Você está na página 1de 11

PENSAR A TECNOLOGIA INTERDISCIPLINARMENTE: A

UTILIZAÇÃO METODOLÓGICA DOS ASPECTOS MODAIS.

VI SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE CIÊNCIA E


TECNOLOGIA

Luiz Adriano Gonçalves Borges – luizborges@utfpr.edu.br


UTFPR, Coordenação de Matemática
Toledo - Paraná

Resumo: No presente trabalho apresento uma metodologia de trabalho para se pensar em


artefatos e sistemas tecnológicos de maneira interdisciplinar. Tal metodologia foi aplicada
no contexto de cursos de engenharia da UTFPR câmpus Toledo, a saber, Engenharia Civil,
de Bioprocessos e da Computação. A parte teórica foi baseada na ideia de “aspectos
modais” do filósofo holandês Herman Dooyeweerd. A filosofia da tecnologia em sua “virada
empírica” tem focado nos estudos de casos e na melhora na forma de se tratar objetos
tecnológicos, os quais trazem uma grande complexidade. Trabalhando dessa forma, filósofos
têm percebido uma multiplicidade na realidade de um objeto. Um objeto não pode ser
compreendido somente por si mesmo, mas em conexão com seu contexto, com as
necessidades e os desejos humanos. Este artigo está estruturado da seguinte forma, em um
primeiro momento, comento sobre as limitações de não se pensar interdisciplinarmente,
depois apresento Dooyeweerd e sua noção de “aspectos modais” e como ela pode ser
aplicada favoravelmente aos estudos interdisciplinares e, por último, apresento o estudo de
caso do iPhone, utilizando esse referencial teórico.

Palavras-chave: Aspectos modais, Filosofia da tecnologia, Dooyeweerd

1 INTRODUÇÃO

Atualmente tecnologia e ciência estão fortemente interligadas e não podemos mais ter
uma visão monolítica desses campos; as Universidades e Empresas estão tendo que mudar de
uma visão puramente técnica para uma visão interdisciplinar. Em qualquer artefato
tecnológico existe uma miríade de aspectos envolvidos em sua concepção, produção e
comercialização. Portanto, os estudos em STEM (do inglês: ciência, tecnologia, engenharia,
matemática), estão também adicionando uma nova letra no acróstico “A”, de Artes, formando
STEAM. Ressaltando que liberal arts em países anglófonos incluem literatura, filosofia e
ciências humanas. Profissionais e educadores em STEAM devem procurar pensar sistemas e
artefatos tecnológicos de maneira multifocal.
Assim, em qualquer projeção tecnológica, existe uma necessidade premente de se
trabalhar interdisciplinarmente. O mito do inventor solitário deve cair de vez por terra e é uma
impossibilidade prática em uma sociedade tecnológica. Thomas Edison precisou de um
laboratório e dezenas de colaboradores de diferentes áreas para criar sua lâmpada elétrica no
final do século XIX (WHITE, 2003, p. 205–210). O ser humano é limitado e incapaz de
perceber todas as implicações de suas criações e, para se constituir uma tecnologia que
consiga trazer o máximo de benefícios e o mínimo de impactos negativos, faz-se necessário
pensar para além de uma única disciplina. Desde o século XIX cientistas e tecnólogos têm
construído seus universos em busca de uma especialização cada vez maior, o que acabou
causando um reducionismo e uma visão limitada. A forma como é constituído o ensino de
STEM precisa abarcar situações tais como questões éticas, econômicas, ambientais, jurídicas,
estéticas, para além de práticas. Engenheiros precisam trabalhar conjuntamente com outros
cientistas e com designers.
No presente trabalho trago uma metodologia de trabalho para se pensar em artefatos e
sistemas tecnológicos de maneira interdisciplinar. Tal metodologia foi aplicada no contexto
de cursos de engenharia da UTFPR câmpus Toledo, a saber, Engenharia Civil, de
Bioprocessos e da Computação. A parte teórica foi baseada na ideia de “aspectos modais” do
filósofo holandês Herman Dooyeweerd. A filosofia da tecnologia em sua “virada empírica”
tem focado nos estudos de casos e na melhora na forma de se tratar objetos tecnológicos, os
quais são mais complexos do que supõe a vã filosofia. Trabalhando dessa forma, filósofos têm
percebido uma multiplicidade na realidade de um objeto. Um objeto não pode ser
compreendido somente por si mesmo, mas em conexão com seu contexto, com as
necessidades e os desejos humanos.
Este artigo está estruturado da seguinte forma, em um primeiro momento, comento
sobre as limitações de não se pensar interdisciplinarmente, depois apresento Dooyeweerd e
sua noção de “aspectos modais” e como ela pode ser aplicada favoravelmente aos estudos
interdisciplinares e, por último, apresento o estudo de caso do iPhone, utilizando esse
referencial teórico.
1. DAS LIMITAÇÕES DE NÃO SE PENSAR INTERDISCIPLINARMENTE

