seguir, oferecendo


programas e planos com objetivos a serem alcançados, e que visem, nas
palavras de DWORKIN (p.36, 2002) “uma melhoria em algum aspecto eco-
nômico, político ou social da comunidade”, perpassando pelo tratamento
da desigualdade social, e conferindo maior liberdade e capacitação aos re-
cepcionados pelas políticas.
Aliás, conforme Requerimento da Câmara dos Deputados datada de
04 de setembro de 2013, em que se solicitava a realização de Audiência
Pública para debater o IDH dos Estados da Amazônia Legal, já havia im-
portante percepção das grandes disparidades sociais e econômicas entre
diferentes estados e regiões do Brasil, com aponte para a necessidade de
realização de políticas públicas capazes de diminuir as diferenças sociais
existentes no País (BRASIL, 2013).
A elaboração e execução de políticas públicas com este viés são coge-
ntes, principalmente pela dimensão territorial do Brasil, em que se
encontram diversos povos nas mais variadas regiões, com particularidades
e questões socioculturais envolvidas, e que, portanto, demandam ações po-
líticas voltadas para essas localidades.
É nesse sentido, que o Estado configura como “[...] organizador de
políticas de promoção humana e combate às desigualdades [...]”, de forma
a desenvolver as capacidades (capabilities) dos cidadãos (ZAMBAM;
KUJAWA, 2017).

3. Seguridade social – hipóteses de remédios sociais

Conforme fora salientado, a Seguridade Social pode ser uma impor-


tante ferramenta capaz de movimentar um conjunto de soluções possíveis
para variados reflexos negativos advindos da Pandemia do COVID-19.
Para que esta afirmação seja adequadamente compreendida, se faz
necessário atentar para a estrutura da Seguridade Social, quer seja, a Pre-
vidência Social, a Saúde e a Assistência Social, conforme aponta Alexandre
de Moraes (2003, p. 536):
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 285

A seguridade social foi constitucionalmente subdividida em normas sobre a


saúde, previdência social e assistência social, regendo-se pelos princípios da
universalidade da cobertura e do atendimento, da igualdade ou equivalência
dos benefícios, da unidade de organização pelo Poder Público e pela solidarie-
dade financeira, uma vez que é financiada por toda a sociedade.

Esse financiamento pela sociedade ocorre de forma direta e indireta,


conforme texto de lei, por meio da aplicação de recursos advindos de or-
çamentos da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, e de diversas
contribuições sociais, sendo preciso dentre os objetivos da Seguridade So-
cial, o seu caráter democrático e com gestão administrativa
descentralizada, pois há gestão quadripartite com participação desde em-
pregados e trabalhadores, a aposentados e o próprio Governo nos órgãos
colegiados (MORAES, 2003, p. 536-537).
Cada qual desses três pilares possui uma função própria, fundamen-
tal para a consecução da segurança social da população brasileira,
intervindo em situações de pobreza e podendo ser um catalizador de ca-
pacidades.

3.1 Saúde

A Saúde é um serviço essencial, elencada no artigo (art.) 196 da Cons-


tituição Federal de 1988 (CF/1988) como um “direito de todos e dever do
Estado” (BRASIL, 2020), o que importa afirmar que toda a população bra-
sileira, de forma igualitária, possui direito a ter acesso à sua prestação,
enquanto compete ao Estado fornecê-la.
Nesse diapasão, os serviços de saúde brasileiros que fazem parte da
Seguridade Social são ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sendo
acessíveis a todos os cidadãos, independente de qualquer contribuição
(JUSBRASIL, 2020).
Dessa forma, resta cristalina a importância da existência e adequado
funcionamento do Sistema de Saúde da Seguridade Social Brasileira para
a garantia da proteção e prevenção da saúde dos cidadãos, principalmente
286 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

em tempos de crise sanitária. Isto, porque ter acesso a um sistema de sa-


úde gratuito e de acesso a todos (ainda que indiretamente seja custeado
por toda a sociedade) é vital para o atendimento aos mais pobres e em
condição de vulnerabilidade social que não possuem condições financeiras
para dispender um tratamento particular.
É imprescindível considerar que com a crise sanitária do SARS CoV2,
foi necessário a aquisição de equipamentos adequados de segurança e de
tratamento médico por parte do SUS, que fossem capazes de combater o
mesmo. Tais estratégias extremamente vitais despenderam muitos gastos,
tendo sido fundamental o auxílio emergencial autorizado pela Medida Pro-
visória n.º 978/2020 (conforme Previsão da Lei Complementar
173/2020), que liberou auxílio financeiro aos Estados, Distrito Federal e
Municípios para o enfrentamento da crise.
Dentre os pontos positivos da Medida, está a obrigatoriedade da des-
tinação de R$ 7.000.000.000,00 (sete bilhões de reais), por parte de
governadores, ao pagamento de profissionais do Sistema Único de Saúde
(SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (Suas), obedecendo a cri-
térios de taxa de incidência do Vírus e tamanho da população (BRASIL,
2020).
A referida medida colaborou para o enfrentamento da crise, sendo
igualmente importante o auxílio do Ministério da Saúde ao destinar aos
vinte e seis estados e ao Distrito Federal R$ 177.300.000.000,00 (cento e
setenta e sete bilhões e trezentos milhões de reais), sendo que:

[...] desse total foram R$ 133,1 bilhões para serviços de rotina do SUS, e outros
R$ 44,2 bilhões para a Covid-19. A pasta da Saúde vem apoiando os estados e
municípios na compra e entrega de equipamentos, habilitação de leitos de UTI
e enviando recursos para o enfrentamento da Covid-19 (BRASIL, 2020).

Cabe referir que valores agregados ao SUS pelo auxílio emergencial


são uma medida acertada, capaz de auxiliar na proteção da população mais
vulnerável que não possui condições de custear o tratamento que é exigido
no combate ao Coronavírus.
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 287

Ainda assim, conforme dados do EL PAÍS (BRASIL, 2020), em agosto


de 2020, pelo menos 4.132 (quatro mil cento e trinta e duas) pessoas “mor-
reram antes de conseguir chegar a um leito de terapia intensiva para o
tratamento de covid-19 durante a pandemia do novo coronavírus em seis
Estados brasileiros”. Os dados apontam tanto para casos de desassistência
em razão do colapso no sistema de saúde, como também, de pacientes que
já chegam aos Hospitais em estado grave.
Em um contexto de América Latina em que há alta demanda por ser-
viços públicos de saúde, deve-se fortalecer o SUS brasileiro, pois sendo este
de caráter universal, está à disposição das populações mais vulneráveis
que não possuem condições de custear um tratamento particular.
Uma política de “discriminação positiva” para com os miseráveis é
capaz de elevar os indicadores de saúde, pois resta cristalino que para a
igualdade de resultados na área da saúde ser atingida, se faz necessário
um maior gasto público em relação aos mais pobres do que aos mais ricos
(SEN; KLIKSBERG, p. 196, 2010). Dessa forma, a destinação de maiores
receitas ao SUS, e a aplicação de políticas como os valores emergenciais
destinados ao dito Sistema devem buscar uma melhora na prestação do
serviço público essencial em sentido de eficácia e fortalecimento dos aten-
dimentos.

3.2 Assistência Social

A Assistência Social, assim como a Saúde, também integra a Seguri-


dade Social, amparando quem dela necessitar sem a necessidade de
contribuição. Nesse ínterim, Alexandre de Moraes (p. 542, 2003) assim
define a Assistência Social:

A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente


de contribuição, pois não apresenta natureza de seguro social, sendo realizada
com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art. 195, além
de outras fontes, e organizada com base na descentralização político-adminis-
trativa, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a
288 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e mu-


nicipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência social; e na
participação da população, por meio de organizações representativas, na for-
mulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis.

Como se pode auferir, a Assistência Social também representa um


importante pilar da Seguridade Social, oferecendo políticas sociais a gru-
pos vulneráveis. Trata-se na verdade de uma Política Pública que
apresenta os objetivos constitucionais seguintes:

A proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; o


amparo às crianças e adolescentes carentes; a promoção da integração ao mer-
cado de trabalho; a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de
deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; a garantia de
um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao
idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou
de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei (p. 542, 2003).

Trata-se de uma proteção social ampla, pois atende os diversos gru-


pos etários, auxiliando a inserção no mercado de trabalho, promovendo a
recuperação de pessoas portadoras de deficiência, na medida das possibi-
lidades científicas e sociais, e garantindo um salário mínimo à quem não
possuir meios de garantir a própria manutenção ou de sua família, desde
que portador de deficiência ou idoso, e preencha os requisitos legais.
Relativo aos programas e serviços fornecidos pela Assistência Social,
os mesmos buscam garantir que o cidadão não permaneça desamparado
em momentos que surjam situações inesperadas, em que sua capacidade
de ter acesso a direitos sociais esteja comprometida. Tais situações podem
variar desde questões de origem etária, debilidade ou deficiência, vícios,
desemprego, violência ou mesmo qualquer desastre natural na comuni-
dade (BRASIL, 2020).
Assim, a Assistência Social demonstra seu valor enquanto Política Pú-
blica capaz auxiliar os mais atingidos e que dela necessitem,
principalmente, neste momento em que o Coronavírus surgiu de forma
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 289

inesperada e evoluiu rapidamente para uma Pandemia, elevando os nú-


meros do desemprego e deixando sequelas em determinadas pessoas que
foram contaminadas por este, isto, podendo ser entendido como um de-
sastre à nível mundial.
Também por este motivo, conforme já fora elencado, que a Medida
Provisória n.º 978/2020 também destinou sete bilhões de reais aos gover-
nadores para aplicação no Sistema Único de Assistência Social (Suas),
obedecendo aos mesmos critérios de taxa de incidência do Vírus e tama-
nho da população (BRASIL, 2020).
Afinal, a Assistência Social comprova-se como importante política pú-
blica de alcance a grupos vulneráveis, merecendo maiores investimentos,
de modo que a destinação dos referidos valores em caráter emergencial é
uma medida cirúrgica e necessária para a manutenção da segurança social.

3.3. Previdência Social

Este terceiro pilar da Seguridade Social possui diferenças importan-


tes quanto aos outros dois pilares já estudados, pois conforme o art. 201
da Constituição Federal de 1988, com redação conferida pela Emenda
Constitucional n.º 20 de 1998, a Previdência Social é de caráter contribu-
tivo. Além disso, possui filiação obrigatória, o que importa dizer que todo
o cidadão que exerça atividade remunerada na forma da legislação previ-
denciária, deverá contribuir (MORAES, p. 538-539, 2003).
Assim, para ter acesso aos benefícios da Previdência Social, de acordo
com a regra geral, e supondo que se trate do primeiro benefício requerido,
é exigida a qualidade de segurado, que nada mais é do que doze contribui-
ções previdenciárias consecutivas em um período de menos de um ano
antes do requerimento do benefício.
Em relação à amplitude dos benefícios previdenciários, aponta Melo
(2020):

É um seguro social, que visa garantir renda ao segurado e contribuinte quando


o mesmo perde a capacidade do exercício do trabalho por variados fatores,
290 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

como doença, invalidez, idade avançada, desemprego, maternidade e reclusão.


O contribuinte pode requerer aposentadoria por tempo de contribuição deter-
minado pelos cálculos previdenciários.

Resta preciso, portanto, que a Previdência Social é capaz de assegurar


aos cidadãos inúmeros benefícios diante de adversidades, dentre os quais,
aponte para os de auxílio-doença previdenciário e seguro-desemprego.
Isto, porque a Pandemia do Coronavírus elevou o número de desem-
pregados em 8,5 % (oito e meio por cento) só na semana de 23 a 29 de
agosto de 2020 (VALOR, 2020), de modo que o benefício do seguro de-
semprego pode auxiliar inúmeros cidadãos que entraram para esta
estatística.
Ainda, de acordo com os dados da Rádio Agência Nacional (Vítor,
2020), o número de pedidos de benefício de auxílio-doença cresceram
123% (cento e vinte e três por cento) de fevereiro até maio de 2020. Con-
forme aponta o referido site de comunicação, de acordo com o Tribunal de
Contas da União (TCU), a fila de pessoas que aguardam a análise de bene-
fícios por incapacidade passou de aproximadamente 245.000 (duzentos e
quarenta e cinco mil) para cerca de 546 (quinhentos e quarenta e seis mil),
destes, 90% (noventa por cento) são requerimentos de auxílio-doença.
Os referidos dados apontam para a realidade da crescente demanda
pelos benefícios incapacitantes, o que só se intensificou durante a pande-
mia, em que um número ainda maior de pessoas refere ter adoecido e
necessitar do benefício previdenciário por incapacidade laborativa para
garantir a própria manutenção e, ou de sua família. Contudo, apesar des-
ses dados levantados pelo TCU, a Medida Provisória n.º 978/2020 se
limitou em destinar diretamente valores emergenciais apenas à Saúde e
Assistência Social.

4. Políticas de enfrentamento À pandemia do coronavírus – (in)


gerenciamento e soluções possíveis

A primeira possível solução ao enfrentamento da Pandemia do Coro-


navírus é o desenvolvimento de uma vacina capaz de prevenir a infecção
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 291

pelo Vírus. Essa que demanda estudo, investimento e seriedade por parte
do Governo Federal e dos pesquisadores.
Quanto antes esta puder ser aplicada à sociedade, em igual tempo
mais vidas poderão ser salvas, bem como, poderá haver a retomada das
atividades, com o surgimento de maiores oportunidades sociais, emprego,
etc.
Contudo, por mais que tenham sido despendidos importantes valores
no estudo de uma possível vacina capaz de prevenir a infecção pelo COVID-
19 – o que é uma ironia diante dos amplos cortes de verbas da ciência e da
pesquisa brasileira que vinham ocorrendo por parte do Governo Bolso-
naro (EL PAÍS, 2020) – a informação impactante do momento é datada de
Outubro de 2020, quando o Presidente vetou a aquisição futura da vacina
chinesa Sinovac por parte do Governo de São Paulo, além de ter alimen-
tado teorias conspiratórias dos antivacina (EL PAÍS, 2020).
Dessa forma, há um caminho de insegurança até a final imunização
da população brasileira, sendo imperioso debater variadas formas de com-
bate à pandemia, dentre as quais, cabe citar o Benefício de Auxílio
Emergencial e o Programa Bolsa Família (PBF).

