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As capas desta história: a imprensa alternativa, clandestina e no exílio, no período 1964-1979 (do

golpe à anistia)

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INTRODUÇÃO

A atuação do Partido revolucionário junto à população tem como algumas de suas premissas desnaturalizar,
denunciar e explicar a condição de exploração e opressão à qual estão submetidos pela burguesia, além de

orientá-la na luta política. Essas premissas se realizam efetivamente apenas por meio do trabalho contínuo dos
quadros partidários nas organizações da classe trabalhadora; ou seja, na inserção permanente do Partido
revolucionário no cotidiano a população trabalhadora.
Desnaturalizar, denunciar, explicar e orientar constituem trabalho de formação política que se divide

em duas atividades principais e complementares: a agitação e a propaganda e por sua complementariedade

são também chamadas de agitprop.

No entanto, há muitas confusões e equívocos acerca dessas atividades. Um desses equívocos ocorre

justamente por se tomar o termo agitprop, que designa uma relação entre complementares, como uma única
atividade, rebaixando assim sua efetividade e muitas vezes, tornando-o inócuo. Vemos isso, por exemplo, na

apostila Agitação e Propaganda no Processo de Transformação Social produzida pelos Coletivos de


Comunicação, Cultura e Juventude da Via Campesina, que a despeito de sua boa intenção acabou por oferecer

um material confuso que em quase nada pode contribuir com profundidade às questões de agitação e de

propaganda. Outro equívoco é pensar que agitprop seja um formato ou um gênero de comunicação, de

informação, de literatura ou artístico. Trata-se de uma práxis que se realiza por meio de formatos e gêneros
de comunicação, de informação, de literatura e artísticos, mas não podem ser tomados por eles.

Em outros termos, estão esses formatos e gêneros submetidos a objetivos políticos e que visam

ampliar a consciência coletiva da classe trabalhadora. Deve ser desfeito, ainda a compreensão de que tanto a

agitação quanto a propaganda são práticas rígidas e insensíveis às mudanças conjunturais e estruturais das

sociedade; se se trata da análise concreta sobre a realidade concreta, trata-se também de realizar para essa

realidade agitação e propaganda em conexões com o concreto.

Por fim, há um equívoco mais sério: trata-se da falta de seriedade com que a agitação e a propaganda

são encaradas, atualmente, pelas organizações políticas. Geralmente confunde-se Agitprop com serviços de

comunicação ou divulgação, como a animação política em atos e manifestações, ou ainda com atividades
artísticas realizadas no âmbito partidário ou em comunidades populares. Em todos os casos, agitação e

propaganda tornam-se secundárias em relação às demais tarefas das organizações políticas. No entanto,

conforme expôs Lênin e outros camaradas de destaque no movimento revolucionário internacional, agitação
e propaganda são fulcrais na inserção e participação do Partido revolucionário junto à população; sem
agitprop, a organização fala apenas para convertidos e mantém relação apenas marginal com a população,

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quando a mantém. A esse respeito, escreveu Lênin, em Duas táticas da social-Democracia na revolução

democrática, de 1905

Todo o trabalho do Partido Operário Social-Democrata da Rússia já se adaptou a um quadro


sólido e invariável, que garante incondicionalmente a concentração do centro de gravidade na

propaganda e na agitação, nos comícios-relâmpago e nos comícios de massas, na difusão de


panfletos e brochuras, na colaboração na luta econômica e no apoio às suas palavras de ordem.
Não há um só comitê do partido, um só comitê regional, uma só reunião central, um só grupo
de fábrica, no qual noventa e nove por cento da atenção, forças, tempo não sejam dedicados,

sempre e constantemente, a todas estas funções, já estabelecidas desde a segunda metade dos

anos noventa. Só não sabem isto as pessoas que não conhecem em absoluto o movimento. 1

Mesmo as resoluções do XV Congresso do Partido Comunista Brasileiro abordam de maneira

superficial a questão do agitprop, oferecendo a ele apenas o espaço de 3 parágrafos em um total de 119

páginas, tratando-o, nesse exíguo espaço, de forma rebaixada e secundária

64. Não podemos continuar subestimando e confundindo a agitação e propaganda com


comunicação. A rigor, são duas atividades diferenciadas que podem e devem ser articuladas para
potencializar a relação do Partido com as massas.

65. A agitação e propaganda inclui a distribuição de panfletos e outros meios (inclusive o jornal),

a exibição de faixas e cartazes nas manifestações, os discursos de militantes por meio de

instrumentos de som, a produção de cartazes e pichações, levadas a efeito de forma organizada


pelas direções e organizações partidárias, sem descuidar da autodefesa preventiva. Estas tarefas

devem estar a cargo de uma Secretaria ou Fração própria, em todos os níveis, dialogando com a
Secretaria de Comunicação, dentro da linha política do Partido.

66. A criação de Secretaria ou Fração de Agitação e Propaganda, ao menos no Comitê Central e


nos Comitês Regionais, é uma exigência do previsível ascenso do movimento de massas em nosso

país, como se verifica em várias partes do mundo, em função da necessidade do capital de


avançar cada vez mais sobre as conquistas e direitos dos trabalhadores e do povo em

geral.(Resoluções do XV Congresso-PCB: 2014, 114)

São constantes as reclamações e lamentos entre militantes sobre as dificuldades de atrair


massivamente a população para suas fieiras ou com ela estabelecer a relação de confiança necessária para a

inserir-se em seu meio. O fato é que o desconhecimento e o desprezo ao agitprop e sua inquestionável

importância nos processos de militância impedem que as organizações políticas estabeleçam conexões

1 Disponível em <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1905/taticas/cap01.htm#i2>

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profundas e permanentes com a classe trabalhadora. Não apenas o agitprop deveria ser compreendido como

parte predominante na atuação política, como deveria ser a também a principal preocupação de partidos e

demais agrupamentos, tornando-o objeto de máxima atenção e cuidados. Devemos lembrar como os termos
agitação e propaganda são repetidos em diferentes textos do camarada Lênin, que afirmou em Carta a um

camarada
As pessoas realmente firmes quanto aos princípios, e capazes de ser propagandistas são muito
poucas (e para chegar a sê-lo é preciso estudar muito e acumular experiência), e a estas pessoas
é necessário especializá-las, ocupar-se delas e cuidá-las com zelo.2

A agitação e a propaganda, pelo exposto acima, devem ser vistas como primeiras e centrais nas
atividades partidárias junto à população. Devemos compreender que a organização da classe trabalhadora

pela sua vanguarda inicia-se e mantém-se apenas e somente pela qualidade de seu agitprop. Sem ele

nenhuma outra tarefa partidária realiza-se com propriedade e profundidade. Sem agitprop o Partido não
cresce, nem a classe torna-se revolucionaria, nem há a massiva conexão partido-classe trabalhadora.

O texto a seguir visa contribuir com o debate partidário em relação à agitação e à propaganda e o faz

apoiando-se em extratos de textos referenciais da tradição marxista, coligindo-os de forma a estabelecer uma

reflexão acerca da matéria, notadamente sobre o seu papel nos tempos em que vivemos. Assim, pede-se a

compreensão de seus leitores a respeito do número e do tamanho dos extratos usados, bem maiores que o
comum em citações, mas o fato é que se pretende expor diretamente o pensamento de quem escreveu sobre

a agitação e a propaganda na tradição marxista.

