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Aula 01 – DO MITO A RAZÃO

Na Grécia Antiga, a religião e o mito eram as fontes originárias de conhecimento. Através


deles, os gregos tinham as respostas fundamentais para as grandes questões da existência.

A partir do século VI a.C., no entanto, surgiram alguns sábios que propuseram uma outra
forma de pensar e de explicar o mundo. Eles passaram a utilizar os argumentos racionais (não
mais os religiosos ou míticos) para teorizar a realidade a partir de elementos presentes no
próprio mundo natural, sem que precisassem apelar a um mundo sobrenatural.

Nesse contexto, nasce a Filosofia. A seguir, você entenderá melhor esses acontecimentos.

O nascimento da polis** (cidade), no século VIII a.C., provocou grandes transformações na


Grécia Antiga.

** A polis se fez pela autonomia da palavra (logos), não mais da palavra mágica dos mitos
(mythos). O logos, diferente do mythos, tratava-se da palavra racional, argumentativa,
geradora da discussão, do conflito e do consenso.

O saber deixou de ser sagrado e tornou-se objeto de discussão. Os cidadãos da polis, passaram
a ir à ágora (praça pública) para debaterem os problemas de interesse comum e para
decidirem os rumos da cidade.

1 Tal mentalidade libertou os homens das ideias de pré-determinação e dosCaderno dedivinos


desígnios Filosofia
que lhes impunham o destino do qual não poderiam escapar.

A política, por sua vez, permitiu aos cidadãos debaterem e traçarem o seu próprio destino em
praça pública.

Como você viu na página anterior, a passagem de uma visão mágica, mítica e religiosa do
mundo para uma interpretação racional, humana, marca o nascimento da Filosofia no
Ocidente e o início do período chamado Filosofia Antiga.

O nascimento da Filosofia ocorreu no século VI a.C., nas colônias gregas da Magna Grécia (sul
da Itália) e Jônia (atual Turquia).

A Filosofia, tendo como fundamento a razão (logus), estabeleceu uma nova forma de
interpretação da realidade.

Se antes os fenômenos eram governados por leis divinas, quase inacessíveis aos humanos, com
o pensamento racional, foi possível conhecer as causas ou princípios que explicavam o mundo
e, com isso, conferir previsibilidade e controle sobre os fenômenos da natureza e da sociedade
humana. Já não eram mais os deuses que governam o mundo e os humanos, mas sim leis
intrínsecas às coisas. Tais leis davam-se a conhecer ao espírito humano que se utilizava da
razão para trazê-las à luz.  
A Filosofia nasceu fincada no chão da sociedade grega, sob condições políticas, econômicas e
culturais que determinaram todo o edifício racional que fora construído pelos inúmeros
pensadores.

Fatores políticos, religiosos e econômicos contribuíram para o surgimento da Filosofia na


Grécia Antiga. Inicialmente, conheça os fatores políticos.

As origens da Filosofia vinculam-se ao processo de consolidação da democracia grega em torno


da polis.

A cidade-estado grega era o espaço legítimo e legitimador de sua liberdade, a ponto de o


Estado tornar-se horizonte ético do homem grego.

Esta era a base da cidadania grega: os cidadãos são a finalidade última do Estado, o bem do
Estado é seu próprio bem, sua liberdade, sua grandeza.

A democracia grega se apoiava em uma concepção de cidadania excludente. Eram


considerados cidadãos, apenas os homens (varões) que possuíam bens ou riquezas. Portanto,
estavam excluídos da cidadania as mulheres, os estrangeiros, os escravos e os homens pobres.

2 Caderno de Filosofia
Conheça, agora, os fatores religiosos que contribuíram para o surgimento da Filosofia na
Grécia Antiga.

Os gregos conseguiram alcançar um patamar de liberdade religiosa muito elevado em relação


a outros povos da Ásia Menor e do Oriente Próximo.

Enquanto em outras nações o poder religioso, aliado às monarquias de cunho tributário, servia
para legitimar o Estado absoluto e o poder do rei, algumas cidades-estado da Grécia
construíram uma relativa liberdade, baseada na autoridade do Pater Familias (Pai de Família).

A religião grega não se baseava em um livro Sagrado. Portanto, os gregos não tinham dogmas
a serem defendidos, ortodoxia, nem heresias, ou uma casta sacerdotal. Estava aberto o
caminho para o livre pensar.

