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EDUCAÇÃO CLÁSSICA CRISTÃ?

(Parte I)

Educação Clássica Cristã

Parece crescente o número de pais e educadores que têm se mostrado curiosos sobre a educação clássica,
fenômeno educacional moderno que tem se difundido no meio educacional, com o surgimento de muitas escolas
dessa persuasão, e com um crescente número de adeptos na educação domiciliar. Seus aderentes têm exaltado o
seu currículo diferenciado, o sucesso de seus métodos de ensino e os excelentes resultados acadêmicos dos seus
alunos, tanto no contexto do homeschooling, como nas escolas e cooperativas clássicas que têm se multiplicado,
especialmente em países de língua inglesa, a exemplo dos Estados Unidos. Nesse pequeno artigo, gostaria de
fornecer aos leitores um breve histórico e caracterização deste modelo educacional e de sua prática; em seguida, me
proponho a apresentar algumas observações sobre o método clássico de uma perspectiva cristã. E finalmente
busquei indicar algumas leituras adicionais para quem deseja estudar mais o tema ou conhecer materiais didáticos e
instituições adeptas dessa tendência.

I- Histórico

ORIGEM DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA

A educação clássica no sentido mais estrito e histórico do termo se refere ao modelo educacional desenvolvido pelos
gregos antigos, especialmente creditado a Aristóteles, para o desenvolvimento da razão humana segundo as
perspectivas e necessidades do seu contexto sócio-político. Interessados como eram os filósofos gregos na arte da
lógica e da aquisição de conhecimento, seja com base no método platônico de buscar esse conhecimento no mundo
abstrato das idéias, ou no método aristotélico que valorizava mais o conhecimento do mundo físico, eles formularam
um ideal educacional que visava formar pensadores altamente racionais; cidadãos virtuosos e úteis à sociedade, e
excelentes oradores com habilidade para expor, discutir e propagar os ideais da civilização greco-romana por meio
da política, da filosofia e de uma educação liberal, própria aos cidadãos livres, que, ao aprenderem a pensar, seriam
"libertos" da ignorância e elevados a uma categoria mais humana, mais excelente. Para isso, os pequenos cidadãos
dessa sociedade "iluminada" deveriam ser formados nas Artes Liberais, ou seja, num conjunto de sete disciplinas que
buscavam exatamente a formação intelectual e acadêmica de cidadãos pensadores e livres. Essas sete disciplinas
eram divididas em duas etapas, que seriam apropriadas aos diferentes estágios de desenvolvimento da pessoa: o
trivium consistia no ensino de disciplinas básicas e instrumentais através da gramática, da lógica e da retórica, e
compreendia todo o ensino fundamental e médio. Já mais a nível universitário, os alunos poderiam se aprofundar no
quadrivium, que compreendia a música, a aritmética, a astronomia e a geometria.

O MÉTODO CLÁSSICO: O TRIVIUM E O QUADRIVIUM

A primeira etapa do trivium era mais apropriada àquela fase inicial em que as crianças menores, ávidas por absorver
uma grande quantidade de informação, e com grande facilidade de memorização, embora ainda não capazes de
desenvolver o pensamento formal, eram ensinadas, por meio da repetição e memorização, as leis e os fatos
principais da "gramática" das línguas, da matemática e dos diversos assuntos, os quais elas iriam, no momento,
absorver pela memorização para serem desenvolvidos e aplicados no futuro. Essa fase do desenvolvimento do
pensamento ficou conhecida como a "fase gramatical", e as escolas especializadas nesse nível da instrução vieram a
ser chamadas de escolas de gramática, pois buscavam ensinar às crianças as leis e princípios fundamentais das
disciplinas instrumentais. Nessa fase as crianças aprendiam a ler e a escrever, por vezes mais de uma língua, a
realizar operações básicas matemáticas, ("a gramática da matemática"), e eram apresentadas pela primeira vez a
muitos fatos simples envolvendo perguntas como "o que? Quem? Quando? Onde? além de virtudes e habilidades
considerados importantes para as fases subsequentes.

Numa fase posterior (grossamente dos 8 aos 12 anos) as crianças, já bem estabelecidas na sua capacidade de ler
bem, e supridas dos conhecimentos e habilidades necessárias para dar prosseguimento à sua formação liberal, agora
na fase lógica, iriam aprender a desenvolver a sua mente racional. Por meio dos princípios da lógica e da arte da
dialética, o professor fazia uso de perguntas elaboradas com vistas a acessar o conhecimento dos fatos que a criança
já possuía para guiar as suas pupilas a um conhecimento mais profundo dos fatos, ao conhecimento de novos fatos,
e à percepção da interligação entre eles, das noções de causa e efeito, sempre por meio de um método lógico e
racional. A criança aprendia a fazer perguntas que a levassem a um nível mais elevado de conhecimento, que agora
incluíam o "Por quê, o Para quê e o Como" de assuntos apropriados à sua idade e fase de desenvolvimento. Até aqui
a criança está aprendendo por meio da memorização e está treinando a razão a fazer perguntas que a levem ao
conhecimento do mundo, mas ela ainda não é considerada capaz de expressar-se de maneira original e criativa
sobre o mundo.

A partir dos doze anos, agora capacitados com as habilidades instrumentais necessárias para buscar o conhecimento
por si próprios; já bem treinados a aprofundarem-se no conhecimento do mundo por meio de perguntas lógicas e
metódicas; e com a mente suprida de muitos e variados fatos e conexões de fatos, os jovens seriam estimulados, na
fase retórica, a aperfeiçoarem a sua capacidade de expressão pessoal criativa e estética sobre assuntos mais
analíticos e controversos. Por meio da retórica, dos debates e da arte da argumentação persuasiva, os jovens
aprendiam a ser membros ativos da sociedade livre a que pertenciam, participando da política, das artes, e
contribuindo para os avanços científicos da época.

Somente aqui eles iriam desenvolver o seu intelecto ao mais alto grau, focalizando agora na expressão de opiniões
próprias bem firmadas em fatos e argumentos lógicos, e na beleza artística e habilidades de persuasão da linguagem
falada e escrita.

Após dominado o trivium, o estudante, no que agora corresponde ao grau universitário, estudaria o quadrivium –
música, aritmética, astronomia e geometria – que podem ser vistas em linhas gerais como espécies de verdade:

A música incluiria verdades estéticas, a percepção da harmonia ordenada da beleza, que era vista não como mero
prazer subjetivo, mas como um absoluto. A Aritmética incluiria os absolutos matemáticos intrínsecos ao universo e à
pura idealização. A astronomia compreenderia todas as ciência empíricas, as verdades percebidas pelos sentidos e
pelas provas externas. A geometria incluiria a arquitetura e o desenho, as relações espaciais implícitas tanto na
engenharia como nas artes visuais. (VEITH, 1999, p. 87)

DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA

Não há dúvidas de que esse tipo de educação formou excelentes pensadores, matemáticos, políticos e oradores.
Tendo um insight verdadeiro sobre as características e estágios de desenvolvimento da mente humana, os gregos
supriram a educação de um modelo de desenvolvimento acadêmico que sobreviveu incontestável por muitos
séculos, tendo até hoje adeptos. O apóstolo Paulo e os pais da igreja, os mestres medievais, os grandes pensadores
do renascimento, os reformadores, e os puritanos do século VXII, que fundaram as grandes universidades na
Inglaterra e na América do Norte, todos foram formados segundo as linhas gerais do modelo clássico. Vemos,
portanto, que o método clássico tem seus adeptos seculares e cristãos, prestando um serviço a educadores de
origem e propósitos muito diversificados. Seus métodos são como ferramentas, recentemente redescobertos como
as "ferramentas perdidas da aprendizagem", que como martelos, serras, e pás, serviriam tanto para a construção da
cidade dos homens ou da igreja de Deus.
DECLÍNIO DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA

Somente nos últimos séculos, que seguiram às grandes revoluções, a educação clássica passou a ser vista como
inadequada aos novos ideais sociais, e foi progressivamente desgastada e denunciada ora como elitista demais para
a classe proletariada, ora como idealista e teórica para a era pragmática e industrializada, ora como uma ameaça aos
interesses dos governos tiranos, ditatoriais e comunistas, ora como ultrapassada diante das novas pedagogias
progressistas e relativistas. Contudo, na prática, todo conhecimento intelectual verdadeiro continua sendo
estritamente adquirido pelo método clássico, quer você esteja aprendendo a ler, a fazer uma receita de bolo, a
construir um avião, ou a tocar piano: primeiro nós entramos em contato com um fato que precisamos memorizar ou
reter. Depois nós trabalhamos esse fato em nossa mente por meio de perguntas e etapas lógicas; e finalmente nós
expressamos esse conhecimento aplicando-o às situações da vida. Isso acontece porque a gramática, a dialética e a
retórica correspondem às leis da aquisição acadêmica do conhecimento; são as fases principais do aprendizado
intelectual. Qualquer educação que subverte essa ordem, ou ignora uma dessas etapas está fadada a desmoronar,
razão porque os métodos pedagógicos progressistas atuais estão levando a um buraco que muitos pais e educadores
estão tentando remediar, perguntando-se: Qual é o problema com a educação atual? Porque as crianças modernas
da era tecnológica estão academicamente defasadas academicamente em comparação com as gerações anteriores?

Continua...