2 Acessível em <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1902/09/carta.htm>

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1) DEFINIÇÕES PERTINENTES

As práticas de agitação e de propaganda de ideias em disputa ou que buscam manter-se hegemônicas são
antigas na história humana: há dúvidas de que as representações escultóricas de gárgulas postadas nas paredes

externas das igrejas góticas são agitação sobre os riscos do pecado? E não constitui propaganda os retábulos
postos nos seus altares? O fato é que a agitação e a propaganda fazem parte da gramática política, mesmo
que nem sempre utilizem essas denominações e tenham outras formas de articulação entre si.
Ainda que práticas antigas, a agitação e a propaganda não são estáticas no tempo: seus usos variaram

e variam conforme as necessidades e as intenções; e podem tanto contribuir com o desenvolvimento de uma

sociedade com levá-la ao pior dos estágios social e cultural possíveis, como ocorreu com a Alemanha nazista,
cujo maior instrumento de convencimento social foi certamente a agitação e a propaganda amparadas a um

bem organizado e cruel aparato repressivo.

Entre nós, comunistas, estabeleceu-se uma tradição de agitprop que seguramente tem suas feições

definidas pelo camarada Lênin que se debruçou sobre a questão no bojo de suas preocupações e embates
políticos durante a organização do Partido Operário Social-Democracia Russo, entre o fim do século XIX e o

início do século XX.

Em 1902, Lênin descreveu as tarefas de agitadores e propagandistas em sua publicação Que fazer?,

da seguinte forma
Um propagandista, ao tratar, por exemplo, do problema do desemprego, deve explicar a

natureza capitalista das crises, mostrar o que as torna inevitáveis na sociedade moderna,

mostrar a necessidade da transformação dessa sociedade em sociedade socialista etc. Em

uma palavra, deve fornecer "muitas ideias", um número tão grande de ideias que, de

momento, todas essas ideias tomadas em conjunto apenas poderão ser assimiladas por

um número (relativamente) restrito de pessoas.

Tratando da mesma questão, o agitador tomará o fato mais conhecido de seus ouvintes,

e o mais palpitante, por exemplo, uma família de desempregados morta de fome, a

indigência crescente etc., e apoiando-se sobre esse fato conhecido de todos, fará todo o
esforço para dar à "massa" uma única ideia: a da contradição absurda entre o aumento

da riqueza e o aumento da miséria; esforçar-se-á para suscitar o descontentamento, a

indignação da massa contra essa injustiça gritante, deixando ao propagandista o cuidado


de dar uma explicação completa dessa contradição. Por isso, o propagandista age
principalmente por escrito, e o, agitador de viva voz. (LENIN: 1998,41)

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Esse excerto apresenta a forma inicial como Lênin define a agitação e a propagada, e ela se manterá a

mesma pelos seus demais escritos. Mas ainda que ambas não mudem suas funções, as sus formas e
abrangências mudam de acordo com as necessidades conjunturais. A relação entre agitação e propaganda

também se manterá nos escritos de outras pessoas que se debruçaram ulteriormente sobre o tema, inclusive
as que atuam contra o movimento comunista 3.
Em 1902, Lênin definia a agitação - feita por meio de panfletos, jornais e discursos rápidos e
improvisados – como a atividade responsável por apresentar à população os motivos de suas mazelas

cotidianas, desnaturalizando-as. À propaganda, por sua vez, realizada por meio de artigos publicados em

revistas e jornais e palestras, cabia aprofundar tais explicações. Assim, a relação entre ambas formava um
esquema em que a agitação despertava a indignação e a revolta e a propaganda explicava com profundidade

os nexos entre a situações e a condição da classe trabalhadora e a luta de classes. Não devemos nos esquecer

que se tratava de um período de perseguições e repressões contra os críticos do regime autocrático que havia
na Rússia naquele tempo, portanto, todo o trabalho de agitação e propaganda era feito de forma marginal e

clandestina. Por isso a propaganda, por exigir mais tempo, era feita sobretudo pela forma escrita, enquanto a
agitação podia arriscar-se mais na forma “relâmpago” ou de massa em que se realizava.

Sobre a agitação

Ainda em Que fazer?, Lênin aborda o caráter da agitação, suas especificidades e orientações, da

seguinte forma

Na realidade, a "elevação da atividade da massa operária" será possível unicamente se

não nos limitarmos à "agitação política no terreno econômico". Ora, uma das condições

essenciais para a extensão necessária da agitação política é organizar as revelações

políticas em todos os aspectos. Somente essas revelações podem formar a consciência


política e suscitar a atividade revolucionária das massas. Por isso essa atividade é uma

das funções mais importantes de toda a social-democracia internacional, pois mesmo a

liberdade política não elimina absolutamente as revelações; apenas modifica um pouco

sua direção (…). A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política
verdadeira se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda

3 A esse respeito sugerimos conferir: CLEWS, John C. As técnicas da propaganda comunista. Rio de Janeiro: Ed O
Cruzeiro, 1966, rate-se de ótimo livro de “denúncia” da propaganda soviética, apesar de seu óbvio tom anticomunista,
as pesquisas de Clews podem ser elucidativas para os próprios comunistas. É interessante também a leitura de HUNT,
R. N. Carew. O jargão comunista. São Paulo: Dominus Editora, 1964, no qual as definições sobre agitação e
propaganda são bem apropriadas.

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manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, quaisquer que sejam as

classes atingidas; a reagir justamente do ponto de vista social-democrata, e não de

qualquer outro ponto de vista. A consciência das massas operárias não pode ser uma
consciência de classe verdadeira se os operários não aprenderem a aproveitar os fatos e

os acontecimentos políticos concretos e de grande atualidade para observar cada uma


das outras classes sociais em todas as manifestações de sua vida intelectual, moral e
política; se não aprenderem a aplicar praticamente a análise e o critério materialista a
todas as formas da atividade e da vida de todas as classes, categorias e grupos de

população. Todo aquele que orienta a atenção, o espírito de observação e a consciência

da classe operária exclusiva ou preponderantemente para ela própria, não é um social-


democrata; pois para conhecer a si própria, de fato, a classe operária deve ter um

conhecimento preciso das relações recíprocas de todas as classes da sociedade

contemporânea, conhecimento não apenas teórico... Ou melhor: não só teórico, como


fundamentado na experiência da vida política. (LÊNIN: 1998,44)

Naquele momento, Lênin empreendia severa luta contra a porção de militantes e dirigentes que

defendiam como necessárias apenas as lutas “econômicas”, ou seja, por melhores salários e condições de

trabalho, sem, no entanto, visar as transformações estruturais da sociedade. Defendia o camarada que,

contrariamente aos economicistas, era dever do Partido revolucionário trazer para o campo da política as
questões que aparentemente eram apenas do campo econômico. Isso já coloca uma primeira questão em

pauta: a agitação revolucionária não pode limitar-se à denúncia direta e objetiva das mazelas vividas pela classe

trabalhadora: é necessário, sem perder o caráter popular e objetivo, trazer para o campo da política, ou seja, da

explicitação da luta de classes, tais mazelas. É preciso abordar a questão do salário, necessidade imediata da

classe, mas é preciso, junto a isso, explicar o porquê qualquer aumento de salário nunca fará justiça ao trabalho

realizado nem aos trabalhadores em geral. Esse deslizamento do econômico para o político não é fácil de operar,
ou porque pode ficar na insuficiência da argumentação ou ir para a sua imposição sobre o receptor da

comunicação, tanto uma quanto a outra afastaria os ouvintes rapidamente (abordaremos de forma mais

aprofundada essa questão no capítulo 03 dessa contribuição). Isso significa que a despeito do fato da agitação

invariavelmente ocorrer em momentos que podemos chamar de “quentes”, ou seja, no “calor da hora” de uma
manifestação, um ato, um discurso ou outra situação de mobilização popular, ou ainda uma apresentação

artística de rua, o agitador precisa ser bem sensível às reações de seu público ouvinte, inclusive seus silêncios:

como escreveu o diretor teatral inglês Peter Brook, às vezes o silêncio da plateia significa a sua máxima atenção,
em outras, a sua frustrante desatenção: é dever de ofício do agitador saber distingui-los.

