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Os sofistas e Sócrates Texto adaptado da obra:

SELL, Sérgio. História da Filosofia Antiga.


1 – Contexto histórico Palhoça: UnisulVirtual, 2008.

O período áureo de Atenas


Em 490 a.C., o imperador persa Dario exigiu a submissão dos gregos. Começou aí uma
guerra que envolveu praticamente todas as cidades-Estado gregas e provocou uma grande
mudança em toda a Hélade. Para enfrentar os persas, as cidades-Estado gregas se uniram sob a
liderança de Atenas e criaram a Confederação de Delos, que recolhia tributos de cada pólis para
custear as despesas militares. Após a vitória sobre os persas, Atenas, sob o comando de Péricles,
se aproveitou da Confederação para continuar exercendo seu domínio sobre as outras cidades-
Estado e utilizou a riqueza acumulada durante a guerra para a construção de obras públicas
monumentais.
Péricles (495–429 a.C.) foi eleito diversas vezes para o cargo de general-chefe.
Exercendo ao mesmo tempo o comando civil e militar da cidade, levou Atenas à maior projeção
política, econômica e cultural alcançada em toda a sua história. Sua importância na história grega
é tão grande que o século V a.C. é conhecido como “O Século de Péricles”.
Entre os século V e IV a.C., Atenas passa a ser o centro cultural da Grécia antiga,
atraindo comerciantes, artífices, pensadores, etc. Isto se dá particularmente em função da vitória
grega sobre os Persas, da liderança ateniense na Liga de Delos (477 a.C.) e da reconstrução de
Atenas, sobre o comando de Péricles e sua expansão comercial, que possibilitou a ascensão de
uma classe mercantil.
Além disto, atividades de manufatura – como cerâmica, escultura, construção civil entre
outras –, também possibilitaram o enriquecimento – tanto econômico como político-social – de
membros da sociedade ateniense. Estes passaram a reivindicar um espaço na pólis.
Nesse ambiente de esplendor econômico e cultural de Atenas, surge uma nova classe de
intelectuais: os sofistas. Surge também uma nova filosofia, com algumas diferenças em relação
àquela que havia se desenvolvido nas colônias gregas da Ásia Menor e da Itália. É sobre esses
temas que você estudará nas próximas seções.

2 – Os sofistas
A origem dos sofistas
Quando Atenas se tornou no mais importante centro econômico, político e cultural da
época, após a vitória sobre os persas, um grande número de nobres de outras partes da Grécia
buscam a cidade a procura de sua intensa vida cultural.
Entre os estrangeiros que se instalam na cidade-Estado de Atenas, alguns passam a se
oferecer para atuar como mestres na educação dos jovens pertencentes à elite local. Alguns deles
ganham fama e se destacam nessa nova função e passam a ser chamados de sofistas (sábios).
Alguns os consideram os primeiros pedagogos, os iniciadores do ensino privado, pois
como eram estrangeiros e não podiam ter propriedade em Atenas, cobravam por seus
ensinamentos. São grandes mestres de Retórica e Oratória.

Atenção!
A palavra “sofista” (sophistés) inicialmente significa “aquele que é excelente numa
arte ou técnica, aquele que é hábil, sensato e prudente.” (CHAUI, 1994, p. 359).
Mais tarde, em função da imagem deixada por Sócrates, Platão e Aristóteles, que os
viam como demagogos e falsos filósofos, a palavra “sofista” foi usada
pejorativamente. Mas essa imagem negativa vem sendo criticada ultimamente.

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É certo que os sofistas tiveram um grande papel no contexto das novas idéias
difundidas neste ambiente. Juntamente com Sócrates, embora com posições divergentes,
inauguram a temática antropológica: passando do problema da physis, central no pensamento dos
pré-socráticos, ao da ética, da política e da teoria do conhecimento.
Os sofistas destacam que as filosofias anteriores não conseguiram chegar a nenhum
resultado sólido. Ao contrário, os filósofos se contradizem mutuamente, o que parece ser uma
boa prova de que não é possível conhecer nada de forma definitiva e que o máximo que podemos
fazer é formular uma opinião (doxa) sobre a realidade. Sendo assim, a “verdade” nada mais é do
que aquilo que alguém conseguiu fazer com que todos acreditassem ser real. O sábio, portanto,
não é aquele que conhece a verdade e sim aquele que desenvolve a habilidade de provar suas
próprias convicções.
Os sofistas mais famosos foram Protágoras de Abdera (480–410 a.C.) e Górgias de
Leontini (484–375 a.C.). Outros sofistas importantes foram: Pródicos de Ceos, Hípias de Elis,
Licofron, Trasímaco e Isócrates.

Humanismo e relativismo
Na sofística encontramos dois grandes princípios: o humanismo e o
relativismo. O primeiro coloca o homem no centro de tudo. O segundo se
refere à impossibilidade de se alcançar qualquer verdade absoluta ou que não
dependa de uma interpretação pessoal. Um fragmento do sofista Protágoras
de Abdera sintetiza esses dois princípios de forma exemplar: “O homem é a
medida de todas as coisas; das que são, enquanto são, e das que não são,
enquanto não são”.
Protágoras
Veja o que diz Marcondes sobre a tese de Protágoras.
Protágoras parece assim valorizar um tipo de explicação do real a partir de seus aspectos fenomenais
apenas, sem apelo a nenhum elemento externo ou transcendente. Isto é, as coisas são como nos
parecem ser, como se mostram à nossa percepção sensorial, e não temos nenhum outro critério para
decidir essa questão. Portanto, nosso conhecimento depende sempre das circunstâncias em que nos
encontramos e pode, por isso mesmo, variar de acordo com a situação. (MARCONDES, 2001, p. 43).
Ou seja, para Protágoras, cada opinião nada mais é que a avaliação que cada um faz de
sua própria experiência. Por isso, nenhuma opinião pessoal pode ser colocada como mais correta
que a opinião de qualquer outra pessoa.

