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CAPÍTULO
Tecnologia e subvers‹o

jjlm-fr/Acervo do fotógrafo/Museu de Arte Moderna da Cidade, Paris, França.

Olympe de Gouges, de Nam June Paik, 1989.

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Estimule os alunos a refletir sobre as possíveis relações que podemos estabelecer na obra de Paik, perguntando: “Na época da Revolução Francesa,
como as mulheres eram vistas na sociedade?”; “Você acha que elas tinham os mesmos direitos dos homens?”; “Por que o artista escolheu dar o
nome de uma mulher e não o de um homem à obra? Em sua opinião, essa escolha foi intencional?”; etc.

Mais sobre Olympe de Gouges


A obra Olympe de Gouges, de Nam June Paik, formada por

Heritage Images/Getty Images/Coleção particular


doze estações de televisão feitas de madeira, doze monitores co-
loridos, tecido e flores – também feitas de tecido –, é considerada
uma videoescultura. Sua primeira apresentação foi realizada em
Paris, na França, no ano de 1989, durante um ciclo de exposições
de arte que comemorava o bicentenário da Revolução Francesa.
Ela fazia parte de uma grande instalação do artista, que ao todo
utilizou duzentos televisores para formar cinco esculturas que
tinham o período como tema.
Nos televisores que observamos na produção originalmente
foram transmitidas cenas distorcidas ligadas ao movimento femi-
nista do século XX, e o título – Olympe de Gouges – é uma referên-
cia direta a uma das primeiras mulheres a lutar pela igualdade de
direitos, no século XVIII. Que relação você consegue estabelecer
entre o feminismo, a obra de Nam June Paik e o período abordado?
O local escolhido para expor a videoinstalação de Paik foi o Museu de Arte Retrato de Olympe de Gouges,
de Alexander Kucharsky, cerca
Moderna de Paris, especificamente na sala em que está exposta a pintura do de 1787. Gouges foi uma mulher
artista francês Raoul Dufy (1877-1953), A fada eletricidade, realizada em 1937-1938. que questionou os padrões de
Nos muitos painéis que compõem a obra, Dufy retratou diversos personagens, sua época. Escreveu peças,
cartas e uma versão da
como Benjamin Franklin, Thomas Edison e Pierre Curie, que contribuíram para o
Declaração dos Direitos
advento da eletricidade. Humanos em que chamava a
atenção para o fato de que
mulheres não tinham a mesma
Loic Venance/AFP/Museu de Arte Moderna de Paris/AUTVIS

visibilidade que os homens.

Instalação: modalidade
de produção em artes
visuais em que a obra
ocupa um ambiente in-
teiro, como uma sala, por
exemplo.
Movimento feminista:
movimento social que luta
por direitos para as mu-
lheres, como igualdade
jurídica, educação, voto,
trabalho, liberdade, etc.
A fada eletricidade, de Raoul Dufy.

A instalação unia obras de períodos diferentes que foram produzidas em Converse com os alunos sobre as
questões levantadas no texto e
contextos variados. Por que você acha que o artista escolheu apresentá-las verifique as opiniões deles sobre a
juntas? Você enxerga alguma relação entre essas obras e o título dado por instalação. É fundamental que eles
associem as obras apresentadas e
Nam June Paik? Que sentidos você atribui a uma instalação que uniu tecno- seus contextos com o progresso da
logia, feminismo, uma homenagem à história da eletricidade e cuja intenção ciência e da tecnologia, como
também da sociedade,
foi homenagear a Revolução Francesa? principalmente em relação a
questões de igualdade de direitos de gênero e do movimento feminista na história do século XX. Para mais orientações, consulte o final deste livro.
Tecnologia e subversão 109
Nam June Paik
Jack Mitchell/Getty Images