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Sobre a propaganda

Em Carta a um camarada, também de 1902, Lênin alude sobre a necessária qualificação de um


propagandista. É visível também sua preocupação tanto em relação à formação de cada propagandista quanto

a necessária restrição dessa atividade apenas a quem é apto a exercê-la, não sendo, assim, atividade para
militante com pouca ou sem experiência e conhecimento. Por ser a principal ponte entre o Partido e a classe
trabalhadora, e o seu principal mecanismo de ascenso de consciência política desta, a propaganda e os
propagandistas devem ser objeto de cuidado, atenção e constante aperfeiçoamento promovidos pelo Partido.

A esse respeito, escreveu Lênin

Quanto aos propagandistas, ainda gostaria de dizer algumas palavras contra a tendência usual
de abarrotar essa profissão com pessoas pouco capazes rebaixando com isso, o nível da

propaganda. Às vezes, entre nós, qualquer estudante indiscriminadamente é considerado

propagandista, e todos os jovens exigem que se lhes "dê um círculo", etc. Temos que lutar contra
essa prática, pois são muitos os males que daí advém. As pessoas realmente firmes quanto aos

princípios, e capazes de ser propagandistas são muito poucas (e para chegar a sê-lo é preciso
estudar muito e acumular experiência), e a estas pessoas é necessário especializá-las, ocupar-se

delas e cuidá-las com zelo. É preciso organizar várias aulas por semana para esse tipo de pessoas,

saber enviá-las oportunamente a outra cidade e, no geral, organizar visitas das mais hábeis

propagandistas pelas diversas cidades.

Outra especificidade da propaganda é a sua necessária centralização organizativa, bem como a


imprescindível qualificação de sua direção que deve ser capaz tanto de organizar e distribuir tarefas entre

propagandistas e demais envolvidos, como entendê-la com profundidade, ter experiência na sua práxis e ainda
deter conhecimentos e repertório culturais condizentes com o próprio objetivo da propaganda. Sobre isso,

ainda em Carta a um camarada, aludiu Lênin


Organizá-los separadamente em cada região é quase impossível devido à escassez dos nossos

elementos propagandistas sendo, além disso, pouco desejável. A propaganda deverá ser feita de

forma uníssona por todo o comitê, a quem corresponde centralizá-la rigorosamente. Por isso

imagino que deverá ser assim: o comitê atribui a alguns de seus membros a organização de um
grupo de propagandistas (que será uma filial do comitê ou um dos organismos deste. Este grupo,

utilizando por razões conspirativas os serviços dos grupos distritais, deverá efetuar a propaganda

em toda a cidade, em toda a localidade que está "sob a direção" do comitê. (…) E com relação
ao tipo de atribuições, as seções filiais ou de organismos do comitê, deverão organizar também
todos os diversos grupos que servem ao movimento, grupo de estudantes e grupo de

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secundaristas, assim como grupos de funcionários auxiliares, os grupos de transporte, de

imprensa, os dedicados à organização de aparelhos, grupos de contra-espionagem, grupos de

militares, de fornecimento de armas e aqueles criados para organizar "empresas financeiras


rentáveis", etc. Toda a arte de uma organização conspirativa consiste em saber utilizar tudo e

todos, em "dar trabalho a todos e a cada um", conservando o mesmo tempo a direção de todo o
movimento, e isto entenda-se, não pela força do poder, mas pela força da autoridade, por
energia, maior experiência, amplidão de cultura, habilidade.

Pelo exposto, percebe-se que a propaganda não é apenas uma das atividades centrais do Partido, mas

é aquela que constrói passarelas entre ele e a população, responsável sobretudo por dar à população condições
de compreender seu papel tanto na produção capitalista quanto em sua superação. A propaganda é, portanto,

o início da formação política da classe trabalhadora, e por isso exige de cada propagandista condições de se

portar como um educador popular 4. Como processo educativo, a propaganda precisa ter objetivos definidos,
metodologias, planejamento político, possibilidades de mensuração de resultados e de avaliação, não de seu

público, mas de seus realizadores.

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É fundamental não confundir propaganda com a educação popular: embora ambas atuem com o mesmo
público e possam e devem compartilhar metodologias e procedimentos, e tenham alguns objetivos
próximos, suas finalidades são distintas.

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2) MUDANÇAS CONCRETAS EM UM MUNDO CONCRETO

Embora seja muito comum tomarmos as definições expostas como algo fechado e constante, o fato é que ao
longo do tempo a agitação e a propaganda foram se adaptando aos contextos históricos e políticos. Como

um bom exemplo a esse respeito, destacamos trecho do texto escrito em 1939 pela camarada Nadezhda
Krupskaya, no qual ela alude às mudanças do perfil da agitação e da propaganda não mais realizada como
atividades clandestinas de um Partido que pretende a revolução, mas agora realizada pelos dirigentes de um
país em processo revolucionário

Quando a guerra civil estava prestes a acabar, Lênin assinalou que a propaganda e a agitação

deveriam ser dirigidas para outros fins, ligando-se o mais estreitamente possível à construção
socialista e, sobretudo, às tarefas de edificação econômica e da economia planificada.

“A propaganda do velho tipo – dizia Lênin – fala e dá exemplos do que é comunismo. Mas essa

velha propaganda não serve para nada, porque é preciso mostrar como é que se deve construir

o socialismo. Toda a propaganda deve basear-se na experiência política da edificação


econômica... A nossa política fundamental nestes momentos deve ser a construção econômica
do Estado... E toda a agitação e propaganda devem basear-se nisso. Todo o agitador deve ser

dirigente do Estado, um dirigente dos camponeses e dos operários na edificação do socialismo”.

Lênin exigia que se reforçasse o trabalho econômico e político de comboios e barcos de agitação,

incluindo nas suas seções políticas agrônomos e peritos, escolhendo publicações técnicas e
políticas adequadas, exigia que se rodassem filmes sobre temas agrícolas e industriais e que se

comprassem no estrangeiro filmes desse tipo.

Exigia aos centros de instrução política que organizassem em grande escala a propaganda

técnica, redigia teses sobre esta questão, pedia que se estudassem as formas que esta
propaganda e agitação industrial se revestia no estrangeiro, sobretudo, nos Estados Unidos, e

que se estudasse a aplicação destes métodos no nosso país. Relativamente ao relatório da


GOELRO [Comissão Estatal para a Electrificação da Rússia], exigia que se incorporassem as

amplas massas operárias no trabalho de eletrificação e que se desse caráter político à agitação

em torno de um plano único de eletrificação, exigia que se ampliasse o horizonte politécnico dos

operários, sem o qual seria impossível compreender a essência da economia planificada.

Outro bom exemplo está na forma como o comandante Che Guevara orienta a propaganda durante o
processo de revolução guerrilheira em Cuba, onde havia territórios já liberados da ditadura pelos guerrilheiros,

e outros ainda a conquistar

A propaganda

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A difusão de ideias revolucionárias através de todos os veículos necessários para ela, deve ser

feita com a maior profundidade possível. Para isso é necessário toda uma equipe e uma
organização que a respalde. Essa organização deve ser dois tipos e complementar-se para cobrir

todo o âmbito nacional; externa, quer dizer a organização civil nacional, e interna, isto é, no seio

do exército guerrilheiro. Para coordenar estas duas propagandas, cuja função está estreitamente

ligada, deve haver um só organismo diretor.

