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o cinema poético de Andrei Tarkovsky

publicado em cinema por Rejane Borges


A sensibilidade do Cinema de Tarkovsky nos leva a um universo filosófico de poesia e
introspecção. Sua obra foi caracterizada pelo drama existencial. E na ânsia de descobrir
todo o mistério que circunda o Homem, sua obra culminou em uma profunda reflexão
acerca do espírito e sentido do ser humano.


O Cinema de Andrei Tarkovsky é complexo. Andrei Tarkovsky era complexo. Afirmou
que “por meio do Cinema era necessário apontar os problemas mais complexos do
mundo”. E ele, de fato, situou os problemas do mundo em seus trabalhos. Era um
existencialista, queria conhecer a fundo a consciência do Homem. Assistir a um filme de
Tarkovsky é como dialogar com a filosofia. Intimista, detalhista, racional. Entretanto,
este excesso de racionalismo é, por vezes, compensado por uma dose de fantasia, o que
deixa seus filmes ainda mais intrigantes.
Nascido em 1932, filho do poeta russo Arseni Tarkovsky, estudou música e pintura
quando jovem, evidenciando que herdara a veia artística do pai. Formou-se em
Geologia, mas abandonou a profissão por amor ao Cinema. Começou sua carreira com o
renomado “Andrey Rublev” (1966), sobre a vida do pintor russo de ícones religiosos.
Considerado por muitos críticos sua obra-prima, o filme trata sobre fé e espiritualidade.
Logo após veio Solaris (1972), uma profunda análise existencial que mistura ficção
científica e filosofia. Em 1974 lançou “O espelho”, quase um diário de memórias do
diretor, com uma narrativa amparada nas poesias do próprio pai, o que confere um ar
romântico ao enredo. É neste filme que Tarkovsky atiça todos os sentidos com uma
originalidade surpreendente para a época. Em 1979 lançou “Stalker”, também com
traços autobiográficos, e venceu o “Prêmio da Crítica do Festival de Cannes”, em 1980.
“Stalker” trata, com maestria, as relações entre os indivíduos.
A sede pelo autoconhecimento levou o cineasta a produzir uma obra que pode ser
considerada uma das mais pessoais de todo o Cinema, uma obra quase que inteiramente
autobiográfica, a qual buscava conceitos absolutos como a Verdade, o Amor, a
Liberdade, a Consciência.
Por ser inspirador foi chamado de “Dostoievski do Cinema”. E pelo mesmo motivo foi
alvo de uma extrema censura, sendo profissionalmente muito prejudicado na URSS, o
que o levou a abandonar seu país. Porém, seus trabalhos continuaram com a mesma
temática e em 1983 lançou “Nostalgia”, com o qual regressa à infância em uma
verdadeira odisséia de lembranças. Seu último filme foi "O Sacrifício", de 1986,
permeando temas como determinação e esperança, levando quatro prêmios em Cannes.
À época, o cineasta já estava combatendo um cancêr de pulmão que o levou à morte
naquele mesmo ano.
O cineasta exige de seu público certa introspecção, por serem seus temas sempre
enigmáticos e apoiados em correntes filosóficas. Certamente que não agrada a muitos
que buscam na arte apenas um entretenimento leve, como tantos outros filmes que são
assistidos e esquecidos na manhã seguinte. Mas o Cinema de Tarkovsky não pode ser
esquecido. Seus filmes são poesias em película.
Durante seus anos de trabalho com as câmeras escreveu o livro “Esculpir o Tempo”, um
conjunto de reflexões sobre o Cinema. Um verdadeiro elogio à sétima arte, no qual
compara o trabalho do diretor ao de um escultor que, "guiado pela visão interior de sua
futura obra, elimina tudo o que não faz parte dela".
O Cinema europeu sempre rendeu excelentes estórias. O Cinema de Tarkovsky rendeu
excelentes percepções. E muitos se renderam à sensibilidade com a qual ele enxergava a
complexidade do mundo.

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O iconoclasta universo de Luis Buñuel


publicado em cinema por Sílvia Marques
Este artigo pretende jogar luz sobre um dos maiores artistas da História do Cinema.