No século XIX, na medida em que a ciência e a tecnologia se tornaram mais


complexas, ocorreu uma paulatina divisão do mundo e da vida humana dentro de diferentes
categorias de fenômenos e uma separação de seu estudo em diversas disciplinas autônomas
(VANDERBURG, 2011, p. 56). Essa divisão de trabalho criou uma ilusão de objetividade e
controle, no sentido de que a vida humana e o mundo poderiam ser compreendidos através de
uma categoria de fenômenos por vez. A ciência e a tecnologia ocidental, então, se separam da
experiência humana lutando pela busca de eficiência, o que não necessariamente traz
benefícios.
Jacques Ellul foi um grande crítico da busca por eficiência tecnológica e apontou que
ela nem sempre traz produtos melhores do ponto de vista humano. Um pão produzido por
uma máquina não é necessariamente melhor que um pão produzido por um padeiro
(COLLINS; KUSH, 2016, cap. pós escrito). De fato, a tecnologia pode trazer alienação e
outros problemas sociais, como é o caso dos sistemas de produção idealizados por Taylor e
Ford (VERKERK et al., 2018, cap. 8. Tecnologia e produção).
Algumas vertentes de autores da filosofia e sociologia da tecnologia vão apontar que a
ênfase na técnica traz um reducionismo na complexidade da vida humana, ao centrar tudo em
métodos de eficiência, otimização e desenvolvimento tecnológico. Vanderburg exemplifica
isso com o caso da performance de um atleta: seu desempenho deve ser melhorado através de
otimização de movimentos físicos, equipamento, cronogramas de treinamentos, nutrição,
provisão psicológica, tratamentos fisioterapêuticos e médicos, relações públicas e exposição
na mídia, oportunidades de patrocínio e outras oportunidades de renda. Tudo isso faz sentido
se redundar em uma melhora de vida do atleta, melhor relacionamentos com outros e uma
contribuição significativa para a vida em comunidade. Mas, infelizmente, não é assim que
ocorre, como muitas vidas de atletas demonstram (VANDERBURG, 2011, p. 219) . Veja-se
os exemplos de casos de doping retratados no documentário “Ícarus”1.
Esse exemplo é importante porque aponta, de maneira clara, a preocupação monolítica
e equivocada de muitos desenvolvimentos tecnológicos. Por exemplo, para ser genuinamente
efetiva, a análise e otimização de artefatos e processos na engenharia deve levar em
consideração o uso eficiente de recursos e também sua adaptação na vida humana, sociedade e