A propaganda de tipo nacional destas organizações civis, fora do território liberado, deve ser
feita em jornais, boletins e proclamas. Os jornais mais importantes se ocuparão das coisas gerais

do país e irão informando o público a situação exata das forças guerrilheiras, atendendo sempre
o princípio de que a verdade resulta sempre benéfica para os povos. Além disto, estas publicações

de tipo geral devem haver outras mais especializadas para diversos setores da população. A
publicação camponesa deve trazer para eles a mensagem e todos os companheiros de zonas

liberadas que já tenham sentido os efeitos benéficos da revolução e difundir por este meio as

aspirações o campesinato. Um jorna operário com as mesmas características, apenas com a

diferença de que nem sempre terá uma mensagem a parte combatente das classe, pois não pode

haver organizações operárias numa guerra de guerrilhas, e sim em etapas posteriores.

Dever se explicadas as grandes palavras de ordem do movimento revolucionário, da greve geral

no momento oportuno, de ajuda às forças rebeldes da unidade, etc. Põem-se publicar alguns

outros periódicos, de ação, por exemplo, explicando a tarefa dos elementos não-combatentes e
toda a ilha, que se ocupam todavia de diversos atos de sabotagem, de atentados etc. Dentro a

organização põem haver periódicos destinados a soldados inimigos, onde se lhes explique uma

série de fatos desconhecidos por eles. Os boletins e os anúncios da atualidade do movimento são

muito úteis.

A propaganda mais efetiva é a que se fará dentro da zona guerrilheira. Dar-se-á preferência à

difusão das ideias para os nativos da zona, explicando teoricamente o fato, para eles conhecido

da insurreição. Nesta seção haverá também jornais camponeses, o órgão gera de todas as forças
guerrilheiras e boletins e proclamas, além do rádio.

Através do rádio se explicarão todos os problemas, a forma de defender-se dos ataques


aéreos, por onde andam as forças inimigas, citando nomes familiares. A propaganda de tipo

nacional contará com jornais o mesmo tipo dos anteriores, mas poderão narrar-se uma série de
fatos de batalhas que interessam fundamentalmente ao leitor, notícias mais frescas e mais exatas

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que alguém possa fazer. Na informação internacional se limitará exclusivamente a comentar

fatos que vinculam diretamente com a luta de libertação.

A propaganda que será mais efetiva, apesar de tudo, a que se fará sentir mais livremente

em todo âmbito nacional e que chegará à razão e aos sentimentos do povo é, agora, por rádio.
O rádio é um elemento de extraordinário resultados. Nos momentos em que a febre bélica está
mais ou menos palpitante em cada um dos membros de uma região do país, a palavra
inspiradora, inflamada, aumenta essa mesma febre e a impõe em cada um dos futuros

combatentes. Explica, ensina, aviva, determina em amigos e inimigos suas posições futuras.

Todavia, o rádio eve reger por um princípio fundamental da propaganda popular, que é a
verdade; é preferível dizer a verdade, pequena quanto a dimensões efetivas, do que uma grande

mentira. No rádio devem ser dados, sobretudo, notícias vivas de combates, encontros de todo

tipo, assassinatos cometidos pela repressão, além e orientações doutrinárias, ensinamentos


práticos para a população civil, e de vez em quando discursos dos chefes da revolução.

Consideramos útil que o jornal fundamental do movimento leve seu nome que recorde
algo grandioso e unificador, quer quer seja um herói do país ou outro semelhante e explicar

sempre em artigos de fundo até onde vai este movimento armado, ir formando consciência dos

grandes problemas nacionais e mantendo mais uma série de seções de interesse mais vibrantes

para o leitor. (GUEVARA: 1980, 88)

O pesquisador anticomunista John Clews realizou uma extensiva pesquisa sobre a agitação e

propaganda soviéticas entre o fim da Segunda Grande Guerra e o final dos anos de 1960, além de projetar

suas perspectivas para os anos de 1970 e as publicou em livro, As técnicas da propaganda comunista. A

despeito do livro ser uma denúncia anticomunista, o que nos interessam nesse ponto como ilustração do que
apresentamos é o fato de que Clews traz farta pesquisa sobre as adaptações ocorridas nos processos de

propaganda soviética em face das mudanças geopolíticas ocorridas aos longos das décadas. Escreveu ele

A história do comunismo internacional a partir do término da Segunda Guerra Mundial divide-

se a grosso modo em três etapas principais. Houve de início o período rude, intransigente, que
marcou os últimos anos do governo de Stalin, findando com sua morte em março de 1953. Esse

período viu a União Soviética continuando como líder inconteste do comunismo mundial" - o

regime de Mao Tse-tung na China, instalado no poder somente depois de 1949, achava-se ainda
ocupado demais com questões internas para tomar uma parte muito ativa internacionalmente,
guerra da Coreia à parte.

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Após a morte de Stalin seguiu-se um período de interregno, o da assim chamada liderança

coletiva em Moscou. Durou até 1957, quando Khruschov emergiu como o sucessor de Stalin, como

o chefe reconhecido do Estado e do Partido Comunista Soviético, com os ex-membros do antigo


collegium caídos em desgraça. Foi esse período assinalado pelas revelações, em 1956, do 20°

Congresso do Partido em Moscou e o abandono do mito stalinista, com o consequente levante


na Hungria e distúrbios correlatos de um lado a outro do Bloco Comunista, desde a China até a
Polônia. As repercussões foram sentidas não só dentro do Bloco mas também nos partidos
comunistas da Europa, Ásia e América Latina. Foi nesse período que China Comunista começou

a desempenhar um papel internacional mais ativo .

Ó último período sobrepõe-se parcialmente ao do interregno, começou por volta de 1955. A partir
daí a propaganda comunista começou a perder seu antigo caráter stalinista de intransigência,

assumindo formas mais sofisticadas. Estas por sua vez foram bem aceitas por muitos como sinais

de um degelo na Guerra Fria entre o Bloco 'Comunista e ' o resto do mundo. Com o lançamento

dos sputiniks em 1957, e a chave para a guerra atômica final em mãos dos soviéticos, a
propaganda comunista abandonou os anteriores temas· 'defensivos de cerco capitalista que tanto
limitavam as relações com o resto do mundo ao tempo de Stalin. Introduziu-se flexibilidade. e

maiores sutilezas foram empregadas na propaganda para consumo não comunista,

especialmente na Ásia e América Latina, A África · tornou-se um - vital -novo campo de

operações. (CLEWS: 1966, 103)

Não se faz necessário especificar como Clews5 apresenta cada um desses períodos bem como as
variações que ocorreram neles, nem as perspectivas que apontou para a partir da década de 1970. O que nos

importa é compreender que a agitação e, sobretudo, a propaganda são elementos vivos, que precisão estar
pari passo com as demandas conjunturais de seu tempo, e isso o anticomunista estadunidense aponta com

precisão.

5 Evidentemente que se faz fundamental a leitura da obra de John Clews, tanto por força de ofício, ou seja, precisamos
aprofundar conhecimentos sobre o agitprop, e seu trabalho é bem interessante neste sentido; como por força da práxis
política: e nosso dever conhecer o inimigo.