Catherine Deneuve em A bela da tarde
Depois de passar mais de dez anos estudando sobre este espanhol irreverente ( me
desculpem o pleonasmo) me sinto íntima de um artista que morreu aos 83 anos de idade
quando eu tinha apenas cinco. Irônico, devastador cruel, doce e afetivo. Sim, Buñuel era
um pouco de tudo. Homem ambíguo. Se dizia ateu graças a Deus . Era anticlerical, mas
tinha um amigo padre. E a beleza da amizade de ambos consistia no fato de nenhum
tentar mudar o outro.
Buñuel, por sua obra, mostrou que cada um tem que viver a sua vida com liberdade,
como melhor lhe convém, sem desejar mudar ninguém. Criticava a burguesia embora
tenha nascido numa família abastada. Em seu filme O anjo exterminador, de 1962,
mostrou a ideia de que o amour-fou era impossível no meio burguês, abarrotado de
máscaras sociais.
Por outro lado também não defendia os mendigos e desvalidos, retratando-os como
selvagens no filme Viridiana , de 1960. Considerava inútil a caridade cristã, como bem
mostrou em Viridiana e Nazarín (1958) Personagens bem intencionados, mas
condenados ao fracasso e à ingratidão.
A bela atriz mexicana Silvia Pinal, em Viridiana, vive uma bem intencionada noviça que é manipulada
por todos.
Buñuel destruiu qualquer ícone em seus filmes. Era contra as instituições, embora tenha
sido casado a vida inteira com a mesma mulher. Era contra qualquer tipo de instituição e
viveu exilado da Espanha, sua terra amada, quando o franquismo tomou o poder.
Buñuel ficou famoso por ser o mestre do surrealismo no cinema e produziu dois filmes
tipicamente surreais com Salvador Dalí: Um cão andaluz e A idade do ouro. Seus dois
primeiros filmes rodados respectivamente em 1928 e 1930. O primeiro fala
principalmente sobre a incomunicabilidade entre homens e mulheres, tema que ele
resgatará magistralmente em seu último filme : Esse obscuro objeto do desejo. O
segundo fala dos empecilhos que a sociedade coloca para os casais que querem viver o
amour-fou.
Cena tragicômica de Esse obscuro objeto do desejo
Embora tenha usado técnicas surrealistas em toda a sua filmografia ( às vezes de forma
mais direta e outras de maneira mais indireta) Buñuel foi muito mais do que um
surrealista, um grande cineasta ou um grande esteta. Buñuel foi um grande e espetacular
filósofo que formulou conceitos vitais na forma de imagens.
Seu estilo cinematográfico era sóbrio e elaboradíssimo. Era elaborado pela escassez de
recursos técnicos e não pelo excesso. Ele limpava as imagens ao máximo afim de captar
o mais essencial das suas ideias. Evitava a trilha sonora ao máximo pois queria evitar a
todo custo a catarse. Raros filmes contam com música e quase sempre elas aparecem de
forma incidental e bem trabalhada.
Para o cineasta espanhol Luis Buñuel não havia diferença entre sonhar e viver. Por tal razão, em seus
filmes , não demarcava com técnicas cinematográficas , os sonhos e lembranças dos personagens. (
MARQUES, 2013, disponível em:
http://revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.php/recicofi/article/view/122)
Em Viridiana, por exemplo, ele abre o filme com Aleluia de Handel e o encerra com um
rock in roll. A noviça que quer salvar o mundo começa a entender que a vida precisa ser
vivida no dia a dia, sem grandes ideais e com pequenos prazeres.
A desiludida noviça aceita "jogar cartas" com seu primo e a empregada da casa.
Buñuel acreditava no trabalho por prazer. Desprezava o nosso sistema de trabalho que
escraviza milhares de pessoas em empregos desinteressantes. Tal ideia foi bem
trabalhada no filme Tristana , de 1970. O personagem de Dom Lope , interpretado por
Fernando Rey, afirma viver mal ( com pouco dinheiro) mas não trabalha. Ele defende o
trabalho que dignifica o homem. O trabalho com sentido, com significado.
Em O fantasma da liberdade ( 1974) ele fez um filme mais abertamente surrealista onde
coloca diversas convenções em xeque e mostra o ridículo da vida cotidiana. Filme que
caminha na mesma direção é O discreto charme da burguesia, em que os amigos não
conseguem se reunir para um jantar. Nesta obra, em uma das cenas, é mostrado um
bispo que trabalha como jardineiro na casa de um família burguesa. Durante o
franquismo na Espanha, o alto clero se uniu à ditadura. Nazarín já representava o padre
descalço que ajudava a todos e apenas era maltratado. Nazarín representava o
cristianismo verdadeiro para Buñuel.