Nam June Paik nasceu em Seul, na Coreia do Sul, em 1932. Formou-se em


História da Arte e História da Música na Universidade de Tóquio e continuou seus
estudos em música na Universidade de Munique, Alemanha, onde conheceu os
compositores Karlheinz Stockhausen (1928-2007) e John Cage (1912-1992), assim
como os artistas conceituais Joseph Beuys (1921-1986) e Wolf Vostell (1932-1998),
que o inspiraram a trabalhar na arte eletrônica.
Paik fez produções artísticas em parceria com Stockhausen e Cage em um
Nam June Paik, um dos estúdio de música eletrônica e começou a participar de um movimento de arte
primeiros artistas de videoarte. chamado Fluxus, que será estudado a seguir.
Sua grande estreia foi na exibição chamada “Exposição de mú-
Art Resource/ Smithsonian American Art Museum, Washington, EUA.
sica e televisão eletrônica”, em 1963, em que espalhou televisores
em todos os lugares e utilizou ímãs para distorcer as imagens.
Além de aparelhos de TV, nessa exposição o artista utilizou
quatro pianos preparados e instrumentos de gravação de som.
No decorrer de sua vida, o artista explorou diversos meios
eletrônicos para produzir arte, mas deu prioridade ao vídeo e à
televisão.
Ele é considerado um dos artistas mais influentes das últimas
décadas, por ter impulsionado a arte eletrônica. Faleceu em 2006,
deixando um legado muito importante para a arte.

Art Resource/Albright-Knox Art Gallery, Nova York, EUA.


Zen para TV, de Nam June Paik, 1963.
Aparelho de TV manipulado e componentes.
48,3 cm × 57,2 cm × 45,7 cm.

Ao estudar o trabalho de Nam


June Paik, você pode retomar os
estudos e conteúdos abordados
no Capítulo 2 sobre John Cage,
para estabelecer relações entre
as produções dos dois artistas
que trabalharam juntos na
mesma época e contexto.
Procure destacar a forma como
os dois subverteram as
linguagens artísticas com as
quais trabalhavam na busca de
novas formas de criação e
experimentação.

Videoescultura sem título


realizada por Paik em 1993.
Nela, o artista acoplou ao
piano treze televisores
antigos, câmeras de
filmagem e refletores.

110 Capítulo 5
Destaque, nas imagens, as diferentes formas e estratégias de utilização dos aparelhos de TV e vídeo dos quais o artista lançava mão. Peça aos alunos que
identifiquem os diferentes usos e observem que ao mesmo tempo que o aparelho de TV pode ser usado como material constituinte da obra, as imagens
exibidas por eles se relacionam com as ideias e os conceitos tratados pelo artista. Converse sobre a relação que eles têm com a passagem do tempo.

Outras obras de Nam June Paik


Em sua carreira, Nam June Paik produziu diversas obras de arte, entre elas
videoesculturas, instalações e performances. Veja a seguir mais algumas obras
do artista.

Johansen Krause/Corbis/Latinstock/Galeria de Arte Contemporânea, Gwacheon, Coreia.


Reprodução/<http://ymutate.tumblr.com>

Quanto mais melhor, obra


realizada em 1988 que consistia
de uma torre composta de 1 003
monitores de TV. Produzida
especialmente para os Jogos
Olímpicos de Seul, a obra tinha
dimensões grandiosas e os
televisores mostravam imagens
que compunham um padrão.
Qual você acha que foi a intenção
do artista em criar uma obra
como essa? De que maneira você
a interpreta?
TV Cello, videoinstalação realizada em 1971.
Na foto, Charlotte Moorman (1933-1991),
violoncelista, durante apresentação do concerto
de Paik na Galeria Bonino, em Nova York.
Esta instalação contava com três televisores: um
em que se passava uma apresentação ao vivo da
violoncelista, o outro em que era exibida uma
Robert E. Mates/Whitney Museum of
American Art, Nova York, EUA.

videomontagem e o terceiro com um programa de


televisão. Observando a imagem, por que você
acha que o artista escolheu este objeto para fazer A obra Magnet TV [TV magnética], de 1965,
sua obra? Você se lembra de algum instrumento deu origem à videoarte. Observando o título
musical ao ver a imagem? Misturar aparelhos de da obra e os materiais utilizados nela,
TV e instrumento musical para criar uma obra de como você acha que essa televisão
arte é uma maneira de provocar o público? funcionava? Que efeito o ímã magnético
Que ideia Paik tentou passar com essa obra? pode causar próximo de uma TV?
Faça uma reflexão sobre a obra ao lado com os alunos, Que recursos visuais podem ser observados
aceitando as diferentes opiniões. Pergunte como eles nesta produção? O que você acha que o
imaginam que seria a imagem da TV com a interferência
de um ímã magnético e por que o artista quis causar esse
artista quis passar com esta obra?
efeito. Comente com os alunos que, assim como outros artistas da época, Paik queria questionar a televisão e
subverter o sentido dado a ela, transformando-a em
Reflexão sobre o trabalho do artista objeto da expressão artística.