Veja abaixo os fatores econômicos que contribuíram para o surgimento da Filosofia na Grécia
Antiga.

O florescimento das cidades-estado gregas deveu-se principalmente ao desenvolvimento da


indústria artesanal e do comércio. Antes disso, a Grécia era predominantemente agrária,
sendo dominada politicamente por grandes proprietários de terras. Neste contexto, é mais
compreensível que cultivasse uma visão mítica do mundo, mais ligada aos ciclos do clima.
O crescimento industrial e comercial fez florescerem as cidades-estado, fazendo surgir novos
atores sociais, que começavam a dominar o cenário político e ameaçar o poder da nobreza
fundiária. É nessas circunstâncias que a Filosofia nasce, fazendo justificar o poder emergente
de comerciantes e artesãos.

Vale notar que essas mudanças ocorreram primeiro nas colônias gregas da Ásia Menor (em
Mileto, principalmente), expandido-se, depois, para a região da Itália Meridional, chegando,
então, ao centro da Grécia, em Atenas. Isto, porque, estando longe do controle central,
puderam desenvolver instituições políticas autônomas e desenvolver um comércio próprio.

Entenda melhor o discurso mítico-religioso na Grécia Antiga.

1. Os gregos cultuavam muitos deuses. Estes múltiplos deuses estavam no mundo e


faziam parte dele.

Diferente dos judeus ou dos cristãos, os gregos não desenvolveram a ideia de um Deus criador,
transcendente, absolutamente separado do mundo criado, cuja existência deriva e depende
inteiramente dele.

2. Os deuses gregos nasceram no mundo. A geração dos deuses deu-se ao mesmo tempo
da geração do universo. Os deuses e o mundo, a partir de uma espécie de caos
3 primordial, foram diferenciando-se, ordenando-se, até tomarem aCaderno de Filosofia
sua forma definitiva
de cosmo organizado.
3. A gênese dos deuses e do mundo operou-se a partir de potências primordiais, como o
Caos e a Gaia (terra), donde saíram, ao mesmo tempo e no mesmo movimento, o
mundo, tal como pode ser contemplado pelos humanos, e os deuses que presidem a
ele invisíveis na sua morada celeste.
4. Há, portanto, o divino no mundo, assim como o mundano nas divindades. O homem
grego vive num mundo cheio de deuses e, por isso, não separa natureza e
sobrenatureza, como dois domínios opostos.

Como você viu anteriormente, a religião dos gregos não se apoiava em um Livro sagrado, fonte
da revelação divina para os humanos, e não havia uma verdade que se encontrasse, de uma
vez por todas, vertida em texto. Como consequência, também não havia dogma ou ortodoxia,
nem profetas ou messias, tampouco uma casta sacerdotal. Talvez, por causa destas
características da religião dos gregos, vigorava grande liberdade para pensar e para divergir, o
que é fundamental para a Filosofia.

Ora, então, qual era a fonte de conhecimento sobre os deuses: seus nomes, suas genealogias,
seus atributos, suas aventuras, seus respectivos poderes, seu modo de agir, as honras que lhes
eram devidas etc.?
Tais saberes sobre os deuses eram veiculados por narrativas eminentemente orais. Ou seja,
por histórias que eram transmitidas de boca a ouvido, e que passavam adiante, de boca em
boca, através das fábulas contadas pelas mulheres às crianças nos lares e das vozes e dos
cantos dos poetas ao público em geral. Mais tarde, no século VII a.C., esta tradição oral foi
escrita por Hesíodo em textos que ficaram conhecidos como Teogonia e Cosmogonia
(respectivamente, a origem dos deuses e a origem do mundo). Esta tradição de base oral
constitui o que chamamos de mito (a linguagem mítica vale de metáfora, alegoria, símbolo e
arquétipo).

4 Caderno de Filosofia
Aula 02 – Sócrates, Platão e Aristóteles
Sócrates, Platão e Aristóteles são os mais importantes expoentes da Filosofia grega. As
doutrinas desses filósofos compõem o período clássico da Filosofia grega, tendo longa vigência
nos séculos seguintes.