EDUCAÇÃO CLÁSSICA CRISTÃ? Histórico: Parte 2

O Ressurgimento da Educação Clássica

A excitação das sociedades contemporâneas que abandonaram os métodos tradicionais em busca de uma educação
mais moderna e progressista não durou muito. As propostas construtivistas de Dewey e de outros progressistas e
cientificistas foram rapidamente colocadas em prática especialmente nos Estados Unidos, que começou a usar a
educação como propulsora da corrida tecnológica pela formação de profissionais que apoiassem a sua economia
capitalista, e como difusora das novas ideologias liberais e secularizadas. A ironia é que países de terceiro mundo, de
tendências socialistas e comunistas - como o Brasil - se enamoraram das mesmas correntes e técnicas pedagógicas
para inculcar em seus alunos um ideal de oposição ao pensamento liberal ocidental e de defesa dos ideais sócio-
políticos marxistas. A afinidade entre esses grupos contra a educação clássica provém do fato de que verdades
absolutas, pensadores independentes e pessoas com uma formação integral constituem uma ameaça para ambos os
sistemas.
Os métodos progressistas foram testados nos Estados Unidos especialmente no século XX e XXI. A partir das décadas
de 60 e 70 algumas vozes já apontavam para a defasagem intelectual dos alunos formados nesse novo sistema. Em
1947, a classicista Dorothy Sayers escreveu o artigo "As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem". Livros como "As
Sete Leis do Ensino", de John Milton Gregory foram republicados. Pais começaram a tirar os seus filhos da escola e
ensiná-los em casa pelos métodos que tinham aprendido com seus pais e avós. Um renascimento educacional estava
às portas, e o movimento pela educação clássica surgia nos Estados Unidos em resposta e denúncia ao fracasso
acadêmico das escolas modernistas. Com o respaldo do governo, as escolas públicas progressistas continuaram indo
de mal a pior, e escolas privadas tradicionais, além do movimento de homeschooling, deram impulso ao movimento
atual pela educação clássica, mais individual, e mais acadêmica. Pais começaram a pesquisar por si sós o que havia
de melhor para seus filhos e muitos encontraram a solução de seus problemas nos métodos e materiais clássicos. E
esses alunos começaram a se destacar acadêmica e até moralmente em comparação com os provenientes das
escolas públicas modernas.

Como acontece em outros países de terceiro mundo, o Brasil está bem atrasado na implementação dessas
mudanças. Os nossos cursos de pedagogia agora que estão defendendo e buscando implementar aquela educação
progressista que tem se demonstrado um verdadeiro fracasso acadêmico nos Estados Unidos e em outros países de
vanguarda. Mas isso realmente não incomoda o nosso governo, a não ser quando o Brasil é apontado como os
últimos das listas mundiais no quesito acadêmico. Nossas autoridades políticas, pedagógicas e sociais parecem ter
como seu ideal crianças e jovens iletradas, impensantes, sem poder, desinformadas, acríticas, seguidoras dos
ditames da moda, da mídia, e de estadistas com viés ditatoriais e corruptos, a julgar pela falta de bons livros nas
escolas, pelos ridículos programas "culturais" da mídia, e pelas ênfases ideológicas dos parâmetros curriculares
nacionais.

Contudo, também em nosso país, alguns pais conscienciosos têm se incomodado com esta situação. Eu gostaria de
poder dizer que estes pais que tem se levantado contra esse problema são em sua maioria cristãos, mas, assim como
nos EUA, não tem sido sempre assim. Muitos destes pais são simplesmente pessoas de bom senso, profissionais bem
sucedidos, em geral de classe média, católicos ou pessoas de pensamento mais tradicional, que têm buscado para
seus filhos uma educação melhor do que a que têm sido oferecida nas escolas atuais, uma educação mais parecida
com a que estes pais tiveram e que lhe capacitaram com as habilidades básicas para serem proficientes em suas
profissões. Em geral, os pais que estão buscando uma educação mais clássica e tradicional estão visando
simplesmente um melhor futuro acadêmico e profissional para seus filhos, mas devido a carência de material, têm
pouquíssimas alternativas em nosso país, a não ser mandar seus filhos para estudar no exterior, ou retirar os seus
filhos da escola e ensiná-los em casa por si mesmos ou com o auxílio de tutores. Cito aqui o crescimento da ANED-
Associação Nacional de Ensino Domiciliar - e a realização de alguns congressos por parte de instituições protestantes
e católicas que têm introduzido a educação clássica para um público cada vez mais interessado. Acredito que, assim
como aconteceu nos Estados Unidos, esses pais descobrirão na educação clássica um renascimento acadêmico, e
esperamos que os pais cristãos despertados por esse renascimento intelectual das letras e do pensamento
encontrem na educação cristã um reavivamento espiritual que mude para sempre e impacte para a vida da família,
da igreja e da sociedade.

Continua...
A EDUCAÇÃO CLÁSSICA E A EDUCAÇAO CRISTÃ (Parte 1)

II. A Educação Clássica e a Educação Cristã

Temos examinado o surgimento, a adoção, o declínio e o ressurgimento atual da educação clássica a fim de dar ao
leitor uma visão histórica da educação clássica, de introduzi-lo aos seus principais distintivos, e de buscar explicar o
sucesso atual desse modelo. Passemos, agora, a uma breve avaliação da Educação Clássica sob os critérios cristãos.
Buscaremos responder as seguintes perguntas: 1) A educação clássica é "a educação" ideal? 2) A educação clássica é
cristã? 3) A educação cristã pode ser clássica? E finalmente, a questão mais crucial: 4) A educação cristã precisa ser
clássica?

Este post tratará das duas primeiras perguntas, que apontam, negativamente, para os problemas e perigos que a
educação clássica pode representar para aqueles educadores e alunos cristãos que adotam a educação clássica sem
discernir suas bases e ênfases anticristãs. O próximo post tratará das possibilidades, da necessidade ou não e dos
termos em que o modelo clássico poderia ser usado nas escolas e lares cristãos.

A Educação Clássica é Ideal?

Os gregos de fato buscaram conhecimento e desenvolveram ferramentas capazes de moldar, estimular, afiar e
desenvolver o intelecto humano. Mas antes que os elevemos além do crédito que lhes é devido, e antes que
adotemos indiscriminadamente seus métodos e práticas educacionais, precisamos lembrar que seu sistema
educacional ficava aquém dos ideais cristãos em pelo menos três áreas principais:

1- Eles não tinham uma base sólida, uma fundação para sustentar o seu conhecimento, pois não possuíam aquele
"temor do Senhor" que é o princípio do saber. Eles não possuíam um arcabouço apropriado para encaixar os
conhecimentos que adquiram, nem um padrão para julgar o que é bom ou mal, e o que é verdadeiro ou falso.
Desconhecendo as Escrituras Sagradas, faltava-lhes luz para o seu caminho; eles tropeçavam sem nem saber em quê.
Faltava-lhes o esquema bíblico da Criação-Queda-Redenção que lhes fornecesse uma cosmovisão apropriada, onde
eles poderiam encaixar e compreender a razão de ser e os propósitos dos fatos, o sentido da sua existência, e a
interligação de toda a verdade, que só encontra unidade em Cristo e no seu propósito para o mundo. Por não
crerem, por exemplo, na criação do homem à imagem de Deus, eles, apesar de verem a importância da razão e da
educação das crianças, não hesitavam em abandonar a céu aberto os recém-nascidos que pareciam fracos ou
doentes. Por não entenderem que o ser humano é caído, eles achavam que o homem era essencialmente bom, e
que as virtudes que pregavam poderiam ser alcançadas se apenas a juventude as conhecesse e praticasse. Por não
verem a necessidade de Redenção, eles não entendiam a necessidade de um novo nascimento, de um Salvador
divino-humano, e sabemos que pereceram espiritualmente, longe da Verdade que poderia lhes libertar.
2- Eles confiaram num instrumento falido. Eles elevaram indevidamente a razão humana a uma posição altíssima, de
salvadora e de redentora pessoal e social, por não possuírem a revelação sobre a queda do homem e sobre os
efeitos distorcivos do pecado também sobre essa instância do ser humano; nós sabemos que a razão e a lógica
humana também se tornaram depravadas com a queda, tendentes à falsidade, à mentira, à inversão da virtude pela
injustiça, sendo tendentes ao ato mais ilógico e irracional, que é a adoração da criatura ao invés do Criador.

3- Eles não alcançaram o alvo do aprendizado. Eles jamais obtiveram a verdadeira sabedoria, que começa com o
temor do Senhor, e que Deus dá a todos que, em humildade, pedem por ela; tampouco conheceram a sua fonte, o
Senhor Jesus Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos. Eles consideraram
"loucura" a sabedoria de Deus, ignorando que a "loucura"de Deus é mais sábia do que os homens. Assim, eles
ficaram muito aquém do alvo de todo conhecimento, que é o conhecimento de Deus e do seu Filho Jesus Cristo; eles
não ofereceram o seu conhecimento a Deus como culto racional pela renovação da sua mente, e não deram a Deus a
glória devida ao seu nome; não atingiram o propósito do conhecimento.