¥ O que você achou do trabalho de Nam June Paik? Forme um grupo com mais três colegas e reflita sobre as
questões a seguir. Depois, compartilhe suas ideias com os demais colegas e o professor.
a) De que maneira o artista se apropria de aparelhos de televisão e da tecnologia do vídeo para fazer arte?
b) O que você acha do fato de Nam June Paik não utilizar materiais tradicionais em sua criação artística?
c) Com quais linguagens artísticas Nam June Paik trabalha? Podemos dizer que ele mistura linguagens artís-
ticas? Por quê?
d) Como os trabalhos de Nam June Paik se relacionam com o espaço onde estão e o público? Existe alguma
forma de interação? Nesta atividade é importante que os alunos reflitam sobre as obras apresentadas, a relação da arte com a
tecnologia e qual seu papel social. Deixe que falem livremente sobre suas impressões e abra espaço para as
diversas interpretações. Estimule-os a relacionar a arte de Paik à de outros artistas já vistos nesta Unidade.

Tecnologia e subversão 111


Imagem em movimento e persistência retiniana
Você alguma vez já viu imagens em sequência e teve a sensação de que as
figuras estavam se movimentando? Você sabe por que isso acontece? Esse fe-
nômeno só é possível por causa do nosso cérebro e da maneira como ele deter-
mina nossa percepção do movimento, ou seja, a forma pela qual registramos e
compreendemos que os objetos se deslocam.
Observe a sequência de imagens a seguir, que apresenta um mesmo perso-
nagem realizando uma ação que deve durar poucos segundos. Procure notar
como em cada etapa do movimento a trajetória dos elementos é descrita em
momentos detalhados da ação.

Lopris/Shutterstock
Sequência de imagens de um
As imagens estáticas representam cada etapa de um movimento muito movimento.
rápido, que nossos olhos captariam e o cérebro processaria quase que instanta-
neamente. Na foto, podemos ver esse movimento detalhadamente, em estágios.
Se durante uma pequena fração de tempo essas imagens fossem projetadas
rapidamente uma após a outra, teríamos a sensação de estar vendo o movimen- Ilusão de óptica: nome
to acontecendo, como numa cena real, mesmo ele sendo composto de imagens que se dá ao que aconte-
ce quando imagens ou
estáticas. Essa forma de ilusão de óptica se dá devido ao que é chamado de situações enganam o
persistência retiniana, que ocorre porque o cérebro precisa de um tempo para sentido da visão.
processar uma imagem quando ela é recebida pelo globo ocular.
A retina, uma membrana localizada na parte interna do olho, tem a capaci-
dade de gravar imagens por um curto período de tempo. Dessa forma, quando
olhamos para uma sequência de imagens, elas acabam se misturando. O nosso
cérebro organiza essa sequência, que é percebida como um movimento contínuo.
O estudo desse fenômeno permitiu o desenvolvimento de invenções e algumas
das técnicas de animação dos filmes e desenhos que conhecemos hoje.
Portanto, os trabalhos realizados por Nam June Paik em videoarte e suas
pesquisas o inserem na linhagem de artistas que estudaram o movimento e sua
representação por meio das novas tecnologias. Suas produções estão entre as
diversas formas que os artistas criaram, ao logo do tempo, para explorar tecno-
logias e as inovações técnicas na produção artística.

Videoarte
A videoarte surgiu na década de 1960, como uma linguagem estimulada
pelos avanços tecnológicos. Os artistas faziam críticas ao modo como a televisão
era utilizada para veicular propagandas, buscavam outros usos para uma tecno-
logia tão disseminada na sociedade e convidavam o público a assumir uma
postura ativa e contestadora em relação aos meios de comunicação.

Tecnologia e subversão 113


Ao observar a imagem da Os primeiros artistas de videoarte usavam aparelhos de televisão como su-
instalação de Nam June Paik,
retome com os alunos o que foi porte e material para suas produções. Estar diante de um trabalho de videoarte
estudado sobre o artista neste significa, em muitos casos, participar do espaço em que a obra é exposta, per-
capítulo e destaque o caráter
monumental do trabalho, sua cebendo as luzes que invadem o ambiente e convidando o espectador a se mo-
relação com o espaço e o
espectador. Promova a leitura
vimentar e interagir com a obra.
crítica e a reflexão sobre a obra Muitos artistas que já utilizavam a fotografia e o cinema, aproximando a
com os alunos, fazendo
questionamentos como:
arte do cotidiano, viram na televisão e no vídeo uma alternativa para ampliar o
"Geralmente, em que acesso à arte e à cultura. A intenção deles era usar os mesmos meios de comu-
momentos e de que maneira
vocês assistem à televisão?";"E nicação com os quais as pessoas têm contato para levá-las a refletir sobre a
sobre a meditação, para você em comunicação de massas, fazendo uma crítica direta ao uso da televisão como
que momentos ela é realizada e
quais são suas finalidades?"; um aparelho tecnológico que coloca as pessoas numa posição submissa diante
"Há alguma relação entre a dos meios de comunicação.
tradição chinesa de meditar
sobre o futuro observando os
Ulrich Perrey/DPA/AFP

