Você está na página 1de 72

INSTITUTO SUPERIOR MARIA MÃE DE ÁFRICA

Departamento de Ciências Sociais e Jurídicos


Curso de Licenciatura em Filosofia e Ética

Remígio Clemente Mba Ntutumu Mangue

GÉNESE, NATUREZA E SENTIDO DO MAL NA PONEROLOGIA DE ANDRÉS


TORRES QUEIRUGA.

MAPUTO, FEVEREIRO DE 2021


INSTITUTO SUPERIOR MARIA MÃE DE ÁFRICA
Departamento de Ciências Sociais e Jurídicos
Curso de Licenciatura em Filosofia e Ética

Remígio Clemente Mba Ntutumu Mangue

GÉNESE, NATUREZA E SENTIDO DO MAL NA PONEROLOGIA DE ANDRÉS


TORRES QUEIRUGA.

Trabalho apresentado ao Departamento de Ciências


Sociais e Jurídicos como exigência parcial para a
obtenção do grão de licenciatura em Filosofia e Ética no
Instituto Superior Maria Mãe de África.

Tutor: dr. Pe. Giuseppe Meloni

MAPUTO, FEVEREIRO DE 2021


FOLHA DE APROVAÇÃO

Maputo, Fevereiro de 2021

Tutor:
__________________________________
(Prof. Doutor. Pe Giuseppe Meloni)

i
DECLARAÇÃO SOB COMPROMISSO DE HONRA

Eu, Remígio Clemente Mba Ntutumu Mangue, declaro por minha honra que o presente
trabalho para a obtenção de grau de licenciatura em Filosofia e Ética é resultado do meu
esforço, tendo como base consultas bibliográficas e a aprovação do meu tutor, desde o início
do projecto deste trabalho. Confirmo dignamente que a originalidade deste trabalho é plena e
inconfundível, e que o mesmo nunca foi apresentado em nenhuma instituição de ensino e
todas as fontes consultadas constam na bibliografia.

Maputo, Fevereiro de 2021

-------------------------------------------

Remígio Clemente Mba Ntutumu Mangue

ii
AGRADECIMENTOS

Agradeço em primeiro lugar a Deus, que me deu saúde e forças para superar todos os
momentos difíceis com que me deparei ao longo da minha graduação. Ao meu pai Victor
Abena, que na morada eterna junto com Deus, sei que me fala, a minha mãe Alberta
Esperanza, por ser tão essencial na minha vida, e a toda minha família e amigos por me
incentivarem a não desistir dos meus sonhos. A todos os funcionários do ISMMA, por todo o
apoio e por propiciarem um ambiente de crescimento sociocultural e académico. A todos os
professores, pelos conselhos e ajuda dada durante os estudos até o momento de conclusão do
Curso. Agradecer ao meu professor e orientador Pe. Giuseppe Meloni, pela amizade e
empenho dedicado ao meu projecto de elaboração desta pesquisa e as aulas. Gostaria de
deixar o meu profundo agradecimento aos Padres da Congregação da Missão, que me deram
esta oportunidade de conhecer esta Instituição aqui em Moçambique e formar parte dela como
estudante durante a minha primeira etapa de formação em Experiência de Vida Religiosa.
Com especial afecto agradeço ao Pe. José Eugénio López, CM por acreditar em mim e em
todos os jovens que pretendem encarar o seu futuro com dignidade. Ao Pe. José Luís de
Azevedo Fernandes, Vice-Provincial da CM, em Moçambique, com quem tive a honra de
partilhar habitação e com a sua personalidade descobri quem eu devia ser no projecto da vida
religiosa. A todas as pessoas que directa ou indirectamente contribuíram para a realização
desta monografia, formação religiosa e científica. A TODOS, O MEU MUITÍSSIMO
OBRIGADO!! Khanimambo Swinene!! Kosukuru!! Kathenda!!.

iii
DEDICATÓRIA

À Alberta Esperanza Mangue, minha mãe,

Maria Esperanza Soledad Mangue e Natividad Elena Avomo Mangue, minhas irmãs

iv
RESUMO

Este trabalho apresenta um estudo sobre a Génese, Natureza e Sentido do Mal na Ponerologia de Andrés Torres
Queiruga, na obra Repensar o mal, cuja motivação principal surge do eterno questionamento sobre o por quê
sofremos? Esta monografia procura então responder como o autor propõe filosófico-teologicamente esse
“Compreender hoje o sentido humano do Mal”, identificando caminhos pela ética filo-teológica moderna, que
mostre o amor infinito de Deus para com os homens, levando em conta a mudança cultural que se instalou com a
modernidade, quebrando os velhos paradigmas que sustentavam as conceições epicuristas que hoje ganham peso
perante o fenómeno da secularização e ateísmo impactantes no pensamento moderno. Segundo a doutrina cristã,
a causa do mal, do sofrimento e da morte são castigo e punição divina, ou seja, Deus criou tudo perfeito no
paraíso, mas devido à infidelidade humana, ocorreu a queda, surgindo o mal. Com o advento da modernidade e
da autonomia da razão, defende-se que, essa epistemologia cristã passou a depor contra à imagem cristã do
Deus-amor. Usando a filosofia, este trabalho desloca a origem do mal do céu para a terra (decorrência natural do
funcionamento autónomo do mundo). Se, de um lado, o mundo, a criação e os seres humanos são finitos e
imperfeitos, do outro, Deus é perfeito e infinito. A causa do mal e do sofrimento que assolam a condição humana
na história é, portanto, a finitude. Sendo assim, o mal atinge a todos, sem-Deus e pios. Contudo, para os pios,
Deus está junto com o homem na sua luta contra o mal. Numa perspectiva cristã, o mal será completamente
vencido tão só no plano escatológico. Segundo Queiruga, o mal existe, e é necessário uma ética universal para
contrariá-lo.

Palavras-chave: Mal, bondade, natureza, génese

v
ÍNDICE
FOLHA DE APROVAÇÃO........................................................................................................ i
DECLARAÇÃO SOB COMPROMISSO DE HONRA ............................................................ii
AGRADECIMENTOS ..............................................................................................................iii
DEDICATÓRIA ........................................................................................................................ iv
RESUMO ................................................................................................................................... v
INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 6
CAPÍTULO I: ENQUADRAMENTO TEÓRICO ................................................................... 10
CAPÍTULO II: NOÇÕES BASILARES, ETIMOLOGIA, TIPOLOGIA E DIMENSÕES DO
MAL ......................................................................................................................................... 18
1. A noção do Mal ............................................................................................................... 18
2. Etimologia e conceito ...................................................................................................... 19
3. Definição do mal.............................................................................................................. 19
4. Tipologia do mal.............................................................................................................. 20
CAPÍTULO III: A FENOMENOLOGIA DO MAL ................................................................ 37
1. Definição e Conceitualização do Mal segundo Andrés Torres Queiruga .................. 37
2. A posição agostiniana do mal ......................................................................................... 39
3. O mal segundo São Tomás de Aquino .......................................................................... 42
4. O dilema de Epicuro ....................................................................................................... 44
5. A ponerologia ou doutrina do mal ................................................................................. 47
CAPÍTULO IV: IMPLICAÇÕES E CONSEQUÊNCIAS DO MAL NA ACTUALIDADE.. 49
1. A cosmovisão do mal na ponerologia de Queiruga ...................................................... 49
1) A “linguagem” ou discurso racional ............................................................................ 50
1) A “pisteodiceia” ............................................................................................................ 50
2) A “teodiceia”................................................................................................................. 50
2. O erro e a culpa ............................................................................................................... 51
3. O mal como problema humano ..................................................................................... 51
4. A modernidade imanente ............................................................................................... 53
4.1 Primeiro Nível (exterior) ................................................................................................ 54
4.2 Segundo Nível (exterior) ................................................................................................. 55
4.3 Terceiro nível (interior) .................................................................................................. 55
CAPÍTULO V: RECOMENDAÇÕES ÉTICAS FRENTE À REALIDADE DO MAL: A
PROPOSTA DE QUEIRUGA PARA A PRÁXIS ANTIMAL ............................................... 59
1. Deus o antimal ................................................................................................................. 59
2. A proposta ética de Queiruga: crer em Deus como o antimal .................................... 60
3. A necessidade do caminho ético na modernidade ........................................................ 62
CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 63
BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................... 65
INTRODUÇÃO

Durante toda a história humana, várias respostas foram dadas aos questionamentos sobre o
mal. Em geral, tais enunciados se apresentam ou de forma insatisfatória ou com argumentos
bastante negativos, estendendo um véu sombrio, capaz de cobrir a existência do homem,
gerando medo, pessimismo ou um fatalismo irracional. A pergunta que se faz, no início deste
trabalho, é se essas ideias tradicionais, muitas delas negativas, poderiam ainda hoje ser
consideradas válidas. Ou, existe alguma outra forma de compreender a questão do mal? O
surpreendente avanço do saber humano, a partir da filosofia, da teologia e das demais
“ciências humanas”, realizado nos últimos tempos não estaria possibilitando e, mesmo,
exigindo uma nova compreensão do mal? O presente trabalho tem por título: “Génese,
Natureza e Sentido do Mal na Ponerologia de Andrés Torres Queiruga.” Visa, através da
bibliografia, compulsando opiniões e experiências, discutir a tese do autor, a respeito do mal.
Em um novo contexto, o teólogo Queiruga quer apresentar algumas considerações para o
problema do mal a uma consciência impregnada de valores e tendências da Modernidade.
Deus não acode e nem intervém quando é chamado porque ele é quem desde sempre, está
convocando e solicitando nossa colaboração. É dentro da problemática do mal que se tenta
analisar as reflexões de Torres Queiruga, sua proposta e metodologia. A enigmática
experiência do mal e o sofrimento dela resultante desafiam o pensamento humano,
particularmente no âmbito da filosofia e da religião. A filosofia busca compreender as razões
últimas desse desacerto entranhado no ser. A religião tenta relacioná-lo com a Divindade.

O primeiro capítulo, sobre o Enquadramento Teórico começa tratando do mal como problema
filosófico e religioso. Relaciona mito e mal. O mito vem sendo revalorizado e reconhecido em
sua relevância filosófica como algo, que em seu carácter simbólico, “nos dá o que pensar”. A
filosofia elabora suas especulações e coloca em discussão os autores que nele são convocados,
tenta dar respostas mais abrangentes que nem por isso estão isentas de ambiguidades. Entre a
filosofia e a religião situa-se a teodiceia com sua dupla função: conciliar existência de Deus e
existência do mal, defender a existência de Deus contra aqueles que a consideram em
contradição com a existência do mal. Por fim, se procura entender o porquê da existência do
homem como existência marcada pelo mal.

6
O segundo capítulo, trata das Noções Basilares, Etimologia, Tipologia e Dimensões do Mal,
na filosofia grega e na filosofia cristã. Ao longo do desenvolvimento dos subtópicos, algumas
observações sobre a razão filosófica e teológica voltam para o pensamento de alguns
filósofos. Epicuro, Plotino, Agostinho e Tomás de Aquino, entre outros, assumem uma
postura dualista, o que se mostra na antropologia pessimista de Epicuro e na conjugação do
optimismo cósmico com o pessimismo ético-religioso de Tomás de Aquino. Aristóteles
considera o mal como privação do bem e, no plano ético, o relaciona com a ignorância. Desse
modo o mal se reduz à mistura de imperfeição do universo e limitação humana oriunda da
ignorância e da vontade. A ataraxia é, pois, a atitude ética por excelência. Epicuro contribui
com um novo elemento: a contestação do divino. Com isso, a questão levantada por ele vai se
tornar paradigmática a teodiceia: não é possível conciliar o mal com a existência de deuses
bons e poderosos. Essa tomada de posição repercutirá no monoteísmo judaico. Na filosofia
cristã, Santo Agostinho aparece como figura-chave. O pensamento do bispo de Hipona é uma
resposta à gnose e ao maniqueísmo. Ele afirma o mal como privação do bem, a importância
do mal histórico e a desorientação da liberdade humana como origem do mal.

O terceiro capítulo trata da Fenomenologia do Mal, pretende criar uma consciência capaz de
detectar o mal em qualquer situação ou manifestação, camuflada de inúmeras justificações,
desenvolvendo uma intelecção da fé sem recurso à autoridade da Escritura e da Tradição da
concepção agostiniana do mal. Deus é o credor de uma dívida contraída pelo homem, que
deve pagá-la, mas não pode dada a infinita diferença entre credor e devedor.

O quarto capítulo, Implicações e Consequências do Mal na Actualidade, tem por objecto a


teodiceia racionalista da modernidade. Se a cultura ocidental caracteriza-se pela busca de
razão, ordem e sistema, Leibniz é uma das maiores expressões em busca da compreensão do
mal, pondo-o em relação com um Deus perfeito em quem se fundamenta a ordem ontológica,
gnosiológica e existencial. Sua resposta ao problema do mal consiste na afirmação de que
Deus criou o melhor dos mundos possíveis, embora não necessariamente o melhor para os
homens. O mal é assimilado, situado e ganha um lugar dentro da ordem criada,
caracterizando-se como privação e deficiência. A teodiceia de Leibniz contribui para a
assimilação do Deus cristão ao Deus dos filósofos. Queiruga propõe uma “ponerologia”, ou
seja, um tratado do mal em si mesmo sem apelar para a justificação leibniziana de Deus. O
mal é inevitável devido à limitação e à finitude do mundo, devido também à liberdade de

7
criaturas limitadas. A resposta cristã inclui a intuição da anterioridade e superioridade do bem
sobre o mal. Inclui ainda a cruz de Cristo como salvação definitiva e a pedagogia de Deus que
permite ao ser humano viver da esperança final sem abafar a dor. Contudo, o pensamento de
Queiruga contém pressupostos não explícitos dos quais emergem dúvidas e que acarretam
consequências indesejadas no plano metafísico e aporias no plano teológico.

O quinto capítulo, Recomendações Éticas Frente à realidade do Mal: A Proposta de Queiruga


Para a Praxis Antimal, sublinha sugestões éticas para a praxis antimal, igualmente contribuiu
para a contestação de Voltaire: sem Deus não é possível o bem; com Deus, o mal fica sem
explicação. Essa antinomia dá início à passagem de um enfoque especulativo para um
enfoque prático da ética. Nesta, bem e mal, estão ligados decisivamente à natureza humana.
Embora conserve elementos da tradição anterior e reconheça em alguns textos a
transcendência da esfera do religioso em relação à moralidade, vê na queda do homem o
resultado de seu afastamento do dever por seguir os instintos e não os ditames da razão. Com
isso, o mal em sua dupla vertente de injustiça e sofrimento continua a ser um problema.

A razão da escolha deste tema é bem modesta: do mal, importa-me compreender como priva o
homem da sua liberdade e o despoja de virtudes, submete o homem em rebelião contra o seu
criador; tudo o mais que vier, virá, naturalmente, em função e benefício da melhor
compreensão deste objectivo principal.

Nesta sequência a pesquisa é importante, pois para a sociedade irá de forma introspectiva
reflectir sobre a noção do Mal, seja moral ou físico ou seja, um suportado e o outro cometido.
E para a comunidade científica se espera que este trabalho suscite diretrizes e discussões para
a temática abordada, de forma a contribuir na observação ética e o gozo adequado da
liberdade e dignidade do homem e a sua natureza, exemplificadas como manifestação do
amor absoluto de Deus.

O recorrido bibliográfico deste trabalho, persegue com todo rigor o objetivo geral que
pretende “Analisar e compreender criticamente a proposta avançada pelo filósofo e teólogo
Andrés Torres Queiruga na sua ponerologia”. Cujos objetivos específicos: “Explicar as
noções basilares da ponerologia elaborada pelo autor”. “Apresentar implicações e
consequências do mal na actualidade segundo o autor, a nível filosófico e

8
teológico”.“Revisitar a proposta avançada pelo autor do caminho ético como combate contra
o mal em toda a sua manifestação”.

Quanto à natureza, a pesquisa é qualitativa porque lida com o pensamento do autor e dos seus
comentaristas relativos ao tema. Quanto ao tipo, empreende-se uma pesquisa teórica e
bibliográfica. Teórica porque analisa o pensamento do autor e o seu progressivo
desenvolvimento, e bibliográfica porque trabalha com as obras já publicadas pelo autor e um
conjunto de obras de outros autores que debruçam em volta da questão do mal e o seu contributo
sobre o problema em estudo. O método da pesquisa é hermenêutico, que consiste na interpretação
fiel das ideias do autor, ou seja, seguem-se padrões lógicos e racionais, sem exigências de
confirmação experimental.

O trabalho segue a seguinte estrutura: introdução, primeiro capítulo - quadro teórico, onde de
forma resumida apresenta-se as definições discussões conceptuais dos termos mais aplicados no
texto; seguido do segundo capítulo, procura caracterizar as noções basilares, etimológicas,
tipológicas, e dimensões do mal, perspectivas da análise da ponerologia; terceiro capítulo, que
versa sobre a fenomenologia do mal; quarto capítulo: implicações e consequências do mal na
atualidade; quinto capítulo, onde pretende-se revisitar as recomendações éticas frente à realidade
do mal, como proposta apresentada pelo autor para a praxis do antimal; e por fim a conclusão e
referências bibliográficas.

Este trabalho não teve pretensão de elaborar um tratado teológico sobre o tema do Mal, muito
menos sobre a teologia extensa de Andrés Torres Queiruga. Trata-se apenas de pontuar algumas
sugestões do autor para ampliar mais um pouco a compreensão sobre o tema, como bem rezam o
objectivo geral e os específicos. O problema do mal é complexo e instigante. Com Torres
Queiruga o mal é visto pela sua própria perspectiva. Nesse sentido, Deus deixa de ser o alvo das
formulações de defesa ou culpa, a própria existência finita torna inevitável o aparecimento do
mal. Como Deus cria por amor, seria natural supor que ele está a favor do humano e contra o mal.
A maior evidência é Jesus de Nazaré e a cruz. A grande verdade é que o mal existe, a despeito de
nossos protestos e reclamos. E existindo, afecta directamente as nossas perspectivas de vida, uma
vez que o mundo indefenso sempre nos apronta armadilhas. Estamos bem agora mas podemos ser
vítimas do mal daqui a pouco e, na maioria das vezes, não temos explicações para o facto. O caso,
assustador, é que muitos de nós temos teorias sobre o mal, mas ninguém está preparado para
conviver com ele.

9
CAPÍTULO I: ENQUADRAMENTO TEÓRICO

Andrés Torres Queiruga, na sua obra “Repensar o Mal” (2011) discute o problema do mal
como uma realidade que atravessa como uma espada, toda a história da humanidade.
Nenhuma cultura, e dentro dela, nenhum indivíduo foi capaz de escapar de seu confronto. É
por isso que quando chega a nós, já é sempre um problema antigo, cheio de ambiguidades e
cheio de pré-julgamentos.

Tomado em seu sentido mais óbvio e fundamental, o mal é um “fenómeno


antropológico original” (antropologisches “Urphünomen”). É aquilo que em um dado
momento percebemos como o que não deveria ser; é, como dizia Santo Agostinho, “o
que causa dano” (id quod nocet); acrescentemos: a si mesmo ou aos demais. Não
precisa ter um conceito preciso para se fazer sentir: “é antes um nome para o que nos é
ameaçador” (QUEIRUGA, 2011, p. 15).

Queiruga não aborda o mal a partir dos cânones normalmente seguidos, não parte da teodiceia
tradicional. Isso também, porque alguns autores já atestam para uma impossível teodiceia, ou
seja, um discurso que não sai do embaraço do mistério. Exemplo claro disso, é a forma como
William James (1995) aborda a intrincada questão sobre a natureza do mal, assumindo e
defendendo a suposição de que o mal não estava presente na criação do mundo, ele é exterior
a Deus, pois a divindade não pode participar de algo que não seja o supremo bem.

Bastando que nos seja concedido acreditar que o princípio divino permanece supremo,
e os demais, subordinados. Neste último caso, Deus não é necessariamente
responsável pela existência do mal: ele só o seria se o mal não fosse afinal superado.
Mas do ponto de vista monista ou panteísta, o mal, como tudo o mais, precisa fundar-
se em Deus; e a dificuldade consiste em ver como isso pode ser sendo Deus
absolutamente bom. A mesma dificuldade se nos depara em toda forma de filosofia
em que o mundo aparece como unidade perfeita de facto (JAMES, 1995, p. 91).

Deste modo, mal e bem são polos paralelos não complementares. A opção do autor por esta
visão de mundo, provavelmente se deve ao facto de soar mais optimista que o universo visto
como unidade perfeita, onde o mal é considerado um elemento original do mundo e de algum
modo útil aos planos divinos, pois Deus como Senhor de tudo o quanto há permite que ele
exista.

“O mal não precisa ser essencial; pode ser, e pode ter sido sempre, uma porção independente,
sem nenhum direito racional ou absoluto a reviver com o resto, e do qual podemos
concebivelmente esperar libertar-nos no final” (JAMES, 1995, p. 92). Embora James sempre
defenda que a compreensão do sagrado só pode se dar por vias irracionais e sentimentais, no
que concerne ao paradoxo do mal enquanto integrante da criação, o autor visivelmente

10
incomodado com esta questão, opta pelas vias racionais para explicar algo que provavelmente
não conseguiu ser resolvido e captado pelas vias do sentimento. Esta questão será retomada
em outro momento ao longo desta monografia.

