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BASES PARA UMA POLÍTICA URBANA

18/12/2001

Documento elaborado sob a coordenação do arquiteto Luiz Paulo Conde, com a


participação dos sociólogos Maria Alice Resende e Marco Aurélio Ruediger, e do
arquiteto Sérgio Magalhães. Apresentado ao IX Congresso Estadual do Partido
Socialista Brasileiro/RJ, em outubro de 2001.

Frente aos desafios do séc. XXI, o Século das Cidades, e na perspectiva da


construção de um Brasil mais solidário e democrático, está o Partido Socialista
Brasileiro comprometido com a estruturação de uma política urbana para o país,
que garanta, a todo brasileiro, o direito à cidade e, ao mesmo tempo, que garanta
a própria cidade como lugar da interação social, livre e democrática.

A construção dessa política urbana se apóia em dois pilares:

• sua formulação a partir do debate e do envolvimento de todos os segmentos do


partido, como canais legítimos de busca do sentimento popular e

• sua implementação em toda cidade brasileira, em consonância com a


multiplicidade espacial e diversidade de realidades, garantidas através da
participação ampla e democrática da sociedade.

1. INTRODUÇÃO

No Brasil, são cerca de 135 milhões de pessoas vivendo em centros urbanos. A


capacidade do país de prover os seus moradores de bens de cidadania -- habitação,
trabalho, saúde, educação e segurança -- está longe de constituir uma questão
resolvida. Atualmente, as cidades brasileiras são bens escassos; não há provisão de
cidade a todos os que nelas habitam. Essa, a grande questão de uma agenda
urbana para o século XXI: democratizar a cidade. O que significa compreendê-la
como um bem público e torná-la acessível a todos.

Acessibilidade torna-se, assim, uma palavra-chave para a distribuição democrática


de recursos que, embora existentes no meio urbano, notadamente nos grandes
centros e em seus entornos metropolitanos, costumam ser alocados
assimetricamente, limitando, e por vezes anulando, suas potencialidades de
promoção social, desenvolvimento econômico e vida cívico-associativa. Mesmo nas
cidades mais afluentes, agora sob influência da globalização, percebem-se,
crescentemente, alterações em suas possibilidades de incorporação social, porque a
sua dinâmica vê-se dependente, simbólica e economicamente, dos centros
econômicos globais.

Ao político se impõe estruturar um pensamento sobre a cidade que saiba


contemplar a diversidade de interesses nela existente e, ao mesmo tempo, produzir
uma convergência política em torno dos objetivos da integração social e política dos
segmentos menos favorecidos. Qualificar a cidade, promovendo a cidadania, é a
única alternativa viável para um desenvolvimento sustentável e para a atração de
novos investimentos. Sem o cumprimento desse imperativo, nenhum grupo social,
nenhum interesse legítimo, sairá ganhando.
Trata-se, pois, de reconhecer a centralidade do tema urbano em nosso país, e de
inseri-lo, definitivamente, na agenda política brasileira, tendo como conceito-chave
o da garantia de acesso à cidade a todo cidadão.

2. FUNDAMENTOS

Quatro princípios podem nortear a inscrição do tema urbano na agenda política:

• Respeito às pré-existências. A cidade brasileira é múltipla. O seu desenvolvimento


se dará respeitando-se os espaços construídos, o esforço que as famílias já fizeram
na construção do seu habitat e à história do lugar.

• Construção compartilhada. A construção da cidade é responsabilidade coletiva,


isto é, dos governos e da sociedade. É necessário rever o estabelecido na lei
6766/79, que atribuiu às famílias os custos relativos à urbanização, bem como
assegurar o crédito habitacional a cada família, conferindo-lhe a capacidade de
decidir sobre onde e como morar.

• Participação comunitária e cidadã. A condição política para o melhor


aproveitamento dos recursos coletivos é o processo de participação em cada
instância de decisão.

• Democratização de espaços e investimentos. A transparência das ações de


governo, a proteção e o uso democrático do espaço público, evitando apropriações
privatistas ilegais, bem como a distribuição justa de recursos públicos e de políticas
de investimento, são premissas para a superação das assimetrias sócio-econômicas
e para o fortalecimento das estratégias de atração de novos investidores.

A implementação dessa agenda deve situar a questão urbana no campo político,


dado, em primeiro lugar, o seu caráter abrangente sobre todos os demais temas
associados ao desenvolvimento nacional; e, em segundo lugar, o reconhecimento
de que os problemas fundamentais das cidades têm causas políticas profundas,
ancoradas na irracionalidade de ações e na provisão elitista de cidade para poucos.

3. PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA AGENDA URBANA

Um amplo e diversificado conjunto de políticas públicas voltadas à atenuação da


desigualdade e à melhoria das condições de vida nos centros urbanos precisa ser
formulado e implementado. Embora existam avaliações pontuais, produzidas por
diferentes agências da administração pública e da sociedade civil, incluindo as
universidades e os centros de pesquisa dedicados à questão urbana, é necessário
ampliar o debate sobre as cidades brasileiras e suas prioridades, envolvendo novos
interlocutores, tais como os sindicatos, as organizações empresariais, as
representações cidadãs, entre outros, para formar uma opinião pública interessada
em enfrentar o grande desafio desse novo século -__ o mundo urbano.