Inusitada cena de O fantasma da liberdade.


Em A bela da tarde, provavelmente o mais famoso filme de Buñuel, protagonizado pela
bela e enigmática Catherine Deneuve, ele vai fundo na instituição matrimonial e no
mundo dos desejos. Séverine dissocia amor espiritual do carnal. O filme pode ser visto
como uma trama banal sobre uma mulher casada que passa as tardes em um bordel se
prostituindo por prazer. Mas o filme vai muito além disso. Me arrisco a dizer algo
perigoso. Me arrisco a dizer que este é o mais complexo filme do cineasta pois ele pode
ser lido de três formas diferentes:
1. Uma dona de casa que se prostitui ( leitura mais óbvia)
2. Uma dona de casa que se imagina como prostituta ( leitura interessante)
3. Uma prostituta que se imagina como dona de casa ( leitura instigante, mas pouco
provável, se analisarmos a obra do cineasta em conjunto)

Séverine com seu marido em uma das fantasias da protagonista.


Buñuel falava sobre o irracional, o incompreensível, o inexplicável de uma forma
racional.
Compreender Buñuel é entrar num mundo onírico, onde nem tudo pode ser explicado ou entendido
racionalmente. É o mundo das pulsões , dos desejos submersos , do irracional e ilógico. È o mundo das
contestações também, da feroz crítica às instituições , ao automatismo promovido pelas mesmas que retira
a espontaneidade da vida e das relações humanas. Buñuel defendia o trabalho por prazer , o prazer de um
modo geral, a e a aceitação das pessoas como elas são. Defendia principalmente os gestos espontâneos
oriundos da vida onírica. ( MARQUES, 2013, disponível em:
http://revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.php/recicofi/article/view/122)
O filme de Buñuel que me fez decidir analisá-lo no mestrado foi Esse obscuro objeto do
desejo. O filme foi baseado num romance francês intitulado A mulher e o fantoche. O
cineasta escalou duas lindas atrizes ( a espanhola Angela Molina e a francesa Carole
Bouquet) para viver Conchita, uma mulher intrigante que transformará a vida de um
burguês de meia idade num verdadeiro inferno açucarado. Conchita me parece a
representação da própria Espanha casta e libertina, onde crucifixos e vibradores
convivem pacificamente.
Angela Molina, o lado mais "quente" de Conchita.
Infelizmente, cineastas como Buñuel são pouco conhecidos do grande público. Nossas
escolas deveriam oferecer educação cinematográfica como ensinam Literatura. Nossas
professoras de Literatura nos indicam Machados de Assis, Guimarães Rosa, Clarice
Lispector, entre outras preciosidades. Mas quem indica bons filmes? Quem nos ensina a
ver bons filmes?
De vez em quando um corajoso professor de História, Literatura ou Filosofia se arrisca a
exibir um filme como A onda ou Sociedade dos poetas mortos. Mas tais iniciativas são
esporádicas. Deveríamos aprender a gostar de filmes capazes de transformar nossos
pensamentos. Nada contra cinema entretenimento. Às vezes é gostoso se sentar diante
da TV com um grande pacote de pipoca sem pensar em nada importante. Porém, o
cinema vai muito além da diversão. A pena é que poucos sabem disso e muitos desejam
que a maioria continue sem saber.
Para quem pensa que todo filme inteligente é chato, pode ter uma surpresa. Para quem
deseja mergulhar no universo de Buñuel, eu indico que comece com Esse obscuro
objeto do desejo. Inteligência e humor dosados na medida certa.

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Uma pergunta sobre Fellini


publicado em Cinema por Fernanda Pacheco
O poeta do cinema por treze diretores.