Desta realidade de concepções distintas mas não dissociadas, acontece ainda em Queiruga
uma insistência quando diz: “Para compreender a real seriedade do que está em jogo, basta
simplesmente que se trate disso ao qual remetem igualmente o choro ainda sem palavra –
infans – do recém-nascido e a busca de remédio para uma ferida ou uma enfermidade”
(QUEIRUGA, 2011, p. 16).

O mal é, em seu significado mais elementar e em sua mais inegável realidade, aquilo que
experimentamos como o que subjectivamente não queremos e do que objectivamente
pensamos que não deveria ser, e que, bem por isso, rejeitamos e procuramos eliminar ou, pelo
menos, suavizar. Mas resulta ainda mais grave a pluriformidade conceptiva e conceitual do
mal como fenómeno natural, humano e do homem, em diferentes autores.

“O mal é legião”, diz Xavier Tilliette (1998, p. 427 apud QUEIRUGA, 2011, p. 15) em sua
obra A Natureza do Bem, escrita a respeito do problema do mal e, consequentemente, da
dualidade de princípios em que se fundamenta toda a ontologia e o sistema cosmológico da
seita maniqueia. Santo Agostinho demonstra preocupação em esclarecer que toda natureza é
um bem, uma vez que procede de Deus e que o mal, não incluído entre os seres criados, é tão-
somente aquilo pelo qual se dá a corrupção do modo (modus), da espécie (species) e da ordem
(ordo), que são os atributos constitutivos dos seres ou naturezas.

Com efeito, sendo todas as coisas criadas boas, cada uma conforme seu modo, espécie e
ordem, de onde, pois, vem o mal? Haveria um lugar para o mal nesta “ordem divina” do
mundo? A essa questão responde Santo Agostinho: “o mal não é senão a corrupção ou do
modo, ou da espécie, ou da ordem natural. A natureza má é, portanto, a que está corrompida,
porque a que não está corrompida é boa. Porém, ainda quando corrompida, a natureza, não
deixa de ser boa; quando corrompida, é má” (AGOSTINHO, 2005, p 95).

Em suma, o mal é a privação ou defecção do bem, das perfeições constitutivas de toda e


qualquer natureza, ou seja, é a ausência de ser, como dissemos acima. Daqui, depreende-se
que, para Agostinho, o mal está em afastar-se de Deus que é o Sumo Bem, pois quando o
homem se priva do Bem, ele comete o pecado que o torna mau. O homem tende naturalmente
para o bem e o mal passa a existir a partir do momento em que o homem se corrompe
11
afastando-se do bem. De tudo isto, existe todavia, recalcamentos sobre o objecto do mal que
não permite relaxar perante a sua diversificada evidência mesmo quando negado; por isso é
preciso analisar melhor essa questão.

Segundo Agostinho (1989, p. 72), apud Coutinho (2010, p. 60), “o mal não existe, resulta
apenas da privação do bem”, a natureza do mal está no próprio homem, na sua liberdade. O
mal é, portanto, obra do uso incorrecto da liberdade do homem, seja ele sujeito ou objecto do
mesmo, não existindo por si só, mas estando intrinsecamente ligado à liberdade do homem,
que cria o mal quando se afasta do bem. De facto, reconhece e advoga Tavares (2006, p. 84),
“o mal é cometido, mas também é sofrido e sentido”. Ainda que o ser humano não esteja na
sua origem, consequentemente, a sua confissão é um pressuposto fundamental da consciência
da liberdade.

Para Ricoeur (1988, p. 55), o mal é um problema antropológico. O homem é esse ser falível,
incompleto e capaz de bondade, mas também do mal. É nesse sentido que Ricoeur avalia o
mal, como um fenómeno que escandaliza. O sofrimento por que o homem passa não resulta
muita das vezes, dos crimes cometidos pelos seus semelhantes? De facto, o mal de que uns
são alvo é a imagem espelhada do mal desejado por outros. Por seu lado, a culpabilidade
chama o castigo, o qual consiste numa pena, isto é, um mal suportado pelo culpado (detenção,
execução). No entanto, a maior parte das vezes, verifica-se que os próprios culpados são
vítimas. É preciso ser muito injusto para não ver que até os autores do mal foram alvos do
mal.

Mal suportado e mal cometido, como é vão separar-vos…provindes da mesma região


crepuscular da condição humana. Mais tarde, postularemos neste livro que é possível e
frutífero reflectir sobre o mal em geral, isto é, um mal que, retomando a fórmula do
filósofo Paul Ricoeur, constitui “a raiz comum do pecado (mal cometido) e do
sofrimento (mal suportado) ” (LACROIX, 1998, p. 8).

Por conseguinte, existe um problema do mal. Em contrapartida, não se pode negar que há
várias soluções encaráveis, várias “estratégias” para o enfrentar, diz Lacroix (1998, p. 9).
Outra abordagem não menos importante e peculiar é também aquela que faz Andrade Bárbara
(2007), que sem imiscuir-se nas dos outros, sobre o mal, prefere o-ver como uma ocasião de
graça perante qualquer expectativa, e assim diz: “Pois, em meu modo de ver, o pecado, seja
original ou pessoal, só pode ser entendido adequadamente a partir da graça do perdão”
(ANDRADE, 2007, p. 6).

12
Portanto, esta é uma abordagem de que nos ocuparemos mais tarde ao longo do
desenvolvimento do trabalho; mas antes, a ética teológica procura sublinhar de facto algumas
questões muito referenciais para um comportamento prudente sobre o facto do mal e o
envolvimento do homem nele.

O Rev. João A. Konzen, é um clérigo preocupado com a teologia moral nos aspectos em que a
liberdade e responsabilidade são o constituinte maior das decisões e destino do homem na
terra. Com um enfoque antropológico-filosófico, Konzen lembra-nos que, “a capacidade de
conhecimento e vontade livre para se decidir, embora sejam faculdades distintas, estão
intrinsecamente relacionadas e vinculadas uma à outra, e constituem uma unidade como
dimensão espiritual e estrutura pessoal do ser humano, pois a inteligência sem liberdade não
teria valor; e a liberdade sem inteligência é impossível” (KONZEN, 2007, p. 108). Disto,
desprende a compreensão de que o homem é exactamente alvo e autor do seu próprio mal,
como dissera Lacroix (1998, p. 9). Ainda com o mesmo autor podemos ver como se
fundamenta na ideia de liberdade descrita pelas ciências humanas, mas, mal se viu da sua
aplicabilidade no mundo sensível. “A liberdade se entende como possibilidade de realizar,
aquilo que se decide realizar, sem ser impedido por circunstâncias externas”. É o que se
costuma exprimir com o termo “ ter liberdade” ou “ser livre” (KONZEN, 2007, p. 111).

Por outro lado, para Konzen, qualquer tipo de mal que assola o homem é considerado como
pecado. Isso é o resultado da leitura que podemos fazer das afirmações anteriores. Tanto da
abordagem de Lacroix como na sua de Konzen, evidencia-se semelhanças quando diz; “o
pecado é tudo aquilo que prejudica a realização da vida humana” (KONZEN, 2007, p. 216).

Portanto, percebe-se que o homem, pelo uso da sua liberdade e responsabilidade que emanam
da sua inteligência condiciona ou compromete a sua existência e a sua união com o supremo,
interpondo no meio dele e Deus, o facto da sua vontade. Assim, torna-se autor daquilo que o
extermina, seja pela sua consciência (moral), seja de forma secundária ou indirecta pela
natureza, essa que ele mesmo decide utilizar ou cuidar pela sua maneira. Tudo depende da
responsabilidade e ética do homem.

Assim, pretendemos, responder ao terceiro objectivo, evidenciando primeiro que o homem


não é empurrado para a boca do mal por ninguém, nem por falta de conhecimento, mas pela
pouca observação ou omissão de questões éticas que o ligam com o Supremo; essa visão
também pode servir para perceber que se o homem, ao aperceber-se dos estados aperiódicos

13
dos ciclos naturais, e querendo cuidar-se dessas situações, através do bom uso da inteligência
e responsabilidade, assumia de igual forma, as observações éticas que regem o controlo do
meio ambiente e dos factos naturais em geral e evitar desmatamentos e consequentes
catástrofes.

Ainda vasculhando a compreensão bíblica deste nosso tema, o relato da queda (Géneses, 3)
utiliza uma linguagem feita de imagens, mas afirma um acontecimento primordial, um facto
que ocorreu no início da história do homem. A revelação dá-nos certeza de fé de que toda a
história humana está marcada pelo pecado original cometido livremente por nossos primeiros
pais (o mal primigénio), na linguagem de Queiruga (CIC -1043).

O homem foi chamado a participar da vida divina e da familiaridade com Deus: justiça
original. No entanto, transgrediu o projecto divino e se tornou réu de culpa. Essa perda
voluntária e responsável da adopção no seio da família divina é transmitida individualmente a
cada um de nós, descendentes do primeiro homem. Por esse mal primitivo, toda a humanidade
nasceu ferida na sua íntima elevação sobrenatural. Torna-se pecado de natureza própria de
cada indivíduo, pelo fato mesmo de ser homem.

Partindo do Géneses, Deus criou um mundo perfeito. O ser humano foi criado no paraíso
numa situação de plena felicidade e realização. Tudo era perfeição, harmonia e felicidade
(Géneses 2,4-25). Contudo, segundo a mitologia bíblica, ao tratar das origens do género
humano, o livro bíblico apresenta um acontecimento primordial conhecido como “mito da
queda” (Géneses, 3). A partir dessa desobediência, o homem perdeu a perfeição original e
iniciaram-se os horrores do mal e do sofrimento que assolam a história das relações humanas
em todas as épocas e culturas. Portanto, seguindo essa lógica, o culpado pelo mal e pelas
mazelas do sofrimento é o ser humano, a origem de tudo está na sua desobediência a Deus.

Mesmo depois de mais de um século de debate em torno da natureza mitológica desses relatos
da criação, estes permanecem no imaginário religioso como a origem para todas as desgraças
do mundo. “Uma vez reconhecido o carácter mítico-simbólico do relato do Géneses, não faz-
sentido buscar uma acção histórica como causa da situação actual, atribuindo-lhe, por
exemplo, o ingresso das doenças ou do mal no mundo” (MOLARI, 2016, p. 45).

O teólogo jesuíta uruguaio Juan Luís Segundo ressalta a existência de duas narrações da
criação na Bíblia (Géneses 1- 2). A primeira remonta ao século VI a.C. e seria a dos sete dias.
Esta primeira narração coloca a criação do homem no séptimo dia. Macho e fêmea são criados
14
à imagem e semelhança de Deus, centro e dominador da criação. Em seguida, Deus repousa.
A segunda narrativa é muito mais antiga. Remonta ao século XI ou X a.C. Nela, o homem,
logo após ter sido criado por Deus e instituído cultivador do jardim, é submetido a uma prova.
Dessa prova surge o pecado de Adão e Eva e o castigo que Deus lhes impõe. O resultado da
queda é o surgimento do sofrimento, da dor e da morte. O aparecimento inevitável do mal.

As duas narrativas, de épocas diferentes, são compiladas numa só. A primeira narração,
escrita na época do exílio, quer mostrar que Deus criador tem poder mesmo na Babilónia. A
segunda, no reinado de Davi ou Salomão, se interessa por contar a esse povo a origem de
todas as coisas (SEGUNDO, 1995, p. 497).

O simbolismo da linguagem mítica revela a intenção de Deus em prol da realização humana


no amor e na felicidade. É isso que quer significar o símbolo do paraíso: a meta a que estamos
destinados, o projecto divino para o homem. O núcleo do texto é a realização do homem no
amor e não a origem do mal como castigo de Deus. A narração da árvore, do fruto e da
serpente, que fundamenta o pecado original, mesmo depois de ter sido reconhecida como
mítica, continua sustentando a ideia de que as tragédias do mundo provêm de um castigo
divino primordial, por causa da culpa de Adão e Eva. Segundo Queiruga (2011), isso tem
resultados terríveis no imaginário religioso e no inconsciente colectivo. O autor galego
ressalta duas consequências monstruosas dessa visão equivocada:

a) Deus é capaz de castigar de modo terrível;

b) Ele faz isso a bilhões de descendentes que não têm a mínima culpa por esse suposto erro do
casal primordial.

Além disso, também se reforça a ideia, tão difundida e danosa, de que, em última análise, se
há mal no mundo é porque Deus quis e quer, já que o paraíso teria sido possível na terra.
Além disso, o castigo seria desproporcional. Desse modo, sobrevive a crença geral de que o
sofrimento, a doença e a morte provêm de uma decisão divina, como forma de castigo.

O mal não pode ser compreendido, tal como algumas versões vulgares o apresentam, como o
castigo infligido por Deus, por séculos e séculos, a todas as pessoas, devido à culpa de alguns
pais primitivos. A partir da intuição de Deus como “antimal”, o mal deixa de ser o jogo cruel
de prémio e castigo ou uma fábula incrível sobre os começos da humanidade, para se
apresentar como a estrutura íntima de nossa humanidade: o “pano de fundo obscuro”, tantas

15
vezes trágico, da liberdade finita, que a torna incapaz de agir sempre para o bem e de salvar-se
a si mesma. Desse modo, longe de se apresentar como aquele que castiga sempre, Deus se nos
revela como aquele que desde o princípio se compadece da debilidade do homem, abrindo à
experiência da graça e à esperança da salvação (QUEIRUGA, 1999, pp. 155-156).

Os mitos do paraíso e da queda não se sustentam mais, o mito de que Deus criou um mundo
perfeito e sem mal, de que o homem pecou, de que o pecado de um trouxe a punição para
todos. Na imaginação colectiva incrustou-se uma sucessão que hoje induz a efeitos terríveis,
às vezes irreparáveis, para a fé de muitas pessoas: criação em um paraíso, pecado dos
primeiros pais, terrível castigo divino não só para eles, mas também para os bilhões de seres
humanos inocentes e sucessores. Esse paradigma é violento, danifica a imagem do Deus amor
que se revelou no êxodo como Fiel libertador. Com o advento da modernidade e a autonomia
da razão, essa visão apresenta-se como inimiga de Deus e apologeta do ateísmo
(QUEIRUGA, 2011, p. 238).

Portanto, presumindo possuir uma compreensão basicamente sólida ao que tange aos
objectivos, e a partir da visão de Queiruga, entende-se que o mal se enquadra no tema da
ponerologia, ou seja, no mundo da vida do homem. O mal atinge a todos, crentes e não
crentes. É uma realidade de toda a criação, todos os seres vivos do planeta, incluindo suas
dimensões físicas e naturais, são afectados pelo mal. O facto de existir, implica estar sujeito
ao mal. Nas últimas décadas, a humanidade tomou consciência do sofrimento dos animais,
situação que meio século atrás era muito pouco percebido. Hoje, diferentemente, um cãozinho
com câncer, um animal ferido ou ameaçado provoca atenção e comoção. O animal e a
natureza não são descendentes de Adão, não podem pagar o castigo da queda do paraíso,
segundo a visão tradicional. Entretanto, assim como os seres humanos e a natureza como um
todo, também os animais são assolados pela dor, pelo sofrimento e pela morte (QUEIRUGA,
2001, p. 206).

Contudo, se o mal não é castigo de Deus devido à desobediência do homem primitivo


simbolizado no mito de Adão, ou seja, se o mal não resulta da ira divina pela infidelidade
humana, então de onde provém? Onde está a raiz do sofrimento, da dor física e moral, da
doença, das guerras e das mazelas que atingem impiedosamente milhões de seres humanos e
animais todos os anos? A origem do mal está na finitude do mundo e do homem. O mundo é
finito e por isso, há nele inevitavelmente o mal. Pois o finito não pode ser perfeito, tem falhas,
carências e contradições. O mundo finito produz o mal, a origem de todo o mal é o próprio
16
mundo. O teólogo galego desloca o eixo epistemológico de Deus para o homem, do céu para a
terra. O mal não nasce na queda do paraíso, sua origem não se encontra na tristeza de Deus
diante da desobediência, o próprio mundo finito produz o mal. Precisamos entender o mal em
si mesmo como realidade finita do mundo, como consequência da finitude da criação. Trata-
se de algo inerente à dinâmica interna do mundo.

Queiruga assume a tarefa de repensar o mal mostrando que a modernidade iluminista


revolucionou os pressupostos pré-modernos. No passado, imaginava-se que Deus interviesse
com sua acção nos mecanismos do mundo e dava-se por certa a possibilidade de um mundo
perfeito. A secularização desafiou a teologia a rever de modo mais profundo a acção de Deus
na realidade e libertou a cultura da ilusão de um mundo perfeito, ou seja, sem o mal. Um Deus
que pode, sem mais nem menos, fazer ao mundo o que bem entende constitui uma longa e
expressa nuvem que obscurece o imaginário religioso da humanidade. O divino como potente
e poderoso, como o tremendum que responde a nossos mais obscuros instintos de poder, de
dominação e de vingança, ameaça sempre desde os estratos mais primitivos da psique
(QUEIRUGA, 2001, p. 184).

Deus não é a causa primeira daquilo que acontece no universo, não é a causa do mal. O mal
não tem a ver com Deus, mas sim com a finitude do homem. A partir da modernidade
precisamos respeitar o funcionamento autónomo do mundo. Sofrimento, catástrofe, culpa,
fome, enfermidade, crime, genocídio, mal praticado ou mal padecido são realidades inerentes
ao funcionamento interno do mundo. A criação é imperfeita e tudo que sofre de imperfeição é
passível do mal, pois está em processo de construção. A finitude não é o mal, é tão-somente a
sua condição de possibilidade. Condição- essa que torna inevitável sua aparição. Deus cria o
finito, não cria a si próprio. Apenas Deus é perfeito e infinito e a criação que vem do seu amor
não é o próprio Deus. Apenas a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) é Deus. O Infinito e
Perfeito, que está na origem de tudo, cria por amor seres finitos e imperfeitos, em processo,
em devir. Tudo que é finito comporta necessariamente o mal, “portanto, o mal não é um
problema de Deus, mas da criatura” (QUEIRUGA, 2007, p. 3). Dessa forma, a epistemologia
de Queiruga desconstrói, a partir de fundamentos filosóficos e teológicos, a visão tradicional
do mal.

17
CAPÍTULO II: NOÇÕES BASILARES, ETIMOLOGIA, TIPOLOGIA E
DIMENSÕES DO MAL

Ao pretender reflectir sobre a noção de mal, deve-se considerá-lo (o mal) como uma
propensão para o seu mesmo objecto que tem na natureza humana a sua raiz, ou melhor que
se entrelaça tão inextricavelmente com a natureza humana que se poderia dizer inerente ou
originário. A discussão deste capítulo, não pretende apenas medir o mal nas suas noções,
atributos ou predicados, segundo o parecer de quem o sofre, mas também como aquilo que
encerra uma conotação essencialmente moral, implicando, por conseguinte, o contrário do
significado usual de natureza.

1. A noção do Mal
Entende-se por mal, um estado geralmente avaliado, observado e declarado de deterioração
material ou moral que um “ Ser” pode experimentar (VIDAL, 1986, p. 387). Este termo
igualmente é usado para se referir a qualquer situação de doença, enfermidade ou uma
calamidade, uma manifestação de conducta humana vista de modo comparativo, semelhante
ao referenciado. Assim, inspirado no sentido negativo, representa o lado oposto do bem. Em
algumas civilizações o mal é definido como a contrapartida do bem, formando assim um par
condicional sine qua non, ou seja, se o bem existe, então o mal também. Bem e mal, neste
trabalho, são dois termos que irão apontar frequentemente ao comportamento ético dos
indivíduos. De acordo com a filosofia kantiana do mal radical ou moral, o ser humano está
ciente da distinção entre bem e mal, que acção é boa e qual acção é ruim, e que tudo
dependerá da intenção ou propósito do executor, independentemente do efeito da acção
(KANT, 2005, p. 368).

Outra noção pode ser ainda distinguida: o negativo é "ruim" e o positivo é "bom". O que seria
bom ou ruim seriam as consequências derivadas das acções naturais ou humanas. Mas, por
outro lado, as consequências de causas não humanas podem ser prejudiciais ou negativas, ou
benéficas e positivas, mas não serão boas ou más porque carecem de valor moral, diz Kant
(2005, p. 369). Da mesma noção, é sempre melhor distingui-lo do moral e do físico; porque
ser amoral apenas em relação ao humano, depende das boas ou más consequências das acções
humanas que obedecem às decisões levadas à prática que, em última análise, dizemos que
representam uma eleição com uma implicação ou carga moral (VIDAL, 1986, p. 418). A
partir deste esclarecimento de Vidal, resulta fiel entender portanto, que daqui nasce a teoria do
livre arbítrio de S. Agostinho.
18
2. Etimologia e conceito
O termo “mal” (em latím “măle”) é uma apócope de “mau”, que em latim é “malus”, e
significa literalmente “mau”. Não obstante, o conceito de mal nos permite ir além no tempo.
Em grego encontramos vocábulos “mélas” e “mélanos”, e em sânscrito a raiz “mala”, que
significa “negro”, “sujo”. Portanto o mal é um conceito abstracto, antagónico do bem,
habitualmente utilizado para referir-se a algo que resulta nocivo em forma absoluta ou relativa
(https://definiciona.com/mal/).