Sócrates

Sócrates deu uma nova direção à Filosofia. Enquanto o interesse dos filósofos pré-socráticos
recaiu sobre os estudos da natureza (physis), Sócrates interessou-se pelas questões humanas,
a ética, a política, o conhecimento, a educação, entre outros problemas que afetam o homem.

As fontes mais importantes de informações sobre Sócrates são as escritas por Platão,
Xenofonte e Aristóteles. Sócrates foi mestre de Platão.

Alguns historiadores afirmam que só se poder falar de Sócrates como um personagem de


Platão, por ele nunca ter deixado nada escrito de sua própria autoria.

A principal preocupação de Sócrates era a de levar os seus concidadãos a pensarem.

Método Socrático – baseado em perguntas e desvendar o que estava oculto em cada uma
delas, num processo chamado maiêutica.

5 Sua filosofia exprimia-se por meio de diálogos. Na sua doutrina a confiança na razão
Caderno deassumia
Filosofia
um papel central. “ninguém é mau voluntariamente”, sendo o mal consequência da
ignorância. O grande princípio socrático era o conhecimento de si próprio: “Conhece-te a ti
mesmo.”

Platão

Platão nasceu em uma família aristocrata de Atenas. Foi brilhante escritor e filósofo e se
destacou entre os pensadores mais influentes da civilização ocidental.

Desde jovem, Platão tinha ambições políticas, mas logo se decepcionou com a liderança
política de Atenas. Ele se tornou discípulo de Sócrates, seguindo sua filosofia e aderindo ao
método por ele utilizado: a busca da verdade através de perguntas, respostas e mais
perguntas. 

Após a morte de Sócrates, Platão abandonou a cidade. As suas viagens levaram-no a lugares
como Egito, Cirene e Sicília. Quando regressou a Atenas, co-fundou uma escola que ficou
conhecida por Academia, situada no Jardim de Academos, onde se ensinavam os mais diversos
assuntos, desde a Matemática à Biologia, da Filosofia à Astronomia.

Os ensinamentos de Platão foram escritos em forma de diálogo (aproximadamente trinta), de


uma conversa ou um debate entre várias pessoas. Seus diálogos são divididos em três fases.
A primeira fase é representada com Platão tentando comunicar a filosofia de Sócrates. Os
diálogos da segunda e terceira fase relatam as próprias ideias de Platão, por mais que ele
continue a utilizar Sócrates como personagem em seus diálogos.

Em oposição aos sofistas, Platão propõe um novo método: a dialética (ou arte de pensar), que
vai das palavras às ideias. Estas constituem a própria essência, fundamento e modelo das
coisas sensíveis e individuais.

Entenda a Teoria do Conhecimento de Platão.

Platão foi o responsável pela formulação de uma nova maneira de pensar e de perceber o
mundo. Este ponto fundamental consiste na descoberta de uma realidade causal supra-
sensível, não-material, eterna e imutável. Tal realidade subsistiria num mundo separado do
mundo sensível e material: o mundo das formas ou das ideias.

Platão, portanto, divide o existente em duas partes: o mundo das ideias e o mundo físico em
que vivemos. No mundo das ideias, tudo é constante e real. Já no mundo físico (ou mundo
sensível), tudo está sujeito ao fluxo, à mudança, daí seu caráter relativo e aparente. De um
lado, o mundo das ideias ou das formas puras e imutáveis, e de outro, o mundo das coisas
mutáveis.

O mundo sensível é uma pálida reprodução do mundo inteligível. Trata-se de um mundo de


6 cópias imperfeitas das ideias ou formas, constituindo um mundo de sombras, conforme
Caderno a
de Filosofia
famosa Alegoria da Caverna. Segundo Platão, os sentidos físicos não nos revelam a verdadeira
natureza das coisas. Por exemplo, ao observarmos algo branco ou belo, jamais chegaremos a
ver a brancura ou a beleza plena, embora tragamos, dentro de nós, uma ideia do que elas são.

Assim, as únicas coisas, de fato, permanentes e verdadeiras para Platão, seriam as ideias.
Observar o mundo físico (tal como a ciência faz hoje em dia) pouco serviria, portanto, para
alcançarmos uma compreensão da realidade, embora servisse para reconhecermos, ou
recordarmos, as ideias perfeitas que traríamos dentro de nós.