4.1. Programa Bolsa Família

O Programa Bolsa Família (PBF) foi criado em 2003, com objetivos


de contribuir para a inclusão social das famílias em situação de miséria em
todo o País, bem como garantir maior acesso à educação e saúde
(CAMPELLO; NERI, p. 15, 2014).
Durante a Pandemia do COVID-19, o programa contribui de forma
salutar para diversas famílias que vivem em situação de pobreza extrema,
com dificuldade de acesso até mesmo à informação.
Após dez anos da existência do Programa, o mesmo já se encontrava
consolidado como sendo uma Política de Estado e um elemento central na
proteção social brasileira. “O pagamento direto dá transparência, reduz
custos e fortalece a autonomia. É uma provisão institucionalizada de
292 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

acesso a direitos que amplia a cidadania. Os mitos do imaginário conser-


vador vão ficando para trás” (CAMPELLO; NERI, p. 15, 2014).
O Programa tanto vem há anos auxiliando de forma exemplar a po-
pulação em situação de miséria, como também, o segue fazendo diante da
atual crise sanitária, visto que os beneficiários já iniciaram o enfrenta-
mento da crise com o resguardo do dito programa, o qual poderá perdurar
mesmo após o fim do auxílio emergencial. Trata-se de um programa du-
radouro, que não cessa enquanto não melhorar a situação econômica do
beneficiário.

4.2. Auxílio Emergencial

O benefício do Auxílio Emergencial, de Iniciativa do Deputado Federal


Eduardo Barbosa (PSDB/MG), foi criado exclusivamente para resguardar
um mínimo de proteção emergencial diante do enfrentamento da crise
pandêmica do Coronavírus.
Aprovado pelo Senado Federal desde 30 de março de 2020, e sancio-
nado em 15 de maio deste mesmo ano, o auxílio emergencial no valor de
R$ 600,00 (seiscentos reais) para informais, microempreendedores indi-
viduais (MEI), autônomos e desempregados previa o condão de durar no
mínimo três meses, podendo ser prorrogado (BRASIL, 2020). É o que vem
ocorrendo, embora as parcelas atuais sejam de apenas R$ 300,00 (trezen-
tos reais) (UOL, 2020).
A medida de fornecer o benefício aos grupos elencados revela-se acer-
tada, pois auxilia os Microempreendedores e autônomos individuais a
manterem suas atividades, bem como, assegura uma singela segurança
aos beneficiários, capaz de auxiliar na sua mantença. Todavia, as atuais
parcelas na metade dos valores originais podem preocupar.
É importante considerar que os beneficiários do Programa Bolsa Fa-
mília, cujo valor recebido for inferior ao fornecido pelo Auxílio
Emergencial, recebem de forma automática este segundo benefício em lu-
gar do primeiro, enquanto o mesmo perdurar (BRASIL, 2020).
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 293

Entre tanto, é necessária uma pluralidade de políticas públicas capa-


zes de auxiliar a população neste momento de crise. Segundo os dados do
G1 (2020), até junho de 2020, “mais de dez milhões de pessoas não con-
seguiram receber o auxílio emergencial”, permanecendo em risco social.

4.3. Hipóteses pelo Sistema de Seguridade Social

O Sistema de Seguridade Social brasileiro trabalhado no capítulo an-


terior provou dispor de pilares capazes de garantir proteção social a
variados grupos vulneráveis, durante a Pandemia do COVID-19.
No que se refere ao pilar do sistema de Saúde da Seguridade Social,
em seus serviços prestados pelo SUS, em caráter universal, o mesmo con-
tribui não só para o atendimento e tratamento de cidadãos que necessitem
do Sistema de Saúde para determinada cura ou proteção (objetivo imedi-
ato ou meio), como também, para aquilo que Amartya Sen (p.79, 2001)
define como “conjuntos capacitários”, no qual o ato de “viver” pode ser
considerado como um conjunto de funcionamentos inter-relacionados
compostos por estados e ações, dentre os quais, a realização de uma pessoa
pode ser entendida como vetor destes funcionamentos.
Em outras palavras, a vida é composta por um conjunto de estado de
ser, e de ações que constroem este ser, de modo inter-relacionado, naquilo
que se denomina de “funcionamentos”, e que são orientados pelas realiza-
ções das pessoas.
Dessa forma, segundo Sen (p. 79, 2001), “os funcionamentos relevan-
tes podem variar desde coisas elementares como estar nutrido
adequadamente, estar em boa saúde, livre de doenças que podem ser evi-
tadas, e da morte prematura etc., até realizações mais complexas [...]”. É
nesse sentido que a função social desempenhada pelo SUS possibilita às
pessoas tanto a realização de coisas elementares quanto mais complexas,
como por exemplo, de ter acesso à atendimento e tratamento médico de
qualidade, mesmo que não possuam condições econômicas para tanto
(coisa elementar), o que colabora para as suas realizações e em poder levar
294 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

uma vida que valorizam, no sentido amplo em que é apontado em Amartya


Sen (realização mais complexa).
O pilar da Assistência Social, por sua vez, integra importante política
pública, pois sua função é fazer com que determinados grupos mais vul-
neráveis, e tradicionalmente excluídos do acesso a certos bens e serviços,
possam ter ampliadas as suas condições de ter acesso aos mesmos
(PEREIRA, p. 35, 2002).
Nesse prisma, o referido pilar exerce importante papel no desenvol-
vimento das capacidades de grupos mais vulneráveis, possibilitando que
suas habilidades laborais e, ou, sociais, dentre outras, sejam descobertas
ou mesmo potencializadas.
O terceiro pilar, isto é, a Previdência Social, conforme fora estudado,
exige contribuição para obter acesso aos benefícios disponibilizados. As-
sim, por um lado, há uma limitação dos cidadãos que podem recorrer a
esta, mas por outro, a mesma dispõe de benefícios diferenciados que auxi-
liem os segurados em situações e requisitos não contemplados pelos
outros pilares, tal como os benefícios por incapacidade e o seguro desem-
prego.
É nesse pilar que reside importante possibilidade de garantir ampla
segurança social aos cidadãos que durante a pandemia do Coronavírus,
encontram-se incapacitados para o exercício do labor a que estavam habi-
tuados a exercer, inclusive aqueles que perderam a sua qualidade de
segurado pelo desemprego de longa data, não podendo prover sua própria
manutenção ou de sua família. Isso, exclusivamente, se através de uma
política comprometida, o País adotar a medida apontada pela Organização
Internacional do Trabalho (OIT) como uma solução emergente.
Segundo dados apresentados pelos estudos da OIT que se ateve em
países “em desenvolvimento”, mais da metade da população mundial não
são cobertos por seguro social ou assistência social. Embora o COVID-19
não discrimine entre ricos e pobres, seus efeitos são muito desiguais, pois
a capacidade de acessar serviços de saúde de forma acessível e qualitativa
se tornou uma linha tênue entre vida e morte. E é nesse cenário que a OIT,
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 295

por meio de seus referidos estudos, apontou como uma possível solução
emergente, a expansão da cobertura do benefício de auxílio-doença a toda
a população, o que poderia garantir amparo a grupos mais vulneráveis, e
resultados positivos quanto ao apoio à saúde pública, prevenção da po-
breza e promoção de direitos humanos (ONU, 2020).
Esta política emergencial que demandaria a aprovação de uma
Emenda Constitucional em caráter de urgência a fim de, por tempo deter-
minado, quer seja, enquanto perdurar a pandemia, ou até a
disponibilização de uma vacina eficaz, capaz de prevenir a infecção pelo
SARS CoV 2, ampliar a cobertura do benefício previdenciário de auxílio-
doença a todos os cidadãos. Em outras palavras, exclusivamente para este
benefício, não haveria a necessidade da comprovação de carência, ou de
contribuições previdenciárias.
Resta evidente que a medida sugerida elevaria as despesas da Previ-
dência Social, contudo, Medida Provisória n.º 978/2020 que poderia ter
destinado importantes valores para esse fundamental pilar da Seguridade
Social quedou-se em fazê-lo, tendo se limitando a destinar valores aos ou-
tros dois pilares (saúde e assistência social).
Concomitante, há a possibilidade de destinar importantes fundos à
Previdência Social por meio de emenda de remanejamento ou apropria-
ção, acrescentando doações, desde que estas estejam em acordo com o
Plano Plurianual (PPA) e com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)
(BRASIL, 2020).
Ainda, há variados especialistas que defendem uma reforma tributá-
ria capaz de alterar a alíquota dos impostos para os mais ricos, visto que a
tabela é considerada pouco progressiva para a renda. Dentre seus funda-
mentos encontra-se a desigualdade social, visto que, por exemplo, segundo
o ranking da ONU, no ano de 2019, o Brasil ocupava a sétima posição en-
quanto mais desigual do mundo, sendo o segundo com a maio
concentração de renda, quer seja, o 1% (um por cento) mais rico centrali-
zava 28,3% (vinte e oito ponto três por cento) de toda a riqueza do País.
296 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Durante a pandemia não foi diferente, e os ricos, ao contrário dos pobres,


aumentaram seus rendimentos (UOL, 2020).
As medidas defendidas no presente estudo colaboram para além da
proteção imediata da sociedade, podendo agir enquanto catalizadoras das
capacidades e habilidades das pessoas, conferindo-lhes condição de
agente, e assim, auxiliando na superação da crise sanitária e de seus refle-
xos negativos, bem como, colaborando para um futuro menos
necessariamente assistencialista.

5. Conclusão

Diante do presente estudo, restou evidenciada a desigualdade social


existente no Brasil, bem como o crescimento dos índices de pobreza ex-
trema, e outras vulnerabilidades que comprovaram o quão necessário é a
disponibilização de políticas públicas aos grupos mais atingidos pela Pan-
demia do Coronavírus, isto é, as populações mais vulneráveis.
Nesse sentido, como possíveis soluções a serem adotadas, restou pre-
ciso que se faz cogente a adoção de um conjunto de políticas capazes de
garantir ampla segurança à sociedade brasileira, o que uma política, de
forma isolada não pode se cumprir em fazer.
Assim, em outras palavras, as hipóteses trabalhadas revelam-se inca-
pazes, de modo isolado, de atenderem a todas as particularidades e
vulnerabilidades sociais. Entretanto, o seu conjunto se demonstra efetivo
para tanto, por meio da manutenção do auxílio emergencial em seu valor
original, fortalecimento do Programa Bolsa Família, destinação e auxílio
financeiro e estrutural ao SUS, bem como à Assistência Social. Ainda, pela
adoção e aplicação do estudo da OIT em caráter emergencial e temporário,
ampliando a cobertura do benefício de auxílio-doença a toda a população,
utilizando como fundo de gastos extras, auxílio emergencial à exemplo da-
quele conferido à Saúde e Assistência Social, Emendas Parlamentares,
Reforma Tributária, dentre outras fontes, até que essas ações façam a eco-
nomia girar, recuperando os valores investidos.
Ana Paula Coelho Abreu dos Santos; William Picolo Fibrans | 297

Esse conjunto de gerenciamento de políticas públicas e sociais revela-


se catalizador do desenvolvimento das capabilities da população, auxili-
ando-os na consecução de sua condição de agente, garantindo um
enfrentamento seguro à pandemia do Coronavírus, e possibilitando que as
pessoas possam levar a vida que elas desejam e que valorizam.

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17

Proteção social dos trabalhadores uberizados na


pandemia: análise dos fundos financeiros de apoio a
entregadores e motoristas1

Nayana Shirado2
Vanessa Shirado Barbosa3

1 Introdução

A Covid-19 é uma doença infecciosa provocada pelo vírus Sars-Cov-


2, foi descoberta na China no final de 2019 e se manifesta por sinais e sin-
tomas gripais (tosse, coriza, febre, dispneia, dor de garganta) que podem
evoluir para morte. Devido à elevada taxa de transmissibilidade, a adoção
de medidas de isolamento social foi considerada pela OMS como essencial
para achatar a curva de contágio e evitar o colapso dos serviços de saúde
(MINISTÉRIO DA SAÚDE a,2020).
O Ministério da Saúde recomenda o isolamento domiciliar por 14 dias
para os casos sintomáticos e, nos casos de piora do quadro clínico, trata-
mento hospitalar referenciado. Outras medidas profiláticas são: usar

1
O presente trabalho é fruto dos debates e reflexões gestadas no Grupo de Pesquisa Cidadania, Constituição e Estado
Democrático de Direito, vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Mestrado e Doutorado em Direito Político e
Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie, liderado pelo Prof. Dr. José Carlos Francisco.
2
Doutoranda em Direito Político e Econômico na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM/SP). Lattes ID:
http://lattes.cnpq.br/5853108301126630. Orcid ID: https://orcid.org/0000-0002-4480-5658. E-mail: na-
yana27@hotmail.com.
3
Mestre em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
(UFMS). Lattes ID: http://lattes.cnpq.br/2159381234330514. Orcid ID: https://orcid.org/0000-0003-4203-210X. E-
mail: vshirado1@hotmail.com.
302 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

máscara, a higienizar com álcool em gel a 70%, lavar as mãos com água e
sabão, manter o distanciamento de 2 metros, cobrir a boca ao tossir, evitar
tocar nariz, boca e olhos com as mãos sujas (MINISTÉRIO DA SAÚDE
b,2020).
Nesse cenário de crise sanitária e distanciamento social, a disrupção
econômica no fornecimento de produtos e serviços é inevitável. O mundo
do trabalho foi severamente impactado: trabalhadores autônomos perde-
ram renda, empresas encerram suas atividades ou migraram para o
modelo de negócio virtual, o número de desempregado subiu 26% em ju-
nho/2020 no comparativo com o mês anterior (IBGE, 2020).
Para manter as vendas, muitos estabelecimentos comerciais passa-
ram a investir na modalidade de entrega em domicílio (delivery) oferecida
por empresas que operam serviços tecnológicos por aplicativos. Nesse con-
texto, a plataforma Rappi aumentou em 30% o número de
estabelecimentos cadastrados na América Latina (supermercados, farmá-
cias e restaurantes) (MANZONI Jr., 2020). Enquanto o Ifood, 32%,
incluindo padarias, entre março e junho/2020 (EXAME, 2020).
O aumento da demanda de serviços de entrega por aplicativos aliado
ao aumento de desemprego impulsionou o cadastramento nas plataformas
de trabalhadores informais, Ifood, Rappi e Uber4, que, juntas são respon-
sáveis por mais de 4 milhões de vagas de trabalho (IBGE,2020).
No que tange a saúde dos entregadores, não há, até o momento, am-
paro legal por parte do poder público que lhes confira qualquer direito,
submetem-se a jornadas exaustivas de trabalho, sem acesso à água, sem
condições de adquirir Equipamento de Proteção Individual (EPI) sendo ex-
postos ao contágio pelo novo coronavirus e a risco de acidentes.
Para garantir renda a essa massa de trabalhadores informais, desem-
pregados, e microempreendedores individuais, o governo federal criou o

4
A Uber por meio do UberEats aumentou o faturamento na pandemia para 1,2 bilhões. Disponível em: https://dom-
total.com/noticia/1464237/2020/08/uber-tem-maior-queda-de-receita-mas-delivery-dobra-faturamento/ . Acesso
em: 19 de out. 2020. E, inovou permitindo que o delivery pudesse ser realizado por entregadores com carro, isso
ocorreu para que o prestador tivesse a possibilidade de diminuir os prejuízos com a redução na demanda por trans-
porte de pessoas, após a implantação das medidas de isolamento social. Disponível em:
https://blog.gavclub.com.br/motoristas-uber-entrega-eats/ .Acesso em 19 out.2020.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 303

auxílio emergencial, por meio da Lei 13.982, de 02/04/2020 para conce-


der, inicialmente, 3 (três) parcelas de R$ 600,00 a essas categorias de
trabalhadores vulnerabilizados pela pandemia (BRASIL,2020).
Para além dessa intervenção do Estado, algumas empresas de tecno-
logia que operam aplicativos, constituíram fundos financeiros para
garantir renda aos trabalhadores que testarem positivo para Covid-19 ou
forem colocados em isolamento domiciliar por determinação médica.
A pesquisa procurou investigar como operam os fundos financeiros
constituídos pelos aplicativos Rappi, Uber e Ifood e qual a extensão das
coberturas oferecidas em termos de proteção social na pandemia, a fim de
propor reflexões sobre a livre condição de agente desses trabalhadores
uberizados e o bem-estar gerado com a concessão desse auxílio, à luz do
pensamento de Amartya Sen.

