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SUSSURROS NA ESCURIDÃO

H. P. LOVECRAFT

Título original: The Whisperer in Darkness; 1931 (Howard Phillips Lovecraft).

Primeira edição em português pela AntonioFontoura, 2019.

Esta tradução tem os direitos autorais reservados a Antonio Fontoura Jr. Nenhuma parte da obra
pode ser reproduzida, sob qualquer meio, mecânico ou digital, sem a devida autorização do
tradutor. Caso queira utilizar a obra, em parte ou no todo, em cursos universitários, ou outras
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Imagem da capa: Arte sobre paisagem. Pixabay.com https://pixabay.com/pt/%C3%A1rvore-


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Sussurros na Escuridão. / por H. P. Lovecraft/ traduzido por Antonio Fontoura.


Curitiba, antoniofontoura, 2019.

antoniofontoura
Sumário
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
Capítulo 1
Tenha em mente que ao final não vi qualquer horror visual. Dizer que tenha sido um choque
mental a causa do que deduzi – a última gota que me levou a sair correndo da solitária casa de
campo de Akeley através das selvagens montanhas de Vermont guiando um carro à noite – é
ignorar os mais evidentes fatos de minha experiência última. Apesar das coisas profundas que vi e
ouvi, e de admitir a vívida impressão que produziram em mim, mesmo agora não posso provar se
estava certo ou errado em minha horrível inferência. Depois de tudo, o desaparecimento de
Akeley não define nada. As pessoas não encontraram nada de errado em sua casa, apesar das
marcas de bala do lado de fora e em seu interior. Era como se ele tivesse saído casualmente para
caminhar pelas colinas e jamais retornado. Não havia sequer um sinal de ter havido qualquer
hóspede ali, ou de que aqueles horríveis cilindros e máquinas tivessem guardados em seu
escritório. O fato de que ele temia mortalmente as verdejantes colinas e a interminável corrente de
riachos entre os quais nasceu e cresceu, tampouco nada significa; pois milhares de pessoas estão
sujeitas a tais temores mórbidos. A excentricidade, além disso, poderia explicar facilmente seus
estranhos atos e seus medos em relação a este último.
A questão toda começou, no que me diz respeito, com as inundações históricas e sem
precedentes de Vermont em 3 de novembro de 1927. Eu era então, como agora, um instrutor de
literatura na Universidade Miskatonic em Arkham, Massachusetts, e um entusiasta amador
estudante de literatura folclórica da Nova Inglaterra. Pouco depois da inundação, em meio a
variados relatos sobre dificuldades, sofrimentos e socorros organizados que tomavam a imprensa,
surgiram algumas estranhas histórias de coisas encontradas flutuando em alguns dos rios
transbordados; muitos de meus amigos embarcaram em curiosas discussões e me pediram que
lançasse alguma possível luz sobre o assunto. Senti-me lisonjeado por ter levado o meu estudo do
folclore tão a sério e fiz o que pude para menosprezar as histórias vagas e selvagens que pareciam
tão claramente uma recriação de velhas superstições primitivas. Diverti-me ao encontrar várias
pessoas instruídas que insistiam que algum fato obscuro e distorcido poderia estar por detrás dos
rumores.
As histórias que assim me chamaram a atenção chegaram principalmente por meio de
recortes de jornais; embora a trama tivesse uma fonte oral e fosse repetida para um amigo meu em
uma carta de sua mãe em Hardwick, Vermont. O tipo de coisa descrita era essencialmente a
mesma em todos os casos, embora parecesse haver três instâncias separadas envolvidas – uma
conectada com o rio Winooski perto de Montpelier, outra ao rio West no condado de Windham
além de Newfane, e uma terceira centrada no rio Passumpsic no condado da Caledônia, para além
de Lyndonville. Obviamente, muitos dos objetos perdidos mencionavam outras ocorrências, mas
na análise todos pareciam estar resumidos nestes três. Em cada caso, os camponeses relatavam ter
visto um ou mais objetos muito bizarros e perturbadores nas turbulentas águas que caíam das
colinas desertas, e havia uma tendência generalizada em ligar estas visões a um ciclo primitivo,
algo esquecido, de lendas sussurradas que os velhos ressuscitavam para tais ocasiões.
O que as pessoas pensavam ver eram formas orgânicas não muito semelhantes com aquelas
que já conheciam. É obvio, houve muitos corpos humanos lavados pelas correntezas nesse trágico
evento; mas os que descreveram estas estranhas formas estavam certos de que não eram humanas,
apesar de algumas superficiais semelhanças em tamanho e contorno geral. Também não eram,
garantiam as testemunhas, quaisquer animais conhecidos de Vermont. Eram coisas rosadas de um
metro e meio de comprimento; com corpos de crustáceos que levavam vastos pares de aletas
dorsais ou asas membranosas e vários conjuntos de membros articulados com uma espécie de
elipsoide contorcida, coberta com várias antenas muito curtas, onde normalmente estaria uma
cabeça. Foi realmente impressionante como os relatos de diferentes fontes tenderam a coincidir;
embora a maravilha fosse diminuída pelo fato de que as antigas lendas, compartilhadas em algum
momento na região montanhosa, forneciam uma imagem morbidamente vívida que poderia muito
bem ter colorido a imaginação de todas as testemunhas envolvidas. Cheguei à conclusão de que
tais testemunhas – em todos os casos pessoas simples e ingênuas – haviam visto os corpos
maltratados e inchados de seres humanos ou animais das fazendas nas fortes correntes; e acabaram
permitindo que o quase esquecido folclore investisse de atributos fantásticos estes objetos
miseráveis.
O folclore antigo, embora nebuloso, evasivo e amplamente esquecido pela geração atual,
tinha um caráter altamente singular e obviamente refletia a influência de contos indígenas ainda
anteriores. Eu o conhecia bem – embora nunca tivesse estado em Vermont – por meio da bastante
rara monografia de Eli Davenport, que abrange material obtido oralmente antes de 1839 entre
alguns dos mais antigos colonos do estado. Este material, aliás, coincidia de maneira bastante
próxima com os contos que eu ouvira pessoalmente dos mais velhos habitantes das montanhas de
New Hampshire. Resumindo brevemente, insinuava a existência de uma raça oculta de seres
monstruosos que espreitava em algum lugar entre as mais remotas colinas – nas florestas
profundas dos picos mais altos, e nos vales escuros onde os riachos fluem de fontes
desconhecidas. Esses seres raramente eram vistos, mas evidências de sua presença eram relatadas
por aqueles que se aventuraram mais longe do que o habitual pelas encostas de certas montanhas
ou por certos desfiladeiros profundos e íngremes que mesmo os lobos evitavam.
No lodo das margens dos riachos havia estranhos rastros de pegadas ou marcas de garras,
trechos estéreis e círculos curiosos de pedras, com desgastada grama ao redor, que não pareciam
ter sido colocadas ou inteiramente moldadas pela natureza. Havia também certas cavernas de
problemática profundidade ao lado das colinas; com entradas cerradas por pedregulhos de uma
forma quase acidental, e com uma algo perturbadora coincidência de estranhos rastros que
levavam até eles e para longe deles – se de fato a direção destes vestígios pudesse ser estimada
de maneira adequada. E, pior de tudo, existiam as coisas que aventureiros haviam muito raramente
visto no crepúsculo dos vales mais remotos e nas densas florestas perpendiculares acima dos
limites da ascensão normal das colinas.
Teria sido menos desconfortável se os relatos perdidos dessas coisas não concordassem
tão precisamente. Pelo que se dizia, quase todos os rumores tinham vários pontos em comum;
afirmavam que as criaturas eram uma espécie de enorme caranguejo vermelho-claro com muitos
pares de pernas e com duas grandes asas semelhantes a morcegos no meio das costas. Que às
vezes caminhavam sobre todas as pernas, e às vezes apenas sobre o último par, usando as outras
para carregar grandes objetos de natureza indeterminada. Em certa ocasião, foram vistos em
grandes quantidades, com um destacamento caminhando ao longo de um bosque rasteiro em grupos
de três, em formação evidentemente disciplinada. Certa vez, um espécime foi vista voando –
lançando-se do topo de uma colina descampada e solitária à noite e desaparecendo no céu após
suas grandes asas abertas aparecerem recortadas, por um instante, contra a lua cheia.
Essas coisas pareciam felizes, aparentemente, em deixar a humanidade em paz; apesar de
serem às vezes responsabilizadas pelo desaparecimento de aventureiros – especialmente pessoas
que construíam casas muito próximas a certos vales ou em locais muito altos em certas montanhas.
Várias localidades passaram a ser conhecidas como pouco aconselháveis para se morar, sendo
que o sentimento persistiu muito depois que sua causa acabou esquecida. As pessoas olhavam
para os precipícios das montanhas vizinhas com estremecimento, mesmo quando não se
lembravam de quantos colonos haviam se perdido, e de quantas casas de fazenda se transformaram
em cinzas, nas encostas mais baixas daquelas sentinelas sombrias e esverdeadas.
Mas, embora, de acordo com as primeiras lendas, as criaturas parecessem ter prejudicado
apenas aqueles que invadissem sua privacidade, havia relatos posteriores sobre sua curiosidade
em relação aos homens e de suas tentativas de estabelecer secretos postos avançados no mundo
humano. Histórias sobre estranhas pegadas vistas em torno das janelas das casas nas fazendas pela
manhã, e de desaparecimentos ocasionais em regiões fora das áreas obviamente assombradas.
Havia histórias, além disso, de vozes zumbindo em imitação da fala humana que faziam ofertas
assombrosas a viajantes solitários em estradas e caminhos de carroças em densas florestas, e de
crianças assustadas por coisas vistas ou ouvidas onde o bosque primitivo se abria logo além de
seus quintais. Na última camada de lendas – a camada imediatamente anterior ao declínio da
superstição e o abandono do contato próximo com os lugares temidos – havia chocantes
referências a eremitas e camponeses remotos que em algum período da vida teriam sofrido alguma
repulsiva mudança mental, e que passaram a ser evitados e apontados como mortais que teriam se
vendido aos estranhos seres. Em um dos condados do nordeste, em torno de 1800, teria sido moda
acusar os reclusos excêntricos e impopulares de serem aliados ou representantes daquelas coisas
abomináveis.
Quanto ao que as coisas eram – as explicações naturalmente variavam. O nome comum
aplicado a eles era “aquelas coisas”, ou “aquelas coisas antigas”, embora outras expressões
tivessem uso local e transitório. Talvez a maior parte dos colonos puritanos os qualificasse sem
rodeios como familiares do diabo e os tenham integrado a uma admirável especulação teológica.
Aqueles com lendas celtas em sua herança – principalmente o elemento escocês-irlandês de New
Hampshire, e seus parentes que haviam se estabelecido em Vermont nas concessões coloniais do
Governador Wentworth – vagamente os associavam às fadas malignas e às “pessoas pequenas”
dos pântanos e brejos, e se protegiam com fragmentos de encantamentos transmitidos através de
muitas gerações. Mas eram os índios que tinham as teorias mais fantásticas de todas. Embora as
lendas tribais diferissem, havia um consenso marcante em certos aspectos vitais; sendo que todas
concordavam de forma unânime que as criaturas não eram nativas deste mundo.
Os mitos dos Pennacook, que eram os mais coerentes e pitorescos, ensinavam que os
Alados vieram do Grande Urso no céu e possuíam minas em nossas colinas terrenas, de onde
extraíam um tipo de pedra que não conseguiam em nenhum outro mundo. Eles não moravam aqui,
diziam os mitos, mas apenas mantinham postos avançados e voavam de volta com vastas cargas de
pedra para suas próprias estrelas no norte. Eles feriam apenas as pessoas da Terra que se
aproximavam demais ou os espiavam. Evitavam animais devido a um medo instintivo, e não por
serem caçados. Não podiam comer as coisas e os animais da Terra, mas traziam seu próprio
alimento das estrelas. Era algo ruim se aproximar deles, e às vezes jovens caçadores penetravam
em suas colinas e nunca mais voltavam. Também não era bom ouvir o que sussurravam à noite na
floresta com vozes como as de abelhas que tentavam ser como as vozes dos homens. Conheciam a
fala de todos os tipos de homens – Pennacooks, Hurons, homens das Cinco Nações –, mas não
pareciam ter ou precisar de nenhum idioma próprio. Eles conversavam com suas cabeças, que
mudavam de cor de maneiras diferentes para significar coisas diferentes.
Todas as lendas, claro, de brancos e indígenas, desapareceram durante o século XIX,
exceto por atávicos surtos ocasionais. Os caminhos em Vermont se estabeleceram; e uma vez que
seus trajetos e habitações habituais foram estabelecidos de acordo com um determinado plano
fixo, eles se lembravam cada vez menos dos medos e receios que havia determinado esse plano, e
até mesmo de que tivesse existido qualquer medo ou receio. A maioria das pessoas simplesmente
sabia que certas regiões montanhosas eram consideradas altamente insalubres, inúteis e
geralmente ruins de se viver, e que quanto mais longe delas se manter, melhor. Com o tempo, os
rumos do interesse econômico e comercial se tornaram tão profundos nos lugares aprovados que
desapareceu qualquer motivo para desviar deles, e as colinas assombradas acabaram
abandonadas por acidente, e não por intenção. Salvo durante raras ocorrências locais, e apenas
avós amantes de maravilhas e nonagenários saudosistas, ninguém cochichava sobre os seres que
moravam naquelas colinas; e mesmo tais sussurros admitiam que não havia muito a temer daquelas
coisas, agora que estavam acostumados à presença de casas e assentamentos, e que os seres
humanos haviam completamente abandonado o território em que estavam.
Tudo isso eu sabia há muito tempo de minhas leituras e de certos contos populares de New
Hampshire; portanto, quando no momento da inundação começaram a aparecer os rumores, pude
facilmente adivinhar qual fundo imaginativo os havia desenvolvido. Eu me esforcei muito para
explicar isso aos meus amigos, e me diverti quando várias almas contenciosas continuaram a
insistir em um possível elemento de verdade nos relatos. Essas pessoas tentaram apontar que as
primeiras lendas tinham persistência e uniformidade significativas, e que a natureza virtualmente
inexplorada das montanhas de Vermont tornava insensato ser dogmático sobre o que poderia ou
não habitar entre elas; tampouco poderiam ser silenciados por minha garantia de que todos os
mitos eram de um padrão bem conhecido, comuns à maioria da humanidade e determinados pelas
fases iniciais da experiência imaginativa, que sempre produziam o mesmo tipo de delírio.
De nada servia demonstrar a tais obstinados que os mitos de Vermont diferiam pouco em
essência daquelas lendas universais de personificação natural que haviam enchido o mundo antigo
de faunos e dríades e sátiros, que sugeriam os kallikanzarai da Grécia moderna e havia dado à
Gales e à Irlanda suas crenças de raças ocultas estranhas, pequenas e terríveis de trogloditas e
habitantes de tocas. Nem mesmo valia a pena ressaltar a crença ainda mais surpreendente das
tribos montanhesas nepalesas no temido Mi-Go ou no “Abominável Homem das Neves” que se
escondiam horrendamente em meio a pináculos de gelo e rocha dos cumes do Himalaia. Quando
apresentei essas evidências, meus oponentes as recusaram alegando que deveriam implicar
alguma real historicidade dos contos antigos; que argumentavam pela existência real de alguma
raça estranha mais antiga, levada a se esconder após o advento e domínio da humanidade, e que
poderia ter sobrevivido em números reduzidos até épocas relativamente recentes – ou mesmo até
o presente.
Quanto mais eu ria de tais teorias, mais meus teimosos amigos as afirmavam;
acrescentavam que, mesmo sem a herança da lenda, os recentes relatos eram muito claros,
consistentes, detalhados e sadiamente prosaicos no que contavam, para serem completamente
ignorados. Dois ou três extremistas fanáticos chegaram ao ponto de sugerir possíveis significados
nos antigos contos indígenas que davam aos seres ocultos uma origem não-terrestre; citavam os
extravagantes livros de Charles Fort e suas alegações de que os viajantes de outros mundos e do
espaço exterior visitaram a Terra com frequência. A maioria dos meus adversários, no entanto, era
de meros romancistas que insistiam em tentar transferir para a vida real o fantástico conhecimento
de “pessoas pequenas” que ficavam è espreita, e que foram tornadas populares pela magnífica
ficção de horror de Arthur Machen.
Capítulo 2
Como era de se esperar sob as circunstâncias, este instigante debate finalmente foi
publicado sob a forma de cartas ao Arkham Advertiser; algumas foram republicadas na imprensa
das regiões de Vermont, de onde vieram as histórias das inundações. O Rutland Herald deu meia
página, em ambos os lados, para trechos das cartas, enquanto o Brattleboro Reformer reimprimiu
um dos meus longos resumos históricos e mitológicos na íntegra, com alguns comentários na
interessante coluna “O Pendrifter” que apoiava e aplaudia minhas céticas conclusões. Na
primavera de 1928, eu era quase uma bem conhecida figura em Vermont, apesar do fato de nunca
ter colocado os pés no estado. Depois vieram as instigantes cartas de Henry Akeley, que me
impressionaram profundamente, e que me levaram, pela primeira e última vez, àquele fascinante
reino de precipícios verdes lotados e riachos de floresta murmurantes.
A maior parte do que conheço de Henry Wentworth Akeley foi obtida por correspondência
com seus vizinhos e com seu único filho na Califórnia, depois de minha experiência em sua
chácara solitária. Ele foi, descobri, o último representante em sua terra natal de uma longa e
localmente distinta linha de juristas, administradores e grandes fazendeiros. Nele, porém, a
família mentalmente se desviou dos assuntos práticos em direção à pura erudição; ele fora um
notável aluno de matemática, astronomia, biologia, antropologia e folclore na Universidade de
Vermont. Eu nunca tinha ouvido falar dele antes, e ele não deu muitos detalhes autobiográficos em
suas cartas; mas desde o início vi que era um homem de caráter, educação e inteligência, embora
um recluso com muito pouca sofisticação mundana.
Apesar da natureza incrível do que afirmava, eu não pude evitar de tomar Akeley mais
seriamente do que eu havia tomado quaisquer dos outros que contestavam meus pontos de vista.
Por um lado, ele estava realmente próximo dos fenômenos reais – visíveis e tangíveis – sobre os
quais especulava de maneira tão grotesca; e, por outro, estava incrivelmente disposto a deixar
suas conclusões em um forma de hipóteses, como um verdadeiro homem da ciência. Ele não tinha
preferências pessoais a guiá-lo e sempre fora conduzido pelo que considerava ser uma evidência
sólida. É claro que a princípio eu o considerei equivocado, mas lhe dei crédito por estar
inteligentemente equivocado; e em nenhum momento considerei a opinião de seus amigos, que
atribuíam seu medo das colinas verdes e solitárias, à insanidade. Eu podia perceber que aquilo
era algo muito importante para aquele homem, e sabia que o relatado vinha certamente de
circunstâncias estranhas, merecedoras de investigação, por mais que pouco pudesse ter a ver com
as causas fantásticas que ele atribuía. Mais tarde, recebi dele certas provas materiais que
colocaram o assunto em uma base um pouco diferente e desconcertantemente bizarra.
Não posso fazer melhor do que transcrever na íntegra, tanto quanto possível, a longa carta
em que Akeley se apresentou, e que constituiu um marco tão importante em minha própria história
intelectual. Não está mais em minha posse, mas minha memória contém quase cada palavra de sua
poderosa mensagem; e novamente afirmo minha confiança na sanidade do homem que a escreveu.
Aqui está o texto – um texto que chegou até mim em pequenos rabiscos, de aspecto arcaico, de
alguém que obviamente não se misturara muito com o mundo durante sua vida retirada e erudita.
* * *