cascos de tartarugas e o ato de


assistir a programas de
televisão? Qual?"; "Na opinião
de vocês, as tradições antigas
podem ser substituídas pelos
aparelhos tecnológicos, como a
televisão?" Incentive os alunos a
expressar suas opiniões sobre a
meditação e aproveite para
contextualizar essa ação, que é
praticada em algumas religiões
orientais, como o budismo, para
estimular o autoconhecimento,
serenidade, a resiliência, etc.
dependendo da vertente
religiosa que se segue. Destaque
que uma das relações que
podem ser estabelecidas pela
obra é a crítica a respeito de os
aparelhos de TV substituírem
formas milenares de
autoconhecimento.

Videoinstalação Tartaruga, de Nam June Paik, 1999. Esta videoescultura de grandes proporções
precisou de 166 televisores projetando imagens diversas para ser montada. Segundo o artista, a
videoescultura faz referência a uma antiga tradição chinesa de meditar sobre o futuro observando os
cascos de tartaruga. Como você interpreta a referência a essa tradição e o uso de aparelhos de
comunicação em massa na instalação?

Para isso, geralmente os trabalhos de videoarte discutem questões presen-


tes no mundo, como problemas sociais, políticos e econômicos. Esse tipo de
manifestação é um experimento de criação artística que se vale da tecnologia,
conectando tanto os estímulos visuais como o significado das imagens em um
só tempo, para provocar sensações simultâneas relacionadas aos nossos sentidos.
Uma das características fundamentais da videoarte é a maneira como os
artistas brincam com o tempo. Na narrativa em vídeo, por exemplo, graças aos
recursos de edição, os acontecimentos podem ocorrer num ritmo mais rápido:
horas, dias, meses e até anos podem ser condensados em poucos minutos den-
tro de uma sequência. Os videoartistas exploram o tempo real em contraposição
ao tempo manipulado do vídeo e buscam concretizar essa ideia com recursos
que exigem mais a participação do público, como instalações interativas, senso-
res de movimento, botões e dispositivos para serem acionados pelos visitantes.

114 Capítulo 5
Converse com os alunos sobre as possíveis interpretações das obras de Nam June Paik, nas quais ele comenta as relações entre tradição, tecnologia e
vida moderna. Observe como na videoescultura Secretária bilíngue vai viajar,, por exemplo, ele propõe uma discussão sobre como muitas pessoas
tornam os aparelhos eletrônicos e a tecnologia seus companheiros no dia a dia.

Videoescultura
A videoarte pode ter modalidades variadas, que envolvem diversos
tipos de tecnologia e que mesclam diferentes linguagens artísticas.
A videoescultura, por exemplo, é uma produção que utiliza materiais
de natureza tecnológica, resultando em obras híbridas, ou seja,

Cyrus McCrimmon/Getty Images/Museu de Arte, Denver, EUA


caracterizadas pela mistura da arte visual (escultura), da música e
do vídeo.
Em Secretária bilíngue vai viajar Nam June Paik produziu uma
videoescultura dispondo televisores antigos de modo a dar à obra uma
forma humana. Com nove aparelhos de televisão e um telefone público, Paik
criou uma humanoide futurista vestida elegantemente com um tipo de capa
feita de componentes eletrônicos. Segundo o artista, ela é uma companhei-
ra de viagem versátil que combina tudo o que a tecnologia moderna tem
para oferecer com o charme e as virtudes de uma época passada. Para
você, que ideia o artista quis nos passar? Que relações podem ser estabe-
lecidas entre tecnologia, o nosso passado e nossos costumes nessa obra?
Videoescultura Secretária
bilíngue vai viajar, de Nam
Vídeo e performance June Paik, 1991.
Além da videoescultura, na videoarte também há obras que fazem uso do
vídeo e da performance, juntando essas linguagens artísticas em uma só produ-
ção. Bruce Nauman (1941), artista estadunidense, apresenta em muitas de suas
obras imagens de corpos ou partes deles em situações pouco usuais (de ponta-
-cabeça, em zoom, etc.) com a intenção de provocar sensações diversas no es-
pectador, realizando experiências com a linguagem da performance.
Marco Sabadin/AFP

Para iniciantes, de
Bruce Nauman, 2012.