2 Metodologia

A metodologia consistiu na análise das políticas de assistência finan-


ceira a entregadores e motoristas dos aplicativos Uber, Ifood e Rappi,
disponíveis nos respectivos sítios eletrônicos oficiais e acessadas no perí-
odo de setembro a 25 de outubro de 2020 A escolha da amostra recaiu
nessas plataformas em detrimento de outras, por se tratar de empresas
que detém a maior parte do mercado de entrega por aplicativos no Brasil.
A pesquisa bibliográfica sobre a uberização no mundo do trabalho,
contou com as contribuições de Slee (2017), Gaia (2019), Alves (2019) e
Marques; Brasil (2019), para situar esse novo modelo de trabalho como
forma de transferência dos riscos do empreendimento econômico do titu-
lar do aplicativo ao trabalhador.
O estudo adotou como aporte teórico os trabalhos de Amartya Sen
(2008, 2010, 2015, 2017; CONFERÊNCIA...2013; SEN, KLIKSBERG, 2010)
que focalizam o desenvolvimento como liberdade substantiva, a condição
de agente e o bem-estar, não só para considerar os fundos financeiros
304 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

como meios para obtenção de bem-estar, como também para compreen-


der a liberdade substantiva e a condição de agente do trabalhador
uberizado, sobretudo em tempos de pandemia de Covid-19.

3 Resultados

O levantamento das políticas de ajuda financeira dos fundos pesqui-


sados resultou na tabulação dos dados abaixo. E, apontou as nuances dos
fundos considerando os critérios de elegibilidade ao benefício, o período
como base de cálculo para o valor da assistência financeira, além do perí-
odo de afastamento e outros benefícios.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 305

Tabela 1- Política de assistência aos trabalhadores segundo o tipo de aplicativo de entrega, 2020.

Fonte: OS APLICATIVOS IFOOD, UBER E RAPPI.


1 A Política de benefícios do Ifood para o Benefício de Seguro de Vida está disponível desde 15/4/20 e é válida até
14/10/2020. E, a Política de assistência financeira anunciada no site da empresa Ifood vai até Dezembro/2020.
2 Política de assistência financeira anunciada no site da empresa Uber com validade até 8 de novembro de 2020
(destina-se a motoristas e entregadores que contraíram covid-19 ou foram expostos e tiveram a quarentena solicitada
por autoridade em saúde pública).
306 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Na Uber, são previstos 14 dias de afastamento e o cálculo de benefício


considera a média dos 3 meses anteriores a 6 de março. Na política de
assistência financeira do Ifood, são concedidos até 28 dias de afastamento
e o cálculo de benefício considera a média dos últimos 30 dias ativos. Na
plataforma Rappi, são previstos 15 dias de afastamento com benefício cal-
culado pelos últimos 30 dias ativos.
Nenhuma das políticas prevê a extensão do pagamento caso o afasta-
mento do trabalhador seja prorrogado por recomendação médica.
Decorrente do tipo de negócio que se preordena por ferramentas digitais,
as plataformas não dispõem de meios de interação humana, como tele-
fone, correio eletrônico ou atendimento presencial. Diferentemente da
Uber e do Ifood, quem é que o responsável pela operação do fundo da
Rappi não é o próprio aplicativo, mas um terceiro, a Cruz Vermelha.
A adesão ao plano de assistência em saúde é oferecida pelo Ifood e
Uber de forma opcional, porém os encargos são de responsabilidade do
trabalhador. O Ifood oferece um desconto de até 80% em consulta médica,
exames e medicamentos e a Uber prevê que familiares tenham desconto
em teleconsulta na área da saúde, realização de exames ou aquisição de
medicamentos em rede credenciada. A Rappi informa que direciona os ca-
sos suspeitos de Covid para o atendimento na Cruz Vermelha.
Além dos fundos de assistência financeira outras medidas de segu-
rança são oferecidas pelas plataformas, como por exemplo a realização da
entrega “sem contato”, divulgação de informação sobre autocuidado e a
distribuição gratuita de kits de proteção (máscara, luva, álcool) com ori-
entação sobre o uso, higienização, descarte, substituição dos equipamentos
de proteção e/ou desinfecção quando for o caso.
Somente a Uber conta com um check-list de controle diário das reco-
mendações de segurança e prevenção exigidas pela plataforma. Antes de
iniciar as viagens, o trabalhador deve confirmar que está cumprindo as
medidas de precaução, como circular com vidros abaixados, higienização
e o uso de máscaras. A fiscalização é feita por meio de selfie. E, conta com
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 307

o centro de apoio, local para higienização de mochilas e distribuição de kits


de proteção.
Dentre as medidas de prevenção da Covid-19 não estão são inseridos
o fornecimento de alimentação aos trabalhadores, tão pouco auxílio finan-
ceiro para o custeio das refeições dos que utilizam o aplicativo por período
igual ou superior a 8h/dia.
Com relação a segurança viária, desde 2016, a Uber disponibiliza para
os entregadores e motoristas parceiros um seguro com cobertura para aci-
dentes pessoais e, recentemente, a empresa definiu o tempo máximo de
utilização da plataforma pelo entregador como sendo de 12 horas/dias. Tal
medida foi tomada durante a pandemia e ao que tudo indica para proteger
o entregador da exaustão ocasionada pelo trabalho oferecido, bem como
forma de reduzir a exposição a exposição ao risco de acidentes.
A Rappi oferece seguro acidente desde 2019. O seguro contra aciden-
tes disponibilizado pelo Ifood desde o fim de 2019, oferece cobertura de até
R$ 15.000,00 com despesas médicas e R$ 100.000,00, em caso de morte
ou invalidez permanente. São incluídos não só os sinistros ocorridos du-
rante as entregas, mas ainda os relacionados ao percurso casa-trabalho.
Somente o Ifood disponibiliza seguro de vida, no valor de até R$
20.000,00 a familiares de entregadores que morrerem por Covid-19. Para
tanto, as empresas cedem seus canais de comunicação para contato e envio
de documentação comprovatória.

4 Discussão

4.1 Precarização das condições de trabalho e pandemia

A pandemia do novo coronavírus escancarou não só as precárias con-


dições de trabalho do ubertizado5, como também a maior exposição ao

5
Na pandemia, o Ministério Público do Trabalho (MPT) em parceria com a Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP) e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA - United Nations Population Fund) criaram a série
“Por trás do aplicativo” cujos vídeos foram gravados a partir de depoimentos de entregadores por aplicativo, denun-
ciam as precárias condições de trabalho na pandemia (PERES,2020).
308 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

risco de contágio da covid-19 (ARAÚJO, 2020). Se antes já havia insatisfa-


ção dos trabalhadores com as condições de trabalho, agora, a precarização
ocorre numa escala ainda maior6.
É que a pandemia impulsionou a oferta de mão de obra, houve redu-
ção nos preços dos serviços de entrega, bem como nas taxas repassadas
aos trabalhadores no comparativo com períodos anteriores, conforme le-
vantado por pesquisa da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma
Trabalhista (ABÍLIO, 2020).
Para manter o patamar de ganhos, os entregadores tiveram de au-
mentar a carga de trabalho, em termos de quantidade de encomendas e
horas de trabalho, e com isso aumentou também o risco de contágio ao
coronavírus e a ocorrência de acidentes (ABILIO, 2020).
Com o aumento da exposição, muitos entregadores tiveram de arcar
com os custos de máscara e álcool em gel para as etapas de retirada da
encomenda, transporte, distribuição e pagamento. Buscando minimizar a
exposição de clientes e entregadores as plataformas passaram a orientar o
pagamento por aplicativo e a estimular a chamada “entrega sem contato”,
em local combinado previamente com o cliente (FABRO,2020).
A recomendação da vigilância sanitária é de que o entregador de apli-
cativo realize a higienização das superfícies de contato do veículo, seja
moto, carro ou bicicleta, assim como da caixa-térmica e da máquina de
cartão. A limpeza das mãos com álcool a 70% o uso de máscara e a entrega
sem contato físico com o entregador são outras medidas profiláticas
(ANVISA, 2020).
Na ausência de um local para fazer as refeições, usar o banheiro e/ou
descansar, a maioria dos entregadores opta por se concentrar em áreas
estratégicas da cidade, próximas aos centros comerciais com fácil acesso a
banheiro, torneira e mesa (DIOGENES, 2019). O compartilhamento desses
espaços públicos sem os devidos cuidados aumenta a taxa de transmissão
da Covid-19.

6
O setor focaliza as reivindicações por mudança na remuneração das corridas, fim do bloqueio injustificado, fim do
sistema de pontuação, fornecimento de máscara, álcool gel, medidas de desinfecção, licença remunerada, alimenta-
ção durante a jornada, seguro de vida, contra acidentes e roubo (VILELA,2020).
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 309

Em relação ao condutor de veículos de transporte por aplicativo ou


taxista, as recomendações são: circular com os vidros abertos, evitar o uso
de ar-condicionado, higienização dos veículos, uso de álcool em gel e más-
caras (CABRAL, 2020). Algumas plataformas oferecem a instalação de
dispositivos de barreira a fim de isolar o passageiro do condutor, sendo os
encargos transferidos para os motoristas. Entretanto, especialistas pon-
tuam o risco de contaminação do próprio condutor durante a higienização
desses equipamentos7.
Para Barbara Castro, professora de Sociologia na Universidade Esta-
dual de Campinas (UNICAMP), mesmo com alguns protocolos sendo
elaborados pelas plataformas, o prestador não tem garantia de segurança
para evitar o contágio viral, uma vez que é estimulado a trabalhar cada vez
mais sem que sejam feitos testes e isolamento da população doente. Além
disso, ressalta que não estão previstos adicional de insalubridade nem con-
trole de horas trabalhadas, exceção à Uber, que estabeleceu recentemente
o limite de 12 horas diárias para utilização pelo motorista cadastrado
(PICHONELLI, 2020).
O limite de horas diárias tem relação direta com a ocorrência de aci-
dentes. Trabalhadores com jornada diária acima de 8h tem duas vezes
mais chance de se envolver em acidente do que aqueles cuja jornada diária
seja inferior a esse patamar. Outros fatores também influenciam na ocor-
rência de acidentes8, como pilotar sob situação de pressão, ter recebido
multas ao longo das jornadas de trabalho e ter tido aprendizagem prévia
de direção de motocicleta antes do ingresso na profissão (MORAES,2008).
A uberização no mundo do trabalho é situada por Slee (2017) como
produto da Economia do Compartilhamento, em que novos negócios usam
a internet para unir consumidores a provedores de serviço. Porém um

7
Cf. Divisória no carro ajuda a proteger contra coronavírus, mas precisa de higienização constante, dizem
infectologistas. 2020. Disponível em: https://www.abracaf .com.br/ abracafnews/divisoria-no-carro-ajuda-a-pro-
teger-contra-coronavirus-mas-precisa-de-higienizacaoconstan te-dizem-infectologistas/. Acesso em: 11 out. 2020.
8
Dados do INFOSIGA obtidos pelo Esquerda Diário (2020) durante o mês de maio/2020, revelam que o Estado de
São Paulo registrou um aumento de 7,2 % nos acidentes com motoboys, cerca de 40 motociclistas foram a óbito
contra 29 no mesmo período de 2019. Os acidentes foram mais recorrentes nos fins de semana (51,7 %) e no período
noturno (54,8 %). Disponível em: https:// www.esquerdadiario.com.br/SP-Mortes-de-motociclistas-crescem-38-
em-meio-a-pande mia-e-os-entregadores-sao-os-maiores-afetados
310 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

aspecto lembrado por Alves (2019) diz respeito à necessidade de aperfei-


çoamento das normas laborais para proteção das relações de trabalho por
meio de plataformas digitais, considerando, em sua visão, haver subordi-
nação9 entre a empresa de aplicativo e o trabalhador, ou ainda
parassubordinação (ou trabalho autônomo economicamente dependente).
Marques; Brasil (2019) apontam que a prestação de serviço por meio
de plataformas digitais implica uma nova perspectiva de atuação do poder
diretivo do empregador, havendo, portanto, trabalho subordinado. No
mesmo sentido, o Ministério Público do Trabalho (2018) publicou estudo
recente acerca do tema, identificando o vínculo de trabalho subordinado
da plataforma com o uberizado.
Numa rápida consulta ao sítio eletrônico do Congresso Nacional10, é
possível identificar mais de 60 (sessenta) projetos de lei, sendo que a mai-
oria deles tramita na Câmara dos Deputados e 9 (nove) no Senado Federal
em tramitação, o que evidencia a urgência de uma legislação para proteger
o setor, seja para melhorar as condições de trabalho, seja para garantir
direitos sociais.
Enquanto essa alteração legislativa sobre a subordinação desse tipo
de trabalho prestado por meio de aplicativos, se autônomo11, subordinado
ou parassubordinado, não chega, é o trabalhador quem fica desamparado
quanto ao trabalho realizado em condições precárias de alimentação e de
proteção adequada contra Covid-19.