RFD # 2,
Townshend, Windham Co., Vermont.
5 de maio de 1928

Albert N. Wilmarth, Esq.,


118 Saltonstall St.,
Arkham, Mass.

Meu caro senhor:-

Li com grande interesse a reimpressão no Brattleboro Reformer (23 de abril de 1928) de


sua carta sobre as histórias recentes de corpos estranhos vistos flutuando em nossos riachos
transbordados no outono passado, e sobre o curioso folclore com que eles concordam. É fácil
entender por que um estrangeiro toma a posição que você toma e até mesmo por que “Pendrifter”
concorda com você. Essa é a atitude geralmente tomada por pessoas educadas dentro e fora de
Vermont, e foi minha própria atitude quando jovem (eu tenho 57 anos) antes que meus estudos,
tanto gerais quanto no livro de Davenport, me levassem a explorar algumas partes das colinas
próximas que não costumam ser visitadas.
Fui levado a tais estudos pelas antigas e estranhas histórias que costumava ouvir de velhos
fazendeiros do tipo mais ignorante, mas hoje acredito que deveria ter deixado a questão de lado.
Eu poderia dizer, com a devida modéstia apropriada, que os temas da antropologia e do folclore
não são de modo algum estranhos para mim. Estudei muito estes temas na faculdade e estou
familiarizado com a maioria dos clássicos como Tylor, Lubbock, Frazer, Quatrefages, Murray,
Osborn, Keith, Boule, G. Elliott Smith e assim por diante. Não é novidade para mim que histórias
de raças ocultas sejam tão antigas quanto a própria humanidade. Vi as reimpressões de suas
cartas, e as daqueles que concordam com você, no Rutland Herald, e acredito saber onde
atualmente está sua controvérsia.
O que desejo dizer agora é que acredito que seus adversários estejam mais próximos da
verdade do que você, mesmo que toda a razão pareça estar a seu lado. Eles estão mais próximos
do que imaginam – afinal, é claro, eles só possuem a teoria a guiá-los e não sabem o que eu sei.
Se eu soubesse tão pouco quanto eles, eu me sentiria com a razão de acreditar, assim como eles.
Eu estaria totalmente do seu lado.
Você pode ver que estou tendo dificuldades para chegar ao ponto, provavelmente porque
temo realmente em chegar ao ponto; mas a conclusão é que tenho certas evidências de que coisas
monstruosas realmente vivem nos bosques das mais altas colinas que ninguém visita. Eu não vi
nenhuma dessas coisas flutuando nos rios, como nos relatos, mas tenho visto coisas como essas em
circunstâncias que temo repetir. Vi pegadas e, ultimamente, vi as coisas muito mais perto da minha
própria casa (moro na velha cidade de Akeley, ao sul de Townshend Village, ao lado da Montanha
Negra) do que gostaria agora de admitir. E escutei vozes na floresta em certos pontos que nem me
atrevo a descrever no papel.
Em um lugar eu já os ouvi, tanto que levei um fonógrafo com um gravador de ditafone e
cera virgem – e tentarei arranjar um meio para que você possa ouvir o disco que eu gravei. Eu o
reproduzi na máquina para alguns dos idosos aqui da região, e uma das vozes quase os paralisou
de susto, por sua semelhança com certa voz (aquela voz em zumbido na floresta que Davenport
menciona) que suas avós então contavam e imitavam para eles. Eu sei o que a maioria das pessoas
pensa de um homem que fala sobre “ouvir vozes” – mas antes de tirar conclusões é só ouvir esse
registro e perguntar a alguns dos mais velhos o que eles pensam sobre isso. Se você puder
explicar isso normalmente, muito bem; mas deve haver algo por trás disso. Ex nihilo nihil fit[1],
você sabe.
Agora, meu objetivo, ao escrever, não é iniciar uma discussão, mas dar a você
informações que acho que um homem de seu conhecimento achará profundamente interessante. Isto
é particular. Publicamente, estou do seu lado, pois certas experiências me mostram que as
pessoas não sabem muito sobre tais questões. Meus próprios estudos são agora totalmente
privados, e eu não teria qualquer intenção em dizer qualquer coisa para atrair a atenção das
pessoas e levá-las a visitar os lugares que explorei. É verdade – terrivelmente verdade – que
existem criaturas não humanas nos observando o tempo todo; com espiões entre nós reunindo
informações. Foi de um homem miserável que, se fosse são (como acredito que era) era um
desses espiões, que obtive grande parte das minhas informações sobre o assunto. Ele acabou se
matando, mas tenho motivos para pensar que há outros agora.
Essas coisas vêm de outro planeta, sendo capazes de viver no espaço interestelar e voar
através dele em asas desajeitadas e poderosas que conseguem resistir ao éter, mas que são pobres
demais para serem de grande utilidade para ajudá-las na Terra. Eu lhe contarei mais tarde se você
não me desconsiderar imediatamente como um louco. Eles vêm aqui pegar metais de profundas
minas sob as colinas, e acredito saber de onde eles vêm. Eles não irão nos machucar se os
deixarmos sozinhos, mas ninguém pode dizer o que acontecerá se acabarmos nos tornando muito
curiosos sobre eles. É claro que um bom exército de homens poderia acabar com a colônia de
mineração. É disso que eles têm medo. Mas se isso acontecesse, mais deles viriam de fora – um
número muito maior deles. Eles poderiam facilmente conquistar a Terra, mas não tentaram até
agora porque não precisaram. Eles preferem deixar as coisas deste jeito para evitar
aborrecimentos.
Eu acho que eles querem se livrar de mim por conta de tudo o que eu descobri. Há uma
grande pedra negra com hieróglifos desconhecidos, meio desgastados, que encontrei na floresta
em Round Hill, a leste daqui; e depois que eu a levei para casa tudo ficou diferente. Se eles acham
que eu suspeito demais, ou vão me matar ou me levam da Terra para o lugar de onde eles vêm.
Eventualmente eles gostam de levar homens eruditos para se manter informados sobre como
andam as coisas no mundo humano.
Isso me leva ao segundo objetivo que me levou a escrever a você – pedir-lhe para que
silencie o debate atual, ao invés de lhe dar mais publicidade. As pessoas devem ser mantidas
longe dessas colinas e, para que isso ocorra, sua curiosidade não deve ser mais despertada. Deus
sabe que já há suficiente perigo de qualquer maneira, com vendedores e homens do setor
imobiliário inundando Vermont com grupos de veranistas para invadir os lugares selvagens e
cobrir as colinas de bangalôs baratos.
Receberei de bom grado outras informações suas, e tentarei lhe enviar aquele registro
fonográfico e a pedra preta (que está tão gasta que as fotografias não mostram muito) pelo correio
caso você se interesse. Eu digo que vou “tentar” porque eu acho que essas criaturas têm uma
maneira de mexer com as coisas por aqui. Há um sujeito furtivo mal-humorado chamado Brown,
em uma fazenda perto da aldeia, que acho que é espião deles. Pouco a pouco eles estão tentando
me cortar do mundo porque sei muito sobre o mundo deles.
Eles têm modos incríveis de descobrir o que eu faço. Você pode nem receber essa carta.
Acho que terei que deixar essa parte do país e morar com meu filho em San Diego, na Califórnia,
se as coisas piorarem, mas não é fácil abandonar o lugar onde você nasceu e onde sua família
viveu por seis gerações. Além disso, dificilmente ousaria vender esta casa a ninguém agora que as
criaturas prestam atenção nela. Eles parecem estar tentando recuperar a pedra negra e destruir o
registro do fonógrafo, mas não permitirei se puder evitar. Meus grandes cães policiais sempre os
conseguem afastar, pois não há muitos deles aqui, e eles são desajeitados em se locomover. Como
eu disse, suas asas não são muito úteis para voos curtos na Terra. Estou à beira de decifrar essa
pedra – de uma forma terrível – e, com seu conhecimento do folclore, talvez você possa fornecer
os elos que faltam para me ajudar de alguma forma. Suponho que você saiba tudo sobre os
terríveis mitos que antecederam a vinda do homem à Terra – os ciclos Yog-Sothoth e Cthulhu –
sugeridos no Necronomicon. Eu tive acesso certa vez a uma cópia, e ouvi dizer que você tem uma
em sua biblioteca da faculdade guardada a sete chaves.
Para concluir, Sr. Wilmarth, acredito que, com nossos respectivos estudos, podemos ser
muito úteis uns aos outros. Não quero colocar você em perigo, e suponho que devo avisá-lo que a
posse da pedra e da gravação não será muito segura; mas acho que você vai encontrar qualquer
risco que valha a pena correr devido a seu conhecimento. Vou de carro até Newfane ou
Brattleboro para lhe enviar o que você me autorizar a enviar, por meio de empresas de encomenda
expressa que são mais confiáveis. Eu posso dizer que moro sozinho agora, já que não posso mais
continuar contratando ajudantes. Eles acabam não ficando em casa por causa dessas coisas que
tentam chegar perto da casa à noite, e que deixam os cães latindo continuamente. Fico feliz por
não ter chegado tão fundo desse assunto enquanto minha esposa ainda estava viva, pois isso a
deixaria louca.
Espero que eu não esteja incomodando de forma indevida, e que você decida entrar em
contato comigo em vez de jogar essa carta no cesto de lixo como delírio de um louco.

Respeitosamente,
Henry W. Akeley

P.S. Estou fazendo algumas cópias extras de certas fotografias tiradas por mim, que eu acho que
vão ajudar a provar alguns dos pontos que mencionei. Os mais velhos pensam que são
monstruosamente verdadeiros. Eu lhe enviarei muito em breve caso você esteja interessado.

H. W. A.
* * *
Seria difícil descrever meus sentimentos ao ler este estranho documento pela primeira vez.
Dentro da normalidade, eu deveria ter rido alto mais com essas extravagâncias do que com as
teorias muito mais comedidas que antes me provocavam o riso; no entanto, algo no tom da carta
me levou a considerá-la com uma seriedade paradoxal. Não que eu acreditasse por um momento
na oculta corrida das estrelas mencionada por meu correspondente; mas porque, depois de
algumas sérias dúvidas preliminares, comecei a me sentir estranhamente seguro de sua sanidade e
sinceridade, e de que genuinamente tenha se confrontado com algum fenômeno, embora singular e
anormal, que não conseguia explicar, exceto dessa forma imaginativa. Não poderia ser como ele
pensava, refleti, mas, por outro lado, não poderia ser outra coisa senão digno de investigação. O
homem parecia excessivamente agitado e alarmado com alguma coisa, mas era difícil pensar que
não existia uma verdadeira razão. Ele era tão específico e lógico em certos aspectos – e, afinal de
contas, seus pensamentos se encaixavam tão bem com alguns dos velhos mitos – e até mesmo as
mais delirantes lendas indígenas.
Que ele realmente tivesse escutado vozes perturbadoras nas colinas, e encontrado a pedra
negra de que falou, era totalmente possível apesar de suas malucas inferências – inferências
provavelmente sugeridas pelo homem que alegara ser um espião dos seres extraterrenos e que
depois acabou se matando. Era fácil deduzir que esse homem deve ter sido completamente insano,
mas que possuísse provavelmente um traço de perversa lógica exterior, que fazia com que o
ingênuo Akeley – já preparado para tais coisas por seus estudos folclóricos – acreditasse em sua
narrativa. Quanto aos últimos desdobramentos – o fato de não conseguir ajudantes entre os
rústicos vizinhos de Akeley se devia ao fato de estarem tão convencidos quanto ele de que sua
casa era assediada por essas coisas estranhas à noite. E, além disso, também os cachorros
realmente latiam.
E havia ainda a questão daquele disco fonográfico, que eu não podia deixar de acreditar
que obtivera da maneira como disse. Deve significar alguma coisa; talvez ruídos de animais que
enganosamente replicavam a fala humana, ou talvez a voz de algum ser humano oculto que
assombrava as noites e que tenha se degenerado para um estado não muito acima do dos animais
inferiores. Disso, meus pensamentos voltaram para a pedra hieroglífica preta e especulações
sobre o que poderia significar. Além disso, e quanto às fotografias que Akeley disse que estava
prestes a enviar e que os velhos achavam tão convincentemente terríveis?
Ao reler a caligrafia apertada, senti, como nunca antes, que meus crédulos oponentes
poderiam ter mais razão do que eu admitira. Afinal de contas, poderia haver alguns homens
estranhos, talvez hereditariamente deformados, naquelas repudiadas colinas, mesmo que não
fossem de qualquer raça de monstros nascidos nas estrelas tal como o folclore afirmava. E se
existissem, então a presença de corpos estranhos nos rios transbordados não seria totalmente
inconcebível. Seria por demais presunçoso supor que tanto as velhas lendas quanto os relatos
recentes tivessem esses fatos por detrás? Mas, mesmo quando eu nutria essas dúvidas, senti
vergonha por terem sido criadas por uma bizarrice tão grande como a louca carta de Henry
Akeley.
Ao final, respondi à carta de Akeley, adotando um tom de interesse amigável e solicitando
mais detalhes. Sua resposta veio quase no correio seguinte; e continha, fiel à sua promessa, várias
fotografias da Kodak com cenas e objetos ilustrando o que ele tinha a dizer. Olhando para essas
fotos enquanto as tirava do envelope, senti uma sensação curiosa de medo e de estar próximo a
coisas proibidas; pois, apesar da maioria delas serem muito vagas, tinham um poder incrivelmente
sugestivo que foi intensificado pelo fato de serem fotografias genuínas – elos ópticos reais com
aquilo que retratavam e produto de um processo de transmissão impessoal sem preconceito,
falhas, ou mendacidade.
Quanto mais eu olhava para as fotos, mais eu via que minhas sérias considerações sobre
Akeley e sua história não tinham sido injustificadas. Certamente, essas imagens continham
evidências conclusivas de algo existente nas colinas de Vermont, que estava ao menos fora do raio
de nosso conhecimento e crença comuns. O pior de tudo era a pegada – uma imagem obtida onde o
sol brilhava em um pedaço de lama em algum lugar em um planalto desértico. Não era algo
pobremente falsificado, pude perceber rapidamente; pois os seixos e a grama nitidamente
definidos no campo de visão forneciam uma escala evidente e não deixavam qualquer
possibilidade de uma complexa dupla exposição. Eu chamei a coisa de “pegada”, mas “impressão
de garra” seria um termo melhor. Mesmo agora, mal posso descrevê-la, senão dizer que era
horrivelmente semelhante a um caranguejo e que parecia haver alguma ambiguidade em relação à
sua direção. Não era uma impressão muito profunda ou fresca, mas parecia ser do tamanho do pé
de um homem comum. De uma base central, pares de alicates de dentes de serra projetavam-se em
direções opostas – bastante desconcertantes quanto à função, se é que o objeto inteiro fosse
exclusivamente um órgão de locomoção.
Outra fotografia – evidentemente uma imagem de longa exposição tomada em uma
escuridão profunda – era da boca de uma caverna na floresta, com uma pedra de um regular
arredondado obstruindo a abertura. No chão nu à sua frente, era possível discernir uma densa rede
de curiosas trilhas, e quando estudei a foto com uma lente de aumento, senti-me inquietamente
seguro de que as trilhas eram como as da outra imagem. Uma terceira foto mostrava um círculo de
pedras em estilo druídico, no topo de uma colina selvagem. Ao redor do círculo enigmático, a
grama estava muito amassada e desgastada, embora eu não conseguisse detectar nenhuma pegada
sequer com a lupa. O extremo isolamento do lugar era evidente no verdadeiro mar de montanhas
desabitadas que formavam o fundo e se estendiam em direção a um horizonte enevoado.
Mas se a mais perturbadora de todas as imagens era a da pegada, a mais curiosamente
sugestivo era o da grande pedra negra encontrada nos bosques de Round Hill. Akeley havia
fotografado no que evidentemente era sua mesa de estudos, pois pude ver filas de livros e um
busto de Milton ao fundo. A coisa, como quase se poderia imaginar, estava virada verticalmente
para a câmera com uma superfície um tanto irregularmente curva de um a dois pés; mas dizer
qualquer coisa definida sobre essa superfície, ou sobre a forma geral de toda a massa, quase
desafia o poder da linguagem. Quais estranhos princípios geométricos guiaram sua lapidação –
pois não há dúvidas de que o corte era artificial – não conseguia nem sequer começar a adivinhar;
e nunca antes vi algo que me parecesse estranha e inconfundivelmente alheio a esse mundo. Dos
hieróglifos na superfície eu podia discernir muito poucos, mas um ou dois que vi me causaram um
choque. É claro que poderiam ser fraudulentos, pois outros, além de mim, haviam lido o
monstruoso e abominável Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred; mas, mesmo assim, me
fez tremer ao reconhecer certos ideogramas que o estudo me ensinara a relacionar com os
sussurros mais sangrentos e blasfemos de coisas que tinham tido uma insana meia-existência antes
da Terra e dos outros mundos pertencentes ao sistema solar tivessem sido criados.
Das cinco imagens restantes, três eram de cenas de pântano e colina que pareciam ter
vestígios de um assentamento oculto e repulsivo. Outra era de uma marca estranha no chão, muito
perto da casa de Akeley, que ele disse ter fotografado na manhã seguinte a uma noite em que os
cães latiram mais violentamente do que o normal. Estava muito embaçada, e não foi possível
extrair quaisquer conclusões dela; mas parecia diabolicamente semelhante àquela outra marca ou
impressão de garra fotografada no terreno desolado. A última imagem era do próprio Akeley: uma
casa branca de dois andares e sótão, com cerca de um século e um quarto de idade, e com um
gramado bem cuidado e um caminho margeado por pedras que levava a uma porta georgiana
esculpida com bom gosto. Havia vários cães policiais enormes no gramado, deitados próximos a
um homem de rosto agradável, com uma barba grisalha curta que eu considerava ser o próprio
Akeley – seu próprio fotógrafo, como se pode inferir do acionador conectado a um tubo em sua
mão direita.
Deixei as fotos eu voltei minha atenção à sua longa carta, de escrita miúda; e pelas três
horas seguintes permaneci imerso em um abismo de horror indescritível. Onde Akeley havia antes
fornecido apenas esboços, agora ele entrava em detalhes minuciosos; apresentava longas
transcrições de palavras escutadas na mata durante a noite, relatos completos das formas róseas
monstruosas observadas em moitas no crepúsculo nas colinas, acompanhada de uma terrível
narrativa cósmica derivada de seus profundos e variados estudos aplicados aos intermináveis
discursos proferidos pelo seu louco espião que se matara. Encontrei-me diante de nomes e termos
que ouvira em outros lugares nas mais hediondas das conexões – Yuggoth, Grande Cthulhu,
Tsathoggua, YogSothoth, R’lyeh, Nyarlathotep, Azathoth, Hastur, Yian, Leng, o Lago de Hali,
Bethmoora, o signo amarelo, L’mur-Kathulos, Bran e o Magnum Innominandum – e fui atraído de
volta através de éons sem nome e dimensões inconcebíveis para mundos anciões, entidades
alienígenas que o enlouquecido autor do Necronomicon havia apenas sugerido da mais vaga
maneira. Fui informado sobre os buracos da vida primitiva e das correntes que dela escorreram; e
finalmente, dos minúsculos riachos de uma daquelas correntes que se havia emaranhado com os
destinos de nossa própria Terra.
Meu cérebro dava voltas; e quando antes tentara apenas explicar as coisas, começava
agora a acreditar nas maravilhas mais anormais e inacreditáveis. A rede de evidências vitais era
incrivelmente vasta e esmagadora; e a atitude fria e científica de Akeley – uma atitude que se
afastou tanto quanto se pode imaginar do demente, do fanático, do histérico ou mesmo do
extravagantemente especulativo – provocou um tremendo efeito em meu pensamento e julgamento.
No momento em que deixei de lado a assustadora carta, pude entender os medos que ele tivera de
enfrentar e estava pronto para fazer qualquer coisa em meu poder para manter as pessoas longe
daquelas colinas assombradas e selvagens. Mesmo agora, quando o tempo embotou aquelas
impressões e me fez questionar minha própria experiência e minhas horríveis dúvidas, há coisas
nessa carta de Akeley que eu jamais repetiria, ou sobre as quais sequer formaria palavras no
papel. Estou quase feliz agora por terem desaparecido a carta, os registros e as fotografias – e
desejo, por razões que logo deixarei claro, que jamais seja descoberto o novo planeta além de
Netuno.
Com a leitura daquela carta, meu debate público sobre o horror de Vermont
definitivamente se encerrou. Argumentos de meus oponentes permaneceram sem resposta ou
adiadas com promessas, e eventualmente a controvérsia se esvaiu no esquecimento. Durante o
final de maio e junho, eu estava em constante correspondência com Akeley; embora eventualmente
uma carta se perdesse, de modo que tínhamos que refazer nosso terreno e realizar, de forma muito
trabalhosa, consideráveis cópias. O que estávamos tentando fazer, como um todo, era comparar as
notas em questões obscuras da erudição mitológica e chegar a uma correlação mais clara dos
horrores de Vermont com o corpo geral da lenda do mundo primitivo.
Por um lado, nós virtualmente definimos que essas morbidades e que o infernal Mi-Go
Himalaio eram uma e a mesma ordem de pesadelo encarnado. Havia também estonteantes
conjecturas zoológicas, que eu teria discutido com o professor Dexter em minha própria
faculdade, se não fosse pelo imperativo mandamento de Akeley de não contar a ninguém do tema
que discutíamos. Se parece que agora desobedeço a essa ordem é apenas porque penso que, neste
estágio, advertências sobre as colinas de Vermont – e sobre os picos do Himalaia que os
exploradores estão cada vez mais determinados a subir – é mais propícia à segurança pública do
que seria manter o silêncio. Uma tarefa específica que estávamos levando era a decifração dos
hieróglifos naquela infame pedra negra – uma decifração que poderia muito bem nos colocar na
posse de segredos mais profundos e vertiginosos do que qualquer outro conhecido pelo homem.
Capítulo 3
O registro do fonógrafo chegou no final de Junho – enviado de Brattleboro, já que Akeley
não parecia disposto a confiar nas condições do ramal norte ferroviário de lá. Ele começara a
sentir uma crescente impressão de estar sendo espionado, sensação agravada pela perda de
algumas de nossas cartas; e comentou muito sobre os atos insidiosos de certos homens que ele
considerava ferramentas e agentes dos seres ocultos. Acima de tudo, suspeitava do ranzinza
agricultor Walter Brown, que morava sozinho em uma decadente encosta perto da mata profunda, e
que costumava ser visto vagando pelas esquinas de Brattleboro, Bellows Falls, Newfane e South
Londonderry, por motivos os mais inexplicáveis e sem motivos. Ele estava convencido de que
ouvira a voz de Brown em certa ocasião durante uma terrível conversa; e ele já havia encontrado
uma pegada ou uma marca de garra perto da casa de Brown, que poderia sugerir os mais sinistros
significados. Haviam sido curiosamente encontradas próximas a algumas das pegadas de Brown –
pegadas que estavam frente a frente.
Assim, o registro foi enviado de Brattleboro, para onde Akeley dirigiu seu carro Ford ao
longo das solitárias estradas secundárias de Vermont. Ele confessou em um bilhete que estava
começando a ficar com medo daquelas estradas, e que nem sequer entraria em Townshend para
conseguir suprimentos a não ser que fosse em plena luz do dia. Não valia a pena, como repetiu
repetidas vezes, saber demais, a menos que se distanciasse muito daquelas colinas silenciosas e
turbulentas. Ele iria para a Califórnia em breve para morar com o filho, embora fosse difícil
deixar um lugar onde se encontravam todas as memórias e sentimentos ancestrais.
Antes de escutar a gravação na máquina comercial que eu pedi emprestado ao prédio da
administração da faculdade, examinei cuidadosamente todos os pontos de explicação nas várias
cartas de Akeley. Essa gravação, segundo me disse, havia sido obtida por volta de uma da
madrugada de 1 de maio de 1915, perto da entrada fechada de uma caverna onde a encosta oeste
da Montanha Negra se ergue no pântano de Lee. O lugar sempre fora incomumente atormentado
por estranhas vozes, sendo essa a razão pela qual ele trouxera o fonógrafo, o gravador de voz e o
disco virgem, na esperança de resultados. Uma experiência anterior lhe garantira que a noite de
May Eve[2] – a medonha noite do sabá em secretas lendas europeias – provavelmente seria mais
favorável do que qualquer outra data, e ele não ficou desapontado. Era digno de nota, porém, que
ele jamais voltou a ouvir vozes naquele local em particular.
Ao contrário da maioria das vozes ouvidas nas florestas, o conjunto da gravação era de
algo quase ritualístico e incluía uma nítida voz humana que Akeley jamais conseguira identificar.
Não era de Brown, mas parecia ser de um homem de maior cultura. A segunda voz, no entanto, era
o verdadeiro centro da questão – pois aquele era o zumbido maldito que não tinha semelhança
com nada humano, apesar das palavras humanas que pronunciava em boa gramática inglesa e um
sotaque acadêmico.
O fonógrafo e o ditafone não haviam funcionado uniformemente bem e, é claro, estavam em
grande desvantagem devido à natureza remota e abafada do ritual ouvido; de modo que a fala real
que acabou registrada era muito fragmentária. Akeley havia me fornecido uma transcrição do que
ele acreditava que as palavras faladas deviam dizer, e eu folheei novamente esta transcrição
enquanto preparava a máquina para funcionar. O texto era obscuramente misterioso em vez de
abertamente horrível, embora o conhecimento de sua origem e a forma como foi captado
conferiam-lhe um horror associativo para além do que se possa exprimir. Vou apresentá-la aqui na
íntegra, como eu me lembro – e estou bastante confiante de que a conheço de cor, não apenas por
ler a transcrição, mas também por ter reproduzido a gravação repetidas vezes. Não é algo que se
possa esquecer rapidamente!
* * *
(Sons indecifráveis)
(Voz humana masculina culta)
...é o Senhor do Bosque, mesmo para... e as dádivas dos homens de Leng... Assim, desde os poços
da noite até os abismos do espaço, e dos abismos do espaço até os poços da noite, sempre os
louvores ao Grande Cthulhu, de Tsathoggua e Daquele Que Não Deve Ser Nomeado. Sempre seus
louvores e abundância para a Cabra Negra dos Bosques. Ia! Shub-Niggurath! O Bode Com Mil
Jovens!