Assim, sem uma base apropriada, sem um padrão confiável, e sem um alvo digno para a sua construção filosófica, o
edifício filosófico-pedagógico dos gregos, por mais duradouros que tenham sido seus efeitos na história ocidental,
não resistiu, com respeito às suas bases e alvos, ao teste da filosofia e da pedagogia cristã, como o apóstolo Paulo
buscou demonstrar no seu discurso em Atenas, e como ficou evidente na proliferação e no impacto social e religioso
das igrejas cristãs nas cidades gregas de Éfeso, Corinto e Tessalônica, por exemplo. Os tratados clássicos não são
cânons autoritativos. A Palavra de Deus, sim. O pensamento clássico nunca salvou a humanidade. Nosso Senhor
Jesus Cristo, sim. Os melhores insights dos seus filósofos talvez tenham dado à Sócrates uma causa forte o suficiente
para viver e até morrer, mas não lhe deram o caminho nem a esperança para a vida após a morte. Somente a
verdade de Deus nos guia nessa vida com poder e nos conduz à cidade celeste. Assim, o que podemos aproveitar dos
escombros da construção filosófica grega foram apenas algumas idéias que se aproximam da verdade, algumas
ferramentas úteis e alguns materiais que podem ser usado em outras construções intelectuais. Uma idéia correta
seria a valorização da razão humana (desde que vista da maneira correta). Algumas de suas ferramentas seriam os
métodos de ensino da gramática, da dialética e da retórica. Os materiais que aproveitamos são os tijolos das artes
liberais.

Assim, longe de ser "a educação ideal" para os cristãos, é possível, que, entendidas as ressalvas acima, a educação
nos moldes clássicos ainda seja uma das opções mais sólidas dentre os demais modelos vigentes, e que teria a
possibilidade de ser aproveitada em algumas de suas ênfases, práticas e matérias pela educação cristã, desde que
saibamos julgar todas as coisas, reter o que é bom, e nos abster de toda forma de mal

A Educação Clássica é Cristã?

A educação clássica é cristã? O histórico que apresentamos sobre a sua origem e desenvolvimento deixa claro que a
origem, os métodos, as ênfases e os seguidores da educação clássica não são primariamente cristãs, mas pagãos e
seculares, embora muitos cristãos façam uso de certos métodos ou ênfases clássicas que parecem concordar com a
Bíblia. Mas, estritamente falando, ela é uma invenção dos antigos gregos, que eram pagãos, idólatras e orgulhosos, e
a educação estritamente clássica carrega consigo a visão de mundo de seus criadores, que por sua vez é repassada
aos seus professores e alunos, e que representa um real perigo para educadores cristãos que inadvertidamente
valorizem seus métodos e materiais acima dos princípios cristãos. Dentre estes perigos principais, ressaltamos:
1- O Perigo do Paganismo. Nem sempre as obras consideradas mais excelentes, escritas pelos autores clássicos,
refletem os valores e a visão de mundo cristã. Muitas das leituras indicadas pelos currículos clássicos como
indispensáveis para determinadas séries, as quais embasarão todo o currículo, são inapropriadas para certas faixas-
etárias e para cristãos de determinada persuasão. Por exemplo, há pais cristãos que não querem expor suas crianças
pequenas às histórias e tramas de guerras, assassinatos e traições comumente apresentadas nas obras clássicas;
outros pais consideram a linguagem e as mensagens desses textos inapropriadas para seus filhos; ainda outros
ressentem, com razão, a ênfase no estudo dos deuses da mitologia clássica e dos contos e fábulas pagãos no lugar da
ênfase na história bíblica, dos grandes feitos de Deus, e da sabedoria cristã.

2- O Perigo da Idolatria. Referimo-nos aqui nem tanto ao risco das crianças virem a adorar os deuses da mitologia
pagã, mas àquela idolatria sutil de se valorizar ideais diferentes dos cristãos; de se curvar antes aos ensinos dos
filósofos do que aos dos profetas e apóstolos, de adorar a razão ao invés da sabedoria bíblica, e de se buscar a
virtude do mundo sem a base da piedade e do temor do Senhor. A Educação Clássica focaliza e idolatra a razão como
redentora da humanidade, e é possível que o refinamento da razão e o desenvolvimento da mente venha a se tornar
um ídolo real para os nossos filhos.

A educação cristã, por sua vez, considera Deus e a sua Palavra como centrais, e ela segue o ensino bíblico de que o
homem não é primariamente um ser intelectual, mas um ser espiritual, regido pelo seu coração. Além disso,
considera que a queda afetou todas as instâncias do ser humano, inclusive a sua mente. Por isso, a educação cristã
não é focalizada na razão, mas na alma, composta, por assim dizer, do coração, da mente e da consciência. A mente,
por sua vez, que também tem um aspecto espiritual, é guiada pela fonte espiritual do coração, e jamais deve ser
elevada acima deste, mas deve ser vista como boa ou má, como íntegra ou distorcida conforme for a situação
espiritual do coração e da consciência. Por isso os cristão devem ter cuidado para não confundirem a educação da
mente com a totalidade da educação cristã, que por ser espiritual, deve alcançar e formar todas as instâncias da vida
humana, em todos os seus aspectos, espirituais, intelectuais, morais, emocionais, físicos, estéticos, sociais,
relacionais, etc. Além disso, os educadores cristãos devem compreender que o parâmetro bíblico para a razão é a
verdade, e a razão em si pode estar corrompida pelo desconhecimento da verdade, pelo ódio à verdade, e pelo
compromisso com mentira. Desenvolver a mente da criança sem submetê-la ao temor de Deus, ao crivo da verdade
bíblica, e à busca humilde pela sabedoria que é dom de Deus, pode formar inteligentes, argumentativos e sagazes
inimigos de Cristo, ao invés de crentes piedosos e compromissados com o Reino de Deus e com a Sua verdade.

3- O Perigo do Orgulho Intelectual. Vimos que a educação clássica foi inigualável quanto ao desenvolvimento
estritamente intelectual. Contudo, este mesmo fato tem representado um problema para os professores e alunos
cristãos que adotam os métodos clássicos e sabem que eles estão acima da maioria no critério intelectual por
conhecerem, por exemplo, as leis da lógica, por terem grande habilidade de persuasão nos debates, e por acabarem
se destacando no meio acadêmico. Esses correm o risco de serem expostos àquele que é um dos maiores pecados,
capaz de levar à sua destruição espiritual: o orgulho e auto-exaltação. O educador cristão Kevin Swanson comentou
numa palestra sobre a educação clássica que ele nunca conheceu jovens tão pernósticos, indiscretos, cheios de si,
argumentadores e desprezadores de outros do que os grupos de jovens (muitos deles de formação cristã) que ele
encontra nos corredores dos eventos de competições estaduais e nacionais de debates entre os alunos de escolas
clássicas. Que desserviço eles prestam para a igreja e para o mundo por usarem os conhecimentos e habilidades que
adquiriram para glorificarem a si mesmos ao invés de usá-las para a glória de Deus e para a defesa humilde e
amorosa do Evangelho!
A EDUCAÇÃO CRISTÃ PODE OU PRECISA SER CLÁSSICA?

Esse post é parte do ensaio intitulado "Educação Clássica Cristã?" Iniciamos fornecendo aos leitores um histórico da
Educação Clássica e do seu relacionamento com a Educação Cristã. Em seguida, nos propomos a fazer uma avaliação
da Educação Clássica do ponto de vista cristão. A postagem anterior (ainda não leu? clique aqui) trata dos aspectos
negativos da educação estritamente clássica e dos perigos e cuidados que o educador cristão deve ter ao adotar seus
métodos. A postagem atual trata, mais positivamente, das possibilidades de usarmos certas ênfases e métodos
clássicos, a partir de duas perguntas cruciais: "A Educação Cristã pode ser Clássica?" E "A Educação Cristã Precisa ser
Clássica? " E na próxima postagem esperamos dar ao leitor uma idéia mais prática, inclusive com listas de materiais,
de como os currículos clássicos estão sendo usados por escolas e lares cristãos.

Resultado de imagem para Bible LiteratureA EDUCAÇÃO CRISTÃ PODE SER CLÁSSICA?

Temos visto o sucesso intelectual da educação clássica. Vimos também que ela fica aquém em vários quesitos
cristãos básicos e que ela apresenta perigos reais aos educadores e alunos cristãos. Isso leva naturalmente à
pergunta: Os cristãos podem usar dos métodos clássicos? Vimos, no histórico apresentado, que os cristãos
historicamente têm usado com proveito muitos dos métodos clássicos. A base para eles fazerem isso é o
entendimento de que toda verdade procede de Deus, e o reconhecimento de que os gregos antigos descobriram e
organizaram muitas verdades relacionadas ao desenvolvimento intelectual, mais do que outros antes e depois deles,
razão porque sua visão das disciplinas e das artes liberais se tornaram um padrão para as escolas clássicas desde o
renascimento.

De modo geral, os reformadores, e seus seguidores até hoje do ramo mais conservador entenderam que o modelo
curricular que mais se aproximava do ideal bíblico seria o currículo das artes liberais ou o currículo clássico. Baseados
no fato de que a educação cristã está fundamentada na existência de verdades absolutas, que o seu objetivo é o
conhecimento das verdades divinas e que a verdade é algo a ser conhecido intelectualmente, os defensores dessa
corrente passaram a entender que as artes liberais eram as que mais aproximavam ao estudo sistemático e
organizado das verdades de Deus.