Além do avanço político, que consiste em inscrever o tema da cidade na agenda


pública nacional, essa perspectiva teria o mérito de legitimar o caminho de
institucionalização das competências relativas à gestão urbana, ainda hoje
indefinidas; acelerar a regulamentação dos preceitos constitucionais relativos à
matéria, e a própria produção legislativa que dispõe sobre o desenvolvimento
urbano; adequar os instrumentos de planejamento e gestão às transformações da
realidade urbana brasileira; e, por fim, favorecer a integração e articulação das
intervenções públicas, até aqui bastante setorizadas. Esses seriam passos
institucionais importantes, subsidiários ao desenvolvimento de uma opinião pública
política sobre a centralidade da questão urbana no Brasil.
Contudo, se os problemas contemporâneos das nossas cidades são muitos, eles não
devem toldar a percepção do que há de novo no mundo, e dos desafios que tais
novidades impõem aos atuais decisores. Em que pesem as grandes carências
urbanas a serem superadas prioritariamente, proceder de modo apenas a satisfazer
as demandas presentes constituiria um equívoco, com graves conseqüências para
as gerações futuras. Uma perspectiva estratégica, portanto, justifica-se, entre
outras coisas, como um instrumento imprescindível ao desenvolvimento sustentável
das cidades.

As políticas públicas de reequilíbrio social devem vir, pois, associadas à percepção


das mudanças mundiais de base tecnológica, que alteram a estrutura de ocupações
e passam a exigir, por exemplo, a adequação das propostas educacionais a essa
nova circunstância. O mesmo se aplica à questão ambiental, concebida, hoje, nos
marcos de um direito coletivo, e com incidência direta sobre a qualidade de vida
urbana. Em ambos os casos, está-se diante de problemas que afetam as políticas
de infra-estruturação das cidades. O equilíbrio ambiental e a democratização dos
equipamentos e serviços que favoreçam a disseminação da informática e o livre
acesso à informação começam a ser prioridades e, certamente, constituirão o front
onde será decidido o futuro do mundo urbano brasileiro.

4. ALGUMAS INICIATIVAS

Tendo como objetivo um desenvolvimento urbano democrático e orientado para a


melhoria da qualidade de vida, são consideradas prioritárias as ações que:

• mobilizem a opinião pública nacional para a centralidade da questão urbana


brasileira;

• democratizem as oportunidades de acesso aos chamados bens de cidadania, e


fortaleçam as redes de apoio e de organização social existentes;

• adeqüem as políticas de reequilíbrio social àquelas de natureza estratégica,


sobretudo às concernentes à disseminação da informação e ao equilíbrio do meio-
ambiente;

• estimulem a participação e a cooperação da sociedade civil na concepção, na


implementação e na avaliação das políticas públicas;

• favoreçam a modernização da gestão urbana, inclusive com o seu


aperfeiçoamento institucional.

Assim orientadas, aponta-se ao debate as seguintes iniciativas de


implementação:

Construção de um sistema de crédito habitacional, amplo e democrático, que


garanta a todas as famílias a decisão de onde e como morar, segundo suas
possibilidades econômicas, preservando-se o subsídio governamental àquelas sem
condições financeiras;

Promoção da urbanização de toda a rede brasileira de cidades, com a


responsabilidade pública pela implantação das infra-estruturas de saneamento e
serviços;

Integração urbanística dos assentamentos populares, reconhecendo o


esforço despendido pela população mais pobre na construção de seu habitat,
investindo em programas de inclusão social tais como o Favela Bairro e o Morar
Legal, de regularização de loteamentos;

Ampliação do exercício do direito de propriedade, até mesmo levando aos


municípios a condição para o registro imobiliário, bem como avaliando outros
vetores de exclusão;

Garantia de transporte público de qualidade, especialmente nas grandes


cidades, com a melhora ou implantação de sistema de transporte de massas, sobre
trilhos;

Também podem ser iniciativas concorrentes:

Estímulo aos sistemas locais de desenvolvimento urbano, adotando meios de


apoio à elaboração dos Planos Diretores municipais, bem como ao aproveitamento
dos demais instrumentos de gestão previstos na lei do Estatuto da Cidade;

Promoção de estratégia de desenvolvimento local comunitário, por meio de


ações de geração de trabalho, requalificação profissional, e apoio a
empreendimentos de pequeno e médio porte. A inspiração dessa ação busca seguir
projetos integradores, colocando uma parte substancial do poder decisório nas
mãos da comunidade, porém complementada por uma estrutura gerencial
profissional.

Criação de instâncias administrativas voltadas à política urbana, seja no


âmbito federal, com a definição de Ministério próprio, seja nas instâncias federadas,
através de mecanismos específicos;

Utilização dos vazios urbanos e o melhor aproveitamento das infra-


estruturas existentes, de modo a recuperar os investimentos públicos feitos na
construção da cidade;

E ainda:

Criação de um modelo de mensuração de eficiência para avaliação do


desempenho das cidades, que inclua referenciais de cultura cívica e cidadania;

Modelação de parâmetros de análise de políticas públicas, em especial a


chamada "espacialização" do orçamento municipal, e acompanhamento da
execução orçamentária, também georeferenciada, no tocante aos investimentos;

Apoio à implantação de programas de democratização das novas


tecnologias de informação no âmbito urbano e introdução de mecanismos
de e-governance, promovendo a democratização do acesso dos cidadãos aos
mecanismos de governo, a transparência de ações e, no campo da educação,
preparando a juventude para uma sociedade informacional;

Uma política urbana verdadeiramente democrática, fará com que todo cidadão
venha a dispor dos bens, equipamentos e serviços necessários ao viver urbano
moderno. E que nossas cidades sejam preservadas como lugar da interação social,
do cotejo entre as diferenças, sobretudo como o lugar da liberdade.

Essa política urbana, socialista brasileira, há de ser um poderoso instrumento para


a organização da sociedade, para a integração social, para a redução da pobreza,
para o desenvolvimento sustentável de nossas cidades, sobretudo para a
construção de um país mais solidário e democrático.

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