4.2 Vulnerabilidade Social

As ferramentas digitais de interação entre os aplicativos e os traba-


lhadores, disponíveis nas plataformas, não contemplam o uso de meios de

9
Marques; Brasil (2019) apontam que a prestação de serviço por meio de plataformas digitais implica uma nova
perspectiva de atuação do poder diretivo do empregador, havendo, portanto, trabalho subordinado.
10
Cf. Sítio eletrônico do Congresso Nacional: www.congressonacional.gov.br. Acesso em 25 out 2020.
11
No Brasil, a legislação não reconhece o trabalho prestado por meio de plataformas digitais como subordinado ou
parassubordinado, mas como autônomo, embora haja decisões favoráveis à subordinação, referidas em estudo do
Ministério Público do trabalho (2018).
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 311

comunicação como telefone e correio eletrônico ou sistema de agenda-


mento de atendimento presencial, que, de alguma forma, permitiriam a
mediação humana na resolução de dúvidas e solução de problemas. Rele-
gar o tratamento de pedidos sensíveis à saúde do uberizado a algoritmos,
representa um menoscabo à vida humana.
Como já mencionado, as políticas de assistência financeira têm prazo
certo para expirar e não consignam a previsão de uma ação coordenada
para prorrogação da validade da política com os planos de flexibilização do
isolamento social, em nível municipal e estadual. Em recente judicializa-
ção12 do tema, ficou consignada a necessidade de a plataforma ajustar a
cessação do benefício à última etapa prevista na política de flexibilização
do governo.
Diante disso, perguntas importantes para o controle externo da efi-
cácia dessa estratégia, principalmente quanto ao percentual de
trabalhadores elegíveis, o montante pago total e individualmente e o nú-
mero de afastamentos remunerados concedidos, ficam sem resposta13.
A análise dos fundos, nesse particular, é inconclusiva. Embora haja
previsão quanto `as condições de elegibilidade dos trabalhadores para ob-
tenção do recurso financeiro, não são informadas as ferramentas de
controle externo e interno que estão ao alcance do interessado, do público
em geral, e dos órgãos de fiscalização do trabalho.
O componente que incandesce a discussão diz respeito à perda de
renda, em caso de adoecimento por Covid-19, pois o tempo de afastamento
recomendado pela OMS é de, inicialmente, 14 dias, podendo perdurar por
tempo superior, caso agravado o estado clínico do paciente.
A falta de renda durante esse período, sobretudo quando o uberizado
não foi contemplado com o pagamento mensal do auxílio emergencial de
R$ 600,00 (seiscentos reais) instituído pela Lei n. 13.982, deixa o traba-
lhador ainda mais vulnerável aos riscos sociais (LABRADBURY,2020).

12
PROCESSO NÚMERO 1000436-37.2020.5.02.0073. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/ proces-
sos/265427012/processo-n-1000436-3720205020073-do-trt2?ref=goto . Acesso em: 25 out. 2020.
13
O site Repórter Brasil, em matéria divulgada em 01/07/2020, obteve apenas do aplicativo Ifood a informação de
que menos de 1 porcento de um total de 170.000 colaboradores havia contactado a plataforma solicitando o benefício.
312 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Sob tal ordem de ideias, interessa à discussão saber se os fundos fi-


nanceiros constituídos por aplicativos, a partir de recomendação do MPT
na nota técnica CONAFRET n. 1/2020, cumpriram com o escopo de garan-
tir aos uberizados acometidos com Covid-19 e àqueles com mais de 60
anos e aos do grupo de risco, assistência financeira para subsistência du-
rante a pandemia.
Resultados importantes para aferição da eficácia dessa política de
constituição de fundos financeiros não são de conhecimento público, como
o percentual de trabalhadores elegíveis, o percentual de trabalhadores que
solicitaram o recurso e dentre esses o percentual daqueles que foram con-
templados, o montante de recursos sacado do fundo, o valor médio pago
individualmente, o número de afastamentos remunerados e o tempo mé-
dio de resposta entre o requerimento do trabalhador e a resposta da
empresa.
Esse estado de coisas contrasta com a publicidade sobre a ajuda fi-
nanceira, estampada em mídia impressa e falada, divulgada em redes
sociais, páginas oficiais na internet e nos próprios aplicativos, que não in-
dicam o documento que serve como referência da política de assistência
implementada, não informam se é auditada por órgão independente, se é
avalizada por órgãos de fiscalização do trabalho.
A falta de transparência gera dúvidas não apenas sobre o atingimento
do escopo pretendido, como também, se a política foi implementada da
forma como fora proposta. É como conhecer as regras do jogo e os joga-
dores, mas não saber do resultado da partida. Conferir transparência a
essas informações implica submetê-las ao escrutínio de toda sociedade,
para que as práticas sejam avaliadas, replicadas ou criticadas.
Diante das promessas de autonomia, renda proporcional ao desem-
penho e qualidade dos serviços prestados, o que subjaz é a assunção dos
custos e dos riscos do trabalho e o desamparo social. Nessa toada, para
além da vulnerabilidade social, a uberização replica ciclo intergeracional
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 313

de trabalho mal remunerado - em que estão ausentes a liberdade, a equi-


dade e a segurança, incapaz de garantir uma vida digna às pessoas,
assentada no trabalho decente14.
O desenho dos fundos financeiros, longe de inovar com alguma pro-
teção importante em termos de melhoria das condições de trabalho,
mantém a transferência dos riscos do empreendimento econômico do ti-
tular do aplicativo ao trabalhador (GAIA, 2019).
A precariedade das condições trabalho discutida no item anterior,
agravada pela pandemia do novo coronavírus, aponta para dois fatores,
que vulnerabilizam socialmente o trabalhador uberizado e que devem ser
discutidos à luz das coberturas oferecidas pelos fundos financeiros, a da
perda de renda, em caso de adoecimento pro Covid-19, já comentada pre-
viamente e outro, a insegurança alimentar.
A segurança alimentar diz respeito ao acesso regular e permanente a
alimentos de qualidade em quantidade suficiente15. Como garantir, em
tempos de pandemia, o acesso a alimentos de qualidade (in natura e mini-
mamente processados) e em quantidade suficiente a trabalhadores que
vivem com pouca renda e desempenham atividade volante?
A resposta a essa pergunta deveria ter sido considera no desenho dos
fundos financeiros. A falta de previsibilidade de pagamento de um valor
para refeição diária nas políticas de assistência financeira dos aplicativos
estudados prejudica o acesso à alimentação adequada.
O tipo de trabalho volante que o uberizado exerce, sequer permite
que leve de casa a refeição que será consumir, seja porque não dispõe de

14
Segundo a OIT, o Trabalho Decente é condição fundamental para a superação da pobreza, a redução das desigual-
dades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável. Trata-se de um conceito
central para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas, em es-
pecial o ODS 8 , que busca “promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno
e produtivo e trabalho decente para todas e todos”. Em síntese, o Trabalho Decente é o “trabalho adequadamente
remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna”. Cf.
Trabalho Decente na página da Organização Internacional do Trabalho (OIT): https://www.ilo.org/brasilia/te-
mas/trabalho-decente/lang--pt/index.htm.
15
A Lei n. 11.346 de 15/09/2006, que criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), con-
ceituou, no art. 3º, a segurança alimentar e nutricional como a “realização do direito de todos ao acesso regular e
permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades
essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que
sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”.
314 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

local para armazená-la (a caixa térmica não conserva o alimento por horas
a fio), seja porque não dispõe de um local para fazer as refeições, como
mencionado no item anterior.
Esse estado de coisas, leva o trabalhador a comprar sua refeição dia-
riamente, quando dispõe de recursos financeiros suficientes. Quando
dispõe de pouco, se alimenta mal, pois os produtos ultraprocessados com
elevado teor de gordura, sal e açúcar são os alimentos mais baratos. E
quando não dispõe de nenhum recurso financeiro, simplesmente, não se
alimenta naquele dia. A soma desses fatores impacta, severamente, em
profunda insegurança alimentar e nutricional, e por consequência em
baixa cobertura imunológica às doenças oportunistas.

5 Como analisar o trabalhador uberizado à luz da condição de agente


e os fundos financeiros sob o viés do bem-estar

No contexto analisado, a compreensão da condição de agente do tra-


balhador uberizado à luz do pensamento de Amartya Sen e a avaliação dos
fundos financeiros sob o viés do bem-estar interessam, sobremaneira, ao
presente trabalho, sob a perspectiva das capacidades básicas desses traba-
lhadores.
Em primeiro lugar, o núcleo do conceito de bem-estar, segundo
Amartya Sen (2008) está associado com as capacidades básicas adquiridas
pelos indivíduos para satisfação de suas necessidades. O número de pes-
soas que não desfrutam de níveis minimamente aceitáveis de capacidades
básicas, ainda é elevado (CONFERÊNCIA...2013), não obstante haja uma
opulência na vida contemporânea, inclusive tecnológica (SEN, 2015).
As capacidades básicas dizem respeito às combinações de funciona-
mentos (fazer e ser) que uma pessoa pode atingir. É um vetor de
funcionamentos que reflete a liberdade substantiva (oportunidade real)
de a pessoa viver um estilo de vida diferentes de outros estilos de vida, de
poder escolher entre alternativas e de realizar seus próprios projetos.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 315

Sen (2017) propõe que, para analisar se houve benefício ou privação


de capacidades de uma pessoa, deve-se para atentar sobre as possiblidades
de a pessoa fazer e ser aquilo que valorize – e com razão, como por exem-
plo, a habilidade de levar uma vida livre de doenças, de ir e vir livremente,
e de participar da vida pública.
A renda, nesse contexto, é considerada pelo economista como meio
para atingir objetivos de melhoria da qualidade de vida. Não valor em si
mesma, senão pela ajuda que proporciona na obtenção de uma boa vida,
considerada como a vida que se tem motivos para valorizar (SEN;
KLIKSBERG, 2010), como a saúde, em tempos de pandemia.
Contudo, é preciso ter presente que não basta auferir renda, porque
pode existir a dificuldade de converter renda em capacidade (SEN, 2010),
considerando que, doente, o uberizado necessitará de mais renda para ob-
ter os mesmos funcionamentos que obteria estando são.
A partir dessa premissa, consideramos os fundos financeiros como
meio para realização do bem-estar, porque garantem a esses trabalhado-
res alguma renda num momento em que se deve proteger a vida. Mas é
preciso que, de fato, esses recursos sejam transferidos aos trabalhadores e
que esse processo seja fiscalizado.
A falta de transparência na concessão de auxílio financeiro prometido
pelos aplicativos ajuda a manter esses trabalhadores no limbo da exclusão
social: elegibilidade vacilante e inacessibilidade ao controle do interessado
e do poder público, subtraem do uberizado a liberdade substantiva de
levar a vida que tem motivo para valorizar e de melhorar as escolhas reais
que possui (SEN, 2010).
Em segundo lugar, o termo “agente” é usado pelo autor na acepção
de pessoa que ocasiona mudança e cujas realizações pode ser julgadas de
acordo com seus próprios valores e objetivos, independentemente de um
critério externo (SEN, 2010)
A condição de agente está vinculada à ideia de assegurar a todo indi-
víduo a possibilidade de livre manifestação de suas potencialidades
316 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

pessoais e, em decorrência disso, o desenvolvimento da sua capacidade de


se inserir autonomamente no mercado de trabalho (SEN, 2008).
Isso é o que permite que o indivíduo tenha rendimentos pessoais su-
ficientes para se incluir na condição de cidadão de direitos, ou seja, na
condição de agente do seu próprio destino. Dessa forma, a condição de
agente implica êxito na busca da totalidade dos objetivos e finalidades do
indivíduo (SEN, 2008).
Diante das evidências científicas trazidas neste estudo, no que tange
à precarização do trabalho e à vulnerabilidade social agravada pela pande-
mia de Covid-19, os trabalhadores uberizados não concretizam o êxito na
busca de seus objetivos. Aumentar as capacidades por meio de política pú-
blica é uma proposta que se mostra factível no contexto vivenciado de
pandemia e que contribui par aumentar a liberdade de buscar seus objeti-
vos.
Esse estado de coisas coloca os entregadores e motoristas à margem
do desenvolvimento como liberdade substantiva concebido por Amartya
Sen (2010), cujo fim são as próprias pessoas. O trabalhador uberizado
pensa que é livre, porque pode escolher o dia em que trabalha, o horário e
o ganho mensal. É uma liberdade falsa, porque não realiza funcionamen-
tos sequer para o bem-estar do uberizado, que é colocado numa condição
de escravo dos tempos tecnológicos16.

6 Conclusão

O estudo conclui que a pandemia acentuou a precarização das rela-


ções de trabalho dos uberizados e trouxe luz sobre a falta de proteção social
a essa categoria de trabalhadores, sobretudo quando não recebem auxílio
emergencial do governo.
No que tange à vulnerabilidade social provocada pela perda de renda
em caso de adoecimento por Covid-19, a análise dos fundos financeiros

16
Na última página de sua obra “Desenvolvimento como liberdade”, Amartya Sen (2010, p. 378) cita um trecho da
obra de William Cooper, assim traduzido: “A liberdade tem mil encantos a mostrar/Que os escravos, por mais satis-
feitos, nunca há de provar”.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 317

resultou inconclusiva, diante da falta de transparência das informações


quanto ao percentual de trabalhadores elegíveis, ao percentual de solicita-
ções e de deferimentos e ao montante sacado, dentre outras variáveis
importantes para conformação da análise.
Esse estado de coisas coloca os entregadores e motoristas à margem
do desenvolvimento como liberdade substancial concebido por Amartya
Sen, cujo fim são as próprias pessoas. A uberização traz a ilusão de liber-
dade, por colocar nas mãos do trabalhador, o “poder” de determinar
quando se colocará no mercado, mas sua condição de precarizado não
deixa dúvidas de que se trata de uma liberdade falsa, porque não realiza
funcionamentos para o bem-estar de si próprio.
A passagem d´O Contrato Social em que Rousseau (1996) afirma que
o povo inglês pensa ser livre, mas se engana, porque a liberdade só existe
quando escolhe os representantes, depois, o povo vira escravo, guarda
certa semelhança com o uberizado, que, depois de fazer suas escolhas,
torna-se o escravo dos tempos tecnológicos.
As contribuições do estudo, para além de apresentar uma visão pa-
norâmica da prestação de serviços por meio de aplicativos, em termos de
condições de trabalho e de proteção social ao uberizado em tempos de pan-
demia, auxiliam na investigação sobre as coberturas desenvolvidas pelos
fundos financeiros voltadas a mitigar a situação de vulnerabilidade social
desses trabalhadores.
Como sugestões para pesquisas futuras, apontam-se três possibilida-
des de desenvolvimento: elaboração de desenhos de políticas públicas que
assegurem a esses trabalhadores uma proteção social mais robusta, consi-
derando o cenário global de quarentenas intermitentes; levantamento e
análise das estatísticas sobre o percentual de uberizados alcançados pelo
auxílio emergencial; avaliação de eventuais medidas tomadas por órgãos
de fiscalização do trabalho sobre a transparência dos fundos financeiros
aos uberizados.
318 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