Os defensores da educação clássica dão grande valor à razão humana, e consideram esta uma parte essencial da
imagem de Deus no homem. Gene Edward Veith, embora reconhecendo que “a crença cristã nunca seja meramente
a função de um argumento lógico, já que depende da revelação do Espírito Santo” (1999, p. 75-93), insiste em que
“crer compreende alguns processos intelectuais e um conteúdo objetivo” (1999, p. 81), em oposição direta àqueles
educadores progressistas que valorizam processos acima de conhecimento, sentimentos acima de fatos e
socialização acima de verdade (1999, p. 81) e assinala que, mesmo em meio a um contexto de um mundo pluralista e
relativista, os cristãos precisam reaprender a pensar em termos de verdade e de doutrina e não em termos de
experiência ou vontade ou interesses particulares.

Ele lembra, então, que sempre que o relativismo foi mais forte na história humana, a resposta da Igreja reformada
foi o desenvolvimento do que seria chamado de uma educação de artes liberais. Foi o que aconteceu quando
filosofias ateístas e relativistas típicas da diversidade cultural do fim do Império Romano se refletiram na observação
de Pilatos em João 18:38: “Que é a verdade?”, e a Igreja formulou uma educação liberal, sendo o termo “liberal”
entendido como se segue:
O termo ‘liberal’ deriva da palavra latina ‘liberdade’. Para os gregos e romanos, uma educação ‘liberal’ era a que
convinha a cidadãos livres; o mero treinamento ocupacional era para escravos. Aqueles que eram livres, em
contraste, precisavam saber pensar. A igreja primitiva tomou o melhor do conhecimento clássico e combinou-o com
uma visão de mundo cristã (1999, p. 83).

O resultado desse esforço foi exatamente a valorização cristã do ideal das Artes Liberais. Prossegue o autor do
artigo, demonstrando o resultado desse tipo de educação clássica:

O Renascimento foi essencialmente um reavivamento da educação clássica. A Reforma começou numa universidade
de artes liberais em Wittenberg e foi divulgada por eruditos clássicos tais como Melanchton, Zuínglio e Calvino. Uma
vez iniciada a Reforma, a educação tornou-se uma das principais prioridades religiosas. Foram abertas escolas para
ensinar aos leigos como ler a Palavra de Deus. Ministros mantiveram aulas de catecismo e pregavam sermões para
explicar as verdades do pecado e da graça, e os novos ensinamentos começaram a ser refletidos em toda a cultura,
na arte, música, literatura e vida social. Mais uma vez, a Igreja assumiu a tarefa de ensinar seus membros a pensar
biblicamente. (VEITH, 1999, p. 84)

Assim, para o desenvolvimento acadêmico intelectual dos alunos, o modelo clássico tem sido provado pelo tempo
como um dos métodos mais lógicos, ordenados, sistemáticos e eficazes para o treinamento da mente, e, apesar das
ressalvas que fizemos na seção anterior e dos cuidados que precisamos ter, em geral os cristãos a tem considerado
compatível com os princípios cristãos que também dão à mente um papel elevado na descoberta das verdades de
Deus, na formação da pessoa, e no próprio crescimento espiritual. Desde que submissa à revelação, e dependente
da iluminação do Espírito de Deus, a mente do crente pode ser muito beneficiada pelo estudo rígido da lógica e por
meio de disciplinas bem estruturadas, mais do que pelos métodos relaxados, assistemáticos e relativistas da
pedagogia moderna.

Na atualidade, pedagogos cristãos têm também defendido o modelo clássico propondo que os três caminhos do
trivium (a gramática, a lógica e a retórica) correspondem aos três termos frequentemente utilizados no livro de
Provérbios e em várias porções da Bíblia para designar as etapas de um aprendizado verdadeiro: o conhecimento, (o
contato com os ensinamentos de Deus), o entendimento (a compreensão mental e os inter-relacionamentos das
verdades aprendidas entre si e com o Criador), e a sabedoria (que seria a expressão prática e a aplicação do que foi
conhecido e compreendido nas circunstâncias reais e complexas da vida humana. Também a defesa clássica de que
se é possível conhecer antes de se compreender parece concordar com a visão bíblica de que podemos conhecer e
crer nas verdades de Deus e mesmo ensiná-las às nossas pequenas crianças que ainda não podem compreendê-las, a
fim de que elas possam ser futuramente compreendidas e aplicadas à vida. Outra afinidade que educadores cristãos
encontram na educação clássica atual é a importância das letras e da Palavra (consequentemente de métodos
tradicionais como a memorização, a repetição, a palestra, a leitura, a escrita, a fala, e a retórica) para a aquisição do
conhecimento e da sabedoria, que parece ressonar em textos como Êxodo 24:3,4; Dt. 18:15-22; Salmo 119:130;
Provérbios 2:6. Atualmente, é principalmente a ênfase na palavra e na leitura e na ordem das três etapas do trivium
que têm caracterizado a educação clássica cristã.
Exposta esta defesa cristã de alguns métodos clássicos, é importante ressaltar que a educação cristã não pode ser
estritamente clássica no sentido de trabalhar apenas o aspecto intelectual e de se perder em "loquacidade frívola" (1
Tm 1: 5), deixando-se levar pelas faltas e devaneios acadêmicos de seus fundadores idólatras. A educação cristã
pode usar alguns dos métodos clássicos para alcançar o seu ideal de formar o cidadão integral do reino de Deus, mas
não o ideal do cidadão romano; ela pode usar seus métodos para desenvolver a mente, mas ela vê a mente como
um componente da alma juntamente com o coração e com a consciência, aspectos ignorados pelos fundadores
gregos. Por isso é que o apóstolo Paulo nos adverte a não nos deixarmos levar por doutrinas falsas, pelas filosofias e
vãs sutilezas, pelas discussões inúteis, pela questões e contendas de palavras de homens cuja mente é pervertida e
privada da verdade (I Tm. 6:3-5), contrapondo estes erros típicos do intelectualismo pagão com o ensino segundo a
piedade, que é segundo a verdade de Cristo e que concorda com uma fé sincera em Cristo, com o amor que procede
de coração puro e com a boa consciência que é moldada pela santa lei de Deus. E em II Tm. 3:14-17, o apóstolo deixa
claro que a verdadeira educação cristã é fundamentada nas Escrituras, que são a fonte mais útil para a educação na
justiça e para preparar o crente para ser perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. A Bíblia, não as
disciplinas acadêmicas clássicas, são a marca distintiva e indispensável da educação cristã integral. E por mais ênfase
que encontremos na Bíblia sobre as "palavras da verdade", o Sábio de Eclesiastes nos adverte da vaidade das
palavras, visto que "não há limites para fazer livros e que o muito estudar é enfado da carne"(Ecl.12:10-12), e que a
educação mais importante é aquela que coloca o aluno face a face com Deus, para o temer e o obedecer.

A educação cristã, por ser integral, também precisa equilibrar o academicismo e a ênfase teórica típicos da educação
clássica com a prática e a expressão do conhecimento adquirido através do serviço útil à sociedade e à igreja, e com
a integração social e emocional saudável da criança na sua comunidade e especialmente na comunidade do pacto,
sem mencionar a necessidade do treinamento físico e atlético do corpo. Contudo, a educação clássica normalmente
se abstém dessas áreas, e por isso ela não pode ser vista como o todo da educação que precisamos dar às nossas
crianças. Por isso, é comum vermos algumas correntes educacionais cristãs buscando integrar o ensino literário
clássico com a inserção do aluno em uma atmosfera social e natural saudáveis, como ocorre com a proposta de
Charlotte Mason, e de outros educadores cristãos que continuam defendendo, contra o academicismo clássico, a
necessidade de uma educação mais prática e vocacional, voltada para o empreendorismo, para a formação de
líderes ativos ou para o serviço caridoso e útil à comunidade.

A EDUCAÇÃO CRISTÃ PRECISA SER CLÁSSICA?

Acho que essa é a questão mais delicada e talvez a mais importante colocada diante de nós, e tentarei respondê-la
com cautela. Já vimos que a educação clássica não é necessariamente cristã, pelo contrário, é de origem pagã. Mas
vimos que ela faz um trabalho excelente em desenvolver as capacidades da mente e em usar ferramentas úteis para
repassar conhecimentos aos alunos, e esse é um dos objetivos primordiais da educação cristã: preparar a mente da
criança para receber, assimilar e organizar o conhecimento de verdades. Por essa razão é que vemos no decorrer da
história muitos teólogos e grupos de cristãos utilizando-se dos métodos clássicos na educação das crianças e sendo
muito bem sucedidos na sua formação intelectual, e a exemplo dos puritanos, os quais se tornaram exemplares
também na piedade e no compromisso com a verdade de Deus, o que nos mostra que a excelência acadêmica
clássica e o ensino no temor do Senhor podem andar juntos.

Contudo, a frustração dos pais cristãos com os métodos pedagógicos vigentes, centrados na criança, e o sucesso
atual da educação clássica, centrada no conhecimento, têm levado muitos pais cristãos a valorizar mais o ideal
clássico e a buscar métodos, currículos e disciplinas clássicas para ensinar seus alunos, tanto no contexto escolar,
como no ensino doméstico. Estes alunos têm, por sua vez, se destacado no meio acadêmico, com notas acima da
média das escolas públicas e privadas nos testes nacionais, passando com louvor nos critérios de admissão nas
universidades, e destacando-se ainda como excelentes alunos nos cursos universitários. Diante disso, muitos pais e
educadores cristãos se vêem diante de um dilema: "será que, para dar uma boa formação acadêmica aos meus
alunos, eu preciso matriculá-los em instituições clássicas e adotar currículos clássicos, mesmo que estas escolas,
materiais e leituras não sejam cristãos?"