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3) FALAR NA MEDIDA, PRA NÃO FALARMOS APENAS ENTRE NÓS

Uma das principais dificuldades de partidos e agrupamentos políticos de esquerda é perceber que o agitprop
não sendo uma atividade fechada em si deve ser capaz de dialogar não com os convertidos, mas com aqueles

ainda indiferentes à nossa causa que é, na verdade, a causa de toda a classe trabalhadora 6. Geralmente partidos
e agrupamentos tomam por referência estética farto material do agitprop soviético, usando demasiadamente
as insígnias tradicionais como a foice e o martelo, quando, na verdade a foice e o martelo foram adotados
como símbolo comunista em 1918, conforme relatou o camarada Vladimir Bontch Bruévitch7. Antes, o único

símbolo dos revolucionários era a bandeira vermelha. Há uso contínuo também de palavras de ordens e

citações de históricos revolucionários, como Marx, Lênin, Trotsky, Rosa e outros, muitas vezes desconhecidos
da população, só fazendo sentido para quem já é militante, e tão somente para quem já militante 8. Mesmo

quando abordam temas atuais, o fazem de forma distante da maioria das pessoas. Se esquecem também do

intenso processo de formação de uma mentalidade anticomunista 9 empreendido ao longo do século XX pelo

imperialismo, exigindo, portanto, formas de agitação e propaganda que consigam contorná-la. A agitação e
propaganda precisam ser também instrumentos de reconquista da confiança da população, o que só será

6 A isso, recomendamos a leitura de um dos textos seminais sobre agitprop, Aprenda com seu adversário!, atribuído
a Maxim Vallentin, e publicado originalmente no jornal O porta-voz vermelho e do qual destacamos: “O trabalhador
comunista é que já vê as coisas assim, pois ele tem uma consciência mais desenvolvida, ele já é capaz de generalizar
por si mesmo a análise de um fato concreto de sua experiência, de descobrir sozinho as relações entre as coisas. Para
ele, uma forma de representação assim talvez seja uma confirmação de sua própria opinião, e nada mais. Mas o que
se passa com o trabalhador indiferente, ou mesmo hostil, que nós devemos ganhar para a nossa causa? Ele não sente
nenhuma necessidade de ser convencido, pois ele é incapaz de passar do abstrato e do geral à particularidade de sua
situação concreta. A tarefa de nossa agitação e de nossa propaganda é justamente a de seguir um caminho oposto.
Isto consiste em mostrar, a partir da vida concreta de um dos nossos camaradas, as relações que o ligam à luta da
classe como um todo (e à “grande política”); é fazê-lo compreender como ele se confronta a cada dia com o
capitalismo, e das mais diversas maneiras. É a única forma de chegar a uma convicção profunda – é a única forma
de conseguir que o trabalhador não considere o capitalismo como um espectro maléfico, mas que compreenda
claramente que a luta contra o capital é uma luta histórica da classe ascendente contra a classe em declínio. É só
fazendo o trabalhador compreender: “Nenhum aspecto, nenhum minuto da minha vida está fora dos acontecimentos
políticos”. Só assim nós poderemos conseguir que o trabalhador não se transforme num papagaio de palavras de
ordem e num porta-voz que “espreita a chegada da luta final”, mas que seja proletário consciente de sua classe e um
combatente a cada segundo de sua vida!” VALLENTIN, Maxim Aprenda com seu adversário!. In ESTEVAN, D;
COSTA, I.C; VILLAS BÔAS, R. Agitprop: cultura política. São Paulo: Expressão Popular, 2015, pag 159
7 http://www.marxismo.org.br/content/origem-e-significado-da-foice-e-o-martelo
8 A respeito dos equívoco cometido por camarada realmente bem intencionados, mas que não conseguem perceber a
relação dialética entre forma e conteúdo e acabam sobrevalorizando a primeira em detrimento da segunda destacamos
o trecho a seguir: “Comumente pensa-se que basta escolher um tema correto do ponto e vista da classe ou que os
personagens sejam pessoas do povo, que as suas vestes sejam nacionais, para que a obra esteja garantida. Frente a
tal vulgarização dos princípios estéticos marxistas-leninistas e da própria arte é preciso lutar com decisão, porque o
contrário abre-se caminho para a realização de obras fracas, sem nenhum valor. Que apenas mostra mas não analisa,
que apenas declama, mais não informa, que fala, mas que não diz nada, pode ser tudo, manos obra de arte.” ALIA,
Ramiz. O realismo socialista combate a uniformidade e o esquematismo em nome da criatividade e do belo.
Revista Princípios. Dezembro de 1988 pag 03
9 A esse respeito sugerimos a brilhante pesquisa do historiador brasileiro SÁ MOTTA, Rodrigo Patto. Em guarda
contra o perigo vermelho : o anticomunismo no Brasil (1917-1964).São Paulo : Perspectiva, 2000

14
possível com inteligência, sensibilidade e planejamento.

Um ótimo exemplo é dado pelo camarada Lênin, em um de seus mais importantes textos,

Esquerdismo, doença infantil do comunismo, de maio de 1920, em que acusa os esquerdistas que
desconsideram a importância de perceber o estado de consciência da população, impondo a ela uma linha

política e, consequentemente uma agitação e uma propaganda, que não dialogam com esse estágio.
Exemplificando como os bolcheviques se preocuparam com essa questão, escreveu o camarada

os bolcheviques começaram a sua vitoriosa luta contra a república parlamentar burguesa (de
fato) e contra os mencheviques com muita prudência; sua preparação – diferentemente das

opiniões frequentemente difundidas na Europa e na América – não foi algo simples. No início do

período citado não conclamamos à derrubada do governo, mas explicamos a impossibilidade de


fazê-lo sem modificar previamente a composição e o estado de espírito dos Sovietes. Não

declaramos o boicote ao parlamento burguês, à Constituinte, mas, ao contrário, dissemos – e a

partir da Conferência de nosso partido, celebrada em abril de 1917, passamos a dizê-lo

oficialmente em nome do partido – que era preferível uma república burguesa com uma
Constituinte à mesma república sem Constituinte, mas que a república “operário-camponesa”
soviética é melhor que qualquer república democrático-burguesa, parlamentar. Sem essa

preparação prudente, minuciosa, sensata e prolongada não conseguiríamos alcançar nem

manter a vitória de outubro de 1917. (LENIN: 2014, 58)

Os escritos de Lênin demonstram a forma paciente com que o camarada tratou o processo

revolucionário, compreendendo que era necessário encadear e cumprir determinadas tarefas para realizar o
avanço político, como a organização do Partido operário Social Democrata Russo em termos do centralismo

defendido em Carta a um camarada, O que fazer? e Um passo à frente dois atrás, bem como a necessidade
de educar as massas, o que não seria possível sem um programa de agitação e propaganda baseado na

compreensão de como ela pensava, vivia, percebia e compreendia a sua sociedade, naquele tempo. A esse
respeito, escreveu a camarada Nadezhda Krupskaya, em texto já citado

Lênin estudava atentamente as massas, conhecia as suas condições de trabalho, as suas

condições de vida e os problemas concretos que as afligiam. Quando falava às massas, procurava

uma linguagem que lhes fosse comum. Nas conferências e palestras tomava em consideração o

que nesse momento mais preocupava o auditório, o que o auditório tinha mais dificuldade em
compreender e o que lhe parecesse mais importante. Era pelo grau de atenção dos ouvintes, pelas

perguntas e contestações que faziam, que Lênin se regulava para apreciar o estado de espírito
do público, falar do que lhe interessava, explicar o que eles viam claramente e identificar-se com

15
eles.

Lênin sabia identificar-se com o auditório e criar uma atmosfera de mútua compreensão.

E, finalmente, é de referir que, perante as massas, Lênin dava força às suas palavras. Falava com
os operários, os camponeses pobres e médios e os soldados vermelhos de maneira chã, como

camarada, como iguais. Não eram para Lênin “objetos de propaganda”, mas pessoas vivas que
tinham sofrido e pensado muito, que exigiam atenção para as suas necessidades. “Falava a sério
conosco”, diziam os operários, e apreciavam a sua lhaneza, simplicidade e camaradagem. Os
ouvintes notavam que Lênin se preocupava com as questões que abordava e isso era, para eles,

o mais convincente.

A simplicidade com que explicava as suas ideias e a camaradagem que punha no trato com os
ouvintes davam força à propaganda de Lênin, faziam-na particularmente frutífera e eficaz, como

agora se diz.

Enfim, a agitação e a propaganda devem ser intimamente sensíveis aos estágios de percepção política
e de recepção de seus conteúdos pela população: o agitprop precisa saber dialogar com seu público nos
termos dele, somente assim, o conteúdo que se pretende disseminar poderá ser captado pelo conjunto das

pessoas. Em dias atuais, trata-se da observância da chamada teoria da Recepção.