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VILELA, Renata. Greve dos entregadores de aplicativos: veja o que eles reivindicam.
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18

Renda universal garantida e


o debate de Sen sobre a liberdade econômica básica,
uma via de ampliação de direitos sociais 1

Juliana Queiroz Gontiès 2

1 Introdução:

Diante da patente e histórica desigualdade social no Brasil, não ter o


mínimo existencial garantido para suas necessidades básicas causa ao in-
divíduo uma dependência do mercado de trabalho. O trabalhador muitas
vezes é obrigado a aceitar empregos degradantes para conseguir subsistir
e manter sua família. Neste sentido, Amartya Sen afirma que “(...) não ter
liberdade econômica básica pode violar uma liberdade fundamental, a li-
berdade de não se colocar em uma situação perigosa3”.
No plano teórico, o debate sobre a adoção de uma Renda Universal
Garantida traz uma ampla discussão sobre as consequências de se adotar
esta medida, questionando se seria uma ampliação dos direitos sociais (os
trabalhistas e de seguridade), ou se seria um argumento neoliberal para
excluir os direitos de seguridade conquistados até então. Debate que gira

1
Artigo para o IV Seminário Internacional do Centro Brasileiro de Pesquisas sobre a Teoria da Justiça de Amartya
Sen, para o GT 2: Políticas públicas e seguridade social.
2
Mestre em Ciências Jurídicas - área de concentração em Direito Econômico pelo Programa de Pós-Graduação em
Ciências Jurídicas (PPGCJ) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). E-mail: julianagonties@gmail.com
3
Ver ‘Encontro com Amartya Sen’, in SUPLICY, Eduardo Matarazzo. Renda de Cidadania: a saída é pela porta. 7ª
Ed. São Paulo: Cortez, 2013. (p.339).
Juliana Queiroz Gontiès | 325

em torno, portanto, de saber se ela proporcionaria mais ou menos liber-


dade econômica básica para o trabalhador.
Segundo a teoria de Amartya Sen, a desigualdade social faz parte das
injustiças sociais que ocasionam diversas privações aos indivíduos. Do
ponto de vista da Teoria Crítica do Direito do Trabalho, os direitos sociais
têm sofrido transformações a partir da precarização e flexibilização nas
relações de trabalho, tornando as pessoas cada vez mais dependentes eco-
nomicamente do mercado de trabalho.
Sendo assim, o problema da pesquisa é compreendido através da se-
guinte questão: a adoção de um Rendimento Universal Garantido é capaz
de proporcionar maior liberdade econômica básica às pessoas na direção
de gerar a ampliação dos direitos sociais? O estudo parte da hipótese que
sim, a medida pode ampliar a liberdade econômica básica do indivíduo,
promovendo também uma liberdade maior na escolha sobre o tipo de tra-
balho que esta pessoa deseja aceitar.
Para alcançar o objetivo geral de analisar se ao ampliar a liberdade
econômica básica do indivíduo, um Rendimento Universal Garantido
torna-se uma via de ampliação dos direitos sociais do trabalhador. Este
estudo utilizará abordagem metodológica de uma pesquisa bibliográfica
com método de abordagem dedutivo, iniciando de uma análise geral do
debate de Amartya Sen sobre a liberdade econômica básica, em seguida,
trazendo a temática para uma análise particular sobre a adoção de um
Rendimento Universal Garantido no Brasil.
O tema mostrou necessidade maior de discussão a partir da pande-
mia decorrente do vírus COVID-19. Sendo assim, utiliza-se de objetivo
metodológico exploratório, visando produzir material original sobre o as-
sunto.

2. A linguagem da liberdade para Sen

Para a compreensão da liberdade econômica básica, esta primeira


parte do estudo se dedicará a uma breve discussão sobre a linguagem da
326 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

liberdade para Amartya Sen4. É importante frisar que não se trata de uma
análise detalhada sobre o assunto, dada a própria proporção deste traba-
lho, mas apenas uma apresentação breve da ideia desta discussão para o
autor.
Dentre as várias categorias que analisa em suas obras, o entendi-
mento sobre a linguagem da liberdade é para ele uma das formas capaz de
melhorar diversos aspectos da vida humana5.

Ao avaliarmos nossas vidas, temos razões para estarmos interessados não ape-
nas no tipo de vida que conseguimos levar, mas também na liberdade que
realmente temos para escolher entre diferentes estilos e modos de vida. Na
verdade, a liberdade para determinar a natureza de nossas vidas é um dos
aspectos valiosos da experiência de viver que temos razão para estimar. O re-
conhecimento de que a liberdade é importante também pode ampliar as
preocupações e os compromissos que temos. Poderíamos optar por usar nossa
liberdade para melhorar muitos objetivos que não são parte de nossas próprias
vidas em um sentido restrito (por exemplo, a preservação das espécies animais
ameaçadas de extinção). Trata-se de um tema importante na abordagem de
questões tais como as exigências da responsabilidade ambiental e do “desen-
volvimento sustentável”. (SEN, 2011, p. 261)

Para a compreensão do pensamento dele sobre a linguagem da liber-


dade, o autor explica que é preciso ficar atento a dois pontos importantes:
um é que existem vários tipos de liberdade, e o segundo é que a liberdade
não é algo que pode ser quantificado com exatidão.

Há duas coisas que devemos reconhecer sobre liberdade. Uma é que a liber-
dade tem muitos aspectos diferentes. Há liberdade política, econômica, social...
São interligadas, mas são diferentes. (...) Em segundo lugar, quando pergunta
se há ou não liberdade, com todo o respeito, não é a pergunta certa. Liberdade
não é uma questão de zeros ou uns. Não cheguei às letras gregas, não cheguei
aos números zero e um. Há mais ou há menos. (SUPLICY, 2013, p. 336-337)

4
SEN, Amartya. A ideia de justiça. Trad. Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das
Letras, 2011. “(...) a ideia de liberdade também diz respeito a sermos livres para determinar o que queremos, o que
valorizamos e, em última instância, o que decidimos escolher”. (p.187-198)
5
Idem. (p.259-286)
Juliana Queiroz Gontiès | 327

Através do raciocínio sobre a linguagem da liberdade Amartya Sen


discute também a própria questão da renda, da desigualdade social e suas
consequências6. Explicando, mais especificamente, que “(...) não ter liber-
dade econômica básica pode violar uma liberdade fundamental, a
liberdade de não se colocar em uma situação perigosa”.7
Trazendo a compreensão para o nosso trabalho desta afirmação, po-
demos apontar como um exemplo dessa ‘situação perigosa’ à qual o autor
se refere, a necessidade de se submeter a empregos degradantes8 com a
qual as pessoas se deparam atualmente. Pois, o atual sistema social no qual
estamos inseridos torna as pessoas dependentes do mercado de trabalho,
de modo que para a própria subsistência e de sua família precisam aceitar
qualquer situação, são pessoas que não têm a referida ‘liberdade econô-
mica básica’ para sobreviver. Fato que será mais desenvolvido no próximo
tópico. Sendo assim, um ‘trabalho decente’ nos termos da OIT9 fica dis-
tante de ser alcançado.
No entanto, antes de passarmos para o ponto seguinte, é importante
ressaltar também que a linguagem da liberdade é uma possibilidade esco-
lhida por Sen. E, ainda que, segundo ele, essa linguagem da liberdade é
algo que vem sendo discutido por muitos autores e de várias formas ao
longo da história da humanidade, tendo seus críticos e defensores.

6
Ver ‘Encontro com Amartya Sen’, in SUPLICY, Eduardo Matarazzo. Renda de Cidadania: a saída é pela porta. 7ª
Ed. São Paulo: Cortez, 2013. “Em vez de analisar em termos de desigualdade de renda, pode-se analisar em termos
de desigualdade de liberdade. Algumas pessoas não têm escolas, não têm liberdade para enviar os filhos à escola.
Alguns têm escolas, mas apenas o que você descreve como escola pública ruim e, assim que têm uma chance, podem
enviar os filhos para escolas melhores, particulares. Eles têm mais liberdade, mas não tanta quanto teriam se as
escolas públicas fossem excelentes, ou se fossem mais ricos, podendo enviá-los para as escolas particulares. Na pers-
pectiva da liberdade, assim que você reconhecer que pode falar em termos de mais ou de menos, não há problema
em lidar com isso, não há contradição” Pois a linguagem da liberdade é tão adaptável ao lidar com a questão da
desigualdade de liberdade quanto a linguagem de renda, e é muito mais relevante, porque no fundo é a liberdade
que nos preocupa (...) Dizemos que, quanto mais renda, melhor. Menor desigualdade de renda, melhor. Da mesma
forma, mais liberdade, melhor. Menor desigualdade na liberdade, melhor. As mesmas questões ocorrem”. (p.338).
7
Ver ‘Encontro com Amartya Sen’, in SUPLICY, Eduardo Matarazzo. Renda de Cidadania: a saída é pela porta. 7ª
Ed. São Paulo: Cortez, 2013. (p.339).
8
Exemplo proposto pela autora deste artigo.
9
Formalizado pela OIT desde 1999. Disponível em: <https://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-decente/lang--
pt/index.htm> Acesso em: 20/09/2020.
328 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

A liberdade teve seus defensores e detratores na tradição clássica ocidental (o


contraste, por exemplo, entre Aristóteles e Santo Agostinho), e recebeu um
semelhante apoio misturado com repúdio nos escritos da tradição não ociden-
tal (...). Podemos, é claro, tentar fazer comparações estatísticas sobre a
frequência relativa com que a ideia de liberdade é invocada em diferentes re-
giões do mundo durante diversos períodos da história, e poderiam de fato
emergir algumas interessantes conclusões numéricas, mas há pouca espe-
rança de capturar a distinção ideológica entre ser “favorável” ou “contrário” à
liberdade em alguma grande dicotomia geográfica. (SEN, 2011, p.262)

E é precisamente através deste ponto discutido por ele sobre a liber-


dade econômica básica que trazemos a discussão também sobre o debate
da Renda Universal Garantida e dos Direitos Sociais adquiridos através das
lutas sociais.

3. A adoção de uma renda universal garantida e os direitos sociais

Por ser o homem um ser social, ou seja, um ser que vive em socie-
dade, não é possível para ele a liberdade total, visto que a liberdade total
de um significaria a não liberdade de outrem. Não por acaso surgem na
convivência humana diversas formas de limitação para permitir o convívio
social, ou de civilização, como por exemplo, uma declarada função do Di-
reito10 na cultura ocidental.
No entanto, seguindo a Teoria Crítica, adotada por esta pesquisa, é
preciso estar atento ao paradoxo que as próprias relações jurídicas podem
estabelecer, como é o caso do Direito do Trabalho. Em uma breve análise
isto significa dizer que ao passo que este é o instrumento através do qual
a exploração pode ser limitada, é também através da definição do conceito
de subordinação como princípio fundamental deste ramo do direito que

10
Ver SUPIOT, Alain. Pourquoi un droit du travail? - Relatório introdutório organizado pela Escola Nacional de
Magistratura e pela Associação Francesa de Direito do Trabalho e da Seguridade Social. Paris: 1990. Disponível em:
< https://legalform.files.wordpress.com/2017/08/supiot-pourquoi-un-droit-du-travail.pdf > Acesso em: 02 de ou-
tubro de 2020. “Da mesma forma, o direito civil e o direito do trabalho, possuem finalmente a mesma razão de ser,
que é a de “civilizar” as relações sociais, ou seja, substituir as relações de força pelas relações de direito”. (p. 487).
Juliana Queiroz Gontiès | 329

fortalece o sistema de dependência econômica das pessoas do mercado de


trabalho11.

Devemos de fato constatar que o Direito do Trabalho se tornou o direito co-


mum das relações de dependência econômica, na medida em que possui uma
lógica própria, que incide nos demais ramos do direito. Os conceitos forjados
em seu seio espalharam-se em todas as situações jurídicas onde se encontra
essa ideia de dependência. A seguridade social, a função pública, o direito ru-
ral, o direito dos transportes, o direito comercial e o próprio direito civil
quando este precisa reger as relações desiguais, assumiram para si a respon-
sabilidade de adaptar às suas próprias necessidades um ou outro destes
conceitos. A atualidade mostra o dinamismo que as ideias de direito sindical,
direito de greve, de negociação coletiva, e até mesmo de uma renda mínima
ou garantida, podem adquirir no seio das profissões liberais – como os médi-
cos ou os advogados – hoje divididos entre a afirmação de sua independência
jurídica, e a constatação de sua dependência econômica e financeira face ao
Estado ou à Seguridade Social”. (SUPIOT, 1990, p.488-489)

Ainda que direitos sociais trabalhistas instituídos através das lutas


sociais tenham garantido significativas mudanças para a classe trabalha-
dora durante algum tempo, eles estão passando por diversas
transformações a partir das estruturas de precarização12, terceirização e
flexibilização das relações de trabalho13. E também através dos novos
meios de exploração que surgiram com as novas tecnologias.
Assim, mesmo tendo a Constituição Federal da República de 1988
como fundamentos: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa hu-
mana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, tais direitos estão

11
Idem.
12
Ver ‘Rumo à precarização estrutural do trabalho’ in ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo prole-
tariado de serviços na era digital. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2018.
13
Idem. Em um universo em que a economia está sob o comando e hegemonia do capital financeiro, as empresas
buscam garantir seus altos lucros exigindo e transferindo aos trabalhadores e trabalhadoras a pressão pela maximi-
zação do tempo, altas taxas de produtividade, pela redução dos custos, como os relativos à força de trabalho, além de
exigir a “flexibilização” crescente dos contratos de trabalho. Nesse contexto, a terceirização vem se tornando a mo-
dalidade de gestão que assume a centralidade na estratégia empresarial, uma vez que as relações sociais estabelecidas
entre capital e trabalho são disfarçadas em relações interempresas, baseadas em contratos por tempo determinado,
flexíveis, de acordo com os ritmos produtivos das empresas contratantes, com consequências profundas que deses-
truturam ainda mais a classe trabalhadora, seu tempo de trabalho e de vida, seus direitos, suas condições de saúde,
seu universo subjetivo, etc”. (p.31-32)
330 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

distantes de uma materialização. A dependência econômica instituída pelo


processo de acumulação do capital, desenvolvido a partir do modo de pro-
dução capitalista, caminha na direção contrária da garantia de uma
‘liberdade econômica básica’ para as pessoas.
Uma das formas que pode auxiliar na busca de ultrapassar esta de-
pendência econômica das pessoas do mercado de trabalho apontada na
atualidade é a adoção de uma política pública como a Renda Universal Ga-
rantida14. No entanto, este instrumento também precisa ser pensado de
forma a não seguir a tendência de subordinar os indivíduos, o que o tor-
naria apenas mais uma medida social assistencialista.
Segundo BEHRING; BOSCHETTI15 (2009), a política social pode ser
utilizada como um meio de harmonizar uma sociedade que vive em con-
flito (como é o caso da atual sociedade do capital que promove
constantemente uma divisão social). No entanto, é olhando para a própria
história do Brasil, observando o meio como foram utilizadas até então as
políticas sociais que se pode pensar na atualidade uma forma de imple-
mentar instrumentos mais sólidos.
No sentido de buscar ultrapassar as próprias ilusões jurídicas, Eno-
que Feitosa aponta a necessidade de se entender o direito do ponto de vista
ontológico16.

