Você está na página 1de 7

Heráclito: a dialética da natureza, o ser humano e a sabedoria.

Uma breve reflexão.

Trabalho realizado como parte das avaliações finais da disciplina de Filosofia da Natureza V, 2019.1,
do curso de Filosofia, na Universidade Federal Fluminense. Qualquer equívoco a respeito do
pensamento filosófico de Heráclito é de responsabilidade minha, no ímpeto mais que humano de
tentar falar sobre o lógos do filósofo.

O objetivo deste ensaio filosófico é transpor, da forma mais breve e organizada, as


considerações do filósofo jônico a respeito do tema da ‘sabedoria’ presentes em fragmentos
estudados, traduzidos e contextualizados na obra “Heráclito: fragmentos contextualizados”,
pelo Prof. Alexandre Costa. Também serão utilizadas como fonte de estudo as anotações
pessoais do caderno da disciplina, voltadas para as discussões em sala de aula. Para
chegarmos no tema, é preciso antes o esforço para explicitar ao máximo possível a estrutura
filosófica do pensamento de Heráclito de Éfeso, e como o conceito de sabedoria se articula
com sua cosmovisão, presentes em seus aforismas ou em fragmentos de interpretações de
outros filósofos à respeito do filósofo de Éfeso.

Para Heráclito, a necessidade de delimitar o critério que rege a realidade material da ​phýsis
não poderia ser reduzido à explicação de ​um fenômeno que, ao ocorrer como “princípio de
tudo”, não mais foi capaz de conceber transformações em si mesmo, relegando-se apenas a
“conservar as coisas como são”​. Afinal, é perfeitamente empírico pressupor que “as coisas
mudam”, apesar dos correntes enganos que nossas percepções nos acometem. Ao contrário
do pensamento de Parmênides - e de toda a escola eleática - sobre a imutabilidade das coisas,
que coloca uma fissura intransponível entre a realidade das coisas que são das que não são,
eclipsando a constante transformação das coisas e dos seres como imutáveis pelo “destino”²,
a filosofia de Heráclito comporta o movimento das coisas - e dos seres - como aspecto da
própria lógica da natureza, intrinsecamente parte e transformação da ​phýsis que ora é
apreendida pelos nossos sentidos.

O cosmo, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos deuses nem nenhum
dos homens, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, acendendo-se
segundo medidas e segundo medidas apagando-se (COSTA, Alexandre.
2012. frag 29, (XXX). p. 135).

O cosmos, portanto, é possuidor de um lógos próprio responsável por salvaguardar o


movimento e sua consequente tensão entre unidade e multiplicidade. O lógos é o que
determina, conserva e transforma todo o dinamismo do processo de tensão e ao mesmo
tempo harmonia dos contrários, representados pelas unidades e multiplicidades
manifestadas na ​phýsis​. A ​phýsis, ​a sua realidade ‘aparente’ [do lógos], ​é a forma como as
coisas aparecem distinguidas para os seres que possuem a capacidade de apreender o lógos
das coisas. Utilizaremos a tradução de um clássico fragmento heraclítico para contextualizar,
onde ‘tudo-um’ pode ser desmembrado para ressaltar a (1) tensão das multiplicidades, (2)
das unidades e a (3) harmonia presente entre elas:

Ouvindo não a mim, mas ao lógos, é sábio concordar ser tudo-um (COSTA,
Alexandre. 2012. frag 1, (L). p. 127).

Tal lógos, longe de ser metafísico, é parte lógica da estrutura interna da mesma, responsável
tanto por sua consequente transformação quanto pela conservação de seu estado, pois “só é
possível transformar-se enquanto se conserva”, para fazer uso de uma comparação
intertextualizada, apesar de anacrônica, com a Lei da Conservação das Massas, teorizada
vinte e três séculos após a morte de Heráclito, no século XVIII.

Daí que para Heráclito não faça sentido falar em algo como o “princípio único das coisas”,
pois, as coisas só podem ser enquanto ‘sendo’, enquanto gerúndio do tempo, indicando uma
continuidade progressiva cíclica que não delimita princípio, meio e fim. Mesmo que os
planetas de nosso sistema solar desapareçam depois que o Sol, em sua fase de Gigante
Vermelha, exploda transformando toda a realidade ao redor — para intertextualizar com o
último parágrafo do prefácio de Engels em sua publicada após sua morte, A dialética da
natureza (1925)¹, que decerto merece trabalhos a respeito de sua intertextualidade com o
filósofo de Éfeso — o que dali se suceder não será o encerramento do lógos, mas apenas sua
lógica transformativa em pleno exercício.

É a partir de tal lógica da natureza pela qual as coisas se estruturam e se confrontam em sua
unidade e multiplicidade que se torna possível para os seres humanos, inexoravelmente
obedientes à estrutura do cosmos, a possuírem a capacidade de apreenderem enquanto
existem, vivem e tomam parte da realidade material.