Veja-se, por exemplo, a experiência dos melodramas vermelhos: sabendo que as camadas mais

populares russas tinham por hábito frequentar encenações melodramáticas, as equipes teatrais revolucionárias
responsáveis pelo agitprop organizaram encenações que reproduziam as convenções formais dos

melodramas típicos, porém, com conteúdo classista.

Buscar formas de aproximar mensagem e público deve ser a primeira preocupação de quem é

responsável pelo agitprop. A esse respeito escreveu o pesquisador Christopher H. Cobb

Más especificamente dedicados a la tarea de agitación eran los pequeños grupos del movimiento

“Blusa Azul”. Creado por Boris Yuzhanin en 1923 a partir del “periódico vivo”, alcanzó
rápidamente dimensiones considerables. Según Alma Law, había 484 grupos profesionales, con

más de 8.000 grupos de aficionados . Su método de trabajo estableció el molde para el teatro de

agitación en Europa en los años posteriores: presentación en la calle sin escenario; una fuerte

carga didáctico-satírica, limitándose frecuentemente a la puesta en escena de una consigna;

preferencia para la improvisación para así convertir al espectador en participante. Por encima
de todo, el objetivo de estas campañas era el de intensificar el contato con el público, utilizando

todos los medios posibles. (COBB: 93, 04)

16
Agitação e propaganda, sejam feitas por meio de discursos ou aulas públicas, panfletos, jornais,

revistas, teatro, cinema, esportes e outros meios, devem ter como premissa a aproximação entre mensagem e

público, e isso só será possível com aprofundado e sensível estudo acerca do seu estado de consciência deste,
suas preferências culturais, hábitos sociais etc. Agitprop feito a partir da realidade objetiva e subjetiva de quem

o faz, sem considerar o estágio intelectual, social, cultural de quem o recebe é atitude colonialista 10 fadada a
resultados tão autoritários quanto vazios11. Agitprop se faz a partir de quem vai recebê-lo. Isso não significa
o rebaixamento dos processos criativos dos camaradas envolvidos no processo, mas sim que suas criações não
podem partir de suas individualidades, mas da interação com a comunidade como um todo. Trata-se, portanto,

de processo criativo de tipo diferente daquele comum à sociabilidade burguesa; buscamos formas

revolucionárias de criação.

10 A esse respeito, sugere-se a leitura de CARBONI, Florence; MAESTRI, Mário. A linguagem escravizada: língua,
história, poder e luta de classes. São Paulo: Expressão Popular, 2005
11 Sobre tal trabalho de construção de uma nova subjetividade social, faz sentido nos fiarmos ao que escreveu o
camarada Antonio Gramsci: “ Disso se deduzem determinadas necessidades para todo o movimento cultural que
pretende substituir o senso comum e as velhas concepções de mundo em gera, a saber: 1) não se cansa jamais de
repetir os próprios argumentos (variando literalmente a dua forma); a repetição é o meio didático mais eficaz pra
agir sobre a mentalidade popular; 2) trabalhar incessantemente para elevar intelectualmente camadas populares
cada vez mais vastas, isto é, para dar personalidade ao amorfo elemento de massa (…) É evidente que uma construção
de massa dessa espécie não pode ocorrer “arbitrariamente”, em torno de uma ideologia qualquer, pela vontade
formalmente construtiva e uma personalidade ou de um grupo que se proponha essa tarefa pelo fanatismo das suas
próprias convicções filosóficas ou religiosas. A adesão ou não adesão de massas a uma ideologia é o modo pelo qual
se verifica a crítica real da racionalidade e historicidade dos modos de pensar. As construções arbitrárias são mais
ou menos rapidamente eliminadas pela construção histórica, ainda que por vezes – graças a uma combinação de
circunstâncias imediatas favoráveis – consigam gozar de certa popularidade; ao passo que as construções que
correspondem às exigências de um período histórico e orgânico terminam sempre impondo-se e prevalecendo, mesmo
se atravessam muitas fases intermediárias nas quais a sua afirmação ocorre apenas em combinações mais ou menos
bizarras e heteróclitas.” GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da História. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1978. pag 27

17
4) AGITPROP HOJE, À ESQUERDA E À DIREITA

Muito se discute atualmente sobre agitação e propaganda, principalmente os temas: estética do agitprop, sua
história, principais formuladores, bem como as experiências referenciais, tais como a russa, a cubana ou a da

mobilização jovem em Paris, o chamado maio de 68. Mas há tempo saiu do escopo das discussões questões
que podemos chamar de práticas acerca do agitprop, ou dizendo de forma mais adequada, não mais
abordamos a agitação e a propaganda enquanto práxis revolucionária: ao separarmos os aspectos técnicos
dos estéticos/históricos, tornamos o agitprop ou uma abstração teorizada ou uma prática inócua, geralmente

fazemos os dois em momentos diferentes.

Neste sentido, é preciso – ainda que isso gere grandes esforços – reconciliar os aspectos abstratos aos
aspectos práticos do agitprop, permitindo que a agitação e, sobretudo, a propaganda, possam novamente

cumprir suas tarefas, abrindo caminho por entre mentes e corações no seio da classe trabalhadora.

Talvez seja o caso de observarmos como a direita brasileira se apropriou das práticas de agitação e a

propaganda realizando um excelente trabalho de convencimento e persuasão. A despeito dos grandes


investimentos de recursos oriundos de investidores estrangeiros com interesses nos recursos nacionais, bem

como da participação de grandes veículos de comunicação, a direita tem feito um trabalho que segue

orientações básicas do agitprop. Evidentemente que seu princípios e objetivos políticos estão muito mais

próximos dos propalados pelas experiências fascistas (desinformação, ideologização, mistificação etc) do que
aqueles defendidos pelos comunistas (informação, formação política etc), mas, estruturalmente, a direita

brasileira tem utilizado muito bem ferramentas que já foram por nós melhor utilizadas, sobretudo quando o

PCB estava inserido em todo o cotidiano da população. Evidentemente que há algumas diferenças estruturais

significativas, destacar que a inserção da direita no seio da sociedade não é organizativa, ou seja, não visa

fomentar ou apoiar organizações populares, mas objetiva demarcar territórios ideológicos, em outras palavras,

incutir na população a crença no liberalismo, o ódio às lutas sociais e o anticomunismo. Isso se dá porque, não
visando a mudança estrutural da sociedade brasileira, não interessa à direita a organização popular (que

poderia tornar-se uma força fora de seu controle). Mas se não é organizativa, ela se estrutura em pequenos

organismos, como coletivos Vem pra rua, Movimento Brasil livre e outros. Interessante notar que são

agrupamentos mobilizadores: não se preocupam em manter organizações de massa, inúmeras células ou


núcleos etc, mas sim manter estruturas suficientes para promover grandes mobilizações populares, tais como

as que proporcionaram peso político ao processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. Tomando

esse processo como exemplo, percebemos como foi mais que evidente o central papel que nele tiveram a
agitação e a propaganda. E observe-se como foram construídas: com linguajar de fácil compreensão pela
população, construção de narrativa que não deixa margens a outras soluções dos problemas nacionais que

18
não fossem os defendidos pela direita, a utilização de jovens, homens e mulheres, negros, brancos, orientais,

pessoas com orientações homossexual ou bissexual declaradas, praticante de religiões de matriz africana etc;

conseguiram criar uma totalidade comunicacional que diz algo como: “defendemos as mesmas bandeiras que
a esquerda, mas diferente dela, não nos corrompemos para alcançá-las, nem usamos dos métodos intolerantes e

abusivos dos 'comunistas-bolchevistas'”. Um discurso raso, mas que por não ser discurso, mas apenas palavra-
de-ordem, inteligentemente embaladas em papel brilhante, convenceu muita gente.