O mal é ainda um qualificativo negativo para uma acção, acontecimento, etc. Ex: “aquilo foi
muito mal acontecido”. Refere-se ao estado de algo, a qualquer nível (físico, psíquico,
anímico, etc.). Ex.: “O Pedro está muito mal”. Dano, desgraça ou calamidade que algo ou
alguém pode sofrer em si mesma (enfermidade) ou em algo da sua posse. Ex.: “perdi a mina
casa, família e saúde. O que fiz eu para merecer este mal”? Em geral, denomina-se mal a tudo
aquilo que pudesse ser prejudicial, nocivo, contraproducente, impedir o avanço em forma
directa ou indirecta, a curto ou longo prazo (https://definiciona.com/mal/).

3. Definição do mal
Segundo as funções linguísticas desta palavra, “mal” é um adjectivo qualificativo. No “Novo
Dicionário da Língua Portuguesa”, de Ferreira (1986), diz-se de uma “acção, acto ou maneiras
não consideradas correctas de acordo com um preceito subentendido, com formas
culturalmente aceitas, seja parcial ou geral”. Também pode ser entendido como o oposto do
que deveria acontecer. Pode ser usado como um substantivo masculino no singular. Lesão ou
prejuízo a quem o recebe em sua pessoa ou propriedade. Infortúnio de calamidade ou
infelicidade. Doença, sofrimento ou enfermidade. O oposto do bem e se afasta do que é legal
e honesto (FERREIRA, 1986, p. 246). No entanto Queiruga (2011), refere-se ao mal a partir
da observação elementar de José Ferrater Mora no início do seu artigo sobre o mal.

“O mal e o mau são, respectivamente, um substantivo e um adjectivo substantivado, e há certa


tendência a reifica-los, isto é, a supor que haja algo que se chame ‘o mal’ ou ‘o mau’. Muitas
concepções metafísicas do ‘mal’ apoiam-se, explicitamente, em semelhante reificação”
(MORA, 1979 apud QUEIRUGA, 2011, p. 89).
Fica entendido, segundo Queiruga, que “o mal não é realidade em si, mas qualificação de uma
acção, um acontecimento, uma coisa ou um estado de coisas, feita primariamente em relação
com a vida humana, à qual de algum modo causa dano ou contradiz, e que, por isso,
chamamos de mau ou ruim”:

19
4. Tipologia do mal
Ao tempo que vamos tomando consciência sobre as dificuldades enfrentadas pelas religiões e
pela filosofia na explicação da existência, génese, natureza e sentido do mal, neste trabalho,
amplos horizontes vão-se abrindo na investigação, o que resulta, no maior aprofundamento do
conhecimento do próprio mundo e do homem.
Os especialistas enquadram o mal em três versões, assim como estudaremos neste parágrafo o
mal físico, o moral e, o metafísico. Esse trio conceitual vai acompanhar todo o nosso estudo.

4.1 Mal físico


Ou natural, segundo Duarte (1989) pode atingir nosso corpo ou nosso espírito. No tocante à
parte somática (sôma é corpo), podemos identificar a dor física, o mau funcionamento de
órgãos e sistemas, a fraqueza, o mal-estar, a perda do apetite, o desânimo, etc. O mal do corpo
pode resultar em um mal psíquico (psyque é espírito) (DUARTE, 1989, p. 390).
O espírito abalado sofre a depressão, o pessimismo e o mau humor, que podem levar à
indiferença e à perda da auto-estima que, por sua vez, é capaz de acarretar problemas mais
graves, falta de um sentido de vida, desespero e até o suicídio. O mal físico é proveniente de
doenças, acidentes, violência, fenómenos e calamidades da natureza, contágios e epidemias,
etc. Experimentamos o mal físico no quotidiano: doenças, injustiças e mortes de pessoas que
amamos. Por isso, Leibniz (1982), citado por Queiruga (2011, p. 49) nega o recurso ao
milagre, que não solucionaria nada. Rejeita-se a ideia do milagre. A limitação das criaturas
torna impossível a compossibilidade das perfeições, dando origem à imperfeição e ao
sofrimento. O mal físico atinge a todos, justos e injustos.

4.2 Mal moral


Também chamado pecado (no campo religioso) e mau comportamento (no campo da ética) no
aspecto psicológico. Este mal (moral/pecado) é multidimensional, pois é um acto cometido
por pessoa ou grupo, contra Deus, contra o outro (singular e plural), contra si-mesmo e contra
a natureza (crimes ambientais contra a ecologia) (ESTRADA, 2014, p. 92).

Paul Ricoeur já afirmava que o mal moral (pecado) sempre resulta em mal físico contra
alguém. A palavra pecado tem o sentido de quebra, ruptura (hamartia, no grego), afastamento
(sünde, no alemão), desvio (hat’at, no hebraico) e delito (peccatum, no latim). O pecado é
uma acção negativa: como um mal feito ou um bem não-feito (que se converte em mal)
(RICOEUR, 2007, p. 15).

Mora (1979), já entendia este tipo de mal como “a deviação dos humanos das regras morais e
das acções que tal deviação constitua. Restringe-se por actos de vontade e os que a
20
consciência rejeita. Este mal não só é causado pela ordem natural mas também a partir da
religião” (MORA, 1979, p. 233).

4.3 Mal metafísico.


O teólogo Gabriel Marcel (1933) ressalta de antemão a existência duma disparidade entre
teólogos e filósofos na conceituação deste tipo de mal. Por metá-physica os gregos entendiam
algo “além da física”. Mesmo assim, dividiam a metafísica em concreta (ontologia, o estudo
do ser) e abstracta (algo sobrenatural, transcendente). No terreno da axiologia, o mal
metafísico refere-se às limitações do ser humano, à sua finitude, tanto temporal (mortalidade)
quanto cognitiva (ignorância) quanto no tocante a factores externos (o mal sobrenatural ou
supranatural). Existem duas características que afinam a sua distinção (MARCEL, 1933, p.
66).
 O mal oriundo de entidades maléficas e/ou diabólicas;
 Subjugação psíquica e telergia.

Ainda no tocante ao mal metafísico, não é preciso ver o Diabo, ameaças “espirituais” etc., em
tudo o que acontece. Não é porque não se entende um determinado acontecimento que se deve
classificá-lo como “sobrenatural”. Muita coisa tem explicação natural, física ou reflecte meras
actividades paranormais. Assim como a influência diabólica não deve ser descartada de todo,
não é por isto que ela precisa ser vista em tudo.
Assim como o mal questiona, igualmente deve-se questionar a existência, a origem, natureza
e o sentido do mal. Nesse aspecto, ele sempre vai se afigurar, como uma verdadeira questão,
uma pergunta, uma indagação em aberto. O pensamento moderno oferece visões diversas a
respeito do mal. Uns, (pessoas religiosas) vêem o homem como agente do mal, a partir do
mau uso de sua liberdade. Outros, para defender qualquer imputação de culpa a Deus, dizem
que é Satanás, o “autor e princípio de todo o mal”. Nessa premissa, Deus é inocente e o
homem é vítima. Os ateus invertem na equação, atribuindo culpa a Deus, posição de vítima ao
homem e neutralidade na posição do Diabo. Vamos examinar isto, daqui para a frente.

Entre um problema e um mistério existe uma diferença essencial. Um problema é qualquer


coisa que se encontra inteiramente diante de mim e que, por isso mesmo, eu posso de alguma
forma cercá-lo e compreendê-lo. O mistério, por sua vez, é alguma coisa em que eu mesmo me
encontro envolvido e, por conseguinte, só é pensável como uma esfera onde a distinção entre
mim e diante de mim perde sua significação e seu valor inicial. Enquanto um problema
autêntico pode ser solucionado por uma técnica apropriada, um mistério transcende, por
definição, toda técnica concebível (MARCEL, 1933, p. 68).

21
Fruto do mysterium iniquitatis (o mistério do pecado, segundo a teologia), a questão do mal
não responde às indagações maiores. A interpretação desta citação ensina que não basta dizer
que existe o mal por causa do pecado. Tal afirmação remete a outra pergunta: Por quê existe
o pecado? E se o pecado é uma realidade que afecta as criaturas, porquê Deus permite que ele
ocorra? Se alguém é mau, mata e fere, pode-se atribuir sua conduta a uma má escolha, a uma
forma equivocada de viver sua liberdade. Até aí o mal é compreensível. Muitas respostas,
dadas em situações análogas, não satisfazem mais, e são capazes de conduzir à descrença e –
não-raro – ao ateísmo, além de suscitar, mesmo nos crentes e fiéis, uma ponderável oscilação
entre o senso de culpa e a indiferença.

5. Dimensões do Mal

5.1 Dimensão Teísta

Uma das grandes objecções ao teísmo é o problema do mal. Esta objecção é potencialmente
evidência para a anulação da crença no Deus cristão e islâmico. Deus é definido nessas
religiões como um ser imaterial, eterno, omnipotente, omnipresente, omnisciente e tudo bom.
Estas propriedades de Deus, nessas religiões, são consideradas como tradições transmitidas
por revelação divina, tal é o caso dos profetas e dos santos. A partir dessa análise, René
Latourelle (1985), define o Teísmo como a crença em um ser imaterial, eterno, omnipotente,
omnisciente, omnipresente e tudo bom. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo são
religiões reveladas. A solução última da problemática humana é oferecida pelo próprio Deus
que se revela historicamente através de seus profetas, por exemplo, a Maomé ou pessoalmente
em Jesus Cristo (LATOURELLE, 1985, p. 90).

O mal é um problema para todos os seres humanos reflexivos. O problema do mal é sério para
a legitimidade epistémica do teísmo; mas, a realidade é fruto de um processo cego, não é uma
obra planejada. O problema prático de eliminar ou diminuir o mal não é fácil para o teísmo,
mas tradicionalmente, a solução dada ao problema prático do mal será em outra realidade, na
vida após a morte, no Céu ou no Paraíso.

Historicamente, o problema do mal é muito importante nas religiões de origem semita: o


Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. O problema forma-se através do conceito de Deus.
Deus é concebido como o criador de todas as coisas. “Ele criou tudo do nada” (Deus ex nihilo

22
mundum creavit) através de sua omnipotência, sua omnisciência, sua omnipresença e sua
bondade.

5.2 Dimensão Psicológica


No panorama psíquico e no cenário do mundo, a existência do mal resulta de uma verdade
psicológica que os ideais e os mandamentos criados pela sociedade e pela civilização tentaram
negar, se recusando ao esforço que teria imposto sua transformação.

Como articular a possibilidade de uma evolução inegável para o homem, no reconhecimento


de sua condição, dos ganhos de inteligência indiscutíveis a esse respeito e, entretanto,
verdadeiramente, pouca ou nenhuma consequência desta evolução no campo social? Como
pensar que a capacidade possível de evolução do homem, cujo tratamento é uma
comprovação quotidiana, se vê diante de uma constante não evolutiva da condição humana,
irremediável, irremovível: a dimensão do mal. Partindo do facto de que a noção de mal, além
de suas variações culturais, tem uma história tão rica e antiga quanto a noção de humanidade -
é assinalado que a noção de mal parece indissociável da noção de humano, Nathalie
Zaltzman, no seu livro “espírito do mal” (2011), defende que entre elas existe uma associação
indefectível. Constata que a noção de humano muda com muito mais frequência de conteúdo
ao longo da história e das civilizações do que aquela de mal. Isso constituiria uma invariante
que designa um acontecimento no agente activo que é humano e que atinge a vida, o corpo, a
essência de um indivíduo, de uma colectividade e do futuro da humanidade.
Psicologicamente, o mal é algo que se exprime como puro ódio, impossível de se relacionar
ao amor.
É ódio em forma bruta, que ameaça os fundamentos jurídicos, políticos e
morais, sobre os quais se apoia a perenidade de uma civilização. É o que
desfaz a ordem do mundo em que vive o homem, muitas vezes ignorando
essa ordem, que ele almejaria imutável e eterna, só atingida à custa de
trabalho individual e colectivo que lhe custou caro. Ele não estava presente
desde o início e antes de ser instituído reinava a desordem e o caos
(ZALTZMAN, 2011, p. 33).
Cabe saber, desta citação, que a ordem do mundo não surge por compreende-lo, pelo
contrário, o entendimento do mundo não pode se poupar de reconhecer, efemeramente, que a
ordem no mundo é resultado de uma construção humana que se institui sobre e contra a
desordem original que ela tenta extinguir.
Ainda segundo Zaltzman (2011), é preciso entender como mal, uma dimensão constitutiva da
vida psíquica, não imputável a esta ou aquela parte do aparelho psíquico e que não seria
reduzida à dimensão pulsional. Além disso, cada civilização comporta uma zona obscura que
se origina na incapacidade de reflectir acerca do mal.
23
O mal, que é como diz a autora, “fonte de repetição inevitável”, se opõe à tomada de
consciência, com uma resistência que impede a reflexão. A consequência dessa incapacidade
de reflectir seria que a consciência só vem a perceber o mal em sua existência exterior,
quando ele culmina em um acto real, em um facto evidente. Aquela ideia não transformada ou
aquela situação não acontecida, não constituem o mal, diz Zaltman (2011, p. 50).

A autora sustenta que a consciência não pode realmente se dar conta da existência interna do
mal, de sua presença como núcleo psíquico. Ela só poderia reconhecer sua existência e
realidade por uma operação dedutiva que a levasse a formular a hipótese do mal, para explicar
a angústia moral e o sentimento inconsciente de culpa. Para Zaltzman (2011, p. 53), o mal,
como dimensão constitutiva do psiquismo, não daria lugar a nenhuma representação de coisa,
mas, pelo contrário, os efeitos externos do mal originariam a representação de palavra mal,
sem que seja possível associá-la à ideia do mal.

5.3 Dimensão Maniqueia


O maniqueísmo é, a grosso modo, uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto
como que dividido em dois: o do Bem e o do Mal. Este pensamento não admite meio-termo
nem retractação. Tal simplificação é uma forma primária do pensamento que reduz os
fenómenos humanos a uma relação de causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo, é ou não
é. A simplificação é entendida como forma deficiente de pensar, nasce da intolerância ou
desconhecimento em relação à verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe -
se apresenta como complexo.

A crença maniqueísta se difundiu pelo Império Romano e pelo Ocidente Cristão, combinando
elementos do zoroastrismo, uma antiga religião persa, e de outras religiões orientais, além do
próprio cristianismo. Possui uma visão dualista radical, segundo a qual o mundo é accionado
por duas forças: o bem (luz) e o mal (trevas) como entidades antagónicas em perpétua luta.
Luz e trevas no sistema maniqueísta não são figuras retóricas, mas representações concretas
do bem e do mal. O reino da Luz e o reino das Trevas estão em permanente conflito. É dever
de cada ser humano entregar-se a esse eterno combate para extinguir em si e nos outros a
presença das Trevas a fim de poder alcançar a Luz, que é o Reino de Deus. No maniqueísmo,
os homens eleitos irão purificar o bem, com uma vida de castidade, renúncia a família,
alimentação especial, etc. O espiritismo kardecista usa esses dois extremos em suas fórmulas
de identificar o bem (o atraso) e o mal (o progresso).
A expressão maniqueísmo ganhou uso corrente ao definir aquele tipo de pessoa ou aquele tipo
de pensamento de estruturação dualista que reduz a vida (ou alguns de seus aspectos) a pares
dialécticos, antagónicos, irreconciliáveis, tipo: direita x esquerda, corpo x mente, reaccionário
24
x progressista, belicista x pacifista, fiel x infiel, capitalista x comunista, individualismo x
colectivismo, branco x negro, ariano x judeu, raça superior x raça inferior, objectivo x
subjectivo e assim por diante (GESCHÉ, 2003, p. 9).

Portanto, mais que uma forma simplista e dogmática de pensar, o maniqueísmo propõe uma
acção, uma luta eterna contra o Mal, personificado em algumas coisas, pessoas e situações.
Na acção maniqueísta “vale tudo”, até mesmo a violência extrema contra um improvável Mal.
A guerra e a tortura foram os principais meios da actuação do maniqueísmo moderno.
O poeta e filósofo britânico, de origem austríaca, K. Popper (1994) constata, com muita
propriedade, que “toda a vez que o homem quis trazer o céu para a terra, fez reinar o inferno”
(POPER, 1994, p. 66).
Ora, sabemos pela história que o pior inferno é aquele que mata, oprime e ordena, em nome
do bem contra o mal, ou do seguimento de religiões capazes de radicalizar em seus dogmas.
Nada é tão perigoso quanto a certeza, o dogmatismo, a fé cega ou louca. O filósofo Nietzsche
propõe um pensar para além do Bem e do Mal: “Perguntai aos escravos quem é o “mau”? e
apontarão a personagem que para a moral aristocrática é “bom”, isto é, o poderoso, o
dominador” (NIETZSCHE, 1971, p. 233). É muito pobre a divisão de todas as coisas e
situações em apenas dois blocos, luz e trevas, criação e destruição, bem e mal. Para os
maniqueus, o bem e o mal são iguais, inseparáveis e equilibrados. Esta visão vem do passado
e é encontrada em nossos dias, nos nossos grupos, na sociedade, etc.
O bem e o mal, dependem da perspectiva e dos interesses de quem julga. Deveríamos
nos colocar no lugar do outro. Por exemplo, por que Bin Laden é um “homem mau”
para o Ocidente cristão e, é herói “bom” no Oriente islâmico? Por que algumas igrejas
fazem show contra o Mal, mas terminam mais falando das terríveis forças do Mal do
que do Bem? (GESCHÉ, 2003, p. 67).

Em sua doutrina, o maniqueísmo sustenta que o homem vive aprisionado no mundo das trevas
porque não consegue libertar-se de seu corpo (teoria platónica). A libertação consiste em
separar-se do corpo, através do conhecimento verdadeiro (teoria gnóstica), superando vícios e
paixões. A atitude céptica parece ser o melhor remédio contra o maniqueísmo. O céptico
suspende o juízo, não toma partido, não se rende ao simplismo de encurralar o pensamento
entre as paredes do Bem e do Mal, do certo e errado. Suspender o juízo não quer dizer
inacção; significa elaborar um melhor pensamento para além da solução dualista, ou seja, um
agir com sabedoria. A educação e a cultura têm uma grande tarefa pela frente para prevenir o
maniqueísmo.
O maniqueísmo significou um especial desafio ao cristianismo, em parte porque
parecia-se muito com ele. Para combatê-lo é que Santo Agostinho, seu principal

25
adversário, no século IV d.C., reformulou a ideia do mal, enquanto privatio boni
(privação do bem) (MARIANO, 1999, p. 148).

Para Agostinho, naquele período de sua vida, só esta seita poderia trazer uma resposta à
questão que o tinha começado a “atormentar” desde sua conversão àquela filosofia: “Por que
nós fazemos o mal”. A resposta maniqueia ao problema do mal constitui uma instância que

acalmou, pelo menos por algum tempo, o irrequieto coração do jovem Agostinho. Engana-se,

porém, quem situa o maniqueísmo – como uma forma de pensamento perdido no passado.
Lendo os jornais, vendo televisão ou conversando com as pessoas, vamos encontrar
remanescentes bem activos do radicalismo da doutrina de Mani, nos dias de hoje, em pleno
século XXI. No terreno religioso se nota distorções análogas, à medida que religiões e seitas
adoptam uma maneira fundamentalista de enxergar a fé, e tudo que escapa dos limites de suas
crenças, dogmas e regulamentos, vem do Diabo, e é capaz de jogar os “desviados” no mais
profundo dos infernos. Nas Igrejas cristãs tradicionais, o movimento ecuménico é uma
tentativa (débil, ainda) de banir o maniqueísmo.

5.4 Dimensão Ateia


Quando se fala em hereges, agnósticos ou ateus, há que se estabelecer algumas diferenças
conceituais. Embora muita gente confunda um com outro, afirmando serem sinónimos, pode-
se-ver uma diferença bem sensível e facilmente observável. O chamado ateísmo, na
dificuldade de estabelecer uma linha de raciocínio capaz de solucionar certas questões – como
a do mal, por exemplo – assume uma atitude simplista: exime-se da culpa, imputando-a a
Deus que, havendo criado tudo, também teria criado o mal (QUEIRUGA, 1999, p. 233).

Aqui o ateu vai adiante, sabe que Deus existe mas imputa-lhe defeitos, converte-se, pois, em
um herege. Este tipo de crítica é ilógica, pois se o ateu afirma que Deus não existe, como
pode, na hora do aperto, colocar a culpa em alguém que ele afirma não existir? Neste caso, na
afirmação “Deus não existe!” revela-se uma premissa semanticamente ilógica. Deste modo, o
ateu, ao negar a existência de Deus estabelece, na negação, volens nolens, uma relação de
nexo causal. O ateu diz que Deus não existe, e não estabelece com ele nenhuma relação. Desta
forma, ele aponta para a impotência, ou mesmo a “maldade” de um Deus, cuja existência, por
essa razão, ele nega. Provavelmente o argumento mais popular contra a existência de Deus
seja baseado na eterna pergunta: “Se existe verdadeiramente um Deus bom, então por que
existe mal no mundo?”. Logicamente, este argumento envolve muito mais a emoção
(agravada por algum rancor) do que a razão, mas a questão acaba sendo importante de se

26
analisar. Na verdade, ela pode ser expressada de diversas maneiras (QUEIRUGA, 1999, pp.
246-247).