(Uma imitação em zumbido da voz humana)


Ia! Shub-Niggurath! A Cabra Negra dos Bosques com Mil Jovens!

(Voz humana)
E aconteceu que o Senhor dos Bosques, sendo... sete e nove, descendo os degraus de ônix... (tri)
butos para Ele no Golfo, Azathoth, Aquele de quem Tu nos ensinou marav (ilhas)... nas asas da
noite para além do espaço, para além do... Àquele de que Yuggoth é o filho mais novo, rolando
sozinho no éter negro na borda...

(Voz em zumbido)
... saia entre os homens e descubra os caminhos que Ele no Golfo possa conhecer. Para
Nyarlathotep, o Mensageiro Poderoso, todas as coisas devem ser contadas. E Ele colocará a
aparência de homens, a máscara de cera e o manto que se esconde, e descerá do mundo dos Sete
Sóis para zombar...
(Voz humana)
(Nyarl)athotep, Grande Mensageiro, portador de estranha alegria para Yuggoth através do vazio,
Pai dos Milhões Favorecidos, Espreitador entre...

(Fala cortada no final da gravação)


* * *
Essas foram as palavras que escutei ao ligar o fonógrafo. Foi com um traço de pavor
genuíno e de relutância que pressionei a alavanca e ouvi o arranhar preliminar da agulha de safira,
e fiquei contente que as primeiras palavras fracas e fragmentadas estavam em uma voz humana –
uma voz suave e educada que parecia vagamente ter um sotaque de Boston, e que certamente não
era o de qualquer nativo das colinas de Vermont. Enquanto ouvia a débil e tentadora gravação,
pareceu-me considerar as falas idênticas à transcrição cuidadosamente preparada de Akeley. Nele
cantou, naquela suave voz de Boston... “Ia! Shub-Niggurath! O Bode Com Mil Jovens!”
E então eu ouvi a outra voz. Neste momento, estremeço novamente quando penso em como
me impressionou, embora estivesse preparado pelo que Akeley me contra. Aqueles a quem, desde
então, descrevi a gravação, afirmaram não encontrar nada além de impostura barata ou loucura;
mas se pudessem ouvir a maldita coisa eles mesmos, ou ler a maior parte da correspondência de
Akeley, (especialmente aquela terrível e enciclopédica segunda carta), sei que pensariam
diferente. Afinal, é uma imensa infelicidade que eu não tenha desobedecido a Akeley e
apresentasse a gravação para outros – algo lamentável, também, que todas as suas cartas se
perderam. Para mim, com minha impressão em primeira mão dos sons reais, e com meu
conhecimento do contexto e das circunstâncias, a voz era uma coisa monstruosa. Rapidamente
seguia a voz humana em resposta ritualística, mas na minha imaginação era um eco mórbido
abrindo caminho através de inimagináveis abismos e de inimagináveis infernos extraterrenos. Já
se passaram mais de dois anos desde a última vez que ouvi aquele cilindro de cera blasfema; mas
neste momento, e em todos os outros momentos, ainda posso ouvir aquele débil e diabólico
zumbido quando me atingiu pela primeira vez.
“Ia! Shub-Niggurath! A Cabra Negra dos Bosques com Mil Jovens!”
Mas embora a voz estivesse sempre em meus ouvidos, eu ainda não conseguia analisá-la
bem o suficiente para uma descrição gráfica. Era como o zumbido de algum inseto repugnante e
gigantesco moldado pesadamente na fala articulada de uma espécie alienígena, e estou
perfeitamente convencido de que os órgãos que o produziram não podem ter qualquer semelhança
com os órgãos vocais do homem, ou mesmo com os de qualquer um dos órgãos vocais de
mamíferos. Havia singularidades no timbre, escala e tons que colocavam esse fenômeno
totalmente fora da esfera da humanidade e da vida terrena. Seu súbito advento da primeira vez me
fez tontear, e ouvi o resto do disco em uma espécie de torpor. Quando ouvi o trecho mais longo do
zumbido, houve uma intensificação acentuada daquele sentimento de infinitude blasfema que tinha
me atingido durante a passagem mais curta e anterior. Por fim, a gravação terminou abruptamente,
durante um discurso extraordinariamente claro daquela voz humana e de Boston; mas me sentei
estupefato e com os olhos vidrados, ainda muito depois que a máquina parou automaticamente.
Não creio que precise dizer que ouvi aquele registro chocante muitas outras vezes, e fiz
exaustivas tentativas de análise e de comentários ao comparar as anotações com Akeley. Seria
inútil e perturbador repetir aqui tudo o que concluímos; mas posso sugerir que concordamos em
acreditar que tínhamos diante de nós uma pista para a fonte de alguns dos mais primitivos
costumes nas mais antigas e enigmáticas religiões da humanidade. Parecia claro para nós, também,
que havia uma aliança antiga e elaborada entre as criaturas ocultas extraterrenas e certos membros
da raça humana. Até que ponto essas alianças eram extensas e como seu estado hoje pode se
comparar com o de eras anteriores, não tínhamos como adivinhar; ainda assim, na melhor das
hipóteses, havia espaço para uma quantidade ilimitada de especulações horrorizadas. Parecia
haver um vínculo imoral e terrível em vários estágios definidos entre o homem e o infinito sem
nome. As blasfêmias que surgiram na Terra, foi sugerido, teriam vindo do obscuro planeta
Yuggoth, nas margens do sistema solar; mas este seria apenas o posto avançado de uma
interestelar assustadora raça interestelar, cuja fonte última deve estar longe mesmo do contínuo
espaço-temporal de Einstein ou do grande conhecido cosmo.
Enquanto isso, continuamos a discutir a respeito da pedra negra e da melhor maneira de
levá-la a Arkham – Akeley julgou desaconselhável que eu o visitasse na cena de seus estudos de
pesadelo. Por alguma razão, Akeley teve medo de confiar aquela coisa a qualquer rota de
transporte comum ou usual. Sua ideia final era levá-la através da região para Bellows Falls e
enviá-lo no sistema de Boston e Maine através de Keene e Winchendon e Fitchburg, embora isso o
obrigasse a dirigir por estradas montanhosas ainda mais solitárias e mais no interior da floresta do
que a rodovia principal a Brattleboro. Ele disse que havia notado um homem próximo ao
escritório de encomendas em Brattleboro quando enviara o disco fonográfico, cujas ações e
expressão estavam longe de ser tranquilizadoras. Esse homem parecia ansioso demais para
conversar com os funcionários e pegar o trem no qual a gravação havia sido enviada. Akeley
confessou que não se sentia muito à vontade com essa gravação até que soubesse que eu
efetivamente a recebera em segurança.
Por volta dessa época – a segunda semana de julho –, perdeu-se outra carta minha,
conforme aprendi devido a uma mensagem ansiosa de Akeley. Depois disso, ele disse para não
mais mandar nada a ele em Townshend, mas que enviasse todas as correspondências para a
entrega geral em Brattleboro; para onde ele faria viagens frequentes, tanto em seu carro como pela
linha de ônibus, que acabara finalmente substituindo o serviço de passageiros pelo ramal
ferroviário. Eu pude ver que ele estava ficando cada vez mais ansioso, pois entrara em muitos
detalhes sobre o aumento do latido dos cães nas noites sem lua, e sobre as novas pegadas de garra
que às vezes encontrava na estrada e na lama na parte de trás seu pátio quando amanhecia. Certa
vez, contou sobre um verdadeiro exército de pegadas que formava um caminho seguido por outra
igualmente nítida e decidida de pegadas de cães, e enviou uma foto repugnantemente perturbadora
de sua Kodak como prova. Isso foi depois de uma noite em que os cães se superaram em latidos e
uivos.
Na manhã de quarta-feira, 18 de julho, recebi um telegrama de Bellows Falls, no qual
Akeley disse que estava enviando a pedra negra pela B & M no trem nº 5508, deixando Bellows
Falls às 12h15, hora local, e com previsão de chegar à Estação Norte em Boston às 16:12. O
pacote deveria, segundo meus cálculos, chegar a Arkham pelo menos até o meio-dia seguinte; e,
portanto, fiquei toda a manhã de quinta-feira esperando recebê-lo. Mas o meio-dia veio e passou
sem a chegada, e quando telefonei para o escritório de encomendas, fui informado de que não
havia chegado nenhum carregamento para mim. Minha próxima ação, realizada em meio a uma
preocupação crescente, foi a de fazer uma ligação interurbana para o agente de encomendas na
Estação Norte de Boston; e não fiquei surpreso ao saber que minha remessa não havia aparecido.
O trem nº 5508 havia chegado apenas 35 minutos atrasado no dia anterior, mas não havia nenhuma
caixa endereçada a mim. O agente prometeu, no entanto, instituir uma ação investigativa; e
terminei o dia enviando a Akeley uma carta noturna descrevendo a situação.
Com louvável prontidão, um relatório chegou do escritório de Boston na tarde seguinte,
com o agente me telefonando assim que soube dos fatos. Parecia que o funcionário da estação
ferroviária no número 5508 fora capaz de recordar um incidente que poderia ser muito
significativo para minha perda – uma discussão com um homem de voz muito curiosa, magro,
claro e de aparência rústica, quando o trem estava parado em Keene, NH, pouco depois da uma da
tarde. O homem, disse, estava muito agitado devido à caixa pesada que alegava esperar, mas que
ele mesmo não estava nem no trem nem constava dos livros da empresa. Fornecera o nome de
Stanley Adams e tinha uma voz tão grosseira e monótona que deixava o funcionário anormalmente
tonto e sonolento ao ouvi-lo. O balconista não conseguia se lembrar bem de como a conversa
terminara, mas se lembrou de começar a despertar mais nitidamente quando o trem começou a se
mover. O agente de Boston acrescentou que esse funcionário era um jovem de honra e
confiabilidade totalmente inquestionáveis, de antecedentes conhecidos e há muito tempo
trabalhando na empresa.
Naquela noite, fui a Boston conversar pessoalmente com o funcionário, após ter obtido seu
nome e endereço no escritório. Era um sujeito franco e interessante, mas percebi que ele não seria
capaz de acrescentar nada a seu relato original. Estranhamente, ele não tinha certeza de poder
reconhecer novamente o estranho homem. Percebendo que não tinha mais o que contar, voltei a
Arkham e me sentei até a manhã escrevendo cartas para Akeley, para a companhia expressa e para
o departamento de polícia e para o agente da estação em Keene. Acreditava que o homem de voz
única que afetara de modo tão estranho o funcionário devia desempenhar papel central naquele
agourento negócio, e esperava que ou os funcionários da estação de Keene ou os registros dos
telégrafos informassem algo sobre ele, sobre como fizera suas perguntas, além de quando e onde
as fez.
Devo admitir, no entanto, que todas as minhas investigações não deram em nada. O homem
de voz esquisita tinha realmente sido notado em torno da estação de Keene no início da tarde de
18 de julho, e um desocupado parecia se lembrar vagamente dele levando uma caixa pesada; mas
era alguém totalmente desconhecido e não havia sido visto ele antes ou desde então. Ele não
visitou a agência telegráfica nem recebeu qualquer mensagem que pudesse ser apreendida, nem
qualquer mensagem que pudesse ser considerada, com certeza, como um aviso da presença, para
qualquer uma, da pedra negra no trem nº 5508. Naturalmente Akeley se juntou a mim na realização
dessas investigações, e até mesmo fez uma viagem pessoal a Keene para questionar as pessoas
próximas à estação; mas sua atitude em relação ao assunto era mais fatalista que a minha. Ele
parecia achar a perda da caixa um poderoso e ameaçador presságio de tendências inevitáveis, e
não tinha esperança real em recuperá-la. Ele falou dos indubitáveis poderes telepáticos e
hipnóticos das criaturas das colinas e de seus agentes, e em uma carta sugeriu não mais acreditar
que a pedra estivesse na terra. De minha parte, fiquei indignado, pois havia percebido que havia
pelo menos uma chance de aprender coisas profundas e surpreendentes com aqueles antigos e
borrados hieróglifos. O assunto teria infelizmente ficado em minha mente, se as cartas
imediatamente subsequentes de Akeley trouxessem à tona uma nova fase de todo o horrível
problema das colinas, que imediatamente capturou toda a minha atenção.
Capítulo 4
Aquelas coisas desconhecidas, segundo Akeley descreveu em um texto tornava trêmulo de
dar pena, começavam a se aproximar dele com um grau totalmente novo de determinação. O latido
noturno dos cães sempre que a luz da lua estava fraca ou ausente era agora hediondo, e havia
tentativas de atacá-lo nas estradas solitárias que tinha que atravessar durante o dia. No segundo
dia de agosto, quando se dirigia à aldeia em seu carro, ele encontrara um tronco de árvore
colocado em seu caminho, no ponto em que a estrada corria por um trecho de floresta; enquanto o
latido selvagem dos dois grandes cães que trazia consigo evidenciava que as coisas deviam estar
à espreita. O que teria acontecido se os cachorros não estivessem lá, ele não ousaria adivinhar,
mas agora ele jamais saía sem a companhia de pelo menos um dos de sua poderosa e fiel matilha.
Outras experiências semelhantes na estrada ocorreram nos dias 5 e 6 de agosto; em uma ocasião,
um tiro atingiu de raspão seu carro, e em outro o latido dos cachorros indicava a presença das
presenças profanas na floresta.
Em 15 de agosto, recebi uma carta frenética que me muito perturbou, e que me fez desejar
que Akeley pudesse deixar de lado suas reticências solitárias e buscar um auxílio da justiça.
Coisas terríveis ocorreram na passagem da noite do dia 12 para o dia 13, com balas voando do
lado de fora da fazenda e três dos doze grandes cães sendo encontrados mortos na manhã seguinte.
Havia uma multidão de impressões de garras na estrada, com as pegadas humanas de Walter
Brown entre elas. Akeley tentara telefonar para Brattleboro para conseguir mais cães, mas a linha
ficou muda antes que tivesse a chance de falar muito. Mais tarde, seguiu até Brattleboro em seu
carro quando descobriu que os trabalhadores haviam encontrado o cabo principal cortado no
ponto em que corria pelas colinas desertas ao norte de Newfane. Mas ele estava prestes a retornar
para sua casa com quatro excelentes novos cães e vários cartuchos de munição para seu poderoso
rifle de repetição. A carta foi enviada para mim no correio em Brattleboro e chegou sem demora.
Minha atitude em relação ao assunto havia, a essa altura, rapidamente passado de uma
preocupação científica para algo assustadoramente pessoal. Eu estava com medo por Akeley em
sua remota e solitária casa de fazenda, e um pouco com medo por mim mesmo devido à minha
agora bem definida conexão com o estranho caso da colina. A coisa estava se aproximando. Será
que me sugaria e me engoliria? Ao responder a sua carta, pedi-lhe que buscasse ajuda e sugeri que
eu poderia agir por conta própria se ele mesmo não o fizesse. Mencionei visitar Vermont
pessoalmente, apesar de seus pedidos, e de ajudá-lo a explicar a situação às autoridades
competentes. Em resposta, no entanto, recebi apenas um telegrama de Bellows Falls, que dizia
assim:
* * *
AGRADEÇO SUA POSIÇÃO, MAS NÃO PODE FAZER NADA NÃO TOME NENHUMA
ATITUDE POIS APENAS PREJUDICARIA NÓS DOIS ESPERE PELA EXPLICAÇÃO