14
Ver VANDERBORGHT, Yannick; PARIJS, Philippe Van. Renda Básica de Cidadania: fundamentos éticos e econô-
micos. Tradução Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. “Ao dar a cada trabalhador a
garantia de se beneficiar o tempo todo de uma renda garantida, a renda de cidadania torna claramente menos arris-
cada a saída do mercado de trabalho. O poder de negociação de cada trabalhador se vê ampliado, assim como o
estímulo aos empregadores para melhorar preventivamente as condições de trabalho e tornar o emprego o mais
atraente possível sob todos os ângulos”. (p.143)
15
Ver BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: fundamentos e história. 6.ed. São Paulo:
Cortez, 2009.
16
Ver FEITOSA, Enoque. Forma Jurídica e concretização: para uma ontologia do jurídico. Revista Jurídica Uni-
curitiba. Vol. 02, nº 47, Curitiba, 2017, p.297-334). Disponível em: < http://revista.unicuritiba.edu.br/
index.php/RevJur/article/view/2037/1316 >. Acesso em: 15 de outubro de 2020. “Um exame ontológico do direito
(sem a ilusão de que isto já estava explícito ou implícito num suposto profeta intelectual que anteviu tudo) apresenta
a vantagem metodológica de desnudar as ilusões jurídicas e as teratologias como “direito livre”, “direito de emanci-
pação e assemelhados, que nada mais representam senão “contradições penduradas em pernas de pau” e
ressonâncias da crença teológica nas supostas virtualidades ou do direito natural de matriz teológica ou de uma
racionalidade de base idealista e pré-constituída, alheia aos problemas concretos desse mundo, e para os quais a
função do direito é oferecer solução controlada de conflitos”. (p. 325)
Juliana Queiroz Gontiès | 331

Como assinalara Marx, força material só se enfrenta com força material. Só


que, como já mencionamos em outros textos, a prática que muda o estado de
coisas existentes não é mera repetição de atos sem consciência. Trata-se sim
de práxis, a qual por ser reflexiva é a única que pode dar o salto de qualidade
necessário para substituir o reino da necessidade pelo da liberdade, para subs-
tituir a administração das pessoas pela administração das coisas, uma
sociedade cujo nível de previsão acerca de como seria equivaleria a indagar de
um cidadão grego, sete séculos antes de nossa era, se ele acharia possível viver
sem escravos. (FEITOSA, 2017, p. 327-328)

É, portanto, nesta busca de refletir o estado de coisas atual e tentar


ultrapassá-lo que este trabalho defende a hipótese que para dar um passo
na direção de transpor as barreiras da dependência econômica do mercado
de trabalho, a adoção de um Rendimento Universal Garantido deve vir
acompanhado de quatro princípios inafastáveis: ser universal, incondicio-
nal, individual e o suficiente para garantir o mínimo existencial para uma
vida digna17.
Ser Universal significa dizer que todos os cidadãos deverão receber a
renda, sem gerar nenhum tipo de exclusão entre os indivíduos da socie-
dade; ser individual, de modo que seja disponibilizado de forma singular,
não permitindo o controle de um indivíduo sobre o outro no âmbito fami-
liar; ser incondicional, sem exigir nenhuma contrapartida18; e ser

17
Ver ‘O Rendimento Universal como instrumento de independência do indivíduo do mercado’ in GONTIÈS, Juliana.
Rendimento Universal Garantido e Centralidade do Trabalho: de uma política compensatória à uma política
pública efetiva na direção de um Direito Humano ao Trabalho. Dissertação de Mestrado defendida na UFPB em 2020.
18
Esta característica da incondicionalidade busca diferenciar o Rendimento Universal Garantido aqui proposto de
antigos modelos cuja base de justificativa seria meramente de caráter de caridade e que para recebe-los os pobres
precisavam “fazer por merecer”, colocando as pessoas de baixa renda muitas vezes em uma posição de miséria como
se fosse em decorrência do mérito próprio. Sobre este aspecto, PARIJS descreve como esta prática já acontecia há
muitos anos. Ver VANDERBORGHT, Yannick; PARIJS, Philippe Van. Renda Básica de Cidadania: fundamentos
éticos e econômicos. Tradução Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. “Mas é a um
amigo de More, Johannes Ludovicus Vives (1492-1540), humanista de origem judia catalã e professor em Louvain,
que devemos o primeiro plano detalhado e cuidadosamente argumentado de uma renda mínima garantida. Dedicado
aos burgomestres e escabinos de Bruges, o seu De Subventione Pauperum (1526) mostra a legitimidade de os poderes
municipais se encarregarem da prestação de assistência aos pobres. Para Vives, a assistência pública instaurada pro-
viria ainda da obrigação judaico-cristã de prestar caridade e, portanto, seria alimentada apenas por esmolas dadas
de livre vontade. Mas seria muito mais eficaz que a assistência privada, por ser mais bem distribuída – entre todos
os necessitados e somente eles – e facilmente associada à exigência legítima de prestação de alguma contrapartida
em trabalho: ‘A nenhum pobre que, por sua idade e saúde, possa trabalhar deve-se permitir que permaneça ocioso”.
(p. 37)
332 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

suficiente para que o indivíduo possa garantir o mínimo existencial de


uma vida digna (tendo acesso à alimentação, moradia, saúde e educação).
Ressalte-se que, embora a Renda Universal Garantida analisada por
esta pesquisa garanta o mínimo existencial de uma pessoa, não significa
dizer que isto torna possível a supressão dos escassos direitos sociais e de
seguridade já conquistados e ainda válidos. Isto porque isso significaria
justamente caminhar na direção contrária aos interesses coletivos dos tra-
balhadores19.
Assim, considerando que: i) a partir do momento em que a Renda
Universal Garantida possibilitar uma certa independência do indivíduo do
mercado de trabalho, ela estará ampliando a ‘liberdade econômica básica’
das pessoas; ii) a partir do momento que as pessoas passarem a ter garan-
tidas suas necessidades primárias terão ampliado seus direitos sociais;
aduz-se, então, que a Renda Universal Garantida é capaz de ampliar a li-
berdade econômica básica, sendo, portanto, uma via de ampliação dos
direitos sociais.

3 Conclusão

É importante ressaltar que a pesquisa não pretende esgotar o tema a


partir do diálogo exposto, sobretudo por se tratar de um artigo, mas tão
somente trazer uma visão de um caminho na direção de uma ampliação
dos direitos sociais.
A desigualdade social existente atualmente priva vários indivíduos de
seus direitos básicos, condicionando-os a uma privação de suas liberdades
em diversos aspectos; ao mesmo tempo, na outra ponta, aqueles que acu-
mulam o capital têm suas liberdades expandidas em detrimento dos
demais.

19
Ver ‘O Rendimento Universal como instrumento de independência do indivíduo do mercado’ in GONTIÈS, Juliana.
Rendimento Universal Garantido e Centralidade do Trabalho: de uma política compensatória à uma política
pública efetiva na direção de um Direito Humano ao Trabalho. Dissertação de Mestrado defendida na UFPB em 2020.
(p.106).
Juliana Queiroz Gontiès | 333

Diante da análise realizada, é possível perceber então que adotar uma


Renda Universal Garantida não significa igualar a liberdade econômica de
todas as pessoas de uma sociedade, mas tão somente ser uma forma de
ampliação da liberdade econômica básica daqueles que estão privados de
seus direitos fundamentais. Pois, isto implica também na ampliação de ou-
tras liberdades, a exemplo da liberdade de escolha de um ‘trabalho
decente’ nos termos da OIT e, portanto uma via de ampliação dos próprios
direitos sociais.
Contudo, reforça-se que para isso é necessário que a medida ultra-
passe as barreiras do assistencialismo e se transforme em uma política
pública efetiva a partir da implementação de quatro princípios inafastá-
veis: ser universal, ser individual, ser incondicional e se apresentar através
de um valor capaz de garantir o mínimo existencial.
E ressalta-se ainda que é necessário que não seja motivo de supressão
dos demais direitos sociais e de seguridade já existentes. Caso contrário se
tornaria mais um instrumento de privação da segurança do trabalhador,
em outras palavras, um instrumento neoliberal de supressão de direitos
sociais.

Referências

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Paulo: Boitempo, 2018.

BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: fundamentos e histó-


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1988. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/consti-
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FEITOSA, Enoque. Forma Jurídica e concretização: para uma ontologia do jurídico.


Revista Jurídica Unicuritiba. Vol. 02, nº 47, Curitiba, 2017, p.297-334). Disponível
em: < http://revista.unicuritiba.edu.br/index.php/RevJur/article/view/2037/1316
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334 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

GONTIÈS, Juliana. Rendimento Universal Garantido e Centralidade do Trabalho: de


uma política compensatória à uma política pública efetiva na direção de um Direito
Humano ao Trabalho. Dissertação de Mestrado defendida na UFPB em 2020.

OIT. Disponível em: <https://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-decente/lang--


pt/index.htm> Acesso em: 29/07/2019

SEN, Amartya. A ideia de justiça. Trad. Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes. São
Paulo: Companhia das Letras, 2011.

_____________. Desigualdade Reexaminada. Trad. e Apresentação de Ricardo Doninelli


Mendes. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

SUPIOT, Alain. Pourquoi un droit du travail? - Relatório introdutório organizado pela


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SUPLICY, Eduardo Matarazzo. Renda de Cidadania: a saída é pela porta. 7ª Ed. São
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VANDERBORGHT, Yannick; PARIJS, Philippe Van. Renda Básica de Cidadania: funda-


mentos éticos e econômicos. Tradução Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2006.
19

Segurança alimentar e pandemia:


uma análise das medidas emergenciais
de apoio à agricultura familiar 1

Nayana Shirado 2
Vanessa Shirado Barbosa 3

1 Introdução

O ano de 2020 marca os 75 anos de criação da Organização das Na-


ções Unidas para a Alimentação e a Agricultura, conhecida pela sigla FAO
(Food and Agriculture Organization of the United Nations). Alimentação e
Agricultura são vetores para as populações em todo o mundo alcançarem
segurança alimentar e nutricional, sobretudo quando o cultivo de alimen-
tos está integrado à agricultura familiar.
É que a produção agrícola familiar destina-se às populações urbanas
locais, o que permite acesso regular e permanente a alimentos de quali-
dade em quantidade suficiente4 nos centros urbanos. Esse arranjo

1
O presente trabalho é fruto dos debates e reflexões gestadas no Grupo de Pesquisa Cidadania, Constituição e Estado
Democrático de Direito, vinculado ao Programa de Pós-Graduação de Mestrado e Doutorado em Direito Político e
Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie, liderado pelo Prof. Dr. José Carlos Francisco.
2
Doutoranda em Direito Político e Econômico na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM/SP). Lattes ID:
http://lattes.cnpq.br/5853108301126630. Orcid ID: https://orcid.org/0000-0002-4480-5658. Email: na-
yana27@hotmail.com.
3
Mestre em Saúde e Desenvolvimento na Região Centro-Oeste pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
(UFMS). Lattes ID: http://lattes.cnpq.br/2159381234330514. Orcid ID: https://orcid.org/0000-0003-4203-210X.
Email: vshirado1@hotmail.com.
4
No Brasil, a Lei n. 11.346 de 15/09/2006, que criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
(SISAN), conceituou, no art. 3º, a segurança alimentar e nutricional como a “realização do direito de todos ao acesso
336 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

incentiva práticas alimentares promotoras de saúde que consideram a


sustentabilidade ambiental, econômica e social.
Sob esse viés, a segurança alimentar e nutricional alcança5, além da
ampliação das condições de acesso aos alimentos por meio da produção,
em especial da agricultura tradicional e familiar6, do processamento, da
industrialização, da comercialização, do abastecimento e da distribuição de
alimentos, a conservação da biodiversidade, a promoção da saúde, da nu-
trição e da alimentação da população, incluindo vulneráveis.
Abrange ainda a garantia da qualidade biológica, sanitária, nutricio-
nal e tecnológica dos alimentos, a produção de conhecimento e o acesso à
informação e a implementação de políticas públicas e estratégias susten-
táveis e participativas de produção, comercialização e consumo de
alimentos, além da formação de estoques reguladores e estratégicos de ali-
mentos.
O estado de calamidade pública e a emergência de saúde decorrentes
da Covid-19, que implicam no fechamento de feiras e na redução de com-
pras institucionais, é agravado por intempéries climáticas – queimadas,
inundações, estiagem, geadas -, que não respeitam quarentenas e apro-
fundam a vulnerabilidade social dos agricultores familiares.
A par desse cenário, o Congresso Nacional7 aprovou o Projeto de Lei
(PL) 735/2020, que prevê diversas medidas emergenciais voltadas para a
agricultura familiar, a fim de mitigar no campo, os impactos socioeconô-
micos da pandemia, como o abono emergencial, a compra com doação
simultânea de alimentos, o fomento emergencial, a liberação de crédito
para produção e a renegociação de dívidas.

regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras ne-
cessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade
cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”.
5
Cf. BRASIL. Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006, art. 4º.
6
Cf. BRASIL. Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006. Estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional
da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais.
7
Este trabalho analisou as medidas emergenciais de abono emergencial e compra de alimentos com doação simultâ-
nea que integram o Projeto de Lei n. 735/2020 aprovado pelo Congresso Nacional, antes do veto presidencial que
sobreveio com a Lei n. 14.048/2020, de 24/08/2020.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 337

Interessa ao presente trabalho analisar duas medidas emergenciais


de apoio à agricultura familiar: o abono emergencial e a compra com
doação simultânea de alimentos, para aferir se constituem potenciais ins-
trumentos de combate à insegurança alimentar em tempos de pandemia,
promovendo alguma proteção social ao agricultor familiar e aos grupos
vulneráveis atendidos com a doação de alimentos.
A investigação suscita reflexões sobre o desenho das medidas estuda-
das, em termos de preservação das capacidades básicas e da qualidade
de vida do agricultor familiar e da população vulnerável assistida pelos
equipamentos sociais de alimentação, sob o viés da pobreza e dos entitu-
lamentos, segundo Amartya Sen,
A metodologia consistiu no levantamento de dados do Banco Mun-
dial, da FAO, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do
Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) e do Centro de Estu-
dos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), além dos principais
trabalhos de Amartya Sen, sobre pobreza, fome e desenvolvimento, para
pavimentar a análise do problema de pesquisa com substrato teórico e evi-
dências.