Viver, portanto, é estar lançado às regras do cosmos e dele ser seu eterno aprendiz,
constantemente lidando com as multiplicidades dos fenômenos e suas contradições,
transformações e desambiguações, em uma “harmonia de movimentos contrários.” Os seres
humanos, portanto, são possuidores de um lógos que discursa sobre o lógos das coisas, uma
vez que os seres são parte da ​phýsis e a mesma está submetida às leis de seu cosmos, parte
constituinte de todo o processo de movimento e transformação por intermédio da harmonia
entre os fenômenos em conflito.

O ser humano, dotado da capacidade de ‘ouvir’, — homologar — falar e transformar a


realidade por meio do uso de seus sentidos, possui a capacidade de apreender o lógos das
coisas, e para a dimensão ética da filosofia heraclítica, o humano, apesar de dotado, não raro
não o faz, ou não o faz bem, perdido em frivolidades quando os ouvidos encontram os
discursos que não o do lógos propriamente dito, por intervenção de impressões, desejos, e
interesses de outros ou de si mesmo. A questão ética centra-se no “como” ouvir o lógos, no
saber apreender a lógica interna das coisas através da apreensão da ​phýsis​. Utilizaremos um
fragmento para exemplificar:

Bem-pensar é a maior virtude, e sabedoria dizer coisas verdadeiras e agir


de acordo com a natureza, escutando-a (COSTA, Alexandre. 2012. frag 9,
CXII, p. 129).

​ umano é o
Essa dimensão ética da filosofia de Heráclito permite dizer que o ​ethos h
permanente conflito, enquanto vivo, com as tensões harmônicas do cosmos que se
manifestam na natureza e também através da ação humana na cultura e na sociedade. O bem
ouvir é traduzido como a capacidade de apreender o lógos das coisas e o lugar do humano no
cosmos, por meio de uma capacidade dialética de apreensão da relação todo-um, de
apreensão da “medida de todas as coisas”. Ao saber ouvir bem, para Heráclito, o ser humano
homologa com o lógos das coisas ao máximo para discursar sobre ele, traduzindo em
linguagem humana o movimento e tensão que de fato [o lógos] representa, evitando cair em
dessincronias e ruídos que nada possuem a ver com a manifestação do fenômeno.

A primazia é, portanto, pela escuta unívoca que molda e qualifica a ‘alma’, onde o lógos
discursivo está ao máximo homologado com o lógos das coisas. Sabedoria, para Heráclito,
está associada a capacidade de ‘bem ouvir’ [o lógos], ‘bem pensar’ [sobre o lógos] e
consequentemente ‘bem falar’ sobre o lógos das coisas. A má audição ou mesmo a sua total
incapacidade é analisada pelo filósofo como ignorância que é parte necessária da condição
humana, onde somente alguns raros destacam-se totalmente por sua boa capacidade de
ouvir e falar sobre o lógos, enquanto outros preferem ou não conseguem ouvi-lo,
mantendo-se alheios, por mais que estejam submetidos às suas regras.

É preciso aqui fazer algumas distinções: o ser humano, por mais obstinado que esteja em sua
empreitada para o bem apreender do lógos das coisas, não atingirá o supremo saber,
justamente porque ser humano é constituir-se da relação dialética entre a possibilidade de
apreensão do lógos e o seu alheamento, onde o humano dotado de capacidade é atravessado
por impressões que por muitas vezes o confundem no uso de seus sentidos. Contudo, para
Heráclito, aqueles que se destacam da multidão por sua capacidade de homologia não mais
são contados [pela tradição] como meros humanos, residindo nessa transposição da
humanidade através da divinização pela homologia um status alcançado que é intermediário
entre humanos e deuses. Os heróis ou semideuses da tradição homérica são pano de fundo
histórico do filósofo para as considerações deste alçar de status através da homologia
divinizante.

Sendo assim, a homologia é um elemento ‘divino’ cujo aqueles que a alcançam são capazes de
destacar-se por terem compreendido a lógica pela qual as coisas se estruturam e se
transformam, tal como elas propriamente manifestam-se em seus movimentos de
contradições. É de se pressupor, e esse trabalho corrobora com os comentários do Prof.
Alexandre presentes nos fragmentos contextualizados, que para o filósofo de Éfeso somente
o lógos das coisas é [absolutamente] sábio, pois, somente ‘ele’ é quem distingue as coisas
como elas são em sua propriedade e movimento, promovendo as suas tensões e conservando
sua harmonia. A capacidade de possuir um lógos discursivo é possível a todos os seres
humanos, mas por diversos motivos somente a alguns é comum uma homologia afinada.
Também diz Heráclito que não é meramente por intermédio do ensino enciclopédico ou de
uma suposta erudição que será possível atingir a homologia.

Decerto, para o domínio dos humanos é reservado o ímpeto contínuo de ouvir o lógos e
apreender a realidade das coisas, vindo a serem mais ou menos sábios, mais ou menos
surdos, ignorantes ou não. Já os heróis e semideuses, aqueles que alcançaram a plena
homologia, é de se pressupor que a tradição histórica possua um papel importante em seu
reconhecimento e criação, manutenção e transformação, visto que o lugar intermediário
entre os humanos e deuses, o lugar do ‘bom’ comunicador, daquele que bem diz o lógos das
coisas, destaca-se dos humanos e por eles é reconhecido, transformando-se em mitos trans
históricos.