1
Icarus, de 2017, foi dirigido por Bryan Fogel e recebeu o prêmio “Orwell” no Festival de Sundance. No site do
festival comentou-se sobre esse prêmio: “em um mundo de pós-verdade, dublês, e fatos alternativos, o júri
decidiu criar o Prêmio Orwell para reconhecer um filme que revela a verdade em um momento em que a verdade
não é mais uma mercadoria.” (OLL, 2017, p. 59, tradução nossa).
na biosfera. Quão melhor for o design tecnológico, melhor ele será para o ambiente que o
cerca. Tal abordagem não pode ser sustentada através de uma separação e não comunicação
entre disciplinas (VANDERBURG, 2011, p. 293).
O engenheiro que se engaja em um projeto acaba percebendo ao menos três pontos
fundamentais na complexidade da tecnologia:
1) no processo de elaboração de um projeto ele se dá conta de que tem que levar
em consideração diversos aspectos, tais como o preço do projeto, impactos
ambientais e aparência estética do produto;
2) quando pensa na relação com a sociedade, deve atentar para o impacto que a
tecnologia irá causar e;
3) as várias tecnologias estão cada vez mais integradas umas com as outras, por
exemplo, tecnologia energética, que une cientistas e engenheiros de diversas
especialidades (ROSA et al., 1988).

A necessidade de se trabalhar interdisciplinarmente é premente no universo de


tecnologia e ciência, e tem gerado muitos frutos a partir de estudos teóricos e aplicações
práticas. Menciono a trilogia encabeçada por Arlindo Philippi Jr. em torno de contribuições à
prática da interdisciplinaridade. E especificamente, me refiro ao estudo de megacidades e
mudanças climáticas, no qual estudiosos de diversos campos, com cientistas naturais e das
humanidades, se uniram para pensarem os problemas e desafios de grandes cidades (DI
GIULIO; VASCONCELLOS; RIBEIRO, 2017).

2. ASPECTOS MODAIS

Antes de avançarmos para a metodologia para se pensar em artefatos e sistemas


tecnológicos de maneira interdisciplinar e sua aplicação prática, cabe distinguir o ramo da
filosofia que trata de compreender os objetos tecnológicos, a ontologia. Basicamente, essa
corrente trata da natureza, realidade e existência dos seres e objetos. Muitos autores
colaboraram para pensar objetos tecnológicos desde a antiguidade (LAWSON, 2008a).
A partir do século XIX, temos autores como Husserl, Heidegger, Simondon e Latour
que desenvolveram ideias em torno dos “modos de existência dos artefatos”, como lhe
denomina Latour, que estabeleceu um diálogo com seus antecessores (GOLFO, 2014;
GRUSZCZYŃSKI; VARZI, 2015; LATOUR, 2013; LAWSON, 2008b; SIMONDON, 2016;
VERBEEK; CREASE, 2005). Todos eles carregam alguma similaridade com os conceitos de
Herman Dooyeweerd, cujas ideias trataremos mais de perto nesse artigo.2
O filósofo holandês Herman Dooyeweerd (1894-1977) desenvolveu análises
importantes que serviram de base para a fundação da filosofia da tecnologia na Holanda e
também tem sido bastante estudado quando se pensa em interdisciplinaridade, principalmente
no que concerne a seu conceito de aspectos modais. Este autor era filósofo do direito e
teólogo, mas suas ideias também foram usadas em outras disciplinas, como filosofia da
ciência e da tecnologia.
Dooyeweerd argumentava que o pensamento teórico é caracterizado por uma
abstração da riqueza da experiência vivida. A abstração envolve separar partes da realidade de
sua conectividade com toda a realidade e analisar essas partes independentemente. A biologia
molecular, por exemplo, estuda as funções biológicas num nível molecular, sem levar em
consideração os órgãos, que são estudados no campo da fisiologia, ou mesmo a interação de
diferentes organismos entre si e com elementos não-vivos de seu ambiente, que é estudada na
ecologia. Essa especialização e abstração geram as diversas disciplinas científicas que
estudam um elemento a partir de um ponto de vista reduzido.
Assim, uma das grandes críticas de Dooyeweerd é com relação ao reducionismo em
que podem recair as diversas disciplinas do conhecimento.
Dooyeweerd critica as filosofias imanentistas de serem reducionistas; esta linha
filosófica compreende que não existe uma causa externa no mundo; o processo de produção
da vida está contida na própria vida. Essa corrente é representada por Espinoza e Kant que
apontam a autonomia do pensamento racional e do ser humano. Dooyeweerd, por outro lado,
aponta que o ser humano não possui autonomia plena e sua racionalidade e pensamento
teórico não é absoluto, devido a sua limitação; sua autonomia e pensamento teórico devem
estar ancorados para além de si mesmos (DOOYEWEERD, 2010). Para Dooyeweerd, existem
certos aspectos que se apresentam nas coisas e esses aspectos são os seguintes:

2
Em artigo futuro, explorei mais detalhada e comparativamente a ideia de modos de existência.
Tabela 1.
Aspectos Qualificante
Quantitivo a ver com quantidade, números Firmas de contabilidade
Espacial A ver com extensão, espaço
Cinético Movimento, movimento de fluxo
Físico Energia + massa Semicondutores, elétrons, campos,
fórmulas químicas etc
Biótico Funções biológicas, plantas Hospitais, fazendas
Sensitivo Sentidos, sentimento, emoção Sinais, “bits”, agregados de bits em um
registro de computador e células de
memória
Analítico Classificações, conceitos, sistemas Símbolos
classificatórios
Formativo História, cultura, tecnologia: moldar Fábricas, relações de poder,
criativo estabelecimentos de treinamento
Linguístico Palavras, sentenças, documentos, páginas Livrarias, estabelecimentos de ensino
da internet, palestras
Social Sociedades, clubes, grupos,
Economico Moedas, orçamentos, administradores empresas
Estético Obras de arte, atividades de lazer Clubes esportivos
Jurídico Leis, regras, direitos, responsabilidades Tribunais, força policial, o estado, grupos
de pressão
Ético Atos de generosidade, atos de sacrifício
Pístico Crenças firmes, compromissos Igrejas e outras instituições religiosas
Fonte (BASDEN, 2018)

Sytse Strijbos and Andrew Basden, entre outros, procuraram, a partir desta e outras ideias
de Dooyeweerd, elaborar uma visão normativa da tecnologia e sociedade que conseguisse
abarcar a diversidade da vida humana, isto é, uma visão integradora da tecnologia e da
ciência, sem cair em reducionismo, fazendo uso do conceito de aspectos modais (STRIJBOS;
BASDEN, 2006).