2 Medidas emergenciais para o setor da agricultura familiar: as


regras do projeto de Lei 735/2020

A agricultura familiar foi contemplada com o Projeto de Lei 735, de


2020, que dispõe sobre medidas emergenciais de amparo aos agricultores
familiares do Brasil para mitigar os impactos socioeconômicos da Covid–
19, propõe alteração nas Leis 13.340, de 28 de setembro de 2016, e 13.606,
de 9 de janeiro de 2018 e homenagem com o nome do parlamentar Assis
Carvalho à lei promulgada.
O objetivo da proposta é de mitigar os impactos socioeconômicos da
emergência de saúde pública de importância internacional relacionada à
Covid-19, durante o estado de calamidade pública reconhecido pelo De-
creto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, incluídas as suas
prorrogações.
338 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

As medidas emergenciais contempladas no projeto foram sintetiza-


das na tabela abaixo.
Tabela 1 – Síntese das medidas emergenciais para a agricultura familiar
Escopo do Projeto Medida Emergencial Descrição sumária
de Lei
Pagamento de abono emergencial a agricultores e
Abono emergencial agricultoras familiares que não tenham recebido o au-
xílio emergencial
Amparo social Compra de alimentos com Abastecimento emergencial de pessoas em situação de
doação simultânea (CDS) a insegurança alimentar e nutricional
populações vulneráveis por meio da aquisição e distribuição de produtos da
agricultura familiar (PAE-AF)
Fomento para apoio à inclusão produtiva, inclusive a
destinação dos recursos para a construção de cisternas
Fomento emergencial ou outras tecnologias de acesso à água
Liberação de crédito para a produção
Amparo à produção Negociação de dívidas Renegociação, suspensão e quitação de dívidas rurais,
e concessão automática do benefício Garantia Safra a
agricultores elegíveis
Fonte: As autoras, 2020.

Como se pode observar na tabela acima, o PL focaliza duas linhas de


atuação. Uma diz respeito ao amparo social, operacionalizado por meca-
nismos de transferência de renda (abono emergencial) e outra linha, no
âmbito do Programa de Atendimento Emergencial à Agricultura Familiar
(PAE-AF), trata da compra com distribuição de alimentos para populações
vulneráveis (Compra com Doação simultânea – CDS).
A segunda trata da manutenção da capacidade produtiva do agricul-
tor familiar, no que tange à obtenção de fomento para apoio à inclusão
produtiva, sobretudo diante da escassez de água em áreas rurais mais po-
bres, o recurso possibilita a construção de cisternas ou outras tecnologias
de acesso à água, com impacto na saúde do agricultor e em sua produção,
e ainda a liberação de crédito para a produção.
Além do fomento emergencial, outra medida prevista no PL
735/2020 diz respeito à renegociação, suspensão e quitação de dívidas ru-
rais, e concessão automática do benefício Garantia Safra, que permitirá
um respiro financeiro em meio à dificuldade de autossustento e de produ-
zir e comercializar os produtos da agricultura familiar.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 339

O PL 735/2020 foi gestado por mais de 4 meses entre Câmara dos


Deputados e Senado Federal até ser consolidado e votado pelas duas Casas
Legislativas. No Parecer n. 96/2020 do relator, senador Paulo Rocha, foi
consignada a necessidade e a urgência de medidas emergenciais para os
agricultores familiares por conta da pandemia do novo coronavírus:

É do conhecimento de todos que se preocupam com a agricultura familiar que,


nesse momento de pandemia, os agricultores e agricultoras tem pressa em
receber esses benefícios, que sequer vão resolver todas as dificuldades a que
estão sujeitos. A crise socioeconômica decorrente da Covid-19 tem sido extre-
mamente dura para o setor, que enfrenta a perda da produção, dificuldades
de comercialização pela redução das feiras locais e redução da demanda das
compras institucionais como o Programa de Aquisição de Alimentos - PAA e o
Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE.

Ao tempo em que o PL 735/2020 tramitava, medidas emergenciais já


haviam contemplado outros setores da economia, como trabalhadores for-
mais (MP 936/2020, de 01/04/2020), informais (Lei 13.982, de
02/04/2020), instituições financeiras, ficando à margem de proteção so-
cial os agricultores familiares não elegíveis ao auxílio emergencial, nem
contemplados com o PAA.
Aprovado pelo Congresso Nacional, o PL 735/2020 segue para apre-
ciação do Executivo, podendo ser sancionado com ou sem vetos. Havendo
vetos, a mensagem de veto retornará ao Congresso Nacional para delibe-
ração de senadores e deputados em sessão conjunta (art. 57, § 3º, IV e art.
66, da Constituição Federal). Decorrido o prazo de 30 dias sem delibera-
ção, será incluída na ordem do dia e passará a sobrestar as demais
deliberações até a votação final do veto (art. 66, §6º, da Constituição Fe-
deral).
A demora do Estado em garantir não só renda e meios para continui-
dade produtiva aos agricultores, como também alimentos às populações
vulneráveis se contrapõe à emergência em saúde pública e pode compro-
meter a eficácia dos mecanismos emergenciais previstos no PL 735/2020.
340 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

3 Análise das medidas emergenciais de apoio à agricultura familiar:


abono emergencial e compra de alimentos com doação simultânea

A metodologia utilizada na avaliação das medidas emergenciais refe-


rentes ao abono emergencial e à compra de alimentos com doação
simultânea (CDS) previstas no PL 735/2020 partiu do levantamento de
dados do Relatório Semestral do Banco Mundial sobre os impactos
econômicos do novo coronavírus na América Latina e no Caribe, dos rela-
tórios O Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo e O
Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil, ambos da FAO,
do Censo Agropecuário e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domi-
cílios - PNAD Covid-19, ambos do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), e da Nota Técnica n. 17/2020 do Instituto de Pesquisas
Econômicas Aplicadas (IPEA) e do estudo sobre Coronavírus e o Agrone-
gócio do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA).
Com base na metodologia adotada, o tema foi abordado de forma
qualitativa e lastreado em evidências para aferir se o abono emergencial e
a compra com doação de alimentos são potenciais instrumentos de com-
bate à insegurança alimentar em tempos de pandemia, provendo amparo
ao agricultor familiar e aos grupos vulneráveis atendidos com a doação de
alimentos.

3.1 Relatório Semestral do Banco Mundial

O Relatório Semestral do Banco Mundial (2020) sobre os impactos


econômicos do novo coronavírus na América Latina e no Caribe estimou
retração no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no ano de 2020 em
cerca de 5%, a partir da conjugação dos fatores: demanda externa fraca,
queda de preço do petróleo e interrupção econômica para a contenção do
novo coronavírus.
Em relação ao próximo ano, as estimativas de crescimento econômico
são de 1,5% para o PIB do Brasil e de 2,6% para o do subcontinente.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 341

Contudo, deve-se ressaltar que os números da projeção são indicativos e


estão sujeitos a inflexões causadas pelo controle ou descontrole da
disseminação do vírus em cada país. Desse modo, quanto mais profunda e
longa for a crise de saúde, tanto maior e duradoura será a crise econômica.
O que interessa no Relatório para o presente estudo é a diretriz para
que os países da América Latina e Caribe ampliem programas sociais e de
proteção ao emprego e estendam a cobertura social para mitigar os im-
pactos da crise, pois ajudar as pessoas a enfrentar esse momento e garantir
que os mercados financeiros e os empregadores sobrevivam à tempestade,
é medida indispensável para lançar as bases da recuperação econômica o
mais rapidamente possível.
No que tange à produção e consumo de alimentos, o Relatório aponta
que a queda das receitas e a interrupção das cadeias de suprimentos au-
mentam as perspectivas de insegurança alimentar. Muitas crianças
dependem da merenda escolar, que deixa de ser servida quando as escolas
são fechadas. A desnutrição, que aflige toda as faixas etárias, é ainda mais
grave nos primeiros anos de vida, pois afeta a capacidade de aprendizagem
e se torna uma desvantagem permanente.
Os múltiplos cenários levantados pelo Banco Mundial trazem para o
centro do debate a necessidade de o Estado promover políticas públicas
para tratar diretamente dessa dimensão social da crise, de modo a prote-
ger as pessoas em todas as faixas etárias, dos riscos sociais da fome e da
desnutrição causados pela disrupção econômica.

3.2 Relatório: O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no


Mundo

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura


concebe a agricultura familiar como um meio de organização da produção
agrícola, florestal, pesqueira, pastoril e aquícola gerida e explorada por
uma família e dependente predominantemente da mão-de-obra familiar,
tanto feminina como masculina (FAO, 2014).
342 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

O Relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no


Mundo” (FAO et al 2020) apontou que a América Latina e o Caribe não
alcançarão o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2 da Agenda
2030, referente à fome zero, até 2030. A fome, considerada a partir de
uma estimativa do número de pessoas que não consomem calorias sufici-
entes para viver uma vida ativa e saudável, afetará quase 67 milhões de
pessoas em 2030 e sairá dos atuais 7,4% da população para 9,5% até
2030.
Se as estimativas já parecem ruins, ainda podem piorar, pois não con-
templam os impactos da Covid-19 sobre os diversos setores econômicos. A
questão da insegurança alimentar e nutricional na região será agravada
depois de contabilizados os efeitos da pandemia. Mesmo sem considerá-
los, o quadro desenhado pelo relatório quanto ao Brasil, é diferenciado, se
comparado com a América Latina.
Primeiro, porque figura entre os sete países, ao lado de Argentina,
Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Tailândia e Estados Unidos, que respon-
dem por 55% do total de exportações de alimentos. Segundo, porque o
PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) aumentou a quanti-
dade de frutas e vegetais no cardápio das escolas e reduziu a presença de
alimentos altamente processados contendo grandes quantidades de açúcar
e sal. Terceiro, porque incentivou as compras locais de pequenos produto-
res por meio de compras públicas, que contribuíram para o sucesso de
programas integrados.
Embora o Relatório apresente um quadro otimista para a alimenta-
ção no Brasil, quanto ao alcance do ODS n. 2, a disrupção econômica
decorrente do isolamento social, abalou não só a exportação de alimentos,
como também o PNAE e as compras públicas, pois com a suspensão das
aulas, os agricultores familiares perderam esse nicho de comercialização
para seus produtos.
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 343

3.3 Relatório: O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no


Brasil

Segundo o relatório da FAO (2015) intitulado “O Estado da Segurança


Alimentar e Nutricional no Brasil”, as políticas sociais aliadas ao desenvol-
vimento agropecuário produziram resultados positivos. O apoio à
agricultura familiar para a produção de alimentos mais saudáveis, a cria-
ção de sistemas de compras públicas com preços razoáveis têm sido
abordagens exitosas para redução da fome.
O estudo destaca que cerca de 40 milhões de brasileiros passaram à
condição de segurança alimentar no decorrer de uma década. As políticas
públicas de valorização do salário-mínimo, de fortalecimento da agricul-
tura familiar e as transferências condicionadas de renda, tiveram reflexo
substancial na promoção da segurança alimentar e no combate à fome.
A questão é que, no momento atual, a higidez das políticas públicas
em relação à agricultura familiar, não subsiste, considerando o tremor
econômico causado pela suspensão das compras institucionais, pelo fecha-
mento de escolas e de feiras livres, mercados consumidores de longa
tradição dos produtos oriundos da agricultura familiar.

3.4 Censo Agropecuário do IBGE

Dados do Censo Agropecuário 2017 do Instituto Brasileiro de Geogra-


fia e Estatística (IBGE) apontam que cerca de 10,1 milhões de pessoas são
ocupadas na agricultura familiar no Brasil, o que equivale a 67% de todo
pessoal ocupado no setor agropecuário no país.
Nesse cenário, a agricultura familiar representa 77% dos estabeleci-
mentos rurais e 23% do valor da produção nacional. Na horticultura, a
agricultura familiar responde por 60% do valor da produção nacional,
além de ser a base para a economia local de 90% dos municípios com até
20 mil habitantes, sendo encarregada pela renda de 40% da população
economicamente ativa do país (IBGE, 2018).
344 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

A agricultura familiar respondeu por 48% do valor da produção de


café e banana, 80% da de mandioca, 69% da de abacaxi e 42% da produ-
ção de feijão no Brasil (IBGE, 2019). Em relação ao número de
estabelecimentos e à produção de lavouras temporárias, permanentes,
horticultura, floricultura e florestal, os dados encontram-se consolidados
abaixo na Tabela 2 – Número de estabelecimentos agropecuários com la-
voura temporária.

Tabela 2 - Número de estabelecimentos agropecuários com lavoura temporária (Unidades) – 2017


Produtos da lavoura temporária - (Abacaxi + Abóbora, moranga, jerimum + Algodão herbáceo + Alho + Amen-
doim em casca + Arroz em casca + Aveia branca em grão + Batata-inglesa + Cana-de-açúcar + Cebola + Feijão
preto em grão + Feijão de cor em grão + Feijão fradinho em grão + Feijão verde + Mandioca (aipim, macaxeira)
+ Melão + Tomate rasteiro (industrial) + Milho forrageiro)

Grupos de atividade econômica Tipologia


Agricultura familiar - Agricultura familiar -
Total não sim

Total 3845907 664323 3181584

Produção de lavouras temporárias 2053447 355058 1698389

Horticultura e floricultura 81974 13728 68246

Produção de lavouras permanentes 192350 30201 162149

Produção florestal - florestas plantadas 19875 3334 16541

Fonte: IBGE - Censo Agropecuário

O Censo traz duas evidências importantes para este estudo: a pri-


meira de que a base do setor agropecuário, não só pela quantidade de
estabelecimentos rurais, como também pela quantidade de pessoas em-
pregadas nessa atividade, reside na agricultura familiar; a segunda de que
a produção de alimentos básicos para o consumo interno, conforme a Ta-
bela 2, provem da agricultura familiar.