Felizmente existem muitas escolas clássicas cristãs hoje nos Estados Unidos e se espalhando pelo mundo, além de
casas publicadoras que buscam unir esses dois ideais educacionais, além de professores e autores que têm buscado
oferecer materiais didáticos cristãos nas mais diversas disciplinas, que se utilizam de métodos clássicos para ensiná-
las às várias faixas etárias. Mas em países como o nosso, em que há muito pouco material educativo cristão, e em
que a educação clássica é praticamente desconhecida ou depreciada pela filosofia educacional moderna como
atrasada, elitista ou conteudista, esses pais e educadores despertados para essa situação têm se perguntado
também: Será que os meus filhos podem ter uma boa formação cristã total sem utilizarmos dos métodos e materiais
clássicos?

Com base em II Timóteo 3:14-17 eu diria que esses pais e educadores não precisam se preocupar demasiadamente
com a falta de conhecimento dos métodos e materiais clássicos se eles derem a devida atenção e souberem fazer
bom uso de um livro só: o clássico dos clássicos, a Escritura Sagrada. Essas letras sagradas podem tornar as pessoas
que forem instruídas nela desde a infância pessoas perfeitas ou maduras em todos os sentidos, sábias para a
salvação pela fé em Cristo Jesus, sábias para viver uma vida moralmente íntegra, justa e bem-estruturada; e sábias e
perfeitamente habilitadas para a realização de toda boa obra. Que mais você poderia desejar para a educação de
seus amados filhos e alunos?

A educadora cristã Robin Sampson, conhecida por publicações sobre currículo e sobre como preparar as crianças
para os testes acadêmicos, faz um estudo muito interessante no seu livro "Quando o seu Filho Precisa Saber o Quê?,
e propõe como solução para os cristãos que estão preocupados com o sucesso acadêmico o que ela chama de uma
"abordagem do coração sábio". Denunciando as bases anti-cristãs da educação estatal no decorrer da história, ela
diz que havia uma educação excelente antes mesmo dos gregos surgirem com seus famosos ideais acadêmicos: era a
educação do povo de Deus no antigo testamento. Idealizada e ordenada por Deus desde o jardim do Éden, baseada
nos ensinamentos da lei de Moisés, centrada não no conhecimento, mas na glória de Deus e na formação espiritual
da pessoa toda, a educação judaica é apresentada a nós como um exemplo ou modelo melhor que a clássica. Suas
disciplinas curriculares são para nós mais relevantes do que as artes liberais (a Bíblia, a Ciência da Criação, a História
da Igreja, e a Maturidade do Caráter). Seus estágios substituem a proposta grega da gramática, lógica e retórica pelo
estágios do conhecimento, entendimento e sabedoria. A variada literatura divinamente inspirada é seu livro-texto ao
invés dos autores clássicos, a qual dá às crianças o conhecimento de Deus e instila no seu coração o apreço pelos
heróis e ideais bíblicos ao invés dos filósofos, aventureiros e oradores da antiguidade grega. O foco da educação dos
hebreus era na Palavra de Deus, na fé e na sabedoria que provém do temor do Senhor, em contraste com o foco
grego na literatura, na lógica e no conhecimento que provém da filosofia humana.

Essa autora compreende que pais preocupados com os tristes resultados da educação tecno-científica, behaviorista
ou romanticista atual queiram voltar ao método clássico literário, que sem dúvida era mais elevado, mais humano e
mais moral, e que funcionava no sentido de ensinar o aluno a buscar o conhecimento por si só, e fazia dele um
homem de letras, um erudito, um pensador, um líder. Muitos pais cristãos preferem esse ideal de homem clássico e
buscam combinar a educação clássica com a Bíblia, mas ela diz que há uma solução ainda melhor: voltar ou
redescobrir o modelo bíblico.

O que os gregos tiveram de melhor a oferecer à educação foram alguns princípios lógicos e ênfases literárias que os
hebreus já possuíam nos Oráculos de Deus. E eles tinham muito mais. Eles tinham o temor do Senhor que é a fonte
da sabedoria, um conhecimento verdadeiro, santo e útil que sempre destacou seus alunos muito acima de toda
erudição pagã. Pensem em José no Egito, em Daniel na Babilônia, em Mordecai e Esdras na Pérsia, na autoridade do
ensino de Jesus em comparação com todos os seus contemporâneos judeus, gregos e romanos; no poder da
pregação apostólica entre os gentios. A educação ordenada por Deus para o seu povo era e é muito mais apropriada
aos filhos da aliança do que uma educação nos moldes pagãos.

Não há nada de realmente importante na educação clássica que crentes estudiosos e piedosos não tenham
encontrado na Palavra de Deus. Mesmo quando os ímpios em geral agem com sabedoria isso acontece porque "o
seu Deus assim o instrui devidamente e o ensina... Também isto procede do Senhor dos Exércitos; ele é maravilhoso
em conselho e grande em sabedoria." (Is. 23-29). Que a educação da nova geração acontece pela transmissão dos
conhecimentos adquiridos pelas gerações anteriores, isso a Bíblia nos ensina desde Êxodo e Deuteronômio, e reitera
no Salmos e Provérbios. Que o estágio inicial da mente infantil prioriza a memorização: qualquer pai ou professor
que já leu os primeiros capítulos de Deuteronômio e que conhece um pouco da natureza infantil sabe que é pela
repetição e memorização que as leis de Deus devem ser primeiramente repassadas às crianças pequenas. Que a
mente deve ser informada com ordem segundo seus estágios próprios, isso Deus tem feito para ensinar o seu povo
no decorrer da história revelada, indo do concreto ao abstrato; e lidando com o seu povo inicialmente pelos
métodos visuais do tabernáculo e do culto para posteriormente revelá-los verdades mais espirituais no Novo
Testamento. Que o raciocínio é importante para o conhecimento e que a pessoa é estimulada a pensar em níveis
mais profundos por meio de perguntas apropriadas (dialética), Deus há muito tempo nos chama a fazer isso, como
por exemplo, quando argumenta com o seu povo, por exemplo, em Isaías 1:18: "Vinde, pois, e arrazoemos, diz o
Senhor..." ou em Isaías 40:13,14,21,26:

"Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que
lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de
entendimento?... Acaso, não sabeis? Porventura, não ouvis? Não vos tem sido anunciado desde o princípio? Ou não
atentaste para os fundamentos da terra? ... A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? Levantai ao
alto os olhos e vêde. Quem criou estas coisas?"

Amigos, nós não somos proibidos de ler e usar seletivamente os clássicos pagãos, mas por outro lado, nós não
precisamos dos clássicos gregos ou modernos para educar os nossos filhos quando temos em nossas mãos o clássico
dos clássicos, a fonte de todo saber, a Palavra de Deus. Um eminente professor secular de literatura recentemente
afirmou que o livro mais importante para a formação total do aluno é a Bíblia. Suas histórias, poemas, provérbios e
sua própria cosmovisão são indispensáveis ao fornecer ao aluno uma estrutura inicial para conhecer o seu mundo.
Em outras palavras, ele estava dizendo que a Bíblia é o clássico mais importante que deveria ser explorado na
educação, mesmo da perspectiva não-cristã. Outros educadores têm relacionado o declínio do ensino da Bíblia nas
escolas Norte-Americanas com o seu declínio acadêmico. E é importante aqui lembrar que muitos defensores da
educação clássica não priorizam a leitura da Bíblia e dos Bons Livros da Tradição Cristã, o que deveria ser prioridade
para nós.
Não, a educação cristã não precisa ser clássica. Ela sempre foi superior. Ela pode ter vingado no século XVI através
dos moldes clássicos, mas ela floresceu e deu frutos por ter sido, primeiramente, bíblica. Basta que ela seja bíblica, e
ela será academicamente melhor do que a clássica e infinitamente superior em todos os demais aspectos. A
educação cristã excelente é integral, e ela incluirá o desenvolvimento intelectual; ela ensinará a criança a buscar o
conhecimento por si mesma, nas melhores fontes, a compreender as verdades de Deus em seu relacionamento uma
com as outras e com Deus; ela lhe fará um mestre de letras, um hermeneuta da Palavra de Deus e de outras
literaturas de qualidade, e muito mais do que isso. Esse conhecimento virá de um coração vivo e santo, e culminará
numa vida piedosa e útil.