3. ESTUDO DE CASO
Portanto, a noção de aspectos modais de Dooyeweerd se apresenta, ao menos em
teoria, como um elemento teórico vantajoso para uma metodologia de análise de artefatos e
sistemas tecnológicos. Portanto, devemos colocá-la em prática para testar seu valor enquanto
método.
Desta forma, propus para cada curso de engenharia na UTFPR, campus Toledo,
(Computação, Civil e Bioprocessos) uma tecnologia ou sistema tecnológico e dividi a turma
em duplas para produzir uma análise levando em consideração os aspectos modais. Para
Engenharia da Computação optei pelo iPhone; para Engenharia Civil designei a Hidrelétrica
de Itaipu e para Engenharia de Bioprocessos, indiquei o Biopark que está sendo concebido na
cidade de Toledo. Os exemplos abrangeram uma tecnologia, um sistema energético e um
parque tecnológico, procurando testar a metodologia proposta por Dooyeweerd. Então, para
cada dupla de alunos foi designado um aspecto modal a ser analisado em relação ao seu tema
e posteriormente entregue em forma de relatório. No presente trabalho, ressaltaremos o caso
do iPhone.
Analisando um iPhone dentro da metodologia dos aspectos modais, podemos
relacionar o aspecto quantitativo às questões de vendas, por exemplo. A Apple vendeu no
primeiro ano de lançamento do iPhone, lançado em 2007, cerca de 1.39 milhões de unidades.
Comparativamente, em 2017 vendeu 216.76 milhões de unidades (“Unit sales of the Apple
iPhone worldwide from 2007 to 2017 (in millions)”, 2018). Espacialmente, a primeira
geração do aparelho possuía um tamanho pequeno para a época: uma tela de 3,5 polegadas e
resolução de 320 x 480 pixels, elementos que foram aprimorados no Iphone 8 plus (2017),
que possui tela de 5,5 polegadas e resolução 1920 x 1080 pixels; também é notável uma
grande diminuição da espessura do aparelho e um aumento no comprimento. No aspecto
cinético, de movimento, os alunos perceberão que a mobilidade é umas das principais
características do telefone, que também possibilita ao usuário conexão com a internet através
de rede telefônica móvel e à internet móvel (wi-fi); além disso, o sensor de giroscópio permite
ao aparelho “compreender” como ele está sendo movido. Físicamente, levamos em
consideração os componentes internos, como semicondutores, que variam bastante entre as
diferentes versões do aparelho. No aspecto biótico podemos pensar em como o iPhone se
insere no meio ambiente; questões ambientais e comportamentais humanas entram aqui. O
aspecto sensitivo talvez seja o que mais teve um efeito na nova geração de telefones celulares,
os chamados smartphones, inaugurada pelo lançado do aparelho da Apple. Aqui, destacamos
a tela de touch screen, os diversos sensores como os já citados giroscópios e também de
digitais. Analiticamente, a parte que concerne à lógica, é interesse de programadores e
cientistas da computação, que trabalham nos sistemas internos do aparelho e em sua
programação.
No aspecto formativo, aspecto de interesse de historiadores da tecnologia, podemos
adentrar no contexto de desenvolvimento do iPhone e procurar compreender sua história. Na
linguística, temos o aspecto que relaciona as formas de comunicação entre as pessoas e o
iPhone desempenha isso de várias formas, principalmente porque os celulares foram
inventados primeiramente para a comunicação móvel entre as pessoas objetivando a
facilidade de comunicação linguística; com os smartphones isso foi amplificado pelas
multiplicidades de maneiras de comunicação proporcionadas pelas redes sociais. Isso de certa
forma se relaciona ao aspecto social, pois as redes apropriadamente denominadas sociais
permitem a formação de grupos de interesses. O aspecto econômico também possibilita uma
série de discussões com relação ao aparelho, indo desde preço, número de vendas,
lucratividade. Ele pode ser um importante indicador de status, uma vez que o preço de venda
do iPhone foi aumentando ao longo dos anos, não mais simbolizando unicamente um item de
necessidade básica. Perceba que o aspecto econômico não trata somente de quantidades,
como o primeiro aspecto, e acaba sendo mais complexo que àquele. De fato, os aspectos
aumentam de capacidade do primeiro para o último. Continuando, o aspecto estético para a
Apple sempre foi fundamental, tanto que é comum perceber nas falas dos seus CEOs a
preocupação pelo design tendo precedência sobre a engenharia, mesmo os dois campos tendo
importância na concepção de produtos de alta tecnologia (ISAACSON, 2014). Como um
produto de inovação, cuja competitividade no crescente mercado de telefones celulares, a
Apple precisa lançar produtos com grandes diferenciais tecnológicos e estéticos e, nesse
sentido, precisa sempre tomar cuidado com patentes. Aqui é o campo do aspecto jurídico que
toma precedência, e é uma área bastante abrangente e polêmica quando se menciona iPhone.
Cabe mencionar disputas milionárias entre Apple e Samsung, que se arrastam por anos
(“Apple Inc. v. Samsung Electronics Co.”, 2018).
No aspecto ético muitas linhas poderiam ser escritas: cuidado dos dados armazenados
nos dispositivos e nas “nuvens” (locais de armazenamento interligados por meio de internet),
questões de trabalho em empresas montadoras/terceirizadas, obsolescência programada,
cuidados com o meio ambiente, mudança de comportamento social. Enfim, uma vasta área em
que engenheiros e pesquisadores das disciplinas das humanidades têm contribuído com
discussões pertinentes (HJORTH; BURGESS; RICHARDSON, 2012; Mobile media
technologies and poiesis, 2017).
Por último, temos o aspecto pístico ou da fé, que está relacionado à confiança e crença.
Não necessariamente está conectado a questões religiosas, ainda que muitas vezes essa
ligação ocorra. Principalmente em torno do Apple e de seu fundador, Steve Jobs, se formou
uma espécie de culto. Desde os primeiros produtos, Jobs procurou utilizar-se do marketing
para criar uma certa imagem de inovação e design apurado em seus produtos.
Mas também existe a confiança não necessariamente religiosa em que os produtos da
empresa são confiáveis, e que uma pessoa pode comprar sem medo o próximo lançamento. A
Apple fez questão ao longo de sua história de fomentar essa confiança e promover produtos
que estivessem dentro ou superassem as expectativas de seus clientes (ISAACSON, 2011).
Portanto, o iPhone é um dispositivo eletrônico que engloba diversas tecnologias, como
comunicação, áudio, vídeo e outros, um dispositivo interdisciplinar, por assim dizer; como
qualquer objeto tecnológico, pode ser tratado sob a ótica da teoria dos aspectos modais de
Dooyeweerd. Este autor aponta que muitos objetos funcionam de maneira multi aspectual,
funcionando muito bem em diversos aspectos, o que podemos ver de maneira especial no
estudo de caso do iPhone.
Para se conceber e produzir um iPhone, contou-se com centenas de técnicos, de
diversas especialidades, desde concepção, primeiros projetos, efetivação do projeto de
engenharia, identidade visual, marketing, margem de lucro etc, o que muitas vezes não
transparece para o público em geral, e até mesmo para engenheiros preocupados unicamente
com aspectos técnicos.