HENRY AKELY
* * *
Mas o caso estava se tornando cada vez mais grave. Ao responder ao telegrama, recebi um
recado trêmulo de Akeley, com a surpreendente notícia de que ele não apenas jamais me enviara o
telegrama, como também não recebera a minha carta, à qual era a óbvia resposta. As perguntas
feitas às pressas por ele em Bellows Falls revelaram que a mensagem havia sido enviada por um
estranho homem de cabelos claros com uma voz curiosamente grossa e monótona, embora não
conseguisse apresentar mais detalhes. O funcionário mostrou-lhe o texto original, rabiscado a
lápis pelo remetente, mas a caligrafia era totalmente desconhecida. Era perceptível que a
assinatura estava incorreta - AKELY, sem o segundo “E”. Certas conjeturas eram inevitáveis, mas,
em meio à óbvia crise, ele não parou para elaborá-las.
Ele mencionava a morte de mais cães e da compra de outros, e da troca de tiros que se
tornara um recurso corriqueiro a cada noite sem lua. As pegadas de Brown, e as de pelo menos
uma ou duas pessoas, eram agora encontradas regularmente entre as pegadas de garras na estrada e
nos fundos do quintal. Era, Akeley admitiu, algo muito ruim; e em pouco tempo ele provavelmente
teria que ir morar com seu filho da Califórnia, quer ele conseguisse ou não vender o antigo lugar.
Mas não era fácil deixar o único local que ele considerava como seu lar. Talvez devesse tentar
esperar um pouco mais; talvez pudesse assustar os invasores – especialmente se desistisse
abertamente de todas as novas tentativas adicionais de penetrar em seus segredos.
Escrevendo a Akeley imediatamente, renovei minhas ofertas de ajuda e voltei a falar em
visitá-lo e ajudá-lo a convencer as autoridades do terrível perigo. Em sua resposta, ele parecia
menos preocupado com esse plano do que sua atitude anterior teria me levado a prever, mas
afirmou que gostaria de permanecer um pouco mais – o tempo suficiente para colocar as coisas em
ordem e se reconciliar com a ideia de deixar aquele local de seu nascimento que era quase que
morbidamente estimado. As pessoas olhavam com desconfiança para suas pesquisas e
especulações, e seria melhor ficar em silêncio sem criar tumultos na região além de criar dúvidas
sobre sua própria sanidade. Ele admitiu já estar farto, mas queria ter uma saída digna, se pudesse.
Essa carta chegou a mim no dia 28 de agosto, e eu escrevi e enviei uma resposta tão
encorajadora quanto pude. Aparentemente, o encorajamento teve sucesso, pois Akeley relatava
menos terrores quando recebeu minha nota. Ele não era muito otimista, porém, e afirmou que era
apenas por ser lua cheia que as criaturas estavam afastadas. Ele esperava que não houvesse muitas
noites densamente nubladas, e sugeria vagamente em embarcar em Brattleboro quando a luz da lua
enfraquecesse. Mais uma vez o escrevi o encorajando, mas em 5 de setembro veio uma nova
mensagem que obviamente cruzara a minha carta que já estava nos correios; e para essa, eu não
tinha condições de dar uma resposta tão encorajadora. Considerando sua importância, acredito
que seria melhor repeti-la na íntegra – da melhor forma que consigo me lembrar daquela escrita
trêmula:
* * *
Segunda-feira

Caro Wilmarth

Um PS bastante desanimador para minha última carta. Ontem à noite ficou densamente nublado –
embora sem chuva – e não havia nem um pouco de luz. Aquelas coisas foram cruéis, e acho que o
fim está chegando perto, apesar de tudo que desejávamos. Depois da meia-noite, alguma coisa
caiu no telhado da casa e os cachorros correram para ver o que era. Eu podia ouvi-los estalando e
rasgando ao redor, e então um deles conseguiu subir no telhado saltando do paiol mais baixo.
Houve uma luta terrível lá em cima e ouvi um zumbido assustador que nunca esquecerei. E então
me veio um cheiro insuportável. Mais ou menos na mesma hora, as balas atravessaram a janela e
quase me atingiram. Acho que a linha principal das criaturas das montanhas se aproximou da casa
quando os cachorros se dividiram por causa da coisa no telhado. Ainda não sei o que estava lá em
cima, mas temo que as criaturas estejam aprendendo a voar melhor com suas asas espaciais.
Apaguei as luzes e usei as janelas para achar brechas, e atirei em torno de toda a casa com fogo
do fuzil apontado o suficientemente alto para não acertar os cães. Isso pareceu acabar com o
cerco, mas de manhã eu encontrei grandes poças de sangue no quintal, além de poças de um
material pegajoso verde que tinha o pior odor que eu já senti. Eu subi no telhado e encontrei mais
do material pegajoso lá. Cinco dos cães foram mortos – tenho medo de ter atingido um deles
apontando muito baixo, pois foi baleado nas costas. Agora estou arrumando as vidraças, e estou
indo para Brattleboro buscar mais cães. Eu acho que os homens dos canis pensam que sou louco.
Escrevo outra nota depois. Acredito que estarei pronto para me mudar em uma ou duas semanas,
embora quase me mate pensar nisso.

Apressadamente – Akeley
* * *
Mas esta não foi a única carta de Akeley que cruzou a minha. Na manhã seguinte, 6 de
setembro, veio ainda outra; desta vez, um rabisco frenético que me enervou totalmente e me deixou
sem saber o que dizer ou fazer em seguida. Novamente, não posso fazer melhor do que citar o
texto tão fielmente quanto a minha memória me permite.
* * *
Terça

As nuvens não abriram, então nenhuma lua novamente – e, de qualquer modo, logo vem a
minguante. Eu teria trazido energia elétrica para a casa e colocado holofotes se não soubesse que
eles cortariam os cabos tão rápido quanto poderiam ser consertados.
Acho que estou ficando louco. Pode ser que tudo que eu já tenha escrito tenha sido um
sonho ou loucura. O que aconteceu antes já foi ruim, mas desta vez é demais. Eles falaram comigo
ontem à noite – falaram naquela voz maldita e me disseram coisas que não me atrevo a repetir
para você. Eu os ouvi claramente acima do latido dos cães, e quando os sons deles foram
abafados, uma voz humana os ajudou. Fique longe disso, Wilmarth – é pior do que você ou eu já
suspeitamos. Agora eles não querem me deixar ir à Califórnia – eles me querem vivo, ou o que
teórica e mentalmente significa vivo – não apenas para Yuggoth, mas muito além – fora da
galáxia e possivelmente para além da última curva da borda do espaço. Eu lhes disse que não
iria para onde eles queriam, ou da forma terrível que eles se propuseram a me levar, mas temo
que isso não adiantará de nada. O lugar em que vivo é tão distante que em breve eles podem vir de
dia assim como vêm de noite. Mais seis cachorros foram mortos e eu senti presenças nas partes de
floresta da estrada quando cheguei a Brattleboro hoje. Foi um erro para mim mesmo tentar lhe
enviar esse disco e a pedra negra. Melhor vocês quebrar a gravação antes que seja tarde demais.
Te deixarei outra mensagem amanhã se eu ainda estiver aqui. Gostaria de conseguir arrumar meus
livros e coisas para Brattleboro e embarcar lá. Eu fugiria sem nada, se pudesse, mas algo dentro
da minha mente me prende de volta. Poderia escapar para Brattleboro, onde acho que estaria a
salvo, mas ali me sinto tão prisioneiro quanto em casa. E eu acho que sei que não conseguiria ir
muito longe, mesmo se largasse tudo e tentasse. É horrível – não se envolva nisso.

Abraços – Akeley
* * *
Não dormi a noite toda depois de receber essa coisa terrível, e fiquei totalmente perplexo
com o grau da sanidade que restava em Akeley. O conteúdo da mensagem era totalmente insano,
mas sua maneira de se expressar – em vista de tudo o que havia acontecido antes – possuía uma
qualidade sinistramente poderosa de convencimento. Não tentei responder, achando melhor
esperar até Akeley ter tempo de responder à minha última mensagem. Tal resposta, de fato, veio no
dia seguinte, embora o material novo nele ofuscasse quaisquer dos pontos trazidos pela carta
nominalmente respondida. Eis o que me lembro do texto, rabiscado e manchado como estava no
curso de uma escrita claramente frenética e apressada.
* * *
Quarta-feira

W-
Sua carta chegou, mas não adianta discutir mais nada. Estou totalmente resignado.
Pergunto-me se tenho poder suficiente para lutar contra eles. Não posso escapar, mesmo se
estivesse disposto a desistir de tudo e fugir. Eles vão me pegar.
Recebi uma carta deles ontem – o homem da RFD me entregou quando eu estava em
Brattleboro. Enviado e carimbado em Bellows Falls. Dá detalhes que eles querem fazer comigo –
não posso repetir. Cuide-se também! Destrua a gravação. As noites nubladas continuam, e a lua
está minguando. Gostaria de me atrever a conseguir ajuda – poderia reforçar minha força de
vontade –, mas todos que se atrevessem a vir me chamariam de louco, a menos que houvesse
alguma prova. Não podia pedir às pessoas que viessem sem motivo algum – estou sem contato
com todos por anos.
Mas ainda não te contei o pior, Wilmarth. Prepare-se para ler isto, pois lhe dará um
choque. Porém, estou dizendo a verdade. É isso: eu vi e toquei uma das coisas, ou parte de uma
das coisas. Deus, cara, mas é horrível! Estava morto, claro. Um dos cachorros o matou, e eu o
encontrei perto do canil esta manhã. Tentei guardá-lo no galpão de madeira para tentar convencer
as pessoas da coisa toda, mas tudo evaporou em poucas horas. Não sobrou nada. Você sabe, todas
essas coisas nos rios foram vistas apenas na primeira manhã após a enchente. E o pior: tentei
fotografar para você, mas quando eu revelei o filme não tinha nada visível exceto o galpão de
madeira. De que poderia ser feita essas coisas? Eu a vi e senti, e todos deixaram pegadas.
Certamente são feitos de matéria – mas de que tipo de matéria? A forma não pode ser descrita. Era
um grande caranguejo com muitos anéis carnudos ou amontoados de coisas grossas e rústicas,
cobertas de antenas, onde estaria a cabeça de um homem. Essa coisa pegajosa verde é seu sangue.
E mais deles devem chegar na Terra a qualquer momento.
Walter Brown está desaparecido – não foi visto vagando em seus cantos habituais nas
aldeias vizinhas. Acho que eu o acertei com um dos meus tiros, embora as criaturas sempre
pareçam tentar levar seus mortos e feridos para longe.
Cheguei à cidade esta tarde sem nenhum problema, mas estou com medo de que eles
tenham dado uma trégua porque já me têm como capturado. Estou escrevendo isso do correio de
Brattleboro. Isso pode ser um adeus – se for, escreva para meu filho George Goodenough Akeley,
176 Pleasant St., San Diego, Cal. Mas não venha até aqui. Escreva para o garoto se você tiver
notícias de mim em uma semana, e procure por notícias nos jornais.
Vou dar minhas duas últimas cartadas agora – se ainda me sobrou alguma força de vontade.
Primeiro, vou tentar usar gás venenoso nas coisas (tenho os produtos químicos certos e arrumei
máscaras para mim e para os cães) e, se isso não funcionar, conte tudo ao xerife. Eles podem me
trancar em um hospício se quiserem – será melhor do que fariam comigo as outras criaturas.
Talvez eu possa levá-los a prestar atenção nas pegadas ao redor da casa – elas são fracas, mas
consigo encontrá-las todas as manhãs. Suponha, no entanto, que a polícia possa dizer que eu as
falsifiquei de alguma forma; porque todos pensam que sou um alguém esquisito.
Vou tentar fazer com que um policial estadual passe uma noite aqui e veja por si mesmo –
embora as criaturas possam descobrir meu plano e não aparece nesta noite. Eles cortam meus
cabos sempre que tento telefonar à noite – os trabalhadores da companhia acham que é algo muito
estranho e podem testemunhar a meu favor, se é que não imaginam que eu mesmo os cortei. Já faz
cerca de uma semana que não tenho pedido para consertar os fios.
Eu poderia fazer com que algumas das pessoas ignorantes testemunhassem sobre a
realidade dos horrores, mas todos riem do que eles dizem e, de qualquer maneira, eles têm se
mantido longe de onde moro há tanto tempo que não conhecem nenhum dos eventos recentes. Você
não poderia conseguir que um desses agricultores miseráveis chegasse um quilômetro da minha
casa por amor ou por dinheiro. Os carteiros ouvem o que eles dizem e brincam comigo sobre isso
– Deus! Se conseguisse dizer a ele como tudo é verdade! Acho que vou tentar fazer com que notem
as pegadas, mas eles vêm à tarde e geralmente elas já desapareceram. Se eu tentasse preservá-la
colocando uma caixa ou panela sobre ela, todos pensariam que se tratava de uma farsa ou de uma
piada.
Queria que eu não tivesse me transformado em um ermitão, então as pessoas não aparecem
tanto como costumavam fazer. Eu nunca ousei mostrar a pedra negra ou as fotos da Kodak, ou
tocar esse disco, a ninguém além das pessoas ignorantes. Os outros diriam que eu fingi tudo e
apenas debochariam. Mas ainda posso tentar mostrar as fotos. Eles dão claramente essas marcas
de garra, mesmo que as coisas que as criaram não possam ser fotografadas. É uma pena que
ninguém mais tenha visto essa coisa hoje de manhã antes dela desparecer!
Mas eu não sei mais se me importo. Depois do que passei, um hospício é um lugar tão bom
quanto qualquer outro. Os médicos podem me ajudar a decidir sair dessa casa, e é só isso que vai
me salvar.
Escreva a meu filho George se você não ouvir notícias de mim. Adeus, destrua esse disco
e não se meta mais nesse assunto.

Abraços – Akeley
* * *
Esta carta francamente mergulhou-me no mais negro do terror. Eu não sabia o que escrever
em resposta, mas rabisquei algumas palavras incoerentes de conselho e encorajamento e as enviei
por carta registrada. Lembro-me de pedir a Akeley que se mudasse imediatamente para
Brattleboro e se colocasse sob a proteção das autoridades; acrescentando que eu chegaria à
cidade com o registro fonográfico e ajudaria a convencer os tribunais de sua sanidade. Era hora,
também, acho que escrevi, de alertar as pessoas em geral contra essas coisas que vivem entre
eles. Devo lembrar que, nesse momento de estresse, minha própria crença em tudo o que Akeley
havia dito e afirmado era virtualmente absoluta, embora eu achasse que sua falha em obter uma
imagem do monstro morto não se devesse a qualquer aberração da Natureza, mas a algum erro que
cometera.
Capítulo 5
Então, aparentemente cruzando minha última mensagem incoerente e chegando até mim na
tarde de sábado, 8 de setembro, veio aquela curiosamente diferente e tranquilizadora carta,
datilografada em uma nova máquina; aquela estranha carta reconfortante e convidativa que deve
ter marcado uma transição tão prodigiosa em todo o drama do pesadelo das colinas solitárias.
Mais uma vez vou citar de memória – procurando por razões particulares preservar o máximo
possível o sabor do estilo original. Ela fora carimbada em Bellows Falls e a assinatura, bem
como o corpo da carta foi datilografado, como é frequente com iniciantes na datilografia. O texto,
no entanto, foi maravilhosamente preciso para o trabalho de alguém iniciante; e concluí que
Akeley devesse ter usado uma máquina de datilografar em algum momento anterior de sua vida –
talvez na faculdade. Seria correto dizer que a carta me trazia alívio, mas sob meu alívio havia
algo de inquietação. Se Akeley havia sido sensato em seu terror, ele estaria são agora em sua
libertação? E às tais “melhores relações” que menciona... o que seriam? A coisa toda implicava
uma mudança diametralmente oposta nas atitudes de Akeley! Mas aqui está o conteúdo do texto,
cuidadosamente transcrito de uma memória da qual me orgulho um pouco.
* * *
Townshend, Vermont,
Quinta-feira, 6 de setembro de 1928.