3.5 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD Covid-19 do


IBGE

Outro indicador importante para análise das medidas emergenciais é


a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD Covid-19 – di-
vulgação mensal em junho/2020, realizada pelo Instituto Brasileiro de
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 345

Geografia e Estatística (IBGE, 2020)8, segundo a qual, cerca de 50% dos


agricultores familiares foram impactados com a perda média de 35% na
renda mensal, considerando a dificuldade de comercialização da produção
agrícola decorrente do fechamento de feiras e a redução de compras insti-
tucionais em vários níveis de governo.
A partir dos dados da PNAD Covid-19, os informes do Centro de Ges-
tão e Inovação da Agricultura Familiar/Universidade de Brasília
(CEGAFI/UnB) elaborados por DelGrossi (2020), apontaram que o setor
da agricultura familiar foi um dos mais afetados pela crise econômica, não
só em razão da perda na renda mensal, como também devido ao aumento
de desocupados no campo: cerca de 1,1 milhão de pessoas integrantes da
agricultura familiar estava em busca de trabalho ou queria trabalhar.
Num momento em que se deseja que todos tenham condições de sus-
tento para debelar as deficiências de alimentação e saneamento agravadas
pela pandemia, a perda de cerca de 1/3 da renda mensal e a desocupação
no campo agravam as condições de vida, que já eram de subsistência antes
da pandemia.
Essa evidência trazida pela PNAD Covid-19 coloca o agricultor fami-
liar dentre as categorias de trabalhadores em vulnerabilidade social por
conta de perda significativa na renda mensal e de aumento dos índices de
desocupação no campo, a demandar do Estado a construção de medidas
emergenciais de amparo ao setor.

3.6 Notas e Estudos Técnicos

3.6.1 Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA)

A Nota Técnica n. 17/2020 do Instituto de Pesquisas Econômicas Apli-


cadas (IPEA) elaborada por Sambuichi et al (2020), embora trate de outro

8
O IBGE (2020) esclarece que o objetivo da PNAD COVID-19 é estimar o número de pessoas com sintomas referidos
associados à síndrome gripal e monitorar os impactos da pandemia da COVID-19 no mercado de trabalho brasileiro.
Adverte que os resultados da PNAD COVID-19 são pioneiros no sentido de constituírem a primeira divulgação de
Estatísticas Experimentais elaboradas pelo IBGE e que devem ser usadas com cautela, pois se trata de estatísticas
novas que ainda estão em fase de teste e sob avaliação.
346 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

programa, o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), analisou a mo-


dalidade de Compra com Doação Simultânea (CDS) de alimentos a
populações vulneráveis, e a esse respeito apontou que a CDS, no período
de 2011 a 2018, foi responsável pela maior diversidade de alimentos frescos
(in natura) e minimamente processados9, com impacto alimentar e nutri-
cional importante em fornecedores e beneficiários, considerando estudos
empíricos.
Quanto ao primeiro grupo, a diversidade de alimentos resultou no
autoconsumo de parte das culturas produzidas pelos agricultores. Em re-
lação ao segundo, repercutiu na variabilidade do cardápio alimentar,
melhoria na qualidade das refeições, aumento do rendimento escolar, au-
mento da assiduidade e criação de novos e melhores hábitos alimentares.
A comprovação de eficácia da CDS no âmbito do PAA, em termos de
garantia alimentar e nutricional a fornecedores e beneficiários é evidência
suficiente para que se considere replicar a modalidade aos agricultores fa-
miliares em tempos de pandemia de Covid-19, no âmbito do PAE-AF, como
instrumento dinâmico da cadeia produtiva, por garantir mercado, renda e
continuidade da produção agrícola, além de prover a segurança alimentar
do agricultor familiar e de populações vulneráveis.

3.6.2 Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA)

Segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Apli-


cada (CEPEA) da Universidade de São Paulo sobre Coronavírus e o
Agronegócio, elaborado por Castro et al (2020), o auxílio emergencial que
já vinha sendo pago desde o começo da pandemia teve alta cobertura e boa
focalização no campo, beneficiando famílias mais pobres com aumento de
renda e redução da pobreza.

9
É importante destacar que os alimentos in natura (frutas, hortaliças, legumes, raízes, ovos, carnes, cereais e mel) e
os alimentos minimamente processados (queijos, polpas, doces, farinhas, pães, bolos e conservas) são categorias
consideradas básicas para uma alimentação nutricionalmente balanceada, de acordo com o Guia Alimentar para a
População Brasileira (BRASIL, 2014).
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 347

Em termos percentuais, em maio/2020, o auxílio alcançou 64% da


população rural, chegando a 68% em junho/2020. Nos domicílios de mais
baixa faixa de renda, a cobertura passou de 85% para 92%, garantindo
que cerca de 7,3 milhões de pessoas deixassem de transitar para a pobreza
extrema.
O estudo evidencia que o auxílio emergencial foi um lenitivo para
uma chaga ainda aberta entre nós, sobretudo no campo: a pobreza e a
extrema pobreza. Como lenitivo, essa ajuda financeira não resguarda a
vulnerabilidade desses grupos quando o pagamento das parcelas cessar.
Como demonstrado nas evidências acima, o abono emergencial e a
compra com doação de alimentos (CDS) se justificam como potenciais me-
didas para combater a insegurança alimentar em tempos de pandemia,
provendo amparo ao agricultor familiar e aos grupos vulneráveis atendi-
dos com a doação de alimentos.
Primeiro porque o abono e a CDS importam transferência de renda
num momento em que é necessário que as pessoas tenham condições de
sustento para debelar as deficiências de alimentação e saneamento agra-
vadas pela pandemia, considerando a perda de cerca de 1/3 da renda
mensal e o aumento da desocupação no campo (IBGE, 2020).
Em segundo lugar, porque os prognósticos favoráveis de segurança
alimentar e nutricional (FAO, 2014; 2020) sucumbem aos efeitos da pan-
demia por conta da descontinuidade na produção de alimentos e da
suspensão de compras públicas e dos programas a elas integrados, tornado
as medidas emergenciais um alento ainda que a prazo, para subsistência
do agricultor familiar e de grupos vulneráveis.
Terceiro, porque a eficácia positiva do auxílio financeiro - no bojo da
Lei n. 13.982, de 02/04/2020 (CEPEA, 2020) e da CDS - no âmbito do
PAA (IPEA, 2020) já foi aferida cientificamente para evitar a transição
para linha de pobreza e garantir segurança alimentar e nutricional a for-
necedores e beneficiários. Essa constatação autoriza a replicação dessas
medidas no campo para os agricultores familiares não elegíveis ao auxílio
emergencial, nem contemplados com o PAA.
348 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

Considerando que a agricultura familiar é a base do setor agropecu-


ário (IBGE, 2018; 2019), não só pela quantidade de estabelecimentos
rurais, como também pela quantidade de pessoas ocupadas e pelo abaste-
cimento do mercado interno, o abono e a CDS são medidas que
resguardam a higidez do sistema alimentar como um todo.
Por derradeiro, o abono e a CDS respondem à demanda do Banco
Mundial (2020) de os países ampliarem programas sociais e promoverem
políticas públicas para tratar diretamente dessa dimensão social da crise,
de modo a proteger as pessoas em todas as faixas etárias, dos riscos sociais
da fome e da desnutrição.

4 Como analisar as medidas emergenciais sob o viés da pobreza e dos


entitulamentos em Amartya Sen

Em primeiro lugar, a pobreza não deve ser concebida exclusiva-


mente como a carência de renda ou de alimento, mas como privação de
capacidade básicas para alcançar o standard mínimo de bem-estar que
uma pessoa pode ter: a qualidade de vida (SEN, 1987).
O filósofo e economista não negligencia que a falta de renda e/ou de
alimentos influi, sem dúvida, na privação das capacidades básicas, mas não
são componentes exclusivos da pobreza (CONFERÊNCIA...2013; SEN,
2008, 2010). Renda e bens consumíveis são meios para atingir objetivos
de melhoria da qualidade de vida, como se depreende no trecho da obra
em coautoria com Bernardo Kliksberg:

Renda e bens consumíveis são valorizados, sobretudo como “instrumentos” -


como meios para outros fins. Nós os desejamos pelo que podemos fazer com
eles; possuir bens ou renda não tem valor em si mesmo. Na verdade, buscamos
renda primeiramente pela ajuda que ela pode nos proporcionar na obtenção
de uma boa vida - uma vida que tenhamos motivos para valorizar. Essa visão
sugere que nos concentremos nas características da qualidade de vida, a qual
– como Aristóteles analisou (em Ética a Nicômaco e na Política) - consiste de
funcionamentos específicos: o que podemos fazer e ser. (SEN, KLIKSBERG,
2010, p. 96)
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 349

Ao contrário de reduzir a pobreza à falta de meios, o autor expande


o enfoque da pobreza como fenômeno complexo e multifacetado, ao qual
devem ser agregadas variáveis como vulnerabilidade epidemiológica,
faixa etária, gênero, ambiente social, acesso à cultura e condição social,
para que seja avaliada sob a perspectiva das capacidades das pessoas10.
Analisar a pobreza sob essa perspectiva, implica comparar benefícios
e privações, de um lado, e diferentes possibilidades individuais de con-
quista de bem-estar, de outro. Para considerar se houve benefício ou
privação de capacidades de uma pessoa, deve-se atentar para as possibli-
dades de a pessoa fazer e ser aquilo que tenha motivo para valorizar
(funcionamentos), como por exemplo, a habilidade de levar uma vida
livre de doenças, de ir e vir livremente e de participar da vida pública (SEN,
2017).
Nesse diapasão, pode-se considerar que, embora uma pessoa tenha
bons meios, pouco valerão, caso seja acometida por doenças hereditárias
ou doenças adquiridas em epidemias ou se tiver problemas particulares,
como alguma deficiência11 (CONFERÊNCIA...2013). Em síntese, a adequa-
ção dos meios econômicos em prover capacidades para realizar
funcionamentos, varia conforme as características pessoais e as circuns-
tâncias de cada caso.
No contexto analisado, a compreensão da pobreza e dos entitulamen-
tos em Amartya Sen, interessam sobremaneira ao presente trabalho, não
só para guiar a interpretação dos dados coletados, como também para te-
cer reflexões sobre o alcance socioeconômico das medidas emergenciais de
apoio ao agricultor familiar, em termos de preservação de capacidades
básicas e de entitulamentos.

10
As capacidades são compreendidas como combinações de funcionamentos (fazer e ser) que uma pessoa pode
atingir, isto é, um vetor de funcionamentos que reflete a liberdade de a pessoa viver um estilo de vida diferente de
outros estilos, de poder escolher entre alternativas.
11
A esse respeito, o autor esclarece que a pessoa que tenha problemas de saúde e que necessite de tratamento pode
até ter uma renda superior à de outra, mas ainda assim estará mal provida de meios econômicos, considerando sua
dificuldade peculiar de converter renda em funcionamentos (SEN, 2008).
350 | Estudos sobre Amartya Sen - Volume 9

No que tange a capacidades básicas, a medida de transferência de


renda operada por meio do abono emergencial minimiza em certo ponto
a privação de capacidades básicas de produtores familiares, em relação às
condições de alimentação, saúde e higiene para que superem a pandemia
com alguma proteção do Estado e não se exponham ao contágio da Covid-
19.
A transferência de renda como lenitivo temporário para a privação
de capacidades encontra sustentação no estudo do CEPEA sobre Corona-
vírus e o Agronegócio, segundo o qual o auxílio emergencial, concedido
por meio da Lei n. 13.982, de 02/04/2020, evitou que milhões de pessoas
transitassem para a pobreza e a extrema pobreza12.
A renda mensal do agricultor familiar foi achatada em cerca de 35%,
conforme a PNAD COVID-19 mensal de junho/2020, o que representa um
patamar inadequado para gerar capacidades minimamente aceitáveis,
num contexto de queda na produção, na venda e no consumo. Diante dessa
conjuntura, a renda do agricultor familiar não representa um meio eco-
nômico eficaz para atingir os objetivos de melhoria da qualidade de vida.
Esse quadro impacta no desequilíbrio entre benefícios e privações,
a obstar a conquista de bem-estar no esboço do empobrecimento como
privação de capacidades básicas para alcançar níveis minimamente acei-
táveis de funcionamentos (SEN, 2008).
Outra questão que importa considerar no pensamento de Amartya
Sen diz respeito aos entitulamentos13. A questão alimentar e nutricional
não se restringe à aquisição e produção de alimentos nem à expansão agrí-
cola apenas, mas é influenciada pelo funcionamento de toda a Economia.
Isso quer dizer que os alimentos não são distribuídos na Economia por

12
Para a definição das linhas de pobreza, o estudo do CEPEA adotou os valores mensais atualizados pela Fundação
Getúlio Vargas (FGV), com base no Banco Mundial, de R$ 154,00 per capita para a pobreza extrema e de R$ 446,00
per capita para pobreza.
13
Sen (1981) descreve os entitulamentos como exchange entitlements, como se observa no trecho da obra Poverty
and Famines: “The exchange entitlements faced by a person depend, naturally,on his position in the economic class
structure as well as the modes of production in the economy”, ou seja, os entitulamentos de troca dependem da
posição do indivíduo na estrutura de classe econômica e nos modos de produção na Economia. (Tradução livre).
Nayana Shirado; Vanessa Shirado Barbosa | 351

compartilhamento automático. É necessário adquirir potencial para com-


prá-los, é o que se chama de entitulamento (SEN, 2010)..
Durante a pandemia, muitas pessoas perderam entitulamento, ou
seja, perderam esse potencial para comprar alimentos, e se tornaram vul-
neráveis em termos de segurança alimentar, seja em função do
desemprego, da queda na renda mensal, ou da impossibilidade de traba-
lhar de forma autônoma em atividades de exposição à Covid-19.
Nesse contexto, a compra institucional de alimentos com doação si-
multânea (CDS) proporcionada pelo PAE-AF viabiliza o acesso a alimentos
nutritivos para esses grupos vulnerabilizados e para os grupos vulneráveis
que já existiam antes da pandemia, seja diretamente, seja por meio da rede
de assistência social e da rede de equipamentos de segurança alimentar.
O papel de governos de matiz democrático, no que tange à privação
alimentar, segundo Sen; Kliksberg (2010) é de atuar na prevenção da
fome, como garantia mínima da segurança humana. E nesse sentido, a
compra institucional de alimentos com doação simultânea atende a esse
propósito. Os autores consideram que a democracia empodera politica-
mente o vulnerável, ao tornar o governante responsável por seus próprios
erros na gestão da coisa pública, e ilustra esse poder protetor o fato de
nenhuma grande fome coletiva jamais ter ocorrido em países democráti-
cos e com imprensa relativamente livre.
Sem dúvida, em tempos de pandemia, a proteção aos riscos sociais
deveria emergir como prioridade do Estado, em todas as suas frentes de
atuação (saúde, educação, trabalho, economia, segurança etc) para que
toda pessoa,