4. CONCLUSÃO.
Dessa forma, com o trabalho de pesquisa os alunos conseguiriam perceber que uma
tecnologia não pode ser avaliada unicamente pelo seu aspecto tecnológico; há muitos outros
aspectos envolvidos. A divisão em disciplinas acaba produzindo um reducionismo que
bloqueia a visão do todo. A interdisciplinaridade levando em consideração a metodologia por
nós esboçada neste artigo revelou-se na prática uma excelente ferramenta para análise de
tecnologia.
Esses estudos de casos e suas aplicações aos aspectos modais são exemplos, e como
tais não devem ser limitados à maneira como conduzimos nossa análise; a teoria dos aspectos
modais possibilita uma imensidão de insights. O exame de estudos apresentados quer somente
apontar a ampla gama de possibilidades dessa metodologia, mas, principalmente, quer ilustrar
as vantagens de se trabalhar interdisciplinarmente, porque dificilmente uma especialidade só
dá conta da complexidade da tecnologia moderna.
Em face do crescente interesse pela interdisciplinaridade, pode-se propor o
estabelecimento de laboratórios nas universidades em que se realizem análises empregando a
metodologia de aspectos modais de Dooyeweerd, além de se utilizar como metodologia de
ensino em sala de aula. Em nosso caso, os alunos se surpreenderam com as variadas
possibilidades de se analisar um objeto ou sistema técnico, para além do aspecto tecnológico.
Isso lhes permite olhar para as disciplinas acadêmicas componentes de sua formação com um
olhar mais amplo e com interesse renovado; e mais, pode lhes dar cabedal teórico para serem
melhores profissionais dentro do mercado de trabalho ou para o campo das pesquisas.
BIBLIOGRAFIA