Meu caro Wilmarth: -


É um grande prazer vou poder deixar você em paz em relação a todas as coisas bobas que
venho escrevendo para você. Eu digo “bobas”, embora com isso eu me refira à minha atitude
assustada, e não às minhas descrições de certos fenômenos. Esses fenômenos são reais e
significativos; meu erro foi estabelecer uma atitude anômala em relação a eles.
Acho que mencionei que meus estranhos visitantes estavam começando a se comunicar
comigo e a tentar tal comunicação. Ontem à noite esta conversa se tornou real. Em resposta a
certos sinais, admiti em minha casa um mensageiro daqueles que estavam do lado de fora – um
sujeito humano, devo já dizer. Ele me contou muito que nem você nem eu sequer começamos a
adivinhar, e mostrou claramente como tínhamos julgado e interpretado erroneamente o propósito
dos Seres de Longe em manter sua colônia secreta neste planeta.
Parece que as lendas dos perigos que representam aos homens, e o que eles desejam na
Terra, são inteiramente resultado de um equívoco ignorante do discurso alegórico – discurso, é
claro, moldado por origens culturais e hábitos de pensamento vastamente diferente de qualquer
coisa que sonhamos. Minhas próprias conjecturas, devo admitir, passaram tão longe do alvo
quanto quaisquer das suposições de fazendeiros analfabetos e de índios selvagens. O que eu
achava mórbido e vergonhoso e infame é, na realidade, impressionante, transcendental e até
mesmo glorioso – minhas especulações anteriores eram meramente uma fase da eterna tendência
do homem a odiar e temer e a se afastar do que é completamente diferente.
Agora me arrependo dos danos que causei a esses seres alienígenas e incríveis no curso de
nossas escaramuças noturnas. Se eu tivesse consentido em falar pacífica e racionalmente com eles
em primeiro lugar! Mas eles não me guardam rancor, suas emoções se organizam de maneira muito
diferente da nossa. É apenas para infelicidade deles que tenham tido como agentes humanos em
Vermont alguns espécimes muito inferiores – o falecido Walter Brown, por exemplo. Brown foi
muito responsável pelos medos que eu nutria em relação a eles. Na verdade, eles nunca
prejudicaram conscientemente os homens, mas foram cruelmente atacados e espionados por nossa
espécie. Há todo um culto secreto de homens maus (um homem de sua erudição mística me
entenderá quando eu os relacionar a Hastur e ao Símbolo Amarelo) dedicados ao propósito de
rastreá-los e feri-los em nome de poderes monstruosos de outras dimensões. É contra esses
agressores – não contra a humanidade normal – que são dirigidas as drásticas precauções dos
Seres de Longe. Aliás, aprendi que muitas de nossas cartas perdidas foram roubadas não pelos
Seres de Longe, mas pelos emissários deste culto maligno.
Tudo o que os Seres de Longe desejam do homem é paz sem incômodos e um crescente
relacionamento intelectual. Este último é absolutamente necessário agora que nossas invenções e
dispositivos estão expandindo nossos conhecimentos e ações, e tornando cada vez mais
impossível para que os necessários postos avançados dos Seres de Longe existiam secretamente
neste planeta. Os seres alienígenas desejam conhecer mais a humanidade, e que alguns dos líderes
filosóficos e científicos da humanidade saibam mais sobre eles. Com essa troca de conhecimento,
todos os perigos serão superados e um satisfatório modus vivendi será estabelecido. A própria
ideia de qualquer tentativa de escravizar ou degradar a humanidade é ridícula.
Como início na melhoria deste relacionamento, os Seres de Longe naturalmente me
escolheram – pois meu conhecimento sobre eles já é considerável – como seu principal intérprete
na Terra. Muito me foi dito ontem à noite – fatos de natureza mais estupenda, e que me ampliaram
a visão – e mais me será dito posteriormente a mim tanto oralmente quanto por escrito. Não serei
chamado a fazer qualquer viagem ainda ao espaço, embora eu provavelmente deseje fazê-lo mais
tarde – empregando meios especiais e transcendendo tudo o que até agora estamos acostumados a
considerar como experiência humana. Minha casa não será mais sitiada. Tudo voltou ao normal e
os cães não terão mais função. No lugar do terror, recebi uma rica vantagem de conhecimentos e
de aventura intelectual que poucos outros mortais já compartilharam.
Os Seres Superiores são talvez as coisas orgânicas mais maravilhosas dentro ou além de
todo o espaço e tempo – membros de uma raça do cosmos – da qual todas as demais formas de
vida são apenas versões degeneradas. Eles são mais vegetais que animais, se esses termos podem
ser aplicados ao tipo de matéria que os compõe, e têm uma estrutura semelhante à de fungos;
embora a presença de uma substância semelhante à clorofila e um sistema nutritivo muito singular
os diferencie completamente dos verdadeiros fungos cormofíticos. De fato, o tipo é composto de
uma forma de matéria totalmente estranha à nossa parte do espaço – com elétrons apresentando um
índice de vibração totalmente diferente. É por isso que os seres não podem ser fotografados nos
filmes e placas comuns da câmera de nosso universo conhecido, mesmo que nossos olhos podem
vê-los. Com conhecimento adequado, no entanto, qualquer bom químico poderia fazer uma
emulsão fotográfica que gravaria suas imagens.
O gênero é único em sua capacidade de atravessar o vazio interestelar sem calor e sem ar
em plena forma corpórea, e algumas de suas variantes não podem fazer isso sem auxílio mecânico
ou curiosas transposições cirúrgicas. Apenas algumas espécies têm as asas resistentes ao éter
característicos da variedade de Vermont. Aqueles que habitam certos picos remotos do Velho
Mundo foram trazidos por outros meios. Sua semelhança externa com a vida animal e com o tipo
de estrutura que entendemos como material é mais uma questão de evolução paralela do que de
parentesco próximo. Sua capacidade cerebral excede a de qualquer outra forma de vida existente,
embora os tipos alados de nossa região montanhosa não sejam, de maneira alguma, os mais
desenvolvidos. A telepatia é o seu meio usual de conversa, embora tenhamos órgãos vocais
rudimentares que, após uma ligeira operação (pois a cirurgia é uma coisa incrivelmente
especializada e cotidiana entre eles), podem reproduzir duplamente a fala destes tipos de
organismo que ainda se utilizam de sons.
Sua principal morada imediata é um planeta ainda não descoberto e quase sem luz na
extremidade do nosso sistema solar – além de Netuno, e o nono na distância do sol. É, como
imaginávamos, o objeto misticamente sugerido como “Yuggoth” em certos textos antigos e
proibidos; e logo será a cena de uma estranha concentração de pensamentos em nosso mundo, em
um esforço para facilitar o relacionamento mental. Eu não ficaria surpreso se os astrônomos se
tornarem suficientemente sensíveis a essas correntes de pensamentos e descobrir Yuggoth quando
os Seres de Longe desejarem que eles o façam. Mas Yuggoth, claro, é apenas o trampolim. O
corpo principal dos seres habita abismos estranhamente organizados totalmente além do maior
alcance de qualquer imaginação humana. O glóbulo espaço-temporal que reconhecemos como a
totalidade de toda entidade cósmica é apenas um átomo no infinito genuíno que é o deles. E tanto
quando desse infinito possa se abrir para qualquer cérebro humano, acabará sendo aberto para
mim, como tem sido para não mais de cinquenta outros homens desde que a raça humana
existiu.
Você provavelmente vai chamar isso de delirar no início, Wilmarth, mas com o tempo vai
apreciar a titânica oportunidade que encontrei. Eu quero que você compartilhe o máximo possível,
e para isso te contarei milhares de coisas que não irão para o papel. No passado, eu o avisei para
não vir me ver. Agora que tudo está seguro, sinto prazer em rescindir esse aviso e convidá-lo.
Você não pode fazer uma viagem até aqui antes do seu início de suas aulas na faculdade?
Seria maravilhoso se você conseguisse. Traga a gravação fonográfica e todas as minhas cartas
para você como dados para consulta – precisaremos deles para reuni-los em uma história
espetacular. Você também pode trazer as impressões da Kodak, já que pareço ter extraviado tanto
os negativos quanto minhas próprias cópias com toda essa agitação recente. Mas que riqueza de
fatos eu tenho para acrescentar a todo esse material tateante e hesitante – e que dispositivo
estupendo eu tenho para complementar meus acréscimos!
Não hesite – não estou sendo espionado agora, e você não encontrará nada anormal ou
perturbador. Apenas venha e deixe meu carro te encontrar na estação de Brattleboro – prepare-se
para ficar o maior tempo possível, e espere muitas noites discutindo coisas para além de todas as
conjecturas humanas. Não conte a ninguém sobre isso, é claro – pois esse assunto não deve chegar
ao público em geral.
O serviço de trem para Brattleboro não é ruim – você deve conseguir um bom horário em
Boston. Tome o B. & M. até Greenfield e troque de trem para resto do breve caminho. Sugiro que
você tome o trem com o conveniente horário de 16h10 de Boston. Este chega em Greenfield às
7:35 e às 9:19 sai um trem que chega a Brattleboro às 10:01. Isso é para os dias úteis. Diga-me
qual será a data e eu vou estar com o carro na estação.
Perdoe essa carta datilografada, mas minha caligrafia ficou tremida ultimamente, como
você sabe, e não me sinto melhor para manuscrever longos trechos. Comprei esta nova Corona em
Brattleboro ontem – parece muito boa.
Aguardando notícias e esperando ver você em breve com a gravação do fonógrafo e todas
as minhas cartas – e as impressões da Kodak –

Eu,
Atenciosamente,

Henry W. Akeley

PARA ALBERT N. WILMARTH, ESQ.

UNIVERSIDADE MISKATONIC,

ARKHAM, MASS.
* * *
A complexidade de minhas emoções ao ler, reler e refletir sobre essa carta estranha e
inesperada supera qualquer descrição adequada. Disse que fiquei ao mesmo tempo aliviado e
incomodado, mas isso expressa apenas grosseiramente o tom de sentimentos diversos e em grande
parte subconscientes que compreendiam tanto o alívio quanto a inquietação. Para começar, a coisa
estava tão diametralmente em desacordo com toda a cadeia de horrores que a precediam – a
mudança de humor do puro terror para a fria complacência e até a exultação era tão desconhecida,
imediata e completa! Eu mal podia acreditar que um único dia pudesse alterar tanto a perspectiva
psicológica de alguém que escrevera aquele último boletim frenético de quarta-feira, não
importando as revelações de alívio que o novo dia pudesse ter trazido. Em certos momentos, uma
sensação de irrealidades conflitantes me fez pensar se todo esse drama de forças fantásticas,
narrado de forma distante, não seria um tipo de sonho meio ilusório criado em grande parte em
minha própria mente. Então pensei na gravação do fonógrafo e mais perplexidade aumentou ainda
mais.
A carta parecia tão diferente de tudo que eu poderia esperar! Ao analisar minhas
impressões, vi que consistiam em duas fases distintas. Primeiro, admitindo que Akeley estivesse
mentalmente são, e ainda o era, a mudança indicada na situação em si era muito rápida e
impensável. E, em segundo lugar, a mudança nas próprias maneiras, atitudes e linguagem de
Akeley estavam muito além do normal ou do previsível. Toda a personalidade do homem parecia
ter sofrido uma insidiosa mutação – uma mutação tão profunda que dificilmente se poderia
conciliar suas duas fases com a ideia de que representavam ambas a mesma sanidade. Escolha de
palavras, ortografia – tudo era sutilmente diferente. E com minha sensibilidade acadêmica para o
estilo de prosa, pude detectar profundas divergências em suas reações mais comuns e respostas
rítmicas. Certamente, o cataclismo ou revelação emocional que poderia produzir uma reviravolta
tão radical deve ter sido realmente extrema! Contudo, por outro lado, a carta parecia bastante
característica de Akeley. A mesma velha paixão pelo infinito – a mesma velha curiosidade
acadêmica. Não pude nem por um momento – nem mais que um breve momento – dar crédito à
ideia de uma falsificação ou de ação má intencionada. O convite – a disposição de que eu
experimentasse a verdade da carta pessoalmente – não provava ser genuína?
Não descansei na noite de sábado; sentei-me e fiquei pensando nas sombras e nas
maravilhas por detrás da carta que recebera. Minha mente, dolorida pela rápida sucessão de
concepções monstruosas que fora forçada a enfrentar nos últimos quatro meses, trabalhou com
esse material novo e surpreendente em um ciclo de dúvida e aceitação que repetiu a maioria dos
passos experimentados para enfrentar as maravilhas anteriores; até bem antes do amanhecer, um
interesse ardente e a curiosidade haviam começado a substituir a tempestade original de
perplexidade e inquietação. Louca ou sensata, metamorfoseada ou apenas aliviada, as chances
eram de que Akeley tivesse realmente encontrado alguma estupenda mudança de perspectiva em
sua perigosa investigação; alguma mudança ao mesmo tempo teria diminuído seu perigo – fosse
real ou imaginário – e abrira novas perspectivas estonteantes de conhecimento cósmico e sobre-
humano. Meu próprio anseio pelo desconhecido se elevou ao mesmo nível do dele e senti-me
tocado pelo contágio daquela mórbida superação de uma barreira. Para se livrar das
enlouquecedoras e desgastantes limitações do tempo e do espaço e da lei natural – estar ligado ao
vasto exterior – para se aproximar dos segredos noturnos e abissais do infinito e do supremo –
certamente tal coisa valia o risco de uma vida, de uma alma e da sanidade! E Akeley dissera que
não havia mais qualquer perigo – ele me convidara para visitá-lo, em vez de me proibir de fazê-
lo, como antes. Eu me arrepiei com o pensamento do que ele poderia agora ter para me dizer –
havia uma fascinação quase paralisante no pensamento de se sentar naquela casa solitária e
ultimamente sitiada com um homem que conversara com emissários do espaço sideral; sentado ali
com a terrível gravação e a pilha de cartas em que Akeley resumira suas conclusões.
No domingo no final da manhã, telegrafei a Akeley dizendo que o encontraria em
Brattleboro na quarta-feira seguinte, 12 de setembro, se essa data fosse conveniente para ele. Em
um único aspecto, deixei de lado suas sugestões, e isso dizia respeito à escolha de um trem.
Francamente, eu não queria chegar naquela região assombrada de Vermont tarde da noite; então,
em vez de aceitar o trem que ele escolheu, telefonei para a estação e planejei outra viagem. Ao
levantar cedo e pegar o trem das 8:07 em Boston, poderia pegar o das 9:25 para Greenfield;
chegando lá às 12h22. Tratava-se de um ótimo horário para que eu pegasse um trem que chegava a
Brattleboro às 13:08 – uma hora muito mais confortável para encontrar Akeley do que às 22h01, e
ir com ele até as colinas cerradas e secretamente guardadas.
Mencionei essa escolha em meu telegrama e fiquei feliz em saber, na resposta que me
chegou à noite, que ela trazia a anuência de meu futuro anfitrião. O texto era mais ou menos assim:
* * *
ORGANIZAÇÃO SATISFATÓRIA ENCONTRAREI UMA E OITO DA TARDE TREM
QUARTA-FEIRA NÃO ESQUECER GRAVAÇÃO E CARTAS E FOTOS MANTENHA
SILÊNCIO DO DESTINO ESPERAR GRANDES REVELAÇÕES