Por fim, acrescento fazendo jus a liberdade deste ensaio, retirado não por completo de seu
contexto histórico, o de crítica ao idealismo alemão do século XIX, o sentido da décima
primeira tese sobre Feuerbach, filósofo hegeliano, escrita por Karl Marx, também muito
influenciado por Hegel e este último que, curiosamente, também bastante influenciado por
Heráclito, a de que:

Os filósofos têm apenas ​interpretado o mundo de maneiras diferentes; a


questão, porém, é t​ ransformá-lo​ (MARX, Karl. 1982).

Como já descrito acima, a capacidade de apreensão do lógos das coisas é vária, todos os seres
humanos a possuem e por necessidade a utilizam, mesmo que o grau de homologia com o
lógos das coisas varie numa relação gradativa entre aproximação e distanciamento. Com essa
interpretação é possível sustentar, portanto, que os filósofos, amantes da sabedoria em uma
tradução simples do sentido grego, aqueles que transformam em necessidade o ouvir correto
e incessante do lógos das coisas, não deveriam somente se apressar para formular sobre a
aparência dos fenômenos da ​phýsis e da sociedade humana, limitando-se a determiná-los
como ‘sendo’ ou ‘não-sendo’ estaticamente no tempo, mas sim de serem capazes de, ao
distinguirem os fenômenos e a forma como eles inter-relacionam-se, de homologarem com o
seu o lógos interno, mesmo em suas variadas formas de interpretá-lo, de forma a agirem
perante a história, enquanto seres presentes no tempo, detentores de um lógos discursivo
que ouve e diz sobre o lógos das coisas, utilizando-o para o suprimento das necessidades da
comunidade humana, através da transformação da realidade social mais próxima e para a
contínua transformação do discurso sobre a lógica do fenômeno, evitando ouvir os ruídos
que a própria subjetividade humana e a relação em sociedade proporcionam a qualquer um.
Não conjecturemos à toa acerca das grandes coisas. (COSTA, Alexandre.
frag 108 (LXXIV), p. 161.)

NOTAS:

¹ ​“É um ciclo eterno esse em que se move a matéria, um ciclo cuja trajetória fica encerrada
em períodos de tempo para os quais nosso ano terrestre não constitui medida possível; um
ciclo em que o momento do mais elevado desenvolvimento (o momento da vida orgânica e,
mais ainda, da vida animal e de seres conscientes de sua natureza) está tão rigorosamente
medido como o espaço em que a vida e a consciência conseguem realizar-se. Um ciclo em
que todo o estado definido da matéria, seja sol ou nebulosa, animal individual ou espécie
animal, combinação química ou dissociação, tudo é igualmente passageiro; em que nada é
eterno a não ser a matéria em eterna transformação e eterno movimento, bem como as leis
pelas quais se move e transforma. No entanto, por mais frequente e inexorável que seja a
realização deste ciclo, no tempo e no espaço; sejam quantos forem os milhões de sóis e terras
que se possam produzir e perecer; por mais longo que seja o tempo requerido para o
aparecimento, em um sistema solar (e só em um de seus planetas) das condições necessárias
à vida orgânica; embora sejam inumeráveis os seres orgânicos que devam aparecer e
desaparecer antes de que, entre eles, se desenvolvam animais com um cérebro capaz de
pensar e que encontrem, por um curto período, condições que tornem possível sua vida, para
serem logo depois destruídos inexoravelmente; podemos ter a certeza de que a matéria, em
todas as suas transformações, permanece sempre a mesma; que não pode perder nenhum de
seus atributos; e que, portanto, com a mesma férrea necessidade com que voltará a destruir,
na Terra, sua mais alta floração — o espírito pensante — voltará a engendrá-lo em outra
parte e noutro tempo.” (ENGELS, Friedrich. Edição de 1968, prefácio.)
² ​“Pois, sem o que é – ao qual está prometido –, não acharás o pensar. Pois não é e não será
outra coisa além do que é, visto o Destino o ter amarrado para ser inteiro e imóvel. Acerca
dele são todos os nomes que os mortais instituíram, confiantes de que eram reais: "gerar-se"
e "destruir-se", "ser e não ser", "mudar de lugar" e "mudar a cor brilhante".” (SANTOS, José
Gabriel Trindade, 2002, frag. B8, linha 35.)

BIBLIOGRAFIA:

COSTA​, Alexandre. Heráclito: ​fragmentos contextualizados. Tradução, estudo e


comentários. São Paulo. Editora Odysseus. 2012.

ENGELS​, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro. Companhia Editora


Leitura. 1968.

MARX​, K; ​ENGELS​, F. Obras escolhidas. URSS, Moscow. Edições Progresso


Lisboa, 1982.

PARMÊNIDES​. Da natureza. Fragmentos traduzidos pelo Prof. Dr. José Gabriel


Trindade Santos. Editora Loyola. Primeira edição. São Paulo, Brasil, 2002.

Você também pode gostar