No contexto do pensamento humano, o tema do mal é por vezes colocado em termos mais
radicais, do tipo “Se Deus não vê o que ocorre, é cego”. E na reacção à inexplicabilidade do
mal, chega-se a negar a bondade de Deus, a partir de uma possível omissão da divindade
diante do sofrimento. Não que todos sejam ateus ou hereges, mas, em muitos casos, o
desespero de pensar o mal sem encontrar saída ou autoria, tem levado muitos pensadores a
situações-limite, quando chegam a atribuir à divindade a culpa pelo mal. Ou pela
impossibilidade de sua erradicação.

Existem algumas referências a respeito do mal em F. Nietzsche (1844-1900). Suas


formulações não são muito esclarecedoras, mas vale observá-las no contexto do anti-religioso
do filósofo alemão. No livro “Cristo Na Filosofia Contemporânea”, de Silvano Zucal (2003, p
514), Nietzsche, estabelece uma comparação entre o personagem Zaratustra e o semideus
Dionísio, da mitologia romana. Nessa formulação, ele concebe o primeiro como o triunfo da
afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade, como
um deus-artista, totalmente irresponsável, amoral e superior ao lógico. Acima do bem e do
mal (ZUCAL, 2003, p. 515).

De acordo com o pensamento de Nietzsche, o cristianismo concebe o mundo terrestre como


um “vale de lágrimas”, em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. Esta concepção
constitui uma metafísica que, à luz das ideias do outro mundo, autêntico e verdadeiro, entende
o terrestre, o sensível, o corpo, como o provisório, o inautêntico e o aparente. Não podendo
definir o mal – prossegue o filósofo – “o cristianismo adia a solução e a explicação para o
futuro” Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de um “platonismo para o povo", de uma
vulgarização da metafísica, que é preciso desmistificar. “O cristianismo é a forma acabada da
perversão dos instintos que caracteriza o platonismo, repousando em dogmas e crenças que
permitem à consciência fraca e escrava escapar à vida, à dor e à luta, e impondo a resignação
e a renúncia como virtudes” (ZUCAL, 2003, p. 515).

“São os escravos e os vencidos da vida, prossegue Nietzsche, que inventaram a vida no além
para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de
participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma
porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das

27
alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida”. Entendemos sob esse aspecto
que, Nietzsche duvidava da exactidão da filosofia: cada filosofia é de fachada; não se
escrevem livros precisamente para resguardar o que se guarda em si? Cada filosofia esconde
também uma filosofia; cada opinião é também um esconderijo, cada palavra também uma
máscara. A exposição de ideias pode, às vezes levar a uma armadilha.

5.5 Dimensão Cristã


O cristianismo propaga, com ressurreição de Jesus, a vitória da vida sobre a morte, e assim
destaca a derrota do mal, que se instaurara na criação a través do pecado original. Todo o
desajuste da existência da criação tem sua génese a partir do pecado. Induzido pelos
argumentos falsos da serpente, o primeiro casal viola os regulamentos de Deus, e assim perde
sua condição de hóspede do paraíso, perde a visão de Deus, é jogado no “vale de lágrimas”,
onde a natureza é hostil, obrigando-o ao trabalho transformador. Mais do que a expulsão do
paraíso, o ser humano, segundo a tradição bíblica, perde o atributo da imortalidade, que
possuía no convívio com o Criador. Sobre esta relação pecado-morte, São Paulo diria mais
tarde: “O pecado entrou no mundo através de um (só) homem e com o pecado veio a morte”
(Rm 5, 12). “Pois a morte é o salário do pecado, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna
em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

Para tanto, explica Queiruga (1999: p. 91), havendo o homem experimentado aquilo que a
teologia bíblica chama de “queda”, de imediato Deus promove um projecto, destinado a
resgatar os seres humanos do império do pecado e, consequentemente, da morte. Esse
projecto tem na encarnação de Jesus Cristo seu ponto alto, que culmina com a ressurreição,
que é a vitória sobre o mal, o pecado e a morte. No entanto, é este o cerne do mistério,
enquanto peregrino pelo mundo, por esta vida material, o homem está sujeito aos imperativos
do pecado (próprio e de terceiros) e do mal, cuja origem ele não sabe definir.

Pelo correr dos séculos, a origem do mal nunca foi suficientemente compreendida pela
humanidade, diz Queiruga (1999, p. 127), as religiões, as filosofias e as formulações
esotéricas têm tentado, cada uma a seu modo, definir a respeito do sofrimento injusto, cruel,
suportado pelo inocente. Pastoralmente, o enfoque cristão remete para um estoicismo, no qual
a vítima, a exemplo do “servo sofredor” (figura de Jesus) deve suportar o mal e sofrer calado,
pois desse mal advirá um bem maior, nesta vida ou na futura.

A figura paulina da cruz que deve ser assumida com resignação faz parte desse modo de
enfrentar o sofrimento. A dimensão cristã do sentido do mal está numa pedagogia que ensina
28
a suportar, a entregar, mas não explica certos pontos obscuros nem dirime dúvidas quanto à
erradicação desse mal no futuro. Na pedagogia do apóstolo Pedro, quase ao final do primeiro
século, encontramos esses critérios, que orientam até hoje o pensamento da Igreja. “Os olhos
do Senhor estão voltados para os justos e seus ouvidos atentos às suas preces. Ao contrário, o
rosto do Senhor se volta contra os que praticam o mal” (1Pd 3,12).

Para concluir, observa-se que São Paulo, injectando esperanças nos primeiros cristãos, afirma
que o discípulo de Cristo não vive para si mesmo, mas para Deus, a quem pertence. Assim, o
mal é vencido e toda a história humana vai desembocar na eternidade, em Deus, aquele que é
o bem. “Portanto, vivos ou mortos pertencemos ao Senhor. Cristo morreu e ressuscitou
exactamente para isto: para ser o Senhor dos vivos e dos mortos” (Rm 14,9).

5.6 Dimensão Filosófica


Filosoficamente, o problema do mal pertence em princípio ao campo da ética; no entanto,
qualquer tratamento rigoroso disso se refere necessariamente a questões antropológicas
fundamentais. A filosofia, ao contrário das ciências das religiões, tem buscado, ao longo de
sua história, uma explicação definitiva e satisfatória para a questão do mal. Perpassando
praticamente todas as suas áreas, da antropologia e da ética à teoria do conhecimento,
cosmologia e metafísica, quase todos os grandes filósofos escreveram, em algum momento,
sobre o mal.

Preliminarmente, embora pareça um contra-senso, Epicuro (270 a.C.), possui as ideias mais
sui generis a respeito do mal, razão pela qual optamos por abordá-lo em primeiro lugar,
colocando-o preliminarmente em evidência. Epicuro não é o primeiro a levantar a questão,
mas é quem o faz da forma mais contundente. O mal, do ponto de vista filosófico, é um dano
na ordem ético-moral, que causa sofrimento, ruptura ou miséria. Numa formulação do
problema, atribuída ao filósofo grego Epicuro, “ou Deus pode impedir o mal e não o faz (e,
com isso, não é bom), ou então quer impedir o mal e não consegue (e, portanto, não é Todo-
Poderoso)”. O problema do mal tem sido uma preocupação central dos filósofos e de todas as
grandes religiões. Na obra Ideas para una Filosofía de la Historia de la Humanidad de
Johann Herder (1981), explicam-nos assim:

Em fins do século IV, Santo Agostinho sugeriu que o mal, que não foi criado por
Deus, mas é a privação ou ausência do bem, filosofia que teve grande influência entre
os pensadores cristãos posteriores. Já no século XVII, Gottfried Wilhelm Leibniz
afirmou que o poder de criação de Deus se limitava a mundos logicamente possíveis e
que o mal é uma parte necessária do “melhor de todos os mundos possíveis”. As
guerras e perseguições desencadeadas no século XX minaram a crença secular num

29
progresso inevitável e novamente confrontaram filósofos e teólogos com o problema
do mal (HERDER, 1981, p. 334).

Historicamente e hoje, inclusive, povos oprimidos pela guerra, pelo desenraizamento, pelos
conflitos étnicos, pelos genocídios actuais, pela fome, pelas doenças e pelo descaso, repete-se
a secular pergunta de quem se sente abandonado: Meu Deus, por que me abandonaste?” Do
estoicismo grego chegam-nos as conhecidas “questões de Epicuro”, desde o século III a.C.: o
próprio filósofo do jardim, um pagão segundo o pensamento religioso, parece interpelar seu
deus ou o conjunto de deidades que os gregos reverenciavam (mais temiam que
reverenciavam) “Se quer mas não pode, é impotente; se pode mas não quer, é malvado, não
nos ama; mas, se pode e quer abolir o mal, então por que há o mal no mundo”?

Este enunciado, serve para alimentar o debate filosófico e religioso actual, a respeito do bem,
do mal e da providência divina. O que Epicuro questionou, no ano 280 a.C., ainda é escutado
hoje, quando perante a desgraça, algumas pessoas questionam a presença de Deus na hora da
ocorrência do facto danoso. As religiões, e em especial o cristianismo, tentam por séculos,
descaracterizar as questões, apontando a solução a partir de outro enfoque. De Epicuro,
depreende que na filosofia grega, se situa a origem do mal numa deficiência do ser, que, de
por si, estaria sempre voltado para o bem. As acções más não derivam de uma vontade de
praticar o mal, como na proposta religiosa, mas do erro ou da ignorância do bem.

“O mal é um problema de conhecimento, ninguém peca voluntariamente, afirmavam os


filósofos”(ZUCAL, 2003, p. 464). Nesta sugestão aparecem componentes fundamentais do
comportamento humano, como a unidade de princípio e a dificuldade de apreensão da
realidade, mas ela se revela limitada. A pergunta básica, que é relatada pela história da
filosofia, aponta para a origem do ser. Ao indagar o que é o ser, os primeiros filósofos
buscaram descobrir as origens da humanidade, e com elas a incidência do bem e do mal. Isso
explica, portanto, que na maioria das vezes, eles viam algo mais forte que eles, com a qual
não se podia lutar. Se o destino fosse salutar ou maléfico, nada podia ser feito.

A primeira tentativa filosófica de definir o mal nos veio através do orfismo de Pitágoras (580
a.C.). Pois o filósofo identificou o princípio de todas as coisas com os números e suas
proporções. Tais formulações estabeleciam pares ordenados (que Descartes usaria depois)
capazes de estabelecer uma harmonia, determinada pelo equilíbrio estético dos pares e dos
ímpares. Nessa oposição de pares e ímpares, surge o ilimitado e o limitado, a sombra (skiá) e
a luz (fôs) e, por consequência, o bem e o mal. Esta concepção dos pitagóricos a respeito do

30
mal seria apropriada, mais tarde, por vários pensadores, como Aristóteles, Plotino e Leibniz
(ZUCAL, 2003, p. 501).

Apesar de imperfeito, reza a sabedoria dos discípulos de Pitágoras, “o mal é necessário, e


assim torna-se um bem, à medida que através dele podemos admirar o que é perfeito”. Tais
ideias dialécticas dariam subsídios posteriores à doutrina do maniqueísmo. Essa circulação do
bem e do mal também influenciaria, mais tarde, a exposição de Nicolau de Cusa (1401-1464),
chamada “concidentia oppositorum”. Depois da filosofia mística e órfica (daí surgem os
cultos mistéricos) dos pitagóricos, o estudo sobre o mal iria ganhar novos caminhos, visões e
campos de debate.

Sócrates, em sua teoria do intelectualismo moral, identifica o mal com a ignorância. Para seu
discípulo Platão, o mal é aquele em que a ideia do Bem não participa de modo algum e
entende que, como as ideias são perfeitas e positivas, todas as coisas ruins são imperfeitas e
exclusivas do mundo sensível, e ele escreveu que existem relativamente poucas formas de
fazer o bem e, ao contrário, inúmeras maneiras de fazer o mal e que podem ter um impacto
muito maior em nossas vidas e nas dos outros (HAROLD, 1981, pp. 23-30).

No entanto, J. M. Navarro Cordon e T. Calvo Martinez (1990, p. 316) apontam que na


filosofia de Platão (427-348) a.C. encontram-se sentenças que afirmam que o homem sem
cultura é um malvado e responsável por todos os desmandos. Como para o sábio grego, o bem
é o saber, automaticamente ele liga a ignorância ao mal.

Segundo a concepção platónica de ideia, como energia animadora do ser, no topós noetós (o
mundo [lugar] das ideias) é que ocorre a síntese entre a ignorância (o mal) e o conhecimento
(o bem). Para o platonismo, a verdadeira sabedoria é preparar-se para a morte, onde o homem
livra-se do mal e recebe o bem em plenitude. Platão tentando responder a questão da
existência do mal, ele defende uma des-potenciação ontológica do mal, ou seja, o mal, a rigor,
não existe. “O mal nada mais é do que a não-existência de algo, a ausência do ser”. É uma
teoria que teve muita influência posterior. Até hoje muitos especialistas tentam definir o mal
como uma ausência do bem.

O eleático Parménides (515-480), de uma filosofia nitidamente pré-socrática, um dos


fundadores do idealismo platónico (ele chamava Platão de “o grande”) nos diz em sua única
obra, que “o ser (o bem) existe; e o não-ser (o mal) não existe”(CORDON &MARTINEZ,
1990, p. 27). Para ele, influenciado pelos pitagóricos, todas as coisas se dividem em luz e

31
sombra. De um lado, o “fogo etéreo da chama”, suave e muito leve, idêntico a si mesmo. É
assim que ele vê as coisas positivas da vida e do cosmos, (o bem). Em contrapartida, uma
espessa estrutura, como noite obscura e pesada (o mal). Como a maioria dos filósofos do seu
tempo, ele polariza o bem e o mal, na oposição das energias, cósmicas e humanas. Parménides
não vincula-os às divindades, demiurgos ou espíritos maus.

O filósofo Heráclito de Éfeso (500 a.C.) (chamado de skoteinós), o obscuro, afirmou que o
mundo estava em constantes mudanças, por isto, tudo evolui até a conflagração geral. Depois,
tudo começa de novo. Por esta razão ele é chamado de “filósofo do devir” (ou vir-a-ser) e do
movimento (tudo passa). Na sua obra “Sobre a natureza das coisas” (Peri fyseos) (s/l), como
nos seus demais fragmentos, encontram-se sentenças éticas sobre a vida humana, na
alternância entre o bem e o mal.

Para Heráclito, a substância única do cosmo é um poder espontâneo de mudança, que se


manifesta pelo movimento. Tudo é mudança, tudo se move (“panta rei”), isto é, tudo flui,
nada permanece do mesmo jeito. Para fortalecer a tese do cosmo em permanente movimento,
Heráclito afirmou que “Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Para Heráclito, a
unidade dos fenómenos da vida está situada na tensão existente entre os opostos, vida e morte,
bem e mal, luz e trevas, calor e frio, etc. Da luta dos contrários nasce a harmonia. Em toda a
substância há um polo positivo (o bem) e um negativo (o mal) que se ajustam para que
aconteça a harmonia. Para o filósofo grego, as coisas vão ser consumidas pelo fogo
(ekpyrossis) para logo depois tudo acontecer de novo, nas “leis do eterno retorno”, numa
imanência sem transcendência” (CORDON &MARTINEZ, 1990, p. 29).

A contribuição de Plotino (270 d.C.), no estudo do problema do mal, constitui a mais


avançada solução do problema fornecida pela Antiguidade. O filósofo, nascido no Egipto e
cidadão romano tem o ponto alto de sua literatura nas Enéadas, seis obras clássicas, contendo
cada uma delas nove dos 54 tratados produzidos. Por nacionalidade e época, ele não faz parte
do elenco dos “filósofos gregos”. É da lavra de Plotino que vem o desenvolvimento de um
dos maiores subsídios à metafísica. Ao invés de questionar o Múltiplo, exarado dos escritos
de Platão e Aristóteles, o sábio romano inverte a questão, “por que existe o Uno”? Ele faz a
pergunta e dá a resposta: “o Uno é o Bem, imanente, livre, infinito, enquanto o Múltiplo traz
consigo o peso do que é limitado” (PLOTINO, 30-VI apud CORDON &MARTINEZ, 1990,
p. 29).

32
Sua teoria é brilhante para seu tempo. As coisas carregam em si suas causas. Nenhuma delas
acontece por sorte, acaso ou mera finalidade. Entusiasta da vida ascética, Plotino despreza a
matéria, a qual ele chama de “privação do Uno”, atribuindo a ela uma total carência de
qualidades, o que a torna má. O autor das Enéadas é o primeiro a referir-se ao mal como “a
falta do Bem”. Igual ao platonismo, Plotino postula um objectivo fundamentalmente ético e
estético. O corpo é cárcere (sôma-sema) da alma. Com isto ele quer afirmar que os deuses são
justos e tudo o que eles fazem é para o bem dos homens.

Porém, antecipando a solução oriunda de Plotino, se podería dizer que o mal é de ordem
estético-natural. No fim, o mal será um momento necessário no desdobramento na unidade
primordial, o Uno. Não se trata de um princípio originante ontologicamente, como no
maniqueísmo, mas um momento necessário no processo de emanações que culmina com a
matéria (característica desse pensamento), a causa de todos os males. Em Plotino, o mal
procede da matéria e é identificado como a privação de todas as formas de inteligibilidade
(PLOTINO, 2003 -33-VI) apud (CORDON &MARTINEZ, 1990, p. 30).

No entanto, contemporaneamente, Hannah Arendt (2002), afirma a partir do mal kantiano


radical que, politicamente o mal não é uma “categoria ontológica, não é natureza ou
metafísica”. É político e histórico, é produzido pelos seres humanos e se manifesta apenas
quando encontra espaço institucional e estrutural para ele, devido a uma escolha política. A
banalização da violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento onde a banalidade
do mal se instala (ARENDT, 2002, p. 67).

Queiruga (2011), perante toda esta indagação filosófica que acabamos de ver, adopta uma
postura de entendimento que a simplifica sintética e sintaticamente como uma “qualidade e
um predicado”, pois, o mal não existe em si mesmo, mas antes em acções e nas suas
consequências. O autor centra-se nas variadas discussões sobre a realidade ou irrealidade do
mal, sobre se é ou não algo puramente negativo ou uma força positiva. Queiruga insiste que
essas discussões sejam inecessárias se se tem em conta a sua concepção do mal.

O mal não é realidade em si, mas qualificação de uma acção, um acontecimento, uma
coisa ou um estado de coisas, feita primariamente em relação com a vida humana, à
qual de algum modo causa dano ou contradiz, e que por isso chamamos de “má” ou
“ruim” (QUEIRUGA, 2011, p. 90).

A partir desta concepção, Queiruga dá a entender que “o mal aparece sempre como uma
qualidade; é, portanto, um predicado. Não existe em si mesmo, mas antes em acções e nas
suas consequências. Talvez seja por isso que, de vez em quando, tenha sempre de escapar de
33
alguma filosofia essencialista. É, pois, um conceito relacional, que tem a ver com agir e
padecer, com relações humanas e sociais. Experimenta-se como ruim aquilo que ameaça,
dissolve a ordem, destrói a vida e faz com que os processos desemboquem em catástrofes”.

Por outro lado, Queiruga, revisando todas estas filosofias modernas e antigas sobre a
concepção do mal, descobre-a como uma condição à qual a existência do homem e o seu ser,
não têm, senão nela, referências de saída para lidar com o Criador. Faz entender, que a
concepção da existência do mal no homem é inata, e explica que nenhuma cultura, e dentro
dela, nenhum indivíduo foi capaz de escapar de seu confronto. É por isso que chega sempre
como problema antigo, cheio de ambiguidades e cheio de pré-julgamentos.

Tomado em seu sentido mais óbvio e fundamental, o mal é um “fenómeno


antropológico original” (antropologisches “Urphünomen”). É aquilo que em um dado
momento percebemos como o que não deveria ser; é, como dizia Santo Agostinho, “o
que causa dano” (id quod nocet); acrescentemos: a si mesmo ou aos demais. Não
precisa ter um conceito preciso para se fazer sentir: “é antes um nome para o que nos é
ameaçador” (Queiruga, 2011, p. 15).

Queiruga, não aborda o mal a partir dos cânones normalmente seguidos, não parte da
teodiceia tradicional. Isso também, porque alguns autores já atestam para uma impossível
teodiceia, ou seja, um discurso que não sai do embaraço do mistério. Exactamente como
vimos a sua participação nas indagações acima referidas pelos filósofos.

5.7 Dimensão do mal na Teodiceia


O filósofo francês R. Descartes (1596 - 1650), anterior a Leibniz, organiza o bem e o mal,
como faz com a matemática, em pares ordenados, buscando aquela harmonização geométrica,
aquele equilíbrio das duas colunas, onde uma equivale à outra. Nessa disposição, bem e mal
aparecem aos pares, igualando colunas de modo estético. Ao antigo conjunto de mal físico e
moral, Descartes inclui o malum metaphysium , que caracteriza a finitude humana, tanto
temporal (mortalidade) quanto cognitiva (ignorância)(DESCARTES, 2018, pp. 259-260).
Na verdade, esta terceira forma de mal deveria ser mais diferenciada, além do malum
metaphysicum existe o que se poderia chamar de malum epistemicum, exatamente o problema
da ignorância, do não saber, o do falso conhecimento. Por isso poderia se considerar o
problema da ignorância como a versão cartesiana da teodiceia. Especialmente porque no caso
de Descartes se coloca a questão: se Deus é bom e nos criou, por que então ele não nos
equipou de tal maneira que nunca nos enganemos? Ele poderia ter-nos criado como seres
cognitivamente perfeitos. Mas, então, voltando à questão, por que erramos?