Apple Inc. v. Samsung Electronics Co. wikipedia, 18 jun. 2018. Disponível em:
<https://en.wikipedia.org/wiki/Apple_Inc._v._Samsung_Electronics_Co.>
BASDEN, A. Examples of Aspectually-Qualified ThingsThe Dooyeweerd pages, 18 jun.
2018. Disponível em: <http://dooy.info/qualasp.html#things>
COLLINS, H.; KUSH, M. A Forma Das Açoes: O QUE HUMANOS E MAQUINAS
PODEM FAZER. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2016.
DI GIULIO, G.; VASCONCELLOS, M. DA P.; RIBEIRO, W. C. Megacidades e mudanças
climáticas. In: Ensino, pesquisa e inovação. Barueri, SP: Editora Manole, 2017.
DOOYEWEERD, H. No crepúsculo do pensamento ocidental. São Paulo: Hagnos, 2010.
GOLFO, M. On the status of technology in Heidegger’s “Being and Time”. Studia
Philosophiae Christianae, v. 50, n. 1, p. 79–110, 2014.
GRUSZCZYŃSKI, R.; VARZI, A. C. Mereology then and now. Logic and Logical
Philosophy, v. 24, n. 4, p. 409, 11 dez. 2015.
HJORTH, L.; BURGESS, J.; RICHARDSON, I. (EDS.). Studying mobile media: cultural
technologies, mobile communication, and the iPhone. New York, NY: Routledge, 2012.
ISAACSON, W. Steve Jobs. New York: Simon & Schuster, 2011.
ISAACSON, W. Os inovadores: Uma biografia da revolução digital. São Paulo:
Companhia das Letras, 2014.
LATOUR, B. An inquiry into modes of existence: an anthropology of the moderns.
Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2013.
LAWSON, C. An Ontology of Technology: Artefacts, Relations and Functions. winter 2008a.
LAWSON, C. An Ontology of Technology: Artefacts, Relations and Functions. Techné, v.
12, n. 1, p. 48–64, winter 2008b.
Mobile media technologies and poiesis. New York, NY: Springer Berlin Heidelberg, 2017.
OLL, A. In Defense of Sundance: Examining the Film Festival’s Place in American
Independent Cinema in the Age of Netflix and Amazon. Claremont, CA: Claremont
McKenna College, 2017.
ROSA, L. P. et al. (EDS.). Impactos de grandes projetos hidrelétricos e nucleares:
aspectos econômicos e tecnológicos, sociais e ambientais. São Paulo, SP: AIE/COPPE e
Editora Marco Zero em co-edição com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico, 1988.
SIMONDON, G. On the mode of existence of technical objects. Minneapolis, MN:
Univocal Pub, 2016.
STRIJBOS, S.; BASDEN, A. (EDS.). In search of an integrative vision for technology:
interdisciplinary studies in information systems. 1st ed ed. New York: Springer, 2006.
Unit sales of the Apple iPhone worldwide from 2007 to 2017 (in millions). , 18 jun. 2018.
Disponível em: <https://www.statista.com/statistics/276306/global-apple-iphone-sales-since-
fiscal-year-2007/>
VANDERBURG, W. H. Our war on ourselves: rethinking science, technology, and
economic growth. Toronto: University of Toronto Press, 2011.
VERBEEK, P.-P.; CREASE, R. P. What things do: philosophical reflections on
technology, agency, and design. 2. printing ed. University Park, Pa: Pennsylvania State
Univ. Press, 2005.
VERKERK, M. J. et al. Filosofia da Tecnologia. Uma Introdução. Viçosa: Ultimato, 2018.
WHITE, M. Rivalidades produtivas. Rio de Janeiro: Record, 2003.
THINK TECHNOLOGY INTERDISCIPLINARILY: THE
METHODOLOGICAL USE OF MODAL ASPECTS.

VI NATIONAL CONFERENCE ON SCIENCE AND TECHNOLOGY


EDUCATION – 2018

Abstract: In the present work I present a methodology of work to think about artifacts and
technological systems in an interdisciplinary way. Such methodology was applied in the
context of engineering courses of the UTFPR campus Toledo, namely, Civil, Bioprocesses
and Computer engineering. The theoretical part was based on the idea of "modal aspects" of
the Dutch philosopher Herman Dooyeweerd. The philosophy of technology in its "empirical
turn" has focused on the case studies and the improvement in the way to treat technological
objects, which bring a great complexity. Working in this way, philosophers have perceived a
multiplicity in the reality of an object. An object cannot be understood only by itself, but in
connection with its context, with human needs and desires. This article is structured as
follows, at first, I comment on the limitations of not thinking interdisciplinary, then I
introduce Dooyeweerd and his notion of "modal aspects" and how it can be applied favorably
to interdisciplinary studies and, finally, the case study of the iPhone, using this theoretical
framework.
Key-words: modal aspects, philosophy of technology, Dooyeweerd

Você também pode gostar