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Tutoria de Direito Penal I - Turma da Noite 2020/2021

Esquema de resolução casos práticos: Fins das


Penas
Não dispensa a leitura dos manuais recomendados

Fins das Penas

1.º Identificar o problema jurídico:


- O problema jurídico em causa prende-se com os fins das penas e com a medida
da pena cominada ao agente, no contexto da legitimação, fundamentação e
função da intervenção penal estatal.

2.º Explicar as várias posições sobre os fins das penas:


- Conselheiro Sousa e Brito e Professor Faria Costa:
• A pena surge como fundamento, retribuição e reparação da culpa ética do
agente. A culpa assume uma relação funcional com as finalidades de
prevenção (geral e especial), perspetiva que sustenta retirar fundamento da
letra do artigo 71.º, n.º 1 do CP. Por outras palavras, a culpa há de ser
retribuída na medida necessária para proteger bens jurídicos, porque o
princípio da necessidade da pena (artigo 18.º, n.º 2 da CRP) permite escolher a
pena mínima que ainda é sustentada pela culpa.

- Jurisprudência e Figueiredo Dias:


• A jurisprudência, informada pelo pensamento do Professor Figueiredo Dias
atribui à pena fins dominantemente preventivos, radicando tal entendimento na
letra do artigo 40.º, n.º 1 do CP.

• Primordialmente a finalidade visada pela pena há-de ser a de tutela necessária


dos bens  jurídico-penais no caso concreto, e esta há-de-ser a ideia chave na
medida da pena.

• A finalidade primária da pena prende-se com o restabelecimento da paz


jurídica abalada pelo crime,  que vai de encontro às ideias de prevenção geral
positiva e que dá por sua vez conteúdo ao principio da necessidade da pena
art.º 18/2.

• Afirmar que a prevenção geral positiva constitui uma finalidade primordial da


pena - leva à convicção de que existe uma medida óptima de tutela dos bens
jurídicos e das expectativas comunitárias que a pena se deve propor a
alcançar.

• Medida esta que não deve, nem pode ser excedida à luz do principio da
necessidade.

• É verdade que esta medida óptima de prevenção geral positiva não fornece ao
juiz um quantum exato da pena.

• Mas a pena concreta é limitada no seu máximo inultrapassável pela medida da


culpa (como refere o nº 2 do art.º40 CP).

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• Assim o seu limite superior: ponto ótimo de tutela dos bens jurídicos e o
inferior: exigências mínimas de defesa do ordenamento jurídico.

• A função da culpa é a de estabelecer o máximo de pena ainda compatível com


as exigências de preservação da dignidade da pessoa humana e da livre
garantia do desenvolvimento da personalidade.

• E por esta via construir uma barreira intransponível ao intervencionismo


punitivo estatal e um veto aos apetites abusivos do estado.

• Assim, a pena que responda adequadamente às exigências preventivas e não


exceda a medida da culpa e uma pena justa.

- Professora Maria Fernanda Palma:


• Numa outra linha de orientação, centrada nos fins reais das penas, que se
distancia das duas posições supra descritas, focadas nos fins ideias, a pena
surge como modo de substituição da necessidade de vingança psicológica
gerada pelo crime, necessidade racionalizada a partir do princípio da culpa
(derivado dos princípios da dignidade da pessoa humana - artigo 1.º da CRP -
e da liberdade - artigo 27.º da CRP), e da necessidade da pena (artigo 18.º, n.º
2 da CRP), incompatível assim com uma visão retributiva dos fins das penas,
porque inconstitucional.

• Nestes termos, de acordo com um modelo da culpa limitada pela prevenção, a


culpa, enquanto manifestação do direito penal do facto, como critério de
responsabilidade subjectiva e materialização do poder de motivação pela
norma em termos de liberdade e igualdade, fundamenta a pena e oferece a
moldura a considerar no caso, intervindo depois finalidades de prevenção,
geral e especial, que limitam, mas nunca agravam, a medida concreta da pena
(cf. artigos 71.º e ss. do CP).

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3.º Análise do art. 40º, CP (medida concreta da pena):
- Concepção Prof. Figueiredo Dias:
• A moldura da pena corresponde ao máximo e mínimo de carência de tutela
penal do bem jurídico;

• Dentro dessa moldura, impõe-se outro limite máximo: o da culpa;

• Entre o limite mínimo de proteção do bem jurídico e o limite máximo da culpa,


são as exigências de prevenção especial que vão ditar a pena.

- Concepção Prof. Maria Fernanda Palma:


• A moldura da pena corresponde ao máximo e mínimo de merecimento da
pena, com base na culpa do agente;

• Dentro dessa moldura, a prevenção geral e especial apenas podem ser


chamadas à coação como atenuantes face ao limite máximo.

- Concepção Cons. Sousa e Brito:


• A moldura da pena corresponde ao máximo e mínimo de merecimento da
pena, com base na culpa do agente;

• Dentro dessa moldura, a prevenção geral e especial podem tanto servir como
fatores atenuantes, como agravantes.

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