34
Segundo Descartes o erro cognitivo surge como resultado da liberdade humana. Deus não é
culpado pelo nosso erro. Ele, com razão, achou que um ser livre é mais perfeito que um ser
sem a liberdade de errar. Justamente nesta liberdade reside nossa (imagem e) semelhança com
Deus. O ser humano é capaz (“é livre”) de não apenas julgar sobre o que ele pode reconhecer
com certeza, mas ele pode também aceitar como válido um conhecimento não assegurado. E
quando ele faz isso pode cair (e de facto muitas vezes cai) em erro. Justamente nesse descuido
encontra-se “a origem do erro” (DESCARTES, 2018, p. 168).

Descartes, a partir deste conhecimento desenvolve o seu famoso método da certeza, só aceitar
como verdadeira uma afirmação sobre a qual se tenha absoluta certeza (um conhecimento
claro e distinto, em sua terminologia, idea clata et distincta). O primeiro conhecimento desta
forma é o famoso, cogito ergo sum, penso logo existo. Sobre a própria existência (em
primeira linha como um ser pensante – res cogitans – e não como ser físico extenso – res
extensa) não se pode duvidar consistentemente. Uma vez que o ser humano aceita e se
mantém fiel a esta regra, ele é capaz de construir uma ciência isenta de erros (por isso muitos
consideram Descartes um optimista, um megalomaníaco ou um fetichista da certeza). No
campo da moral vale quase o mesmo. Descartes não desenvolve nenhum grande sistema ético
ou moral. No seu Discours de la methode (2013), na terceira parte, ele desenvolve a chamada
moral provisória (ele nunca escreveu uma moral definitiva depois), em três máximas
(resumidamente):

1. Obedecer as leis e costumes do país de sua origem, permanecendo fiel a


religião na qual foi criado;
2. Quando se decidir por uma acção fazê-la de forma consequente até as últimas
consequências (para evitar devaneios);
3. Procurar aceitar o destino, é mais fácil mudar os meus desejos do que mudar o
mundo.

5.8 Dimensão Teológica


O mal é o oposto do bem. Sendo que todo ser, como tal, é bom (são convertíveis
transcendentais), o mal não pode ser uma qualidade positiva do ser, mas a falta de bondade
que deve corresponder de acordo com a sua essência. Em outras palavras, o mal não é uma
“negação”, mas uma “privação”. Dois tipos de mal são distinguidos: (1) mal físico, que
consiste na ausência de perfeição ontológica exigida pela natureza do respectivo ser, por

35
exemplo a dor; e (2) mal moral, que consiste na livre decisão do contrário para o bem moral.
Não há mal subsistente em si, já que todo mal supõe um sujeito que, em sua própria entidade,
abriga certa medida de bondade. Não admitimos, então, as doutrinas dualistas que, juntamente
com o princípio do bem, admitem um primeiro princípio do mal.

Quanto à origem do mal, nunca tem uma causa que aspire directamente a produzi-lo, já que o
objecto da vontade é bom. Se o livre arbítrio é desviado para o mal, é porque o vê sob as
aparências do bem. Também aqui há a distinguir: (a) um mal físico pode ocorrer porque há
duas causas cada uma das quais tende ao seu próprio bem, como um acidente de tráfego ou
porque se deseja um bem que necessariamente exclua outro, como em uma operação cirúrgico
para salvar a vida; (b) em relação ao mal moral, seu fundamento é a decisão pecaminosa da
vontade criada com o livre arbítrio (CIC -549-1505).

Depois da queda original a vontade do ser humano é inclinada para o mal, uma vez que foi
perdido o equilíbrio existente, antes do pecado, entre a inclinação para o bem e a inclinação
para o mal. Não deve passar despercebido que o mal produz uma mudança para pior, não só
em quem o faz, mas também em comunidades onde aquele indivíduo vive. Daí o mal que todo
pecado produz no Corpo de Cristo que é a Igreja, pela união íntima dos membros do dito
Corpo (Corpo de Cristo). Também deve ser levado em conta que o indivíduo humano passa a
existir com as más inclinações que chamamos de concupiscências e que nasce no meio de
relações sociais, familiares, etc., que lhe dão uma oportunidade e até encorajamento para o
mal (CIC-401-1707).

Finalmente, o mal parece apresentar uma séria objecção contra a omnipotência de Deus. Em
efeito, se Deus ama e sabe como remediar o errado, por que Ele não resolve o mal? Responde-
se em relação ao mal físico, que Deus estabeleceu as leis naturais da gravidade,
impenetrabilidade etc., cujos efeitos apenas em casos extraordinários suspendem. Se uma
telha cair de um alto telhado e matar um homem, não vai deixá-lo suspenso no ar até que o
homem tenha passado. Além disso, Deus infinitamente sábio e amoroso, também é
infinitamente poderoso transformando males em bens maiores (Gn.50:20 e Ro. 8:28); e sobre
o mal moral, se Deus fez o homem livre e responsável, por que não lhe protegeu com uma
graça eficaz para que não caísse? Isso é pedir demais (Rom.9:21). Contudo, Deus
providenciou o remédio contra esse mal, pois ele enviou seu Filho unigénito para “pagar a
conta” (Jo 3:16) e o Santo para vencer o poder condenatório do pecado (Ro 6: 1-11) e matar
as obras da carne (Ro 8: 12-13).
36
CAPÍTULO III: A FENOMENOLOGIA DO MAL

Talvez se pergunte, o que é a fenomenologia do mal? À luz do entendimento do pai e


fundador da fenomenologia, o filósofo Edmund Husserl (1859-1938), abordamos este capítulo
definindo a fenomenologia para dar uma súmula explicativa. Na obra “Ideias” (1913),
destinada à introdução da fenomenologia pura, Husserl estabelece a fenomenologia como o
estudo das essências das coisas e das emoções.

No entanto, só as essências de certas estruturas conscientes e particulares constituem o


objecto próprio da fenomenologia. Husserl (1913), define a fenomenologia como o “estudo
das estruturas da consciência que capacitam ao conhecimento para se referir aos objectos fora
de si mesma”. Por conseguinte, neste trabalho, tem-se intuito de reflectir os conteúdos do mal,
preexistentes na nossa mente, os quais são referenciados neste trabalho como “via curta ou
visão tradicional” para excluir tudo demais; ao que se chama, redução fenomenológica. Esta
reflexão não pressupõe que o mal exista com carácter material mas, equivale a pôr entre aspas
a existência, isto é, deixar de lado a questão da existência real do mal contemplado.

Por outro lado, conforme for necessário dado à envergadura do tema a desenvolver, Martin
Heidegger (1889-1976) elucida com a sua versão de fenomenologia, como “aquilo que deve
manifestar o que oculto se encontra na experiência comum diária”. Na sua obra “Ser e
Tempo” (1927), descreve a estrutura do quotidiano no mundo, que é, um sistema
interrelacionado de atitudes, personagens sociais, projectos e intenções. Portanto iniciemos o
estudo, calcando o que diz Andrés Torres Queiruga, sobre a definição e conceito do mal.

1. Definição e Conceitualização do Mal segundo Andrés Torres Queiruga


O pensamento de Queiruga, está permeado pela busca incessante do sentido histórico das
ideias teológicas. Busca que se traduz em retorno obediente à Tradição para de novo redizê-la,
na liberdade e no diálogo com a cultura, nas categorias deste tempo. Queiruga não conceitua o
mal a partir de um estudo filológico. Por isso, no seu livro “ Repensar o mal”, aqui em objecto
de estudo, trata do mal filosoficamente, perspectivando o seu entendimento nos seus diversos
aparecimentos em forma material (mal natural) ou imaterial (mal moral-pecado-culpa-erro)
etc. Segundo Edmund Husserl na sua estrutura fenomenológica, “na sua genuína
manifestação”, é ainda mais grave, se assim se poder dizer, a pluriformidade do objecto
mesmo. “O mal é legião” (…). Não existe o problema do mal, somente muitos problemas, que
se ocupam de muitos males” (QUEIRUGA, 2011, p. 15)

37
Como se pode ver, segundo a citação, é pertinente a discussão acerca da possibilidade da
“teodiceia” ou de um conceito suficientemente unívoco de “mal”. O autor pretende evitar uma
forma subjectiva de entender ou expressar o sentido e referência do mal, o que ele chama de
“labirinto”, apesar de ser consciente da sua proximidade. Tenciona do elementar, a
experiência pela qual todos entendem e interpretam a existência do mal no mundo. Assim,
conhecer o mal a partir da descrição radical dos seus fonemas e morfemas, não é aconselhável
para o estudo fenomenológico apesar das diferenças morais e éticas culturais ou subjectivas
que outorgam legitimidade, uma prática numa cultura e a desaprova noutra. Resulta muito
pertinente esta advertência, porque como podemos ver, debaixo de todas as distinções e em
demasiadas ocasiões, a conceituação do mal, constitui desvio de atenção às suas
manifestações. Veja-se portanto, o que é o mal, segundo Queiruga:

Tomado em seu sentido mais óbvio e fundamental, o mal é um “fenómeno


antropológico original” (anthropologisches Urphanomen). É aquilo que em um dado
momento percebemos como o que não deveria ser; é, como dizia Santo Agostinho, “o
que causa dano” (id quod nocet). Acrescentemos: a si mesmo ou aos demais. Não
necessita ter um conceito preciso para se fazer sentir: “é antes um nome para o que
nos é ameaçador” (QUEIRUGA, 2011, p. 15).

Esta é a definição que mais abrangência dá ao fenómeno do mal, assim como referência e
sentido condignos às suas manifestações. Queiruga entende que o mal é uma realidade que
abstrai a compreensão do facto existencial do homem. Este autor, caminhando ao lado e na
mesma direcção com o Santo Agostinho na sua compreensão da questão do mal, pretende não
só concordar com ele, mas afirmar nas suas anuências de que o mal não só constitui um
fenómeno antropológico, é ainda uma característica da finitude da natureza existencial da vida
do mundo, das mais importantes e antigas como a narração da queda do homem no livro de
Génese 3, constituído pelo manejo das suas vontades, ao qual equipara-se na sua
primitividade e aparecimento. O mal é tão primitivo como a vontade humana, mas posterior à
bondade de Deus. Isso Queiruga prova referindo-se ao primeiro choro dos recém-nascidos.
Será o mal do choro, uma manifestação da vontade do bebé? Até que ponto o bebé consegue
gerir a sua vontade por opção ou por necessidade?

O que é considerado mal nem sequer precisa ser real em si mesmo, diz Queiruga (2011: p.
16), no limite, também um mal imaginário pode atormentar e se apresentar como o que não
deveria ser. Citando Buchner (1992, p. 112), Queiruga (2011, p. 16) afirma: “pode-se negar o
mal, porém não o sofrimento”. Ainda que o sofrimento não seja o único mal, o realismo da
frase corta pela raiz a atenção de evasão teórica.

38
Para compreender, a preocupação com que é desenvolvida este assunto neste trabalho, basta
simplesmente pensar como diz Queiruga (2011) e que já fez-se menção anteriormente, que se
trate disso ao qual remetem igualmente o choro ainda “sem palavra” – infans –do recém-
nascido e a busca de remédio para uma ferida ou uma enfermidade. É isso que o autor conclui
dizendo:

O “mal” é, em seu significado mais elementar e em sua mais inegável realidade,


aquilo que experimentamos como o que subjectivamente “não queremos” e do que
objectivamente pensamos que “não deveria ser”, e que, bem por isso, rejeitamos e
procuramos eliminar ou, pelo menos, suavizar (QUEIRUGA, 2011, p. 16).

Para que, esta abordagem de Queiruga tenha diante de nós a matéria do problema aqui em
discussão, basta uma visita –com os olhos, ouvidos e o coração abertos – a qualquer hospital,
sem falar nos horrores de uma guerra ou devastações tropicais (ciclones IDAI e KNETH) que
assolaram grande parte da Região-Centro de Moçambique, ainda neste ano de 2019, para
compreender a sua terrível seriedade, sejam quais forem as possíveis discussões acerca de
pormenores ou matizes concretos.

2. A posição agostiniana do mal


Santo Agostinho trata da questão do mal em diversas das suas obras. Nas Confissões (1992, p.
126), diz ele que, “procurando a maldade, não encontrou nenhuma substância mas apenas a
perversão da vontade, desviada da substância suprema, isto é, de Deus”. Considera ele aqui,
como achamos evidente, o mal moral, pois que das coisas criadas (desconsiderando os anjos e
os demónios) só o homem pode possuir vontade. Mas a pergunta mais intrigante e
eternamente persistente é, como a vontade sendo de natureza boa se corrompe sem ter tido
nenhuma influência nociva aos seus fins?

Pensando a “vontade” como um carro novo e belo para servir o homem nos seus
deslocamentos, contrai uma avaria pelo uso que dele se faz, ora em estradas boas e planas, ora
nas pedregosas e buracadas. A decisão de reparar e devolver este carro ao bom estado,
depende, portanto, do utilizador e de suas preocupações de deslocamento, do seu estado
económico ou da sua sensibilidade de percepção do estado do carro que, podendo-o
acompanhar nos seus deslocamentos, porém acusa o mal estado e que o possuidor,
simplesmente ignora ou convence a si mesmo que o problema não procede do seu carro mas
das estradas em uso e fica na mesma.

Talvez esta alegoria não seja bastante concisa e suficientemente inteligente ou contundente
para poder interpretar e entender o pensamento do Santo Agostinho, mas imaginariamente o

39
será quando/se pensar a como motoristas conducentes das decisões, a vontade constitua o
maior guia e volante.

Se o mal não existe como substância, então só existe na substância enquanto acidente. Santo
Agostinho, vai mais longe, afirmando que o mal não existe em absoluto, nem para Deus nem
para as criaturas. Deus estabeleceu uma ordem e nenhuma coisa existe que possa alterar essa
ordem. Não obstante, certos elementos da criação em algumas das suas partes não se
harmonizam com outros e, por isso são chamados maus. Porém, como se harmonizam com
outros elementos são, por isso mesmo, bons em si mesmos (AGOSTINHO, 1989, p. 216).

Afirma-se, então, a bondade de toda a criação e, consequentemente, a inexistência do mal.


Todas as coisas são boas e todas concorrem para aquela harmonia estabelecida por Deus e que
nada pode alterar. O mal, mesmo o mal físico, não existe, pois que todas as coisas são boas e
boas em si mesmas. O que é, então, o mal? Digamo-lo com as próprias palavras de Santo
Agostinho, (…) “corrumpi autem non est bonum”.O mal é corrupção pois que, “estar sujeito
à corrupção não é um bem” (AGOSTINHO, 1989, p. 288).

Resulta que a corrupção é nociva e, se não diminuísse o bem, não seria nociva e todas as
coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Aquele mal que Santo Agostinho
procurava não era uma substância, pois se fosse substância seria um bem. Santo Agostinho
pergunta a si mesmo qual seja a origem do mal sendo que Deus, que é bom, fez todas as
coisas? A resposta é clara: Deus não é a origem do mal. Afirma, “(…)” “pareceu-me evidente
que criastes boas todas as coisas e que certissimamente não existe nenhuma substância que
Vós não criásseis”.(Itaque vide et manifestatum est mihi quia omnia bona tu fecisti et prorsus
nullae substantiae sunt, quas tu non fecisti) (ibidem).

Em suma, segundo o pensamento de Santo Agostinho todas as coisas foram criadas por Deus
e todas as coisas criadas são boas. Então, o mal não tem origem em Deus e, nada substancial
que não tenha sido criado por Deus.

Para Santo Agostinho, a ocorrência do mal no mundo é resultado da liberdade humana. Uma
liberdade mal conduzida. Deus criou o homem livre e este, por ser livre escolheu o pecado.
Com isso surgiu o mal moral e o mal físico. O mal metafísico é, apenas uma consequência, o
castigo de Deus. Embora o cristianismo aposte mais na capacidade misericordiosa de Deus
(ao invés da teologia do castigo), esta interpretação situa-se muito próxima da instrução
bíblica.
40
Sob a visão teológica, Agostinho foi um dos que mais profundamente abordou o problema do
mal. Tal abordagem reflectiu sensivelmente na fenomenologia que adensa algumas de suas
obras. Ao contrário dos postulados dos maniqueus, ele, antes de tudo, nega a realidade
metafísica do mal. Para Santo Agostinho, o mal não é ser, mas privação de ser. Tal privação é
imprescindível em todo ser que não seja Deus, enquanto criado, limitado.

Desta forma, ele busca explicar o assim chamado mal metafísico, que não é verdadeiro mal,
porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. Quanto ao mal físico, que atinge
também a perfeição natural dos seres, Agostinho procura justificá-lo mediante um velho
argumento, digamos estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto.
Esta, segundo os especialistas, é a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal.
Quanto ao mal moral, existe realmente a má vontade que livremente faz o mal; ela, porém,
não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal não-ser. Este não-ser pode unicamente
provir do homem, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser.

A teologia bíblica revela que o mal moral entrou no mundo humano através do pecado,
original e actual, razão pela qual, a humanidade foi punida com o sofrimento, físico e moral,
além de perder os dons gratuitos de Deus. Como se pode observar, o mal físico tem, deste
modo, uma outra explicação mais profunda. Remediou este mal moral a redenção de Cristo,
Homem-Deus, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem
moral; mas deixou permanecer o sofrimento, consequência do pecado, como meio de
purificação e expiação. A explicação definitiva dessa questão (do mal moral e de suas
consequências) estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que
não permitir o mal.

Sintetizando a doutrina de Agostinho a respeito do mal, se poderia afirmar que: o mal é, uma
privação do bem (de ser); este bem pode ser devido (mal metafísico) ou não devido (mal
físico e moral) a uma determinada natureza; se o bem é devido, nasce o verdadeiro problema
do mal; a solução deste problema é ética para o mal físico, moral (pecado original e
Redenção) para o mal moral (e físico).

41
3. O mal segundo São Tomás de Aquino1

Como Santo Agostinho, também S. Tomás de Aquino, trata a questão do mal em várias obras.
Contudo, para entender o pensamento deste autor no que interessa, limitar-se-á ao estudo a
algumas partes da Suma Teológica. O que seja o mal e onde a sua origem di-lo S. Tomás de
Aquino no artigo 9, da questão 19, da primeira secção, da primeira parte da Suma Teológica,
cuja epígrafe é: - Existe em Deus a vontade do Mal? (AQUINO, 2003, p. 274).

Segundo S. Tomás (2003), “a razão de bem é a razão de ser atractivo e o mal é o oposto do
bem” E, prosseguindo, afirma: “o mal, contudo, torna-se atractivo por acidente, enquanto
acompanha algum bem”. E daí, o mal que acompanha a um bem é a privação de outro bem. E
São Tomás exemplifica com o caso do leão que mata o cervo para buscar o alimento a que
está ligada a morte do animal, e com o impudico que busca o prazer a que não é possível sem
a deformidade da culpa. O mal concorre para a perfeição do universo, diz S. Tomás
afirmativamente: “o mal só contribui para a perfeição e a beleza do universo por acidente”
(AQUINO, 2003, p. 275).

Há aqui, nesta afirmação da atractividade do mal por acidente, a negação de que o mal seja
uma substância, e também conformidade com a afirmação de Aristóteles a que já foi
referenciada, segundo a qual o bem é aquilo por que tudo anseia. Por conseguinte, o mal não
é. Encontra-se sempre e apenas como referência a um bem (como no caso da morte do cervo -
um mal - referido ao alimento do leão - um bem). Portanto, as coisas más estão sempre,
segundo S. Tomás, ordenadas a um bem maior.

S. Tomás de Aquino distingue o mal da culpa (malum culpae), o mal da pena (malum
poenae), e o mal como deficiência da natureza (malum naturalis defectus): o mal da culpa
priva de uma ordenação ao bem divino e, portanto, será sempre um mal cometido contra
Deus; o mal da pena é castigo de Deus pelo mal praticado; o mal que se traduz em deficiência
da natureza é inerente à preservação da ordem da natureza que implica que algo naturalmente
seja destruído. O mal da culpa, Deus não o quer de modo nenhum; o mal da pena, e também o
malum naturalis defectus, são queridos por Deus, pois que quer os bens aos quais estes males
se encontram ligados. E exemplifica: Deus ao querer a justiça, quer a pena; e ao querer que

1
Análise e interpretação fenomenológica do mal segundo Santo Tomas de Aquino, tirado a partir da leitura do
seu livro Summae Theologiae (artigo 9 da questão 19 da primeira secção da primeira parte) (S.Th.,I/I q.19, a. 9).
42
seja guardada a ordem da natureza, quer que algo naturalmente seja destruído (AQUINO,
2003, p. 275).
S. Tomás cita Agostinho, “ainda que as coisas más, enquanto tais, não sejam boas, entretanto
que haja não apenas coisas boas mas também coisas más, isso é bom”, e afirma que Deus não
quer nem que as coisas más sejam feitas, nem que não sejam feitas. Contudo, quer permitir
que sejam feitas. E isso é um bem (ibidem).