A educação cristã não precisa ser clássica. Ela pode ser melhor ainda. Você pode não ter, querido pai ou professor,
muito conhecimento dos métodos gregos. Não se preocupe. Estude os métodos de ensino bíblicos, usados pelos
profetas, pelos sacerdotes; os métodos usados por Cristo e por seus discípulos, e exemplifique-os para seus alunos.
Você pode não ter conhecimento ou acesso aos grandes clássicos da mitologia grega, às famosas histórias de
Homero, aos diálogos de Platão, às Fábulas de Esôpo ou às palestras de Cícero; não se preocupe. Conte às suas
crianças a história da redenção, da criação ao apocalipse; descreva seus heróis e a obra de Deus em suas vidas; conte
seus romances; memorize os provérbios de Salomão e recite ou cante os grandes poemas dos Salmos. Não há
literatura mais excelente e mais ideal para o ensino na justiça do que esse livro completo, divino, santo, perfeito,
verdadeiro e útil para dar sabedoria e para tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Em uma palestra educacional, o pastor e educador Kevin Swanson apresentou uma boa solução prática para os
educadores cristãos clássicos: Priorizem a leitura dos mais diversos textos Bíblicos. Tendo feito isso, busquem os
clássicos cristãos, ou seja, os melhores livros nos deixados pela tradição cristã: os escritos dos pais da igreja; O Livros
dos Mártires, de Fox; as obras de Agostinho; as Institutas de Calvino e as obras dos reformadores; os escritos dos
puritanos; dos grandes cientistas e filósofos cristãos da era moderna; as grandes biografias da História da Igreja,
Horace Bonar, chegando aos clássicos mais modernos, como as obras ficcionais ou não de C.S. Lewis, de Abraham
Kuyper, de Machen, de Francis Shaeffer, até a melhor literatura cristã infantil produzida na atualidade como a de
Miriam Schoolmaster, Diana Kleyn, Karine Mackenzie, etc, muitas das quais já estão disponíveis em nossa língua.
Tendo feito isto, selecione então algumas das melhores obras clássicas, que os especialistas calculam serem poucas,
talvez menos de cem. Destas, muitas você já terá utilizado por serem cristãs; e muitas outras poderão ser
descartadas pelos temas não apropriados às nossas crianças e jovens, e você terá um punhado de boas obras
clássicas que poderão ser lidas com proveito pelos seus filhos ou alunos. Mas não busque esse terceiro grupo de
livros sem ter antes trabalhado exaustivamente os dois primeiros. Nosso tempo com nossas crianças é pouco;
devemos buscar primeiro as melhores obras concernentes ao reino de Deus e a sua justiça; e todas as demais coisas
nos serão acrescentadas. Porque cremos na promessa de Isaías: "todos os vossos filhos serão ensinados do Senhor; e
grande será a paz de teus filhos".

Não tenho dito estas coisas para desestimular ninguém a conhecer os métodos e programas acadêmicos clássicos,
nem para impedir que usem esse termo para descrever bons materiais didáticos cristãos ou não, muito menos para
contrastar o termo com a educação cristã. Na realidade, hoje em dia o termo educação clássica tem sido usado não
tanto para descrever o sistema exato da educação grega antiga, mas mais como um sinônimo de um currículo mais
acadêmico, tradicional, sistemático, tutorial, mais centrado no ensino do conteúdo do que na vontade e
divertimento da criança, mais histórico e literário do que tecno-científico, que respeita as fases do desenvolvimento
da mente infantil atribuindo tarefas e conteúdos apropriados a cada faixa etária, dos mais objetivos e memorizáveis
para as séries menores aos mais racionais e expressivos à medida que a criança amadurece; É nesse sentido que
muitas vezes uso e que continuarei a usar o termo "educação clássica", especialmente na seção seguinte em que
farei uma caracterização e relacionarei uma série de materiais teóricos, tutoriais e didáticos para os meus leitores
que desejarem se aprofundar e conhecer melhor o ensino clássico, como sendo um método de ensino
academicamente mais excelente do que o proposto pela pedagogia atual e cujos princípios e práticas se coadunam
com muitas das leis do conhecimento e do desenvolvimento que Deus colocou na criança como uma alma pensante
e um descobridor de verdades.

COMO É PRATICADO O ENSINO CRISTÃO CLÁSSICO HOJE?

III. Caracterização do Ensino Clássico Cristão Atual

Iniciamos este artigo com um histórico do ensino clássico, de suas raízes na antiguidade greco-romana à
incorporação de muitos de seus métodos pelos cristãos de várias épocas, e chegando ao sucesso atual deste
movimento. Em seguida, fizemos uma análise da educação clássica pela perspectiva cristã, primeiro advertindo
quanto aos perigos e cuidados que devemos ter como cristãos para com algumas de suas ênfases e práticas, e então
analisando a legitimidade e possibilidade de seu uso por nós, cristãos, especialmente devidos à semelhança e
coincidência de suas ênfases com os princípios cristãos encontrados na Bíblia.

Nesta terceira seção, queremos dar aos leitores uma idéia geral (- mas nem tão geral-através de informações
concretas e específicas) de como a educação clássica tem sido praticada atualmente por escolas, instituições e
famílias cristãs, especialmente no que diz respeito ao currículo, disciplinas, materiais e práticas de ensino. E
finalizaremos com uma lista de recursos -clássicos, cristãos ou outros materiais úteis - que podem auxiliar pais ,
professores e escolas que estejam buscando montar o seu próprio currículo clássico.

Ficarei devendo a meus leitores algo que gostaria muito de ajuntar, traduzir, organizar, adaptar ao português e
disponibilizar,que seria uma espécie de manual de montagem de um currículo cristão, nos moldes clássicos ou não,
que incluísse conteúdos básicos por série, lista de leituras, e organograma, com planos de curso e de aula, etc. Mas
acho que para isso vou precisar da ajuda de vocês com sugestões de materiais e leituras específicas por faixa etária.
Mas espero que esta listas já sejam de alguma ajuda e incentivem tal iniciativa.

FILOSOFIA EDUCACIONAL E ADEPTOS DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA CRISTÃ

A posição adepta do currículo das artes liberais é também defendida por cristãos como Gordon Clark, R. C. Sproul,
David Engelsma e tem influenciado grande parte da educação cristã atualmente disponível. A Associação de Escolas
Clássicas e Cristãs nos Estados Unidos reúne estudiosos como Tom Spencer, Douglas Wilson e Ron Lee e tem se
empenhado em divulgar o ideal de uma educação clássica para as escolas cristãs, através da produção de livros,
revistas, boletins informativos e organização de palestras e conferências sobre o tema[1]. Classical Conversations e
Veritas Press são entidades fornecedoras de currículo e materiais didáticos da perspectiva clássica e cristã.
Gene E. Veith dá uma idéia de como o currículo clássico tem sido praticado nas principais escolas cristãs dessa
tendência:

As escolas clássicas atuais se utilizam do trivium e do quadrivium como modelos conceituais sobre os quais
estruturam todo seu currículo, mesmo que se estude as matérias mais convencionais. As escolas clássicas
tipicamente ensinam a ler, escrever, calcular, e ensinam educação cívica, história, biologia, etc., mas fazem isso de
maneira diferente da observada nas escolas públicas, usando o trivium para estudá-las de maneira mais completa e
sistematizada. As escolas tipicamente clássicas ensinam também o Latim, e dão destaque a doses maciças de grande
literatura. A Associação Acadêmica Clássica e Cristã também ensina Religião: a Bíblia e a Teologia sendo estudadas
com rigor sistemático semelhante e integradas no currículo todo. (1999, p. 87)

Douglas Wilson explica que a alma da educação clássica é a conversação com as grandes mentes do passado, mas
tomando-se o cuidado de não se venerar o passado nem a filosofia anti-cristã. Participar dessa "grande conversação"
com os nossos mestres do passado é o que permite que cresçamos e sejamos enriquecidos pela educação, ou cada
geração terá de reinventar a roda e seremos sempre bebês e pigmeus intelectuais. Não que teremos que concordar
com tudo o que os antigos mestres nos deixaram, mas estar a par das grandes controvérsias da humanidade, não
apenas saber mencionar o nome de alguns filósofos, é um dos alvos do ensino clássico. George Roche, fundador da
Universidade de Hillsdale, escreve que "educação é precisamente a preservação, o refinamento e a transmissão de
valores de uma geração para a outra. Suas ferramentas incluem a razão, a tradição, a preocupação moral e a
introspecção...". Essa definição concorda com a definição do Antigo Testamento de que educar é transmitir verdades
às gerações futuras. Esse autor só esqueceu de incluir a fé na revelação e a iluminação do Espírito Santo como as
ferramenta principais do aprendizado. Já Russel Kirk defende a educação clássica pelos seus resultados na vida dos
alunos: "E, sendo assim educados, eles saberão que eles não sabem de tudo; e que existem objetivos na vida além
de poder e dinheiro e gratificação sensual; eles terão visão ampliada e alvos maiores; eles olharão para trás, para os
seus ancestrais e para frente, para a sua posteridade. Para eles, a sua educação não terminará no dia da
formatura."[1]

Gordon Clark, por exemplo, escreveu, sobre o currículo, que este deveria se basear em alguns princípios: “o princípio
mais distintivo que deve governar o currículo é o destaque de assuntos que se provarão úteis ao aluno não importa
qual vier a ser a sua profissão” (2000, p. 108). A este segue algo que é indispensável a todos: a habilidade para ler,
seguida da escrita e da matemática. Ele acrescenta ainda as línguas estrangeiras, como Francês, Grego, Latim,
Alemão, (no caso do contexto brasileiro e globalizado atual, destacamos a importância da língua inglesa). A
importância de se conhecer essas línguas é que elas são ferramentas para o estudo das verdades de Deus de modo
acurado, pelo conhecimento da língua neo-testamentária, e porque, como os crentes devem ser os mais dedicados
em suas profissões, eles precisarão se aprofundar a tal ponto que jamais serão os melhores advogados se não
souberem ler os escritos em italiano, por exemplo. Só poderão chegar ao topo como cientistas se souberem ler
francês e alemão, e só serão excelentes pedagogos se puderem ter acesso a matérias na língua inglesa e francesa
que ainda não estão disponíveis para o público brasileiro.