Outro expediente de suma importância para a direita tem sido os Think Tanks, ou centros de formação

ideológicos, espaços físicos e virtuais em que se operam formações políticas e técnicas voltadas às lideranças

dos agrupamentos de direita, onde recebem também formação em técnicas de persuasão e convencimentos,
de negociação, de procedimentos de desestabilização de governos, espionagem, sedição etc. Há também

formações amplas, para a população em geral, sobretudo, mas não somente, formadores de opinião, onde

tomam contato com os seguintes conteúdos: filosofia política (sob a ótica da direita), economia liberal,
pensamento conservador, etc. Os mais notórios think tanks atuando no Brasil são: Instituto Mises, Instituto

Liberal, Estudantes pela Liberdade, Instituto Millenium, entre outros, todos inseridos numa rede internacional
de think tanks e financiadas por investidores domésticos e estrangeiros.

A principal característica dos think tanks é sua capacidade de atrair não apenas convertidos, mas

pessoas ainda não plenamente posicionadas politicamente, o que fazem a partir desse contato. Os think tanks

são competentes e potentes centros de propaganda ideológica, e têm tido um papel determinante no atual
momento de acirramento da luta de classes vivido no Brasil, justamente quando a luta no campo simbólico é

fulcral.

Por fim, deve-se destacar o brilhante trabalho que a direita faz na internet: blogues, canais de

Youtube e Vimeo, sites e páginas de Facebook, e outros, formam uma grande massa informacional e ideológica

desenvolvida com requintes estéticos: captação de imagens, iluminação, direção de arte e fotografia, textos,

roteiros, ambientações, perfis étnicos de apresentadores etc, são calculados e planejados de forma a prender
a atenção de seu público e convencê-lo com argumentações rasteiras e superficiais, porém apresentadas como

algo pesquisado e estudado pelo seu apresentador. E há apresentadores de todos os tipos: Antonio Marco

Villa e Demétrio Mangnolli são o tipo intelectual-acadêmico; Luiz Camargo VLOG é o cristão que nos fala de

forma despojada e afetuosa; já o tipo classe média, ousado e arrojado é personificado por Arthur Moledo do
Val, responsável pelo canal MamãeFalei; Fernando Holliday é o jovem negro de discurso duro contra a

“vitimização” das “minorias”, inclusive a população negra; e há o decano de todos eles, o filósofo Olavo de

Carvalho, responsável pelo site olavodecarvalho.org e por dezenas, ou talvez centenas, de vídeos que circulam
cotidianamente pela internet, nos quais dissemina ideias de um conservadorismo tacanho e arrogante.
Deve-se destacar que não formam todos uma rede centralizada e unificada, pelo contrário, há

19
divergência entre eles, há falta de acordos em torno de alguns pontos específicos, e, sobretudo, uma constante

divergência entre os que se colocam como liberais e os que se apresentam como conservadores. No entanto,

há, subjacente aos seus diferentes posicionamentos e defesas, os mesmos objetivos e interesses.

Assim, nosso maior desafio é, certamente, retornamos ao agitprop realizado de forma planejada,
pesquisada, elaborada, como a direita brasileira tem feito, mas com os velhos princípio que nos caracterizam
enquanto comunistas: a informação, a formação e a orientação políticas objetivando a organização da classe
trabalhadoras e sua participação e engajamento na luta revolucionária.

20
APONTAMENTOS FINAIS

Os sucessos das revoluções ocorridas ao longo do século XX tiveram na agitação e a propaganda algumas de
suas principais armas. Sem conseguir explicar, convencer e agregar a população, tais revoluções nunca teriam

se tornado amplamente populares, ficariam reduzidas a golpes ou tentativas de golpes de Estado. Mas para
isso, é preciso que a agitação e a propaganda sejam edificadas como verdadeiras pontes entre o senso comum
(levando em conta todos os aspectos culturais, imagéticos etc) e a práxis revolucionária.
Esse movimento não pode ser apenas “bancário”, como Paulo Freire definiu a educação tradicional,

mas sim ser um diálogo que ocorra em ambos os sentidos, construindo um conhecimento de novo tipo, que

englobe avanços no senso comum e a popularização da teoria. Isso não pode ocorrer a partir de fórmulas
prontas nem imposições estéticas oriundas de experiências históricas exógenas 12. Para agrupamentos de

esquerda, isso significa o doloroso exercício do desapego a signos imagéticos cultuados há décadas e que

foram eficientes em seu tempo e seu local, mas que não necessariamente comunicam com a população
brasileira.

Além do exercício do desapego é preciso iniciar um profundo processo de estudos e pesquisas a

respeito das culturas brasileiras, seus modos de ser no mundo, suas referências imagéticas e sonoras, seus

sotaques, manhas, gírias, suas cores, sabores e aromas e sobretudo, sua memória, pois é nela onde se

12 Ao contrário disso, é preciso recuperarmos as impressionantes experiências brasileiras, como os CPCs e o MCP de
Pernambuco, sobre o qual destacamos; “O Movimento de Cultura Popular de Pernambuco nasce por influência dos
movimentos de aproximação entre intelectuais e povo que ocorria na Europa (…) Com o apoio de Miguel Arraes,
governador do estado, fundamos então o MCP. Germano Coelho foi o presidente. O objetivo era fazer teatro e cinema
popular. O grupo de teatro foi formado por 20 jovens comunistas, entre os quais eu, José Wilker e a Ilva Niño, além
de católicos e protestantes. (…) Nas Praças de Cultura ouvíamos a opinião das pessoas e fazíamos esquetes ou peças.
Fazíamos teatro a partir dos problemas naquele bairro onde a Praça de Cultura estava. As Praças de Cultura eram
lideradas pelo Paulo Freire e a ligação dele com os artistas de teatro era fundamentalmente essa. Ele fazia as
entrevistas com a população e nós montávamos a peça (…) Cada centro ficava em bairros pobres e tinha um teatro
de 400 lugares. Fundamos um grupo de teatro em cada centro operário, sempre dirigindo por uma pessoa nossa.”
MENDONÇA, Luiz. Trabalho de cultura popular. In XAVIER, Nelson, Mutirão em novo sol. São Paulo:
Expressão Popular, 2015 pag 153. Destacamos também a experiência do sistema de difusão radiofônica que integrou
o MEB, no início da década de 1960, objeto de estudo da pesquisadora Claudia Moraes de Souza, e sobre o qual
escreveu ela: “Esta tese ressalta a ideia da construção o bloco histórico de Gramsci, identificando o MEB como um
dos instrumentos de propositura da construção de uma contra-hegemonia das classes subalternas no momento da
crise explícita do capitalismo brasileiro. O sentido de comunidade e o incentivo das ações cooperacionistas, na
comunidade foram interpretados como uma prática educativa libertadora ligada à prática política emancipadora.
Nessa linha e raciocínio, a prática emancipadora não provinha da comunidade e sua busca constante de manutenção
material de seus aparelhos sociais, mas sim de seu envolvimento no projeto educativo de direcionava uma ação
emancipadora. A consciência de classe se fazia pela ação educacional, atribuindo-se ao mediador ao intelectual um
papel fundamental nas lutas sociais.” SOUZA, Claudia Moraes. Pelas ondas do rádio, cultura popular, camponeses
e o rádio nos anos 1960. São Paulo: Alameda Editorial, 2013, pag 149. A história brasileira é repleta de experiências
semelhantes, infelizmente desconhecidas para os e as militante comunistas, que acabam por reproduzir de forma
mecânica experiências estrangeiras. E como agravante, tais repetições não estão, como no exemplo citado, inseridos
em um planejamento. Ainda que tais experiências não tenham sido realizadas no bojo de um planejamento de agitprop
formam um construto de informações e vivências que podem ser preponderantes para a organização do agitprop do
PCB.