AKELEY
* * *
Receber esta mensagem em resposta direta a uma enviada a Akeley – e necessariamente
entregue em sua casa a partir da estação Townshend, fosse por um mensageiro oficial ou por um
serviço telefônico que fora consertado – removeu quaisquer dúvidas subconscientes que eu
pudesse ter sobre a autoria da desconcertante carta. Meu alívio estava marcado – na verdade, era
maior do que eu poderia perceber na época; já que todas essas dúvidas haviam sido
profundamente enterradas. Eu dormi profundamente naquela noite e estava ansioso e ocupado com
os preparativos para os dois dias seguintes.
Capítulo 6
Parti na quarta-feira no horário combinado, levando comigo uma valise repleta de objetos
pessoais e dados científicos, incluindo o hediondo registro fonográfico, as fotografias da Kodak e
todo o arquivo da correspondência com Akeley. Como havia me sido pedido, não dissera a
ninguém para onde estava indo; pois pude ver que o assunto exigia máxima privacidade, mesmo
antecipando suas mudanças mais favoráveis. O pensamento de um verdadeiro contato mental real
com alienígenas, entidades extraterrenas, já deixava estupefato o suficiente minha treinada e algo
preparada mente; assim, qual poderia ser o efeito sobre as vastas massas de pessoas leigas? Não
sei se o que mais me impactava era o medo ou a antecipação da aventura quando mudei de trem
em Boston e comecei a longa jornada a oeste, deixando regiões familiares para aquelas que eu
conhecia menos. Waltham—Concord—Ayer—Fitchburg—Gardner—Athol.
Meu trem chegou a Greenfield sete minutos atrasado, mas o expresso que fazia a conexão
ao norte ainda estava na estação. Mudei de trem rapidamente, e senti uma curiosa falta de ar
enquanto os vagões roncavam sob a luz do sol da tarde naqueles territórios sobre os quais eu
sempre lera, mas que jamais havia visitado. Eu sabia que estava entrando em uma Nova Inglaterra
completamente mais antiga e mais primitiva do que as áreas mecanizadas e urbanizadas da costa e
do sul, onde passei toda minha vida; uma Nova Inglaterra ancestral e imaculada, sem os
estrangeiros e as fábricas de fumaça, placas de madeira e estradas de concreto, nas áreas que a
modernidade tocou. Haveria estranhos sobreviventes daquela longa vida nativa cujas raízes
profundas fazem dela a autêntica consequência natural da paisagem – a contínua vida nativa que
mantém viva estranhas memórias antigas e fertiliza o solo de crenças obscuras, maravilhosas e
raramente mencionadas.
De vez em quando via o rio de Connecticut brilhando ao sol e, depois de deixar
Northfield, atravessamos o rio. À frente surgiam colinas verdes e enigmáticas, e quando o
condutor fez o contorno, soube que estava finalmente em Vermont. Ele me disse que atrasasse meu
relógio em uma hora, já que a região montanhosa do norte não adotada aquelas ideias modernas
como o horário de verão. Ao fazê-lo, pareceu-me que também estava voltando o calendário por
um século.
O trem passava próximo ao rio e, do outro lado de New Hampshire, conseguia ver o
declive se aproximando do íngreme Wantastiquet, sobre o qual se acumulam lendas antigas e
singulares. Então ruas apareceram à minha esquerda e uma ilha verde surgiu no riacho à minha
direita. As pessoas se levantaram e organizaram uma fila e eu as segui. O carro parou e eu desci
no longo barracão da estação de Brattleboro.
Olhando por cima da linha de carros que aguardavam, hesitei por um momento para ver
qual deles poderia ser o Ford de Akeley, mas minha identidade foi adivinhada antes que eu
pudesse tomar qualquer iniciativa. E, no entanto, claramente não era o próprio Akeley quem
avançou para me encontrar com a mão estendida e uma leve expressão de dúvida se eu era de fato
o sr. Albert N. Wilmarth, de Arkham. Este homem não tinha qualquer semelhança com o Akeley
barbado e grisalho da fotografia; mas uma pessoa mais jovem e mais urbana, vestida de forma
elegante e usando apenas um bigode pequeno e escuro. Sua fala culta continha uma estranha e
quase perturbadora insinuação de vaga familiaridade, embora eu não pudesse definitivamente
localizá-lo em minha memória.
Enquanto eu o examinava, explicou-se que era amigo de meu futuro anfitrião, e que viera
de Townshend em seu lugar. Akeley, afirmou, sofrera um ataque súbito de algum problema
asmático e não se sentia com saúde para fazer uma viagem ao ar livre. Não foi grave, no entanto, e
não havia qualquer alteração nos planos em relação à minha visita. Eu não conseguia adivinhar o
quanto esse Sr. Noyes – como ele próprio se anunciou – conhecia as pesquisas e descobertas de
Akeley, embora me parecesse que sua atitude casual me parecia qualifica-lo como alguém alheio
ao que se passava. Lembrando-me do isolamento em que Akeley havia se colocado, fiquei um
pouco surpreso com a disponibilidade imediata de tal amigo; mas não deixei que minha
perplexidade me impedisse de entrar no carro que ele me indicou. Não era o pequeno carro antigo
que eu esperava das descrições de Akeley, mas um modelo grande, novo e imaculado –
aparentemente do próprio Noyes, portando placas de Massachusetts com a divertida placa com a
imagem de um “bacalhau” daquele ano. Meu guia, concluí, deveria ser um turista de verão na
região de Townshend.
Noyes entrou ao meu lado no carro e partimos imediatamente. Fiquei contente por ele não
ser dado a conversas, pois uma curiosa tensão no ar me fazia sentir pouco inclinado a falar. A
cidade era muito agradável à luz do sol da tarde quando subimos uma ladeira e viramos à direita
para a rua principal. Sonolenta como as cidades mais antigas da Nova Inglaterra das quais nos
lembramos desde a infância, e algo na estética dos telhados e campanários e chaminés e paredes
de tijolos formava contornos que tocavam cordas profundas de emoção ancestral. Eu poderia dizer
que eu estava no portal de uma região meio encantada pelo acúmulo de várias eras ininterruptas;
uma região onde coisas antigas e estranhas tiveram a chance de crescer e se prolongar porque
jamais foram perturbadas.
Quando saímos de Brattleboro, minha sensação de premonição e inquietação aumentava,
pois aquelas vagas características da paisagem rural repleta de morros, com suas imensas
encostas ameaçadoras verdes e graníticas, sugeria segredos obscuros e imemoriais que poderiam
ou não ser hostis à humanidade. Durante algum tempo nosso caminho seguiu um largo, mas raso rio
que descia de desconhecidas colinas no norte, e tremi quando meu companheiro me disse que
aquele era o rio West. Havia sido neste riacho, como me lembrei dos artigos de jornal, que um dos
mórbidos seres de caranguejo havia sido visto flutuando após as inundações.
Gradualmente, o campo ao nosso redor ficou mais selvagem e mais deserto. Arcaicas
pontes demoravam-se no passado em bolsões de morros, e a via férrea semiabandonada, paralela
ao rio, parecia exalar um vago ar de desolação. Havia impressionantes paisagens de vales vívidos
onde se erguiam grandes penhascos, com o granito virgem da Nova Inglaterra se revelando
cinzento e austero através do verde que subia as pedras. Havia desfiladeiros onde corriam
indomáveis riachos, levando em direção ao rio os inimagináveis segredos de mil picos sem
trilhas. Afastando-se, eventualmente se viam estradas estreitas, meio ocultas, que abriam caminho
através de sólidas e luxuriantes massas de floresta, entre cujas árvores primais todo o exército de
espíritos elementais podia muito bem se esconder. Quando a vi, pensei em como Akeley havia
sido perturbado por agentes invisíveis em suas andanças ao longo dessa mesma rota, e não
imaginava que tais coisas pudessem acontecer.
A singular e pitoresca aldeia de Newfane, que alcançamos em menos de uma hora, era o
nosso último elo com o mundo que o homem poderia definitivamente chamar de seu, em virtude da
conquista e da completa colonização. Depois dali, rejeitamos toda lealdade a tudo que fosse
imediato, tangível e tocado pelo tempo, e entramos em um fantástico mundo de silenciosa
irrealidade, no qual a estrada estreita, tal qual uma fita, subia e descia e se curvava com um
capricho quase consciente e racional em meio à inutilidade dos picos verdes e de vales
semidesertos. Exceto pelo som do carro e pela leve agitação das poucas fazendas solitárias por
onde passávamos a intervalos infrequentes, a única coisa que chegava a meus ouvidos era o
gorgolejar insidioso de estranhas águas de incontáveis fontes ocultas nas florestas sombrias.
A proximidade e a intimidade com as arredondadas e até então distantes colinas agora me
tiravam o fôlego. Suas encostas íngremes e abruptas eram ainda maiores do que eu imaginara de
boatos e nada sugeria em comum com o mundo objetivo e prosaico que conhecemos. As densas
florestas selvagens daquelas encostas inacessíveis pareciam abrigar coisas estranhas e
inacreditáveis, e eu senti que os próprios contornos dos morros tinham algum significado estranho
e esquecido, como se fossem vastos hieróglifos deixados por uma raça titânica cujas glórias
sobreviviam apenas em sonhos raros e profundos. Todas as lendas do passado, e todas as
estonteantes conclusões das cartas e explicações de Henry Akeley, surgiram em minha memória
para intensificar a atmosfera de tensão e de crescente ameaça. O objetivo de minha visita e as
terríveis anormalidades que postulava me atingiram de imediato, com uma sensação de calafrio
que quase superou meu desejo por estranhas descobertas.
Meu guia deve ter notado minha inquietação; pois, à medida que a estrada se tornava mais
selvagem e mais irregular, e nosso movimento mais lento e sacolejante, seus agradáveis
comentários ocasionais expandiam-se em uma fala mais constante. Ele mencionou a beleza e as
peculiaridades da região, e revelou alguma familiaridade com os estudos folclóricos do meu
futuro anfitrião. De suas perguntas educadas, era óbvio que sabia que eu tinha vindo para um
propósito científico e que estava trazendo dados de alguma importância; mas não deu qualquer
sinal de apreciar a profundidade e o horror do conhecimento que Akeley finalmente alcançara.
Seus modos eram tão alegres, normais e urbanos que suas observações deveriam ter me
acalmado e me tranquilizado; mas, curiosamente, senti-me apenas mais perturbado quando
continuamos e nos viramos em direção ao desconhecido deserto de colinas e bosques. Às vezes
ele parecia querer descobrir se eu conhecia os monstruosos segredos do lugar e, a cada momento
aquela familiaridade vaga, provocante e desconcertante de sua aumentava. Não era uma
familiaridade normal ou saudável, apesar da natureza inteiramente alegra e culta da voz. De
alguma forma, eu a relacionei a pesadelos esquecidos, e senti que poderia enlouquecer se a
reconhecesse. Se conseguisse alguma boa desculpa, acho que teria desistido da minha visita. Da
maneira como tudo ocorreu, já não mais podia fazê-lo – e me ocorreu que uma conversa
interessante e científica com o próprio Akeley depois da minha chegada seria muito útil para eu
me recompor.
Além disso, havia um elemento estranhamente apaziguador de beleza cósmica na hipnótica
paisagem através da qual subíamos e mergulhávamos fantasticamente. O tempo havia se perdido
nos labirintos que deixávamos, e ao nosso redor se estendiam apenas as ondas floridas das fadas e
a beleza recuperada dos séculos desaparecidos – os bosques primitivos, as pastagens imaculadas
cercadas de alegres flores outonais e, a imensos intervalos, as pequenas fazendas baças aninhadas
em meio a enormes árvores sobre precipícios verticais de grama e capim perfumados. Até a luz
do sol assumia um glamour sobrenatural, como se alguma atmosfera ou clima especial
envolvessem toda a região. Eu não tinha visto nada de semelhante antes, salvo nos cenários
mágicos que às vezes formam os segundos planos dos primeiros italianos. Sodoma e Leonardo
conceberam tais paisagens, mas apenas à distância e por meio das abóbadas de arcadas
Renascentistas. Estávamos agora penetrando no interior do quadro, e eu parecia encontrar em sua
necromancia algo que já conhecia ou herdara inatamente e pela qual sempre estivera procurando
em vão.
De repente, depois de contornar um ângulo fechado no topo de uma subida acentuada, o
carro parou. À minha esquerda, do outro lado de um gramado bem cuidado que se estendia até a
estrada e ostentava uma faixa de pedras caiadas, havia uma casa branca de dois andares e sótão,
de tamanho e elegância incomuns para a região, com um conjunto de celeiros, galpões e moinhos
contíguos ou ligados por arcadas, atrás e à direita. Reconheci imediatamente a fotografia que
recebera e não fiquei surpreso ao ver o nome de Henry Akeley na caixa de correio de ferro
galvanizado perto da estrada. Por alguma distância, atrás da casa, havia um trecho plano de terras
pantanosas e pouco arborizadas, além do qual se elevava uma encosta íngreme e densamente
arborizada, terminando em um cume repleto de folhas. Este último, eu sabia, era o cume da
Montanha Negra, do qual já deveríamos ter escalado a metade.
Descendo do carro e pegando minha valise, Noyes me pediu para esperar enquanto ele
entrava e avisava Akeley de minha chegada. Ele mesmo, completou, tinha negócios importantes
em outros lugares e não podia ficar senão por um momento. Quando subiu rapidamente o caminho
para a casa, eu mesmo saí do carro, desejando esticar as pernas um pouco antes de me estabelecer
em uma conversa sedentária. Meu sentimento de nervosismo e tensão retornou novamente ao
máximo, agora que eu estava na cena real da mórbida situação descrita tão assustadoramente nas
cartas de Akeley, e sinceramente temia as próximas discussões que me ligariam a mundos tão
estranhos e proibidos.
O contato íntimo com o completamente bizarro é muitas vezes mais aterrorizante do que
inspirador, e não me encorajava pensar que aquele pedacinho empoeirado era o lugar onde
aqueles rastros monstruosos e aquele icor verde fétido tinham sido encontrados após aquelas
noites sem lua de medo e morte. De repente notei que nenhum dos cães de Akeley parecia estar
por perto. Teria ele vendido todos assim que os Seres de Longe fizessem as pazes? Por mais que
tentasse, não podia ter a mesma confiança na profundidade e sinceridade daquela paz que aparecia
na carta final e estranhamente diferente de Akeley. Afinal, ele era um homem de muita
simplicidade e com pouca experiência mundana. Não haveria, talvez, alguma profunda e sinistra
contracorrente sob a superfície desta nova aliança?
Orientado por meus pensamentos, meus olhos se voltaram para baixo, para a superfície da
estrada empoeirada, que continha os testemunhos medonhos. Os últimos dias haviam sido secos, e
rastros de todos os tipos ocupavam a estrada esburacada e irregular, apesar da natureza pouco
frequentada do local. Com uma vaga curiosidade, comecei a traçar o contorno de algumas das
impressões heterogêneas, tentando, porém, refrear arroubos de fantasia macabra que o lugar e suas
memórias sugeriam. Havia algo de ameaçador e desconfortável na quietude fúnebre, na afogada e
sutil trama de riachos distantes, nos picos verdes e nos precipícios de bosques negros que
sufocavam o estreito horizonte.
E então uma imagem explodiu em minha consciência, o que fez com que aquelas vagas
ameaças e arroubos fantasiosos parecessem suaves e insignificantes. Disse que estava examinando
os diversos vestígios na estrada com uma espécie de curiosidade ociosa – mas, de repente, a
curiosidade foi brutalmente apagada por uma súbita e paralisante onda de verdadeiro terror. Pois
embora as trilhas de poeira fossem em geral confusas e sobrepostas, e dificilmente se destacassem
sob qualquer olhar casual, minha visão inquieta tinha captado certos detalhes próximos ao local
onde o caminho para a casa se juntava à estrada; e tinha reconhecido além de qualquer dúvida ou
esperança o significado assustador daqueles detalhes. Afinal e, infelizmente, havia me
concentrado durante horas sobre as imagens da Kodak sobre as pegadas das garras dos Seres de
Longe, que Akeley havia enviado. Muito bem conhecia as marcas daquelas garras repugnantes, e
essa a incerteza de sua direção marcava os horrores como nenhuma criatura deste planeta. Não
havia qualquer chance de eu ter cometido um erro misericordioso. De fato ali estavam, de forma
bastante objetiva e diante dos meus próprios olhos, e certamente de não muitas horas atrás, pelo
menos três marcas que se destacavam de maneira blasfema entre a surpreendente pletora de
pegadas embaçadas que levavam à casa de fazenda de Akeley. Eram os vestígios infernais dos
fungos vivos de Yuggoth.
Eu me recompus a tempo de sufocar um grito. Afinal, o que mais estaria lá do que eu
poderia esperar, assumindo que realmente tivesse acredita nas cartas de Akeley? Ele havia falado
em fazer as pazes com aquelas coisas. Por que, então, parecia estranho que alguns deles tivessem
visitado sua casa? Mas o terror era mais forte que a tranquilidade. Seria razoável esperar que
qualquer pessoa permanecesse impassível pela primeira vez diante das marcas de garra de seres
das profundezas do espaço? Só então vi Noyes sair da porta e se aproximar com passos rápidos.
Devo manter o controle de mim mesmo, pensei, pois as chances eram de que esse solícito amigo
nada soubesse sobre as mais profundas e estupendas investigações de Akeley no proibido.
Akeley, como Noyes se apressou em me informar, ficou feliz e estava pronto para me ver;
embora seu súbito ataque de asma pudesse impedi-lo de ser um anfitrião muito competente por um
dia ou dois. Essas crises o atingiam com força quando chegavam e sempre eram acompanhados
por uma febre debilitante e fraqueza geral. Enquanto a doença persistia, era debilitante – tinha que
falar em sussurros, e ficava muito desajeitado e fraco ao se locomover. Seus pés e tornozelos
também inchavam, de modo que tinha que enfaixá-los como um velho glutão. Hoje estava em
péssimo estado, de modo que eu teria que teria de ser o responsável por atender muito em grande
parte às minhas próprias necessidades; mas ele estava, no entanto, ansioso por conversas. Eu o
encontraria no escritório à esquerda do salão da frente – a sala onde as persianas estavam
fechadas. Ele precisava se afastar da luz do sol quando estava doente, pois seus olhos eram muito
sensíveis.
Quando Noyes me deu adeus e partiu para o norte em seu carro, comecei a caminhar
lentamente em direção à casa. A porta estava entreaberta para mim; mas antes de me aproximar e
entrar, lancei um olhar penetrante por todo o lugar, tentando decidir o que me parecera tão
bizarramente estranho. Os galpões e paióis pareciam bastante prosaicos, e notei o velho Ford de
Akeley em sua espaçosa e desprotegida garagem. Então o segredo do estranhamento me atingiu.
Foi o silêncio total. Normalmente uma fazenda é pelo menos moderadamente murmurante de seus
vários tipos de gado, mas aqui estavam ausentes todos os sinais de vida. E as galinhas e os cães?
As vacas, das quais Akeley dissera possuir várias, poderiam estar no pasto e os cães poderiam ter
sido vendidos; mas a ausência de qualquer traço de cacarejos ou grunhidos era verdadeiramente
singular.
Não parei por muito tempo no caminho, entrei decididamente pela porta aberta e fechei-a
atrás de mim. Uma ação que me custara um real esforço psicológico e, agora que estava fechada,
sentia um desejo momentâneo de rapidamente recuar. Não que o lugar fosse mais sinistro que
visualmente sugeria; pelo contrário, achei a graciosa sala do final do período colonial muito
confortável e aconchegante, e admirei o evidente bom gosto de quem o havia decorado. O que me
fez desejar fugir era algo muito tênue e indefinível. Talvez tenha sido certo odor estranho que
julguei ter sentido – embora soubesse bem como odores de mofo são comuns até mesmo nas mais
bem cuidadas fazendas antigas.
Capítulo 7
Recusando-me a deixar que esses medos nebulosos me dominassem, lembrei-me das
instruções de Noyes e abri a porta branca de seis painéis de latão à minha esquerda. A sala
contígua estava escura como eu já sabia; quando entrei percebi que o estranho odor era mais forte
ali. Parecia haver também algum ritmo ou vibração meio imaginária e débil no ar. Por um
momento, as persianas fechadas não me permitiam ver muito, mas então uma espécie de som
calmante ou sussurrante chamou minha atenção para uma grande poltrona no canto mais escuro da
sala. Dentro de suas profundezas sombrias, vi o borrão branco do rosto e das mãos de um homem;
e por um instante me dirigi para saudar a figura que tentava falar. Embora a luz fosse fraca,
percebi que esse era de fato meu anfitrião. Por várias e várias vezes eu investigara a foto da
Kodak, e não havia qualquer erro sobre esse rosto firme e castigado pelo tempo com a barba
cortada e grisalha.
Mas quando olhei de novo, meu reconhecimento se mesclou a tristeza e ansiedade;
certamente, seu rosto era o de um homem muito doente. Senti que havia algo mais do que asma por
detrás daquela expressão tensa, rígida e imóvel e do olhar vítreo e impassível; e percebi o quão
terrivelmente a tensão de suas terríveis experiências deveria ter custado. Não seria suficiente para
quebrar qualquer ser humano – mesmo um homem mais jovem que esse intrépido explorador do
proibido? O estranho e súbito alívio, eu temia, chegara tarde demais para salvá-lo de algo como
um colapso geral. Houve um toque de lamentável no modo inerte e sem vida que suas mãos magras
descansavam em seu colo. Ele usava um roupão solto e o alto de sua cabeça e pescoço estavam
cobertos com um lenço ou capuz amarelo vivo.
E então eu vi que ele estava tentando falar no mesmo sussurro com que me cumprimentou.
Foi um sussurro difícil de entender a princípio, já que o bigode cinza ocultava todos os
movimentos dos lábios, e algo em seu timbre me perturbou; mas, concentrando minha atenção,
logo percebi o significado surpreendentemente bom. O sotaque não era de modo algum rústico, e a
linguagem era ainda mais polida do que a correspondência me levara a esperar.
“Sr. Wilmarth, eu presumo? Você deve me perdoar por não ter te esperado na estação.
Estou muito doente, como o Sr. Noyes deve ter lhe dito, mas não pude deixar de desejar que você
viesse, de qualquer forma. Você sabe o que escrevi na minha última carta. Há tanta coisa para lhe
dizer amanhã, quando me sentirei melhor. Não posso dizer o quanto estou feliz em vê-lo
pessoalmente, depois de todas as nossas cartas. Você tem o arquivo com você, certo? As
fotografias da Kodak e os registros? Noyes colocou sua valise no corredor – suponho que você a
viu. Temo que durante esta noite você tenha que cuidar de si mesmo. Seu quarto é no andar de
cima – o que está bem acima deste – e você verá o banheiro aberto na cabeceira da escada. Há
uma refeição preparada esperando por você na sala de jantar – logo através desta porta à sua
direita – que você pode comer quando quiser. Serei um melhor anfitrião amanhã – mas por agora a
fraqueza me deixa desamparado.”
“Sinta-se em casa – você pode colocar as cartas, fotos e gravação e colocá-los na mesa
antes de subir com sua bolsa. É aqui que vamos discuti-los – você pode ver meu fonógrafo
naquela mesinha.”
“Não, obrigado – não há nada que você possa fazer por mim. Eu conheço essas velhas
doenças. Apenas volte para uma tranquila visitinha antes de anoitecer, e então vá para a cama
quando desejar. Eu vou descansar aqui – talvez dormir aqui a noite toda, como sempre faço. De
manhã, vou ser muito mais capaz de conversar sobre o que devemos discutir. Você percebe, é
claro, a natureza absolutamente estupenda do assunto diante de nós. Para nós, assim como para
poucos homens nesta terra, serão abertos os abismos de tempo e espaço e conhecimento além de
qualquer coisa dentro da concepção de ciência humana ou filosofia”.
“Você sabia que Einstein está errado, e que certos objetos e forças podem se mover com
uma velocidade maior que a da luz? Com a devida ajuda eu espero voltar e avançar no tempo, e
realmente ver e sentir a terra do passado remoto, além de épocas futuras. Você não pode imaginar
o grau de coisas que esses seres conseguem fazer com a ciência. Não há nada que eles possam
fazer com a mente e o corpo dos organismos vivos. Eu espero visitar outros planetas, e até mesmo
outras estrelas e galáxias. A primeira viagem será para Yuggoth, o mundo mais próximo totalmente
povoado pelos seres. Está em uma estranha e obscura órbita na própria fronteira do nosso sistema
solar – desconhecida ainda para os astrônomos terrestres. Mas eu devo ter te escrito sobre isso.
No momento certo, você sabe, os seres dirigem correntes de pensamento para nós e fazem com
que algo seja descoberto – ou às vezes permitem que um de seus aliados humanos dê uma dica aos
cientistas”.
“Há poderosas cidades em Yuggoth – grandes fileiras de torres construídas em terra de
pedra negra como aquela que tentei enviar a você. Aquela pedra veio de Yuggoth. A luz do sol não
é mais brilhante do que a de uma estrela, mas os seres não precisam de luz. Eles têm outros
sentidos mais sutis, e não possuem janelas em suas grandes casas e templos. A luz é inclusive
dolorida para eles, é problemática e os confunde, pois não existe no cosmo negro fora do tempo e
do espaço de onde vieram originalmente. Visitar Yuggoth enlouqueceria qualquer homem mais
frágil – mas eu vou para lá. Os rios negros de piche que fluem sob aquelas misteriosas pontes
ciclópicas – coisas construídas por alguma antiga raça extinta e esquecida antes dos seres
chegarem a Yuggoth desde os últimos vazios – devem ser o suficiente para tornar qualquer homem
um Dante ou Poe se ele conseguir se manter são o suficiente para narrar o que viu.”
“Mas lembre-se – esse mundo sombrio de jardins fungoides e cidades sem janelas não é
realmente terrível. Parece ser assim apenas para nós. Provavelmente este mundo também parecia
terrível para os seres quando o exploraram em épocas antigas. Você sabe que eles estavam aqui
muito antes que se encerrasse a fabulosa época de Cthulhu, e lembre-se de tudo sobre o
submergido R’lyeh quando estava acima das águas Eles também estiveram dentro da terra –
existem aberturas sobre as quais os seres humanos nada sabem – algumas nessas colinas de
Vermont – e grandes mundos de vida desconhecida lá embaixo; K’n-yan de luzes azuis, Yoth de
vermelho-vivo, e Nkai, escura e sem luz. É de N’kai o assustador Tsathoggua – você sabe, a
amorfa criatura divina, semelhante a um sapo, mencionada nos Manuscritos Pnakóticos e no
Necronomicon além do ciclo mitológico de Commoriom, preservado pelo sumo sacerdote de
Atlântida, Klarkash-Ton.
“Mas vamos falar disso tudo mais tarde. Já devem ser quatro ou cinco horas. Melhor trazer
as coisas da sua valise, comer alguma coisa, e depois voltar para uma conversa amigável”.
Muito lentamente me virei e comecei a obedecer ao meu anfitrião; pegando minha valise,
tirando e colocando sobre a mesa os artigos desejados, e finalmente subindo para o quarto que me
foi reservado. Com a lembrança daquela garra à beira da estrada, ainda fresca em minha mente, a
fala sussurrada de Akeley havia me afetado de uma maneira estranha; e os indícios de
familiaridade com esse mundo desconhecido de vida fúngica – a proibida Yuggoth – fez minha
carne tremer mais do que eu gostaria. Lamentava profundamente a doença de Akeley, mas tive que
confessar que seu sussurro rouco tinha uma qualidade odiosa e lamentável. Se ele não
mencionasse tanto Yuggoth e seus obscuros segredos!
Meu quarto era muito agradável e bem mobiliado, desprovido tanto do odor de mofo
quanto da perturbadora sensação de vibração; e depois de deixar minha valise, desci novamente
para cumprimentar Akeley e almoçar o que ele deixara preparado para mim. A sala de jantar
ficava logo depois do escritório e vi que uma cozinha se estendia ainda mais na mesma direção.
Na mesa de jantar, uma ampla gama de sanduíches, bolos e queijos me aguardava, e uma garrafa
térmica ao lado de uma xícara e pires testemunhava que o café quente não havia sido esquecido.
Depois de uma refeição bem saboreada, me servi de uma generosa xícara de café, mas descobri
que o padrão culinário havia sofrido um lapso nesse detalhe. Minha primeira colherada revelou
um sabor amargo fracamente desagradável, de modo que não tomei mais. Durante todo o almoço,
pensei em Akeley sentado em silêncio na grande poltrona da sala escura ao lado.
Dado momento foi pedir para que compartilhasse a refeição, mas ele sussurrou que não
podia comer nada ainda. Mais tarde, pouco antes de dormir, tomaria leite com malte – tudo o que
comeria naquele dia.
Depois do almoço, insisti em limpar os pratos e lavá-los na pia da cozinha – aproveitando,
aliás, para lançar fora o café que não consegui beber. Então, retornando ao estúdio escuro,