Assim, a conclusão de Gordon Clark é que “os princípios cristãos prescrevem, portanto, um currículo fortemente
determinado pelas artes liberais” (2000, p. 111), em contraste com o currículo voltado para o treinamento
vocacional. A posição de G. Clark está em oposição aberta à tendência das escolas públicas americanas, marcada
pelo abandono do clássico e pela valorização do pragmático e do vocacional. Clark empenha-se em demonstrar que
essa educação pública está formando cidadãos cujo nível acadêmico tem caído grandemente, o que se evidencia,
segundo ele, na negligência quanto ao estudo das línguas, na constatação de que os jovens do ensino secundário
têm problemas em ler literatura mais elaborada e no resultado insuficiente de testes simples de matemática, por
exemplo, a que esses alunos foram submetidos (2000, p. 109-110).

Ele não repudia o treinamento vocacional como inútil, entendendo que tem o seu lugar e que os cristãos devem se
destacar também nessas profissões. O aspecto mais radical de sua posição é que ele não considera o treinamento
como educação, visto que para ele a educação é algo essencialmente intelectual – de conhecimento das verdades –
enquanto o treinamento é algo que não estimula o pensamento, mas transforma os homens em máquinas (2000, p.
112). “O currículo das artes liberais tem o alvo oposto. Ao invés de tornar o homem uma máquina, ele deseja evitar
que se torne uma máquina. (...). Os dedos não são treinados, mas a mente é desenvolvida. O aluno não aprende a
fazer, ele aprende a entender. (...). Como Spinoza, ele pode ter que triturar lentes para se sustentar – ele pode
treinar seus dedos em um curto espaço de tempo – mas ele passará suas tardes pensando e escrevendo livros que
influenciarão a humanidade por séculos (CLARK, 2000, p. 112).

ÊNFASES E PRÁTICAS CURRICULARES CLÁSSICAS

Para resumir algumas marcas ou ênfases que tenho observado entre as escolas, materiais didáticos e currículos
clássicos e outros mais tradicionais, destaco esses diferenciais nas seguintes áreas principais:

Livros Clássicos

- Educadores clássicos defendem um currículo fortemente baseado na leitura e estudo dirigido de livros clássicos, de
livros "vivos", de obras originais - ao invés de um currículo baseado em livros didáticos, onde as informações são
resumidas, rasas, e muitas vezes, distorcidas. Eles dizem que, em sua maioria, os livros didáticos - ou livros texto -
não são libertadores, mas limitadores do conhecimento e do pensamento, visto que eles dizem à criança e ao
professor o que eles devem saber, em que devem pensar, e limitam o nível de profundidade com que a criança
deverá trabalhar um tema. Mortimer Adler, por exemplo, sustenta que leituras informativas em geral, como a de
notícias, e de livros de baixa qualidade, não conduzem a um aprendizado verdadeiro, porque não são capazes de
agir, mudar, e dar crescimento às pessoas; eles apenas as mantém ocupadas e, quando enchem sua mente de fatos,
estes dão à pessoa a impressão de serem cheias de conhecimento. Mas se esse conhecimento não as faz
amadurecer, nem se traduz em sabedoria no viver, esses materiais podem ser úteis apenas como divertimento, mas
não fazem o que os clássicos podem fazer.

Já os clássicos seriam aqueles poucos livros que tem a capacidade de tirar o leitor de seu mundo estreito e lhe abrir
as portas para uma visão mais ampla da profundidade e complexidade do conhecimento e da vida humana. Eles são
capazes de fortalecer a mente, de fazer a pessoa identificar as meias verdades e superficialidade do seu tempo e
contexto social, e de fazê-la sustentar a verdade e ter um bom julgamento. Eles formam alunos pensantes, livres das
opiniões dos ditadores sociais, e tem a tendência de formar bons líderes para o amanhã.
- Como identificar uma obra clássica? Em geral, um clássico é uma obra que você pode ler (ou ver, no caso de
pinturas e esculturas; ou ouvir, no caso de músicas) muitas vezes e sempre extrair e aprender mais com ela a cada
releitura, visto terem sido escritos cuidadosa e estilosamente por grandes mentes. Além de exibirem estilo distinto, a
mais refinada arte e um intelecto claro e profundo, podemos reconhecer um clássico, segundo Os Guiness, em seu
livro "Convite aos Clássicos", pelas seguintes características: 1) São capazes de criar mundos de imaginação e de
pensamento; 2) Mostram a complexidade e as várias facetas, positivas e negativas, da vida e do caráter humano; 3)
tem efeito transformador na auto-compreensão do leitor; 4) Convidam e sobrevivem leituras frequentes; 4) Se
adaptam a várias épocas e lugares e dão aos leitores um senso da vida comum da humanidade; 5) São considerados
clássicos por um número suficientemente grande de pessoas, tanto de pessoas comuns, como de autoridades
literárias; 6) Seu apelo continua por várias eras históricas e para todas as pessoas, por terem sido escritos para
todos.

Leitura e Literatura

- Uma das mais caracteríticas ênfases do ensino clássico é que crianças de todas as idades devem ser expostas a uma
quantidade extensa de literatura de boa qualidade, a livros clássicos, escritos cuidadosamente pelos melhores
autores, tanto de obras que estão no nível da criança, como de obras mais ricas e difíceis, cujo objetivo é "esticar" a
mente da criança e lhe dar um modelo mais elevado.

- Desde a mais tenra infância, os pais devem fazer uma boa seleção dos melhores livros, poemas, rimas, versículos
bíblicos e provérbios, não necessariamente livretos infantis, e ler para as crianças em voz alta, diariamente.
Inicialmente, a criança deverá ser incentivada a memorizar poemas e textos que são excelentes literariamente, e que
serão importantes para a sua vida futura, ao invés de rimas infantis de baixa qualidade. Posteriormente, o professor
deve fazer perguntas orais sobre o texto, modelando para a criança como fazer boas perguntas para a interpretação
do texto.

- Há programas pré-escolares clássicos que substituem completamente qualquer livro didático pela leitura dos
melhores clássicos e obras originais infantis. No ensino fundamental, os programas utilizam a leitura dos clássicos
infantis como fornecedores de temas geradores para serem trabalhados nas mais diversas disciplinas, através do
sistema de unidades de estudo. Na fase retórica, a ênfase na interpretação e a reprodução do estilo das obras
clássicas é incentivado interdisciplinadamente.

- Incentivo do uso do dicionário para melhorar o vocabulário sempre que a criança - ou o professor - se deparar com
palavras desconhecidas.

- Incentivo da leitura fonética o mais cedo possível, de preferência fora do ambiente institucional e da rigidez de
horários e do ensino formal.
Bíblia e Doutrinas

- Classicistas Cristãos enfatizam o estudo da Bíblia como o clássico maior.

- As Histórias da Bíblia são ensinadas cronologicamente, com auxílio de cartão ou linha do tempo para memorização
de fatos, datas e personagens principais.

- O ensino das histórias bíblicas é ensinado paralelamente ao ensino da história mundial do período, para que a
criança tenha o contexto do mundo e de outros povos da época.

- As crianças são incentivadas a conhecer o contexto histórico, cultural, geográfico, etc. das histórias bíblicas e de
seus detalhes.

- Forte ênfase no ensino de doutrinas, as eternas verdades da Bíblia. Uso de diversos catecismos ensinados
sequencialmente, dos mais simples aos mais complexos, adequados à idade e capacidade das crianças.

- Memorização do Catecismo e de Passagens Bíblicas importantes são imprescindíveis. Musicalização de Versículos e


do Catecismo ajudam a memorização.

Forte Ênfase na Gramática e na Matemática

- Essas disciplinas instrumentais ocupam a maior parte da carga horária, especialmente nas séries iniciais, e usam
diversos artifício como rimas, músicas, repetição e recitações para memorização de fatos, das definições e regras da
gramática, das tabelas das quatro operações matemáticas, etc.

- Ensino sistemático, repetitivo e progressivo da gramática, e ensino fonético de línguas, incluindo muitas vezes
línguas clássicas, como o latim e o grego, por sua capacidade de melhorar o vocabulário e a expressão linguística.

- A Matemática enfatiza tanto a memorização de tabuadas e regras, como o desenvolvimento da mente para a
compreensão de problemas e sua aplicação às situações da vida, por meio de identificação de sequências, medidas,
tempo, valores, sempre que possível em conexão com outras disciplinas.
Ensino Diferenciado da Escrita e Redação

- Na frase gramatical, ênfase no domínio da escrita cursiva, na exposição a textos excelentes dos melhores autores,
na cópia de trechos bem-escritos e no ditado de frases exemplares, a fim de que a criança se familiarize e tenha
como seu exemplo e alvo a melhor literatura disponível, antes de ser encorajada a se expressar.

- Na fase dialética, os alunos aprenderão as técnicas da boa escrita, da ordem e da composição de frases e
parágrafos, da revisão e editoração de textos, e começarão a produzir textos originais pequenos seguindo um
modelo e imitando textos exemplares.

- Somente na fase retórica a criança será mais incentivada a produzir textos totalmente originais, com idéias próprias
e com beleza e criatividade de expressão.