21
inscrevem os mais profundos signos e significados de sua identidade coletiva, justamente aqueles que

precisamos atingir13. Tudo isso cria um arcabouço que pode ser convertido em linguagem popular 14.

É preciso estudar também teoria da recepção, técnicas de comunicação social etc, que leva à
necessidade de formarmos birôs de pesquisas capazes de perscrutar o senso comum, as práticas cotidianas, o

gosto médio da população etc, abarcar todo o campo que forma a sua sensibilidade social para, a partir daí,
compreender como devem ser as formas de diálogo com elas. Um verdadeiro trabalho de campo deve ser
empreendido nesse sentido, buscando coletar tais informações, e outro trabalho – igualmente tão exaustivo
quanto necessário – deve ser feito em gabinete para compreendê-lo e convertê-lo em linguagem, lembrando

que esta está sempre em disputa, por isso, tais resultados carecem de avaliação permanente15. Enfim, é preciso

tornar o agitprop uma política partidária de primeira ordem.


No âmbito da pesquisa, é desejável que se deixe para trás as velhas e sectárias concepções que

pensavam ser a população o saco vazio que deve ser preenchido com o conhecimento revolucionário

13 “Mas a identidade é, também, um processo através do qual o reconhecimento das similitudes e a afirmação das
diferenças situam o sujeito histórico em reação aos grupos sociais que os cercam.” NEVES, Lucilia de Almeida.
Memória, história e sujeito: substratos da identidade. História oral, 3, 2000, pag 109-16
14 “Cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento material
dessa realidade. Todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som,
como massa física, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer. Nesse sentido, a realidade do
signo é totalmente objetiva e, portanto, passível de um estudo metodologicamente unitário e objetivo. Um signo é um
fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele
gera no meio social circundante) aparecem na experiência exterior. Este é um ponto de suma importância. No entanto,
por mais elementar e evidente que ele possa parecer, o estudo das ideologias ainda não tirou todas as consequências
que dele decorrem.” BAKHTIN, Mikhail . Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 2006. pag 31
15 A esse respeito, é fundamental compreender os aspectos ideológico da linguagem, como colocado por Bakhtin: “A
realidade dos fenômenos ideológicos é a realidade objetiva dos signos sociais. As leis dessa realidade são as leis da
comunicação semiótica e são diretamente determinadas pelo conjunto das leis sociais e econômicas. A realidade
ideológica é uma superestrutura situada imediatamente acima da base econômica. A consciência individual não é o
arquiteto dessa superestrutura ideológica, mas apenas um inquilino do edifício social dos signos ideológicos.
Preliminarmente, portanto, separando os fenômenos ideológicos da consciência individual nós os ligamos às
condições e às formas da comunicação social. A existência do signo nada mais é do que a materialização dessa
comunicação. É nisso que consiste a natureza de todos os signos ideológicos. Mas esse espaço semiótico e esse papel
contínuo da comunicação social como fator condicionante não aparecem em nenhum lugar de maneira mais clara e
completa do que na linguagem. A palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é
absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a essa função, nada que não
tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social” (BAKHTIN: 2006, 34).
Também Vygotsky, em brilhante pesquisa coloca a linguagem no campo da luta ideológica, caminhando ao encontro
das reflexões de Bakhtin e que parece coerente com as reflexões aqui expostas: “se compararmos o desenvolvimento
inicial da fala e do intelecto – que, como vimos, se desenvolvem ao longo de linhas diferentes tanto nos animais
quanto nas crianças muito novas – com o desenvolvimento da fala interior de do pensamento verbal, devemos concluir
que o último estágio não é uma simples continuação do primeiro. A natureza do próprio desenvolvimento se
transforma, do biológico para o sócio-histórico. O pensamento verbal não é uma forma de comportamento natural e
inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural e tem propriedades e leis específicas que não podem ser
encontradas nas formas naturais de pensamento e fala. Uma vez admitido o caráter histórico do pensamento verbal,
devemos considerá-lo sujeito a todas as premissas do materialismo histórico, que são válidas para qualquer fenômeno
histórico na sociedade humana. Espera-se apenas que, neste nível, o desenvolvimento do comportamento seja regido
essencialmente pelas leis gerais da evolução histórica da sociedade humana. (VYGOTSKY: 1993, 44). Tanto no
campo da semiótica quanto na psicologia social, o pensamento marxista compreende os aspectos ideológicos, portanto
históricos e, portanto, disputáveis politicamente da linguagem, outros . Esse é a disputa, com esse grau de estudo e
entendimento, que devemos empreender.

22
gentilmente oferecido pelo educador político. É preciso que passemos a considerar não somente os processos

de ensino, mas sua relação dialética com os processos de aprendizagem, sendo esses, justamente, determinantes

na relação entre educadores políticos e a classe trabalhadora. Significa isso que deve-se colocar peso na
elaboração de metodologias de trabalho que recupere o pensamento de Paulo freire (por mais que parte da

militância comunista aponte insuficiências em suas pesquisas), Júlio Barreiro, Pierre Furter e outros que se
debruçaram sobre a elaboração de processos e métodos pedagógicos populares, ressaltando que a
propaganda, em hipótese alguma, pode ser confundida com a chamada educação popular (que em muitas
ocasiões não passa de um fina camada de verniz social sobre a mais tradicional e conservadora prática de

ensino). Mas será inteligente de nossa parte saber aproveitar procedimentos e metodologias que foram, nas

últimas quatro décadas, pelo menos, fartamente desenvolvidos pela educação popular 16.
É preciso, ainda, que o cotidiano partidário seja prenhe de atividades militantes junto à classe

trabalhadora, seja na organização, na formação política ou na representação. Não haveria sentido se o Partido

tornar o agitprop uma política de primeira ordem se não estiver inserido no seio da classe para poder
estabelecer esse diálogo, assim, inserção e agitprop formam uma totalidade em movimento. Sem uma a outra

não se realiza nem tem sentido de ser.

Por fim, é preciso que o Partido perceba a importância de revolucionar sua atuação em relação ao

agitprop e à comunicação. A pouca atenção dada aos temas no XV Congresso evidencia essa necessidade.

Para revolucionar a sociedade brasileira, primeiramente o PCB precisa revolucionar seus métodos de diálogo
com a população brasileira.

16 Não podemos ignorar as palavras de Freire a respeito do diálogo entre educador e educando enquanto estruturante do
processo de ensino-aprenizagem: “Nosso papel não é falar ao povo sobre a nossa visão do mundo, ou tentar impô-la
a ele, mas dialogar com ele sobre a sua e a nossa. Temos de estar convencidos e que a sua visão do mundo que se
manifesta nas várias formas de sua ação, reflete a sua situação no mundo, em que se constitui. A ação educativa e
política não pode prescindir o conhecimento crítico dessa situação, sob pena de se fazer bancária ou de pregar no
deserto. Por isso mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos. Sua linguagem não
sintoniza com a situação concreta dos homens a quem falam. E sua é um discurso a mais, alienado e alienante. É que
a linguagem do educador ou do político (e cada vez nos convencemos mais de que este há e tornar-se também
educador, no sentido mais amplo da expressão), tanto quanto a linguagem do povo, não existem sem um pensar e
ambos, linguagem e pensar, sem uma realidade a que se encontrem referidos. Desta forma, para que haja
comunicação eficiente entre eles, é preciso que educador e político sejam capazes de conhecer as condições
estruturais e, que o pensar e a linguagem do povo, dialeticamente, se constituem. Daí também que o conteúdo
programático para a ação, que é de ambos, não possa ser de exclusiva eleição daqueles, deles e do povo.” FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1987 pag 87

23
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Juventude da Via Campesina, disponível em <https://culturamess.files.wordpress.com/2012/01/caderno-de-
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