Ideias ou formas são arquétipos imutáveis. De acordo com Platão, só essas ideias/formas são o
fundamento do verdadeiro conhecimento. Platão distinguiu dois níveis de saber: opinião
(afirmações relacionadas com o mundo físico, mesmo que baseadas na lógica ou na ciência) e
conhecimento (é derivado da razão e não da experiência. Somente com a razão se alcança o
conhecimento das formas).

República

A República é a maior e mais reconhecida obra política de Platão. A obra se foca na questão de
justiça: Como é um Estado justo? Quem é um individuo justo?

Segundo Platão, a melhor forma de governo é a aristocracia por mérito. Ele divide o estado
ideal em três classes: a classe dos comerciantes, a classe dos militares e a classe dos filósofos-
reis.
A República aborda diversos temas sobre justiça, governo e apresenta um governo utópico.
Essa obra vem sendo amplamente lida através dos séculos, por mais que suas propostas nunca
tenham sido adotas como uma forma de governo concreta.

Na República, também encontramos o famoso Mito da Caverna (ou Alegoria da Caverna).


Trata-se de uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à
importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância.

Em outras palavras, podemos dizer que a Alegoria da Caverna trata da passagem gradativa do
senso comum, enquanto visão de mundo e explicação da realidade, para o conhecimento
filosófico.

Segundo Platão, a melhor forma de governo é a aristocracia por mérito. Ele divide o estado
ideal em três classes: a classe dos comerciantes, a classe dos militares e a classe dos filósofos-
reis.

Aristóteles

Aristóteles é considerado um dos mais fecundos pensadores de todos os tempos.

Aristóteles nasceu em Estagira, na península macedônica da Calcídica (por isso, ele também é
7 chamado de o Estagirita). Era filho de Nicômano, amigo e médico pessoalCaderno
do rei Amintas 2º,
de Filosofia
pai de Filipe e avô de Alexandre, o Grande.

Aos 16 ou 17 anos, Aristóteles mudou-se para Atenas (centro intelectual e artístico da Grécia)
e estudou na Academia de Platão até a morte do mestre, no ano 347 a.C.

Após a morte de Platão, Aristóteles passou algum tempo em Assos, no litoral da Ásia Menor
(atual Turquia), onde casou-se com Pítias, a sobrinha do tirano local. Sendo este assassinado, o
filósofo fugiu para Mitilene, na ilha de Lesbos. Foi depois convidado para a Corte da
Macedônia onde, durante três anos, exerceu o cargo de tutor de Alexandre, mais tarde “o
Grande”.

Em 355 a.C., Aristóteles voltou a Atenas e fundou uma escola próxima ao templo de Apolo
Lício, que recebeu o nome de Liceu. O caminho coberto ("peripatos") por onde costumava
caminhar enquanto ensinava deu à escola um outro nome: Peripatética. A escola se tornaria a
rival e ao mesmo tempo a verdadeira herdeira da Academia platônica.

Com a morte de Alexandre, em 323 a.C., o imenso império erguido por ele esfacelou-se. Em
Atenas eclodiu um movimento que visava a restaurar a independência da cidade-estado.
Malvisto pelos atenienses por causa da sua origem macedônica, Aristóteles foi acusado de
“ateísmo” ou “impiedade”. Para não ter o mesmo fim de Sócrates, condenado ao suicídio,
exilou-se voluntariamente em Cálcida, na ilha da Eubéia, onde morreu um ano depois.

As investigações filosóficas de Aristóteles consideraram várias áreas do conhecimento.


Podemos citar a Biologia, a Zoologia, a Física, a História Natural, a Poética, a Psicologia, sem
falar em disciplinas propriamente filosóficas como a Ética, a Teoria Política, a Estética e a
Metafísica.

A metafísica aristotélica é a ciência que estuda “o ser enquanto ser”, ou os princípios e as


causas do ser e de seus atributos essenciais. Podemos sintetizar a  metafísica aristotélica em
quatro questões gerais: potência e ato; matéria e forma; particular e universal; e movido e
motor. Conheça, inicialmente, duas dessas questões.

Potência e ato

A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica.

Todo ser, que não seja o Ser perfeitíssimo (Deus), é uma síntese (um sínolo), um composto de
potência e de ato, em diversas proporções, conforme o grau de perfeição, de realidade dos
vários seres.