Decorre daqui, que para S. Tomás de Aquino o mal não existe por si mesmo, não é uma
substância, mas afirma-se como acidente na substância que é boa. Afirma-se a ordenação do
mal ao bem. Porém, não deve afirmar-se que “é bom que o mal exista ou seja feito”, porque
nada se julga pelo que lhe cabe por acidente, mas segundo o que lhe cabe por si mesmo.

Mas há males que Deus não quer, outros que quer, e outros ainda que, não os querendo, quer
contudo, permitir que sejam feitos. Aquele mal da culpa que priva da ordenação do homem
para Deus, esse mal Deus não o quer em absoluto, esse não tem origem em Deus. O mal da
pena, o mal que consiste no castigo pelo mal que o homem faz, esse tem origem em Deus e
Deus o quer. Também aquele mal que consiste numa deficiência da natureza Deus o quer e,
porque inerente à própria natureza criada por Deus, tem n’Ele a sua origem.

Mas há ainda um outro tipo de mal, que, parece, não pode deixar de ser mal da culpa, isto é,
feito pelo homem, presente nas coisas más que são feitas, que Deus não quer nem que sejam
feitas nem que não sejam feitas, mas quer permitir que sejam feitas. E este último tipo de mal
levanta a questão da “permissão do mal” e que consequentemente dá estrutura ao dilema de
Epicuro ou de Voltaire. Deus poderia impedir que este mal aconteça. Porém, não só não
impede mas quer permitir que possa acontecer. Porquê? Esta é uma questão difícil. Mas a
solução é comum a Santo Agostinho e a S. Tomás e não temos como sair daqui: há um mal da
culpa que Deus quer permitir que o homem faça. Como se diz no CIC 313, “ (…) ” Deus
permite-o (o mal) por respeito pela liberdade da sua criatura e misteriosamente sabe tirar dele
o bem” (CIC, 1992, p. 78).

43
4. O dilema de Epicuro

Por que existe o mal? De onde vem? Qual o motivo de sua aparição? Para responder essas
questões, Queiruga usa uma argumentação filosófica rigorosa.
“Quando o último recurso que nos resta para desculpá-lo (Deus) é confessar que seu poder
não pôde triunfar sobre o mal físico e moral, certamente prefiro adorá-lo como limitado a
adorá-lo como mau (Voltaire) ” (QUEIRUGA, 2001, p. 191).

Na filosofia clássica antiga, temos o famoso dilema de Epicuro: “ou Deus pôde evitar o mal e
não o quis - então não é bom -, ou quis e não pôde - então não é omnipotente”. Logo, de onde
vem o mal? Se Deus omnipotente e infinitamente bom, que ama, podería acabar com o mal do
mundo e não o faz, é contraditório. A presença do mal no mundo seria um testemunho
negativo e escandaloso do Deus summum bonum. Pois, um Deus que, podendo, não quer
evitar o drama do mal, não é Deus. Nem sequer mereceria o reconhecimento de uma pessoa
ética e humanamente decente. Alguém com o mínimo de sensibilidade não se omitiria em
solucionar, caso pudesse, a fome de milhões de crianças, os crimes bárbaros, as guerras e o
tormento das doenças e da morte. Assim como uma mãe, ao lado de um filho retorcendo-se de
dor, faria tudo para livrá-lo, na maioria das vezes, até seria capaz de se colocar no lugar do
filho ou mesmo de dar a vida para salvá-lo (QUEIRUGA, 2001, p. 185).

Na verdade, Bayle (1647-1706), foi o primeiro a levantar o problema na época moderna,


apontando a contradição: de um lado, a omnipotência e a bondade de Deus; de outro, a
miséria humana. A razão não dá conta de explicar o escândalo do mal. Faz-se necessário
recorrer à fé. Se há permissão divina para o mal, precisa-se ajustar essa permissão à bondade
de Deus. Nesse sentido, Bayle acaba justificando o dilema de Epicuro:
O escândalo do mal é para ele absolutamente irreconciliável no nível da razão. Por
toda parte, há prisões e hospitais, por toda parte há forças e mendigos; a história
falando propriamente, nada mais é que um compêndio de crimes e infortúnios do
género humano (QUEIRUGA, 2011, p. 41).

Segundo Queiruga (2011), foi Leibniz (1646-1716) que iniciou uma teodiceia moderna com
sua nova categoria de “mal metafísico”. Antes de interrogar a Deus, é preciso interrogar as
realidades do mundo. Leibniz lê Bayle como uma transição entre a interpretação pré-moderna
e a moderna iluminista racional. Bayle foi capaz de enxergar a contradição entre o Deus amor
e o mal como castigo do pecado original, mas não apresentou uma solução. “Ao proceder

44
assim, rompe a inércia da formulação tradicional que Deus, embora podendo fazer criaturas
sempre santas e sempre felizes, preferiu que fossem criminosas e eternamente infelizes”
(QUEIRUGA, 2011, p. 44).
Não desamarrou o nó da contradição, apenas o apontou. Na época moderna, foi Leibniz quem
começou a pensar o tema do mal e do pecado a partir de uma vertente secularizada, como
realidades humanas e não divinas. “A direcção do seu pensamento e o motivo íntimo de seu
discurso se enraízam na consideração da estrutura da realidade mundana em si mesma e que,
em última instância, todo o restante deve ser entendido a partir disso” (QUEIRUGA, 2011, p.
46).
Leibniz assume a categoria da finitude para analisar o problema do mal e do pecado original.
Indaga: de onde vem o mal? Sua resposta filosófica é: o mal vem da limitação essencial da
criatura.
Os antigos atribuíram a causa do mal à matéria, que julgavam incriada e independente
de Deus; porém nós, que derivamos todo ser de Deus, onde encontraríamos a fonte do
mal? A resposta é que esta deve ser buscada na natureza ideal da criatura, uma vez que
esta natureza está encerrada nas verdades eternas que estão no entendimento de Deus,
independentemente de sua vontade. Pois é preciso considerar que há uma imperfeição
original na criatura antes do pecado, porque a criatura é limitada essencialmente; e daí
decorre que não poderia saber tudo, e que pode se equivocar e cometer outras falhas
(LEIBNIZ, 1982, apud QUEIRUGA, 2011, p. 47).

O pecado original não é a causa dos males do mundo. Leibniz situa o problema do mal antes
do pecado, não é absolutamente causa do pecado, tira das costas de Adão qualquer culpa pelas
desgraças do mundo. Para ele, a origem é a imperfeição da criatura. Há um mal metafísico
que é a realidade imperfeita e finita da criação, a partir disso, explica o mal físico e o mal
moral:
a) O mal físico, refere-se ao sofrimento da carne humana, como doenças, dor e limitações do
corpo humano. Também cabem nesta categoria os males que atingem a natureza: catástrofes
naturais, guerras e miséria social. O mal físico atinge a todos, justos e injustos.
Experimentamos a mal físico no quotidiano da vida, doenças, injustiças e mortes de pessoas
que amamos. “A limitação das criaturas torna impossível a compossibilidade das perfeições,
dando origem à imperfeição e ao sofrimento. Por isso, ele (Leibniz) rechaça o recurso ao
milagre, que não solucionaria nada” (QUEIRUGA, 2011, p. 49). Entram aqui também as
tragédias naturais, crise ecológica, terremotos, secas e inundações seguem uma dinâmica
interna do funcionamento do mundo, não são castigo de Deus.
b) O mal moral, por sua vez, aponta para a liberdade finita, a culpa e o pecado.
Inevitavelmente aparecerá o erro, a fraqueza e a queda. Isso não tem ligação com Adão, com a
45
serpente ou com o demónio. Faz parte da essência criatural do homem e do mundo
(QUEIRUGA, 1999, pp. 246-247).

O caminho da liberdade humana é dialéctico. Depois da vida, a liberdade é o mais precioso


dos dons, entretanto, percorre o fascinante e desconcertante percurso de construir-se entre
erros, deficiências e conflitos. Ela sempre foi e sempre será limitada e finita. “A liberdade
humana não é má, mas não é capaz de estar sempre à altura de sua exigência; em seu
exercício acaba sendo também culpável” (QUEIRUGA, 2007, p. 109).
Faz-se o que se quer, mas também o que não se quer, as escolhas e decisões, por mais livres
que sejam, trazem consigo um mistério obscuro inconsciente.
Leibniz, desfaz a estrutura do dilema de Epicuro: Deus não é a origem do mal, tampouco o
mal surgiu como consequência do pecado original. Revela ainda que o dilema do filósofo
grego não tem sentido, pois a causa não está em Deus. A filosofia nos ajuda a colocar a
questão do pecado e do mal numa perspectiva moderna e secularizada. Queiruga vale-se dessa
metodologia e olha o problema não mais pela óptica de Deus, mas sim pelo viés
antropológico. A origem de tudo está numa realidade existencial do ser humano e não na
culpa de Adão, nem muito menos no castigo de Deus.
Na época pré-moderna, o mal era explicado numa dimensão extramundana, ou seja, a causa
era atribuída a Deus, demónio, magias e punições de algum ente espiritual. Na época
medieval, a peste negra assolou a Europa e o povo fazia procissões para aplacar a ira divina
pelo castigo da terrível doença. A causa do mal era vista como castigo. No início do período
moderno, aconteceu o terremoto de Lisboa (1755), a catástrofe foi seguramente a maior
tragédia do povo português. Na leitura da época, explicava-se o terremoto como vontade de
Deus. Por sua vez, o tsunami do Japão de 2011, ondas gigantes com enorme poder de
destruição, recebeu uma explicação científica. A partir da autonomia da razão, os
acontecimentos do mundo remetem ao mundo, a outras realidades dentro do mundo.

A humanidade pré-moderna certamente não ignorava a causalidade mundana, porém a


via como continuamente atravessada por agentes extramundanos, de tipo mágico,
mítico ou religioso. Deus e o Demónio, os anjos e os espíritos, a maldição e o mau-
olhado, a magia negra e a magia branca… Tudo isso intervinha continuamente,
causando enfermidades ou curando-as, fazendo prodígios ou produzindo catástrofes,
tentando para o mal ou induzindo para o bem (QUEIRUGA, 2011, p. 58).

Imaginar um mundo sem mal é absurdo, o mal e o sofrimento são realidades inevitáveis.
Apesar da finitude e da imperfeição, a vida é bonita e a criação é a melhor possível. No
46
entanto, a melhor possível contém limites e pode estar repleta de tragédias. Deus cria não
outro Deus, mas sim criaturas finitas. Não se trata de uma antropologia pessimista: a vida é
cheia de alegrias e esperanças, muitas realizações se concretizam, está-se em construção, há
esforço sempre para realizar projectos e transformar a história, há um empenho ininterrupto
na busca de um mundo melhor e mais humano. Contudo, não ficaremos livres da finitude e da
imperfeição, tampouco pode-se imaginar que Deus acabará com o mal de maneira mágica ou
que a vida humana será perfeita num futuro próximo ou distante. Ser-se-á até o fim,
imperfeitos e limitados, o mundo sem mal é tão contraditório quanto um círculo- quadrado.

5. A ponerologia ou doutrina do mal


A nova situação convoca a estudar o fenómeno por si mesmo, isto é, não como algo
imediatamente religioso, mas antes como problema humano, que enquanto tal, afecta toda
pessoa independentemente de sua cultura ou de sua filiação política, filosófica ou religiosa.
Essas diferenças existem, são importantes e devem ser discutidas; porém constituem
diferenças. Elaborar uma doutrina, converte-se em condição indispensável para optar e
justificar críticamente dentre as respostas, a mais própria no questionamento da existência do
fenómeno do mal, aquela que se considere mais convincente e adequada.

A palavra “ponerologia”, é bom deixar claro, é um neologismo (embora não


totalmente novo). Pretende chamar a atenção sobre a realidade radical que a
Modernidade introduziu no problema do mal, obrigando a reflexão a se deter no
estudo das consequências dessa realidade como mediação hoje indispensável.
Convoca, pois, contenção no desenvolvimento e austeridade na reflexão, que, na
medida do possível, deve reduzir os pré-julgamentos para se ater estritamente ao que
mostra a análise da realidade mundana e ao sentido que podem revestir nossas
afirmações sobre esta (QUEIRUGA, 2011, p. 55).

Valendo-se da palavra grega ponerós (mal), Queiruga introduz o conceito de ponerologia,


cuja proposta é uma tentativa de tratar o problema do mal por si mesmo, sendo um problema
anterior a qualquer questão religiosa. Um problema humano, pois afecta a todos sem distinção
religiosa. Para formular argumentos críveis, Queiruga se vale da metodologia e reflexão de
Leibniz com seu “mal metafísico” e edifica assim esta doutrina olhando o problema do mal
não mais pela óptica de Deus, mas agora por uma óptica secularizada. Com perspicácia,
Queiruga quer actualizar algumas intuições de Leibniz e ao mesmo tempo se livrar de
algumas amarras para tornar compatível o problema para a mentalidade actual. Queiruga
(2011, p. 69) diz, “a própria finitude, é o mal primigénio, inevitável.”
Com essa assertiva, a ponerologia de Queiruga (2011) quer tratar o assunto do mal como algo
inevitável no mundo. O mal, portanto, encontra sua origem não numa realidade exterior ao
mundo, mas na limitação e na finitude do mundo. Por causa de sua limitação, o mundo se
47
apresenta como condição de possibilidade que torna inevitável a existência do mal. A finitude
implica imperfeição, e o que sofre de imperfeição é passível do mal, pois está em processo de
construção. O mundo em si é bom, mas como não é perfeito e acabado, é afectado pelo mal. O
mal aparece, então, como uma realidade inevitável.
Luís Ferreira (1993), na sua obra “ Creio em Deus Pai”, e mesmo sem conhecimento desta
doutrina, ingenuamente a iniciava quando manifesta que, se existe mundo, a presença do mal
é possível, pois em qualquer realidade finita e limitada o mal é uma possibilidade. “A finitude
tem, por força, as portas e janelas abertas para a irrupção do fracasso, da disfunção e da
tragédia: do mal” (FERREIRA, 1993, p. 13).

Somente no ser que é infinito e sem limitação, no caso de Deus, é pensável a total ausência de
mal. Dito isso, convém lembrar que a ponerologia não torna inerente finitude-mal. “A finitude
não é o mal. É tão-somente sua condição de possibilidade: condição que torna inevitável sua
aparição.” Por que, então, Deus criaria um mundo onde a possibilidade do mal seria
inevitável? Fique claro neste trabalho desde já que a ponerologia de Queiruga não sai em
defesa de Deus, muito menos o acusa. É algo consequente, ao menos isso testemunha ainda
Ferreira: “Se Deus cria, não pode criar-se a si próprio: tem de criar um mundo finito. Mas, se
o mundo é finito, comporta necessariamente o mal” (FERREIRA, 1993, p. 137). Sem nos
desviar da ponerologia ou nos confundir com o tema da criação em Queiruga, até porque não
é o objectivo aqui, o facto inquestionável é que Deus não poderia criar um mundo perfeito
assim como ele é perfeito. Se criasse um mundo perfeito como ele, esse mundo seria o próprio
Deus prolongado, daí a sua imperfeição. Portanto, “ a natureza do mal não é um problema de
Deus, mas da criatura” (QUEIRUGA, 2006, p. 139).

48
CAPÍTULO IV: IMPLICAÇÕES E CONSEQUÊNCIAS DO MAL NA
ACTUALIDADE

Nas páginas do livro “Repensar o Mal. Da Ponerologia à Teodiceia” (2011) de Queiruga, se


percebe a insistência de duas palavras-chave nos títulos: “recuperar” e “repensar”, o que
indica a preocupação do autor em repensar a fé que está a ser condicionada nos tempos
modernos pela existência do mal, de modo que, querendo actualizar sua compreensão, seja
possível recuperar hoje a Experiência da ética-cristã, humana, fundamental e original.

1. A cosmovisão do mal na ponerologia de Queiruga


Segundo Queiruga (2011), “o pensamento moderno afirma inequivocamente a autonomia do
mundo”. Mas, sustenta ao mesmo tempo que “se Deus quisesse - não haveria mal algum, e o
mundo seria perfeito”. O ser humano não teria nenhuma “tendência perversa”; o seu
comportamento seria ideal e o mundo em si seria tão perfeito que leis físicas bem
constituídas, tornariam as catástrofes naturais impossíveis, isto é, aqueles em que a mão do
homem não teria intervindo, o que causa tanta dor e sofrimento (QUEIRUGA, 2011, p. 22).

Queiruga, toma como ponto de partida o dilema que, com relação à existência do mal e dos
deuses, levantou Epicuro: “ou, Deus não quis, ou Deus não pode evitar o mal no mundo”. Em
qualquer das hipóteses, é impossível aceitar a existência de um Deus que não quer ou não
pode. Este dilema, opina Queiruga, “foi assimilável (isto é, tolerável, não produziu sérias
consequências de perda da fé) em uma cultura de fé ambiental, mas hoje, na nova era crítica,
torna-se uma dificuldade insuperável”. Levada a sério, torna impossível a crença em um Deus
amoroso e providente.

Conforme Queiruga (2011), “é sustentado ao mesmo tempo que: a) Deus é amor; e b) mesmo
podendo, não quer eliminar todo o horror do mal no mundo. Então é declarado não um
“mistério”, mas uma contradição. Desta forma o mal se torna a “pedra sobre a qual o ateísmo
se fundamenta”, porque nessas condições a ideia de Deus, pelo menos a do Deus bom e
omnipotente, a única coerente vem a ser inaceitável (QUEIRUGA, 2011, pp. 21 - 23).

Prisioneiro neste dilema, Kant proclamou o fracasso da teodiceia. O fracasso para os crentes,
porque a imagem do Deus deles é incrível, já que Ele não quer, ou querendo, não pode. O
fracasso do ateísmo moderno, é que ao atribuir o mal a Deus, nega a autonomia do mundo.
Agora, o fracasso proclamado por Kant afecta apenas a teodiceia pré-crítica em um mundo
secular. O propósito deste capítulo é dimensionar o mal, tomando a secularidade com todas as
49
suas consequências, como um sinal dos tempos. Portanto, observando a crescente
secularização e analisando o ateísmo radical, o autor, é forçado a partir de baixo respeitando a
autonomia do pensamento humano. Então o problema do mal é dimensionado em três etapas
diferentes:

1) A “linguagem” ou discurso racional


Lida com a existência do mal no mundo (este é um bom neologismo cunhado por Queiruga a
partir do adjectivo grego ponerós, ruim / mal, would, substantivo, é “ o mal”), demonstra a
finitude deste mundo, constituitivamente deficiente e contraditório, o que torna inevitável que
nele haja mal por ser finito e material.

1) A “pisteodiceia”
Formado pela união de “pistis” e “teo-dikaía”, justificação de Deus (de sua existência e
desempenho), a partir do resultado substancial obtido pela linguagem indica que toda
concepção do errado é uma resposta, uma “fé” que deve ser justificada: seja esperança
religiosa.

2) A “teodiceia”
É o resultado dos esforços dos anteriores: acaba por ser uma “pisteodicéia” cristã que tem os
elementos necessários para resolver o dilema de Epicuro: “Deus não é o criador do mal, mas
Deus é o “Anti Mal” (QUEIRUGA, 2011, p. 233). Por excelência, dá coerência à imagem de
Deus e explica a existência do mal como requisito intrínseco à própria existência da finitude
da matéria. Nestas palavras, é onde a solução para o problema da existência do mal surge
intrinsecamente.

O primeiro tem como constituinte o verdadeiro pano de fundo da concepção antiga do mal,
apoiada pela confiança em Deus. A divindade poderia evitar o mal, mas não o evita por razões
misteriosas que nunca podem ser entendidas completamente. Existem mistérios que a
inteligência humana não consegue entender e que são respondidos pela confiança em um
Deus que, por ser Deus, deve ser omnipotente e bom. Na verdade, esta resposta sempre foi
suficiente durante séculos para os cristãos, em resposta ao dilema de Epicuro. Agora, embora
legítima, como afirma Queiruga para outros tempos, é uma resposta tradicional, porque na
presente época, faz-se necessário ir salvar a fé em Deus e voltar a acreditar na sua existência.

Mas, por outro lado, já que um é explícito e sistemático com os resultados do caminho
"Ponerologia", esta rota vai além de aceitar o mistério puro e chamadas para a aceitação da
reflexão com todo seu impacto, seu resultado decisivo. A inevitabilidade da aparência do mal
50
em qualquer mundo finito, torna-se pergunta sem sentido sobre a possibilidade de um mundo
sem o mal, expondo a armadilha escondida, que apoiou o famoso dilema de Epicuro. A crítica
moderna tinha introduzido na coerência da ideia de Deus e finalmente rompe (QUEIRUGA,
2011, pp. 207-208).

Assim, segundo Queiruga, “a necessidade de salvar a Fé” responde adequadamente à


dificuldade da existência do mal e afirma a possibilidade da salvação escatológica no final dos
tempos. Por fim, atualiza a compreensão de temas tão vívidos quanto o pecado original, a
providência, o milagre, a oração de petição, o holocausto e o inferno.