A impossibilidade do conhecimento
Outro sofista de peso é Górgias de Leontini. Seu fragmento mais conhecido diz: “Nada
existe que possa ser conhecido; se pudesse ser conhecido não poderia ser comunicado; se
pudesse ser comunicado não poderia ser compreendido”.
Complicado? Então, tomemos, novamente, as palavras de Marcondes (2001, p. 44) que indica
ser Górgias um crítico da possibilidade do conhecimento em sentido absoluto:
Górgias dá grande importância ao logos enquanto discurso argumentativo, e em seu Elogio a Helena
faz a famosa afirmação: “O logos é um grande senhor.” Entretanto, de certa maneira o logos é sempre
visto como enganoso, já que não podemos ter acesso à natureza das coisas, mas tudo de que dispomos
é o discurso, como fica claro no fragmento citado acima. O logos, contudo, pode ser persuasivo, e
Górgias chega mesmo a sustentar que mais importante do que o verdadeiro é o que pode ser provado
ou defendido.
Os sofistas se vangloriavam de que seus alunos aprendiam defender de forma
convincente tanto uma tese quanto a sua antítese; ou seja, podiam tanto argumentar em favor de
uma opinião quanto em favor da opinião contrária, provando a correção tanto de uma quanto de
outra. Essa arte de vencer o adversário num debate sem se preocupar com a verdade é a erística.
Ela é interessante na medida em que, numa disputa com as palavras, devemos estar preparados

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para as contraposições do adversário. A prática nos mostra o quanto a disputa política
democrática depende disso.

A importância da linguagem!
Se nem a percepção da realidade através dos nossos sentidos nem a razão são capazes
de nos propiciar conhecimentos seguros, e se a verdade é uma questão de opinião e de
persuasão, é preciso valer-se de um outro instrumento para que o homem se relacione
com a realidade e com os outros seres humanos. Esse instrumento, segundo os sofistas,
é a linguagem. O sábio é aquele que, compreendendo os mecanismos e os recursos da
linguagem, domina as multidões através do discurso.

kósmos X nómos
Em sua nova forma de compreender a realidade, os sofistas produzem uma grande cisão
entre kósmos e nómos. As duas palavras originalmente estavam diretamente ligadas na língua
grega. O termo kósmos significa o bom ordenamento de pessoas e coisas, boa ordem,
organização do Estado, ordem estabelecida, ação dos seres em conformidade com um
comportamento estabelecido. Já a palavra Nómos, que literalmente significa regra, lei ou
norma, também pode ser usada no sentido de costume.
Os sofistas, no entanto, destacam que é um erro comparar as leis que regem os
fenômenos naturais com aquelas que norteiam a vida humana em sociedade. Para eles, o
universo ético, político e social, ou seja, tudo aquilo que é especificamente humano, não é
determinado pelas mesmas leis de regularidade encontradas na natureza (physis). Cada povo e
cada época dispõem de seus próprios modos de ser, costumes e regras, sem que, no fundo,
qualquer forma de organização cultural possa ser colocada como mais correta ou como sendo a
detentora da verdade definitiva.

A natureza possui uma ordem (kósmos) que não depende de uma escolha do ser
humano. Mas a pólis é regida por leis (nómos) que são convenções humanas.
No direito, na política e na ética, portanto, não existem princípios necessários nem
regras que sejam universalmente válidas. Toda norma é humana e, justamente por isso, é
transitória.

A importância dos sofistas


Conforme salienta Jaeger, em sua obra Paidéia, o novo sistema político, baseado na
igualdade do discurso que, por sua vez, necessita da persuasão e do convencimento, muda o foco
do agon – luta, disputa, embate – e, conseqüentemente, da areté. A força física e a destreza no
campo bélico – as bases da areté homérica –, aos poucos são substituídas pela habilidade
discursiva. Ou seja, da luta corporal passamos ao embate discursivo, algo que cedo as classes
mais privilegiadas perceberam. Os velhos aristocratas e, principalmente, os novos comerciantes
passaram então a contratar os sofistas, mestres de retórica e de oratória, para ensinar essa nova
habilidade a seus filhos.
Se para a democracia cada opinião vale igualmente e, desta forma, não há uma verdade
absoluta, tal posição pode ser corroborada por aquilo de defendiam os sofistas. É por isso que,
embora estrangeiros, os sofistas são muito importantes para a democracia ateniense.
Não se pode, ainda, deixar de destacar a grande contribuição dos sofistas para a
pedagogia. Foram eles que, pela primeira vez, sistematizam o ensino teórico na Grécia e
formulam um currículo de estudos, contemplando a gramática, a retórica e a dialética e incluindo
também a aritmética, a geometria, a astrologia e a música. Tais disciplinas, que mais tarde serão
conhecidas como as sete artes liberais, serão retomadas na Idade Média e constituirão os
chamados trivim e quadrivim.