Um ser desenvolve-se, aperfeiçoa-se, passando da potência ao ato. Esta passagem da potência


ao ato é a atualização de uma possibilidade, de uma potencialidade anterior. Por exemplo, um
ovo está em ato, mas é potência de uma ave.

Esta doutrina é aplicada e desenvolvida por Aristóteles, especialmente, quando este trata da
doutrina da matéria e da forma, que representam a potência e o ato no mundo, na natureza
em que vivemos.
8 Caderno de Filosofia
Matéria e Forma

Segundo Aristóteles, o indivíduo é composto por dois elementos: a matéria e a forma.

O composto de matéria e forma (o sínolo) constitui a substância.

A matéria aristotélica, porém, não é o puro não-ser de Platão (mero princípio de decadência),
pois esta é também condição indispensável para concretizar a forma.

Então, não existe a forma sem a matéria, ainda que a primeira seja princípio de atuação e
determinação da segunda. Com respeito à matéria, a forma é, portanto, princípio de ordem e
finalidade, racional, inteligível.

Diversamente da ideia platônica, a forma aristotélica não é separada da matéria, e sim


imanente e operante nela. Ao contrário, as formas aristotélicas são universais, imutáveis,
eternas, como as ideias platônicas.

Os elementos constitutivos da realidade são, portanto, a forma e a matéria. A realidade,


porém, é composta de indivíduos, substâncias, que são um composto (um sínolo) de matéria e
forma.

 
Por consequência, estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir das
substâncias e dos indivíduos que não podem ser atuados, a não ser por um outro indivíduo,
isto é, por uma substância em ato.  

Com isso, existe a necessidade de um terceiro princípio, a causa eficiente, para poder explicar
a realidade efetiva das coisas.

 A causa eficiente, por sua vez, deve operar para um fim, que é precisamente a síntese da
forma e da matéria, produzindo esta síntese o indivíduo.

Daí uma quarta causa, a causa final, que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria
mediante a forma.

Conheça, agora, as outras duas questões gerais que sintetizam a metafísica aristotélica.

1. Particular e universal

Mediante a doutrina da matéria e da forma, Aristóteles explica o indivíduo, a substância física,


a única realidade efetiva no mundo, que é precisamente o composto (sínolo) de matéria e de
forma.

 A essência, que é igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie, deriva da forma. Já a
individualidade, pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais,
9 depende da matéria. Caderno de Filosofia

O indivíduo é, portanto, potência realizada, matéria enformada, universal particularizado.

 Mediante a doutrina da matéria e da forma é explicado o problema do universal e do


particular, que tanto atormenta Platão. Aristóteles faz o primeiro (a ideia) imanente no
segundo (a matéria), depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico, que fazia os
dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro.

2. Movido e motor

Da relação entre a potência e o ato, entre a matéria e a forma, surge o movimento, a


mudança, o vir-a-ser, a que é submetido tudo que tem matéria, potência. A mudança é,
portanto, a realização do possível.

 Esta realização do possível, porém, pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já
está em ato, que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser, visto ser impossível que o
menos produza o mais, o imperfeito o perfeito, a potência o ato, mas vice-versa.

Mesmo que um ser se mova a si mesmo, aquilo que move deve ser diverso daquilo que é
movido, deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. Por exemplo, a alma é que
move o corpo.
O motor pode ser unicamente ato, forma. A coisa movida, enquanto tal, pode ser unicamente
potência, matéria.

Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida, doutrina que culmina no motor
primeiro, absolutamente imóvel, ato puro, isto é, Deus.

Como todo pensamento e todo juízo, a proposição aristotélica está submetida aos três
princípios lógicos fundamentais, condições de toda verdade:

Princípio da identidade - Um ser é sempre idêntico a si mesmo: A é A.

Princípio da Não-Contradição - É impossível que um ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao
mesmo tempo e na mesma relação. É impossível que A seja A e não-A.

Princípio do terceiro excluído - Dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo
predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente verdadeira e a outra
necessariamente falsa. A é x ou não-x, não havendo terceira possibilidade.

Relembre os principais pontos:

Como você pôde perceber, o sistema aristotélico invalida o dualismo platônico, representado
pela teoria das ideias.
10 Caderno de Filosofia
Ora, a forma aristotélica não existe separada, num mundo inteligível e apartado do mundo das
coisas sensíveis e materiais.