2. O erro e a culpa
“Apesar da sua universalidade trágica, a existência não pode derivar da essência”. Assim,
Queiruga inicia a sua aporia procurando distinguir entre responsabilidade e causalidade com
respeito ao acto moral. Heilsverstandnis (1966, p. 159), apud Queiruga (2011, p. 79) diz que a
culpa é “em princípio evitável”; caso contrário, não seria minha; porém, de facto aparece em
todos, e aparece sempre. Não obstante, a tudo isso, para Queiruga a culpa não tem que existir
certamente, no sentido de que seria uma necessidade exterior para nós. Porém, está se more aí,
e sabemos muito bem que esta contínua presença está em nossa vida de modo completamente
diferente de como o estaria se fosse um acidente simplesmente casual, cuja possibilidade
pudesse ser completamente eliminada”. (QUEIRUGA, 2011, p. 79).

Trata-se da remissão a um facto tão inegável como impenetrável, que Reinhold Nieburh
(1972, p. 59), expressa sóbria e energicamente: “onde quer que haja história, há liberdade; e
onde há liberdade, há pecado”. Esta passagem constitui uma dialéctica originária e específica,
e, portanto, não dedutível a priori. Querer compreender um acto da liberdade é absolutamente
contraditório. Podemos ver que tudo o que o homem, como ser concentrado faz, tem o duplo
carácter da responsabilidade e da necessidade. Há portanto, um destino em tudo o que
decidimos com a nossa liberdade. E vive a liberdade em tudo o que se experimenta como
destino. Por isso, não é racionalizável por completo (a liberdade). Somente podemos ter
consciência dela na nossa própria experiência e avaliá-la a partir dela, sem deduzi-la a
categorias inferiores de ordem natural, porque a anulariam, negando-a em sua especificidade.

3. O mal como problema humano


Partindo de uma questão fundamental, existe o Mal? Queiruga, responde afirmativamente a
partir das indagações do seu Repensar o Mal (2011), aqui em objecto de estudo. Queiruga
aceita a existência do enigma da malignidade, presente no ser humano, ou seja, no mundo da
51
vida do ser humano. Há desde a origem da vida, um pecado primordial, um mal primordial.
Há uma dimensão obscura no ser humano no mundo. Algo que não conseguimos superar
completamente. Trata-se de uma visão dialéctica: o ser humano é um mistério de luzes e
sombras, amor e pecado. Tomemos como guia para a compreensão deste tema, a alegoria do
joio e do trigo, segundo o Evangelho de São Mateus (Mt 13,36-43). O agricultor semeou o
trigo, não o joio, mas devido às limitações do solo, aparece misteriosamente o joio. Ambos
acabam crescendo juntos e, até não ser possível separá-los. Contudo, é possível combater o
joio, fazendo uma opção fundamental: querer cultivar o trigo e não o joio.

Metaforicamente, o trigo representa a dimensão luz-amor da condição humana, enquanto o


joio representa a dimensão sombria do pecado e do mal. Entretanto, somente na colheita
haverá a destruição final. Essa metáfora da parábola é muito rica e pode nos ajudar a pensar a
epistemologia de Queiruga sobre a realidade dialéctica do mal no ser humano. Assim como o
joio, o mal surge misteriosamente. O joio não é punição da natureza, mas uma possibilidade
dos limites do solo. O mal é consequência da finitude das criaturas. O mal, portanto, em
forma de pecado, existe e acompanha a condição humana desde os primórdios. “Essa
realidade puramente antropológica e natural do mal, afinal, atinge todos os seres da criação e
estará sempre presente” (QUEIRUGA, 2011, p. 41). Sem pessimismo, pois a vida é bonita e
cheia de esperança, contudo, a ferida do mal está sempre aberta, pois trata-se de uma
realidade que atinge a todos, ateus e crentes, judeus e cristãos, muçulmanos e budistas, enfim,
todas as tradições religiosas.

A segunda questão a ser enfrentada é a seguinte: Queiruga concorda com a doutrina do mal
segundo a linguagem do mito da queda? Absolutamente não. O mal e o sofrimento não
resultam do pecado original, seguindo a lógica do mito da queda, segundo a qual Deus criou
tudo perfeito no paraíso, num estado de felicidade extrema, e o homem primitivo desobedeceu
a Deus, surgindo por isso o mal e todas as mazelas. As coisas tristes do mundo não são
castigo, essa linguagem doutrinal mancha a imagem do Deus-amor.

A preocupação de Queiruga é formular uma nova imagem de Deus, ou seja, busca “recuperar”
ou “repensar” nossa maneira de enxergar Deus e sua actuação no mundo. Por esse motivo ele
sempre pontua que Deus se revela na realização humana e nunca está contra a criatura, ao
contrário, está a favor, sempre. Mas como lidar com um Deus que ama e com o problema do
mal? Como crer em Deus diante das guerras e genocídios, com crimes e terrorismo, com fome
e exploração, com dor, doença e morte? Queiruga (2011, p. 101), introduz um novo conceito
52
dentro da problemática: a pisteodiceia (do grego pistis, fé). A fé é um acto de crer em Deus
apesar do mal e isso envolve a necessidade de entender a característica inevitável da criatura,
a sua finitude. Uma fé viva compreende por instinto que, se há mal no mundo, não é porque
Deus o queira ou permitiu, senão porque não pode ser de outra maneira, em última instância,
porque resulta inevitável. Agora não é mais uma questão de omnipotência ou soberania, é
uma questão de amor, este sim poderoso.

Essa nova perspectiva faz toda a diferença: crer que Deus cria por amor e que por isso toda a
sua força está sendo aplicada em ajudar na luta contra o mal, contra tudo aquilo que fere,
oprime e distorce. Deus está do lado da criatura e contra o mal. O argumento do autor segue a
ideia da superação de uma teologia que se distancia de uma visão metafísica de Deus (que
ficava distante de nossas misérias, imutável e intocado por elas). Completa esta visão
afirmando que a compreensão de Deus salienta o seu carácter activo na história. Amando,
afectando-se com o sofrimento, e respeitando a autonomia humana está sempre voltado para a
realização e a possível felicidade do homem e da mulher. “Ele é o primeiro afectado, porque o
mal que acontece ou que se comete, consiste, antes de tudo numa contradição directa à sua
acção criadora” (QUEIRUGA, 2011, p. 223). Daí sobressai uma imagem de “Deus como o
grande companheiro, o camarada no sofrimento”, mobilizando todos os recursos, solicitando a
liberdade do homem, para, colaborando com ele, lutar contra o mal. É importante salientar
que, para o autor, a nossa tentativa de lutar contra o mal é sempre resposta à iniciativa do
amor divino.

4. A modernidade imanente
O que se quer dar a entender com esse título é um convite a uma autêntica epoché (evpoch,):
trata-se de pôr entre parêntese as convicções espontâneas da teodiceia tradicional sobre o mal,
para questionar de novo sobre a sua consistência. Ou seja, pretende-se buscar as bases sobre
as quais o mundo da vida moderna assenta e é caracterizada, ou por outra, alertar sobre o que
poderia chamar a imanentização moderna no modo de considerar, ser e viver o mundo actual.
Com respeito a isto, diz Queiruga:

“Convém recordar que apesar da enorme e caleidoscópica variedade do mal, assim


como dos condicionamentos culturais ou das distinções teóricas que, por vezes,
podem e devem ser feitas a propósito das variedades e dos casos concretos, é
abundante a segurança do facto de que existe o mal. Pode-se discutir acerca de suas
definições, mas não sobre sua realidade; sobre sua essência (was), não sobre sua
existência (dass). O sofrimento, a catástrofe, a culpa, a fome, a enfermidade, a morte,
o crime, o genocídio, o mal exercido ou o mal padecido…constituem um desafio que
está mais aquém, ou mais além, de toda negação teórica ou de todo jogo especulativo”
(QUEIRUGA, 2011, p. 58).
53
A palavra pode ser estranha mas a sua significação é simples. De maneira espontânea, hoje,
Santander (2000), evidencia que todos buscam a causa de qualquer mal em realidades
mundanas: quando há dor procura-se a ferida; diante de um assassinato busca-se o malfeitor;
se há uma guerra é porque existem decisões sociopolíticas que a produzem. Ninguém iria
explicar hoje esses acontecimentos pelo influxo de agentes extramundanos de tipo mágico,
mítico ou religioso, como acontecia. Na doença recorre-se ao médico; pretender curá-la
mediante uma bênção do sacerdote tem um sabor inevitavelmente arcaico. Resultaria muito
estranho que hoje um historiador pretendesse explicar certos acontecimentos recorrendo a
influxos demoníacos, passando a modernidade imanente a surgir da cultura descartável e
globalizadora da moral do sentido da vida e a necessidade da fé em Deus, (SANTANDER,
2000, p. 11).

Não poucos moralistas, como é o caso de Marciano Vidal (1977), falam de uma “crise” ao
nível do comportamento moral do Homem contemporâneo. Mas será que se pode falar numa
crise dos valores morais ou deve-se falar, antes, de uma mudança no entendimento desses
mesmos valores morais na modernidade imanente? Segundo este autor, na modernidade vive-
se uma crise que aparece como uma “desmoralização”, ou seja, observa-se uma crise ao nível
ético, se não no todo da humanidade, pelo menos em alguns grupos e/ou sociedades. Assim, a
desmoralização abrange o mundo da vida do homem moderno em três diferentes graus de
profundidade.

4.1 Primeiro Nível (exterior)

A desmoralização como imoralidade. Esta forma de entender a moral, apesar de ser a mais
imediata, é também aquela que mais equívocos, pode causar, uma vez que envolve uma
“quantificação” o que, segundo o autor referido, é dúbio porque a estatística não é uma
avaliação moral (VIDAL, 1977, p. 16).

Se, por um lado, é óbvia a existência abundante de males morais no nosso tempo, bem como,
o aumento das possibilidades de fazer o mal através da tecnologia e de meios de acção que
não existiam no passado, por outro, nunca houve, na história da humanidade, uma quantidade
tão vasta de associações, grupos e instituições com o objectivo fundamental de fazer o bem. É
neste sentido que Vidal coloca a questão “a observância de tantos males no mundo actual, não
dependerá, em parte, de um aumento da sensibilidade moral dos homens?” (ibidem).

54
A verdade é que, embora se viva num tempo no qual existem direitos universais, um tempo
onde as organizações humanitárias proliferam, o progresso trás também algumas
possibilidades de fazer o mal que antes não existiam, como as armas biológicas ou de
destruição massiva, a genética usada sem parâmetros éticos que limitem o seu campo de
acção, o fácil acesso à utilização de drogas, e um sem número de outras possibilidades. Posto
isto, pode-se até dizer que a imoralidade moderna tenha, de facto, sofrido um aumento, mas o
que não se pode afirmar é que esse aumento de imoralidade seja causa exclusiva da crise
moral. Pode ser, efectivamente, um aspecto do problema, mas nunca a sua causa isolada.

4.2 Segundo Nível (exterior)

A desmoralização como permissividade. O pluralismo das sociedades modernas e


contemporâneas traz como consequências a permissividade e a tolerância, aspectos estes que
condicionam tanto a forma de viver como a de formular a moral. De acordo com a perspectiva
de Vidal (1977, p. 15), um dos fatores decisivos para que se fale em desmoralização na
modernidade imanente é a “publicidade” que hoje se faz sentir, relativamente a certos
comportamentos reprováveis e que antes se mantinham na esfera do privado. Há, mediante
esta publicidade do mal moral, toda uma situação de confusão que se cria à volta dos valores
éticos. Ou seja, a publicidade torna as falhas morais vulgares, “naturais”, o que leva à
relativização dessas mesmas falhas, bem como à diminuição do nível de reação moral face a
elas. Isto é algo que, indubitavelmente, se reflete na educação, no crescimento e no modo de
vida das sociedades modernas.

4.3 Terceiro nível (interior)

A desmoralização como amoralidade. Amoralidade será, assim, o nível mais profundo da


desmoralização, na interpretação de Vidal, no mundo de hoje, está a surgir um tipo de
Homem amoral, que é resultado das sociedades que temos (VIDAL, 1977, p. 20). A vida da
humanidade é atualmente condicionada por inúmeros traços socioculturais, e as nossas
sociedades são pluralistas, globalizadas e regidas pela “lei do consumo” (BAUMAN, 1997, p.
78). Assim, a esta “sociedade de consumo”, encontra-se diretamente ligada uma diminuição
do nível ético do mundo, dado que o consumismo, aparecendo como base e objectivo, põe em
causa a ordem dos valores morais. A sociedade de consumo, ao negar a moral, desmoraliza o
Homem e provoca a amoralidade.

55
Ainda segundo a opinião de Vidal, prestou-se pouca atenção ao ateísmo no campo da moral,
sendo que a desmoralização apresenta consequências tão negativas como o ateísmo. Mais, a
desmoralização forma mesmo uma unidade com o ateísmo. Sendo a questão moral algo de
constituinte no ser humano, e sendo o Homem um ser de índole político e/ou social, esta
sociedade de consumo dos nossos dias vai, seguindo esta ordem de ideias, atacar precisamente
o núcleo íntimo da pessoa humana, desmoralizando-a (VIDAL, 1977, p. 18). Mas, como é que
uma sociedade se deixa desmoralizar pelo consumo? Segundo Ortega y Gasset (1943), são
vários os mecanismos que levam a modernidade imanente a esta desmoralização. O
surgimento do Homem massa, diz Ortega y Gasset (1943: p 221), está a destruir a moral
social, e conforme esclarece (VIDAL, 1977, p. 24), o homem massa nega acreditar que exista
hoje algum grupo informado por um novo ethos que tenha traços de moral.

A sociedade de consumo está, assim, a produzir o efeito de uma diminuição ética, o que
conduz à crise dos valores, e, por conseguinte, da liberdade: “El urbanismo, originado por la
sociedad tecnificada y massificada, tiene indudables ventajas, pero conlleva también una
série de desvantajas que atacan al núcleo íntimo del hombre como realidad ética” (ORTEGA
Y GASET, 1943, p. 221).

A desintegração das relações humanas – Esta é uma consequência que deriva diretamente do
fator tecnologia, enquanto desintegrador do humano, do pessoal. A identidade pessoal de cada
ser humano é posta de lado e o Homem passa para a esfera do utilitarismo e da quantificação:
é “consumidor”, é “comprador”, é “produtor”, é definido por números, etc., (VIDAL, 1977, p.
24).

A publicidade e a propaganda são fatores de desmoralização na medida em que controlam


grande parte da vida humana. A verdade é que o homem contemporâneo vê a sua moral
condicionada, como afirma Vidal, relembrando Sartre, pela “tirania da palavra” que vai
sugerindo ao Homem o que pensar, o que fazer, o que consumir, etc., substituindo a própria
moral.

Degradação do amor e da sexualidade, aparecem nesta sociedade como produtos, esvaziados


do seu próprio sentido e importância. O amor e a sexualidade são utilizados como meios de
publicitar produtos e obviamente que esta é uma forma que faz perder o seu verdadeiro
significado que, se vê banalizado e vazio de sentido (ibidem).

56
A violência como forma de relação interpessoal, a relação entre os homens vê-se
comprometida por uma certa agressividade que advém das nossas sociedades consumistas,
que alimentam guerras, conflitos laborais, competitividade, etc., (VIDAL, 1977, p. 25).

Com o empobrecimento do espírito humano, o valor das coisas sobrepõe-se ao valor do


próprio Homem na sociedade de consumo; daí que se fale num “empobrecimento do espírito”.
A nossa civilização de massas, pluralista e secularizada, sobrevaloriza os detalhes com menos
importância, perdendo de vista a totalidade e o sentido da vida. Há, por parte do Homem que
vive numa civilização técnica, uma incessante busca de respostas científicas para tudo,
esquecendo-se que o núcleo da pessoa humana é indecifrável e misterioso (VIDAL, 1977, p.
26).

Ao interpretar o Repensar o mal (2011) de Queiruga, vê-se que o autor vive e observa a
pressão duma modernidade que afirma a autonomia do mundo. Ateus e teístas partilhando
mesmo pressuposto mitológico de um intervencionismo divino nas manifestações do mal, ou
seja, voltam as costas à verdadeira génese do mal e atribuem-no a outras fontes e se exculpam
a si mesmos: se Deus quisesse, não haveria o mal, e o mundo seria perfeito. O dilema de
Epicuro – que propõe não haver lugar para o mal se Deus for bom e omnipotente, quando
assimilado em outro contexto cultural, se transforma em dificuldade insuperável na nova “era
crítica”. Por isso Kant alerta o fracasso para o ateísmo moderno que se apoia no mal, pois, ao
atribui-lo a Deus, nega a autonomia do mundo. Mas uma coisa está clara nesta modernidade
imanente, diz Queiruga.

Na cultura actual, diante de qualquer fenómeno estranho, quando se procede com um


mínimo de rigor, a explicação é procurada dentro do âmbito mundano, seja em forças
inexploradas da terra e do cosmo, seja em interesses ou dinamismos sociais, seja em
heranças ou condicionamentos históricos e culturais, seja finalmente em pulsões ou
influências do inconsciente (QUEIRUGA, 2011, p. 59).

De facto, é possível elevar à condição de princípio axiomático a afirmação de que tudo o que,
em nível empírico, acontece no mundo tem uma causa dentro do mundo. A nenhuma pessoa
sensata, ocorrerá atribuir ao demónio - ou a Deus - o tsunami, a peste ou o terremoto ou o
ciclone Idai e Keneth. E ainda que, depois da última guerra mundial (1939-1945), alguns
teólogos importantes tenham falado – talvez demais - do “demoníaco”, a nenhum historiador
sério ocorrera se valer da influência do demónio em Adolf Hitler, em Joseph Stalin ou em
Pol-Pot para explicar o nascimento e as atrocidades do nazismo, do gulag ou dos killing
fields, (QUEIRUGA, 2011, p. 59).

57
Em outras palavras, em estrita legitimidade cultural e neste nível, a pergunta pela origem do
mal remete hoje de maneira praticamente unânime ao próprio mundo: dado o que é o mundo e
como funciona seria impossível que não se produzam nele dilacerações e conflitos quer no
nível da história natural quer no nível da história humana. Bastaria passar os olhos pela
bibliografia sobre o mal para aperceber-se que na modernidade imanente, o mundo tal como é
conhecido, o mal é algo inevitável. Mas com isso a pergunta não está esgotada; ela retorna
num segundo nível, seria possível um mundo diferente no qual não houvesse conflitos,
ruturas, crimes e sofrimentos, um mundo sem mal? Este é, sem dúvida, o núcleo mais duro do
problema. Por isso, é necessário proceder devagar na reflexão e estar atentos às possíveis
armadilhas do preconceito.

58
CAPÍTULO V: RECOMENDAÇÕES ÉTICAS FRENTE À REALIDADE
DO MAL: A PROPOSTA DE QUEIRUGA PARA A PRÁXIS ANTIMAL

O mal atinge aos homens antes como realidade existencial do que propriamente racional.
Sendo assim, toda a reflexão somente terá sentido se auxiliar a tomar posição frente a esta
realidade vital, ajudando a mobilizar as nossas forças a fim de combater o mal em suas
múltiplas facetas e tirando o homem do imobilismo ou do desespero. Diante disso, veja-se
como a teologia de Queiruga, leva a uma atitude cristã frente ao problema do mal.

1. Deus o antimal
Queiruga faz lembrar que a atitude divina revelada em Jesus Cristo, não deixa dúvidas de que
Deus é o antimal. Na “trans-história”, através de uma vitória definitiva pela ressurreição. Na
história corrente, através de vitórias parciais e progressivas, antecipadoras da vitória final. E
essa actitude divina deve aparecer como digna de fé na acção dos cristãos. Assim, estes
devem empreender uma luta constante e sem tréguas contra o mal, pois tudo o que se oponha
à plenitude humana, desde a falta de pão até a de liberdade, desde a ausência de esperança até
a escassez de moradia, desde o desconhecimento do evangelho até a falta de trabalho... tudo
deve ser combatido, porque está no lugar oposto ao de Deus: contra Deus e contra o homem.
“Com efeito, já foi dito, porem cabe repetir a partir desta nova fase: quando na perspectiva de
Deus como Antimal se lê todo o transcorrer da Bíblia, aparece com evidência que esse é o seu
movimento mais autêntico, a mensagem decisiva que deus pretende entregar à humanidade.
Pois o grito que o atravessa de um lado para outro é o seu chamado para colaborar com Ele
naquilo que constitui a sua máxima preocupação: o remédio e a ajuda diante do mal e do
sofrimento” (QUEIRUGA, 2011, p. 235).