aproximei uma cadeira de meu anfitrião e me preparei para a conversa, que ele poderia se sentir
inclinado a iniciar. As cartas, as fotos e os registros ainda estavam na grande mesa, mas não
tivemos que recorrer a eles. Em pouco tempo, esqueci até o odor bizarro e as curiosas sensações
de vibração.
Eu disse que havia coisas em algumas das cartas de Akeley – especialmente a segunda e
mais longa – que eu não ousaria citar ou mesmo formar em palavras no papel. Essa hesitação se
aplica com força ainda maior às coisas que ouvi naquela noite, naquela sala escura entre as
colinas solitárias. Da extensão dos horrores cósmicos revelados por aquela voz estridente não
posso sequer sugerir. Ele já havia conhecido coisas hediondas, mas o que aprendeu desde o pacto
com os Seres de Longe era quase demais para que a sanidade pudesse suportar. Mesmo agora, eu
absolutamente me recusei a acreditar no que insinuou sobre a constituição do infinito final, a
justaposição de dimensões e a posição assustadora de nosso conhecido cosmos de espaço e tempo
na interminável cadeia de átomos-cosmos interligados que constitui o imediato super-cosmos de
curvas, ângulos e organização eletrônica material e semi-material.
Jamais foi um homem são ficou tão perigosamente próximo dos arcanos da entidade básica
– nunca um cérebro orgânico esteve tão próximo da aniquilação total no caos que transcende
forma e força e simetria. Aprendi de onde veio originalmente Cthulhu e por que metade das
grandes estrelas temporárias da história havia surgido. Imaginei – a partir de indícios que fizeram
mesmo meu informante timidamente pausar – o segredo por detrás das Nuvens de Magalhães e das
nebulosas globulares, e a obscura verdade velada pela imemorial alegoria do Tao. A natureza dos
Doel me foi claramente revelada, e me foi contada a essência (embora não a fonte) dos Cães de
Tíndalos. A lenda de Yig, o Pai das Serpentes, não mais apenas figurativa, e eu senti repugnância
quando descobri sobre o monstruoso caos nuclear além da curva do espaço que o Necronomicon
havia misericordiosamente encoberto sob o nome de Azathoth. Foi chocante ter os piores
pesadelos dos mitos secretos esclarecidos em termos concretos, cujo mórbido ódio excedia as
insinuações mais ousadas dos místicos antigos e medievais. Inelutavelmente, fui levado a
acreditar que os primeiros sussurros sobre esses malditos contos deviam ter tido contatos com os
Seres de Longe de Akeley, e talvez tenham visitado os reinos cósmicos exteriores, pois Akeley
agora propunha visitá-los.
Fui informado da Pedra Negra e do que ela implicava, e fiquei feliz por não tê-la
recebido. Meus palpites sobre aqueles hieróglifos estavam por demais corretos! E, no entanto,
Akeley agora parecia reconciliado com todo o diabólico sistema que ele havia descoberto;
reconciliado e ansioso para investigar mais profundamente o monstruoso abismo. Eu me
perguntava com que seres ele tinha falado desde que me enviara sua última carta, e se muitos deles
tinham sido tão humanos quanto o primeiro emissário que ele mencionou. A tensão em minha
cabeça se tornava insuportável, e construí todo tipo de loucas teorias sobre aquele odor estranho e
persistente e aquelas insidiosas insinuações de vibração na sala escura.
A noite agora caía; e quando me lembrei do que Akeley havia me escrito sobre as noites
anteriores, estremeci ao pensar que não haveria lua. Também não gostei da maneira como a casa
da fazenda se aninhava na base daquele colossal declive arborizado que levava ao desconhecido
cume da Montanha Negra. Com a permissão de Akeley, acendi uma pequena lamparina a óleo,
abaixei-a e coloquei-a numa estante distante ao lado do fantasmagórico busto de Milton; mas logo
lamentei tê-lo feito, porque fazia o rosto tenso e imóvel do meu anfitrião e suas mãos indiferentes
parecerem anormalmente anormais e semelhantes à de cadáveres. Ele parecia meio incapaz de se
mover, embora de vez em quando eu o visse acenar rigidamente com a cabeça.
Depois do que ele dissera, eu mal podia imaginar quais segredos mais profundos ele
guardava para o dia seguinte; mas finalmente concordamos que sua viagem a Yuggoth e além – e
minha possível participação – seria o tema do dia seguinte. Ele deve ter se divertido com o início
do horror que transpareci ao ouvir sobre a proposta de uma viagem cósmica, pois sua cabeça
balançou violentamente quando mostrei meu medo. Posteriormente, falou muito gentilmente sobre
como os seres humanos poderiam realizar – e várias vezes haviam conseguido – o voo
aparentemente impossível através do vazio interestelar. Aparentemente, corpos humanos
completos de fato não faziam a viagem, mas que a prodigiosa habilidade cirúrgica, biológica,
química e mecânica dos Seres de Longe havia encontrado uma maneira de transmitir os cérebros
humanos sem sua concomitante estrutura física.
Havia uma maneira inofensiva de extrair um cérebro, e uma maneira de manter vivo o
resíduo orgânico durante sua ausência. A matéria cerebral compacta e nua era então imersa em um
fluido ocasionalmente reabastecido dentro de um cilindro de certo metal minerado em Yuggoth,
com eletrodos alcançando e se conectando a instrumentos específicos, capazes de duplicar as três
faculdades vitais da visão, audição, e fala. Para os seres fúngicos alados, carregar os cilindros-
cerebrais intactos através do espaço era uma tarefa fácil. Assim, em todo planeta alcançado por
sua civilização, eles encontrariam muitos instrumentos ajustáveis capazes de se conectar aos
cérebros encapsulados; de modo que, após um pequeno encaixe, essas inteligências itinerantes
poderiam receber uma completa vida sensorial e articulada – ainda que incorpórea e mecânica –
em cada estágio de sua jornada através e além do contínuo espaço-temporal. Era tão simples
quanto carregar um disco fonográfico e tocá-lo onde quer que houvesse um fonógrafo adequado.
De seu sucesso não poderia haver dúvida. Akeley não estava com medo. Não era algo que já havia
sido realizado repetidas vezes?
Pela primeira vez, uma das mãos inertes e sem vida se levantou e apontou rigidamente
para uma prateleira alta no lado mais distante da sala. Lá, organizada em uma fileira, havia mais
de uma dúzia de cilindros de metal que eu nunca vira antes – cilindros com cerca de 30
centímetros de altura e um pouco menos de diâmetro, com três órbitas curiosas em um triângulo
isósceles na superfície convexa frontal de cada um. Um estava ligado em duas das órbitas a um
par de máquinas de aparência singular que ficava ao fundo. De seu significado, não precisei que
me dissesse, e estremeci. Então vi a mão apontar para um canto muito mais próximo, onde alguns
intrincados instrumentos com cabos e plugues, muitos deles semelhante aos dois aparelhos na
estante atrás dos cilindros, estavam reunidos.
“Existem quatro tipos de instrumentos aqui, Wilmarth”, sussurrou a voz. “Quatro tipos –
três faculdades cada um – fazem doze peças ao todo. Você vê que existem quatro tipos diferentes
de seres representados nesses cilindros lá em cima. Três seres humanos, seis seres fúngicos que
não podem navegar de forma corpórea pelo espaço, dois seres de Netuno (Deus! se você pudesse
ver o corpo que esse tipo de ser tem em seu próprio planeta!), e outras entidades das cavernas
centrais de uma particularmente interessante estrela escura além da galáxia. No principal posto
avançado de Round Hill você encontrará mais e mais cilindros e máquinas – cilindros de cérebros
extra-cósmicos com diferentes sentidos para além do que conhecemos – aliados e exploradores do
espaço sideral – e máquinas especiais que lhes fornecem impressões e expressões nos vários
modos adequados a eles e ao entendimento de diferentes ouvintes. Round Hill, como a maioria
dos principais entrepostos através dos vários universos, é um lugar muito cosmopolita. É claro,
apenas os tipos mais comuns me foram emprestados para que fizesse experimentos”.
“Aqui – pegue aquelas três máquinas e as coloque na mesa. Aquela alta com as duas lentes
de vidro na frente – então a caixa com os tubos de vácuo e a caixa de ressonância – e agora aquela
com o disco de metal no topo. Agora, o cilindro com o rótulo ‘B-67’ colado nele. Suba nessa
cadeira Windsor para alcançar a prateleira. Pesado? Não importa! Certifique-se do número – B-
67. Apenas não mexa naquele cilindro brilhante juntou aos dois instrumentos de teste – aquele com
o meu nome nele. Coloque o B-67 na mesa perto de onde você colocou as máquinas – e veja que o
interruptor de discagem nas três máquinas está preso na extremidade esquerda.”
“Agora conecte o cabo da máquina da lente com o soquete superior do cilindro - ali! Junte
a máquina do tubo ao soquete inferior esquerdo e o aparato em disco ao soquete externo. Agora,
mova todos os seletores de discagem na máquina para a extrema direita – primeiro a lente um,
depois o disco um, e depois o tubo um. Isso mesmo. Eu posso lhe dizer que isso é um ser humano -
como qualquer um de nós. Amanhã te dou exemplo de outros”.
Até hoje não sei por que obedeci tão servilmente àqueles sussurros, ou se questionava se
Akeley estava louco ou são. Depois do que havia acontecido, eu deveria estar preparado para
qualquer coisa; mas essa brincadeira mecânica parecia tão típica dos caprichos de inventores e
cientistas malucos que me surgiu uma dúvida que até mesmo o discurso anterior não havia
despertado. O que os sussurros sugeriam estavam além de toda crença humana – no entanto, não
existiam outras coisas mais além e menos absurdas apenas pela distância de qualquer prova
concreta tangível?
Enquanto minha mente cambaleava em meio a esse caos, tornei-me consciente de um
rangido e um zumbido que partiam das três máquinas que tinham acabadas de ser ligadas ao
cilindro – um rangido e um zunido que logo se transformaram em um virtual silêncio. O que estava
prestes a acontecer? Eu deveria ouvir uma voz? E, em caso afirmativo, que prova eu teria de que
não seria um dispositivo de rádio habilmente inventado à disposição de um falante oculto, mas
que nos acompanhava em algum lugar próximo? Mesmo agora não estou disposto a jurar
exatamente o que ouvi, ou qual o real fenômeno que ocorreu diante de mim. Mas algo certamente
parecia acontecer.
Para ser breve e simples, a máquina com os tubos e a caixa de som começaram a falar, e
com argumentos e inteligência que não deixavam dúvidas de que o orador estava realmente
presente e nos observando. A voz era alta, metálica, sem vida e claramente mecânica em todos os
detalhes de sua produção. Era incapaz de inflexão ou expressividade, mas com chiados e
arranhados, com uma precisão e deliberação mortais.
“Sr. Wilmarth”, dizia, “espero não assustá-lo. Sou um ser humano como você, embora meu
corpo esteja agora descansando em segurança sob o tratamento de vitalização dentro de Round
Hill, a cerca de dois quilômetros e meio daqui. Eu mesmo estou aqui com você – meu cérebro está
nesse cilindro e eu vejo, ouço, e falo por meio desses vibradores eletrônicos. Em uma semana
estarei atravessando o vazio como já o fiz tantas outras antes, e espero ter o prazer da companhia
do Sr. Akeley. Gostaria de ter sua companhia também, pois o conheço de vista e por reputação, e
acompanhei de perto sua correspondência com o nosso amigo. Obviamente, sou um dos homens
que se tornaram aliados dos seres extraterrestres que visitam o nosso planeta. Eu os encontrei
inicialmente no Himalaia e os ajudei de várias maneiras. Em troca eles me proporcionaram
experiências como poucos homens já tiveram.”
“Você percebe o que significa dizer que eu estive em trinta e sete corpos celestes
diferentes – planetas, estrelas negras e objetos menos definidos – incluindo oito fora de nossa
galáxia e dois fora da curva cósmica do espaço e do tempo? E nada disso me prejudicou nem um
pouco. Meu cérebro foi removido do meu corpo por fissões tão hábeis que seria grosseiro chamar
a operação de cirúrgica. Estes seres visitantes têm métodos que tornam essas extrações fáceis e
quase banais – e o corpo nunca envelhece quando o cérebro está fora dele. O cérebro, devo
acrescentar, é virtualmente imortal com suas faculdades mecânicas e um específico alimento
mediante trocas ocasionais com o fluido de preservação”.
“Enfim, espero que você se decida em partir com o Sr. Akeley e comigo. Os visitantes
estão ansiosos para conhecer homens de seu conhecimento e revelar os grandes abismos que a
maioria de nós apenas sonhou em fantasias. Inicialmente, conhecê-los pode parecer estranho, mas
sei que você estará acima disso. Acredito que o Sr. Noyes irá também conosco – o homem que,
sem dúvida, o trouxe até aqui em seu carro. Ele tem sido um de nós há anos – suponho você ter
reconhecido a voz como uma das que o Sr. Akeley enviou a você”.
Após meu violento sobressalto, o orador fez uma pausa antes de concluir. “Então, Sr.
Wilmarth, vou deixar o assunto em suas mãos, apenas acrescentando que um homem com seu amor
pelo estranho e pelo folclore jamais deveria perder uma chance como esta. Não há nada a temer.
Todas as transições são indolores; e há muito para desfrutar em um estado totalmente mecanizado
de sensações. Quando os eletrodos são desconectados, cai-se em um sono de sonhos
especialmente vívidos e fantásticos”.
“E agora, se você não se importar, poderemos adiar nossa sessão até amanhã. Boa noite –
basta desligar todos os botões de volta para a esquerda; não importa a ordem exata, embora você
possa deixar por último a máquina com a lente. Sr. Akeley, trate bem o nosso hóspede! Pronto com
esses interruptores?”
Isso foi tudo. Obedeci mecanicamente e desliguei os três interruptores, embora atordoado
com a dúvida em relação a tudo o que ocorrera. Minha cabeça ainda estava se recuperando
quando ouvi a voz sussurrante de Akeley me dizia que eu poderia deixar todo o aparato sobre a
mesa exatamente como estava. Ele não fez nenhum comentário sobre o que havia acontecido, e de
fato nenhum comentário poderia ter sido captado pelas minhas faculdades sobrecarregadas. Eu o
ouvi dizendo que eu poderia pegar a lâmpada para usar em meu quarto, e deduzi que queria
descansar sozinho no escuro. Certamente era hora de descansar, pois sua explicação desde a tarde
até à noite sem dúvida iria exaurir até mesmo um homem vigoroso. Ainda atordoado, dei boa noite
a meu anfitrião e subi com a lâmpada, embora tivesse uma excelente lanterna de bolso comigo.
Fiquei feliz por sair daquele escritório do andar inferior, com seu estranho odor e as vagas
sugestões de vibração; mas não havia conseguido, é claro, escapar a um horrendo sentimento de
pavor e perigo e anormalidade cósmica enquanto pensava no lugar em que estava e nas forças em
que iria encontrar. A região selvagem e solitária, a encosta negra, misteriosamente arborizada, tão
alta atrás da casa; as pegadas na estrada, o homem doente, o sussurro imóvel no escuro, os
cilindros e as máquinas infernais e, acima de tudo, os convites para estranhas cirurgias e estranhas
viagens – essas coisas, todas tão novas e em sucessão súbita, invadiram-me com uma força
cumulativa que minou minhas vontades e quase minou minha força física.
Descobrir que meu guia Noyes era o celebrante humano naquele monstruoso ritual do Sabá
no disco fonográfico foi um choque particular, embora eu já tivesse percebido uma familiaridade
obscura e repulsiva em sua voz. Outro choque especial veio da minha atitude em relação ao meu
anfitrião, sempre que parei para analisá-lo; por mais que eu instintivamente gostasse do Akeley
como aparecia em sua correspondência, descobri agora que ele me deixou repleto de uma distinta
repulsa. Sua doença deveria ter excitado minha piedade; mas em vez disso, me dava uma espécie
de calafrio. Ele era tão rígido, inerte e cadavérico – e aquele sussurro incessante era tão odioso e
inumano!
Ocorreu-me que esse sussurro era diferente de qualquer outra coisa semelhante que eu já
ouvira; que, apesar da curiosa ausência de movimentos da boca barbada do locutor, havia uma
força latente e um poder de atração notável para ser o chiado de um asmático. Eu havia sido capaz
de entender o que ele falava mesmo quando completamente do outro lado da sala, e uma ou duas
vezes me pareceu que os sons fracos, mas penetrantes representavam não tanto fraqueza quanto
deliberada repressão – por uma razão qualquer que eu não conseguia supor. Desde o começo senti
uma perturbadora qualidade em seu timbre. Agora, quando tentava pensar sobre o assunto, achei
que poderia traçar essa impressão para uma espécie de familiaridade subconsciente como o que
tornara a voz de Noyes tão sinistramente ameaçadora. Mas quando ou onde eu encontrei a ligação
entre ambos, era mais do que eu poderia dizer.
Uma coisa era certa – eu não passaria outra noite aqui. Meu zelo científico havia
desaparecido em meio ao medo e à aversão, e não sentia nada além de um desejo de escapar
dessa rede de morbidade e revelação antinaturais. Eu sabia o suficiente agora. Devia, de fato, ser
verdade que estranhas ligações cósmicas existissem – mas tais coisas certamente não são feitas
para que seres humanos normais se intrometam.
Influências blasfemas pareciam me cercar e pressionar asperamente em meus sentidos. O
sono, concluí, estaria fora de questão; então eu simplesmente apaguei a lâmpada e me joguei na
cama completamente vestido. Sem dúvida era absurdo, mas continuei pronto para qualquer
emergência desconhecida; segurava na minha mão direita o revólver que trouxera, mantendo a
lanterna de bolso à minha esquerda. Nenhum som veio do andar de baixo, e eu podia imaginar
como meu anfitrião ali permanecia sentado, no escuro, com sua rigidez cadavérica.
De algum lugar ouvi um tique-taque e fiquei vagamente grato pela normalidade do som.
Isso me lembrou, porém, de outra coisa que me perturbou na região – a total ausência de vida
animal. Certamente não havia animais na fazenda, e agora percebi que até mesmo inexistiam os
costumeiros barulhos noturnos de seres vivos selvagens. Exceto pelo sinistro barulho de
invisíveis águas distantes, essa quietude era anômala – interplanetária – e eu me perguntava que
nuvem estelar e intangível poderia estar pairando sobre a região. Lembrei-me de antigas lendas
que cães e outras bestas sempre odiavam os Seres de Longe, e pensava no que aquelas pegadas na
estrada poderiam significar.
Capítulo 8
Não me pergunte quanto tempo durou o meu inesperado lapso de sono ou quanto do que se
seguiu foi puro sonho. Se eu lhe disser que despertei a certa hora, e ouvi e vi certas coisas, você
simplesmente responderá que então eu não tinha acordado; e que tudo foi um sonho até o momento
em que saí correndo de casa, corri aos tropeços para o galpão onde estava o velho Ford, e sai
com aquele carro velho em uma corrida louca e sem destino pelas colinas assombradas que
finalmente me levaram – depois de horas de solavancos e correria pelos labirintos ameaçadores
de floresta – a uma aldeia que acabou sendo Townshend.
Você também irá, é claro, descontar todo o resto do meu relato; e declaro que todas as
imagens, sons de gravações, equipamentos de som, máquinas e evidências afins eram pedaços de
uma grande peça pregada em mim pelo desaparecido Henry Akeley. Você vai até sugerir que ele
conspirou com outros excêntricos para realizar uma farsa boba e elaborada – que mandou remover
o carregamento expresso em Keene, que fez Noyes gravar aquele aterrorizante disco de cera. É
estranho, porém, que Noyes não tenha sido identificado; que era desconhecido em qualquer uma
das aldeias próximas à casa de Akeley, embora devesse estar com frequência na região. Eu
gostaria de ter lembrado de memorizar o número da placa do carro dele – ou, quem sabe, talvez
seja melhor que eu não o tenha feito. Pois eu, apesar de tudo o que você possa dizer, e apesar de
tudo o que às vezes tento dizer a mim mesmo, sei que as influências externas repugnantes devem
estar espreitando nas colinas pouco exploradas – e que essas influências têm espiões e emissários
no mundo dos homens. Manter o mais longe possível tais influências e tais emissários é tudo o que
peço à vida no futuro.
Quando minha frenética história foi responsável por enviar uma tropa do xerife até a casa
da fazenda, Akeley desaparecera deixar vestígios. Seu roupão solto, o lenço amarelo e as ataduras
estavam no chão do escritório perto da poltrona de canto, e não se podia dizer com certeza se
outras de suas roupas desapareceram com ele. Os cães e os outros animais estavam realmente
desaparecidos, e havia alguns curiosos buracos de bala no exterior da casa e em algumas das
paredes internas; mas, fora isso, nada incomum foi detectado. Não havia cilindros nem máquinas,
nenhuma das evidências que eu trouxera em minha valise, nenhum odor estranho ou sentido de
vibração, nenhuma pegada na estrada e nenhuma das coisas mais problemáticas que vislumbrei
nos últimos momentos.
Fiquei uma semana em Brattleboro depois da minha fuga, entrevistando todos os tipos de
pessoas que conheceram Akeley; e os resultados me convencem de que o tema não é a invenção de
algum sonho ou ilusão. A estranha compra de cachorros, munições e produtos químicos por
Akeley e o corte de seus fios telefônicos estavam registrados; enquanto todos que o conheciam –
incluindo seu filho na Califórnia – admitem que suas conversas ocasionais sobre seus estranhos
estudos tinham certa consistência. Cidadãos confiáveis acreditam que ele era louco, e não
hesitavam em considerar todas as evidências relatadas como meras fraudes concebidas por sua
astúcia insana e, talvez, com auxílio de amigos excêntricos; mas as pessoas mais simples do
campo sustentam suas declarações em todos os detalhes. Ele havia mostrado a alguns desses
homens rústicos suas fotografias e pedras negras, e tocara a hedionda gravação para eles; todos
disseram que as pegadas e a voz em zumbindo eram como aquelas descritas em lendas ancestrais.
Afirmaram também que visões e sons suspeitos eram encontrados com frequência cada vez
maior em torno da casa de Akeley depois que ele encontrou a pedra negra, e que o local agora
passou a ser evitado por todos, exceto pelo carteiro, por visitantes ocasionais, ou incrédulos. A
Montanha Negra e Round Hill eram ambos lugares notoriamente assombrados, e eu não encontrei
ninguém que os tivesse explorado. Eram bem comprovados os desaparecimentos ocasionais de
pessoas da região ao longo da história, e estes agora incluíam o semi-vagabundo Walter Brown,
que as cartas de Akeley mencionaram. Cheguei mesmo a conversar com um fazendeiro que pensou
ter visto pessoalmente um daqueles estranhos corpos na enchente do rio West, mas sua história era
confusa demais para ser realmente valiosa.
Quando saí de Brattleboro, resolvi nunca mais voltar a Vermont, e tenho certeza de que
manterei minha decisão. Essas colinas selvagens são certamente o posto avançado de uma
espantosa raça cósmica – e duvido pouco de que um novo planeta para além de Netuno foi
descoberto, assim como aquelas influências disseram que seria. Os astrônomos, com uma
medonha propriedade mais do que poderiam suspeitar, chamaram essa coisa de “Plutão”. Eu sinto,
para além de qualquer dúvida, de que não seja nada menos do que Yuggoth – e eu tremo ao
imaginar a verdadeira razão pela qual seus monstruosos habitantes desejam que seja conhecido
dessa maneira, e neste particular momento. Eu, em vão, tento me assegurar de que essas
demoníacas criaturas não estejam gradualmente conduzindo uma nova política prejudicial à Terra
e a seus habitantes.
Mas ainda tenho que contar sobre o final daquela terrível noite na fazenda. Como eu disse,
eu finalmente caí em um cochilo atribulado; um cúmulo cheio de sonhos que envolviam vislumbres
de uma paisagem monstruosa. Não consigo dizer o que me despertou, mas posso dizer com certeza
de que eu estava desperto. Minha primeira confusa impressão foi de tábuas que rangiam
furtivamente no corredor do lado de fora da minha porta, e um desajeitado e abafado movimento
no trinco. Isso, no entanto, cessou quase imediatamente; de modo que minhas impressões
realmente claras começam com as vozes ouvidas no andar de baixo. Parecia haver várias pessoas
conversando e julguei que estavam envolvidos em alguma discussão.
Quando fiquei escutando alguns segundos estava bem acordado, pois a natureza das vozes
era tal que tornava ridículo pensar em dormir. Os tons eram curiosamente variados, e ninguém que
tivesse escutado aquele maldito registro fonográfico poderia nutrir dúvidas sobre a natureza de
pelo menos duas daquelas vozes. Por mais hedionda que fosse a ideia, eu sabia que estava sob o
mesmo teto com as coisas sem nome do espaço abismal; pois aquelas duas vozes eram
inequivocamente os zumbidos blasfemos que os Seres de Longe usavam em sua comunicação com
os homens. Os dois eram individualmente diferentes – diferentes no tom, na ênfase, no ritmo –,
mas ambos eram do mesmo tipo repulsivo.
Uma terceira voz era indubitavelmente a de uma máquina de emissão mecânica conectada
a um dos cérebros dos cilindros. Havia tão pouca dúvida sobre isso quanto sobre os zumbidos;
pois a voz alta, metálica e sem vida como ouvi na noite anterior, com seus chiados e sons sem
vida e sem expressão, e sua precisão e deliberação impessoais, algo totalmente inesquecível. Por
algum tempo, não parei para questionar se a inteligência por detrás daqueles chiados fosse
idêntica à que antes falava comigo; mas pouco depois refleti que qualquer cérebro emitia sons
vocais da mesma qualidade se ligados ao mesmo produtor mecânico de fala; as únicas diferenças
possíveis eram em linguagem, ritmo, velocidade e pronúncia. Para completar o sinistro colóquio,
havia duas vozes realmente humanas – uma a fala bruta de um homem desconhecido e
evidentemente rústico, e a outra, os tons suaves de Boston de meu antigo guia Noyes.
Quando tentei captar as palavras aquele antigo assoalho interceptava, pude perceber
grande agitação, com o arranhar e arrastar de pés na sala abaixo; assim, eu não tinha qualquer
dúvida de que o local estava repleto de seres vivos – muitos mais do que os poucos cuja fala eu
conseguia identificar. A natureza exata dessa agitação é extremamente difícil de descrever, pois
existem pouquíssimas boas bases de comparação. Objetos pareciam eventualmente se movimentar
pela sala como entidades conscientes; o som de seus passos era algo como um ruído solto e
raspado – como o contato de superfícies mal encaixadas de chifre ou borracha dura. Era, para usar
uma comparação mais concreta, mas menos precisa, como se pessoas com sapatos de madeira
lascados estivessem cambaleando e fazendo barulho em um assoalho de tábuas. Da natureza e
aparência dos responsáveis pelos sons, não me importei em especular.
Em pouco tempo, percebi que seria impossível compreender qualquer discurso coerente.
Palavras isoladas – incluindo os nomes de Akeley e o meu – flutuavam de vez em quando,
especialmente quando pronunciadas pelo produtor mecânico de vozes; mas seu verdadeiro
significado era perdido pela falta de contexto contínuo. Hoje eu me recuso a formar quaisquer
deduções definitivas sobre eles, e até mesmo o efeito assustador deles sobre mim foi mais uma
sugestão do que uma revelação. Um conclave terrível e anormal, eu tinha absoluta certeza, estava
reunido abaixo de mim; mas para quais chocantes deliberações, não poderia dizer. Era curioso
como esse senso inquestionável do maligno e do blasfemo me permeava apesar das garantias de
Akeley da cordialidade dos que vinham de Longe.
Escutando com cuidado, comecei a diferenciar claramente as vozes, embora não
conseguisse entender muito do que qualquer uma delas dizia. Eu parecia pegar certas emoções
típicas por detrás de alguns dos falantes. Uma das vozes agitadas, por exemplo, mantinha uma nota
inconfundível de autoridade; enquanto a voz mecânica, apesar de seu volume artificial e sua
regularidade, parecia estar em posição de subordinação e de súplica. Os tons de Noyes exalavam
uma espécie de atmosfera conciliatória. Os outros eu não fiz qualquer tentativa de interpretar. Não
ouvi o familiar sussurro de Akeley, mas sabia que aquele som jamais poderia penetrar no piso
sólido de meu quarto.
Tentarei registrar algumas das poucas palavras desconexas e outros sons que captei,
rotulando os falantes das palavras da melhor maneira possível. Foi da máquina de fala que
consegui capturar algumas frases reconhecíveis.
* * *
(A máquina de fala)
“... trouxe-o para mim mesmo... mandei de volta as cartas e a gravação... acabe com isso...
tomado em... ver e ouvir... maldito você... força impessoal, afinal de contas... cilindro novo e
brilhante... grande Deus..."