A forma, junto com a matéria, constituiria os indivíduos, as substâncias. Portanto, a forma é


parte constitutiva das coisas e faz parte do único mundo existente.

Aristóteles, diferente de Platão, valoriza o conhecimento sensível, desvalorizado por Platão,


como fonte de erro e de engano.

Ao contrário de Platão, Aristóteles entende que todo o conhecimento possível inicia-se com os
sentidos ou a sensação.

Os sentidos, entretanto, são insuficientes, e precisam ser superados por outros graus mais
elevados de abstração, passando pela memória, a experiência, a arte (téchne) e chegando à
teoria (epistemé), grau mais perfeito do conhecimento.
Aula 04 – Filosofia Medieval – Parte II

Nessa aula, você conhecerá o rico encontro da filosofia árabe com a filosofia ocidental e como
esse encontro favoreceu o desenvolvimento da filosofia escolástica.

Conhecerá também a importância de São Tomás de Aquino e de Guilherme de Ockham para a


Filosofia Medieval.

A Filosofia Medieval contou com a valiosa contribuição do pensamento árabe.

Conheça os fatores históricos que contribuíram para a fusão entre a cultura árabe, a filosofia
grega e o pensamento cristão.

Filosofia Grega

A fusão começa a partir do momento em que Alexandre (século IV a.C.) inicia a expansão do
seu Império, levando e difundindo a cultura grega pelo Oriente Médio, conquistando a Índia.

A partir desse momento, não restou mais dúvida a mistura entre a língua local e a grega com
suas ricas tradições, formando os principais núcleos de cultura.
11 Caderno de Filosofia

Pensamento cristão

No período cristão (IV e V d.C.), outro marco se dará aprofundando essa fusão. Vários cristãos
foram condenados e buscaram exílio no Oriente, principalmente na Síria e na Mesopotâmia.
Esses cristãos, além de conhecedores da filosofia e da ciência grega, usavam a língua grega.

Cultura Árabe

A fusão também foi influenciada pelo profeta Maomé (570-632), quando este assumiu a
liderança religiosa do povo árabe, fundando a religião islâmica. Esse contexto, sem dúvida,
favoreceu o encontro dos árabes com os núcleos de cultura de origem grega e cristã. Portanto,
os cristãos da escolástica tiveram o primeiro contato com o pensamento de Aristóteles através
desses núcleos de cultura.

Como você estudou na página anterior, os cristãos da escolástica tiveram o primeiro contato
com o pensamento de Aristóteles através dos núcleos de cultura. Logo, podemos concluir que
o grande desenvolvimento da filosofia escolástica, a partir do século XIII, foi devido à influência
do pensamento árabe.
Com o desenvolvimento de uma intensa atividade artesanal e comercial, no século XIII,
surgiram núcleos urbanos importantes que tiveram grande influência no enriquecimento de
uma pequena parte da população.

Consequentemente, houve o rompimento com a ordem econômica (política feudal), dando


lugar a um mundo em que as relações sociais permitiam a mobilidade social. Além disso, os
artesãos passaram a se organizar em ligas nas cidades, fazendo nascer um novo tipo de
convívio social.

As obras de Aristóteles, com as suas preocupações científicas e empíricas, foram adequadas a


esse novo contexto, devido a dois fatores fundamentais que são característicos do século XIII:
o surgimento das universidades e a criação das ordens religiosas (franciscanos e dominicanos).

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São Tomás foi um dos grandes pensadores da alta escolástica.

- Teve uma profunda ligação com as universidades do século XIII, sobretudo a de Paris.

- Tornou-se um grande pensador com criatividade e originalidade.

- Desenvolveu uma filosofia própria, tratando praticamente de todas as grandes questões da


12 Caderno de Filosofia
Filosofia e da Teologia de sua época.

- Teve grande interesse pelas obras de Aristóteles e dos pensadores árabes.

- Mostrou que a filosofia de Aristóteles era compatível com o cristianismo.

O tomismo tornou-se uma espécie de representante de “uma filosofia cristã oficial”, isto se
deu devido à grandeza da obra de São Tomás e da complexidade das questões tratadas. Como
exemplo disso, ele desenvolveu as cinco vias da prova da existência de Deus.

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