Queiruga defende a superação do dualismo natural-sobrenatural e recomenda a atitude da


ética-cristã, na qual a acção de Deus no mundo ocorre como uma intervenção vinda de fora.
Com referência às criaturas, Deus não faz alguma coisa ao lado delas, para completá-las, nem
em seu lugar, para supri-las, a acção de Deus nas criaturas é fazer com que elas façam. A
acção de Deus no mundo, que é sempre uma acção transcendental, só se torna visível através
de uma acção imanente, ao mesmo tempo em que toda a acção, enquanto sustentada pela
acção divina. Daí que a práxis ética-cristã deve ser incansável na luta contra o mal, pois a
acção humana contra aquilo que desumaniza o ser humano é ela mesma também uma acção
capacitada e sustentada pela graça divina. Não é por acaso que o amor ao próximo constitua o
59
centro da fé cristã, o mandamento que vai além de todos mandamentos, mas porque o ponto
de partida da imagem cristã de Deus é o facto de que Deus é amor (QUEIRUGA, 1999, p.
122)
A teodiceia de Queiruga, permite á teologia recuperar o seu esplendor e à práxis religiosa uma
crítica da modernidade para uma vivência institucional concreta, que modifique o pensamento
hostil de muitos contemporâneos, a ver no Deus como proposta opressiva, contrária à vida e
até provocadora de dissensões, perseguições e guerras. Desta forma, Queiruga afirma que em
muitas religiões e em muitos movimentos religiosos, especialmente no cristianismo, o
princípio amor adquire um primado indiscutível (ibidem).
Já foi referenciado no capítulo II, as diversas dimensões teológicas sobre o mal pelas quais
Queiruga reconhece o valor salvífico de todas as religiões, defendendo um verdadeiro
pluralismo. Porém, o seu pluralismo não é um pluralismo indistinto, mas um “pluralismo
assimétrico”, pois, embora Deus salve em todas as religiões e culturas, Queiruga não abre
mão de dizer que a plenitude da revelação se dá em Cristo. E, além disso, convoca ao
acolhimento do amor filial, participando no dinamismo do seu amor e ver o semelhante como
um irmão ou irmã a quem se deve amar e servir.
Tal visão grandiosa do amor de Deus, própria da mais genuína herança cristã, abre também
uma visão grandiosa do ser humano, que afinal de contas é sempre visto pela revelação
bíblica como imagem e semelhança de Deus. É por isso que Queiruga afirma que “Deus
acontece no amor”, ou seja, “onde alguém ama, está tornando visível e operante a presença de
Deus”. Um amor activo, que justamente por actuar rumo à comunhão, é força de realização, é
dinamismo criador (QUEIRUGA, 1999, p. 125).

2. A proposta ética de Queiruga: crer em Deus como o antimal


A constatação da operatividade do amor divino no amor humano, como único caminho para a
superação do mal, abre-nos para o tema das consequências sócio-históricas da fé cristã. A
consciência moderna de que a sociedade é uma construção humana abriu caminho para a
constatação de que o amor cristão, caso queira ser real e eficaz deve ser introduzido também
por esses canais (sociopolíticos), menos visíveis, porém muito mais influentes na vida
concreta dos homens e das mulheres. Qualquer pessoa que tenha sensibilidade e inteligência
sabe que a melhor maneira de amar os desamparados, é ir além da simples visita ou
assistência particular, mas também se organizando politicamente para garantir-lhes o direito à
assistência social.

60
Está certo que este é o ideal nunca atingido nem atingível, e que certa razão tinha
Nietzsche quando afirmou, precisamente em O Anticristo, que “só houve um cristão, e
esse morreu na cruz”. Porém não seria justo ignorar que, sem chegarem à perfeição,
houve, há e haverá cristãos e cristãs que o seguem a maior ou menor distância; nem
que a “lembrança perigosa” do Nazareno continua mobilizando águas muito vivas e
profundas da consciência humana, até o ponto de que se faz na história, umas vezes a
partir da confissão expressa e outras sem nome ou mesmo – na sem culpa por parte
dos crentes – renegando o nome (QUEIRUGA, 2011, p. 289).
A possível diástase entre praxis e teoria é anulada pela raiz. O Deus Antimal convoca ao
trabalho da história, à luta contra o mal. Trabalho inacabável, porem não absurdo senão
repleto de esperança, mesmo de “esperança contra toda esperança” (Rm 4, 18). Tarefa
solidaria a unir-se a todo esforço pelo bem humano, único e definitivo critério da verdadeira
fé neste Deus: crêem nele os que – e só os que – dão de comer ao faminto e vestem o nu (Mt
25, 37-39).
A filosofia e teologia apresentadas neste trabalho, embora persigam o rigor do autor, não
pretendem ser unicamente um exercício de intelectualismo, mas também um instrumento ao
serviço do que realmente importa: o empenho dos seres humanos na luta contra aquilo que os
impede de ser e viver em plenitude. A práxis está em primeiro lugar. Porém, o que o autor
demonstra é que o empenho na luta pela superação do mal não implica o abandono da
coerência lógica. Ao contrário, a busca desta coerência ajuda e sustenta a luta concreta,
enquanto a supre de sentido e abre caminhos de esperança.

A teologia de Queiruga, embora feita em contexto europeu e visando responder aos problemas
próprios daquela cultura, também colabora para a reflexão sobre a questão do mal em
contexto africano, pois como bem referiu-se no seu livro repensar o mal (2011), é (o mal)
tomado em seu sentido mais óbvio e fundamental, um “fenómeno antropológico original”.
Isso, porque um Deus que se revela como amor sem limites, que se empenha inteiramente na
salvação de suas criaturas, garantindo-lhes a vitória sobre o mal na ressurreição e o apoio no
esforço por vitórias parciais neste mundo em evolução, que cria o ser humano como co-
criador, e portanto, como canal directo para a sua acção na história, contrasta frontalmente
com aquela visão fatalista de uma certa religiosidade popular que se resigna diante das
desigualdades sociais porque “é Deus quem quer assim”, como bem aponta a teologia da
libertação.

61
3. A necessidade do caminho ético na modernidade
Face ao individualismo pós-moderno, que começa a entrar efusivamente em nossa cultura
africana, inclusive na religião, a filosofia e teologia de Queiruga no Repensar o Mal, lembram
que a superação do mal ocorre no esforço humano de ser pessoa, que ao contrário de ser
fechamento em si mesmo, é abertura, numa disponibilidade para uma relação íntima e
profunda com Deus, mediada pela doação aos irmãos e pelo esforço de humanização das
estruturas sociais (QUEIRUGA, 2011, p. 292).
Sendo assim, fica claro que a teodiceia de Queiruga ajuda a superar posturas radicais e
antagónicas que frequentemente podem ser verificadas na práxis da ética cristã. Nem a
resignação, de que não adianta lutar contra o mal, visto que ele jamais será vencido neste
mundo, nem o activismo, que defende que se deve lutar o quanto possível para transformar
este mundo, pois não há o que esperar para além dele, são superadas, pois; a teodiceia de
Queiruga propõe uma postura equilibrada, que leva a uma práxis de luta contra o mal neste
mundo, na esperança de que esta luta seja honrada por Deus na sua vitória final trazida pela
ressurreição de Jesus.
A ressurreição é a realidade gloriosa por excelência. A fé descobriu e proclamou que
não foi a morte o destino derradeiro, senão que foi a vida plena e realizada quem teve
a palavra definitiva. Tem-na para todos e para todas. Porque em Cristo culmina a
revelação, de algum modo presente em todas as religiões da humanidade, de que Deus
não nos deixa – não nos deixou nunca – cair no nada da morte, esse resumo
culminante do mal, esse “ultimo inimigo” a ser vencido (1Cor 15, 26) apud
(QUEIRUGA, 2011, p. 292).
Desde o elemento da fé, experienciada no compromisso amoroso, o qual acolhe
incondicionalmente, e que deseja a mudança para o bem da própria pessoa/comunidade/povo,
e não para satisfazer estruturas, autoridades, pode-se ir encontrando força para vivenciar a
bondade. A fé é a escolha de um modo de ser que é essencialmente comunitário, social, ou
seja, uma nova maneira de ser com outros. “O valor humano não reside, portanto, na moral,
senão nessa fé que brota do amor e opera pelo amor”.
A crise da moral que perfila o mundo desde finais do século XIX torna-se, cada vez mais uma
nociva e verdadeira dissolução dos valores éticos e, aliada aos totalitarismos, caracterizam o
século XIX como uma grande luta entre valores éticos contrapostos, onde a sua derrocada vai
significar um esvaziamento das éticas produzidas em âmbito não religioso. Assim, hoje,
encontramo-nos numa fase que, em relação a ética, apresenta traços paradoxais: por um lado,
constata-se uma crise das éticas laicas; por outro, éticas ligadas a uma profissão de fé, as
quais, numa sociedade multirreligiosa e multicultural como actual não logra uma pretensa
“universalidade”.

62
CONCLUSÃO

Queiruga deixa claro que o núcleo mais vivo e fundamental da sua filosofia e teologia se
move sempre entre dois polos: repensar os conceitos da teologia, a partir do reconhecimento
da autonomia das criaturas, e recuperar a experiência original, tornando patente a sua relação
constitutiva com Deus. A reformulação é uma consequência. O mal é analisado nesse recorte
queiruguiano de repensar as grandes verdades da fé com uma nova linguagem.

Na obra Repensar o mal (objecto de análise neste trabalho), o tema da finitude da criação está
inteiramente vinculado à ponerologia, ou seja, ao mal. A partir da filosofia, Queiruga mostra
as raízes terrenas do mal. O mito do paraíso bíblico é uma representação simbólica do sonho
de Deus para a realização humana, em hipótese alguma seria a queda do paraíso a origem das
desgraças da história, tampouco uma punição divina devido à desobediência de Homem.
Queiruga desmonta esses argumentos tradicionais, deslocando o eixo para a terra.

O tema do mal deve ser analisado numa perspectiva antropológica, o pecado não é um mal
porque faz mal a Deus, mas porque o faz mal ao homem. Ofende-se a Deus na medida em que
se age contra o próprio bem. A raiz está no afastamento de Deus e no funcionamento
autónomo da evolução da modernidade. Não se trata de um castigo da ira divina, o pai do
filho pródigo não se preocupa com sua honra ou com sua ofensa, mas com o facto de que o
filho estava morto e retornou à vida, estava perdido e foi reencontrado. Deus é amor e existe
amando sempre, não sabe ser outra coisa senão amor em acto. O mal nasce na finitude e na
imperfeição, só Deus é perfeito, Deus não cria outro Deus, mas criaturas imperfeitas e finitas.
O homem é falível e limitado, erra e peca, portanto, o mal sempre existirá e atingirá a todos:
sem-Deus e pios.

Queiruga apresenta o conceito pisteodiceia como resposta de fé ao drama do mal. Para a


tradição judaico-cristã, Deus está do lado do homem na luta contra o mal. Ele nos sustenta
com amor, cada dia, no esforço para construir o melhor possível. Especificamente, no
cristianismo, o mal será definitivamente derrotado na ressurreição.

Ao trilhar pelo viés antropológico moderno, Queiruga ajuda na construção de uma nova
imagem de Deus, rompendo com a imagem do Deus rival do ser humano. Daí a sua tese de
que Deus se revela na realização humana e a verdadeira imagem de Deus é aquela que Jesus
de Nazaré nos apresenta, o Abbá. Trata-se de uma nova visão da criação, onde Deus não é

63
intervencionista, nem irado, que necessita de sacrifícios para ser acalmado, tampouco
milagreiro. Mas está aqui desde sempre, sustentando por amor a construção da realização
humana na história. Por fim, Queiruga não nega o mal, mas o repensa em termos modernos
como consequência da finitude. Nesse sentido, dá uma importante contribuição à teologia e a
todos que buscam razões para viver a fé na cultura pós-moderna.

O presente trabalho não é um tratado teológico sobre o tema do Mal, muito menos uma
exaltação do pensamento extenso de Queiruga. A postura foi de apenas pontuar algumas
sugestões do autor para ampliar mais um pouco a compreensão sobre o tema. Com Queiruga o
mal é visto pela sua própria perspectiva.
Deus deixa de ser o alvo das formulações de defesa ou culpa, a própria existência finita torna
inevitável o aparecimento do mal. Como Deus cria por amor, seria natural supor que ele está a
favor do humano e contra o mal. A maior evidência é Jesus de Nazaré e a cruz. A resposta de
Deus é dada com a ressurreição: é possível vencer.
Quando se adota uma postura ética-teológica para explicitar o tema, a práxis não poderia ficar
de fora. Os cristãos são convocados a lutar contra o mal por meio de actos concretos de
libertação.
Num contexto onde o imaginário coletivo religioso, na sua grande maioria, é dominado por
forças do bem e do mal, a proposta é cultivar uma nova maneira de relacionamento com Deus:
acolhê-lo e auxiliá-lo, cultivar o agradecimento e a confiança em sua ajuda e em sua presença.

64
BIBLIOGRAFIA

AGOSTINHO, Santo. (1989). Confissões. Vol. 2. 13ª Edição. Braga

_____. (2005). Diálogo sobre o Libre Arbítrio. Lisboa. Ed. INCM

ANDRADE, Bárbara. (2007). Pecado original ou graça de perdão? São Paulo:

AQUINO, Tomás de. (2003). Suma teológica. A bem-aventurança. Os actos humanos. As


paixões da alma. Vol.3. secção I – Parte II – Questões 1-48. 2ª Edição: São Paulo.

ARENDT, Hannah. (2002). A condição humana. 4ª Edição. Forense: Rio de Janeiro.


BAUMAN, Zygmunt. (1997). Ética Pós-moderna. 1ª Edição. São Paulo: Paulus.

BIBLIA de Jerusalém. (1989). São Paulo: Paulinas.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. (1992). Aprovado e promulgado por João Paulo II.
[s.n]. [s.d].

CORDON, N. J.M; MARTINEZ, C. T. (1990). História de la Filosofia.Vol. 1. 1ª Edição.


Madrid: ANAYA.

COUTINHO, Gracielle Nascimento. (2010). O Livre-Arbítrio e o Problema do Mal em Santo


Agostinho. Argumentos. Disponível em: http://www.filosofia.ufc.br/. Acedido em
01 Out.2018 as 22h e 10’.
DESCARTES, R. (2018). Princípios metafísicos e Filosofia. O Mal radical. 4ª.Edicao São
Paulo.
DUARTE, J. Cardozo. (1989). O problema do mal na filosofia contemporânea. In Communio.
5ª Edição. Lisboa.
ESTRADA, Juan António. (2014). A Impossível Teodiceia. A crise da fé em Deus e o
problema do mal. Vol. 1. Tradução de Jonas Pereira dos Santos. São Paulo: Paulinas.

FERREIRA, A. B. H. (1986). Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª Edição. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira.

FERREIRA, L. Torgal. (1993). Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Vol. 3. Lisboa.


São Paulo: Editorial Verbo.

65
FREITAS, Manuel da Costa. (1997). Artigo sobre Mal. Volume 3. 1ª Edição. São Paulo.
Paulus.

GESCHÉ, Adolphe. (2003). O mal. 1ª Edição. São Paulo. Paulina.

HAROL, S. Kusher. (1981). Quando coisa ruim acontece com pessoas boas. (s/l).

HEIDEGGER, M. (1927). El ser y el tiempo. Fondo de Cultura Económica: Madrid.

HERDER, Johann. (1981). Ideas para una Filosofía de la Historia de la Humanidad. 1ª


Edição. Buenos Aires: Losada.
JAMES, W. (1995). As Variedades da Experiência Religiosa. São Paulo: Cultrix.

KANT, Immanuel. (2005). O Conceito de Intenção. (Gesinnung) em Sobre o Mal Radical na


natureza Humana. In: Revista Portuguesa de Filosofia. V. 61, n. 3-4: Portugal.
KONZEN, João Aloysio. (2007). Ética Teológica Fundamental. 2ª Edição. São Paulo:
Paulinas.

LACROIX, Michel. (1998). O Mal.1ª Edição. Lisboa: Flammarion.

LATOURELLE, R. (1984). El hombre y sus problemas a la luz de Cristo. Salamanca:


Sígueme.

LEIBNIZ, G.W. (1982). Princípios da Natureza e da Graça e Monadologia. 1ª Edição. São


Paulo: Paulus.

MARCEL, G. (1951). Le mistére de l’être. Paris.

MARIANO, Ricardo. (1999). Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Ed. Loyola

MOLARI, Carlo. (2016). Dizer o pecado original hoje. Disponível em:


http://www.ihu.unisinos.br. Acesso em 17 Maio 2018 as 22h e 30’

MORA, José Ferrater. (1979). Infinito. Dicionário de filosofia. Vol. 2: Lisboa.

NIEBUHR, Reinhold. (1972). Dicionário de religiones comparadas: Cristiandad. Vol.3.


Madrid. Disponível em: https://historiadaigreja-com.webnode.com. Acedido em 21 Jan. 2019
as 23h e 52’.

NIETZSCHE, F. (1971). Ecce homo. Madrid. Vol. 3. 2ª Edição. São Paulo: Paulinas.

66
ORTEGA Y GASSET, J. (1943). La Rebelión de las Masas. Vol. I. 5ª Edição. Madrid.

PALACIO, C. (2002). Fin del cristianismo pré-moderno. Volume.4. Disponível em:


https://w2.vatican.va/. Acedido em 13 Dez.2018 às 15h e 15.

PALACIO, Carlos; QUEIRUGA, A Torres. (2001). Repensar o mal na nova situação secular.
Vol. 33. 2ª Edição. Santander:

PLOTINO. Enéada. Vol. I. disponivel em: http://www.librodot.com Acedido em 28 Jan. 2019


as 18h e 21’. (s/d).
QUEIRUGA, Andrés Torres. (1993). Creio em Deus Pai. Ed. Paulus.

_____. (1999). Recuperar a criação: por uma religião humanizadora. Paulus.

_____. (2007). Esperança apesar do mal: A ressurreição como horizonte. Paulus.

_____. (2011). Repensar o Mal: Da ponerologia à Teodiceia. 1ª Edição. São Paulo: paulinas.

RICOEUR, P. (2007). El mal un desafío a la filosofía y a la teología. Vol. 1. Madrid:


Amorrortu.

SANTANDER, M. (2000). Culpa, Pecado y Perdón: Selecciones de teologia. Volume 29.


Madrid: Cervantes.

SEGUNDO, Juan Luís. (1995). Que mundo? Que homem? Que Deus? 1ª Edição. Paulinas.
São Paulo.

TAVARES, Manuel. (2006). Fundamentos metodológicos do pensamento antropológico e


ético de Paul Ricoeur: o problema do mal. Memorandum. Belo Horizonte: Disponível
em: http://www.fafich.ufmg.br . Accedido em 21 Maio 2019 as 19h e 20’.
TILLIETTE, Xavier. (1988). Aporetique du mal et de la Esperance. In teodicea oggi? Paris.

VIDAL, Marciano. (1977). Moral de Actitudes. Vol. I. 4ª Edição. Madrid: PS Editorial.


_____. (1986). Moral de atitudes. Moral Social. Vol. 3. 3ª Edição: Madrid.

ZALTZMAN, Nathalie. (2011). O espírito do mal. Vol. 33. Belo Horizonte.

ZUCAl, Silvano. (2003). Cristo na Filosofia Contemporânea: De Kant a Nietzsche. Volume


1. São Paulo: Paulus.

67
Autores sobre Queiruga

IUNOL, Miguel. (1990). Culpa, pecado y perdón. Volume 29. 1ª Edição. Madrid: Cervantes.

LEHMANN, Karl. (1989). Sobre o mistério do mal. [s.l]. [s.n].

LIBÂNIO, B.J. (2001). Introdução à vida intelectual. 4ª Edição. São Paulo: Loyola.
Disponível em https://www.travessa.com.br. Acedido em 15 Dez. 2018 à 15h e 22.

_____. (2014). A Ética do Cotidiano: Teologia moral-aspectos sociais. Volume 2. São Paulo:
Paulinas.

MOSER, António. (1996). O pecado. 4ª Edicao. Petrópolis: Vozes.

PALÁCIO, Carlos. (1995). Del "terror de Isaac" al "Abba" de Jesus. Galicia: La Santillana.

_____. (1998). El Dios revelado en Jesus y el futuro de Ia humanidad. Volume 37. Galicia:
La Santillana.

_____. (2001). Repensar o mal na nova situação secular. Volume 33. Madrid:Cervantes.

_____. (2002). Fin del cristianismo pré-moderno. Volume 4. Madrid: Cervantes.

PELLAUER, David. (2010). Compreender Ricoeur. 2ª Edição. São Paulo: Paulus.

QUEIRUGA, A. Torres. (1997). O que queremos dizer quando dizemos Inferno? São Paulo:
Paulus.

______. (1999). Recuperar a salvação. Ed. Paulus. São Paulo.

______. (2001). Do terror de Isaac ao Abbá de Jesus. Ed. Paulinas. São Paulo.

______. (2003). Fim do cristianismo pré-moderno. Ed. Paulus. São Paulo.

______. (2004). Repensar a ressurreição. Ed. Paulinas. São Paulo.

______. (2007). Esperança apesar do mal. Ed. Paulinas. São Paulo.

______. (2006). Um Deus para hoje. 3ª Ed. ed. Paulus. São Paulo.

_____. (2001). Do terror de Isaac ao Abba de Jesus: Por uma nova imagem de Deus. São
Paulo: Paulinas.

68
_____. (2001). Ponerologia e Resurreción: El mal entre la filosofia y la teologia. Volume 3. 1ª
Edição. Galicia: La Santillana.

RAHNER, Karl. (1989). Curso fundamental da fé. 1ª Edição. São Paulo: Paulus,

RICOEUR, P. (1988). Finitude et culpabilite. Vol.1. l’homme falibilble: Paris.

VIDAL, Marciano. (1999). Moral de Actitudes: Moral Fundamental. Volume 1. 6ª Edição.


Madrid: Cervantes.

69