O livro A arte da visão nada mais é do que uma entrevista realizada com Federico
Fellini em seu estúdio no mês de abril de 1993, pouco antes de sua morte. A conversa
foi organizada por Goffredo Fofi e Gianni Volpi um mês depois de Fellini receber o
Oscar pelo conjunto da obra e, como mais uma homenagem, treze diretores renomados
se dispuseram a responder algumas perguntas referentes à influência de Fellini em suas
respectivas carreiras. Tais respostas aparecem no mesmo livro que além de tudo oferece
também a filmografia do diretor comentada por ele mesmo! Uma delícia.
Aqui selecionei apenas uma resposta de cada cineasta como aperitivo.
Woody Allen
Você acha que foi particularmente influenciado pelo cinema de Fellini? De que modo?
É difícil dizer isso. Existem cineastas - e ele é um deles - que influenciaram todo
mundo. Em cada expressão artística, existem poucos mestres. É assim também no
cinema; e são eles que, direta ou indiretamente, contribuem para o conjunto do
"vocabulário" do cinema, formando a base da qual todos partem. Fellini certamente deu
uma contribuição de grande originalidade.
Miloš Forman
O senhor acredita que os filmes de Fellini são muito datados, muito ligados a uma
geração? Graças a Deus são filmes do seu tempo, da sua geração, da sua vida, da sua
gente, da sua personalidade. É por isso que qualquer um, em qualquer parte do mundo,
pode apreciá-los. Os seus filmes são para sempre, serão para sempre atuais. Existem
filmes feitos ontem que já estão velhos, já "fora de moda", se comparando aos de
Fellini, tornados verdadeiramente imortais.
Robert Altman
De qual filme dele você se sente mais próximo? Dos filmes dele, A doce vida é o que
mais me impressionou. Provavelmente é o mais próximo do tipo de cinema que faço.
No fundo, também Short cuts - Cenas da vida faz lembrar aquela experiência; tanto é
verdade que alguns amigos que viram o filme, não ainda em sua versão final, me
disseram que lhes trazia à memória exatamente A doce vida. E é o melhor elogio que
poderiam me fazer.
Sidney Lumet
O que Fellini representa para o senhor? Para mim, Fellini é o poeta visual por
excelência, é o poeta do cinema. Tenho a honra de ter o mesmo ofício que ele. Fellini é
uma fonte de inspiração, enquanto mostra até que ponto um filme pode chegar, que
coisa extraordinária pode ser. Nós trabalhamos de maneira muito diferente; repito, ele é
um poeta, e eu sou apenas um diretor muito prosaico, muito realista. Ele é único a cada
vez que nos faz ver o que o mundo que sabe representar nos filmes é sem limites, que o
cinema é sem limites. Hoje, nos Estados Unidos, em Nova York, onde existem oito
locais que exibiam filmes europeus e só sobraram dois, tem sempre menos espaço para
os artistas. Mas os filmes italianos mudaram o jeito de se fazer um filme, a concepção
do cinema. Rossellini, Fellini, Rosi mudaram a nossa vida.
Paul Mazursky
Existe para o senhor um filme de Fellini que seja inesquecível? Os boas-vidas é um dos
filmes de Fellini de que mais gosto, junto de A estrada da vida e Noites de Cabíria. Fiz
meus filhos, quando cresceram, assistirem a este último, porque acredito que é
importante para os jovens desta geração ver esse filme. Na verdade, por motivos
diferentes, gosto de todos os filmes de Fellini. Amarcord é excepcional, jamais
esquecerei quando o pavão abre sua cauda. Acho espetacular, em E la nave va, a cena do
navio que afunda. Ginger e Fred também é um filme maravilhoso. Assim como a cena
das freiras que patinam na estrada. Como Broderick Crawford fazendo-se passar por um
vigário, falso e charlatão, em Os boas-vidas, que, todavia, não foi um sucesso. Todos os
seus filmes são extremamente sugestivos.
John Frankenheimer
Qual foi o filme de Fellini que mais o impressionou? Sendo eu um diretor, o filme que
mais me impressionou foi 8 1/2. Porque é um filme que fala de mim, das pessoas que
fazem cinema. Acredito que, para um diretor, esse é o mais belo filme já feito. Fellini
poderia ser definido como um gênio, ainda que eu não ame usar a palavra gênio, porque
é um termo um pouco inflacionado. Fellini domina de modo absoluto o material
cinematográfico. Tem um controle total de cada elemento. Nenhum outro pode fazer o