(Primeira voz em zumbido)


“... a hora em que paramos... pequeno e humano... Akeley... cérebro... dizendo...”

(Segunda voz em zumbido)


“... Nyarlathotep... Wilmarth... registros e cartas... impostura barata...”

(Noyes)
“... (uma palavra ou nome impronunciável, possivelmente N’gah-Kthun) inofensivo... paz...
duas semanas... teatral... já havia lhe dito isso...”

(Primeira voz em zumbido)


“... nenhuma razão... plano original... efeitos... Noyes pode chegar a Round Hill... novo
cilindro... o carro de Noyes...”

(Noyes)
“... bem... todo seu... aqui embaixo... descanso... lugar...”

(Várias vozes simultâneas e indistintas)


(Muitos passos, incluindo o som peculiar de arrastado)
(Um tipo curioso de som de asas)
(O som de um automóvel chegando e partindo)

(Silêncio)

* * *
Essa é a essência daquilo que meus ouvidos me trouxeram quando fiquei rígido naquela
cama estranha no andar de cima, na casa de fazenda assombrada entre as colinas demoníacas – ali,
totalmente vestido, com um revólver apertado na minha mão direita e uma lanterna de bolso na
esquerda. Estava, como já disse, bem acordado; mas uma espécie de paralisia obscura, no entanto,
manteve-me inerte até muito depois dos últimos ecos dos sons terem desaparecido. Ouvi o tique-
taque característico do antigo relógio de Connecticut, bem abaixo, e finalmente percebi o ronco
irregular de um dorminhoco. Akeley deve ter cochilado após a estranha sessão, e eu poderia
acreditar que ele precisava fazê-lo.
Apenas o que pensar ou o que fazer era mais do que eu poderia decidir Afinal, o que eu
ouvira além das coisas que as informações anteriores poderiam ter me levado a esperar? Se eu
não soubesse que os Visitantes sem nome agora eram admitidos livremente na fazenda? Sem
dúvida, Akeley ficou surpreso com sua visita inesperada. No entanto, algo naquele discurso
fragmentário me arrepiou imensamente, levantou as dúvidas mais grotescas e horríveis e me fez
desejar ardentemente que eu acordasse e tivesse certeza de que tudo era um sonho. Acho que
minha mente subconsciente deve ter captado algo que minha consciência ainda não reconhecia.
Mas e quanto a Akeley? Ele não era meu amigo e não teria protestado se algum mal me
ameaçasse? O ronco tranquilo no andar abaixo parecia lançar o ridículo em todos os meus medos
repentinamente intensificados.
Seria possível que Akeley tivesse sido forçado e usado como isca para me atrair para as
colinas com as cartas, as fotografias e o registro fonográfico? Esses seres queriam nos engolfar
em uma destruição comum, porque sabíamos demais? Mais uma vez, pensei no caráter abrupto e
na artificialidade da mudança em toda situação que deve ter ocorrido entre as penúltimas e últimas
cartas de Akeley. Algo, meu instinto me dizia, estava terrivelmente errado. Nada era o que
parecia. Aquele café amargo que eu recusei – não havia a tentativa de alguma entidade oculta e
desconhecida em drogá-lo? Preciso falar com Akeley imediatamente e restaurar seu bom senso.
Eles o hipnotizaram com suas promessas de revelações cósmicas, mas agora ele deve ouvir a
razão. Devemos fugir disso antes que seja tarde demais. Se ele não tivesse força de vontade para
escapar para a liberdade, eu a forneceria. Ou, se eu não conseguisse convencê-lo a ir, poderia ao
menos ir embora. Com certeza ele me emprestaria seu Ford e eu o deixaria em uma garagem em
Brattleboro. No galpão, eu notara – a porta destrancada e aberta agora que o perigo era
considerado coisa do passado – e acreditava que havia uma boa chance do carro estar pronto para
uso imediato. Aquela aversão momentânea de Akeley, que senti durante e depois da conversa da
noite, tinha desaparecido. Ele estava em uma posição muito semelhante à minha, e devíamos ficar
juntos. Conhecendo sua indisposição, eu odiaria acordá-lo nesse momento, mas sabia que devia
fazê-lo. Eu não poderia ficar neste lugar até de manhã da forma como as coisas estavam.
Por fim, senti-me capaz de agir e me estiquei vigorosamente para recuperar o comando de
meus músculos. Com uma cautela mais impulsiva do que deliberada, encontrei e vesti meu chapéu,
peguei minha valise e comecei a descer as escadas com ajuda da lanterna. Em meu nervosismo,
mantive o revólver seguro na mão direita, sendo capaz de segurar a valise e a lanterna com a
esquerda. Por que tomei essas precauções realmente não sei, já que estava a caminho de acordar o
único outro ocupante da casa.
Quando eu desci os últimos degraus da escada até o corredor inferior, pude ouvir mais
claramente o dorminhoco, e notei que ele devia estar na sala à minha esquerda – a sala de estar na
qual eu não havia entrado. À minha direita estava a opressiva escuridão da sala de estudos em que
eu ouvira as vozes. Empurrando a porta destrancada da sala de estar, tracei um caminho com a
lanterna em direção à fonte do ronco e, finalmente, joguei a luz no rosto daquele que dormia. Mas,
no segundo seguinte apressadamente afastei a luz e comecei a recuar como um gato para o salão,
com minha cautela, dessa vez, brotando tanto da razão quanto do instinto. Pois o dorminhoco no
sofá não era Akeley, mas meu velho guia Noyes.
O que realmente significava aquela situação, eu não pude adivinhar; mas o bom senso me
dizia que o mais seguro era descobrir o máximo possível antes de despertar alguém. Alcançando o
salão, silenciosamente fechei e tranquei a porta da sala atrás de mim; diminuindo assim as chances
de acordar Noyes. Entrei agora com cautela no escritório escuro, onde esperava encontrar Akeley,
dormindo ou acordado, na grande poltrona de canto que evidentemente era seu local de descanso
preferido. Conforme eu avançava, a luz da minha lanterna alcançou a grande mesa central,
revelando um dos cilindros infernais com os conectados aparelhos de visão e audição, próximos à
máquina de fala, pronta para ser conectada a qualquer momento. Este, eu refleti, deve ter sido o
cérebro encapsulado que eu tinha ouvido falar durante a assustadora conferência; e por um
segundo tive um impulso perverso de ligar a máquina de fala e ver o que ela diria.
Deve, pensei, estar consciente da minha presença mesmo agora; já que os equipamentos de
visão e audição não podiam deixar de revelar os raios da minha lanterna e o leve ranger do
assoalho sob meus pés. Mas no fim não me atrevi a mexer na coisa. Vi que era o cilindro novo e
brilhante com o nome de Akeley, que eu havia notado na estante no início da noite e que meu
anfitrião havia me dito para que ignorasse. Olhando para trás naquele momento, só posso lamentar
minha timidez e desejar ter corajosamente ligado o aparelho para que falasse. Deus sabe que
mistérios e dúvidas horríveis e questões de identidade poderiam ter esclarecido! Mas então, pode
ter sido uma bênção que eu o tenha deixado intocado.
Da mesa, virei a lanterna para o canto onde pensava que Akeley estava, mas descobri,
para minha perplexidade, que a grande poltrona estava vazia de qualquer ocupante humano,
dormindo ou acordado. Do sofá ao assoalho, estava o familiar e volumoso roupão e, perto dele,
no chão, o lenço amarelo e as enormes bandagens para os pés que eu julgara tão estranhas.
Quando hesitei, tentando conjecturar onde Akeley poderia estar, e por que ele repentinamente
descartara suas tão importantes roupas de doente, observei que o estranho odor e a sensação de
vibração não estavam mais no quarto. O que os teria provocado? Curiosamente, ocorreu-me que
os notara apenas quando eu estava próximo a Akeley. Eles eram mais fortes onde ele estava
sentado, e totalmente ausentes exceto no quarto com ele ou do lado de fora das portas daquele
quarto. Fiz uma pausa, deixando a lanterna perambular pelo escritório escuro e atormentando meu
cérebro em busca de explicações sobre as mudanças que haviam ocorrido.
Deixei o local em silêncio e preferia morrer a permitir que aquela luz descansasse
novamente sobre a cadeira vazia. Porém, não saí silenciosamente; mas sim com um grito abafado
que deve ter perturbado, embora não acordado, a sentinela adormecida do outro lado do corredor.
Aquele grito, e o ronco ainda não interrompido de Noyes, são os últimos sons que ouvi naquela
casa de fazenda abarrotada de morbidade sob a crista das montanhas assombradas – esse foco de
horror transcósmico em meio às colinas verdes solitárias e riachos murmurantes de uma terra
rústica espectral.
É espantoso eu não ter arremessado longe a lanterna, a valise e o revólver na minha
corrida selvagem, mas de alguma forma eu não os perdi. Eu realmente consegui sair daquele
quarto e daquela casa sem fazer mais nenhum barulho, arrastando eu e meus pertences com
segurança para o velho Ford no galpão, e colocar aquele arcaico automóvel em movimento em
direção a algum ponto desconhecido de segurança naquela noite escura e sem luar. A viagem que
se seguiu foi um delírio de Poe ou Rimbaud ou dos desenhos de Doré, mas finalmente cheguei a
Townshend. Isso é tudo. Se minha sanidade ainda é inabalável, sou sortudo. Às vezes temo o que
os anos trarão, especialmente agora que o novo planeta Plutão foi tão curiosamente descoberto.
Como já expliquei, deixei a lanterna voltar à poltrona vazia depois de passear pela sala;
depois, percebi pela primeira vez a presença de certos objetos no sofá, tornados imperceptíveis
pelas dobras soltas do roupão vazio ao lado. Estes são os objetos, três em número, que os
investigadores não encontraram quando chegaram mais tarde. Como eu disse no início, não havia
nada de horror visual real sobre eles. O problema estava no que eles levaram alguém a deduzir.
Mesmo agora, tenho meus momentos de dúvida – momentos em que aceito pela metade o ceticismo
daqueles que atribuem toda a minha experiência ao sonho, ao nervosismo e à alucinação.
As três coisas eram peças incrivelmente engenhosas de sua espécie e estavam equipadas
com elaborados grampos metálicos para anexá-los a complementos orgânicos, das quais não ouso
formular nenhuma conjectura. Espero – de todo coração espero – que fossem os produtos de cera
de um artista magistral, apesar do que meus mais íntimos medos me dizem. Bom Deus! Aquele que
sussurrava na escuridão com seu odor e vibrações mórbidas! Feiticeiro, emissário, desafiante,
alienígena... aquele zumbido reprimido e hediondo... e o tempo todo naquele cilindro novo e
brilhante na prateleira... Pobre diabo... “Habilidade cirúrgica, biológica, química e mecânica
prodigiosa...”
Pois os objetos na poltrona, perfeitos até o último detalhe sutil de semelhança
microscópica – ou identidade – eram o rosto e as mãos de Henry Wentworth Akeley.

[1]
Nada surge do nada (N. do T.).
[2]
Também conhecida como Noite de Walpurgis, celebrada na passagem do dia 30 de abril para o 1º de maio. (N. do T.)

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