Valorização e Ensino Integrado das Artes

Bastante valorizadas, a arte, o desenho, as técnicas de pintura, e a música erudita são normalmente integradas às
demais disciplinas, e servem para reforçá-las. Por exemplo, a criança aprenderá as técnicas para desenhar uma arca,
um zigurate, um soldado romano como complemento às aulas de história; ela aprenderá a esboçar o traçado de
animais, a colorir frutas, e a pintar paisagens como parte das aulas de ciências; ela ouvirá músicas típicas e
aprenderá a cozinhar comidas típicas, e imitará a arte e o artesanato dos lugares do mundo que estiver estudando
nas aulas de geografia; a música clássica pode acompanhar a cópia de parágrafos que tratam dos diferentes
compositores, e assim por diante.

- A arte inclui não apenas o conhecimento e classificação dos diferentes compositores e artistas e de seus estilos,
mas a reprodução individual de técnicas e métodos utilizados pelos artistas estudados, e o desenvolvimento
prazeroso do gosto pela arte bela e excelente, com o cuidado de avaliar a arte segundo os critérios da qualidade e,
no caso dos cristãos, da verdade, da beleza e da pureza moral.

Disciplinas Diferenciadas:
- O Ensino das Temáticas das Diversas disciplinas são ensinados com base ou tendo como tema gerador a Leitura dos
Livros Clássicos apropriados para a idade dos alunos. Em alguns programas, as disciplinas quase que desaparecem, e
o estudo e interpretação dos clássicos abrange temas diversos na medida em que aparecem nos livros.

- Ensino da Lógica Formal como disciplina a partir das séries intermediárias.

- Ensino do Latim e outras línguas clássicas desde a fase gramatical, e dos prefixos e sufixos gregos, como método
para aquisição de uma boa ortografia e vocabulário.

- O domínio das disciplinas instrumentais - linguagem e gramática, matemática e história - precede o ensino
sistemático do currículo nas disciplinas tradicionais como ciências, geografia, estudos sociais, etc.

- Nas fases iniciais, as ciências são marcadas pelo conhecimento natural e factual do mundo e de Deus, visando a
coleta e a organização de dados. Incentiva-se especialmente que a criança colecione objetos e classifique objetos de
toda sorte. A geografia tem como alvo a familiaridade com os mapas, com os diferentes relevos e paisagens, e com
as pessoas e culturas dos diferentes povos. O ensino dessas ciências na fase gramatical não almeja ser sistemático e
exaustivo, mas interessante, para incentivar a curiosidade e a maravilha com a diversidade natural do mundo de
Deus. Somente a partir da fase dialética as crianças focalizarão na compreensão dos fenômenos e no inter-
relacionamento entre estes. A geografia social e política será deixada para a fase retórica, e será integrado ao estudo
da história.

Repetição e Sequência das Disciplinas:

- O ensino dos temas dentro das disciplinas científicas, da histórias, e da geografia é repetido nas três fases
principais, sendo explorado conforme as habilidades da criança em cada fase. Por exemplo: Na fase gramatical a
criança vai decorar que Cristóvão Colombo descobriu a América em 1492, por meio de figuras, de rimas ou poemas
como "In 1492 Columbus Sailed the Ocean Blue". Ou irá decorar as terminações gramaticais dos verbos, as listas de
artigos, conjunções e pronomes, como se fosse uma cantiga ou trocadilho de palavras no lugar do "Mamãe
mandou...". Na fase dialética, os alunos irão estudar o contexto histórico, os incidentes e a biografia de Colombo, e
começar a entender porque e como esse fato aconteceu quando aconteceu e da forma que aconteceu.
Semelhantemente, a partir da terceira série, irão estudar sistematicamente a gramática com suas leis e exceções,
com foco na utilização correta da língua. Na fase retórica, o mesmo assunto será tratado, mas agora de uma
perspectiva analítica e expressiva. O jovem poderá, por exemplo, escrever um ensaio sobre a importância desse fato
para o mundo da época, ou expressar-se sobre a relação entre o caráter perseverante de Colombo e a sua grande
realização; ou fazer um debate ou encenação sob o tema: "Se Colombo não tivesse descoberto a América", e
atividades semelhantes. Ou irá analisar, revisar, editar e produzir textos focalizando tanto o uso correto da
gramática, ortografia, e pontuação, como as figuras de linguagem e de técnicas mais avançadas de expressão.
- Com exceção do ensino da Matemática e da Gramática, muitos dos materiais clássicos nas disciplinas mais
conteudistas têm a característica de serem flexíveis e adaptáveis a diversas faixas etárias e audiências. O mesmo
tema pode ser estudado simultaneamente em classes multi-seriadas, por meio de textos ou esboços introdutórios
que apresentam desde os fatos básicos até introduzirem questões mais complexas. A partir daí, é comum haver
várias sugestões de atividades que reforçam ou aplicam os conteúdos tratados conforme a fase e capacidade dos
alunos; alunos mais novos irão responder perguntas simples, fazer uma atividade manual ou pintar um desenho.
Alunos intermediários irão responder perguntas mais complexas ou fazer experimentos que explorem o tema.
Alunos mais velhos serão normalmente estimulados a pesquisar e se aprofundar em facetas do tema, e a fazer
esboços ou textos ou outras atividades criativas.

Materiais Didáticos Diferenciados:

- As escolas clássicas defendem o uso de "livros de verdade" (real books) e obras clássicas (históricas, ficções,
biografias, etc.) como propulsores ou complementos para o ensino da história, da gramática, da interpretação, da
escrita, etc., no lugar de livros-texto ou de materiais didáticos modernos. Há currículos clássicos que são formulados
exclusivamente a partir da leitura de bons livros, os quais são explorados com a ajuda do professor por meio de
perguntas de interpretação e se prestam para trabalhar as mais diversas disciplinas, com exceção, normalmente, da
matemática e da gramática estrita que normalmente fazem uso de livros didáticos. Essas obras clássicas são
estudadas repetidamente em diversos níveis, em virtude do entendimento de que esses clássicos são profundos,
ricos e multifacetados e seu estudo será enriquecido e diferenciado nas diversas releituras.

- Quando usados, os livros didáticos escolhidos pelas escolas clássicas são conteudistas, lógicos, e auto-explicativos,
que ajudem o aluno a se tornar um auto-didata ao apresentar uma sequência incrementada dos assuntos. Assim, os
novos assuntos são introduzidos bem progressivamente, e cuidadosamente construídos sobre conhecimentos
anteriores. Todos os assuntos aprendidos serão bastante revisados, e os testes são cumulativos, para garantir um
aprendizado duradouro. Na matemática, por exemplo, cada assunto e habilidade será explorado racionalmente e
aplicado extensivamente por meio dos mais diversos problemas, atividades e situações práticas. A história também
seguirá uma estrutura cronológica e uma linha do tempo; a geografia será ensinada também de forma lógica e
progressiva, e muitos conhecimentos dentro das várias ciências serão integrados a outras disciplinas. As disciplinas
instrumentais, como a língua, a leitura, a escrita, a matemática, a partir da fase dialética, serão trabalhados em
conjunto e integrados às demais disciplinas mais específicas.

Práticas de Ensino Diferenciadas

- Valorização da excelência acadêmica e do aprendizado real ao invés da carga horária; da qualidade sobre a
quantidade. Isso é possível devido a atenção mais individualizada dos alunos e ao método tutorial que introduz o
tema aos alunos e a partir daí os orienta a se aprofundar nele por iniciativa própria a partir de pesquisas, leituras e
atividades.

- Estudo mais conteudista e menos "enfeitado", embora aplicado e manipulativo quando necessário, e até mesmo
lúdico nas atividades para as crianças menores. Mas, em geral, os livros clássicos apresentam textos e tarefas em
preto-e-branco, com poucas ilustrações ou gráficos coloridos, com diagramações simples e centradas na
apresentação do assunto e nos exercícios do tema ensinado de forma objetiva e clara.

- Menos tempo em sala de aula e mais tempo em leituras e atividades. Em contraste com as escolas tradicionais
norte-americanas, que têm uma carga horária de seis a sete horas diárias, que incluem tempo para recreação,
esportes, etc., as escolas clássicas têm uma carga horária menor, de cerca de quatro horas diárias ou menos,
algumas até em dias intercalados, por concentrarem-se no ensino acadêmico e deixarem os outros aspectos a
critério dos pais.

- Ensino individualizado que não segue a estrutura das séries tradicionais, as quais são obliteradas pelo nível real de
cada aluno em cada disciplina, o qual pode progredir nos diferentes temas ou disciplinas conforme o seu interesse
ou conforme a ordem que o professor-tutor os apresenta. Por isso o ensino segue o ritmo de cada criança ao invés
de padronizar os horários e conteúdos como na escola tradicional.

- Incentiva e ensina o aluno a ser auto-didata, a buscar o conhecimento verdadeiro nas melhores fontes, a
interpretar textos e tarefas por si mesmo, a e identificar falácias e falsidades, reconhecendo a verdade onde ela for
encontrada e aprendendo a valorizar os autores e as obras mais excelentes.

- Realização de atividades de estímulo e expressão intelectual e retórica, como debates, participação ativa dos
alunos nos meios de comunicação, exposições orais sobre temas, produção de material próprio para publicação, etc.

Continua... Conclusão e listas de livros na próxima postagem