que Fellini faz, nenhuma sabe utilizar atores como ele. É um grande diretor e o seus
filmes são extraordinários, têm realmente um estilo pessoal. Não parecem aqueles
filmes produzidos em Hollywood(...)
Jim Jarmusch
Que imagem de cineasta Fellini representa para o senhor? Fellini, para mim, é o
raríssimo exemplo de diretor capaz de transferir a sua fantasia para a tela. Os seus filmes
são como confissões, não obsessivas, mas fantásticas, como as de uma criança; não são
nem um pouco centrados nele, são plenos de fantasia, de imaginação. Fellini é muito
pessoal, muito particular: é esta, para mim, a coisa mais importante. Se você vê um
filme de Fellini, sabe imediatamente que é Fellini.
Spike Lee
O que atrai o senhor nos filmes de Fellini? Acho que é o seu senso da realidade. Ele
cria o seu mundo. É extraordinário. É um dos mestres, um dos gigantes do cinema.
John Landis
Quando o senhor encontrou Fellini pela primeira vez? Eu estava em Roma para
promover um filme meu, Um lobisomem americano em Londres, e, na ocasião, foi
programado um almoço com Fellini. Um encontro excitante, porque Federico é um dos
meus ídolos. Naquela época, minha mulher estava grávida de minha filha e, durante
todo o almoço, Fellini segurou sua mão. Desde então, minha mulher o adora. Foi uma
experiência gratificante, extraordinária. Muitas vezes os artistas são arrogantes, cheios
de si e, quando os encontramos, ficamos receosos porque têm uma postura de grandes
artistas. Mas, acredite, embora seja um grande artista, ele conseguiu se manter autêntico.
Oliver Stone
Quais são as razões do sucesso de Fellini? Um diretor se afirma internacionalmente
porque sabe tocar o fundo do espírito humano. Fellini é o maior diretor italiano.
Comparado com Antonioni, que tinha uma estética que diria nórdica, Fellini é mais
mediterrâneo. Nem eu nem o cinema internacional seríamos o que somos se não fosse
Federico Fellini; ele criou um novo vocabulário cinematográfico(...)
Adrian Lyne
Que lembrança o senhor tem dos filmes de Fellini? Vi quase todos. Mas recordo de um
particular, ainda que não seja um exemplo muito apropriado. Na noite em que fui ver
Julieta dos espíritos, estava terrivelmente cansado. Nos primeiros 25 minutos, pensei
que aquele filme era o mais bonito que eu já tinha visto, um filme extraordinário. Em
seguida, caí no sono; em todo caso, os primeiros 25 minutos são extraordinários. O
filme de Fellini que eu prefiro é Amarcord. Recordo, em particular, da cena do rapaz
que, em sala de aula, mija num longo tubo feito de folhas de papel enroladas, e, para
onde quer que se olhe, se veem pernas de rapazes. É uma das cenas mais divertidas que
já vi.
Constantin Costa-Gavras
A partir da sua visão de diretor, quais são as características que fizeram com que
Fellini ultrapassasse as fronteiras nacionais e europeias? Acho que é o fato de Fellini
utilizar elementos muito pessoais. É um homem, um artista que, sobre esse alicerce,
instaura uma relação direta com o seu público: ele diz quem é, o que pensa, como vê a
coisa, conta como os seres humanos podem ser divertidos e extraordinários, aspectos
que interesam a todos. Não existe um clichê nos filmes de Fellini, não há nada já visto.
São filmes únicos.
Louis Malle
Como o senhor conheceu Fellini? Fellini era o rei da Cinecittà. Em qualquer momento,
se você fosse a Roma, ouviria dizer que Fellini estava rodando um filme e seria possível
encontrá-lo. Fellini é sempre muito gentil, gosta de ser o guia das pessoas. Eu era mais
jovem que ele e achava sua generosidade, sua cordialidade fascinantes, parecia que o
tempo não importava. Tinha sempre gente em volta a adorá-lo. Fellini era como todo
jovem diretor gostaria de ser, mas sabíamos que existia apenas um Fellini e não seria
possível existir outro. É um artista absolutamente original, com um lugar reservado na
história do cinema: um dos poucos diretores realmente grandes.
Depois dessa overdose, que tal a trilha sonora do lindíssimo Amarcord feita pelo
também incrível Nino Rota? Vá, aproveite!

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2lexqo5
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