Na obra Para iniciantes, a inspiração surgiu quando o artista leu a indicação


“Para crianças” em um livro, o que o fez pensar em peças para piano escritas
especificamente com melodias para que elas aprendessem a tocar. A partir dis-
so, ele criou 31 combinações diferentes do polegar com os outros dedos das mãos,
formando duas grandes projeções de vídeo. Os vídeos são acompanhados por
gravações de áudio de Nauman lendo instruções para cada combinação, criando
assim uma sobreposição de som e imagem. Nesse trabalho, os princípios da
performance são integrados à videoarte: o artista usa seu corpo e sua voz como
suporte e convida o público à interação com a obra.

Tecnologia e subversão 115


Técnicas e tecnologias
Vídeo, integração e interatividade
A partir da década de 1960, a tecnologia audiovisual tornou-se mais acessível em razão da produção
industrial de câmeras – especialmente as portáteis – e televisões. Para uma produção cinematográfica de
qualidade eram necessárias câmeras de alto custo e nada fáceis de se carregar, isso por causa de caracterís-
ticas como tamanho e peso.
Os artistas de videoarte, porém, estavam interessados na experimentação com as câmeras portáteis
para explorar qualquer tipo e qualidade de imagens. E isso não se dava só na captação, mas também na
exibição dos trabalhos. Por exemplo, principalmente na década de 1960, para os artistas era o tempo real
que interessava, por isso trabalhavam com vídeos não processados e não editados, diferentemente do cine-
ma, em que todas as cenas são cuidadosamente editadas para construir uma narrativa. Na videoarte, os
artistas queriam registrar o tempo como experiência do presente, sem edição e manipulação de imagens,
como forma de explorar as possibilidades trazidas por essa nova tecnologia.
Outra possibilidade explorada pelos artistas constantemente na videoarte é a integração entre dispositivos
ou mesmo entre tecnologias diferentes, especialmente nas videoinstalações e em trabalhos integrados com
performances corporais. A utilização desses recursos muitas vezes permite a interatividade nos trabalhos.
Desde a década de 1990, o vídeo digital possibilita a total integração da videoarte com os computadores.
Por exemplo, o trabalho da artista multimídia brasileira Lali Krotoszynski (1961), que criou em 2010 a insta-
lação interativa Ballet Digitallique, consiste na criação de um banco de dados baseado no método Laban de
análise dos movimentos do corpo humano. A obra interativa integra câmeras, tecnologias de escaneamen-
to e processamento de vídeos.
No século XXI, é difícil estabelecer fronteiras
Lali Krotoszynski/Acervo da artista

fixas entre videoarte, arte digital ou arte eletrô-


nica. Se no início artistas como Nam June Paik
exploraram e questionaram justamente a tecno-
logia da televisão e a linguagem e as formas de
comunicação de massa relacionadas a ela, hoje
vivemos um uso múltiplo das tecnologias: assis-
timos a programas de televisão pelo computador,
navegamos na internet pela televisão, jogamos
videogame no celular. Não à toa, também na pro-
dução artística as experimentações de integração
de tecnologias são cada vez mais constantes.

A obra interativa Ballet Digitallique,


de 2010, faz a captação da silhueta
dos visitantes e as transforma em
uma projeção de vídeo.

Esta atividade é um exercício de captação em vídeo e gravação. É importante que os alunos reflitam acerca do
Para praticar uso da câmera, dos ângulos, de distâncias, enquadramentos e pontos de vista. Se necessário, peça que
retomem as dicas para fazer um vídeo, no Capítulo 3. Estimule-os a ter uma abordagem estética e cuidadosa
com a qualidade da imagem. Sugira que repitam o exercício várias vezes, analisando sempre os resultados e
aprimorando o trabalho.
¥ Nesta atividade, vamos trabalhar com registros em vídeo digital. Para isso, organize-se em trio e disponha de um
aparelho com câmera de filmar. Você e seus colegas de grupo devem gravar uma mesma cena, mas de diferentes
modos (de baixo, de cima, na luz, na sombra, etc.), usando cada um sua respectiva câmera. Depois, compare
suas gravações e converse sobre o que há em comum e de diferente em cada uma, quais foram os pontos de
vista escolhidos, que elementos se destacam mais e se é possível ter interpretações diferentes da mesma cena.

116 Capítulo 5
01

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